Posts tagged ‘Fraternidade São Mauro’

12 agosto, 2018

Foto da semana.

IBP padres

Neste momento de dor – em que a Montfort-Zucchi e padres do IBP-Zucchi se viram obrigados a romper com a viúva Ivone Fedeli por ela ter alegadamente traído os ideais tradicionalistas de seu marido –, esta foto adquire significado especial. Trata-se dos excelentes sacerdotes Pe. Renato Coelho e Tomás Parra, que são atualmente os padres do IBP em São Paulo, rezando no cemitério da Quarta Parada, em São Paulo (agradecimento ao padre Tomás Parra pela correção). Rezemos pelos pais falecidos. Fidelium aninum per misericordiam Dei resquiescant in pace.

17 julho, 2018

Novo capítulo da divisão entre a viúva Ivone e a Montfort-Zucchi: o site “Flos Carmeli” e o surgimento de uma nova hermenêutica do Legado de Orlando Fedeli.

Por Manoel Gonzaga Castro | FratresInUnum.com, 17 de julho de 2018

manoelgonzagacastro@gmail.com

Há cerca de duas semanas, foi noticiado com exclusividade em FratresInUnum.com, por meio da coluna de minha colega Catarina, que o Sr. Alberto Zucchi, 58 anos, rompera com a viúva Ivone Fedeli, 60, sob a narrativa de que Ivone teria traído os ideais do Professor Orlando Fedeli (1933-2010), seu marido por mais de duas décadas, ao ter permitido, como atual superiora do ramo feminino da Fraternidade São Mauro (FSM), a participação de suas “freiras” na celebração da “Liturgia da Palavra”, na abertura do Sínodo da Arquidiocese de São Paulo, presidida por seu Arcebispo, Dom Odilo Pedro Cardeal Scherer.

Segundo o vídeo publicado, para Zucchi, essa autorização de Ivone teria corroborado com o projeto modernista de destruição da Missa Tridentina, representado em iniciativa ainda mais radical que sua substituição pela Missa Nova, pois o Novus Ordo, embora corrupto, ainda seria Missa, ao passo que a Liturgia da Palavra não passaria de idolatria. Assim, nos 35 anos de Montfort, nunca teria ocorrido uma traição tão grande, pois Ivone estaria conduzindo seus seguidores a um pecado mais grave que o cometido por quem vai à Missa Nova, de acordo com o ensinamento do Prof. Orlando Fedeli. Para ele, a frequência à forma ordinária por aqueles que “sabem” de seus males implicaria cometimento de pecado.

Segundo a interpretação de Zucchi, o Professor jamais aprovaria esse ato de sua esposa. Ainda no vídeo, Zucchi enfatiza energicamente que a ação de Ivone foi feita à total revelia da direção da Montfort, ou seja, dele, que tem dirigido a associação de forma centralizadora desde 2010, quando o fundador faleceu.

Nesse sentido, com seu “non serviam” a Zucchi, Ivone operou, no microcosmos do grupo, uma verdadeira revolução metafísica e moral. Com efeito, ela jurara fidelidade a Zucchi, publica e reiteradamente, alegando que “a autoridade é a forma de um grupo e que o Alberto, apesar de seus inúmeros defeitos bem conhecidos e de não ter a virtude do Lando, era a forma da Montfort após sua morte”, e que “não seguir a autoridade era uma das maiores manifestações de orgulho, que foi o pecado de Lúcifer”.

Como de costume, essa ruptura foi declarada em aula na sede da associação, com argumentação alegadamente definitiva, embasada em diversos autores estrangeiros que, conforme é sabido nos ambientes da Tradição em São Paulo, o montfortiano médio desconhece. A argumentação dessa aula, tirando a parte da “briga-baixaria-disputa” a que imediatamente servia, foi publicada em texto de cariz acadêmico em seu site (cf. “A Teologia do Novus Ordo Missae é a mesma da Celebração da Palavra de Deus?” )

Assim, em 90 minutos, Ivone passou de viúva piedosa e frágil a “prócer” do projeto modernista de implantação de um culto novo no seio da Igreja Católica, porque quis demonstrar unidade com o Cardeal Dom Odilo e obter favores para a incipiente Fraternidade São Mauro. Pessoas ligadas a Montfort-Zucchi ironizam que “a madre”, como é chamada, durou até que muito, pois outros traidores tiveram sua reputação interna assassinada em discursos, apoiados pela própria Ivone, de apenas 20 minutos.

Recapitulados os últimos fatos, tem relevância hoje a informação de que, passados oito anos da morte de seu marido, a viúva finalmente chamou para si a responsabilidade de interpretar o legado do falecido, lançando o site “Flos Carmeli”, com seção especialmente dedicada a essa tarefa: http://floscarmeliestudos.com.br/professor-orlando-fedeli/.

Confiram o vídeo de lançamento do site:

Ora, chama a atenção a quantidade de material disponibilizado no “Flos Carmeli”, com cerca de 120 vídeo-aulas, que começaram a ser gravadas já em 2016. O que reforça tanto a informação de que Ivone sempre visualizou um futuro sem Zucchi (dado seu desejo íntimo de fundar uma comunidade religiosa, ao passo que Zucchi depositava suas esperanças eclesiásticas exclusivamente no Instituto do Bom Pastor), quanto a crença de que o ataque de Alberto foi essencialmente uma tentativa de desmoralizar a viúva e de impedir que membros da já diminuta Montfort-Zucchi adiram à Fraternidade São Mauro.

Muito haveria que informar sobre todo esse processo de ruptura, permeado de intrigas e de conspirações, às quais a redação de FratresInUnum.com sempre esteve atenta e que não publicou antes, pois o desenlace ainda estava nebuloso e somos fiéis a nosso objetivo de prestar informações de qualidade a nossos leitores a respeito do movimento tradicionalista brasileiro.

Porém, estando clara a ruptura, sendo por isso que a noticiamos, surge agora a tarefa de compreender qual vai ser exatamente o enfoque interpretativo da obra de Fedeli a ser adotado pela viúva em sua disputa com Zucchi e também no embasamento teórico de sua congregação. Com efeito, a Fraternidade São Mauro se apresenta agora como a legítima detentora do “tesouro espiritual deixado pelo Lando”, conforme as palavras da viúva e as mensagens em sonho que Pe. Edivaldo Oliveira declara em palestras ter recebido a respeito da Fraternidade nos últimos anos (interessante notar que também Mons. João Clá Dias tem o hábito de fundamentar seus discursos em sonhos que costuma ter).

Ora, até 2010, havia um Orlando Fedeli atacando ferozmente o Concílio Vaticano II e a Missa Nova e sendo marginalizado pelas autoridades eclesiásticas por conta disso. Ele defendia suas ideias e pagava o preço.

Após a morte do fundador, Zucchi, por sua vez, desenvolveu um pensamento tradicionalista esquizofrênico baseado na esperança de Fedeli de que Bento XVI seria o Papa de Fátima. Assim, Zucchi declarou não fazer mais que seguir os comandos desse papa quanto à liturgia e o concílio.  Crendo estranhamente que isso era ser contra a Reforma Litúrgica e o Vaticano II, ele conseguia dialogar nessa chave de “sigo Bento XVI” com o Cardeal Dom Odilo e, assim, obter espaço, por exemplo, na Paróquia São Paulo Apóstolo ou no Mosteiro de São Bento, para seus congressos.

Congresso

Congresso Montfort 2016, com a presença de Dom Odilo e do Abade Dom Mathias, ladeados por Alberto Zucchi e Ivone Fedeli. 

E Ivone? Qual será sua interpretação de Fedeli? O que fará ela, considerando que seu trato com o Cardeal é mais intenso que o de Zucchi, uma vez que ela está em vias de formalizar uma comunidade religiosa já operacional? Como seguir Fedeli, guardar e promover seu assim chamado tesouro espiritual, que inclui o combate à Missa Nova e ao Vaticano II, e obter a aprovação eclesiástica? Como seguir Fedeli e impedir que a licença de estudos do Padre Edivaldo Oliveira em São Paulo, que é o sacerdote que atende suas “freiras”, não seja cassada?

Afinal, nessa confusão toda, se há um ponto pacífico, é o de que ela, de fato, autorizou a ida de suas “freiras” à Liturgia da Palavra, o que se insere em um contexto de manifestar integração na vida da arquidiocese, fato do qual Zucchi se aproveitou.

Outro fato de que se aproveitam, para desmoralizá-la, também pacífico, é o de ela ter flexibilizado sua posição e de ter avalizado teologicamente a ordenação do Pe. Edivaldo em Ciudad del Este, numa Missa Tridentina “versus populum”, o que não deixou de ser encarado pelos “puristas” como uma invenção litúrgica “sui generis”.

O Professor, absolutamente apolítico que era, segundo alguns, jamais aceitaria tais fatos, visto que “foi d’abbord, pas la politique”, visto que a “fé vem antes de tudo, e não a política”.

Fiéis e sacerdotes piedosos e instruídos, que conhecem bem esses meandros tradicionalistas, opinam que tanto Zucchi, quanto Ivone não parecem em posição adequada para interpretar o “Legado de Orlando Fedeli”, pois ambos são parte dele e o fazem em meio a interesses práticos imediatos e brigas, o que lhes tira isenção. Nessa disputa, ambos precisam de Fedeli, para continuar seus movimentos, porém de um Fedeli a sua maneira.

Assim, sobre Ivone, se é possível um palpite, arriscam que ela vai deixar o Fedeli polemista em segundo plano, e ressaltar o “Lando pensador”, mais amistoso e contemplativo da beleza de Deus nas criaturas, na arte e na liturgia, o qual ainda não foi compreendido (por Zucchi e por todos os demais, leia-se). Ou seja, um Fedeli inédito, que ainda há de ser construído hermeneuticamente pela Fraternidade São Mauro, liderada pela madre Ivone.

Tudo isso, entretanto, fica para acontecimentos futuros, que, para o bem das almas, esperamos poder noticiar, cumprindo nosso objetivo de informação. Afinal, é importante estar ciente dessas vicissitudes humanas, para não corrermos o risco da frustração e do desespero, quando nos valemos desses movimentos como instrumentos para buscar a Deus.

Ademais, não é preciso ser pessimista e ignorar os bons frutos que podem surgir das lamentáveis contendas, ainda quando ocorrem entre “irmãos”, pois, ao fim e ao cabo, como católicos, estamos todos nos esforçando para alcançar a Jerusalém celeste, onde seremos definitivamente “fratres in unum”.

Quanto às origens e ao desenvolvimento da atual ruptura, voltaremos eventualmente a esse tema em próximas publicações.

 

2 julho, 2018

Divididos! O cisma da Montfort: Zucchi versus a viúva Fedeli.

Por Catarina Maria B. de Almeida | FratresInUnum.com – 2 de julho de 2018

Os espólios de Orlando Fedeli continuam a ser divididos. Agora, Alberto Zucchi, presidente da Associação Cultural Montfort, racha de vez com a viúva Ivone Fedeli, a temida Senhora Dona Ivone, diretora do Colégio São Mauro.

Distantes há um bom tempo, agora se separaram de vez, cada qual com seu clero: Zucchi, servido pelos padres do Instituto do Bom Pastor (IBP); Ivone, por Pe. Edvaldo Oliveira, da diocese de Ciudad del Este, o qual, apesar de não carregar o sobrenome Fedeli, foi “adotado” por ela como seu filho.

O motivo da querela? A participação de Ivone Fedeli e suas consórores na Celebração da Palavra oficiada por Dom Odilo Scherer, na abertura do sínodo arquidiocesano de São Paulo. A ela, não foi concedida a mesma tolerância que Zucchi deu a si mesmo quando convidou dom Odilo para pregar Amoris Laetitia no congresso da Montfort, ou que concede a padres do IBP, que reconhecem, sem nenhuma cerimônia, assistir a Missa no rito de Paulo VI quando necessário (por exemplo, o Padre Paul Aulagnier, incensado pelos membros da Montfort como grande combatente da Tradição). 

O leitor pode conferir a aula completa de Alberto Zucchi no próprio facebook da Associação Cultural Montfort ou pode também escutar apenas o trecho abaixo, que recortamos da aula.

Para facilitar a compreensão, transcrevemos alguns extratos da fala de Alberto Zucchi:

“Algumas pessoas que se dizem da Montort foram nessa ocasião. É claro que não me pediram licença pra ir. Eu não posso impedir, eu não posso amarrar ninguém na cadeira. Mas evidentemente essas pessoas fizeram muito mal e fizeram contra a direção da Montfort. Se eu tivesse possibilidade, eu teria impedido. Segundo, foi feito de forma oculta, porque isso aqui ficou-se descobrindo (sic!) por mero acaso: uma parente de uma pessoa nossa filmou e nós fomos atrás; porque, se fosse, possivelmente, por essas pessoas, isso daqui, de fato, nunca teria sido divulgado. Então, isso daqui foi uma coisa escondida e condenada pela direção da Montfort”.

“Esse ato foi condenado pela direção da Montfort e, quando oportuno, isso será publicado no site. Isso foi condenado. Estão contra todos os princípios da Montfort porque, em primeiro lugar, por todas essas razões (sic!); em segundo lugar, porque o Professor (Orlando Fedeli) sempre condenou essas porcarias. Se o Dom Odilo disser pra nós que vai acabar a Missa antiga em São Paulo, a não ser que a gente vá na Liturgia da Palavra, eu vou dizer pra ele: pode encerrar! Eu (sic!!!) vou mandar o Pe. Tomás embora. Eu vou chorar, eu vou me despedir do Pe. Tomás chorando e vou dizer pra ele ‘até logo’”.

“Eu escrevi para a pessoa que exercia uma liderança ali naquele local, perguntando pra ela: ‘quais são as razões que te levaram praquela (sic!) situação?’, e argumentando. A pessoa não respondeu, não me respondeu, e disse pra outro que ‘eu não tenho obrigação de responder pro Alberto’. É claro que ela não teria, mas, como ela se diz da Montfort, ela passa a ter. Afinal de contas, então… que associação é essa?”

“Eu recomendo pra vocês assistirem o vídeo do sínodo, que é um vídeo de duas horas e quarenta minutos”. D. Lúcia Zucchi exclama, com voz de dor: “Ah, não! Não! Não!”. Alberto Zucchi prossegue: “Podem pular de vez em quando, mas eu recomendo assistir o vídeo do sínodo pra vocês entenderem bem o que é a Liturgia da Palavra, que a gente tá brincando aqui, mas vocês verem como é que é lá. E depois tem o sermão do Dom Odilo. Eu recomendo pra vocês ouvirem com atenção a descrição que ele faz da situação da Igreja aqui na Diocese. É trágica! É trágica! Ninguém reza, ninguém comunga, ninguém confessa, ninguém conhece nada, não tem vocações. Qual é a solução que ele dá? ‘Ah, se reúne todo mundo entre as paróquias pra perguntar quais são os problemas’. Quando você não quer dar solução pra uma coisa, você convoca uma reunião. (risos) Mas não tenha dúvida! O jeito mais eficiente para não dar solução pra uma coisa é convocar uma reunião”.

Numa postagem posterior no Facebook, um leitor se queixa das “freiras da Montfort” (sic!) que participaram da Celebração da Palavra. A página respondeu que “em vista do questionamento a respeito da participação de membros da Montfort em celebração da ‘Liturgia da Palavra’, esclarecemos que na segunda aula do atual ciclo de palestras sobre a Nova Liturgia este assunto foi abordado. Nesta ocasião foi informado que os que compareceram naquela celebração o fizeram à total revelia da direção da Montfort e que, questionados sobre o seu procedimento, permaneceram em silêncio sem apresentar nenhuma explicação. Ademais, todos os que lá estiveram, deixaram voluntariamente de frequentar a Montfort”. Perguntada por outro leitor se a Sra. Dona Ivone não fazia mais parte da Montfort, respondeu-se: “isso mesmo, ela não faz mais (parte)”.

A propósito, d. Ivone acaba de fundar, sob as bênçãos de Pe. Edvaldo, uma espécie de ordem religiosa feminina dedicada a Santa Escolástica, o que teria contrariado grandemente o espírito laical de Alberto Zucchi, que só permite alguma clericalização se for debaixo da égide do IBP. Ao fim, esse parece ser o cerne da disputa: a iniciativa de Ivone de fundar uma comunidade religiosa distante do raio de influência (ou seria do governo?) de Zucchi e de seu IBP, buscando diretamente o reconhecimento da Arquidiocese de São Paulo, sem se sujeitar à “liderança” do presidente da Montfort.

Ironias da vida. Décadas atrás, o hoje Mons. João Clá Dias indispô-se com o grupo dos veteranos da TFP exatamente pelos mesmos motivos: tendo começado um apostolado com mulheres, intencionava criar um ramo feminino, um projeto de vida religiosa para as moças que desejassem viver a espiritualidade de Plínio Corrêa de Oliveira. Estabeleceu-se a contenda e o cisma consumou-se. A TFP continuou pelo caminho laical, e João Clá seguiu pelo seu.

Agora, a história se repete nesses que um dia militaram nas fileiras da TFP e depois se puseram em oposição a ela. Vivem não apenas para criticar Plínio, mas também para, nos fatos, imitá-lo.

Não sabemos de que modo terminará esse embate. O que se diz é que Ivone-Edvaldo seguem sendo um ramo mais puritano e rigorista da Montfort; e Zucchi-IBP um ramo, digamos, mais liberal, ao menos do ponto de vista dos costumes. Contudo, a narrativa de Zucchi no vídeo mencionado se pretende oposta a essa leitura: Ivone seria concessiva ao progressismo, por causa da Celebração da Palavra; e ele seria mais fiel ao seu defunto marido que a própria viúva.

O colégio, porém, não sabemos como ficará. Possivelmente seja objeto de disputa. Ignoramos! Diz-se, porém, que Alberto Zucchi fundará seu próprio colégio — algo bastante razoável para quem se apresenta sempre com o título de “Professor”, apesar das graves dificuldades para escrever simples artigos.

Fato é que o assunto começa a ser amplificado para fora dos muros misteriosos da Montfort. E não poderia ser diferente! Ficar-lhes-ia mal um exagerado segredo. Poderia ocorrer a alguém a ideia de que eles são gnósticos — Deus nos defenda!

Burlesca ou não, eles não deixam de ser uma reprodução do modelo ao qual, querendo tão veementemente negar, acabam por retro-afirmar inconscientemente: não conseguem senão ser uma tentativa de rascunho do Plínio Corrêa de Oliveira.

Será que as novas “religiosas ivonianas” também usarão botas ou se contentarão com uma sandália preta de croques e um meião branco, tipo de futebol?…

TFP-Arautos, Montfort-São Mauro, paralelos interessantes de grupos que, um dia unidos, terminaram divididos!

21 agosto, 2015

Dom Rogelio Livieres e a integração dos tradicionalistas em prol da Nova Evangelização.

Por Manoel Gonzaga Castro* – FratresInUnum.com:  Na última sexta-feira, 14 de agosto, lamentamos o falecimento de Dom Rogelio Livieres, bispo deposto de Ciudad del Este em 2014.

Clérigo da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz , do Opus Dei, Dom Rogelio logrou uma notável renovação da Igreja local a ele confiada por São João Paulo II ao longo dos 10 anos em que permaneceu à sua frente. Conforme atestam os dados publicados em seu site oficial, houve:

  • Aumento de 14 para 83 sacerdotes diocesanos;
  • Aumento de 1 para 7 capelães hospitalares;
  • Aumento de 34 para 51 paróquias;
  • Aumento de 40% para 90% das paróquias com missas diárias;
  • Aumento de 4.679 para 14.665 crismas anuais;
  • Aumento de 1257 para 6277 matrimônios anuais.
  • Aumento de 0 para 5.814 membros de adoração perpétua;
  • Aumento de 203 para 1400 presidiários atendidos espiritualmente;

Segundo parecer de seus apoiadores, esses frutos resultaram do duro combate que Dom Livieres desenvolveu contra o progressismo, corrente predominante na Igreja paraguaia. Esse combate teria ensejado, inclusive, sua deposição por Francisco sob alegação de que Dom Rogelio teria problemas de integração pastoral e de comunhão com sua igreja local — as divergências com a orientação pastoral de Jorge Mario Bergoglio vêm de longa data.

Como ratzingeriano convicto, Dom Rogelio promoveu o avanço da liturgia tradicional em sua diocese, sempre respeitando os limites da hermenêutica da reforma na continuidade em prol de uma Nova Evangelização, conforme preconizaram os últimos papas. Entre suas generosas ações nesse sentido, consta seu acolhimento ao então seminarista Edivaldo Oliveira, filho de consideração do Professor Orlando Fedeli e da atualmente viúva Sra. Ivone Fedeli, fundadores da Associação Cultural Montfort e do Colégio São Mauro.

Dom Rogelio foi a via de ordenação do Pe. Edivaldo, quando não lhe restavam mais esperanças. Uma história digna de ser relatada e que serve de exemplo a muitos, desesperançosos de chegar um dia ao sacerdócio em meio à crise pela qual passa a Igreja.

A trajetória até a ordenação

Edivaldo Oliveira nasceu em 1974 em São Paulo. Menino pobre do Parque Bristol, fez curso técnico em eletrônica na ETEC Getúlio Vargas, ocasião em que passou a frequentar a casa do Professor Fedeli no Cambuci, depois de ter sido convidado por alguns de seus colegas de curso.

Inicialmente relutante, após algumas aulas, o então jovem Edivaldo se rendeu aos argumentos do Professor Fedeli e tomou da decisão de se tornar um católico tradicionalista de linha TFPista, isto é, contrário ao Concílio Vaticano II e à reforma litúrgica pós-conciliar.

Humilde, após alguns anos trabalhando como reparador de fotocopiadoras, sentiu despertar dentro de si um grande desejo de fazer algo mais para Deus e se apresentou à Sra. Ivone Fedeli para trabalhar no então incipiente Colégio São Mauro.

Inicialmente se dedicou a serviços administrativos, mas em pouco tempo recebeu os cargos de professor de música e de catecismo, posto que assumiu por cerca de dez anos, quando, em 2009, foi tomado pelo desejo devorador da vocação sacerdotal.

O regente Edivaldo Oliveira e o Flammula Chorus, 2009

O regente Edivaldo Oliveira e o Flammula Chorus, 2009

Naquele momento, esse desejo de se tornar um sacerdote do Altíssimo tinha uma única via de realização na Montfort. Essa via era o Instituto do Bom Pastor, considerado como o único instituto no mundo a combinar a regularização canônica com o direito de rejeitar o Vaticano II e o Novus Ordo.

Dessa forma, ele partiu para França com mais três de seus alunos no Colégio São Mauro: Pedro Gubitoso, Tomás Parra e José Luiz Zucchi, que, aliás, serão ordenados sacerdotes e diácono amanhã, em São Paulo.

Diferentemente de seus alunos, o então seminarista Edivaldo não foi enviado para Courtalain, mas para a escola Angelus, do IBP, onde, deixando os estudos de lado, passou um ano realizando árduos trabalhos manuais relacionados à reforma da escola.

Após esse um ano, o então seminarista Edivaldo foi dispensado do Bom Pastor por seu superior geral, o Pe. Philippe Laguérie. Atribui-se tal dispensa ao então reitor do seminário, responsável pelo fechamento da casa do IBP no Brasil em 2008. Sem apresentar qualquer problema disciplinar, o motivo residia na desconfiança do IBP em relação a ele, tido como próximo demais do Professor Fedeli e participante ativo na crise que abalaria as relações entre os dois grupos por algum (pouco) tempo.

Retornando ao Brasil, o seminarista Edivaldo teve de lidar com a dupla dor da dispensa e do falecimento de seu pai de consideração, o Professor Fedeli.

Resiliente, começou a travar contato com o Pe. Almir de Andrade, da Fraternidade Sacerdotal São Pedro (hoje, na Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, de Campos, RJ). Esse fato causou desconforto em parte da Montfort, pois a Fraternidade São Pedro sempre tinha sido considerada pelo grupo como proscrita por não ter apoiado as sagrações episcopais de Dom Lefebvre, em 1988, e por sua não oposição ao novus ordo — fato que não impediu Pe. Almir de, à época, dar conferências em congressos da associação e celebrar Missa diversas vezes no Colégio São Mauro.

Por fim, com a ajuda do Pe. Almir e o apoio decidido da viúva Ivone Fedeli, Pe. Edivaldo partiu para o seminário de Wigratzbad, na Alemanha, onde, após o primeiro ano de espiritualidade, foi convidado a se retirar.

Dessa forma, em 2011, o seminarista Edivaldo estava de volta ao Colégio São Mauro, onde, sem deixar a batina, passou mais de um ano em amargura procurando alguma via de realizar seu chamado sacerdotal.

Quando parecia não haver mais esperanças, surgiu Dom Rogelio Livieres, indicado pelo carmelita Frei Tiago ao então seminarista Edivaldo. E esse bondoso e generoso bispo o acolheu em seu seminário em meados de 2012, depois das devidas conversações, em que Edivaldo solicitou exclusividade para apenas celebrar a Missa Tridentina depois de ordenado.

Visto que, até então, sua formação oficial como seminarista tinha se resumido a um ano de trabalhos manuais e um ano de espiritualidade, Edivaldo foi submetido a um semestre de estudos no seminário de Ciudad del Este, antes de ser ordenado diácono, em 8 dezembro de 2012.

Sua ordenação diaconal foi realizada segundo a forma extraordinária, o que não ocorria há quatro décadas na diocese de Ciudad del Este.

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Na sequência, passados mais oito meses e com um pouco mais de estudos no seminário diocesano, o diácono Edivaldo Oliveira foi ordenado sacerdote, em 17 de agosto de 2013.

A cerimônia de ordenação também ocorreu segundo a forma extraordinária, mas teve a peculiaridade de ser realizada em uma Missa Tridentina versus populum, não se sabe por qual razão, no que ela se assemelhou à forma ordinária.

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Apesar disso, esse foi um dia de grande alegria para os tradicionalistas brasileiros companheiros do Pe. Edivaldo, especialmente para a viúva Ivone Fedeli, que finalmente pôde ver seu filho ordenado depois de tantos sofrimentos.

Pe. Edivaldo é cumprimentado por sua mãe adotiva, Ivone Fedeli

Pe. Edivaldo é cumprimentado por sua mãe adotiva, Ivone Fedeli

Os então diáconos Renato Coelho e Luiz Fernando Pasquotto, assim como demais seminaristas brasileiros do IBP, auxiliaram na celebração da cerimônia.

Dois anos de apostolado do Pe. Edivaldo e sua volta ao Brasil

Uma vez ordenado, Pe. Edivaldo dividiu seu apostolado em duas frentes: uma em Ciudad del Este e outra no Brasil.

No Paraguai, graças à generosidade de amigos brasileiros, Pe. Edivaldo abriu o Centro de Estudos São Mauro, onde morava, dava cursos e celebrava a liturgia tradicional. Embora fosse padre diocesano, Dom Rogelio julgou prudente não instalar Pe. Edivaldo em uma paróquia, pois ele se recusava a participar das celebrações segundo a forma ordinária e não gozava de uma integração mais harmoniosa com o clero local devido a sua sensibilidade litúrgica — o que não foi motivo para o bispo tratá-lo mal, como fazem os ordinários atuais.

Ao mesmo tempo em que atuava no Centro São Mauro, Pe. Edivaldo procurou obter autorização para criar sua Fraternidade São Mauro, que pretendia ser um arcabouço canônico para preservação dos valores do Professor Orlando Fedeli e para o acolhimento de vocações masculinas e femininas voltadas exclusivamente para a liturgia tradicional, o que chegou a obter parcialmente, já que Dom Rogelio não preferia tal exclusividade.

É, entretanto, inegável o perseverante trabalho de integração realizado por Dom Rogelio Livieres, a fim de acomodar essa vocação sincera e verdadeira ao que a Santa Sé espera de um padre em nossos tempos, no contexto da Nova Evangelização desejada pelos Papas pós-conciliares.

Pe. Edivaldo com hábito branco da Fraternidade São Mauro e fiéis paraguaios

Pe. Edivaldo com hábito branco da Fraternidade São Mauro e fiéis paraguaios

No Brasil, por sua vez, onde passava cerca de duas semanas por mês, Pe. Edivaldo desenvolveu viagens apostólicas para São Paulo e para o nordeste, notadamente em Fortaleza. Em São Paulo, atuava juntamente ao Colégio São Mauro, sua primeira casa. Em Fortaleza, Pe. Edivaldo se dedicou a celebrar a sagrada liturgia nas principais igrejas da cidade.

Após a triste deposição de Dom Rogelio Livieres, Pe. Edivaldo julgou mais conveniente deixar seus fiéis paraguaios e voltar ao Brasil, para, junto de sua mãe de consideração, prosseguir com o projeto da Fraternidade São Mauro.

Um mês de Fraternidade São Mauro

De volta ao Brasil, Pe. Edivaldo anunciou, há pouco mais de um mês, a fundação da Fraternidade São Mauro (FSM), confirmando as informações veiculadas por Fratres in Unum, cuja sede está localizada nas cercanias do Colégio São Mauro e da Associação Cultural Montfort.

Os membros do novo instituto religioso recebem formação espiritual dada pelo Pe. Edivaldo e em aulas na Montfort, ao mesmo tempo que a formação filosófica e teológica será fornecida pelo Mosteiro de São Bento, em São Paulo, com quem a FSM teria celebrado um convênio de cooperação. Essa cooperação também se manifesta pela atuação do Pe. Edivaldo como confessor durante as missas tridentinas celebradas aos domingos no mosteiro. Consta que a FSM já recebeu inclusive vocações de Manaus.

Pe. Edivaldo Oliveira celebra Missa no Mosteiro de São Bento, 26 de julho de 2015

Pe. Edivaldo Oliveira celebra Missa no Mosteiro de São Bento, 26 de julho de 2015

Segundo membros da FSM, o Cardeal de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, teria dado seu aval à obra e permitido ao Pe. Edivaldo atuar recebendo vocações sob sua jurisdição. Pe. Edivaldo também estaria sob autorização de Dom Heinz Wilhelm Steckling, atual diocesano de Ciudad Del Este.

* * *

Por este e muitos outros casos, só temos a agradecer a Dom Rogelio por sua generosidade apostólica e que rezar para Deus todo poderoso o tenha em sua misericórdia.

* Fale com o autor: manoelgonzagacastro@gmail.com

12 junho, 2015

Novidades dos tradicionalistas no Brasil.

Por Manoel Gonzaga Castro* – FratresInUnum.com: O mês de maio foi prenhe de boas notícias para os católicos ligados à liturgia tradicional do sistema Ecclesia Dei/Summorum Pontificum.

Conforme noticiado, 3 de maio foi de fato o último dia da Santa Missa em sua forma extraordinária na Capela do Colégio Monte Calvário em Belo Horizonte, porém Dom Fernando Rifan conseguiu obter do arcebispo Dom Walmor Oliveira de Azevedo um novo local para essas celebrações na capital mineira. Dessa forma, sem interrupção, já em 10 de maio, domingo, o excelso sacrifício foi oferecido na Capela do Colégio Santa Maria. Mais informações sobre o local e os horários das missas em: http://missatridentinabh.blogspot.com.br/

Essa é, sem dúvida, uma excelente notícia para todos os fiéis frequentadores da forma extraordinária em Belo Horizonte, ainda mais considerando a intensificação das visitas dos padres da Administração Apostólica São João Maria Vianney a essa cidade.

Proibido de atuar na capital mineira por Dom Walmor, também como  noticiado, o IBP tem estudado uma expansão para o Nordeste, em locais não atendidos pela Administração. Como palestrante do 1º Congresso Montfort do Nordeste, o Pe. Luiz Fernando Pasquotto esteve recentemente em Recife, onde pôde travar contato com algumas dezenas de fiéis interessados na liturgia tradicional.

Para o maior bem da Santa Igreja, tomara que o IBP consiga se expandir para o Nordeste, dado seu relativo insucesso no Sudeste, muitas vezes motivado por questões não eclesiais.

Bem articulado em todos os seguimentos de tradicionalistas regulares, finalmente, o Pe. Jefferson Pimenta foi nomeado pároco pela Diocese de Santo André. Sua via crucis foi longa. Em um período de cerca de um ano, Pe. Jefferson – que celebra obedientemente as duas formas do rito romano – foi removido duas vezes de posto. Primeiro, da Paróquia Nossa Senhora da Prosperidade, onde empreendia uma grande reforma arquitetônica, e depois da Paróquia São Francisco de Assis. Isso afetou o apostolado do Pe. Jefferson com a forma extraordinária, porque ele acabou afastado de sua base de fiéis desejosos dessa missa, quando foi finalmente transferido para a Paróquia São Judas Tadeu, que fica em Ribeirão Pires – distante cerca de 30Km.

Apesar das dificuldades, Pe. Jefferson iniciou corajosamente o apostolado da forma extraordinária na Paróquia São Judas e agora,  conforme noticiado por Fratres in Unum, terá um novo bispo que, esperamos e rezamos, apoiará suas iniciativas.

Por fim, surgem rumores fortíssimos de que o Pe. Edivaldo Oliveira, considerado filho do falecido e polêmico Professor Orlando Fedeli, está começando uma nova obra, a Fraternidade São Mauro. Segundo os rumores, a nova fraternidade gozará do privilégio de uso exclusivo do chamado Rito Tridentino e receberá vocações masculinas e femininas. A vida religiosa feminina seria comandada pela viúva Ivone Fedeli, segundo informações ainda não oficialmente confirmadas desta que seria uma grande notícia!

Por ora, não há nenhum comunicado público do Reverendíssimo Pe. Edivaldo Oliveira a respeito de qual bispo autorizaria a existência da Fraternidade São Mauro, quais seriam suas prerrogativas e sobre como ela funcionaria.

O Pe. Edivaldo permanece incardinado na Diocese de Ciudad del Este, onde foi ordenado, em em 17 de agosto de 2013, por Dom Rogelio Livieres, que foi vítima de uma dramática deposição em setembro de 2014. Apesar de diocesano de Ciudad del Este, Pe. Edivaldo tem intensa atuação no Brasil, onde permanece boa parte de seu tempo junto ao Colégio São Mauro, em São Paulo, e em Fortaleza.

No final de maio, Pe. Edivaldo celebrou a Santa Missa na Festa Anual da Montfort em Itapetininga, SP, e, com pompa e circunstância, liderou a peregrinação do Colégio São Mauro a Aparecida:

Padre Edivaldo com o Colégio São Mauro em Peregrinação à Aparecida, maio de 2015

Padre Edivaldo com o Colégio São Mauro em Peregrinação a Aparecida, maio de 2015

Rezemos para que a Santa Missa no rito tradicional, juntamente com uma sólida formação doutrinal e moral, seja sempre e cada dia mais difundida no Brasil!

* Fale com o autor: manoelgonzagacastro@gmail.com