Posts tagged ‘L'Osservatore Romano’

23 fevereiro, 2011

O ‘Osservatore Romano’ ataca a Comissão ‘Ecclesia Dei’.

(Kreuz.net – Tradução: Fratres in Unum.com) No dia 2 de fevereiro o vaticanista do diário ‘Osservatore Romano’ publicou um artigo escandaloso sob o título “Uma exigência mais premente de transparência e simplificação”.

Trata-se de uma análise saída da pena do redator chefe representante do jornal, Carlo Di Cicco.

O referido artigo aborda questões canônicas. Nesse contexto, Di Cicco chega a falar de uma suposta “situação estranha de algumas novas ordens religiosas” que dependem da “instituição peculiar” chamada ‘Ecclesia Dei’. A Comissão ‘Ecclesia Dei’ foi fundada pelo papa João Paulo II e se ocupa das preocupações dos tradicionalistas.

A ‘Ecclesia Dei’ é apresentada pelo ‘Osservatore Romano’ como uma comissão supostamente excepcional. Ela teria algumas competências canônicas, que supostamente necessitariam de uma regulamentação em todos os campos, pelo menos, no que diz respeito à doutrina.

Assim, a Comissão estabeleceria institutos religiosos e controlaria o funcionamento dos mesmos, onde esses institutos dependessem efetivamente da congregação para as ordens religiosas segundo o direito canônico.

Di Cicco sugere que a aprovação canônica da ‘Ecclesia Dei’ – embora certificada pelo próprio Papa – deve ser até mesmo questionada retroativamente.

Ele questiona ainda a ortodoxia dos institutos aprovados pela ‘Ecclesia Dei’ e escreve literalmente: “No caso dos institutos que foram aprovados pela ‘Ecclesia Dei’, pode-se pensar se a aprovação deles não poderia ser dada pela Congregação para as Ordens Religiosas, depois que se comprovasse que tudo está em ordem sob o aspecto doutrinal.”

Assim, o Osservatore Romano assume que a Comissão Pontifícia ‘Ecclesia Dei’ estabelece e administra institutos religiosos cuja ortodoxia seria duvidosa.

Sendo o blog ‘summorum-pontificum.fr’, parte do artigo é uma manobra interna do Vaticano contra o Motu Proprio ‘Summorum Pontificum’ e contra a reconciliação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X com o Vaticano.

10 novembro, 2010

Eles nunca estão satisfeitos: progressistas do L’Osservatore Romano e judeus se unem para pedir nova revisão de oração da Sexta-feira Santa e denegrir Pio XII.

CIDADE DO VATICANO, 9 (ANSA – via Secretum Meum Mihi) – O presidente da União de Comunidades Judaica Italianas (UCEI), Renzo Gattegna, pediu hoje que a Igreja Católica modifique a liturgia da Sexta-feira Santa, renunciando às referências à conversão dos judeus.

Essa medida constituirá, a seu juízo, um “gesto útil necessário e apreciado” para “prosseguir com a recíproca compreensão e amizade”.

Em artigo publicado hoje no L’Osservatore Romano, diário da Santa Sé, sob o título “Um futuro de amizade”, Gattegna disse que a modificação dessa liturgia “constituiria um sinal forte e significativo de aceitação de uma relação baseada na dignidade recíproca e no respeito mútuo”.

“Estas são condições indispensáveis para um futuro de amizade e solidariedade, as mesmas das quais tantos católicos deram mostras quando, pondo em risco suas próprias vidas, salvaram milhares de judeus das deportações aos campos de extermínio”, disse o responsável da UCEI.

A liturgia da Sexta-feira Santa — dia em que a Igreja recorda a crucifixão de Jesus — foi objeto de disputas entre católicos e judeus durante séculos, por conta da presença de uma oração na qual se rezava a Deus para a “conversão dos pérfidos judeus”, ou seja, distantes da fé dos cristãos.

A palavra “pérfidos” desapareceu dos missais católicos sob o pontificado de João XXIII e a nova versão da oração foi oficializada no novo missal aprovado pelo Concílio Vaticano II que, adaptando a liturgia do latim a outros idiomas, manteve apenas a oração a Deus “para que o povo primogênito de sua aliança possa chegar à plenitude da Redenção”.

Estas mudanças, contemporâneas à declaração conciliar “Nostra Aetate”, que dispôs sobre as relações da Igreja Católica com as religiões não cristãs, serviram para criar um clima de aproximação entre católicos e judeus, que foi novamente comprometido em 2007, após a publicação da carta apostólica “Summorum Pontificum”, do Papa Bento XVI.

Este “motu proprio” pontifício, com efeito, autorizava os sacerdotes a continuar utilizando, ainda que de forma extraordinária, o missal pré-conciliar — conhecido como tridentino, em alusão ao Concílio de Trento (1545-63) — embora a oração na qual se mencionava a conversão dos judeus conservasse as correções de João XXIII.

Para protestar contra esta mudança, os responsáveis pelas comunidades judaicas italianas não participaram, em janeiro do ano passado, da Semana do Diálogo Judaico-Católico, criada pelo Papa João XXIII, o que levou, por sua vez, a uma nova correção do texto, na qual se eliminam as referências à “obscuridade” em que estariam imersos os judeus por sua distância da fé cristã.[corrigindo uma imprecisão da notícia: a nova redação da oração pelo Papa Bento XVI foi lançada em fevereiro de 2008, antes, portanto, da reunião em que se ausentaram os representantes judeus. NDR.]

Agora Gattena relançou o debate sobre a possibilidade de eliminar completamente a oração, e recordou também outro tema delicado no diálogo entre judeus e católicos: a postura do Papa Pio XII perante o nazismo alemão em geral, e, mais especificamente, perante o holocausto dos judeus da Europa.

“O acalorado debate que se desenvolve há 50 anos sobre a conduta de Pio XII continua aberto”, disse o presidente das comunidades judaicas da Itália, acrescentando ainda que, embora os judeus “não queiram interferir” na questão do processo de beatificação do pontífice, atualmente em curso, “determinar a verdade histórica é algo que suscita um grande interesse”.

Referindo-se a uma reconstituição televisiva do pontificado de Pio XII produzida e transmitida pela rede de tevisão pública italiana RAI, Cattegna disse que “seria de uma importância fundamental poder seguir e completar a grande e difícil tarefa de investigação nos arquivos”, para iliminar fatos que “não podem ser tratados com rigor científico por um filme televisivo digno no aspecto artístico, mas cheio de imperfeições históricas”.

12 abril, 2010

Curtas da semana.

Um indigno sucessor de Dom José Cardoso Sobrinho.

Excertos de entrevista concedida por Dom Fernando Saburido, arcebispo de Olinda e Recife, ao Diário de Pernambuco:

Então, o senhor é contra o aborto em qualquer situação?

A Igreja defende que o aborto deve ser evitado. Mas é claro que tem que ver as condições médicas. Se existe um risco muito grande, há um consenso nesse sentido, então é algo a se considerar.

Se a menina corre risco de vida, o aborto poderia ser uma opção?

Essa decisão é médica, muito mais do que eclesial.

Mas teria apoio do senhor ou o senhor condenaria essa decisão?

Depende do parecer médico, da situação. Não pode radicalizar também as coisas. Às vezes você faz um ato para defender a vida de uma pessoa, então tem sentido.

Então se a criança grávida corre risco de morrer, o aborto deve ser uma opção a ser pensada para preservar a vida da criança?

Depende dos fundamentos. Se houver um consenso médico, de que o caso é comprovadamente necessário, então claro que aí tem que se pensar. Mas em casos onde é possível levar a gestação adiante, se deve preservar as duas vidas.

Ninguém sabe quem, mas alguém barrou Boff em Petrópolis.

Diário de Petrópolis – O “teólogo” e “filósofo” Leonardo Boff foi vetado de proferir de uma palestra que aconteceria na II Conferência Municipal de Saúde Mental, que começou na manhã de ontem na Universidade Católica de Petrópolis (UCP). O veto teria partido do bispo Dom Filippo Santoro, chanceler da universidade. Em nota enviada ao “Diário”, a assessoria de imprensa do bispo informou que o veto partiu da reitoria. Esta, não se pronunciou. […] Boff disse que novamente voltou a sofrer censura e represália, pois o bispo Dom Filippo Santoro teria impedido que ele ministrasse uma palestra durante a Conferencia Municipal de Saúde Mental, onde abordaria o tema “O cuidado em Saúde”. “O tema não tem nada a ver com a religião”, explicou. Ele acusou o bispo de cometer um atentado contra os direitos humanos e de ofender a comunidade médica que se deslocou de diversas cidades para ouvir as suas palavras. “Sou ouvido sem veto em várias cidades no mundo e nunca fui proibido de falar”, continuou. Leonardo Boff continuou dizendo que o bispo é conservador e não aceita e nem exerce a democracia.

L’Osservatore Romano homenageia os Beatles. De novo.

Catholic Culture – A edição de 10 de abril de L’Osservatore Romano incluiu uma coluna comemamorando o 40º aniversário da separação dos Beatles. Prestando homenagem à “mágica alquimia criativa” dos Beatles, Giuseppe Fiorentino e Gaetano Vallini escrevem que o “valor de sua herança musical” é “inestimável”.

Monsenhor Gänswein escreve um livro sobre o Papa

Kreuz.net – Vaticano. O Secretário Privado do Papa, Monsenhor Georg Gänswein, publicou um livro de fotografias sobre Bento XVI pela editora Herder. O livro surgiu por ocasião do quinto aniversário da escolha de Bento XVI, em 19 de abril. Ele contém cerca de 200 fotos e citações do Papa e se chama: “Urbi et Orbi”.

Instituto de Cristo Rei oferece buquê espiritual ao Papa.

Instituto de Cristo Rei – O Instituto de Cristo Rei Soberano Sacerdote está preparando o envio de um buquê espiritual a Sua Santidade, o Papa Bento XVI. Através de um formulário online você pode contribuir neste buquê, junto de outros espalhados pelo mundo, que será apresentado diretamente a Sua Santidade. Todos são convidados a contribuir com Santas Missas, Rosários, novenas, Horas Santas ou obras de caridade para o Santo Padre neste momento em que ele está sendo injustamente atacado.

Congregação para a Doutrina da Fé publica guia sobre os procedimentos em casos de abusos sexuais contra menores.

Vatican Information Service – O site do Vaticano publicou hoje um guia para compreensão dos procedimentos básicos em casos de abusos sexuais contra menores. Trata-se da aplicação do motu proprio “Sacramentorum sanctitatis tutela”, de 2001, juntamente com as disposições do Código de Direito Canônico de 1983. Dentre outras disposições, é ressaltado que qualquer alegação com “aparência” de verdade deve ser submetida pelo bispo diocesano à Congregação para a Doutrina da Fé, salientando ainda que a lei civil “deve ser sempre seguida”. São previstos casos extremos onde a Congregação reserva a decisão diretamente ao Santo Padre, sem possibilidade de recursos.

Requiescant in pace.

Nossos pêsames aos poloneses pela morte do Presidente Lech Kaczyński e de outras 95 pessoas, dentre elas o Bispo Tadeuz Ploski, do Ordinariato Militar, em um acidente aéreo enquanto partiam para a Rússia prestar homenagem às vítimas do Comunismo na década de 40.

O telegrama de condolências do Santo Padre pode ser visto aqui.

Novo blog do Serviço de Informação do Vaticano.

Foi lançado o novo blog do VIS:  http://www.visnews.org/

9 outubro, 2009

O machado do bispo sobre Obama. E sobre a cúria romana.

Por Sandro Magister – www.Chiesa 

Arcebispo ChaputEm um artigo-bomba publicado em Roma, Charles J. Chaput, bispo de Denver, critica o presidente americano e os homens da Igreja que o exaltam, encabeçados por Cottier, cardeal da Cúria. Porém, a Secretaria de Estado do Vaticano também está na mira.

Por Sandro Magister

ROMA, 8 de outubro de 2009 – “Sempre defenderei com veemência o direito dos bispos de me criticarem”, havia garantido Barack Obama às vésperas da audiência que teve com Bento XVI, no último dia 10 de julho.

 De fato, são oitenta os bispos católicos dos Estados Unidos que estão em flagrante desacordo com ele sobre questões cruciais, em primeiro lugar, a defesa da vida. Entre eles está o Cardeal Francis George, Presidente da Conferência Episcopal e Arcebispo de Chicago, a cidade de Obama.

Igualmente, o bispo de Denver, Charles J. Chaput, de 65 anos, originário de uma tribo nativa americana, franciscano da ordem dos capuchinhos, há um ano autor de um livro que já diz muito pelo título: “Render unto Caesar. Serving the Nation by Living Our Catholic Beliefs in Political Life” (Dai a César: servindo à nação ao viver nossas crenças católicas na vida política). É justo dar a César o que ele espera, mas se serve a nação vivendo a própria fé católica na vida pública.

Chaput não gosta da forma com que Roma, no Vaticano, dissimula as críticas da Igreja americana a Obama. Ele não gostou, particularmente, dos elogios desenfreados feitos ao presidente americano no último mês de julho – que coincidiram com o encontro de Obama com o Papa – por parte de um venerável cardeal da Cúria, o suíço Georges Cottier, teólogo da Casa Pontifícia, com um ensaio na revista “30 Dias”.

 “30 Dias” é uma revista de geopolítica eclesiástica muito lida na Cúria Romana. A revista é dirigida pelo mais “curial” dos políticos católicos italianos de longa data, o senador vitalício Giulio Andreotti. A publicação chega a todas as dioceses do mundo em seis idiomas e reflete plenamente as políticas realistas da diplomacia vaticana.

Depois de ter lido o entusiasmado artigo do Cardeal Cottier – entusiasmado, sobretudo, com o discurso pronunciado por Obama na Universidade católica de Notre Dame – e depois de ter lido também um editorial anterior de “L’Osservatore Romano”, igualmente bastante elogioso para com os primeiros cem dias do governo do presidente americano, incluindo “o apoio à maternidade”, Chaput considerou que era seu dever refutá-los.

Tomou papel e lápis e respondeu palavra por palavra: a Obama, ao cardeal Cottier e à Secretaria de Estado do Vaticano. E não o fez em um diário dos Estados Unidos, mas sim em um diário impresso em Roma, para que o Vaticano o visse.

A sua réplica foi publicada em 6 de outubro no “il Foglio”, o diário de opinião dirigido por Giuliano Ferrara, um não católico, mas muito atento ao rol público das religiões, e de simpatias decididamente “ratzingerianas”.

O artigo do bispo de Denver ocupou toda a terceira página, com o título: “O machado do bispo pele vermelha. Charles J. Chaput contra Notre Dame e o ilustre cardeal seduzido pelo abortista Obama”.

O texto está reproduzido abaixo, com o título original.

No mesmo 6 de outubro, na primeira página, “il Foglio” publicou também uma entrevista com o cardeal George, presente nestes dias em Roma para apresentar um novo livro de sua autoria, sob o título “The Difference God Makes. A Catholic Vision of Faith, Communion, and Culture” [A diferença que Deus faz. Uma visão católica sobre a fé, a comunhão e a cultura].

Na entrevista, entre outras coisas, disse o cardeal:

 “Hoje, a maior dificuldade que temos como Igreja é a de comunicar à sociedade que existe uma hierarquia de valores. Tomemos a questão do aborto e da vida em geral. A voz da Igreja é ouvida nos Estados Unidos, mas também é muito combatida. E as críticas à Igreja ocorrem por um motivo: porque nossa sociedade considera que o individualismo e a liberdade de escolha são os valores mais importantes que devemos proteger. Hoje, o livre arbítrio vale mais que a vida”.

 E também:

 “A moral da Igreja sobre certos temas jamais mudou. É verdade que L’Osservatore Romano pode ter escrito uma dúzia de linhas favoráveis a Obama e que algum cardeal pode ter falado com entusiasmo da atual administração americana, mas, além das manifestações jornalísticas, permanece de pé a máxima que a Igreja não pode trair a si mesma”.

A política, a moral e um presidente. Uma visão americana.

Por Charles J. Chaput

Um dos pontos fortes da Igreja é a sua perspectiva global. Neste sentido, o recente ensaio publicado pelo cardeal Georges Cottier sobre o presidente Barack Obama (“A política, a moral e o pecado original”, em “30 Dias”, n° 5, 2009) ofereceu uma valiosa contribuição ao debate católico sobre o novo presidente americano. Nossa fé nos une mais além dos limites. O que acontece em uma nação pode exercer um impacto importante em muitas outras. A opinião mundial sobre os líderes dos Estados Unidos não só é apropriada, mas também deve ser bem recebida.

Não obstante, o mundo não vive e não vota nos Estados Unidos, porém, os americanos sim. As realidades pastorais de cada país são melhores conhecidas pelos bispos locais que guiam o seu povo. Assim, quanto ao tema dos líderes americanos, as reflexões de um bispo americano, certamente, podem despertar um interesse significativo, uma vez que elas podem aprofundar um juízo positivo do cardeal, ao oferecer uma perspectiva diferente.

Devo advertir que aqui falo somente a título pessoal. Não falo em nome dos bispos americanos entendidos como um organismo, nem em nome de qualquer outro bispo. E nem sequer pretendo me referir ao discurso do presidente Obama ao mundo islâmico, que o cardeal Cottier menciona em seu ensaio. Para poder fazer isso seria necessário redigir outro artigo.

Pelo contrário, me concentrarei no discurso de formatura pronunciado pelo presidente na Universidade de Notre Dame, e nas observações do cardeal Cottier a este respeito. Esta decisão se dá por dois motivos.

Primeiro, os membros de minha diocese pertencem à comunidade nacional de Notre Dame, como estudantes, formandos e padres. Cada bispo tem um papel decisivo na fé das pessoas confiadas a seus cuidados, e Notre Dame tem sido sempre muito mais que uma simples universidade católica: é um ícone da experiência católica americana.

Segundo, quando o bispo local de Notre Dame se declara em desacordo com um determinado orador, e outros oitenta bispos e trezentos mil leigos respaldam abertamente o bispo, toda pessoa razoável deve deduzir que existe um problema concreto com relação a este orador, ou ao menos com relação a seu discurso específico. As pessoas razoáveis podem ademais optar por divergir do juízo dos pastores católicos mais diretamente envolvidos na controvérsia.

O ensaio do cardeal Cottier, de maneira infeliz e inconsciente, subestima a gravidade do que aconteceu em Notre Dame. E de uma maneira por demais apelativa, passa por cima da concordância do pensamento de Obama com a doutrina católica.

Há vários pontos importantes a serem realçados.

Primeiro, o desacordo sobre a intervenção do presidente Obama na Universidade de Notre Dame não tem nada a ver com a questão de ser ele um homem bom ou mau.

Indubitavelmente, ele é um homem de grandes dotes. Possui um ótimo instinto moral e político e demonstra uma devoção admirável por sua própria família. Estas são coisas que contam, mas, desgraçadamente, contam também estas outras: o ponto de vista do presidente sobre questões decisivas de bioética – incluindo o aborto, porém sem a este se limitar – difere radicalmente da doutrina católica. É precisamente por isso que Obama pôde contar durante muitos anos com o apoio de poderosas organizações favoráveis ao “direito ao aborto”. Em alguns círculos religiosos fala-se de simpática do presidente pela doutrina social católica, mas a defesa do fato é uma exigência de justiça social. Não existe nenhuma “justiça social” se os membros mais jovens e indefesos da espécie humana podem ser assassinados legalmente. Certamente, os bons programas para os pobres são vitais, mas estes não podem servir para justificar esta violação fundamental dos direitos humanos.

Segundo, em algum outro momento e em outras circunstâncias, a controvérsia em Notre Dama poderia ter desaparecido facilmente se a universidade tivesse pedido simplesmente ao presidente que proferisse uma conferência pública. Mas no momento em que os bispos americanos já haviam expressado uma forte preocupação com políticas abortistas da nova administração, a Universidade de Notre Dame fez do discurso de Obama o acontecimento culminante da cerimônia para a entrega dos títulos de licenciatura e também lhe entregou um doutorado “honoris causa” em Direito, isso apesar das inquietantes posições do presidente a respeito da lei sobre o aborto e outras questões sociais a ela vinculadas.

A verdadeira causa das preocupações católicas sobre a intervenção de Obama em Notre Dame foi sua própria posição abertamente negativa acerca do tema do aborto e outras questões controversas. Com sua iniciativa, a Universidade de Notre Dame ignorou e violou as linhas mestras expressas pelos bispos americanos no documento “Catholics in Political Life” [Católicos na Vida Política], publicado em 2004. Neste documento, os bispos exortavam as instituições católicas a não conceder honras públicas a funcionários de governo que estivessem em desacordo com a doutrina da Igreja em questões de importância primordial.

Deste modo, o áspero debate que na primavera passada causou danos os ambientes católicos americanos a propósito da condecoração outorgada a Barack Obama pela Universidade de Notre Dame não foi em absoluto sobre políticas partidárias. Pelo contrário, remetia a questões essenciais da fé, à identidade e ao  testemunho católicos – impulsionadas pelos pontos de vista de Obama –, que o cardeal Cottier pode ter compreendido mal, ao escrever fora do contexto americano.

Terceiro, o cardeal ressalta justamente os pontos de contato entre a procura, freqüentemente acentuada por Obama, de um “terreno político comum” e a promoção católica do “bem comum”. Estes dois objetivos (buscar um terreno político comum e promover o bem comum) podem freqüentemente coincidir, mas não são a mesma coisa, podem ser muito diferentes na prática. As chamadas políticas de “terreno comum” sobre o aborto podem na realidade minar até a raiz o bem comum, porque implicam uma falsa unidade: estabelecem uma plataforma de acordo público demasiado estreita e débil para sustentar o peso de um autêntico consenso moral. O bem comum não poderá jamais ser promovido por aquele que tolera o assassinato dos mais débeis, começando pelas crianças que ainda não nasceram.

Quarto, o cardeal Cottier recorda justamente aos próprios leitores o respeito recíproco e o espírito de colaboração requeridos pelo princípio de cidadania em uma democracia pluralista. Mas o pluralismo não é um fim em si mesmo, tampouco é uma desculpa para a inércia. Como reconheceu o mesmo Obama em seu discurso na Universidade de Notre Dame, a vida e a solidez da democracia dependem da convicção com a qual o povo está disposto a combater publicamente por aquilo em que crê, de forma pacífica e legal, mas com vigor e sem lamentação.

Infelizmente, o presidente também proporcionou uma curiosa observação, precisamente, que “a grande ironia da fé é que implica necessariamente a presença da dúvida… Mas esta dúvida não nos deve afastar de nossa fé, mas, pelo contrário, deve nos tornar mais humildes”. Em certo sentido, obviamente, isso é certo: deste lado da eternidade, a dúvida faz parte da condição humana. Mas a dúvida é a ausência de algo, não é um valor positivo. Se impedir os crentes de agir sobre as bases das exigências da fé, a dúvida se converte em uma debilidade fatal.

O costume da dúvida se adapta com demasiada facilidade a uma espécie de “incredulidade batizada”: um cristianismo que é um pouco mais que uma vaga lealdade tribal e um vocabulário espiritual conveniente. Muitíssimas vezes, na recente experiência americana, o pluralismo e a dúvida se converteram num álibi para a inércia e a letargia política a moral dos católicos. Talvez a Europa seja diferente. Mas parece-me que o atual momento histórico (que compartilham os católicos americanos e europeus) não se parece em nada com as circunstâncias sociais que tiveram de afrontar os antigos legisladores cristãos mencionados pelo cardeal. Estes homens tiveram a fé e também o zelo necessários (temperados pela paciência e pela inteligência) para encarnar explicitamente na cultura o conteúdo moral de sua fé. Em outras palavras, edificaram uma civilização esculpida pelo credo cristão. O que está acontecendo hoje é algo completamente diferente.

O ensaio do cardeal Cottier é um autêntico testemunho de seu próprio espírito generoso. Fiquei chocado particularmente por seus elogios ao “humilde realismo” do presidente Obama. Espero que ele tenha razão. Os católicos americanos desejam que ele tenha razão. A humildade e o realismo são o terreno sobre o qual pode crescer uma política fundada no bom sentido, modesta, à medida do homem e moral. Ficamos na expectativa para ver se o presidente Obama pode proporcionar uma liderança desse tipo. Temos o dever de rezar por ele, para que possa fazê-lo e o faça.

 

22 maio, 2009

Editor do jornal do Vaticano diz que “Obama não é pró-aborto”.

Barack Obama

Roma, Itália, 20 de maio de 2009 / 06:24 h (CNA).- O Editor chefe do jornal do Vaticano L’Osservatore Romano explicou hoje a Paulo Rodari, um analista do Vaticano para o diário “Il Riformista,” que o discurso do Presidente Barack Obama aos formandos de Notre Dame foi muito respeitoso e que ele “não é um presidente pró-aborto.”

Na entrevista com Rodari, o Editor chefe Gian Maria Vian discutiu seus pensamentos sobre o Presidente Obama na Universidade Notre Dame. “Obama não aborreceu o mundo,” disse ele. “Seu discurso em Notre Dame foi respeitoso com relação a todas as posições. Ele tentou se envolver no debate fugindo de toda posição ideológica e de toda “mentalidade de confronto.” É nesse sentido que seu discurso deve ser avaliado.”

Vian continuou, “Deixe-me esclarecer, o L’Osservatore se posiciona onde os bispos americanos estão posicionados: consideramos o aborto um desastre. Devemos promover sempre e em todos os níveis uma “cultura da vida”.

“O que eu quero enfatizar é que ontem, nessa questão precisa e muito delicada, o Presidente disse que a aprovação da nova lei sobre o aborto não é uma prioridade de sua administração. O fato de que ele disse isso é muito tranqüilizador para mim. Isso também ressalta minha própria e clara convicção: Obama não é um presidente pró-aborto,” disse ele a Rodari.

Continuando a entrevista, Rodari enfatizou que o L’ Osservatore Romano publicou duas estórias diferentes sobre a mesma questão, uma positiva sobre o discurso de Obama em Notre Dame, a outra extremamente crítica sobre a sua posição em relação à pesquisa com células tronco embrionárias que citou os receios da Conferência Nacional dos Bispos dos EUA.

Vian respondeu: “Esta é a nossa política, a maneira que utilizamos para informar. Se uma conferência nacional de bispos diz alguma coisa, nós a informamos.” Todavia, ele continuou, é “apropriado apresentar outras perspectivas” aos leitores para que eles possam julgar com exatidão “as informações internacionais.”

De acordo com Rodari, “as palavras de Vian são importantes, porque elas falam sobre um confronto entre Obama e a Igreja Católica que agora parece estar limitado principalmente entre parte do episcopado americano. Um confronto que a Santa Sé nem aprova nem desaprova. Simplesmente observa.”