Posts tagged ‘Mons. Domenico Bartolucci’

28 novembro, 2013

Porque nós temos orgulho dos nossos leitores.

E fazemos propaganda — gratuita! — de tudo que aparece de bom em nosso blog, como a mensagem que recebemos quando da morte do grande Cardeal Bartolucci:

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Fui aluno do Maestro Batolucci de 1953 a 1959 no Pontificio Istituto di Musica Sacra, Roma. Com ele aprendi a regência coral das músicas Renascentistas Sacras. Lancei um DVD exclusivo para o Brasil em homenagem a meu caro maestro Bartolucci contendo13 músicas, metade de PALESTRINA e outra metade do Maestro Bartolucci. Trata-se de dois concertos em um único DVD cantado pelo o Coral della FONDAZIONE DOMENICO BARTOLUCCI. A primeira parte acontece dentro da Cappella Sistina em honra de Bento XVI em 2006 ;e a segunda parte na Pontificia Università Gregoriana di Roma 2009. Tem início com discurso inicial de Bartolucci ao Papa e encerramento com discurso do Papa a Bartolucci. As músicas são cantadas em latim, com legendas em português. Para total compreensão acompanham o DVD 3 Suplementos e um Libretto, tudo em português. O DVD pode ser adquirido no endereço lojaempm@empm.com.br 11 3467-7690. Quem quiser adquirir uma última recordação de Bartolucci regendo, sugiro procurar pelo enderço acima. Valor R$50,00. Que Deus receba nosso eterno amigo e o recompense como ele merece. Saudades de meu grande maestro e amigo. maestro Nelson Leocádio.

Obrigado, Maestro, por enviar a sua mensagem. E que Nossa Mãe Santíssima abençoe o seu precioso trabalho, tão necessário, de difusão da música sacra.

17 novembro, 2013

Foto da semana.

Bartolucci ii

Santa Missa Prelatícia celebrada na festa da Imaculada Conceição de 2010 pelo então neo-Cardeal Domenico Bartolucci, falecido na última segunda-feira. A seguir, apresentamos alguns trechos de sua entrevista à edição italiana de novembro de 2010 de 30Giorni:

Nos anos de sua direção, a Capela [Musical Pontifícia Sistina] teve uma atividade muito intensa de concertos.

Giramos o mundo o mundo . Em 1996, estivemos inclusive na Turquia. Nós cantamos a Ave Maria em Istambul, em latim , é claro, e as pessoas choravam de emoção. E eu não creio que estavam chorando porque compreendiam a língua…

O que quer dizer ?

Que depois do Concílio Vaticano II o latim foi deixado de lado, e foi um erro fatal. Com a promulgação do Missal de 1970, os textos milenares do Proprium [ndr: o conjunto das da Missa que varia de acordo com o ano litúrgico ou com as memórias particulares] foram eliminados, e o espaço para o canto do Ordinarium [conjunto invariável das partes da Missa, ndr] muito reduzido para a introdução das línguas vernáculas.

É conhecida, eminência, a sua aversão a essas mudanças.

Parece-me claro que, desde então, a música sacra e as scholae cantorum foram definitivamente marginalizados da liturgia, apesar das recomendações da Constitutio de Sacra Liturgia, de 1963, e do Motu Proprio Sacram Liturgiam, de 1964, em que o canto gregoriano é definido como “canto próprio da liturgia romana”.

Esperava-se a “actuosa participatio” das pessoas .

Que desde então jamais existiu.

[ … ]

Que tipo de vida levou a Sistina após o Concílio?

Fomos gradualmente redimensionados e colocados de lado. Nós nos tornamos um corpo estranho nas celebrações. Durante o pontificado de João Paulo II, a Capela era sempre menos envolvida nas grandes liturgias papais. A beleza viva da polifonia de Palestrina e do gregoriano foram progressivamente transformados em objetos de museu.

Depois veio 1997. 

Eu fui afastado do cargo. Apesar do “perpétuo” no título. A minha decepção com o rebaixamento da Capela e com algumas coisas que aconteciam durante as cerimônias papais era bem conhecida. De toda forma, foi um golpe inesperado.

* * *

Do artigo de Pucci Cipriani em Corrispondenza Romana

O Cardeal Bartolucci, que encontrava anualmente, durante as férias de verão , na zona de Mugello , na pequena paróquia de Montefloscoli, da qual permanecia titular, me concedeu uma última entrevista, publicada em 12 de agosto de 2009 na edição toscana de “Il Giornale” e reproduzida por sites católicos de todo o mundo [no Brasil, por Fratres in Unum], na qual reafirmava a sua fidelidade à Missa tradicional: “Eu sempre a celebrei, ininterruptamente, desde a minha ordenação… teria dificuldade de celebrar a Missa no rito moderno, uma vez que jamais a celebrei”.

Quando foi criado cardeal, não quis atender o pedido do Arcebispo de Florença, Dom Giuseppe Betori, de “concelebrar” com ele no novo rito e solicitou em vez que, ao menos, fosse representada a sua última obra: Il Brunellesco. Pedido, naturalmente, não atendido.

Na última entrevista dada a mim parecia prever sua missa fúnebre celebrada pelo Cardeal Sodano na quarta-feira, 13: ‹‹ Não sei se – ai de mim! – já estiveram num funeral: “aleluia”, aplausos, frases risonhas,  alguém se pergunta se essa gente leu alguma vez o Evangelho; Nosso Senhor mesmo chorou sobre Lázaro e sua morte. Aqui, com este sentimentalismo insosso, não se respeita nem sequer a dor de uma mãe. Eu lhes havia mostrado como o povo assistia a uma Missa de defuntos, com que compunção e devoção se entoava aquele magnífico e tremendo “Dies Irae” ››.

Do artigo de Kreuz.net reproduzido por Fratres in Unum em maio de 2012:

O Cardeal Bartolucci também foi um crítico do declínio litúrgico durante o pontificado de João Paulo II. As cerimônias e danças papais com tambores teriam contribuído para o processo de desintegração.

Certa vez, Monsenhor Bartolucci saiu mais cedo de uma dessas missas papais com as palavras: “Vocês podem me buscar quando o circo acabar”.

11 novembro, 2013

Faleceu o grande Cardeal Domenico Bartolucci + RIP.

Cardeal Domenico Bartolucci celebrando missa prelatícia em Roma, em 8 de dezembro de 2010, por ocasião da festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Cardeal Domenico Bartolucci celebrando missa prelatícia em Roma, em 8 de dezembro de 2010, por ocasião da festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Com pesar, informarmos aos leitores de Fratres in Unum o falecimento do Eminentíssimo Cardeal Domenico Bartolucci, aos 96 anos. Seguramente, Bartolucci tornou-se conhecido do público brasileiro especialmente pelas publicações deste blog, que recordamos abaixo:

Quando Bartolucci chorou.

Cardeal Bartolucci: “Esta é a força sempre nova do cristão que, como São Paulo, transmite aquilo que recebeu da fonte da graça”.

“A Missa Latina produz maior fruto espiritual”.

“Resista Maestro, resista!”

REQUIEM aeternam dona ei, Domine, et lux perpetua luceat ei.

17 maio, 2012

Bartolucci, 95 anos.

“A reforma litúrgica dos anos 60 foi realizada por pessoas secas: Repito ‘pessoas secas’. Eu as conheci”.

Cardeal Domenico Bartolucci

Cardeal Domenico Bartolucci

Kreuz.net | Tradução: Fratres in Unum.com – No último dia 7, o Cardeal Domenico Bartolucci completou seu 95º aniversário. O cardeal foi ordenado padre em dezembro de 1939 para a Arquidiocese de Florença;

De 1957 até 1997 ele dirigiu o coro da Capela Sistina, que sempre cantava nas missas pontifícias. Em 1997, o regente nomeado a cargo vitalício foi afastado pelo Papa João Paulo II (+2005). Ele soube disso em razão da nomeação de seu sucessor. Depois, o demitido caiu no esquecimento.

Ele sobreviveu a João Paulo II.

Sem dúvida, o então Monsenhor continuou trabalhando como compositor. Suas obras preenchem mais de quarenta volumes. Em 2006, dirigiu uma peça de coral escrita para o Papa Bento XVI na Capela Sistina com o título em latim “Oremus pro Pontifice nostro Benedicto” — Rezemos por nosso Papa Bento.

O Papa elevou o músico eclesiástico ao cardinalato em novembro de 2010.

Sentimentalismo e Desejo de Mudança

O Cardeal nunca celebrou uma Missa nova em sua vida sacerdotal. Ele não tem uma opinião muito boa da suposta reforma litúrgica dos anos 60 do último século.

Ela teria sido feita por pessoas secas, explicou o cardeal em uma entrevista no verão de 2009: “Repito: secas. Eu as conheci.”

A reforma litúrgica foi uma “moda”: “Todo mundo fala sobre isso, tudo ‘renovado’, todo mundo queria ser um pequeno papa na busca de sentimentalismo e desejo de mudança”.

Circo em vez de Liturgia

O Cardeal Bartolucci também foi um crítico do declínio litúrgico durante o pontificado de João Paulo II. As cerimônias e danças papais com tambores teriam contribuído para o processo de desintegração.

Certa vez Monsenhor Bartolucci saiu mais cedo de uma dessas missas papais com as palavras: “Vocês podem me buscar quando o circo acabar”.

O Terceiro Cardeal mais idoso

O Cardeal Bartolucci encontra-se entre os dignatários mais velhos de 80 anos que foram elevados ao purpurado devido a serviços especiais prestados à Igreja. Atualmente ele é o terceiro cardeal mais idoso da Igreja. Há dois cardeais mais velhos do que ele, o Cardeal Fiorenzo Angelini (95) e o Cardeal Ersilio Tonini (97).

2 setembro, 2011

“A Missa Latina produz maior fruto espiritual”.

Cardeal Domenico Bartolucci celebrando missa prelatícia em Roma, em 8 de dezembro de 2010, por ocasião da festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Cardeal Domenico Bartolucci celebrando missa prelatícia em Roma, em 8 de dezembro de 2010, por ocasião da festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

“Estou aqui, Beatíssimo Padre, para agradecer Vossa Santidade pelo forte chamado em favor do uso da música nas hodiernas celebrações da Santa Missa. Estou certo que, ao chamar um músico para ser parte do Colégio dos Cardeais, desejastes que isso fosse um chamado em favor do uso da música sacra na Sagrada Liturgia.

 “Hoje, pode-se notar um verdadeiro e próprio novo despertar em muitíssimos jovens que desejam reviver a beleza da Missa Latina e o maior fruto espiritual que dela nasce. Isso é um grande, grandioso conforto, e nos faz esperar um futuro litúrgico que vós certamente desejais. Agradecemos ao Senhor, que Ele possa ajudar a todos aqueles que estão trabalhando pela seriedade na música sacra. Confio firmemente que, com a ajuda do Senhor, ocorrerá um verdadeiro retorno à tradição bimilenar da música sacra”.

Como bem notou Rorate-Caeli, o Cardeal se referia à única Missa que já celebrou.

Palavras do Cardeal Domenico Bartolucci dirigidas ao Santo Padre, o Papa Bento XVI, por ocasião de um concerto oferecido com suas próprias composições ao Sumo Pontífice no Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, em 31 de agosto 2011.

7 janeiro, 2011

Quando Bartolucci chorou.

Do artigo de Paolo Rodari, do Il Foglio:

Cardeal Domenico Bartolucci celebrando missa prelatícia em Roma, no último dia 8, por ocasião da festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Cardeal Domenico Bartolucci celebrando missa prelatícia em Roma, no último dia 8, por ocasião da festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

A música sacra da Igreja Católica sofreu uma grande revolução após o Concílio Vaticano II. Bartolucci relata: “Também Pio XII havia desejado convocar o Concílio. Assim o disse o Cardeal Achille Silvestrini, no décimo aniversário da morte do Cardeal Domenico Tardini. Ele se deu conta, porém, que os numerosos focos de rebelião presentes na Igreja poderiam começar um incêndio em Roma. Foi assim que o Papa João XXIII, depois do Sínodo Romano, convocou o Concílio. Sob o seu pontificado, a Capela Sistina pôde finalmente ser reconstituída. Eu mesmo apresentei um projeto de reforma geral e o Papa o aprovou integralmente. Obtivemos uma sede, o arquivo, um grupo fixo e assalariado de cantores adultos e especialmente a schola puerorum dedicada exclusivamente à formação dos nossos moços. O Papa João apreciava muito a Capela. No Natal, cantávamos em seu apartamento com os meninos diante do presépio. Com relação à liturgia, creio que ele não teria mudado nada, mas em seguida ele morreu. A reforma verdadeira e própria, com todas as mudanças, se deu sob Paulo VI”.

Sob o pontificado do Papa Montini e com o novo direcionamento litúrgico se verificou, de fato, a crise da música sacra. Bartolucci recorda ainda uma Páscoa em que voltou para casa em lágrimas. Disse: “Nos mandaram embora dizendo que a Sistina não deveria cantar, mas o povo. Foi uma revolução copernicana. O abandono do latim, que o próprio Concílio não desejava, na verdade, foi promovido por muitos liturgistas e assim todo o repertório tradicional do canto gregoriano e da polifonia, e, consequentemente, as schola cantorum, foram apontados como a causa de todo o mal. Ir ao povo havia se tornado lema, sem que se compreendesse as graves conseqüências dessa banalização dos ritos e da liturgia. Eu sempre me opus a isso e sempre defendi a necessidade da grande arte na Igreja, para sustento e benefício do próprio povo. Pensou-se que participar significasse cantar ou ler alguma coisa e assim se desprezou a sábia pedagogia do passado. Paradoxalmente, também o repertório dos cantos devocionais que o povo sabia e cantava desapareceu. Anos atrás, por exemplo, quando o povo assistia a uma missa por um morto, sabia cantar com devoção o Dies Irae, e recordo que todos se uniam para cantar o Te Deum ou as antífonas de Nossa Senhora. Hoje, dificilmente se acha alguém capaz de fazê-lo. Muitos hoje, felizmente, embora um pouco atrasados, começam a perceber o que aconteceu. Era necessário pensar naquela época, antes de proceder com tanta susposta sabedoria em favor de uma moda. Mas você sabe, na época todos renovavam, todos pontificavam. Felizmente, o Santo Padre está dando indicações muito precisas sobre a liturgia e esperamos que o tempo ajude as novas gerações”.

A Capela Sistina, depois do Concílio, no entanto, continuou a desempenhar uma importante atividade, pois Bartolucci quis promover suas execuções também em concertos. “Dei a volta ao mundo com a Sistina e nos concertos pude me sentir livre para programar as obras-primas que eram impossíveis de se realizar dentro da liturgia, in primis, as obras de Giovanni Pierluigi de Palestrina. Giuseppe Verdi o define como o “pai eterno” da música ocidental. Eu já disse isso uma vez em uma entrevista: “Palestrina é o primeiro patriarca que compreendeu o que significa fazer música; ele percebeu a necessidade de uma composição contrapontística vinculada ao texto, alheia à complexidade e aos cânones da composição flamenga. Não por acaso, o Concílio de Trento fixou o cânones da música litúrgica olhando para ele. Não há autor que respeite o texto sagrado como Palestrina. Eu, no que pude, tentei me referir a este mesmo espírito, à solidez do canto gregoriano e polifonia de Palestrina. Por isso pude continuar a escrever música, na esteira da tradição da Escola Romana”.

9 dezembro, 2010

Cardeal Bartolucci: “Esta é a força sempre nova do cristão que, como São Paulo, transmite aquilo que recebeu da fonte da graça”.

Por Sandro Magister, Settimo Cielo – Tradução: Fratres in Unum.com

Na manhã da festa da Imaculada Conceição, o Maestro Domenico Bartolucci, 93 anos, criado Cardeal no dia 20 de novembro passado pelo Papa Bento XVI, celebrou a Santa Missa segundo o rito antigo na Igreja Romana da Santissima Trinità dei Pellegrini.

Bartolucci é símbolo vivo daquela grande música sacra, fundamentada sobre o canto gregoriano e polifônico, que, por séculos, se fez uma só coisa com a liturgia católica latina.

Mas o seu episódio pessoal, quando sofreu, em 1997, a expulsão brutal do coro papal da Capela Sistina, do qual era maestro “perpétuo”, é também um símbolo do exílio ao qual foi condenada esta grande música litúrgica.

Eis como o Cardeal Bartolucci traçou as duas faces desse drama, na parte central de sua homilia da missa de 8 de dezembro:

* * *

“Quem não ama a beleza, não ama a Deus”

de Domenico Bartolucci

Cardeal Domenico Bartolucci celebrando missa prelatícia em Roma, no último dia 8, por ocasião da festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Cardeal Bartolucci celebrando missa prelatícia em Roma, por ocasião da festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

[…] No meu sacerdócio, eu não fui um pregador, um teólogo, nem um pastor de uma diocese e nunca pronunciei grandes discursos, todavia, tenho procurado frutificar os dons que o Senhor me deu e o fiz através da música sacra, uma nobre arte capaz de penetrar efetivamente a alma dos fiéis, convidando-os à conversão, à alegria, à oração.

Particularmente na civilização ocidental, a música é a arte que, mais do que qualquer outra, deve agradecer à Igreja. Nela, realmente, nasceu, cresceu e se desenvolveu. Como tive a oportunidade de dizer já na ocasião do concerto oferecido ao Papa na Capela Sistina, os coros representaram o berço da arte musical. A própria Igreja dos primeiros séculos, tão logo teve a oportunidade de dar glória ao Senhor publicamente, empenhou-se na criação das “scholae cantorum”, que, gradualmente, ao longo dos séculos, nos deixaram em herança o patrimônio do canto sacro, o canto gregoriano e a polifonia, instrumentos autênticos de pregação, que freqüentemente, por causa de sua intensidade, conseguem fazer perceber a mensagem contida na Palavra de Deus.

Este patrimônio que hoje devemos necessariamente recuperar e que, infelizmente, tem sido negligenciado, nunca teve a intenção de se estabelecer como um “ornamento” [ndt: no sentido de adorno, enfeite] da celebração litúrgica. O cantor, como ensinaram os nossos mestres do passado, é simplesmente um ministro que exprime e torna vivo, da melhor maneira possível, o texto sagrado e a palavra de Deus. Muito freqüentemente nós, músicos da Igreja, temos sido acusados de querer impedir a participação dos fiéis nos ritos sagrados e eu mesmo, como diretor da Capela Sistina, tive de enfrentar momentos difíceis nos quais a Sagrada Liturgia sofria banalizações e experimentações áridas. Hoje, mais do que nunca, devemos assumir a responsabilidade de analisar criticamente o quanto foi feito e devemos ter a coragem de reafirmar a importância das nossas tradições de beleza que exaltam e dão glória a Deus e que são também eficazes meios de conversão. Recordo-me, por ocasião dos concertos da Capela Sistina, o entusiasmo do povo, mesmo de países como Turquia e Japão, onde foram registradas diversas conversões ao catolicismo. “Quem não ama a beleza, não ama a Deus!”, disse o Santo Padre em uma das suas homilias. Precisamos, portanto, saber como nos reapropriarmos de nós mesmos e de quanto a tradição eclesial nos deu.

Como escreveu Bento XVI às vésperas da assembléia geral dos bispos italianos reunida em Assis, em novembro passado: “Todo verdadeiro reformador, na verdade, é um obediente à fé: não se move de forma arbitrária, nem arroga para si qualquer poder discricionário sobre o rito; não é o dono, mas o guardião do tesouro instituído pelo Senhor e a nós confiado”.

Desejando seguir essa descrição, podemos olhar precisamente para a figura de Maria: ela foi a primeira guardiã do Verbo Encarnado, a serva do Senhor que soube agir sempre de acordo com a sua vontade.

Como Maria, também nós somos chamados a ser obedientes na fé, sem nos mover de forma arbitrária, mas sabendo acolher o que nos foi entregue. Esta é a nossa força, esta é a força sempre nova do cristão que, como São Paulo, transmite aquilo que recebeu da fonte da graça que, para ele, assim como para nós, é o encontro com o Senhor.

Também por isso, encontrar-me aqui, na igreja da Trinità dei Pellegrini, onde é vivo o empenho em favor da difusão da liturgia tradicional, é para mim motivo de alegria e esperança que me faz tocar com a mão alguns frutos que se seguiram à publicação do motu proprio “Summorum Pontificum”.

Em um momento difícil, somos todos chamados em nosso serviço a nos unirmos ao sucessor de Pedro: como Pedro, também nós devemos nos converter ao Senhor crucificado e ressuscitado, não nos desanimando nunca diante da realidade da cruz e com a certeza de tomar parte um dia de sua própria ressurreição.

Esse, antes do nosso, foi o caminho de Maria, um caminho que a Igreja procurou propor como modelo e que mesmo os fiéis quiseram exaltar e exprimir na riquíssima devoção popular. Também eu, entre as músicas compostas desde quando era um jovem seminarista, tenho dedicado grande parte a Maria. A festa da Imaculada Conceição me faz pensar em tantas músicas escritas em honra a Nossa Senhora: missas, laudes, motetos, magnificat, Stabat Mater, mas me faz pensar especialmente nas numerosas antífonas marianas que o povo soube fazer suas e que cantava em honra à Mãe celeste, encontrando nela o ícone da fé. […]

* * *

Uma pequena nota. Quando Bartolucci, em sua homilia, disse que o canto gregoriano e a polifonia “nunca tiveram a intenção de se estabelecer como um ‘ornamento’ da celebração litúrgica”, ele inverte com destreza a imprudente tese de seu atual, desmerecedor, sucessor na direção Capela Sistina, Massimo Palombella , que, em um recente editorial na revista “Armonia di voci”, escreveu que apenas “com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II a música não se põe mais como um elemento ‘ornamental’ do rito”.

29 novembro, 2010

Recordando Bartolucci.

Em homenagem ao neo-cardeal Domenico Bartolucci, que no próximo dia 8, festa da Imaculada Conceição, celebrará uma missa pontifical na paróquia da FSSP em Roma, recordamos nossa tradução, de agosto de 2009, de sua entrevista ao blog Disputationes Theologicae:

* * *

Cardeal Bartolucci e o superior geral do Instituto do Bom Pasteur, pe. Philippe Laguerie.

Cardeal Bartolucci e o superior geral do Instituto do Bom Pastor, pe. Philippe Laguerie.

Maestro, a recente publicação do Motu Proprio “Summorum Pontificum” trouxe um sopro de ar fresco no desolador panorama litúrgico que nos rodeia; também o senhor pode agora, portanto, celebrar a “Missa de sempre”.

Mas, para dizer a verdade, eu sempre a celebrei ininterruptamente, desde a minha ordenação… Por outro lado, teria dificuldade em celebrar a Missa no rito moderno, uma vez que nunca o fiz.

Nunca abolida, então?

São as palavras do Santo Padre, ainda que alguns finjam não entendê-las e mesmo que muitos no passado tenham sustentado o contrário.

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19 outubro, 2010

Consistório poderia ser anunciado amanhã. Cardeal Bartolucci?

Segundo informações de Roma, o Papa Bento XVI poderia anunciar amanhã, em sua audiência geral, a convocação de um consistório para a criação de novos Cardeais, a se realizar na festa de Cristo Rei, no próximo mês de novembro.

Os nomes dos futuros purpurados já foram cogitados aqui.

No entanto, a grande novidade levantada nas últimas horas seria a possível elevação ao cardinalato, embora não mais como votante num eventual conclave, de Monsenhor Domenico Bartolucci [já conhecido de nossos leitores], nomeado por Pio XII maestro “ad vitam” da Capela Sixtina, mas afastado do cargo em 1997 por intervenção do mestre de cerimônias de João Paulo II, Mons. Piero Marini. Tal demissão foi veementemente lamentada pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, que agora, ao que tudo indica, pretende fazer justiça ao velho e sofrido Monsenhor.

17 agosto, 2009

“Resista Maestro, resista!”

Oferecemos a tradução portuguesa (via tradução espanhola de La Buhardilla de Jerónimo) de uma valiosa entrevista de Monsenhor Domenico Bartolucci, de 92 anos, nomeado por Pio XII maestro “ad vitam” da Capela Sixtina, mas afastado do cargo em 1997 devido a uma intervenção de Mons. Piero Marini. Uma medida que foi vigorosamente rechaçada pelo então Cardeal Joseph Ratzinger. O título do post, de fato, faz referência às palavras do mesmo Ratzinger a Mons. Bartolucci meses antes de que este se retirasse do cargo.

A entrevista se trata de mais uma iniciativa do Abbé Stefano Carusi, do site Disputationes Theologicae, do Instituto do Bom Pastor. Em 2006, Mons. Bartolucci foi convidado a reger um concerto especial em honra ao Papa Bento XVI,  concerto este que foi considerado como que um ato de desagravo tanto ao injustiçado Monsenhor como à verdadeira música sacra. Na mesma época, em entrevista concedida a Sandro Magister, Mons. Bartolucci declarou sobre Bento XVI: “Um Napoleão sem generais”.

***

Mons. Bartolucci e Bento XVIMaestro, a recente publicação do Motu Proprio “Summorum Pontificum” trouxe um sopro de ar fresco no desolador panorama litúrgico que nos rodeia; também o senhor pode agora, portanto, celebrar a “Missa de sempre”.

Mas, para dizer a verdade, eu sempre a celebrei ininterruptamente, desde a minha ordenação… Por outro lado, teria dificuldade em celebrar a Missa no rito moderno, uma vez que nunca o fiz.

Nunca abolida, então?

São as palavras do Santo Padre, ainda que alguns finjam não entendê-las e mesmo que muitos no passado tenham sustentado o contrário.

Maestro, será necessário conceder aos difamadores da Missa antiga que ela não é “participada”…

Não digamos disparates! Conheci a participação dos tempos antigos tanto em Roma, na Basílica, como no mundo, como aqui abaixo no Mugello, nesta paróquia deste belo povo, um templo povoado de gente cheia de fé e piedade. O domingo, nas vésperas, o sacerdote poderia se limitar a entoar o “Deus in adiutorium meum intende” e logo pôr-se a dormir sobre o assento… os camponeses continuariam sozinhos e os chefes de família teriam pensado em entoar as antífonas.

Uma polêmica velada, Maestro, a respeito do atual estilo litúrgico?

Não sei se – ai de mim! – já estiveram num funeral: “aleluia”, aplausos, frases risonhas,  alguém se pergunta se essa gente leu alguma vez o Evangelho; Nosso Senhor mesmo chorou sobre Lázaro e sua morte. Aqui, com este sentimentalismo insosso, não se respeita nem sequer a dor de uma mãe. Eu lhes havia mostrado como o povo assistia a uma Missa de defuntos, com que compunção e devoção se entoava aquele magnífico e tremendo “Dies Irae”.

A reforma não foi feita por gente consciente e doutrinariamente formada?

Desculpe-me, mas a reforma foi feita por gente árida, lhes repito, árida. E eu os conheci. Quanto à doutrina, o Cardeal Ferdinando Antonelli, de venerável memória, costumava dizer com freqüência: “como fazemos liturgistas que não conhecem a teologia?”

Estamos de acordo com o senhor, Monsenhor, mas é certo também que o povo não entendia…

Caríssimos amigos, leram alguma vez São Paulo: “não importa saber mais do que o necessário”, “é necessário amar o conhecimento ‘ad sobrietatem’”? Daqui a alguns anos se tentará entender a transubstanciação como se explica um teorema de matemática. Mas se nem sequer o sacerdote pode compreender até o fundo tal mistério!

Mas como se chegou, então, a esta distorção da liturgia?

Foi uma moda, todos falavam, todos “renovavam”, todos pontificavam, na esteira do sentimentalismo, de reformas. E as vozes que se levantavam em defesa da Tradição bimilenar da Igreja eram habilmente caladas. Inventou-se uma espécie de “liturgia do povo”… quando escutava estas frases me vinham à mente as palavras de meu professor do seminário que dizia: “a liturgia é do clero para o povo”, ela descende de Deus e não de baixo. Devo reconhecer, contudo, que aquele ar fétido se fez menos denso. As gerações de sacerdotes jovens são, talvez, melhores que as que as precederam, não têm os furores ideológicos dominados por um modernismo iconoclasta, estão cheios de bons sentimentos, mas lhes falta formação.

O que quer dizer, Maestro, com “lhes falta formação”?

Quero dizer que queremos os seminários! Falo daquelas estruturas que a sabedoria da Igreja elegantemente cinzelou durante os séculos. Não se dá conta da importância do seminário: uma liturgia vivida, os momentos do ano são vividos “socialmente” com os irmãos… o Advento, a Quaresma, as grandes festas que seguem a Páscoa. Tudo isso educa, e não se imagina quanto! Uma retórica tonta deu a imagem de que o seminário arruína o sacerdote, de que os seminaristas, afastados do mundo, permanecem fechados em si mesmos e distantes do povo. Todas fantasias para dissipar uma riqueza formativa plurissecular e para substituí-la depois com nada.

Retornando à crise da Igreja e ao fechamento de muitos seminários, o senhor é partidário de um retorno à continuidade da Tradição?

Olhe, defender o rito antigo não é ser do passado, mas ser “de sempre”. Veja, comete-se um erro quando a missa tradicional é chamada “Missa de São Pio V” ou “Tridentina”, como se fosse a Missa de uma época particular: é nossa Missa, a romana, é universal em todos os tempos e lugares, uma única língua desde a Oceania até o Ártico. Mas no que diz respeito à continuidade nos tempos, gostaria de lhes contar um episódio. Uma vez estávamos reunidos em companhia de um bispo, cujo nome não me lembro, numa pequena igreja de Mugello, e chegou a notícia da morte repentina de um irmão nosso, imediatamente propusemos celebrar uma missa, mas nos demos conta que só havia missais antigos. O bispo rechaçou categoricamente celebrar. Não o esquecerei nunca e reitero que a continuidade da liturgia implica que, salvo minúcias, se possa celebrar hoje com aquele velho missal empoeirado pego de uma estante e que há quatro séculos serviu a um predecessor meu em seu sacerdócio.

Monsenhor, se fala de uma “reforma da reforma” que deveria limar as deformações que vêm dos anos sessenta…

A questão é bastante complexa. Que o novo rito tenha deficiências é já uma evidência para todos e o Papa disse e escreveu várias vezes que deveria “olhar ao antigo”; contudo, Deus nos guarde da tentação das bagunças híbridas; a Liturgia, com o “L” maiúsculo, é a que vem dos séculos, ela é a referência, não se deve corrompê-la com compromissos “a Dio spiacenti e a l’inimici sui”. [que a Deus despraz e ao inimigo seu]

O que quer dizer, Maestro?

Tomemos como exemplo as inovações dos anos sessenta. Algumas “canções populares” beat e horríveis e tão em moda nas igrejas em 68, hoje já são fragmentos de arqueologia; quando se renuncia à perenidade da tradição para se afundar no tempo, se está condenado ao mudar das modas. Me vem à mente a Reforma da Semana Santa dos anos cinqüenta, feita com certa pressa sob um Pio XII já cansado. E bem, só alguns anos depois, sob o pontificado de João XXIII (quem, além do que se diga, em liturgia era de um tradicionalismo convencido e comovente), me chegou uma chamada de Mons. Dante, cerimoniário do Papa, que me pedia preparar a “Vexilla Regis” para a iminente celebração da Sexta-feira Santa. Respondi: “mas a aboliram”. No que me respondeu: “O papa quer”. Em poucas horas organizei as repetições de canto e, com grande alegria, cantamos de novo o que a Igreja havia cantado pelos séculos naquele dia. Tudo isso para dizer que, quando se fazem rasgos no tecido litúrgico, esses buracos são difíceis de cobrir e se vê! Em nossa liturgia plurissecular, devemos contemplá-la com veneração e recordar que, no afã de “melhorá-la”, corremos o risco de apenas lhe fazer danos.

Maestro, que papel teve a música neste processo?

Teve um rol importante por várias razões. O melindroso cecilianismo, ao qual certamente Perosi não foi alheio, introduziu com seus ares pegadiços um sentimentalismo romântico novo, que nada tinha a ver com aquela densidade eloqüente e sólida de Palestrina. Certas extravagâncias de Solesmes haviam cultivado um gregoriano sussurrado, fruto também daquela pseudo restauração medievalizante que tanta sorte teve no século XIX. Difundia a idéia da oportunidade de uma recuperação arqueológica, tanto na música como na liturgia, de um passado distante do qual nos separavam os assim chamados “séculos obscuros” do Concílio de Trento… Arqueologismo, em suma, que não tem nada a ver com a Tradição e que quer restaurar o que talvez nunca existiu. Um pouco como certas igrejas restauradas em estilo “pseudo-românico” por Viollet-le-Duc. Portanto, entre um arqueologismo que queria remeter-se ao passado apostólico, prescindindo dos séculos que nos separam deles, e um romantismo sentimental, que despreza a teologia e a doutrina numa exaltação do “estado de ânimo”, se preparou o terreno para aquela atitude de suficiência com relação ao que a Igreja e nossos Padres nos haviam transmitido.

O que quer dizer, Monsenhor, quando ataca Solesmes no âmbito musical?

Quero dizer que o canto gregoriano é modal, não tonal; é livre, não ritmado, não é “um, dois três, um dois três”; não se devia desprezar o modo de cantar de nossas catedrais para substituí-lo com um sussurro pseudo-monástico e afetado. Não se interpreta um canto do medievo com teorias de hoje, mas se o toma como chegou até nós; ademais, o gregoriano sabia ser também canto do povo, cantando com força nosso povo expressava sua fé. Isso Solesmes não entendeu, mas tudo isso seja dito reconhecendo o grande e sábio trabalho filológico que fez com o estudo dos manuscritos antigos.

Maestro, em que ponto estamos, então, da restauração da música sagrada e da liturgia?

Não nego que haja alguns sinais de recuperação. Contudo, vejo o persistir de uma cegueira, quase uma complacência por tudo que é vulgar, grosseiro, de mal gosto e inclusive doutrinariamente temerário… Não me peça, por favor, que dê um juízo sobre as “chitarrine” e sobre as “tarantelle” que ainda nos cantam durante o ofertório… O problema litúrgico é sério, não se deve escutar aquelas vozes que não amam a Igreja e que se lançam contra o Papa. E se se quer curar o enfermo, há de recordar que o médico piedoso faz a chaga purulenta…