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18 abril, 2013

Profeta de desgraças.

Em seu sermão da Sexta-Feira Santa na Basílica de São Pedro, o Pregador da Casa Pontifícia, Fr. Raniero Cantalamessa, enalteceu o espírito ecumênico e criticou “os resíduos de cerimoniais e as leis e disputas do passado”, que, segundo ele “se tornaram apenas detritos”. Trata-se de uma indicação de como deve ser a “Nova Evangelização” de que tanto se fala nos meios eclesiásticos hodiernos? Mais: seria um programa de governo dirigido ao Papa Francisco, a quem Cantalamessa parece, de modo bajulador, vincular à missão de reconstruir a Igreja recebida por São Francisco? Apresentamos, a seguir, os trechos mais marcantes do sermão:

A evangelização tem uma origem mística; é um dom que vem da cruz de Cristo, daquele lado aberto, daquele sangue e água. O amor de Cristo, como o da Trindade, do qual é a manifestação histórica, é “diffusivum sui”, tende a se expandir e chegar a todas as criaturas, “especialmente as mais necessitadas da sua misericórdia”. A evangelização cristã não é conquista, não é propaganda; é o dom de Deus para o mundo em seu Filho Jesus. É dar ao Chefe a alegria de sentir a vida fluir do seu coração para o seu corpo, até vivificar os seus membros mais distantes.

Temos de fazer todo o possível para que a Igreja se pareça cada vez menos ao castelo complicado e assombroso descrito por Kafka, e para que a mensagem possa sair dela tão livre e alegre como quando começou a sua corrida. Sabemos quais são os impedimentos que podem reter o mensageiro: as muralhas divisórias, começando por aquelas que separam as várias igrejas cristãs umas das outras; a burocracia excessiva; os resíduos de cerimoniais, leis e disputas do passado, que se tornaram, enfim, apenas detritos.

Jesus diz em Apocalipse que está à porta e bate. Às vezes, como foi observado por nosso Papa Francisco, não bate para entrar, mas de dentro, porque quer sair até as periferias existenciais do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância, da indiferença religiosa, de todas as formas de miséria.

Acontece como em certas construções antigas. Ao longo dos séculos, para adaptar-se às exigências do momento, houve profusão de divisórias, escadarias, salas e câmaras. Chega um momento em que se percebe que todas essas adaptações já não respondem às necessidades atuais; servem, antes, de obstáculo, e temos então de ter a coragem de derrubá-las e trazer o prédio de volta à simplicidade e à linearidade das suas origens.  Foi a missão que recebeu, um dia, um homem que orava diante do crucifixo de São Damião: “Vai, Francisco, e reforma a minha Igreja”.

“Quem está à altura dessa tarefa?”, perguntava-se o Apóstolo Paulo, aterrorizado, diante da tarefa de ser no mundo “o aroma de Cristo”; e eis a sua resposta, que é verdade também agora: “Não é que sejamos capazes de pensar alguma coisa como se viesse de nós; já que toda a nossa capacidade vem de Deus. Ele nos fez idôneos para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito, pois a letra mata, mas o Espírito dá vida” (II Cor 2, 16; 3, 5-6).

Que o Espírito Santo, neste momento em que se abre para a Igreja um novo tempo, cheio de esperança, redesperte nos homens que estão à janela a esperar a mensagem e, nos mensageiros, a vontade de levá-la até eles, mesmo que ao custo da própria vida.