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30 abril, 2014

Orgulhoso lamento Católico.

“O sobrinho de João XXIII agride verbalmente a filha de um dos nossos, a rádio nos despede bruscamente. A divergência em nome da tradição e da doutrina é tratada com dureza. Por quê?”

Por Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro – Il Foglio, 16 de outubro de 2013 | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com – Dado o tema, não vai ser uma grande citação, mas é necessário começar com uma mensagem de texto SMS datada de sábado, 12 de outubro, às 14:24:

“Caro Giuliano, hoje minha filha, de 18 anos, ao sair da escola foi agredida verbalmente pelo pai de uma de suas colegas de classe, só por causa do que eu escrevi no jornal sobre o Papa. Esse senhor é um jornalista e é sobrinho e biógrafo do Papa Bom”.

Enquanto o diretor deste jornal respondia com cortesia e atenção a muitos Católicos que já não sabem sequer o caminho de casa, o biógrafo do Papa Bom, obrigado por sua filha, tentava se desculpar por telefone, explicando que a garota entendeu mal suas palavras e que aquele era seu modo de participar da discussão.

Evidentemente, que não estava de todo errado o velho professor de escola primária que, a fim de chamar a atenção para suas aulas de história, explicava a um rebanho de estudantes preguiçosos: “para entender por que a história começou, precisa sempre ver como ela vai acabar”.

Olhando para trás, ao longo do tempo esta máxima tornou-se cada vez mais uma dica hegeliana de cinismo, que um de Croce e Gentile colocou lá de propósito para que os estudantes permaneçam ali até o toque da sineta. Mas, olhando mais de perto, o mestre Frecassetti sabia melhor do que podia parecer.

Devemos reconhecer que o motivo pelo qual começamos a colocar nossos pensamentos no preto e no branco no tocante ao pontificado do Papa Francisco se encontra exatamente no epílogo da mensagem de texto acima citada.

A ferocidade com a qual vem sendo defendido o Papa da Misericórdia, já se via em todo o coro de hosanas entoado desde a noite de sua eleição. Beija-pés e anti-clericais, devotos e agnósticos, católicos de conveniência e outras crenças, todos a cantar loas em uma igreja que de repente se tornou imaculada, linda e livre de todos os defeitos.

E depois, lá se foram todos em procissão para consagrar em Lampedusa, o lugar do mais novo holocausto, para ouvir missa na praia de Copacabana, pra jejuar pela paz ou simplesmente por medo da guerra na Praça de São Pedro. Todos, em todos os lugares celebrando uma igreja voltada para as honras do mundo ao invés do Senhor.

Diante de tanto consenso, até a passagem da Sagrada Escritura com a qual São Lucas fecha as Bem Aventuranças: “Ai de vós, quando todos os homens vos louvarem!” (Lucas 6:26) deve soar a prepotência. 

Na Guerra contra o Evangelho o mundo abraça apenas os que são de sua própria espécie e não costuma fazer deles prisioneiros, mas na feira midiática onde o Papa brilha como uma estrela, ninguém parece levar isso em conta.

Estão todos muito à vontade nessa espécie de país das maravilhas onde os opostos giram de bracinhos dados, fazendo marolas com o princípio da não-contradição.

Em apenas seis meses jogaram ao mar a necessidade de demonstrar com rigor a racionalidade da fé que estava tão em moda nos tempos de Bento XVI.

Ora, até mesmo naquela controvérsia sobre o Ser na entrevista a Scalfari, o diálogo com o Papa parece ter saído de uma página do filósofo Heidegger. Dos pés de um Pontífice que diz amar a mística enquanto despreza a ascética, em um segundo foram chutados para o lixo séculos de metafísica.

No espaço de uma homilia na Casa Santa Marta foi apagada a memória de Ratzinger e silenciado seu discurso sobre a razão. Só sobrou o “coração” e como no coração ninguém manda, o jeito é cobrir com insultos os dissidentes ao invés de argumentos. Ou então se agride uma garota só porque seu pai emitiu uma opinião onde sempre foi lícito emiti-la.

Ou aindase é demitido sumariamente da Rádio Maria, sem nenhum direito de apelo, fuzilados como desertores por não terem apoiado incondicionalmente todas as iniciativas desse Papa.

De qualquer modo, apesar do sentimento de ” bem-estar” dos que  não viam a hora de reprimir qualquer ar de dissidência de quem ainda ousa levantar a cabeça, recebemos centenas de emails, telefonemas e mensagens com um desconcertante apoio até mesmo da parte de muitos ouvintes da “Rádio Maria”. Antes de mais nada porque o episódio foi grotesco. Em uma igreja onde todos criticam, contestam, se manifestam, escrevem volumes de livros e artigos para denegrir o passado, presente e futuro, aqueles que foram afastados de uma estação de rádio católica foram justamente dois que decidiram “agir de acordo com suas consciências e perseguiram o que eles acreditam ser bom”, ao criticar nas palavras do Papa Bergoglio o que está em claro contraste com a tradição católica.

Mas o que mais impressiona nessas mensagens é a adesão libertadora daqueles que dizem:”aquilo que vocês escreveram é o que há muito tempo muitos estão pensando, mas que ninguém ousava dizer”.

Como o mundo é pequeno e os fiéis dentro da igreja murmuram, dá pra entender o desconforto que a nossa mensagem suscitou nos ambientes clericais. Não somos criancinhas como as dos contos de fadas de Andersen, mas, assim como o menino da fábula :“As roupas novas do imperador”, tivemos a coragem de gritar que o imperador está nu, enquanto os cortesãos disputavam pra ver quem elogiava mais as roupas que ele usava. E então havia o risco de que as pessoas começassem a perceber, a se dar conta e comentar de que há algo errado, tem alguma coisa que não bate bem. E essa seria uma dissidência muito particular e difícil de se lidar.

Pois aqui não se trata de freiras americanas que querem mulheres sacerdotes, nem de teólogos da libertação que amam ativismo socialista dentro da Igreja ou de padres austríacos reinvindicando a abolição do celibato.

A nossa divergência é a de uma fatia diversificada do rebanho católico que percebe que a doutrina sobre a qual se fundamenta sua fé corre sério perigo e que a própria idéia do Papado e da Igreja também corre risco.  É a dissidência de tantos católicos perplexos que não querem  mulheres como cardeal, não querem “missas criativas” transformadas em show de acordo com o gosto do celebrante, não querem teólogas “vetero-feministas” com poder dentro da Igreja, não querem demonstração de “pauperismo” em canais de televisão e não querem pastores e teólogos que se calam sobre temas ligados à família e à bioética.

Esta fatia do povo de Deus viu e avaliou de perto os vinte anos de governo do Cardeal Jesuíta Carlo Maria Martini na Diocese de Milão, e agora não quer ver a Igreja inteira submetida ao mesmíssimo discutível tratamento.

E a perplexidade vai se revelando na medida em que a gente começa a falar. Podemos dizer que ela começou desde os primeiros gritinhos ouvidos no primeiro dia da eleição do Cardeal Bergoglio, desde aquele “Buonasera” (boa noite) que deixou todos atordoados e da sua insistência em se apresentar apenas como “Bispo de Roma”.

Certamente e é preciso que se diga, que o problema não é só o Papa Francisco. Por exemplo, existem certos papólatras para os quais o Papa é “ontologicamente incriticável”em tudo o que ele diz . E aqui se diz ” ontologicamente ” num mundo católico que sequer conhece mais o significado do termo ontologia. Se o papa atualmente reinante disser, por hipótese, que você deve beber sangria e torcer pela seleção da Argentina, eis que os papólatras imediatamente começarão a beber sangria e vestir a camisa da seleção da Argentina depois de anos bebendo apenas cerveja e torcendo pelo Bayern de Munique. Tudo isso sem afetar a “hermenêutica da reforma na continuidade”.

No final, o problema é esse mundo Católico que se tornou medíocre e incapaz de expressar qualquer coisa de calibre intelectual. É um reflexo eloqüente do estado da imprensa católica, uma imprensa que se tornou lugar de conflito e de governo, mas não lugar de elaboração de idéias ou pra mostrar ao mundo qual é a identidade da Igreja.

No domingo passado, a Igreja Católica beatificou 522 mártires da Espanha, quase todos eles, sacerdotes e religiosos assassinados por ódio à fé pelo exército anarquista espanhol.  A revista “Avvenire” falou alguma coisa sobre eles em sua página 23, numa pequena nota em caixa baixa (letras minúsculas).

522 mártires e a publicação oficial da Conferência de Bispos Italianos (CEI) se envergonha, escondendo-os numa pequena nota, tomando o cuidado pra não dizer claramente quem os martirizou. Esses mártires falavam espanhol, é verdade, mas infelizmente para eles, não eram da Argentina, não frequentavam periferias existenciais e para piorar foram mortos enquanto estavam em seus conventos e igrejas rezando e ensinando o Catecismo de sempre.

Não é de se surpreender portanto que essa mesma imprensa busque neutralizar, mediante o desprezo pessoal ou através da censura, qualquer um que ouse perguntar a razão de contradições tão óbvias, até quando elas saem da boca do sucessor de Pedro. Seria mais fácil para todos se aqueles que discordam seriamente sobre o mérito da questão mostrassem onde estão os erros. Mas Augusto Del Noce já nos tinha avisado quando ele previu com terror uma sociedade onde não seria mais possível levantar questões ou fazer perguntas.

Uma condição dessa espécie não pode ser assinada ou ratificada por um Católico com o uso da razão, pois é repugnante à inteligência .

Além do mais, é difícil “apoiar plenamente qualquer iniciativa de um Papa” que divaga com o ateu Scalfari sobre a “autonomia da consciência, ou que falando à “Civiltà Cattolica” nos convida a moderar o tom sobre questões éticas, que ao ser entrevistado no avião se pergunta quem é ele para julgar os homossexuais, que usa a Congregação para os Religiosos para proibir os Franciscanos da Imaculada Conceição de celebrar a missa antiga, que voa para Lampedusa e ali elogia os frutos espirituais do Ramadã.

Não obstante tudo isso, não tem sido fácil dar voz ao desconforto provocado pelo atual Pontificado.

Tecnicamente, nós somos os únicos na nossa região que ainda são conhecidos como “paolotti” [o paolotto no dialeto bergamasco diz respeito ao católico simples que vê o mundo contra a luz e sabe que lá atrás existe uma ordem que deve ser respeitada porque assim dispôs o Pai Eterno].

Nascemos e crescemos em uma fatia da Lombardia dividida de um lado pela Adda, do outro por Brianza e, do outro, Bérgamo, terras brancas como um lençol no varal. Quando éramos crianças, lembro-me que em nossa terra havia uma hierarquia em que no primeiro lugar de honra estava o pároco, em segundo lugar o prefeito, depois o médico, o farmacêutico e se havia uma delegacia, o delegado de polícia era o último. Sobre esta casta bem ordenada de autoridade não reinava nem mesmo o presidente da República, pois desde aquela época os politicos de Roma já eram considerados corruptos. Porém, isso era só até o lado de cá do Rio Tibre. Do outro lado estava o Papa e era um outro mundo. O Santo Padre vestido de branco em Roma era para nós meta, luz e guia que reinava acima de qualquer devoção que poderíamos dirigir a qualquer outra criatura humana. Falar mal do Papa não era lícito nem mesmo naqueles redutos onde se mastigava fumo de terceira categoria e se bebia vinho tinto de fabricação caseira ou se praticava um anti-clericalismo que não ia além do pároco.

Nascidos e criados como “paolotti”, nos encontramos agora no dever de ter que dizer o que está suscitando tanto clamor,  porque tem sido o próprio Papa a desenhar um modelo de Igreja na qual está sendo varrida aquela casta de autoridade tão bem ordenada e que nos fazia  sentir como parte dessa Igreja. Aliás, graças à qual éramos em primeiro lugar membros da Igreja e só depois cidadãos de uma cidade, de uma região ou de um Estado.

Mas o papa tinha que ficar lá encima, longínquo, quase inacessível. E quanto mais distante e inatingível mais força ele tinha para governar e ordenar o que ainda existe de bom nesse mundo.

Antes de tudo, havia a grande teoria da autoridade à qual se deve a justa devoção porque descende diretamente do Vigário de Cristo na terra, e que de certo modo todos retinham como justa.

E então havia a vida nas famílias onde havia espaço para todos, até mesmo para os que a natureza não havia propriamente privilegiado e esses eram cuidados e amados até mais do que os filhos ou os velhos mais afortunados.

O abraço aos pobres a aos enfermos era gesto cotidiano e modesto, como nas páginas de Don Lisander, e tinha até mais valor porque se fazia em nome do Papa, que lá de longe não podia se permitir fazer o mesmo. Assim tais gestos eram feitos por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo e portanto por verdadeira caridade.

E o doce Cristo na terra, não pensava nem remotamente em descer em praça pública e expropriar seus filhos de um gesto que os teria santificado. Não havia necessidade de exemplos que necessariamente poderiam ser tomados por exibição demagógica. Tudo era “naturaliter”e ordenado Àquele que é representado nesse mundo pelo homem distante e solitário, cujo ofício é estar diante de Deus, em nome de todos os seus filhos .

Mas o papa tinha que estar lá encima, longínquo, quase inacessível. Um papa que, ao invés, se joga na arena para brincar com os meios de comunicação o joguinho do “faz-de contas- que eu não sou Papa”, no final não se aproxima dos homens, mas os deixam abandonados. Se ele se apropria de gestos que pertencem ao cotidiano dos filhos que lhes foram confiados, ele não se faz humilde, mas sim protagonista. Se ele remove o pouco que ainda resta da intermediação entre o homem e Deus, ele não facilita o encontro, mas o torna inútil. Desta forma, as criaturas se aproximam do vazio e instintivamente tudo que lhes restam é se agarrar ao que eles tem de mais próximo: um outro homem e nada mais, ainda que esse outro homem seja um Papa que decidiu se tornar igual às suas ovelhas em tudo, até no cheiro.

Até mesmo o simbolismo, que, graças à distância intransponível do Vigário de Cristo, no passado fazia com que nos dirigíssemos ao alto, agora faz com que olhemos para baixo e não nos mostra outra coisa senão um homem em meio a outros homens. Tal como acontece com a cruz peitoral de ferro do Papa Francisco, à qual graças à propaganda da mídia, os fiés olham como se fosse feita de material pobre e ordinário e nela não buscam mais o Cristo Crucificado, mas sim a humildade do homem que a usa. Porque as criaturas são feitas assim, se você lhes tira a razão e deixa só a emoção, elas se apaixonam apenas pelo que é ordinário e material. Todavia, como foi ensinado pela raposa ao Pequeno Príncipe de Saint- Exupery, “o essencial é invisível aos olhos”. E para alimentar o olhar da alma se faz necessário um ritual verdadeiro, aquele que, como diz a sábia raposa, “faz com que um dia seja diferente dos outros dias, e uma hora diferente das outras horas.”

As grandes assembléias das quais o Papa Francisco é a grande estrela não nos passam essa impressão. E não foi por acaso que ele mesmo explicou que a reforma litúrgica é o fruto principal da adaptação da Igreja à modernidade desejada pelo Concílio Vaticano II.

Uma iniciativa infeliz que fez com que o homem acabasse por celebrar a si mesmo, privado do desejo de olhar as coisas e criaturas com um olhar diferente.

A devoção ao mistério, o momento em que cada coisa na esfera visível e invisível recebe a mesma medida de atenção foi varrida para o lixo.

A respeito desse drama, o agora esquecido Bento XVI escreveu páginas que ainda são de grande utilidade. Quando ele ainda era o Cardeal Joseph Ratzinger disse em sua obra “Introdução ao Espírito da Liturgia”:

” O homem não pode fazer de si o próprio culto de adoração. Ele encontra só o vazio se Deus não se mostra. (…) A verdadeira liturgia pressupõe que Deus responde e nos mostra como podemos adorá-lo. Isso implica em alguma forma de instituição. Não pode se originar da nossa fantasia, da nossa criatividade, do contrário seria como um grito no escuro ou simplesmente uma auto-confirmação. Ela pressupõe algo que está concretamente à frente, que vai se revelando e nos mostrando o caminho para a nossa existência. “

Caso contrário, explica Ratzinger:

“Este culto torna-se uma celebração da comunidade para com ela própria; ele é uma auto-afirmação. A adoração de Deus torna-se num rodopio em volta de si próprio”.

Por sua tentativa de restaurar a honra da liturgia Católica, Bento XVI foi atacado em escala global por uma horda de católicos que ninguém sonhava desafiar. Mas agora a Igreja tem um novo Papa e, esse sim, que ninguém ouse tocar!

Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro

29 março, 2014

O testamento de Mario Palmaro.

A última entrevista de Mario Palmaro – A Mensagem aos Tradicionalistas: “Disseminem a Fé no Mundo”

A OPORTUNIDADE PERDIDA DOS LEFEBVRIANOS

Professor Palmaro, o senhor (e o mundo eclesial que de alguma maneira o senhor interpreta) justificadamente apoiou a tentativa do Papa Bento de trazer à [plena] comunhão o movimento “cismático” lefebvriano. Porém, em julho de 2012, quando o seu Capítulo Geral recusou o convite da Santa Sé, qual foi a sua opinião sobre essa questão? O que o senhor acha agora dessa atitude?

Embora eu nunca tenha feito parte da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), fundada por Monsenhor Marcel Lefebvre, tive a sorte de conhecê-los em primeira mão há alguns anos. Junto com o jornalista Alessandro Gnocchi, decidimos ver esse mundo com os nossos próprios olhos e também descrevê-lo em dois livros e alguns artigos. Devo dizer que muitos preconceitos que eu tinha se comprovaram infundados; encontrei vários bons padres, freiras e irmãos dedicados a uma experiência séria da vida católica, adornada com abertura e cordialidade. Tive uma impressão muito boa da figura de Dom Bernard Fellay, o bispo que lidera a FSSPX – um homem bom e com grande fé. Descobri um mundo de fiéis leigos e padres que rezam todos os dias pelo Papa, embora tenham se colocado em atitude definitiva de crítica, especialmente, com relação à liturgia, liberdade religiosa e ecumenismo. Vimos muitos jovens, muitas vocações religiosas, muitas famílias católicas “normais” que frequentam a Fraternidade. Padres de batina, que caminhavam pelas ruas de Paris ou Roma, eram abordados por pessoas que lhes pediam conforto e esperança.

Estamos bem familiarizados com o polimorfismo da Igreja contemporânea no mundo, o que significa que hoje em dia denominar-se católico não é a mesma coisa que seguir a mesma doutrina; a heterodoxia está amplamente difundida e há freiras, padres e teólogos que abertamente contestam ou negam partes da doutrina católica. Por essa razão, nos indagamos: Como é possível que haja espaço para todo mundo na Igreja, exceto para esses irmãos e irmãs que são católicos em cada aspecto e que são absolutamente fiéis a 20 de todos os 21 concílios que ocorreram no curso da história católica?

Enquanto escrevíamos o primeiro livro, chegaram notícias sobre o levantamento das excomunhões através da decisão histórica do Papa Bento XVI. O que permaneceu nesse ponto foi uma regularização canônica da Fraternidade. O Papa Bento acreditava nessa reconciliação ternamente e ela ainda precisa ser concretizada. Afirmo que o pontificado de Bento foi uma oportunidade histórica para a plena reconciliação e deixá-la passar foi uma verdadeira vergonha. Sempre afirmei que a FSSPX deve fazer tudo o que for possível para a sua regularização canônica, mas eu acrescentaria que Roma tem que dar a Monsenhor Fellay e a seus fiéis a garantia de respeito e liberdade, acima de tudo na celebração do Vetus Ordo e na doutrina que normalmente é ensinada dentro dos seminários da Fraternidade, a doutrina perene.

AGRESSIVIDADE DEFENSIVA

O apoio total em relação ao Papa Bento XVI não parece ocorrer com o Papa Francisco. Os papas são aceitos ou eles são “escolhidos”? O que o papado representa hoje em dia?

O fato de um papa ser “apreciado” pelas pessoas é completamente irrelevante à lógica de dois mil anos da Igreja: o papa é o Vigário de Cristo na Terra e ele tem que agradar a Nosso Senhor. Isso significa que o exercício do seu poder não é absoluto, mas está subordinado ao ensinamento de Cristo, que se encontra na Igreja Católica, em Sua Tradição, e é promovido pela vida da Graça através dos Sacramentos.

Agora, isso significa que o próprio papa pode ser julgado e criticado pelos católicos [ordinários], contanto que isso aconteça na perspectiva de amor pela verdade, e que a Tradição e o Magistério sejam utilizados como critério de referência. Um papa que contradiga um predecessor em questões de fé e moral, sem dúvida, tem de ser criticado.

Precisamos desconfiar tanto da lógica mundana, em que o papa é julgado pelos critérios democráticos que satisfaçam a maioria, quanto da tentação à “papolatria”, de acordo com a qual “o papa está sempre certo.” Além disso, há décadas nos acostumamos a criticar muitos papas do passado de maneira destrutiva, demonstrando uma parca seriedade historiográfica; bem, não vemos razão porque os papas reinantes ou os mais recentes tenham que ser poupados de qualquer tipo de crítica. Se Bonifácio VII ou Pio V são julgados, por que não julgar Paulo VI ou Francisco?

CONTRA O MODERNISMO

No mundo dos sites (internet) e revistas sobre a Tradição, nota-se uma frequente exibição de forte agressividade. É verdade? Quais são as causas? O que o senhor acha disso?

Os problemas comportamentais de algumas pessoas ou entidades relacionadas à Tradição é algo sério e não podem ser negados. Uma verdade apresentada ou proposta sem caridade é uma verdade traída. Cristo é o nosso caminho, verdade e vida; portanto, devemos sempre seguir o Seu exemplo, pois Ele sempre foi firme na verdade e invencível na caridade. Creio que o mundo da Tradição às vezes é mordaz e polêmico por três motivos: o primeiro é uma determinada síndrome de isolamento, que os torna desconfiados e vingativos, e se manifesta através de problemas de personalidade; o segundo é o escândalo genuíno que certas tendências do catolicismo contemporâneo causam naqueles que conhecem o ensinamento doutrinal dos papas e da Igreja antes do Vaticano II; o terceiro, pela falta de caridade que o catolicismo oficial tem demonstrado a esses irmãos, que são interpelados com desprezo como “tradicionalistas” ou “lefebvrianos”, olvidando que, de qualquer maneira, eles estão mais próximos da Igreja do que os membros de qualquer outra confissão cristã jamais puderam estar ou mesmo qualquer outra religião. A imprensa católica oficial não dedica nem sequer uma linha a essa realidade – que inclui centenas de padres e seminaristas – e ainda assim eles são capazes de oferecer páginas a pensadores que não têm nada, ainda que vagamente, do pensamento católico.

Ao comentar sobre a instrução do Vaticano com relação aos Franciscanos da Imaculada, o senhor invocou objeção de consciência para os religiosos quanto às indicações litúrgicas. De que maneira [então] os religiosos devem obedecer a sua família espiritual? Como o senhor coloca a objeção de consciência na tradição do Syllabus?

No meu ponto de vista, a questão dos Franciscanos da Imaculada é muito triste. Ela diz respeito às disposições tomadas por um comissário externo e decidida por Roma com pressa incomum e gravidade igualmente inexplicável. Uma vez que conheço essa família religiosa muito bem, acho que essa decisão é completamente injustificável e [assim] juntamente com outros três expoentes apresentei um pequeno apelo ao Vaticano.

Em suma, lembre-se que as disposições “destitua” o fundador e proíba a celebração do Rito Antigo a todos os sacerdotes da Congregação constitui uma flagrante contradição ao que foi estabelecido por Bento XVI em seu Motu Proprio, Summorum Pontificum. Você está certo: a resistência a uma ordem de autoridade legítima sempre cria um problema para o cristão, ainda mais se ele faz parte de uma família religiosa. Não obstante, nesse caso há alguns aspectos claramente inaceitáveis, e afirmo que os padres dos Franciscanos da Imaculada devem continuar celebrando a Missa na Forma Extraordinária do Vetus Ordo, assegurando que o birritualismo que conheço era a prática normal dos frades. Eu acrescentaria que, em uma Igreja sacudida por milhares de problemas e rebeliões, em que congregações gloriosas estão desaparecendo por falta de vocações, não é bom ver os Franciscanos da Imaculada sendo atingidos dessa maneira, uma vez que eles têm vocações abundantes em todo o mundo.

Em sua opinião, quais são os limites mais evidentes da sensibilidade católica “conciliar” (ou “liberal” se o senhor preferir)? Quais são as suas fragilidades mais evidentes?

Na minha opinião, o problema fundamental é o seu relacionamento com o mundo,  marcado por uma atitude de sujeição e dependência, quase como se a Igreja precisasse Ela mesma adaptar-se aos caprichos dos homens, quando, na verdade, sabemos que é o homem que precisa se adaptar à vontade de Cristo, o Rei da história e do universo. Quando Pio X atacou o Modernismo severamente, ele queria afastar essa tentação mortal do catolicismo: a mudança de doutrina para acompanhar o espírito do mundo. Uma vez que a humanidade tem sido presa do processo de dissolução que começou com a Revolução Francesa (seguida pela modernidade e pós-modernidade) a Igreja é mais do que chamada a resistir a esse espírito do mundo. Ao invés disso, muitas escolhas feitas pela Igreja nos últimos 50 anos são um sintoma de sujeição [a esse espírito do mundo]: a reforma litúrgica, que construiu a Missa para as sensibilidades contemporâneas pela destruição de um Rito em vigor há séculos, orientando tudo em direção à palavra, à assembleia, à participação, [e ao mesmo tempo] diminuindo a centralidade do Sacrifício; a insistência no sacerdócio universal, que tem desvalorizado o sacerdócio ministerial, desanimado gerações de padres e acarretado uma crise sem precedentes nas vocações; a arquitetura “sacra”, que construiu monstros antilitúrgicos; a abolição de facto dos Novíssimos, quando o tema da salvação de almas (e o risco de condenação eterna) é o único assunto sobrenatural que diferencia a Igreja de uma agência filantrópica; e daí por diante.

TORNAR-SE SANTOS

Os crentes estão unidos no essencial e estão divididos em questões controversas. Entretanto, todo mundo é chamado a respeitar e acompanhar àqueles que estão atribulados pelo sofrimento e pelas fatigas da vida. Como é que as sensibilidades espirituais de alguém se modificam quando essa pessoa experimenta o sofrimento ao longo dos dias com violência, como está acontecendo com o senhor?

A primeira coisa que nos abala a respeito da doença é que ela nos atinge sem qualquer aviso e em um momento que não decidimos. Ficamos à mercê dos acontecimentos e não podemos fazer nada a respeito, a não ser aceitá-los. A enfermidade grave nos obriga a estarmos cientes de que somos verdadeiramente mortais; mesmo se a morte é a coisa mais certa no mundo, o homem moderno tende a viver como se ele nunca fosse morrer.

Na doença você compreende pela primeira vez que a vida na Terra é apenas um sopro, você reconhece com amargor que você não se tornou aquela obra prima de santidade que Deus queria. Você experimenta uma profunda nostalgia pelo bem que poderia ter feito e pelo mal que poderia ter evitado. Você olha para o Crucifixo e compreende que este é o coração da Fé; sem sacrifício o catolicismo não existiria. Então, você agradece a Deus por tê-lo tornado um católico, um “pequeno” católico, um pecador, mas alguém que tem uma Mãe atenta na Igreja. Assim, a enfermidade grave é um tempo de graça, mas frequentemente os vícios e as misérias que nos acompanharam na vida permanecem ou até mesmo aumentam [durante ela]. É como se a agonia já tivesse começado, e existe uma batalha sendo travada pelo destino da minha alma, porque ninguém pode estar seguro da sua própria salvação.

Por outro lado, esta enfermidade permitiu que eu descobrisse uma quantidade impressionante de pessoas que me amam e que rezam por mim; famílias que recitam o Rosário à noite com os seus filhos pela minha recuperação. Não tenho palavras para descrever a beleza dessa experiência, que é uma antecipação do amor de Deus e da própria eternidade. O maior sofrimento que experimento é a ideia de ter de deixar este mundo que de tanto gosto e que é tão belo mesmo que também seja tão trágico; de ter que deixar muitos amigos e parentes; mas acima de tudo, de ter que deixar a minha esposa e meus filhos, que ainda estão em tenra idade.

Às vezes imagino meu lar, meu estudo vazio e a vida que continuarei lá, mesmo se não estiver presente. É uma cena que dói, mas é extremamente realista: ela me faz perceber a inutilidade do servo que tenho sido, e que todos os livros que escrevi, as conferências que proferi e os artigos que redigi são nada mais do que palha [NdT.: possível alusão a Santo Tomás de Aquino, que afirmara a mesma coisa após uma experiência mística ao final de sua vida]. Porém, minha esperança está firmada na misericórdia do Senhor e no fato de que outras pessoas recolham parte das minhas aspirações e batalhas e continuem o “antigo duelo”.

[Fonte original: Settimana (Ed. Dehoniane), 27 de outubro de 2013, edição nº 38/2013, p. 12-13. Tradução para o português de Fratres in Unum.com feita a partir da tradução para o inglês de Francesca Romana]

10 março, 2014

“A doença grave nos obriga a reconhecer que somos mortais”.

Mario Palmaro (centro) e sua família.

Mario Palmaro (centro) e sua família.

“A primeira coisa que nos perturba nessa doença é que ela cai sobre nós sem nenhum aviso e num momento em que nós não decidimos. Estamos à mercê dos acontecimentos e não podemos fazer outra coisa senão aceitá-los. A doença grave nos obriga a reconhecer que somos mortais. Ainda que a morte seja a coisa mais certa desse mundo, o homem moderno é levado a viver como se não fosse morrer nunca.

Com a doença, comprendi pela primeira vez que o tempo de vida aqui nesse mundo é como um sopro. Senti toda a amargura de não ter sido aquela obra-prima de santidade que Deus esperava de mim, experimentei uma profunda nostalgia pelo bem que poderia ter feito e o mal que poderia ter evitado. Olhei para o Crucifixo e compreendi que ele é o coração da fé: sem sacrifício não existe Catolicismo. Então agradeci a Deus por ter me feito Católico, um Católico “pequeno, pequeno”, um pecador, mas que tem na Igreja uma mãe primorosa. Portanto, a doença é um tempo de graça, embora frequentemente os vícios e as misérias que nos acompanharam por toda a vida permanecem, e em alguns casos até se exacerbam. É como se a agonia já tivesse iniciado lutando contra o destino da minha alma, já que ninguém está seguro da sua própria salvação.

Por outro lado, a doença também me fez descobrir uma quantidade impressionante de pessoas que me querem bem e rezam por mim, de famílias que se reuniam à noite com as crianças pra rezar o rosário pela minha cura. Não tenho palavras pra descrever a beleza dessa experiência que é uma antecipação do amor de Deus desde toda a eternidade.

A dor maior que eu sinto é a idéia de ter que deixar esse mundo que eu amo tanto, que é tão belo embora tão trágico. Ter que deixar tantos amigos, os parentes e sobretudo ter que deixar minha esposa e meus filhos que ainda estão em tenra idade.

Às vezes eu imagino a minha casa, o meu escritório vazio e a vida que ali prossegue embora eu não esteja mais lá. É uma cena que me dói, mas extremamente realística porque me faz compreender quem sou eu, e percebo que tenho sido um servo inútil, que todos os livros que eu escrevi, todas as conferências, todos os artigos são como palha. Mas eu confio e espero na misericórdia do Senhor e no fato de que outros colherão parte das minhas aspirações e de minhas batalhas para continuarem o antigo combate”.

Mario Palmaro – tradução: Gercione Lima

+ 9 de março de 2014

10 março, 2014

Descanse em paz, Mario Palmaro.

Mario Palmaro: 5 de junho de 1968 – 9 de março de 2014

Mario Palmaro: 5 de junho de 1968 – 9 de março de 2014

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com – Mario Palmaro, grande advogado católico tradicional italiano, bioeticista e professor, que, devido, às circunstâncias atuais na Igreja foi compelido a se tornar um escritor de opiniões fortes (frequentemente, com seu amigo íntimo Alessandro Gnocchi), e apresentador de rádio, faleceu ontem no final do dia aos 45 anos de idade, após meses de sofrimento.

Palmaro, cujos escritos e palavras haviam sido uma presença luminosa nos anos de Bento XVI, fora despedido da Radio Maria por causa de um artigo sobre o pontificado atual publicado em Il Foglio. Seu último artigo principal, publicado em janeiro, era uma convocação para pegar nas armas: O nosso problema é a Igreja Católica e o seu silêncio.

Ele deixa esposa e filhos.

Requiescat in pace