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15 setembro, 2018

Coluna do Padre Élcio: “Amar o próximo como a nós mesmos”.

Evangelho do 17º Domingo depois de Pentecostes –  S. Mateus XXII, 34-46

Sabemos que os mandamentos de Deus são dez. E todos os problemas das sociedades estariam resolvidos se as leis de Deus fossem cumpridas. Os três primeiros, que se referem a Deus, encerram-se nesta fórmula: Amar a Deus sobre todas as coisas. Isto significa a vontade de amar a Deus, não em grau infinito, mas sobre todas as coisas, de preferência a tudo o que Lhe seja contrário. Os outros sete mandamentos se reduzem ao amor do próximo, mas a um amor sincero e eficaz.

Nosso Senhor Jesus Cristo diz q ue o amor do próximo é semelhante ao amor de Deus, no sentido que a caridade é uma virtude única que tem dois aspectos: Deus e o próximo por amor de Deus. Devemos notar que a Lei  manda amar o próximo por amor de Deus.

Na explicação do evangelho do 12º domingo depois de Pentecostes já tivemos ensejo de fazer algumas reflexões sobre o amor de Deus e do próximo (S. Luc. X, 23-34). Vamos nos deter mais um pouco sobre o amor do próximo considerando este detalhe: COMO A NÓS MESMOS.

Nosso amor tem três objetos: Deus, o próximo e nós mesmos. Jesus Cristo manda-nos amar a Deus e ao próximo. É óbvio que Jesus supõe que naturalmente e sem sermos para isto compelidos, nos portemos de tal modo que cumpramos este dever para conosco. Com efeito, o amor de si é essencial ao homem; ele faz parte de sua natureza e é inseparável de seu ser. A Providência divina colocou em nós este sentimento precioso para nos fazer tender à felicidade a que Deus nos destinou. Não podemos nem deturpar nem destruir este sentimento.

Santo Agostinho observa que, embora Jesus não fale da obrigação do amor a nós mesmos, Ele, no entanto, não o omite; supõe-no, porque ordena que amemos o próximo como a nós mesmos. Mas este sentimento do amor a nós mesmos tem necessidade de ser dirigido, e, às vezes, até reprimido, raramente tem necessidade de ser estimulado. Temos a tendência de nos amarmos além dos limites em detrimento do amor que devemos aos outros. É justamente este amor fora dos limites que S. Paulo condena: “A caridade não busca [somente] os seus próprios interesses” (1 Cor. XIII, 5). É este amor excessivo de si que a linguagem humana estigmatiza com o nome de EGOÍSMO.  É evidente, porém, que Jesus prescreve uma igualdade não de sentimentos, mas de deveres. Pois, é-nos impossível, e por conseguinte não nos é mandado que sintamos pela totalidade de nossos irmãos, o que nós sentimos por nos mesmos. Amar o próximo como a nós mesmos, é tratá-lo como nós desejamos que os outros nos tratem; fazer ao próximo o que desejamos
que nos façam, e não fazer o que não desejamos que nos façam. Por exemplo: desejamos ser felizes, e assim devemos desejar a felicidade dos outros. É este o conselho que o velho Tobias deu ao seu filho Tobias: “Acautela-te, não faças nunca a outro o que não quererias que outro te fizesse”. O mesmo ensinou o Divino Mestre: “Assim, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; esta é a lei e os profetas” (S. Mateus VII, 12).

Devemos observar, outrossim, que esta igualdade de dever não é de tal modo absoluta que não sofra modificação. Não há circunstâncias em que o amor a nós mesmos deva ser exclusivo; mas pode haver casos em que ele seja preponderante. Na impossibilidade de procurar o bem próprio e o do próximo, deve o amor de si prevalecer. Em se tratando de bens temporais, podemos dar a nós mesmos a preferência; e, em se tratando de bens espirituais, temos o dever. Por mais sagrado que seja o dever  de fazer bem a nossos irmãos, o de nossa salvação eterna é-lhe superior, porque é para nos salvar que devemos fazer bem ao próximo. A mesma lei que nos ordena trabalhar em sua salvação, nos proíbe trabalhar em prejuízo da nossa.

Quando se trata de bens temporais, em caso de conflito dos nossos interesses com os de outrem, se, de ordinário, podemos preferir os nossos, há, no entanto casos em que por dever de estado e em virtude dum contrato tácito ou formal entre nós e a sociedade, nós somos obrigados a nos sacrificarmos em prol dos nossos irmãos e a procurarmos seu bem temporal às expensas do nosso. Estes casos não são raros, por exemplo, na vida do militar, do médico, do magistrado e do padre. E esta obrigação é bem mais grave ainda quando se trata de lhes procurar a salvação eterna, como é o caso do padre. Quantas vezes, nós padres nos expomos a contrair uma doença contagiosa na administração dos últimos sacramentos?!

É mister também no exercício da caridade fraterna distinguir duas espécies de deveres, uns interiores, outros exteriores. Podem haver motivos legítimos que dispensem destes últimos, mas jamais haverá razão que impeça de cumprir os primeiros. Exemplifiquemos: você é pobre e, por conseguinte, não podes dar esmola. Você está enfermo, por isso mesmo estás dispensado de prestar serviços mais pesados. Mas os deveres interiores são sempre praticáveis. Se alguém não pode fazer em a seus irmãos, pode e deve ao menos desejar-lhes o bem. Se alguém não pode prestar ajuda material aos seus irmãos, pode, ao menos, ajudá-los com suas orações.

Amar o próximo efetivamente e em verdade e não só de boca, mas na medida de nossas possibilidades e enquanto o permitem nossos recursos.

“Meus filhinhos não amemos de palavra e com a língua, mas por obra e em verdade”  (1 João III, 18). Aqui está o lado positivo da máxima do Divino Mestre: “Assim, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles”. Dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, visitar e consolar os doentes e aflitos, dar vestes boas aos maltrapilhos, cobertas aos que estão passando frio etc.

Vejamos agora o lado negativo: “Não fazer a outrem o que não gostaríamos que os outros nos fizessem”. Daí, ficam aqui proibidas todas as maldades: a inveja, a ira, a discórdia, a dissensão,  as querelas, as inimizades etc. São enfim as obras da carne enumeradas por S. Paulo  na sua Epístola aos Gálatas V, 19-21. E o Apóstolo após  a enumeração destas obras que vêm da carne, termina com esta terrível advertência: “Os que as praticam, não possuirão o reino de Deus”.

Meditemos, outrossim, nestas outras palavras do Apóstolo dos gentios: “Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de um modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros por caridade, solícitos em conservar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. Há
um só corpo e um só Espírito, como também vós fostes chamados a uma só esperança pela vossa vocação. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, e atua por todas as coisas e reside em todos nós” (Efésios IV, 1-6). Somos todos irmãos, por natureza, de Adão e por adoção, de Deus. Assim, como os primeiros cristãos, todos deveriam viver realmente como irmãos, como se em todos batesse um só coração e os animasse uma só alma.

Nosso divino Salvador deseja que todos nós cumpramos o seu mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Amém!

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8 setembro, 2018

Coluna do Padre Élcio: “Quem se humilha será exaltado”.

Evangelho do 16º Domingo depois de Pentecostes – S. Lucas, XIV, 1-11.

Por Padre Élcio Murucci, 8 de setembro de 2018 – FratresInUnum.com

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

O Santo Evangelho de hoje oferece-nos dois pontos de meditação: a cura do homem hidrópico em dia de sábado; e a parábola para ensinar a humildade. Consideremos este último. Para estarmos enraizados na caridade, é indispensável que o estejamos igualmente na humildade, pois só quem é humilde é capaz de amar verdadeiramente a Deus e ao próximo. Nosso Senhor Jesus Cristo dá-nos uma lição prática de humildade, condenando a caça aos primeiros lugares.

sagrado coração de jesusNão se sabia então o que era a humildade. Jesus mostra aos fariseus as humilhações do orgulho e as vantagens da humildade. No céu, como na terra, os humildes terão sempre o primeiro lugar. Os verdadeiros humildes não se enganam sobre o sentido desta parábola. Chamados ao primeiro lugar no banquete que Deus dá aos seus futuros eleitos, no grande vestíbulo da Igreja, eles vão, de si mesmos, colocar-se no último, onde se acham mais a vontade para cuidar da sua salvação eterna. À hora da morte, virá então dizer-lhe o Pai de família – “Amigo, assenta-te mais para cima”.

Ouçamos o comentário de São Bernardo: “Coloquemo-nos no último lugar, pois nenhum prejuízo nos pode vir pelo fato de nos humilharmos e nos julgarmos inferiores ao que na realidade somos. Todavia é um dano terrível e um mal enorme querermos nos elevar nem que seja uma só polegada acima do que somos, e preferir-nos a uma só pessoa. Assim como para passar por uma porta muito baixa não nos prejudica inclinarmo-nos demasiadamente, mas prejudica-nos muitíssimo levantarmo-nos um só dedo acima da trave; de igual modo não há motivo para temermos humilhar-nos demasiado, mas devemos temer e aborrecer o mais pequeno movimento de presunção”.

A humildade reside propriamente no coração, isto é, na vontade. Jesus exorta-nos a aprender d’Ele que é humilde de coração. Santa Teresa d’Ávila diz  que a humildade é a verdade. Sem dúvida, porque ela nos faz ver o nosso nada e a nossa profunda abjeção, ou seja, o que realmente corresponde à realidade. O conhecimento próprio é, na verdade, uma preparação para a humildade propriamente dita. Para haver a VIRTUDE DA HUMILDADE, é necessário, além da verdade (adequação de uma coisa com a razão) que haja justiça comutativa, que manda dar, ou atribuir  a cada um o que realmente lhe é devido. Portanto, além da razão humana é mister entrar a fé. Para que alguém seja humilde de coração é preciso que aceite como devidas a si, que é um nada pecador, as humilhações. Assim desprezamos a nós mesmos com toda sinceridade de nosso coração. Somos dignos de desprezo e devemos amar a nossa abjeção para que sobressaia mais a grandeza de Deus. Ademais, devemos desejar que todo mundo entre nos mesmos sentimentos a nosso respeito, e nos julgue como nos julgamos a nós mesmos. E a humildade em sumo grau só existe quando nos alegramos de que todos os homens se comportam para conosco, segundo o desprezo que lhes inspiramos. Quem chega a este grau de humildade, não se contenta de sofrer com paciência os opróbrios, mas recebe-os com alegria, e até os busca com o ardor que os mundanos empregam em buscar as honras e o renome. Os santos (porque os que possuem este grau de humildade são santos) amam as humilhações evidentemente não porque são em si amáveis, mas porque os tornam semelhantes ao Filho de Deus aniquilado por amor de nós. O outro motivo: é porque as humilhações nos dão o meio de testemunharmos a Jesus o nosso amor e de merecer o seu amor.

Deus antes da Encarnação não podia se humilhar: porque a verdade é que Ele é o Sumo Bem, é a própria Perfeição, é a própria Santidade. Daí, Lhe é devida toda honra e glória. Mas, fazendo-se homem como que se aniquilou, e além disso tomou a forma de servo, e fez-se obediente até à morte e morte de cruz. E cada um dos mistérios da vida de Jesus é uma prova de seu amor à abjeção: nascimento, circuncisão, fuga para o Egito, trinta anos passados na obscuridade. E na sua Paixão mostrou que o Seu desejo de humilhações não tinha limites.

Caríssimos, vejamos a excelência da humildade: considerada em si mesma e considerada em seus frutos.

EM SI MESMA A HUMILDADE É EXCELENTE: Basta explicarmos um pouco mais as noções sobre a humildade que acima demos. A humildade é a verdade, mas não já a verdade puramente especulativa, mas a que passa da inteligência para o coração. A inteligência mostra o que realmente somos e o coração dirige e santifica os afetos do coração. E assim, se reinar em mim a verdade, nunca entrará em mim a vaidade. Depois, a humildade é a justiça, pela qual se deve dar a cada um o que lhe pertence, “cuique suum”. A pessoa humilde compreende este oráculo do Senhor: “Isto diz o Senhor: Não se glorie o sábio no seu saber, nem se glorie o forte na sua força, nem se glorie o rico nas suas riquezas; porém, aquele se gloria glorie-se em me conhecer e em saber que eu sou o Senhor” (Jeremias. IX, 23 e 24). Se a pessoa humilde obteve algum sucesso, e praticou algum bem, atribui-o Àquele que dá a vontade e o poder. Quanto a ela, só fez o que devia fazer, e ainda se examina se o fez bem. Sabe, também, o que lhe é devido por tantas faltas que cometeu, e que comete ainda todos os dias; sabe de quantos crimes seria capaz, se a mão do Senhor a não amparasse.

A humildade é, outrossim, toda a religião. Pois é por ela que a pessoa humilde adora e ora, esperando tudo só de Deus. É a humildade que obedece, sujeitando a vontade. A castidade é a humildade da carne que ela sujeita ao espírito; a mortificação exterior é a humildade dos sentidos; a penitência é a humildade de todas as paixões, que ela sacrifica. A fé é a humildade da razão, que renuncia aos seus próprios pensamentos e se inclina ante os pensamentos de Deus.

A EXCELÊNCIA DA HUMILDADE CONSIDERADA EM SEUS FRUTOS: a graça, a paz, a glória presente e a eterna.

A GRAÇA: Deus dá a sua graça aos humildes. A oração do humilde penetra as nuvens e chega até o trono do Altíssimo. Assim como o ímã atrai o ferro, assim a humildade atrai a graça.

A PAZ: Primeiramente, a paz com Deus. Se o humilde pecou, consegue logo o perdão e torna Deus propício a ele, já que a humildade tem este privilégio de tudo reparar. Diz Davi no Salmo L, 19: “Deus nunca despreza um coração contrito e humilhado”. Temos um exemplo muito claro disto no Livro  I Reis XXI, 29: “O Senhor dirigiu sua palavra a Elias tesbita, dizendo: Não viste Acab humilhado diante de mim? Porque ele, pois, se humilhou, em atenção a mim, não farei vir aquele mal enquanto ele viver”. A paz com o próximo: Pois o humilde procura sempre o último lugar, esquece-se de si para só pensar nos outros.

Sendo filha da caridade, a humildade suaviza e une os corações. A paz consigo mesmo: É o que Jesus disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas”. Segundo Santo Agostinho, a paz é a tranquilidade da ordem; ora, nada há mais em ordem do que uma alma humilde. Há, pois, ordem quando cada coisa está em seu devido lugar. Donde, o humilde não conhece as perturbações provocadas pela soberba.

A GLÓRIA PRESENTE E A ETERNA: “Quem se humilha será exaltado”, garantiu o Divino Mestre. Sim, o homem mais verdadeiramente grande é aquele que cumpre melhor o seu fim, que é glorificar a Deus. Poderá haver maior glória do que ser semelhante a Nosso Senhor Jesus Cristo?! E não há melhor meio de ser semelhante a Ele, do que sendo humilde, e como Jesus, amar as humilhações. Temos tanta inclinação para a grandeza, e aqui está, caríssimos, a nossa verdadeira grandeza: imitarmos a Jesus. JESUS, MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO”. Amém!

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1 setembro, 2018

Coluna do Padre Élcio: “É mais importante ressuscitar para viver sempre”.

Evangelho do 15º Domingo depois de Pentecostes – S. Mateus VI, 24-35.

Por Padre Élcio Murucci, 1º de setembro de 2018 – FratresInUnum.com

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

O Evangelho deste domingo conta-nos a ressurreição de um rapaz, filho único de uma viúva que morava numa aldeia chamada Naim.

jovem_NaimHoje os padres que seguem a Liturgia Tradicional lêem no Breviário um trecho do sermão de Santo Agostinho sobre este Evangelho. Vamos dar um  resumo deste sermão.

Os Santos Evangelistas contam-nos apenas três ressurreições operadas por Jesus: a de uma menina, filha de Jairo, chefe da Sinagoga; a do jovem filho único da viúva de Naim; e a de seu amigo Lázaro de Betânia, irmão de Marta e Maria Madalena.

O santo Doutor comenta as três ressurreições operadas por Jesus como símbolos das milhares ressurreições espirituais. Santo Agostinho diz: “Amplius est ressuscitare semper victurum, quam suscitare iterum moriturum”. É mais importante ressuscitar para viver sempre, do que ressuscitar para morrer de novo.

Vejamos que lição pretendeu dar-nos Jesus nos mortos que ressuscitou.

Ressuscitou a menina logo após ela ter morrido. Ainda estava no seu leito em casa: não havia saído o enterro. Jesus operou o milagre e ali mesmo entregou-a viva a seus pais. Ressuscitou o jovem filho da viúva de Naim. O enterro já havia saído da casa. Já estava fora, ás portas da cidade. Ressuscitou Lázaro, cujo cadáver não só já saíra de casa, mas estava encerrado no sepulcro há quatro dias, e, portanto, cheirava mal.

Santo Agostinho explica as três sortes de pecadores: a defunta filha do chefe da Sinagoga é símbolo daqueles que têm o pecado no íntimo do coração, mas não o puseram ainda em obras. São os que consentem plenamente nos maus desejos graves, como no caso de adultério, sem contudo realizá-los. Estão mortos no interior do coração. No caso, há um morto, mas não saiu para fora. Às vezes, por efeito da palavra divina, como se Jesus em pessoa lhe dissesse: “Levanta-te” este pecador arrepende-se de seu consentimento ao mal e volta a respirar o ar de salvação e santidade. Este morto ressuscita dentro de casa; este coração revive na intimidade de sua consciência. Esta ressurreição da alma defunta, operada em segredo é simbolizada pela que teve lugar no recinto doméstico.

Outros passam do consentimento à obra, por assim dizer, o morto saiu para fora. Sai à luz o que já estava na sombra. Também a este que passou a vias de fato, pondo o mal em obras também é ressuscitado pela voz de Nosso Senhor Jesus Cristo e volta à vida espiritual o pecador que se deixou tocar e comover pela palavra da verdade. Já ia se avançando para o abismo e para a morte eterna. Mas Jesus pára-o, toca-o, restitui-lhe a vida da alma e entrega-o à sua Mãe, a Igreja. Destes pecadores que não só consentem no pecado no interior da consciência, mas o realizam com obras e logo se arrependem, é símbolo justamente a ressurreição do jovem filho da viúva de Naim.

Finalmente, há aqueles que de mal em mal, chegam a enredar-se nos vícios, nos maus costumes, a tal ponto que não vêem por força do mau hábito, a malícia das suas ações e até se gabam de suas más obras. Assim, diz Santo Agostinho, os habitantes de Sodoma. Tão grande era ali o império do nefando costume, que a perversão se lhes parecia honestidade e mais digno de repreensão o censor do que o malfeitor. “Viestes, dizem os habitantes de Sodoma a Lot, para morar aqui, não para nos dar leis”.(que diria Santo Agostinho hoje quando se fazem leis para aprovar e defender os sodomitas?!). Eles, oprimidos pelos costumes malignos estão como que sepultados. Não só sepultados, mas como Lázaro no sepulcro, já cheiram mal. A pedra que cerrava o sepulcro de Lázaro significava a tirania do hábito, que subjuga a alma e não a deixa nem levantar-se nem respirar.

Diz-se de Lázaro que ele era um defunto de quatro dias (quatriduanus est). E, em verdade, a este mau hábito, que chamamos vício, chega-se como que por quatro etapas: primeira: uma suave chamada do prazer à porta do coração; segunda: o consentimento; terceira: a obra; quarta: o mau hábito. Há aqueles que repelem as coisas ilícitas logo que saem de seus pensamentos, para nem sequer sentir o prazer. Há aqueles que, sentindo o prazer, não consentem nele; ainda isto não é a morte, senão uma espécie de início de morte; porém, se ao deleite se junta o consentimento, vem a obra; e esta se torna costume. Neste caso, a gravidade é extrema. Neste sentido podemos dizer: esta alma está morta há tempo e cheira mal. Chega, então, Nosso Senhor, para o qual tudo é fácil; mas, como para dar a entender quão difícil é aqui a ressurreição, Ele, na ressurreição de Lázaro, suspira fortemente, e fala bem alto: “Lázaro,sai para fora deste sepulcro!” Sem embargo, à esta voz possante do Senhor, rompem-se as cadeias da tirania da sepultura, treme o poder da morte, e Lázaro foi devolvido à vida.

Irmãos, observai as circunstâncias desta ressurreição: saiu vivo do sepulcro, mas não podia andar. Diz, então, Nosso Senhor aos discípulos: “Desatai-o e deixai-o ir”. Jesus o ressuscitou da morte; os discípulos soltaram as ligaduras que impediam a Lázaro de andar. Reconhecei que a majestade divina se reserva certa coisa nesta ressurreição. A um consuetudinário (=pessoa dominada pelo vício) se lhe dizem duramente as palavras da verdade; porém, quantos não as ouvem? Depois das reprimendas, fica o pecador sozinho com os seus pensamentos e estes falam-lhe da má vida que leva e o péssimo hábito que o oprime. Enojado de si mesmo, resolve mudar de vida. Eis a ressurreição: ressuscitam, pois, quando começam a ser-lhes odiosos os procederes de antes; embora, porém, voltados à vida, não podem andar; as ligaduras de suas repetidas culpas impendem-nos. É mister, por isso, que ao ressuscitado se lhe desate e deixe caminhar; função esta encomendada pelo Senhor aos discípulos quando lhes disse: “O que desatardes na terra, será desatado no céu”.

E Santo Agostinho termina o sermão mostrando a necessidade da pronta ressurreição espiritual: “Estas reflexões, oh! caríssimos, devem persuadir aos vivos a continuar vivendo, e aos que não vivem, a recobrar a vida. Se o pecado concebido no coração não saiu ainda para fora, haja arrependimento, corrija-se o pensamento, ressuscite o morto na intimidade de sua consciência. Se executou a ideia, tampouco desespere; se o morto não ressuscitou dentro, ressuscite fora. Arrependa-se de sua ação, reviva em seguida, não baixe ao profundo da sepultura, não caia em cima a lousa do mau hábito. E se, porventura, me está ouvindo quem jaz oprimido pela fria e dura pedra, quem já traz sobre si o peso do costume e cheira mal, como morto de quatro dias, tampouco este deve perder a esperança; mui baixo está sepultado, porém, Cristo está em cima. Ele pode desfazer com a força de sua voz as lousas do sepulcro; Ele pode devolver-lhe a vida da alma; Ele os deixará nas mãos de seus discípulos para que o desatem. Façam também penitência estes mortos. Quando Lázaro ressuscitou depois de quatro dias, nada conservou da infecção primeira. Assim, pois, os vivos continuem vivendo, e os mortos de qualquer destas mortes, ressuscitem logo. Amém!

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25 agosto, 2018

Coluna do Padre Élcio: “A Providência Divina”.

Evangelho do 14º Domingo depois de Pentecostes – S. Mateus VI, 24-35..

Por Padre Élcio Murucci, 25 de agosto de 2018 – FratresInUnum.com

Antes de tudo, Nosso Senhor Jesus Cristo enuncia um princípio geral: Ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Evidentemente trata-se de dois senhores de sentimentos e vontades opostos, incompatíveis entre si. Por isso, seguir um, significa forçosamente rejeitar o outro; odiar um é amar o outro. E quais sejam esses dois senhores, Jesus esclarece-o logo: “Não podeis servir a Deus e a Riqueza”. No texto original está a palavra Mammona que os comentadores traduzem pela expressão: Dinheiro ou Riquezas. Mammon era, com efeito, o deus das riquezas, entre os sírios. Mammon está, pois, aqui como um deus falso oposto ao Deus verdadeiro. Na verdade, o dinheiro é o deus dos avarentos. São Paulo dizia que o estômago é o deus dos inimigos da cruz de Cristo, os gulosos: “Quorum deus, venter est”. Para os libidinosos o seu deus é o prazer carnal; para os soberbos é o seu “eu”. Ao deus de qualquer vício capital,  os mundanos sacrificam tudo: trabalhos, sofrimentos, pesares, e… até a vida eterna.

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“Olhai e vede os lírios dos campos”

O Divino Salvador condena o amor das riquezas, esse amor desordenado que acorrenta o coração do homem, fazendo-o esquecer os interesses da sua alma. Mas não condena o justo cuidado que deve ter todo homem de prover com o trabalho a sua própria subsistência, e a daqueles que lhe foram confiados. O Divino Mestre não disse: – não podeis servir a Deus, e ser ricos; mas não podeis servir (ao mesmo tempo) a Deus e ao Dinheiro. Há, com efeito, muitos santos que , sendo ricos, serviram-se santamente dos bens da fortuna. Foram donos de seus bens, e não escravos deles.

“Não vos inquieteis dizendo: Que havemos de comer, ou que havemos de beber, ou com que havemos de nos vestir? Porque os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas, mas vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isto”. Quanto maior, quanto mais urgente é a necessidade, tanto mais sólida deve ser a nossa confiança em Deus, porque Ele nos prometeu o necessário, não o supérfluo.

E ninguém é excluído dos cuidados paternais de Deus Nosso Senhor. É óbvio, porém, que tem atenções especiais com aqueles que se entregam a Ele. A sua Providência vigia sobre nós; conhece as nossas necessidades, e pensa em socorrer-nos primeiro que nós pensemos em pedir. É o que constatamos na multiplicação dos pães: Jesus viu aquela grande multidão e teve compaixão de todas aquelas pessoas (Cf. S. Marc. VI, 34 e 42). E o seu poder é igual à sua bondade: os poucos pães e peixes se multiplicam nas suas mãos e todos são saciados.

E, caríssimos, consideremos que, se tal é a sua solicitude pelos corpos, que não fará pelas almas? Daí devo dirigir-me sempre pela fé, pois ela ensina-me que nada detém Deus na execução dos seus desígnios. Ensina-me, outrossim, a fé que a sabedoria de Deus é infinita e dispõe todas as coisas com admirável fortaleza e suavidade: “(A sabedoria de Deus) atinge, pois, fortemente desde uma extremidade à outra; e governa tudo convenientemente” (Sab. VIII, 1). Ela sabe tirar o bem do mal, e converter os obstáculos em meios. José do Egito nunca esteve tão perto do trono como quando o prenderam!
Deus considera os meus sofrimentos e as minhas necessidades com os olhos de um pai: “Vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós o peçais” (S. Mat. VI, 8). E o próprio Deus na Santa Escritura nos afirma que não há mãe que tenha para seu filho os carinhos que Ele tem para conosco: “Porventura pode uma mulher esquecer-se do seu menino de peito, de sorte que não tenha compaixão do filho de suas entranhas? Porém, ainda que ela se esquecesse dele, eu não me esquecerei de ti” (Isaías, XLIX, 15).

Depois de apresentar várias razões para confiarmos na Providência Divina, Nosso Senhor Jesus Cristo tira a conclusão: “Procurai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça; e todas estas coisas se vos darão por acréscimo”.  Quer dizer, antes de tudo, acima de tudo, procurai o reino de Deus, empregai toda a atenção, solicitude e vigilância de que sois capazes na obtenção dos bens celestes, da felicidade eterna. E que significa  – e a sua justiça? Quer dizer os meios que conduzem à salvação, à vida eterna, a saber, a graça de Deus, as virtudes cristãs, as boas obras, numa palavra, tudo o que nos torne justos e santos diante de Deus, seus verdadeiros servos e seus filhos muito amados. E que significam as palavras: e o resto vos será dado por acréscimo? Quer dizer o seguinte: se vós fordes fiéis em bem servir a  Deus, em Lhe agradar em tudo, Ele, como bom Pai, tomará a seu cargo dar-vos tudo o que, na terra, é necessário à vida do corpo. “Fui moço, dizia Davi, e agora sou velho, e nunca vi o justo abandonado nem os seus filhos mendigando o pão”.

Dizendo que os bens temporais nos serão dados por acréscimo, Jesus nos faz entender que eles não fazem parte da recompensa que merecemos pelas nossas boas obras, cuja medida nos será dada no céu. Esses bens constituem, apenas, um dom liberalmente acrescentado à medida cheia e completa  que havemos de ter na Pátria celestial.

Antes de terminar quero já responder a uma possível pergunta: Sendo muitos os vícios capitais, por que Nosso Senhor Jesus Cristo fala só da avareza, ao menos aqui, nesta oportunidade? Por vários motivos: Primeiramente, o próprio Divino Espírito Santo diz na Bíblia Sagrada: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por causa do qual alguns se desencaminharam da fé e se enredaram em muitas aflições” (1Tim. VI, 10). E ainda: “Não há coisa mais iníqua do que aquele que ama o dinheiro, porque venderia até a sua mesma alma, visto que se despojou em vida das próprias entranhas” (Eclesiástico X, 10). A outra razão é que: enquanto os outros vícios soem diminuir com a idade, a avareza cresce. E ainda podemos dizer que este vício capital, mais do que os demais, engana com pretextos: a necessidade de se  prevenir para o futuro, garantir o sustento dos filhos também para o futuro; é preciso trabalhar etc. A avareza leva muitos a perder a fé, e leva à impenitência final. Vede o exemplo de Judas Iscariotes. Os demais vícios muitas vezes aparecem odiosos e humilham. A avareza alimenta e facilita os demais vícios. Por isso vemos que é por aí que o demônio começa. É o caminho mais fácil que o inimigo de nossa alma encontra para perdê-la.

Infelizmente, não vemos católicos, alguns que se dizem praticantes e comungam frequentemente, e, no entanto, cometem injustiças, têm ódio daqueles que os lesaram nos seus haveres? Quantos ódios nas famílias por causa de heranças! É coisa muito triste!!!

Ó Jesus, concedei-nos a graça de procurar, antes de tudo, o reino de Deus e a sua justiça, para que, usando retamente dos bens da terra, cheguemos, pela prática das virtudes, ao Reino dos Céus. Amém!

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18 agosto, 2018

Coluna do Padre Élcio: “Ide mostrar-vos aos sacerdotes”.

Evangelho do 13º Domingo depois de Pentecostes – São Lucas, XVII, 11-19.

Por Padre Élcio Murucci, 18 de agosto de 2018 – FratresInUnum.com

Aconteceu que, indo Jesus para Jerusalém, atravessava o país da Samaria e da Galileia. Ao entrar numa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos que pararam à distância, e puseram-se a gritar: “Jesus, nosso Mestre, tende compaixão de nós”! Assim que os viu, disse-lhes Jesus: “Ide mostrar-vos aos sacerdotes”. E aconteceu que enquanto eles iam, ficaram curados. Um deles, vendo-se curado, voltou atrás, e glorificou a Deus em alta voz; e prostrando-se por terra, aos pés de Jesus, deu-Lhe graças; e este era samaritano. Então, Jesus perguntou: Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão, pois, os outros nove? Não houve quem voltasse e viesse dar glória a Deus, senão este estrangeiro. E disse-lhe: Levanta-te a vai: tua fé te salvou.

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Como nota o Santo Evangelista, Jesus estava em viagem. Mesmo em viagem, o Salvador espalha o bem por toda a parte. Aprendamos a praticar, como o Divino Mestre, o bem e a caridade, o nosso dever enfim, em todas as circunstâncias da vida, nesta viagem para a
eternidade.

jesus e os dez leprososEstes leprosos são a imagem dos pecadores, como a lepra é a imagem do pecado. Como eles, não deixemos que Jesus passe ao nosso lado, indiferentes aos seus benefícios. Corramos ao Seu encontro para que nos livre da lepra do pecado; não percamos o momento da graça que não sabemos se voltará outra vez. Santo Agostinho dizia: “Temo a Jesus que passa e não volta mais”.

Estes leprosos estavam à porta da cidade, e pararam à certa distância de Jesus, porque lhes era vedado o convívio com os outros homens, a fim de os não contaminarem. (Naquela época, esta doença horrível não tinha cura e era contagiosa. Hoje, graças a Deus, a medicina oferece tratamento, e a doença não progride e deixa de ser contagiosa). Assim com o homem vicioso, atingido pela lepra espiritual, deve-se evitar a convivência, pois não somente o seu exemplo, mas ainda as suas próprias palavras nos trazem o contágio do pecado. É a advertência que nos faz o Apóstolo: “Não vos deixeis seduzir; as más conversações corrompem os bons costumes” (1 Cor. XV, 33).

Caríssimos, observemos que Jesus não curou os leprosos imediatamente, mas ordenou que eles fossem mostrar-se aos sacerdotes. O Salvador quer experimentar a sua fé, obediência e humildade. Segundo a Lei, os sacerdotes deviam verificar e autenticar os casos de cura de um leproso, para lhes restituir os direitos perdidos pela enfermidade.

Ora, aqueles homens não estavam ainda curados; mas, porque tiveram fé, receberam a graça desejada, antes mesmo de se apresentarem aos sacerdotes. Também , a todos nós que contraímos a lepra do pecado, diz  Nosso Senhor Jesus Cristo: “Ide mostrar-vos ao sacerdote”. Ide, confessar-lhe as vossas faltas, mostrar-lhe a vossa consciência em todo o seu lastimável estado, ou seja, mostrar realmente a alma ao sacerdote com uma confissão sincera, humilde e íntegra. Mas o padre da Nova Lei, não somente verifica os casos de cura, como ainda purifica realmente, pelo poder que lhe foi transmitido pelo Divino Mestre (Cf. S. João XX, 21-23). E muitas vezes acontece que, mesmo antes de ajoelhar-se aos pés do confessor, já o pecador está realmente perdoado, porque a contrição perfeita unida ao desejo sincero de confessar-se, só por si é bastante para nos alcançar o perdão. Ao pecador arrependido Deus justifica, pelos merecimentos de Jesus Cristo, antes mesmo da recepção do Sacramento da Penitência. Todavia, não sem relação a ele, porquanto a contrição perfeita já inclui o DESEJO de receber o Sacramento (D. 725, 807, 898). Por analogia com o Batismo, diz o Mons. Penido, observam os teólogos que tal voto nem sempre é necessariamente EXPLÍCITO.

E aconteceu que, enquanto eles iam, ficaram curados. Mas apenas um deles, por sinal um samaritano, voltou para agradecer a Jesus. Este homem, habitante dos confins da Samaria, tinha-se juntado aos leprosos de Israel, vencendo as repugnâncias de raça e de religião. A desgraça tinha-os unido, tinha derrubado o muro que existia entre eles. Mas, desde que se viram livres daquele açoite, os nove judeus já não viram no samaritano mais que o inimigo de seu povo. Separaram-se dele e seguiram o seu caminho. Ele, entretanto, vinha agradecer ao seu benfeitor. “Como? – exclamou Jesus. “Então não foram dez os curados? Não houve quem voltasse para dar graças a Deus a não ser este estrangeiro?” Esta reflexão respira profunda tristeza, que as palavras “este estrangeiro” ainda mais acentuam. Aquele incidente era como que o resumo de toda a Sua missão. Prodigalizara a mãos cheias os seus benefícios a Israel, e seu povo O rejeitava. Uns dias depois, talvez os mesmos que tinham sido curados figurassem entre a turba frenética que reclamava a sua morte. Consola-O o samaritano, símbolo de todos os filhos da gentilidade, que haveriam de receber com fé e reconhecimento o benefício da redenção. Basta lermos o que o mesmo São Lucas escreve nos Atos dos Apóstolos.

Disse Jesus ao samaritano adorador agradecido: “Levanta-te e vai: que a tua fé te salvou”. Também os outros nove deveram a sua cura à fé com que obedeceram à determinação do Divino Mestre, ma só este estrangeiro agiu conforme a sua fé e segundo as suas inspirações; só este voltou a dar graças e a proclamar bem alto o nome do seu Salvador. Por isso só foi louvada a fé deste samaritano. Os Santos Padres dão ainda uma outra explicação a estas palavras de Jesus: A tua fé te salvou: A sua fé valeu-lhe, ao mesmo tempo, a cura do corpo e a justificação espiritual. Além disso, esta gratidão mereceu-lhe a graça especial, não só de renunciar ao cisma dos Samaritanos, mas também de abraçar a religião de Nosso Senhor Jesus Cristo e de publicar as maravilhas de misericórdia de que acabava de ser objeto. Entretanto, os outros nove, como comenta São Beda, depois de também, pela sua fé, terem obtido a cura, perderam-se contudo pela sua ingratidão.

Pela gratidão deveria todo homem pensar sempre nos benefícios recebidos de Deus, deveria agradecer ao benfeitor e fazer bom uso dos seus dons. Pois bem, o homem ingrato, em lugar de recordar as graças que recebeu de Deus, esquece-as; em lugar de as agradecer a Nosso Senhor, desconhece que as recebeu d’Ele, e, às vezes até as atribui a si; em lugar de as empregar em servi-Lo, abusa delas para O ofender. “A ingratidão, diz S. Bernardo, é inimiga da alma, a destruição dos seus merecimentos, a ruína das suas virtudes e a perda dos benefícios que ela tinha recebido…, é um vento abrasador que seca a fonte dos dons celestiais, da piedade, do orvalho da misericórdia”. E no mesmo sermão o santo doutor diz que a ingratidão é a corrupção do coração, que priva das primeiras graças e obsta às segundas, porque, o ingrato merece perder o bem que possui, e não merece obter o que lhe falta. E eis o que diz a Sagrada Escritura: “Isto diz o Senhor Deus: Visto que te esqueceste de mim, e me lançaste para trás das costas, carrega tu também com a tua maldade…” (Ezequiel, XXIII, 35).  Em Oséias I, 6 , Deus mostra qual o castigo reservado ao povo ingrato de Israel: “…Eu não me tornarei mais a compadecer da casa de Israel, antes os esquecerei inteiramente”. Terrível castigo!!!

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, tenhamos fé nas palavras do Divino Mestre: “A quem perdoardes os pecados, serão perdoados… Ide, mostrai-vos ao sacerdote”. Façamos com humildade, sinceridade e fé as nossas confissões e saibamos dar ações de graças à Misericórdia infinita de Nosso Divino Salvador. Amém!

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11 agosto, 2018

Coluna do Padre Élcio: “Amarás o Senhor, teu Deus, e o próximo como a ti mesmo”.

Evangelho do 12º Domingo depois de Pentecostes – S. Lucas X, 23-37.

Por Padre Élcio Murucci, 11 de agosto de 2018 – FratresInUnum.com

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

O Divino Mestre acabara de dizer aos seus discípulos: “Alegrai-vos por ter os vossos nomes escritos nos Céus!” E um doutor da Lei, para tentar a Jesus, perguntou-Lhe: “Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?” Que pergunta importante, capital! No entanto, o doutor da Lei fê-la com má intenção: queria armar uma cilada ao Salvador e esperava obrigá-Lo a dizer algo contrário às tradições recebidas, para assim poder acusá-Lo. “O orgulho, diz São Gregório Magno, é o sinal mais certo da condenação de uma alma”.

Nosso Senhor, Sabedoria infinita, para mostrar a inutilidade da insidiosa pergunta do doutor e a sua má fé, coloca-o na obrigação de ser ele mesmo, doutor da Lei, a dar a resposta: “Vós, doutor da Lei, encarregado de explicá-la aos outros, dizei-me, que está escrito na Lei? Como ledes vós”?

Caríssimos e amados irmãos, prouvera a Deus que antes de fazer ou empreender qualquer coisa, perguntássemos a nós mesmos: “Que está escrito na Lei de Deus e da Santa Igreja”? Quais são os meus deveres de estado diante de Deus? Evitaríamos, sem dúvida, muitas faltas!

Mas voltemos ao doutor da Lei. Este escriba não teve mais que repetir os dois preceitos fundamentais que Moisés tinha dado aos Israelitas: “Amarás o Senhor, teu Deus, e o próximo como a ti mesmo”. Fê-lo como quem conhece a sua cartilha, e merece a felicitação de Jesus. Mas sentia-se humilhado; necessitava justificar a sua atitude diante do público. – Amar o próximo, está bem; isso já todos nós sabíamos. “Mas quem é o meu próximo”?

De Jericó a Jerusalém é um terrível deserto. É uma subida abrupta, montanhosa, acidentada, ladeada de barrancos, uma subida de uns trinta e oito quilômetros,  cujos extremos apresentam uns mil metros de desnível. Jericó é um oásis, a cidade mais antiga do mundo (várias vezes reconstruída) e também a mais baixa do mundo, a 340 metros abaixo do nível do mar. Pois bem, Jesus situa a sua parábola do bom Samaritano neste cenário.

Nosso Senhor Jesus Cristo, a Sabedoria eterna, graças a uma inexcedível mestria, vai obrigar o legista a confessar uma coisa que parecia um absurdo na boca de um doutor da lei. “Israelita que matar um pagão, dizia o Talmud – não merece a morte, porque o pagão não é próximo” E um samaritano? Os judeus tinham um ódio e desprezo profundos por eles. Tanto assim, que, quando os doutores do templo quiserem exprimir todo o ódio que tinham a Jesus, chamar-lhe-ão samaritano.

Contada a parábola, só faltava tirar a moral da história: – “Qual dos três, perguntou Jesus ao doutor, é, na tua maneira de ver, o próximo daquele que caiu na mão dos ladrões? Não havia dúvida possível, mas o escriba absteve-se, com muita habilidade, de pronunciar o nome odioso: – “O que se compadeceu dele -responde” – “Então vai, exclamou Jesus secamente – e faze tu o mesmo”. Como se dissesse: Tem presente Sr. doutor da lei, que a lei da caridade deve-se observar em relação a todos: judeus e pagãos, descendentes de Abraão e samaritanos. Jesus não se quer limitar a oferecer uma descrição bonita ou a dar uma lição teórica: “Faze tu o mesmo”. Na verdade a ideia não tem valor nenhum se não se transforma em vida. Faze tu o mesmo, ainda que se trate de um infiel, de um inimigo, de um samaritano.

A parábola do bom Samaritano é o quadro mais belo e mais perfeito que se poderia fazer do amor do próximo. O Samaritano vê um homem por terra, mortalmente ferido. Para ter o amor do próximo, para praticar esta virtude, é preciso primeiro ver, não desviar os olhos da miséria que se nos apresenta. Não basta; é preciso ainda saber ver, deter-se um instante no caminho, considerar e compreender os males alheios, e não fazer como o sacerdote e o levita, que viram e passaram. Depois é preciso ter compaixão, aproximar-se, pelo coração, daqueles que sofrem, não limitar-se a uma compaixão estéril, mas imitar o Samaritano, dar como ele, em favor do próximo, tempo, dinheiro, trabalho, a sua própria pessoa, em uma palavra, dedicar-se como uma boa mãe.

Caríssimos, a parábola do Samaritano tem ainda uma explicação que lhe deram os Santos Padres, e que não convém deixar em silêncio. Explicam eles: – O homem que caiu em poder dos ladrões, é o pecador abandonado, semi-morto, na estrada da vida, moralmente ferido pelo demônio em suas faculdades naturais, e por ele despojado dos bens sobrenaturais. O sacerdote e o levita que passam sem socorrê-lo, é a Sinagoga tão somente preocupada com a leitura da Santas Escrituras, lendo-a sem compreendê-la, estudando-a sem praticá-la. O Samaritano, é Nosso Senhor Jesus Cristo que desce da Jerusalém celeste e atravessa a terra coberta de demônios que invadiram a criação inteira. Jesus viu a humanidade despojada da graça e semi-morta, teve compaixão do seu
estado, aproximou-se, e, abrindo o vaso precioso da sua santa Humanidade ferida pelos nossos crimes, dele tirou o óleo das suas lágrimas e o vinho do seu sangue, para curar-lhe as chagas. Depois, tomou nos braços o pobre pecador, o fez subir à sua própria cruz, e o conduziu à hospedaria que é a sua Igreja. Passou à cabeceira do enfermo uma primeira noite, e, no dia seguinte, na manhã da sua ressurreição, chamou o estalajadeiro, os ministros da Igreja, e lhe disse: Cuidai bem desse enfermo. Eis aqui dois dinheiros – o Evangelho e os Sacramentos; com esses recursos cuidai do seu completo restabelecimento e, quando voltar – no dia do juízo – então te pagarei todo o restante do vosso trabalho.

Terminemos com uma oração de Santa Catarina de Sena: ” Ó Cristo, doce Jesus, concedei-me esta santa caridade a fim de perseverar no bem e de jamais me afastar dele, pois quem possui a caridade está fundado em Vós, rocha viva e, segundo os Vossos exemplos, aprende de Vós a amar o seu Criador e o seu próximo. Em Vós, ó Cristo, leio a regra e a doutrina que me convém guardar, porque Vós sois o caminho, a verdade e a vida; lendo em Vós, poderei seguir o caminho reto e atender somente à honra de Deus e à salvação do próximo”. Amém!

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4 agosto, 2018

Coluna do Padre Élcio: Como é difícil a salvação de um surdo-mudo espiritual!

Evangelho do 11º Domingo depois de Pentecostes – São Marcos, 7, 31-37

Por Padre Élcio Murucci, 4 de agosto de 2018 – FratresInUnum.com

“Naquele tempo, saindo Jesus da região de Tiro veio por Sidon ao mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. E trouxeram-Lhe um surdo-mudo e Lhe rogaram impusesse as mãos sobre ele. Jesus, tomando-o dentre o povo, de parte, pôs os dedos em seus ouvidos e tocou-lhe a língua com a saliva. Depois, ergueu os olhos para o céu, suspirou, e disse-lhe: Ephphetha, isto é, abre-te. E imediatamente se lhe abriram os ouvidos e se lhe soltou a prisão da língua, e ele falou retamente. Então, Jesus lhes ordenou que a ninguém o dissessem. Não obstante, quanto mais o proibia, tanto mais o divulgavam, e mais admirados diziam: Ele tudo tem feito bem; fez os surdos ouvirem e os mudos falarem”.

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

ephphetaA Santa Madre Igreja propõe hoje, para nossa meditação e ensinamento, a cura do surdo-mudo.

A primeira coisa que devemos observar é que na administração do santo Batismo o sacerdote faz quase os mesmos gestos de Jesus e pronuncia a mesma palavra “ephphetha”, que significa: abre-te. Estas cerimônias no Batismo significam que os cristãos devem ter os ouvidos sempre abertos para a palavra de Deus. É pela pregação que vem a fé: “Fides ex auditu”, como diz S. Paulo. É pela audição da Palavra de Deus que o cristão alimenta a sua fé logo tenha chegado ao uso da razão. Esta mesma fé deve ser confessada externamente. Em outras palavras: pelo santo Batismo, o ouvido da nossa alma abriu-se à fé e a língua aos louvores de Deus, Nosso Senhor. Tornamo-nos capazes de ouvir a voz da fé, a voz externa dos ensinamentos da Igreja e a voz interior do Divino Espírito Santo. Os nossos lábios devem sempre estar abertos para a oração, para a adoração de Deus e para fazer sempre bem feita a confissão.

Devemos observar também que, ao fazer este milagre, diferentemente de muitos outros milagres, Jesus não se contenta só em dizer: fica curado! Não, aqui o Divino Mestre faz vários gestos: retira o surdo-mudo dentre a multidão e o leva à parte; põe o dedo em seus
ouvidos; toca-lhe a língua com o dedo molhado na saliva; ergue os olhos para o céu; suspira e diz: “ephphetha”, abre-te.

Jesus não faz nada inútil. Se assim agiu ao realizar a cura do surdo-mudo, é porque há um significado em tudo isto. Na verdade, esta enfermidade natural figura uma outra, muitíssimo mais grave, deplorável e perigosa: a surdez e a mudez espirituais.

Este homem surdo-mudo é a imagem do pecador endurecido que recusa ouvir os preceitos e os conselhos paternais de Deus, e que se cala para não confessar os seus pecados ao ministro das misericórdias do Senhor. Como a confissão é secreta no confessionário, Jesus retira o surdo-mudo do meio da multidão e o toma de parte. Este gesto de Jesus significa também o santo retiro onde a alma fica longe do barulho do mundo e na solidão tem todas as condições para ouvir a palavra de Deus externa e internamente. Diz Deus pelo profeta Oseías, II, 14: “Conduzirei a alma à solidão, e falar-lhe-ei intimamente ao coração”. Deus, na verdade, não se encontra no barulho: “Non in commotione Dominus”, “Deus não está na agitação” (3 Reis, XIX, 11).

Este surdo-mudo representa um grande número de almas pecadoras. Elas não ouvem a palavra de Deus, não sabem mais falar a Deus, isto é, não rezam. Não sabem pedir perdão dos seus pecados, ou seja, não se confessam. São mudas porque são surdas. Como se formou esta surdez?

Pelo barulho do mundo agitado por toda espécie de orgulho, avareza e  luxúria. São como uma estrada aberta a todas as agitações dos transeuntes; endurecida, onde a semente da palavra de Deus não consegue penetrar, ficando assim a mercê dos demônios, que como as aves do céu, vêm e comem a semente. Estas pobres almas, cheias de si mesmas, dos seus pensamentos e da sua ciência, sufocadas pelas preocupações das riquezas e dos prazeres da vida, não querem ouvir a Deus nem aos homens de Deus. E o demônio, que as entretém nesta surdez espiritual, as torna também mudas para que não falem a Deus. Como poderiam elas orar, se não sentem a necessidade da oração? Como
poderiam proferir uma palavra de fé, se não têm pensamentos de fé? Só Jesus as pode curar, só Jesus pode fazer que elas ouçam e falem. É preciso, pois, levá-las a Jesus. O Divino Mestre as tocará com o dedo, isto é, com a graça do Espírito Santo, que é o dedo de Deus; ungindo-as com a sua saliva, lhes dará a sabedoria e o gosto das coisas de Deus. E depois, levantando os olhos para o céu, isto é, orando por elas, pronunciará o Ephphetha, que quer dizer – abri-vos. Jesus por onde passa, vai fazendo o bem: abre as consciências; abre os corações, abre as torrentes de sua graça, e, no último dia, nos abrirá também as portas da eternidade feliz.

Caríssimos e amados fiéis, como é triste o estado de um surdo-mudo!

Jesus suspirou: oh! como é difícil a salvação de um surdo-mudo espiritual!!! Não tem fé porque não ouve a palavra de Deus. Mas, sem a fé é impossível agradar a Deus. Não reza, e, sem oração não se salva. Não se confessa, e, sem confissão não há perdão, porque mesmo havendo arrependimento perfeito, arrependimento este que perdoa no mesmo momento, no entanto ele só assim perdoa se for acompanhado do desejo da confissão, e, se tiver condição de se confessar, o pecador  deverá fazê-lo antes de comungar.  Como o surdo-mudo não podia falar, pediram naturalmente por ele. Assim devemos fazer com relação às almas que desejamos converter. É preciso orar por elas, porque não sabem orar. É preciso levá-las a Jesus, recomendando-as à sua infinita misericórdia. Devemos ter compaixão destes infelizes.

Ó Jesus, meu bom Salvador, suplico-Vos que Vos digneis abrir os meus ouvidos, para que aprenda a vossa santa vontade, soltar a minha língua, para que Vos louve e Vos faça conhecer e amar. Amém!

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29 julho, 2018

Foto da semana.

Sexta-feira, 27 de julho de 2018: O eclipse “Lua de sangue” visto de São Pedro.

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28 julho, 2018

Coluna do Padre Élcio: “O que se eleva será humilhado, e o que se humilha será exaltado”.

Evangelho do 10º Domingo depois de Pentecostes – S. Lucas XVIII, 9-14

Por Padre Élcio Murucci, 28 de julho de 2018 – FratresInUnum.com

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

A Santa Madre Igreja coloca hoje para nossa meditação a parábola do fariseu e do publicano. São Lucas observa de início qual é a finalidade desta parábola: “Disse Jesus esta parábola a alguns que se tinham a si mesmos em conta de justos, e desprezavam os outros.”E, no fim, Nosso Senhor deixou bem claro o ensinamento da mesma parábola: “O
que se eleva será humilhado, e o que se humilha, será exaltado.”

fariseu publicanoPelos gestos e atitudes exteriores e pelas palavras, Jesus mostra as disposições interiores destes dois homens: o fariseu e o publicano. Ambos sobem a encosta do Mória, colina sobre a qual se encontrava o Templo. Vão orar. Entram no pátio dos gentios, o mais espaçoso, o mais concorrido de todos. O fariseu avança em atitude solene, como quem tem consciência do seu próprio valor e da sua importância social. O gesto grave, o andar majestoso, o manto amplo com as largas franjas de filactérias, coalhadas de textos de Moisés. O nosso homem caminha indiferente a todas saudações, chega ao pátio das mulheres, sobe os degraus da grande escadaria de mármore, que conduz ao Átrio de Israel, e pára por fim para dizer a sua oração. Está de pé, empertigado como se houvesse engessado a espinha dorsal, diante de todos, faz o sua oração: “Senhor, dou-vos graças, porque não sou como os outros homens: os outros afora eu, são ladrões, injustos, adúlteros… como este publicano… Jejuo duas vezes por semana, pago os dízimos de tudo o que possuo”. Que singular e estranha oração! Esse homem nada tem que pedir a Deus, não precisa de nada! Basta-lhe contar o bem que faz e o mal que não faz. Nada tem de que se acusar!… Lança os olhos em torno de si, com a satisfação de quem tivesse a consciência alvíssima como a neve, e encontra um publicano, um pecador, um miserável digno de todo o desprezo!

“O publicano, diz Nosso Senhor, pelo contrário, conservando-se à distância, nem ao menos ousava levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo – Meu Deus, tende compaixão de mim que sou um pecador”. Eis, caríssimos irmãos, o reverso da medalha. Colocado no último lugar, em atitude humilde e penitente, o publicano mantém-se longe do santuário, à entrada do pátio das mulheres, trêmulo não vê o que passa no Templo, não conhece o fariseu que ali está, na sua frente, cheio de orgulho e de supostas virtudes. Só pensa em Deus a fim de alcançar misericórdia para os seus pecados. E oprimido pela consciência de suas culpas, repete muitas vezes: “Senhor, tende
piedade deste pecador!”

Na verdade o fariseu não ora. Suas palavras não são mais que um alarde de suas virtudes e um inventário, sem dúvida exagerado, dos vícios dos demais. É possível que seja verdade o que diz: nunca roubou, nem cometeu adultério, nem quebrantou o mínimo ponto da Torah. Mas, deitou tudo a perder: aquela complacência na sua virtude e aquele desprezo pelos outros envenenavam todas as suas obras. Deus não o pôde ver nem ouvir e, pelo contrário, olha com complacência o pobre publicano, que talvez um dia tenha manchado as mãos com a rapina, mas agora entra na casa de Deus arrependido, humilhado, cheio de confusão e vergonha. É o que Jesus nos diz:  – Eu vos asseguro que, ao deixar o Templo, este publicano era mais agradável aos olhos de Deus do que aquele fariseu, porque o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado. Eis o comentário de Santo Agostinho: “Tanto mais agrada a Deus a humildade nas coisas mal feitas do que a soberba nas bem feitas!”

Nem todos os que vão para o Paraíso pregaram o Evangelho aos povos infiéis; nem todos derramaram o seu sangue ou perderam sua vida por amor de Cristo; nem todos têm a estola sacerdotal ou vêm do claustro. Mas todos, sem exclusão de nenhum, devem ter praticado a humildade, porque só será exaltado quem  se houver humilhado. E a razão está bem afirmada pelas palavras inspiradas das Sagradas Escrituras: “Deus resiste aos soberbos e dá a graça aos humildes” (1 S. Pedro V, 5). E S. Gregório escreveu uma palavra que deveria fazer tremer a todos aqueles que não são humildes: “O sinal mais evidente da reprovação é o orgulho”.

Caríssimos, quão necessário será, portanto, termos diante dos olhos o que os autores espirituais dizem sobre o orgulho. Primeiramente, toda a sua aspiração é distinguir-se, dar que falar de si. Assim vai rojar-se ante os grandes da terra; vai adular ignobilmente a multidão e mendigar aplausos. Não mede esforços e, por vezes intrigas, para suplantar um êmulo. Há facilidade de uma salutar vergonha apoderar-se daqueles que são dominados por outros vícios capitais, como a avareza, a luxúria, gula etc. O orgulho, porém, está contente consigo mesmo, não reconhece seus erros, não sente a necessidade de mudar de vida.

Assim, que terrível desregramento é o orgulho, quando, nunca combatido, se desenvolve ao ponto de merecer o nome de idolatria! É realmente idólatra de si mesmo, quem se constitui a si como centro de tudo, quem se compraz na contemplação de suas pretensas qualidades, quem julga severamente seus semelhantes, desprezando-os enquanto se considera superior a todos. Nada pode desiludi-lo; a sua arrogância, a sua néscia presunção inspiram horror a quem dele se aproxima, mas não deixa por isso de comprazer-se em si mesmo. Como o fariseu, nem sente necessidade do auxílio divino, tal é a confiança em seu próprio engenho, em seu talento. Saber que os outros pensam nele, que se preocupam com ele, é-lhe uma espécie de volúpia. Ao ver-se admirado, prezado, sua alegria aumenta, sem, todavia, ficar ainda satisfeito. Quer que todos se submetam a ele; tem sede de domínio, e, para sentir-se contente, deverá impor as leis de sua vontade e os decretos de sua grande inteligência. Em presença dos intelectuais, faz alarde de sua inteligência e habilidades.

O soberbo não procura a verdade, mas sim iludir o próximo com aparências sedutoras, tão preocupado está em agradar ou causar admiração. E é neste sentido que S. Pio X, põe o orgulho como causa do Modernismo. Para chamar a atenção sobre si, para granjear elogios e simpatias do mundo, tem que pregar novidades. Tudo, inclusive o dogma, deve seguir a lei da evolução. E o orgulhoso chega a convencer-se de que ninguém pode divergir do seu modo de pensar. Daí, tem inveja em relação a quem o poderia eclipsar; e sente até mesmo ódio contra quem não o admira, ou recusa submeter-se. O orgulhoso caindo no Modernismo, defende a liberdade religiosa do Concílio Vaticano II, mas não admite que alguém tenha a liberdade de discordar dele, mesmo quando este alguém segue, diante de Deus, os ditames de sua consciência bem formada. O orgulhoso domina os fracos, forçando-os a aceitar-lhe os erros, ou então, insinua-se pelas adulações. Todos os meios lhe convêm, contanto que faça partilhar suas falsas ideias, contanto que seja considerado como um doutor que merece ser ouvido, como um homem hábil, cujos conselhos devem ser seguidos. Desse modo arrasta em seus desvarios muita pobre gente que se deixa fascinar por ele.

Caríssimos, os heresiarcas foram sempre grandes orgulhosos. Na verdade, enfatuado de si mesmo, o orgulhoso, estará sempre na iminência de, a qualquer momento, abandonar a Nosso Senhor Jesus Cristo! Cada um deve dizer consigo mesmo: ainda que eu chegue a ter todas as virtudes, se não tiver a humildade, estou enganado; e, quando me julgo virtuoso, não sou mais que um fariseu soberbo. Jesus, manso e humilde de Coração! Fazei o meu coração semelhante ao vosso! Amém!

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21 julho, 2018

Coluna do Padre Élcio: Não desprezar a graça, porque, um dia, será a última!

Evangelho do 9º Domingo depois de Pentecostes – S. Lucas XIX, 41-47.

Por Padre Élcio Murucci, 21 de julho de 2018 – FratresInUnum.com

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

É o que nos ensina o santo Evangelho de hoje: Não desprezar a graça, porque, um dia, será a última!

Jesus bate a portaTrata-se da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. A última visita do Salvador a esta cidade, pois, naquela semana vai ser preso, condenado, sofrer e morrer numa cruz. Em Jerusalém, os inimigos do Salvador ouvem falar com desgosto do milagre da ressurreição de Lázaro, que é o assunto de todas as conversas, e que atrai tanta consideração Àquele cuja glória os ofusca; exaspera-os o contentamento que mostram os admiradores de Jesus, e sua diligência em sair da cidade para ir ao seu encontro. Há também os indiferentes, entregues aos negócios ou prazeres; estes ligam pouco importância às questões religiosas, quase não prestam atenção a tudo o que se diz.

Fora de Jerusalém, há numerosos grupos, que manifestam à porfia seu respeito e amor para com o glorioso filho de Davi que passou fazendo o bem. Imaginemos o contentamento dos Apóstolos, porque, afinal, se faz justiça ao seu bom Mestre; ei-Lo agora honrado como merece. Mas Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja presença causa este contentamento e a quem se dirigem todos estes cantos de triunfo, só Ele descobre um motivo de tristeza nestas aparências lisonjeiras. E, assim, vendo a cidade de Jerusalém, chora.

Caríssimos, Jesus chora sobre a cidade que vai crucificá-Lo, e nós sabemos que Ele anseia ver chegar a ocasião, em que nos há de batizar no seu sangue. Qual é a causa destas lágrimas, se Ele deseja a cruel morte, que se seguirá ao seu triunfo, dentro daquela mesma semana? É que este terno e generoso amigo ama os seus sofrimentos, porque nos salvam; mas os nossos males é que Lhe arrancam tantas lágrimas. Caríssimos, será que este amor e estas lágrimas não nos comoverão?

O Filho de Deus, lembrando-se de tudo o que fez pela cidade culpada, e do que ela vai fazer para encher a medida dos seus crimes, não se contenta com chorar sobre ela; mas para nos instruir, quer que todos conheçamos a causa das suas lágrimas. Jesus aflige-se porque prevê o novo abuso que Jerusalém vai fazer das suas graças, não se aproveitando desta última visita: “Se ao menos neste dia, que te é dado, conhecesses ainda o que te pode trazer a paz! Mas agora tudo isto está encoberto aos teus olhos! Porque virá um tempo funesto para ti: no qual teus inimigos te cercarão de trincheiras e te sitiarão; e te apertarão por todos os lados: e te arrasarão, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo da tua visita”. Não conclui: suas lágrimas, seu silêncio dizem o resto. Caríssimos, não há pecador que não possa voltar para Deus, mas é mister que queira. Si se obstina, os dias de ira substituirão os dias de misericórdia. Que pensar do réu, que despreza seu juiz, ainda quando este, chorando, parece dizer-lhe: “Evitai-me a dor de vos condenar, porque bem vedes que vos amo?”

E ainda não terá passado o tempo da misericórdia para aquele povo de Jerusalém? Não, mas passará brevemente; não falta senão um dia! E, caríssimos, uma vida inteira, comparada com a eternidade, não é mais do que um dia! Se durante este dia favorável, se diante desta graça definitiva, Jerusalém, abrindo finalmente os olhos à verdade, recebesse o seu libertador com a mesma boa vontade que a gente que formava seu cortejo; se todos os seus habitantes concorressem, como deviam, a esta ovação, o triunfo de Jesus teria sido completo. Ele manifestaria sua alegria, em lugar de derramar lágrimas. Mas, como profetizou Jesus: “Isto está encoberto aos seus olhos!”. Não pode haver castigo maior neste mundo do que este: a cegueira espiritual advinda do orgulho que não quer reconhecer a verdade! Jerusalém obstinara-se e endurecera-se. Não quer ver nem os bens que perde, nem os males que atrai sobre si, nem os crimes que cometeu, nem o que viria a cometer. Na verdade, deixou passar o tempo da salvação. Todos os castigos preditos por Jesus caíram sobre aquela cidade. No ano 70, Tito, imperador romano, sitiou e destruiu inteiramente Jerusalém. Basta lermos o que o historiador judeu Flávio Josefo nos descreve minuciosamente. E é este judeu renegado que nos diz que, uns meses depois da catástrofe, o imperador Tito, ao voltar do Egito para a Palestina, passou por Jerusalém “e, ao comparar a triste solidão que substituíra a antiga magnificência, deplorou o desaparecimento daquela grande cidade e, longe de se desvanecer por a ter destruído, apesar da sua fortaleza, como teria feito qualquer outro, maldisse os culpados que haviam iniciado a revolta e provocado aquele espantoso castigo”.

Mas isto era apenas o castigo material; pensemos nos castigos espirituais. Caríssimos, compreendei pelas lágrimas de Jesus, a desgraça da impenitência, a desordem das paixões, a malícia do pecado, a loucura das alegrias mundanas, a profanação dos templos, mas compreendei, outrossim, a caridosa compaixão do Coração de Jesus Aprendei desta profunda aflição a sua excessiva ternura para com todos os homens, e quanto lhe é dolorosa a perdição dos pecadores.

Supliquemos ao Divino Redentor a graça de chorar com Ele a triste sorte daquelas almas que Ele ama até morrer para as salvar, e que não salvará, nem mesmo morrendo por elas! Rezemos e façamos penitência pela conversão dos pecadores, porque Nossa Senhora ensinou em Fátima que muitos se condenam porque não há quem reze e faça penitência por eles.

Caríssimos, para todos nós, haverá também a última visita de Jesus, a graça definitiva. E profundamente tocados, meditamos nestas palavras de Santo Agostinho: “Timeo Jesum transeuntem et non redeuntem”, “Temo a Jesus que passa e não volta mais”. Deus nos faz diversas visitas na vida, visitas mais marcantes que aquelas que recebemos d’Ele todos os dias. Por exemplo: é a primeira comunhão, é a época do casamento ou, seguindo a vocação especial de Deus, a entrada para o seminário, o dia da ordenação sacerdotal, ou da profissão para os religiosos. Pode ser também um revés na fortuna, uma doença, a perda de um amigo, de um parente. É uma missão, um retiro espiritual, uma peregrinação, um sermão ou artigo tocante, ou mesmo uma possante moção interior da graça às vezes até sem causa exterior aparente. Caríssimos, felizes aqueles que sabem reconhecer este tempo da visita do Senhor! Sua salvação está assegurada; pois, ela dependia desta graça particular e que não ficou vã, mas foi aceita com generosidade. Assim foi a aparição da estrela para os Reis Magos! Por outro lado, quão infelizes aqueles que não reconhecem Jesus quando Ele vem a eles, quando Jesus bate a porta de seus corações e eles não Lha abrem e até o rejeitam como um estranho que nunca teriam visto. E Jesus passa adiante, e, algumas vezes, não volta mais; foi aquela a última visita, o último recurso de sua misericórdia. Não mais as graças de escol, não mais os apelos prementes, não mais os convites tocantes. O pecador se endurece, e se afunda mais e mais no mal. Seu coração ficou duro e frio como granito. Seus olhos se obscureceram. Não vê e nem gosta mais do bem! Ó que estado lastimável, que faz chorar a Jesus e aos seus fiéis ministros!!! O que Jesus disse a respeito de Jerusalém, com certeza diz em relação a tais pecadores que rejeitam suas graças: “Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes Eu quis juntar teus filhos como a galinha recolhe debaixo das asas os seus pintainhos e tu não quiseste!” (S. Mateus XXIII, 37).

Oh! amantíssimo Jesus, fazei-me compreender que a verdadeira paz não consiste nem devo procurá-la na ausência de dificuldades, na condescendência com os meus desejos, mas na total adesão à Vossa vontade e na docilidade às inspirações do divino Espírito Santo! Amém!

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