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8 maio, 2014

Roncalli em debate (II). Roberto de Mattei mantém sua posição – Um Papa “imprudente” que “traiu seu Concílio”.

Entrevista do Prof. Roberto de Mattei a Mauricio Crippa, publicada em “Il Foglio” de 26 de abril de 2014

Em uma recente entrevista ao mensário “Catholic Family News”, o senhor sustentou que em matéria de canonizações a Igreja não é infalível, e que, portanto, a de Roncalli é legitimamente criticável, porque o pontificado de João XXIII representou um “objetivo dano à Igreja”. Isto resume em poucas palavras a questão da infalibilidade?

João XXIII na "sedia gestatória"

João XXIII na “sedia gestatória”

A canonização de um Papa implica a sua santidade não só na vida privada, mas também na vida pública, ou o exercício heróico da virtude no múnus que lhe é próprio, o de Sumo Pontífice. Como autor de uma história do Concílio Vaticano II, estudei o breve pontificado de João XXIII, de 28 de outubro de 1958 até sua morte em 3 de junho de 1963, e estou convicto de que ele não exerceu de modo heróico a virtude cristã, a começar pela virtude da prudência. Isto põe naturalmente um problema. Alguns tradicionalistas pretendem resolver a questão de maneira simplista: uma vez que João XXIII não foi um bom Papa e é canonizado, isto quer dizer que quem o canoniza hoje não é verdadeiro Papa. Estou muito distante desta posição. A infalibilidade das canonizações é uma tese majoritária entre os teólogos, mas não é um dogma de fé, e a opinião contrária pode ser legitimamente admitida. Ao contrário, é dogma de fé que não pode haver contradição entre a fé e a razão. Uma análise objetivamente racional dos fatos demonstra a falta de heroicidade de virtude do Papa Roncalli. Se, por fideísmo, eu devesse negar aquilo que a razão impõe, abalarei as bases racionais de minha fé. Mantenho, portanto, em boa consciência, as minhas dúvidas e as minhas perplexidades sobre a canonização de João XXIII.

O Padre Lombardi, na sua conferência de imprensa de 22 de abril, declarou que negar a infalibilidade das canonizações significa acreditar que os Papas canonizados estejam no inferno.

Creio que isso foi uma brincadeira do Pe. Lombardi. É óbvio que não ser elevado à glória dos altares não significa que se vá para o inferno. Caso contrário, deveríamos crer que pouquíssimos Papas, e menos ainda fiéis, se salvam! Só Deus conhece a sorte das almas após a morte. O que ponho em dúvida não é a salvação eterna de João XXIII, mas a heroicidade de suas virtudes no governo da Igreja. Acrescento que negar a infalibilidade das canonizações não significa afirmar que elas são geralmente falsas ou erradas. Acredito, ao contrário, que a Igreja não erra quando proclama os santos e os beatos, mas que pode haver casos concretos excepcionais, que não contradizem a regra. E hoje vivemos um momento excepcional da história da Igreja. 

O objetivo “dano à Igreja” causado pelo Papa Angelo Roncalli, do qual o senhor falou na mencionada entrevista ao “Catholic Family News”, resume-se na sua opinião somente no fato da convocação do Concílio Vaticano II, com o que resultou daí para a Igreja universal, ou há outros? Alguns dias atrás, no “Corriere della Sera”, o filósofo americano Michael Novak, não propriamente um católico progressista, desenhou um perfil lisonjeiro da santidade pessoal de Roncalli, sublinhando que “a força espiritual do Papa João era uma constante em sua vida e foi sentida pelos Padres Conciliares também durante a Segunda sessão do Concílio, após o seu desaparecimento.” E seu trabalho anterior, como diplomata do Vaticano, é geralmente apreciado pelos historiadores. Ou mesmo a Pacem in Terris – a encíclica de 1963 que trata de temas por assim dizer não doutrinários, mas de natureza histórico-política –, em um momento crucial da conjuntura geopolítica, com a volta da Guerra Fria, deve ser contada entre os “danos objetivos” do pontificado?

Deixemos de lado a “santidade pessoal” de Roncalli, sobre a qual eu me permito ter sérias dúvidas, e comecemos a partir do Concílio Vaticano II. A convocação de uma assembleia de tão vasto porte era uma decisão de longo alcance que não podia ser tomada açodadamente, mas pressupunha profunda reflexão e ampla consulta. Isso aconteceu quando Pio IX decidiu convocar o Concílio Vaticano I e quando Pio XI e Pio XII haviam examinado a possibilidade de retomar o trabalho, mas depois ambos resolveram abandonar o projeto. O mesmo, porém, não aconteceu com João XXIII, que anunciou inesperadamente a convocação do Concílio, apenas três meses após sua eleição, sem falar com ninguém. Ele estava portanto convencido de que o Concílio resolveria, em poucos meses, alguns problemas puramente pastorais. “No Natal poderemos concluir”, disse ele ao Cardeal Felici às vésperas da abertura. Isso mostra, no mínimo, uma falta de tino na previsão .

O Concílio Vaticano II se revelou depois, além das intenções do Pontífice, uma catástrofe objetiva em muitos campos. Cinjo-me a citar um: a falta de condenação do comunismo. Um Concílio que pretendia ser pastoral silenciou sobre a questão mais dramática de sua época: o imperialismo soviético, que ameaçava o mundo. Enquanto Moscou instalava seus mísseis em Cuba e o Muro de Berlim era erguido no coração da Europa, o Papa João XXIII, no verão de 1962, através do cardeal Tisserant, concluiu um acordo com o Patriarcado de Moscou, comprometendo-se a não falar do comunismo no Concílio. A última encíclica do Papa João XXIII, Pacem in Terris, de 9 de abril de 1963, abriu as portas para uma colaboração entre católicos e comunistas. Ela foi publicada no dia seguinte à audiência pessoal concedida pelo Papa a Alexej Adjubei, diretor do “Izvestia”, mas sobretudo genro de Kruchev e seu embaixador privado. Esta reunião não levou a qualquer conclusão substancial, mas teve um impacto extraordinário na mídia. Na Itália, as eleições de 28 de abril de 1963 viram um forte avanço do Partido Comunista e um declínio igualmente significativo dos democrata-cristãos. Para os comunistas, o Papa João era o “Papa bom” e o Vaticano II era identificado como o “Concílio da Paz”. Tampouco neste caso me parece que João XXIII tenha praticado heroicamente a virtude da prudência. E, no caso das canonizações, as virtudes heróicas devem ser todas, não podendo ser escolhidas de forma seletiva.

Existem outros elementos que possam, na sua opinião, afetar a santidade do Papa João XXIII?

Em seu pontificado, o Papa João XXIII não demonstrou grande espírito sobrenatural. Lembro dois episódios.

O primeiro é a sua recusa de fazer conhecer ao mundo o Terceiro Segredo de Fátima, apesar dos pedidos de Nossa Senhora à Irmã Lúcia. João XXIII tomou conhecimento dele no verão de 1959, mas preferiu não divulgá-lo. O Papa Roncalli decidiu adiar a difusão do texto, porque havia um forte contraste entre a Mensagem apocalíptica de Fátima e o otimismo com que ele estava prestes a inaugurar o Concílio Vaticano II.

O segundo episódio é a incompreensão pela figura espiritual do Padre Pio de Pietrelcina, mais tarde beatificado e canonizado por João Paulo II. O Padre Pio sofreu no decurso de sua vida inúmeras incompreensões e calúnias, pelas quais teve que passar por investigações canônicas humilhantes. Entre elas esteve a que foi promovida pelo Papa João XXIII, quem enviou, de 13 de julho a 2 de outubro de 1960, como visitador apostólico a San Giovanni Rotondo, Mons. Carlo Maccari, então secretário do Vicariato de Roma. Esse período será lembrado como aquele da mais dura perseguição contra o santo de Pietrelcina. João XXIII nunca entendeu a santidade do Padre Pio.

O Cardeal Siri lembra de uma piada que João XXIII fez quando ele foi eleito: “Eu de questões doutrinárias não me ocuparei, porque Pio XII já fez tudo.” Segundo o senhor, ele não cumpriu esse compromisso? Neste caso, o que “mudou” de essencial na doutrina católica?

Essa piada me lembra a do Papa Francisco, segundo a qual ele jamais entendeu o termo “valores não negociáveis​​”. São frases perigosas, porque parecem acreditar num primado da praxis sobre a doutrina. João XXIII não modificou a doutrina católica, mas a prática pastoral. Porém, a modificação da praxis comporta inevitavelmente uma alteração da doutrina.

Uma prova disso é o relatório do cardeal Kasper no último Consistório extraordinário. A tese de Kasper é a de que, uma vez que no tema dos divorciados recasados existe um abismo entre a doutrina da Igreja e a prática da moral dos católicos, é necessário adaptar a doutrina ao comportamento hoje difundido.

Este princípio de adaptação da prática está resumido no discurso Gaudet Mater Ecclesiae, com o qual em 11 outubro de 1962 o Papa João XXIII abriu o Concílio Vaticano II.

Um aspecto sempre silenciado de Roncalli é, por exemplo, que apesar de progressista, ele acreditava firmemente na centralidade do latim na liturgia forjada sobre o canto gregoriano. Sua Constituição Apostólica “Veterum Sapientia” de 1962, sobre estes temas, devem agradá-lo. Então, o que aconteceu? E se, ao contrário do que repetem os “bolonheses” (grosso modo: o Concílio de Roncalli “traído”, num sentido antiprogressista, por Montini), tivesse sido o oposto? O Concílio “pacelliano” traído em seguida pelos progressistas?

Sem ser um conservador, João XXIII tinha indubitavelmente uma sensibilidade conservadora e não gostava da reforma litúrgica que Mons. Aníbal Bugnini já havia começado a promover no pontificado de Pio XII. A Constituição apostólica Veterum sapientia, de 22 de fevereiro de 1962, constitui uma firme e inesperada resposta aos promotores da introdução do vulgar na liturgia. Nesse documento João XXIII sublinhava a importância do uso do latim, “língua viva da Igreja”, recomendava que as disciplinas eclesiásticas mais importantes deveriam ser ensinadas em latim (no. 5) e que a todos os ministros da Igreja Católica, do clero tanto secular quanto regular, fosse imposto “o estudo e o uso da língua latina”. Com essas medidas João XXIII se mostrava claramente descontente com o caminho tomado pela Comissão litúrgica. Mas depois nada fez para vigiar a aplicação de tal documento, o qual se pode dizer que evaporou no ar.

Em resumo, o senhor retorna ao seu julgamento de no mínimo “imprudência” de Roncalli na abertura e na gestão do processo conciliar. No entanto, do ponto de vista histórico, deve-se notar um aspecto crucial de continuidade com um percurso já iniciado na Igreja e também conduzido pelo Papa Pio XII. É um fato que a Mystici Corporis de Pacelli é considerada a base sobre a qual ele construirá a constituição dogmática Lumen Gentium. E é um outro fato que foi a Divino Afflante Spiritu, do ano 1943, que deu impulso aos estudos histórico-críticos das Escrituras, os quais tiveram tanto papel no Vaticano II e também em certos riscos de ‘protestantização’ do catolicismo. Mesmo a reforma litúrgica que virá com a constituição conciliar Sacrosanctum Concilium foi estimulada por Pio XII, extremamente sensível, como o senhor sabe, à matéria. Então, a ‘”imprudência” de Roncalli não nasceu do nada. Então, o que aconteceu na sua opinião?

É evidente que existe uma continuidade, ou coerência, entre certas idéias já estabelecidas pelo Papa Pio XII e o ponto de partida de Roncalli. E que há continuidade no trabalho de elaboração dos “Esquemas preparatórios” do Concílio. O problema é que tudo isso se interrompe, não “depois” ou na metade do Concílio, mas imediatamente. Quando se fala de “traição” do Concílio, está dito que o que foi traído foi o Concílio preparado pela comissão romana, cujos esquemas de constituição, aprovados pelo Papa Roncalli, foram atirados ao lixo com um verdadeiro golpe de mão, em outubro de 1962, logo após a inauguração da assembléia. João XXIII foi o primeiro a trair o seu Concílio. (Maurizio Crippa em “Il Foglio” de 26-4-2014).

Fonte: Concilio Vaticano Secondo.it | Agradecemos a um gentil leitor de Fratres in Unum.com pela tradução fornecida.

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8 maio, 2014

Roncalli em debate (I) – João XXIII: calejado tradicionalista?

Artigo de 2003, escrito por ocasião dos quarenta anos de morte de João XXIII.

Por Vincenzo Sansonetti *

O ano da beatificação (2000) [do Papa João XXIII] constituiu-se em ocasião para uma nova série de rigorosas pesquisas e publicações sobre sua vida e suas obras, depois que lhes faltara, por anos a fio, talvez décadas, um aprofundamento documentado e preciso. Tais estudos, porém, infelizmente, foram logo esquecidos e postos de lado. Cúmplices disso foram também os dois malfadados filmes produzidos para a televisão, nos quais Rai e Mediaset (canais de televisão italianos, um público e outro privado – Nota da Tradução) disputaram para simplificar excessivamente a figura do Papa, alimentando os lugares-comuns a seu respeito, a ponto de inventar pessoas e circunstâncias. Desse modo, neste ano de 2003, o ano em que se celebrou o quadragésimo aniversário da sua morte e da publicação da “Pacem in Terris” (a encíclica que se tornou a mais famosa, não necessariamente o documento mais significativo, de seu pontificado), cobrou vida nova o “partido” de quem usa a seu bel-prazer o Papa Roncalli para sustentar as próprias (bonitinhas) ideias políticas e as próprias (banais) concepções eclesiais.

Gostaríamos, por nossa parte, de ater-nos ao pleno respeito da verdade total e integral. Não é correto, com efeito, criar a posteriori a representação falseada de uma personagem, enfatizando de forma exasperada apenas alguns aspectos de sua biografia – os mais convenientes – e calando, ao contrário, outros – os que, como se diz hoje, seriam menos “politicamente corretos”. Tentemos dar alguns exemplos, fazendo que emerja assim como que um Papa João desconhecido, secreto; na verdade, censurado e esquecido.

A disciplina do clero

No dia 25 de janeiro de 1959, na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, João XXIII não fez apenas o anúncio inesperado da sua intenção de convocar um novo Concílio; comunicou também a iminência de um Sínodo para a diocese de Roma (o Papa tem igualmente a responsabilidade episcopal pela diocese de Roma), que ele dirigiria pessoalmente a partir de janeiro de 1960. Os trabalhos [desse Sínodo diocesano] durariam um ano e chegariam a uma série de conclusões, contidas em 775 artigos, alguns dos quais surpreendentes. Conforme a norma de uma disciplina do clero de tipo tradicional, estabeleceram-se regras muito rígidas para os padres: nenhum sacerdote da diocese de Roma podia frequentar salas de cinema, estádios nem outros locais públicos; era-lhes proibido, também, andar de automóvel com uma mulher, mesmo que se tratasse de sua mãe ou de uma irmã; recomendava-se-lhes sobriedade na alimentação e preceituava-se como obrigatória a veste talar.

Hoje, em vez disso, temos de aguentar franciscanos na discoteca ou como presidentes de jurados de miss, freiras agitadas no estádio, padrecos em companhia de prostitutas (para ajudá-las…, não para convertê-las!), caras largas que são imagem da saciedade, padres, bispos e cardeais de uniforme (não de hábito) tão descuidado que causa náusea… até pelo sentido de irreverência e de profanação do ministério que exercem.

No plano litúrgico, impôs-se o uso do gregoriano, os cantos populares de invenção recente deviam ser aprovados, afastou-se das igrejas toda profanidade, proibindo-se em geral que se promovessem espetáculos e concertos nos edifícios sacros, que neles se vendessem estampas ou imagens e que se tirassem fotografias.
Condenou-se toda criatividade do celebrante, “que levaria o ato litúrgico, que é ato da Igreja, acabar num simples exercício de piedade privada”. O antigo rigor foi estabelecido também com relação aos espaços sagrados, proibindo às mulheres o acesso ao presbitério. Essas normas, a que tanto se apegava o Bem-aventurado João XXIII (hoje São João XXIII – Nota da Tradução), por fim acabaram em letra morta. As conclusões do Sínodo Romano, que deveria prefigurar o Concílio, caíram rapidamente no esquecimento, e o próprio Concílio, onde as vozes “progressistas” prevaleceram até sobre as intenções do Papa, não as citará sequer uma vez, como se não tivessem jamais existido.

Nas igrejas, hoje, não há só horripilantes cantos modernos, privados de qualquer melodia e com um sentido até equívoco, mas baila-se, dança-se, brinca-se, faz-se espetáculo, organizam-se concertos e, sobretudo, aplaude-se qualquer cretinice e até nas circunstâncias menos apropriadas (como diante de defuntos). Vende-se hoje nas igrejas todo tipo de jornais, particularmente a “Família Cristã”, que tanta concorrência faz aos mais sujos periódicos (vencendo-os com frequência em feiura e obscenidade, quer de imagens, quer de temas), uma publicação que nada mais tem de cristã. As fotografias, então, imortalizam amiúde certos beijos hollywoodianos, dados diante do altar por noivos sensuais. As mulheres hoje não só entram no presbitério, não só fazem de coroinhas, mas, novas sacerdotisas de um cristianismo muito paganizante, ficam ao lado do celebrante sobre o altar e têm livre acesso às Hóstias Consagradas, que manuseiam e distribuem com a mais irreverente desenvoltura…

Precisamente Roncalli, quando era Núncio em Paris, não quis ser fotografado em companhia da muito idosa Madre superiora de um convento, porque – afirmava ele – NUNCA, EM MOMENTO ALGUM, um padre deve ladear uma mulher, quem quer que ela seja.

A língua latina na liturgia

A decisão mais importante do Sínodo Romano terá sido talvez a solene confirmação do uso do latim na liturgia, como língua oficial e universal da Igreja. Capítulo espinhoso e inquietante esse do latim, a “língua própria da Igreja, perpetuamente unida à Igreja” (como o definira o próprio João XXIII). Existe uma Constituição apostólica do Papa Roncalli, praticamente desconhecida e ignorada pelas biografias, a “Veterum Sapientia”, o ato mais solene, conforme ele mesmo desejou, do seu pontificado, a ponto de a sua promulgação, aos 22 de fevereiro de 1962, ter ocorrido em São Pedro, em presença do Colégio Cardinalício e de todo o clero romano. A Constituição apostólica, inteiramente dedicada ao estudo do latim, confirmava a continuidade da cultura cristã com a cultura clássica do mundo helênico e romano, porque as letras cristãs são, desde os primórdios, letras gregas e letras latinas. Na sua parte prática e dispositiva, contudo, e não só na seção doutrinal, é que a “Veterum Sapientia” se revela de uma firmeza exemplar. O Papa ordenou aos bispos que vigiassem para que nenhum “inovador” tentasse escrever uma única palavra contra a “língua católica”. A propósito dos estudos eclesiásticos, estabeleceu que se desse o devido espaço ao grego e ao latim, à custa de reduzir as disciplinas do assim chamado currículo leigo; nos seminários, as ciências fundamentais, como a dogmática e a moral, deveriam ensinar-se em latim, seguindo-se manuais escritos em latim, e “quem entre os docentes se mostrar incapaz ou renitente com relação à latinidade, seja removido no seu devido tempo”!

O dissenso no interior da Igreja

Olhando com atenção o pontificado de João XXIII, há outros exemplos de comportamento que poderíamos continuar a definir, com a mentalidade hodierna, como “politicamente incorretos”. Em relação ao dissenso no interior da Igreja, tão vivo naqueles anos, contrastam com o estereótipo do Papa “progressista” que nos fizemos, pelo menos dois episódios. O primeiro foi a censura do Santo Ofício contra o livro de Dom Lorenzo Milani, Esperienze pastorali (Experiências pastorais, seria o título em português – Nota da Tradução), apoiada por Roncalli. Vinte dias antes de sua eleição como Papa, escrevendo ao Bispo de Bérgamo, o então Patriarca de Veneza perguntava: “Vossa Excelência leu a Civiltà cattolica (revista dos jesuítas – Nota da Tradução) do dia 20 de setembro sobre o volume Esperienze pastorali? O autor do livro deve ser um pobre louco que escapou do manicômio. Ai de quem se encontrar com um louco da sua espécie! Eu vi o livro também. Coisas incríveis”. Outra medida foi a advertência do Santo Ofício, publicada aos 30 de junho de 1962 [http://www.paginecattoliche.it/Theilard-Osservatore.htm, ndr] com o consentimento do Papa, contra as últimas obras do discutido teólogo e paleontólogo francês Pierre Teilhard de Chardin, o jesuíta-cientista, falecido em 1955, aos 74 anos: “(O autor) faz mui frequentemente uma transposição indevida”, argumenta-se, “dos termos e dos conceitos da sua teoria evolucionista para o plano metafísico e teológico”. Que levantem a mão os teólogos que têm levado em conta esse juízo referendado pelo Papa “bom”.

Vincenzo Sansonetti. 

Bibliografia:

Vincenzo Sansonetti, Un santo di nome Giovanni, Sonzogno, Milano 2000.
Andrea Tornielli, Vita di un Padre Santo, Gribaudi, Milano 2000.
Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, Formidabili quei Papi, Pio IX e Giovanni XXIII: due ritratti in controluce, con prefazione di Luigi Negri, Ancora, Milano 2000.
(c) Il Timone n. 27, Settembre/Ottobre 2003

*Agradecemos a um gentil leitor de Fratres in Unum.com pela tradução fornecida.

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22 abril, 2014

Entrevista do Prof. Roberto de Mattei ao mensário “Catholic Family News” dos EUA.

Por Catholic Family News | Tradução: Fratres in Unum.com

Professor de Mattei, as iminentes canonizações de João XXIII e de João Paulo II suscitam, por vários motivos, dúvidas e perplexidades. Como católico e como historiador, qual é o seu juízo?

Posso exprimir uma opinião pessoal, sem pretender resolver um problema que se apresenta complexo. Estou em primeiro lugar perplexo, em linha geral, pela facilidade com a qual nos últimos anos se iniciaram e concluíram os processos de canonização. O Concílio Vaticano I definiu o primado de jurisdição do Papa e a infalibilidade de seu Magistério segundo determinadas condições, mas de nenhum modo a impecabilidade pessoal dos Soberanos Pontífices. Na história da Igreja houve bons e maus Papas e é reduzido o número daqueles elevados solenemente aos altares. Hoje tem-se a impressão de que se quer substituir o princípio da infalibilidade dos Papas por aquele de sua impecabilidade. Todos os Papas, ou melhor, todos os últimos Papas, começando com o Concílio Vaticano II, são apresentados como santos. Não é por acaso que a canonização do Papa João XXIII e de João Paulo II tenha deixado para trás a canonização de Pio IX e a beatificação de Pio XII, enquanto avança o processo de Paulo VI. Como se um halo de santidade devesse envolver a era do Concílio e do pós-Concílio, para “infalibilizar” uma época histórica que introduziu na Igreja a primazia da prática pastoral sobre a doutrina.

O senhor pensa, pelo contrário, que os recentes Papas não foram santos? 

Permita-me exprimir sobre um Papa que, como historiador, conheço melhor: João XXIII. Tendo estudado o Concílio Vaticano II, aprofundei-me em sua biografia e consultei os atos de seu processo de beatificação. Quando a Igreja canoniza um fiel, não quer apenas assegurar que o falecido está na glória do Céu, mas também o propõe como modelo de virtude heróica. Dependendo do caso, tratar-se-á de um perfeito religioso, pároco, pai de família, etc. No caso de um Papa, para ser considerado santo ele deve ter praticado virtude heróica no cumprimento de sua missão de Papa, como fizeram, por exemplo, São Pio V ou São Pio X. Bem, quanto a João XXIII, nutro a meditada convicção de que seu pontificado representou um dano objetivo para a Igreja e que, portanto, é impossível falar de santidade quanto a ele. Declarou-o antes de mim, em um célebre artigo na “Rivista di Ascetica e Mistica”, alguém que entendia de santidade, o padre dominicano Inocêncio Colosio, considerado um dos maiores historiadores da espiritualidade nos tempos modernos.

Se, como o senhor pensa, João XXIII não foi um papa santo, e se, como parece, as canonizações são um ato infalível dos pontífices, estamos diante de uma contradição. Não se corre o risco de cair no sedevacantismo?

Os sedevacantistas atribuem um caráter hipertrofiado à infalibilidade pontifícia. O raciocínio deles é simplista: se o Papa é infalível e faz algo de ruim, isso significa que a sede está vacante. A realidade é muito mais complexa e é errada a premissa de que cada ato, ou quase, do Papa é infalível. Na realidade, se as próximas canonizações apresentam problemas, o sedevacantismo coloca problemas de consciência infinitamente maiores.

No entanto, a maioria dos teólogos, e especialmente os mais seguros, os da chamada “escola romana”, sustentam a infalibilidade das canonizações…

A infalibilidade das canonizações não é um dogma de fé: é a opinião da maioria dos teólogos, especialmente depois de Bento XIV, que a expressou, além disso, como doutor privado e não como Sumo Pontífice. Quanto à “Escola Romana”, o maior expoente vivo desta escola de teologia é hoje Mons. Brunero Gherardini. E Mons. Gherardini exprimiu na revista Divinitas, dirigida por ele, todas as suas dúvidas sobre a infalibilidade das canonizações. Conheço em Roma ilustres teólogos e canonistas, discípulos de outro ilustre representante da escola romana, Mons. Antonio Piolanti, que nutrem as mesmas dúvidas de Mons. Gherardini. Eles sustentam que as canonizações não preenchem as condições exigidas pelo Concílio Vaticano I para garantir a infalibilidade de um ato pontifício. A sentença da canonização não é em si infalível, porque lhe faltam as condições da infalibilidade, a começar pelo fato de que a canonização não tem como objeto direto ou explícito uma verdade de fé ou de moral, contida na Revelação, mas apenas um fato indiretamente ligado ao dogma, sem ser propriamente um “fato dogmático”. O campo da fé e da moral é amplo, pois inclui toda a doutrina cristã, especulativa e prática, o crer e o agir humano; mas um esclarecimento é necessário: uma definição dogmática não pode jamais implicar a definição de uma nova doutrina no campo da fé e da moral. O Papa só pode explicitar aquilo que está implícito em matéria de fé e de moral e que é transmitido pela Tradição da Igreja. O que os Papas definem deve estar contido na Escritura e na Tradição e é isso que assegura a infalibilidade ao ato. Tal não é certamente o caso das canonizações. Não é por acaso  que nem o Código de Direito Canônico de 1917 e 1983, nem os Catecismos, antigos e novos, da Igreja Católica, falam da doutrina da Igreja sobre as canonizações. Quanto a este tema, além do estudo de Mons. Gherardini acima mencionado, remeto para o excelente artigo de José Antonio Ureta no número de março de 2014 da revista Catolicismo. 

Considera que as canonizações perderam seu caráter infalível após a mudança no procedimento do processo das canonizações,  desejado por João Paulo II em 1983?

Esta tese é defendida no Courrier de Rome por um grande teólogo, o padre Jean-Michel Gleize. De resto, um dos argumentos nos quais o padre Low, no verbete Canonizações da Enciclopedia cattolica, baseia sua tese da infalibilidade, é a existência de um enorme conjunto de investigações e conclusões, seguido de dois milagres, antes da canonização. Não há dúvida de que, após a reforma do processo desejada por João Paulo II em 1983, este sistema de apuração da verdade tornou-se muito mais frágil e tem havido uma mudança no próprio conceito de santidade. O argumento, no entanto, não me parece decisivo, porque o procedimento das canonizações mudou profundamente ao longo História. A proclamação da santidade de Ulrich de Augsburg pelo Papa João XV em 993, considerada como a primeira canonização papal da História, foi realizada sem qualquer investigação por parte da Santa Sé. O processo minucioso de investigação remonta principalmente a Bento XIV, a quem se deve, por exemplo, a distinção entre canonização formal – de acordo com todas as regras canônicas – e canonização equipolente (ou equivalente), quando um Servo de Deus é declarado santo em virtude de uma veneração secular. A Igreja não exige um ato formal e solene de beatificação para qualificar um santo. Santa Hildegarda de Bingen recebeu após sua morte o título de santa, e o Papa Gregório IX iniciou, no final de 1233, uma investigação com vistas à sua canonização. No entanto, nunca houve uma canonização formal. Nem mesmo Santa Catarina da Suécia, filha de Santa Brígida, nunca foi canonizada. Seu processo desenvolveu-se entre 1446 e 1489, mas nunca foi concluído. Ela era venerada como uma santa sem ter sido canonizada.

O que o senhor acha da tese de São Tomás, retomada ainda no verbete Canonizações do Dictionnaire de Théologie catholique, segunda a qual  se o Papa não fosse infalível numa declaração solene como a canonização, ele enganaria a si mesmo e à Igreja? 

Cumpre primeiro dissipar um equívoco semântico: um ato não infalível não é um ato errado, que necessariamente induz ao erro, mas apenas um ato sujeito à possibilidade de erro. Na verdade, esse erro pode ser raríssimo, ou nunca acontecer. São Tomás, como sempre equilibrado em seu julgamento, não é um infalibilista excessivo. Ele está justamente preocupado em salvaguardar a infalibilidade da Igreja e o faz com um argumento teológico negativo, a contrario. Seu argumento pode ser aceito num sentido amplo, mas admitindo a possibilidade de exceções. Concordo com ele no fato de que a Igreja no seu conjunto não pode errar quando canoniza. Isso não quer dizer que cada ato da Igreja, como um ato de canonização, seja em si necessariamente infalível. O assentimento que se dá aos atos de canonização é de fé eclesiástica, e não divina. Isso significa que o fiel acredita porque aceita o princípio segundo o qual a Igreja normalmente não erra. A exceção não exclui a regra. Um autorizado teólogo alemão, Bernhard Bartmann, em seu Manual de Teologia Dogmática (1962), compara o culto prestado a um falso santo à homenagem prestada ao falso embaixador de um rei. O erro não prejudica o princípio segundo o qual o rei tem verdadeiros embaixadores e a Igreja canoniza verdadeiros santos.

Em que sentido, então, podemos falar de infalibilidade da Igreja nas canonizações?

Estou convencido de que seria um grave erro reduzir a infalibilidade da Igreja ao Magistério extraordinário do Romano Pontífice. A Igreja não é infalível apenas quando ensina de uma forma extraordinária, mas também em seu Magistério ordinário. Mas assim como existem condições de infalibilidade para o Magistério extraordinário, existem condições de infalibilidade para o Magistério ordinário. E a primeira delas é a sua universalidade, que ocorre quando uma verdade de fé ou moral é ensinada de forma consistente ao longo do tempo. O Magistério pode ensinar infalivelmente uma doutrina por um ato definitório do Papa, ou por um ato não-definitório do Magistério ordinário, desde que esta doutrina seja constantemente mantida e transmitida pela Tradição e pelo Magistério ordinário e universal. A instrução Ad Tuendam Fidem, da Congregação para a Doutrina da Fé, em 18 de Maio de 1998 (n.º 2), confirmao. Por analogia, pode-se argumentar que a Igreja não pode errar quando confirma com constância ao longo do tempo verdades relacionadas com a fé, fatos dogmáticos, usos litúrgicos. Mesmo as canonizações podem pertencer a esse grupo de verdades afins. Pode-se ter certeza que Santa Hildegarda de Bingen está na glória dos santos e pode ser proposta como modelo, não por ter sido solenemente canonizada por um Papa, porque no seu caso nunca houve uma canonização formal, mas porque a Igreja reconheceu seu culto, sem interrupção, desde a sua morte. Com maior razão os santos para os quais tenha havido canonização formal, como São Francisco ou São Domingos, a certeza infalível da sua glória deriva do culto universal, em sentido diacrônico, que a Igreja lhes concedeu, e não pelo julgamento da canonização em si. A Igreja não erra em seu magistério universal, mas pode-se admitir um erro da autoridade eclesiástica circunscrito no tempo e no espaço.

Gostaria de resumir a sua opinião?

A canonização do Papa João XXIII é um ato solene do Soberano Pontífice, que emana da autoridade suprema da Igreja e deve ser acolhido com o devido respeito, mas não é uma declaração em si infalível. Para usar linguagem teológica, é uma doutrina não de tenenda fidei, mas de pietate fidei. Não sendo a canonização um dogma de fé, não existe para os católicos uma obrigação positiva de dar-lhe assentimento. O exercício da razão, apoiado por um exame cuidadoso dos fatos, mostra claramente que o pontificado de João XXIII não foi vantajoso para a Igreja. Se eu devesse admitir que o Papa João XXIII praticou de modo heroico a virtude desempenhando seu papel de Pontífice, minaria pela base os pressupostos racionais de minha fé. Na dúvida, atenho-me ao dogma de fé estabelecido pelo Concílio Vaticano I, segundo o qual não pode haver contradição entre fé e razão. A fé transcende a razão e a eleva, mas não a contradiz, porque Deus, a Verdade por essência, não é contraditório. Em consciência, creio que posso manter todas as minhas reservas sobre este ato de canonização.

25 outubro, 2012

O Concílio Vaticano II nas confidências do Papa João XXIII.

A revista “Civiltà Cattolica” publica os diários do padre Roberto Tucci [hoje cardeal] (foto), seu diretor nessa época. Eis aqui o relato das cinco conversas que teve com o papa que convocou o Vaticano II.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada no sítio Chiesa, 23-10-2012. A tradução é do Cepat.

IHU – Há poucos dias, a documentação sobre o Concílio Vaticano II foi enriquecida com um novo texto, de notável valor, e inédito até esta segunda-feira. Trata-se de algumas partes dos diários do cardeal Roberto Tucci, nessa época diretor da revista “Civiltà Cattolica”.

Foi precisamente esta revista dos jesuítas de Roma que, baseando-se em tais diários, abriu seu último número com o resumo dos cinco colóquios que Tucci teve com o Papa João XXIII, entre 1959 e 1962, isto é, entre o anúncio e o início do Vaticano II.

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25 julho, 2011

Vídeo raro: ordenação episcopal por João XXIII.

Raro vídeo de sagração de 8 novos bispos por João XXIII, na basílica de São Pedro, em 1960. Para assistir, clique aqui.

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21 agosto, 2008

Ainda o Irmão Roger Schutz

O Padre de Tanouarn publicou em seu blog um comentário à biografia do Irmão Roger Scthutz, escrita por Yves Chiron. Vale a pena ler o artigo inteiro, do qual traduzimos esse seleto trecho:

Frère Roger, Le Fondateur de Taizé - Yves Chiron

Frère Roger, Le Fondateur de Taizé Yves Chiron

Pode-se dizer que antes de ser católico, Irmão Roger é fascinado pelo gênio do catolicismo. Encontra Pio XII duas vezes, recebe do Cardeal Ottaviani, velho traditionalista da Cúria, a autorização de organizar os primeiros diálogos ecumênicos entre pastores e bispos… A Igreja de Pio XII é mais livre que se fala geralmente. Roger gostou da Igreja de Pio XII, ainda que tenha tomado distância ostensiva no momento da promulgação do dogma da Assunção da Virgem Maria, deixando o seu camarada Max Thurian falar em bom protestante “de papismo” a esse respeito.

Em seguida vem a eleição de João XXIII. Imediatamente são recebidos os dois. O novo papa tem tudo para lhes seduzir. E no entanto, surpresa: Irmão Roger confidenciará ao Padre Congar: Este papa não está longe de ser “suficiente para ser formalmente herético”. O que lhe censura? Ter declarado durante a entrevista que tiveram que a Igreja não possuia toda a verdade e que era necessário “procurar juntos”.

Curioso episódio. Estamos em 1959. Reencontra-se esse espírito “de investigação da verdade”, por exemplo, no parágrafo 3º de Dignitatis Humanae…