Posts tagged ‘Dom Fellay’

12 novembro, 2012

Em que posição nos encontramos junto a Roma?

No dia 1º de novembro de 2012, festa de Todos os Santos, Dom Bernard Fellay celebrou uma Missa no seminário de Ecône. Durante o seu sermão, após recordar o sentido espiritual desta festa, ele explicou o status das relações da Fraternidade São Pio X com Roma. – O título e subtítulos foram dados pelos editores de DICI.

Por DICI | Tradução: Fratres in Unum.com

… Por que é que existe uma Fraternidade São Pio X? Por que é que nos tornamos sacerdotes? Não é apenas pelo prazer de celebrar a Missa antiga. É para irmos para o Céu; é para salvarmos almas! Certamente, ao mesmo tempo em que preservamos os tesouros da Igreja, mas com o objetivo de salvar almas, de santificá-las arrebatando-as do pecado, conduzindo-as ao Céu, levando-as para Nosso Senhor.

Em que posição nos encontramos junto a Roma? Deixem-me explicar dois pontos. Primeiramente, um olhar no que aconteceu. Em seguida, um olhar no presente e talvez no futuro.

Primeiramente: no que aconteceu. Uma provação, talvez a maior que jamais tivemos, deveu-se a um conjunto de diversos fatores que ocorreram ao mesmo tempo e criaram um estado de confusão, de dúvida bastante profunda que deixa lesões — e das feridas mais graves, sem dúvida, aquela que nos causa uma dor enorme: a perda de um de nossos bispos. Isso não é pouca coisa! Isso não se deve somente à crise atual. Esta é uma longa história, mas ela encontra a sua conclusão aqui.

Duas mensagens contrárias de Roma

Bem, o que aconteceu? Acho que o primeiro fator é um problema que tem ocorrido há vários anos e que tenho mencionado, pelo menos, desde 2009. Eu disse que nos encontramos confrontando a contradição em Roma. E essa contradição em nossas relações com a Santa Sé tem se manifestado há cerca de um ano, desde setembro, quando recebi através de canais oficiais alguns documentos que expressavam claramente a disposição por parte de Roma de reconhecer a Fraternidade, mas era necessário assinar um documento que não podíamos assinar. E ao mesmo tempo havia uma outra linha de informações que recebi, e era impossível que eu duvidasse de sua autenticidade. Essa linha de informações realmente dizia algo diferente.

Isso começou em meados de agosto, ao passo que eu não recebi o documento oficial até 14 de setembro de 2011. Desde meados de agosto, uma pessoa no Vaticano vem me dizendo: “O Papa irá reconhecer a Fraternidade e será como foi com as excomunhões, em outras palavras, sem nada [exigido] em troca.” Assim, foi nesse sentido que me preparei para a reunião do dia 14 de setembro ao preparar argumentos, dizendo: “Mas o senhor refletiu cuidadosamente no que o senhor está fazendo? O que o senhor está tentando fazer? Isso não irá funcionar.” E, de fato, o documento que nos foi apresentado era completamente diferente daquele que nos foi anunciado.

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29 outubro, 2012

Impressões sobre as palavras de Dom Fellay na conferência da ‘Angelus Press’.

Por Paulo Frade | Fratres in Unum.com

Tive a graça de participar da conferência da Angelus Press, realizada entre os dias 19-21 de outubro, em Kansas City.  O tema da conferência deste ano foi “O Papado” e teve como palestrante principal Dom Bernard Fellay. A conferência contou com a presença de dezenas de sacerdotes, religiosos, seminaristas e leigos.  Tive a oportunidade de conversar e conhecer vários padres diocesanos, sendo um deles o Padre Michael Rodriguez, da diocese de El Paso, que foi injustamente perseguido por seu bispo devido à sua firme defesa da Fé e Moral católicas.  Além dele, conheci outros 3 padres diocesanos, dois de Nova York e um da Califórnia.

Conferência sobre o Papado promovida pela Angelus Press.

Conferência sobre o Papado promovida pela Angelus Press.

Apesar de eu não ser um fiel da FSSPX, sempre tive um verdadeiro apreço por seu trabalho, já que, exceto por uma intervenção divina diversa, se não fosse pela FSSPX, muito provavelmente ainda estaríamos na era do indulto. Devido às especulações de jornais, blogs e sites, cheguei à conclusão de que seria essencial ir à fonte para tentar descobrir qual a intenção da FSSPX quanto às conversações com Roma, quais são os verdadeiros fatos e qual a situação atual em que eles se encontram.

Quanto à intenção, ficou claro para mim, tanto nas palestras da conferência quanto nas conversas que tive com padres e seminaristas, que eles reconhecem que, por alguma razão, o Papa tem este desejo de reabrir a Igreja para liturgia tradicional e que a razão mais provável disso seja o reconhecimento do Papa de que o remédio para a crise atual seja o Rito Tradicional.  A FSSPX, reconhecendo que o Espírito Santo é a causa última de todas as coisas, procurou nessas conversações, dentro de seus limites e possibilidades, despertar esse lado do Santo Padre que ao menos aparentemente está voltado a Tradição.

Quanto às conversações com Roma, ao contrário do que muitos pensam e afirmam, as discussões doutrinais ocorreram por escrito e não de forma oral. Apenas depois que as discussões relacionadas a um ou alguns assuntos estavam esgotadas é que havia uma reunião.  Eu vi com meus próprios olhos ao menos três das correspondêcias recebidas por Dom Fellay. Os que negam que as discussões foram feitas de forma escrita estão no mínimo mal informados.

A primeira correspondência recebida por Dom Fellay, fazia entre outras, as seguintes afirmações:

Regras de hermenêutica que explicitam a interpretação da continuidade do Concílio Vaticano II com a Tradição e o ensinamento do Magistério precedente:

    1. Não há ensinamento doutrinal algum do Vaticano II que não seja totalmente compatível com a Fé Católica;
    2. A maneira correta de entender o Concílio é interpretá-lo em harmonia com a verdade de todos os outros ensinamentos do Magistério da Igreja em matéria de Fé e Moral.

Dom Fellay afirmou que o segundo ponto era razoável, só que o primeiro ponto não. Assim, ele respondeu afirmando que não concordava com o primeiro ponto. Afirmou também que era necessário começar de um ponto comum e este ponto comum seria a Tradição.  O Vaticano concordou com a sugestão de Dom Fellay e seguiu em frente. As trocas de correspondência continuaram e as questões relacionadas à Missa Nova, liberdade religiosa, ecumenismo, definição da Igreja e colegialidade foram todas discutidas. O último ponto tratado, segundo Dom Fellay, foi relacionado ao papel das autoridades atuais em relação à Tradição.

Segundo Sua Excelência, quando esse problema for resolvido, todos os demais também serão. No fim das discussões, as autoridades representando o Vaticano afirmaram que os respresentantes da FSSPX eram protestantes por colocarem a razão acima do Magistério. Como resposta, as autoridades da FSSPX afirmaram que os representantes do Vaticano eram modernistas por argumentarem como se a verdade pudesse evoluir.  Assim chegou ao fim a fase de discussões com Roma, o que prova que a FSSPX não estava apenas buscando um solução prática a qualquer custo.

Depois de dois anos de tratativas, Dom Fellay foi convidado para fazer uma avaliação das discussões com o Cardeal Levada.  A reunião foi marcada para o dia 14 de Setembro de 2011. Antes mesmo de ir a esta reunião, em meados de agosto, Dom Fellay recebeu mensagens de vários membros da Ecclesia Dei, incluindo um Cardeal, dizendo que o Papa reconheceria a FSSPX da mesma forma que ele fez com o levantamento das excomunhões, ou seja, de maneira unilateral. O purpurado reconheceu que havia divergências entre o Vaticano e a Fraternidade, mas afirmou que quem queria a reconciliação era o Papa e que esse desejo fazia parte do coração do seu pontificado.

No dia marcado, Dom Fellay foi ao Vaticano e recebeu um documento que ele nos mostrou durante sua palestra, com uma página que tratava de questões doutrinais e a outra de questões canônicas. Na primeira página havia uma nota preliminar que acompanhava a outra página, intitulada de “Preâmbulo Doutrinal”, que continha quatro pontos. Enquanto que na nota preliminar se encontrava a liberdade de discutir sobre o Concílio, no texto oficial do preâmbulo a liberdade não existia. Fora isso, no terceiro ponto do preâmbulo, a FSSPX teria que interpretar o Concílio de acordo com o catecismo pós-conciliar. Depois de estudar o texto com cuidado, a FSSPX respondeu no dia 30 de novembro de forma negativa, afirmando que o que eles estariam dispostos a fazer seria a profissão de Fé do Concílio de Trento. Se necessário eles estariam também dispostos a fazer a profissão de Fé em conjunto com a Constituição Dogmática Pastor Aeternus e o artigo 25 da Lumen Gentium, com a indicação de que todo o texto do Vaticano II deveria ser entendido segundo o juramento anti-modernista, e que isso faria com que fosse necessário a reformulação de alguns textos conciliares.

Dom Fellay finalizou a resposta citando a famosa declaração de Dom Lefebvre: “Nós aderimos, com todo o nosso coração, com toda a nossa alma à Roma Católica, guardiã da Fé Católica e das tradições necessárias à manutenção desta mesma Fé, à Roma eterna, mestra da sabedoria e da verdade. Nós recusamos, por sua vez, e sempre recusaremos, seguir a Roma de tendência neo-modernista e neo-protestante que se manifestou claramente no Concílio Vaticano II e, depois do Concílio, em todas as reformas dele provenientes”. E continuou dizendo que a FSSPX energeticamente recusa seguir tendências neo-modernistas e neo-protestantes que claramente se manifestaram durante e continuam se manifestando após o Concílio Vaticano II. Disse, também, que todas essas reformas têm contribuído para a demolição da Igreja, dos sacramentos, da vida sacerdotal, da vida religiosa, dos ensino católico, dos seminários, etc.  Após receberem a resposta, as autoridades do Vaticano telefonaram a Sua Excelência alguns dias depois, perguntado se ele não poderia ser mais preciso.  Mais preciso?! Então, ele responde novamente no dia 12 de Janeiro de 2012.  Nesta segunda carta, ele afirma que a primeira resposta permanece sendo a resposta da FSSPX, isto é, um “não”, e Dom Fellay seguiu mais uma vez explicando a razão da resposta negativa. Por fim, no dia 16 de Março de 2012, ele recebeu uma carta assinada pelo Cardeal Levada afirmando que “a recusa do preâmbulo doutrinal explicitamente aprovado pelo Santo Padre é, de fato, uma recusa de fidelidade ao Sumo Pontifíce e ao Magistério atual”. O então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé continuou dizendo que “isso teria uma consequência, que é a ruptura da comunhão com o Papa” e que os resultados canônicos relacionados a tal ruptura seriam o cisma e excomunhão. Esta carta, que na verdade era um ultimato, deu a Dom Fellay 30 dias para reconsiderar o “não” dado ao preâmbulo.

Em 13 de junho, o superior da Fraternidade recebeu outra carta. Ao lê-la, afirmou a si mesmo que finalmente as coisas estavam mais claras, claras o suficiente para dizer que “we’re not going to go there!”. Esta última carta foi uma correção a uma manifestação que Dom Fellay enviou à Congregação para a Doutrina da Fé, por indicação do Santo Padre, dando as condições da Fraternidade para uma reconciliação.  Por um tempo, Dom Fellay acreditou que a condições haviam sido aceitas mas depois de receber a carta com as correcoes da CDF ele teve a reacao acima. Talvez seja a resposta a estas correções que o Vaticano esteja esperando até agora. Se este for o caso, está certo que da forma como está a Fraternidade já a rejeitou.

A conferência de Dom Fellay durou cerca de 3 horas e não dá para tratar de tudo aqui. Mas não posso deixar de fora os comentários que Sua Excelência fez em relação às constantes contradições que encontrou durante todo esse período, que de certo modo acaba provando que o Papa está rodeado de lobos.  Em 2009, por exemplo, antes das ordenações de diáconos da FSSPX, o Cardeal Castrillon Hoyos telefonou para Dom Fellay e afirmou que ele teria que parar com essas ordenações feitas sem permissão e que, se fosse pedida a permissão ao Papa, ele garantia que quase imediatamente o Papa autorizaria as ordenações.  O Cardeal Hoyos continuou afirmando que no período de duas semanas a FSSPX seria regularizada. Dom Fellay perguntou como isso seria possível, se o Secretário do Estado havia enviado uma carta a ele afirmando que a FSSPX teria que aceitar o Vaticano II para se regularizar.  Dom Hoyos respondeu que o texto era apenas administrativo e político e que essa também era a posição do Papa. Com isso, em quem deveria Dom Fellay acreditar? Em um documento oficial do Secretário do Estado ou no telefonema do Cardeal?

Em setembro de 2010, um padre se uniu à FSSPX. Dom Fellay, então, recebeu uma carta da Congregação dos Religiosos, dizendo que o padre que se juntou a eles havia sido excomungado e que havia perdido a fé por agora fazer parte do cisma do Arcebispo Lefebvre. Como pode Roma levantar as excomunhões dos bispos da FSSPX e depois excomungar um sacerdote que resolveu se juntar a eles (união informal, diga-se de passagem, pois a FSSPX não aceita religiosos, mantendo apenas relações de proximidade com as ditas “comunidades amigas”)? Quando Dom Fellay se reuniu com Monsenhor Guido Pozzo para indagar sobre esta carta, o secretário da Ecclesia Dei disse a ele para simplesmente rasgá-la, que ela não tinha valor algum.  Essas contradições desgastantes parecem ter dificultado muito as conversações.

24 outubro, 2012

Comunicado da Casa Geral da FSSPX: Dom Richard Williamson expulso.

Por DICI | Tradução: Fratres in Unum.com

Dom Richard Williamson

Dom Richard Williamson

Dom Richard Williamson, tendo se distanciado da direção e do governo da FSSPX há vários anos, e negando-se a manifestar o respeito e a obediência devidos aos seus superiores legítimos, foi declarado expulso da FSSPX por decisão do Superior Geral e do Conselho, em 4 de outubro de 2012. Um último prazo lhe havia sido concedido para se conformar ao disposto, ao termo do qual anunciou a difusão de uma “carta aberta” pedindo ao Superior Geral que renunciasse.

Esta dolorosa decisão se fez necessária em atenção ao bem comum da Fraternidade São Pio X e de seu governo, em conformidade com o que Dom Lefebvre denunciava: “É a destruição da autoridade. Como se pode exercer a autoridade se é necessário que ela peça a todos os membros que participem do exercício da autoridade?” (Ecône, 29 de junio de 1987).

Dado em Menzingen, 24 de outubro de 2012.

16 julho, 2012

Entrevista com Dom Bernard Fellay após a conclusão do Capítulo Geral da Fraternidade São Pio X.

A mudez doutrinal não é a resposta à “apostasia silenciosa”.

Por DICI | Tradução: Fratres in Unum.com

DICI: Como se desenvolveu o Capítulo Geral? Qual foi a atmosfera?

Dom Fellay: Uma atmosfera bastante calorosa, já que o mês de julho é particularmente tórrido no Valais! Mas, ao mesmo tempo, uma atmosfera de muita aplicação, sobre os fundamentos, já que os membros do Capítulo puderam trocar opiniões livremente, como convém a uma reunião de trabalho desse tipo.

DICI: Tratou-se das relações com Roma? Houve questões que não puderam ser levantadas? Pode-se apaziguar as dissensões que se manifestaram nestes últimos tempos no seio da FSSPX?

Dom Fellay: São muitas perguntas de uma só vez! Com relação a Roma, fomos realmente às raízes das coisas e todos os capitulantes puderam ter acesso a todos os documentos. Nada foi ocultado, não há tabus entre nós. Era meu dever expor exatamente o conjunto dos documentos trocados com o Vaticano, o que havia se transformado em algo difícil por conta do clima deletério dos últimos meses. Essa exposição permitiu uma discussão franca, que esclareceu as dúvidas e dissipou as incompreensões. Isso favoreceu a paz e a unidade dos corações, e é muito reconfortante.

DICI: Como o senhor vê as relações com Roma depois deste Capítulo?

Dom Fellay: Entre nós, todas as ambiguidades foram dissipadas. Em breve, faremos chegar a Roma a posição do Capítulo, que nos deu a oportunidade de precisar nosso itinerário, insistindo sobre a conservação de nossa identidade, que é o único meio eficaz para ajudar a Igreja a restaurar a Cristandade. Porque, como manifestei recentemente, “se queremos frutificar o tesouro da Tradição para o bem das almas, devemos falar e atuar” (cf. entrevista de 8 de junho de 2012, DICI nº 256). Não podemos ficar em silêncio diante da perda generalizada da fé, nem diante da queda vertiginosa das vocações e da prática religiosa. Não podemos nos calar diante da “apostasia silenciosa” e suas causas. Porque a mudez doutrinal não é a resposta a esta “apostasia silenciosa”, da qual João Paulo II já falava em 2003.

Neste sentido, entendemos que nos inspiramos não só na firmeza doutrinal de Dom Lefebvre, mas também em sua caridade pastoral. A Igreja sempre considerou que o melhor testemunho em favor da verdade provinha da união dos primeiros cristãos na oração e na caridade. Não eram senão “um coração e uma alma”, como dizem os Atos dos Apóstolos (cap. 4,32). O boletim interno da Fraternidade São Pio X carrega o título de Cor unum, é um ideal comum, um lema para todos. Portanto, nos separamos claramente de todos os que quiseram aproveitar a situação para semear a discórdia, opondo um membro da Fraternidade a outro. Esse espírito não é de Deus.

DICI: Que considerações merece a nomeação de Dom Ludwig Müller para a Congregação para a Doutrina da Fé?

O antigo bispo de Ratisbona, onde se encontra nosso seminário de Zeitzkofen, não nos admira, e isso não é segredo para ninguém. Depois do corajoso ato de Bento XVI em nosso favor, em 2009, ele parecia ter pouco interesse em atuar no mesmo sentido e nos tratava como leprosos! Foi ele quem então declarou que nosso seminário deveria ser fechado e que nossos seminaristas deveriam reingressar nos seminários de suas regiões de origem, afirmando, sem rodeios, que “os quatro bispos da Fraternidade São Pio X devem renunciar”! (Cf. entrevista a Zeit online, 8 de maio de 2009).

No entanto, mais importante e mais inquietante para nós é papel que ele deverá assumir à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, que deve defender a fé, cuja missão própria consiste em combater os erros doutrinais e as heresias. Porque muitos textos de Dom Müller sobre a verdade transubstanciação do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Cristo, sobre o dogma da virgindade de Maria, sobre a necessidade dos não-católicos se converterem à Igreja Católica… são mais do que discutíveis! Não cabe dúvidas de que em outra época teriam sido objeto de uma intervenção da parte do Santo Ofício, do qual surgiu a Congregação para a Doutrina da Fé que ele encabeça atualmente.

DICI: Como se apresenta o futuro da Fraternidade São Pio X? No combate pela Tradição da Igreja, a Fraternidade continuará andando no fio da navalha?

Dom Fellay: Mais do que nunca, devemos conservar efetivamente essa linha fixada por nosso venerável fundador. É um norte difícil de manter, mas é absolutamente vital para a Igreja e para o tesouro de sua Tradição. Somos católicos, reconhecemos o Papa e os bispos, mas devemos sobretudo conservar a fé inalterada, fonte da graça de Deus. Consequentemente, devemos evitar tudo o que a coloque em perigo, sem que por isso passemos a ocular o lugar da Igreja Católica, Apostólica, Romana. Longe de nós a idéia de constituir uma Igreja paralela, exercendo um magistério paralelo!

Dom Lefebvre explicou isso muito bem já há mais de trinta anos: a única coisa que quis fazer foi transmitir o que havia recebido da Igreja bimilenar. Isso é tudo o que nós queremos seguindo a ele, porque só assim poderemos ajudar eficazmente a “restaurar todas as coisas em Cristo”. Não somos nós que romperemos com Roma, a Roma eterna, mestra da sabedoria e da verdade. Contudo, seria irreal negar a influência modernista e liberal que se difunde na Igreja desde o Concílio Vaticano II e as reformas que o seguiram. Numa palavra, guardamos a fé no primado do Pontífice Romano e na Igreja fundada sobre Pedro, mas recusamos tudo o que contribuir para a “auto-demolição da Igreja”, reconhecida pelo próprio Paulo VI em 1968. Queira Nossa Senhora, Mãe da Igreja, apressar o dia de sua autêntica restauração!

(DICI n°258)

15 julho, 2012

O Papa, o Concílio, a resposta de Fellay.

Por Andrea Tornielli | Tradução: Fratres in Unum.com

Bento XVI celebra missa, na manhã deste domingo, em Frascati.

Bento XVI celebra missa, na manhã deste domingo, em Frascati.

“Os documentos do Concílio contêm uma enorme riqueza para a formação de novas gerações cristãs, para a formação da nossa consciência. Então, releiam-nos… Redescobri a beleza de ser Igreja, de viver o grande ‘nós’ que Jesus formou em volta de si, para evangelizar o mundo: o ‘nós’ da Igreja, que nunca é fechado ou encerrado sobre si, mas sempre aberto e direcionado para o anúncio do Evangelho”

É uma passagem da homilia que Bento XVI, nesta manhã, pronunciou em Frascati, durante a missa que celebrou em sua breve visita à diocese cujo bispo é um ex-colaborador da Congregação para a Doutrina da Fé, Dom Raffaello Martinelli, e da qual é titular, como Cardeal da ordem dos bispos, o Secretário de Estado Tarcisio Bertone.

O Papa volta a falar do magistério conciliar, a três meses do quinquagésimo aniversário de abertura do Concílio, como uma “enorme riqueza”, atribuindo ao Vaticano II um papel importante também para as novas gerações. É significativo que isso ocorra exatamente no dia em que, em Écône, na Suíça, terminou o capítulo geral da Fraternidade São Pio X, fundada pelo Arcebispo tradicionalista Marcel Lefebvre.

De acordo com uma antecipação relatada por José Manuel Vidal, no site Religión Digital, os lefebvristas prepararam um documento-declaração no qual diriam definitivamente “não” à proposta de um retorno à plena comunhão com Roma, enquanto agradecendo ao Papa por quanto realizou nesta perspectiva e pela oportunidade que deu à Fraternidade de apresentar os seus pontos de vista.

Os lefebvrianos teriam concluído que não podiam aceitar o magistério do Vaticano II, tal como solicitado no preâmbulo doutrinal entregue ao bispo Bernard Fellay pelo Cardeal William Levada, em 13 de junho, porque a assinatura no preâmbulo implicaria a aceitação dos “erros do Concílio”.

A publicação do documento da Fraternidade era esperada para esta manhã. Na realidade, a resposta será enviada primeiro para as autoridades romanas e, em seguida, no início da próxima semana, o próprio Fellay apresentará a posição tomada pelo capítulo geral em uma entrevista.

Todos os sinais públicos — declarações de Fellay e outros líderes lefebvrianos –, bem como as indiscrições até agora publicadas, dão a entender que a resposta será negativa. Embora seja possível que os lefebvrianos solicitem poder discutir novamente o texto do preâmbulo doutrinal.

12 julho, 2012

Tradileaks – Capítulo Geral da FSSPX confirma exclusão de Dom Williamson.

Fratres in Unum.com | Em um novo vazamento de informações, o blog Rorate-Caeli afirma que o Capítulo Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, reunido ao longo desta semana, confirmou a decisão tomada por Dom Bernard Fellay, Superior Geral, de excluir Dom Richard Williamson da participação neste mesmo capítulo “por suas posturas que convidam à rebelião e por sua desobediência”.

Williamson impugnou a decisão e recorreu aos próprios padres capitulantes. Eles, por sua vez, em votação secreta, confirmaram a decisão do Superior Geral. Ratificação que indica uma tendência interna na Fraternidade de sustentar o seu Superior. Nos dizeres do blog americano, “a decisão parece mostrar que o Superior Geral manteve sua autoridade dentro da FSSPX nestes meses decisivos de discussões e decisões sobre a Fraternidade e a Sante Sé”.

29 junho, 2012

Fellay: “Estamos no ponto de partida”.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com

O Superior Geral da Fraternidade São Pio X (FSSPX), Dom Bernard Fellay, com a presença de Dom Tissier de Mallerais e Dom Alfonso de Galarreta, ordenou padres e diáconos esta manhã em Ecône, Suíça. Em seu sermão, fez alguns comentários sobre a situação atual das relações Roma-FSSPX.

E quando celebramos esta Festa de São Pedro e São Paulo, não podemos senão pensar em Roma. E não podemos nos esquecer deste amor que o nosso fundador tinha por Roma, e que ele desejava e queria inculcar em seus filhos. Somos romanos! E não podemos deixar isso para trás! Mesmo se estivermos vivendo em tempos difíceis, mesmo se tivermos que sofrer da Roma de hoje em dia, isso não pode de modo algum enfraquecer esse amor eficaz e afetuoso por Roma, porque foi o Bom Deus quem escolheu esta Cidade para ser a cabeça da Igreja. Isso não significa que amaremos os erros, certamente que não, nós sofremos por eles. Porém, podemos dizer que não se pode deixar alguém ser desencorajado pelo que está acontecendo, a ponto de desistir. Não, é necessário perseverar, que é o que tentamos fazer.

Certamente, vocês me perguntam: “O que está acontecendo com Roma?” Se até agora não temos dito quase nada é porque não temos muito para dizer-lhes. Até o momento, as coisas estão em um estágio, podemos dizer, de uma parada completa. No sentido de que tem havido altos e baixos, tem havido intercâmbios, efetivamente, tratativas, propostas, mas estamos no ponto de partida. O ponto de partida em que havíamos dito que não éramos capazes de aceitar, que não éramos capazes de assinar. Estamos lá, isso é tudo. Vemos, por um lado, esta situação se agravar, já há dois, três anos que venho dizendo, em Roma, antes da contradição. Desde 2009, tenho dito isto, e repito, e, bem, isso ocorre todo dia. É o estado da Igreja, o que vocês querem? Há aqueles que tentam, que desejam prosseguir, podemos dizer, no progressismo e nas consequências do progressismo. Há outros que desejam que as correções aconteçam. E, nós, no meio, nos tornamos uma bola de pingue-pongue, que todos atiram. Sabemos que no final, no final, a Igreja se encontrará novamente, e a nós cabe esse anseio de não estarmos satisfeitos com um certo conforto, digamos assim. Com uma situação que simplesmente não é normal. Ao fim, não podemos nos acostumar, porque estamos em uma situação em que fazemos o que queremos, a considerar normal o estado em que nos encontramos. Isso não é verdade. É normal que busquemos, com respeito por todas as condições que sejam necessárias, evidentemente, recuperar este título de católicos, que é nosso, ao qual temos direito. Isso não significa que precisemos nos colocar simplesmente nas mãos dos modernistas, isso não tem nada a ver com a questão.

Todavia, esta é uma situação difícil, difícil, tudo parece elétrico, vemos claramente que o demônio corre à solta de todos os lados. E, portanto, esse é o momento para oração. Esse é um momento difícil. São ditos todos os tipos de coisas para e sobre nós. Bom Deus, a única coisa que desejamos é fazer a vontade de Deus, isso é tudo. A vontade de Deus é expressa em fatos… Também é claro que não podemos trazer o bem para toda a Igreja senão permanecendo fiéis à herança do Arcebispo. De quem procedem essas famosas, não sei, “condições”, “garantias”, que temos apresentado diversas vezes, que devem garantir que a Fraternidade continuará sendo o que ela é. Se em determinado momento uma colaboração for concebível, quando, como, bem, as circunstâncias irão mostrar. (Audio: DICI)

26 junho, 2012

“Para Fellay, o novo preâmbulo doutrinal é inaceitável”.

Publicam na rede a carta do secretário-geral da Fraternidade São Pio X, na qual indica as dificuldades para aceitar o último texto apresentado pela Santa Sé.

Por Andrea Tornielli | Tradução: Fratres in Unum.com

O caminho para a plena comunhão com os lefebvrianos poderia encontrar novos obstáculos. Assim indica uma carta circular destnada aos superiores dos distritos e dos seminários da Fraternidade São Pio X, com data de 25 de junho e classificada como “confidencial”. Um site que segue com particular atenção as negociações com os tradicionalistas acaba de publicá-la. Trata-se da comunicação interna com a assinatura de Christian Thouvenot, secretário-geral da Fraternidade São Pio X, enviada da casa geral de Menzingen aos responsávels pelas comunidades lefebvrianas.

Thouvenot escreve que “segundo diversas fontes concordantes”, a versão do preâmbulo (corrigido por Fellay) “parecia satisfazer ao Soberano Pontífice”.

Em 13 de junho, indica a nota, Levada “entregou a nosso superior-geral o texto de abril, mas com correções que, em substância, voltavam a apresentar as proposições” contidas no preâmbulo doutrinal entregue a Fellay em setembro de 2011. Desta forma, se voltaria praticamente à primeira declaração doutrinal vaticana, e as mudanças propostas pelo superior da Fraternidade teriam sido rejeitadas.

Thouvenot continua: “Fellay indicou imediatamente que não poderia assinar este novo documento, claramente inaceitável. O próximo capítulo permitirá realizar uma avaliação” sobre o andamento das relações com a Santa Sé.

Na carta se informa que Fellay revogou a faculdade de participar no capítulo do bispo Williamson, “por suas posturas que convidam à rebelião e por sua desobediência” constante. Ao fim, Thouvenot confirma a notícia que circula sobre a decisão do mesmo Fellay de postergar as ordenações de religiosos dominicanos e capuchinhos que pertencem à Fraternidade (previstas para 29 de junho), porque pretende estar seguro da “lealdade destas comunidades” antes de “impor suas mãos sobre os candidatos”. Desta forma, se confirmariam as dificuldades que era possível identificar nas linhas do comunicado da Fraternidade São Pio X, publicado depois do encontro no Vaticano, em 13 de junho.

Dificuldades às quais aludiu também Alain-Marc Nely, segundo assistente geral da Fraternidade São Pio X, durante um encontro com alguns sacerdotes do distrito da França, realizado no último dia 21 de junho. Nely confirmou que as últimas mudanças feitas na declaração doutrinal entregue por Levada a Fellay não satisfazem a Fraternidade sobre pontos essenciais, como o Concílio Vaticano II e o Novus Ordo Missae, isto é, a missa nascida depois da reforma pós-conciliar. A resposta do superior lefebvriano chegará após o capítulo geral. Fellay parece convencido da importância do reestabelecimento da plena comunhão com Roma, objetivo de Bento XVI. Nely enfatizou as palavras que concluem o comunicado da Fraternidade depois do último encontro romano sobre a esperança de que continue o diálogo para chegar a uma “solução para o bem da Igreja e das almas”.

26 junho, 2012

Di Noia, o homem para salvar as relações Roma-FSSPX? “É possível ter divergências teológicas e permanecer em comunhão com a Sé de Pedro”.

Dom Di Noia na Igreja Santíssima Trindade dos Peregrinos, em Roma.

Dom Di Noia na Igreja Santíssima Trindade dos Peregrinos, em Roma.

Dom Di Noia declarou ao Catholic News Service, em 26 de junho, que o Vaticano precisava ajudar as pessoas que têm fortes objeções ao Concílio a verem “que essas divergências não têm de nos dividir ou nos afastar da mesma mesa da Comunhão”.

“É possível ter divergências teológicas e permanecer em comunhão com a Sé de Pedro”, disse.

“Parte do que estamos dizendo é que, quando você le os documentos (do Vaticano II), não pode lê-los do ponto de vista de alguns bispos liberais que possam ter sido participantes (do concílio), você ter que lê-los em sentido literal”, afirmou Dom Di Noia à CNS. “Dado que o Espírito Santo está guiando a Igreja, os documentos não podem estar em descontinuidade com a tradição”.

[…] O Cardeal americano William J. Levada permanece como presidente da comissão e Mons. Guido Pozzo continua como secretário.

A nomeação do arcebispo [Di Noia] é significativa, pois dedica perícia e mão-de-obra às questões ainda em consideração pela Fraternidade São Pio X.

O Padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, disse aos jornalistas que a nova posição é um sinal da “importância e delicada natureza do tipo de dificuldades” com que a comissão está lidando e não deve ser vista como um indício de como as coisas estão caminhando com a Fraternidade.

O Arcebispo Di Noia declarou que sua tarefa será ajudar a resolver o impasse sobre os termos de um acordo.

“O diálogo teológico ocorreu por três anos, mas agora (o Papa) espera encontrar a linguagem ou a modalidade para uma reconciliação”, contou Dom Di Noia à CNS. “Estamos no estágio de sutilezas, para ajudá-los a encontrar uma fórmula que respeite sua própria integridade teológica”.

“Parece para todos que (uma reconciliação) está próxima, mas agora ela precisa de uma espécie de empurrão”, afirmou.

Quando Dom Di Noia era sub-secretário da congregação doutrinal, esteve envolvido com o estabelecimento pelo Papa, em 2009, de ordinariatos pessoais, estruturas especiais para antigos anglicanos que querem estar em plena comunhão com a Igreja Católica, enquanto preservam aspectos de sua herança litúrgica e espiritual anglicana.

“É possível que (o Papa Bento XVI) tenha esta experiência em vista” ao selecioná-lo para sua última função, disse o Arcebispo.

Da entrevista concedida hoje por Dom Augustine di Noia a Catholic News Service.

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Como dizíamos no mês passado, “alguns falam que o verdadeiro entrave nas negociações entre Santa Sé e Fraternidade é precisamente esta Comissão [Ecclesia Dei]. Mais especificamente o seu Secretário, Monsenhor Guido Pozzo, cuja tese de doutorado trata do assentimento devido ao Vaticano II”. Colocar imediatamente acima de Pozzo alguém que afirma ser “possível ter divergências teológicas e permanecer em comunhão com a Sé de Pedro” parece ser, de fato, uma mudança significativa a fim de evitar o fiasco das tratativas e pôr fim ao ir e vir, entre Roma e Menzingen, de versões infinitamente reformuladas do famoso “preâmbulo doutrinal”.

23 junho, 2012

Parte II da Entrevista com o Superior do Distrito Norte-Americano da FSSPX: “A Igreja é una porque os católicos acreditam na mesma doutrina, recebem os mesmos sacramentos e também são regidos pela mesma cabeça”.

Por FSSPX-EUA | Tradução: Fratres in Unum.com – Primeira parte aqui.

JAMES: Algumas pessoas tem usado a entrevista recente de Dom Fellay ao Catholic News Service para indicar ou argumentar que talvez ele esteja cedendo ou suavizando a sua posição sobre questões doutrinais que afetam a Fé.

Pe. Arnaud Rostand: Isso não faz sentido algum para mim. Como é que alguém pode usar uma citação de uma entrevista e dizer que a posição mudou. Ou seja, tomar uma conferência onde Dom Fellay explica a sua posição sobre a Liberdade Religiosa e dizer “Ok, esta posição mudou em relação ao passado”. Tudo bem. Mas pegar uma frase que tenha sido usada por um jornalista de uma entrevista de uma hora. Pegar algumas, nem mesmo um minuto, e dizer “esta é uma posição oficial de Dom Fellay.” Isso é desonetso. Não faz sentido algum.

JAMES: Padre, uma outra objeção ou argumento comum que temos visto é que talvez haja uma mudança na estratégia da Fraternidade ou na posição de que uma resolução doutrinal seria necessária antes de qualquer tipo de regularização canônica. Será que de fato houve uma mudança na posição da Fraternidade?

Pe. Rostand: Primeiramente, creio que seja importante recordar que as discussões sobre doutrina, assuntos doutrinais, ocorreram, assim, já houve uma abordagem doutrinal para as relações com Roma. Devemos lembrar também o exemplo do Dom Marcel Lefebvre. Em 1988, Dom Lefebvre assinou uma declaração doutrinal, mais conhecida como o Protocolo de 1988, no qual ele não buscou uma resolução doutrinal antes de passar para aspectos práticos. Assim, creio que seja importante…

JAMES: Claro. Mas então, será que alguém pode argumentar que na realidade, uma vez que Dom Lefebvre acabou não assinando o protocolo ou mudado de ideia após assiná-lo, as circunstâncias mudaram desde 1988? Há alguma razão para crer que Dom Lefebvre faria algo diferente hoje em dia?

Pe. Rostand: Sim, as circunstâncias mudaram. O motivo pelo qual Dom Lefebvre recusou o protocolo no dia seguinte foi porque ele pôde ver que Roma não estava preparada para lhe dar um bispo. Esse foi realmente o objetivo de Dom Lefebvre, foi o de obter a sagração de pelo menos um bispo. Ele viu que Roma não estava preparada para concordar com isso, e, assim, prosseguiu com as sagrações. Hoje em dia, a situação da Fraternidade é diferente. Crescemos, temos bispos, e isso é um ponto forte para nós. Nessas relações com Roma, esse, definitivamente, é um ponto forte. Então, sim, as circunstâncias mudaram do nosso lado, desde 1988. E há também determinados sinais de que em Roma certas coisas também mudaram.

JAMES: Padre, o senhor mencionou e falou de circunstâncias alteradas nos últimos anos. Será que o senhor poderia nos dar alguns exemplos práticos dessas circunstâncias?

Pe. Rostand: Creio que o primeiro ponto importante são as discussões doutrinais que tivemos com Roma. Isso é fundamental em nossa situação real. Fomos capazes de apresentar as nossas posições à Roma. Elas nunca foram conhecidas tão bem em Roma como hoje em dia. E, como um efeito dessas discussões com Roma, já pudemos ver uma disseminação de críticas ao Vaticano II, Monsenhor Gheardini, por exemplo, é um bom exemplo. Assim, é importante enxergar os sinais. Agora, tivemos também, obviamente, o motu proprio, há cada vez mais Missas celebradas no Rito Antigo, há também esforços em Roma para…

JAMES: Restaurar?

Pe. Rostand: Restaurar uma certa disciplina na Igreja, ao menos, com o clero, com as freiras aqui nos Estados Unidos, tudo isso está definitivamente indo numa direção diferente de como era há alguns anos. E acho que o mais importante, que é um sinal do que está por vir, seja realmente a Prelazia, a Prelazia Pessoal. Será essa uma estrutura que nos dará a possibilidade de continuarmos o nosso trabalho? Será uma estrutura que nos dará a capacidade de permanecermos do jeito que estamos? E se ela existir, bem, esse é um grande sinal de uma mudança em Roma, e um sinal de que temos a possibilidade de continuar o nosso trabalho de restauração da Tradição na Igreja.

JAMES: Padre, voltando atrás um pouquinho na questão do acordo doutrinal ou reconhecimento entre Roma e a Fraternidade. O que o senhor diria diante do argumento de que a Fé é o que existe de mais importante e, portanto, se não estivermos totalmente na mesma página, então, não poderemos prosseguir?

Pe. Rostand: Bem, a Fé é definitivamente o que importa mais. A nossa luta de 40 anos tem sido para defender a integridade da Fé Católica. Entretanto, não é verdade dizer que a unidade da Igreja se baseia somente na Fé. Se você pegar o catecismo, abra o seu livro e você verá a questão sobre a unidade da Igreja. Bem, a resposta é que a Igreja é una porque os católicos acreditam na mesma doutrina, recebem os mesmos sacramentos e também são regidos pela mesma cabeça. Há três princípios da unidade na Igreja. Assim, definitivamente, hoje em dia a luta pela Fé é a prioridade. Todavia, não podemos perder de vista o outro fator, sobre os demais princípios da unidade na Igreja. Então, é importante ter em mente o papel e a missão do Papa na Igreja. É a visibilidade da Igreja que está em jogo neste caso. A Fraternidade São Pio X, depois de Dom Lefebvre, nunca assumiu uma posição sedevacantista, em que diríamos que não há mais Papa e assim por diante. Logo, sempre que o Papa nos pede algo onde não haja motivo para não obedecer, bem, temos que obedecer. Não há escolha. Então, quando a Fé não estiver em jogo, quando não for algo que vá contra os princípios morais, bem, é um reconhecimento da visibilidade da Igreja. Hoje em dia, creio que somos instados a fazer um ato de Fé na Igreja. Temos visto por muitos anos e ainda vemos uma Igreja que está sendo atacada de todos os lados e mesmo de dentro. Temos visto tantas heresias, temos visto tantos abusos, erros, que podemos nos esquecer que Nosso Senhor Jesus Cristo ainda guia a sua Igreja através das estruturas, as estruturas visíveis que Ele fundou.

JAMES: Padre, em vista do que o senhor acabou de dizer sobre a Fé, será que não é o caso hoje em dia da Fé estar sendo ameaçada?

Pe. Rostand: Bem, a questão da Fé está sempre presente. Esse é definitivamente o problema na Igreja hoje em dia e a Fraternidade sempre se posicionou em defesa da Fé. Então, sim, essa é uma questão de Fé em um determinado ponto de vista. Todavia, a questão que está sendo discutida aqui, ou seja, o reconhecimento da Fraternidade São Pio X por Roma é, sobretudo, uma questão de prudência. Se a Fé não for comprometida e se pudermos ficar do jeito que estamos, bem, então prosseguir é uma questão de prudência. E Dom Fellay tem sido muito claro sobre essas duas questões. Não há como aceitarmos comprometer a Fé.

JAMES: Padre, para darmos um passo ainda mais distante, o que o senhor diria em relação ao argumento de que mesmo aceitar um reconhecimento por Roma seria uma concessão?

Pe. Rostand: Essa é uma pergunta interessante. Esta é uma das principais objeções para um reconhecimento da Fraternidade hoje em dia. Porque temos visto tantos erros na Igreja nas últimas décadas que será que ao sermos reconhecidos, por si só representaria uma concessão em questão de Fé? Bem, não, porque, mais uma vez, temos discutido com Roma a doutrina e Roma sabe exatamente a nossa posição. E a nossa posição sobre Liberdade Religiosa, sobre o Ecumenismo, é pública, é conhecida. E não fizemos qualquer declaração e não temos a intenção de fazer qualquer declaração que ceda sobre esta luta pela Fé. O reconhecimento da Fraternidade é uma questão diferente da luta pela Fé. Você diria que em 1970 quando Dom Lefebvre fez um pedido de reconhecimento de sua recém-nascida Fraternidade, ou quando em 1988 ele assinou o protocolo, o Arcebispo estava fazendo uma concessão em matéria de Fé pelo simples fato de ter pedido a benção da Igreja para a Fraternidade que ele estava fundando em 1970 e no processo do protocolo em 1988? Não. Não, Dom Lefebvre nunca fez concessão quanto a Fé. E a situação hoje em dia entre a Fraternidade e Roma é semelhante à situação de 1988 com o possível protocolo daquela época.

JAMES: Padre, em vista das circunstâncias recentes, alguns parecem estar pensando ou preocupados com o silêncio e sigilo ao redor dos eventos recentes, que eles deveriam efetivamente ser causa de receios. O argumento segue na linha “se algo é verdadeiro e bom, por que ele não é aberto para todo mundo?”

Pe. Rostand: Você sabe que a privacidade acerca de determinados assuntos é algo normal na vida. Ela está em todos os lugares. E todo padre sabe que você não pode partilhar muitas das informações que você recebe; e aqui não estou falando do segredo de confissão, mas de outras coisas. E um superior, um padre, mesmo em seu apostolado, tem que tomar decisões sabendo certas coisas que ele não pode partilhar; isso faz parte da vida; e isso também vale para um empresário, para um pai de família. Você não explica para os seus filhos todas as razões pelas quais você toma uma decisão. É uma parte normal da vida. Não há nada de surpreendente sobre isso. A privacidade entre Roma e a FSSPX é uma necessidade nas atuais circunstâncias da Igreja. Por quê? Porque sabemos das pressões que podem ser postas sobre Dom Fellay pela mídia e até mesmo por qualquer um. E quando você está participando de algumas discussões, bem, é preciso ser capaz de tomar decisões sem pressões. A responsabilidade de Dom Fellay não é a de seguir um grupo de pessoas ou um grupo de pressão; mas sim tomar uma decisão em consciência do que é certo e do que é errado. Isso é a sua responsabilidade. Assim, a privacidade quanto ao que está acontecendo com Roma é normal e, definitivamente, não é um sinal de querer esconder as coisas.