Posts tagged ‘Igreja’

20 setembro, 2016

Divulgação: Rodolfo Khristianós – Artista Sacro.

Natural de Jacareí-SP, desde criança faz trabalhos artísticos. Fez vários cursos de Arte: como o desenho artístico, publicidade e propaganda, introdução à arte gráfica, curso de história em quadrinhos e construção de personagens, Desenho realista e caricaturas. Desde 2001 participa da elaboração e confecção de tapetes artísticos para a Festa de Corpus Christi nas várias Paróquias de sua cidade.

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Em 2008 foi curador da exposição do artista peruano Wilber Flores sobre “Arte Cusquenha” na Paróquia Imaculada Conceição em Jacareí-SP. No ano de 2009 iniciou seus estudos sobre museologia e aplicações do processo de inventário, conservação e restauro. Em 2011 termina a Licenciatura em Artes Visuais e começa a se dedicar a restauração de imagens e peças de gesso e também de gravuras sacras. Constrói, então, o blog: khristianós.blogspot.com, para a divulgação de seu trabalho artístico e sacro, pesquisas sobre patrimônio cultural e sacro, sobre conservação e restauro e divulgação de apresentações e demais eventos culturais relacionados a Arte Sacra.

Participou de várias exposições coletivas nacionais, sendo a última no Santuário Nacional de Aparecida em 2015.

Participou dos Seminários Internacionais de Patrimônio Sacro (2013 e 2015) organizados pela Faculdade São Bento de São Paulo, e pelas faculdades de Arquitetura e Urbanismo da USP e Instituto de Artes da UNESP. Além dos vários Seminários de Arte Sacra do Mosteiro São Bento da Bahia.

No ano de 2014, fez parte do projeto de Inventário e catalogação de peças sacras em vários Museus do Vale do Paraíba, organizado pela Rede de Museus do SISEM e do Museu de Arte Sacra de São Paulo. Liderou a equipe de inventário do Museu Padre Rodolfo Komórek em São José dos Campos-SP.

Hoje faz curadoria da Galeria de Arte Casario no centro de Jacareí-SP, e ainda se dedica a desenhos sacros e realistas.

Contato:

(12) 98123-1794

rodolfokhristianos@gmail.com

khristianos.blogspot.com

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Todo anúncio veiculado em FratresInUnum.com é absolutamente gratuito, visando apenas o bem das almas e a glória de Deus. Caso queira divulgar algo, nosso e-mail de contato é fratresinunum@gmail.com

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17 setembro, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: O amor de Deus, motivo dominante do culto ao Santíssimo Coração de Jesus, no Antigo Testamento.

“Mas Sião disse: O Senhor abandonou-me e esqueceu-se de mim. Pode, acaso, uma mulher esquecer o seu pequenino de sorte que não se apiede do filho de suas entranhas? Ainda que esta se esquecesse, eu não me esquecerei de ti”  (Isaías 49, 14-15).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

12. Para melhor poder compreender a força que com relação a esta devoção encerram alguns textos do Antigo e do Novo Testamento, é preciso entender bem o motivo pelo qual a Igreja tributa ao coração do divino Redentor o culto de latria. Duplo, veneráveis irmãos, como bem sabeis, é tal motivo: o primeiro, que é comum também aos demais membros adoráveis do corpo de Jesus Cristo, funda-se no fato de, sendo o seu coração parte nobilíssima da natureza humana, estar unido hipostaticamente à pessoa do Verbo de Deus, e, portanto, dever-se-lhe tributar o mesmo culto de adoração com que a Igreja honra a pessoa do próprio Filho de Deus encarnado. Trata-se, pois, de uma verdade de fé católica, solenemente definida no concílio ecumênico de Éfeso e no II de Constantinopla.(5) O outro motivo concerne de maneira especial ao coração do divino Redentor, e, pela mesma razão, confere-lhe um título inteiramente próprio para receber o culto de latria. Provém ele de que, mais do que qualquer outro membro do seu corpo, o seu coração é o índice natural ou o símbolo da sua imensa caridade para com o gênero humano. Como observava o nosso predecessor Leão XIII, de imortal memória, “é ínsita no sagrado coração a qualidade de ser símbolo e imagem expressiva da infinita caridade de Jesus Cristo que nos incita a retribuir-lhe o amor por amor”.(6)

13. Coisa indubitável é que nos livros sagrados nunca se faz menção certa de um culto de especial veneração e amor tributado ao coração físico do Verbo encarnado pela sua prerrogativa de símbolo da sua inflamadíssima caridade. Mas este fato, que cumpre reconhecer abertamente, não nos deve admirar, nem de modo algum fazer-nos duvidar de que a caridade divina para conosco – razão principal deste culto – é exaltada tanto pelo Antigo como pelo Novo Testamento com imagens sumamente comovedoras. E, por se encontrarem nos livros santos que prediziam a vinda do Filho de Deus feito homem, podem essas imagens considerar-se como um presságio daquilo que havia de ser o símbolo e índice mais nobre do amor divino, a saber: o coração sacratíssimo e adorável do Redentor divino.

14. Pelo que se refere ao nosso propósito, não julgamos necessário aduzir muitos textos do Antigo Testamento nos quais estão contidas as primeiras verdades reveladas por Deus, mas cremos bastará recordar o pacto estabelecido entre Deus e o povo eleito, pacto sancionado com vítimas pacíficas – e cujas leis fundamentais, esculpidas em duas tábuas, Moisés promulgou (cf. Ex 34, 27-28) e os profetas interpretaram -, esse pacto não se baseava somente nos vínculos do supremo domínio de Deus e na devida obediência da parte do homem, mas consolidava-se e vivificava-se com os mais nobres motivos do amor. Porque também para o povo de Israel a razão suprema de obedecer a Deus, devia ser não tanto o temor das divinas vinganças suscitado nos ânimos pelos trovões e relâmpagos procedentes do ardente cume do Sinai, mas, antes, o amor devido a Deus: “Escuta, Israel: O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. E estas palavras que hoje te ordeno estarão sobre o teu coração” (Dt 6, 4-6).

15. Não nos deve, pois, causar estranheza que Moisés e os profetas, aos quais o Doutor angélico chama com razão os “maiorais” do povo eleito,(7) compreendendo bem que o fundamento de toda a lei se baseava neste mandamento do amor, descrevessem as relações todas existentes entre Deus e a sua nação, recorrendo a semelhanças tiradas do amor recíproco entre pai e filhos, ou do amor dos esposos, em vez de representá-las com imagens severas inspiradas no supremo domínio de Deus ou na nossa devida servidão cheia de temor. Assim, por exemplo, no seu celebérrimo cântico pela libertação do seu povo da servidão do Egito, ao querer exprimir como essa libertação era devida à intervenção onipotente de Deus, o próprio Moisés recorre a estas comovedoras expressões e imagens: “Assim como a águia provoca seus filhotes a alçarem o vôo e acima deles revoluteia, assim também (Deus) estendeu as suas asas e acolheu (Israel) e carregou-o nos seus ombros” (Dt 32, 11). Talvez, porém, entre os profetas, nenhum exprima e descubra melhor, tão clara e ardentemente, quanto Oséias, o amor constante de Deus para com seu povo. Com efeito, nos escritos deste profeta, que entre os profetas menores sobressai pela profundeza de conceitos e pela concisão da linguagem, Deus é descrito amando o seu povo escolhido com um amor justo e cheio de santa solicitude, qual é o amor de um pai cheio de misericórdia e de amor, ou de um esposo ferido na sua honra. É um amor que, longe de decair e de cessar à vista de monstruosas infidelidades e pérfidas traições, castiga-os, sim, como eles merecem, mas não para os repudiar e os abandonar a si mesmos, mas só com o fim de limpar, de purificar a esposa afastada e infiel e os filhos ingratos, para tornar a uni-los novamente consigo uma vez renovados e confirmados os vínculos de amor: “Quando Israel era criança amei-o; e do Egito chamei meu filho… Ensinei Efraim a andar, tomei-o nos meus braços, mas eles não reconheceram que eu cuidava deles. Com vínculos humanos atraí-los-ei, com laços de amor… Sanar-lhes-ei as rebeldias, amá-los-ei generosamente, pois minha ira não se afastou deles. Serei como o orvalho para Israel, ele florescerá como o lírio e lançará suas raízes qual o Líbano” (Os 11, 1.3-4; 14, 5-6).

16. Expressões semelhantes tem o profeta Isaías quando apresenta o próprio Deus e o povo escolhido como que dialogando entre si com estas palavras: “Mas Sião disse: O Senhor abandonou-me e esqueceu-se de mim. Pode, acaso, uma mulher esquecer o seu pequenino de sorte que não se apiede do filho de suas entranhas? Ainda que esta se esquecesse, eu não me esquecerei de ti” (Is 49, 14-15). Nem menos comovedoras são as palavras com que, servindo-se do simbolismo do amor conjugal, o autor do Cântico dos cânticos descreve com vivas cores os laços de amor mútuo que unem entre si, Deus e a nação predileta: “Como lírio entre os espinhos, assim é minha amada entre as donzelas… Eu sou de meu amado e meu amado é meu: o que se apascenta entre os lírios… Põe-me como selo sobre teu coração, como selo sobre teu braço, pois forte como a morte é o amor, duros como o inferno os ciúmes: seus ardores são ardores de fogo e de chamas” (Ct 2, 2; 6, 2; 8, 6).

17. Com todo esse amor, terníssimo, indulgente e longânime mesmo quando se indigna pelas repetidas infidelidades do povo de Israel, Deus nunca chega a repudiá-lo definitivamente; mostra-se, sim, veemente e sublime; mas, contudo, em substância isso não passa do prelúdio daquela inflamadíssima caridade que o Redentor prometido havia de mostrar a todos com o seu amantíssimo coração, e que ia ser o modelo do nosso amor e a pedra angular da nova aliança. Porque, em verdade, só aquele que é o Unigênito do Pai e o Verbo feito carne “cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14), tendo descido até os homens oprimidos de inúmeros pecados e misérias, podia fazer brotar da sua natureza humana, unida hipostaticamente à sua pessoa divina, “um manancial de água viva” que regasse copiosamente a terra árida da humanidade, transformando-a em florido e fértil jardim. E essa obra admirável que o amor misericordioso e eterno de Deus devia realizar, de certo modo já parece prenunciá-la o profeta Jeremias com estas palavras: “Amei-te com amor eterno; por isso atrai-te a mim cheio de misericórdia… Eis vêm dias, afirma o Senhor, em que pactuarei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova: este será o pacto que eu concertarei com a casa de Israel depois daqueles dias, declara o Senhor: Porei minha lei no interior dele e escrevê-la-ei no seu coração, e serei o seu Deus e eles serão o meu povo…; porque perdoarei a sua culpa e não mais me lembrarei dos seus pecados” (Jr 31, 3.31. 33-4).

[Enc. “AURIETIS AQUAS” de Pio XII].

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16 setembro, 2016

Lutero, um Maquiavel da fé.

Por Francesco Agnoli, La Nuova Bussola Quotidiana, 18 de agosto de 2016 | Tradução: FratresInUnum.comPor ocasião do quinto centenário da revolução de Martinho Lutero, o confronto entre os cardeais alemães já vem se desenvolvendo por um bom tempo: por um lado, o Cardeais Kasper e Marx, que se declaram abertamente admiradores de Lutero e, do outro, os cardeais Mueller, Brandmüller e Cordes, que se encontram, por sua vez, na esteira do pensamento católico, vendo em Lutero o homem que desfigurou o Evangelho e despedaçou a Igreja, dividindo assim o Cristianismo e a Europa.

O casamento de Lutero.

O casamento de Lutero.

Não se trata, porém, de um debate teológico de alto nível, mas, no entanto, há implicações no que diz respeito à lei natural e ao modo como é concebido o matrimônio cristão. Kasper e Marx estão buscando, já há alguns anos e principalmente após a abdicação de Bento XVI, limitar a condenação do adultério e legitimar, mais ou menos abertamente, o segundo casamento, com aberturas graduais também ao casamento gay. O que tudo isso tem a ver com Lutero?

Talvez até mais do que se imagina. Em primeiro lugar, a respeito da doutrina, porque ele nega o caráter de sacramento do matrimônio e o submete à jurisdição secular, ou seja, ao poder do soberano e dos Estados. Esta concepção dessacraliza o casamento e o priva de seu tradicional significado sobrenatural.

No âmbito dos fatos, a primeira coisa que devemos recordar é o casamento do Lutero com uma ex-freira cisterciense, Catherine von Bora, com quem teve seis filhos. Os dois passaram então a residir no antigo convento agostiniano de Wittenberg, doado a eles pelo príncipe eleitor da Saxônia (o qual por sua vez, deve a Lutero o fato de ter usurpado os bens da Igreja Católica em suas terras). Lutero e Catherine tornaram-se, assim, um modelo para que, através do seu exemplo, os reformadores “operassem várias vezes, muitas vezes em grupos inteiros, para arrancar freiras de seus claustros e fazer delas suas esposas.” Depois de um rapto de religiosas ocorrido na noite do Sábado Santo de 1523, Lutero definiu o organizador do sequestro como um “feliz ladrão ” e felicitou-o por ter “liberado essas pobres almas do cativeiro” (ver Jacques Maritain, I tre riformatori. Lutero. Cartesio. Rousseau, Morcelliana, Brescia, 1990, p. 215). Estes foram os anos em que muitas religiosas alemãs foram obrigadas a deixar seus mosteiros, muitas vezes contra a própria vontade, para regressar às suas casas ou para se casar.

O segundo fato a ser lembrado é o seguinte: Lutero, para não perder o apoio do landegrave Filipe de Hesse, “um dos dois pilares políticos em que se apoiava o luteranismo”, permitiu que ele se casasse com sua segunda esposa, uma empregada de dezessete anos, Margarete von Saale. Filipe já tinha uma esposa, Cristina da Saxônia, com quem teve sete filhos. Estamos em 1539. Lutero não queria escândalos barulhentos, não quer ter que justificar publicamente uma bigamia, mas teve que concordar com as exigências de Filipe, um libertino inveterado, que sofria de sífilis, mas acabou concedendo porque era “necessário preservar a integridade da força militar da reforma.”

Então, ele decide agir com astúcia: esperando que ninguém venha a saber, secretamente comunica a Filipe que o seu casamento suplementar poderia ser determinado por uma “necessidade de consciência”. Em outras palavras: tudo bem com a bigamia, desde que ela não seja pública. Assim escreveram Lutero e Melanchthon: “Se, então, a Vossa Alteza é definitivamente determinada a tomar uma segunda esposa, nossa opinião é que isso deve permanecer em segredo.” Mas uma vez realizado o casamento, Filipe envia a Lutero, que era chegado em comidas e bebidas caras e imponentes, “uma garrafa de vinho que chegou às portas de Wittenberg, quando o segredo da bigamia já havia corrido solto por obra da irmã de Filipe.”

Sentindo-se em apuros, Lutero, que irá merecer de Tommaso Campanella o título de “Machiavel da fé”, aconselha Filipe a declarar publicamente que Margarete não é sua esposa legítima, “substituindo o ato do casamento por uma outra ação em cartório, declarando Margarete apenas sua concubina”. Filipe se recusa e ainda insta Lutero a confirmar publicamente que ele mesmo havia concedido uma dispensa. Mas Lutero, que em outras ocasiões não hesitaria em propor traduções falsas de passagens bíblicas, buscando legitimar suas razões, respondeu que seu conselho era um segredo, “e que agora tornou-se nulo e sem efeito, porque tinha se tornado público” (Federico A. Rossi di Marignano, Martin Lutero e Caterina von Bora, Ancora, Milano, 2013, p. 343-347; Angela Pellicciari, Martin Lutero, Cantagalli, Siena, 2013, p. 109-113)..

Alguns anos antes destes acontecimentos, em 1531, Lutero, em uma de suas muitas cartas em que procurava o favor dos poderosos, escreveu a Henrique VIII, rei da Inglaterra dizendo que sim, o casamento é indissolúvel, mas… com a permissão da Rainha poderia se casar com uma segunda mulher, como no Antigo Testamento. Como sabemos, Henrique VIII resolveu pedir dispensa não a Lutero, mas ao papa de Roma, e como não a obteve, tomou pra si próprio a questão, proclamou o cisma com Roma, e, no final, de repúdio em repúdio “em consciência”, chegará ao notável número de 6 esposas (algumas das quais mandou matar sem escrúpulos).

Se o efeito evidente da revolução de Lutero, com relação ao casamento, foi o pretexto que achou para ele mesmo arrancar a batina e para os príncipes poderem repudiar suas legítimas esposas e viver na poligamia, é óbvio que no plano da doutrina tudo estava destinado a mudar gradualmente. Devemos sempre ter em conta um fato: Lutero procura constantemente na nobreza alemã seu principal interlocutor, ele precisa vencer sua luta contra Roma. E a nobreza alemã, como a de outros países, estava lutando contra a Igreja não só por questões políticas de poder, mas também sobre a doutrina do casamento: muitas vezes os nobres não aceitavam a indissolubilidade do casamento, nem as restrições impostas por Roma (proibição de casamentos combinados, casamentos consanguíneos … etc).

Além disso, por razões ligadas às suas nobres condições sociais ou hereditárias, os nobres reivindicavam, mais do que outros, o direito dos pais de dar ou recusar o consentimento aos noivos, enquanto a Igreja Romana, ao contrário, reconhece apenas o consentimento mútuo dos noivos como os únicos ministros do Sacramento, com o direito de decidir sobre seu casamento. Lutero e os reformadores respondem então a estas “necessidades” dos nobres, e muito mais. Antes de mais nada, criticando a indissolubilidade absoluta.

Lutero reconhece, assim, pelo menos quatro razões para o divórcio: adultério, impotência ocorrida durante o casamento (enquanto na Igreja Católica a impotência é causa antecedente de nulidade), a “deserção maliciosa” e a obstinação tenaz do cônjuge em recusar a relação conjugal (com relação a esse caso, chega ao ponto de escrever: “Se a mulher negligencia seu dever, a autoridade temporal deve obrigá-la ou condená-la à morte”).

Inevitável que as aberturas de Lutero acabariam por gerar outras, como as dos anabatistas, favoráveis à poligamia, ou aquelas de seu discípulo M. Butzer, segundo o qual Cristo jamais teria abolido o repúdio, e que caberia às autoridades políticas legislar sem limites nem condições com relação ao divórcio. Além disso, Lutero e os reformadores insistem, com diferentes tons, sobre a adequação do consentimento dos pais, repreendendo a Igreja por reduzir essa importância, e ainda se esforçam para reduzir os impedimentos de consanguinidade (Jean Gaudemet, Il matrimonio in Occidente, Sei, Torino, 1996, p. 207-2012).

A Igreja Católica, por sua parte, com o Concílio de Trento, examinará minuciosamente as posições de Lutero, confirmando de uma vez por todas o caráter sacramental do matrimônio e sua indissolubilidade, negando a legitimidade do divórcio luterano, insistindo, apesar da pressão do nobreza francesa, que o consentimento dos pais, embora desejável, não é vinculante, e condenando a posição luterana segundo a qual é impossível viver em castidade. A posição expressa pelo Concílio de Trento será reafirmada pela Igreja e pelos papas por 500 anos, sem alterações.

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10 setembro, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Estima e favor dado pelos sumos pontífices ao culto do sagrado coração de Jesus

“Àquele que é poderoso para fazer, acima de toda medida, com incomparável excesso, mais do que o que pedimos ou pensamos, segundo o poder que desenvolve em nós a sua energia, a Ele glória na Igreja e em  Cristo Jesus por todas as gerações, nos séculos dos séculos, Amém” (Ef 3, 20 s).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

  1. “Quem não vê, veneráveis irmãos, quão alheias são estas opiniões do sentir dos Nossos Predecessores, que desta cátedra de Verdade publicamente aprovaram o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus? [Opiniões expostas no artigo anterior]. Quem ousará chamar inútil ou menos acomodada aos nossos tempos esta devoção que o Nosso Predecessor de imperecível memória Leão XIII chamou de “estimadíssima prática religiosa”, e na qual viu um poderoso remédio para os próprios males que, nos nossos dias de maneira mais aguda e com mais extensão, afligem os indivíduos e a sociedade? “Esta devoção, – dizia ele – que a todos recomendamos, a todos será de proveito”. E, acrescentava estes avisos e exortações que também se referem à devoção ao Sagrado Coração: “Daí a violência dos males que, há tempo, estão como que implantados entre nós, e que reclamam urgentemente busquemos a ajuda do único que tem poder para os afastar. E quem pode ser este senão Jesus Cristo, o unigênito de Deus? “Pois nenhum outro nome foi dado aos homens sob o céu no qual devamos salvar-nos” (At 4, 12). “Cumpre recorrer a Ele, que é caminho, verdade e vida” (Enc. “Annum Sacrum”, 25 de maio 1889; Acta Leonis, Vol, 19, 1900, pp. 71, 77-78).
  2. Nem menos dignos de aprovação e adequado para fomentar a piedade cristã julgou-o o Nosso imediato Predecessor, de feliz memória, Pio XI, que, na sua encíclica “Miserentissimus Redenctor”, escrevia: “Acaso não está contido nessa forma de devoção o compêndio de toda a religião, e mesmo a norma de vida mais perfeita, como quer que ele guie mais suavemente as almas para o profundo conhecimento de Cristo Senhor Nosso, e com maior eficácia as mova a amá-Lo mais de perto?” (Enc. “Miserentissimus Redenctor”, 8 de maio 1928; A. A. S. 20, 1928, p. 167). Nós, por nossa parte, com não menor agrado do que os nossos predecessores, aprovamos e aceitamos essa sublime verdade; e, quando fomos elevado ao sumo pontificado, ao contemplarmos o feliz e triunfal progresso do culto ao Sagrado Coração de Jesus entre o povo cristão, sentimos o nosso ânimo cheio de alegria e regozijamo-nos com os inúmeros frutos de salvação que ele havia produzido em toda a Igreja, sentimentos que tivemos a satisfação de exprimir logo na nossa primeira encíclica (Cf, Enc. “Summi Pontificatus” 20 de outubro, 1939; A. A. S. 31, 1939, p. 415). Através dos anos do nosso pontificado – cheios não só de calamidades e angústias, como também de inefáveis consolações, – esses frutos não diminuíram nem em número, nem em eficácia, nem em beleza, antes aumentaram. Com efeito, iniciativas múltiplas e muito acomodadas às necessidades dos nossos tempos surgiram para reacender este culto: referímo-nos às associações destinadas à cultura intelectual e à promoção da religião e da beneficência; às publicações de caráter histórico, ascético e místico encaminhadas a este mesmo fim; às piedosas práticas de reparação e, de modo especial, às manifestações de ardentíssima piedade que tem promovido o Apostolado da Oração, a cujo zelo e atividade se deve o se haverem famílias, colégios, instituições, e mesmo algumas nações, consagrado ao Sacratíssimo Coração de Jesus; e não raras vezes, por ocasião dessas manifestações de culto, temos expressado a nossa paternal complacência (Cf. A.A.S. 32, 1940,p. 276; 35, 1943, p. 170; 37, 1945, pp. 263-264; 40, 1948, p. 501; 41, 1949, p. 331).
  3. Portanto, ao vermos que tamanha abundância de águas, quer dizer, de dons celestiais do supremo amor, que têm brotado do Sagrado Coração do nosso Redentor, se derramam sobre incontáveis filhos da Igreja Católica por obra e inspiração do Espírito Santo, não podemos, veneráveis irmãos, deixar de exortar-vos com ânimo paterno a que, juntamente conosco, tributeis louvores e profundas ações de graças ao Dador de todos os bens, repetindo estas palavras do apóstolo das gentes: “Àquele que é poderoso para fazer, acima de toda medida, com incomparável excesso, mais do que o que pedimos ou pensamos, segundo o poder que desenvolve em nós a sua energia, a Ele glória na Igreja e em Cristo Jesus por todas as gerações, nos séculos dos séculos, Amém” (Ef 3, 20 s.). Mas, depois de tributarmos as devidas graças ao Deus eterno, queremos por meio desta encíclica exortar-vos, a vós e a todos os amadíssimos filhos da Igreja, a uma mais atenta consideração dos princípios doutrinais contidos na Bíblia, e nos Santos Padres, e nos teólogos, princípios nos quais, como em sólidos fundamentos, se apoia o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus. Porque nós estamos plenamente persuadidos de que só quando à luz da divina revelação houvermos penetrado a fundo a natureza e a essência íntima deste culto, é que poderemos apreciar devidamente a sua incomparável excelência e a sua inexaurível fecundidade em toda sorte de graças celestiais, e destarte, meditando e contemplando piedosamente os inúmeros bens que ela produz, poderemos celebrar dignamente o primeiro centenário da festa do Sacratíssimo Coração de Jesus na Igreja universal.
  4. Com o fim, pois, de oferecer à mente dos fiéis o alimento de salutares reflexões com as quais possam eles mais facilmente compreender a natureza deste culto, tirando dele frutos mais abundantes, deter-nos-emos antes de tudo nas páginas do Antigo e do Novo Testamento que contêm a revelação e descrição da caridade infinita de Deus para com o gênero humano, caridade cuja sublime grandeza jamais poderemos esquadrinhar suficientemente; depois aduziremos o comentário que sobre ela nos deixaram os padres e doutores da Igreja; e, finalmente, procuraremos esclarecer a íntima conexão que existe entre a forma de devoção que se deve tributar ao Coração do Divino Redentor e o culto que os homens estão obrigados a render ao amor que Ele e as outras Pessoas da SS. Trindade têm a todo gênero humano. Pois achamos que, uma vez considerados à luz da Sagrada Escritura e da Tradição os elementos constitutivos desta nobilíssima devoção, aos cristãos será mais fácil chegarem-se “com gáudio às águas das fontes do Salvador”; quer dizer, poderão eles apreciar melhor a singular importância que o culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus adquiriu na liturgia da Igreja, na sua vida interna e externa, e também nas suas obras; e assim cada um poderá obter frutos espirituais que assinalarão uma salutar renovação nos seus costumes, segundo os desejos dos pastores do rebanho de Cristo. (Encíclica “HAURIETIS AQUAS” de Pio XII).
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3 setembro, 2016

“Esta é a paz da Igreja”.

E sim, peçamos a paz, tal como é compreendida e desejada pelos filhos de Deus; uma paz digna deste nome, que a Sagrada Escritura de modo algum separa da Verdade, da Justiça e da Graça; esta é a paz da Igreja: o tranquilo cumprimento da lei cristã, o pacífico desenvolvimento das obras da Fé e da Caridade, a afirmação pública da verdade e dos preceitos do Evangelho, a conformidade das leis e instituições humanas com a doutrina e o ensinamento moral de Jesus Cristo, a contínua resistência ao Príncipe das Trevas e a todos aqueles que propagam as suas perversas máximas.

Dom Giuseppe Melchiorre Sarto, então bispo de Mântua — futuro São Pio X, alocução de 3 de setembro de 1889. Citado em Dal-Gal, Pie X, apud Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, p.297 – Tradução: Fratres in Unum.com

*Publicado originalmente na festa de São Pio X, 3 de setembro de 2012

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28 agosto, 2016

Foto da semana.

Por Teresa Maria Freixinho – FratresInUnum.com: Consoladora dos Aflitos, rogai por nós e pelos italianos!

Uma imagem assim não pode passar despercebida. Sempre nesse tipo de catástrofe natural encontramos esses sinais de que Deus está conosco nas tribulações. Sua Mãe amorosa intercede por todos os que sofrem.

A foto é de uma matéria da BBC e foi tirada em Pescara del Tronto, uma das cidades afetadas pelo terremoto de magnitude 6.2.

Rezemos pelos habitantes das cidades afetadas na região central da Itália.

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7 agosto, 2016

Nevando em agosto em Roma!

Por Gercione Lima | FratresInUnum.com

5 de agosto

“Sob o pontificado do Papa  Liberio, Giovanni, um cidadão nobre romano e sua esposa igualmente nobre, não tendo filhos e nem como deixar herdeiros de sua propriedade, dedicaram a sua herança à Virgem Mãe de Deus, suplicando fervorosamente com orações assíduas para que ela lhes mostrasse de alguma forma em que obra de caridade ela desejava que fosse empregado aquele dinheiro. A Virgem Maria, então ouvindo graciosamente  as orações e votos sinceros do casal, respondeu com um milagre.

No dia 5 de agosto, pleno verão em que o calor é muito grande em Roma,  uma grande parte do Monte Esquilino amanheceu coberto de neve. Naquela mesma noite, a Mãe de Deus em um sonho aconselhou separadamente Giovanni e sua esposa, a construir uma igreja no local que amanheceu coberto de neve, e dedicá-lo sob o nome da Virgem Maria;  pois desse modo ela seria instituída como herdeira de seu patrimônio. Papa Libério, então alegou ter tido a mesma visão.

Portanto, acompanhado pelo clero e pelo povo, ao canto da ladainha, ele se dirigiu à colina coberta de neve, e ali designou o local da construção da igreja, que foi construída e custeada por Giovanni e sua esposa, e que Sisto III, depois restaurou.

No início a igreja foi chamada por nomes diferentes: a Basílica Liberiana, Santa Maria do Presépio, mas uma vez que já haviam muitas igrejas construídas na cidade de Roma dedicadas à Virgem Maria, essa acabou sendo chamada Igreja de Santa Maria Maggiore, para que a qualificação de Basílica Maior unida ao fato inédito do milagre a colocasse acima de todas as outras com o mesmo nome. O aniversário de dedicação desta igreja, que recorda o milagre da neve caída milagrosamente neste dia, é celebrada solenemente todos os anos”.

(Do Mattutino segundo Notturno)

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6 agosto, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Vantagens e fecundidade da vida interior.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

A contemplação segundo a belíssima descrição de São Bernardo: “Esta é a vida pura, santa e imaculada na qual o homem vive com mais pureza, cai mais raramente, levanta-se com mais rapidez, anda com mais cautela, é consolado do céu com mais frequência, descansa mais seguro, morre mais confiado, purga-se mais depressa e é premiado com mais vantagem”.

No outro artigo sobre o tema, já vimos as primeiras vantagens da vida de contemplação:

1º – O homem de vida interior cai mais raramente, porque premune contra os perigos do ministério e repara as forças que o apostolado porventura fez perder; multiplica, outrossim, as energias e os méritos.

A vida interior é fonte de alegria e consolação. Favorecido pelo recolhimento, alimentado pela Eucaristia, o padre, caçador ou pescador de almas, sente aumentar o seu amor a Jesus Cristo e sente inefável alegria em poder colaborar com Ele nesta obra divina de salvar almas, podendo dar assim a maior alegria ao Coração de Jesus. Além do mais, a vida do padre interior é vida de oração. Ora, “vida de oração, exclama o Santo Cura d’Ars, que felicidade! É a grande felicidade da terra. Ó bela união com Nosso Senhor! A vida interior é um banho de amor em que a alma mergulha”.

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A vida interior é um escudo contra o desânimo. A vida do homem apostólico é uma trama de trabalhos, privações, sofrimentos. Se não tiver muito espírito de fé que é o fruto da vida interior, haverá horas tristes, horas de contradição, de humilhação, enfim, de sofrimentos. “Quando Deus quer, diz Bossuet, que uma obra seja toda d’Ele, de sua mão, começa por reduzir tudo à impotência, ao nada, depois age”. Então o homem de vida interior, de fé, no meio das ruínas, fica firme de pé, porque sabe que trabalha por amor de Deus e das almas. Sabe também que as provações generosamente aceitas são elementos de fecundidade na virtude e proporcionam a Deus maior glória. Então não desanima. Reza mais ainda, aceita tudo como graça de Deus. E como diz D. Chautard, qual abelha infatigável, ele há de, por certo, reconstruir com alegria novos favos na colmeia devastada.

A vida interior é fonte de fecundidade. Ilude-se o “americanismo” pensando que contribui para a maior glória de Deus visando principalmente aos resultados exteriores. “Aqueles que oram, fazem mais pelo mundo do que aqueles que combatem, e, se o mundo caminha cada vez pior, é porque há mais batalhas que orações” (Donoso Cortês).

“As mão erguidas, diz Bossuet, desbaratam mais batalhões do que as mãos que ferem”.

“Ordinariamente, diz D. Chautard, uma oração curta, mas, fervorosa, contribui muito mais para apressar uma conversão do que longas discussões e excelentes discursos. Aquele que ora trata com a Causa Primeira, opera diretamente sobre ela. Tem, desta sorte, em mãos todas as causas segundas, visto como estes somente deste princípio superior recebem sua eficácia. Por isso o efeito desejado é então obtido com maior segurança e rapidez”.

Diz ainda o autor do admirável livro “A ALMA DE TODO APOSTOLADO”: “Dez mil hereges, no dizer de uma revelação respeitável, foram convertidos por uma só oração inflamada da seráfica Santa Teresa d’Ávila”.

Daí os princípios:

1º – A vida ativa deve proceder da vida contemplativa, traduzida e continuada exteriormente, desligando-se dela o menos possível;

2º – Como toda causa é superior ao seu efeito, logo, para aperfeiçoar os outros é mister uma perfeição maior do que para qualquer um se aperfeiçoar simplesmente a si mesmo.

“Como a mãe, diz D. Chautard, não pode amamentar o filho senão na medida em que ela própria se alimenta, assim também os confessores, diretores de almas, os pregadores etc., devem primeiramente assimilar a substância com que hão de nutrir em seguida os filhos da Igreja. A verdade e o amor de Deus são elementos desta substância. E só a vida interior traduz a verdade e a caridade divinas de maneira a torná-las verdadeiro alimento capaz de engendrar a vida”.

O apóstolo deve acumular em si a vida de oração, porque na medida em que for o primeiro a viver do amor de Nosso Senhor, nesta proporção será também capaz de inflamar os ardores deste amor nos corações do próximo.

“Que os homens devorados de atividade, que julgam poder arrastar o mundo inteiro pelas suas pregações e obras exteriores, reflitam um instante. Compreenderão, sem dificuldade que seriam muito mais úteis à Igreja e agradáveis a Deus, sem falar do bom exemplo que dariam em redor de si, se consagrassem mais tempo à oração e aos exercícios de vida interior. A oração lhes mereceria esta graça e lhes alcançaria as forças espirituais de que precisam para produzir tais frutos” (S. João da Cruz).

“Sem oração mental, diz S. Vicente de Paulo, pode haver muito barulho, mas pouco fruto, porque o missionário sem oração é um soldado sem arma, um apóstolo pintado, um cadáver”.

Não podemos deixar de citar S. Pio X que tanto se preocupou com a vida interior dos clérigos: “Para restaurar todas as coisas em Cristo, pelo apostolado das obras, é preciso a graça divina e o apóstolo não a recebe se não for unido a Cristo. É somente depois de formar Cristo em nós que poderemos dá-Lo facilmente às famílias e à sociedade. Todos os que participam do apostolado devem ter uma verdadeira piedade”.

Lembro, outrossim, que não há vida interior completa, sem uma verdadeira e terna devoção à Maria Imaculada, o canal de todas as graças e, como tal principalmente da graça de escol que é a íntima união com Jesus Cristo. Maria Santíssima é o vínculo entre nós e seu Divino Filho. Jesus veio a nós por Maria (Deus é que assim o quis), por Maria devemos ir a Jesus.

Oração: Ó minha Mãe Imaculada, foi para vós me ajudardes a conservar meu coração unido mediante Jesus à Santíssima Trindade que, no Calvário a palavra do vosso Filho me proclamou filho vosso. Quero que as invocações, cada vez mais frequentes, que vos hei de dirigir, visem sobretudo a guarda do meu coração, a fim de purificar as tendências, as intenções, os afetos e os desejos dele, e assim ajudado e guiado por Vós, em tudo eu vise unicamente a maior honra e glória de vosso Divino Filho. Amém!

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30 julho, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Culto ao Sacratíssimo Coração de Jesus.

“Haurireis águas com gáudio das fontes do Salvador” (Isaías XII, 3).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Caríssimos, faremos, Deo volente, vários artigos extraídos da Encíclica de Pio XII “HAURIETIS AGUAS” sobre o culto do SS.  Coração de Jesus. O santo Padre, o Papa, sugeriu aos padres a leitura desta encíclica para meditarmos sobre a misericórdia do Coração de Jesus.

Sacratíssimo Coração de Jesus, tende piedade de nós!2. “Inumeráveis são as riquezas celestiais que nas almas dos fiéis infunde o culto tributado ao Sagrado Coração, purificando-os, enchendo-os de consolações sobrenaturais, e excitando-os a alcançar toda sorte de virtudes. Portanto, tendo presentes as palavras do apóstolo São Tiago: “Toda dádiva preciosa e todo dom perfeito do alto vem, desce do Pai das luzes” (S. Tiago I, 17), neste culto, que cada vez mais se incende e se estende por toda parte, com toda razão podemos considerar o inapreciável dom que o Verbo Encarnado e Salvador nosso, como único mediador da graça e da  verdade entre o Pai Celestial e o gênero humano, concedeu à sua mística Esposa nestes últimos séculos, em que ela tem tido de suportar tantos trabalhos e dificuldades. Assim, pois, gozando deste inestimável dom, pode a Igreja manifestar mais amplamente o seu amor ao Divino Fundador, e cumprir mais fielmente a exortação que o evangelista São João põe na boca do próprio Jesus Cristo: “No último dia da festa, que é o mais solene, Jesus pôs-se em pé, e em voz alta dizia: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Quem crê em mim do seu seio, como diz a Escritura, manarão rios de água viva. Isto o disse pelo Espírito que haveriam de receber os que nele cressem” (S. Jo VII 37-39). Ora, aos que escutavam essas palavras de Jesus, pelas quais Ele prometia que do seu seio haveria de manar uma fonte “de água viva”, certamente não lhes era difícil relacioná-las com os vaticínios com que Isaías, Ezequiel e Zacarias profetizavam o reino do Messias, e com a simbólica pedra que, golpeada por Moisés, de maneira milagrosa haveria de jorrar água (cf. Is 12, 3; Ez 47, 1-12; Zac 13, 1; Êx 17, 1-7; Nm 20, 7-13; 1 Cor 10, 4; Apc 7, 17; 22, 1).

3. A caridade divina tem a sua primeira origem no Espírito Santo, que é o amor pessoal, assim do Pai como do Filho, no seio da Trindade augusta. Com sobradíssima razão, pois, o Apóstolo das gentes, como que fazendo-se eco das palavras de Jesus Cristo, atribui a esse Espírito de Amor a efusão da caridade nas almas dos que crêem: “A caridade de Deus foi derramada nos nossos corações por meio do Espírito Santo, que nos foi dado” (Rom 5, 5).

4. Este estreito vínculo que segundo a Sagrada Escritura, existe entre o Espírito Santo, que é amor por essência, e a caridade divina, que deve acender-se cada vez mais na alma dos fiéis, demonstra abundantemente a todos nós, veneráveis irmãos, a natureza íntima do culto que se deve tributar ao Coração de Jesus Cristo. Com efeito, se lhe considerarmos a natureza particular, manifesto é que este culto é um ato de religião excelentíssimo, visto exigir de nós uma plena e inteira vontade de entrega e consagração ao amor do Divino Redentor, do qual é sinal e símbolo vivo o seu Coração traspassado. Consta igualmente, e em sentido ainda mais profundo, que este culto aprofunda a correspondência do nosso amor ao Amor divino. Pois só em virtude da caridade se obtém que os homens se submetam mais perfeita e inteiramente ao domínio de Deus, já que o nosso amor de tal maneira se apega à divina vontade, que vem a fazer-se uma coisa só com ela, consoante aquelas palavras: “Quem está unido ao Senhor é com Ele um mesmo espírito” (1 Cor 6, 17).

5. Conquanto a Igreja em tão grande estima tenha tido sempre e ainda tenha o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus, a ponto de se empenhar em fomentá-lo e propagá-lo por toda parte entre o povo cristão, e conquanto se esforce diligentemente por defendê-lo contra o “naturalismo” e o “sentimentalismo”, todavia é muito doloroso verificar que, no passado e em nossos dias, alguns cristãos não têm este nobilíssimo culto na honra e estima devidas, e às vezes não o têm nem mesmo aqueles que se dizem animados de zelo sincero pela religião católica e pela própria perfeição.

6. “Se conhecesses o dom de Deus” (Jo 4, 10). Servimo-nos destas palavras, veneráveis irmãos, nós, que por disposição divina fomos constituído guarda e dispensador do tesouro da fé e da religião que o divino Redentor entregou à sua Igreja, para admoestar todos aqueles dos nossos filhos que, apesar de, vencendo a indiferença e os erros humanos, já haver o culto do Sagrado Coração de Jesus penetrado no seu Corpo Místico, ainda abrigam preconceitos para com ele, chegam até a reputá-lo menos adaptado, para não dizer nocivo, às necessidades espirituais mais urgentes da Igreja e da humanidade na hora presente. Porque não falta quem, confundindo ou equiparando a índole primária deste culto com as diversas formas de devoção que a Igreja aprova e favorece, mas não prescreve, o têm como um acréscimo que cada um pode praticar à vontade, e alguns há também que consideram oneroso este culto, e mesmo de nenhuma ou pouca utilidade especialmente para os militantes do reino de Deus, empenhados em consagrar o melhor das suas energias, dos seus recursos e do seu tempo à defesa da verdade católica, para ensiná-la e propagá-la, e para difundir a doutrina social católica, fomentando práticas religiosas e obras por eles julgadas mais necessárias nos nossos dias. Por último, há quem creia que este culto, longe de ser um poderoso meio para estabelecer e renovar os costumes cristãos na vida individual e familiar, é antes uma devoção sensível não informada em altos pensamentos e afetos…

7. Outros, finalmente, ao considerarem que esta devoção pede penitência, expiação e outras virtudes, sobretudo as que se chamam “passivas”, por não produzirem frutos externos, não a julgam a propósito para reacender a piedade, a qual deve tender cada vez mais à ação intensa, encaminhada ao triunfo da fé católica e à valente defesa dos costumes cristãos, os quais hoje, como todos sabem, se vêm facilmente infectados pelo indiferentismo, que não reconhece nenhum critério para distinguir o verdadeiro do falso no modo de pensar e de agir, e, assim, se vêem lamentavelmente afeados pelos princípios do “materialismo” ateu e do “laicismo”.

(Continua nos próximos artigos).

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23 julho, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Amor confiante (VI).

“O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido” (Mt 18, 11).
“Sou Eu, não temais” (Lc 24, 36).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Continuação e término da Conferência do P. Mateo Crawley-Boevey

“Digo-vos mais: confiai, porque esse Jesus, que vos convida ao abandono, à Sua intimidade, vê mais claro que vós mesmos. Se vedes cem defeitos, Ele encontra mil e, não obstante, vos ama e vos chama. Seu amor não é, nem pode ser, como o de um amigo ou o de um noivo, um amor-ilusão, e sim fundamentado na verdade. Ele não vos quer porque imagine coisas diferentes da realidade, pois para Ele, na ordem moral, não há camuflagens. Ama-vos tais como sois. Daí a frase, tão feliz quanto ousada, de Santa Teresinha: “Que mau gosto tiveste, Jesus, querendo-me feia como sou… Não modifiques em nada esse mau gosto, para que não me exponha a ser substituída por um anjo”.

sagrado coração de jesusNa amizade terrena, o excesso de familiaridade revela misérias anteriormente desconhecidas. Por isso, desmoronam-se tantos carinhos, fundados em ilusões… Mas com Nosso Senhor a coisa é outra. “Jesus vos ama como ninguém e vos perdoa como ninguém – diz o famoso convertido inglês Pe. Faber – justamente porque vos conhece como ninguém”.

A Ele, jamais se surpreende, porque mesmo no santo, que faz milagres, pode-se ver o abismo de fragilidade que traz, no interior, o taumaturgo. Por isso mesmo também vos disse, há pouco, que se contenta,  Ele, que tudo vê, com grandes e santos desejos, pois melhor do que nós sabe que muitos deles, por sinceros que sejam, não são realizáveis. Mas vosso desejo já é a Seus olhos um ato de amor, quando sois sinceros e não vaidosos. Quanto são de fato desejos, e não caprichos ou devaneios.

“Paz, portanto, aos de boa vontade” (Lc  2, 30). Paz àqueles que compreenderam e saborearam quão bondoso é o Senhor! Paz aos que sabem, por experiência, que seu jugo é suave e leve a sua carga (Mt 11, 30). Muito mais que a preocupação exagerada, ainda que legítima de curar vossos males, tende a santa preocupação da Sua glória. “Preocupa-te de Mim, só de Mim, dizia Jesus a Santa Margarida Maria – e Eu me preocuparei de ti e de tudo que é teu”.

Há apóstolos que não compreendem ainda este grande espírito e gastam suspiros e tempo em pedir isto ou aquilo. Depois, quando já estão cansados, ajuntam: “Venha a nós o Vosso Reino”.

Não façais assim. Começai o trabalho da vossa santificação e do apostolado com este grito, vindo da alma: “Venha a nós o Vosso Reino, o reino do Vosso Coração, do vosso Amor”, e Ele dirá: “E Eu me encarrego de todos os teus outros interesses”. Por aí vedes quanto é ampla, segura, sólida e bela a doutrina do Coração de Jesus! Como se vive bem, luta-se, trabalha-se nesse santuário em que tudo é verdade, paz e força e gozo no Espírito Santo! Bebei à saciedade desse Coração “Fonte inesgotável de vida” e de amor misericordioso. Nele quero ter minha morada, minha escola, meu céu. Esse Coração me basta. Sou pobre, paupérrimo, mas nesse Coração não temo. São muitos aqueles que julgam ser árduo e dificílimo salvar-se. Eu, ao contrário, creio, raciocinando junto desta cátedra divina, luminosa, que não é tão fácil perder-se, pois que para isso é preciso romper as amarras que são os braços do Senhor, forçar a cidadela redentora que é Seu Coração.

Compenetrai-vos, zelosos apóstolos, desta grande doutrina, visto que não há novidades depois do Evangelho, mas que, por vontade explícita do céu, é todo um sistema doutrinário, toda uma espiritualidade, que envolve hoje a terra sob o título de “Reinado do Coração de Jesus”.

Vivei deste pão do amor e da confiança ilimitada, para depois dar essa mesma substância, verdadeiro maná, a muitas almas que têm um conceito mesquinho, desfigurado de Cristo Nosso Senhor.

Ardei na chamas do Coração Divino para, em seguida, queimar a outros. Confiai, vivei no abandono, para infiltrar em outros a confiança, alicerçada no Evangelho, na lei de Cristo, no espírito da Igreja.

Aos débeis, aos maus e pecadores, falai no mesmo tom de Jesus, como Jesus, como o Coração de Jesus. Ouvi como sentencia a pecadora que jaz aos Seus pés divinos: Mulher, “nem eu te condenarei. Vai e não peques mais” (Jo 8, 11).

Discípulos, aprendei as ideias, a linguagem, o estilo do Mestre!

Para terminar, um dos parágrafos mais admiráveis, em doutrina e eloquência, de Santa Teresinha: “Não vou a Deus pelo caminho da confiança e do amor por me julgar preservada do pecado mortal. Ah! Sinto-o perfeitamente, ainda que tivesse por sobre a consciência todos os crimes possíveis, não perderia nada da minha confiança; iria, com o coração destroçado pelo arrependimento, refugiar-me nos braços do meu Salvador. Bem sei quanto ama ao filho pródigo e já ouvi as Suas palavras a Santa Madalena, à mulher adúltera e à Samaritana. Não, ninguém poderá jamais amedrontar-me, porque sei a que ater-me, acerca do seu amor e sua misericórdia. Sei que toda essa multidão de ofensas desapareceriam num abrir e fechar de olhos, como uma gota d’água lançada sobre brasas ardentes” (História de uma alma).

Término.

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