Posts tagged ‘Igreja’

7 agosto, 2016

Nevando em agosto em Roma!

Por Gercione Lima | FratresInUnum.com

5 de agosto

“Sob o pontificado do Papa  Liberio, Giovanni, um cidadão nobre romano e sua esposa igualmente nobre, não tendo filhos e nem como deixar herdeiros de sua propriedade, dedicaram a sua herança à Virgem Mãe de Deus, suplicando fervorosamente com orações assíduas para que ela lhes mostrasse de alguma forma em que obra de caridade ela desejava que fosse empregado aquele dinheiro. A Virgem Maria, então ouvindo graciosamente  as orações e votos sinceros do casal, respondeu com um milagre.

No dia 5 de agosto, pleno verão em que o calor é muito grande em Roma,  uma grande parte do Monte Esquilino amanheceu coberto de neve. Naquela mesma noite, a Mãe de Deus em um sonho aconselhou separadamente Giovanni e sua esposa, a construir uma igreja no local que amanheceu coberto de neve, e dedicá-lo sob o nome da Virgem Maria;  pois desse modo ela seria instituída como herdeira de seu patrimônio. Papa Libério, então alegou ter tido a mesma visão.

Portanto, acompanhado pelo clero e pelo povo, ao canto da ladainha, ele se dirigiu à colina coberta de neve, e ali designou o local da construção da igreja, que foi construída e custeada por Giovanni e sua esposa, e que Sisto III, depois restaurou.

No início a igreja foi chamada por nomes diferentes: a Basílica Liberiana, Santa Maria do Presépio, mas uma vez que já haviam muitas igrejas construídas na cidade de Roma dedicadas à Virgem Maria, essa acabou sendo chamada Igreja de Santa Maria Maggiore, para que a qualificação de Basílica Maior unida ao fato inédito do milagre a colocasse acima de todas as outras com o mesmo nome. O aniversário de dedicação desta igreja, que recorda o milagre da neve caída milagrosamente neste dia, é celebrada solenemente todos os anos”.

(Do Mattutino segundo Notturno)

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6 agosto, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Vantagens e fecundidade da vida interior.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

A contemplação segundo a belíssima descrição de São Bernardo: “Esta é a vida pura, santa e imaculada na qual o homem vive com mais pureza, cai mais raramente, levanta-se com mais rapidez, anda com mais cautela, é consolado do céu com mais frequência, descansa mais seguro, morre mais confiado, purga-se mais depressa e é premiado com mais vantagem”.

No outro artigo sobre o tema, já vimos as primeiras vantagens da vida de contemplação:

1º – O homem de vida interior cai mais raramente, porque premune contra os perigos do ministério e repara as forças que o apostolado porventura fez perder; multiplica, outrossim, as energias e os méritos.

A vida interior é fonte de alegria e consolação. Favorecido pelo recolhimento, alimentado pela Eucaristia, o padre, caçador ou pescador de almas, sente aumentar o seu amor a Jesus Cristo e sente inefável alegria em poder colaborar com Ele nesta obra divina de salvar almas, podendo dar assim a maior alegria ao Coração de Jesus. Além do mais, a vida do padre interior é vida de oração. Ora, “vida de oração, exclama o Santo Cura d’Ars, que felicidade! É a grande felicidade da terra. Ó bela união com Nosso Senhor! A vida interior é um banho de amor em que a alma mergulha”.

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A vida interior é um escudo contra o desânimo. A vida do homem apostólico é uma trama de trabalhos, privações, sofrimentos. Se não tiver muito espírito de fé que é o fruto da vida interior, haverá horas tristes, horas de contradição, de humilhação, enfim, de sofrimentos. “Quando Deus quer, diz Bossuet, que uma obra seja toda d’Ele, de sua mão, começa por reduzir tudo à impotência, ao nada, depois age”. Então o homem de vida interior, de fé, no meio das ruínas, fica firme de pé, porque sabe que trabalha por amor de Deus e das almas. Sabe também que as provações generosamente aceitas são elementos de fecundidade na virtude e proporcionam a Deus maior glória. Então não desanima. Reza mais ainda, aceita tudo como graça de Deus. E como diz D. Chautard, qual abelha infatigável, ele há de, por certo, reconstruir com alegria novos favos na colmeia devastada.

A vida interior é fonte de fecundidade. Ilude-se o “americanismo” pensando que contribui para a maior glória de Deus visando principalmente aos resultados exteriores. “Aqueles que oram, fazem mais pelo mundo do que aqueles que combatem, e, se o mundo caminha cada vez pior, é porque há mais batalhas que orações” (Donoso Cortês).

“As mão erguidas, diz Bossuet, desbaratam mais batalhões do que as mãos que ferem”.

“Ordinariamente, diz D. Chautard, uma oração curta, mas, fervorosa, contribui muito mais para apressar uma conversão do que longas discussões e excelentes discursos. Aquele que ora trata com a Causa Primeira, opera diretamente sobre ela. Tem, desta sorte, em mãos todas as causas segundas, visto como estes somente deste princípio superior recebem sua eficácia. Por isso o efeito desejado é então obtido com maior segurança e rapidez”.

Diz ainda o autor do admirável livro “A ALMA DE TODO APOSTOLADO”: “Dez mil hereges, no dizer de uma revelação respeitável, foram convertidos por uma só oração inflamada da seráfica Santa Teresa d’Ávila”.

Daí os princípios:

1º – A vida ativa deve proceder da vida contemplativa, traduzida e continuada exteriormente, desligando-se dela o menos possível;

2º – Como toda causa é superior ao seu efeito, logo, para aperfeiçoar os outros é mister uma perfeição maior do que para qualquer um se aperfeiçoar simplesmente a si mesmo.

“Como a mãe, diz D. Chautard, não pode amamentar o filho senão na medida em que ela própria se alimenta, assim também os confessores, diretores de almas, os pregadores etc., devem primeiramente assimilar a substância com que hão de nutrir em seguida os filhos da Igreja. A verdade e o amor de Deus são elementos desta substância. E só a vida interior traduz a verdade e a caridade divinas de maneira a torná-las verdadeiro alimento capaz de engendrar a vida”.

O apóstolo deve acumular em si a vida de oração, porque na medida em que for o primeiro a viver do amor de Nosso Senhor, nesta proporção será também capaz de inflamar os ardores deste amor nos corações do próximo.

“Que os homens devorados de atividade, que julgam poder arrastar o mundo inteiro pelas suas pregações e obras exteriores, reflitam um instante. Compreenderão, sem dificuldade que seriam muito mais úteis à Igreja e agradáveis a Deus, sem falar do bom exemplo que dariam em redor de si, se consagrassem mais tempo à oração e aos exercícios de vida interior. A oração lhes mereceria esta graça e lhes alcançaria as forças espirituais de que precisam para produzir tais frutos” (S. João da Cruz).

“Sem oração mental, diz S. Vicente de Paulo, pode haver muito barulho, mas pouco fruto, porque o missionário sem oração é um soldado sem arma, um apóstolo pintado, um cadáver”.

Não podemos deixar de citar S. Pio X que tanto se preocupou com a vida interior dos clérigos: “Para restaurar todas as coisas em Cristo, pelo apostolado das obras, é preciso a graça divina e o apóstolo não a recebe se não for unido a Cristo. É somente depois de formar Cristo em nós que poderemos dá-Lo facilmente às famílias e à sociedade. Todos os que participam do apostolado devem ter uma verdadeira piedade”.

Lembro, outrossim, que não há vida interior completa, sem uma verdadeira e terna devoção à Maria Imaculada, o canal de todas as graças e, como tal principalmente da graça de escol que é a íntima união com Jesus Cristo. Maria Santíssima é o vínculo entre nós e seu Divino Filho. Jesus veio a nós por Maria (Deus é que assim o quis), por Maria devemos ir a Jesus.

Oração: Ó minha Mãe Imaculada, foi para vós me ajudardes a conservar meu coração unido mediante Jesus à Santíssima Trindade que, no Calvário a palavra do vosso Filho me proclamou filho vosso. Quero que as invocações, cada vez mais frequentes, que vos hei de dirigir, visem sobretudo a guarda do meu coração, a fim de purificar as tendências, as intenções, os afetos e os desejos dele, e assim ajudado e guiado por Vós, em tudo eu vise unicamente a maior honra e glória de vosso Divino Filho. Amém!

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30 julho, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Culto ao Sacratíssimo Coração de Jesus.

“Haurireis águas com gáudio das fontes do Salvador” (Isaías XII, 3).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Caríssimos, faremos, Deo volente, vários artigos extraídos da Encíclica de Pio XII “HAURIETIS AGUAS” sobre o culto do SS.  Coração de Jesus. O santo Padre, o Papa, sugeriu aos padres a leitura desta encíclica para meditarmos sobre a misericórdia do Coração de Jesus.

Sacratíssimo Coração de Jesus, tende piedade de nós!2. “Inumeráveis são as riquezas celestiais que nas almas dos fiéis infunde o culto tributado ao Sagrado Coração, purificando-os, enchendo-os de consolações sobrenaturais, e excitando-os a alcançar toda sorte de virtudes. Portanto, tendo presentes as palavras do apóstolo São Tiago: “Toda dádiva preciosa e todo dom perfeito do alto vem, desce do Pai das luzes” (S. Tiago I, 17), neste culto, que cada vez mais se incende e se estende por toda parte, com toda razão podemos considerar o inapreciável dom que o Verbo Encarnado e Salvador nosso, como único mediador da graça e da  verdade entre o Pai Celestial e o gênero humano, concedeu à sua mística Esposa nestes últimos séculos, em que ela tem tido de suportar tantos trabalhos e dificuldades. Assim, pois, gozando deste inestimável dom, pode a Igreja manifestar mais amplamente o seu amor ao Divino Fundador, e cumprir mais fielmente a exortação que o evangelista São João põe na boca do próprio Jesus Cristo: “No último dia da festa, que é o mais solene, Jesus pôs-se em pé, e em voz alta dizia: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Quem crê em mim do seu seio, como diz a Escritura, manarão rios de água viva. Isto o disse pelo Espírito que haveriam de receber os que nele cressem” (S. Jo VII 37-39). Ora, aos que escutavam essas palavras de Jesus, pelas quais Ele prometia que do seu seio haveria de manar uma fonte “de água viva”, certamente não lhes era difícil relacioná-las com os vaticínios com que Isaías, Ezequiel e Zacarias profetizavam o reino do Messias, e com a simbólica pedra que, golpeada por Moisés, de maneira milagrosa haveria de jorrar água (cf. Is 12, 3; Ez 47, 1-12; Zac 13, 1; Êx 17, 1-7; Nm 20, 7-13; 1 Cor 10, 4; Apc 7, 17; 22, 1).

3. A caridade divina tem a sua primeira origem no Espírito Santo, que é o amor pessoal, assim do Pai como do Filho, no seio da Trindade augusta. Com sobradíssima razão, pois, o Apóstolo das gentes, como que fazendo-se eco das palavras de Jesus Cristo, atribui a esse Espírito de Amor a efusão da caridade nas almas dos que crêem: “A caridade de Deus foi derramada nos nossos corações por meio do Espírito Santo, que nos foi dado” (Rom 5, 5).

4. Este estreito vínculo que segundo a Sagrada Escritura, existe entre o Espírito Santo, que é amor por essência, e a caridade divina, que deve acender-se cada vez mais na alma dos fiéis, demonstra abundantemente a todos nós, veneráveis irmãos, a natureza íntima do culto que se deve tributar ao Coração de Jesus Cristo. Com efeito, se lhe considerarmos a natureza particular, manifesto é que este culto é um ato de religião excelentíssimo, visto exigir de nós uma plena e inteira vontade de entrega e consagração ao amor do Divino Redentor, do qual é sinal e símbolo vivo o seu Coração traspassado. Consta igualmente, e em sentido ainda mais profundo, que este culto aprofunda a correspondência do nosso amor ao Amor divino. Pois só em virtude da caridade se obtém que os homens se submetam mais perfeita e inteiramente ao domínio de Deus, já que o nosso amor de tal maneira se apega à divina vontade, que vem a fazer-se uma coisa só com ela, consoante aquelas palavras: “Quem está unido ao Senhor é com Ele um mesmo espírito” (1 Cor 6, 17).

5. Conquanto a Igreja em tão grande estima tenha tido sempre e ainda tenha o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus, a ponto de se empenhar em fomentá-lo e propagá-lo por toda parte entre o povo cristão, e conquanto se esforce diligentemente por defendê-lo contra o “naturalismo” e o “sentimentalismo”, todavia é muito doloroso verificar que, no passado e em nossos dias, alguns cristãos não têm este nobilíssimo culto na honra e estima devidas, e às vezes não o têm nem mesmo aqueles que se dizem animados de zelo sincero pela religião católica e pela própria perfeição.

6. “Se conhecesses o dom de Deus” (Jo 4, 10). Servimo-nos destas palavras, veneráveis irmãos, nós, que por disposição divina fomos constituído guarda e dispensador do tesouro da fé e da religião que o divino Redentor entregou à sua Igreja, para admoestar todos aqueles dos nossos filhos que, apesar de, vencendo a indiferença e os erros humanos, já haver o culto do Sagrado Coração de Jesus penetrado no seu Corpo Místico, ainda abrigam preconceitos para com ele, chegam até a reputá-lo menos adaptado, para não dizer nocivo, às necessidades espirituais mais urgentes da Igreja e da humanidade na hora presente. Porque não falta quem, confundindo ou equiparando a índole primária deste culto com as diversas formas de devoção que a Igreja aprova e favorece, mas não prescreve, o têm como um acréscimo que cada um pode praticar à vontade, e alguns há também que consideram oneroso este culto, e mesmo de nenhuma ou pouca utilidade especialmente para os militantes do reino de Deus, empenhados em consagrar o melhor das suas energias, dos seus recursos e do seu tempo à defesa da verdade católica, para ensiná-la e propagá-la, e para difundir a doutrina social católica, fomentando práticas religiosas e obras por eles julgadas mais necessárias nos nossos dias. Por último, há quem creia que este culto, longe de ser um poderoso meio para estabelecer e renovar os costumes cristãos na vida individual e familiar, é antes uma devoção sensível não informada em altos pensamentos e afetos…

7. Outros, finalmente, ao considerarem que esta devoção pede penitência, expiação e outras virtudes, sobretudo as que se chamam “passivas”, por não produzirem frutos externos, não a julgam a propósito para reacender a piedade, a qual deve tender cada vez mais à ação intensa, encaminhada ao triunfo da fé católica e à valente defesa dos costumes cristãos, os quais hoje, como todos sabem, se vêm facilmente infectados pelo indiferentismo, que não reconhece nenhum critério para distinguir o verdadeiro do falso no modo de pensar e de agir, e, assim, se vêem lamentavelmente afeados pelos princípios do “materialismo” ateu e do “laicismo”.

(Continua nos próximos artigos).

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23 julho, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Amor confiante (VI).

“O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido” (Mt 18, 11).
“Sou Eu, não temais” (Lc 24, 36).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Continuação e término da Conferência do P. Mateo Crawley-Boevey

“Digo-vos mais: confiai, porque esse Jesus, que vos convida ao abandono, à Sua intimidade, vê mais claro que vós mesmos. Se vedes cem defeitos, Ele encontra mil e, não obstante, vos ama e vos chama. Seu amor não é, nem pode ser, como o de um amigo ou o de um noivo, um amor-ilusão, e sim fundamentado na verdade. Ele não vos quer porque imagine coisas diferentes da realidade, pois para Ele, na ordem moral, não há camuflagens. Ama-vos tais como sois. Daí a frase, tão feliz quanto ousada, de Santa Teresinha: “Que mau gosto tiveste, Jesus, querendo-me feia como sou… Não modifiques em nada esse mau gosto, para que não me exponha a ser substituída por um anjo”.

sagrado coração de jesusNa amizade terrena, o excesso de familiaridade revela misérias anteriormente desconhecidas. Por isso, desmoronam-se tantos carinhos, fundados em ilusões… Mas com Nosso Senhor a coisa é outra. “Jesus vos ama como ninguém e vos perdoa como ninguém – diz o famoso convertido inglês Pe. Faber – justamente porque vos conhece como ninguém”.

A Ele, jamais se surpreende, porque mesmo no santo, que faz milagres, pode-se ver o abismo de fragilidade que traz, no interior, o taumaturgo. Por isso mesmo também vos disse, há pouco, que se contenta,  Ele, que tudo vê, com grandes e santos desejos, pois melhor do que nós sabe que muitos deles, por sinceros que sejam, não são realizáveis. Mas vosso desejo já é a Seus olhos um ato de amor, quando sois sinceros e não vaidosos. Quanto são de fato desejos, e não caprichos ou devaneios.

“Paz, portanto, aos de boa vontade” (Lc  2, 30). Paz àqueles que compreenderam e saborearam quão bondoso é o Senhor! Paz aos que sabem, por experiência, que seu jugo é suave e leve a sua carga (Mt 11, 30). Muito mais que a preocupação exagerada, ainda que legítima de curar vossos males, tende a santa preocupação da Sua glória. “Preocupa-te de Mim, só de Mim, dizia Jesus a Santa Margarida Maria – e Eu me preocuparei de ti e de tudo que é teu”.

Há apóstolos que não compreendem ainda este grande espírito e gastam suspiros e tempo em pedir isto ou aquilo. Depois, quando já estão cansados, ajuntam: “Venha a nós o Vosso Reino”.

Não façais assim. Começai o trabalho da vossa santificação e do apostolado com este grito, vindo da alma: “Venha a nós o Vosso Reino, o reino do Vosso Coração, do vosso Amor”, e Ele dirá: “E Eu me encarrego de todos os teus outros interesses”. Por aí vedes quanto é ampla, segura, sólida e bela a doutrina do Coração de Jesus! Como se vive bem, luta-se, trabalha-se nesse santuário em que tudo é verdade, paz e força e gozo no Espírito Santo! Bebei à saciedade desse Coração “Fonte inesgotável de vida” e de amor misericordioso. Nele quero ter minha morada, minha escola, meu céu. Esse Coração me basta. Sou pobre, paupérrimo, mas nesse Coração não temo. São muitos aqueles que julgam ser árduo e dificílimo salvar-se. Eu, ao contrário, creio, raciocinando junto desta cátedra divina, luminosa, que não é tão fácil perder-se, pois que para isso é preciso romper as amarras que são os braços do Senhor, forçar a cidadela redentora que é Seu Coração.

Compenetrai-vos, zelosos apóstolos, desta grande doutrina, visto que não há novidades depois do Evangelho, mas que, por vontade explícita do céu, é todo um sistema doutrinário, toda uma espiritualidade, que envolve hoje a terra sob o título de “Reinado do Coração de Jesus”.

Vivei deste pão do amor e da confiança ilimitada, para depois dar essa mesma substância, verdadeiro maná, a muitas almas que têm um conceito mesquinho, desfigurado de Cristo Nosso Senhor.

Ardei na chamas do Coração Divino para, em seguida, queimar a outros. Confiai, vivei no abandono, para infiltrar em outros a confiança, alicerçada no Evangelho, na lei de Cristo, no espírito da Igreja.

Aos débeis, aos maus e pecadores, falai no mesmo tom de Jesus, como Jesus, como o Coração de Jesus. Ouvi como sentencia a pecadora que jaz aos Seus pés divinos: Mulher, “nem eu te condenarei. Vai e não peques mais” (Jo 8, 11).

Discípulos, aprendei as ideias, a linguagem, o estilo do Mestre!

Para terminar, um dos parágrafos mais admiráveis, em doutrina e eloquência, de Santa Teresinha: “Não vou a Deus pelo caminho da confiança e do amor por me julgar preservada do pecado mortal. Ah! Sinto-o perfeitamente, ainda que tivesse por sobre a consciência todos os crimes possíveis, não perderia nada da minha confiança; iria, com o coração destroçado pelo arrependimento, refugiar-me nos braços do meu Salvador. Bem sei quanto ama ao filho pródigo e já ouvi as Suas palavras a Santa Madalena, à mulher adúltera e à Samaritana. Não, ninguém poderá jamais amedrontar-me, porque sei a que ater-me, acerca do seu amor e sua misericórdia. Sei que toda essa multidão de ofensas desapareceriam num abrir e fechar de olhos, como uma gota d’água lançada sobre brasas ardentes” (História de uma alma).

Término.

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19 julho, 2016

Os demônios de Paulo.

São Paulo nos encoraja a combater contra as “forças das trevas” que habitam nos ares e que detêm poder sobre os homens. Estes obedecem ao príncipe deste mundo, que causa o obscurecimento da Verdade e a difusão do erro, e que somente uma fé incondicional no Senhor, Deus dos Exércitos, é capaz de anular.

Por  Giancarlo Infante – Papale Papale | Tradução: FratresInUnum.comQuando São Paulo chegou a Pozzuoli de Malta, exausto por uma nova viagem cheia de aventuras, ele foi convidado a parar por uma semana naquele que, antes de Ostia, foi o porto de Roma. A poucos passos do mar, encontrou-se diante de um templo dedicado a Serapide, divindade solar de matriz grega, mas de origem egípcia. Como em Atenas, ele sentiu um “estremecimento em seu espírito”, também ao ver esta cidade entregue aos ídolos (cfr At. 17: 16). No entanto, apesar de debilitado pela extenuante atividade apostólica descrita no último capítulo de Atos, Paulo não perdeu o ânimo e logo retomou a sua marcha para Roma, para continuar a pregar contra a falsa religião dos pagãos, especialmente aquela que era dirigida ao ídolo solar, que ele conhecia muito bem, já que tinha vindo da Cilícia, a terra de Mitra.

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Entretanto, havia aprendido a conhecer bem as perseguições que sofrem aqueles que se levantavam contra as superstições pagãs arraigadas. Em Éfeso, eles haviam se levantado contra os ourives construtores das estátuas de Artemis-Diana, padroeira das prostitutas, e assim provocavam uma baixa nos negócios porque seus deuses sucumbiam inexoravelmente diante da pregação e consequente disseminação da doutrina cristã, a qual não deixava espaço para alternativas ou estranhos meios-termos, e que quase sempre exigia a escolha fatídica: ou com Cristo ou contra Cristo. Na verdade, muitos Efésios confessavam publicamente o seu recurso a práticas mágicas e espontaneamente ateavam fogo a todos os livros de magia negra em sua posse, cujo valor total chegava a cinquenta mil moedas de prata (cfr. At 19).  Uma soma substancial. Em Attica, uma drama de prata correspondia ao salário diário de um trabalhador em geral. Assim, cinquenta mil dias de trabalho. Mais do que uma década de um trabalhador.

“O Anjo de Luz”

Paulo, como todos os demais apóstolos, sustentava com clareza e sem muita distinção, a oposição irreconciliável entre o culto dirigido a Cristo e aquele dedicado aos demônios. Quem não adora a Cristo, adora ídolos: “As coisas que os pagãos sacrificam, sacrificam-nas a demônios e não a Deus. E eu não quero que tenhais comunhão com os demônios. Não podeis beber ao mesmo tempo o cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar ao mesmo tempo da mesa do Senhor e da mesa dos demônios”. (1 Cor 10, 19 -22). Em outra parte, ele acrescenta: “Que união pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunidade entre a luz e as trevas? Que compatibilidade pode haver entre Cristo e Belial? Ou que acordo entre o fiel e o infiel? Como conciliar o templo de Deus e os ídolos? Porque somos o templo de Deus vivo, como o próprio Deus disse: Eu habitarei e andarei entre eles, e serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (2 Cor 6: 13-16).

A propósito da sua vontade de viajar para Tessalonica, onde o aguardavam novas comunidades cristãs, Paulo experimentou de modo evidente a ação contrária do Maligno, que fez de tudo para impedir aquela viagem apostólica: “Pelo que fizemos o possível por ir visitar-vos, ao menos eu, Paulo, em diversas ocasiões. Mas Satanás nos impediu” (1 Tessalonicenses 2, 18). Também sobre este tema, São Paulo evita qualquer digressão. Não é um doutor, mas um apóstolo. Se fala, é para alertar seus discípulos sobre o verdadeiro poder de sedução do Maligno, que ele conhece bem. Mas que, por outro lado, também conhece muito bem o Apóstolo: “Alguns judeus exorcistas que percorriam vários lugares inventaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre os que se achavam possessos dos espíritos malignos, com as palavras: Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega. Assim procediam os sete filhos de um judeu chamado Cevas, sumo sacerdote. Mas o espírito maligno replicou-lhes: Conheço Jesus e sei quem é Paulo. Mas vós, quem sois? Nisto o homem possuído do espírito maligno, saltando sobre eles, apoderou-se de dois deles e subjugou-os de tal maneira, que tiveram que fugir daquela casa feridos e com as roupas estraçalhadas. (Atos 19, 13).

O Maligno, porque é fortemente enganador, é tão ardiloso a ponto de dissimular sua própria natureza, assumindo a aparência da divindade que ele busca ofuscar. Para enganar os homens e levá-los ao erro e ao pecado: “Não quero que sejamos vencidos por Satanás, pois não ignoramos as suas maquinações… o que não é de espantar. Pois, se o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz” (2 Cor 2, 11 e 11, 14).

Os dominadores do mundo

Paulo indica com extrema eficácia o perigo derivado das falsas doutrinas, ainda que o faça de modo formalmente diferente do seu Divino Mestre, que era capaz de fascinar multidões apenas com o uso de parábolas eficazes, evocativas e sintéticas. Em suas cartas, o Apóstolo geralmente não utiliza uma linguagem atraente, poética, alusiva como a dos Evangelhos. Ele nem sequer evoca imagens proféticas, tremendos “segredos” a serem revelados, com significados fechados à interpretação, como foi capaz de fazer o Apóstolo João, no livro misterioso do Apocalipse.

O estilo de Paulo, à parte os saltos extraordinários Cristológicos, não é imediato. Mas demissivo, discursivo, não sugestivo. Às vezes, aparentemente contorcido, senão “monótono”. No entanto, nenhum entre os apóstolos é mais próximo de Cristo do que Paulo. Nenhum se identifica de tal maneira com Cristo, a ponto de dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim.” Ninguém identificou tanto suas ações com a paixão e a cruz do Senhor: “Estou crucificado com Cristo, e já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. Esta vida na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2, 20). E mais tarde, antes de concluir abruptamente a carta aos Gálatas, “! Ó insensatos gálatas, quem vos fascinou a vós” (3,1), ele disse: “Eu levo as marcas de Jesus no meu corpo” (6, 17).

No entanto, São Paulo, assim partícipe da cruz e da glória de Cristo, apontou quais são os verdadeiros inimigos contra os quais devemos combater, “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos do mal, nas regiões celestes” (Ef 6: 12). Esta declaração demonstra a incomparável compreensão espiritual daquele a quem “foi dada a graça de anunciar aos gentios as insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3,8). Inteligência que transcende decisivamente os limites dos efeitos contingentes, para atingir a causa metafísica dos eventos.

 

Deuses, homens e demônios

São Paulo, na verdade, em virtude da experiência particular de Cristo, culminando com o arrebatamento ao terceiro céu, no paraíso, onde “ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem falar delas” (2 Cor 12, 4), não faz outra coisa senão amplificar o âmbito temporal do “iniquitatis mysterium” já em ação (2 Ts 2: 7), não atribuindo-a aos homens em particular, mas reconduzindo-o à sua verdadeira e única essência: “o príncipe do poder do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência “(Ef 2,2).

O Apóstolo dá a entender que os poderosos deste mundo estão, por sua vez, submissos a um poder superior, metafísico, constituídos por aqueles espíritos dos ares aos quais são dirigidos os cultos e sacrifícios celebrados nas falsas doutrinas. A tal poder estão sujeitos não apenas aqueles que participam, mas também aqueles que permitem que tais cultos ilícitos sejam celebrados.

Na antiguidade, era muito comum a crença generalizada de que “uma criança ou grupo de crianças pré-púberes pudessem constituir os melhores guardiões de revelações, sonhos e adivinhação”. Crença apoiada no fato de que na Roma antiga haviam os “pueri mágicos”, que os sacerdotes induziam ao transe ou sono mágico: “Quando um espírito é invocado, ninguém tem o poder de vê-lo senão os meninos de onze e doze anos de idade ou aqueles que são verdadeiramente virgens »[1].

Santo Agostino examina essas crenças e práticas invocatórias dirigidas aos deuses e demônios, em sua obra Cidade de Deus. Ele relata a opinião comum, afirmada especialmente por Apuleo, sobre a realidade animada, ordenada em três classes: “deuses, homens e demônios. Os deuses ocupam a posição mais proeminente, os homens uma posição ínfima, os demônios no meio, nos ares. De fato, a sede dos deuses é o céu, a dos homens a terra, e os demônios no ar”(Livro 8, 14). Os demônios estão entre homens e os deuses e atuam como intermediários. E, enquanto tal, são propiciados através de cerimônias mágicas e mediante o oferecimento de sacrifícios apropriados. No entanto, acrescenta o santo de Hipona: “Esses são espíritos cheios de desejo de fazer o mal, totalmente alheios à justiça, inchados de orgulho, lívidos de inveja, astutos no engano; habitam no ar, porque foram abatidos da sublimidade do alto dos céus como punição por uma transgressão irremediável e condenados a esta espécie de cárcere que para eles é conveniente “(L. 8, 22).

Oportunas e inoportunas

Estes mesmos demônios são apontados por unanimidade pelos especialistas em exoterismo como os verdadeiros governantes das seitas secretas. Pierre Mariel, por exemplo, concluiu que essas fraternidades ocultas “obedecem todos (e os superiores o sabem bem) a uma única direção. Existe (para além das diferenças aparentes) Superiores Desconhecidos, reagrupados em um centro do mundo, que são os condutores deste cartel, onde cada sociedade é um instrumento dócil e bem afinado “[2].

Estes “superiores desconhecidos”, “daemon” por assim dizer, ainda presentes e mais do que nunca ativos em nosso meio, são esses espíritos malignos espalhados no ar, contra os quais São Paulo guerreou sem reservas. E contra os quais temos que lutar, no sentido paulino, “para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever.” (Ef 6: 13). De resto, “as guerras são vencidas apenas por aqueles que forem capazes de atrair dos céus as forças misteriosas do mundo invisível e que sabem assegurar-se de seu patrocínio” [3]. E somente os cristãos têm do seu lado o favor incondicional das potências angélicas, que de nós não esperam outra coisa senão serem invocadas em todas as oportunidades, “oportunas, inoportunas” (2 Tm 4: 2), para intervir em nosso favor.

_Notas_

[1] F. M. Dermine, místicos, videntes e médiuns – Experiências do Além em confronto, Libreria Editrice Vaticana, 2002, p. 99.

[2] P. Mariel, As sociedades secretas que dominam o mundo, Florença, 1976, p. 207.

[3] F. Belfiore, San Paolo, Volpe Editore, Roma, 1971, p. 12.

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16 julho, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Amor confiante (V).

“O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido” (Mt 18, 11).
“Sou Eu, não temais” (Lc 24, 36).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Continuação da Conferência do P. Mateo Crawley-Boevey

“Precisamente porque justo, o Senhor deve ser muito mais Pai e Mãe e não Juiz tremendo. Justamente porque sabe quem sou, porque sabe onde termina minha malícia e onde começa minha debilidade e ignorância. Por isso dizia Teresinha: “Eu me confio tanto à justiça de Deus, e espero tanto dela quanto de sua Misericórdia”. E é eminentemente teológico. Creio tanto mais na misericórdia que prego, quanto mais firmemente creio na Justiça e equidade do Rei da Glória.

Jesus flageladoJustiça não quer dizer sempre e ainda menos exclusivamente “rigor e castigo”, e sim equidade.  Deus, porque é justo, deve dar-me às vezes ternura e compaixão, e outras vezes, castigo. Mas de fato, em virtude da ordem estabelecida por um Deus Crucificado, Ele é neste desterro muito mais paternal e compassivo que Juiz inclemente.

Quereis disto um prova simples e eloquente? Se o leitor destas linhas cometeu, por suposição, um só pecado mortal em sua vida, – e se cá embaixo, Deus fosse inexoravelmente severo e rigoroso – por que sua alma não está já no inferno, tão justamente merecido?

Por que saboreia agora o pão de mel, o pão de fortaleza desta doutrina salvadora, por que? Ah! Será diferente quando, cerrando os olhos, cairmos na outra margem da eternidade, diante do Tribunal Supremo…

Lá em cima, consumada a obra de misericórdia, ser-nos-á feita a justiça a frio. Mas por enquanto, aqui embaixo, “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rom 5, 20) e a misericórdia. Eis aqui uma lindíssima história ou lenda, sobre um Crucifixo milagroso. Aos seus pés, chora, confessando-se, um pecador sinceramente arrependido. Eram tantos os seus pecados, que o confessor vacila por um momento, em dar-lhe a absolvição. Mas, vencido pelas lágrimas, “Absolvo-te, lhe diz, mas cuidado em não recair!”

Passado bastante tempo, volta o penitente.

– Lutei com vontade, mas tive um momento de vertigem, de fraqueza, recaí…” Confundido, volta imediatamente a reconciliar com Deus.
– Não, lhe diz o confessor, desta vez não posso absolver-te!”
– Mas, Padre, tenha pena de mim! Pensa que sou apenas um convalescente de grave e demorada enfermidade… Por piedade, sou sincero!”

A muito custo, e depois de severas recriminações, tornou a dar-lhe a absolvição. O penitente estava deveras arrependido, mas o hábito de tantos anos de pecado, a natureza toda comprometida, envenenada pelo vício, dá por terra uma terceira vez com os seus propósitos, depois de longo tempo de perseverança. Procura com simplicidade e confiança o confessor, quer reabilitar-se.

– “Não posso”, diz o sacerdote, e levanta-se para sair, procurando desvencilhar-se do penitente que o segura com ambas as mãos. Neste momento, ouve-se um gemido de imenso amor e compaixão imensa… Levantaram, os dois, os olhos ao mesmo tempo e, que vêem? O peito do Crucificado erguido por um soluço de emoção, os olhos cheios de lágrimas e ainda, – ó prodígio! – a mão direita solta. E ouvem Sua voz suavíssima, que diz em soluços trançando a cruz: “Eu, sim, perdoo-te, que me custaste meu sangue!”

Não me detenho em averiguar se o fato é histórico em lendário, que pouco me importa. O que me encanta é a lição, a doutrina. O Senhor é suave e bom, compassivo e terno, é misericordioso num grau que não imaginamos, “porque a esse Jesus, custamos os Seu Sangue!” Fora, portanto, fora coma as aberrações do jansenismo, gás asfixiante, deletério, que, apesar dos anátemas, continua fazendo estragos em casas religiosas e nas alma mais puras e delicadas! Lembrai-vos sempre de que o grande respeito é o grande amor. E o amor, quando é profundo e grande, traz infalivelmente consigo imensa confiança.

Vivemos sob o império da graça, por felicidade imerecida. Por favor do céu, não somos judeus de espírito. Nascemos do lado de cá do Calvário. A falta de confiança é uma grande ingratidão, e falta de simplicidade e abandono. Sede mais crianças com vosso Pai que está nos céus. Reconhecei vossos defeitos, mas não vos deixeis sufocar ou desanimar por eles. Ao contrário, fazei como o Senhor, tirai partido da doença e da miséria, para Sua glória e vosso bem. Que santo, com exceção da Imaculado, não teve defeitos? Arrojai-os ao braseiro do Coração de Jesus… e queimai-vos, vós também, depois deles.

Conheceis aquela conversa de Jesus com S. Jerônimo?

– Jerônimo, diz o Senhor, queres me dar um presente?
– Mas, Senhor, responde o Santo, já não vos dei tudo? Minha vida, meus bens, minhas energias, meus sofrimentos, minha felicidade, minha alma, tudo é vosso, e só vosso.
– Jerônimo, dá-me mais uma coisa.
– O que, Senhor, o quê? Haverá sequer uma fibra do meu coração que não vos pertença?
– Jerônimo, Jerônimo, dá-me uma coisa que ainda não é minha. Guardas ainda, para ti, algo que devia ser meu…
– Falai, Senhor, pedi. De que se trata?
– Jerônimo, dá-me os teus pecados!

Dai-os, confiai-os a Ele, como pó, como lepra, que Ele parece procurar com afã de Médico e de Salvador. “Levai-os, dizei-Lhe, levai-os todos, com as raízes, e para sempre! Creio em vosso Amor, abandono-me ao Vosso Coração. Venha a nós o Vosso Reino!”

E ficai sabendo que falando desta forma, não pretendo camuflar ridiculamente vossos defeitos, dissimulara fealdade e o número deles, não! A humildade deve ser a verdade. (A conferência continua e terminará no próximo artigo).

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9 julho, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Amor confiante (IV).

“O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido” (Mt 18, 11).
“Sou Eu, não temais” (Lc 24, 36).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Continuação da Conferência do Pe. Mateo Crawlei-Boevey SS. CC.

Já vos disse antes: para conhecer-vos deveras, mirai-vos no espelho divino dos olhos de Jesus. O sol do Seu Coração (Guarda-te de mirar-te, ainda que por uma vez, fora de meu Coração – Vida y Obras, t. I, p. 93) mostrar-vos-á o que sois e ao mesmo tempo vos animará com a visão das suas misericórdias.

sagrado coração 2Lendo com atenção o Evangelho, acaba-se por compreender que Nosso Senhor vivia sedento das misérias humanas. Leiamos refletindo as passagens do Bom Pastor, do Samaritano, as cenas da Madalena e da mulher adúltera, as refeições com os publicanos e onde quer que encontremos as palpitações violentas da Coração misericordioso de Jesus.

Os publicanos não só existiram, mas continuam a existir, somos nós mesmos. E Jesus se apressa a buscar-nos, justamente porque somos publicanos.

Compreendamos portanto, uma vez por todas, que a única maneira de ficarmos quites com o Médico divino é dar-Lhe o coração, cheio de confiança. Jamais conseguiremos que ela seja bastante grande, dizia Teresinha, jamais!

Quantos não fizeram do Coração de Jesus uma novidade e uma devoçãozinha poética, nascida em Paray-le-Monial! Mas não é verdade. O Coração de Jesus autêntico, inteiro, maravilhoso, doutrina substanciosa, vida e misericórdia, centro dos corações, eu o encontro no Evangelho.

Creio – pois claro! – nas grandes revelações feitas a Santa Margarida Maria, justamente porém, o que mais comove nelas e o que mais me convence – depois da autoridade da Igreja – é a concordância perfeita entre o Evangelho e os manuscritos de Margarida Maria. Nem ela, nem coisa nenhuma me são indispensáveis ao conhecimento daquele Coração que se revelou a nós de maneira maravilhosa em Belém, Nazaré, no Calvário e que prossegue revelando-se no Tabernáculo. Paray lançou forte luz e é deveras uma revelação, seus pedidos e promessas são marcos divinos que dão relevo à doutrina. Esta, porém, encontra-se a cada linha do Evangelho, suprema e definitiva revelação do Coração de Jesus.

O acontecimento de Paray reveste-se, antes, de uma outra importância, certamente capital. O Salvador regressa a essa terra-santa, para condenar, reafirmando o que já havia dito na Palestina, a heresia horrenda e fatídica do jansenismo.

Resumindo: o que Nosso Senhor disse em Paray condensamos nesta frase: “Crede em Meu amor, não temais, sou Jesus; amai-Me, dando-Me o vosso coração, e fazei-Me amado, porque sou Jesus”.

Não era isso nenhuma novidade. Nos lábios, porém, de Jesus, e depois, firmado pela Igreja, constituía o anátema de morte contra o jansenismo hipócrita, heresia daquela época. Como os fariseus de Jerusalém, estes mais modernos, não menos repugnantes e venenosos, não aceitaram que um Mestre de Israel, um enviado do Altíssimo, novo Profeta de uma lei bondosa, manifestasse, como o fazia Jesus, tais preferências, fraquezas de ternura, para com aqueles por eles desdenhados como escória moral. E precisamente para recolher, com mãos divinas, “essa escória” e convertê-la em tesouros de glória eterna, vinha Jesus, enviado do Pai, para salvar.

Magnífico e eloquente escândalo! As criaturas chamadas justas, os condutores das almas e conhecedores das Escrituras não concebiam um Deus, um Jesus que, sendo quem é, coma e converse com pecadores e que por eles tenha deixado os anjos do céu. Jansenistas já eram essa turba de fariseus soberbos e hipócritas… E fariseus são também os idênticos orgulhosos, os idênticos sepulcros caiados que não aceitam como autêntica e divina a doutrina do Coração de Jesus: “Quero Misericórdia”, Misericordiam volo  (Mt 9, 13).

Com que veemência maldigo esse jansenismo, que parece haver fomentado, especialmente nas almas mais ricas e generosas, a heresia que, como um vampiro, sorveu-lhes o sangue da nobreza e da generosidade, dissecou-lhes o coração, paralisou-as. Converteu em múmias de terror e aparente austeridade, almas gigantes que, se tivessem amado, se houvessem levantado vôo, se tivessem fixado por horizonte, não suas misérias, mas a Jesus, e muito mais que a obsessão do inferno, o Amor, teriam chagado a maravilhas de santidade.

Jansenismo nocivo, infecto, que se atreveu a converter o Senhor de suma caridade e misericórdia em um Moloch feroz, num Júpiter tonante, cruel e assustador. Quantas e quantas vítimas desse sistema sem luz, sem esperança, sem amor, encontrei em meu caminho! Mas, demos graças a Deus, esses miasmas parecem ceder, depois de combate rude; e à escola jansenista, falta de entranhas, de piedade e de Eucaristia, sucede hoje no governo das almas a escola do Coração de Jesus, radiante de beleza, rica de doutrina, entusiasta pela Eucaristia, saturada de confiança evangélica.

Fazemos agora tremer, sim, mas de amor imenso. Nunca poderei esquecer o que me dizia um jansenista, ilustre advogado, que se julgava católico perfeito: “Não me fale, Padre, de misericórdia; o que eu peço e quero é que me seja feita justiça seca”. Infeliz dele. Se o Sagrado Coração não houvesse sido mil vezes mais compassivo que rigoroso, já saberia o pobre a estas horas o que é justiça inexorável, eterna. Mas, Nosso Senhor vinga-se, sim, à sua maneira, porém. E o tal jansenista morreu abraçando com amor apaixonado uma imagem do Sagrado Coração, e pedindo misericórdia.

Não foram de estilo semelhante os Apóstolos, antes de receberem instrução e educação, quando diziam: “Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?” (Lc 9, 54). Não tinham ainda penetrado no espírito e no Coração do Mestre. Quando o Espírito Santo abriu-lhes os olhos e suas almas dilataram-se, fizeram reparação, mandando baixar fogo de Caridade que incendiasse almas e povos no amor de Jesus Cristo. Foi esse o seu apostolado. Há daqueles para os quais, dir-se-ia, não há senão um atributo em Deus: justiça tremenda. É claro que Deus, porque é Deus, há de ser infinitamente justo. Mas, precisamente por isso, aqui embaixo, enquanto percorremos esse caminho escabroso de viajores, conhecendo Ele o barro com que nos formou, deve ser muito mais bondoso que rigoroso, muito mais Salvador e Pai que Juiz inexorável.

Ele veio e ficou na Eucaristia e na Igreja, para salvar … Nós o forçamos, desgraçadamente, a condenar, obrigamo-Lo a ser Juiz severíssimo. Se não houvesse senão justiça, ou se houvesse mais justiça que misericórdia, ou se fosse tanta a justiça quanta a misericórdia, cá embaixo, no governo providencial das almas, para que então o confessionário, o sacerdócio, a Eucaristia, e todo o plano mil e uma vezes prodigioso de redenção misericordiosa?

Para quem tenha um poucochinho de experiência das almas, a aplicação prática e diária desse plano redentor constitui o milagre dos milagres, e milagre permanente.

A Conferência continua no artigo do próximo sábado.

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4 julho, 2016

Convite – 1º Encontro de Filosofia Tomista do Oratório de São Filipe Neri de São Paulo.

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Ave Maria Puríssima,
O objeto faz a inteligência, diz São Tomás, e não o inverso como o mundo moderno tenta de maneiras diversas nos convencer. O realismo e a inclinação à verdade será a abordagem deste 1º encontro de Filosofia do Oratório de São Filipe Neri de São Paulo, onde esperamos grandes frutos neste dia para novos encontros. O palestrante, Professor Dr. Pedro Monticelli, é bacharel em direito pelo Largo São Francisco (USP), doutor em filosofia pela PUC-SP e professor nesta cadeira na Faculdade de São Bento (São Paulo).

Data: 16 de Julho

Local: Caucaia do Alto (Cotia-SP) – casa de retiros da Congregação do Oratório.

Ônibus sairá às 7h da paróquia São Filipe Neri, retornando às 19h

Outros detalhes deverão ser tratados diretamente no e-mail eventosoratorio@gmail.com ou no telefone (11) 2729-9996.

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2 julho, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Amor confiante (III).

“O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido” (Mt 18, 11).
“Sou Eu, não temais” (Lc 24, 36).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Continuação da Conferência do Pe. Mateo Crawlei-Boevey SS. CC.

“Para que encarnou-se o Verbo? Para estabelecer uma nova lei, portentosa, poderosa, lei positiva e fundamental do cristianismo, lei imperecível e salvadora, a lei da Misericórdia.

O Bom Pastor

O Bom Pastor.

E por isso a desconfiança Lhe fere o Coração. Sabeis qual foi, na realidade, o maior delito de Judas, ainda maior que a traição e os suicídio? Ter recusado a crer naquela misericórdia que Jesus ofereceu-Lhe, de joelhos, quando lavou-lhe os pés, na última Ceia!

Não alteremos o Evangelho, que não temos esse direito. O Senhor veio não para os justos e sadios, mas para os pecadores e enfermos (Mc 2, 17). E a retribuição que Ele pede em troca de uma tão grande condescendência é o amor de confiança, que é sempre o mais sincero e o
mais humilde dos arrependimentos. Quem não compreende isso, não compreendeu ainda o que há de mais delicado e belo no Coração de Jesus!

Nada, nem ninguém, pode impedir-nos a aproximação do seu Peito ferido. Vossos pecados, dizeis? Lavou-os com Seu Sangue. Vossa indignidade? Ele a conhece mil vezes melhor que vós mesmos. E quanto a qualidades, não pede senão uma: crerdes com humildade e confiança em seu Amor. Sabei que se alguma coisa há que O distancie de vós é justamente esse olhar para trás, para vossa vida passada. E esse duvidar do seu Coração, e revolver-vos em vossas próprias misérias, o que aliás, frequentemente, mais que arrependimento, é refinado amor-próprio. Se não quereis envenenar vossas feridas, não as toqueis excessivamente. Vossas mãos as irritam… Só as de Nosso Senhor curam e as cicatrizam.

Pela última vez, não abuseis da palavra “respeito”, sob cuja sombra tem-se inculcado sempre o mais repugnante e odioso jansenismo. Confiai-vos a Ele, que é Pai e Mãe e Salvador. Confiar não é nem será jamais falta de respeito, como nunca será igualmente obedecê-Lo, acercar-se d’Ele quando Ele, conhecedor de vossas fraquezas, chama e insiste oferecendo-vos o Coração.

Resistir a esse chamado, sob pretexto de não estar ainda suficientemente purificados e dignos, é soberba disfarçada. E nesse caso, sede ao menos sinceros e confessai que sobre amor-próprio e que falta o amor de Nosso Senhor. Se amásseis, como seria diferente o vosso modo de raciocinar, pois que tão diversa é a atitude da humildade, irmã gêmea da confiança! Motivo tinha Santo Agostinho para dizer: “Ama, e faze o que quiseres”. O que quiseres, porque tendo na alma a conselheira de uma verdadeira caridade, não há perigo que, amando e confiando, chegues a ofender a quem ames.

Como é belo pensar que antes de Pentecostes São Pedro disse: “Retira-te de mim, Senhor, que sou um pecador” (Lc , 8). E Pedro caiu! Depois que a luz de Pentecostes lhe mostrou junto ao abismo da sua fraqueza um outro da infinita misericórdia, deve ter pensado e exclamado com freqüência: “Senhor, não Te afastes … aproxima-Te mais, muito mais, inteiramente, porque sou um grande pecador”. Perguntai a um São Francisco de Assis, a um S. João da Cruz, a um Francisco de Sales, a um S. Paulo, onde encontraram o segredo da vida, da santidade, do amor: à distância de Nosso Senhor, ou no afã de chegar à intimidade, no caminho da fraqueza e da confiança?

Onde, senão no Evangelho, aprendeu Teresinha a teologia prodigiosa com a qual está provocando, segundo afirmam graves doutores, um renascimento espiritual. Quero dizer a teologia que chamaríamos dos garotos, daqueles atrevidozinhos que, encarapitados nos joelhos do Mestre (Mt 19, 13-15) e sedentos de carinhos, aprenderam muito antes de Teresinha que o amor tende à união e que esta supõe confiança ilimitada.

Não é este o perfume mais puro e celestial do Evangelho? Quem se excedeu na medida, os meninos ou Jesus? Se houve excesso, foi de ternura e condescendência de Nosso Senhor. As almas pequeninas e simples tiveram sempre o privilégio de compreender essas exigências e sublimidades do amor. Entre as crianças que disputam o posto de honra, para ouvir as batidas do Coração do Amigo, e os apóstolos e S. Pedro, que se surpreendem com tanta familiaridade, que não a compreendem e se afastam: Deixai-Me os garotos, prefiro-os incomparavelmente, nesse momento do céu … Na vida e no morte, quero para mim a sua simplicidade, sua confiança e … o seu posto!

Não percebeis quão capcioso é o ardil do inimigo distanciando-vos do Senhor, com a obsessão dos vossos pecados. Daí a desanimar-vos, a abater-vos, e fazer-vos logo rolar mais para baixo, basta um passo. Estudai um instante diante do Sacrário a atitude de Jesus com a Samaritana … (Jo 4). Evita Nosso Senhor dirigir a palavra a essa grande culpada? Fala-lhe em tom ou de forma a fazê-la retirar-se envergonhada de sentir-se tão próxima d’Ele que é a mesma Santidade? Qual o fruto imediato dessa proximidade? Confusão e fuga da Samaritana, ou expansão de confiança simples, de arrependimento e conversão?

Aprendamos a lição, para proveito nosso e das almas. Todo o mal grave começa e se consuma no afastamento de Jesus. E toda virtude e principalmente a do arrependimento e a da humildade, levam-nos como por instinto ao Coração do Salvador.

Porque, se às vezes, procurando embora essa intimidade, não vedes nem sentis, não apalpais os frutos de aproveitamento e correção dos defeitos, não atribuais a esterilidade à vizinhança de Jesus. Sabei discernir. Nem todo progresso espiritual é sensível. Além disso, com freqüência, passados longos anos nesta via de amor e confiança, vêem-se mais claramente as maldades da natureza. Não se trata, portanto, de haver piorado junto de Nosso Senhor. Mas cresce a luz, o sol, que é seu Coração, penetra em vós, e mostra hoje na alma “bactérias” cuja existência, um ou dez anos atrás, não havíeis percebido a pouca luz. Ademais, Ele continua a permitir que sintais, ainda depois de convalescidos, o mal-estar do vosso pecado, para que seja expiado e se complete, com a humilhação, a cura da alma. Continuais trabalhando por aproximar-vos de Jesus, com menos preocupações e com mais confiança em Sua misericórdia. Pensai mais no Médico e no Seu tratamento que na doença e no doente.

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1 julho, 2016

São Paulo: Terço na Praça da Sé, sábado, às 15 horas.

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