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4 fevereiro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Da Bondade e da Malícia dos atos humanos em geral.

“Todo aquele que faz o mal, aborrece a luz” (S. João, III, 20).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

 

NB.: SUMA TEOLÓGICA de Santo Tomás de Aquino, 1ª Parte da 2ª Parte

Questão XVIII. “Em primeiro lugar devemos tratar de como uma ação humana é boa ou é má. E sobre esta primeira questão se discutem 11 artigos:

  1. Se toda ação é boa ou se há ações más.
  2. Se a ação do homem tira do objeto a sua bondade ou malícia.
  3. Se a ação do homem tira da circunstância a sua bondade ou malícia.
  4. Se a ação do homem tira do fim a sua bondade ou malícia.
  5. Se uma ação humana é especificamente boa ou má.
  6. Se o fim especifica os atos em bons e maus.
  7. Se a espécie que procede do fim está contida na que procede do objeto, como no gênero, ou se inversamente.
  8. Se há atos especificamente indiferentes.
  9. Se há atos concretamente indiferentes.
  10. Se uma circunstância especifica o ato moral como bom ou mau.
  11. Se toda circunstância que aumenta a bondade ou a malícia especifica o ato moral com bom ou mau.

ARTIGO I – Se todas as ações humanas são boas ou se há ações más.

OBJEÇÕES: Este primeiro artigo discute assim: Parece que todas as ações do homem são boas e nenhuma é má. [Pelo método de Santo Tomás de Aquino, a tese verdadeira é sempre a contrária à que é apresentada como parecendo ser certa].

1ª – Pois, como diz Dionísio, o mal só age em virtude do bem. Ora, a virtude do bem não produz o mal. Logo, nenhuma ação é má.

2ª – Ademais. – Nada age senão enquanto atual. Ora, nada é mau por ser atual, mas por ser a potência privação do ato; pois, um ser é bom na medida em que a potência é aperfeiçoada pelo ato, como diz Aristóteles. Ora, nada age enquanto mau, mas só enquanto bom. Logo, todas as ações são boas e nenhuma é má.

3ª – Ademais. – Só acidentalmente o mal pode ser causa, com se vê claramente em Dionísio. Ora, de toda ação há de resultar algum efeito, necessariamente. Logo, nenhuma é má, mas todas são boas. Mas, ao contrário (SED CONTRA) diz o Senhor em João III, 20: “Todo aquele que pratica o mal, aborrece a luz”.

RESPONDEREI as objeções, explicando antes os termos: Devemos dizer do bem e do mal das ações como se fala do bem e do mal das coisas, porque há proporção entre estas e as suas ações. Ora, cada coisa é boa na mesma medida em que é [=existe]: pois o bem e o ser se convertem,[=se equiparam] como já se disse na primeira parte (q. , a. I, 3ª). Só Deus porém tem toda a plenitude do ser, por causa da sua unidade e simplicidade; ao passo que as criaturas possuem a plenitude do ser que lhes convém, de modo múltiplo. Assim, umas possuem o ser de modo relativo, e contudo falta-lhes algo à plenitude devida. A plenitude do ser humano, p. ex. implica a composição de alma e corpo, com todas as potências e instrumentos do conhecimento e do movimento; por onde, a quem faltar um desses elementos, faltar-lhe-á algo da plenitude do seu ser. Pois quanto tiver de ser, tanto terá de bondade; e na medida em que lhe faltar algo da plenitude do seu ser, nessa mesma medida, lhe faltará a bondade e será considerado mau; assim, para um cego é bem o viver; e mal, estar privado da visão. Se porém não tivesse nenhum ser ou nenhuma bondade, não poderia considerar-se mau nem bom. Como, porém, da essência do bem é a plenitude do ser, o ente a que faltar a plenitude que lhe é devida, não será considerado bom, absoluta, mas relativamente, enquanto ser; poderá contudo ser considerado ser, absolutamente, e não ser, relativamente, conforme se disse na primeira parte (q, 5, a. I, ad 1).

Assim pois devemos concluir que toda ação, na medida em que é, nessa mesma medida é boa; e lhe faltará a bondade, sendo, por isso considerada má, na mesma medida em que lhe faltar algo da plenitude do ser devido; p. ex., se lhe faltar a quantidade determinada exigida pela razão, ou o lugar devido, ou coisa semelhante. [Agora, depois da explicação dos termos, temos condições de responder às objeções].

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO [Antes de lermos a resposta, é bom reler a objeção enumerada no início]. – O mal age em virtude do bem deficiente. Se pois o bem faltasse totalmente, não haveria ser nem ação; e se o bem não fosse deficiente [i. é, nada lhe faltasse do seu ser devido] não haveria mal. Por onde, a ação causada, em virtude de um bem deficiente, há de ser também deficientemente boa: é boa,relativamente; e é má, absolutamente.

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: Nada impede  que um ser tenha, num ponto de vista, a atualidade [possui em ato uma qualidade que é devida ao seu ser] que o faz agir e, noutro ponto de vista, tenha a privação do ato, que lhe causa a ação deficiente. Assim um cego, tendo as pernas sãs, pode andar; mas, privado da visão, com a qual se dirige, a marcha fica-lhe defeituosa e há de se trôpego no andar.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO: – Uma ação má pode, por si, produzir um efeito, na medida em que tiver algo de bondade e de ser. Assim, o adultério é causa de geração humana enquanto implica a união dos sexos e não, enquanto contrária a ordem racional.

Obser.: É óbvio que só teremos uma noção clara do assunto em apreço,depois de lermos a exposição dos 11 artigos. Com a graça de Deus e for de sua santíssima vontade, traduzirei e apresentarei aqui todos os 11 artigos. Trata-se de uma matéria sempre atual, mas hoje, mais do que nunca, seu conhecimento é oportuno e mesmo urgente.

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31 janeiro, 2017

O que é ambiguidade?

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Já que o Português veio do Latim, comecemos por este. E por trilhar caminho mais seguro, vejamos pelo uso clássico. Não resta dúvida que Virgílio foi um grande escritor latino. Pois bem, ele empregou a palavra ambiguus para significar: o que tem dois sentidos (Eneidas 3, 180). Este seria o sentido próprio. Cícero empregou o termo ambiguus no sentido de enganador (já no sentido figurado). Se um gesto, ato ou palavra têm dois sentidos, naturalmente podem levar ao engano.

3692461733_469a9f17dfEm Português, ambíguo significa equívoco, incerto, impreciso. O antônimo é: claro, preciso, firme.

Vamos, agora, ao mais importante e seguro: O que diz a Bíblia Sagrada?

Disse Nosso Senhor Jesus Cristo: “Seja o vosso falar: sim, sim; não, não. Tudo o que disso passa, procede do maligno” (S. Mateus V, 37).

São Tiago repete a mesma pregação de Jesus: “Mas seja a vossa palavra: – sim, sim – não, não – para que não caiais sob o peso do juízo” (S. Tiago V, 12).

Lemos no Eclesiástico II, 14: “Ai do coração dobre… e do pecador que anda sobre a terra por dois caminhos”. No capítulo V, 11 do mesmo livro: “Não te voltes a todo vento, e não andes por todos os caminhos, porque é assim que todo pecador se dá a conhecer pela duplicidade da sua língua”.

Provérbios, VIII, 13: “O temor do Senhor odeia o mal. Eu detesto a arrogância e a soberba, o mau proceder e a LÍNGUA DUPLA”.

Destaquei esta última citação do Livro dos Provérbios porque é sobre ela que me deterei mais um pouco. Língua dupla é justamente a língua que profere ambiguidades, ou palavras de dois sentidos e, portanto, enganadoras. Estudamos em Teologia que, todas as vezes que as Sagradas Escrituras empregam a palavra detestar ou detestável etc. isto significa que se trata de algum mal grave. Estudamos isto na Teologia quando se trata de saber o que seria pecado grave ou leve.

Logo, em se tratando de ambiguidades que provocam desastres na fé e, portanto, de consequências eternas, é evidente, que neste caso, se revestem de uma gravidade incomensurável. Sabemos que a Santa Madre Igreja sempre ostentou uma clareza singular nos seus dogmas, definidos no decorrer dos séculos pelos vários Papas e Concílios.

A ambiguidade é tão perigosa que não adianta o Magistério “Vivo” da Igreja ficar sempre dizendo qual é o sentido verdadeiro. Os inimigos da Igreja sempre tirarão suas consequências no sentido que não é o verdadeiro. E 50 anos foram suficientes, sobretudo para quem os vem acompanhando, para se perceber que os modernistas no Concilio tiveram a intenção (como parece mostrar o cardeal Kasper — houve até no Concílio quem declarou esta sua intenção; mas é claro não podemos julgar e generalizar; veremos no dia do Juízo) de colocar ambiguidades onde poderiam tirar depois suas conclusões. E tudo parece indicar que eles entendiam que Concílio Pastoral era sinônimo de Ecumenismo. E talvez a ambiguidade tenha sido empregada para se poder fazer ecumenismo. Cito apenas esta passagem do Concílio Vaticano II: “A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”. Todos os Santos, Papas, Concílios e Doutores sempre ensinaram que a Igreja de Cristo é a Igreja Católica. O povo católico nunca teve dificuldade em entendê-lo. Agora, o tal “subsist in”, “subsiste em” é tão difícil de entender que até os teólogos se sentem embaraçados na ginástica que fazem para explicá-lo. Então a Pastoral não é para o povo entender melhor, mas, para os protestantes se sentirem melhor e mais firmes nas suas heresias. Que Concílio Pastoral é esse! Queremos deixar claro o seguinte: o que o Concílio repetiu da Tradição e não o deturpou por nenhuma ambiguidade, é bom! Mas, há um axioma que diz: “Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu”. Extraindo pela raiz o que há de defeituoso, ambíguo e perigoso do Concilio Vaticano II, este não provocará mais meio século de discussões e desastres. Tornar-se-á uma boa árvore e dará bons frutos. É o que certamente fará o Magistério Vivo, Perene e Infalível da Santa Madre Igreja. Quando, não sabemos! Como o Concílio Vaticano II não definiu nada, restará o que nele traz da Tradição.

O perigo da Ambiguidade e o Bom Senso

Vimos o que é uma coisa ambígua: o que pode ser interpretado em dois sentidos. Algo, portanto, perigoso. E por isto mesmo autores clássicos, como por exemplo Cícero, empregaram o adjetivo “ambiguus” para significar “perigoso”.

Vamos compreendê-lo com um exemplo infelizmente acontecido, e não simples ficção. Trata-se do maior desastre aéreo até hoje acontecido. Ocorreu em 27 de Março de 1977, no Aeroporto de Tenerife, que fica nas Ilhas Canárias. Dois Jumbos, um da Pan Am e outro da companhia aérea da Holanda KLM, se chocaram quando se preparavam para decolar. Morreram 612 pessoas.

Mas, qual a causa desta tão terrível tragédia? A ambiguidade, e foi uma ambiguidade apenas fônica. Foi o seguinte: a torre de controle havia ordenado a um dos pilotos “Hold position”, isto é, sustente a posição, ou seja, FIQUE PARADO. Mas o piloto entendeu “Roll to position”, o que quer dizer: vá para a posição, isto é, SIGA. O piloto do outro jumbo recebeu esta última ordem bem entendida. E foi assim que os dois aviões se chocaram em pleno aeroporto.

Então, a partir deste dia a aviação internacional retirou do seu vocabulário a expressão “roll to position”, trocando-a por outra que não provocasse dúvidas e novos desastres. A avião internacional agiu segundo o bom senso. Não se limitou a avisar que os pilotos ficassem mais atentos para não se equivocarem. Não disse que estivessem bem convencidos dos significados das duas expressões. Em se tratando de vidas humanas, a voz do bom senso exigia a máxima segurança.

Agora, apenas, uma ficção. Suponhamos (só para efeito de argumentação) que desde Santos Dumont (início do século XX), a expressão de comando fosse outra sem a mínima ambiguidade de som, tanto assim que nunca tinha havido mal entendido neste ponto, e, consequentemente, nunca ninguém tinha morrido por isso. Pois bem, depois foi mudada. E então, depois desse acidente tão fatídico, tão triste, suponhamos que a aviação internacional não quisesse voltar à expressão tradicional que nunca apresentou perigo de ambiguidade. Isso seria o cúmulo da ausência de bom senso. Seria um absurdo inqualificável.

Caríssimos e amados leitores, sirva tudo isso como parábola.

A Santa Igreja é o avião que nos conduz ao Céu. Quando se trata de avião, é mister empregar sempre o mais seguro. E todo cuidado é pouco quando se trata de se chegar ao Céu ou não. Céu e inferno são eternos. Felicidade eterna ou infelicidade eterna. Por isso, a Santa Igreja, como Mãe solícita e bondosa, sempre ostentou uma clareza singular nos seus dogmas. Por exemplo, a Santa Missa, que é ao mesmo tempo a sua oração por excelência e uma explícita profissão de fé, clara e sem ambiguidades, deu tantos frutos de santidade! Foi sempre uma barreira inexpugnável contra as heresias, defendendo a fé dos seus filhos. Por isso os protestantes tinham ódio da Missa de sempre. E por que elogiaram tanto a Missa Nova? Porque em si mesma tem ambiguidades. E podendo ser feita em vernáculo poderia ser assim manipulada à vontade!

No Concílio Vaticano II, repetindo o exemplo, trocou-se a expressão “A Igreja de Cristo é a Igreja Católica” por esta outra tão ambígua que até os que querem explicá-la no bom sentido, sentem dificuldade: “A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”. Quer dizer: a primeira expressão inequívoca desde o início do Cristianismo nunca pôde ser interpretada heterodoxamente e os católicos nunca tiveram a mínima dificuldade em entendê-la. Mas, no Concílio Vaticano II, para dar azo ao ecumenismo, aquela expressão foi trocada pela outra mais difícil de ser entendida pelos católicos e com uma facilidade imensa de ser explorada pelos inimigos da Igreja, como realmente foi e está sendo mesmo após o Magistério “Vivo” dizer que o sentido verdadeiro é o da Tradição. É o perigo da ambiguidade.

O pior é que as almas estão se perdendo. Os desastres na fé provocados por essas ambiguidades têm consequências eternas. Milhões de católicos estão passando para as seitas. E o pior de tudo isto é que pessoas que comandam o avião da Igreja continuam com as expressões novas ambíguas. E péssimo é que as antigas são “detritos”. As expressões inequivocamente tradicionais foram inseridas no Concilio Vaticano II apenas como acessórios descartáveis, com a finalidade única de conseguir todas as assinaturas dos Padres do Concilio. A maioria do Concílio, terminado o Concílio, na prática, tiraria as consequências das ambiguidades, e descartaria os acessórios tradicionais. Uma árvore má só pode dar maus frutos.

Parece que não poderia haver algo mais triste, lamentável e desastroso do que o Papa empregar uma linguagem ambígua em questões dogmáticas (a indissolubilidade do Matrimônio e a presença real de Jesus Cristo Eucarístico). No entanto, mais desastroso, lamentável e triste do que isto, é o fato de o Soberano Pontífice se recusar a responder às respeitosas e bem fundadas “DUBIAS” que os quatro cardeais lhe apresentaram. Se se tratasse de um possível desastre ambiental, certamente logo procuraria dar uma explicação (aliás, ao tratar deste assunto (LAUDATO SI) usou de muita clareza!). Às vezes, fico a pensar que as profecias de Nossa Senhora de La Salette já se estão cumprindo!

Rezemos não só para que esses quatro cardeais vão à frente e não retrocedam, mas que apareçam outros em defesa da doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. NA SANTA MADRE IGREJA, A LEI SUPREMA É A SALVAÇÃO DAS ALMAS. Amém!

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28 janeiro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: A consciência cristã.

“Tudo o que não é segundo a fé é pecado” (Rom. XIV, 23).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Todo ato cristão parte do íntimo da alma unida a Deus em conformidade com a Verdade que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim os dois conceitos FÉ e CONSCIÊNCIA CRISTÃ, coincidem perfeitamente. É, pois, a adesão interior a Jesus Cristo que faz nossa fé e nossa consciência. Portanto, quando o cristão unido interiormente a Jesus Cristo, age em desacordo com essa luz divina, peca. É neste sentido que S. Paulo diz: “Tudo o que não é segundo a fé é pecado”. São João Crisóstomo, com todos os intérpretes gregos, ensina que, no texto em apreço, “FÉ” quer dizer “CONSCIÊNCIA”.

Nuvens sobre o Vaticano.

Caríssimos, Nosso Senhor Jesus fez sua Igreja com sua hierarquia para ser a luz do mundo e o sal da terra. O Cristianismo é, por essência, uma doutrina sobrenatural da salvação. Seu fim é ensinar ao homem a sua elevação a um destino superior e subministrar-lhe os meios proporcionados à sua consecução. Mas a graça supõe a natureza. É a natureza do homem que é elevada à ordem sobrenatural. É sobre a natureza reta ou retificada que ele poderá realizar a sua missão sobrenaturalizadora. A moral humana e o direito natural só podem desenvolver-se e formular-se em corpo de doutrina pela Santa Madre Igreja. Por isso, onde e na medida em que o racionalismo laicista ou o materialismo ateu tentam banir a doutrina católica, renascem os ídolos pagãos com as suas servidões humilhantes e a pessoa perde sua dignidade. Enquanto os instintos cegos e as paixões indisciplinadas, onde a impureza, a ambição e o orgulho multiplicam os erros e as desordens, o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo será o único meio para difundir claridades para o verdadeiro progresso aqui e máxime para as vias que conduzem à Eternidade Feliz. A Igreja de Nosso Senhor Jesus esclarece as inteligências e possui o segredo de energias sobrenaturais capazes de fortalecer a vontade. É ela, e somente ela, que plasma e ilumina as consciências tornando-as certas, retas e delicadas. Sua ação é interior, profunda e eficaz. Na prática do bem a consciência apura-se numa delicadeza e sinceridade que deve ter por testemunha o olhar de Deus. O amor de Jesus Cristo, modelo de perfeição humano-divina, deve introduzir no dinamismo da vida moral dos verdadeiros católicos uma força misteriosa de dedicação e generosidade, chegando mesmo ao heroísmo do martírio. É o fruto da consciência bem formada, é o exercício da virtude exaltada até à santidade.

Mensageira autorizada da verdade e do bem, a Igreja não poderá jamais deixar de testemunhar a verdade de Jesus, assim como jamais poderá eximir-se de ligar as consciências a esta Verdade, sem que pretenda com isso, é óbvio, violentá-las. O que ela quer é a sua adesão não puramente exterior, mas interior. Quando esta adesão interior lhe é resolutamente recusada, a Igreja não força, mas não pode senão implorar a misericórdia divina que converta os recalcitrantes. Nunca será misericórdia abraçar o pecador com o pecado e tudo, no caso de o pecador se recusar a voltar atrás e se converter. A Igreja, a exemplo do Divino Mestre, é missionária, e deve ir à procura do pecador para o converter e não para falsear sua consciência no afã de tranquilizá-la no erro e no pecado. Isto é, sim, monstruosa impiedade: enganar as almas com uma paz que não é a de Jesus Cristo, mas a do mundo. Procurar tirar os pecados das consciências não é fanatismo nem dureza de coração; é simplesmente preocupação de sinceridade e de retidão interior. A Igreja não pode tolerar, nem tem mesmo o direito de fazê-lo, que no número dos seus membros se encontrem católicos que só o sejam de nome. A Igreja Católica, deve ser por excelência, a preservadora e impulsora da moralidade humana. Deve ser o sal da terra para, dando gosto pelas coisas de Deus, preservar a almas e a sociedade da corrupção, seja ela lá de que espécie for. Só o Cristianismo pode ser escola de santos. A graça supõe a natureza, mas uma natureza reta ou retificada. Não será bom católico quem não começar por ser homem honesto.

A Igreja considerou sempre como parte de sua missão divina, elevar e sanear o ambiente moral da família. Se é verdade que, sendo a consciência a regra imediata que se deve seguir, nunca será lícito alguém ir contra ela, não é menos verdade que a intenção de conformar os nossos atos com a regra absoluta, que é a condição essencial do seu valor moral, supõe necessariamente o desejo e a intenção eficaz de a conhecer o mais exatamente possível. Eis porque o erro e a ignorância em semelhante matéria são imputáveis quando provêm da negligência em se instruir ou da prática continuada do mal, que acabou por obscurecer ou falsear a consciência. Assim, toda consciência errônea deve ser endireitada. Portanto, não poderia ser maior a impiedade, por parte de alguém da hierarquia eclesiástica ser o primeiro a exortar a alguém que esteja  procurando esclarecimento, a seguir em frente com sua consciência, ainda que clara e gravemente errônea. Seria a mãe dar uma serpente ao filho que lhe pedisse um peixe; dar uma pedra em lugar dum pão; e pior ainda, dar ao filho doente, em vez de remédio, veneno. Outrossim, é uma impiedade sem nome, a autoridade suprema da Igreja se recusar a esclarecer as consciências que esta mesma autoridade perturbou com alguma ambiguidade em questões de fé e moral. Devemos pedir a Deus pelos quatro cardeais que apresentaram ao papa os “DUBIA” e por todos os que os estão aprovando, para que continuem firmes na defesa da santa doutrina  de Nosso Senhor Jesus Cristo! Devemos também orar para que o Papa Francisco veja que não se trata de coisas de somenos importância, mas sim da Lei suprema da Igreja que é procurar a salvação das almas. Não se trata, pois, de procurar evitar a extinção de espécies animais, mas trata-se de evitar a extinção da fé nas almas.

Caríssimos, na religião do homem que hoje se procura instaurar, até quanto ao SER MORAL o homem é deus para si mesmo. Nestes tempos calamitosos e faltos de fé, geralmente não se leva mais em conta a LEI de DEUS; já em muitos países são aprovadas leis contra o Decálogo e até contra a natureza, leis nela já insculpidas por Deus desde à criação. E  já foram aprovados por lei,  o divórcio e até o aborto, a sodomia, pecados estes que bradam aos céus exigindo vingança. Não poderia ser maior o falseamento das consciências! As novas gerações acharão natural o que na verdade são monstruosos desrespeitos a Deus. Na míngua de sacerdotes que orientem as almas na verdade e no verdadeiro amor e adoração ao Criador, o mundo caminha no sentido de adorar as criaturas. Realizam-se, sem dúvida, as profecias de Nossa Senhora de La Salette. Não foi sem razão que Nossa Senhora apareceu chorando. E neste ano completam-se 45 anos que a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima derramou lágrimas várias vezes em Nova Orleans nos Estados Unidos.

Feita esta breve exposição, torna-se mais fácil compreender o porquê desta crise atual, crise esta que se estende a todos os campos, desde o religioso até ao econômico. É que o sal perdeu a sua força e não presta para outra coisa senão para ser jogado fora e pisado pelos homens. Apagou-se, ou quase, a luz da fé, a doutrina do Divino Mestre é substituída por novidades fabricadas ao sabor do mundo. A verdadeira Moral é substituída por uma NOVA: é a Moral de Situação.

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21 janeiro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: A “astúcia da serpente”.

“Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com vestidos de ovelhas, e por dentro são lobos rapaces. Pelos seus frutos os conhecereis” (S. Mateus, VII, 15).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

N.B.: Extraído do Livro “EM DEFESA DA AÇÃO CATÓLICA” da autoria do Prof. Plínio Corrêa de Oliveira (falecido em 1995).


“Comecemos pela virtude da argúcia, ou, em outros termos, pela virtude evangélica da astúcia serpentina. São inúmeros os tópicos em que Nosso Senhor recomenda insistentemente a prudência, inculcando assim aos fiéis que não sejam de uma candura cega e perigosa, mas façam coexistir sua cordura com um amor vivaz e diligente, dos dons de Deus; tão vivaz e tão diligente que o fiel possa discernir, por entre mil falsas roupagens, os inimigos que os querem roubar. Vejamos um texto.

lobo

“Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com vestidos de ovelhas, e por dentro são lobos rapaces. Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinhos, ou figos dos abrolhos? Assim toda a árvore boa dá bons frutos, e a árvore má dá maus frutos. Não pode uma árvore boa dar maus frutos nem uma árvore má dar bons frutos. Toda árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada no fogo. Vós os conheceis pois pelos seus frutos” (S. Mateus, VII, 15 a 20).

Este texto é um pequeno tratado de argúcia. Começa por afirmar que teremos diante de nós não só adversários de viseira erguida, mas falsos amigos, e que portanto nossos olhos se devem voltar vigilantes não só contra os lobos que de nós se aproximam com a pele à mostra, mas ainda contra as ovelhas, a fim de ver se em alguma não descobriremos sob a lã alva o pelo ruivo e mal disfarçado de algum lobo astuto. Quer isto dizer em outros termos que o católico deve ter um espírito ágil e penetrante, sempre de atalaia  contra as aparências, que só entrega sua confiança a quem mostrar, depois de exame meticuloso e arguto, que é ovelha autêntica.

Mas como discernir a falsa ovelha da verdadeira? “Pelos frutos se conhecerão os falsos profetas”. Nosso Senhor afirma com isto que devemos ter o hábito de analisar atentamente as doutrinas e ações do próximo, a fim de conhecermos estes frutos segundo seu verdadeiro valor e de nos premunirmos contra eles quando maus. Para todos os fiéis esta obrigação é importante, pois que a repulsa à falsas doutrinas e às seduções dos amigos que nos arrastam ao mal ou que nos retêm na mediocridade é um dever. Mas para os dirigentes de Ação Católica, aos quais incumbe, a título muito mais grave, vigiar por si e vigiar por outrem, e impedir, por sua argúcia e vigilância, que permaneçam entre os fiéis, ou subam a cargos de grande responsabilidade homens eventualmente filiados a doutrinas ou seitas hostis à Igreja, este dever é muito maior. Ai dos dirigentes em que um sentido errado de candura faça amortecer o exercício contínuo da vigilância em torno de si! Perderão com sua desídia maior número de almas do que o fazem muitos adversários declarados do Catolicismo.

Incumbidos de, sob a direção da Hierarquia, fazer multiplicar os talentos, que são as almas existentes nas fileiras da Ação Católica, não se limitariam eles entretanto a enterrar o tesouro, mas permitiriam por sua “boa fé” que ele caísse nas mãos dos ladrões. Se Nosso Senhor foi tão severo para com o servo que não fez render o talento, que faria Ele a quem estivesse dormindo enquanto entrava o ladrão?

Mas passemos a outro texto.  –  “Eis que vos mando como ovelhas no meio de lobos. Sede pois astutos como as serpentes, e simples como as pombas. Acautelai-vos porém, dos homens, porque vos farão comparecer nos seus tribunais, e vos açoitarão nas suas sinagogas; e sereis levados por minha causa à presença dos governadores e dos reis, como testemunhos diante deles e diante dos gentios” (S. Mateus, VII, 16 a 18). Em geral, tem-se a impressão de que este texto é uma advertência exclusivamente aplicável aos tempos de perseguição religiosa declarada, já que ele só se refere à citação perante tribunais, governadores e reis, e à flagelação em sinagogas. À vista do que ocorre no mundo seria o caso de perguntar se há uma só país, hoje em dia, em que se possa ter a certeza de que, de um momento para outro, não se estará em tal caso.

De qualquer maneira, também seria errado supor-se que Nosso Senhor só recomenda tão grande prudência diante de perigos ostensivamente graves, e que de modo habitual pode um dirigente de Ação Católica renunciar comodamente à astúcia da serpente, e cultivar apenas a candura da pomba. Com efeito, sempre que está em jogo a salvação de uma alma, está em jogo um valor infinito porque pela salvação de cada alma foi derramado o sangue de Jesus Cristo. Uma alma é um tesouro maior do que o sol e a sua perda é um mal muito mais grave do que as dores físicas ou morais que possamos sofrer atados à coluna da flagelação ou no banco dos réus. Assim, tem o  dirigente da Ação Católica obrigação absoluta de ter olhos atentos e penetrantes como os da serpente, no discernir todas as possíveis tentativas de infiltração nas fileiras da Ação Católica bem como qualquer risco a que a salvação das almas possa estar exposta no setor a ele confiado.

A este propósito é muito oportuna a citação de mais um texto.  –  “E respondendo Jesus, disse-lhes: Vede que ninguém vos engane. Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e seduzirão muitos” (S. Mateus, XXIV, 4 a 5). É um erro supor que o único risco a que os ambientes católicos possam estar expostos consiste na infiltração de ideias nitidamente errôneas. Assim como o Anti-Cristo procurará inculcar-se como o Cristo verdadeiro, as doutrinas errôneas procurarão embuçar seus princípios em aparências de verdade, revestindo- os dolosamente de uma suposta chancela da Igreja, e assim preconizar uma complacência, uma transigência, uma tolerância que constitui rampa escorregadia por onde facilmente se desliza, aos poucos e quase sem perceber até o pecado. Há almas tíbias que têm uma verdadeira paixão de se colocar nos confins da ortodoxia, a cavalo sobre o muro que as separa da heresia, e aí sorrir para o mal sem abandonar o bem, – ou antes, sorrir para o bem sem abandonar o mal. Infelizmente, cria-se com tudo isso, muitas vezes, um ambiente em que o “sensus Christi” desaparece por completo e em que apenas os rótulos conservam aparência católica. Contra isto deve ser vigilante, perspicaz, sagaz, previdente, infatigavelmente minucioso em suas observações o dirigente da Ação Católica, sempre lembrado de que nem tudo que certos livros ou certos conselheiros apregoam como católico o é na realidade. “Vede que ninguém vos engane: porque muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu; e enganarão muitos” (S. Marcos, XIII, 5 e 6).

Outro texto digno de nota é este: “E estando em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, vendo os milagres que fazia, Mas Jesus não se fiava neles, porque os conhecia a todos, e porque não necessitava de que lhe dessem testemunho de homem algum, pois sabia por si mesmo o que havia no (interior do) homem” (S. João, II, 23 a 25).

Mostra-nos ele claramente que por entre as manifestações por vezes entusiásticas que a Santa Igreja possa suscitar, devemos aproveitar todos os nossos recursos para discernir o que pode haver de inconsistente ou de falho. Foi este o exemplo do Mestre. Quando necessário, não recusará Ele ao apóstolo verdadeiramente humilde e desprendido, até luzes carismáticas e sobrenaturais, para discernir os verdadeiros e os falsos amigos da Igreja. Com efeito, Ele que nos deu a recomendação expressa de sermos vigilantes não nos recusará as graças necessárias para isto. “Atendei a vós mesmos e a todo o rebanho, sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos para governardes a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, se introduzirão entre vós lobos arrebatadores, que não pouparão o rebanho” (Atos XX, 28 e 29).

É certo que só se refere diretamente aos Bispos a obrigação de vigilância contido neste texto. Mas na medida em que a Ação Católica é um instrumento da hierarquia, instrumento vivo, inteligente, deve ela também estar de olhos vigilantes contra os lobos arrebatadores.
Afim de não alongar por demais esta exposição, citamos apenas mais alguns textos:

O mesmo S. Pedro ainda teve mais este conselho: “Vós, pois, irmãos, estando prevenidos, acautelai-vos, para que não caiais da vossa firmeza, levados pelo erro destes insensatos; mas crescei na graça e no conhecimento do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A Ele (seja dada) glória, agora e no dia da eternidade. Amém” (Idem, III, 17 e 18).

E não se julgue que só um espírito naturalmente inclinado à desconfiança pode praticar sempre tal vigilância. Em S. Marcos lemos: “o que eu pois digo a Vós, digo a todos: Vigiai” (XIII, 37). S. João aconselha com solicitude amorosa: “Filhinhos, ninguém vos seduza” (1
João III, 5 a 7).

A todos nós, membros da A. C. incumbe pois o dever da vigilância arguta e eficaz.”

* * *

N.B. : Onde neste artigo encontramos AÇÃO CATÓLICA, creio eu, Pe. Elcio, podermos colocar qualquer outro movimento similar católico, inclusive os sites e blogs católicos autênticos. É o que faz este blog que está sempre de atalaia contra os inimigos da Santa Igreja, inimigos estes, sejam externos, sejam internos. Que o Espírito Santo sempre mais os ilumine, fortifique e dê a todos a perseverança até o fim!

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15 janeiro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: “Ai de ti”.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“Ai de ti Corozain, ai de ti, Betsaida, porque se em Tiro ou Sidônia tivessem sido feitos milagres que se realizaram em vós, há muito tempo que elas teriam feito penitência em cilícios e em cinza – Por isso vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidônia no dia do Juízo, que para vós. E tu Cafarnaum, elevar-te-ás porventura até ao céu? Hás de ser abatida ao inferno, porque se em Sodoma se tivessem feito os milagres que se fizeram em ti, talvez existisse ainda hoje.Por isso vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma que para ti” (S. Mat., XI 21-23)

N.B.: Todo este artigo é extraído exclusivamente do Livro “EM DEFESA DA AÇÃO CATÓLICA”, Quinta Parte, Capítulo Único, em que o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira , pelos textos do Novo Testamento, confirma as doutrinas que defendeu anteriormente neste mesmo livro. Demos-lhe então a palavra:

“Sem contestar que realmente na lei da graça tenha havido uma efusão muito mais abundante da misericórdia divina queremos demonstrar que se dá às vezes a este fato gratíssimo um alcance maior do que na realidade ele tem. Não há, graças a Deus, católico algum que, por pouco que seja instruído dos Santos Evangelhos não se lembre do fato narrado por S. Lucas, que exprime de modo admirável o reinado da misericórdia, mais amplo, mais constante e mais brilhante no Novo Testamento do que no Antigo. O Salvador fora objeto de uma afronta em uma cidade de Samária. E, “vendo isto os seus discípulos Tiago e João disseram: Senhor queres tu que digamos que desça fogo do céu, que os consuma (aos habitantes da cidade)? Ele, porém, voltando-se para eles, repreendeu-os dizendo: Vós não sabeis de que espírito sois. O Filho do Homem não veio para perder as almas, mas para as salvar. E foram para outra povoação” (IX, 50-56). Que admirável lição de benignidade! E com que consoladora e grande frequência Nosso Senhor repetiu lições como esta! Tenhamo-las gravadas bem fundo em nossos corações, mas aí as gravemos de modo tal que reste lugar para outras lições não menos importantes, do Divino Mestre. Ele pregou certamente a misericórdia, mas não pregou a impunidade sistemática do mal. No Santo Evangelho, se Ele nos aparece muitas vezes perdoando, aparece-nos também mais de uma vez punindo ou ameaçando. Aprendamos com Ele que há circunstâncias em que é preciso perdoar, e em que seria menos perfeito punir; e também circunstâncias em que é preciso punir, e seria menos perfeito perdoar.

Não incidamos em um unilateralismo de que o adorável exemplo do Salvador e uma condenação expressa, já que Ele soube fazer, ora uma, ora outra coisa. Não nos esqueçamos jamais do memorável fato que S. Lucas narra no texto acima. E também não nos esqueçamos deste outro, simétrico ao primeiro, e que constitui uma lição de severidade que se ajusta harmonicamente à da benignidade divina, num todo perfeito; ouçamos o que de Corozain e Betsaida, disse o Senhor, e aprendamos com Ele, não só a divina arte de perdoar, mas a arte não menos divina de ameaçar e de punir: “”Ai de ti Corozain, ai de ti, Betsaida, porque se em Tiro ou Sidônia tivessem sido feitos milagres que se realizaram em vós, há muito tempo que elas teriam feito penitência em cilícios e em cinza – Por isso vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidônia no dia do Juízo, que para vós. E tu Cafarnaum, elevar-te-ás porventura até ao céu? Hás de ser abatida ao inferno, porque se em Sodoma se tivessem feito os milagres que se fizeram em ti, talvez existisse ainda hoje.Por isso vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma que para ti” (S. Mat., XI 21-23). Note-se bem: o mesmo Mestre que não quis mandar o raio sobre o vilarejo de que acima falamos, profetizou para Corozain e Betsaida desgraças ainda maiores que as de Sodoma! Não arranquemos ao Santo Evangelho página alguma, e encontremos elemento de edificação e de imitação nas páginas sombrias como nas luminosas, pois que tanto umas quanto outras são salutaríssimos dons de Deus.

Se a misericórdia ampliou no Novo Testamento a efusão das graças, a justiça por outro lado, encontra na rejeição de graças maiores, crimes maiores a punir. Entrelaçadas intimamente, ambas as virtudes continuam a se apoiar reciprocamente no governo do mundo por Deus. Não é exato, pois, que no Novo Testamento só haja lugar para o perdão, e não para o castigo. Os pecadores antes e depois de Cristo.

Mesmo depois da Redenção, continuou a existir o pecado original com o triste cortejo de suas consequências na vontade e na inteligência do homem. Por outro lado os homens continuaram sujeitos às tentações do demônio. E tudo isto fez com que não desaparecesse da terra o pecado, pelo que a Igreja continuou a navegar num mar agitado, no qual a obstinação e a malícia dos pecadores erguem contra ela obstáculos que a todo momento ela deve romper. Basta um lance de olhos, ainda que superficial, na História da Igreja, para dar a esta verdade uma evidência cruel. Mais ainda. A graça santifica os que a aceitam, mas a rejeição da graça fará um homem pior do que ele era antes de a receber. É neste sentido que o Apóstolo escreve que os pagãos convertidos ao Cristianismo e depois arrastados pelas heresias se tornam piores do que eram antes de ser cristãos. O maior criminoso da História, não foi certamente o pagão que condenou Jesus Cristo à morte, nem mesmo o sumo sacerdote que dirigiu a trama dos acontecimentos que culminaram com a crucifixão, mas o apóstolo infiel que por trinta dinheiros vendeu seu Mestre. “Quanto maior a altura mais fundo o tombo”, diz um ditado de nossa sabedoria popular. Que profunda e dolorosa consonância com os ensinamentos da Teologia tem esta asserção!

Assim, a Santa Igreja tem de se defrontar no seu caminho com homens tão maus ou ainda piores do que aqueles que, vigente o Antigo Testamento, se insurgiram contra a lei de Deus. E o Santo Padre Pio XI, na Encíclica “Divini Redemctoris” declara que em nossos dias não só alguns homens mas “povos inteiros se encontram no perigo de recair em uma barbárie pior que aquela em que jazia a maior parte do mundo ao aparecer o Divino Redentor”.

Portanto, a defesa dos direitos da verdade e do bem exige que, com um vigor maior do que nunca, se dobre a cerviz dos múltiplos inimigos da Igreja. Por isto deve o católico estar pronto a brandir com eficácia todas as armas legítimas, sempre que suas orações e sua cordura não bastarem para reduzir o adversário.

Notemos nos textos seguintes quantos e que admiráveis exemplos de argúcia penetrante, de combatividade infatigável, de franqueza heroica encontramos no Novo Testamento. Veremos assim que Nosso Senhor não foi um doutrinador sentimental mas o Mestre infalível que, se de um lado soube pregar o amor com palavras e exemplos de uma insuperável e adorável doçura, soube, também pela palavra e pelo exemplo, pregar com insuperável e não menos adorável severidade o dever da vigilância, da argúcia, da luta aberta e rija contra os inimigos da Santa Igreja, que a brandura não puder desarmar.”

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10 janeiro, 2017

A concretude da igreja de padre Jorge.

Por P. Wimmer | FratresInUnum.com

Padre Jorge volta à carga contra o que pensa ser “esquemas abstratos”.

Para sermos bem concretos, ponhamos o exemplo de um pai de família que, aos seus 50 anos, resolveu deixar a esposa e filhos para viver com uma mulher de 25. A esposa já não era atraente, os filhos, jovens e adolescentes, dando trabalho. Ele pode se mudar para um flat perto do trabalho, onde aliás conheceu a sua nova, mui nova, “companheira”, e viver sua vidinha pequeno-burguesa, pois, afinal, seus vencimentos o permitem. Ele, que é cristão, e não pensa segundo a lógica abstrata e legalista do passado. Ele quer se abrir a novas possibilidades, quer respirar um pouco depois de tantos anos de uma convivência nem sempre amena, quase forçada. Quer esquecer as dificuldades do início de carreira, quer, enfim, experimentar o novo, a liberdade. Nada de esquemas abstratos e legalistas!

A esposa, que sempre o ajudou e que batalhou com, e lhe deu filhos, um pouco trabalhosos, é verdade, ficará olhando pela janela a mudança. Ela até já pensa em baixar um aplicativo no celular, para ver se arruma um novo “parceiro”. O que é importa, afinal, é viver o aqui e agora, viver a precariedade do momento, viver as surpresas da vida com espírito aberto e sem esquemas rígidos e pré-concebidos. Também ela quer se dar o direito de ser feliz , quer viver a esperança.

O marido canastrão e seu rabo de saia serão acolhidos na terna igreja do bairro, a igreja de Padre Jorge.

Padre Jorge detesta constrangimentos por motivo de religião. Religião não deve onerar as pessoas com nada. Deve ser um oásis de acolhimento e de ternura. O mundo já exige demais… Criar problemas? Exigências? Cobranças? Nada disso! Padre Jorge sabe que tudo é difícil. Ele mesmo, em sua vida de consagrado, tem lá as suas dificuldades. As pessoas têm que se sentir bem. Cada um que siga a sua consciência. Deus não olha resultados e eficiências. Isso é uma versão capitalista da religião. O que importa é viver a justiça no seu dia-a-dia, promover a fraternidade e a partilha.

Padre Jorge quer acolher, quer tocar, quer a união dos corações e das mentes num sentimento indiferenciado de esvaziamento de si – kenótico.

O marido canastrão e aventureiro e o seu rabo de saia não querem, de modo algum, ficar sem a terapia dominical, a terapia humanista do acolhimento. Eles se sentem bem na comunidade. Dá pra ir ao clube, almoçar tranquilo, beber no bar da piscina até as 19:00, por uma bermuda e pegar a Missa das 20:30 como chave de ouro.

Na paróquia, há muitas atividades de promoção social. Padre Jorge tem muito cuidado para não haver a mínima sombra de proselitismo. A igreja tem que se ocupar das condições concretas de quem a procura, sem marretar doutrinas. Doutrina só gera divisão e afirmação de ego. Não se deve propor nada a ninguém, exceto o compromisso com a partilha e a justiça. Padre Jorge fez até um convênio com o Rotary e outro com Terreiro Maria Padilha. Para padre Jorge, o que importa é fazer o bem, sem criar divisões. Para ele, as pessoas devem ficar onde estão, pois se deus a pôs lá, é lá que ela deve ficar! A função da religião é servir o ser humano. E sobretudo: para padre Jorge, não importa o que você faz dentro de quatro paredes! Quem é ele pra julgar?

E o “ministério de música” de Padre Jorge? É tão bom – um repertório bem acolhedor, sentimental mesmo, que certamente levará a nova “família” – marido canastrão e rabo de saia- às lágrimas da ternura e do esquecimento de si, fazendo experimentar o deus concreto e pé-no-chão, que não liga para leis e códigos abstratos de conduta.

Para padre Jorge, tudo é uma grande dialética de precariedades, nada é definitivo. A síntese se dá pelo confronto dos opostos. Ele pensa assim, desde que sua opinião prevaleça sempre. Para ele, não podemos engessar a realidade. Nós devemos estar atentos aos sinais dos tempos, como dizia São João XXIII, o papa bom.

Padre Jorge é o homem mais acolhedor do mundo. Dizem que um amigo seu escreve suas homilias. Esse amigo tem até um livro sobre a terapia do toque e do beijo.

Tente contrariar Padre Jorge.

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8 dezembro, 2016

“De Maria numquam satis”.

“De Maria numquam satis”, dizem os Santos. Não se deve dizer basta nos louvores a Maria Santíssima. Não temamos cultuá-la excessivamente. Estamos sempre muito aquém do que Ela merece. Não é pelo excesso que nossa devoção a Maria falha. E sim, quando é sentimental e egoísta. Há devotos de Maria que se comovem até às lágrimas, e, no entanto, se ajustam, sem escrúpulos, à imodéstia e à sensualidade dominantes na sociedade de hoje. Sem imitação não há verdadeira devoção marial.

Consagremos, realmente, a Maria Santíssima nossa inteligência e nossa vontade, com a mortificação de nossa sensibilidade e de nossos gostos, e Ela cuidará de nossa ortodoxia. “Qui elucidam me vitam aeternam habebunt” (Eclo 24,31) – [Aqueles que me tornam conhecida terão a vida eterna] -, diz a Igreja de Maria. Os que se ocupam de fazê-la conhecida e honrada terão a vida eterna.

Dom Antônio de Castro Mayer.

Quando eu era jovem teólogo, antes e até mesmo durante as sessões do Concílio, como aconteceu e como acontecerá a muitos, eu alimentava uma certa reserva sobre algumas fórmulas antigas como, por exemplo, a famosa De Maria nunquam satis – “Sobre Maria jamais se dirá o bastante”. Esta me parecia exagerada.

Encontrava dificuldade, igualmente, em compreender o verdadeiro sentido de uma outra expressão bastante famosa e difundida repetida na Igreja desde os primeiros séculos, quando, após um debate memorável, o Concílio de Éfeso, do ano 431, proclamara Nossa Senhora como Maria Theotokos, que quer dizer Maria, Mãe de Deus, expressão esta que enfatiza que Maria é “vitoriosa contra todas as heresias”.

Somente agora – neste período de confusão em que multiplicados desvios heréticos parecem vir bater à porta da fé autêntica –, passei a entender que não se tratava de um exagero cantado pelos devotos de Maria, mas de verdades mais do que válidas.

Cardeal Joseph Ratzinger – Entretiens sur la Foi, Vittorio Messori – Fayard 1985.

(Publicado originalmente na festa da Imaculada Conceição de 2008)

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3 novembro, 2016

Deo gratias!

gercione

Nossa caríssima Gercione Lima já se encontra em seu quarto, em recuperação, após 6 horas de cirurgia. Rezemos por ela.

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31 outubro, 2016

Rezemos por nossa combatente Gercione.

unnamed-17Caros amigos do Fratres!

Acabo de enviar minhas últimas traduções por algum período. Depois de amanhã, quarta-feira estarei me internando para aquela minha grande cirurgia. Amanhã é dia dos preparativos e estarei muito ocupada.

Minha cirurgia se iniciará às 8 da manhã e provavelmente durará 4 horas ou mais para remover útero, ovários, trompas e apêndice. Deverei ficar no hospital por uns 5 dias e depois ficarei na casa da minha irmã que será minha enfermeira em tempo integral.

Se tudo der certo, e rezo para que dê, dentro de 3 semanas volto para a quimioterapia. É muito sofrimento e provação, mas continuo contando com a generosidade de suas orações.

Abraços e rezem por mim.

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26 setembro, 2016

A busca desesperada pelo Catolicismo: A longa e turbulenta jornada de uma judia convertida à Igreja Católica.

Por Laura Evans, Culture Wars | Tradução: Daniel Sender – FratresInUnum.com:  Um ano após o começo de minha interminável jornada na tentativa de me tornar uma católica tive este pesadelo: estava presa no telhado de um arranha céu e várias pessoas estavam lá comigo. Um por um foram sendo resgatados até que apenas eu restasse lá, totalmente sozinha. Meu terror crescia enquanto o dia se tornava noite. Não tendo ajuda alguma a vista, decidi tomar a questão em minhas próprias mãos.

arranhaceu

Minha única esperança estava em descer pela lateral do prédio. Era um caminho traiçoeiro, mas de alguma forma consegui chegar ao térreo, onde encontro as pessoas que poderiam ter me resgatado. Caminho em direção a elas com lágrimas aos olhos e pergunto lamentosa, “Por que vocês não vieram ao meu resgate?” Todos eles me encaram com um olhar vazio, sem resposta. Acordei deste sonho soluçando.

Eu buscava desesperadamente me tornar católica, até que finalmente tentei entrar na Igreja Católica. Lá encontrei uma burocracia sem fim e entraves que fariam um dia no DETRAN parecer como um passeio no parque. Ao invés do apoio entusiástico que tinha encontrado nas igrejas protestantes, no catolicismo encontrei uma lentidão que pouco dizia respeito às palavras de Cristo, segundo as quais devemos prontamente fazer discípulos de todas as nações.

No protestantismo evangélico, onde inesperadamente me encontrei ao começo de meus 50 anos, as pessoas moveriam céu e terra buscando ajudar a mim e a outros a “nascerem novamente”. Não importava se a igreja estivesse fechando para o dia ou se os fiéis estivessem correndo atrás do bacon com ovos. Quando uma alma perdida vaga pela igreja – negócio como sempre – há uma parada brusca. Se o prédio cair em chamas os protestantes ainda assim estariam evangelizando, apesar dos bombeiros e do fogo. Mas e os católicos? Encontrei um universo completamente diferente, onde rígidas regras prevaleciam (mesmo aquelas que pareciam violar o Direito Canônico) e receber pessoas na Igreja parecia ser a última coisa na lista de coisas à fazer.

Mas como é que sequer cheguei a este mundo novo, sendo eu a pessoa mais improvável a querer me tornar católica? Minha história começa ao final de 2009, quando após uma vida inteira de Judaísmo/Budismo/Paganismo, de alguma forma eu me sentia movida a buscar a Igreja. Quando as pessoas perguntam-me o por que ser tão rara a conversão dos judeus ao Cristianismo, eu sempre respondo a mesma coisa, “só Deus sabe”. Não tenho a mínima ideia do porque, foi tudo o trabalho de Deus dentro de mim.

Como muitos judeus, absorvi desde a infância uma aversão ao Cristianismo. Não tinha muitos amigos cristãos, detestava o Natal e nunca havia entrado em uma igreja durante toda a minha vida. Mas de alguma forma, por razões que apenas Ele concebe, foi plantada uma grande fome em meu coração há alguns anos para conhecer Deus e o fazê-lo em uma igreja Cristã.

Comecei no protestantismo, onde permaneci por muitos anos. Este foi um movimento de sorte. Se eu tivesse me deparado com os bloqueios que posteriormente encontrei no mundo católico, talvez jamais tivesse me tornado cristã.

No protestantismo encontrei presbiterianos amigáveis e luteranos receptivos. Estava particularmente intrigada pelos evangélicos e pentecostais, que calorosamente me convidaram ao seu rebanho e passaram horas transmitindo-me as informações que desconhecia, como quem foi Jesus Cristo? Como se parece uma Bíblia e o que ela diz? Aceitei Jesus Cristo como meu salvador pessoal no começo de 2010, fui batizada em uma igreja crente na Bíblia alguns meses depois e nunca mais olhei para trás.

Mas, por mais maravilhoso que tudo isso fosse, sentia uma inquietude e uma fome dentro de mim por algo a mais, mesmo não sabendo exatamente o que isso era. Embora estivesse tendo muitas experiências boas em minha igreja, meu relacionamento com Jesus não crescia e nada estava sendo mudado em meu âmago, por mais que eu tentasse.

Busquei por esta coisa efêmera de igreja protestante a igreja protestante, dos batistas aos pentecostais, até que em um dia qualquer ao final de Novembro de 2013 (na realidade, este era o primeiro dia do Advento), apareceu subitamente o pensamento em meu cérebro de que eu talvez devesse me tornar católica. Esta era uma ideia nova, que jamais havia considerado, talvez pelo fato de protestantes não-denominacionais serem tão abertamente hostis perante a Igreja Católica.

Isto aconteceu enquanto lia o capítulo sobre Martin Lutero no livro de Mike Jones, “Modernos Degenerados” [1]. Quando Jones descrevia o comportamento mulherengo, o gosto pela embriaguez de Lutero e suas terríveis manipulações de freiras e padres, uma luz atravessou minha mente. Protestantismo vêm da palavra “protesto” – eu jamais havia juntado estes dois.

Não me agradava nem um pouco a ideia de fazer parte de um movimento radical, ou de insurreição. Tendo então já rejeitado minha própria juventude rebelde, percebi com horror que, de alguma forma, encontrei meu caminho em outro movimento revolucionário, o protestantismo. Então decidi começar a frequentar Missas católicas e a aprender o máximo possível sobre o catolicismo.

O que encontrei me fez querer correr por minha vida o mais rápido possível de volta aos protestantes. Descobri católicos que não sabiam o básico sobre a doutrina religiosa da Igreja e outros que desafiavam abertamente os ensinamentos morais. Escutei estranhos termos novos, como os “católicos de cafeteria”[2]. Me deparei com uma multidão de pessoas que não liam a Bíblia e praticavam sua fé com indiferença. Não consigo contar quantas vezes disseram-me que não precisava tornar-me católica, pois tendo sido batizada protestante – ou sendo judia – já era o suficiente. Em resumo, encontrei a Igreja Católica de hoje.

Apesar de meu choque com o estado da Igreja, comecei a fazer intensas pesquisas sobre a teologia Católica, o que clareou e corrigiu muitas doutrinas que me preocupavam no protestantismo. Também pesquisei o motivo de a Igreja Católica ter se tornado tão desordenada e caótica, ou seja, sobre a infiltração de diversas forças nefastas. Mas, mais importante do que tudo isso, encantei-me com a Missa e com o Santíssimo Sacramento, que me arrancaram lágrimas aos olhos mais de uma vez. Meu relacionamento com Jesus cresceu a trancos e barrancos e comecei a realizar as mudanças necessárias em meu comportamento. Finalmente descobri o que estive procurando todo esse tempo, e isso era Jesus em Sua única verdadeira Igreja Católica.

Mas depois de ter tomado a decisão de me juntar à Igreja, deparei-me com o maior choque de todos – isso seria uma tarefa hercúlea. E qual foi o maior obstáculo no caminho entre mim e a eternidade? Minha desgraça, assim como a de muitos outros, foi ter me deparado com o RICA.

Iniciação para Adultos

RICA significa Rito de Iniciação Cristã para Adultos. Ele foi criado posteriormente ao Concílio Vaticano II, aquele período de livre experimentação selvagem: coroinhas meninas, dançarinos litúrgicos, bruxas no altar, casais dando beijos de língua durante o Beijo da Paz e Ministros da Eucaristia. Algumas destas novidades já haviam sido expurgadas, como as bruxas e dançarinas (apesar de uma igreja local ainda ter as últimas). Mas, infelizmente, muitas novidades pegaram, incluindo o beijo e o RICA.

Embora o RICA tenha sido primeiramente introduzido em um número pequeno de paróquias nos anos 70 e começo dos 80, tornou-se onipresente em toda diocese a partir de 1986. Mesmo que evidências e um amplo estudo por parte de um grupo de Bispos tenham revelado problemas generalizados no RICA, ele ainda é a norma para os adultos, o desafio que todos devem passar para chegarem ao Santíssimo Sacramento e à Eternidade.

O sistema anterior ao Vaticano II era mais brando, embora fosse mais eficiente. Suponha-se que um homem, chamemos ele de “Joe”, quisesse tornar-se católico. Joe teria buscado um padre e exporia a ele o desejo de juntar-se à Igreja. O padre teria compaixão pelo pobre homem condenado ao inferno e teria aliviado o sofrimento de Joe, encontrando-se algumas vezes com ele e batizando-o logo em seguida. O padre teria compreendido que a alma eterna de Joe dependia da absolvição de seus pecados e do recebimento do Corpo e Sangue de Cristo ASAP, o mais cedo possível. E ele também reconheceria que ao falhar em seu compromisso, sua própria salvação estaria em risco.

Tudo isso mudou nos anos 80, quando essa abordagem acessível metamorfoseou-se na monstruosidade que temos hoje, o RICA. Hoje, para alguém como eu, sedenta em seu desejo de ingressar na Igreja, é dito que deve ser paciente e esperar. Agora há incontáveis degraus a serem superados, regras a serem obedecidas e sofríveis experiências grupais obrigatórias de ligação voltadas ao bem-estar.

E se uma pessoa dá para trás – se não quiser esperar meses a fio, abominar experiências psicológicas grupais de autoajuda com um bando de estranhos, ou se não quiser estar no altar com estas pessoas e passar por vários Ritos e rituais – bem, então ele está com azar. As coisas são do jeito que são e ninguém tem o interesse em mudá-las. Apesar de uma menina com 7 anos, que ainda cutuque o nariz e molhe a cama, poder receber a Primeira Comunhão, o adulto de hoje têm de navegar por um complicado labirinto, uma versão católica do campo de treinamento militar, até que chegue o momento propício, uma vez ao ano, quando a ele é permitido adentrar a Igreja na Missa da Vigília Pascal (Isso se ele sequer chegar a ir tão longe).

Embora supostamente existam exceções para as pessoas que não querem ou possam passar pelo RICA, encontrar um padre disposto a fazê-lo, como descobri, é como encontrar a proverbial agulha no palheiro. Os padres estão ocupados demais fazendo outras tarefas mais importantes. Um sacerdote disse-me francamente que se ele abrisse uma exceção para mim, teria de fazê-lo para os outros. Isso abre a questão de que se o maior problema de um padre é uma multidão de pessoas clamando para juntar-se à Igreja Católica, isto seria algo tão ruim assim?

De qualquer forma, hoje em dia os padres estão apenas perifericamente envolvidos na tarefa pivô de trazer pessoas para a Igreja Católica. A responsabilidade crucial da conversão foi passada adiante na maioria das paróquias, sendo delegada aos leigos. Uma pequeno número é composto por funcionários pagos, cuja vida depende da perpetuação do sistema. Mas é mais frequente que voluntários comandem o show, normalmente aposentados e casais sem filhos, com tempo de sobra e a necessidade de sentido e pertencimento a algo.

Alguns dos professores sabem do que falam, mas a maior parte é composta por pessoas com boa vontade, mas teologicamente desinformadas. E além destas, há também aquelas com uma agenda esquerdista que é promovida aos infelizes participantes, que se encontram suspensos no espaço sideral espiritual por meses a fio, com a cenoura da salvação pendurada a sua frente.

Proponentes do RICA se referem a ele como uma experiência profunda, evocativa tanto a potenciais católicos quanto para toda a paróquia, uma experiência que data da ritualística dos primeiros dias da Igreja. Séculos atrás, assim como hoje, prospectos ao Cristianismo necessitavam de apadrinhamento e precisavam passar por vários ritos públicos. Também como hoje, os potenciais conversos precisavam se retirar da Missa antes da Liturgia da Eucaristia.

Porém, haviam razões válidas para o apadrinhamento e o retirar-se da Igreja há centenas de anos. A jovem Igreja estava sob severo ataque por uma variedade de inimigos que tentavam infiltrá-la e destruí-la. A Igreja instituiu uma série de complicados procedimentos para proteger a si mesma e, em especial, o Santíssimo Sacramento.

Um prospecto necessitava de um padrinho que assegurasse seu caráter, para garantir, por exemplo, que ele não fosse um espião. Os ritos públicos eram conduzidos em frente à igreja para garantir que a comunidade conhecesse e confiasse no recém-ingresso. O neófito, por sua vez, precisava se retirar antes da Liturgia da Eucaristia para proteger o Corpo e o Sangue do perigo.

Hoje, a necessidade do apadrinhamento e elaborados ritos públicos parece arcaica, mas os proponentes do RICA garantem que estes não são bons apenas aos participantes, mas também um sopro de ar fresco para os párocos antigos, que podem receber um pouco do prazer místico observando aos membros do Rito no altar. Mas, para mim, se a paixão dos párocos pela fé tornou-se tão fria que eles precisam de pretendentes a católicos prostrados em frente a eles como macacos de circo, isto é uma triste visão da Igreja de hoje.

Com relação à prática de dispensar potenciais conversos antes da Liturgia da Eucaristia – para participar de, adivinhe?, mais aulas – como um membro do RICA poderia aprender sobre a Liturgia e experimentar a Presença Real se ele tem de se retirar antes do momento central da Missa Católica Romana? E como um potencial novo católico pode sentir-se parte da Igreja se é feito com que ele se retire?

E eis a questão mais relevante: o RICA realmente funciona? Vale a pena os muitos meses de espera e preparação, assim como os gastos? O novo sistema é melhor que o antigo?

Os proponentes do RICA dizem que sim e insistem que o programa leva a uma melhor retenção dos recém convertidos. Eles nos recordam que os católicos estavam saindo da Igreja em pencas antes da introdução do programa.

Embora seja verdade que houve um êxodo em massa de católicos nos anos 60 e 70, não foi por causa da ausência do RICA, mas por conta da sedutora atração do sexo, drogas e rock n’ roll naquela época rebelde. Contudo, antes dos anos 60, as igrejas estavam cheias de fiéis.

Curiosamente por toda a internet sobreviventes do RICA reclamam de seu rígido sistema, sua péssima catequese e de suas agendas esquerdistas. Mas o que dizem as pesquisas?

A mais extensa pesquisa do RICA, conduzida no ano 2000 pela Conferência Nacional de Bispos Católicos dos EUA, expõe um retrato sombrio. Foram descobertos problemas generalizados, como o alto índice de desistência, professores mal treinados responsáveis por espalhar erros doutrinários e a promoção de ideias não ortodoxas, como a de padres casados ou sacerdotes mulheres.

E sobre a alegação de que os católicos recém formados permanecem na Igreja? Infelizmente, no período de um a cinco anos após a conversão perto de 40% dos novos fiéis já não vão semanalmente à Missa. Minha opinião é que as classes os fecharam, abrigando os novatos e tornando-os dependentes de sua pequena panelinha. Passadas as experiências voltadas ao sentir-se bem, de dar as mãos na busca de aceitação, eles são confrontados com a desordem e a confusão que é a Igreja Católica de hoje, e muitos não conseguem lidar com isso.

Dada a abundância de problemas encontrados, por acaso os Bispos sugeriram cortar toda essa confusão desgovernada? Não. Ao invés disso, sua solução foi… mais cursos pós-conversão, algo chamado mistagogia. Através da mistagogia, os novos católicos são jogados de volta ao salão da paróquia para mais uma sessão de aulas e experiências de grupo.

Se há tantos problemas com o RICA, por que o programa ainda não foi abandonado de uma vez por todas? Meu palpite é que há diversos motivos para isso.

O primeiro é mais benigno, tendo a ver mais com a natureza humana. As pessoas não gostam de mudanças. É mais fácil fazer a mesma coisa de novo e de novo, não importando se isso é útil ou deletério. Existe uma espécie de atitude no RICA de “nós sempre fizemos isso. Assim, temos de continuar a fazê-lo”.

Além disso, existem ainda disputas pelo controle e feudos pessoais a serem mantidos. Se o RICA fosse desmantelado, os funcionários pagos rapidamente perderiam seu emprego e os aposentados seriam privados de seu sentimento de propósito. O programa é também o ganha pão de muitas companhias que vendem vídeos, livros e currículos de ensino. Mas, além de ser autossuficiente, o RICA reflete algumas das forças perniciosas que entraram na Igreja pós Vaticano II.

Uma destas é o falso culto ao conhecimento, que é uma preocupante remanescente dos Fariseus. Ao invés de evangelizar com base no Evangelho, a Igreja passa a lembrar um clube elitista, onde apenas alguns podem se juntar, mas somente após muitos meses de aula e acúmulo de vastas quantidades de conhecimento.

Esta abordagem ao estilo de uma universidade deixa muitos de fora. Por exemplo, aqueles com inteligência limitada, pessoas que viajam muito e não podem frequentar aulas por meses a fio, pais com filhos que precisam de cuidado constante, pessoas cronicamente doentes, com ansiedade social e qualquer um que não tenha condições físicas, intelectuais ou que simplesmente não queira ir a um curso semanal de uma a duas horas, encontrar-se regularmente com um padrinho e passar por ritos públicos por sete a nove meses.

Quanto às outras influências perniciosas na Igreja, muitos católicos se apaixonaram pela psicologia e por grupos. Sintonize à rádio católica e na maior parte do dia haverá fiéis emotivos vertendo vísceras a um psicólogo sobre seus problemas familiares. Ao invés de voltar-se a Jesus em oração, receber os Sacramentos e esforçar-se para abrir uma Bíblia, muitos católicos, da mesma forma que os seculares, preferem soluções psicológicas ao seu sofrimento pessoal.

O RICA é um exemplo clássico da psicologização na Igreja, com seu formato interpessoal grupal de compartilhamento de experiências e realização de exercícios voltados ao sentir-se bem. Os participantes revelam suas alegrias e mágoas ao longo do caminho. Obstáculos no caminho são confessados e dissecados. O participante do programa tem sua própria espécie de conselheiro sob a forma de seu padrinho. Da mesma forma que um viciado necessita de um padrinho e um grupo de AA para mantê-lo sóbrio, o membro do RICA precisa de um grupo e um padrinho para mimá-lo, alimentá-lo a colheradas rumo à Igreja.

E a Igreja ainda não discerniu o quão daninhos podem ser a psicologia e os grupos? Não foram centenas de freiras, padres e seminaristas corrompidos ao frequentarem grupos nos anos 60 e 70 e não perderam muitos sua fé, renunciando às suas Santas Ordens? Grupos podem ser perigosos, pois podem levar ao controle social via doutrinação e pensamento grupal.

Sob meu ponto de vista, o principal arquiteto do RICA e outras desventuras pós-Vaticano II não possui a forma humana, não são as pessoas com frequente boa vontade, que criam e coordenam os programas. O mentor é o bom e velho demônio, Lúcifer, pois é ele quem beneficia-se quando potenciais conversos não cruzam à linha de chegada e são privados da Presença Real de Jesus – e talvez até mesmo da própria salvação. Infelizmente, pude conhecer muito bem as táticas do Maligno enquanto tentei por mais de um ano fazer meu caminho rumo à Igreja Católica sem o RICA.

Novembro de 2013

Como podem se lembrar, Deus colocou no meu coração em Novembro de 2013 que talvez eu devesse me tornar católica. Passei vários meses mergulhando nos ensinamentos católicos, indo à Missa e encontrando-me com padres e católicos devotos. Após oito meses estava convencida que a Igreja Católica era a Igreja de Jesus Cristo. Sentia-me pronta, disposta e preparada para tornar-me católica. Mas o problema era que o RICA não tinha sequer começado.

Queria fazer parte da Igreja rapidamente, pois estava convencida que este era o único caminho para a salvação. Embora não estivesse planejando morrer a qualquer momento em breve, a verdade é que não sou nenhuma flor de primavera. Mas havia outra razão para o meu desespero, eu estava sendo atacada por espíritos demoníacos fazendo hora extra para garantir que eu jamais me tornasse católica.

Eles plantavam continuamente dúvida e desconfiança em minha mente sobre a Igreja Católica. Jamais havia passado por algo assim no mundo protestante, onde o Inimigo mal levantava sua cabeça, muito menos mostrava seus dentes. Mas tão logo comecei a me tornar católica, havia um exército de espíritos negros me atormentando, que acredito terem muito a ver com minha ancestralidade judaica.

Servi de piada, “Você jamais se encaixará lá sendo judia. Você é diferente demais”; fui tentada, “Veja, eles não querem você lá, você não é bem vinda”; desencorajada, “Você está perdendo o seu tempo. Não pode confiar em nenhum deles”. Mas o Maligno foi além, aterrorizando-me com o medo de que eu estava traindo os meus ancestrais. Tinha pensamentos petrificantes, onde Deus me punia com o fogo eterno no Inferno. Era como se o mundo demoníaco inteiro estivesse lançando um ataque frontal completo.

O Inimigo conhecia meus pontos fracos, os medos que me foram plantados desde a infância sobre o Cristianismo. Não existem muitos pecados no Judaísmo moderno: aborto, promiscuidade, experimentação com drogas – nenhum é encorajado, mas não é a pior coisa no mundo. A pior coisa? A pior coisa é tornar-se católico. Então, entre minha programação de infância e os demônios que atormentavam-me, sabia que não tinha condições de tolerar mais nove meses de espera e incerteza.

Pressentia isso, mas não podia fazer muito sobre o assunto. Expus tanto a um padre quanto ao pároco de minha igreja, mas nenhum deles estava disposto a realizar uma catequese individual. Então, tomada de espírito esportivo, fui à primeira reunião do RICA em minha paróquia no mês de Julho.

A experiência foi tão insuportável quanto eu havia imaginado. Era tarde da noite, quando já estava exausta. Embora os membros do grupo fossem agradáveis, nenhum deles era cristão devoto e eu tinha preocupações que minha recém conquistada fé fosse abalada passando meses com pessoas majoritariamente descrentes. Olhando o currículo – que, como a maioria dos cursos, começava com o menor denominador comum – me senti deprimida. Após muita oração, percebi que tinha de encontrar um caminho alternativo rumo à Igreja.

Elaborei um e-mail proveniente do fundo do meu coração para o padre encarregado da catequese em minha igreja. Comovida, compartilhei meu amor por Cristo e Sua Igreja. Lembrei ao padre de minha fiel assiduidade à igreja e que após meses de presença regular havia me tornado outra fiel constante na igreja. Expliquei que a incerteza estava me deixando aberta a um feroz ataque espiritual e que me seria de grande ajuda ter um plano para o meu ingresso na Igreja, especialmente em um tempo em breve. Esperei ansiosamente por sua resposta. Uma semana depois não havia nada.

Tentei aproximar-me dele na igreja, mas ele parecia me evitar. Uma mensagem deixada em sua secretária eletrônica não foi respondida. Neste momento estava além do ponto de ruptura, sob tanta pressão que escrevi a ele novamente, mas dessa vez copiei a mensagem aos dois coordenadores leigos do RICA. Dessa vez o padre respondeu, embora sem compromissos firmados.

Sentindo que não estava indo a lugar algum em minha igreja, a qual chamarei de igreja 1, decidi contatar algumas outras paróquias locais. Telefonei para outra igreja, a igreja 2, e consegui falar com o padre. Compartilhei novamente minha profunda paixão pela Igreja e meu desejo de me juntar a ela o mais cedo possível. O padre me informou que não havia nada que ele pudesse fazer, que eu deveria falar com o pároco, mas ele recém havia partido em prolongadas férias.

Ainda não estava pronta para jogar a toalha, então contatei outra igreja local, a igreja 3. Fui direto ao ponto e marquei um horário com o pároco. Nessa altura já havia me armado com algumas poderosas informações novas – um pequeno e obscuro segredo sobre o RICA –, de que a forma como ele é coordenado pode ser uma violação à Lei Canônica. De acordo coma Lei, o programa é destinado apenas aos não batizados. Católicos batizados e protestantes devem ser trazidos à Igreja o mais rápido possível e sem complicações indevidas. E mesmo assim isso não está sendo feito e, na realidade, a maior parte das pessoas no RICA é composta de católicos batizados e protestantes.

O pároco na igreja 3 foi simpático ao meu pedido. Ele reconheceu que pessoas como eu, protestantes batizados e devotos, deveriam ser recebidos na Igreja sem o RICA. Contudo, ele não estava disposto a envolver-se na questão, pois eu já havia começado o processo na igreja 1. Ele se ofereceu para contatá-los e fazer alguma pressão sobre o padre, mas dado que este já estava aos nervos comigo, achei que isso não seria um movimento político sábio.

Havia uma outra igreja local, a igreja 4, mas decidi não tentar naquela. Ao mesmo tempo, minha amiga Mary estava lá tentando tornar-se católica sem o RICA e enfrentava os mesmos impedimentos que eu. Sendo uma pessoa tímida e quieta por natureza, ela foi a uma reunião do RICA e jamais retornou, dizendo que era “como uma cruel reunião de fraternidade estudantil”. Ela resignou-se em ir às Missas, mas jamais estando em plena Comunhão com a Igreja. Ao ver a angústia na face de minha querida amiga, me tornei mais determinada a encontrar meu caminho para a Igreja e, assim, ajudar Mary a também ser recebida.

Eu tinha uma ideia final: enviaria um e-mail a um afável padre na igreja 1 que ocasionalmente celebra a Missa lá, embora na maior parte do tempo ele ministre aulas para a Diocese. Novamente expus a ele meu amor por Cristo e Sua verdadeira Igreja e o sofrimento da espera. Poderia ele ajudar a tornar-me católica?

O padre respondeu rapidamente e parabenizou-me entusiasticamente por buscar o catolicismo. Mas infelizmente me pediu desculpas, pois seu cronograma demandava tanto que ele não tinha tempo para encontrar-se comigo neste ano, embora me desejasse bem.

Outra rejeição era mais do que eu podia suportar. Nessa altura eu estava já sofrendo de uma grande vulnerabilidade. Não era fácil permanecer pedindo ajuda apenas para ser continuamente negada. Infelizmente, descarreguei minhas frustrações nele.

Disse a ele que estava sendo passada para trás por todo mundo, pois todos estavam ocupados demais fazendo alguma outra coisa, não podendo ajudar uma protestante desesperada em luta para se tornar católica. Desafiei a ele: ou a Igreja Católica é a verdadeira fonte de salvação e seus padres devem mover céu e terra para levar suas ovelhas rumo a ela, ou não era o único veículo para a salvação. Nesse caso, não havia pressa para que eu me convertesse ou mesmo que alguém me ajudasse. Não poderiam ser ambos ao mesmo tempo. Qual era a verdade?

Não houve resposta. Após alguns dias, me sentindo mal por ter descarregado toda minha indignação nele, enviei um e-mail pedindo perdão. Ele graciosamente aceitou minhas desculpas, embora ainda não houvesse oferta de ajuda.

Sem nenhuma outra ideia, estava no ponto mais baixo de uma jornada já repleta de percalços. Não sabia mais o que fazer. Nesse momento já estava cheia de constantes dúvidas e desconfianças referentes aos católicos e à Igreja. Não sabia se isso se devia a uma guerra espiritual sendo travada contra mim ou ao Espírito Santo fazendo com que eu retornasse à minha antiga igreja protestante.

Caí de joelhos e realizei a oração mais fervente de toda a minha vida. Enquanto soluçava, implorei a Cristo que revelasse a mim o que Ele queria que eu fizesse. Após vários minutos de oração, um abençoada calma varreu-me. Pela primeira vez desde que comecei a busca para tornar-me católica, senti-me em paz. Sentia que Jesus dizia a mim, “Você é minha filha amada. Não se preocupe, você passará a eternidade comigo”. Senti-me enormemente grata por este momento de graça.

Dez Meses

Já era agora Setembro, 10 meses desde o começo de minha exploração do catolicismo. Fiz uma boa amiga na igreja 1, que estava determinada a me ajudar a tornar-me católica. Em meu nome ela tomou o padre e compartilhou sua grande preocupação em deixar-me sozinha durante esse processo. Na Missa do Domingo seguinte, o padre surpreendeu-me oferecendo um encontro somente entre nós dois, mas havia uma condição. Eu tinha de passar pelo primeiro rito, o Rito de Boas Vindas, que aconteceria em duas de semanas. Relutantemente concordei.

Minha intuição dizia que estar lá com meu padrinho em frente à paróquia inteira, enquanto era analisada de cima a baixo, da cabeça aos pés, me tornaria sujeita a ferozes ataques espirituais. Eu estava certa. Não consegui dormir na noite anterior, sentia-me fraca nos joelhos e quase desmaiei durante a cerimônia. O nível de exposição pública sem ter ainda um plano para quando ou como eu seria recebida deu ao Inimigo liberdade para atormentar-me sem piedade. Mas eu mantive minha parte da barganha e então tive meu primeiro encontro com o padre.

Gostaria de dizer que tudo ocorreu bem e que felizmente ele logo após me guiou para a Igreja, mas esse infelizmente não foi o caso. Seu plano era que eu seguisse o mesmo currículo que os outros participantes do RICA pelos próximos sete meses, começando desde o começo, com um vídeo chamado “Quem foi Jesus?”. Também teria que participar dos outros ritos e rituais.

Neste ponto, meses de nervosismo vieram à tona e eu perdi minha calma. Raivosamente disse a ele que não precisava começar do começo, que já havia pesquisado intensamente a Igreja por quase um ano e tinha ido a mais Missas do que podia já contar. Rispidamente disse a ele que nunca em toda a minha vida tinha sido tão tratada como uma idiota quanto em meu ano no mundo católico, que ninguém parecia acreditar que eu realmente soubesse o que era melhor para mim – que era tornar-me católica o mais rápido possível.

O padre também ficou nervoso. Claramente dez meses de tensão tinham tomado seu custo a ambos: ele lidando com uma pároca que não queria jogar pelas regras do RICA e eu, pronta, disposta e capaz de tornar-me católica, mas não encontrando porta alguma aberta. Ao fim de nosso encontro, pedi desculpas por minha explosão. Ele também pediu desculpas a mim. Partimos em bases amigáveis, embora eu tenha recusado sua oferta de continuar o encontro.

Novembro de 2014

Era agora Novembro de 2014, começo do Advento. Também fazia um ano desde que Deus tinha posto em meu coração que talvez eu devesse tornar-me católica. Estava já desgastada e abatida por tudo. Embora tentasse não tomar todas as rejeições de forma pessoal, sentia-me emocionalmente quebrada e ferida. E eu estava sozinha. Sentia falta do companheirismo e senso de pertença em minha antiga igreja protestante.

Foi então que tomei a mais triste decisão de toda a minha vida. Era tempo de voltar ao mundo protestante.

Pela primeira vez em um ano de Missas, não dirigi meu carro rumo à Igreja Católica em um domingo. Ao invés disso, fui à minha antiga igreja. Os frequentadores estavam felizes em me ver, embora surpresos. E vi algo a mais em suas faces: eles estavam feridos, sentindo-se abandonados por eu ter rejeitado sua bondade e amizade tendo-os deixado. Claramente eu não era a única que tinha sido ferida neste processo.

Sentei em um banco e olhei ao redor de minha antiga igreja, que já havia conhecido tão bem. O ambiente não parecia familiar, era estranho. O que me espantou mais foi a ausência: a ausência do Crucifixo, da Procissão, dos padres – mas, mais do que tudo, a ausência do Santíssimo Sacramento. Senti uma angustiante dor em meu estômago por conta do profundo vazio. Tinha passado a vida inteira buscando por Algo, por Alguém e eu havia finalmente encontrado Ele em Sua verdadeira Igreja. Mas agora eu estava no risco de perdê-Lo novamente.

Percebi que eu tinha de fazer uma escolha: protestante ou católica. Não podia ter os dois. Mas já não era mais protestante, havia deixado isso para trás há algum tempo. Apesar de meu status dentro da Igreja, no mais profundo do meu coração eu era católica.

Antes do fim do culto, recolhi meus pertences e levantei-me. Dei adeus a algumas pessoas e então quietamente saí, triste, como um jovem adulto deixando uma família que já não é mais dele. Eu sabia que provavelmente jamais veria estas pessoas novamente.

Na Missa do Domingo seguinte, pensei em uma opção final. Se isso não funcionasse, me resignaria a continuar assistindo à Missa, sem jamais tornar-me católica. (Tinha a esperança de que o ensinamento católico sobre o Batismo de Desejo fosse o suficiente para que eu pudesse ir para o céu).

Minha ideia? Contatar a igreja 2 e ver se o pároco que estava em férias prolongadas já havia retornado. Liguei para lá e descobri que sim.

Encontrei com ele pouco tempo depois. Foi então que os céus se abriram para mim. Pela décima vez recontei meu intenso e profundo desejo em receber os Sacramentos na verdadeira Igreja de Cristo. O pároco escutava atento. Finalmente ele disse, “Jamais vi alguém mais sedento pelos Sacramentos que você. Tinha já ouvido falar de pessoas como você, mas jamais havia visto algo assim”. E, pela primeira vez, alguém havia dito isso como se fosse uma coisa boa.

Ele consideraria trazer-me para a Igreja antes de Abril, mas havia um porém, eu teria de atender às classes do RICA em sua igreja. Concordei.

As aulas eram bem menos rigorosas do que o outro programa – apenas uma hora após a Missa, sem aulas à noite, visitas de campo ou tarefas para casa. A maior parte dos membros do grupo era composto de católicos fiéis que estavam lá pelo senso de comunidade, e eles me inspiraram com seu amor pela fé.

Depois de algumas semanas no meu novo programa RICA, estava gostando do companheirismo, mas espantou-me um dia o fato de não estar mais próxima a tornar-me católica do que há um ano atrás. Agora relegada a uma terra espiritual de ninguém – não mais protestante, mas não ainda católica – os espíritos negros aproveitavam-se para me perseguir. Foi na manhã de uma aula do programa que tive o pesadelo de estar presa no telhado sem ninguém para me resgatar e acordei soluçando.

Na aula daquele dia os portões se abriram e comecei a chorar incontrolavelmente. Contei a eles sobre o sonho, sobre meus 13 meses tentando encontrar alguém que pudesse me ajudar a entrar na Igreja. Expliquei o desespero para ter meus pecados perdoados pela Confissão e receber o Santíssimo Sacramento. Quando terminei, todos me encaravam paralisados em silêncio.

Após o fim da aula, o coordenador do RICA me chamou em um canto. Ele me disse que sua opinião era que eu já estava preparada para tornar-me católica e que iria escrever ao pároco e recomendaria que fosse recebida na Igreja o mais cedo possível. Dei um abraço de gratidão a ele. Deus tinha mandado alguém para me resgatar.

Após alguns dias me encontrei com o pároco, que me perguntou algo que me estarreceu, “Quando você gostaria de ser recebida na Igreja?” Ele até mesmo ofereceu-se para celebrar uma Missa privada especialmente para mim. Escolhemos uma data (embora o pároco precisasse da permissão do Bispo, outro entrave burocrático que me deixou com comichões por várias semanas). Ele também agendou comigo um horário para minha primeira Confissão.

A Noite Anterior

Na noite anterior à Confissão deitei em minha cama de olhos bem abertos, incapaz de adormecer. Sentia algo que jamais havia sentido antes, não era alegria ou felicidade – mas algo muito além disso. Sentia-me abençoada. Meu corpo abençoadamente arrepiava-se na perspectiva de receber meu primeiro Sacramento Católico. Não apenas eu seria absolvida dos pecados que carreguei comigo por anos, mas uma vez que tivesse meu primeiro Sacramento “eles” não conseguiriam me manter de fora. Fossem as regras burocráticas que me impediam, ou os demônios que me praguejavam.

Fui recebida na Igreja Católica no começo de 2015, o que foi a experiência mais incrível de toda a minha vida. O pároco a personalizou, falando sobre meu amor por Jesus e pela Igreja. Ele celebrou uma Missa inteira, embora estivessem apenas algumas pessoas lá.

Infelizmente nenhum de meus amigos protestantes que havia convidado veio. Sabia que não era nada pessoal, mas por conta de suas concepções erradas do Catolicismo eles não podiam apoiar minha conversão. Eles fizeram sua escolha e eu fiz a minha.

Enquanto escrevo isso, outra rodada de classes do RICA começa nas igrejas ao redor do país. Minha alegria em finalmente ter tornado-me católica é marcada pela tristeza por aquilo que tive de passar, daquilo que a Igreja faz as pessoas passarem para estarem em plena Comunhão com Nosso Senhor.

Como muitos fiascos pós Vaticano II, o RICA precisa acabar. A Igreja precisa voltar à sua obrigação de fazer rapidamente discípulos de todas as nações.

Se não o fizer, o Corpo de Cristo continuará a diminuir e muitas pessoas que necessitam de Jesus e de nossa fé cairão por entre as rachaduras. Isto será uma péssima notícia para a Igreja Católica, mas serão ótimas notícias para as ergonômicas igrejas evangélicas e pentecostais que espalham-se como fogo selvagem pelo mundo afora. O que estes protestantes sabem – e que muitos católicos tragicamente se esqueceram – é que trazer pessoas a Cristo é o motivo de estarmos aqui. E os protestantes entendem que, ao fazê-lo, a alma eterna que estão salvando é também a sua.

“Laura Evans” é um pseudônimo. Ela foi recebida na Igreja Católica no começo de 2015. Pouco tempo depois ajudou sua amiga Mary a ser também recebida na Igreja como ela, sem o RICA. Ambas são mulheres católicas devotas e fiéis, que frequentam às Missas todo Domingo. Laura gostaria de expressar sua profunda gratidão a Mike Jones por seu incontável apoio durante sua longa e turbulenta jornada rumo à Igreja Católica. “Obrigado Mike. Não conseguiria ter passado por isso sem você.”

Este artigo está presente na edição de Dezembro de 2015 da revista Culture Wars.

[1] Degenerate Moderns. E. Michael Jones é um historiador católico americano, autor de mais de uma dezena de livros sobre a história da Igreja, política e cultura. É também editor da publicação “Culture Wars” [Guerras Culturais], onde este artigo está presente.

[2] “Católicos de cafeteria” são aqueles que discordam convenientemente dos ensinamentos morais da Igreja quando lhes convêm.

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