Posts tagged ‘Leonardo Boff’

9 novembro, 2017

A “perspectiva protestante” das “teologias da libertação”, como “parte da teologia moderna”.

Por Hermes Rodrigues Nery – FratresInUnum.com, 9 de novembro de 2017

Tanto na Mensagem de Natal à Cúria romana (2005), quanto à exposição que fez ao clero romano (em 14 de fevereiro de 2013), Bento XVI permaneceu convicto de que as incompreensões do Concílio Vaticano II se deram pelo modo como os mass media estimularam e se simpatizaram por “uma hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”1, causando confusão, “e também de uma parte da teologia moderna”2.

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Talvez esteja aqui, nessa colocação, o que aproxima e o que distancia Joseph Ratzinger do grupo que elegeu Jorge Mário Bergoglio, em 2013. Isso porque certos tradicionalistas dizem que tanto Ratzinger, quanto Bergoglio estão em sintonia com a mesma visão modernista de Igreja, a diferença está apenas no grau, sendo que Bergoglio mostrou-se disposto, desde o início a pisar no acelerador, por uma revolução sem precedentes, como um novo João XXIII.

Mas Bento XVI há muito havia colocado a mão no breque, aí talvez começou a se distinguir. Na sua exposição ao clero romano, Bento XVI associou a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”3 estimulada pelos mass media e também por “uma parte da teologia moderna”4.

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2 janeiro, 2017

Boff: Ajudei o papa a escrever a ‘Laudato si’. Haverá uma grande surpresa. Talvez padres casados ou mulheres diáconos.

Por Marco Tosatti, 27 de dezembro de 2016 | Tradução: André Sampaio – FratresinUnum: Leonardo Boff, o bem conhecido expoente da teologia da libertação, concedeu uma entrevista ao jornal alemão Kölner Stadt-Anzeiger. Boff, que tem 78 anos, falou livremente sobre a Igreja, e revelou alguns detalhes de sua relação com o Pontífice e de possíveis decisões futuras.

boff_-825x510A fonte da qual nós obtivemos o material que lhes oferecemos é um artigo de Maike Hickson para o One Peter Five. Sobre quanto se refere ao tema dos padres casados no Brasil, remetemos vocês a também alguns artigos que publicamos no passado acerca da matéria. É interessante notar como as declarações de Boff vão na mesma linha e direção de quanto escrevemos. Já há dois anos

Sobre a teologia da libertação, Boff diz que “Francisco é um de nós”. Em particular pela atenção aos problemas ecológicos, dos quais Boff se ocupou. O Pontífice leu os livros desse temário de Boff? “Mais que isso. Pediu-me material para a Laudato si’. Dei-lhe o meu conselho e lhe enviei coisas que escrevi… Contudo, o Papa me disse de maneira direta: ‘Boff, não me envie as cartas diretamente’.”

Por que não? “Disse-me: ‘Se o fizer, os subsecretários as interceptarão e eu não as receberei. Em vez disso, envie as coisas ao embaixador argentino junto à Santa Sé, com quem tenho um bom contato, e elas chegarão seguras às minhas mãos.” O embaixador é um velho amigo do Pontífice. ”E depois, um dia antes da publicação da encíclica, o Papa fez chamar-me para agradecer-me pela ajuda.”

No que diz respeito a um encontro pessoal, Boff falou ao Pontífice em relação a Bento XVI, que, quando Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teve um papel importante na sua condenação: “Mas o outro ainda está vivo, afinal de contas!”. “Ele [Francisco] não aceitou isso [não aceitou o receio, a hesitação de Boff].  ‘Il Papa sono io’ [‘O Papa sou eu’], respondeu (em italiano no texto [do jornal alemão], n.d.r.). E fomos convidados a ir.”

À pergunta sobre por que a visita não se realizou ainda, Boff respondeu: “Eu havia recebido um convite e havia já desembarcado em Roma. Mas justamente naquele dia, imediatamente antes do início do [segundo] Sínodo da Família em 2015, 13 cardeais, entre os quais o alemão Gerhard Müller, puseram em pé uma rebelião contra o Papa com uma carta endereçada a ele que foi publicada – que surpresa! – em um jornal. O Papa estava irado e me disse: ‘Boff, não tenho tempo. Devo restabeler a calma antes que o Sínodo comece. Nós nos veremos em um outro momento’”.

Boff depois disse, sobre o futuro: “Esperem e vejam! Ainda recentemente o cardeal Walter Kasper, que é um estreito confidente do Papa, me disse que logo haverá alguma grande surpresa”.

Que tipo de surpresa? “Quem o sabe? Talvez um diaconato para as mulheres, após tudo. Ou a possibilidade de que os padres casados se envolvam no trabalho pastoral. Este é um pedido explícito dos bispos brasileiros ao Papa, especialmente da parte de seu amigo o cardeal Cláudio Hummes. Ouvi que o Papa quer atender ao seu pedido – inicialmente por um período experimental, no Brasil.”

Boff depois falou que uma decisão nesse sentido não mudaria nada para ele: “Pessoalmente, não tenho necessidade disso. Não mudaria nada para mim, porque faço aquilo que sempre fiz: batizo, presido a exéquias, e, se me ocorre de chegar a uma paróquia sem padre, celebro a missa com o povo”.

Leonardo Boff é, desde décadas, uma figura proeminente da teologia da libertação. Para uma biografia completa, remetemos à Wikipedia, da qual extraímos este parágrafo:

“A atividade de Boff continuou depois de 1992 como teólogo da libertação, escritor, docente e conferencista. Ele permanece também envolvido com as comunidades eclesiais de base brasileiras. Em 1993 se tornou professor de ética, filosofia da religião e ecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), da qual é professor emérito desde 2001. Nos anos seguintes se ocupou, de maneira sempre mais profunda, de política, tornando-se um verdadeiro e próprio teórico marxista, e se converteu em um expoente do considerado Movimento Antiglobalização (sempre foi convidado, na qualidade de orador, para as reuniões em Porto Alegre). Boff esteve sempre próximo das posições do Movimento Sem Terra brasileiro. Em 2001 lhe foi conferido o Right Livelihood Award [Prêmio de Subsistência com Equidade, também conhecido como Prêmio Nobel Alternativo]. Ele se tornou um defensor de Lula no momento da eleição deste como presidente do Brasil, mas se distanciou posteriormente, acusando-o de moderantismo. Atualmente (2010) vive no Jardim Araras, uma reserva ecológica em Petrópolis, junto de sua companheira Marcia Maria Monteiro de Miranda (ativista dos direitos humanos e ecologista), e tem seis filhos adotivos.”

19 agosto, 2015

Boff discursará em paróquia de Guarapuava. Com anúncio da Diocese. Nunca é tarde para denunciar um herege.

E seus parceiros nas dioceses. Leonardo Boff, que recentemente esteve, sem nenhuma objeção do ordinário local, em Caxias do Sul, agora é convidado de uma paróquia da diocese de Guarapuava, PR. A divulgação, no site oficial da Diocese – eles perderam completamente a vergonha -, ocorre em cima da hora: a diocese publicou em seu site apenas hoje e a conferência começará daqui a 10 minutos. Mas, para nós, nunca é tarde para escancarar a safadeza heterodoxa de hereges, que odeiam a Igreja, mas não deixam de gozar de suas benesses, e seus simpatizantes favorecedores.

Um leitor informa:

Laudetur Jesus Christus!

Pedimos gentil e caridosamente a publicação da seguinte notícia, que apareceu hoje no site da nossa Diocese: http://www.diopuava.org.br/2015/08/leonardo-boff-estara-hoje-na-paroquia-santa-cruz/

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O teólogo herético Leonardo Boff, que esteve novamente em nossa cidade para um evento ambiental, palestrará na paróquia dos passionistas, que outrora já recebeu um outro teólogo da libertação da América Latina, Enrique Dussel.

Por amor a Nosso Senhor crucificado, ofendido pelos sacerdotes da paróquia dos passionistas, denuncie esse escândalo!

Muito obrigado!

24 junho, 2015

Era Francisco: está aberta a gaiola das loucas.

Uma leitora nos escreve:

Será realizada uma palestra sobre Democracia e Direitos Humanos, a ser ministrada pelo Sr. Leonardo Boff, no dia 03/07/2015, às 18 horas, junto ao Teatro do Colégio Murialdo, cidade  de Caxias do Sul – RS. Colégio esse, pertencente a uma congregação religiosa.

Referido evento contará com a presença do Ministro petista da Secretaria de Direitos Humanos, Sr. Pepe Vargas, e possui o apoio de diversas entidades, entre elas: CUT; PT; DCE-UCS; Pastorais Sociais; Escola de Formação, Fé, Política e Trabalho; PCdoB; Caritas Diocesana; Livraria Paulus; Universidade de Caxias do Sul – UCS; etc.

Convidamos a todos os interessados para participar do “panelaço” que está sendo organizado, na data e local do próprio evento, como forma de protesto contra o apoio e realização deste.

Seguem também os contatos do senhor  Bispo diocesano de Caxias do Sul -Dom Alessandro Ruffinoni,  e da Coordenação Diocesana de Pastoral, para manifestações de repúdio.

Dom Alessandro Ruffinoni
Fone/Fax: (54) 3025-2896
domalessandro@diocesedecaxias.org.br

Coordenação Diocesana de Pastoral
Fone: (54) 3211.5032
E-mail: diocesedecaxias.pastoral@gmail.com

14 janeiro, 2015

Defendendo Messori contra os falsos dogmas de Boff.

Por Monsenhor Antonio Livi* | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: As considerações que Vittorio Messori publicou no Corriere della Sera a respeito do pontificado do Papa Bergoglio, em 24 de dezembro (republicado pelo La Nuova Bussula Quotidiana do dia 28 de dezembro) têm suscitado, como se esperava, muitas reações diferentes. Muitos manifestaram o seu acordo, outros o criticaram duramente. Não vou entrar no mérito daquelas avaliações, que, em todo caso, considero como legítimas. Trata-se de um jornalista sério, um historiador bem documentado e, especialmente, de um Católico de fé sincera e esclarecida. Há muitos anos que eu o conheço pessoalmente, li todos os seus livros, começando com o primeiro e mais famoso, “Hipótese sobre Jesus”, que dava espaço demais para uma interpretação fideísta de Pascal, mas, ainda assim fez uma apologética eficaz e notável. Nos últimos tempos, sempre li com interesse e prazer sua coluna no jornal Il Timone. Quem dera houvesse mais jornalistas católicos assim! Lamentável, eu sempre disse, que não tenham mais permitido que ele continuasse a escrever no Avvenire [ndr: publicação da Conferência Episcopal italiana]… Teria sido um bem para o “jornal da Igreja Católica” (e também para mim, que também fui literalmente excluído daquele jornal).

Mas, repito, não entro no mérito de suas considerações sobre o pontificado do Papa Bergoglio, porque sou da opinião de que em relação aos acontecimentos dentro da Igreja, os jornalistas deveriam se limitar à informação, que é o seu trabalho e sua missão específica, sem tentar influenciar a opinião pública com suas opiniões pessoais, inevitavelmente parciais, no sentido de que eles conseguem descrever apenas uma parte da realidade eclesial e expressar sobre ela o ponto de vista de apenas uma parte do povo de Deus.

Como eu já escrevi, também aqui na Bússola, eu prefiro que a atualidade da Igreja seja tratada do ponto de vista competente e autenticamente teológico ou do ponto de vista exclusivamente pastoral. Eu mesmo, preocupado, como sacerdote, com a grande desorientação doutrinária que percebo entre os fiéis, intervim muitas vezes sobre a “questão Bergoglio”, exortando os católicos a ignorar aquilo que é o pão de cada dia dos “vaticanistas” (as frases e gestos que sugerem “abertura “ou” fechamento”, nomeações e destituições de altos prelados) e, ao invés, interessar-se mais, de forma inteligente, por tudo aquilo que é propriamente o Magistério da Igreja. Ali, nos documentos do Magistério da Igreja (que em certos pontos-chave são imutáveis e eternos e em outros procedem historicamente com as oportunas “reformas na continuidade”) os católicos, hoje como sempre, encontram o guia seguro de sua consciência, a orientação segura para professar e viver a sua fé em suas vidas diárias.

Mas, agora resolvi intervir na questão Messori, não para aprovar ou desaprovar o que ele escreveu, mas para defendê-lo (como se deve) das críticas violentas e equivocadas de um certo religioso que se apresenta como teólogo e acusa o jornalista de má-fé ou ignorância em matéria teológica. Trata-se de Leonardo Boff. Sua crítica a Messori representa, por assim dizer, a soma de todos os disparates que os ideólogos da “teologia da libertação” já escreveram tanto antes como após a condenação pela Santa Sé, de sua mensagem sobre o Evangelho e a ação da Igreja no mundo.

Boff acusa Messori de desconhecer o papel do “Espírito” que, segundo ele, agiria também e ainda melhor fora da Igreja Católica, a qual não sabe “aprender com os outros.” Com este propósito, Boff, arvorando-se em defensor do ofício daquele que ele chama de Espírito Santo, começa a escrever: “significa blasfemar contra o Espírito Santo pensar que os outros pensam só de modo errado. Por isso é extremamente importante uma Igreja aberta como a quer Francisco de Roma. É necessário que seja aberta às irrupções do Espírito chamado por alguns teólogos de ‘a fantasia de Deus’, por causa de sua criatividade e novidade, na sociedade, no mundo, na história dos povos, nos indivíduos, igrejas e até mesmo na Igreja Católica”, a qual antes de Francisco, teria sido muito ligada a Cristo, “cristocêntrica” demais.

Segundo o ex-franciscano, que quando lhe é conveniente posa de amante da doutrina (a sua), Vittorio Messori é terrivelmente deficiente em matéria de teologia: ele “incorre no erro teológico de cristomonismo, ou seja, somente Cristo conta. Não há realmente um lugar para o Espírito Santo. Tudo na Igreja é resolvido só com Cristo, algo que o Jesus dos Evangelhos exatamente não quer”.

Então, voltando a vestir os panos do anti-dogmático, acrescenta: “sem o Espírito Santo, a Igreja torna-se um instituição pesada, chata, sem graça, sem criatividade e, a um certo ponto, não tem nada a dizer ao mundo que não seja doutrina sobre de doutrina, sem suscitar esperança e alegria de viver”.  O pobre Messori também seria um ignorante em matéria de sociologia religiosa, pois não teria ainda compreendido que a América Latina é o verdadeiro centro da Igreja Católica de hoje, apesar do número de latino-americanos que se declaram católicos estar diminuindo exatamente por causa do proselitismo generalizado das seitas protestantes (na verdade, talvez seja exatamente por isso que Boff acredita que a América Latina está na vanguarda).

O cristianismo e a teologia teriam feito grandes progressos na América Latina (no Brasil, que é a pátria de Leonardo Boff, no Peru, que é a pátria de Gustavo Gutiérrez, e na Argentina, que é a pátria de Jorge Mario Bergoglio) pelo fato de terem dado ouvidos ao “Espírito”, graças também à cultura nativa (pré-colombiana) que teria libertado a Igreja da abstração doutrinal da teologia européia, a alemã em particular (o alvo polêmico é sempre Bento XVI, lembrado com carinho por Messori), por saber interpretar o Evangelho em sintonia com os ideais de libertação das massas populares. Convém dizer, a propósito, embora não seja muito importante aqui, que o mito da teologia indígena latino-americana é imediatamente desmentido, sem querer, pelo próprio Boff, quando ele cita como única autoridade teológica seu mestre Johan Baptist Metz, precursor na Alemanha daquela “teologia política” da qual derivam os teólogos da libertação latino-americanos, que foram todos formados na Bélgica, França e Alemanha, começando pelo peruano Gustavo Gutiérrez. E não é justamente do centro da Europa, precisamente da Alemanha, que saiu Karl Marx, o principal inspirador da “teologia da libertação”?

Mas isso que eu disse é apenas um parêntese sarcástico. O discurso sério é o teológico. Em primeiro lugar, porque a abordagem teológica é a única que me interessa quando se fala de atualidade eclesial e de possíveis mudanças na doutrina da Igreja e, depois, porque o tema principal do discurso de Boff é precisamente a “voz do Espírito “, que o Papa Bergoglio teria ouvido humildemente enquanto seus predecessores, particularmente Bento XVI, teriam ignorado por estarem fechados no “cristocentrismo” que para Boff significa dogmatismo, legalismo, tradicionalismo, o centralismo do Vaticano.

Ora, eu me pergunto: que sentido há, teologicamente falando, em arrogar-se exclusividade na interpretação “do que o Espírito diz às igrejas”? E ainda, que sentido há, teologicamente falando, em contrapor à doutrina dogmática e moral da Igreja a sua própria interpretação dos desígnios do Espírito Santo? Discursos dessa natureza são compreensíveis, ainda que ilógicos, na boca dos hereges e cismáticos, na boca dos propagandistas de algumas das muitas seitas que invadiram o Ocidente cristão, vagamente relacionadas com o cristianismo ou diretamente inspiradas pelo budismo, mas não na boca de quem se apresenta como católico e ainda mais como um teólogo católico.

A norma fundamental de um discurso autenticamente teológico, como deixei claro no meu tratado sobre a verdadeira e a falsa teologia (onde Leonardo Boff não é mencionado, mas são citados os seus mestres) é a intenção de explicar racionalmente a verdade revelada por Deus em Cristo Jesus, o qual confiou a interpretação autêntica do seu Evangelho à sua Igreja, isto é, aos Apóstolos e seus legítimos sucessores, os bispos em comunhão com o Papa, o qual goza individualmente do carisma da infalibilidade.

Em termos práticos, isto significa que alguém como Boff, que despreza os dogmas e atribui a si mesmo aquela infalibilidade que não reconhece no Magistério da Igreja, não fala como teólogo. Claro, eu reconheço o seu direito de ter suas idéias, ainda que sejam as mais loucas sobre o cristianismo, mas, se ele fala em público, dirigindo-se aos católicos, eu tenho o dever de alertar aos fiéis de que ele não possui a autoridade que compete a um teólogo da Igreja Católica. Como eu sempre digo nesses casos, trata-se de um falso profeta ou um mau mestre. E isso eu já disse várias vezes sobre Vito Mancuso e Enzo Bianchi, e não hesitei em dizer o mesmo também sobre Bruno Forte e Gianfranco Ravasi, que ocupam postos de destaque na hierarquia da igreja [ndr: o primeiro, secretário do Sínodo para a Família nomeado pessoalmente por Francisco e rejeitado, recentemente, pelos bispos italianos em eleição para vice-presidente da Conferência Episcopal; o segundo, Cardeal presidente do Pontifício Conselho para a Cultura]. Quem quiser dar ouvidos às suas teorias, que saibam pelo menos que o fazem por sua própria conta e risco (da alma, é claro). E disso eu adverti a todos que eu podia.

Para terminar com Boff, eu pergunto:  o que um cristão sabe do Espírito Santo, que como Deus é absolutamente transcendente? Sua Pessoa, no seio da “Trindade imanente”, é particularmente inacessível ao conhecimento humano, tanto assim que ele é chamado de “o Deus desconhecido”, e também a sua ação no mundo (a chamada economia trinitária) é totalmente invisível, senão por revelação pública. Mas a revelação pública é aquela do Filho de Deus, o Verbo Encarnado, Emmanuel, “Deus conosco”.

Aquilo que podemos saber dos mistérios de Deus é apenas o que Cristo revelou. Como é possível que alguém queira contrapor sua própria pretensão de conhecimento da ação do Espírito ao que o mesmíssimo Espírito nos revelou em Cristo? E Cristo nos revelou que o Espírito Santo foi enviado diretamente por Ele e pelo Pai no dia de Pentecostes, para tornar eficaz em todo o mundo, por todo o tempo da história, a ação salvífica da Igreja de Cristo, mediante o anúncio do Evangelho e da graça dos sacramentos. Isto é o que nós sabemos do Espírito Santo e apenas isso pode ser dito teologicamente, ou seja, com seriedade, com a pretensão de ser ouvido pelos fiéis.

O verdadeiro teólogo explica e aplica ao seu tempo e às pessoas a quem se dirige a verdade contida na revelação pública, ou seja, na doutrina da Igreja. O verdadeiro teólogo não pretende, como fazem os gnósticos, saber mais do que se pode saber sobre os mistérios de Deus. Ele é como qualquer outro fiel, uma pessoa que em um tempo qualquer acolheu com fé sincera a revelação divina. O verdadeiro teólogo, acima de tudo, não substitui a verdade divina por suas próprias conjecturas pessoais e arbitrárias, seja lá qual for a sinceridade com a qual essas sejam propostas ao povo (pior ainda se mentem deliberadamente sabendo que mentem, então esses falsos profetas não seriam apenas uns iludidos, mas verdadeiros “enganadores”, como o Anticristo do qual nos fala as Escrituras).

* Antonio Livi, ex-aluno de Étienne Gilson e professor da Universidade Lateranense de Roma, é sacerdote e filósofo.

8 janeiro, 2015

Polêmica: Boff, o neo-papista, massacrado publicamente por Vittorio Messori.

Apresentamos a seguir três artigos da recente polêmica, veiculada na imprensa italiana, entre Vittorio Messori, conhecido jornalista italiano, autor de livros-entrevistas com João Paulo II e Bento XVI e entusiasta de ambos, e o “teólogo” brasileiro neo-papista Leonardo Boff. 

Com o Cardeal Gerhard Müller cada vez mais isolado em sua defesa intransigente do matrimônio católico em uma Cúria adormecida, não surpreenderia se Leonardo Boff fosse chamado à chefia do Santo Ofício, de onde poderia aplicar sua misericórdia francisquista convidando Messori, ou quem sabe o próprio bispo emérito de Roma, a sentar-se naquela famosa “cadeira em que sentou Giordano Bruno”, como ele sempre fez questão de repetir acerca dos episódios de outrora em que ele, coitadinho, foi injustamente perseguido. Tempos obscuros aqueles! Agora temos Francisco, o libertador!

Tradução de Gercione Lima – Fratres in Unum.com

As dúvidas sobre a virada do Papa Francisco

http://www.vittoriomessori.it/blog/2014/12/24/i-dubbi-sulla-svolta-di-papa-francesco/

Corriere della Sera, 24 de dezembro de 2014, Vittorio Messori

Eu creio que seria honesto ter que admitir agora: abusando talvez do espaço que me foi concedido, o que proponho aqui, mais do que um simples artigo, é uma reflexão pessoal. Aliás, uma espécie de confissão que eu teria todo o prazer em adiar se não me fosse solicitado. Mas sim, adiada porque a minha (e não só minha) avaliação deste papado oscila continuamente entre adesão e perplexidade, é um julgamento mutável dependendo do momento, da ocasião, e dos temas. Um papa não imprevisto: por que no que me diz respeito, eu estava entre aqueles que esperavam um sul-americano, um homem de pastoral, de experiência cotidiana de governo, que nos proporcionaria quase um equilíbrio entre o admirável professor, um teólogo muito refinado para alguns paladares, tal qual é o nosso amado Joseph Ratzinger. Um papa não inesperado, portanto, mas que subitamente desde aquele seu primeiro “boa noite”, revelou-se imprevisível, a ponto de mudar gradualmente a mente até mesmo de alguns cardeais que estavam entre seus eleitores.

Uma imprevisibilidade que continua perturbando a tranquilidade do católico médio, habituado a não ter que pensar por conta própria no que diz respeito a fé e moral, e que sempre foi exortado a simplesmente “seguir o Papa”. Sim, mas qual Papa? Aquele de certas homilias matutinas em Santa Marta, dos sermões dos  párocos à moda antiga, com bons conselhos e provérbios sábios, chegando mesmo a nos advertir para não cairmos nas armadilhas que nos arma o demônio? Ou aquele que telefona a Giacinto Marco Pannella, o qual está empenhado novamente em mais uma enésima greve de fome e deseja-lhe “bom trabalho”, quando por décadas, o “trabalho” do líder radical consistiu e consiste apenas em pregar que a verdadeira caridade está na luta pelo divórcio, o aborto, a eutanásia, a homossexualidade para todos, a teoria de gênero e assim por diante? O Papa que no discurso destes dias à Cúria Romana, citou com convicção Pio XII (mas, na verdade, o próprio São Paulo), que define a Igreja “corpo místico de Cristo”? Ou aquele que na primeira entrevista a Eugenio Scalfari, ridicularizou aqueles que pensam que “Deus é católico”, como se a Igreja Una, Santa, Apostólica, Romana fosse um acessório opcional para vincular, de acordo com o gosto pessoal de cada um à Trindade divina? O Papa Argentino consciente por experiência direta do drama da América Latina que está prestes a se tornar um continente ex-católico devido à apostasia em massa desses povos para o protestantismo pentecostal? Ou o Papa que tomou um avião para abraçar e desejar bom sucesso a um querido amigo, um pastor protestante em uma das suas comunidades que está esvaziando a Igreja Católica precisamente com o proselitismo que ele duramente condenou entre os Católicos?

Poderíamos continuar, é claro, com esses aspectos que parecem – e talvez são de fato – contraditórios. Poderíamos, mas não seria certo para um crente. Estes sabem que não se pode olhar para um Pontífice como se olha para um presidente eleito da República ou como um rei, herdeiro aleatório de outro rei. Claro, no Conclave, esses instrumentos do Espírito Santo, de acordo com a fé, são os cardeais eleitores que compartilham dos limites, erros, talvez os pecados que marcam a humanidade inteira. Mas o chefe único e verdadeiro da Igreja é Cristo onipotente e onisciente, que sabe um pouco melhor do que nós o que é a melhor escolha no que diz respeito ao seu representante temporário na terra. Esta escolha pode parecer desconcertante para a visão limitada dos contemporâneos, mas, em seguida, na perspectiva histórica, revela as suas razões. Quem realmente conhece a história fica surpreso e pensativo ao descobrir que – na perspectiva da visão milenar, que é aquela Católica — todos os Papas, conscientes ou não, interpretaram o seu papel idoneamente, e que no final, pareceu ser o necessário. Precisamente por estar consciente disso é que eu escolhi, no que me diz respeito, apenas observar, ouvir, refletir sem me lançar em opiniões intempestivas ou até temerárias.

Parafraseando uma pergunta muito mencionada fora do seu contexto: “Quem sou eu para julgar?”. Eu, que – ao lado de muitos outros, excluindo apenas um — certamente não sou assistido pelo “carisma pontifício” da assistência prometida pelo Paráclito.

E para aqueles que querem julgar, será que não diz nada a aprovação plena, e várias vezes repetida – verbalmente e por escrito – da atividade de Francisco por parte do  “Papa Emérito”, apesar de serem tão diferentes em estilo, formação, e até mesmo programa de governo?

Terrível é a responsabilidade de quem hoje é chamado a responder à pergunta: “Como anunciar o Evangelho aos contemporâneos? Como mostrar que Cristo não é um fantasma desaparecido e remoto, mas o rosto humano do Deus criador e salvador que todos podem e querem para dar sentido à vida e à morte?”. Há muitas respostas, muitas vezes conflitantes.

Para aquele pouco que conta, depois de décadas de experiência eclesial, também eu teria as minhas respostas. Eu, por exemplo diria que a condicional é obrigatória porque nada e ninguém me assegura ter vislumbrado a via adequada. Não correria talvez a o risco de ser como o cego do Evangelho, aquele que quer guiar outros cegos, acabando todos no mesmo abismo? Assim, certas escolhas pastorais do “Bispo de Roma”, como ele prefere ser chamado, convencem-me; mas outras me deixam perplexo, pois me parecem pouco oportunas, talvez suspeitas de um populismo capaz de obter um interesse tão vasto como superficial e efêmero. Eu teria que observar algumas coisas sobre as prioridades e conteúdos, na esperança de um apostolado mais fecundo. Eu teria pensado no condicional, repito, como exige uma perspectiva de fé, onde qualquer pessoa, mesmo um leigo (como estabelece o código canônico), pode expressar seus pensamentos, desde que de modo pacato e motivado sobre as táticas de evangelização. Mas deixando ao homem que saiu vestido de branco do Conclave a estratégia geral e, acima de tudo, a custódia do “depósito da fé”.

Em qualquer caso, não esquecendo de que foi o próprio Francisco que lembrou em seu duro discurso à Cúria: é fácil, disse ele, criticar os sacerdotes, mas quantos estão orando por eles? Querendo também recordar que ele, na Terra, é o “primeiro” entre os sacerdotes. E, assim, pedindo, a quem critica, aquelas orações que o mundo zomba, mas que guiam em segredo o destino da Igreja e do mundo inteiro.

* * *

Apoio ao Papa Francisco contra um nostálgico escritor

Leonardo Boff, teólogo brasileiro – 27 de dezembro de 2014

Um pouco por todas as partes surge forte oposição ao Papa Francisco, ao  seu modo pastoral, aberto, ecumênico e claramente posicionado ao lado dos pobres e sofredores deste mundo. Isso ocorre dentro da Cúria Romana, com cardeais e outros prelados, e em geral em certos grupos mais conservadores do catolicismo italiano e também brasileiro. Pressionado por esses grupos, o conhecido convertido e escritor Vittorio Messori publicou, exatamente na noite de Natal, um artigo critico sobre o modo do Papa exercer seu ministério. No meu modo de ver, não podemos deixar agredida uma fonte de esperança e de alegria que o Papa Francisco, bispo de Roma e Pastor universal, trouxe para uma Igreja altamente desmoralizada e para o mundo sem condução de líderes com envergadura moral e de liderança confiável. Aqui vai a minha resposta ao escritor, na esperança de que o diário Corriere della Sera a possa publicar. Brevemente o artigo aparecerá em português, pois o escrevi diretamente em italiano:

Eu li com um pouco de tristeza o artigo crítico de Vittorio Messori no Corriere della Sera, exatamente no dia menos adequado: a feliz noite de véspera de Natal, festa de alegria e de luz. Ele tentou estragar essa alegria para o bom pastor de Roma e do mundo, o Papa Francisco. Mas em vão, pois não sabe o significado da misericórdia e da espiritualidade deste Papa, virtude que seguramente não demonstra Messori. Por trás de palavras de compaixão e compreensão traz um veneno. E o faz em nome de tantos outros que se escondem por trás dele e não têm coragem de aparecer em público.

Eu quero propor uma outra leitura do papa Francisco, como um contraponto à de Messori, um convertido que, na minha opinião, ainda precisa completar sua conversão com a recepção do Espírito Santo, para não dizer mais as coisas que escreveu.

Messori demonstra três insuficiências: duas de natureza teológica e uma outra que diz respeito à compreensão da Igreja do Terceiro Mundo.

Messori ficou escandalizado com a “imprevisibilidade” deste pastor porque “continua perturbando a tranquilidade do católico médio”. É necessário perguntar-se sobre a qualidade de fé deste “católico médio” que tem dificuldade em aceitar um pastor que tem cheiro de ovelha e que anuncia a “alegria do Evangelho”. São geralmente “católicos culturais” habituados à figura faraônica de um Papa com todos os símbolos de poder dos imperadores romanos pagãos. Agora aparece um Papa “franciscano” que ama os pobres, que não “veste Prada”, que faz uma dura crítica ao sistema que produz a miséria em grande parte do mundo, que abre a Igreja não só aos católicos, mas a todos aqueles que carregam o nome de “homens e mulheres”, sem julgá-los, mas acolhendo-os no espírito da “revolução da ternura”, como ele pediu aos bispos da América Latina que se reuniram no ano passado no Rio.

Há uma grande lacuna no pensamento de Messori. Estas são as duas deficiências teologais: a quase ausência do Espírito Santo. Eu diria mais, ele incorre no erro teológico do cristomonismo, isto é, somente Cristo conta. Não há realmente um lugar para o Espírito Santo. Tudo na Igreja se resolve só com Cristo, algo que o Jesus dos Evangelhos exatamente não quer. Por que digo isso?  Porque o que ele deplora é a “imprevisibilidade” da ação pastoral deste Papa. Ou melhor, esta é a característica do Espírito, sua imprevisibilidade, como diz São João: “O espirito sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; “(3.8). A sua natureza é a irrupção repentina com os seus dons e carismas. Francisco de Roma seguindo os passos de São Francisco de Assis se deixa conduzir pelo Espírito.

Messori é refém de uma visão linear própria de seu ““amado Joseph Ratzinger” e de tantos outros papas anteriores. Infelizmente, foi esta visão linear que fez da Igreja uma fortaleza incapaz de compreender a complexidade do mundo moderno, isolada em meio a outras igrejas e caminhos espirituais, sem dialogar e  sem aprender com os outros que também são iluminados pelo Espírito. Significa blasfemar contra o Espírito Santo pensar que os outros pensam só de modo errado. Por isso é extremamente importante uma Igreja aberta como o quer Francisco de Roma. Para perceber as irrupções  do Espírito na história. Não é sem motivo que alguns teólogos o chamam a “ fantasia de Deus”,  por causa de sua criatividade e novidade na sociedade, no mundo, na história dos povos, nos indivíduos, nas igrejas e até mesmo na Igreja Católica.

Sem o Espírito Santo, a Igreja torna-se uma instituição pesada, sem graça, sem criatividade e, em certo ponto, que não tem nada a dizer ao mundo que não seja doutrina encima de doutrina, sem despertar a esperança e a alegria de viver.

É um dom do Espírito Santo que este Papa venha  de fora do velho cristianismo europeu. Não aparece como um teólogo sutil, mas como um pastor que realiza o que Jesus pediu a Pedro: “confirma seus irmãos na fé” (Lc 22:31). Traz consigo a experiência das igrejas do Terceiro Mundo, especialmente, as da América Latina.

Esta é uma outra falha de Messori: não ter a dimensão do fato de que hoje o cristianismo é uma religião do Terceiro Mundo, como enfatizou muitas vezes o teólogo alemão Johan Baptist Metz. Na Europa vivem apenas 25% dos católicos; o resto dos 72,56% vive no Terceiro Mundo (na América Latina 48,75%). Por que não poderia vir desta maioria um que o Espírito fez bispo de Roma e Papa universal? Por que não aceitar as inovações que derivam dessas igrejas, que já não são igrejas-imagens das velhas igrejas europeias, mas igrejas-emergentes com seus próprios mártires, confessores e teólogos?

Talvez no futuro, a sede do Primado não será mais Roma e a Cúria, com todas as suas contradições, denunciados pelo Papa Francisco na reunião de Cardeais e prelados da Cúria com palavras só ouvidas da boca de Lutero e com menos força em meu livro condenado por card. J. Ratzinger “Igreja: Carisma e Poder” (1984), mas sim lá onde vive a maioria dos católicos: na América, África ou Ásia. Seria um sinal próprio da verdadeira catolicidade da Igreja no processo de globalização do fenômeno humano.

Eu esperava uma maior inteligência e abertura por parte de Vittorio Messori com os seus méritos de católico, fiel a uma espécie de Igreja e renomado escritor. Este Papa Francisco trouxe esperança e alegria para tantos católicos e outros cristãos. Não percamos este dom do Espírito em função de uma mentalidade bastante negativa sobre ele.

Leonardo Boff

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A Boff e outros críticos que não leram

Tréplica de Vittorio Messori, Corriere della Sera, 05 de janeiro de 2015

Leonardo Boff,  líder da Teologia da libertação ao estilo brasileiro, aquela com uma referência mais explícita ao marxismo, depois dos confrontos como o então cardeal Joseph Ratzinger e depois das advertências de João Paulo II, declarou que a Igreja era inabitável e irreformável. Assim, ele abandonou o hábito franciscano e foi morar com um companheira. Mas a implosão do comunismo veio como uma surpresa e, como aconteceu com outros tantos, ele mudou do vermelho para o verde, passou para o ambientalismo mais dogmático, com aspectos de culto panteísta à mãe Terra. Continua, no entanto, celebrando sacramentos, com liturgias eucarísticas e batismais elaboradas por ele mesmo (onde não falta, como comenta-se, semelhanças à new age) com o conhecimento do episcopado brasileiro. Em uma entrevista que apareceu há um ano no Vatican Insider, ele afirmou não apenas ter um bom relacionamento com o Papa Francisco desde seus tempos na Argentina como arcebispo, mas de colaborar com ele em questões ambientalistas, tendo em vista a encíclica “verde” anunciada pelo Bispo de Roma e, ao que parece, sugerida por ele próprio.

Dizemos isto porque, neste firme admirador de Jorge Bergoglio, parece haver muito pouco da ternura, do acolhimento, do respeito pelos outros e da indulgente misericórdia pregada com tanta paixão pelo Papa Francisco. Seus comentários, publicados ontem por este jornal, sobre o meu artigo de 24 de dezembro, não têm nada das boas maneiras que Bergoglio exige no trato com todos, mesmo com os adversários. O ex-padre Leonardo me atribui “grandes lacunas no pensamento,” escassa inteligência, ignorância, chamando-me até mesmo de mal convertido, que ao atingir uma “respeitável idade, deveria finalmente completar o processo de conversão”. Ele chega ao ponto de me lançar na cara algo que para ele deve soar como uma pesada acusação, mas que pra mim é um grande elogio, ao me chamar de “cristomonista”. Eu não sei bem o que isso significa, mas pelo que dá pra intuir não me desagrada, pelo contrário, me deixa muito lisonjeado.

No entanto, nenhuma surpresa: ao escrever coisas que não agradam a todos, eu sei bem como reagem na prática esses edificantes intelectuais (muitas vezes religiosos) que, de fato, do diálogo gostariam de fazer uma espécie de religião. Mas não, não é isso que chama a atenção. O que me deixa amargurado é que Boff parece não ter lido direito tudo o que eu escrevi: talvez seja por causa do imperfeito conhecimento da língua italiana, talvez a pressa, talvez o preconceito ideológico, o fato é que a reação dele, tão veemente quanto confusa, pouco ou nada tem a ver com o que eu realmente disse. O exemplo mais marcante é a acusação de eu ter quase ignorado o Espírito Santo. Na verdade, a referência ao Paráclito é o elemento central do meu discurso, onde eu recordo que nada compreenderemos do Papado se não nos referirmos à ação livre e inescrutável do Espírito. Deixe-me dizer que no desconcertante debate suscitado por meu artigo, muitos outros críticos julgaram irrelevante centralizar-se no verdadeiro conteúdo: ao ler com os óculos da ideologia, atacaram um texto existente apenas em seus prévios esquemas, talvez mais políticos do que religiosos.

Mas, voltando a Leonardo Boff, acontece que em um desses sites mais frequentados pelos católicos, La Nuova Bussola Quotidiana, saiu a análise de um teólogo profissional justamente sobre o artigo publicado ontem pelo Corriere, depois de ter circulado por muitos dias na rede. O teólogo é Monsenhor Antonio Livi, que há muitos anos é professor na Universidade dos Papas, a Lateranense, conhecido internacionalmente por seus estudos, pela originalidade de seu pensamento e por suas iniciativas acadêmicas e editoriais. Este estudioso, muito respeitado no Vaticano, não hesitou em denunciar que “as críticas violentas e insanas contra Messori por parte de um ex-religioso que se apresenta como teólogo, representam a suma de todos os disparates dos ideólogos da teologia da libertação”. Esse especialista de autoridade reforça: “Boff se arroga o direito exclusivo de interpretar o que o Espírito quer da Igreja e atribui a si a infalibilidade que ele nega ao  Magistério”. O ex-franciscano – diz ainda Monsenhor Livi – parece ignorar que um verdadeiro teólogo nunca toma como verdade divina suas arbitrárias conjecturas” . E assim por diante.

Em suma, todos os críticos devem ser levados a sério, mas nem todos devem ser tomados ao pé da letra. Creio que esse último caso é o do eco-teólogo brasileiro.

27 novembro, 2014

Dilma + Boff + Betto = “As bruxas de Eastwick”.

Do post do blog de Reinaldo Azevedo, que merece ser lido na íntegra:

Ai, ai… Lá vamos nós. A presidente Dilma Rousseff decidiu receber nesta quarta dois representantes do próprio hospício mental para tratar, segundo entendi, de tema nenhum, numa evidência de que a suprema mandatária pode andar meio desocupada. Leonardo Boff, suspeito de ser teólogo, e Betto, suspeito de ser frei, estiveram com a governanta. O encontro acontece um dia depois de a dupla ter assinado um dito “manifesto de intelectuais petistas” contra a indicação de Joaquim Levy e Kátia Abreu para, respectivamente, os ministérios da Fazenda e da Agricultura. Hein? […]

Dilma decidiu dar trela a essa gente. É bem provável que não tenha se aproximado da janela em nenhum momento, né? Não custa ser precavido. Ah, sim: Boff, o audacioso, disse não ter debatido nomes de ministros com a presidente. Que bom, né? Afinal, ninguém o elegeu para isso. Ainda que essas duas personagens tenham um apelo, digamos, momesco, ao recebê-las com certa solenidade, Dilma exibe sinais preocupantes, como se estivesse a purgar os pecados do realismo, ajoelhando-se no altar de heresias delirantes.

4 setembro, 2014

Teologia da Libertação e PT, união indissolúvel.

O esquerdismo da teologia da libertação é obstinado: sua perfídia em apoiar Dilma, quando toda a nação começa a se manifestar contra o escândalo de um governo ditatorial e corrupto, é imperdoável, sobretudo no impasse que estamos vivendo. Graças a esta confissão explícita de fé socialista-petista, Marina Silva, desgraçadamente, pode ganhar as eleições, quando a Igreja deveria se unir para derrubá-la, tratando o mal pela raiz!

Foi graças à Teologia da Libertação que o PT chegou ao poder, e é graças à ela que esta sua filha, Marina, está às portas de alcançá-lo. Esses senhores, ao invés de continuarem professando estes mesmos erros, deveriam fazer uma pública declaração de culpa e se arrependerem de sua dureza de coração. Não arrancando o mal pela raiz, estão ainda promovendo as duas filhas de Lula.

Não somos daqueles que crêem que uma vitória de Aécio traria uma reviravolta positiva para a nação. Contudo, tratando-se de uma eleição entre três candidatos péssimos, deveria-se escolher aquele que destruirá a nação menos rapidamente, e que nos possibilitará alguma margem de contorno.

Parece mesmo que Deus está castigando a Igreja do Brasil, primeiro, enviando pastores que entregam suas ovelhas aos lobos, e, segundo, permitindo que uma presidente socialista, eco-protestante-fundamentalista e auto-suficiente chegue ao mais alto posto de comando do país, sob uma áurea pseudo-mística.

Deus tenha misericórdia da Igreja, Deus salve o Brasil!

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Leonardo Boff avalia Dilma, Marina e eleições 2014

Para Leonardo Boff, “Dilma é ainda a melhor opção para o povo brasileiro”. O filósofo, que foi professor de Marina Silva, também avaliou as principais mudanças de sua ex-aluna desde que a conheceu, no Acre, até agora, candidata à Presidência da República

Líder religioso, intelectual e militante de causas sociais, Leonardo Boff acredita que a presidente Dilma Rousseff (PT) “é a melhor opção para o povo brasileiro”. Ao explicar sua resposta, ele afirma que “os fatos falam por si”. “Até hoje nenhum governo fez políticas públicas cuja centralidade era o povo marginalizado, os invisíveis, considerados óleo gasto e zeros econômicos”, avalia. Quem fez isso com sucesso deve poder continuar a fazê-lo e de forma mais profunda e abrangente”, acrescenta Boff.

Leonardo Boff, Dilma e Marina (Pragmatismo Político)

Leonardo Boff, Dilma e Marina (Pragmatismo Político)

Em entrevista concedida ao jornalista Paulo Moreira Leite (leia a íntegra aqui), ele constata haver “um mal estar generalizado no mundo”. “Todos têm a sensação de que assim como o mundo está não pode continuar. Tem que haver mudanças”, ressalta, reforçando o que diz as pesquisas, segundo as quais mais de 70% da população desejam mudanças no País, e justificando a causa das manifestações de junho, de que o brasileiro quer mais do que já consegue hoje.

“Há ainda um fator novo: as políticas públicas do PT que tiraram 36 milhões da pobreza foram incorporadas como coisa natural, um direito do cidadão. Ora, o cidadão não tem apenas fome de pão, de casa, de luz elétrica. Tem outras fomes: de ensino, de cultura, de transporte minimamente digno, de saúde razoável e de lazer. A falta de tais coisas suscita uma insatisfação generalizada que faz com que esta eleição de 2014 seja diferente de todas as anteriores e a mais difícil para o PT. Precisamos de mudança. Mas dentre os partidos que podem fazer mudanças na linha do povo, apenas vejo o PT, desde que consolide o que fez e avance e aprofunde as mudanças novas atendendo as demandas da rua. Dilma é ainda a melhor para o povo brasileiro”.

Questionado a avaliar a mudança de Marina Silva desde que a conheceu, no Acre, quando foi sua aluna, até 2014, quando se candidata à Presidência da República pelo PSB, Boff observa, como primeiro ponto, a mudança de religião. “De um cristianismo de libertação, ligado aos povos da floresta e aos pobres, passou para um cristianismo fundamentalista que tira o vigor do engajamento e se basta com orações e leituras literalistas da Bíblia”.

Para Boff, a candidatura da ex-senadora “representa uma volta ao velho e ao atrasado da política, ligada aos bancos e ao sistema financeiro. Seu discurso de sustentabilidade se tornou apenas retórico”. Em sua visão, Marina não possui a habilidade de articulação. “Se vencer, oxalá não tenha o mesmo destino político que teve Collor de Mello”, prevê. Na entrevista, ele comenta ainda sobre o pessimismo generalizado no País – “grande parte induzido por aqueles que querem a todo custo e por todos os meios tirar o PT do poder” – e dá sua opinião sobre a mídia: “hoje, com a oposição fraca, eles se constituíram a grande oposição ao governo do PT”.

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Bispo de Jales teme fundamentalismo de Marina.

No último sábado, Dilma Rousseff foi recebida pelo Bispo de Jales, Dom Demétrio Valentini. Ontem o bispo pagou a visita, em entrevista para o jornal Valor Econômico, atacando Marina Silva. O Brasil vivendo uma guerra religiosa. Pobre país!

Dilma e Dom Demétrio Valentini

Dilma e Dom Demétrio Valentini

A possível vitória na eleição presidencial da ex-ministra Marina Silva (PSB), uma evangélica da Assembleia de Deus, já reaproximou a presidente Dilma Rousseff (PT) da ala progressista da Igreja Católica. O clima, entretanto, é de pessimismo e a relação com a petista ainda é fria, como demonstra em entrevista ao Valor Pro o bispo de Jales (SP), dom Demétrio Valentini.
 
O prelado recebeu Dilma em sua diocese no último sábado, quando a presidente foi ao interior paulista para um encontro com o PMDB. Dom Demétrio é integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), instituído pela Presidência da República e que poucas vezes se reuniu no governo Dilma. O bispo se manifestou no mesmo dia em que outro expoente do pensamento progressista católico, o ex-frei Leonardo Boff, chamou Marina de “Jânio de saias”, em entrevista ao portal Brasil 247. A seguir, a entrevista concedida por dom Demétrio, por telefone, ao Valor:
 
Valor: Marina Silva é a primeira política pertencente a outra religião com chances concretas de se eleger presidente da República. Que tipo de efeito essa circunstância pode gerar para a Igreja Católica e para a sociedade brasileira?
Dom Demétrio Valentini: Caso ela seja eleita, a Marina também será a primeira governante egressa das antigas Comunidades Eclesiais de Base. Ela tem origem católica, ingressou na vida social pela sua origem católica. Agora, a gente tem medo do fundamentalismo que ela pode proporcionar. Existe na Marina uma tendência ao radicalismo, pela convicção exagerada ao defender seus valores e suas motivações, que pode derivar para o fundamentalismo.
 
Valor: O que seria este fundamentalismo?
Valentini: É o risco de fazer da religiosidade um instrumento de ação política. No Brasil, cada igreja evangélica tem seu candidato. No caso da Igreja Católica, isto é de um tempo anterior ao Concílio, isto acabou.
 
Valor: O que o senhor sente entre os fiéis da comunidade católica de Jales?
Valentini: Sinto um somatório de fatores favoráveis a Marina. A comoção pelo desastre que vitimou Eduardo Campos, a vontade de se ter algo diferente, o desejo de mudança. Estou intuindo que a situação é irreversível. A não ser que haja uma reviravolta em que comecem a pesar as fragilidades de Marina, que não estão no fato de ela não ser católica. Estão em ela ter pouca articulação política e portanto existirem dúvidas sobre como ela vai governar.
 
Valor: Surpreendeu ao senhor o fato da presidente Dilma o ter procurado?
Valentini: A você surpreendeu? Dilma foi bastante reticente com as instituições que fazem a intermediação política da sociedade. Ela não estabeleceu muitas pontes, mas comigo se sentiu acolhida, as portas para ela ficaram abertas. Em 2010 eu escrevi um artigo rebatendo posições dentro da Igreja contrárias à sua eleição. Aquilo foi importante, porque havia manifestações na hierarquia católica contra o voto em Dilma. Restaurou-se um ambiente de confiança no equilíbrio político da CNBB. Foi há quase quatro anos. Ela sabia que estava me devendo um gesto e lembrou aqui deste episódio. Para mim, todos os candidatos merecem apoio. Um candidato está sujeito a muitas ciladas, é uma posição extremamente difícil.
 
Valor: Por que o senhor diz que ela não estabeleceu pontes?
Valentini: A Dilma tem um estilo mais autoritário, ela pouco nos convocou. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o fazia com muita frequência. Em 2005, quando estourou a crise do mensalão, ele convocou uma reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o ‘Conselhão’. Era um momento em que a possibilidade de ‘impeachment’ era muito palpável. Pediram que eu abrisse a reunião, que fosse um dos três conselheiros a falar antes do presidente e eu fiz uma manifestação a favor da continuidade do governo. Dilma delegou a terceiros certas formalidades. Ela se sente muito segura em suas posições e acha que pode prescindir de certos contatos, tem um temperamento fechado. Quem se manteve firme no diálogo foi o ministro Gilberto Carvalho (da Secretaria Geral da Presidência).
 
Valor: A eleição de um novo papa no ano passado facilitou o diálogo do governo com a Igreja?
Valentini: Dilma ao chegar aqui viu o retrato do papa Francisco e falou: ‘Agora temos um papa que nos apoia”. Ela também viu o retrato do papa emérito Bento XVI. Nós tivemos no Brasil aquela circunstância dos protestos populares de junho e para Francisco foi um desafio vir ao Brasil logo depois. Ele esconjurou o temor de que iríamos para o caos e mostrou que existe uma juventude que está disposta a colaborar, a construir algo. Construiu-se um ambiente de respeito ao papa que vai muito além das fronteiras da Igreja.
 
Valor: Mas Dilma está certa em achar que Francisco a apoia e Bento XVI não o fazia?
Valentini: Não há porque fazer esta comparação e Dilma não a fez. Mas Francisco motivou a Igreja para ser mais aberta, a dialogar com setores que estão fora.
8 julho, 2013

Boff gênio.

boff

Resposta de Leonardo Boff na caixa de comentários de seu blog. Depois de 50 anos de teologia, até ele tem dificuldade de compreender. Fato.

Para Boff, “Bento XVI queria escrever uma trilogia sobre as virtudes cardeais”. Fé, esperança e caridade, Sr. Genésio, são virtudes teologais, não cardeais. Volta para o catecismo, volta.

8 julho, 2013

Boff está tristinho.

Encíclica Lumen Fidei não agradou ao pajé-mor da Teologia da Libertação. A seguir, publicamos a análise divulgada em seu blog. Os destaques são nossos; os erros de português, dele.

Primeiras impressões sobre a encíclica Lumen Fidei

A Carta Encíclica Lumen Fidei vem como autoria do Papa Francisco. Mas notoriamente foi escrita pelo Papa anterior, agora emérito, Bento XVI. Confessa-o claramente  o Papa Francisco: “assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto alguma nova contribuição”(n.7). E assim deveria ser, pois caso contrário não teria a nota do magistério papal. Seria apenas um texto teológico de alguém que, um dia, foi Papa.

Bento XVI queria escrever uma trilogia sobre as virtudes cardeais. Escreveu sobre a esperança e o amor. Mas faltava sobre a fé, o que fez agora com pequenos complementos do Papa Francisco.

A Encíclia não traz nenhuma novidade espetacular que chamasse a atenção da comunidade teológica, do conjunto dos fiéis e do grande publico. É um texto de alta teologia, rebuscado no estilo e carregado de citações bíblicas e dos Santos Padres. Curiosamente cita autores da cultura ocidental como Dante, Buber, Dostoiewsky, Nietzsche, Wittgensstein, Romano Guardini e o poeta Thomas Eliot. Vê-se claramente a mão de Bento XVI, especialmente, em discussões refinadas de difícil compreensão até para os teólogos, manejando expressões  gregas e hebraicas, com soe fazer um doutor e mestre.

É um texto dirigido para dentro da Igreja. Fala da luz da fé  para quem já se encontra dentro no mundo iluminado pela fé. Nesse sentido é uma reflexão intrasistêmica. Ademais possui uma diccção tipicamente ocidental e européia. No texto só falam autoridades européias. Não se toma em consideração o magistério das igrejas continentais com suas tradições, teologias, santos e testemunhos da fé. Cabe apontar esse solipsismo pois na Europa vivem apenas 24% dos católicos; o resto se encontra fora, 62% dos quais no assim chamado Terceiro e Quarto Mundo. Posso me imaginar um católico sulcoreano, ou indiano, ou angolano ou moçambicano ou mesmo um andino lendo esta Encíclica. Possivelmente todos estes entenderão muito pouco do que lá se escreve, nem se encontram espelhados naquele tipo de argumentação.

O fio teológico que perpassa a argumentação é típico do pensamento de Joseph Ratzinger como teólogo: a preponderância do tema da verdade, diria, de forma quase obsessiva. Em nome desta verdade, se contrapoõe frontalmente com a modernidade. Tem dificuldade em aceitar um dos temas mais caros do pensamento moderno: a autonomia do sujeito e o  uso que faz da luz da razão. J. Ratzinger a vê como uma forma de substituir a luz da fé.

Não demonstra aquela atitude tão aconselhada pelo Concílio Vaticano II que seria: nos confrontos com as tendências culturais, filosóficas e ideológicas contemporâneas, cabe primeiramente identificar a pepitas de verdade que nelas existem e a partir dai organizar o diálogo, a crítica e a complementariedade. Seria blasfemar contra o Espírito Santo imaginar que os modernos somente pensaram  falsidades e inverdades.

Para Ratzinger o próprio amor vem submetido à verdade, sem a qual não superaria o isolamento do “eu”(n.27). Contudo sabemos que o amor tem a suas próprias razões e obedece a outra lógica, diversa sem ser contrária, àquela da verdade. O amor pode não ver claramente, mas ve com mais profundidade  a realidade.  Já Agostinho na esteira de Platão dizia que só compreendemos verdadeiramente o que amamos. Para Ratzinger, o “amor é a experiência da verdade”(n.27) e “sem a verdade a fé não salva”(n.24).

Esta afirmação é problemática em termos teológicos pois toda a Tradição, especialmente, os Concílios tem afirmado que somente salva “aquela verdade, informada pela caridade”(fides caritate informata). Sem o amor a verdade é insuficiente para alcançar a salvação. Numa linguagem pedestre diria: o que salva não são prédicas verdadeiras mas práticas efetivas.

Todo documento do Magistério é feito por muitas mãos, tentando contemplar as várias tendências teológicas aceitáveis. No final o Papa confere o seu jeito e lhe dá o aval. Isso vale também para este documento. Na sua parte final, provavelmente, pela mão do Papa Francisco, nota-se uma notável abertura que se compagina mal com as partes anteriores, fortemente doutrinárias. Nelas se afirma enfaticamente que a luz da fé ilumina todas as dimensões da vida humana. Na parte final a atitude é mais modesta:”A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas é uma lâmpada que guia nossos passos na noite e isto basta para o caminho”(n.57). Com exatidão teológica se sustenta que “a profissão de fé não é prestar assentimento a um conjunto de verdades abstratas mas fazer a vida entrar em comunhão plena com o Deus vivo”(45).

A parte mais rica, no meu entender, se encontra no n. 45 quando se explana o Credo. Ai se faz uma afirmação que desborda a teologia e tangencia a filosofia:”o fiel afirma que o centro do ser, o coração mais profundo de todas as coisas é a comunhão divina”(n.45). E completa:”o Deus-comunhão é capaz de abraçar a história do homem e introduzi-lo no seu dinamismo de comunhão”(n. 45).

Mas se constata na Encíclia uma dolorosa lacuna que lhe subtrae grande parte da relevância: não aborda as crises da fé do homem de hoje, suas dúvidas, suas perguntas que nem a fé pode responder: Onde estava Deus no tsunami que dizimou milhares de vida ou  em Fukushima? Como crer depois dos massacres de milhares de indígenas feitos por cristãos ao longo de nossa história, dos milhares de torturados e assassinados pelas ditaduras militares dos anos 70-80? Como ainda ter fé depois dos milhões de mortos  nos campos nazistas de extermínio? A encíclica não oferece nenhum elemento para respondermos a estas angústias. Crer é sempre crer apesar de…A fé não elimina as dúvidas e as angústias de um Jesus que grita na cruz:”Pai, por que me abandonaste”? A fé tem que passar por este inferno e transformar-se em esperança de que para tudo existe um sentido,  mas escondido em Deus. Quando se revelará?