Posts tagged ‘Monsenhor Brunero Gherardini’

18 dezembro, 2010

Dom Schneider pede ao Papa um novo Syllabus.

Por Osservatore Vaticano – Vini Ganimara

Ciclo de conferências sobre o Vaticano II organizado pelos Franciscanos da Imaculada, em Roma, reúne expoentes da crítica ao Concílio. Dentre eles, Mons. Gherardini e Prof. Roberto de Mattei.

Ciclo de conferências sobre o Vaticano II organizado pelos Franciscanos da Imaculada, em Roma, reúne expoentes da crítica ao Concílio. Dentre eles, Mons. Gherardini e Prof. Roberto de Mattei.

Um verdadeiro furacão passou ontem, 17 de Dezembro de 2010, por Roma, a dois passos da basílica de São Pedro: um bispo propôs, nada mais nada menos, que… recolocar em prática o magistério infalível da Igreja.

Com efeito, desde 16 de dezembro, realiza-se em Roma um importante colóquio intitulado “Concílio Vaticano II, um concílio pastoral – Análise histórica, filosófica e teológica”. Organizado pelos corajosos Franciscanos da Imaculada, este colóquio se realiza nas salas de conferência de Santa Maria Bambina, atrás da colunata de Bernini, próximo ao Palácio do Santo Ofício, num quase silêncio midiático, apesar da atualidade do tema com relação ao pontificado de Bento XVI e da qualidade dos intervenientes.

Duas intervenções esperadas marcaram o primeiro dia: a de Mons. Gherardini, autor do livro Concilio Vaticano II, un discorso da fare, e a do professor Roberto de Mattei, historiador italiano, autor de um recente livro sobre o concílio, intitulado Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta (disponível por ora apenas em italiano, edições Lindau). Ambos responderam às críticas que os seus trabalhos levantaram, aliás, muito paradoxalmente, do meio conservador, em cujo seio há alguns raros defensores da infalibilidade do Concílio.

Ontem, 17 de dezembro, Dom Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, causou alvoroço com sua conferência sobre o tema do culto a Deus como fundamento teológico da pastoral conciliar. Propondo um longa coletânea de citações, teologicamente muito ortodoxas, extraídas dos textos conciliares, apresentou à assistência textos escolhidos de um Vaticano II, de certo modo, “mais ortodoxo que Trento”. A captatio benevolentiae foi particularmente eficaz: a assistência esperava o que estava por vir, suspenso nos lábios do bispo.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

É então que, denunciando a interpretação errônea deste concílio no período pós-conciliar, o bispo conclui a sua intervenção sugerindo… a redação de um Syllabus que condene infalivelmente “os erros de interpretação do Concílio Vaticano II”.

Pois, segundo Dom Schneider, só o magistério supremo da Igreja (do Papa ou de um novo concílio ecumênico) pode corrigir os abusos e os erros nascidos do Concílio e retificar sua compreensão e sua recepção à luz da tradição católica. Respondendo um pedido de esclarecimento, fez a sua douta assistência cair no riso ao considerar que não era possível reunir um concílio em menos de 500 anos. Cabe, portanto, ao magistério supremo do Papa. Daí seu pedido por um novo Syllabus, onde figurariam face à face os erros condenados e a sua interpretação ortodoxa.

Como tantos e tantos outros há 40 anos, é, pois, ao juízo infalível do Papa “reformulando” o Vaticano II que se está apelando. Com exceção de que, desde a “liberação da palavra” operada por Bento XVI, são doravante os personagens oficiais que interpõe o pedido.

Tradução: Fratres in Unum.com

17 dezembro, 2010

Yves Chiron e a hermenêutica do Vaticano II.

(Summorum Pontificum Observatus – Tradução: Fratres in Unum.com) Observador atento da atualidade religiosa, o historiador Yves Chiron acaba de consagrar o último número de sua “carta de informações religiosas” Aletheia à “’recepção’ do Vaticano II ou hermenêutica de uma hermenêutica”. Ele ressalta, em primeiro lugar, várias obras que tratam da “recepção” do Vaticano II, como La Réception du deuxième concile du Vatican dans l’Église catholique allemande sous le pontificat de Paul VI, et plus particulièrement dans le diocèse de Limbourg [A Recepção do Segundo Concílio do Vaticano na Igreja católica alemã sob o pontificado de Paulo VI, mais particularmente na diocese de Limbourg], de Olaf Hahn, ou La réception du concile Vatican II [A recepção do concílio Vaticano II], do jesuíta canadense Christoph Theobald. Assinala os diferentes trabalhos de Joseph Ratzinger até o seu célebre discurso à cúria romana de 22 de dezembro de 2005. Por último, apresenta também a publicação das atas, na Revue thomiste, de um colóquio organizado pelos Dominicanos de Toulouse sobre “Vatican II, rupture ou continuité ? Les herméneutiques en présence” [Vaticano II, ruptura ou continuidade? As hermenêuticas envolvidas] .

A este respeito, indica o longo prefácio do Padre Emmanuel Perrier que considera que o Vaticano II “não apenas foi a ocasião que mais verdadeiramente esteve na origem do conflito entre ‘ruptura’ e ‘continuidade’”, análise desenvolvida por Mons. Francis Frost que mostra que, com o Vaticano II, “passou-se de uma problemática de ‘desenvolvimento da doutrina’ (no sentido que Newman dava a esta expressão) a uma diligência hermenêutica, um ‘processo de reformulação do que já estava formulado’”.

Finalmente, Yves Chiron aborda o livro de Mons. Gherardini, observando que este livro “levantou diferentes interrogações relativas a certos textos conciliares. [Gherardini] concluía seu estudo crítico com uma ‘súplica’ ao Papa, onde pedia ‘um solene e, se possível, definitivo, esclarecimento sobre o último Concílio”. Ele nota a este respeito a publicação de “um estudo crítico” desse livro pelo Padre Basile Valuet [da abadia beneditina do Barroux] em La Nef, cuja  “versão completa” publicada na Internet é qualificada por Yves Chiron de “muito agressiva”.

O Concílio Vaticano II, portanto, gera debate ainda hoje e alguns consideram necessária ao menos uma reavaliação desses textos ou um esclarecimento da autoridade suprema que lhes dizem respeito. Paradoxalmente, o texto do Padre Basile é uma prova de que em certos meios considerados tradicionalistas a desconfiança em relação ao debate sobre Vaticano II é muito grande. Entretanto, como nota Yves Chiron ao apresentar o congresso que se realizará em breve em Roma [ndr: na realidade, começou ontem e vai até o dia 18] sobre esse assunto (e do qual já falamos), que “reunirá teólogos, alguns dos quais são muito próximos do Papa, membros da cúria e historiadores”, inclusive o próprio Yves Chiron: a hermenêutica do Vaticano II, tabu na França e possível em Roma? A pergunta: até quando?

29 outubro, 2010

O Concílio [Pastoral] em questão.

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(Summorum Pontificum Observatus) De 16 a 18 de dezembro próximo, os Franciscanos da Imaculada organizam um colóquio de estudos em Roma sobre o Concílio Vaticano II (Concilio Ecumenico Vaticano II, Un Concilio Pastorale — Analise Storico-Filosofico-Teologica), no Instituto “Maria S.S. Bambina” (via Paolo VI, 21).

Apoiando-se sobre o histórico discurso do Papa sobre as duas hermenêuticas relativas ao Concílio Vaticano II, de 22 de dezembro de 2005, os Franciscanos da Imaculado se propõem a examinar o Vaticano II,  sua natureza e seu objetivo. Trata-se de estudar esta radical novidade que quis que, pela primeira vez, um concílio não proclamasse novos dogmas e ensinamentos definitivos, nem condenações, mas se apresentasse com uma finalidade meramente pastoral.

Notamos que a versão italiana da agência Zenit, sob o título ‹‹ Il Vaticano II, un Concilio “Rivoluzionario”? ›› publicou um artigo do Padre Serafino M. Lanzetta, padre professo do Instituto dos Franciscanos da Imaculada e cura da Igreja São Salvador em Ognissanti (Florença) desde 2004. Ele ensina teologia dogmática no Instituto Teológico “Imaculada Medianeira” (Cassino – Frosinone). Desde 2006, é diretor da revista teológica Fides Catholica. Colabora com diversas revistas de caráter cultural e teológico e dirigiu a realização de dois colóquios teológicos no Cenáculo do Ghirlandaio, Florença, bem como as publicações a respeito.

Observem que Dom Velasio de Paolis, já evocado neste blog a propósito da recente ordenação diaconal nos Franciscanos da Imaculada, encerrará este colóquio onde intervirão particularmente Mons. Gherardini, o professor Roberto de Mattei, Yves Chiron, Dom Schneider, Dom Marchetto, Mons. Nicola Bux, vários membros dos Franciscanos da Imaculada de universidades pontifícias e da cúria.

8 outubro, 2010

Entrevista com Dom Bernard Fellay: frutos das discussões teológicas poderiam ser promissores. “O nosso vínculo a Roma não deve ser simbólico, mas sim concreto”.

Publicamos um importante trecho da entrevista concedida por Sua Excelência Reverendíssima, Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ao site La Porte Latine:

O senhor percebe igualmente mudanças em Roma? A ação da obra de Dom Lefebvre teve um efeito sobre as altas instâncias da Igreja?

Percebe-se uma certa mudança em Roma a nosso respeito, embora ela não tenha ainda grande efeito. Tenho a impressão que o nosso trabalho é apreciado por alguns, enquanto odiado por outros. As reações a nosso respeito são muito contrastantes. Vê-se  realmente que existem dois campos, um favorável e outro hostil, o que torna as relações bastante difíceis, pois nos indagamos sempre quem terá a última palavra. Permanece, no entanto, que aqueles que querem ser fiéis ao Papa nos consideram com respeito e esperam muito de nós para a Igreja. Mas daí a ver efeitos concretos, será necessário ainda ter paciência!

Quarenta anos são ao mesmo tempo muito e pouco tempo para que um grande número de fiéis não tenham nenhuma lembrança do Vaticano II. Não se corre o risco, à medida que se distancia do Concílio, de viver num certo conforto, entre padres ou fiéis se satisfazendo com a nossa situação?

Existe, sem dúvida, o perigo de acabar por se confinar numa certa autonomia prática. Uma grande parte desta atitude deve ser atribuída à situação na qual nos encontramos, a de uma Tradição rejeitada. É por isso que tentamos expandir a visão e a preocupação dos fiéis falando-lhes da Igreja e de Roma. É muito importante conservar um espírito romano. O nosso vínculo a Roma não deve ser simbólico, mas sim concreto. Esta situação é também uma prova para a nossa fé na Igreja.

Há um ano abriam-se as discussões doutrinais entre os peritos da Santa Sé e da Fraternidade. Sabemos bem que uma grande discrição rodeia essas relações e os fiéis rezam para o seu final feliz. Sem  abordarmos os assuntos de fundo, devemos esperar para um futuro próximo um inevitável fracasso ou, pelo contrário, uma incontestável restauração?

Dado a forma dessas discussões, não penso que elas resultarão em uma ruptura brusca ou em uma solução súbita. Duas mentalidades se colidem, mas a vontade de entrar em discussão — a nível teológico — é bem real. É por isso que, ainda que o desenvolvimento corra o risco de ser longo, mesmo assim os frutos poderiam ser promissores.

Por essas discussões, deve-se esperar uma firme condenação do Concílio por parte de Roma ou, pelo contrário, será necessário enfim aceitá-lo sem torcer o nariz? Como imaginar a saída de tal crise magisterial?

Parece-me que, se uma condenação do concílio ocorrer um dia, não será amanhã. Desenha-se muito claramente uma vontade de correção da situação atual. Sobre o estado presente da Igreja, particularmente grave, as nossas apreciações convergem em numerosos pontos, tanto sobre a doutrina como sobre a moral e a disciplina. Contudo, a tendência dominante em Roma consiste ainda em eximir o concílio: não se quer chegar até o concílio, procura-se outras causas, mas, sobretudo, não o concílio! Tendo em conta a psicologia do ambiente, parece-me que seria mais fácil superá-lo recordando simplesmente o ensinamento irrefutável da Igreja, deixando para mais tarde a condenação direta. Creio que, no contexto atual, uma condenação simplesmente não seria compreendida.

Em uma obra recente, Vaticano II, un discorso da fare, um teólogo romano, Monsenhor Gherardini, elabora uma constatação bastante alarmante da Igreja. Ele deixa a entender que uma leitura do Concílio na continuidade da Tradição não se depreende manifestamente dele e lança um apelo solene ao Papa para que seja efetuado um grande trabalho de esclarecimento magisterial. Como se deve acolher este escrito?

Não é necessário tomá-lo como um escrito que venha de nós ou que nos seja destinado. Não, é dirigido aos católicos “do outro lado” e à hierarquia atual. Visto nesta perspectiva, esta obra se reveste de uma grande importância, pois introduz a questão de como o concílio foi recebido. Toca-se num tabu. Quando o fazemos, desencadeamos nos nossos interlocutores uma reação de defesa que bloqueia qualquer discussão. Mas quando o golpe parte de seu próprio seio, muitas coisas são postas em xeque. Cheguei à conclusão de que esse livro é objetivamente importante e que poderia ser uma destas faíscas suscetíveis de acender um grande incêndio.

30 setembro, 2010

O futuro FSSPX: nem concessão, nem “statu quo” confortável.

FONTE – Monsenhor Brunero Gherardini – tradução de Fratres in Unum a partir da versão francesa do Padre Matthieu Raffray, do Instituto do Bom Pastor – 29 de setembro de 2010

 

Cônego da Basílica de São Pedro e postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, Mons. Gherardini é padre da diocese de Prato (Itália) e está a serviço da Santa Sé desde 1965, especialmente como professor de eclesiologia e ecumenismo na Pontifícia Universidade Lateranense até 1995.

Cônego da Basílica de São Pedro e postulante da canonização do Beato Pio IX, Monsenhor Gherardini é padre da diocese de Prato (Itália) e está a serviço da Santa Sé desde 1965, especialmente como professor na Universidade Lateranense.

 

Propomos aqui um texto sobre o futuro da Fraternidade São X que Monsenhor Brunero Gherardini nos pediu que traduzisse para o francês e publicássemos. Sua perspectiva realista, fundada sobre circunstâncias históricas que conhece bem por vários motivos, dá lugar a uma síntese teológica que novamente enfoca a vexata quaestio sobre a noção de “Tradição”.

Ele convida a trabalhar lucidamente na clareza teológica, sem temer iniciar um duro e longo trabalho, aberto às grandes colaborações e investigações aprofundadas sobre os documentos conciliares controversos, como já havia convidado em sua já famosa obra, Vaticano II, um discorso da fare. Nesta perspectiva, o acordo canônico desejado não seria o resultado de uma rápida confrontação ponto a ponto sobre o Vaticano II, mas, pelo contrário, o ponto de partida de um vasto programa de análises e de estudos que contaria com “a colaboração dos especialistas mais prestigiosos, seguros e reconhecidos de cada um dos âmbitos sobre os quais se articula o Vaticano II [e que daria lugar] a uma série de congressos ou a uma série de publicações sobre cada um dos diversos documentos conciliares” (B. Gherardini, “Súplica ao Santo Padre”, Ibid., ed. fr., p. 262).

Também nós nos inserimos nessa ótica, em especial, no que diz respeito a um sério renascimento do debate teológico, que deve comportar dos dois lados a revisão de “sensos comuns” não dogmáticos, no interesse supremo da Igreja universal, e não na busca de um statu quo que não visaria mais que cultivar os interesses particulares.

Padre Matthieu Raffray, IBP


 

Por ocasião de um encontro entre amigos, alguns deles me perguntaram qual poderia ser o futuro próximo da Fraternidade São X, ao fim das discussões em curso entre a referida fraternidade e a Santa Sé. Discutimos longamente e os pareceres estavam divididos. Por isso, expresso o meu por escrito, na esperança — sem nenhuma pretensão, Deus me livre — que possa ser útil não somente aos meus amigos, mas também aos que participam neste diálogo.

Tenho que dizer, antes de tudo, que ninguém é profeta, nem filho de profeta. O futuro está nas mãos de Deus. Às vezes é possível organizá-lo antecipadamente, ao menos em parte; noutros casos, ele nos escapa totalmente. É necessário, além disso, reconhecer às duas partes, que estão afinal trabalhando para encontrar uma solução ao problema dos “lefebvristas” que já durou muito, que elas, até agora, têm tido êxito em manter admirável e exemplarmente o silêncio que haviam prometido sobre os seus colóquios. Tal silêncio, no entanto, não ajuda a prever as saídas possíveis.

“Rumores”, em contrapartida, se fazem ouvir; e não pouco. Saber qual o seu fundamento é um enigma. Examinarei, então, algumas das opiniões expressas por ocasião da discussão mencionada, para posteriormente dar, de maneira clara, a minha.

 

Dom Fellay, Cardeal Hoyos e Papa - setembro de 2005

Dom Fellay, Cardeal Hoyos e Papa - setembro de 2005

 

1 – Durante a discussão, alguns julgaram positivo o recente convite feito à Fraternidade de “sair do bunker [refúgio, abrigo] no qual se trancou durante o pós-concílio para defender a Fé contra os ataques do neomodernismo”. Era claro que dar uma opinião a esse respeito não era coisa fácil. Que a Fraternidade, durante algumas décadas, esteve fechada num bunker, é evidente; e, infelizmente, ainda permanece. Menos evidente é saber se ela entrou sozinha, se fizeram-na entrar, ou se os acontecimentos a empurraram para lá. Parece-me que, se realmente se quer falar de bunker, Monsenhor Lefebvre mesmo foi quem encarcerou a sua Fraternidade, em 30 de junho de 1988, quando — após duas advertências de João Paulo II e uma admoestação formal para que renunciasse ao ato “cismático” que planejava realizar — ordenou bispos quatro dos seus padres. O bunker foi isso: não o de um cisma formal, dado que se tratou apenas de uma “recusa de submissão ao Soberano Pontífice” (CIC 751, §2), não havia dolo nem intenção de criar uma anti-igreja; pelo contrário, este ato foi determinado mesmo pelo amor à Igreja e por uma espécie de “necessidade” urgente de assegurar a continuidade da verdadeira Tradição católica, seriamente comprometida pelo neomodernismo pós-conciliar. Mas foi um bunker: o de uma desobediência aos limites do desafio, uma via sem saída e sem a perspectiva de nenhuma abertura possível. E não aquele de salvaguardar valores comprometidos.

É difícil compreender em que sentido se possa propriamente dizer necessário “trancar-se num bunker” “para defender a Fé contra os ataques do neomodernismo”. Isso seria dizer: deixar o campo livre à invasão da heresia modernista? Não, dado que, de fato, a passagem da heresia foi incessantemente posta em dificuldade. Pois, embora numa situação de condenação canônica, e, portanto, fora das fileiras oficiais, mas com consciência segura de trabalhar por Cristo e a sua Igreja, una, santa, católica, apostólica e romana, a Fraternidade se ateve acima de tudo à formação dos padres, já que aí está o seu propósito específico; fundou e dirigiu seminários; promoveu e apoiou debates teológicos às vezes de alto nível; publicou livros de um valor eclesiológico notável; prestou contas de si mesma, publicando folhetos de informação internos e externos; e tudo isso às claras, demonstrando assim de qual força — infelizmente deixada à margem — a Igreja poderia se prevalecer para realizar a sua obra de evangelização universal. O fato de que os efeitos da presença ativa lefebvrista possam parecer modestos, ou que, realmente, não sejam muito aparentes, pode depender de dois motivos: por um lado, da condição canônica anormal na qual evolui; por outro, das suas dimensões: sabemos que “la mosca tira il calcio che può” (“a mosca dá o pontapé que pode”).

Mas estou profundamente convencido que é precisamente por isso que se faz necessário agradecer a Fraternidade: por ter mantido, e por manter ainda, bem alta a tocha da Fé e da Tradição, num contexto de secularização que já chega à beira de uma era pós-cristã, e isso apesar de uma antipatia não dissimulada para com a mesma.

2 – Por ocasião do debate em questão no início, alguém fez referência a uma conferência na qual a Fraternidade foi convidada a ter uma confiança maior no mundo eclesial contemporâneo, recorrendo, se necessário, a certas concessões, dado que a “salus animarum” exige — é um lefebvrista que teria dito – que se corra até esse risco. Sim, mas certamente não o risco “comprometer” sua salvação eterna, nem a de outro.

É provável que as palavras tenham traído as intenções. Ou que não se tenha atentado ao valor das palavras. Pois se há uma coisa que se deve evitar em matéria de fé é fazer concessões. E para a Fraternidade, o recordar para si  o  “sim, sim, não, não” de Mt. 5, 37, como todo fiel autêntico de Cristo,  é a única resposta válida à perspectiva de concessão. O texto citado continua afirmando que “todo o resto vem do maligno”: portanto, também, e mais precisamente, a concessão. Pelo menos quando por ela se entende o renunciar aos seus próprios princípios morais e às suas próprias razões de ser.

Para dizer a verdade, desde que as discussões entre a Santa Sé e a Fraternidade começaram, chegou, também a mim, o rumor da possibilidade de uma concessão. Ou seja, de um comportamento indigno, ao qual o primeiro a recusar, imagino, seja a Santa Sé. Uma concessão sobre algo que não implique a autêntica confissão da Fé é possível, e mesmo plausível; mas nunca às custas de valores inegociáveis. Seria isso, sobretudo, uma contradição nos termos, pois que a concessão ela mesma é objeto de um “negotium” — e uma negociação de risco: risco do naufrágio da Fé. A própria idéia de que a Santa Sé possa propor e aceitar uma concessão me repugna: seria obter muito menos que um prato de lentilhas e endossaria então a responsabilidade de um delito gravíssimo. Igualmente, me repugna a idéia de que a Fraternidade, após ter feito da Fé sem concessões a bandeira da sua própria existência, possa escorregar na casca de banana da renúncia de sua razão de ser.

Acrescento que, a julgar por alguns indícios que talvez não sejam totalmente infundados, a metodologia colocada em ato por ambos os lados não parece abrir grandes perspectivas. É a metodologia do ponto contra ponto: Vaticano II “sim”, Vaticano II “não”, ou a rigor “sim, se…”. A condição de tal método é que de um lado ou do outro, ou dos dois, baixa-se a guarda. Uma capitulação sem condição? Para a Fraternidade, entregar-se nas mãos da Igreja seria o único comportamento verdadeiramente cristão, se não existisse a razão pela qual ela nasceu e que a levou a se retirar para o Aventin [ndt: uma das sete colinas de Roma]. A saber, este Concílio Vaticano II que, particularmente em alguns de seus documentos, é literalmente o oposto daquilo que ela crê e pelo que ela age. Com tal metodologia, nenhuma via média pode, então, ser entrevista: ou a capitulação, ou a concessão.

 

Bispos da Fraternidade nas exéquias de Dom Lefebvre

Bispos da Fraternidade nas exéquias de Dom Lefebvre

 

Tal saída poderia ser evitada se outra metodologia fosse seguida. O “punctum dolens” de todo o contencioso se chama Tradição. Uma e a outra parte não cessam de recordá-la, embora tenham uma noção claramente distinta. Em 1988, o Papa João Paulo II declarou oficialmente que a noção de Tradição defendida pela Fraternidade era “incompleta e contraditória”. Restaria demonstrar a razão de tal incompletude e contradição, mas o mais urgente é a necessidade de se chegar, para ambas as partes, a um conceito comum, isto é, bilateralmente compartilhado. Tal conceito se tornaria então o instrumento que permite desvendar o labirinto dos problemas. Não há questão teológica ou de problema eclesial que não encontre em tal conceito a sua solução. Se, então, continuarem a dialogar mantendo, de um lado e de outro, o seu ponto de partida, ou se dará lugar um diálogo de surdos, ou, para tentar provar que não se dialogou em vão, se dará livre acesso à concessão. Em particular, se fosse aceita a tese dos “contrastes aparentes”, que reduz as oposições não a causas de caráter dogmático, mas à interpretação sempre nova de fatos históricos, então a Fraternidade declararia o seu próprio fim, substituindo miseravelmente a sua noção de Tradição, que é a dos Apóstolos, pela noção vaga, inconsistente e heterogênea de Tradição viva dos neomodernistas.

3 – Em nosso colóquio amigável, abordamos enfim uma última questão, exprimindo aí mais esperança que previsões concretamente fundadas: a questão do futuro da Fraternidade. Sobre este assunto, já se inclinou o sítio http://cordialiter.blogspot.com, com uma antecipação idílica do feliz amanhã que poderia ocorrer à Fraternidade: um novo estatuto canônico — novo? Sim, porque por ora, nunca existiu –, significando o início do fim do modernismo, priorados abarrotados de fiéis, e pela Fraternidade transformada em “super-diocese autônoma”. Da minha parte, espero também muito da aproximação esperada e que está atualmente em curso, mas mantendo um pouco mais os pés no chão.

Tento lançar sobre essas coisas um olhar mais aguçado a fim de ver o que poderia ocorrer. A especificidade da Fraternidade, como já recordei, é a preparação ao sacerdócio e o cuidado das vocações sacerdotais. Portanto, não deveria se abrir para ela um terreno diferente do dos seminários, que é o seu verdadeiro campo de batalha: nos seus próprios seminários ou nos dos outros, aí, mais que em qualquer outro lugar, poderão se exprimir a natureza e a finalidade da Fraternidade.

Sob qual perfil canônico? Não é fácil prevê-lo. Parece-me, no entanto, que o fato de se tratar de uma fraternidade sacerdotal deveria sugerir o aspecto canônico sob forma de uma “sociedade sacerdotal”, colocada sob o governo supremo da “Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida apostólica”. Além disso, o fato de já possuir quatro bispos poderia sugerir, como solução, uma “Prelazia” que a Santa Sé, no momento oportuno, poderá precisar a configuração jurídica exata. Tudo isso não me parece, todavia, ser o problema principal. O que é bem mais importante, sem dúvida, é tanto a resolução dentro da Igreja de um contencioso incompreensível na época do diálogo com todos, como a liberação de uma força compacta unida à idéia e ao ideal da Tradição, para que possa operar não desde um bunker, mas à luz do sol e como expressão viva e autêntica da Igreja.

Brunero Gherardini

Roma, 27 de setembro de 2010

1 setembro, 2010

Um novo livro sobre Dom Marcel Lefebvre. As relações entre Fraternidade São Pio X e Franciscanos da Imaculada.

Relatamos a gravação em áudio de uma conferência de apresentação do livro “Monsignor Lefebvre. Nel nome della verità” [Dom Lefebvre. Em nome da verdade], edições Sugarco, realizada pela autora Cristina Siccardi, em San Sicario (Turim), em 15 de agosto último. A importância deste documento está no fato que dele emerge, de forma claríssima e concisa, a posição atual da Fraternidade São Pio X e as suas perspectivas de desenvolvimento e ações futuras, bem como sua estratégia a médio prazo.

Dom Marcel Lefebvre

Dom Marcel Lefebvre

Tudo isso não só não desmente, mas demonstra, com autoridade, o apoio dos próprios altos expoentes atuais da Fraternidade; apoio tornado mais evidente pelo fato de que esta gravação foi publicada no site italiano dos filhos de Monsenhor Lefebvre (http://www.sanpiox.it/ ). Muito comovente e praticamente inédito, pois, é o modo como trata a relação entre o bispo francês e Paulo VI.

Entre outras coisas, ouvindo atentamente as palavras de encerramento da conferência, proferida pelo Pe. Emmanuel Du Chalard, tomamos conhecimento de que está previsto, para os próximos meses, um encontro entre o Padre Mannelli, fundador e superior dos Franciscanos da Imaculada, e Dom Bernard Fellay.

Na verdade, os contatos entre estas duas ordens religiosas remontam já há tempos e traçam algumas convergências significativas que, à primeira vista, podem surpreender.

Dentro da FSSPX, de fato, em geral, ouve-se opiniões positivas sobre os Franciscanos da Imaculada, ao contrário do que acontece com as congregações chamadas “Ecclesia Dei”. Freqüentemente são louvadas a profunda espiritualidade e vida de penitência desses religiosos.

Não nos esqueçamos, além disso, que foi a própria editora dos Franciscanos da Imaculada que publicou o livro “Concilio Vaticano II, um discorso da fare”, de Monsenhor Brunero Gherardini, texto comentado com tom quase entusiasta na última edição de “La Tradizione Cattolica”, revista oficial da FSSPX na Itália.

Acrescentamos a este respeito que vozes críticas (de “direita”) dentro da Fraternidade São Pio X contra o texto de Gherardini foram refreadas pelo próprio Dom Fellay numa das últimas edições de Cor Unum, a publicação interna da Fraternidade.

Com efeito, enquanto as outras ordens “Ecclesia Dei” nasceram, algumas mais outras menos, de fraturas internas da FSSPX, e fraturas, infelizmente, sempre deixam feridas difíceis de cicatrizar, o mesmo não se pode dizer com relação aos Franciscanos da Imaculada.

O tempo dirá. Certamente, para o bem da Tradição, será necessário procurar algum tipo de harmonização dentro do mundo católico tradicionalista. Não é justo que as divisões e rivalidades internas, por vezes, pesem mais do que os próprios ataques dos modernistas. Mas ao mesmo tempo, uma certa concorrência ‘intrabrand’ é um sinal de vitalidade e riqueza e não se pode esquecer, a esse respeito, as ácidas disputas que – testemunha Dante Alighieri – opunham franciscanos e dominicanos.

Acrescente-se a isso que a autora do texto sobre Lefebvre, Cristina Siccardi, é próxima à Alleanza Cattolica (outra entidade cujas relações com a Fraternidade São Pio X tem sido historicamente difíceis), não podemos senão nos alegrar com estes sinais de ‘tradi-ecumenismo’ .

É possível ouvir a gravação nos site Sanpiox.it ou Maranatha

Esta, por sua vez, é a apresentação da edição de Siccardi, que recomendamos e à qual nos referimos neste post:

Dom Marcel Lefebvre (1905-1991), um nome que quase sempre faz estremecer, impronunciável, exceto em alguns ambientes restritos, onde é muito amado e reverenciado. Boa parte da opinião pública, católica e não-católica, o pintou como um “herege”, como um “cismático”, alguém que desejava criar uma igreja inteiramente sua…

Quantos erros, quantas fábulas se construíram em torno de pessoas que pensam, que raciocinam, que alegam verdades incômodas e por isso tornam-se elas mesmas incômodas. Incômodas como Lefebvre.

Conhecido na maior parte das vezes como o Bispo rebelde, Dom Lefebvre foi até agora colocado sob um faixo de luz difamatório, não pela sua conduta de vida, exemplar e altamente virtuosa, por todos verificável, mas pela sua forte tomada de posição contra um Concílio pastoral, o Vaticano II, cujos ditames via e denunciava as conseqüências descristianizantes e relativistas que dele surgiam.

Hoje, após quase vinte anos após sua morte e quarenta e cinco do encerramento do próprio Concílio, podemos nos aproximar historicamente dele com maior serenidade e sem ressentimentos, considerando este homem, melhor, este sacerdote, não como o inimigo de alguém, mas como um soldado corajoso e perspicaz de Cristo, paladino da integridade da Fé e da Santa Igreja Romana, do Primado Petrino e da Eucaristia.

Dom Lefebvre, graças também aos filhos que deixou, os padres da Fraternidade São Pio X, ainda está aí para indicar que a tradição, na doutrina Católica, na celebração do Santo Sacrifício da Missa de Sempre, na santidade sacerdotal, são as respostas aos problemas de um mundo que se perdeu em seu orgulho e em sua vaidade, destronando Cristo Rei.

Fonte: Messa in Latino

12 agosto, 2010

Prefácio de Dom Mario Oliveri ao livro “Vaticano II: Un Discorso da Fare”, de Monsenhor Brunero Gherardini.

Iniciamos, com a publicação deste prefácio de Dom Mario Oliveri, bispo de Albenga-Imperia, uma nova série que trará a nossos leitores excertos do que há de mais importante na grande obra de Monsenhor Brunero Gherardini (alguns dos quais já publicamos anteriormente). Tal iniciativa pretende motivar a leitura e a difusão deste importantíssimo livro em prol da imperiosa restauração do autêntico ensinamento católico.

* * *

Dom Mario Oliveri, bispo diocesano de Albenga-Imperia (Itália)

Dom Mario Oliveri, bispo diocesano de Albenga-Imperia (Itália)

Reverendíssimo e Caro Professor,

Com um gesto cheio de cortesia, o senhor desejou que eu pudesse ler o conteúdo de sua elaborada meditação teológica Un Discorso da fare, acerca do Concílio Ecumênico Vaticano II, antes de sua publicação pela “Casa Mariana Editrice”.

Eu a li integralmente com a mesma avidez de alma que tinha ao receber muitas de suas publicações, livros e artigos, que o senhor escreveu até agora. O assunto comum que tem animado todos os seus escritos é sempre o de apresentar, segundo sua lógica e – eu diria – sua relação sólida, a Verdade revelada e a verdade meditada do intelecto humano iluminado pela fé, sustentado pela Teologia dos Padres da Igreja e da grande Escolástica medieval transmitida pelos séculos, guiado pelo Ensinamento do Magistério da Igreja que nunca pode estar em contradição consigo mesmo, podendo apenas ter um desenvolvimento de tal modo homogêneo a nunca dizer “nova”, embora sempre “nove” (segundo a terminologia de São Vicente de Lérins no Commonitorium) [nota da redação: a expressão de S. Vicente é « non nova sed nove », com a qual o grande Santo quer ensinar que a Igreja não pode apresentar novas verdades, mas apenas as mesmas verdades de maneira nova].

Reconheço com essas expressões que estou me referindo a um conceito filosófico, e, portanto, também teológico (na medida em que se dá atenção à Verdade revelada), que reconhece o valor e a natureza do intelecto humano. É um conceito que considera o intelecto capaz de compreender e de aderir à verdade que é imutável, como imutável é a essência de todas as coisas dado que obtêm sua natureza por meio da criação do Ser Absoluto, d’Aquele que É. Todavia, o intelecto não cria a verdade, porque não cria o ser: antes, o intelecto conhece a verdade quando conhece o que é a essência das coisas.

Fora dessa visão, fora de tal Filosofia, qualquer discussão sobre a imutabilidade da verdade e a continuidade da adesão intelectual a essa mesma verdade seria inconcebível e insustentável. Nada restaria senão aceitar uma contínua mutabilidade de tudo que o intelecto elabora, explica e cria.

Mesmo uma discussão sobre o desenvolvimento homogêneo do dogma ou do ensinamento da Igreja através dos séculos, no passar do tempo e da história, não poderia ser realizada com qualquer possibilidade de ser completa, decisiva e aceitável. Seria necessário submeter a um continuum fieri no plano de uma “verdade” não mais conhecida e reconhecida pelo intelecto, mas inventada no fundamento daquilo que parece ser em vez daquilo que é.

Certamente esse meu discurso não é dirigido ao senhor; mas tendo lido sua meditação teológica da qual se eleva a necessidade de uma verdadeira “hermenêutica da continuidade” a respeito do ensinamento do Vaticano II, não poderia senão expressar e compartilhar alguns de meus pensamentos.

Sua publicação claramente demonstra que não pode haver senão continuidade na Igreja – e essa clareza de pensamento lhe é habitual por virtude de sua sagacidade intelectual e igualmente sua experiência vastíssima como Docente. O mero pensamento de que pudesse haver uma “revolução, mudança radical, mutação substancial” sobre o plano da verdade e da vida sobrenatural da Igreja já se aparta também do são raciocínio teológico porque, como notamos anteriormente, ele se desvia também do são raciocínio filosófico. Não perturba apenas a fé, mas também a razão.

O debate é necessariamente sobre a continuidade in substantialibus, e não in accidentalibus; sobre continuidade com tudo que em sua matéria a Igreja sempre acreditou, professou, ensinou e viveu em sua verdadeira realidade no decorrer dos séculos. A Igreja, que é divina e não humana, manteve todas essas coisas desde o início, que podem ser recebidas apenas por um intelecto iluminado pela fé e sustentado por uma vontade movida pela Graça Divina.

Seu tratado, caro Professor, permite o engajamento em uma profunda análise do Vaticano II e de seu ensinamento, como formulado em seus Documentos, de tal maneira a levar a uma compreensão de que mesmo naquelas lugares onde a linguagem poderia conduzir a pensar em uma descontinuidade com o conteúdo teológico que se encontra em “toda a bagagem doutrinal da Igreja”, mesmo aí o conteúdo só pode ser considerado nove, e não nova. E, portanto, uma linguagem de descontinuidade de modo algum pode alterar a “bagagem doutrinal da Igreja”, mas antes tal linguagem deve ser interpretada de uma maneira que não se possa dizer nova a respeito da Tradição da Igreja.

No entanto, dada a natureza do Concílio e a diversidade de natureza de seus Documentos, penso que se possa sustentar que se de uma hermenêutica teológica Católica emergisse que algumas passagens, ou algumas declarações ou asserções do Concílio, não dissessem, a respeito da Tradição perene da Igreja, apenas coisas nove, mas também nova, não se estaria diante de um desenvolvimento homogêneo do Magistério: neste caso haveria um ensinamento que não é imutável e, certamente, não infalível.

É um grande conforto para mim poder ler o recente discurso do Santo Padre à Plenária da Congregação para o Clero. Falando sobre a formação dos Padres, ele afirma: “A missão tem suas raízes, de maneira especial, em uma boa formação, desenvolvida em comunhão com a Tradição eclesial ininterrupta, sem pausas ou tentações de descontinuidade. Nesse sentido, é importante encorajar nos Padres, acima de tudo nas jovens gerações, uma correta recepção dos textos do Concílio Ecumênico Vaticano II, interpretados à luz da bagagem doutrinal da Igreja”.

Sendo esse o pensamento do Santo Padre, é razoável pensar que ele levará em boa consideração o Apelo que, na conclusão de sua meditação teológica sobre o Vaticano II, o senhor desejou formular ao Sucessor de Pedro como um devoto filho da Igreja. Seu pedido tem como favorável que houvesse, do nível mais alto do Magistério, “um grande e possivelmente definitivo esclarecimento sobre o último Concílio, em todas as suas dimensões e conteúdo”, que tocaria em sua própria natureza, que indicaria o que significa ter desejado se propor como um Concílio pastoral. Qual é, portanto, seu valor dogmático? Todos os seus documentos têm o mesmo peso ou não? Todas as expressões apresentadas nos documentos têm o mesmo valor ou não? Seu ensinamento é inteiramente imutável?

É verdade que algumas das respostas a estas questões podem já ser deduzidas de seu trabalho e devem poder ser explicadas baseadas no constante critério de juízo teológico que sempre foi seguido dentro da Igreja; contudo, ninguém pode negar que em muito da produção “teológica” pós-conciliar a confusão a esse respeito seja muito densa, como muito densa é a incerteza doutrinal e pastoral.

Portanto, permita-me, meu caro Professor, e acima de tudo, permita-me Santo Padre, unir-me toto corde a esse Apelo. Expresso também meus desejos de que sua publicação suscite uma grande atenção e muita reflexão dentro da Igreja, onde quer que haja um desejo de se empenhar na verdadeira teologia. Também espero que ela seja recebida com o respeito devido a um trabalho conduzido com tal rigor e certamente com grande amor pela Igreja, por sua Tradição perene, por seu Magistério, através do conhecimento fiel e da transmissão da qual o senhor sempre trabalhou em toda a sua longa atividade como Professor de Sagrada Teologia.

Albenga, 19 de março de 2009, Solenidade de São José, Patrono da Igreja Universal.

+ Mario Oliveri, Bispo

(The Ecumenical Vatican Council II, A Much Needed Discussion. Msgr. Brunero Gherardini, Casa Mariana Editrice, traduzido para o inglês pelos Franciscanos da Imaculada da edição italiana de 25 de março de 2009 – “Concilio Ecumenico Vaticano II: Un discorso da fare”, pp. 8-12  – destaques do original)

9 agosto, 2010

Vaticano II, um debate entre Romano Amerio, Monsenhor Gherardini e Monsenhor Pozzo.

DICIEm 2 de julho, Monsenhor Guido Pozzo (à direita na foto), secretário da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, proferiu uma conferência no seminário da Fraternidade São Pedro, em Wigratzbad, intitulada “Aspectos da eclesiologia católica na recepção do Vaticano II”. Nela, ele afirmou que “se o  Santo Padre fala de duas interpretações ou chaves de leitura divergentes, uma da descontinuidade ou ruptura com a Tradição Católica, e a outro da renovação na continuidade (em seu discurso de 22 de dezembro de 2005 à Cúria Romana, ndr), significa que a questão crucial da fonte, ou o ponto realmente determinante do trabalho de desorientação e de confusão que caracterizou e ainda caracteriza a nossa época, não provém do Concílio Vaticano II enquanto tal e não é o ensino objetivo contido em seus documentos, mas a interpretação deste ensino” (sublinhado no texto, como todas as passagens em negrito que seguem, ndr).

A análise de Monsenhor Pozzo sobre a influência do para-concílio.

Monsenhor Pozzo pretende provar que, sobre dois pontos controversos (o primeiro, a unidade e a unicidade da Igreja Católica, com a questão do subsistit in em Lumen Gentium 8, e o outro, o das relações entre a Igreja Católica e outras religiões, com o diálogo ecumênico e inter-religioso), “o anúncio autêntico da Igreja, no que diz respeito a sua reivindicação de plenitude, não foi modificado substancialmente desde o ensinamento do Vaticano II”.

Portanto, não resta senão perguntar por que os documentos conciliares, aos olhos de Monsenhor Pozzo tão claramente conformes à Tradição, deram lugar a uma interpretação de tal maneira oposta. O prelado romano se pergunta e responde: “Qual é a origem da interpretação da descontinuidade, ou da ruptura com a tradição? É que podemos chamar a ideologia conciliar, ou, mais exatamente, para-conciliar, que tomou conta do Concílio desde o início, se sobrepondo a ele. Com esta expressão, não se pretende nada que diga respeito aos textos do Concílio, nem à intenção dos autores, mas ao quadro geral de interpretação no qual o Concílio foi colocado e que age como uma espécie de acondicionamento interno da leitura sucessiva dos fatos e dos documentos. O Concílio não é a ideologia para-conciliar, mas na história do acontecimento eclesial e dos meios de comunicação de massa, se executou largamente a  mistificação do Concílio, que é precisamente a ideologia para-conciliar. Para que todas as conseqüências da ideologia para-conciliar fossem manifestadas como um acontecimento histórico, seria necessário considerar a revolução de 68, que toma como princípio a ruptura com o passado e a mudança radical da história. Na ideologia para-conciliar, o movimento de 68 significa uma nova figura da Igreja em ruptura com o passado”.

E Monsenhor Pozzo conclui que é necessário utilizar “a hermenêutica da reforma na continuidade”, preconizada por Bento XVI, “para enfrentar as questões controversas, liberando, por assim dizer, o Concílio do para-concílio que se misturou com ele, e conservando o princípio da integridade da doutrina católica e da plena fidelidade ao Depósito da Fé transmitido pela Tradição e interpretado pelo Magistério da Igreja”.

Uma interrogação permanece ao fim desta exposição: o para-concílio denunciado pelo secretário da Comissão Ecclesia Dei se identifica com o pós-concílio? Somos tentados a responder afirmativamente se considerarmos que esse para-concílio teria se esforçado em fazer coincidir os documentos redigidos entre 1962 e 1965 com o espírito da revolução de maio de 68. Mas também é dito que “a ideologia conciliar, ou, mais exatamente, para-conciliar, (…) tomou conta do Concílio desde o início, se sobrepondo a ele”. Esta sobreposição “desde o início” não teve nenhuma influência sobre a redação dos textos conciliares? Monsenhor Pozzo considera que a ideologia para-conciliar não afeta nem os textos do Concílio, nem a intenção dos autores, mas fornece somente “o quadro geral de interpretação no qual o Concílio foi colocado e que age como uma espécie de acondicionamento interno da leitura sucessiva dos fatos e dos documentos”. A ideologia para-conciliar seria, por conseguinte, um quadro externo que condiciona do interior a leitura dos documentos! Parece mais simples ver uma influência estranha à Tradição se exercer diretamente sobre a sua redação.

O testemunho de Dom Lefebvre

Dom Lefebvre

Dom Lefebvre

É que declarava francamente Dom Marcel Lefebvre em Ils l’ont décournné [“Eles O destronaram”]: “É certo que, com os 250 padres conciliares do Coetus (Coetus Internationalis Patrum, grupo de bispos conservadores fundado por Dom Lefebvre, Dom Carli e Dom Proença-Sigaud, ndr), tentamos, por todos os meios colocados a nossa disposição, impedir os erros liberais de se exprimirem nos textos do Concílio; o que fez com que nós pudéssemos como que limitar os danos, alterar tais frases inexatas ou tendenciosas, acrescentar tal frase para retificar uma proposta tendenciosa, uma expressão ambígua.

“Mas devo confessar que não tivemos êxito em purificar o Concílio do espírito liberal e modernista que impregnava a maior parte dos esquemas. Os editores, com efeito, eram exatamente os peritos e os Padres manchados por esse espírito. Ora, o que querer quando um documento é, em todo o seu conjunto, redigido com um espírito falso?  É praticamente impossível purificá-lo deste espírito; seria necessário recompô-lo completamente para lhe dar um espírito católico.

“O que pudemos fazer, é, pelos modi que apresentamos, fazer acrescentar incisos nos esquemas, e isso se vê muito bem: basta comparar o primeiro esquema da liberdade religiosa com o quinto que foi redigido — pois este documento foi cinco vezes rejeitado e retornou cinco vezes à tona — para ver que houve, de todo modo, êxito em atenuar o subjetivismo que infectava as primeiras redações. O mesmo para a Gaudium et Spes, se vê muito bem os parágrafos que foram acrescentados a nosso pedido, e que estão lá, diria eu, como retalhos devolvidos a uma velha roupa: ele não cola nem junta; ele não tem mais a lógica da redação primitiva; as adições feitas para atenuar ou contrabalançar as afirmações liberais permanecem lá como corpos estranhos (…)

“Mas, o fastidioso é que os próprios liberais praticaram este sistema no texto dos esquemas: a afirmação de um erro ou de uma ambigüidade ou de uma orientação perigosa, e, imediatamente antes ou depois, a afirmação em sentido contrário, destinada a tranqüilizar os padres conciliares conservadores.” (Ils l’ont découronné, Clovis, pp. 193-194, pode-se obter a obra aqui).

Romano Amerio e o seu discípulo Enrico Maria Radaelli denunciam “uma abissal ruptura de continuidade”

Romano Amerio

Romano Amerio

É possível encontrar um eco do testemunho de Monsenhor Lefebvre no terceiro volume das obras completas de Romano Amerio, publicado nos últimos dias na Itália pelas edições Lindau, sob o título Zibaldone, retomando o título de uma obra do poeta Giacomo Leopardi que significa uma mistura que reúne, sem ordem, “curtos pensamentos, aforismos, relatos, citações de autores clássicos, diálogos morais, comentários de acontecimentos do cotidiano”, como escreveu em 12 de julho o vaticanista Sandro Magister em o seu sítio chiesa.espressonline (tradução portuguesa publicada no Fratres in Unum). Magister assim apresenta a obra de Amerio: “Dessa sua análise fortemente crítica, que ele aplicava também ao Concílio Vaticano II, Amerio extraiu o que Enrico Maria Radaelli, seu fiel discípulo e editor da publicação das obras do mestre, chama de “grande dilema subjacente ao fundo do cristianismo atual”. Este dilema é o de saber se há continuidade ou ruptura entre o magistério da Igreja de antes e depois do Vaticano II.

“(…) a juízo de Amerio e Radaelli, esta é justamente a causa da crise da Igreja conciliar e pós-conciliar, uma crise que levou o mais próximo da perdição, ‘impossível mas também quase alcançada’, como é o ter desejado renunciar a um magistério imperativo, com definições dogmáticas “inequívocas na linguagem, certas no conteúdo, vinculantes na forma, como se espera ser ao menos os ensinamentos de um Concílio”.

“A conseqüência, segundo Amerio e Radaelli, é que o Concílio Vaticano II está cheio de asserções vagas, interpretáveis de modos diferentes, das quais algumas estão também em aberto contraste com o magistério anterior da Igreja (destaques nossos). Essa linguagem pastoral ambígua é o que havia aberto o caminho a uma Igreja hoje “percorrida por milhares de doutrinas e centenas de milhares de costumes nefastos”, inclusive na arte, música e liturgia.

“O que fazer para remediar essa calamidade? A proposta que faz Radaelli vai mais além daquela feita recentemente — a partir de juízos críticos tão duros quanto — por outro defensor apaixonado pela tradição católica, o teólogo tomista Brunero Gherardini, de 85 anos de idade, cônego da basílica de São Pedro, professor emérito da Pontifícia Universidade Lateranense e diretor da revista ‘Divinitas’”.

“Monsenhor Gherardini antecipou sua proposta num livro publicado em Roma, no ano passado, com o título: ‘Concilio Ecumenico Vaticano II. Um discorso da fare’. O livro conclui com uma ‘Súplica ao Santo Padre’, a quem se pede que submeta a um novo exame os documentos do Concílio, para esclarecer, de uma vez por todas, ‘se, em que sentido e até que ponto’ o Vaticano II está ou não em continuidade com o magistério anterior da Igreja. (…)

“Pois bem, em seu epílogo a ‘Zibaldone’ de Romano Amerio, o professor Radaelli recolhe a proposta de Monsenhor Gherardini, mas ‘apenas como uma primeira instância para purificar o ambiente de muitos, muitos mal entendidos’. Com efeito, segundo Radaelli, não é suficiente esclarecer o sentido dos documentos conciliares, se tal esclarecimento é oferecido depois à Igreja com o mesmo estilo ineficaz de ensinamento ‘pastoral’ que se tornou costume com o Concílio, propositivo mais que impositivo.

“Se o abandono do princípio de autoridade e o ‘discussionismo’ são a enfermidade da Igreja conciliar e pós-conciliar, para sair dela — afirma Radaelli — é necessário trabalhar de forma contrária. A máxima hierarquia da Igreja deve fechar a discussão com um pronunciamento dogmático ‘ex cathedra’, infalível e vinculante. Deve atingir com o anátema os que não obedeçam e deve bendizer os que obedecem.

“O que Radaelli espera que a cátedra suprema da Igreja decrete? Assim como Amerio, ele está convencido de que ao menos em três casos se deu ‘uma ruptura abismal da continuidade’ entre o Vaticano II e o magistério anterior: onde a Concílio afirma que a Igreja de Cristo ‘subsiste na’ Igreja Católica, em vez de dizer que ‘é’ a Igreja Católica; onde assevera que ‘os cristãos adoram o mesmo Deus adorado pelos judeus e muçulmanos’; e na Declaração ‘Dignitatis Humanae’ sobre a liberdade religiosa.

A hermenêutica da reforma na continuidade é um remédio suficiente?

Mons. Brunero Gherardini

Mons. Brunero Gherardini

No fim de seu artigo, Sandro Magister mostra que a crítica do Concílio por Romano Amerio e Monsenhor Gherardini não é, aos olhos do Papa, admissível: “Tanto Gherardini como Amerio-Radaelli reconhecem em Bento XVI um Papa amigo. Mas há que se descartar que ele assinta a seus pedidos. Mais ainda, tanto no conjunto como em alguns pontos controversos, o Papa Joseph Ratzinger já fez saber que não compartilha em absoluto de suas posições.

“Por exemplo, no verão de 2007, a Congregação para a Doutrina da Fé se manifestou a respeito da continuidade de significado entre as fórmulas ‘é’ e ‘subsiste em’ ao afirmar que ‘o Concílio Ecumênico Vaticano II não quis mudar, nem de fato o fez, a doutrina anterior sobre a Igreja, mas que apenas quis desenvolvê-la, aprofundá-la e expô-la mais amplamente’.

“Quanto à Declaração ‘Dignitatis humanae’ sobre a liberdade religiosa, Bento XVI explicou pessoalmente que, se ela está separada das indicações anteriores ‘contingentes’ do Magistério, fê-lo precisamente para ‘retomar novamente o patrimônio mais profundo da Igreja’.

“O discurso em que Bento XVI defendeu a ortodoxia da “Dignitatis humanae” é o que dirigiu à cúria vaticana na vigília do primeiro Natal de seu pontificado, em 22 de dezembro de 2005, precisamente para sustentar que  entre o Concílio Vaticano II e o magistério anterior da Igreja não há ruptura, mas “reforma na continuidade”.

E Sandro Magister conclui: “O Papa Ratzinger não convenceu até agora aos lefebvristas, que se mantêm em estado de cisma justamente neste ponto crucial (a afirmação de uma descontinuidade ou de uma ruptura em relação à Tradição constitui um cisma? Não seria antes a própria ruptura que pode ser sinônimo de cisma? ndr). Mas não convenceu — de acordo com o que escrevem Radaelli e Gherardini — nem sequer a alguns de seus filhos ‘obedientíssimos em Cristo’”.

De um lado, Monsenhor Pozzo propõe libertar o Concílio do para-concílio, e de outro, Amerio e Radaelli pedem que o Magistério Romano deixe de “pastoralizar” para dogmatizar claramente. Tal é o coração do debate sobre o Vaticano II que Monsenhor Gherardini afirma ser “um debate a se realizar”. Imperativamente. (DICI n°220 de 07/08/10)

15 julho, 2010

O juízo de Monsenhor Brunero Gherardini sobre o debate teológico entre Tradição e o Concílio Vaticano II.

DICI – Na edição de maio de 2010 de Courrier de Rome (n°333), Professor Paolo Pasqualucci oferece um comentário esclarecedor sobre o estudo de Monsenhor Brunero Gherardini publicado na revista teológica Divinitas sob o título Quod et tradidi vobis – La tradizione vita e giovinezza della Chiesa (Quod et tradidi vobis.  A tradição, vida e juventude da Igreja), um estudo que também foi republicado em um volume por Casa Mariana Editrice.

Monsenhor Gherardini, autor de Vaticano II: Un discorso da fare, publicado em francês no início desse ano, apresenta em Quod et tradidi vobis uma análise muito pertinente do debate teológico entre a Tradição e o Concílio Vaticano II. Aqui está o amplo extrato que pode ser encontrado em Courrier de Rome, oferecendo uma lista de 9 dificuldades; a esta lista nós acrescentamos os três parágrafos que seguem, onde Monsenhor Gherardini não hesita em transmitir um julgamento pessoalmente muito explícito.

“Em meu esforço em estabelecer uma síntese de posições defendidas por Dom Lefebvre em favor da Tradição, e sem pretender tratar exaustivamente do assunto, parece-me que o conflito se estabelece da seguinte maneira:

  1. Mons. Brunero Gherardini, cônego da Basílica de São Pedro e postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, também questinou a aceitação da validade do cânon de Adai e Mari, que omite as palavras da consagração, pela Congregação para a Doutrina da Fé.

    Monsenhor Brunero Gherardini, cônego da Basílica de São Pedro e postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, também questinou a aceitação da validade do cânon de Adai e Mari, que omite as palavras da consagração, pela Congregação para a Doutrina da Fé.

    Uma formação sacerdotal que encontrou seus princípios na Tradição eclesiástica e nos valores sobrenaturais da Revelação divina, frente a uma formação sacerdotal aberta ao horizonte flutuante de uma cultura em perpétuo estado de devir.

  2. Uma liturgia que certamente tem um ponto forte na Missa dita tradicional, frente a uma liturgia antropocêntrica e sociológica [a do Novus Ordo da missa], na qual o coletivo prevalece sobre o valor do individual, a oração ignora o aspecto latrêutico, a assembléia torna-se o ator principal e Deus dá lugar ao homem.
  3. Uma liberdade que faz sua “libertação” depender do Decálogo, dos mandamentos da Igreja, das obrigações do dever de estado e do dever de conhecer, amar e servir a Deus, frente a uma liberdade que coloca todas as formas de culto em pé de igualdade, silencia a respeito da lei de Deus, desobriga os indivíduos e a sociedade sobre domínios éticos e religiosos e deixa a solução de todos os problemas exclusivamente à consciência.
  4. Uma teologia que reúne seu conteúodo de fontes específicas (Revelação, Magistério, Patrística, Liturgia), frente a uma teologia que abre bem os seus braços, dia após dia, às emergências culturais do momento, mesmo àquelas que claramente contradizem as fontes recém mencionadas.
  5. Uma soteriologia (nota do editor: estudo da obra da salvação) estreitamente unida à pessoa e à obra redentora do Verbo Encarnado, à ação do Espírito Santo, intimamente ligada à aplicação dos méritos do Redentor, à intervenção sacramental da Igreja e à cooperação dos fiéis batizados, frente a uma soteriologia que considera a unidade do gênero humano como consequência da encarnação do Verbo, em quem (cf GS 22) cada homem encontra sua própria identificação.
  6. Uma eclesiologia que identifica a Igreja com o Corpo Místico de Cristo e reconhece em Sua presença sacramental o segredo vital do ser e do agir eclesial, frente a uma eclesiologia que considera a Igreja Católica como um componente, entre outros, da Igreja de Cristo,  e que, nessa fantasmagórica Igreja de Cristo, adormece o espírito missionário, dialoga mas não evangeliza, e acima de tudo, renuncia o proselitismo como se fosse um pecado mortal.
  7. Um Sacrifício expiatório da Missa, que celebra os mistérios da paixão, morte e ressurreição de Cristo, representando sacramentalmente a redenção satisfatória, frente a uma Missa na qual o padre é apenas um presidente e todos tomam uma parte “ativa” no sacramento, graças ao fato de que a fé não é encontrada em Deus que Se revela, mas numa resposta existencial feita a Deus que nos interpela.
  8. Um Magistério consciente de ter o múnus de guardar o sagrado depósito da Revelação divina com o dever de interpretá-lo e transmiti-lo às gerações futuras, frente a um Magistério Papal que, longe de se sentir a voz da Igreja docente, sujeita a própria Igreja ao colégio dos bispos, dotado dos mesmos direitos e deveres do Romano Pontífice.
  9. Uma religiosidade que compreende a vocação comum ao serviço de Deus e, por amor a Ele, o serviço aos irmãos na humanidade, frente a uma religiosidade que inverte essa ordem natural, faz do homem seu centro e, se não em teoria, ao menos na prática, coloca-o em lugar de Deus.

“Do que acaba de ser dito, pode-se facilmente deduzir como a Fraternidade São Pio X compreende a Tradição. Realmente, a Tradição é exatamente o que a Fraternidade não nega ou se opõe. Diretamente ou nas entrelinhas, a Fraternidade rejeita as inogações dos documentos do Concílio e suas aplicações pós-conciliares, e permanece em oposição ao uso selvagem que tão casualmente foi feito deles.

“É verdade que nos escritos da Fraternidade São Pio X o conceito de Tradição não é freqüentemente explicado, e nós não o encontramos desenvolvido sistematicamente. Mas o que se compreende, assim como o que se conjetura, nunca permanece em sombras. Como fundamento de tudo está “a fé de sempre” para cuja salvaguarda nasceu a Fraternidade”. “Salvaguarda” indica uma oposição a algo presente ou possível, em favor de seu contrário ou de sua substituição. A “fé de sempre” é o valor que Monsenhor Lefebvre quis salvaguardar, um valor que está sendo substituído por todas as atenuações, reinterpretações, reduções e negações do período conciliar e pós-conciliar. A “fé de sempre” é o eco alto e claro do ensinamento agostiniano resumido pelas palavras de São Vicente de Lérins: “Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est”[1]. A própria ereção da Fraternidade, com seu objetivo primeiro que é a formação sacerdotal, obedece a este grande ideal e ao comprometimento de salvaguardá-lo. Salvaguardar a fé e combater o erro.

“Não entrarei em detalhes sobre as relações e dificuldades entre a Santa Sé a Fraternidade São Pio X. Atenho-me ao tema comum da Tradição e observo que “salvaguardar a fé e combater o erro” deveria ser o ideal e o comprometimento tanto da Igreja como de seus filhos. À essa luz, é difícil, para mim, compreender como a acusação de uma “incompleta e contraditória Tradição” formulada por João Paulo II em 1988 [2] poderia ter alguma base verdadeira. O que compreendo é que ela não tem nada a ver com o “espírito de Assis”. [3] (Traduzido do Italiano — DICI n°218, July 10, 2010)

Courrier de Rome – B.P. 10156 – 78001 Versailles Cedex or courrierderome@wanadoo.fr – Assinatura: 20 euros (Exterior: 24 euros)

Msgr. Brunero Gherardini, Ecumenical Council Vatican II: And Open Discussion – disponível em Courrier de Rome: 15 euros + 3 euros frete


[1] St. Vincent de Lérins, Commonitorium, c. 23.

[2] Motu Proprio Ecclesia Dei, July 2, 1988.

[3] Msgr. Gherardini, Quod et tradidi vobisLa tradizione vita e giovinezza della Chiesa, Ed. Casa Mariana Editrice, pp. 241-244.

Nota: a tradução do mesmo artigo a partir de sua versão francesa pode ser encontrada aqui.

12 julho, 2010

Os defensores da tradição reivindicam a Igreja infalível.

Suplicam ao Papa que condene “ex cathedra” os erros do Concílio Vaticano II. Um novo livro de Romano Amerio voltará a dar força a seu pedido. Mas Bento XVI não está de acordo.

por Sandro Magister

ROMA, 12 de julho de 2010 – Há alguns dias está nas livrarias italianas um novo volume de Romano Amerio, o terceiro da “opera omnia” deste autor, publicado pelas Edições Lindau.

Amerio, falecido em 1997 em Lugano (Suíça) aos 92 anos de idade, foi um dos maiores intelectuais cristãos do século XX.

Filólogo e filósofo de primeiro nível, Amerio tornou-se conhecido no mundo por conta de seu ensaio, publicado pela primeira vez em 1985 e traduzido para muitos idiomas, intitulado: “Iota unum. Estudo das variações da Igreja Católica no século XX”.

Mas esse mesmo ensaio, justamente pela tese que contém, fez Amerio ganhar o ostracismo da quase totalidade do mundo católico. Um ostracismo que apenas perdeu vigor há pouco tempo, também graças à reedição de “Iota unum”.

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