Posts tagged ‘Dom Gerhard Ludwig Muller’

13 julho, 2017

Cardeal Müller desmente boatos e afirma que o Papa não o tratou mal.

Roma, 12 Jul. 17 / 05:00 pm (ACI).- O Cardeal Gerhard Ludwig Müller negou energicamente os boatos da imprensa que afirmam que o Papa Francisco lhe fez cinco perguntas antes de informar que não iria renovar o seu mandato como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Citando uma fonte alemã anônima, que por sua vez afirmou ter recebido a informação de outra pessoa, o site católico de notícias “One Peter Five” e o vaticanista italiano Marco Tosatti informaram que o Papa Francisco, ao se reunir com o Cardeal Müller no dia 30 de junho, fez cinco perguntas sobre alguns temas como a introdução de um diaconato feminino até a abolição do celibato, sua posição sobre “Amoris Laetitia”, sua posição sobre a decisão do Papa de demitir três membros do dicastério e a ordenação sacerdotal de mulheres.

De acordo com essas informações, depois de escutar as respostas do Cardeal alemão, Francisco lhe informou que o seu mandato havia terminado e saiu da sala, deixando para trás um paciente Müller que esperava do Santo Padre um sinal de gratidão, até que, envergonhado, o Arcebispo George Gänswein, Prefeito da Casa Pontifícia, disse ao Cardeal que a reunião havia terminado.

Entretanto, o Cardeal Müller assinalou ao veterano vaticanista Guido Horst que nenhuma dessas afirmações é verdadeira. Guido Horst, em um artigo de opinião publicado no site CNA Deucth – agência em alemão do Grupo ACI–, descreveu pessoalmente o encontro que teve com o purpurado alemão em Roma na manhã do dia 11 de julho.

O jornalista, correspondente do jornal “Tagespost”, mostrou ao Cardeal uma cópia dessas informações: o próprio Müller, de 69 anos, não havia visto a reportagem na internet.

O Cardeal ficou “perplexo ao ler esta descrição do seu encontro com o Papa”, escreveu Horst. “Isso é mentira”, disse-lhe o Cardeal Müller. De fato, indicou o Purpurado, todo o encontro ocorreu de maneira muito diferente e as afirmações da “fonte alemã anônima” são completamente falsas.

Os comentários do Cardeal coincidem com um breve e-mail enviado ontem pelo Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Greg Burke, ao site “One Peter Five” e a Marco Tosatti. Neste e-mail, Burke afirma que “a reconstrução (do encontro) é totalmente falsa” e solicita que a matéria seja atualizada.

11 julho, 2017

Fonte: Antes de demitir o Cardeal Müller, o Papa fez cinco perguntas pontuais.

Por Maike Hickson, One Peter Five, em 10 de julho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com –  Depois que o Cardeal Gerhard Müller, ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, revelou que havia conversado ao telefone com o finado Cardeal Joachim Meisner sobre sua recente demissão e que essa conversa acontecera na véspera do súbito falecimento de Meisner, na manhã de 5 de julho, várias fontes bem informadas na Europa com quem mantenho contato usaram todas a mesma expressão, ou seja, eles especularam que talvez o Cardeal Meisner “tenha morrido de tristeza”. À luz das seguintes revelações sobre o conteúdo do encontro entre o Papa Francisco e o Cardeal Müller, em 30 de junho, podemos estar ainda mais propensos a acreditar que isso tenha acontecido – ao menos, como uma possibilidade moral.

As informações a seguir procedem do relato de uma fonte alemã confiável, que falou ao OnePeterFive sob a condição de anonimato. Ele cita uma testemunha ocular que almoçou recentemente com o Cardeal Müller em Mainz, na Alemanha. Durante a refeição, o Cardeal Müller teria divulgado na presença dessa testemunha ocular certas informações sobre seu último encontro com o Papa, durante o qual ele foi informado de que seu mandato como Prefeito da CDF não seria renovado.

De acordo com esse relato, o Cardeal Müller foi convocado pelo Palácio Apostólico em 30 de junho, e assim ele foi para lá com seus arquivos de trabalho, supondo que essa reunião seria uma reunião de trabalho habitual. Contudo, o Papa lhe disse que tinha apenas cinco perguntas a fazer:

  • Você é contra ou a favor de um diaconato feminino? “Sou contra”, respondeu o cardeal Müller.
  • Você é contra ou a favor da revogação do celibato? “É claro que sou contra”, respondeu o cardeal.
  • Você é contra ou a favor do sacerdócio feminino? “Definitivamente sou contra essa ideia”, respondeu o Cardeal Müller.
  • Você está disposto a defender a Amoris Laetitia? “Tanto quanto seja possível para mim”, respondeu o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé: “ainda existem ambiguidades”.
  • Você está disposto a retirar sua reclamação a respeito da demissão de três de seus próprios funcionários? O Cardeal Müller respondeu: “Santo Padre, estes homens eram bons e sem culpa, dos quais sinto falta agora, e não foi correto demiti-los passando por cima de mim, pouco antes do Natal, de modo que tiveram que esvaziar seus escritórios até o dia 28 de dezembro. Sinto falta deles agora”.

Então, o papa respondeu: “Bom, Cardeal Müller, eu só queria lhe informar que não prorrogarei o seu mandato [ou seja, após o dia 2 de julho] como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.”

Sem dizer adeus ou dar uma explicação, o papa saiu da sala. A princípio, o Cardeal Müller pensou que o papa saiu para buscar um sinal de gratidão e, assim, ficou esperando pacientemente. Mas, não havia tal presente, nem mesmo um gesto de gratidão pelo seu serviço. O Prefeito da Casa Pontifícia, Arcebispo Georg Gänswein, teve que lhe explicar que a reunião havia terminado, e que era hora de partir.

No momento em que escrevemos este texto, não conseguimos obter confirmação desses eventos por parte do Cardeal Müller, nem de seu secretário, a quem nos dirigimos para comentar. Igualmente, pedimos um comentário de Greg Burke no Gabinte de Imprensa do Vaticano, mas, na ocasião não recebemos resposta alguma.

Se esse relato for verídico – e, dadas às fontes, temos poucos motivos para duvidar disso – podemos imaginar por que o Cardeal Meisner teria ficado angustiado depois de tomar conhecimento dessa reunião nas horas precedentes à sua morte. Será que estas cinco perguntas com suas respostas do tipo sim ou não, se de fato foram feitas ao Cardeal Müller, constituem uma espécie de dubia reversa? Será que as respostas do Cardeal, na medida em que estavam em consonância com o pensamento católico ortodoxo, foram o motivo para que ele não fosse convidado a permanecer no cargo de Prefeito da CDF? Três das cinco perguntas (diaconato feminino, celibato sacerdotal e promoção da Amoris Laetitia) foram amplamente discutidas como parte da agenda de “reforma” do papa. (A esse respeito vale a pena mencionar que o Arcebispo Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ, aprovado como substituto de Müller como Prefeito da CDF, foi nomeado no ano passado como Presidente da Comissão para o estudo do diaconato feminino). Mas será que o sacerdócio feminino realmente deveria ser analisado em relação ao diaconato feminino, mesmo que o Papa Francisco já tenha afirmado pessoalmente o entendimento de que o Papa João Paulo II decidiu definitivamente contra essa possibilidade? E quanto à última suposta pergunta – a respeito da demissão pelo papa de três sacerdotes da CDF no ano passado? Se essa pergunta fosse feita, seria apenas uma prova de obediência inquestionável? Lembre-se de que a resposta atribuída ao papa, quando indagado pelo Cardeal Müller sobre a demissão desses três sacerdotes, foi simplesmente dizer: “Eu sou o papa, não preciso dar razões para nenhuma das minhas decisões. Decidi que eles têm que sair e eles precisam sair”.

Em uma entrevista ao jornal alemão Passauer Neue Press, Müller revelou informações adicionais que parecem corroborar a forma abrupta descrita acima do seu encontro final com o papa: Segundo o Cardeal Müller, o Papa Francisco disse que “comunicou sua decisão” de não renovar seu mandato “em um minuto” no último dia de trabalho de seu mandato de cinco anos e não apresentou qualquer razão para isso.

“Não posso aceitar esse estilo [sic]”, disse Müller. “A doutrina social da Igreja deve ser aplicada” no relacionamento com os funcionários, acrescentou.

Conforme documentado em nosso próprio relato sobre a saída do Cardeal Müller, ele sofreu uma série de indignidades durante seu mandato como Prefeito da CDF sob o presente pontificado. No entanto, Müller esforçou-se desde o anúncio de sua saída para dar a aparência pública de que sua relação com o papa não estava desgastada. “Não houve diferenças entre mim e o papa Francisco”, disse Müller a um jornal alemão local durante a mesma visita a Mainz, quando ele alegou ter revelado ao seu companheiro de jantar o contexto de seu encontro final com o papa. Não está inteiramente claro se Müller está expressando uma falta de conflito entre si e o papa como sinal de solidariedade, ou para enfatizar a inesperada decisão do Papa de não renovar seu mandato. Seja qual for o caso, ele procurou minimizar publicamente o significado de sua demissão.

Há pouco sobre a demissão de Müller de um dos gabinetes eclesiásticos mais proeminentes da Igreja Católica que não seja incomum. Enquanto o respeitado vaticanista, Marco Tosatti, observou em seu importante ensaio First Things, de 7 de julho, que a saída de Müller do cargo aos 69 anos – muito antes da idade de aposentadoria obrigatória – foi “um gesto inédito na História recente da Igreja”. Nas últimas seis décadas. Tosatti observou que: “Os prefeitos da congregação mais importante da Igreja (chamada “La Suprema”) se aposentaram por motivos de idade ou de saúde, ou foram convocados, no caso de Joseph Ratzinger, para se tornar papa.” Nenhum deles durante esse período sofreu a indignidade de simplesmente ser demitido sem cerimônias.

Um caso relatado por Tosatti a partir de suas próprias conversas com amigos do cardeal alemão dá credibilidade especial à imagem emergente que o Papa Francisco há muito tempo tratou o prefeito emérito com desprezo:

Parece que Müller experimentou a vida sob Bergoglio como uma espécie de Calvário. Isso, apesar das declarações de Müller – ele foi um bom soldado até o fim, e ainda mais.

O primeiro passo do Calvário de Müller foi um episódio desconcertante ocorrido em meados de 2013. O cardeal estava celebrando Missa para um grupo de estudantes e intelectuais alemães na igreja anexa ao palácio da congregação. Seu secretário foi até ele no altar: “O papa quer falar com o senhor.” “Você lhe disse que estou celebrando missa?”, indagou Müller. “Sim”, disse o secretário, “mas ele diz que não se importa, ele quer falar com o senhor assim mesmo”. O cardeal foi até a sacristia. O papa, muito mal-humorado, deu-lhe algumas ordens e um dossiê sobre um dos seus amigos, um cardeal. (Este é um assunto muito delicado. Tenho buscado uma explicação deste incidente de canais oficiais. Até que venha a explicação, se algum dia vier, não posso dar mais detalhes.) Obviamente, Mūller ficou surpreso.

Como Marco Tosatti, buscamos, mas nunca podemos fornecer uma explicação sobre o incidente das cinco perguntas dos canais oficiais. Só podemos dizer que nossas fontes não são dadas a especulação ociosa. Eles estão confiantes de que os eventos aconteceram conforme descrito.

Por enquanto, basta observar que, nas atuais circunstâncias, mesmo os céticos teriam dificuldade em descartar um relato desse incidente. As histórias que saem do Vaticano ficam mais incríveis a cada dia – e mesmo a pior delas parece não merecer comentários – ou, o que é mais importante, correção – aos olhos das autoridades da Igreja.

Steve Skojec contribuiu para esta história.

1 julho, 2017

Ladaria, novo Prefeito para a Doutrina da Fé.

ladaria

Por Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé, 1º de julho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – O Santo Padre, o Papa Francisco, agradeceu ao Eminentíssimo Senhor Cardeal Gerhard Ludig Müller na ocasião da conclusão de seu mandato quinquenal como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e como Presidente da Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”, da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional, e chamou a sucedê-lo nos mesmos encargos Sua Excelência Reverendíssima Dom Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ, Arcebispo titular de Tibia, até então Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé.

 

* * *

Nota do Fratres: Nenhum encargo foi confiado ao Cardeal Müller, ao menos por ora. O próprio formato da comunicação no Bollettino é insólito, tratando a transição como uma simples “mudança de turno”, diferentemente da praxe de se anunciar já o posto que o demissionário passará a ocupar.

Há alguns meses, cogitava-se que Müller, para simplesmente sair de Roma, receberia alguma diocese relevante na Alemanha. Agora, fala-se somente em assumir a Ordem do Santo Sepulcro. Teria ele o mesmo destino de Burke, isto é, o ostracismo?

Uma observação sobre o jesuíta Ladaria: ele foi nomeado, em fevereiro do ano passado, pelo próprio Papa Francisco, para encabeçar a comissão de estudo sobre o papel da mulher na Igreja e a possibilidade de um diaconato feminino…

30 junho, 2017

Adiós, amigo.

Por FratresInUnum.com – Segundo Corrispondenza Romana, o Papa Francisco teria demitido hoje o Cardeal Gerhard Ludwig Müller, até então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ao término de seu mandato de 5 anos — para chefia de dicastérios, tal mandato é apenas “pro forma”, pois são quase sempre renovados.

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Müller se destacou recentemente por criticar os “intérpretes” mais heterodoxos de Amoris Laetitia, sempre buscando apresentar uma leitura do documento à luz do magistério precedente.

O mínimo pudor que o Papa Francisco tinha em relação aos “remanescentes” mais próximos de Bento XVI parece, definitivamente, ser coisa do passado.

 

 

 

 

8 junho, 2017

Cardeal Müller: O Papa não é o messias, mas o vigário de Cristo.

VATICANO, 07 Jun. 17 / 05:30 pm (ACI).- O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Gerhard Müller, recordou aos fiéis que o Santo Padre não é o messias, mas o vigário de Cristo; portanto exortou a não cair em certo papismo.

Durante a apresentação do seu livro “Indagine sulla Speranza”, o Cardeal alemão expressou que ficou “impressionado que alguns grandes inimigos de João Paulo II e de Bento XVI, que minaram o fundamento da teologia em outros períodos, atualmente se converteram em uma forma de papismo que me causa um pouco de temor”.

“Voltamos às discussões do Concílio Vaticano I, com a ideia de que quase todas as palavras do Papa são infalíveis”, advertiu. “Mas o Papa não é o Messias, é o Vigário de Jesus Cristo, o servo de Jesus Cristo”, assinalou.

Segundo informou ACI Stampa – agência em italiano do Grupo ACI –, o Purpurado advertiu que “os meios de comunicação veem o Papa como um personagem, mas o Papa Francisco recorda sempre o dever de confirmar na fé”.

“Nos primeiros dias do seu pontificado o Papa Francisco, enquanto era aplaudido na praça disse: aplaudam Jesus, não me aplaudam. E esta é a perspectiva do papado”, afirmou.

O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé disse que “não é bom que a gente, lendo qualquer coisa sobre o Papa Francisco, chegue até o bispo ou o pároco dizendo: ‘o Papa disse…’; porque o pastor da paróquia é o pároco e o bispo na diocese, em comunhão visível com o Papa”.

“Não se deve concentrar tudo sobre o Papa, porque o bispo, o pároco são os pastores do rebanho. Não se deve cair em certo papismo. Os verdadeiros amigos do Papa não são aduladores, mas aqueles que colaboram com ele e com os bispos para sustentar a fé. É verdade que os meios de comunicação mudaram muito as coisas, mas o importante é viver concretamente a Igreja particular em união com o Papa”, assinalou.

27 março, 2017

Podem as recentes declarações do Cardeal Müller encerrar os debates a respeito da Amoris Laetitia?

Por Mathias von Gersdorff

A crítica do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé aos quatro Cardeais que se dirigiram ao Papa Francisco com perguntas sobre a Exortação Apostólica Amoris Laetitia levou muitos a perguntarem se não estaria assim terminada a discussão a respeito do documento papal sobre a família.

Foi o que escreveu, por exemplo, Guido Horst, jornalista do Tagespost, em 9 de janeiro de 2017: “Também o debate público sobre as dubia, as dúvidas dos quatro cardeais, está terminado. Nos círculos de especialistas ele poderá continuar,  porém não serve mais como elemento de motivação.”

O tempo mostrará se essa predição está correta, ou não. Contudo, dúvidas a seu respeito são pertinentes. Por duas razoes:

Primeiro: Entrementes, algumas dioceses – e até muitas conferências episcopais – estão autorizando a comunhão para divorciados recasados, em casos individuais. Isso deveria dar-se, pelo menos teoricamente, após uma verificação cuidadosa e de um caminho penitencial. Abstraindo-se de que os bispos que assim agem estão produzindo fatos que somente poderão ser justificados através de grandes distorções na interpretação da Amoris Laetitia, essas medidas estão muito aquém daquilo que o campo dos progressistas almeja.

Antes dos dois Sínodos realizados nos outonos de 2014 e 2015, estava claro que o progressismo visava a uma total demolição da moral sexual católica. O inicio dessa demolição se daria com a admissão dos divorciados recasados, porém pretendia-se muito mais: a aceitação das parcerias homossexuais, a indiferença moral face aos preservativos, a aceitação das uniões irregulares etc.

Quanto aos divorciados recasados, eles deveriam, em via de regra, ser autorizados a receber a Comunhão, e não apenas caso por caso e depois de uma verificação acurada.

Assim, não é de admirar que as primeiras vozes críticas se façam ouvir e lamentem, a partir de seu ponto de vista, o esquálido resultado dos Sínodos. Por exemplo, a do alemão Joachim Frank, presidente da Associação de Publicitários Católicos da Alemanha (GKPD).

Segundo: A moral sexual católica é um edifício, por assim dizer, moldado de uma peça única. Dele não se podem retirar pedras sem que a construção desmorone.

Uma interpretação liberal da Amoris Laetitia conduzirá assim, forçosamente, a uma situação que deixa a moral sexual católica parecer contraditória. Por exemplo, por que os divorciados recasados estão autorizados a receber a comunhão e os que vivem em uniões livres não?  Esses últimos não estão sequer em estado de adultério.

Os progressistas e a mídia que lhes é simpática vão cuidar para que as exceções (restritivas) aos divorciados recasados sejam cada vez mais ampliadas. Mais cedo ou mais tarde serão admitidos à comunhão não somente eles, mas também outras pessoas que não seguem a moral sexual ensinada pela Igreja.

Isso levará a um imenso número de comunhões sacrílegas e ao esvaziamento da moral sexual católica.

A admissão dos divorciados recasados afeta, ademais, três sacramentos: o do matrimônio, o da penitência (confissão) e o da eucaristia. A compreensão de cada um desses três sacramentos proíbe a comunhão para pessoas que vivem em estado de pecado grave (como é o adultério).

Em resumo: se com base na Amoris Laetitia tiver início um processo de dissolução da moral sexual católica, a Igreja estará ameaçada em seus fundamentos e a Fé católica correrá grave risco.

Não é de admitir que os fiéis católicos aceitem isso pura e simplesmente.

As dúbia dos Cardeais Burke, Brandmüller, Meisner e Cafarra sobre a Amoris Laetitia são no fundo uma tentativa de afastar em seu nascedouro o perigo acima descrito, percebido possivelmente apenas por poucos. Mas, cedo ou tarde, será preciso que surja uma forte reação contra este processo de desagregação da moral sexual católica, pois do contrário a existência da Igreja Católica estaria em perigo. (Tradução do original alemão por Renato Murta de Vasconcelos).

3 fevereiro, 2017

Cardeal Müller sobre a Comunhão a recasados: “O Papa, um concílio, nem a lei dos bispos podem mudar isso”.

Nota: os bispos da conferência alemã não concordam em nada com o Cardeal Müller, tendo aprovado um texto que diz exatamente o contrário do que o cardeal disse na entrevista que aqui publicamos.

Por Church Militant, 01 de fevereiro de 2017| Tradução: FratresInUnum.com: O Cardeal Gerhard Müller está afirmando que os divorciados e civilmente recasados devem comprometer-se a permanecer continentes antes de serem admitidos novamente aos sacramentos, e que nem mesmo o Papa pode remover essa condição indispensável.

Müller

Cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

A revista italiana Il Timone recentemente perguntou ao prefeito da Congregação para Doutrina da Fé (CDF) se a condição de que esses casais “se esforcarem para viver a castidade” antes de receberem a Confissão e a Sagrada Eucaristia – como exigido pelo Papa S. João Paulo II – ainda era válida. O chefe da guarda doutrinária do Vaticano respondeu: “Claro, isso não é dispensável”.

O Cardeal enfatizou que a Igreja não tem a faculdade de alterar essa regra. “Nenhum poder no céu ou na terra, nem mesmo os anjos, ou o Papa, um concílio, nem a lei dos bispos tem a faculdade de mudar isso”.

Na entrevista publicada na quarta feira (01/02/2017), Müller foi questionado a respeito das conflituosas interpretações acerca da exortação pós-sinodal Amoris Laetitia. O cardeal advertiu que o documento não pode ser interpretado isoladamente em relação ao ensinamento perene da Igreja.

Amoris Laetitia deve claramente ser interpretada à luz de toda a doutrina da igreja” ele insistiu.

Ele também deixou claro que a exortação deve ser interpretada pelo seu todo e não por passagens retiradas do contexto. “Não se pode referir apenas a pequenas passagens apresentadas na Amoris Laetitia, mas deve-se lê-la como um todo, com o propósito de tornar o Evangelho do matrimônio e da família mais atrativo às pessoas”.

Cardeal Müller expressou seu descontentamento com as opiniões discordantes propostas por vários bispos a respeito da exortação. “Eu não gosto disso, não é correto que tantos bispos interpretem a Amoris Laetitia de acordo com seu próprio entendimento dos ensinamento papais”, lamentou. ”Isso não se alinha a doutrina Católica”.

Ele alertou aqueles bispos que, segundo ele, “estão falando demais”, para que primeiro aprendam a Doutrina eles mesmos antes de tentar ensinar aos outros. “Eu insisto que eles estudem antes a Doutrina [dos concílios] sobre o papado e o episcopado”. Se os bispos não se tornarem bem informados eles mesmos, então eles “podem cair no risco de serem cegos guiando cegos”.

Perguntado se a consciência pessoal poderia em algum momento sobrepor o ensinamento da Igreja sobre fé e moral, o cardeal rejeitou terminantemente a possibilidade. “Não, isso é impossível”, ele respondeu. “Por exemplo, não se pode dizer que existem circunstâncias nas quais um ato de adultério não constitua um pecado moral. Para a Doutrina católica, é impossível que o pecado mortal e a Graça santificante coexistam”.

E adicionou que essa é a razão pela qual Deus instituiu o Sacramento da Reconciliação.

Tem-se dado muita atenção à exortação apostólica de João Paulo II Familiaris Consortio, que reafirmou que os recasados não poderiam permanecer sexualmente ativos e serem admitidos aos sacramentos. Mas o cardeal Müller afirma que muita da confusão está na rejeição da “clara Doutrina [da Igreja] sobre os males intrínsecos”, como apresentada pela Encíclica Veritatis Splendor também de João Paulo II.

A Igreja ensina que ações intrinsecamente más são sempre e em todo lugar erradas, independente dos motivos e circunstâncias nas quais são praticadas. Exemplos dessas ações são  o aborto, o adultério e o suicídio.

A Veritatis Splendor ensina que todo mal intrínseco é errado para todos, independente de qualquer julgamento que a consciência pessoal faça. “Preceitos morais negativos,  que proíbem certas ações ou comportamentos como intrinsecamente maus, não aceitam exceções legítimas”.

Em outras palavras, o Mandamento de Deus “Não se deve…” é aplicado a qualquer pessoa em qualquer tempo.

Isso também está explicado no parágrafo 1650 do Catecismo da Igreja Católica, onde se lê: “Se os divorciados estão civilmente recasados, encontram-se em uma situação objetiva de contravenção à Lei Divina. Consequentemente, eles não podem ter acesso à Sagrada Eucaristia enquanto essa condição persistir.”

Coincidentemente, as questões apresentadas ao Papa Francisco e ao dicastério do Cardeal Müller pelos quatro cardeais nos Dubia estão centradas nesses dois pontos:

  • O papel da consciência em obedecer a Lei Divina.
  • Atos intrinsecamente maus nunca não podem ser feitos de consciência limpa.

O Cardeal Müller reforça que o papel dos padres e bispos é de esclarecer e não de confundir. E insiste que todos os sacerdotes e leigos aprendam a Fé. “Todos nós temos que entender e aceitar a Doutrina de Cristo e da Sua Igreja, e ao mesmo tempo estar prontos a ajudar os outros a entendê-la e colocá-la em prática, mesmo nas situações mais difíceis”, ele explicou.

 

11 janeiro, 2017

Entrevista de Cardeal Müller na TV causa espanto.

Chefe doutrinal do Vaticano censura publicação de ‘dubia’, mas alguns críticos afirmam que ele se engana, enquanto surge a informação de que nenhuma das correções da Congregação para a Doutrina da Fé a ‘Amoris Laetitia’ foi aceita. 

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 9 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé [CDF], afirmou em uma entrevista ao vivo de televisão, no domingo, que a “correção fraterna” ao Papa Francisco acerca de sua exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor) “não é possível por ora”, porque a documento não “apresenta perigo para a fé”.

Mas o comentário do cardeal, feito ontem ao correspondente no Vaticano do canal italiano Tgcom24, Fabio Marchese, contrasta com revelações feitas por ao menos dois eminentes oficiais do Vaticano ao Register na semana passada, de que a CDF apresentou um grande número de correções a Amoris Laetitia antes de sua publicação, no último mês de abril, “e sequer uma das correções foi aceita”.

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Surpreso com a divulgação dos dubia

Cardeal Müller afirmou, no domingo, que os cardeais têm “todo direito de escrever uma carta ao Papa”, porém, acrescentou que estava “surpreso de que tenha se tornado público, quase forçando o Papa a dizer ‘sim’ ou ‘não'”.

“Não gosto disso”, disse. “Também, uma possível correção fraterna ao Papa parece-me muito distante; não é possível por ora, porque não se trata de um perigo para a fé, como afirmava Santo Tomás [de Aquino]”.

Ele declarou que sentia ser “uma perda para a Igreja discutir essas coisas publicamente”, acrescentando que Amoris Laetitia é “claríssima em sua doutrina e que podemos interpretar todo a doutrina de Jesus sobre o matrimônio, toda a doutrina da Igreja em 2000 mil anos de história”.

Papa Francisco, concluiu o cardeal, “pede para se discernir a situação dessas pessoas que vivem em uniões irregulares, que não estão de acordo com o ensinamento da Igreja sobre o matrimônio, e para ajudá-las a encontrar um caminho para uma nova integração na Igreja, segundo as condições dos sacramentos,a mensagem cristã sobre o matrimônio”. Ele declarou que não vê “nenhuma oposição: por um lado, temos o ensinamento claro sobre o matrimônio, por outro, a obrigação da Igreja em se preocupar com essas pessoas em dificuldade”.

Todavia, as declarações do cardeal encontraram espanto em Roma, com alguns argumentando que o cardeal perdeu o foco: a questão, dizem, não é se Amoris Laetitia pode ser lida em continuidade com a tradição, mas se é ambígua o bastante de modo que possa ser lida de maneira heterodoxa.

As observações do cardeal também vêm após a divulgação de que a CDF teve claro receio sobre o documento antes de sua publicação — preocupações que nunca foram objeto de consideração. Um bem informado oficial recentemente declaro ao Register que uma comissão da CDF que revisou um rascunho de Amoris Laetitia levantou dubia “similares” àquelas dos quatro cardeais. Esses dubia fizeram parte da correção de 20 páginas [a Amoris Laetitia] da CDF, primeiramente revelada por  Jean-Marie Genois em Le Figaro, de 7 de abril, na véspera da publicação do documento.

Outro experiente oficial foi além, revelando ao Register que, na semana passada, o Cardeal Müller disse-lhe pessoalmente que a CDF “apresentou muitas, muitas correções, e sequer uma das correções foi aceita”. Ele acrescentou que o que afirma o Cardeal na entrevista “é exatamente o contrário de tudo que ele me disse sobre a questão até agora” e que tinha a “impressão de alguém que não falava por si mesmo, mas repetia o que alguém dizia-lhe para dizer”.

Histórico forte

Cardeal Müller frequentemente falou de modo firme em defesa do ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e a família nos últimos três anos (ver aqui e aqui). E em um discurso em Oviedo, Espanha, no ano passado, ele enfaticamente afirmou que Amoris Laetitia não abre as portas da Sagrada Comunhão a divorciados, reafirmando o art. 84 da exortação apostólica Familiaris Consortio, de S. João Paulo II, que afirma que os divorciados recasados não podem ser admitidos à Comunhão Eucarística ao menos que estejam aptos a viver em “completa continência”.

Porém, analistas afirmam que ele parece ignorar as preocupações sobre as interpretações divergentes do documento — profundas apreensões que se alega serem compartilhadas por muitos outros além dos quatro cardeais — e suspeitam que após o Papa recentemente remover três colaboradores do cardeai sem apresentar qualquer justificativa, e com uma correção formal possivelmente iminente, ele tenha se sentido compelido, ou foi compelido, a demonstrar ao Papa um inequívoco sinal de lealdade. Outros alegam que o italiano usado pelo cardeal na entrevista é mais matizado do que a tradução inglesa, que ele sabe o que está fazendo, e está tentando defender a ortodoxia e a unidade da Igreja a seu modo.

Um número significativo de conferências episcopais por todo o mundo expressaram suas preocupações ao Papa, averiguou o Register, e, como os quatro cardeais, não receberam resposta. Mesmo antes da publicação do documento,  30 cardeais, tendo lido uma versão antecipada da exortação apostólica, escreveram ao Papa expressando suas reservas, especialmente quanto à questão da Comunhão a divorciados civilmente recasados, advertindo que o documento enfraqueceria os três sacramentos essenciais da Igreja: a Eucaristia, o matrimônio e a confissão. O Papa também nunca respondeu à carta, disse uma fonte do Vaticano ao Register. 

A Sala de Imprensa da Santa Sé declinou comentar sobre a rejeição das correções da CDF a Amoris Laetitia, afirmando, em 2 de janeiro, que ela “não comenta o processo [de redação] dos documentos papais”.

Cardeal Müller também não respondeu, questionado por Register em 9 de janeiro, se está ciente da alegada confusão decorrente das diferentes interpretações de Amoris Laetitia, ou por que ele crê ser desnecessária uma correção formal quando as correções de seu próprio dicastério não foram aceitas.

22 novembro, 2016

​Na mira: a Doutrina da Fé.

Por FratresInUnum.com

As recentes “Dubia” dos quatro cardeais ao Papa Francisco e, para informação, à Congregação para a Doutrina da Fé, ameaçam fortemente o atual establishment na Igreja. Literalmente, eles não têm para onde correr.

Francisco e Stella.

Francisco e Stella (ainda Arcebispo).

Hoje, Papa Bergoglio começa seu movimento de contra-ataque, com a discreta e exclusiva nomeação do Cardeal Beniamino Stella como membro da Congregação para a Doutrina da Fé. Sim, ninguém mais foi nomeado, somente ele.

Para um leitor desatento, essa nomeação parece pouco significativa. Mas, para quem conhece o mistério que paira sobre a sombria figura desse purpurado, é bastante clamorosa a movimentação, tão mais clamorosa quanto silenciosa.

Aliás, o Cardeal Stella nunca aparece na superfície desse pontificado, mas, como publicamos anteriormente, ele é a verdadeira “eminência parda” em exercício, aquele que dá as cartas, aquele que pontifica!

Agora, sua presença na Congregação para a Doutrina da Fé tem a finalidade de encurralar o Cardeal Müller, Prefeito, amigo pessoal de Papa Ratzinger, organizador de sua Opera Omnia, cujas posições contra o “Paradigma Kasper”, que não prevaleceu no Sínodo, mas apenas em “Amoris Laetitia”, são abundantemente conhecidas.

De fato, estamos no governo das sombras! Enquanto o Papa Francisco finge desconhecer as sérias perguntas dos cardeais, reservando aos mesmos apenas indiretas venenosas, não está parado, age! Começa agora o aparelhamento do antigo Santo Ofício! Realmente, a Doutrina da Fé está na mira!

18 julho, 2016

Joseph Ratzinger, 65 anos depois.

“E assim caiu a fúria da crítica protestante sobre o sacerdócio católico”. No aniversário da ordenação sacerdotal do futuro Bento XVI, o cardeal Müller narra a sua resistência indomável contra a ofensiva dos seguidores de Lutero

Por Sandro Magister | Tradução: FratresInUnum.comROMA, 28 de junho de 2016 – “No momento em que o idoso arcebispo impôs suas mãos sobre mim, um pequeno pássaro – talvez um pardal – voou por detrás do altar-mor da catedral e entoou um canto alegre. Para mim. foi como se uma voz do alto me dissesse: está tudo bem, você está no caminho certo”.

jpg_1351331Na autobiografia de Joseph Ratzinger, há também essa recordação de sua ordenação sacerdotal, ocorrida há 65 anos, 29 de junho de 1951, festa de São Pedro e São Paulo, na catedral de Freising, pelas mãos do cardeal Michael von Faulhaber.

Para comemorar o aniversário com o Papa Emérito, na Sala Clementina, estava também o atual Papa Francisco.

Na ocasião, foi oferecido a Ratzinger um volume que recolhe 43 de suas homilias, com um prefácio escrito pelo próprio Francisco, que já havia sido antecipado há poucos dias pelos jornais  “La Repubblica” e “L’Osservatore Romano”:

> “Toda vez que eu leio as obras de Joseph Ratzinger …”

O volume, intitulado “Ensinar e aprender o amor de Deus”, foi publicado simultaneamente em seis idiomas: em italiano pela Cantagalli, nos EUA pela Ignatius Press, na Alemanha pela Herder, na França pela Parole et Silence, na Espanha pela Biblioteca de Autores Cristianos, e na Polônia pela Universidade Católica de Lublin.

O trecho que segue é retirado da introdução ao livro, escrito pelo cardeal Gerhard L. Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e curador da obra completa de Ratzinger.

No aniversário da ordenação sacerdotal do futuro Bento XVI, o cardeal narra sua indomável resistência contra a ofensiva dos seguidores de Lutero.

Sacerdócio Católico e tentação protestante

Gerhard L. Müller

O Concílio Vaticano II tentou reabrir um novo caminho para a compreensão da verdadeira identidade do sacerdócio. Por que então chegamos agora, no pós Concílio, a uma crise de identidade que historicamente só é comparável com as consequências da Reforma Protestante do século XVI?

Eu penso na crise da doutrina do sacerdócio ocorrida durante a Reforma Protestante, uma crise de caráter dogmático, na qual o sacerdote foi reduzido a um mero representante da comunidade, mediante uma eliminação da diferença essencial entre o sacerdócio ordenado e aquele comum de todos os fiéis. E depois na crise existencial e espiritual, ocorrida na segunda metade do século XX, e que explodiu cronologicamente depois do Concílio Vaticano II -, mas certamente não por causa do Concílio – e cujas consequências hoje ainda sofremos.

Joseph Ratzinger destaca com grande perspicácia que onde é menosprezado o fundamento dogmático do sacerdócio católico, não apenas se esgota a fonte de onde se pode efetivamente beber da vida que nutre os que seguem a Cristo, mas desaparece também a motivação que introduz tanto uma compreensão razoável da renúncia ao casamento pelo reino dos céus (cfr. Mt 19, 12), como do celibato como um sinal escatológico do mundo de Deus que virá,  um sinal para ser vivido com a força do Espírito Santo, na alegria e na certeza.

Se a relação simbólica que pertence à natureza do sacramento é obscurecida, o celibato sacerdotal torna-se o resquício de um passado hostil ao corpo e começa a ser acusado e combatido como a única causa da escassez de sacerdotes. Não menos importante, desaparece, em seguida, também as evidências no ensino e na prática da Igreja, de que o sacramento da Ordem deve ser administrado somente aos homens. Um ofício concebido em termos funcionais na Igreja é exposto à suspeita de legitimar um domínio, que, ao invés, deveria ser baseado e limitado ao sentido democrático.

A crise do sacerdócio no mundo ocidental, nas últimas décadas, é também o resultado de uma desorientação da identidade cristã perante uma filosofia que transfere para o interior do mundo o sentido mais profundo e o fim último da história de cada existência humana, privando-o assim do horizonte da transcendência e da perspectiva escatológica.

Esperar tudo de Deus e fundamentar toda a sua vida a Deus, que em Cristo nos doou tudo: esta e só esta pode ser a lógica de uma escolha de vida que, no completo dom de si, põe-se a caminho no seguimento de Jesus, participando de sua missão de Salvador do mundo, a missão que Ele cumpre no sofrimento e na cruz, e que Ele inevitavelmente revelou através de sua Ressurreição dentre os mortos.

Mas, na raiz desta crise do sacerdócio, é necessário também levar em contra os fatores intra-eclesiais. Como mostrado em seus primeiros discursos, Joseph Ratzinger possui desde o início uma sensibilidade aguçada para perceber imediatamente o choque com o qual se anunciava o terremoto: e isso especialmente na abertura, por parte de muitos católicos, à exegese protestante em voga nos anos cinquenta e sessenta do século passado.

Muitas vezes, do lado católico, não se percebeu as visões preconceituosas das exegese nascidas da Reforma. E assim sobre a Igreja Católica (e ortodoxa), caiu a fúria das críticas ao sacerdócio ministerial, na presunção de que ele não tem um fundamento bíblico.

O sacerdócio sacramental, tudo que se refere ao Sacrifício Eucarístico -, assim como tinha sido afirmado pelo Concílio de Trento – à primeira vista não parecia ser baseado na Bíblia, tanto do ponto de vista terminológico, tanto no que diz respeito às prerrogativas particulares do sacerdote sobre aos leigos, especialmente no que tange ao poder de consagrar. A crítica radical ao culto – e com ela a superação, que visava um sacerdócio que se limitaria à pretensão de mediação – parecia perder terreno para uma mediação sacerdotal na Igreja.

A Reforma atacou o sacerdócio sacramental, porque argumentava-se que ele colocava em questão a unicidade do sumo sacerdócio de Cristo (de acordo com a Carta aos Hebreus) e marginalizava o sacerdócio universal de todos os fiéis (de acordo com 1 Pedro 2: 5). A esta crítica, finalmente, juntou-se a idéia moderna da autonomia do sujeito, com a praxis individualista que dela resulta, a qual vê com desconfiança qualquer exercício de autoridade.

Que visão teológica se seguiu?

Por um lado, observou-se que Jesus, de um ponto sociológico-religioso, não era um sacerdote com funções de culto e portanto, – para usar uma formulação anacrônica – era um leigo.

Do outro, com base no fato de que no Novo Testamento, para os serviços e ministérios, não foi adotada qualquer terminologia sacral,  mas denominações consideradas profanas, parecia que se poderia considerar como inadequada a transformação – na Igreja das origens, a partir do III século – daqueles que desenvolviam meras “funções” dentro da comunidade, em detentores impróprios de um novo sacerdócio do culto.

Joseph Ratzinger apresenta, por sua vez, um exame crítico detalhado, uma crítica histórica à teologia protestante e o faz distinguindo os preconceitos filosóficos e teológicos do uso do método histórico. Ao fazer isso, ele consegue mostrar que com as aquisições da moderna exegese bíblica e uma análise precisa do desenvolvimento histórico-dogmático, podemos chegar de modo bem fundamentado às afirmações dogmáticas produzidas sobretudo no Concílio de Florença, Trento e do Vaticano II.

O que Jesus significa para o relacionamento de todos os homens e de toda a criação com Deus – portanto, o reconhecimento de Cristo como o Redentor e Mediador universal de salvação, desenvolvido na Carta aos Hebreus através da categoria de “Sumo Sacerdote” (Archiereus) – nunca dependeu, como condição, da sua participação no sacerdócio levítico.

O fundamento do ser e da missão de Jesus reside muito mais na sua proveniência do Pai, daquela casa e daquele templo onde vive e deve ficar (cfr. Lc 2, 49). É a divindade do Verbo que faz de Jesus, na natureza que Ele assumiu, o único e verdadeiro Mestre, Pastor, Sacerdote, Mediador e Redentor.

Ele nos torna partícipes desta sua consagração e missão por meio do chamada dos Doze. A partir deles, surge o círculo dos Apóstolos que fundaram a missão da Igreja na história como dimensão essencial da natureza eclesial. Eles transmitem o seu poder aos chefes e pastores da Igreja universal e particular, os quais operam a nível local e supra-local.