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15 janeiro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: “Ai de ti”.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“Ai de ti Corozain, ai de ti, Betsaida, porque se em Tiro ou Sidônia tivessem sido feitos milagres que se realizaram em vós, há muito tempo que elas teriam feito penitência em cilícios e em cinza – Por isso vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidônia no dia do Juízo, que para vós. E tu Cafarnaum, elevar-te-ás porventura até ao céu? Hás de ser abatida ao inferno, porque se em Sodoma se tivessem feito os milagres que se fizeram em ti, talvez existisse ainda hoje.Por isso vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma que para ti” (S. Mat., XI 21-23)

N.B.: Todo este artigo é extraído exclusivamente do Livro “EM DEFESA DA AÇÃO CATÓLICA”, Quinta Parte, Capítulo Único, em que o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira , pelos textos do Novo Testamento, confirma as doutrinas que defendeu anteriormente neste mesmo livro. Demos-lhe então a palavra:

“Sem contestar que realmente na lei da graça tenha havido uma efusão muito mais abundante da misericórdia divina queremos demonstrar que se dá às vezes a este fato gratíssimo um alcance maior do que na realidade ele tem. Não há, graças a Deus, católico algum que, por pouco que seja instruído dos Santos Evangelhos não se lembre do fato narrado por S. Lucas, que exprime de modo admirável o reinado da misericórdia, mais amplo, mais constante e mais brilhante no Novo Testamento do que no Antigo. O Salvador fora objeto de uma afronta em uma cidade de Samária. E, “vendo isto os seus discípulos Tiago e João disseram: Senhor queres tu que digamos que desça fogo do céu, que os consuma (aos habitantes da cidade)? Ele, porém, voltando-se para eles, repreendeu-os dizendo: Vós não sabeis de que espírito sois. O Filho do Homem não veio para perder as almas, mas para as salvar. E foram para outra povoação” (IX, 50-56). Que admirável lição de benignidade! E com que consoladora e grande frequência Nosso Senhor repetiu lições como esta! Tenhamo-las gravadas bem fundo em nossos corações, mas aí as gravemos de modo tal que reste lugar para outras lições não menos importantes, do Divino Mestre. Ele pregou certamente a misericórdia, mas não pregou a impunidade sistemática do mal. No Santo Evangelho, se Ele nos aparece muitas vezes perdoando, aparece-nos também mais de uma vez punindo ou ameaçando. Aprendamos com Ele que há circunstâncias em que é preciso perdoar, e em que seria menos perfeito punir; e também circunstâncias em que é preciso punir, e seria menos perfeito perdoar.

Não incidamos em um unilateralismo de que o adorável exemplo do Salvador e uma condenação expressa, já que Ele soube fazer, ora uma, ora outra coisa. Não nos esqueçamos jamais do memorável fato que S. Lucas narra no texto acima. E também não nos esqueçamos deste outro, simétrico ao primeiro, e que constitui uma lição de severidade que se ajusta harmonicamente à da benignidade divina, num todo perfeito; ouçamos o que de Corozain e Betsaida, disse o Senhor, e aprendamos com Ele, não só a divina arte de perdoar, mas a arte não menos divina de ameaçar e de punir: “”Ai de ti Corozain, ai de ti, Betsaida, porque se em Tiro ou Sidônia tivessem sido feitos milagres que se realizaram em vós, há muito tempo que elas teriam feito penitência em cilícios e em cinza – Por isso vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidônia no dia do Juízo, que para vós. E tu Cafarnaum, elevar-te-ás porventura até ao céu? Hás de ser abatida ao inferno, porque se em Sodoma se tivessem feito os milagres que se fizeram em ti, talvez existisse ainda hoje.Por isso vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma que para ti” (S. Mat., XI 21-23). Note-se bem: o mesmo Mestre que não quis mandar o raio sobre o vilarejo de que acima falamos, profetizou para Corozain e Betsaida desgraças ainda maiores que as de Sodoma! Não arranquemos ao Santo Evangelho página alguma, e encontremos elemento de edificação e de imitação nas páginas sombrias como nas luminosas, pois que tanto umas quanto outras são salutaríssimos dons de Deus.

Se a misericórdia ampliou no Novo Testamento a efusão das graças, a justiça por outro lado, encontra na rejeição de graças maiores, crimes maiores a punir. Entrelaçadas intimamente, ambas as virtudes continuam a se apoiar reciprocamente no governo do mundo por Deus. Não é exato, pois, que no Novo Testamento só haja lugar para o perdão, e não para o castigo. Os pecadores antes e depois de Cristo.

Mesmo depois da Redenção, continuou a existir o pecado original com o triste cortejo de suas consequências na vontade e na inteligência do homem. Por outro lado os homens continuaram sujeitos às tentações do demônio. E tudo isto fez com que não desaparecesse da terra o pecado, pelo que a Igreja continuou a navegar num mar agitado, no qual a obstinação e a malícia dos pecadores erguem contra ela obstáculos que a todo momento ela deve romper. Basta um lance de olhos, ainda que superficial, na História da Igreja, para dar a esta verdade uma evidência cruel. Mais ainda. A graça santifica os que a aceitam, mas a rejeição da graça fará um homem pior do que ele era antes de a receber. É neste sentido que o Apóstolo escreve que os pagãos convertidos ao Cristianismo e depois arrastados pelas heresias se tornam piores do que eram antes de ser cristãos. O maior criminoso da História, não foi certamente o pagão que condenou Jesus Cristo à morte, nem mesmo o sumo sacerdote que dirigiu a trama dos acontecimentos que culminaram com a crucifixão, mas o apóstolo infiel que por trinta dinheiros vendeu seu Mestre. “Quanto maior a altura mais fundo o tombo”, diz um ditado de nossa sabedoria popular. Que profunda e dolorosa consonância com os ensinamentos da Teologia tem esta asserção!

Assim, a Santa Igreja tem de se defrontar no seu caminho com homens tão maus ou ainda piores do que aqueles que, vigente o Antigo Testamento, se insurgiram contra a lei de Deus. E o Santo Padre Pio XI, na Encíclica “Divini Redemctoris” declara que em nossos dias não só alguns homens mas “povos inteiros se encontram no perigo de recair em uma barbárie pior que aquela em que jazia a maior parte do mundo ao aparecer o Divino Redentor”.

Portanto, a defesa dos direitos da verdade e do bem exige que, com um vigor maior do que nunca, se dobre a cerviz dos múltiplos inimigos da Igreja. Por isto deve o católico estar pronto a brandir com eficácia todas as armas legítimas, sempre que suas orações e sua cordura não bastarem para reduzir o adversário.

Notemos nos textos seguintes quantos e que admiráveis exemplos de argúcia penetrante, de combatividade infatigável, de franqueza heroica encontramos no Novo Testamento. Veremos assim que Nosso Senhor não foi um doutrinador sentimental mas o Mestre infalível que, se de um lado soube pregar o amor com palavras e exemplos de uma insuperável e adorável doçura, soube, também pela palavra e pelo exemplo, pregar com insuperável e não menos adorável severidade o dever da vigilância, da argúcia, da luta aberta e rija contra os inimigos da Santa Igreja, que a brandura não puder desarmar.”

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10 janeiro, 2017

A concretude da igreja de padre Jorge.

Por P. Wimmer | FratresInUnum.com

Padre Jorge volta à carga contra o que pensa ser “esquemas abstratos”.

Para sermos bem concretos, ponhamos o exemplo de um pai de família que, aos seus 50 anos, resolveu deixar a esposa e filhos para viver com uma mulher de 25. A esposa já não era atraente, os filhos, jovens e adolescentes, dando trabalho. Ele pode se mudar para um flat perto do trabalho, onde aliás conheceu a sua nova, mui nova, “companheira”, e viver sua vidinha pequeno-burguesa, pois, afinal, seus vencimentos o permitem. Ele, que é cristão, e não pensa segundo a lógica abstrata e legalista do passado. Ele quer se abrir a novas possibilidades, quer respirar um pouco depois de tantos anos de uma convivência nem sempre amena, quase forçada. Quer esquecer as dificuldades do início de carreira, quer, enfim, experimentar o novo, a liberdade. Nada de esquemas abstratos e legalistas!

A esposa, que sempre o ajudou e que batalhou com, e lhe deu filhos, um pouco trabalhosos, é verdade, ficará olhando pela janela a mudança. Ela até já pensa em baixar um aplicativo no celular, para ver se arruma um novo “parceiro”. O que é importa, afinal, é viver o aqui e agora, viver a precariedade do momento, viver as surpresas da vida com espírito aberto e sem esquemas rígidos e pré-concebidos. Também ela quer se dar o direito de ser feliz , quer viver a esperança.

O marido canastrão e seu rabo de saia serão acolhidos na terna igreja do bairro, a igreja de Padre Jorge.

Padre Jorge detesta constrangimentos por motivo de religião. Religião não deve onerar as pessoas com nada. Deve ser um oásis de acolhimento e de ternura. O mundo já exige demais… Criar problemas? Exigências? Cobranças? Nada disso! Padre Jorge sabe que tudo é difícil. Ele mesmo, em sua vida de consagrado, tem lá as suas dificuldades. As pessoas têm que se sentir bem. Cada um que siga a sua consciência. Deus não olha resultados e eficiências. Isso é uma versão capitalista da religião. O que importa é viver a justiça no seu dia-a-dia, promover a fraternidade e a partilha.

Padre Jorge quer acolher, quer tocar, quer a união dos corações e das mentes num sentimento indiferenciado de esvaziamento de si – kenótico.

O marido canastrão e aventureiro e o seu rabo de saia não querem, de modo algum, ficar sem a terapia dominical, a terapia humanista do acolhimento. Eles se sentem bem na comunidade. Dá pra ir ao clube, almoçar tranquilo, beber no bar da piscina até as 19:00, por uma bermuda e pegar a Missa das 20:30 como chave de ouro.

Na paróquia, há muitas atividades de promoção social. Padre Jorge tem muito cuidado para não haver a mínima sombra de proselitismo. A igreja tem que se ocupar das condições concretas de quem a procura, sem marretar doutrinas. Doutrina só gera divisão e afirmação de ego. Não se deve propor nada a ninguém, exceto o compromisso com a partilha e a justiça. Padre Jorge fez até um convênio com o Rotary e outro com Terreiro Maria Padilha. Para padre Jorge, o que importa é fazer o bem, sem criar divisões. Para ele, as pessoas devem ficar onde estão, pois se deus a pôs lá, é lá que ela deve ficar! A função da religião é servir o ser humano. E sobretudo: para padre Jorge, não importa o que você faz dentro de quatro paredes! Quem é ele pra julgar?

E o “ministério de música” de Padre Jorge? É tão bom – um repertório bem acolhedor, sentimental mesmo, que certamente levará a nova “família” – marido canastrão e rabo de saia- às lágrimas da ternura e do esquecimento de si, fazendo experimentar o deus concreto e pé-no-chão, que não liga para leis e códigos abstratos de conduta.

Para padre Jorge, tudo é uma grande dialética de precariedades, nada é definitivo. A síntese se dá pelo confronto dos opostos. Ele pensa assim, desde que sua opinião prevaleça sempre. Para ele, não podemos engessar a realidade. Nós devemos estar atentos aos sinais dos tempos, como dizia São João XXIII, o papa bom.

Padre Jorge é o homem mais acolhedor do mundo. Dizem que um amigo seu escreve suas homilias. Esse amigo tem até um livro sobre a terapia do toque e do beijo.

Tente contrariar Padre Jorge.

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8 dezembro, 2016

“De Maria numquam satis”.

“De Maria numquam satis”, dizem os Santos. Não se deve dizer basta nos louvores a Maria Santíssima. Não temamos cultuá-la excessivamente. Estamos sempre muito aquém do que Ela merece. Não é pelo excesso que nossa devoção a Maria falha. E sim, quando é sentimental e egoísta. Há devotos de Maria que se comovem até às lágrimas, e, no entanto, se ajustam, sem escrúpulos, à imodéstia e à sensualidade dominantes na sociedade de hoje. Sem imitação não há verdadeira devoção marial.

Consagremos, realmente, a Maria Santíssima nossa inteligência e nossa vontade, com a mortificação de nossa sensibilidade e de nossos gostos, e Ela cuidará de nossa ortodoxia. “Qui elucidam me vitam aeternam habebunt” (Eclo 24,31) – [Aqueles que me tornam conhecida terão a vida eterna] -, diz a Igreja de Maria. Os que se ocupam de fazê-la conhecida e honrada terão a vida eterna.

Dom Antônio de Castro Mayer.

Quando eu era jovem teólogo, antes e até mesmo durante as sessões do Concílio, como aconteceu e como acontecerá a muitos, eu alimentava uma certa reserva sobre algumas fórmulas antigas como, por exemplo, a famosa De Maria nunquam satis – “Sobre Maria jamais se dirá o bastante”. Esta me parecia exagerada.

Encontrava dificuldade, igualmente, em compreender o verdadeiro sentido de uma outra expressão bastante famosa e difundida repetida na Igreja desde os primeiros séculos, quando, após um debate memorável, o Concílio de Éfeso, do ano 431, proclamara Nossa Senhora como Maria Theotokos, que quer dizer Maria, Mãe de Deus, expressão esta que enfatiza que Maria é “vitoriosa contra todas as heresias”.

Somente agora – neste período de confusão em que multiplicados desvios heréticos parecem vir bater à porta da fé autêntica –, passei a entender que não se tratava de um exagero cantado pelos devotos de Maria, mas de verdades mais do que válidas.

Cardeal Joseph Ratzinger – Entretiens sur la Foi, Vittorio Messori – Fayard 1985.

(Publicado originalmente na festa da Imaculada Conceição de 2008)

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3 novembro, 2016

Deo gratias!

gercione

Nossa caríssima Gercione Lima já se encontra em seu quarto, em recuperação, após 6 horas de cirurgia. Rezemos por ela.

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31 outubro, 2016

Rezemos por nossa combatente Gercione.

unnamed-17Caros amigos do Fratres!

Acabo de enviar minhas últimas traduções por algum período. Depois de amanhã, quarta-feira estarei me internando para aquela minha grande cirurgia. Amanhã é dia dos preparativos e estarei muito ocupada.

Minha cirurgia se iniciará às 8 da manhã e provavelmente durará 4 horas ou mais para remover útero, ovários, trompas e apêndice. Deverei ficar no hospital por uns 5 dias e depois ficarei na casa da minha irmã que será minha enfermeira em tempo integral.

Se tudo der certo, e rezo para que dê, dentro de 3 semanas volto para a quimioterapia. É muito sofrimento e provação, mas continuo contando com a generosidade de suas orações.

Abraços e rezem por mim.

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26 setembro, 2016

A busca desesperada pelo Catolicismo: A longa e turbulenta jornada de uma judia convertida à Igreja Católica.

Por Laura Evans, Culture Wars | Tradução: Daniel Sender – FratresInUnum.com:  Um ano após o começo de minha interminável jornada na tentativa de me tornar uma católica tive este pesadelo: estava presa no telhado de um arranha céu e várias pessoas estavam lá comigo. Um por um foram sendo resgatados até que apenas eu restasse lá, totalmente sozinha. Meu terror crescia enquanto o dia se tornava noite. Não tendo ajuda alguma a vista, decidi tomar a questão em minhas próprias mãos.

arranhaceu

Minha única esperança estava em descer pela lateral do prédio. Era um caminho traiçoeiro, mas de alguma forma consegui chegar ao térreo, onde encontro as pessoas que poderiam ter me resgatado. Caminho em direção a elas com lágrimas aos olhos e pergunto lamentosa, “Por que vocês não vieram ao meu resgate?” Todos eles me encaram com um olhar vazio, sem resposta. Acordei deste sonho soluçando.

Eu buscava desesperadamente me tornar católica, até que finalmente tentei entrar na Igreja Católica. Lá encontrei uma burocracia sem fim e entraves que fariam um dia no DETRAN parecer como um passeio no parque. Ao invés do apoio entusiástico que tinha encontrado nas igrejas protestantes, no catolicismo encontrei uma lentidão que pouco dizia respeito às palavras de Cristo, segundo as quais devemos prontamente fazer discípulos de todas as nações.

No protestantismo evangélico, onde inesperadamente me encontrei ao começo de meus 50 anos, as pessoas moveriam céu e terra buscando ajudar a mim e a outros a “nascerem novamente”. Não importava se a igreja estivesse fechando para o dia ou se os fiéis estivessem correndo atrás do bacon com ovos. Quando uma alma perdida vaga pela igreja – negócio como sempre – há uma parada brusca. Se o prédio cair em chamas os protestantes ainda assim estariam evangelizando, apesar dos bombeiros e do fogo. Mas e os católicos? Encontrei um universo completamente diferente, onde rígidas regras prevaleciam (mesmo aquelas que pareciam violar o Direito Canônico) e receber pessoas na Igreja parecia ser a última coisa na lista de coisas à fazer.

Mas como é que sequer cheguei a este mundo novo, sendo eu a pessoa mais improvável a querer me tornar católica? Minha história começa ao final de 2009, quando após uma vida inteira de Judaísmo/Budismo/Paganismo, de alguma forma eu me sentia movida a buscar a Igreja. Quando as pessoas perguntam-me o por que ser tão rara a conversão dos judeus ao Cristianismo, eu sempre respondo a mesma coisa, “só Deus sabe”. Não tenho a mínima ideia do porque, foi tudo o trabalho de Deus dentro de mim.

Como muitos judeus, absorvi desde a infância uma aversão ao Cristianismo. Não tinha muitos amigos cristãos, detestava o Natal e nunca havia entrado em uma igreja durante toda a minha vida. Mas de alguma forma, por razões que apenas Ele concebe, foi plantada uma grande fome em meu coração há alguns anos para conhecer Deus e o fazê-lo em uma igreja Cristã.

Comecei no protestantismo, onde permaneci por muitos anos. Este foi um movimento de sorte. Se eu tivesse me deparado com os bloqueios que posteriormente encontrei no mundo católico, talvez jamais tivesse me tornado cristã.

No protestantismo encontrei presbiterianos amigáveis e luteranos receptivos. Estava particularmente intrigada pelos evangélicos e pentecostais, que calorosamente me convidaram ao seu rebanho e passaram horas transmitindo-me as informações que desconhecia, como quem foi Jesus Cristo? Como se parece uma Bíblia e o que ela diz? Aceitei Jesus Cristo como meu salvador pessoal no começo de 2010, fui batizada em uma igreja crente na Bíblia alguns meses depois e nunca mais olhei para trás.

Mas, por mais maravilhoso que tudo isso fosse, sentia uma inquietude e uma fome dentro de mim por algo a mais, mesmo não sabendo exatamente o que isso era. Embora estivesse tendo muitas experiências boas em minha igreja, meu relacionamento com Jesus não crescia e nada estava sendo mudado em meu âmago, por mais que eu tentasse.

Busquei por esta coisa efêmera de igreja protestante a igreja protestante, dos batistas aos pentecostais, até que em um dia qualquer ao final de Novembro de 2013 (na realidade, este era o primeiro dia do Advento), apareceu subitamente o pensamento em meu cérebro de que eu talvez devesse me tornar católica. Esta era uma ideia nova, que jamais havia considerado, talvez pelo fato de protestantes não-denominacionais serem tão abertamente hostis perante a Igreja Católica.

Isto aconteceu enquanto lia o capítulo sobre Martin Lutero no livro de Mike Jones, “Modernos Degenerados” [1]. Quando Jones descrevia o comportamento mulherengo, o gosto pela embriaguez de Lutero e suas terríveis manipulações de freiras e padres, uma luz atravessou minha mente. Protestantismo vêm da palavra “protesto” – eu jamais havia juntado estes dois.

Não me agradava nem um pouco a ideia de fazer parte de um movimento radical, ou de insurreição. Tendo então já rejeitado minha própria juventude rebelde, percebi com horror que, de alguma forma, encontrei meu caminho em outro movimento revolucionário, o protestantismo. Então decidi começar a frequentar Missas católicas e a aprender o máximo possível sobre o catolicismo.

O que encontrei me fez querer correr por minha vida o mais rápido possível de volta aos protestantes. Descobri católicos que não sabiam o básico sobre a doutrina religiosa da Igreja e outros que desafiavam abertamente os ensinamentos morais. Escutei estranhos termos novos, como os “católicos de cafeteria”[2]. Me deparei com uma multidão de pessoas que não liam a Bíblia e praticavam sua fé com indiferença. Não consigo contar quantas vezes disseram-me que não precisava tornar-me católica, pois tendo sido batizada protestante – ou sendo judia – já era o suficiente. Em resumo, encontrei a Igreja Católica de hoje.

Apesar de meu choque com o estado da Igreja, comecei a fazer intensas pesquisas sobre a teologia Católica, o que clareou e corrigiu muitas doutrinas que me preocupavam no protestantismo. Também pesquisei o motivo de a Igreja Católica ter se tornado tão desordenada e caótica, ou seja, sobre a infiltração de diversas forças nefastas. Mas, mais importante do que tudo isso, encantei-me com a Missa e com o Santíssimo Sacramento, que me arrancaram lágrimas aos olhos mais de uma vez. Meu relacionamento com Jesus cresceu a trancos e barrancos e comecei a realizar as mudanças necessárias em meu comportamento. Finalmente descobri o que estive procurando todo esse tempo, e isso era Jesus em Sua única verdadeira Igreja Católica.

Mas depois de ter tomado a decisão de me juntar à Igreja, deparei-me com o maior choque de todos – isso seria uma tarefa hercúlea. E qual foi o maior obstáculo no caminho entre mim e a eternidade? Minha desgraça, assim como a de muitos outros, foi ter me deparado com o RICA.

Iniciação para Adultos

RICA significa Rito de Iniciação Cristã para Adultos. Ele foi criado posteriormente ao Concílio Vaticano II, aquele período de livre experimentação selvagem: coroinhas meninas, dançarinos litúrgicos, bruxas no altar, casais dando beijos de língua durante o Beijo da Paz e Ministros da Eucaristia. Algumas destas novidades já haviam sido expurgadas, como as bruxas e dançarinas (apesar de uma igreja local ainda ter as últimas). Mas, infelizmente, muitas novidades pegaram, incluindo o beijo e o RICA.

Embora o RICA tenha sido primeiramente introduzido em um número pequeno de paróquias nos anos 70 e começo dos 80, tornou-se onipresente em toda diocese a partir de 1986. Mesmo que evidências e um amplo estudo por parte de um grupo de Bispos tenham revelado problemas generalizados no RICA, ele ainda é a norma para os adultos, o desafio que todos devem passar para chegarem ao Santíssimo Sacramento e à Eternidade.

O sistema anterior ao Vaticano II era mais brando, embora fosse mais eficiente. Suponha-se que um homem, chamemos ele de “Joe”, quisesse tornar-se católico. Joe teria buscado um padre e exporia a ele o desejo de juntar-se à Igreja. O padre teria compaixão pelo pobre homem condenado ao inferno e teria aliviado o sofrimento de Joe, encontrando-se algumas vezes com ele e batizando-o logo em seguida. O padre teria compreendido que a alma eterna de Joe dependia da absolvição de seus pecados e do recebimento do Corpo e Sangue de Cristo ASAP, o mais cedo possível. E ele também reconheceria que ao falhar em seu compromisso, sua própria salvação estaria em risco.

Tudo isso mudou nos anos 80, quando essa abordagem acessível metamorfoseou-se na monstruosidade que temos hoje, o RICA. Hoje, para alguém como eu, sedenta em seu desejo de ingressar na Igreja, é dito que deve ser paciente e esperar. Agora há incontáveis degraus a serem superados, regras a serem obedecidas e sofríveis experiências grupais obrigatórias de ligação voltadas ao bem-estar.

E se uma pessoa dá para trás – se não quiser esperar meses a fio, abominar experiências psicológicas grupais de autoajuda com um bando de estranhos, ou se não quiser estar no altar com estas pessoas e passar por vários Ritos e rituais – bem, então ele está com azar. As coisas são do jeito que são e ninguém tem o interesse em mudá-las. Apesar de uma menina com 7 anos, que ainda cutuque o nariz e molhe a cama, poder receber a Primeira Comunhão, o adulto de hoje têm de navegar por um complicado labirinto, uma versão católica do campo de treinamento militar, até que chegue o momento propício, uma vez ao ano, quando a ele é permitido adentrar a Igreja na Missa da Vigília Pascal (Isso se ele sequer chegar a ir tão longe).

Embora supostamente existam exceções para as pessoas que não querem ou possam passar pelo RICA, encontrar um padre disposto a fazê-lo, como descobri, é como encontrar a proverbial agulha no palheiro. Os padres estão ocupados demais fazendo outras tarefas mais importantes. Um sacerdote disse-me francamente que se ele abrisse uma exceção para mim, teria de fazê-lo para os outros. Isso abre a questão de que se o maior problema de um padre é uma multidão de pessoas clamando para juntar-se à Igreja Católica, isto seria algo tão ruim assim?

De qualquer forma, hoje em dia os padres estão apenas perifericamente envolvidos na tarefa pivô de trazer pessoas para a Igreja Católica. A responsabilidade crucial da conversão foi passada adiante na maioria das paróquias, sendo delegada aos leigos. Uma pequeno número é composto por funcionários pagos, cuja vida depende da perpetuação do sistema. Mas é mais frequente que voluntários comandem o show, normalmente aposentados e casais sem filhos, com tempo de sobra e a necessidade de sentido e pertencimento a algo.

Alguns dos professores sabem do que falam, mas a maior parte é composta por pessoas com boa vontade, mas teologicamente desinformadas. E além destas, há também aquelas com uma agenda esquerdista que é promovida aos infelizes participantes, que se encontram suspensos no espaço sideral espiritual por meses a fio, com a cenoura da salvação pendurada a sua frente.

Proponentes do RICA se referem a ele como uma experiência profunda, evocativa tanto a potenciais católicos quanto para toda a paróquia, uma experiência que data da ritualística dos primeiros dias da Igreja. Séculos atrás, assim como hoje, prospectos ao Cristianismo necessitavam de apadrinhamento e precisavam passar por vários ritos públicos. Também como hoje, os potenciais conversos precisavam se retirar da Missa antes da Liturgia da Eucaristia.

Porém, haviam razões válidas para o apadrinhamento e o retirar-se da Igreja há centenas de anos. A jovem Igreja estava sob severo ataque por uma variedade de inimigos que tentavam infiltrá-la e destruí-la. A Igreja instituiu uma série de complicados procedimentos para proteger a si mesma e, em especial, o Santíssimo Sacramento.

Um prospecto necessitava de um padrinho que assegurasse seu caráter, para garantir, por exemplo, que ele não fosse um espião. Os ritos públicos eram conduzidos em frente à igreja para garantir que a comunidade conhecesse e confiasse no recém-ingresso. O neófito, por sua vez, precisava se retirar antes da Liturgia da Eucaristia para proteger o Corpo e o Sangue do perigo.

Hoje, a necessidade do apadrinhamento e elaborados ritos públicos parece arcaica, mas os proponentes do RICA garantem que estes não são bons apenas aos participantes, mas também um sopro de ar fresco para os párocos antigos, que podem receber um pouco do prazer místico observando aos membros do Rito no altar. Mas, para mim, se a paixão dos párocos pela fé tornou-se tão fria que eles precisam de pretendentes a católicos prostrados em frente a eles como macacos de circo, isto é uma triste visão da Igreja de hoje.

Com relação à prática de dispensar potenciais conversos antes da Liturgia da Eucaristia – para participar de, adivinhe?, mais aulas – como um membro do RICA poderia aprender sobre a Liturgia e experimentar a Presença Real se ele tem de se retirar antes do momento central da Missa Católica Romana? E como um potencial novo católico pode sentir-se parte da Igreja se é feito com que ele se retire?

E eis a questão mais relevante: o RICA realmente funciona? Vale a pena os muitos meses de espera e preparação, assim como os gastos? O novo sistema é melhor que o antigo?

Os proponentes do RICA dizem que sim e insistem que o programa leva a uma melhor retenção dos recém convertidos. Eles nos recordam que os católicos estavam saindo da Igreja em pencas antes da introdução do programa.

Embora seja verdade que houve um êxodo em massa de católicos nos anos 60 e 70, não foi por causa da ausência do RICA, mas por conta da sedutora atração do sexo, drogas e rock n’ roll naquela época rebelde. Contudo, antes dos anos 60, as igrejas estavam cheias de fiéis.

Curiosamente por toda a internet sobreviventes do RICA reclamam de seu rígido sistema, sua péssima catequese e de suas agendas esquerdistas. Mas o que dizem as pesquisas?

A mais extensa pesquisa do RICA, conduzida no ano 2000 pela Conferência Nacional de Bispos Católicos dos EUA, expõe um retrato sombrio. Foram descobertos problemas generalizados, como o alto índice de desistência, professores mal treinados responsáveis por espalhar erros doutrinários e a promoção de ideias não ortodoxas, como a de padres casados ou sacerdotes mulheres.

E sobre a alegação de que os católicos recém formados permanecem na Igreja? Infelizmente, no período de um a cinco anos após a conversão perto de 40% dos novos fiéis já não vão semanalmente à Missa. Minha opinião é que as classes os fecharam, abrigando os novatos e tornando-os dependentes de sua pequena panelinha. Passadas as experiências voltadas ao sentir-se bem, de dar as mãos na busca de aceitação, eles são confrontados com a desordem e a confusão que é a Igreja Católica de hoje, e muitos não conseguem lidar com isso.

Dada a abundância de problemas encontrados, por acaso os Bispos sugeriram cortar toda essa confusão desgovernada? Não. Ao invés disso, sua solução foi… mais cursos pós-conversão, algo chamado mistagogia. Através da mistagogia, os novos católicos são jogados de volta ao salão da paróquia para mais uma sessão de aulas e experiências de grupo.

Se há tantos problemas com o RICA, por que o programa ainda não foi abandonado de uma vez por todas? Meu palpite é que há diversos motivos para isso.

O primeiro é mais benigno, tendo a ver mais com a natureza humana. As pessoas não gostam de mudanças. É mais fácil fazer a mesma coisa de novo e de novo, não importando se isso é útil ou deletério. Existe uma espécie de atitude no RICA de “nós sempre fizemos isso. Assim, temos de continuar a fazê-lo”.

Além disso, existem ainda disputas pelo controle e feudos pessoais a serem mantidos. Se o RICA fosse desmantelado, os funcionários pagos rapidamente perderiam seu emprego e os aposentados seriam privados de seu sentimento de propósito. O programa é também o ganha pão de muitas companhias que vendem vídeos, livros e currículos de ensino. Mas, além de ser autossuficiente, o RICA reflete algumas das forças perniciosas que entraram na Igreja pós Vaticano II.

Uma destas é o falso culto ao conhecimento, que é uma preocupante remanescente dos Fariseus. Ao invés de evangelizar com base no Evangelho, a Igreja passa a lembrar um clube elitista, onde apenas alguns podem se juntar, mas somente após muitos meses de aula e acúmulo de vastas quantidades de conhecimento.

Esta abordagem ao estilo de uma universidade deixa muitos de fora. Por exemplo, aqueles com inteligência limitada, pessoas que viajam muito e não podem frequentar aulas por meses a fio, pais com filhos que precisam de cuidado constante, pessoas cronicamente doentes, com ansiedade social e qualquer um que não tenha condições físicas, intelectuais ou que simplesmente não queira ir a um curso semanal de uma a duas horas, encontrar-se regularmente com um padrinho e passar por ritos públicos por sete a nove meses.

Quanto às outras influências perniciosas na Igreja, muitos católicos se apaixonaram pela psicologia e por grupos. Sintonize à rádio católica e na maior parte do dia haverá fiéis emotivos vertendo vísceras a um psicólogo sobre seus problemas familiares. Ao invés de voltar-se a Jesus em oração, receber os Sacramentos e esforçar-se para abrir uma Bíblia, muitos católicos, da mesma forma que os seculares, preferem soluções psicológicas ao seu sofrimento pessoal.

O RICA é um exemplo clássico da psicologização na Igreja, com seu formato interpessoal grupal de compartilhamento de experiências e realização de exercícios voltados ao sentir-se bem. Os participantes revelam suas alegrias e mágoas ao longo do caminho. Obstáculos no caminho são confessados e dissecados. O participante do programa tem sua própria espécie de conselheiro sob a forma de seu padrinho. Da mesma forma que um viciado necessita de um padrinho e um grupo de AA para mantê-lo sóbrio, o membro do RICA precisa de um grupo e um padrinho para mimá-lo, alimentá-lo a colheradas rumo à Igreja.

E a Igreja ainda não discerniu o quão daninhos podem ser a psicologia e os grupos? Não foram centenas de freiras, padres e seminaristas corrompidos ao frequentarem grupos nos anos 60 e 70 e não perderam muitos sua fé, renunciando às suas Santas Ordens? Grupos podem ser perigosos, pois podem levar ao controle social via doutrinação e pensamento grupal.

Sob meu ponto de vista, o principal arquiteto do RICA e outras desventuras pós-Vaticano II não possui a forma humana, não são as pessoas com frequente boa vontade, que criam e coordenam os programas. O mentor é o bom e velho demônio, Lúcifer, pois é ele quem beneficia-se quando potenciais conversos não cruzam à linha de chegada e são privados da Presença Real de Jesus – e talvez até mesmo da própria salvação. Infelizmente, pude conhecer muito bem as táticas do Maligno enquanto tentei por mais de um ano fazer meu caminho rumo à Igreja Católica sem o RICA.

Novembro de 2013

Como podem se lembrar, Deus colocou no meu coração em Novembro de 2013 que talvez eu devesse me tornar católica. Passei vários meses mergulhando nos ensinamentos católicos, indo à Missa e encontrando-me com padres e católicos devotos. Após oito meses estava convencida que a Igreja Católica era a Igreja de Jesus Cristo. Sentia-me pronta, disposta e preparada para tornar-me católica. Mas o problema era que o RICA não tinha sequer começado.

Queria fazer parte da Igreja rapidamente, pois estava convencida que este era o único caminho para a salvação. Embora não estivesse planejando morrer a qualquer momento em breve, a verdade é que não sou nenhuma flor de primavera. Mas havia outra razão para o meu desespero, eu estava sendo atacada por espíritos demoníacos fazendo hora extra para garantir que eu jamais me tornasse católica.

Eles plantavam continuamente dúvida e desconfiança em minha mente sobre a Igreja Católica. Jamais havia passado por algo assim no mundo protestante, onde o Inimigo mal levantava sua cabeça, muito menos mostrava seus dentes. Mas tão logo comecei a me tornar católica, havia um exército de espíritos negros me atormentando, que acredito terem muito a ver com minha ancestralidade judaica.

Servi de piada, “Você jamais se encaixará lá sendo judia. Você é diferente demais”; fui tentada, “Veja, eles não querem você lá, você não é bem vinda”; desencorajada, “Você está perdendo o seu tempo. Não pode confiar em nenhum deles”. Mas o Maligno foi além, aterrorizando-me com o medo de que eu estava traindo os meus ancestrais. Tinha pensamentos petrificantes, onde Deus me punia com o fogo eterno no Inferno. Era como se o mundo demoníaco inteiro estivesse lançando um ataque frontal completo.

O Inimigo conhecia meus pontos fracos, os medos que me foram plantados desde a infância sobre o Cristianismo. Não existem muitos pecados no Judaísmo moderno: aborto, promiscuidade, experimentação com drogas – nenhum é encorajado, mas não é a pior coisa no mundo. A pior coisa? A pior coisa é tornar-se católico. Então, entre minha programação de infância e os demônios que atormentavam-me, sabia que não tinha condições de tolerar mais nove meses de espera e incerteza.

Pressentia isso, mas não podia fazer muito sobre o assunto. Expus tanto a um padre quanto ao pároco de minha igreja, mas nenhum deles estava disposto a realizar uma catequese individual. Então, tomada de espírito esportivo, fui à primeira reunião do RICA em minha paróquia no mês de Julho.

A experiência foi tão insuportável quanto eu havia imaginado. Era tarde da noite, quando já estava exausta. Embora os membros do grupo fossem agradáveis, nenhum deles era cristão devoto e eu tinha preocupações que minha recém conquistada fé fosse abalada passando meses com pessoas majoritariamente descrentes. Olhando o currículo – que, como a maioria dos cursos, começava com o menor denominador comum – me senti deprimida. Após muita oração, percebi que tinha de encontrar um caminho alternativo rumo à Igreja.

Elaborei um e-mail proveniente do fundo do meu coração para o padre encarregado da catequese em minha igreja. Comovida, compartilhei meu amor por Cristo e Sua Igreja. Lembrei ao padre de minha fiel assiduidade à igreja e que após meses de presença regular havia me tornado outra fiel constante na igreja. Expliquei que a incerteza estava me deixando aberta a um feroz ataque espiritual e que me seria de grande ajuda ter um plano para o meu ingresso na Igreja, especialmente em um tempo em breve. Esperei ansiosamente por sua resposta. Uma semana depois não havia nada.

Tentei aproximar-me dele na igreja, mas ele parecia me evitar. Uma mensagem deixada em sua secretária eletrônica não foi respondida. Neste momento estava além do ponto de ruptura, sob tanta pressão que escrevi a ele novamente, mas dessa vez copiei a mensagem aos dois coordenadores leigos do RICA. Dessa vez o padre respondeu, embora sem compromissos firmados.

Sentindo que não estava indo a lugar algum em minha igreja, a qual chamarei de igreja 1, decidi contatar algumas outras paróquias locais. Telefonei para outra igreja, a igreja 2, e consegui falar com o padre. Compartilhei novamente minha profunda paixão pela Igreja e meu desejo de me juntar a ela o mais cedo possível. O padre me informou que não havia nada que ele pudesse fazer, que eu deveria falar com o pároco, mas ele recém havia partido em prolongadas férias.

Ainda não estava pronta para jogar a toalha, então contatei outra igreja local, a igreja 3. Fui direto ao ponto e marquei um horário com o pároco. Nessa altura já havia me armado com algumas poderosas informações novas – um pequeno e obscuro segredo sobre o RICA –, de que a forma como ele é coordenado pode ser uma violação à Lei Canônica. De acordo coma Lei, o programa é destinado apenas aos não batizados. Católicos batizados e protestantes devem ser trazidos à Igreja o mais rápido possível e sem complicações indevidas. E mesmo assim isso não está sendo feito e, na realidade, a maior parte das pessoas no RICA é composta de católicos batizados e protestantes.

O pároco na igreja 3 foi simpático ao meu pedido. Ele reconheceu que pessoas como eu, protestantes batizados e devotos, deveriam ser recebidos na Igreja sem o RICA. Contudo, ele não estava disposto a envolver-se na questão, pois eu já havia começado o processo na igreja 1. Ele se ofereceu para contatá-los e fazer alguma pressão sobre o padre, mas dado que este já estava aos nervos comigo, achei que isso não seria um movimento político sábio.

Havia uma outra igreja local, a igreja 4, mas decidi não tentar naquela. Ao mesmo tempo, minha amiga Mary estava lá tentando tornar-se católica sem o RICA e enfrentava os mesmos impedimentos que eu. Sendo uma pessoa tímida e quieta por natureza, ela foi a uma reunião do RICA e jamais retornou, dizendo que era “como uma cruel reunião de fraternidade estudantil”. Ela resignou-se em ir às Missas, mas jamais estando em plena Comunhão com a Igreja. Ao ver a angústia na face de minha querida amiga, me tornei mais determinada a encontrar meu caminho para a Igreja e, assim, ajudar Mary a também ser recebida.

Eu tinha uma ideia final: enviaria um e-mail a um afável padre na igreja 1 que ocasionalmente celebra a Missa lá, embora na maior parte do tempo ele ministre aulas para a Diocese. Novamente expus a ele meu amor por Cristo e Sua verdadeira Igreja e o sofrimento da espera. Poderia ele ajudar a tornar-me católica?

O padre respondeu rapidamente e parabenizou-me entusiasticamente por buscar o catolicismo. Mas infelizmente me pediu desculpas, pois seu cronograma demandava tanto que ele não tinha tempo para encontrar-se comigo neste ano, embora me desejasse bem.

Outra rejeição era mais do que eu podia suportar. Nessa altura eu estava já sofrendo de uma grande vulnerabilidade. Não era fácil permanecer pedindo ajuda apenas para ser continuamente negada. Infelizmente, descarreguei minhas frustrações nele.

Disse a ele que estava sendo passada para trás por todo mundo, pois todos estavam ocupados demais fazendo alguma outra coisa, não podendo ajudar uma protestante desesperada em luta para se tornar católica. Desafiei a ele: ou a Igreja Católica é a verdadeira fonte de salvação e seus padres devem mover céu e terra para levar suas ovelhas rumo a ela, ou não era o único veículo para a salvação. Nesse caso, não havia pressa para que eu me convertesse ou mesmo que alguém me ajudasse. Não poderiam ser ambos ao mesmo tempo. Qual era a verdade?

Não houve resposta. Após alguns dias, me sentindo mal por ter descarregado toda minha indignação nele, enviei um e-mail pedindo perdão. Ele graciosamente aceitou minhas desculpas, embora ainda não houvesse oferta de ajuda.

Sem nenhuma outra ideia, estava no ponto mais baixo de uma jornada já repleta de percalços. Não sabia mais o que fazer. Nesse momento já estava cheia de constantes dúvidas e desconfianças referentes aos católicos e à Igreja. Não sabia se isso se devia a uma guerra espiritual sendo travada contra mim ou ao Espírito Santo fazendo com que eu retornasse à minha antiga igreja protestante.

Caí de joelhos e realizei a oração mais fervente de toda a minha vida. Enquanto soluçava, implorei a Cristo que revelasse a mim o que Ele queria que eu fizesse. Após vários minutos de oração, um abençoada calma varreu-me. Pela primeira vez desde que comecei a busca para tornar-me católica, senti-me em paz. Sentia que Jesus dizia a mim, “Você é minha filha amada. Não se preocupe, você passará a eternidade comigo”. Senti-me enormemente grata por este momento de graça.

Dez Meses

Já era agora Setembro, 10 meses desde o começo de minha exploração do catolicismo. Fiz uma boa amiga na igreja 1, que estava determinada a me ajudar a tornar-me católica. Em meu nome ela tomou o padre e compartilhou sua grande preocupação em deixar-me sozinha durante esse processo. Na Missa do Domingo seguinte, o padre surpreendeu-me oferecendo um encontro somente entre nós dois, mas havia uma condição. Eu tinha de passar pelo primeiro rito, o Rito de Boas Vindas, que aconteceria em duas de semanas. Relutantemente concordei.

Minha intuição dizia que estar lá com meu padrinho em frente à paróquia inteira, enquanto era analisada de cima a baixo, da cabeça aos pés, me tornaria sujeita a ferozes ataques espirituais. Eu estava certa. Não consegui dormir na noite anterior, sentia-me fraca nos joelhos e quase desmaiei durante a cerimônia. O nível de exposição pública sem ter ainda um plano para quando ou como eu seria recebida deu ao Inimigo liberdade para atormentar-me sem piedade. Mas eu mantive minha parte da barganha e então tive meu primeiro encontro com o padre.

Gostaria de dizer que tudo ocorreu bem e que felizmente ele logo após me guiou para a Igreja, mas esse infelizmente não foi o caso. Seu plano era que eu seguisse o mesmo currículo que os outros participantes do RICA pelos próximos sete meses, começando desde o começo, com um vídeo chamado “Quem foi Jesus?”. Também teria que participar dos outros ritos e rituais.

Neste ponto, meses de nervosismo vieram à tona e eu perdi minha calma. Raivosamente disse a ele que não precisava começar do começo, que já havia pesquisado intensamente a Igreja por quase um ano e tinha ido a mais Missas do que podia já contar. Rispidamente disse a ele que nunca em toda a minha vida tinha sido tão tratada como uma idiota quanto em meu ano no mundo católico, que ninguém parecia acreditar que eu realmente soubesse o que era melhor para mim – que era tornar-me católica o mais rápido possível.

O padre também ficou nervoso. Claramente dez meses de tensão tinham tomado seu custo a ambos: ele lidando com uma pároca que não queria jogar pelas regras do RICA e eu, pronta, disposta e capaz de tornar-me católica, mas não encontrando porta alguma aberta. Ao fim de nosso encontro, pedi desculpas por minha explosão. Ele também pediu desculpas a mim. Partimos em bases amigáveis, embora eu tenha recusado sua oferta de continuar o encontro.

Novembro de 2014

Era agora Novembro de 2014, começo do Advento. Também fazia um ano desde que Deus tinha posto em meu coração que talvez eu devesse tornar-me católica. Estava já desgastada e abatida por tudo. Embora tentasse não tomar todas as rejeições de forma pessoal, sentia-me emocionalmente quebrada e ferida. E eu estava sozinha. Sentia falta do companheirismo e senso de pertença em minha antiga igreja protestante.

Foi então que tomei a mais triste decisão de toda a minha vida. Era tempo de voltar ao mundo protestante.

Pela primeira vez em um ano de Missas, não dirigi meu carro rumo à Igreja Católica em um domingo. Ao invés disso, fui à minha antiga igreja. Os frequentadores estavam felizes em me ver, embora surpresos. E vi algo a mais em suas faces: eles estavam feridos, sentindo-se abandonados por eu ter rejeitado sua bondade e amizade tendo-os deixado. Claramente eu não era a única que tinha sido ferida neste processo.

Sentei em um banco e olhei ao redor de minha antiga igreja, que já havia conhecido tão bem. O ambiente não parecia familiar, era estranho. O que me espantou mais foi a ausência: a ausência do Crucifixo, da Procissão, dos padres – mas, mais do que tudo, a ausência do Santíssimo Sacramento. Senti uma angustiante dor em meu estômago por conta do profundo vazio. Tinha passado a vida inteira buscando por Algo, por Alguém e eu havia finalmente encontrado Ele em Sua verdadeira Igreja. Mas agora eu estava no risco de perdê-Lo novamente.

Percebi que eu tinha de fazer uma escolha: protestante ou católica. Não podia ter os dois. Mas já não era mais protestante, havia deixado isso para trás há algum tempo. Apesar de meu status dentro da Igreja, no mais profundo do meu coração eu era católica.

Antes do fim do culto, recolhi meus pertences e levantei-me. Dei adeus a algumas pessoas e então quietamente saí, triste, como um jovem adulto deixando uma família que já não é mais dele. Eu sabia que provavelmente jamais veria estas pessoas novamente.

Na Missa do Domingo seguinte, pensei em uma opção final. Se isso não funcionasse, me resignaria a continuar assistindo à Missa, sem jamais tornar-me católica. (Tinha a esperança de que o ensinamento católico sobre o Batismo de Desejo fosse o suficiente para que eu pudesse ir para o céu).

Minha ideia? Contatar a igreja 2 e ver se o pároco que estava em férias prolongadas já havia retornado. Liguei para lá e descobri que sim.

Encontrei com ele pouco tempo depois. Foi então que os céus se abriram para mim. Pela décima vez recontei meu intenso e profundo desejo em receber os Sacramentos na verdadeira Igreja de Cristo. O pároco escutava atento. Finalmente ele disse, “Jamais vi alguém mais sedento pelos Sacramentos que você. Tinha já ouvido falar de pessoas como você, mas jamais havia visto algo assim”. E, pela primeira vez, alguém havia dito isso como se fosse uma coisa boa.

Ele consideraria trazer-me para a Igreja antes de Abril, mas havia um porém, eu teria de atender às classes do RICA em sua igreja. Concordei.

As aulas eram bem menos rigorosas do que o outro programa – apenas uma hora após a Missa, sem aulas à noite, visitas de campo ou tarefas para casa. A maior parte dos membros do grupo era composto de católicos fiéis que estavam lá pelo senso de comunidade, e eles me inspiraram com seu amor pela fé.

Depois de algumas semanas no meu novo programa RICA, estava gostando do companheirismo, mas espantou-me um dia o fato de não estar mais próxima a tornar-me católica do que há um ano atrás. Agora relegada a uma terra espiritual de ninguém – não mais protestante, mas não ainda católica – os espíritos negros aproveitavam-se para me perseguir. Foi na manhã de uma aula do programa que tive o pesadelo de estar presa no telhado sem ninguém para me resgatar e acordei soluçando.

Na aula daquele dia os portões se abriram e comecei a chorar incontrolavelmente. Contei a eles sobre o sonho, sobre meus 13 meses tentando encontrar alguém que pudesse me ajudar a entrar na Igreja. Expliquei o desespero para ter meus pecados perdoados pela Confissão e receber o Santíssimo Sacramento. Quando terminei, todos me encaravam paralisados em silêncio.

Após o fim da aula, o coordenador do RICA me chamou em um canto. Ele me disse que sua opinião era que eu já estava preparada para tornar-me católica e que iria escrever ao pároco e recomendaria que fosse recebida na Igreja o mais cedo possível. Dei um abraço de gratidão a ele. Deus tinha mandado alguém para me resgatar.

Após alguns dias me encontrei com o pároco, que me perguntou algo que me estarreceu, “Quando você gostaria de ser recebida na Igreja?” Ele até mesmo ofereceu-se para celebrar uma Missa privada especialmente para mim. Escolhemos uma data (embora o pároco precisasse da permissão do Bispo, outro entrave burocrático que me deixou com comichões por várias semanas). Ele também agendou comigo um horário para minha primeira Confissão.

A Noite Anterior

Na noite anterior à Confissão deitei em minha cama de olhos bem abertos, incapaz de adormecer. Sentia algo que jamais havia sentido antes, não era alegria ou felicidade – mas algo muito além disso. Sentia-me abençoada. Meu corpo abençoadamente arrepiava-se na perspectiva de receber meu primeiro Sacramento Católico. Não apenas eu seria absolvida dos pecados que carreguei comigo por anos, mas uma vez que tivesse meu primeiro Sacramento “eles” não conseguiriam me manter de fora. Fossem as regras burocráticas que me impediam, ou os demônios que me praguejavam.

Fui recebida na Igreja Católica no começo de 2015, o que foi a experiência mais incrível de toda a minha vida. O pároco a personalizou, falando sobre meu amor por Jesus e pela Igreja. Ele celebrou uma Missa inteira, embora estivessem apenas algumas pessoas lá.

Infelizmente nenhum de meus amigos protestantes que havia convidado veio. Sabia que não era nada pessoal, mas por conta de suas concepções erradas do Catolicismo eles não podiam apoiar minha conversão. Eles fizeram sua escolha e eu fiz a minha.

Enquanto escrevo isso, outra rodada de classes do RICA começa nas igrejas ao redor do país. Minha alegria em finalmente ter tornado-me católica é marcada pela tristeza por aquilo que tive de passar, daquilo que a Igreja faz as pessoas passarem para estarem em plena Comunhão com Nosso Senhor.

Como muitos fiascos pós Vaticano II, o RICA precisa acabar. A Igreja precisa voltar à sua obrigação de fazer rapidamente discípulos de todas as nações.

Se não o fizer, o Corpo de Cristo continuará a diminuir e muitas pessoas que necessitam de Jesus e de nossa fé cairão por entre as rachaduras. Isto será uma péssima notícia para a Igreja Católica, mas serão ótimas notícias para as ergonômicas igrejas evangélicas e pentecostais que espalham-se como fogo selvagem pelo mundo afora. O que estes protestantes sabem – e que muitos católicos tragicamente se esqueceram – é que trazer pessoas a Cristo é o motivo de estarmos aqui. E os protestantes entendem que, ao fazê-lo, a alma eterna que estão salvando é também a sua.

“Laura Evans” é um pseudônimo. Ela foi recebida na Igreja Católica no começo de 2015. Pouco tempo depois ajudou sua amiga Mary a ser também recebida na Igreja como ela, sem o RICA. Ambas são mulheres católicas devotas e fiéis, que frequentam às Missas todo Domingo. Laura gostaria de expressar sua profunda gratidão a Mike Jones por seu incontável apoio durante sua longa e turbulenta jornada rumo à Igreja Católica. “Obrigado Mike. Não conseguiria ter passado por isso sem você.”

Este artigo está presente na edição de Dezembro de 2015 da revista Culture Wars.

[1] Degenerate Moderns. E. Michael Jones é um historiador católico americano, autor de mais de uma dezena de livros sobre a história da Igreja, política e cultura. É também editor da publicação “Culture Wars” [Guerras Culturais], onde este artigo está presente.

[2] “Católicos de cafeteria” são aqueles que discordam convenientemente dos ensinamentos morais da Igreja quando lhes convêm.

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20 setembro, 2016

Divulgação: Rodolfo Khristianós – Artista Sacro.

Natural de Jacareí-SP, desde criança faz trabalhos artísticos. Fez vários cursos de Arte: como o desenho artístico, publicidade e propaganda, introdução à arte gráfica, curso de história em quadrinhos e construção de personagens, Desenho realista e caricaturas. Desde 2001 participa da elaboração e confecção de tapetes artísticos para a Festa de Corpus Christi nas várias Paróquias de sua cidade.

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Em 2008 foi curador da exposição do artista peruano Wilber Flores sobre “Arte Cusquenha” na Paróquia Imaculada Conceição em Jacareí-SP. No ano de 2009 iniciou seus estudos sobre museologia e aplicações do processo de inventário, conservação e restauro. Em 2011 termina a Licenciatura em Artes Visuais e começa a se dedicar a restauração de imagens e peças de gesso e também de gravuras sacras. Constrói, então, o blog: khristianós.blogspot.com, para a divulgação de seu trabalho artístico e sacro, pesquisas sobre patrimônio cultural e sacro, sobre conservação e restauro e divulgação de apresentações e demais eventos culturais relacionados a Arte Sacra.

Participou de várias exposições coletivas nacionais, sendo a última no Santuário Nacional de Aparecida em 2015.

Participou dos Seminários Internacionais de Patrimônio Sacro (2013 e 2015) organizados pela Faculdade São Bento de São Paulo, e pelas faculdades de Arquitetura e Urbanismo da USP e Instituto de Artes da UNESP. Além dos vários Seminários de Arte Sacra do Mosteiro São Bento da Bahia.

No ano de 2014, fez parte do projeto de Inventário e catalogação de peças sacras em vários Museus do Vale do Paraíba, organizado pela Rede de Museus do SISEM e do Museu de Arte Sacra de São Paulo. Liderou a equipe de inventário do Museu Padre Rodolfo Komórek em São José dos Campos-SP.

Hoje faz curadoria da Galeria de Arte Casario no centro de Jacareí-SP, e ainda se dedica a desenhos sacros e realistas.

Contato:

(12) 98123-1794

rodolfokhristianos@gmail.com

khristianos.blogspot.com

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17 setembro, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: O amor de Deus, motivo dominante do culto ao Santíssimo Coração de Jesus, no Antigo Testamento.

“Mas Sião disse: O Senhor abandonou-me e esqueceu-se de mim. Pode, acaso, uma mulher esquecer o seu pequenino de sorte que não se apiede do filho de suas entranhas? Ainda que esta se esquecesse, eu não me esquecerei de ti”  (Isaías 49, 14-15).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

12. Para melhor poder compreender a força que com relação a esta devoção encerram alguns textos do Antigo e do Novo Testamento, é preciso entender bem o motivo pelo qual a Igreja tributa ao coração do divino Redentor o culto de latria. Duplo, veneráveis irmãos, como bem sabeis, é tal motivo: o primeiro, que é comum também aos demais membros adoráveis do corpo de Jesus Cristo, funda-se no fato de, sendo o seu coração parte nobilíssima da natureza humana, estar unido hipostaticamente à pessoa do Verbo de Deus, e, portanto, dever-se-lhe tributar o mesmo culto de adoração com que a Igreja honra a pessoa do próprio Filho de Deus encarnado. Trata-se, pois, de uma verdade de fé católica, solenemente definida no concílio ecumênico de Éfeso e no II de Constantinopla.(5) O outro motivo concerne de maneira especial ao coração do divino Redentor, e, pela mesma razão, confere-lhe um título inteiramente próprio para receber o culto de latria. Provém ele de que, mais do que qualquer outro membro do seu corpo, o seu coração é o índice natural ou o símbolo da sua imensa caridade para com o gênero humano. Como observava o nosso predecessor Leão XIII, de imortal memória, “é ínsita no sagrado coração a qualidade de ser símbolo e imagem expressiva da infinita caridade de Jesus Cristo que nos incita a retribuir-lhe o amor por amor”.(6)

13. Coisa indubitável é que nos livros sagrados nunca se faz menção certa de um culto de especial veneração e amor tributado ao coração físico do Verbo encarnado pela sua prerrogativa de símbolo da sua inflamadíssima caridade. Mas este fato, que cumpre reconhecer abertamente, não nos deve admirar, nem de modo algum fazer-nos duvidar de que a caridade divina para conosco – razão principal deste culto – é exaltada tanto pelo Antigo como pelo Novo Testamento com imagens sumamente comovedoras. E, por se encontrarem nos livros santos que prediziam a vinda do Filho de Deus feito homem, podem essas imagens considerar-se como um presságio daquilo que havia de ser o símbolo e índice mais nobre do amor divino, a saber: o coração sacratíssimo e adorável do Redentor divino.

14. Pelo que se refere ao nosso propósito, não julgamos necessário aduzir muitos textos do Antigo Testamento nos quais estão contidas as primeiras verdades reveladas por Deus, mas cremos bastará recordar o pacto estabelecido entre Deus e o povo eleito, pacto sancionado com vítimas pacíficas – e cujas leis fundamentais, esculpidas em duas tábuas, Moisés promulgou (cf. Ex 34, 27-28) e os profetas interpretaram -, esse pacto não se baseava somente nos vínculos do supremo domínio de Deus e na devida obediência da parte do homem, mas consolidava-se e vivificava-se com os mais nobres motivos do amor. Porque também para o povo de Israel a razão suprema de obedecer a Deus, devia ser não tanto o temor das divinas vinganças suscitado nos ânimos pelos trovões e relâmpagos procedentes do ardente cume do Sinai, mas, antes, o amor devido a Deus: “Escuta, Israel: O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. E estas palavras que hoje te ordeno estarão sobre o teu coração” (Dt 6, 4-6).

15. Não nos deve, pois, causar estranheza que Moisés e os profetas, aos quais o Doutor angélico chama com razão os “maiorais” do povo eleito,(7) compreendendo bem que o fundamento de toda a lei se baseava neste mandamento do amor, descrevessem as relações todas existentes entre Deus e a sua nação, recorrendo a semelhanças tiradas do amor recíproco entre pai e filhos, ou do amor dos esposos, em vez de representá-las com imagens severas inspiradas no supremo domínio de Deus ou na nossa devida servidão cheia de temor. Assim, por exemplo, no seu celebérrimo cântico pela libertação do seu povo da servidão do Egito, ao querer exprimir como essa libertação era devida à intervenção onipotente de Deus, o próprio Moisés recorre a estas comovedoras expressões e imagens: “Assim como a águia provoca seus filhotes a alçarem o vôo e acima deles revoluteia, assim também (Deus) estendeu as suas asas e acolheu (Israel) e carregou-o nos seus ombros” (Dt 32, 11). Talvez, porém, entre os profetas, nenhum exprima e descubra melhor, tão clara e ardentemente, quanto Oséias, o amor constante de Deus para com seu povo. Com efeito, nos escritos deste profeta, que entre os profetas menores sobressai pela profundeza de conceitos e pela concisão da linguagem, Deus é descrito amando o seu povo escolhido com um amor justo e cheio de santa solicitude, qual é o amor de um pai cheio de misericórdia e de amor, ou de um esposo ferido na sua honra. É um amor que, longe de decair e de cessar à vista de monstruosas infidelidades e pérfidas traições, castiga-os, sim, como eles merecem, mas não para os repudiar e os abandonar a si mesmos, mas só com o fim de limpar, de purificar a esposa afastada e infiel e os filhos ingratos, para tornar a uni-los novamente consigo uma vez renovados e confirmados os vínculos de amor: “Quando Israel era criança amei-o; e do Egito chamei meu filho… Ensinei Efraim a andar, tomei-o nos meus braços, mas eles não reconheceram que eu cuidava deles. Com vínculos humanos atraí-los-ei, com laços de amor… Sanar-lhes-ei as rebeldias, amá-los-ei generosamente, pois minha ira não se afastou deles. Serei como o orvalho para Israel, ele florescerá como o lírio e lançará suas raízes qual o Líbano” (Os 11, 1.3-4; 14, 5-6).

16. Expressões semelhantes tem o profeta Isaías quando apresenta o próprio Deus e o povo escolhido como que dialogando entre si com estas palavras: “Mas Sião disse: O Senhor abandonou-me e esqueceu-se de mim. Pode, acaso, uma mulher esquecer o seu pequenino de sorte que não se apiede do filho de suas entranhas? Ainda que esta se esquecesse, eu não me esquecerei de ti” (Is 49, 14-15). Nem menos comovedoras são as palavras com que, servindo-se do simbolismo do amor conjugal, o autor do Cântico dos cânticos descreve com vivas cores os laços de amor mútuo que unem entre si, Deus e a nação predileta: “Como lírio entre os espinhos, assim é minha amada entre as donzelas… Eu sou de meu amado e meu amado é meu: o que se apascenta entre os lírios… Põe-me como selo sobre teu coração, como selo sobre teu braço, pois forte como a morte é o amor, duros como o inferno os ciúmes: seus ardores são ardores de fogo e de chamas” (Ct 2, 2; 6, 2; 8, 6).

17. Com todo esse amor, terníssimo, indulgente e longânime mesmo quando se indigna pelas repetidas infidelidades do povo de Israel, Deus nunca chega a repudiá-lo definitivamente; mostra-se, sim, veemente e sublime; mas, contudo, em substância isso não passa do prelúdio daquela inflamadíssima caridade que o Redentor prometido havia de mostrar a todos com o seu amantíssimo coração, e que ia ser o modelo do nosso amor e a pedra angular da nova aliança. Porque, em verdade, só aquele que é o Unigênito do Pai e o Verbo feito carne “cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14), tendo descido até os homens oprimidos de inúmeros pecados e misérias, podia fazer brotar da sua natureza humana, unida hipostaticamente à sua pessoa divina, “um manancial de água viva” que regasse copiosamente a terra árida da humanidade, transformando-a em florido e fértil jardim. E essa obra admirável que o amor misericordioso e eterno de Deus devia realizar, de certo modo já parece prenunciá-la o profeta Jeremias com estas palavras: “Amei-te com amor eterno; por isso atrai-te a mim cheio de misericórdia… Eis vêm dias, afirma o Senhor, em que pactuarei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova: este será o pacto que eu concertarei com a casa de Israel depois daqueles dias, declara o Senhor: Porei minha lei no interior dele e escrevê-la-ei no seu coração, e serei o seu Deus e eles serão o meu povo…; porque perdoarei a sua culpa e não mais me lembrarei dos seus pecados” (Jr 31, 3.31. 33-4).

[Enc. “AURIETIS AQUAS” de Pio XII].

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16 setembro, 2016

Lutero, um Maquiavel da fé.

Por Francesco Agnoli, La Nuova Bussola Quotidiana, 18 de agosto de 2016 | Tradução: FratresInUnum.comPor ocasião do quinto centenário da revolução de Martinho Lutero, o confronto entre os cardeais alemães já vem se desenvolvendo por um bom tempo: por um lado, o Cardeais Kasper e Marx, que se declaram abertamente admiradores de Lutero e, do outro, os cardeais Mueller, Brandmüller e Cordes, que se encontram, por sua vez, na esteira do pensamento católico, vendo em Lutero o homem que desfigurou o Evangelho e despedaçou a Igreja, dividindo assim o Cristianismo e a Europa.

O casamento de Lutero.

O casamento de Lutero.

Não se trata, porém, de um debate teológico de alto nível, mas, no entanto, há implicações no que diz respeito à lei natural e ao modo como é concebido o matrimônio cristão. Kasper e Marx estão buscando, já há alguns anos e principalmente após a abdicação de Bento XVI, limitar a condenação do adultério e legitimar, mais ou menos abertamente, o segundo casamento, com aberturas graduais também ao casamento gay. O que tudo isso tem a ver com Lutero?

Talvez até mais do que se imagina. Em primeiro lugar, a respeito da doutrina, porque ele nega o caráter de sacramento do matrimônio e o submete à jurisdição secular, ou seja, ao poder do soberano e dos Estados. Esta concepção dessacraliza o casamento e o priva de seu tradicional significado sobrenatural.

No âmbito dos fatos, a primeira coisa que devemos recordar é o casamento do Lutero com uma ex-freira cisterciense, Catherine von Bora, com quem teve seis filhos. Os dois passaram então a residir no antigo convento agostiniano de Wittenberg, doado a eles pelo príncipe eleitor da Saxônia (o qual por sua vez, deve a Lutero o fato de ter usurpado os bens da Igreja Católica em suas terras). Lutero e Catherine tornaram-se, assim, um modelo para que, através do seu exemplo, os reformadores “operassem várias vezes, muitas vezes em grupos inteiros, para arrancar freiras de seus claustros e fazer delas suas esposas.” Depois de um rapto de religiosas ocorrido na noite do Sábado Santo de 1523, Lutero definiu o organizador do sequestro como um “feliz ladrão ” e felicitou-o por ter “liberado essas pobres almas do cativeiro” (ver Jacques Maritain, I tre riformatori. Lutero. Cartesio. Rousseau, Morcelliana, Brescia, 1990, p. 215). Estes foram os anos em que muitas religiosas alemãs foram obrigadas a deixar seus mosteiros, muitas vezes contra a própria vontade, para regressar às suas casas ou para se casar.

O segundo fato a ser lembrado é o seguinte: Lutero, para não perder o apoio do landegrave Filipe de Hesse, “um dos dois pilares políticos em que se apoiava o luteranismo”, permitiu que ele se casasse com sua segunda esposa, uma empregada de dezessete anos, Margarete von Saale. Filipe já tinha uma esposa, Cristina da Saxônia, com quem teve sete filhos. Estamos em 1539. Lutero não queria escândalos barulhentos, não quer ter que justificar publicamente uma bigamia, mas teve que concordar com as exigências de Filipe, um libertino inveterado, que sofria de sífilis, mas acabou concedendo porque era “necessário preservar a integridade da força militar da reforma.”

Então, ele decide agir com astúcia: esperando que ninguém venha a saber, secretamente comunica a Filipe que o seu casamento suplementar poderia ser determinado por uma “necessidade de consciência”. Em outras palavras: tudo bem com a bigamia, desde que ela não seja pública. Assim escreveram Lutero e Melanchthon: “Se, então, a Vossa Alteza é definitivamente determinada a tomar uma segunda esposa, nossa opinião é que isso deve permanecer em segredo.” Mas uma vez realizado o casamento, Filipe envia a Lutero, que era chegado em comidas e bebidas caras e imponentes, “uma garrafa de vinho que chegou às portas de Wittenberg, quando o segredo da bigamia já havia corrido solto por obra da irmã de Filipe.”

Sentindo-se em apuros, Lutero, que irá merecer de Tommaso Campanella o título de “Machiavel da fé”, aconselha Filipe a declarar publicamente que Margarete não é sua esposa legítima, “substituindo o ato do casamento por uma outra ação em cartório, declarando Margarete apenas sua concubina”. Filipe se recusa e ainda insta Lutero a confirmar publicamente que ele mesmo havia concedido uma dispensa. Mas Lutero, que em outras ocasiões não hesitaria em propor traduções falsas de passagens bíblicas, buscando legitimar suas razões, respondeu que seu conselho era um segredo, “e que agora tornou-se nulo e sem efeito, porque tinha se tornado público” (Federico A. Rossi di Marignano, Martin Lutero e Caterina von Bora, Ancora, Milano, 2013, p. 343-347; Angela Pellicciari, Martin Lutero, Cantagalli, Siena, 2013, p. 109-113)..

Alguns anos antes destes acontecimentos, em 1531, Lutero, em uma de suas muitas cartas em que procurava o favor dos poderosos, escreveu a Henrique VIII, rei da Inglaterra dizendo que sim, o casamento é indissolúvel, mas… com a permissão da Rainha poderia se casar com uma segunda mulher, como no Antigo Testamento. Como sabemos, Henrique VIII resolveu pedir dispensa não a Lutero, mas ao papa de Roma, e como não a obteve, tomou pra si próprio a questão, proclamou o cisma com Roma, e, no final, de repúdio em repúdio “em consciência”, chegará ao notável número de 6 esposas (algumas das quais mandou matar sem escrúpulos).

Se o efeito evidente da revolução de Lutero, com relação ao casamento, foi o pretexto que achou para ele mesmo arrancar a batina e para os príncipes poderem repudiar suas legítimas esposas e viver na poligamia, é óbvio que no plano da doutrina tudo estava destinado a mudar gradualmente. Devemos sempre ter em conta um fato: Lutero procura constantemente na nobreza alemã seu principal interlocutor, ele precisa vencer sua luta contra Roma. E a nobreza alemã, como a de outros países, estava lutando contra a Igreja não só por questões políticas de poder, mas também sobre a doutrina do casamento: muitas vezes os nobres não aceitavam a indissolubilidade do casamento, nem as restrições impostas por Roma (proibição de casamentos combinados, casamentos consanguíneos … etc).

Além disso, por razões ligadas às suas nobres condições sociais ou hereditárias, os nobres reivindicavam, mais do que outros, o direito dos pais de dar ou recusar o consentimento aos noivos, enquanto a Igreja Romana, ao contrário, reconhece apenas o consentimento mútuo dos noivos como os únicos ministros do Sacramento, com o direito de decidir sobre seu casamento. Lutero e os reformadores respondem então a estas “necessidades” dos nobres, e muito mais. Antes de mais nada, criticando a indissolubilidade absoluta.

Lutero reconhece, assim, pelo menos quatro razões para o divórcio: adultério, impotência ocorrida durante o casamento (enquanto na Igreja Católica a impotência é causa antecedente de nulidade), a “deserção maliciosa” e a obstinação tenaz do cônjuge em recusar a relação conjugal (com relação a esse caso, chega ao ponto de escrever: “Se a mulher negligencia seu dever, a autoridade temporal deve obrigá-la ou condená-la à morte”).

Inevitável que as aberturas de Lutero acabariam por gerar outras, como as dos anabatistas, favoráveis à poligamia, ou aquelas de seu discípulo M. Butzer, segundo o qual Cristo jamais teria abolido o repúdio, e que caberia às autoridades políticas legislar sem limites nem condições com relação ao divórcio. Além disso, Lutero e os reformadores insistem, com diferentes tons, sobre a adequação do consentimento dos pais, repreendendo a Igreja por reduzir essa importância, e ainda se esforçam para reduzir os impedimentos de consanguinidade (Jean Gaudemet, Il matrimonio in Occidente, Sei, Torino, 1996, p. 207-2012).

A Igreja Católica, por sua parte, com o Concílio de Trento, examinará minuciosamente as posições de Lutero, confirmando de uma vez por todas o caráter sacramental do matrimônio e sua indissolubilidade, negando a legitimidade do divórcio luterano, insistindo, apesar da pressão do nobreza francesa, que o consentimento dos pais, embora desejável, não é vinculante, e condenando a posição luterana segundo a qual é impossível viver em castidade. A posição expressa pelo Concílio de Trento será reafirmada pela Igreja e pelos papas por 500 anos, sem alterações.

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10 setembro, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Estima e favor dado pelos sumos pontífices ao culto do sagrado coração de Jesus

“Àquele que é poderoso para fazer, acima de toda medida, com incomparável excesso, mais do que o que pedimos ou pensamos, segundo o poder que desenvolve em nós a sua energia, a Ele glória na Igreja e em  Cristo Jesus por todas as gerações, nos séculos dos séculos, Amém” (Ef 3, 20 s).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

  1. “Quem não vê, veneráveis irmãos, quão alheias são estas opiniões do sentir dos Nossos Predecessores, que desta cátedra de Verdade publicamente aprovaram o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus? [Opiniões expostas no artigo anterior]. Quem ousará chamar inútil ou menos acomodada aos nossos tempos esta devoção que o Nosso Predecessor de imperecível memória Leão XIII chamou de “estimadíssima prática religiosa”, e na qual viu um poderoso remédio para os próprios males que, nos nossos dias de maneira mais aguda e com mais extensão, afligem os indivíduos e a sociedade? “Esta devoção, – dizia ele – que a todos recomendamos, a todos será de proveito”. E, acrescentava estes avisos e exortações que também se referem à devoção ao Sagrado Coração: “Daí a violência dos males que, há tempo, estão como que implantados entre nós, e que reclamam urgentemente busquemos a ajuda do único que tem poder para os afastar. E quem pode ser este senão Jesus Cristo, o unigênito de Deus? “Pois nenhum outro nome foi dado aos homens sob o céu no qual devamos salvar-nos” (At 4, 12). “Cumpre recorrer a Ele, que é caminho, verdade e vida” (Enc. “Annum Sacrum”, 25 de maio 1889; Acta Leonis, Vol, 19, 1900, pp. 71, 77-78).
  2. Nem menos dignos de aprovação e adequado para fomentar a piedade cristã julgou-o o Nosso imediato Predecessor, de feliz memória, Pio XI, que, na sua encíclica “Miserentissimus Redenctor”, escrevia: “Acaso não está contido nessa forma de devoção o compêndio de toda a religião, e mesmo a norma de vida mais perfeita, como quer que ele guie mais suavemente as almas para o profundo conhecimento de Cristo Senhor Nosso, e com maior eficácia as mova a amá-Lo mais de perto?” (Enc. “Miserentissimus Redenctor”, 8 de maio 1928; A. A. S. 20, 1928, p. 167). Nós, por nossa parte, com não menor agrado do que os nossos predecessores, aprovamos e aceitamos essa sublime verdade; e, quando fomos elevado ao sumo pontificado, ao contemplarmos o feliz e triunfal progresso do culto ao Sagrado Coração de Jesus entre o povo cristão, sentimos o nosso ânimo cheio de alegria e regozijamo-nos com os inúmeros frutos de salvação que ele havia produzido em toda a Igreja, sentimentos que tivemos a satisfação de exprimir logo na nossa primeira encíclica (Cf, Enc. “Summi Pontificatus” 20 de outubro, 1939; A. A. S. 31, 1939, p. 415). Através dos anos do nosso pontificado – cheios não só de calamidades e angústias, como também de inefáveis consolações, – esses frutos não diminuíram nem em número, nem em eficácia, nem em beleza, antes aumentaram. Com efeito, iniciativas múltiplas e muito acomodadas às necessidades dos nossos tempos surgiram para reacender este culto: referímo-nos às associações destinadas à cultura intelectual e à promoção da religião e da beneficência; às publicações de caráter histórico, ascético e místico encaminhadas a este mesmo fim; às piedosas práticas de reparação e, de modo especial, às manifestações de ardentíssima piedade que tem promovido o Apostolado da Oração, a cujo zelo e atividade se deve o se haverem famílias, colégios, instituições, e mesmo algumas nações, consagrado ao Sacratíssimo Coração de Jesus; e não raras vezes, por ocasião dessas manifestações de culto, temos expressado a nossa paternal complacência (Cf. A.A.S. 32, 1940,p. 276; 35, 1943, p. 170; 37, 1945, pp. 263-264; 40, 1948, p. 501; 41, 1949, p. 331).
  3. Portanto, ao vermos que tamanha abundância de águas, quer dizer, de dons celestiais do supremo amor, que têm brotado do Sagrado Coração do nosso Redentor, se derramam sobre incontáveis filhos da Igreja Católica por obra e inspiração do Espírito Santo, não podemos, veneráveis irmãos, deixar de exortar-vos com ânimo paterno a que, juntamente conosco, tributeis louvores e profundas ações de graças ao Dador de todos os bens, repetindo estas palavras do apóstolo das gentes: “Àquele que é poderoso para fazer, acima de toda medida, com incomparável excesso, mais do que o que pedimos ou pensamos, segundo o poder que desenvolve em nós a sua energia, a Ele glória na Igreja e em Cristo Jesus por todas as gerações, nos séculos dos séculos, Amém” (Ef 3, 20 s.). Mas, depois de tributarmos as devidas graças ao Deus eterno, queremos por meio desta encíclica exortar-vos, a vós e a todos os amadíssimos filhos da Igreja, a uma mais atenta consideração dos princípios doutrinais contidos na Bíblia, e nos Santos Padres, e nos teólogos, princípios nos quais, como em sólidos fundamentos, se apoia o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus. Porque nós estamos plenamente persuadidos de que só quando à luz da divina revelação houvermos penetrado a fundo a natureza e a essência íntima deste culto, é que poderemos apreciar devidamente a sua incomparável excelência e a sua inexaurível fecundidade em toda sorte de graças celestiais, e destarte, meditando e contemplando piedosamente os inúmeros bens que ela produz, poderemos celebrar dignamente o primeiro centenário da festa do Sacratíssimo Coração de Jesus na Igreja universal.
  4. Com o fim, pois, de oferecer à mente dos fiéis o alimento de salutares reflexões com as quais possam eles mais facilmente compreender a natureza deste culto, tirando dele frutos mais abundantes, deter-nos-emos antes de tudo nas páginas do Antigo e do Novo Testamento que contêm a revelação e descrição da caridade infinita de Deus para com o gênero humano, caridade cuja sublime grandeza jamais poderemos esquadrinhar suficientemente; depois aduziremos o comentário que sobre ela nos deixaram os padres e doutores da Igreja; e, finalmente, procuraremos esclarecer a íntima conexão que existe entre a forma de devoção que se deve tributar ao Coração do Divino Redentor e o culto que os homens estão obrigados a render ao amor que Ele e as outras Pessoas da SS. Trindade têm a todo gênero humano. Pois achamos que, uma vez considerados à luz da Sagrada Escritura e da Tradição os elementos constitutivos desta nobilíssima devoção, aos cristãos será mais fácil chegarem-se “com gáudio às águas das fontes do Salvador”; quer dizer, poderão eles apreciar melhor a singular importância que o culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus adquiriu na liturgia da Igreja, na sua vida interna e externa, e também nas suas obras; e assim cada um poderá obter frutos espirituais que assinalarão uma salutar renovação nos seus costumes, segundo os desejos dos pastores do rebanho de Cristo. (Encíclica “HAURIETIS AQUAS” de Pio XII).
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