Posts tagged ‘Leão XIII’

11 novembro, 2017

Coluna do Padre Élcio: A Santíssima Eucaristia enquanto Sacrifício.

“Em todo lugar é sacrificada e oferecida ao meu nome uma oblação pura” (Malaquias I, 11).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

23. Enquanto sacrifício, esse mistério augustíssimo derrama não somente sobre cada homem, mas sobre todo o gênero humano, uma grandíssima abundância de frutos de salvação; por isso a Igreja costuma oferecê-lo assiduamente pela salvação do mundo inteiro. Convém que todos os piedosos cristãos se esforcem por aumentar cada vez mais a estima e o culto desse sacrifício; e nos nossos dias é isto mais do que nunca necessário. Por isto nós queremos que as suas virtudes múltiplas sejam conhecidas mais perfeitamente e mais atentamente meditadas.

Missa Sacrificio24. Os princípios seguintes são manifestamente reconhecidos pelas luzes naturais da razão: Deus criador e conservador possui sobre os homens, quer a título privado quer sob o ponto de vista público, um poder supremo e absoluto; tudo o que somos e tudo o que temos de bom, individualmente e na sociedade, vem-nos da liberalidade divina: em troca, testemunhar a Deus o maior respeito como ao nosso senhor, e uma vivíssima gratidão como ao nosso principal benfeitor. E no entanto, hoje em dia quantos homens se contam que praticam e observam estes deveres com a piedade que convém? Se jamais houve época que estudasse o espírito de revolta contra Deus é certamente esta, em que de novo reboam mais fortes contra Cristo estes gritos ímpios: “Não queremos que este reine sobre nós” (S. Luc. XIX, 14), e estas palavras criminosas “Arranquemo-lo do meio de nós” (Jer. XI, 19). E há mesmo uns que se encarniçam com impetuosa violência em banir definitivamente Deus de toda sociedade civil e conseguintemente de toda associação humana.

25. Se bem que um tal grau de demência celerada não se manifeste em toda parte, todavia é triste ver quantos esqueceram a divina Majestade, dos seus benefícios e sobretudo da salvação que Cristo nos adquiriu. Mas agora tal perversidade ou tal despreocupação devem ser reparadas por uma reduplicação de ardor de piedade comum para com o sacrifício eucarístico: nada pode honrar mais a Deus nem lhe ser mais agradável. Divina, com efeito, é a vítima que é imolada: por ela, pois, nós tributamos à augusta Trindade toda a honra exigida pela sua imensa dignidade; oferecemos também a Deus Pai um holocausto de valor e de doçura infinitos, seu Filho único; donde resulta que não somente rendemos graças à sua benevolência, mas nos quitamos inteiramente para com o nosso benfeitor.

26. Desse tão grande Sacrifício podemos e devemos recolher ainda um duplo fruto dos mais preciosos. A tristeza invade o espírito de quem reflete nesse dilúvio de torpezas que por toda parte se entornou depois, que, como dissemos, o poder divino foi deixado de lado e desprezado. O gênero humano parece, em grande parte, chamar sobre si a cólera do céu; de resto, essa messe de obras culpadas que se levanta está também madura para a justa reprovação de Deus. Cumpre, pois, excitar os fiéis piedosos e zelosos a se esforçarem por aplacar a Deus que pune os crimes, e por obterem para um século de calamidades socorros oportunos. Saibamos que esses resultados devem ser pedidos sobretudo por esse Sacrifício. Porquanto não podemos satisfazer plenamente as exigências da divina justiça, nem obter em abundância os benefícios da clemência divina, senão pela virtude da morte de Cristo. Ele quis que essa virtude da morte de expiação e de oração ficasse inteira na Eucaristia: esta não é uma vã e simples comemoração da sua morte, mas é a sua reprodução verdadeira e maravilhosa, posto que mística e incruenta.

27. Aliás, apraz-nos declará-lo, grande alegria experimentamos em ver que nestes últimos anos as almas dos fiéis começaram a renovar-se no amor e devoção ao sacramento da Eucaristia, o que nos faz esperar tempos e acontecimentos melhores [ndr. foi o tempo de São Pio X, o Papa da Eucaristia]. Neste intuito, como fizemos notar no início desta Carta, obras numerosas e variadas foram estabelecidas por uma piedade inteligente, especialmente as confrarias, fundadas quer para aumentar o brilho das cerimônias eucarísticas, quer para adorar perpetuamente, dia e noite, o augusto Sacramento, quer enfim para reparar os insultos e as injúrias que a ele são feitos. Todavia, Veneráveis Irmãos, não nos é lícito, nem a vós tão pouco, descansar sobre o que foi realizado: porque muito mais ainda resta por fazer e por empreender para que esta dádiva, de todas a mais divina, receba, daqueles mesmos que praticam os deveres da religião cristã, homenagens mais numerosas e mais esplendentes, e para que tão grande mistério seja honrado o mais dignamente possível.

Conclusão: renovar o antigo fervor.

28. É por isso que cumpre aperfeiçoar com ardor dia a dia mais vigoroso as obras empreendidas, fazer reviver, onde quer que tenham desaparecido, as antigas instituições, e entre outras as confrarias eucarísticas, as rogações ao Santíssimo Sacramento exposto às adorações dos fiéis, as procissões solenes e triunfais feitas em sua
honra, as piedosas genuflexões diante dos divinos tabernáculos, e todas as outras santas e salutaríssimas práticas do mesmo gênero; cumpre-nos, além disso, empreender tudo aquilo que nesta matéria podem sugerir-nos a prudência e a piedade. Mas é preciso sobretudo nos esforçarmos por fazer reviver em larga medida nas nações católicas o uso frequente da Eucaristia. É o que ensinam o exemplo da Igreja nascente, lembrado mais acima, os decretos dos Concílios, a autoridade dos Padres e dos homens mais santos de todas as épocas. Como o corpo, a alma precisa a miúdo de alimento: ora, a Sagrada Eucaristia oferece-lhe o alimento de vida por excelência. E é por isso que mister se faz dissipar os preconceitos dos adversários, os vãos temores de grande número de pessoas, e afastar absolutamente as razões especiosas de se abster da comunhão. Porque se trata de uma devoção que, mais do que qualquer outra, será útil ao povo cristão, já para desviar o nosso século da sua inquieta solicitude pelos bens perecíveis, já para fazer renascer e alimentar constantemente em nossas almas o espírito cristão.

29. Sem dúvida alguma, as exortações e os exemplos dados pelas classes elevadas, mormente o zelo e a atividade do clero, para isso contribuirão poderosamente. Com efeito, os sacerdotes que o Cristo Redentor encarregou de cumprir e de dispensar os mistérios do seu Corpo e do seu Sangue, melhor não podem certamente agradecer-lhe a grandíssima honra que receberam, do que se esforçando para desenvolver com todo o seu poder a glória eucarística de Jesus Cristo, e, consoante os desejos do seu Coração santíssimo, convidar a atrair as almas dos homens às fontes ordinárias de tão augusto sacramento e de tão grande sacrifício”.

(Excerto da Encíclica “MIRAE CARITATIS” escrita pelo Papa Leão XIII em 28 de maio de 1902).

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28 outubro, 2017

Coluna do Padre Élcio: Frutos que se derivam da devoção à Santíssima Eucaristia.

“Vinde a mim, vós todos, que estais oprimidos, e eu vos aliviarei” (S. Mateus XI, 28).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

20. Estes poucos ensinamentos a propósito de um assunto tão vasto serão, não duvidamos, fecundos em frutos de salvação para o povo cristão se, por vossos cuidados, Veneráveis Irmãos, forem em tempo oportuno expostos e recomendados.

Mas esse sacramento é tão grande e tão abundante em toda sorte de virtudes, que ninguém poderá jamais nem lhe celebrar assaz eloqüentemente os louvores, nem por suas adorações honrá-lo como ele o merece. Quer o meditemos com piedade, quer o adoremos nas cerimônias oficiais da Igreja, quer sobretudo o recebamos, com a pureza e a santidade requeridas, deve ele ser considerado como o centro de uma vida cristã tão completa como pode sê-lo; todas as outras modalidades de piedade, quaisquer que sejam,conduzem e vão ter, em última análise, à Eucaristia. Mas é principalmente neste mistério que se realiza e se cumpre cada dia o benévolo convite e a promessa, mais benévola ainda, de Cristo: Vinde a mim, vós todos, que estais onerados, e eu vos aliviarei (S. Mat. XI, 28).

Santa Missa em Ritápolis, MG

21. Esse mistério, finalmente, é como que a alma da Igreja; é para ele que se eleva a própria plenitude da graça sacerdotal pelos diversos graus das Ordens. É nele, ainda, que a Igreja haure e possui toda a sua virtude e toda a sua glória, todos os tesouros das graças divinas e todos os bens: por isso ela consagra os maiores desvelos a dispor e a trazer os espíritos dos fiéis a uma íntima união com Cristo por meio do sacramento de seu Corpo e de seu Sangue; é pelo mesmo motivo que ela procura fazê-lo venerar ainda mais pelo esplendor das suas cerimônias mais santas. A perpétua solicitude desenvolvida a este respeito pela Igreja, nossa Mãe, é magnificamente salientada por uma exortação publicada no santo Concílio de Trento, a qual respira uma caridade e uma piedade admiráveis e merece verdadeiramente que a transmitamos integralmente ao povo cristão: “O Santo Concílio adverte com afeto paternal, exorta, pede e conjura, pelas entranhas da misericórdia de nosso Deus, todos  e cada um dos que trazem o nome de cristão, a se unirem enfim e viverem em boa harmonia nesse sinal da unidade, nesse vínculo da caridade, nesse símbolo de concórdia; a se lembrarem da tão grande majestade e do tão admirável amor de Jesus Cristo Nosso Senhor, que deu sua alma bem-amada como preço da nossa salvação, e que nos deixou seu corpo como alimento; a crerem e a venerarem esses mistérios sagrados do corpo e do sangue de Cristo com uma fé tão constante e tão firme, com uma devoção, uma piedade e um respeito tais, que possam frequentemente receber esse pão supersubstancial, que este seja deveras a vida das suas almas e a saúde perpétua dos seus corações, e que, fortificados por esse alimento, possam, ao sair desta miserável vida, chegar à pátria celeste, onde se nutrirão sem velame desse Pão dos anjos que agora só lhes é distribuído sob os véus sagrados” (Sess. XIII, De Echar., X, c. VIII).

22. Também a história nos atesta que a vida cristã foi especialmente florescente no povo nas épocas em que a eucaristia era recebida mais frequentemente. Em compensação, e fato é este não menos certo as pessoas se habituaram a ver o vigor da fé cristã enfraquecer-se sensivelmente à medida que os homens negligenciavam o pão celestial e, por assim dizer, lhe perdiam o gosto. Para que essa fé não desaparecesse completamente, no Concílio de Latrão Inocêncio III tomou uma medida oportuníssima, fazendo para todo cristão uma obrigação gravíssima de não se abster da comunhão do Corpo do Senhor ao menos por ocasião das solenidades pascais. Evidente é, porém, que esse preceito foi dado com pesar e como remédio extremo: porque a Igreja sempre desejou que em cada sacrifício os fiéis pudessem participar desse banquete divino. “O Santo Concílio desejaria que em cada missa os fiéis presentes não fizessem apenas a comunhão espiritual, mas, também que viessem receber sacramentalmente a Eucaristia; assim os frutos desse Santíssimo Sacrifício manariam mais abundantes sobre eles” (Conc. Trid. sess. XXII, c. VI).

Excerto da Encíclica “MIRAE CARITATIS” de Leão XIII sobre a Santíssima Eucaristia, escrita em 1902

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18 março, 2015

O fracasso pastoral do ralliement de Leão XIII.

Por Roberto de Mattei | Tradução: Fratres in Unum.com* – Leão XIII (1878-1903) foi certamente um dos mais importantes Papas da época moderna, não apenas pela duração de seu pontificado, apenas inferior ao do Beato Pio IX, mas sobretudo pela vastidão e a riqueza de seu Magistério. Seu ensinamento inclui encíclicas fundamentais, como a Aeterni Patris (1879) sobre a restauração tomista da filosofia, a Arcanum (1880) sobre a indissolubilidade do matrimônio, a Humanum genus (1884) contra a Maçonaria, a Immortale Dei (1885) sobre a constituição cristã dos Estados, a Rerum Novarum (1891) sobre a questão operária e social. O Magistério do Papa Joaquim Pecci aparece nelas como um corpus orgânico, em continuidade com os ensinamentos de seu predecessor Pio IX e em harmonia com seu sucessor Pio X.

Leão XIIIA verdadeira direção e novidade do pontificado leonino consiste, pelo contrário, na sua política eclesiástica e na sua atitude pastoral com relação à modernidade. O governo de Leão XIII foi caraterizado, de fato, pelo ambicioso projeto de reafirmar o Primado da Sé Apostólica através de uma redefinição de suas relações com os Estados europeus e pela reconciliação da Igreja com o mundo moderno. Sua política de ralliement [NdT: reunião em torno de alguém ou de algo] teve seu ponto central na reaproximação com a Terceira República francesa, maçônica e laicista.

A Terceira República conduzia uma violenta campanha de descristianização, sobretudo na área escolar. Para Leão XIII, a responsabilidade desse anticlericalismo recaía nos monarquistas que combatiam a República em nome de sua fé católica. Dessa forma, eles provocavam o ódio dos republicanos contra o Catolicismo. Para desarmar os republicanos, era preciso convencê-los de que a Igreja não era contrária à República, mas apenas ao laicismo. E para convencê-los, ele achava que não haveria outro meio senão apoiar as instituições republicanas.

Na realidade, a Terceira República não era uma república abstrata, mas a república centralizadora e jacobina filha da Revolução Francesa e o programa de laicização da França não era um elemento accessório, mas a própria razão de ser do regime republicano. Os republicanos eram tais porque eram anticatólicos. Na Monarquia, eles odiavam a Igreja, ao passo que os monarquistas eram anti-republicanos porque eram católicos e, na Monarquia, amavam a Igreja.

A encíclica Au milieu des sollicitudes, de 1891, mediante a qual Leão XIII lançou o ralliement, não pedia aos católicos para se tornarem republicanos, mas as diretrizes da Santa Sé aos núncios e aos bispos, provenientes do próprio Pontífice, interpretavam sua encíclica nesse sentido. Foi exercida uma pressão sem precedentes junto aos fiéis, até o ponto de fazê-los acreditar que aqueles que continuavam a defender publicamente a monarquia cometiam um pecado grave.

Os católicos se dividiram em duas correntes: a dos “ralliés” [NdT: os “reagrupados” em torno da República] e a dos “réfractaires” [refratários], como tinha acontecido em 1791, na época da Constituição Civil do Clero.

Os ralliés acolheram as indicações pastorais do Papa porque atribuíam às suas palavras infalibilidade em todos os campos, inclusive em matéria política e pastoral.

Os réfractaires, que eram católicos de melhor formação teológica e espiritual, pelo contrário, opuseram resistência à política do ralliement, julgando que enquanto medida pastoral ela não podia ser considerada infalível e, portanto, podia estar errada.

Jean Madiran, que desenvolveu uma lúcida crítica do ralliement (in Les deux démocraties, NEL, Paris, 1977), observou que Leão XIII pedia aos monarquistas para abandonar a monarquia em nome da religião a fim de conduzir mais eficazmente a batalha na defesa da fé. Entretanto, longe de empreender tal batalha, por meio do ralliement ele levou adiante uma desastrosa política de distensão com os inimigos da Igreja. Apesar do empenho de Leão XIII e de seu Secretário de Estado, o cardeal Mariano Rampolla del Tindaro, essa política de diálogo fracassou estrepitosamente, não conseguindo os objetivos que almejava.

A atitude anticristã da Terceira República  cresceu em violência, até culminar na lei sobre a separação das Igrejas e do Estado (Loi concernant la Séparation des Eglises et de l’Etat) de 9 de dezembro de 1905, conhecida como a “Lei Combes” [nome do Presidente do Conselho, na época], que suprimia qualquer reconhecimento público e financiamento da Igreja, considerava a religião apenas na sua dimensão privada e não em sua dimensão social, estabelecia o confisco dos bens eclesiásticos pelo Estado, enquanto os edifícios de culto eram concedidos gratuitamente a “associações de culto” erigidas e dirigidas pelos fiéis, sem aprovação da Igreja.  A Concordata de 1801, que havia regulado durante um século as relações entre a França e a Santa Sé e que Leão XIII havia querido preservar a todo custo, foi rasgada em mil pedaços.

A batalha republicana contra a Igreja encontrou, porém, no seu caminho a barreira de um novo Papa, Pio X, eleito ao sólio pontifício em 4 de agosto de 1903. Com as encíclicas Vehementer nos de 11 de fevereiro de 1906, Gravissimo officii de 10 de agosto do mesmo ano, e Une fois encore de 6 de janeiro de 1907, São Pio X, ajudado pelo seu Secretário de Estado, o cardeal Rafael Merry del Val, protestou solenemente contra as leis laicistas, solicitando aos católicos opor-se a elas por todos os meios legais, a fim de conservar a tradição e os valores da França cristã.

Diante de sua firmeza, a Terceira República não ousou levar até o fim a sua política persecutória, para não produzir mártires, e renunciou a fechar as igrejas e aprisionar os sacerdotes. A política sem concessões de São Pio X revelou-se clarividente. A lei de separação nunca foi aplicada com rigor e o apelo do Papa contribuiu para um grande renascimento do Catolicismo na França às vésperas da Primeira Guerra Mundial. A política eclesiástica de São Pio X, oposta à de seu predecessor, representa, em última análise, uma condenação histórica inapelável do ralliement.

Leão XIII não professou nunca os erros liberais; até os condenou explicitamente. O historiador não pode, entretanto, deixar de sublinhar a contradição entre o Magistério do Papa Pecci e o seu comportamento político e pastoral. Nas encíclicas Diuturnum illud, Immortale Dei e Libertas, Leão XIII reitera e desenvolve a doutrina política de Gregório XVI e de Pio IX, mas a sua política de ralliement contradiz as suas premissas doutrinárias. Quaisquer que tenham sido as suas intenções, ele encorajou, no terreno pastoral, as ideias e tendências que condenava no plano da doutrina.

Se à palavra “liberal” atribuimos o significado de uma atitude de espírito, de uma tendência política para as concessões e o compromisso, é imperioso concluir que Leão XIII tinha um espírito liberal. Esse espírito liberal manifestava-se acima de tudo como uma tentativa de resolver os problemas trazidos pela modernidade com as armas da negociação diplomática e dos compromissos, em vez de empregar a intransigência dos princípios e a batalha política e cultural.

Nesse sentido, como mostrei no meu recente livro O ralliement de Leão XIII – O fracasso de um projeto pastoral (Le Lettere, Florença, 2014), as principais consequências do ralliement, mais do que de ordem política, foram de ordem psicológica e cultural. Nessa estratégia de compromisso inspirou-se o “Terceiro Partido” eclesiástico que, no curso do século XX, tentou encontrar uma posição intermediária entre os dois partidos que disputavam o terreno: os modernistas e os antimodernistas. O espírito de ralliement em relação ao mundo moderno perdurou por mais de um século, e permanece ainda, como a grande tentação à qual está exposta a Igreja.

Desse ponto de vista, um papa de grande doutrina como Leão XIII cometeu um grande erro de estratégia pastoral. A força profética de São Pio X está, pelo contrário, na íntima coerência de seu pontificado entre a Verdade evangélica e o comportamento da Igreja no mundo, entre a teoria e a prática, entre a doutrina e a pastoral, sem nenhuma concessão às lisonjas da modernidade.

Nosso agradecimento a um caro amigo pela gentil concessão de sua tradução ao Fratres in Unum.

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8 outubro, 2010

Carta encíclica Octobri Mense, de Sua Santidade, o Papa Leão XIII.

A todos os Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos do Orbe Católico em graça e comunhão com a Sé Apostólica, sobre o Rosário de Nossa Senhora.

Veneráveis Irmãos, Saúde e Bênção Apostólica.

Convite ao Rosário

1. Ao aproximar-se o mês de Outubro, já agora consagrado à beatíssima Virgem, é para Nós coisa sumamente grata relembrar as solícitas recomendações que, nos anos precedentes, vos dirigimos, ó Veneráveis Irmãos, a fim de que em toda parte os fiéis, impelidos pelo vosso zelo autorizado, se volvessem, com reavivada piedade, para a grande Mãe de Deus, para a poderosa auxiliadora do povo cristão; a ela recorrendo suplicantes, durante o mês inteiro, com o rito do santo Rosário: Rosário que a Igreja habitualmente usou e divulgou, sobretudo nos tempos mais tempestuosos; e sempre com o desejado êxito.

2. Temos a peito manifestar-vos, também este ano, o mesmo desejo, e renovar-vos a mesma exortação. Impele-nos a isto urgentemente, e a isso nos estimula, o Nosso amor à Igreja, cujas angústias, antes que se aligeirarem, crescem cada dia mais em número e em aspereza.

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22 janeiro, 2009

Testem Benevolentiae, 110 anos.

O fundamento sobre o qual se baseiam essas novas idéias é que, com o fim de atrair mais facilmente aqueles que dissentem dela, a Igreja deveria adequar seus ensinamentos mais de acordo ao espírito da época, afrouxar algo de sua antiga severidade e fazer algumas concessões a novas opiniões. Muitos pensam que essas concessões devem ser feitas não apenas em matéria de disciplina, mas também nas doutrinas pertencentes ao ‹‹ depósito da fé ›› . Sustentam que seria oportuno, para ganhar aqueles que divergem de nós, omitir certos pontos do magistério da Igreja que são de menor importância, e desta maneira moderá-los, para que não portem o mesmo sentido que a Igreja constantemente lhes tem dado. Não são necessárias muitas palavras, querido filho, para provar a falsidade dessas idéias se se traz à mente a natureza e a origem da doutrina que a Igreja propõe. O Concílio Vaticano [I] diz a respeito: « A doutrina da fé que Deus revelou não foi proposta como uma invenção filosófica, para ser aperfeiçoada pelo engenho humano, mas foi entregue como um depósito divino à Esposa de Cristo para ser guardada fielmente e declarada infalivelmente. Logo, o significado dos sagrados dogmas que Nossa Mãe, a Igreja, declarou uma vez deve ser mantido perpetuamente, e nunca se deve afastar desse significado sob a pretensão ou pretexto de uma compreensão mais profunda dos mesmos » (Constitutio de Fide Catholica, cap. IV).

Não podemos considerar como inteiramente inocente o silêncio que intencionalmente conduz à omissão ou ao desprezo de alguns dos princípios da doutrina cristã, já que todos os princípios vêm do mesmo Autor e Mestre, « o Filho Unigênito que está no seio do Pai » (Jo 1,18). Estes estão adaptados a todos os tempos e todas as nações, como se vê claramente pelas palavras de Nosso Senhor a seus Apóstolos: « Ide, pois, ensinai a todas as nações; ensinando-lhes a observar tudo o que lhes mandei, e eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos» (Mt. 28,19).

[…]

Entretanto, querido filho, no presente assunto de que estamos falando, há ainda um perigo maior, e uma oposição ainda mais manifesta à doutrina e disciplina católicas, naquela opinião dos amantes da novidade segunda a qual afirmam que se deve admitir uma sorte tal de liberdade na Igreja que, diminuindo de alguma maneira sua supervisão e cuidado, se permita aos fiéis seguir mais livremente a liderança de suas próprias mentes e a trilha de suas próprias atividades. Aqueles são da opinião de que tal liberdade tem sua contrapartida na liberdade civil recentemente dada, que é agora o direito e fundamento de quase todo o estado secular.

[…]

Leão XIIIAlega-se que agora que foi proclamado o Decreto Vaticano sobre a autoridade magisterial infalível do Romano Pontífice, já não há mais com o que se preocupar nessa linha, e, por conseguinte, desde que isso seja salvaguardado e colocado além de qualquer questionamento, se abre a cada um campo mais amplo e livre, tanto para o pensamento como para a ação. Mas tal raciocínio é evidentemente defeituoso, já que, se temos que chegar a alguma conclusão acerca da autoridade magisterial infalível da Igreja, seria mais ainda de que nada deveria desejar afastar-se dessa autoridade, ou ainda, que levadas e dirigidas de tal modo às mentes de todos, gozariam de uma maior segurança de não cair em erro privado. E ademais, aqueles que se permitem assim raciocinar parecem afastar-se seriamente da providente sabedoria do Altíssimo, que se dignou dar a conhecer por soleníssima decisão, a autoridade e o direito supremo de ensinar desde sua Sede Apostólica, e entregou tal decisão precisamente para salvaguardar as mentes dos filhos da Igreja dos perigos dos tempos presentes.

Estes perigos, a saber, a confusão entre licença e liberdade, a paixão por discutir e mostrar desprezo sobre qualquer assunto possível, o suposto direito de manter qualquer opinião que se agrade sobre qualquer assunto, e dar-lhe a conhecer ao mundo por meio de publicações, envolveram tanto as mentes na obscuridade que há agora, mais do que nunca, uma necessidade maior do ofício magisterial da Igreja, a fim de que as pessoas não se esqueçam tanto da consciência como do dever.

Nós certamente não pensamos rechaçar tudo quanto há produzido a indústria e o estudo moderno. Tão longe estamos disso que damos acolhida ao patrimônio da verdade e ao âmbito cada vez mais amplo do bem-estar público a tudo que ajude ao progresso da aprendizagem e da virtude. Ainda assim, tudo isso só poderá ser de algum sólido benefício, e mais, só poderá ter uma existência e um crescimento real, se se reconhece a sabedoria e a autoridade da Igreja.

Agora, com respeito às conclusões que foram deduzidas das opiniões acima mencionadas, cremos de boa fé que nelas não houve intenção de erro ou astúcia, mas ainda sim, esses assuntos em si mesmo merecem sem dúvida certo grau de suspeita. Em primeiro lugar, se deixa de lado toda direção externa por ser considerada supérflua e, de fato, inútil para as almas que lutam pela perfeição cristã, sendo seu argumento que o Espírito Santo hoje derrama graças mais ricas e abundantes do que antigamente sobre as almas dos fiéis, de maneira que, sem intervenção humana, Ele os ensina e os guia por certa inspiração oculta. Embora seja sinal de um pequeno excesso de confiança em querer medir e determinar o modo da comunicação divina à humanidade, já que esta depende completamente de seu próprio parecer e Ele é o mais livre dispensador de seus próprios dons ( « O Espírito sobra onde quer » Jo 3,8. « E a cada um de nós é dada a graça conforme e medida do dom de Cristo » Ef 4,7).

[…]

Só crerá que certas virtudes cristãs estão adaptadas a certos tempos e outras a outros tempos quem não recorde as palavras do Apóstolo: «A quem de antemão conheceu, a estes predestinou para fazer-lhes conformes à imagem de Seu Filho » (Rom 8,29). Cristo é o mestre e paradigma de toda santidade e à sua medida devem conformar-se todos que aspiram a vida eterna. Cristo não conhece mudança alguma com o passar das épocas, já que « Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre » (Heb 13,8). Aos homens de todas as épocas foi dado o preceito: « Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração » (Mt 11,29). Para toda época Ele se manifestou como obediente até a morte; em toda época tem força a sentença do Apostólo: « Aqueles que são de Cristo crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências » (Gál 5,24). Desejaria Deus que hoje em dia se praticasse mais essas virtudes no grau dos santos dos tempos passados, que na humildade, obediência e auto-domínio foram poderosos “em palavra e em obra” para grande proveito não só da religião, mas também do estado e do bem-estar público.

[…]

Finalmente, para não nos prolongarmos mais, se afirma que o caminho e método que até agora se seguiu entre os católicos para atrair de novo aqueles que saíram da Igreja deve ser deixado de lado e outro deve ser eleito. Sobre esse assunto, bastará evidenciar que não é prudente desprezar aquilo que a antiguidade em sua larga experiência aprovou e que ensinou ademais por autoridade apostólica. As Escrituras nos ensinam (Eclo 17, 4) que é dever de todos estar solícitos para a salvação de nosso vizinho segundo a possibilidade e posição de cada um. Os fiéis realizam isso pelo religioso cumprimento de seus deveres de seu estado de vida, retidão de sua conduta, suas obras de caridade cristã, e sua sincera e contínua oração a Deus.

Por outro lado, aqueles que pertencem ao clero devem realizar isso pelo instruído cumprimento de seu ministério da pregação, pela pompa e esplendor das cerimônias, especialmente dando a conhecer com suas próprias vidas a beleza da doutrina que inculcou São Paulo a Tito e Timóteo. Mas se, em meio às diferentes maneiras de pregar a Palavra de Deus, alguma vez há de se preferir dirigir-se aos não-católicos, não nas igrejas mas em algum lugar adequado, sem buscar as controvérsias, mas conversando amigavelmente, esse método certamente não tem problema. Mas deixai que aqueles que empreendem tal ministério sejam escolhidos pela autoridade dos bispos, e sejam homens cuja ciência e virtudes tenham sido anteriormente averiguadas. Pois pensamos que há muitos em seu país que estão separados da verdade Católica mais por ignorância que por má-vontade, que poderiam talvez mais facilmente ser trazidos para o único aprisco de Cristo se essa verdade lhes for passada adiante de maneira amigável e familiar.

[…]

Mas a verdadeira Igreja é una, tanto por sua unidade de doutrina como por sua unidade de governo, e é também católica. E desde que Deus estabeleceu o centro e fundamento da unidade na cátedra do Bem-aventurado Pedro, com razão se chama Igreja Romana, porque « onde está Pedro, ali está a Igreja » (Ambrosio, In Ps.9,57). Por isso, se alguém deseja ser considerado um verdadeiro católico, deve ser capaz de dizer de coração as mesmas palavras que Jerônimo dirigiu ao Papa Dámaso: « Eu, não seguindo nada senão Cristo, estou unido em amizade a Sua Santidade; isto é, à cátedra de Pedro. Sei que a Igreja foi construída sobre ele como sua rocha e que quem não recolhe contigo, espalha».

Sua Santidade, o Papa Leão XIII

Carta Apostólica Testem Benevolentiae, contra o ‹‹Americanismo›› – 22 de janeiro de 1899.