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18 novembro, 2021

“Devo dar testemunho dos ritos sagrados da Igreja”.

A seguinte carta aberta ao Papa Francisco foi redigida pelo pe. Wojciech Gołaski OP e publicada originalmente em polonês. A seguir, publicamos a tradução de FratresInUnum.com a partir da versão de Rorate Caeli.

Jamna, Polônia, 17 de agosto de 2021
                                                                        A Sua Santidade Papa Francisco
                                                                        Domus Sanctae Marthae
                                                                        Santa Sé
                                                                        Cidade do Vaticano
Para a atenção de:
Rev. Mestre Geral da Ordem, Gerard Francisco Timoner III OP
Pe. Provincial da Província da Polônia, Paweł Kozacki OP
S.E. Bispo da Diocese de Tarnów, Andrzej Jeż
Rev. Superior da Casa de Jamna, Andrzej Chlewicki OP
Irmãos e Irmãs da Ordem
Rev. Superior do Distrito Polonês da Fraternidade São Pio X, Karl Stehlin FSSPX
Omnes quos res tangit
Beatíssimo Padre,

Pe. Wojciech Gołaski O.P.

Nasci há 57 anos e entrei para a Ordem Dominicana há 35 anos. Fiz meus votos perpétuos há 29 anos e sou sacerdote há 28 anos. Eu tinha apenas vagas lembranças da minha infância da Santa Missa em sua forma anterior às reformas de 1970. Dezesseis anos após minha ordenação, dois amigos leigos (desconhecidos um do outro) me incentivaram a aprender como celebrar a Santa Missa em sua forma tradicional Formato. Eu os escutei.

Foi um choque para mim. Eu descobri que a Santa Missa em sua forma clássica:

– direciona toda a atenção do sacerdote e dos fiéis para o Mistério,

– expressa, com grande precisão de palavras e gestos, a Fé da Igreja no que se passa aqui e agora no altar,
– reforça, com uma força igual à sua precisão, a fé do celebrante e do povo,
– não leva o sacerdote nem o fiel a nenhuma invenção ou criatividade própria durante a liturgia,
– coloca-os, pelo contrário, num caminho de silêncio e contemplação,
– oferece, pela quantidade e natureza de seus gestos, a possibilidade de atos incessantes de piedade e amor para com Deus,
– une o sacerdote e os fiéis, colocando-os do mesmo lado do altar e voltando-os na mesma direção:  versus Crucem, versus Deum .
Disse a mim mesmo: isso sim é a Santa Missa! E eu, um padre por 16 anos, não o sabia! Foi um poderoso eureka , uma descoberta, após o qual minha ideia da missa não poderia permanecer a mesma.
 
Desde o início me ocorreu que esse rito é o oposto do estereótipo. Em vez de formalismo, expressão livre da alma diante de Deus. Em vez de frigidez, o fervor do culto divino. Em vez de distância, proximidade. Em vez de estranheza, intimidade. Em vez de indiferença, segurança. Em vez da passividade dos leigos, sua conexão profunda e viva com o mistério (foi através dos leigos, afinal, que fui conduzido à missa tradicional). Em vez de um abismo entre o sacerdote e os fiéis, uma estreita união espiritual entre todos os presentes, protegida e expressa pelo silêncio do Cânon. Ao fazer esta descoberta, tornou-se claro para mim: esta mesma forma é a nossa ponte para as gerações que viveram antes de nós e nos transmitiram a Fé. Foi enorme a minha alegria nesta unidade eclesial que transcende todos os tempos.
Desde o início, experimentei a poderosa força de atração espiritual da Missa em sua forma tradicional. Não foram os sinais em si que me atraíram, mas o seu significado, que a alma sabe ler. O próprio pensamento da próxima celebração me enchia de alegria. Buscava todas as oportunidades de celebrar com entusiasmo e ansiedade. Muito em breve uma certeza completa amadureceu dentro de mim, que, se eu celebrasse a Missa (assim como todos os sacramentos e cerimônias) apenas em sua forma tradicional até o fim dos meus dias, não sentiria a menor falta da forma pós-conciliar.
Se alguém tivesse me pedido para expressar com uma única palavra meus sentimentos sobre a celebração tradicional no contexto do rito reformado, eu teria respondido “alívio”. Pois foi realmente um alívio, de profundidade indescritível. Era como quem, tendo caminhado a vida toda calçado com uma pedrinha que esfrega e irrita os pés, mas que não tem outra experiência de caminhada, lhe é oferecido, 16 anos depois, um par de sapatos sem pedrinha e as palavras: “Aqui”, “Coloque-os”, “experimente!” 
Não só redescobri a Santa Missa, mas também a surpreendente diferença entre as duas formas: a que estava em uso há séculos e a pós-conciliar. Eu não sabia dessa diferença porque não conhecia a forma anterior. Não posso comparar meu encontro com a liturgia tradicional a um encontro com alguém que me adotou e se tornou meu pai adotivo. Foi um encontro com uma Mãe que sempre foi minha Mãe, embora eu não a tivesse conhecido.
Em tudo isso, fui acompanhado pela bênção dos Sumos Pontífices. Eles haviam ensinado que o missal de 1962 “nunca fora legalmente ab-rogado e permaneceu, portanto, em princípio, sempre permitido”, acrescentando que “o que havia sido sagrado para as gerações anteriores permanece sagrado e grande também para nós, e não poderia de repente se tornar completamente proibido nem mesmo considerado prejudicial. Cabe a todos nós preservar as riquezas que se desenvolveram pela Fé e a oração da Igreja e dar-lhes o seu devido lugar ”(Bento XVI, Carta aos Bispos, 2007). Aos fiéis também foi ensinado: “Por seu uso venerável e antigo, a forma extraordinaria deve ser mantida com a honra que lhe é devida”; foi descrito como “um tesouro precioso a ser preservado” (Instrução Universae Ecclesiae, 2011). Estas palavras seguiram documentos anteriores que possibilitaram aos fiéis o uso da liturgia tradicional após as reformas de 1970, sendo o primeiro Quattuor abhinc annos de 1984. O fundamento e a fonte de todos esses documentos continua sendo a Bula de São Pio V, Quo primum tempore (1570).
Santo Padre, se, sem esquecer o documento solene do Papa Pio V, levarmos em consideração o lapso de tempo que abrange as declarações de seus predecessores imediatos, temos uma duração de 37 anos, de 1984 a 2021, durante os quais a Igreja disse aos fiéis, no que diz respeito à liturgia tradicional, e cada vez mais fortemente: “Existe tal caminho. Você pode caminhar por eele.”
Portanto, tomei o caminho que a Igreja me ofereceu.
Quem percorre este caminho – quem quer que este rito, que é o vaso da divina Presença e da divina Oblação, dê fruto na sua própria vida – deve abrir-se inteiramente para se entregar a si e aos outros a Deus, presente e agindo em nós através do vaso deste rito sagrado. Fiz isso com total confiança.
Então veio o dia 16 de julho de 2021.
Pelos seus documentos, Santo Padre, soube que o caminho que percorri durante 12 anos deixou de existir.
Temos afirmações de dois papas. Sua Santidade Bento XVI havia dito que o Missal Romano promulgado por São Pio V “deve ser considerado a expressão extraordinária da lex orandi da Igreja Católica de Rito Romano”. No entanto, Sua Santidade o Papa Francisco diz que “os livros litúrgicos promulgados pelos Papas São Paulo VI e São João Paulo II (…) são a única expressão da lex orandi do Rito Romano.” A afirmação do sucessor, portanto, nega a de seu predecessor ainda vivo.
Pode uma certa forma de celebrar a Missa, confirmada por uma Tradição centenária e imemorial, reconhecida por cada Papa, incluindo o senhor, Santo Padre, até 16 de julho de 2021, e santificada por sua prática ao longo de tantos séculos, de repente deixar de ser a lex orandi do Rito Romano? Se assim fosse, significaria que tal característica não é intrínseca ao rito, mas é um atributo externo, sujeito às decisões de quem ocupa cargos de alta autoridade. Na realidade, a liturgia tradicional exprime a lex orandi do rito romano por cada gesto e por cada frase e pelo conjunto que eles compõem. É garantido também expressar esta lex orandi, como a Igreja sempre defendeu, por conta do seu uso ininterrupto, desde tempos imemoriais. Devemos concluir que a primeira afirmação papal [de Bento] tem bases sólidas e é verdadeira e que a segunda [de Francisco] é infundada e falsa. Mas apesar de ser falso, ainda assim é dado poder de lei. Isso tem consequências sobre as quais escreverei a seguir.

As concessões relativas ao uso do Missal de 1962 agora têm um caráter diferente das anteriores. Não se trata mais de responder ao amor com que os fiéis aderem à forma tradicional, mas de dar tempo aos fiéis – quanto tempo, não nos é dito – para “voltar” à liturgia reformada. As palavras do Motu Proprio e da sua Carta aos Bispos deixam perfeitamente claro que foi tomada, e já está a ser implementada, a decisão de retirar a liturgia tradicional da vida da Igreja e lançá-la no abismo do esquecimento: não pode ser usado nas igrejas paroquiais, novos grupos não devem ser formados, Roma deve ser consultada para que novos padres a rezem. Os bispos devem agora ser Traditionis Custodes, “Guardiães da Tradição”, mas não no sentido de guardiões que a protegem, mas sim no sentido de guardiões de uma prisão.

Permita-me expressar minha convicção de que isso não acontecerá e que a operação irá falhar. Quais são os motivos desta convicção? Uma análise cuidadosa de ambas as Cartas de 16 de julho expõe quatro componentes: hegelianismo, nominalismo, crença na onipotência do Papa e responsabilidade coletiva. Cada um é um componente essencial de sua mensagem e nenhum deles pode ser conciliado com o depósito da Fé católica. Visto que não podem ser reconciliados com a Fé, não serão integrados a ela nem na teoria nem na prática. Vamos examinar cada um deles por vez.

1) HegelianismoO termo é convencional: não significa literalmente o sistema do filósofo alemão Hegel, mas algo que deriva desse sistema, ou seja, a compreensão da história como um processo bom, racional e inevitável de mudanças contínuas. Essa forma de pensar tem uma longa história, de Heráclito e Plotino, a Joaquim de Fiore, até Hegel, Marx e seus herdeiros modernos. A característica dessa abordagem é dividir a história em fases, de forma que o início de cada nova fase se junte ao final da anterior. As tentativas de “batizar” o hegelianismo nada mais são do que tentativas de dotar essas supostas fases históricas da autoridade do Espírito Santo. Presume-se que o Espírito Santo comunica à próxima geração algo que Ele não falou para a anterior, ou mesmo que Ele comunica algo que contradiz o que Ele disse antes. No último caso, devemos aceitar uma das três coisas: ou em certas fases a Igreja falhou em obedecer ao Espírito Santo, ou o Espírito Santo está sujeito a mudanças, ou Ele carrega contradições dentro de si.

Outra consequência dessa visão de mundo é uma mudança na forma como entendemos a Igreja e a Tradição. A Igreja já não é vista como uma comunidade que une os fiéis e transcende o tempo, como afirma a Fé católica, mas como um conjunto de grupos pertencentes às várias fases. Esses grupos não têm mais uma linguagem comum: nossos ancestrais não tinham acesso ao que o Espírito Santo nos diz hoje. A própria Tradição não é mais uma mensagem continuamente estudada; consiste antes em receber continuamente coisas novas do Espírito Santo. Em vez disso, passamos a ouvir, como em sua Carta aos Bispos, Santo Padre, da“dinâmica da Tradição”, muitas vezes com uma aplicação a eventos específicos. Um exemplo disso é quando o senhor escreve que a “última etapa desta dinâmica é o Concílio Vaticano II, durante o qual os bispos católicos se reuniram para ouvir e discernir o caminho mostrado à Igreja pelo Espírito Santo”. Esta linha de raciocínio implica que uma nova fase requer novas formas litúrgicas, porque as anteriores eram adequadas à fase anterior, que acabou. Uma vez que essa sequência de estágios é sancionada pelo Espírito Santo, por meio do Concílio, aqueles que se apegam às formas antigas, apesar de terem acesso às novas, se opõem ao Espírito Santo.

Essas opiniões, no entanto, são contrárias à Fé. A Sagrada Escritura, norma da Fé católica, não fornece nenhuma base para tal compreensão da história.Em vez disso, ensina-nos uma compreensão totalmente diferente. O Rei Josias, tendo sabido da descoberta do antigo livro da Lei, ordenou que a celebração da Páscoa fosse conduzida de acordo com ela, apesar de uma interrupção de meio século (2 Rs 22-23). Da mesma forma, Esdras e Neemias no retorno do cativeiro babilônico celebraram a Festa dos Tabernáculos com todo o povo, estritamente de acordo com os antigos registros da Lei, apesar de muitas décadas terem se passado desde a celebração anterior (Ne 8). Em cada caso, os antigos documentos da lei foram usados ​​para renovar o culto divino após um período de turbulência. Ninguém exigiu uma mudança no ritual com o fundamento de que novos tempos haviam chegado.

2) Nominalismo. Enquanto o hegelianismo influencia a compreensão da história, o nominalismo afeta a compreensão da unidade. O nominalismo implica que introduzir unidade externa (por meio de uma decisão administrativa de cima para baixo) é equivalente a alcançar a unidade real. Isso ocorre porque o nominalismo abole a realidade espiritual, procurando apreendê-la e regulá-la com medidas materiais. O senhor escreve, Santo Padre, que: “É para defender a unidade do Corpo de Cristo que sou forçado a retirar a faculdade concedida pelos meus predecessores”. Mas para alcançar esse objetivo, a verdadeira unidade, seus antecessores tomaram a decisão oposta, e não sem razão. Quando se compreende que a verdadeira unidade inclui algo espiritual e interno e, portanto, difere da mera unidade externa, não se busca mais simplesmente a uniformidade dos signos externos. Não obtemos verdadeira unidade desta forma.

A unidade não resulta da retirada de faculdades, da revogação do consentimento e da imposição de limitações. O rei Roboão, de Judá, antes de decidir como tratar os israelitas, que desejava que ele melhorasse sua sorte, consultou dois grupos de conselheiros. Os mais velhos recomendavam clemência e redução dos fardos das pessoas: a idade, na Sagrada Escritura, muitas vezes simboliza a maturidade. Os jovens, que eram contemporâneos do rei, recomendavam o aumento de seus fardos e o uso de palavras duras: juventude, nas Escrituras, muitas vezes simboliza imaturidade. O rei seguiu o conselho dos jovens. E falhou em trazer unidade entre Judá e Israel. Ao contrário, deu início à divisão do país em dois reinos (1Rs 12). Nosso Senhor curou essa divisão por meio da brandura, sabendo que a falta dessa virtude havia causado a divisão.

Antes do Pentecostes, os apóstolos avaliavam a unidade por critérios externos. Esta abordagem foi corrigida pelo próprio Salvador, que, em resposta às palavras de São João: “Mestre, vimos um homem expulsar os espíritos malignos em teu nome e não o deixamos fazê-lo, porque ele não era um de nós ”, respondeu“ Deixe-o, porque quem não é contra vós está convosco ”(Lc 9,49-50, cf. Mt 9,38-41). Santo Padre, o senhor teve muitas centenas de milhares de fiéis que “não eram contra” o senhor. E fez muito para tornar as coisas difíceis para eles! Não teria sido melhor seguir as palavras do Salvador indicando um fundamento espiritual de unidade mais profundo? O hegelianismo e o nominalismo freqüentemente tornam-se aliados, pois a compreensão materialista da história leva à convicção de que cada etapa deve terminar irrevogavelmente.

3) Crença na onipotência do Papa. Quando o Papa Bento XVI concedeu maior liberdade para o uso da forma clássica da liturgia, ele se referiu a um costume e séculos de uso. Isso forneceu uma base sólida para sua decisão. A decisão de Vossa Santidade não se baseia em tais fundamentos. Pelo contrário, revoga algo que existe e dura há muito tempo.  O senhor escreve, Santo Padre, que encontra apoio nas decisões de São Pio V, mas ele aplicou critérios exatamente opostos aos seus. Segundo ele, o que existiu e durou séculos continuaria sem ser perturbado; apenas o que era mais recente foi revogado. A única base que resta para sua decisão é, portanto, a vontade de uma pessoa dotada de autoridade papal. Pode esta autoridade, embora, por maior que seja, impedir que os antigos costumes litúrgicos sejam uma expressão da lex orandi da Igreja Romana? Santo Tomás de Aquino se pergunta se Deus pode fazer com que algo que existiu nunca tenha existido. A resposta é não, porque a contradição não faz parte da onipotência de Deus (Summa Theologiae , p. I, qu. 25, art. 4). Da mesma forma, a autoridade papal não pode fazer com que rituais tradicionais que tenham expressado a Fé da Igreja ( lex credendi ) por séculos, de repente, um dia, não mais expressem a lei da oração da mesma Igreja ( lex orandi ). O Papa pode tomar decisões, mas não aquelas que violam uma unidade que se estende ao passado e ao futuro, muito além da duração de seu pontificado. O Papa está ao serviço de uma unidade maior do que a sua autoridade. Pois é uma unidade dada por Deus e não de origem humana. Portanto, é a unidade que tem precedência sobre a autoridade, e não a autoridade sobre a unidade.

4) Responsabilidade coletiva. Indicando os motivos da sua decisão, Santo Padre, o senhor faz várias e graves acusações contra aqueles que exercem as faculdades reconhecidas pelo Papa Bento XVI. Não é especificado, entretanto, quem comete esses abusos, nem onde, nem em que número. Existem apenas as palavras “frequentemente” e “muitos”. Nem sabemos se é maioria. Provavelmente não. Ainda que não a maioria, mas todos aqueles que fazem uso das faculdades acima mencionadas, foram afetados por uma sanção penal draconiana. Eles foram privados de seu caminho espiritual, imediatamente ou em algum momento futuro não especificado. Certamente há pessoas que fazem mau uso de facas. Deve a produção e distribuição de facas, portanto, ser proibida? Sua decisão, Santo Padre, é muito mais grave do que seria o hipotético absurdo de uma proibição universal de fazer facas.

Santo Padre: por que está fazendo isso? Por que  atacou a sagrada prática da antiga forma de celebrar o Santíssimo Sacrifício de Nosso Senhor? Os abusos cometidos sob outras formas, por mais difundidos ou universais que sejam, não conduzem a nada além de palavras, a declarações expressas em termos gerais. Mas como se pode ensinar com autoridade que “o desaparecimento de uma cultura pode ser tão grave, ou até mais grave, do que o desaparecimento de uma espécie de planta ou animal” ( Laudato si  145), e alguns anos depois, com um único ato, destinar à extinção grande parte do patrimônio espiritual e cultural da própria Igreja? Por que as regras de “ecologia profunda” formuladas pelo senhor não se aplicam neste caso?Em vez disso, por que não perguntou se o número cada vez maior de fiéis que assistem à liturgia tradicional poderia ser um sinal do Espírito Santo? O senhor não seguiu o conselho de Gamaliel (Atos 5). Em vez disso, o senhor os atingiu com uma proibição que nem mesmo tinha vacatio legis .

O Senhor Deus, modelo para os governantes terrenos e, em primeiro lugar, para as autoridades da Igreja, não usa Seu poder dessa forma. A Sagrada Escritura fala assim a Deus: “Porque o teu poder é o princípio da justiça: e porque tu és o Senhor de todos, te fazes misericordioso para com todos (…) Mas tu, sendo dono do poder, julgas, e com grande favor, livra-nos de nós : porque o teu poder está perto quando a tua vontade ”(Sb 12, 16-18). O verdadeiro poder não precisa se provar com aspereza. E a severidade não é um atributo de qualquer autoridade que segue o modelo divino. O próprio Salvador nos deixou um ensinamento preciso e confiável sobre isso (Mt 20,24-28). Não apenas o tapete foi puxado, por assim dizer, debaixo dos pés das pessoas que caminhavam em direção a Deus; foi feita uma tentativa de privá-los do próprio terreno em que pisam. Esta tentativa não terá sucesso. Nada que esteja em conflito com o catolicismo será aceito na Igreja de Deus.

Santo Padre, é impossível experimentar o solo sob os pés por 12 anos e de repente afirmar que ele não está mais lá. É impossível concluir que minha própria mãe, encontrada depois de muitos anos, não é minha mãe. A autoridade papal é imensa. Mas mesmo esta autoridade não pode fazer minha mãe deixar de ser minha mãe! Uma única vida não pode suportar duas rupturas mutuamente exclusivas, uma das quais abre um tesouro, enquanto a outra afirma que esse tesouro deve ser abandonado porque o seu valor expirou. Se eu aceitasse essas contradições, não poderia mais ter nenhuma vida intelectual, nem, portanto, nenhuma vida espiritual. A partir de duas declarações contraditórias, qualquer afirmação, verdadeira ou falsa, pode ser feita a seguir. Isso significa o fim do pensamento racional, o fim de qualquer noção de realidade, o fim da comunicação efetiva de qualquer coisa a qualquer pessoa. Mas todas essas coisas são componentes básicos da vida humana em geral e da vida dominicana em particular.

Não tenho dúvidas sobre minha vocação. Estou firmemente decidido a continuar minha vida e serviço dentro da Ordem de São Domingos. Mas, para fazer isso, devo ser capaz de raciocinar correta e logicamente. Depois de 16 de julho de 2021, isso não é mais possível para mim dentro das estruturas existentes. Vejo com toda a clareza que o tesouro dos santos ritos da Igreja, o solo sob os pés de quem os pratica e a mãe da sua piedade, continua a existir. Tornou-se igualmente claro para mim que devo testemunhar isso.

Não me resta escolha senão voltar-me para aqueles que, desde o início das mudanças radicais (mudanças, note-se, que vão muito além da vontade do Concílio Vaticano II), defenderam a Tradição da Igreja, juntos com o respeito da Igreja pelas exigências da razão e que continuam a transmitir aos fiéis o depósito imutável da Fé católica: a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. A FSSPX mostrou-se disposta a aceitar-me, respeitando plenamente a minha identidade dominicana. Proporciona-me não só uma vida de serviço a Deus e à Igreja, um serviço não impedido por contradições, mas também a oportunidade de me opor às contradições que são inimigas da Verdade e que atacaram a Igreja com tanto vigor.

Existe uma situação de controvérsia entre a FSSPX e as estruturas oficiais da Igreja. É uma disputa interna da Igreja e diz respeito a assuntos de grande importância. Os documentos e as decisões de 16 de julho fizeram com que minha posição sobre este assunto convergisse com a da FSSPX. Como no caso de qualquer disputa importante, esta também deve ser resolvida. Estou determinado a dedicar meus esforços para esse fim. Pretendo que esta carta seja parte desse esforço. Os meios usados ​​só podem ser um humilde respeito pela Verdade e gentileza, ambos provenientes de uma fonte sobrenatural. Assim, podemos esperar a solução da controvérsia e a reconstrução de uma unidade que abrangerá não apenas os que vivem agora, mas também todas as gerações, passadas e futuras.

Agradeço-lhe a atenção que dispensou às minhas palavras e rogo, Santíssimo Padre, a sua bênção apostólica.

Com devoção filial em Cristo,
Fr. Wojciech Gołaski, OP
18 julho, 2021

De ‘Summorum Pontificum’ a ‘Traditionis Custodes’. Ou, da reserva ao zoológico.

Por FSSPX News | Tradução: FratresInUnum.com, 17 de julho de 2021: O Papa Francisco publicou ontem um Motu Proprio cujo título poderia nos encher de esperança: Traditionis custodes, “Guardiões da Tradição”. Sabendo que este texto é dirigido aos bispos, poder-se-ia começar a sonhar: acaso a Tradição está em vias de recuperar seus direitos da Igreja?

Pelo contrário.  Este novo Motu Proprio realiza uma aniquilação. Ilustra a precariedade do atual magistério e indica a data de validade de  Summorum Pontificum de Bento XVI, que não poderá nem mesmo comemorar seu décimo quinto aniversário.

Tudo, ou quase tudo, de Summorum pontificum foi disperso, abandonado ou destruído. Além disso, o objetivo é claramente declarado na carta que acompanha esta aniquilação.

O Papa enumera dois princípios «sobre o modo de proceder nas dioceses»: «por um lado, proporcionar o bem a quem está enraizado na forma anterior de celebração e que necessita de tempo para regressar ao rito romano promulgado por S. Paulo VI e João Paulo II”.

E, por outro lado: “interromper a ereção de novas paróquias pessoais, ligadas mais ao desejo e à vontade individual dos sacerdotes do que à necessidade real do ‘santo povo fiel de Deus’”.

Uma aniquilação programada

Enquanto Francisco se torna o defensor das espécies animais ou vegetais ameaçadas, ele decide e promulga a extinção daqueles que estão apegados ao rito imemorial da Santa Missa. Esta espécie não tem mais o direito de viver: deve desaparecer. E todos os meios serão usados ​​para alcançar este resultado.

Primeiro, uma redução estrita da liberdade. Até agora, os espaços reservados para o rito antigo possuíam uma certa latitude de movimento, muito semelhante às reservas naturais. Hoje, passamos para o regime de zoológico: gaiolas, bem confinadas e delimitadas. Seu número é estritamente monitorado e, uma vez instalado, será proibido criar mais. 

Os guardiães (ou deveríamos dizer os carcereiros?) não são outros senão os próprios bispos.

Tudo isso está especificado no artigo 3, parágrafo 2: “o bispo deve indicar um ou mais lugares onde os fiéis pertencentes a estes grupos possam se reunir para a celebração da Eucaristia (não em igrejas paroquiais e sem erigir novas paróquias pessoais)”.

O regulamento interno destas celas é estritamente controlado (artigo 3º, parágrafo 3º): “O bispo fixará no local indicado os dias em que são permitidas as celebrações eucarísticas, utilizando o Missal Romano promulgado por São João XXIII em 1962.”

Este controle se estende ao menor detalhe (idem): “Nessas celebrações, as leituras serão proclamadas no vernáculo, utilizando as traduções da Sagrada Escritura para uso litúrgico, aprovadas pelas respectivas Conferências Episcopais”. Nem se fale em tradução de um lecionário de outrora.

A eutanásia está prevista para espécimes considerados inaptos para cuidados paliativos (artigo 3º, parágrafo 5º): “O bispo procederá, nas paróquias pessoais canonicamente erigidas em benefício destes fiéis, uma avaliação adequada de sua real utilidade para o crescimento espiritual, e decidirá se as mantêm ou não”.

Além disso, a reserva é eliminada em sua totalidade, pois a comissão Ecclesia Dei desaparece (artigo 6): “Os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, instituídos pela Pontifícia Comissão  Ecclesia Dei,  passam a ser da competência da Congregação para o Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica”.

Proibido para imigrantes

Enquanto o Papa não deixa de cuidar de todos os tipos de imigrantes, nas prisões que agora ele instala qualquer tipo de imigração é estritamente proibida.

Para evitar a constituição de reservas indígenas, o Papa proíbe qualquer expansão da prisão (artigo 3º, parágrafo 6º): “O bispo (…) terá o cuidado de não autorizar a criação de novos grupos”.

Essa medida também se assemelha à esterilização: é proibida a reprodução e a perpetuação desses selvagens do passado que devem desaparecer.

Esta esterilização também diz respeito aos padres que serão ordenados no futuro (artigo 4): “Os padres ordenados após a publicação do presente Motu Proprio, que desejam celebrar com o Missale Romanum de 1962, devem apresentar um pedido formal ao bispo diocesano, que consultará a Sé Apostólica antes de conceder autorização”.

Quanto aos padres que já beneficiam de autorização, a partir de agora necessitarão de uma renovação do seu visto de “celebração”, que se assemelha a um visto temporário (artigo 5º): “padres que já celebram segundo o  Missale Romanum de  1962 pedirão ao bispo diocesano autorização para continuar a manter essa faculdade”.

Portanto, quando se trata de conter, reduzir ou mesmo destruir esses grupos, os bispos têm carta branca, mas se for preciso autorizar [que um novo padre celebre a Missa], o Papa não confia neles: é preciso passar por Roma.

Enquanto dezenas de padres, muitas vezes apoiados por seus bispos, zombavam da Congregação para a Doutrina da Fé ao “abençoar” casais homossexuais sem qualquer reação romana, exceto a aprovação velada de Francisco por meio de uma mensagem ao Padre [James] Martin [ndt: jesuíta americano defensor do gayzismo em todas as modalidades], os futuros padres serão observados de perto se eles considerarem celebrar a Missa de São Pio V.

Obviamente, é mais fácil esconder sua falta de autoridade aterrorizando os fiéis que não resistirão, do que controlar o cisma alemão. Como se não houvesse nada mais urgente do que atingir essa parte do rebanho…

Vacinação contra o lefebvrismo

O grande temor da contaminação pelo vírus Lefebvrista é exorcizado com a vacina obrigatória Vaticano II – do Laboratório Moderno – (artigo 3º, parágrafo 1º): “O bispo verificará se esses grupos não excluem a validade e legitimidade da reforma litúrgica, das disposições do Concílio Vaticano II e do Magistério dos Sumos Pontífices”.

E tudo o que poderia ser uma potencial fonte de contágio é brutalmente eliminado (artigo 8º): “Revogam-se as normas anteriores, instruções, concessões e costumes que não observem o disposto neste Motu Proprio”.

Levado pelo entusiasmo, o Papa diz praticamente que a missa antiga é um vírus perigoso do qual é preciso proteger-se. Por exemplo, o artigo 1 especifica: “Os livros litúrgicos promulgados pelos Sumos Pontífices Paulo VI e João Paulo II, de acordo com os decretos do Concílio Vaticano II, são a única expressão da lex orandi do Rito Romano.”

Se o Novus ordo é a única expressão da lex orandi , como qualificar a Missa Tridentina? Está em um limbo litúrgico ou canônico? Esta missa não tem direito ao lugar ainda ocupado pelo rito dominicano, pelo rito ambrosiano ou pelo rito Lyon na Igreja latina?

É o que se depreende do que diz o Papa na carta que acompanha o Motu proprio. Parece que, sem suspeitar do paralogismo que comete, escreve: «Consolo-me nesta decisão que, depois do Concílio de Trento, São Pio V também revogou todos os ritos que não podiam gabar-se de comprovada antiguidade, estabelecendo um Missale Romanum único  para toda a Igreja latina. Durante quatro séculos, este Missale Romanum  promulgado por São Pio V foi, portanto, a expressão principal da  lex orandi  do rito romano, cumprindo uma função unificadora na Igreja”.

A conclusão lógica que se segue dessa comparação é que esse rito deve ser mantido. Ainda mais quando a bula Quo primum de São Pio V o protege de qualquer ataque.

Isso também foi confirmado pela comissão de cardeais reunida por João Paulo II, que afirmou, quase unanimemente (8 de 9), que nenhum bispo poderia impedir um padre de celebrar a missa antiga, depois de ter unanimemente observado que esta última nunca tinha sido ab-rogada.

E que também é confirmado pelo que o Papa Bento XVI aceitou e ratificou em Summorum Pontificum .

No entanto, para Francisco, os antigos ritos defendidos por São Pio V, incluindo a chamada Missa Tridentina, aparentemente não têm valor unificador. O novo rito, e só ele, com seus cinquenta anos de existência, suas infinitas variações e seus inúmeros abusos, é capaz de dar unidade litúrgica à Igreja. A contradição é gritante.

Voltando à sua ideia de eliminação das espécies, o Papa escreve aos bispos: «Antes de tudo, corresponde a vós trabalhar pelo regresso a uma forma única de celebração, verificando caso a caso a realidade dos grupos que celebram com este Missale Romanum “.

Uma lei claramente oposta ao bem comum

A visão geral que emerge desses documentos – o Motu Proprio e carta anexa do Papa – dá a impressão de sectarismo acompanhado de um manifesto abuso de poder.

A Missa Tradicional pertence à parte mais íntima do bem comum da Igreja, portanto, restringindo-a, rejeitando-a, jogando-a em guetos e, em última instância, planejando seu desaparecimento, não se pode ter qualquer legitimidade. Esta lei não é uma lei da Igreja, porque, como diz Santo Tomás, uma lei não pode ser válida se violar o bem comum. 

Mas há algo mais nas entrelinhas, um tom evidente da maldade manifestada por certos fanáticos furiosos da reforma litúrgica contra a Missa Tradicional. O fracasso desta reforma é revelado, como no claro-escuro, pelo sucesso da Tradição e da Missa Tridentina.

É por isso que eles não podem aceitá-la. Sem dúvida, eles imaginam que seu desaparecimento total fará com que os fiéis retornem às igrejas esvaziadas do sagrado. Erro trágico. O magnífico ápice desta celebração digna de Deus só realça ainda mais a sua indigência: ela não é a causa da desertificação produzida pelo novo rito.

A verdade é que este Motu Proprio, que mais cedo ou mais tarde acabará no esquecimento na história da Igreja, não é em si uma boa notícia: marca um golpe na reapropriação da Igreja com sua Tradição, e atrasará o fim da crise que já dura mais de sessenta anos.

Quanto à Fraternidade São Pio X, ela vê nele uma nova razão de fidelidade ao seu fundador, Dom Marcel Lefebvre, e de sua admiração por sua clarividência, sua prudência e sua fé.

Embora a Missa tradicional esteja em vias de ser eliminada e as promessas feitas às sociedades Ecclesia Dei também estejam a ser cumpridas, a Fraternidade São Pio X encontra na liberdade que lhe foi legada pelo Bispo de ferro a possibilidade de continuar a luta pela Fé e pelo Reinado de Cristo Rei.

7 maio, 2021

Carta aberta do Pe. Paul Aulagnier (+ 06-05-2021) do IBP ao Papa Bento XVI.

Faleceu ontem padre Paul Aulagnier, um dos fundadores do Instituto do Bom Pastor e dos primeiros discípulos de dom Lefebvre. Há diversas publicações dele no histórico de nosso blog — a seguir, republicamos um post de 2009. RIP.

Original em La Revue Item

Tradução de Marcelo de Souza e Silva

Santíssimo Padre,

Permiti-me dirigir-me a vós com toda simplicidade de coração, com toda lealdade num espírito filial. Permiti-me expressar minha inquietação… desta maneira em uma «carta aberta», minha estupefação sobre um ponto preciso: a condenação de Dom Lefèbvre. Não compreendo porque vós não reexaminais este assunto.

Esta é a razão desta minha defesa.

Vós bem sabeis que ele foi um grande prelado, um grande missionário. Delegado apostólico para a África de língua francesa. Ele foi o grande defensor da Igreja em terras africanas. Deixou, quando de lá partiu, uma obra extraordinária. Tal é o reconhecimento de todos. Tudo isso postula em seu favor.

Tendo ele retornado à França, foi nomeado pelo Papa João XXIII, Arcebispo-bispo de Tulle, pôs-se então à tarefa sem ressentimentos e com o mesmo zelo que na África. Uma única coisa lhe interessava: servir a Igreja na fidelidade ao Sumo Pontífice. Apenas nomeado para a diocese de Tulle, ele foi eleito superior geral da Congregação dos Padres do Espírito Santo, uma congregação forte que contava mais de cinco mil membros no mundo todo.

O Concílio Ecumênico do Vaticano II fora então convocado pelo Papa João XXIII. Enquanto superior geral ele participou das sessões preparatórias do Concílio. Ele nos contou tudo… assim que tivemos a graça de conhecê-lo primeiro em Roma depois e em seguida em Ecône.

Abbé Paul AulagnierDolorosamente afetado pela crise sacerdotal, pelo colapso das vocações no Ocidente e pela perda do senso sacerdotal, tendo sido liberado de todas as suas responsabilidades – ele apresentou sua demissão, Roma o aconselhara a tal – ele decidiu enfim fazer de tudo para lutar contra. Fundou seu seminário em Friburgo com a autorização episcopal de Dom Charrière e com os encorajamentos do Cardeal Journet. Ele criou seu instituto sacerdotal: a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, sempre com a autorização de Dom Charrière, Bispo de Friburgo-Lausanne-Genebra. Que alegria foi a sua logo que recebeu o decreto do bispo! Uma alegria própria da Igreja! Ele nos ensinou a grandeza do sacerdócio, seu papel, seu sentido.  Ele nos fez apreciar o tesouro da Missa, da Missa Católica. Ele nos fez relembrar sua finalidade, seus frutos e sua importância para o sacerdote e para os fiéis. Ele nos deu desde o coração até a obra um «moral de ferro». Ele multiplicou seus contatos para permitir a expansão de sua obra. Ele era incansável.

Chegou o ano de 1969, abril de 1969. Deu-se a publicação da Constituição Missale Romanum e do novo rito da Missa, a Nova Missa de Paulo VI. Terrível reforma litúrgica… contestada, contestável, que ia abalar desde as bases ao cume a Santa Igreja e sua unidade.

Teólogos se levantaram para se opor a aquilo, cardeais também. Intelectuais de renome fizeram ouvir sua voz. Para citar apenas um nome, permiti que eu invoque o Cardeal Ottaviani. Em uma carta ao Sumo Pontífice, Paulo VI, ele lhe apresentou uma crítica ao novo rito pedindo-lhe «ab-rogar este novo rito ou, ao menos, não privar o orbe católico, da possibilidade de continuar a recorrer à integridade e fecundidade do Missal Romano de São Pio V». Tudo isso provocou grande celeuma. Dom Lefèbvre tomou posição tarde demais.

Foi somente em 2 de junho de 1971 que ele reuniu em Ecône seu corpo docente e os seminaristas. No dia seguinte, ele foi ter com «os teólogos» e os seminaristas. Ele expôs sua posição. Explicou sua intransigência, seu «non possumus», com argumentos claros. Ele nos deixou, ao fim desta conferência, um texto, um pequeno texto que resumia sua corrente de pensamento. Naquela época, eu, seminarista, guardei ciosamente esse texto. Com freqüência eu o lia e relia. A posição de nosso fundador é simples, doutrinal, fundamentada sobre a mais segura teologia, sobre os decretos solenes do Concílio de Trento e sobre os princípios do Direito Canônico. Esta posição era púbica. Ela está escrita. Nas conferências ele jamais cessou de explicá-la e de justificá-la.

Ora, foi em razão dessa posição sobre a Missa que Dom Lefèbvre foi condenado.

Sua fundação foi tratada inicialmente como «selvagem». O primeiro a pronunciar tal termo foi Dom Etchegaray. Ele era naquela época Arcebispo de Marselha… Primeira afirmação falsa: Seu seminário não tinha nada de selvagem, tampouco seu instituto. «Tudo» foi aprovado por Dom Charrière, por Dom Adam. A fundação de Albano gozou do beneplácito do bispo local. Nada de «selvagem» a bem da verdade. Muito ao contrário, Dom Lefèbvre, como homem da Igreja, respeitador de suas leis, quis fazer tudo de acordo com as autorizações necessárias. E foi assim que ele fez. Mas pouco importava, ele não estava mais na linha. Porque ele não queria seguir cegamente as reformas conciliares… Tendo ele impedido que se voltasse atrás, era necessário desacreditá-lo. Suas fundações só poderiam ser classificadas como selvagens e condenadas.

Iniciava-se o ciclo infernal.

Então teve lugar uma visita canônica. Dom Onclin e Dom Deschamps foram enviados de Roma. Eles tinham propostas «novas» de tal forma que Dom Lefèbvre precisou protestar logo que ambos partiram. Foi quando surgiu então seu protesto de Fé de 24 de Novembro de 1974. Deus! Como tal declaração fez jorrar tinta! Como foi comentada! No exterior e no interior… e pelo próprio corpo docente. Era necessário que Dom Lefèbvre se retratasse. «Ele assinara sua própria condenação»… E foi então intimado em Roma diante de uma comissão «ad hoc», diante do Cardeal Garonne, Cardeal Wright e Cardeal Tabera. Eles tentaram convencê-lo da «futilidade» de sua posição. Tentativa inútil. Eles não imaginaram que encontrariam tamanha segurança, tamanha força, a força simples da doutrina católica, amada mais que a si mesmo.

Não podendo convencê-lo, era necessário esmagá-lo. Assim, sobrevieram-lhe as sanções canônicas. As pressões psicológicas foram terríveis a princípio.

Houve a ameaça de se fechar o seminário da Fraternidade. Como as ameaças não o detiveram, delas se passou para as sanções. E foi Dom Mamie, Bispo de Friburgo, que tomou a frente em tudo isso. Ao pobre, foi-lhe dada ordem de não realizar as ordenações do dia 29 de Junho de 1976. Terrível dilema do qual eu fui uma testemunha privilegiada. Na noite do dia 28, em meu escritório, ele ainda buscava uma solução… pesava os prós e os contras… A festa já se aproximava com todo seu fulgor.

Tudo estava pronto… «apesar de tudo, dizia-me ele, podemos ainda não fazer as ordenações». Ele era de uma calma suprema, tranqüilo. E no dia 29, diante de uma imensa multidão, ele explicou sua atitude. Ele falou com clareza e sem meios termos: nossa fidelidade à missa de sempre, à missa codificada, e mesmo canonizada por São Pio V é a causa de nossas dificuldades com Roma.

A sanção canônica sobreveio em 22 de Julho de 1976. Ele foi declarado «suspenso a divinis». Ele não poderia exercer nenhum poder inerente ao seu estado sacerdotal e episcopal. Em Lille, aos 29 de Agosto de 1976, ele explicou tudo novamente. Ele falou abertamente da reforma litúrgica, da reforma da missa, da missa «equívoca». Foi lá que ele falou da missa «híbrida»: «a Nova Missa é uma espécie de missa híbrida que não é hierárquica, mas democrática, onde a assembléia ocupa lugar mais importante que o sacerdote». Pode-se resumir a posição de Dom Lefèbvre dizendo que ele rejeita a nova missa porque ela é equívoca, mais protestante que católica, distante da Tradição católica e até mesmo em total ruptura com a Tradição e os dogmas católicos.

E o conflito perdurou. Hoje, vós sois a autoridade. É por isso que eu me dirijo a vós. Vós tendes mantido a condenação de Dom Lefèbvre, de sua fundação, de seus sacerdotes porque eles querem permanecer fiéis a esta Missa católica para salvaguardar sua Fé, garantia da eternidade.

No entanto, vós, quando éreis cardeal, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, vós vos tornastes bem severo quanto a essa reforma litúrgica que nos entristece.

Permiti que eu vos cite.

Vós prefaciastes um livro de Monsenhor Gamber em sua edição francesa gratamente difundida por Dom Gérard Calvet e intitulada A Reforma Litúrgica em Questão. Neste prefácio, vós elogiastes Monsenhor Gamber por sua obra teológica e litúrgica. Vós o recomendastes fortemente e fizestes dele um modelo, «um padre» desse renovar litúrgico que  trouxestes e ainda traz entre todos os vossos anseios. «Esse novo recomeço precisa de padres que lhe sejam modelos… Quem procura hoje tais padres encontrará um sem sombra de dúvida na pessoa de Monsenhor Klaus Gamber… ele poderia com sua destreza litúrgica – vós o dissestes – tornar-se um padre do novo recomeço» (p. 7). Não se pode ser mais claro.

Vós criticais «graciosamente» neste prefácio a reforma litúrgica. Vós afirmais que «a liturgia é (deve ser) um desenvolvimento contínuo», harmonioso (p. 7). E de fato a liturgia católica foi isto, aquela codificada por São Pio V. Ela evoluiu harmoniosamente através dos séculos. Tal se pode dizer tanto da liturgia quanto da doutrina católica. Não há pior herético que o «fixista». Não há nada mais radicalmente estático que a morte. A liturgia católica não é isso. Nós bem o sabemos. Isto posto, vós partis «em guerra» contra a liturgia reformada oriunda do Concílio Vaticano II. «O que se deu após o Concílio significa uma outra coisa: no lugar da liturgia, fruto do desenvolvimento contínuo, foi colocada uma liturgia fabricada. Saiu-se do processo vivo de crescimento e de transformação para se vagar na fabricação». Esta é a obra de Dom Bugnini. «Não se quis continuar a transformação e a maturação orgânica do ser vivo pelos séculos e as substituíram – segundo um modo de produção técnico – pela fabricação, produto banal do momento» (p. 7).

Vós dissestes também: «A liturgia não é o produto do nosso fazer». Esta é a grande idéia de Monsenhor Gamber. Dom Lefèbvre teria sido desta mesma opinião, ele que sustentou até a ruptura as reformas de São Pio X, de Pio XII e mesmo de João XXIII em matéria litúrgica, contra certos seminaristas americanos que as rejeitavam.

Vós nos pedistes que pendêssemos para o pensamento de Monsenhor Gamber, que nós o tomássemos por nosso. Vós destes uma aprovação sentida de sua obra. É o que eu tenho feito.

Por vossa recomendação, eu li este livro. Devo confessar que jamais encontrei crítica tão forte, tão radical à Nova Missa mesmo sob a pena de Dom Lefèbvre.

Então observe agora minha questão. Vêde onde quero chegar. Vêde o que eu quereria vos dizer se vós me recebêsseis: «Por que aprovar tão denodadamente Monsenhor Gamber, aplaudi-lo, recomendá-lo e continuar a reprovar Dom Lefèbvre?» Monsenhor Gamber é, porém, ainda mais severo em sua crítica ao novo rito que Dom Lefèbvre. Não haveria então dois pesos e duas medidas? Eis meu pasmo e mesmo minha angústia!

Vêde algumas críticas de Monsenhor Gamber: «Colocou-se, doravante (com a reforma litúrgica) e de modo exagerado, o peso sobre a atividade dos participantes, deixando num segundo plano o elemento cultual» (p. 15).

Foi isso que Dom Lefèbvre afirmou em Lille, nem mais, nem menos. «Esse (elemento cultual, i.e. o Sacrifício, a própria ação eucarística) foi empobrecida mais e mais no nosso meio». «Do mesmo modo, agora falta em larga medida a solenidade que faz parte de toda a ação cultual, sobretudo se esta é realizada diante de uma grande multidão» (p. 12). É isso o que nós dizemos, nem mais, nem menos. Monsenhor Gamber ousa escrever a este respeito: «Em lugar da solenidade vê-se reinar freqüentemente uma austeridade calvinista» (p. 13).

Monsenhor Gamber prossegue… «Não raro, vemos certos ritos serem desprezados pelos próprios pastores e deixados de lado sob pretexto de que seriam antiquados: não se quer deixar suspeitar que se teria fracassado o trem da evolução moderna. Não obstante, uma multidão do povo cristão permanece ligada a tais formas antigas cheias de piedade. Os reformadores de hoje, muito apressados, não consideraram suficientemente até que ponto, no espírito dos fiéis, a doutrina e as formas piedosas coincidem. Para muitos modificar as formas piedosas significa modificar a fé».

Prefaciando este livro, vós destes vossa aprovação a esta crítica geral.

Dom Lefèbvre disse a mesma coisa. Ele não cessou durante toda a sua vida de nos lembrar o axioma fundamental em matéria litúrgica: lex orandi, lex credendi. Foi o tema de sua conferência – entre mais de mil – de 15 de Fevereiro de 1975, dada em Florença: «Para muitos, modificar as formas tradicionais significa modificar a fé».

«Os responsáveis na Igreja não escutaram a voz daqueles que não cessaram de adverti-los pedindo-lhes que não suprimissem o Missal romano tradicional (e autorizassem a nova liturgia somente em certo limites e «ad experimentum»)… Hoje, eis infelizmente esta situação: numerosos bispos se calam diante de quase todas as experiências litúrgicas, mas reprimem mais ou menos severamente o sacerdote que, por razões objetivas ou de consciência, se prende à antiga liturgia» (p. 14).

Foi a essa constatação que chegaram os «Grandes» no cardinalato. Foi isso o constatado por Dom Lefèbvre. Era isso o que fazia com que Dom Lefèbvre se ativesse por razões objetivas ou de consciência à antiga liturgia.

Então, já que vós sustentastes o pensamento de Monsenhor Gamber, visto haverdes prefaciado seu livro, querei, eu vos suplico fazer abrir o dossiê «questão Lefèbvre» e o julgar em bom e devido modo.

Monsenhor Gamber é deveras severo… contra essa reforma litúrgica. Após ter reconhecido que «as inovações litúrgicas» são possíveis, mas que tudo deve ser feito «com bom senso e prudência». Isso não é a razão última, mas pouco importa, ele conclui voltando-se então para o concreto da reforma litúrgica nascida do Concílio Vaticano II: «A ruptura com a Tradição está doravante consumada». Ele sublinha ainda: «Pela introdução da nova forma da celebração da Missa (trata-se aqui do próprio rito novo) e dos novos livros litúrgicos, e ainda mais pela liturgia concedida tacitamente pelas autoridades, organizada livremente na celebração da missa sem que se possa auferir de tudo isso uma vantagem do ponto de vista pastoral (e isto é o mínimo que se pode dizer!), juntamente a tudo isso, prossegue ele, constata-se em larga medida, uma decadência da vida religiosa que, é verdade, tem também outras causas. As esperanças postas na reforma litúrgica – já se pode dizer – não foram realizadas».

Vós prefaciastes isto.

Dom Lefèbvre jamais usou termos tão fortes e brutais.

Por graça! Retomai o dossiê. Dai nova vida ao recurso que o próprio Dom Lefèbvre levou às mãos do Prefeito da «Assinatura Apostólica» da época, mas que este último não pôde tratar por ordem do onipotente Cardeal Dom Villot. Hoje, vós tendes poder para isso. Fazei cessar a injustiça na Igreja… na França de modo particular… Fazei cessar a injustiça contra Dom Lefèbvre.

Vêde ainda! «De ano em ano, a reforma litúrgica, louvada com excesso de idealismo e grandes esperanças por numerosos sacerdotes e leigos, prova ser, como nós já havíamos dito, uma desolação de proporção assustadora». (p. 15)

Dom Lefèbvre disse isso, mas digo que jamais o fez tão fortemente.

Nosso autor prossegue: «Em vez das esperadas renovação da Igreja e da vida eclesiástica, nós assistimos a um desmantelamento dos valores da Fé e da piedade que nos foram transmitidas, já no lugar de uma renovação fecunda da liturgia, vemos uma destruição das formas da missa que foram organicamente desenvolvidas no curso dos séculos» (p. 15).

Vós aprovastes este julgamento, vós o prefaciastes elogiosamente. Dom Lefèbvre, que não disse nada além disso, foi condenado, mas Monsenhor Gamber foi aplaudido.

Prossigo minha leitura: «…a isto some-se uma amedrontadora aproximação das concepções do protestantismo sob a bandeira de um ecumenismo mal compreendido… Isto significa nada menos que o abandono de uma tradição até então comum ao Oriente e ao Ocidente» (p. 15).

Dom Lefèbvre não disse outra coisa. Foi o que ele disse em um artigo publicado em 1971 em La Pensée Catholique – mas já escrito em pleno Concílio: «Para se permanecer católico seria necessário tornar-se protestante?»… E ele concluía: «Não se pode imitar os protestantes indefinidamente sem de fato se tornar um». Mas eu julgo Monsenhor Gamber mais categórico ainda. Ele mesmo fala «de uma amedrontadora aproximação das concepções do protestantismo». A linha de pensamento é a mesma!

Então como é possível tecer louvores a um, Monsenhor Gamber, e continuar a condenar o outro, Dom Lefèbvre. Ambos dizem o mesmo.

Por graça, abri novamente o processo de Dom Lefèbvre. Esta é uma súplica legítima.

Monsenhor Gamber, em um segundo capítulo, trata da «ruína» do rito romano. Ele o pranteia, como vós o fazeis em vosso Motu Proprio Summorum Pontificum. De tal modo ele avança em sua análise que chega ao ponto de dizer que o rito novo, sem ser de per si inválido – o que Dom Lefèbvre jamais disse – é celebrado com mais e mais freqüência de maneira inválida. Dom Lefèbvre disse exatamente a mesma coisa. Nem mais, nem menos. Ele é apenas um pouco mais preciso: «Todas essas mudanças no novo rito são realmente perigosas, porque pouco a pouco, sobretudo para os jovens sacerdotes que não mais têm a idéia de sacrifício, da presença real e da transubstanciação, e para os quais tudo isso não significa mais nada, esses jovens sacerdotes perdem a intenção de fazer o que a Igreja faz e não celebram mais missas válidas» (Conferência de Florença de 15 de Fevereiro de 1975).

Esta foi a grande preocupação de João Paulo II no fim de seu reinado, sobremodo expressa em sua encíclica «Ecclesia de Eucharistia».

Eu passo, pois, ao capítulo IV do livro: o julgamento do prelado é terrível.

Ele expõe a princípio, brevemente, porém adequadamente, a reforma luterana, a reforma que Lutero fez a Missa católica sofrer, a Missa romana. «O primeiro, escreveu ele, a ter empreendido uma reforma da liturgia e isso em razão de considerações teológicas foi, incontestavelmente, Martinho Lutero. Ele negava o caráter sacrificial da Missa e por isso se escandalizava com certas partes da Missa, em particular as orações sacrificiais do Cânon» (p. 41).

Daí advém a reforma que ele empreendeu da missa e logo de início suprimiu as orações sacrificiais, mas ele agiu prudentemente – com a prudência da carne – para não chocar e criar reações.

Ora, nada de tão comparável com a reforma litúrgica conciliar.

Monsenhor Gamber é terrível. Ele afirma inicialmente que se agiu muito brutalmente no Concílio: «A nova organização da liturgia e, sobretudo, as modificações profundas do rito da Missa que apareceram sob o pontificado de Paulo VI e entrementes se tornaram obrigatórias – pode-se legitimamente discutir este ponto – foram muito mais radicais que a reforma litúrgica de Lutero e levaram muito menos em conta o sentimento popular» (p. 42).

Depois, ele afirma que alguns elementos da doutrina protestante foram levados em conta para justificar a reforma litúrgica. Ele fala ainda da «repressão do elemento latrêutico», «a supressão das formulas trinitária», e enfim do «enfraquecimento do papel do sacerdote». Aqui se encontra, pura e simplesmente, as afirmações de Dom Lefèbvre, aquelas do «Breve Exame Crítico» apresentado ao Papa pelo Cardeal Ottaviani. E diz ainda que «não foi suficientemente esclarecido em que medida, tanto aqui quanto no caso de Lutero, as considerações dogmáticas puderam exercer alguma influência» (p. 42).

Ele reconhece que «foi a nova teologia (liberal) que apadrinhou a reforma conciliar». Ele se ressente de que o Papa Paulo VI não tivesse acreditado que deveria ter levado a sério «as críticas dogmáticas», «nem as imperiosas e ásperas repreensões dos cardeais de mérito – como aqui não se pensar no Cardeal Ottaviani, no Cardeal Bacci, os quais haviam lançado objeções dogmáticas quanto ao novo rito da missa – nem as instantes súplicas provenientes de todas as partes do mundo impediram Paulo VI de introduzir imperativamente o novo missal» (p. 43).

Assim, para Monsenhor Gamber cuja doutrina vós tanto nos recomendais, o «Novo Ordo Missae» teria «odores» protestantes pelos traços de teologia protestante, teologia liberal.

Confessai que tudo isso, objetivamente, pode impedir qualquer entusiasmo de celebrá-lo e torna difícil falar de «santidade» ou de «valor» do novo rito como vós nos pedis para fazê-lo na carta que endereçastes aos bispos. A contradição permanece!

Vós aprovastes estas críticas. Por que então continuais a condenar Dom Lefèbvre?

Seu erro foi talvez ter tido razão cedo demais, ou de ter sido, em sua época, um bispo de caráter… Mas se ele demonstrava essa qualidade quem poderia com razão criticá-lo, ainda mais por tal lucidez e tamanha força? Foram estes os motivos da condenação?

Após estas críticas gerais, Monsenhor Gamber chega a um ponto mais peculiar: à prex eucharistica. Ainda nesse ponto a crítica permanece terrível. «Os três novos cânons constituem por si mesmos uma ruptura completa com a tradição. Eles foram compostos de acordo com modelos orientais e galicanos, e representam, ao menos em seu estilo, um corpo estranho no rito romano» (49). Ele aprofunda um pouco mais em seu «menu» até as palavras da consagração, e é ainda mais severo: «A modificação ordenada por Paulo VI das palavras da consagração e das frases que se seguem… não tinha a menor utilidade para a pastoral. A tradução de «pro multis» para «por todos» que se refere a concepções teológicas modernas e que não é de modo algum encontrado em nenhum texto litúrgico antigo, é duvidosa e tem na verdade causado escândalo» (p. 50).

Monsenhor Gamber estava chocado, deveras chocado, com a mudança do termo «mysterium fidei» da fórmula da consagração do vinho. Mas sua explicação é luminosa: «Do ponto de vista do rito, é para se ficar estupefato ao ver que se tenha podido retirar, sem razão, o termo «mysterium fidei» inserido nas palavras da consagração desde por volta do século VI, para lhes conferir um significado novo; ele se tornou uma exclamação do sacerdote após a consagração. Uma exclamação desse tipo jamais esteve em uso. A resposta da assembléia: «Proclamamos, Senhor, a vossa morte…» só é encontrada em anáforas egípcias. Porém é estranha aos ritos orientais e a todas as orações eucarísticas ocidentais e está em total desconformidade com o estilo do cânon romano» (p. 50).

Desse modo, nós nos prontificamos a nos ater a crítica de Monsenhor Gamber. Eu creio que ela basta para poder justificar nossa posição prática. No entanto, porque quisemos permanecer ligados a estas críticas, àquelas do Breve Exame Crítico, que são as mesmas, nós fomos praticamente excomungados, cassados de nossas igrejas, nós fomos tomados por retrógrados. E nos disseram que não temos o senso da Tradição…

Mas então porque elevar às nuvens Monsenhor Gamber e continuar a combater Dom Lefèbvre? Eu não entendo.

Não haveria injustiça nisso? Eis o que eu tenho em meu coração e o que eu quero vos dizer, vós que sois o pai de todos.

Monsenhor Gamber vem a concluir o capítulo por este veredito: «Com o novo, quis-se mostrar aberto à nova teologia, tão equívoca, aberta ao mundo de hoje» (p. 54). «O que é certo é que o novo Ordo Missae, desta forma, não recebeu o assentimento da maioria dos padres conciliares».

Incrível!

Esta única afirmação deveria bastar para que qualquer um se ativesse firmemente ao antigo rito… «Mas vós não tendes o espírito do Concílio»! Esta arma que mata. No entanto, o que é este espírito do Concílio que é necessário ter para viver… Monsenhor Gamber o tinha? Mas que arbitrário! Que arbitrário!

Vós poderíeis talvez me dizer: «Tu te enganas. Não é a missa que põe o problema. Mas as sagrações. Dom Lefèbvre as realizou sem autorização pontifical. Por isso devia ser punido. Hoje, o novo Direito canônico prevê a excomunhão. Eis o problema! Eis o porquê da condenação». Mas é realmente esse o problema?

A idéia da sagração de um membro da Fraternidade havia sido aceita quando do protocolo de 5 de maio de 1988. Vós mesmo a havíeis aceitado.

Mas para o momento, permaneçamos ao nível do simples bom senso.

Dom Lefèbvre não foi menos amado pelas autoridades eclesiásticas após as sagrações que antes delas. Ele não foi menos execrado depois das sagrações que antes das mesmas. Antes delas, fizeram-lhe guerra, sua obra foi declarada «selvagem». Dom Garonne o declarou «louco»… Os bispos das dioceses lhe escreveram cartas horríveis quando ele visitava os tradicionalistas de suas dioceses. E que cartas!

Sim, Dom Lefèbvre já não era amado desde antes das sagrações. Ele não mais estava, parecia-lhe, em sua «comunhão». Já se lhe fechavam as igrejas. Os corações dos bispos se lhe fecharam… Mesmo em Roma, não se ousava mais recebê-lo… quando ele visitava um dicastério… o Prefeito ficava embaraçado… Ser visto com Dom Lefèbvre era comprometedor… Já muito antes das sagrações, ele era o « mal amado» da Igreja. Ele não tinha o espírito conciliar… E de fato, sua obra, sua obra sacerdotal foi interditada, seu seminário foi fechado. Interditadas as ordenações sacerdotais… Obviamente, ele nos ordenou para o Sacrifício da missa…! Ele era execrado por seus pares bem antes das sagrações e mesmo durante o Concílio.

Não se lhe perdoava a posição, sua presidência do Coetus internationalis Patrum.

Mesmo antes do Concílio, quando ele era Arcebispo-Bispo de Tulle, os cardeais e arcebispos da França lhe fechavam a porta de suas assembléias e reuniões. Mas ele tinha pleno direito a tomar parte nelas. Eles lhe recusavam tal. Isto é histórico! Se o Cardeal Richaud – então Arcebispo de Bordeaux – estivesse ainda neste mundo, ele poderia testemunhar quanto a isso.

Dom Lefèbvre no-lo disse. Mas ele ria-se disso. Ele não era rancoroso. Sim, mesmo antes das sagrações, Dom Lefèbvre não era amado. Era assim.

Sob esses aspectos, o problema das sagrações toma seu sentido verdadeiro. É na verdade um problema menor, o que quer que se diga… Neste sentido, as sagrações não foram a razão fundamental de sua excomunhão. Na prática, ele já o era. Após as sagrações ele se tornou, pode-se dizer, canonicamente. E isso não mudou quase nada… A pena canônica – sua declaração – foi inicial e essencialmente diplomática: para fazer medo e assustar os fiéis e lhes fazer abandonar o barco… O Cardeal Gagnon julgou mal.

Mas admitamos que a excomunhão tenha sua razão essencial e exclusiva nas sagrações. Esta ação – esta sanção – estende-se a Dom Lefèbvre, aos quatro bispos consagrados e ao co-consagrador Dom Castro Mayer… a mais ninguém, e de modo algum à Fraternidade Sacerdotal São Pio X e seus padres. Eles não estão excomungados. Eles estão na Igreja e são da Igreja. Eu mesmo nunca recebi a menor notificação de excomunhão. O Motu Proprio Ecclesia Dei Adflicta não me diz respeito diretamente.

Vós me direis talvez que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X tenha sido suprimida por Dom Mamie, Bispo de Friburgo, e não exista mais. Ela não é mais de direito diocesano. Vós sois “zero”, nada. Vós não tendes qualquer existência legal.

Ah ! Permiti-me ainda!

Dom Mamie quis talvez suprimir a Fraternidade Sacerdotal São Pio X… Mas eu me permito humildemente vos lembrar que nós o fomos em razão de nossa ligação à missa tridentina e em razão de nossa rejeição do novo Ordo Missae.

Ora, prefaciando o livro de Monsenhor Gamber, vós prefaciastes nossas própria críticas.

Volto a repetir, Dom Lefèbvre e o Breve Exame Crítico são menos duros que Monsenhor Gamber e seu livro. Ademais vós nos dais razão em vosso recente Motu Proprio reconhecendo que a antiga missa «permaneceu sempre autorizada». Se ela permaneceu sempre autorizada, era legítimo a celebrar e ilegítimo condenar os que queriam celebrá-la.

Assim, pois, nossa condenação e nossa supressão estão sem razão suficiente.

Elas são injustas. Querei, Santíssimo Padre, restaurar a justiça, reparar a injustiça.

Dignai-vos, Santíssimo Padre, a receber a expressão de meu filial respeito e conceder-me vossa bênção.

Padre Paul Aulagnier.

Membro do Instituto do Bom Pastor.

25 março, 2021

“Somos todos filhinhos Dele”.

Aos 30 anos da morte de Dom Marcel Lefebvre, como nossa singela homenagem, reapresentamos a nossos leitores um post publicado por nós há exatos dez anos: os últimos instantes deste heróico arcebispo, a quem a Igreja tanto deve neste sombrio momento em que vivemos.

Obrigado, Monsenhor!

* * *

Tempo da paixão

Tomando conhecimento da morte de sua irmã mais velha, Jeanne, Dom Lefebvre decidiu não ir ao seu funeral [ndr: por conta de seus problemas de saúde]: “Rezo todo dia para que eu possa morrer antes de perder minha consciência. Prefiro partir, pois se caísse em contradição, diriam: ‘Aí está; ele disse que errou!’ E eles tirariam vantagem disso”.Muitas vezes o Arcebispo mencionava a morte suave de sua irmã mais velha, chamada de volta à casa por Deus quando acabara de ir tirar um cochilo; ele gostaria de ter falecido assim, embora com a Extrema Unção. Mas Deus pediria ao padre e bispo Marcel Lefebvre que tomasse parte em Seus sofrimentos redentores.

Em 7 de março de 1991, festa de Santo Tomás de Aquino, o Arcebispo deu a seus amigos e benfeitores de Valais a tradicional conferência. Cheio de fé e eloqüência, concluiu com estas palavras: “Nós as teremos!”. E no dia seguinte, às 11 da manhã, celebrou o que seria sua última Missa na terra. Mas tamanhas eram sua dor de estomago e fadiga que realmente pensou que não poderia terminá-la. Apesar disso, partiu de carro para Paris, a fim de assistir ao encontro dos fundadores religiosos nos “Círculos da Tradição”:  “É algo muito importante”, disse, “e está dentro do meu coração”.

Hospitalização, operação

Ele sequer passou de Bourg-en-Bresse; por volta das 4 da manhã, acordou seu motorista, Rémy Bourgeat: “Não estou bem”, disse, “vamos voltar para a Suíça”. E a seu pedido, ingressou no hospital em emergência na manhã de 9 de março. O direitor do hospital em Martigny, Sr. Jo Grenon, era um amigo de Ecône. O Arcebispo foi acolhido na ala operatória no quarto 213. Atrás das montanhas que cercam a cidade estava Forclaz, e França, e não muito distante o Grande Passo de São Bernardo, Itália, e Roma.

O Arcebispo estava confiante, mas sofria: “É como um fogo queimando meu estômago e subindo até meu peito”.

Padre Simoulin deu-lhe a Sagrada Comunhão, que receberia até a sua operação: Ele o agradeceu: “Fiz o senhor perder as vésperas… mas o senhor fez uma obra de caridade. Trouxe para mim o melhor Médico. Nenhum deles pode me dar mais do que o senhor deu”.

Admirava o Crucifixo, que fora trazido para o altar temporário em seu quarto: “Ele ajuda a suportar os sofrimentos”.

Analgésicos ajudavam a diminuir seus sofrimentos e era alimentado intravenosamente. Brincava, dizendo às enfermeiras: “Vocês fizeram um bom negócio comigo: estou pagando integralmente e vocês sequer estão me alimentando!”

Além do mais, era muito paciente e os médicos tiveram que repreendê-lo para que falasse sobre suas dores. As enfermeiras acharam-no muito gentil e excepcionalmente discreto: nunca usara o sino para pedir atenção. Não queria incomodar os outros. Estava um pouco preocupado com as conseqüências de uma cirurgia, mas ao mesmo tempo resignado e confiante. Disse por diversas vezes: “Terminei meu trabalho e não posso fazer mais. Não me resta senão rezar e sofrer”.

Na segunda-feira, 11 de março, sentiu um calafrio subindo suas pernas e pediu a Extrema-Unção, que recebeu com grande recolhimento e simplicidade, mantendo seus olhos fechados e respondendo ao sacerdote de maneira muito clara. Em seguida, pediu a benção apostólica in articulo mortis (na hora da morte) e então abriu seus olhos tranquilos, sorriu, agradeceu ao sacerdote e acrescentou: “Quanto às orações pelos moribundos, podemos esperar um pouco mais”.

Melhorara um pouco, mas ainda não havia começado a rezar novamente seu breviário. “Então rezo algumas orações simples. Não sirvo para mais nada. Nada mal”.

Ele já havia passado por numerosos exames quando na quinta-feira, 14 de março, os médicos decidiram dar-lhe uma refeição que apreciasse e que lhe desse alguma resistência. Mas ele não a comeu, a fim de que pudesse receber a Sagrada Comunhão… o Padre estava com pressa. Na mesmo dia, um dos médicos disse ao Padre Denis Puga: “Padre, devo lhe dizer algo. Passei o dia com o Arcebispo por causa dos exames. Ele é um homem extraordinário, e sinceramente é um prazer estar com ele. Que bondade! É possível ver a bondade divina em sua face. O senhor realmente é privilegiado por estar tão próximo dele. As pessoas não percebem quando o vêem nos jornais. Pedi ao Arcebispo que rezasse por mim”.

Esse médico não era católico. Na sexta-feira, 15 de março, Dom Lefebvre foi levado a Monthey para ser examinado por um tomógrafo. Voltou ao hospital onde seus padres o encontraram com certa dificuldade por causa do intravenoso, que estava lhe causando inchaço:

“Suas veias estão muito difíceis”, disse-lhe o Padre Simoulin.

“Não, muito pelo contrário, parece que elas estão bem e miúdas. Que tal… para um bispo de ferro!”

No sábado, dia 16, Sitientes, as ordenações ao subdiaconato ocorreram em Ecône. “Estava unido em oração com a ordenação”, disse o Arcebispo ao Padre Puga.

“É a primeira ordenação, e ela não teria ocorrido se o senhor não nos tivesse dado bispos”.

“Sim, de fato aquele ano de 1988 foi uma grande graça, uma benção do Senhor, uma verdadeiro milagre. Esta é a primeira vez que fiquei seriamente doente em que também fiquei perfeitamente em paz. Devo admitir… desculpe… mas antes, quando eu ficava doente, estava sempre preocupado pelo fato da Fraternidade ainda precisar de mim e de que ninguém poderia fazer o meu trabalho. Agora estou em paz, tudo está pronto e caminhando bem”.

No domingo, dia 17, Domingo da Paixão, após receber a Sagrada Comunhão, ele explicou que seria operado nos próximos dias e advertia: “Que o Senhor me leve, se quiser”.

Assim, a cirurgia ocorreu na segunda-feira da Semana da Paixão: “Quando o médico me pediu para contar até dez enquanto eu adormecia, fiz um grande sinal da Cruz… e então… não havia mais nada. Depois acordei e perguntei: “Então a cirurgia não está indo adiante?”

“Mas Sr. Lefebvre [sic], já acabou”, responderam.

Este foi o relato que o Arcebispo fez de sua cirurgia. O cirurgião removeu um grande tumor, do tamanho de mais ou menos três toranjas. Aconteceu de ser canceroso, mas nada foi dito ao paciente. Estava exausto pela cirurgia, mas sorriu por detrás de sua máscara de oxigênio e do tubo estomacal. Na noite da quarta-feira, ficou ansioso; seus membros estavam terrivelmente inchados e tinha dores nas costas e de cabeça. Disse: “É o fim, tenho uma terrível dor de cabeça. O bom Deus deve vir e me levar. Quero realmente morrer com um pouco dos meus padres ao meu redor para rezarem a oração pelos agonizantes. Eles não podem me negar isso”.

Pensava que seus padres estavam sendo impedidos de vê-lo e a chegada de Padre Puga, na manhã da quinta-feira, o acalmou. Ficou novamente otimista e muito mais alegre. No Sábado da Semana da Paixão, Dom Lefebvre falou sobre os procedimentos humilhantes e dolorosos que tivera de sofrer, e disse que o menor dos esforços o exauria. Suas mãos estavam inchadas.

“Estamos no tempo da Paixão”, disse o Padre Simoulin.

O Arcebispo fechou seus olhos e repetiu: “Sim, é a paixão!”. Ele não podia receber a Comunhão: “Sinto falta… preciso dela… ela me dá força”, disse tristemente.

Na noite do mesmo dia, Padre Puga o contou sobre algumas observações do Cardeal Gagnon na 30 Giorni, no sentido de que não encontrara nenhum erro doutrinal em Ecône. O Arcebispo encolheu os ombros: “Um dia a verdade virá. Não sei quando, mas o bom Deus o sabe. Mas virá”.

Morte dolorosa

Ao final, o Arcebispo não tinha a menor dúvida de que fizera a coisa certa. Como veremos, seu fim foi, assim como sua vida, centrado e fortalecido por uma fé que era simples, discreta e modesta. Parece não ter havido mensagens espirituais ou novissima verba – “últimas palavras”. Fez algumas poucas observações que eram aparentemente comuns ou “mesmo travessas, embora não maliciosas”, cuja importância apenas seriam visíveis posteriormente, especialmente com relação àqueles que pouco ou nada conheciam Dom Lefebvre e que não poderiam imaginar como ele morreu, já que não viram como ele viveu.

No Domingo, 24 de março, o primeiro dia da Semana Santa, as condições do paciente repentinamente pioraram. Na sexta-feira, pediu por seu relógio e aparelho auditivo (prova de que estava se sentindo melhor) e no sábado pensaram em transferi-lo de volta para seu quarto no dia seguinte. Mas no domingo, a esperança deu lugar à preocupação: o Arcebispo tinha uma temperatura muito alta e o cardiologista decidiu mantê-lo na unidade de tratamento intensivo. Estava agitado e sentia dores, e falava incessantemente, mas por conta da máscara de oxigênio havia dificuldade para compreendê-lo. Todavia, Jo Grenon decifrou: “Somos todos filhinhos Dele”. Quando Grenon o deixou, o Arcebispo sorriu e estendeu sua mão para dizer adeus.

Quando o Padre Simoulin disse a ele que seu irmão Michel Lefebvre viera, sorriu o máximo que pôde e a alegria brilhou em sua face. Por volta das 7 da noite, o reitor de Ecône retornou ao hospital, mas assim que entrou na unidade de tratamento intensivo, ouviu o assustador som do forte gemido que podia ser ouvido acima dos barulhos vindos do equipamento ao lado; ele aumentava ainda mais por causa da máscara de oxigênio. O Arcebispo estava absolutamente exausto e não podia falar, mas compreendia tudo que o padre lhe disse: “Excelência, o retiro que o senhor estaria pregando para nós… está sendo pregado de uma maneira que não prevíamos!”. O Arcebispo sorriu. “Alguns dos fiéis de Valais, incluindo os motoristas [ndr: amigos pessoais de Dom Lefebvre], estão seguindo o retiro conosco”. E o Arcebispo sorriu novamente.

Então o padre notou o Crucifixo do cubículo e fez uma observação, enaltecendo o hospital e seu bom diretor, que colocava todo paciente sob o olhar do Redentor. Muito lentamente o Arcebispo moveu sua cabeça à esquerda, para olhar na direção em que o Padre apontara, e então suavemente fechou os olhos.

Um sorriso… um olhar para o Crucificado… estas foram as últimas palavras de Dom Lefebvre. Um sorriso… para dizer obrigado, para acalmar, para encorajar os outros a terem a mesma serenidade, um sorriso de caridade e atenção aos outros, no esquecimento de si mesmo. Um olhar em direção ao Crucifixo, o último gesto consciente que seus filhos viram-no fazer: o olhar adorador do contemplativo e do sacerdote.

Por volta das 11:30 da noite, o hospital ligou para Ecône: Dom Lefebvre acabara de sofrer uma parada cardíaca e estava em processo de ressuscitação. Os Padres Simoulin e Laroche encontraram o Arcebispo respirando com grande dificuldade: seus olhos estavam fixos e vidrados. Fora-lhe administrada uma massagem cardíaca e devia ter sofrido uma embolia pulmonar.

Enquanto o Padre Laroche retornava ao seminário para acordar a comunidade e levá-la para rezar na capela, Padre Simoulin permanecia com o Arcebispo, que dolorosamente tentava respirar; era como a agonia do Crucificado. Com o passar do tempo, seu rosto ficava mais revestido de dor enquanto as medições nos monitores diminuíam pouco a pouco.

Por volta das 2:30 da madrugada, seu declínio se acelerou e sua respiração diminuiu, ao passo em que a dor ainda traçava uma marca em sua fronte. Pouco a pouco tudo se acalmava. Em torno das 3:15 da madrugada, o padre disse à enfermeira: “Sua alma está apenas esperando por uma coisa: deixar seu corpo que sofre e estar com Deus”;

“Acho que a alma está deixando agora”, disse a enfermeira, saindo depois.

Padre Simoulin começou então as orações pelos agonizantes. “Exatamente no momento em que eu terminara”, disse, “era por volta das 3:20 da manhã, e o Superior Geral, Padre Schmidberger, entrou na unidade de tratamento intensivo. O monitor do pulso caiu até ‘00’, mas ainda se podia ouvir a respiração: era o Arcebispo ou a máquina? Ofereci o ritual ao Padre Schmidberger, que recomeçou as orações in expiratione”.

Alguns últimos surtos de dor relampejaram do rosto do Arcebispo e então, por volta das 3:25 da madrugada, os sofrimentos cessaram completamente e ele retornara à paz novamente. O Superior Geral então fechou os olhos do amado pai.

Era uma segunda-feira da Semana Santa, 25 de março, festa da Anunciação da Santíssima Virgem Maria, o dia em que o Céu sorriu para a Terra e quando a esperança renasceu nas almas: o dia da Encarnação do Filho de Deus e da ordenação sacerdotal de Jesus Cristo como Sumo Sacerdote. Neste dia, a alma de Marcel Lefebvre foi julgada…

Em Lille, quinze anos antes, ele disse: “Quando eu estiver diante de meu Juiz, não quero ouvi-lo dizer a mim: ‘Vós também, vós deixastes a Igreja ser destruída’”.

Então, naquele 25 de março de 1991, quando Deus o perguntou o que fizera com a graça de seu sacerdócio e episcopado, o que, de fato, poderia ele ter respondido, esse velho soldado da Fé, esse bispo que restaurou o sacerdócio Católico?

“Senhor, vede, eu transmiti tudo o que podia ter transmitido: a Fé Católica, o sacerdócio Católico e também o episcopado Católico; Vós me destes tudo isso e tudo isso transmiti para que a Igreja pudesse continuar”.

"Transmiti o que recebi".

“Transmiti o que recebi”.

“Vosso grande Apóstolo disse, ‘Tradidi quod et accepi’ e como ele eu quis dizer: ‘Tradidi quod et accepi’, transmiti o que recebi. Tudo que recebi, transmiti”.

Ninguém tem maior amor

Os restos mortais do fiel lutador foram solenemente trazidos de volta para Ecône. Em vestes pontificais, ficaram velados na capela de Notre Dame des Champs. A multidão formou fila por toda a semana; até o Núncio e Dom Schwery, bispo de Sion, vieram e abençoaram o corpo daquele que o Papa declarou excomungado. O corpo foi assistido dia e noite, da segunda  [dia 25 de março] até a terça-feira da Páscoa [2 de abril]. O Arcebispo recebeu uma benção final na manhã de 2 de abril, e então o caixão foi fechado. Uma placa foi afixada sobre o mesmo, ornado com as armas do Arcebispo e as palavras que ele pediu que se gravasse: Tradidi quod et accepi.

Lentamente o Arcebispo foi carregado sobre os ombros de seus padres e passou pela multidão de vinte mil fiéis que se reuniram para o funeral. Foi levado pelo campo de Ecône no qual ele muitas vezes transmitiu a graça do sacerdócio. Então chegou à “basílica-tenda”, no fundo do campo, onde ocorreriam a Missa e as Absolvições Pontificais. O clima estava frio e nublado; o sol apenas brilhava no lado oposto do vale. De repente, no meio da cerimônia, ele lançou suas luzes na imensa multidão de amigos da Fraternidade São Pio X. O calor se espalhou. Então, quando o corpo foi levado de volta pelo campo, debaixo do céu azul, a seu lugar de descanso em Ecône, vinte mil almas sentiram em seus corações que ali a vida estava passando e continuando. Este também era o sentimento nos corações de seus filhos no sacerdócio, cada um deles segurando uma pequena vela acesa na ofuscante luz refletida nas rochas atrás de Ecône. A Tradição estava viva.

No livro de condolências, um dos “soldados católicos” que seguiu a Tradição da Igreja graças a Dom Lefebvre, escreveu estas breves linhas: “Obrigado por intervir, por salvar o sacerdócio, por ter sido o nosso porta-bandeira, por ter se oferecido em holocausto para salvar o seu povo”.

Sim, ele amou a Igreja com todo o seu coração até os próprios limites do amor: in finem dilexit. Não teria ele mostrado o maior amor possível? Ele amou mais do que muitos, esse homem que até o último instante “acreditou na caridade que Deus tem por nós”.

Marcel Lefebvre, The Biography – Dom Bernard Tissier de Mallerais, 608-614, Angelus Press, 2004 – Tradução: Fratres in Unum.com

6 janeiro, 2021

Superior da FSSPX – O pontificado do Papa Francisco: continuidade com seus predecessores.

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5 fevereiro, 2020

Um padre no Alasca.

Um vídeo simplesmente espetacular do Distrito Norte Americano da FSSPX (esperamos que alguém possa inserir legendas).

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30 outubro, 2019

Comunicado do Superior Geral da Fraternidade São Pio X a respeito do Sínodo da Amazônia.

Menzingen, 28 de Outubro de 2019

Na festa dos santos Simão e Judas, Apóstolos

Caros membros da Fraternidade,
O recente sínodo para a Amazônia foi teatro de cenas execráveis, onde a abominação de ritos idólatras adentrou o santuário de Deus de uma maneira nova e impensável. Por sua parte, o documento final desta tumultuosa assembléia atacou a santidade do sacerdócio católico, pressionando tanto pela abolição do celibato eclesiástico quanto pelo estabelecimento de um diaconato feminino. Verdadeiramente, as sementes de apostasia que nosso venerável Fundador, Dom Marcel Lefebvre, identificou como operando desde os primeiros dias no Concílio continuam a dar frutos com eficácia renovada.

Em nome da inculturação, os elementos pagãos estão sendo integrados cada vez mais ao culto divino e podemos ver, uma vez mais, como a liturgia que seguiu ao Concílio Vaticano II se presta perfeitamente a isso.

Diante de tal situação, convocamos a todos os membros da Fraternidade e aos terciários a uma jornada de oração e penitência reparadora, já que não podemos permanecer indiferentes diante destes ataques à santidade da Igreja, nossa mãe. Pedimos que um jejum seja observado em todas as nossas casas no Sábado, dia 9 de Novembro. Convidamos todos os fiéis a se unirem a isso e também encorajamos as crianças a oferecerem orações e sacrifícios.

No Domingo, 10 de Novembro de 2019, cada sacerdote da Fraternidade celebrará uma missa em reparação e em cada capela serão cantadas ou recitadas as Ladainhas de Todos os Santos, retiradas da liturgia das Rogações, para pedir a Deus que proteja à Sua Igreja e A preserve de todos os castigos que tais atos não podem deixar de atrair. Instamos que façam o mesmo todos os amigos sacerdotes, assim como todos os católicos que amam à Igreja.

Tal é devido à honra da Santa Igreja Católica Romana, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, que não é nem idólatra nem panteísta.

Padre Davide Pagliarani
Superior Geral

28 setembro, 2019

Foto da semana.

Os Frades Capuchinhos (ligados à FSSPX) de Morgon, França, têm uma maneira bastante peculiar de produzir suas sandálias. Diferentemente dos franciscanos que caem nas graças do Papa Francisco, como Hummes e Boff, eles, os considerados “rígidos”, esforçam-se para seguir de fato, e não só com palavras, a radicalidade do pobrezinho de Assis. Créditos das imagens: Armando Bernardes.

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17 setembro, 2019

Francisco, Amoris Laetitia e o Vaticano II.

Amoris lætitia representa, na história da Igreja dos últimos, o que Hiroshima ou Nagasaki foram para a história moderna do Japão: humanamente falando, o dano é irreparável […] Amoris laetitia constitui um dos resultados que, cedo ou tarde, dar-se-ia das premissas estabelecidas pelo Concílio [Vaticano II]. O Cardeal Walter Kasper já havia enfatizando que a uma nova eclesiologia — a do Concílio — corresponde uma nova concepção de família cristã.

De fato, o Concílio é principalmente eclesiológico, isto é, propõe em seus documentos uma nova concepção da Igreja. De maneira simples, a Igreja fundada por Nosso Senhor já não equivaleria à Igreja Católica, mas se trataria de algo mais amplo, que incluiria as demais confissões cristãs. Como resultado, as comunidades ortodoxas ou protestantes teriam a “eclesialidade” em virtude do batismo. Em outras palavras, a grande novidade eclesiológica do Concílio é a possibilidade de pertencer à Igreja fundada por Nosso Senhor em diferentes formas e graus. Daí a noção moderna de comunhão total ou parcial, “com geometria variável”, poderíamos dizer. A Igreja se tornou estruturalmente aberta e flexível. A nova modalidade de pertença à Igreja, extremamente elástica e variável, segundo à qual todos os cristãos estão unidos na mesma Igreja de Cristo, constitui a origem do caos ecumênico.

[…]

Concretamente, do mesmo modo que a Igreja de Cristo “pan-cristã” teria elementos bons e positivos fora da unidade católica, haveria igualmente elementos bons e positivos para os fiéis fora do matrimônio sacramental, por exemplo, em um matrimônio civil, e também em qualquer outro tipo de união. Assim como já não há mais distinção entre uma Igreja “verdadeira” e igrejas “falsas”, dado que as igrejas não católicas são boas, embora imperfeitas, igualmente todas as uniões se tornam boas, porque sempre há algo bom nelas, mesmo que somente o amor. […] Deste modo, o ensinamento objetivamente desconcertante do Papa Francisco não supõe uma consequência estranha, mas uma consequência lógica dos princípios estabelecidos pelo Concílio. O Papa extrai dela algumas conclusões últimas… por ora.

Da entrevista do Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Padre Davide Pagliarani, publicada hoje

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10 julho, 2019

FSSPX em Portugal – Santa Missa ao vivo.

Escreve-nos o sr. Diogo Silva:

Boa noite,

FSSPX Portugal lançou há algumas semanas a possibilidade dos fieis acederam às celebrações dominicais e solenidades no seu canal do youtube em directo. Sabemos que muitas almas não conseguem aceder aos sacramentos na sua forma tradicional, pelo que optamos por esta iniciativa.
A Santa missa é rezada em latim, em Lisboa ou Fátima, por norma às 11am (Lisbon GMT+1).
Divulgamos também um vídeo em separado com a homilia.
Agradecemos a vossa divulgação desta iniciativa.
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