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8 junho, 2017

Cardeal Müller: O Papa não é o messias, mas o vigário de Cristo.

VATICANO, 07 Jun. 17 / 05:30 pm (ACI).- O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Gerhard Müller, recordou aos fiéis que o Santo Padre não é o messias, mas o vigário de Cristo; portanto exortou a não cair em certo papismo.

Durante a apresentação do seu livro “Indagine sulla Speranza”, o Cardeal alemão expressou que ficou “impressionado que alguns grandes inimigos de João Paulo II e de Bento XVI, que minaram o fundamento da teologia em outros períodos, atualmente se converteram em uma forma de papismo que me causa um pouco de temor”.

“Voltamos às discussões do Concílio Vaticano I, com a ideia de que quase todas as palavras do Papa são infalíveis”, advertiu. “Mas o Papa não é o Messias, é o Vigário de Jesus Cristo, o servo de Jesus Cristo”, assinalou.

Segundo informou ACI Stampa – agência em italiano do Grupo ACI –, o Purpurado advertiu que “os meios de comunicação veem o Papa como um personagem, mas o Papa Francisco recorda sempre o dever de confirmar na fé”.

“Nos primeiros dias do seu pontificado o Papa Francisco, enquanto era aplaudido na praça disse: aplaudam Jesus, não me aplaudam. E esta é a perspectiva do papado”, afirmou.

O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé disse que “não é bom que a gente, lendo qualquer coisa sobre o Papa Francisco, chegue até o bispo ou o pároco dizendo: ‘o Papa disse…’; porque o pastor da paróquia é o pároco e o bispo na diocese, em comunhão visível com o Papa”.

“Não se deve concentrar tudo sobre o Papa, porque o bispo, o pároco são os pastores do rebanho. Não se deve cair em certo papismo. Os verdadeiros amigos do Papa não são aduladores, mas aqueles que colaboram com ele e com os bispos para sustentar a fé. É verdade que os meios de comunicação mudaram muito as coisas, mas o importante é viver concretamente a Igreja particular em união com o Papa”, assinalou.

27 março, 2017

Podem as recentes declarações do Cardeal Müller encerrar os debates a respeito da Amoris Laetitia?

Por Mathias von Gersdorff

A crítica do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé aos quatro Cardeais que se dirigiram ao Papa Francisco com perguntas sobre a Exortação Apostólica Amoris Laetitia levou muitos a perguntarem se não estaria assim terminada a discussão a respeito do documento papal sobre a família.

Foi o que escreveu, por exemplo, Guido Horst, jornalista do Tagespost, em 9 de janeiro de 2017: “Também o debate público sobre as dubia, as dúvidas dos quatro cardeais, está terminado. Nos círculos de especialistas ele poderá continuar,  porém não serve mais como elemento de motivação.”

O tempo mostrará se essa predição está correta, ou não. Contudo, dúvidas a seu respeito são pertinentes. Por duas razoes:

Primeiro: Entrementes, algumas dioceses – e até muitas conferências episcopais – estão autorizando a comunhão para divorciados recasados, em casos individuais. Isso deveria dar-se, pelo menos teoricamente, após uma verificação cuidadosa e de um caminho penitencial. Abstraindo-se de que os bispos que assim agem estão produzindo fatos que somente poderão ser justificados através de grandes distorções na interpretação da Amoris Laetitia, essas medidas estão muito aquém daquilo que o campo dos progressistas almeja.

Antes dos dois Sínodos realizados nos outonos de 2014 e 2015, estava claro que o progressismo visava a uma total demolição da moral sexual católica. O inicio dessa demolição se daria com a admissão dos divorciados recasados, porém pretendia-se muito mais: a aceitação das parcerias homossexuais, a indiferença moral face aos preservativos, a aceitação das uniões irregulares etc.

Quanto aos divorciados recasados, eles deveriam, em via de regra, ser autorizados a receber a Comunhão, e não apenas caso por caso e depois de uma verificação acurada.

Assim, não é de admirar que as primeiras vozes críticas se façam ouvir e lamentem, a partir de seu ponto de vista, o esquálido resultado dos Sínodos. Por exemplo, a do alemão Joachim Frank, presidente da Associação de Publicitários Católicos da Alemanha (GKPD).

Segundo: A moral sexual católica é um edifício, por assim dizer, moldado de uma peça única. Dele não se podem retirar pedras sem que a construção desmorone.

Uma interpretação liberal da Amoris Laetitia conduzirá assim, forçosamente, a uma situação que deixa a moral sexual católica parecer contraditória. Por exemplo, por que os divorciados recasados estão autorizados a receber a comunhão e os que vivem em uniões livres não?  Esses últimos não estão sequer em estado de adultério.

Os progressistas e a mídia que lhes é simpática vão cuidar para que as exceções (restritivas) aos divorciados recasados sejam cada vez mais ampliadas. Mais cedo ou mais tarde serão admitidos à comunhão não somente eles, mas também outras pessoas que não seguem a moral sexual ensinada pela Igreja.

Isso levará a um imenso número de comunhões sacrílegas e ao esvaziamento da moral sexual católica.

A admissão dos divorciados recasados afeta, ademais, três sacramentos: o do matrimônio, o da penitência (confissão) e o da eucaristia. A compreensão de cada um desses três sacramentos proíbe a comunhão para pessoas que vivem em estado de pecado grave (como é o adultério).

Em resumo: se com base na Amoris Laetitia tiver início um processo de dissolução da moral sexual católica, a Igreja estará ameaçada em seus fundamentos e a Fé católica correrá grave risco.

Não é de admitir que os fiéis católicos aceitem isso pura e simplesmente.

As dúbia dos Cardeais Burke, Brandmüller, Meisner e Cafarra sobre a Amoris Laetitia são no fundo uma tentativa de afastar em seu nascedouro o perigo acima descrito, percebido possivelmente apenas por poucos. Mas, cedo ou tarde, será preciso que surja uma forte reação contra este processo de desagregação da moral sexual católica, pois do contrário a existência da Igreja Católica estaria em perigo. (Tradução do original alemão por Renato Murta de Vasconcelos).

3 fevereiro, 2017

Cardeal Müller sobre a Comunhão a recasados: “O Papa, um concílio, nem a lei dos bispos podem mudar isso”.

Nota: os bispos da conferência alemã não concordam em nada com o Cardeal Müller, tendo aprovado um texto que diz exatamente o contrário do que o cardeal disse na entrevista que aqui publicamos.

Por Church Militant, 01 de fevereiro de 2017| Tradução: FratresInUnum.com: O Cardeal Gerhard Müller está afirmando que os divorciados e civilmente recasados devem comprometer-se a permanecer continentes antes de serem admitidos novamente aos sacramentos, e que nem mesmo o Papa pode remover essa condição indispensável.

Müller

Cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

A revista italiana Il Timone recentemente perguntou ao prefeito da Congregação para Doutrina da Fé (CDF) se a condição de que esses casais “se esforcarem para viver a castidade” antes de receberem a Confissão e a Sagrada Eucaristia – como exigido pelo Papa S. João Paulo II – ainda era válida. O chefe da guarda doutrinária do Vaticano respondeu: “Claro, isso não é dispensável”.

O Cardeal enfatizou que a Igreja não tem a faculdade de alterar essa regra. “Nenhum poder no céu ou na terra, nem mesmo os anjos, ou o Papa, um concílio, nem a lei dos bispos tem a faculdade de mudar isso”.

Na entrevista publicada na quarta feira (01/02/2017), Müller foi questionado a respeito das conflituosas interpretações acerca da exortação pós-sinodal Amoris Laetitia. O cardeal advertiu que o documento não pode ser interpretado isoladamente em relação ao ensinamento perene da Igreja.

Amoris Laetitia deve claramente ser interpretada à luz de toda a doutrina da igreja” ele insistiu.

Ele também deixou claro que a exortação deve ser interpretada pelo seu todo e não por passagens retiradas do contexto. “Não se pode referir apenas a pequenas passagens apresentadas na Amoris Laetitia, mas deve-se lê-la como um todo, com o propósito de tornar o Evangelho do matrimônio e da família mais atrativo às pessoas”.

Cardeal Müller expressou seu descontentamento com as opiniões discordantes propostas por vários bispos a respeito da exortação. “Eu não gosto disso, não é correto que tantos bispos interpretem a Amoris Laetitia de acordo com seu próprio entendimento dos ensinamento papais”, lamentou. ”Isso não se alinha a doutrina Católica”.

Ele alertou aqueles bispos que, segundo ele, “estão falando demais”, para que primeiro aprendam a Doutrina eles mesmos antes de tentar ensinar aos outros. “Eu insisto que eles estudem antes a Doutrina [dos concílios] sobre o papado e o episcopado”. Se os bispos não se tornarem bem informados eles mesmos, então eles “podem cair no risco de serem cegos guiando cegos”.

Perguntado se a consciência pessoal poderia em algum momento sobrepor o ensinamento da Igreja sobre fé e moral, o cardeal rejeitou terminantemente a possibilidade. “Não, isso é impossível”, ele respondeu. “Por exemplo, não se pode dizer que existem circunstâncias nas quais um ato de adultério não constitua um pecado moral. Para a Doutrina católica, é impossível que o pecado mortal e a Graça santificante coexistam”.

E adicionou que essa é a razão pela qual Deus instituiu o Sacramento da Reconciliação.

Tem-se dado muita atenção à exortação apostólica de João Paulo II Familiaris Consortio, que reafirmou que os recasados não poderiam permanecer sexualmente ativos e serem admitidos aos sacramentos. Mas o cardeal Müller afirma que muita da confusão está na rejeição da “clara Doutrina [da Igreja] sobre os males intrínsecos”, como apresentada pela Encíclica Veritatis Splendor também de João Paulo II.

A Igreja ensina que ações intrinsecamente más são sempre e em todo lugar erradas, independente dos motivos e circunstâncias nas quais são praticadas. Exemplos dessas ações são  o aborto, o adultério e o suicídio.

A Veritatis Splendor ensina que todo mal intrínseco é errado para todos, independente de qualquer julgamento que a consciência pessoal faça. “Preceitos morais negativos,  que proíbem certas ações ou comportamentos como intrinsecamente maus, não aceitam exceções legítimas”.

Em outras palavras, o Mandamento de Deus “Não se deve…” é aplicado a qualquer pessoa em qualquer tempo.

Isso também está explicado no parágrafo 1650 do Catecismo da Igreja Católica, onde se lê: “Se os divorciados estão civilmente recasados, encontram-se em uma situação objetiva de contravenção à Lei Divina. Consequentemente, eles não podem ter acesso à Sagrada Eucaristia enquanto essa condição persistir.”

Coincidentemente, as questões apresentadas ao Papa Francisco e ao dicastério do Cardeal Müller pelos quatro cardeais nos Dubia estão centradas nesses dois pontos:

  • O papel da consciência em obedecer a Lei Divina.
  • Atos intrinsecamente maus nunca não podem ser feitos de consciência limpa.

O Cardeal Müller reforça que o papel dos padres e bispos é de esclarecer e não de confundir. E insiste que todos os sacerdotes e leigos aprendam a Fé. “Todos nós temos que entender e aceitar a Doutrina de Cristo e da Sua Igreja, e ao mesmo tempo estar prontos a ajudar os outros a entendê-la e colocá-la em prática, mesmo nas situações mais difíceis”, ele explicou.

 

11 janeiro, 2017

Entrevista de Cardeal Müller na TV causa espanto.

Chefe doutrinal do Vaticano censura publicação de ‘dubia’, mas alguns críticos afirmam que ele se engana, enquanto surge a informação de que nenhuma das correções da Congregação para a Doutrina da Fé a ‘Amoris Laetitia’ foi aceita. 

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 9 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé [CDF], afirmou em uma entrevista ao vivo de televisão, no domingo, que a “correção fraterna” ao Papa Francisco acerca de sua exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor) “não é possível por ora”, porque a documento não “apresenta perigo para a fé”.

Mas o comentário do cardeal, feito ontem ao correspondente no Vaticano do canal italiano Tgcom24, Fabio Marchese, contrasta com revelações feitas por ao menos dois eminentes oficiais do Vaticano ao Register na semana passada, de que a CDF apresentou um grande número de correções a Amoris Laetitia antes de sua publicação, no último mês de abril, “e sequer uma das correções foi aceita”.

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Surpreso com a divulgação dos dubia

Cardeal Müller afirmou, no domingo, que os cardeais têm “todo direito de escrever uma carta ao Papa”, porém, acrescentou que estava “surpreso de que tenha se tornado público, quase forçando o Papa a dizer ‘sim’ ou ‘não'”.

“Não gosto disso”, disse. “Também, uma possível correção fraterna ao Papa parece-me muito distante; não é possível por ora, porque não se trata de um perigo para a fé, como afirmava Santo Tomás [de Aquino]”.

Ele declarou que sentia ser “uma perda para a Igreja discutir essas coisas publicamente”, acrescentando que Amoris Laetitia é “claríssima em sua doutrina e que podemos interpretar todo a doutrina de Jesus sobre o matrimônio, toda a doutrina da Igreja em 2000 mil anos de história”.

Papa Francisco, concluiu o cardeal, “pede para se discernir a situação dessas pessoas que vivem em uniões irregulares, que não estão de acordo com o ensinamento da Igreja sobre o matrimônio, e para ajudá-las a encontrar um caminho para uma nova integração na Igreja, segundo as condições dos sacramentos,a mensagem cristã sobre o matrimônio”. Ele declarou que não vê “nenhuma oposição: por um lado, temos o ensinamento claro sobre o matrimônio, por outro, a obrigação da Igreja em se preocupar com essas pessoas em dificuldade”.

Todavia, as declarações do cardeal encontraram espanto em Roma, com alguns argumentando que o cardeal perdeu o foco: a questão, dizem, não é se Amoris Laetitia pode ser lida em continuidade com a tradição, mas se é ambígua o bastante de modo que possa ser lida de maneira heterodoxa.

As observações do cardeal também vêm após a divulgação de que a CDF teve claro receio sobre o documento antes de sua publicação — preocupações que nunca foram objeto de consideração. Um bem informado oficial recentemente declaro ao Register que uma comissão da CDF que revisou um rascunho de Amoris Laetitia levantou dubia “similares” àquelas dos quatro cardeais. Esses dubia fizeram parte da correção de 20 páginas [a Amoris Laetitia] da CDF, primeiramente revelada por  Jean-Marie Genois em Le Figaro, de 7 de abril, na véspera da publicação do documento.

Outro experiente oficial foi além, revelando ao Register que, na semana passada, o Cardeal Müller disse-lhe pessoalmente que a CDF “apresentou muitas, muitas correções, e sequer uma das correções foi aceita”. Ele acrescentou que o que afirma o Cardeal na entrevista “é exatamente o contrário de tudo que ele me disse sobre a questão até agora” e que tinha a “impressão de alguém que não falava por si mesmo, mas repetia o que alguém dizia-lhe para dizer”.

Histórico forte

Cardeal Müller frequentemente falou de modo firme em defesa do ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e a família nos últimos três anos (ver aqui e aqui). E em um discurso em Oviedo, Espanha, no ano passado, ele enfaticamente afirmou que Amoris Laetitia não abre as portas da Sagrada Comunhão a divorciados, reafirmando o art. 84 da exortação apostólica Familiaris Consortio, de S. João Paulo II, que afirma que os divorciados recasados não podem ser admitidos à Comunhão Eucarística ao menos que estejam aptos a viver em “completa continência”.

Porém, analistas afirmam que ele parece ignorar as preocupações sobre as interpretações divergentes do documento — profundas apreensões que se alega serem compartilhadas por muitos outros além dos quatro cardeais — e suspeitam que após o Papa recentemente remover três colaboradores do cardeai sem apresentar qualquer justificativa, e com uma correção formal possivelmente iminente, ele tenha se sentido compelido, ou foi compelido, a demonstrar ao Papa um inequívoco sinal de lealdade. Outros alegam que o italiano usado pelo cardeal na entrevista é mais matizado do que a tradução inglesa, que ele sabe o que está fazendo, e está tentando defender a ortodoxia e a unidade da Igreja a seu modo.

Um número significativo de conferências episcopais por todo o mundo expressaram suas preocupações ao Papa, averiguou o Register, e, como os quatro cardeais, não receberam resposta. Mesmo antes da publicação do documento,  30 cardeais, tendo lido uma versão antecipada da exortação apostólica, escreveram ao Papa expressando suas reservas, especialmente quanto à questão da Comunhão a divorciados civilmente recasados, advertindo que o documento enfraqueceria os três sacramentos essenciais da Igreja: a Eucaristia, o matrimônio e a confissão. O Papa também nunca respondeu à carta, disse uma fonte do Vaticano ao Register. 

A Sala de Imprensa da Santa Sé declinou comentar sobre a rejeição das correções da CDF a Amoris Laetitia, afirmando, em 2 de janeiro, que ela “não comenta o processo [de redação] dos documentos papais”.

Cardeal Müller também não respondeu, questionado por Register em 9 de janeiro, se está ciente da alegada confusão decorrente das diferentes interpretações de Amoris Laetitia, ou por que ele crê ser desnecessária uma correção formal quando as correções de seu próprio dicastério não foram aceitas.

22 novembro, 2016

​Na mira: a Doutrina da Fé.

Por FratresInUnum.com

As recentes “Dubia” dos quatro cardeais ao Papa Francisco e, para informação, à Congregação para a Doutrina da Fé, ameaçam fortemente o atual establishment na Igreja. Literalmente, eles não têm para onde correr.

Francisco e Stella.

Francisco e Stella (ainda Arcebispo).

Hoje, Papa Bergoglio começa seu movimento de contra-ataque, com a discreta e exclusiva nomeação do Cardeal Beniamino Stella como membro da Congregação para a Doutrina da Fé. Sim, ninguém mais foi nomeado, somente ele.

Para um leitor desatento, essa nomeação parece pouco significativa. Mas, para quem conhece o mistério que paira sobre a sombria figura desse purpurado, é bastante clamorosa a movimentação, tão mais clamorosa quanto silenciosa.

Aliás, o Cardeal Stella nunca aparece na superfície desse pontificado, mas, como publicamos anteriormente, ele é a verdadeira “eminência parda” em exercício, aquele que dá as cartas, aquele que pontifica!

Agora, sua presença na Congregação para a Doutrina da Fé tem a finalidade de encurralar o Cardeal Müller, Prefeito, amigo pessoal de Papa Ratzinger, organizador de sua Opera Omnia, cujas posições contra o “Paradigma Kasper”, que não prevaleceu no Sínodo, mas apenas em “Amoris Laetitia”, são abundantemente conhecidas.

De fato, estamos no governo das sombras! Enquanto o Papa Francisco finge desconhecer as sérias perguntas dos cardeais, reservando aos mesmos apenas indiretas venenosas, não está parado, age! Começa agora o aparelhamento do antigo Santo Ofício! Realmente, a Doutrina da Fé está na mira!

18 julho, 2016

Joseph Ratzinger, 65 anos depois.

“E assim caiu a fúria da crítica protestante sobre o sacerdócio católico”. No aniversário da ordenação sacerdotal do futuro Bento XVI, o cardeal Müller narra a sua resistência indomável contra a ofensiva dos seguidores de Lutero

Por Sandro Magister | Tradução: FratresInUnum.comROMA, 28 de junho de 2016 – “No momento em que o idoso arcebispo impôs suas mãos sobre mim, um pequeno pássaro – talvez um pardal – voou por detrás do altar-mor da catedral e entoou um canto alegre. Para mim. foi como se uma voz do alto me dissesse: está tudo bem, você está no caminho certo”.

jpg_1351331Na autobiografia de Joseph Ratzinger, há também essa recordação de sua ordenação sacerdotal, ocorrida há 65 anos, 29 de junho de 1951, festa de São Pedro e São Paulo, na catedral de Freising, pelas mãos do cardeal Michael von Faulhaber.

Para comemorar o aniversário com o Papa Emérito, na Sala Clementina, estava também o atual Papa Francisco.

Na ocasião, foi oferecido a Ratzinger um volume que recolhe 43 de suas homilias, com um prefácio escrito pelo próprio Francisco, que já havia sido antecipado há poucos dias pelos jornais  “La Repubblica” e “L’Osservatore Romano”:

> “Toda vez que eu leio as obras de Joseph Ratzinger …”

O volume, intitulado “Ensinar e aprender o amor de Deus”, foi publicado simultaneamente em seis idiomas: em italiano pela Cantagalli, nos EUA pela Ignatius Press, na Alemanha pela Herder, na França pela Parole et Silence, na Espanha pela Biblioteca de Autores Cristianos, e na Polônia pela Universidade Católica de Lublin.

O trecho que segue é retirado da introdução ao livro, escrito pelo cardeal Gerhard L. Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e curador da obra completa de Ratzinger.

No aniversário da ordenação sacerdotal do futuro Bento XVI, o cardeal narra sua indomável resistência contra a ofensiva dos seguidores de Lutero.

Sacerdócio Católico e tentação protestante

Gerhard L. Müller

O Concílio Vaticano II tentou reabrir um novo caminho para a compreensão da verdadeira identidade do sacerdócio. Por que então chegamos agora, no pós Concílio, a uma crise de identidade que historicamente só é comparável com as consequências da Reforma Protestante do século XVI?

Eu penso na crise da doutrina do sacerdócio ocorrida durante a Reforma Protestante, uma crise de caráter dogmático, na qual o sacerdote foi reduzido a um mero representante da comunidade, mediante uma eliminação da diferença essencial entre o sacerdócio ordenado e aquele comum de todos os fiéis. E depois na crise existencial e espiritual, ocorrida na segunda metade do século XX, e que explodiu cronologicamente depois do Concílio Vaticano II -, mas certamente não por causa do Concílio – e cujas consequências hoje ainda sofremos.

Joseph Ratzinger destaca com grande perspicácia que onde é menosprezado o fundamento dogmático do sacerdócio católico, não apenas se esgota a fonte de onde se pode efetivamente beber da vida que nutre os que seguem a Cristo, mas desaparece também a motivação que introduz tanto uma compreensão razoável da renúncia ao casamento pelo reino dos céus (cfr. Mt 19, 12), como do celibato como um sinal escatológico do mundo de Deus que virá,  um sinal para ser vivido com a força do Espírito Santo, na alegria e na certeza.

Se a relação simbólica que pertence à natureza do sacramento é obscurecida, o celibato sacerdotal torna-se o resquício de um passado hostil ao corpo e começa a ser acusado e combatido como a única causa da escassez de sacerdotes. Não menos importante, desaparece, em seguida, também as evidências no ensino e na prática da Igreja, de que o sacramento da Ordem deve ser administrado somente aos homens. Um ofício concebido em termos funcionais na Igreja é exposto à suspeita de legitimar um domínio, que, ao invés, deveria ser baseado e limitado ao sentido democrático.

A crise do sacerdócio no mundo ocidental, nas últimas décadas, é também o resultado de uma desorientação da identidade cristã perante uma filosofia que transfere para o interior do mundo o sentido mais profundo e o fim último da história de cada existência humana, privando-o assim do horizonte da transcendência e da perspectiva escatológica.

Esperar tudo de Deus e fundamentar toda a sua vida a Deus, que em Cristo nos doou tudo: esta e só esta pode ser a lógica de uma escolha de vida que, no completo dom de si, põe-se a caminho no seguimento de Jesus, participando de sua missão de Salvador do mundo, a missão que Ele cumpre no sofrimento e na cruz, e que Ele inevitavelmente revelou através de sua Ressurreição dentre os mortos.

Mas, na raiz desta crise do sacerdócio, é necessário também levar em contra os fatores intra-eclesiais. Como mostrado em seus primeiros discursos, Joseph Ratzinger possui desde o início uma sensibilidade aguçada para perceber imediatamente o choque com o qual se anunciava o terremoto: e isso especialmente na abertura, por parte de muitos católicos, à exegese protestante em voga nos anos cinquenta e sessenta do século passado.

Muitas vezes, do lado católico, não se percebeu as visões preconceituosas das exegese nascidas da Reforma. E assim sobre a Igreja Católica (e ortodoxa), caiu a fúria das críticas ao sacerdócio ministerial, na presunção de que ele não tem um fundamento bíblico.

O sacerdócio sacramental, tudo que se refere ao Sacrifício Eucarístico -, assim como tinha sido afirmado pelo Concílio de Trento – à primeira vista não parecia ser baseado na Bíblia, tanto do ponto de vista terminológico, tanto no que diz respeito às prerrogativas particulares do sacerdote sobre aos leigos, especialmente no que tange ao poder de consagrar. A crítica radical ao culto – e com ela a superação, que visava um sacerdócio que se limitaria à pretensão de mediação – parecia perder terreno para uma mediação sacerdotal na Igreja.

A Reforma atacou o sacerdócio sacramental, porque argumentava-se que ele colocava em questão a unicidade do sumo sacerdócio de Cristo (de acordo com a Carta aos Hebreus) e marginalizava o sacerdócio universal de todos os fiéis (de acordo com 1 Pedro 2: 5). A esta crítica, finalmente, juntou-se a idéia moderna da autonomia do sujeito, com a praxis individualista que dela resulta, a qual vê com desconfiança qualquer exercício de autoridade.

Que visão teológica se seguiu?

Por um lado, observou-se que Jesus, de um ponto sociológico-religioso, não era um sacerdote com funções de culto e portanto, – para usar uma formulação anacrônica – era um leigo.

Do outro, com base no fato de que no Novo Testamento, para os serviços e ministérios, não foi adotada qualquer terminologia sacral,  mas denominações consideradas profanas, parecia que se poderia considerar como inadequada a transformação – na Igreja das origens, a partir do III século – daqueles que desenvolviam meras “funções” dentro da comunidade, em detentores impróprios de um novo sacerdócio do culto.

Joseph Ratzinger apresenta, por sua vez, um exame crítico detalhado, uma crítica histórica à teologia protestante e o faz distinguindo os preconceitos filosóficos e teológicos do uso do método histórico. Ao fazer isso, ele consegue mostrar que com as aquisições da moderna exegese bíblica e uma análise precisa do desenvolvimento histórico-dogmático, podemos chegar de modo bem fundamentado às afirmações dogmáticas produzidas sobretudo no Concílio de Florença, Trento e do Vaticano II.

O que Jesus significa para o relacionamento de todos os homens e de toda a criação com Deus – portanto, o reconhecimento de Cristo como o Redentor e Mediador universal de salvação, desenvolvido na Carta aos Hebreus através da categoria de “Sumo Sacerdote” (Archiereus) – nunca dependeu, como condição, da sua participação no sacerdócio levítico.

O fundamento do ser e da missão de Jesus reside muito mais na sua proveniência do Pai, daquela casa e daquele templo onde vive e deve ficar (cfr. Lc 2, 49). É a divindade do Verbo que faz de Jesus, na natureza que Ele assumiu, o único e verdadeiro Mestre, Pastor, Sacerdote, Mediador e Redentor.

Ele nos torna partícipes desta sua consagração e missão por meio do chamada dos Doze. A partir deles, surge o círculo dos Apóstolos que fundaram a missão da Igreja na história como dimensão essencial da natureza eclesial. Eles transmitem o seu poder aos chefes e pastores da Igreja universal e particular, os quais operam a nível local e supra-local.

17 junho, 2016

“Herético”. O veredito do Cardeal Müller sobre Fernandez, o primeiro conselheiro do Papa.

Em uma entrevista na última edição da “Herder Korrespondenz”, o Cardeal Gerhard L. Müller chamou nada menos que de “herege” a um tipo que se passa como “um dos conselheiros mais próximos do Papa”.

Por Sandro Magister | Tradução: FratresInUnum.com: Eis o que disse o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé:

“O ensinamento sobre o papado enquanto instituição divina não pode ser relativizado por ninguém, porque isso significaria querer corrigir o próprio Deus. […] Já faz algum tempo, que tem alguém que está sendo apresentado por determinados meios de comunicação como um dos conselheiros mais próximos do Papa, segundo o qual se pode muito bem deslocar a sede papal para Medellin ou espalhar os dicastérios da cúria por diferentes igrejas locais. Isso é fundamentalmente errado e até mesmo herético [sogar häretisch]. Sobre essa matéria, basta ler a constituição dogmática “Lumen Gentium” do Concílio Vaticano II para reconhecer o absurdo eclesiológico destes jogos mentais. A sede do papa é a Igreja de São Pedro em Roma”.

jpg_1351304Müller acrescentou que a missão explícita de São Pedro, de “guiar toda a Igreja como seu pastor supremo”, foi transmitida “para a Igreja de Roma e, com ela, a seu bispo, o papa”. E isso “não é um jogo organizativo, mas feito para preservar a unidade dada por Deus” e que também inclui “o papel do alto clero da Igreja romana, os cardeais, que ajudam o Papa no exercício do seu Primado”.

Não é difícil adivinhar quem é que está na mira de Müller. Trata-se de Dom Víctor Manuel Fernández, reitor da Universidade Católica Argentina em Buenos Aires e confidente de longa data de Jorge Mario Bergoglio, bem como, de fato, seu teólogo de confiança e arquiteto principal de seus principais documentos, desde a “Evangelii Gaudium” a “Amoris Laetitia “, e esta última chega ao ponto de plagiar trechos de artigos escritos pelo próprio Fernández há dez anos atrás:

“Amoris Laetitia” tem um escritor fantasma. Chama-se Víctor Manuel Fernández.

Mas o que o Cardeal Müller não engoliu mesmo de Fernández, é o que ele disse em uma entrevista ao “Corriere della Sera” de 10 de Maio de 2015:

“A Cúria do Vaticano não é uma estrutura essencial. O Papa poderia muito bem ir viver fora de Roma, ter um dicastério em Roma e outro em Bogotá, e talvez se conectar por teleconferência com os peritos em liturgia residentes na Alemanha. Em torno do Papa o que existe é um sentido teológico, é o colégio de bispos para servir o povo. […] os próprios cardeais podem desaparecer, na medida em que não são essenciais”.

E Fernández disse ainda, acusando precisamente o Cardeal Prefeito, que em entrevista ao “La Croix”, em 29 de Março, havia atribuído à Congregação para a Doutrina da fé “a missão de estruturação teológica” de um  Pontificado eminentemente “pastoral” como é o de Francisco:

“Eu li que alguns dizem que a Cúria Romana é uma parte essencial da missão da Igreja, ou que um prefeito do Vaticano é a bússola segura que impede a Igreja de cair no pensamento light, ou que aquele prefeito assegura a unidade da fé e garante ao pontífice uma teologia séria. Mas os Católicos, ao lerem o Evangelho, sabem que Cristo assegurou uma guia e iluminação especial ao papa junto a todos os bispos, mas não a um prefeito ou a uma outra estrutura. Quando se ouve dizer coisas desse tipo, quase parece que o papa é apenas um representante deles, ou aquele que veio para perturbá-los e deve ser controlado”.

Mais de um ano se passou desde que o teólogo argentino disparou contra Muller, mas aparentemente o Papa não ficou nem um pouco incomodado, visto que o mantém cada vez mais próximo.

E agora que Müller emitiu contra Fernández o veredito de “heresia”, é certo que quem vai cair ainda mais baixo no conceito do papa será ele, o cardeal, que já não conta para nada como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e muito menos para a “estruturação teológica” deste pontificado.

A este propósito, não é de excluir que o Papa se referia especialmente a Müller quando, em seu terceiro sermão no retiro para sacerdotes, em 2 de Junho, disse ao comentar o encontro de Jesus com a mulher adúltera:

“Às vezes me dá uma mistura de pena e indignação quando alguém se esforça para explicar a última recomendação, o ‘não peques mais” e utiliza esta frase para “defender” Jesus e não o fato de que Ele passou por cima da lei”.

Com efeito, o Cardeal Müller tinha, de fato, escrito ao tomar uma posição em 2013, tendo em vista o sínodo sobre a família:

“Outra tendência em favor da admissão de divorciados novamente casados aos sacramentos é aquela que invoca o argumento da misericórdia. Porque o próprio Jesus era solidário com os sofredores, doando-lhes o seu amor misericordioso, a misericórdia seria um sinal especial de autêntico discipulado. Isso é verdade, mas é um argumento fraco quando se trata de matéria teológica e sacramental, porque toda a ordem sacramental é exatamente obra da misericórdia divina e não pode ser revogada sem negar o mesmo princípio que a sustenta.

“Através do que objetivamente soa como uma alusão falsa à misericórdia, incorre-se no risco da banalização da própria imagem de Deus, segundo a qual Deus não poderia fazer outra coisa senão perdoar. Ao mistério de Deus pertencem, além da misericórdia, também  a santidade e a justiça. Se resolvem ocultar esses atributos de Deus e não levam a sério a realidade do pecado, não se pode nem mesmo levar às pessoas a sua misericórdia.

“Jesus encontrou a mulher adúltera com grande compaixão, mas também disse: “Vai, e não peques mais” (Jo 8, 11). A misericórdia de Deus não dispensa dos mandamentos de Deus e das instruções da Igreja, antes, ela concede o poder da graça para a sua plena realização, para levantar-se após a queda e para uma vida de perfeição à imagem do Pai celeste “.

Mais do que isso, Müller escreveu em um livro-entrevista de 2014 e outro em 2016.

9 junho, 2016

Vaticano apresentará novo documento sobre carisma e hierarquia.

Cidade do Vaticano (RV) – Um novo documento da Congregação para a Doutrina da Fé, a carta “Iuvenescit Ecclesia” aos bispos da Igreja católica, “sobre a relação entre dons hierárquicos e carismáticos na vida e na missão da Igreja”, será publicado terça-feira (14/06) e apresentado em coletiva de imprensa no Vaticano.

Os Cardeais Gerhard Ludwig Mueller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos; Mons. Piero Coda, membro da Comissão Teológica Internacional e Maria del Carmen Aparicio Valls, docente na Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Gregoriana.

A carta “Iuvenescit Ecclesia” (A Igreja se rejuvenesce) estará sob embargo até 12h da data da apresentação, e será publicada em italiano, francês, inglês, alemão, espanhol e português.

13 maio, 2016

Mulheres diaconisas? O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé já descartou a idéia em 2002.

Mulheres diaconisas? Uma perspectiva sobre o Sacramento da Ordem.

Por Zenit, 17 de janeiro de 2002 | Tradução: FratresInUnum.com: Munique, Alemanha – Em sua assembléia anual, no mês passado, a Comissão Teológica Internacional da Congregação para a Doutrina da Fé abordou o tema do diaconato.

Dom Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Dom Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Em uma entrevista ao jornal alemão Católico Die Tagespost, Professor Gerhard Ludwig Müller, da Faculdade de Teologia da Universidade de Munique, resumiu os resultados da discussão. Os resultados estão incluídos num documento entregue ao cardeal Joseph Ratzinger.

 

Müller explicou que o diaconato não é um sacramento separado, mas parte do sacramento da Ordem. Ele observou que nunca houve ordenações sacerdotais de mulheres, uma possibilidade excluída pela Igreja em muitas ocasiões. A seguir, um trecho de entrevista de Müller.

Q: Seria o diaconato um sacramento por si mesmo?

Müller: A Igreja ensina claramente que o sacramento da Ordem é um dos sete sacramentos da Igreja; como pleno é exercício do Espírito Santo em sua missão, único na sua origem, ou seja, dos Apóstolos de Cristo, exercido em sua plenitude pelo bispo. De acordo com seu grau de especificidade, a participação diferenciada nele é o chamado ao presbiterato ou diaconato.

Q: É possível separar o diaconato de mulheres do sacerdócio das mulheres?

Müller: Não,  por causa da unidade do sacramento da Ordem, que foi sublinhada nas deliberações da Comissão Teológica; ela não pode ser medida com um critério diferente. Assim, seria uma discriminação real da mulher se ela fosse considerada como apta para o diaconato, mas não para o presbiterato ou episcopado.

A unidade do sacramento seria rasgada em sua raiz se o diaconato como ministério de serviço fosse contraposto ao presbiterato como ministério de governo, daí poderia se deduzir que a mulher, ao contrário do homem, tem uma maior afinidade para servir e por isso estaria apta para o diaconato, mas não para o presbiterato.

No entanto, o ministério apostólico é conjuntamente um ministério de serviço nos três graus em que ele é exercido.

A Igreja não ordena mulheres, não porque falta a elas algum dom espiritual ou talento natural, mas porque – assim como no sacramento do matrimônio – a diferença sexual e o relacionamento entre homem e mulher contém em si um simbolismo que apresenta e representa em si mesmo uma condição precedente para expressar a dimensão salvífica da relação de Cristo com a Igreja.

Se o diácono, com o bispo e presbítero, a partir da unidade radical dos três graus das ordens, atuam como Cristo, Cabeça e Esposo da Igreja, em favor da Igreja, é óbvio que apenas um homem pode representar esta relação de Cristo com a Igreja.

E no sentido inverso, é igualmente óbvio que Deus só poderia tomar Sua natureza humana de uma mulher e, por causa disso, o sexo feminino tem na ordem da graça – por causa da referência interna da natureza e da graça – uma inconfundível e fundamental importância, que de forma alguma é meramente acidental.

Q: Há declarações doutrinais que dizem respeito ao diaconato feminino?

Müller: A tradição litúrgica e teológica da Igreja usa uma linguagem unânime. Existe um ensinamento doutrinário irreversível da Igreja sobre este assunto, que é garantido pelo magistério geral e ordinário da Igreja e que pode vir a ser confirmado novamente com maior autoridade, se a tradição doutrinal da Igreja continuar a ser apresentada de uma forma adulterada, visando forçar uma evolução em uma direção específica.

Eu fico espantado com a falta de conhecimento histórico de alguns, e a ausência do sentido da fé; se não fosse por isso, eles saberiam que nunca foi e nunca será possível colocar a Igreja, justamente, no âmbito central da sua doutrina e da liturgia, em contradição com a Sagrada Escritura e sua própria Tradição.

Q: O que acontece quando um Bispo validamente ordenado, mas fora da comunhão da Igreja, ordena uma mulher como diaconisa?

Müller: Invisivelmente, isto é, diante de Deus, nada acontece, porque tal ordenação é inválida. Visivelmente, isto é, na Igreja, se algo [assim] acontece, o tal bispo católico que realiza uma ordenação irregular incorre na pena de excomunhão.

Q: Poderia o Papa dizer que no futuro as mulheres serão ordenadas ao diaconato?

Müller: Ao contrário do que muitos pensam, o Papa não é o proprietário da Igreja ou o soberano absoluto da sua doutrina. A ele foi confiado apenas a salvaguarda da Revelação e sua autêntica interpretação.

Tendo em mente a fé da Igreja, ou seja, essa fé que é expressa na sua prática dogmática e litúrgica, é impossível para o papa intervir na substância dos sacramentos, à qual a questão do sujeito receptor legítimo do sacramento da Ordem essencialmente pertence.

Q: Então as mulheres estão completamente excluídas da participação em serviços eclesiais? Será que não há lugar para as mulheres na Igreja?

Müller: Se deixarmos de lado essa redução da Igreja apenas ao seu lado clerical, a questão já não mais seria formulada desta forma. Em seus processos vitais e em seu serviço ao homem, a Igreja é essencialmente uma responsabilidade de todos os cristãos, especificamente também dos leigos.

Em muitos países, no presente momento, não podemos reclamar de um excesso de apostolado ativo por parte dos leigos. Pensemos na saída dramática de mulheres das ordens femininas e comunidades religiosas, sem as quais a Igreja jamais teria se  enraizado nas diferentes nações e culturas.

Nos ministérios específicos da lei canônica e humana, para os quais também os leigos podem ser chamados a colaborar em conjunto com a hierarquia, ou seja, com o bispo, presbítero e diácono, as mulheres realizam serviços importantes para a Igreja, que são também satisfatórios para elas mesmas tanto de um ponto de vista humano como espiritual.

O que as mulheres fazem nos dias de hoje como professoras de religião, professoras de teologia, agentes pastorais e também em atividades não remuneradas nas comunidades vai muito além do que as diaconisas da igreja primitiva faziam.

O restabelecimento do antigo ministério das diaconisas só seria um anacronismo engraçado. Pelo contrário, o Concílio já deu orientações para o futuro da colaboração dos leigos no Capítulo 4 da Constituição “Lumen Gentium” – infelizmente, não muito estudado.

20 abril, 2016

O grande cerco ao cardeal Müller.

IHU – Há uma distância que vem sendo notada por todos no Vaticano, a existente entre o papa e o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Gerhard Ludwig Müller. Uma frieza que ficou evidente a partir da exclusão do purpurado alemão da apresentação da exortação apostólica pós-sinodal Amoris laetitia há duas semanas.

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada no jornal Il Foglio, 19-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quem esclareceu o conteúdo do esperado e delicado documento foram – além do casal Miano – o cardeal Lorenzo Baldisseri e o cardeal Christoph Schönborn. O primeiro, em versão notarial, sendo secretário do Sínodo dos bispos; o segundo, encarregado de ilustrar o perfil teológico da exortação.

De Müller, nem mesmo a sombra, assim como tinha acontecido nas duas assembleias de 2014 e 2015, quando o grande debate não só midiático, mas sobretudo interno à Igreja – como demonstra a série de publicações enviadas à imprensa por sacerdotes, bispos e cardeais nos últimos dois anos –, vertia justamente sobre a interrogação de saber se o que mudaria seria a doutrina, mais do que a simples práxis pastoral.

O fato é que o cardeal ex-bispo de Regensburg e Francisco têm linhas diametralmente opostas sobre o tema. Basta comparar os escritos de Müller com as palavras de Bergoglio, em que o primeiro relembra a exigência de confirmar aqueles “saudáveis” marcos plantados pela Igreja ao longo dos séculos, e o pontífice que afirma claramente que a misericórdia vai muito além da lei e do legalismo, que nada está excluído do infinito amor de Deus.

A divergência fica evidente se tomarmos uma passagem em particular da Amoris laetitia, o parágrafo 311 do oitavo capítulo, em que se afirma que se “é verdade que a misericórdia não exclui a justiça e a verdade”, é preciso reiterar fortemente que “a misericórdia é a plenitude da justiça e a manifestação mais luminosa da verdade de Deus. Por isso, convém sempre considerar inadequada qualquer concepção teológica que, em última instância, ponha em dúvida a própria omnipotência de Deus e, especialmente,
a sua misericórdia”.

Müller, em um artigo publicado na véspera do primeiro Sínodo no jornal alemão Tagespost e, depois, retomado peloL’Osservatore Romano, porém, tinha ressaltado que “ao mistério de Deus pertencem, além da misericórdia, também a santidade e a justiça; se escondermos esses atributos de Deus e não levarmos a sério a realidade do pecado, não podemos nem mesmo mediar às pessoas a Sua misericórdia”.

Via dupla no Vaticano

Mais do que sobre a exortação em si, que, contudo, não vê recebidas todas as indicações enviadas pelo ex-Santo Ofício, o problema – assinalado no Vaticano – é que o prefeito tem um papel totalmente marginal na escrita e no debate sobre atos de tão grande importância, a tal ponto que mais de uma pessoa do outro lado do Rio Tibre chegou a falar de uma possível – embora não iminente – mudança na liderança da Congregação, profetizando também a eventualidade de que o segundo sucessor de Ratzinger decida se afastar.

O próprio papa prefere outra linha, e ele admitiu isso explicitamente no sábado, na costumeira coletiva de imprensa a bordo do avião papal de volta a Roma da viagem relâmpago para Lesbos. Questionado sobre a Amoris laetitia e sobre a dúvida sobre a abertura de portas aos divorciados recasados, por parte do correspondente em Roma do Wall Street Journal, Francis X. Rocca, Francisco se limitou a remeter à leitura do discurso proferido pelo cardealSchönborn, “que é um grande teólogo. Ele é membro da Congregação para a Doutrina da Fé e conhece bem a doutrina da Igreja”.

Acontece que o arcebispo de Viena foi o verdadeiro “vencedor” do Sínodo, tendo delineado no círculo menor em língua alemã, em outubro passado, a proposta que, depois, seria retomada quase integralmente na exortação papal. Grupo do qual Müller também fazia parte, que deu, sim, a luz verde ao texto – o cardeal Walter Kasper, não por acaso, no Sínodo ordinário, repetiu várias vezes, satisfeito, o placet do prefeito –, mas que nunca fez mistério do fato de alimentar dúvidas sobre a ambiguidade de algumas posições contidas nele.

Todos elementos que encontram espaço no último livro de Müller, Informe sobre la esperanza, publicado na Espanhae em breve na Itália, pela editora Cantagalli. E no qual, dentre outras coisas, o purpurado alemão diz que “nós, católicos, não temos nenhum motivo para festejar o dia 31 de outubro de 1517”, isto é, a data que relembra o início daReforma luterana. Evento que o papa irá celebrar na Suécia, no próximo dia 31 de outubro.