Posts tagged ‘Dom Murilo Krieger’

14 janeiro, 2019

O estilo Krieger.

FratresInUnum.com, 14 de janeiro de 2019 – “O estilo é o homem”. A frase, imortalizada pelo conde de Duffon, sintetiza decerto uma verdade também imortal. A análise atenta de um texto pode revelar a sinceridade do seu autor ou, ao contrário, a sua perversidade, a inconsistência da sua impostura, a sua tentativa de manipulação das palavras como instrumento para adulterar a realidade.

Nem ainda completou-se uma quinzena do novo governo e aqueles que outrora se reduziram a cortesãos dos governos do PT – sim, eles mesmos, os bispos de corte, os membros da CNBB –, os mesmos que se resignaram a um silêncio obsequiosíssimo ante todos os escândalos de corrupção e aberrações morais e políticas de Lula, Dilma et caterva, agora começam a colocar as “unhas de fora”. O primeiro a sair da toca é ninguém menos que Dom Murilo Krieger, arcebispo primaz do Brasil.

Em artigo publicado no dia 11 de janeiro no site da CNBB, o arcebispo de Salvador se propõe a dar critérios para a escolha de prioridades em relação ao caos político em que jaz o Brasil.

Do nada, ele simplesmente puxa um assunto: “de repente”, escreve ele, “um tema começou a ganhar grandes proporções nas redes sociais: o do direito de todo cidadão brasileiro poder andar armado”. Como assim, “de repente”? O arcebispo da capital baiana finge desconhecer que o referendo de 2005, que tentava proibir a venda de armas de fogo no Brasil, foi rechaçado em massa pela população brasileira, em franco desprezo pela orientação da CNBB; ele faz de conta que a discussão não existe, que se trata de uma excentricidade de momento; ele disfarça que não há diferença alguma entre posse e porte de armas… E deve cruzar os dedos para que ninguém perceba a simulação.

Contudo, no mesmo parágrafo, ele escreve que “em nenhum país se mata mais do que no Brasil”, sonegando ao leitor o número real desses homicídios, que não param de crescer, chegando ao desesperado número de 70 mil assassinatos por ano. Esta sonegação, porém, não é ingênua. Ele mesmo, ao final deste parágrafo, ironiza os números citando alguém que lhe dissera: “Estatística é a arte de espremer os números, até que eles provem o que queremos”.

Acontece que isso não são meras estatísticas, são vidas humanas reais, tão reais quanto a nossa e a dele. O arcebispo, porém, não é capaz de enxergar a realidade. Ele se perdeu num discurso completamente abstrato, está intoxicado por trás de uma cortina de fumaça verbal que lhe deu licença moral para desconsiderar o sofrimento real dos brasileiros que saem de casa sem saber se irão voltar! Isso é ainda mais grave por ser ele arcebispo de Salvador, uma das capitais mais violentas do nordeste brasileiro!

Em seguida, ele faz uso daquele recurso retórico tipicamente preferido pelos canalhas mais vigaristas da esquerda: contrapõe dialeticamente duas opiniões, colocando-se acima de ambas como um juiz imparcial e onipotente. É óbvio que se trata apenas de fingimento arrogante! De um lado, apresenta razões estatísticas que advogam pela ampliação do direito à propriedade de armas, de outro, elenca tantas outras que defendem a restrição ou manutenção da lei em vigor para, no fim, chegar à conclusão de que não há conclusão alguma e de que todos podem manipular qualquer argumento, inclusive com recursos teológicos, em favor de seu discurso.

A sugestão prática do vice-presidente da CNBB é: “convenhamos: não é o tema mais urgente que precisamos debater neste momento”. Embora reconheça que o problema é grave, diz que o assunto da “segurança pública” é urgente e complexo, e não pode ter uma solução rápida.

O estilo Krieguer é um verdadeiro “samba do crioulo doido”! De um lado, afirma que o Brasil é o país em que mais se mata, de outro, que este não é o tema mais urgente… Como é possível? Será que pode haver tema mais necessário que o da defesa individual do cidadão? Haverá bem mais precário que a defesa da vida? Que outro direito existe se o indivíduo não estiver vivo? Até quando vamos nos esconder por trás de discursos abstratos como o da segurança pública? – Aliás, como se a violência de que são vítimas os brasileiros fosse uma violência pública e não individual (parece bastante evidente que todo assassinato é de um indivíduo e não da sociedade como um todo).

Dom Murilo conclui dizendo que o tema mais oportuno para o momento é o da Campanha da Fraternidade 2019: “Fraternidade e Políticas Públicas”, pois o mesmo “impacta diretamente na vida dos brasileiros” (sic!). Chegaria a ser cômica a proposição do arcebispo Krieger, se não fosse desrespeitosa com a vida dos seus concidadãos.

A falta de nexo lógico da problemática geral com a conclusão que apresenta ao final deixa entrever que a bajulação institucional é a única verdadeira preocupação perseguida pelo autor. É tudo teatro verbal para encobrir o capachismo diante da CNBB, capachismo que o leva produzir um texto argumentativamente incoerente, contraditório, que o faz reproduzir de maneira quase irracional a implicância não apenas contra o governo, mas sobretudo contra o povo que o elegeu justamente por uma de suas promessas, que foi a de facilitar ao cidadão de bem o direito de defender-se diante de bandidos, capachismo, enfim, que esconde apenas a pretenção carreirista de quem desconsidera o povo para devotar-se ao louvor dos seus pares, a fim de não ser posto pra fora, a fim de talvez ser reeleito, a fim de – quem sabe? – subir um pouquinho mais.

O estilo Krieger, pra quem sabe ler, é o estilo suicida de quem se autodenuncia, é o lapso, o ato falho, o flagrante. Seu público são os bispos, ele nem se preocupa com algo que se chama “realidade”.

De fato, se “o estilo é o homem”, aqui, o que vemos está muito aquém não apenas de um estilo coerente, mas de um homem que minimamente também o seja.