Posts tagged ‘Monsenhor Carlo Maria Viganò’

20 setembro, 2018

Igreja e homens de Igreja.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 12 de setembro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com:  A corajosa denúncia dos escândalos eclesiásticos feita pelo arcebispo Carlo Maria Viganò suscitou a aprovação de muitos, mas também a desaprovação de alguns, convencidos de que se deve cobrir de silêncio tudo aquilo que desacredite os representantes da Igreja.

Esse desejo de proteger a Igreja é compreensível quando o escândalo é uma exceção. Pois em tal caso há o risco de generalizar, atribuindo a todos o comportamento de alguns. Diferente é quando a imoralidade constitui a regra, ou pelo menos um modo de vida generalizado e aceito como normal.

Neste caso, a denúncia pública é o primeiro passo para a necessária reforma dos costumes. Quebrar o silêncio faz parte dos deveres do pastor, como adverte São Gregório Magno: “O que representa, com efeito, para um pastor o ter medo de dizer a verdade senão virar as costas ao inimigo com o seu silêncio? Se em vez disso ele luta pela defesa do rebanho, ele constrói um baluarte contra os inimigos para a casa de Israel. É por isso que o Senhor adverte pelos lábios de Isaías: ‘Clama em alta voz, sem constrangimento; faze soar a tua voz como o trompete’ (Is 58, 1).”

Nas origens de um silêncio culposo há muitas vezes uma falha em distinguir entre a Igreja e os homens da Igreja, sejam estes simples fiéis, bispos, cardeais ou papas. Uma das razões para essa confusão é precisamente a eminência das autoridades envolvidas nos escândalos.

Quanto maior a sua dignidade, mais se tende a identificá-los com a Igreja, atribuindo o bem e o mal indiferentemente a eles e a Ela. Na realidade, o bem pertence somente à Igreja, enquanto todo o mal se deve apenas aos homens que a representam.

É por isso que a Igreja não pode ser chamada de pecadora.  “Ela – escreve o padre Roger T. Calmel O.P. (1920-1998) – pede perdão ao Senhor não por pecados que Ela teria cometido, mas pelos pecados que cometemos seus filhos, na medida em que não a ouvimos como Mãe” (Breve apologia da Igreja de sempre, Editora Ichtys, Albano Laziale 2007, p. 91).

Todos os membros da Igreja, tanto os da esfera docente como os da discente, são homens cuja natureza foi ferida pelo pecado original. Nem o batismo torna os fiéis impecáveis, nem a Ordem sagrada torna tais os membros da Hierarquia. Até mesmo o Sumo Pontífice pode pecar e errar, exceto quando faz uso do carisma da infalibilidade.

Devemos também lembrar que não foram os fiéis que constituíram a Igreja, como acontece nas sociedades humanas, criadas pelos membros que as compõem, e que se dissolvem quando esses se separam.

Dizer “Nós somos Igreja” [n.d.t.: nome de um movimento internacional que visa democratizar a Igreja] é falso, porque a pertencença dos batizados à Igreja não deriva de sua vontade: é o próprio Cristo que convida a fazer parte do seu rebanho, repetindo a todos: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi” (Jo 15, 16). A Igreja fundada por Jesus Cristo tem uma constituição humano-divina: humana, porque possui um componente natural e receptivo, composto por todos os fiéis, sejam eles membros do clero ou do laicato; e outro sobrenatural e divino, por sua alma.

Jesus Cristo, sua Cabeça, é o seu fundamento, enquanto o Espírito Santo é o seu propulsor sobrenatural. Assim, a Igreja não é santa por causa da santidade de seus membros, mas seus membros é que são santificados por Jesus Cristo, que A dirige, e pelo Espírito Santo, que lhe dá vida. Portanto, atribuir alguma culpa à Igreja é o mesmo que atribuí-la a Jesus Cristo e ao Espírito Santo. Deles procede todo o bem, ou seja, “tudo que é verdadeiro, tudo que é nobre, tudo que é justo, tudo que é puro, tudo que é amável, tudo que é de boa fama, tudo que é virtuoso e louvável” (Fil.4, 8), e dos homens da Igreja procede todo o mal: desordens, escândalos, abusos, violência, torpezas, sacrilégios.

 “Portanto – escreve o teólogo passionista Enrico Zoffoli (1915-1996), que dedicou algumas belas páginas a este tema –, não temos nenhum interesse em encobrir as faltas dos maus cristãos, padres indignos, pastores covardes, ineptos, desonestos e arrogantes. Ingênua e inútil seria a intenção de defender sua causa, atenuar sua responsabilidade, reduzir as consequências de seus erros, recorrer a contextos históricos e situações singulares para depois tudo explicar e tudo absolver” (Igreja e homens de Igreja, Edições Segno, Udine 1994, p.41).

Existe hoje uma grande sujeira na Igreja, como disse o então cardeal Ratzinger na Via Crucis da Sexta-feira Santa de 2005, que precedeu a sua ascensão ao pontificado. “Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! (Jesus)”

O testemunho de Mons. Carlo Maria Viganò é meritório porque, trazendo à luz essa sujeira, torna mais urgente o trabalho de purificação da Igreja. Deve ficar claro que a conduta de bispos ou padres indignos não se inspira nos dogmas ou na moral da Igreja, antes ela trai uns e outra, porque representa uma negação da lei do Evangelho.

O mundo que atribui à Igreja as culpas desses clérigos acusa-a de transgredir a ordem moral. Mas em nome de que lei e de que doutrina pretende o mundo colocar a Igreja no banco dos réus? A filosofia de vida professada pelo mundo moderno é o relativismo, que não reconhece verdades absolutas e sustenta que a única lei do homem é ser isento de leis. A consequência prática é o hedonismo, segundo o qual a única forma possível de felicidade é a fruição do próprio prazer e a satisfação dos instintos. Como pode um mundo desprovido assim de princípios, pretender julgar e condenar a Igreja? A Igreja é que tem o direito e o dever de julgar o mundo, porque possui uma doutrina absoluta e imutável.

O mundo moderno, filho dos princípios da Revolução Francesa, desenvolve com coerência as ideias do famoso libertino, o Marquês de Sade (1740-1814): amor livre, blasfêmia livre, liberdade para negar e destruir qualquer bastião da fé e da moral como nos dias da Revolução Francesa foi destruída a Bastilha onde Sade tinha estado preso. O resultado de tudo isso foi a dissolução da moral, que destruiu os fundamentos da convivência civil e tornou os últimos dois séculos a época mais sombria da História.

A vida da Igreja é também a história de traições, de deserções, de apostasias, de falta de correspondência à graça divina. Mas esta trágica fraqueza vai sempre acompanhada de uma extraordinária fidelidade: as quedas, mesmo as mais assustadoras, de muitos membros da Igreja, estão entrelaçadas com o heroísmo da virtude de muitos outros de seus filhos.

Um rio de santidade flui do lado de Cristo e corre luxuriante ao longo dos séculos: são os mártires que enfrentam as feras do Coliseu; são os eremitas que deixam o mundo para levar uma vida de penitência; são os missionários que vão até os confins da terra; são os intrépidos confessores da fé que combatem cismas e heresias; são os religiosos contemplativos que sustentam com sua oração os defensores da Igreja e da Civilização Cristã; são todos aqueles que, de diferentes maneiras, conformaram as suas vidas à vida divina. Santa Teresa do Menino Jesus queria reunir todas essas vocações em um único e supremo ato de amor a Deus.

Os santos são diferentes uns dos outros, mas o que há de comum em todos eles é a união com Deus: e essa união, que nunca diminui no Corpo Místico de Cristo, faz com que a Igreja, antes mesmo de ser una, católica e apostólica, seja acima de tudo perfeitamente santa. A santidade da Igreja não depende da santidade de seus filhos: é ontológica, porque está ligada à sua própria natureza. Para que a Igreja possa ser chamada de santa, não é necessário que todos os seus filhos vivam santamente: basta que, graças ao fluxo vital do Espírito Santo, uma parte deles, ainda que pequena, permaneça heroicamente fiel à lei do Evangelho em tempos de provação.

14 setembro, 2018

Porque eu acuso o Papa.

Por Padre Kevin M. Cusick*,  3 de setembro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com

Por muitos anos e até hoje, tornou-se bastante comum os padres serem tratados como se não tivessem consciência. Muitos foram levados a corromper os sacramentos sem o seu consentimento e agora estão sendo levados a agir assim exatamente por quem se encontra no topo da Igreja.

Há algum tempo, quando eu servia como capelão da Marinha Americana na Flórida, uma mulher veio até a capela com uma criança para solicitar o batismo. Sua visita causou uma das maiores crises na minha carreira naval e talvez até do meu sacerdócio. É aquela velha história: um adulto quer o batismo de uma criança, mas o adulto não frequenta a missa, o adulto está em pecado mortal, escandalizando a criança ou os filhos, assim como também não consegue criá-los na fé. O adulto precisa retornar primeiro à missa dominical regular e em seguida à confissão.

Estabelecer uma razoável esperança de que uma criança será educada na fé,  algo que a Igreja exige para o batismo infantil, sempre foi entendido por mim como significando que, no mínimo, a criança deveria ser educada na fé e capacitada a praticar sua fé, pelo menos participando da missa dominical, dependendo, é claro, da ajuda de um adulto para ir à missa até que ela tenha idade ou capacidade suficiente para ir sozinha.

Por compaixão em tais situações, a maioria dos sacerdotes provavelmente, como eu fiz, começa com uma explicação sutil que leve à conclusão de que o Batismo tem o propósito de nos levar para o Céu, vamos para o Céu cooperando com a graça do batismo e amando a Deus. Nós amamos a Deus, guardando os Mandamentos, incluindo aí a santificação do Dia do Senhor através da Missa, e não podemos razoavelmente presumir que estamos indo para o Céu, se optamos por não fazê-lo de livre e espontânea vontade. Eu geralmente também ofereço a informação de que um motivo grave o desculparia da obrigação grave de cumprir o Terceiro Mandamento e ainda pergunto ao adulto se ele ou ela realmente omitiu comparecer à Missa por tal razão.

Bem, ela saiu do meu escritório e apresentou uma queixa contra mim. A conversa que correu em seguida é que o arcebispo militar iria retirar-me do meu posto. O motivo teria sido que ele foi levado a acreditar que eu disse à mulher que “ela estava indo para o Inferno, na frente de sua filha de seis anos”. Não importava que fosse mentira. Se um capelão militar perde o aval do Arcebispo, ele está fora de serviço em 24 horas: sem aposentadoria, todos os seus anos de serviço ativo perdidos. Desastre total.

O chefe dos capelães da Marinha na época convenceu então ao arcebispo a investigar o assunto com a ajuda de um outro capelão que se reunia comigo e discutia a acusação. Assim foi feito, e eu disse a ele que nunca havia dito essas palavras para a mulher e, de fato, nunca as dissera a ninguém. Como é que eu vou saber para onde alguém vai depois que eles morrem? Impossível para qualquer um, incluindo um padre! É simplesmente irracional.

Mas também, como escreveria mais tarde numa carta ao arcebispo, considero tal comportamento um abuso pastoral. Se eu tivesse realmente feito tal coisa, deveria ser tratado com a maior severidade.

O arcebispo também disse que aquele episódio tinha sido  “a gota d’água”,  porque houve outras reclamações contra mim anteriormente. Em minha defesa, dei a entender que ninguém da arquidiocese jamais havia me informado que esse era o caso. A história terminou comigo dando um fim ao meu período de serviço ativo, depois de me afiliar à Reserva e me aposentar no ano passado. Incólume.

É verdade que eu me tornei conhecido por pregar sobre a Humanae Vitae e outros “tópicos tabus” e, por outro lado, por perturbar o “carrinho de maçãs” cuidadosamente equilibrado no mundo do capelão católico na época, e depois teria adquirido fama em outros lugares como sendo um “tanque” para clérigos errantes. O capelão sênior intercedendo a meu favor ofereceu então uma solução dizendo: “batize todos eles”. Mas isso não é o que a Igreja diz. E é aí que entra a consciência do padre. A Igreja diz que o sacerdote deve estabelecer uma esperança razoável de que a criança será criada na fé. O padre deve averiguar os fatos e, se tal não for o caso, trabalhar nessa intenção. Mas ele não pode fazer isso sem a cooperação dos pais. Ele deve seguir sua consciência e negar o Batismo se os pais rejeitarem a fé por recusar a praticá-la.

A corrupção dos sacramentos é a maior ameaça para os fiéis que estão sentados nos bancos da Igreja. Sim, eles lutarão com unhas e dentes para tentar obter a graça sob falsas circunstâncias, mas os sacerdotes e fiéis católicos devem se esforçar com todas as forças para dar-lhes a salvação com base no amor verdadeiro. Os sacerdotes muitas vezes se tornam máquinas irracionais de dispensar sacramentos de qualquer jeito,  como se fossem máquinas de dispensar doces que se encontra em todo canto.

A carta do arcebispo Viganò, que atualmente está causando um furor no mundo católico, é simplesmente a gota d’água que fez o copo entornar para o lado do papa Francisco. Temos sido constantemente submetidos a mais e mais abusos dos sacramentos, enquanto os fiéis permanecem como sapos dentro da água que começa a ferver.

Logicamente, existe uma distância curta entre a corrupção da Comunhão, como por exemplo, dando o Senhor sacramentalmente a fornicadores ou adúlteros, como sugere a Amoris Laetitia, e a permissão para que um cardeal predador homossexual volte à circulação depois que o papa anterior tentou proteger os fiéis censurando-o. Isto é o que parece ter sido feito por Francisco no caso do ex-cardeal Theodore McCarrick, com pleno conhecimento de seus crimes. Independentemente disso, Francisco é o Papa e, como tal, é seu trabalho saber. Eu escolho acreditar no Arcebispo Viganò quando ele escreve que deu ao papa todas as oportunidades para tomar conhecimento dos crimes de McCarrick antes de colocá-lo de novo na ativa.

Estes são abusos pastorais: o silêncio quando falar dissiparia a confusão. Propagar o erro em vez da doutrina católica. Restaurar o clero reprovado e censurado de volta à boa reputação e a nomeação de bispos e cardeais pró-homossexualistas para os grandes eventos.

Todos os sacerdotes têm consciência, assim como todo fiel católico, e também têm o direito e o dever de falar. A todos os nossos sacerdotes, eu suplico: você deve ao seu rebanho a coragem e liderança clara.  Não permaneça mais em silêncio. Forme e siga suas consciências. Recuse-se a corromper os sacramentos e a trair as almas, pois nós, que somos sacerdotes, estaremos traindo nossa própria salvação se assim o fizermos.

Precisamos parar de mentir para nós mesmos: o testemunho Viganò é apenas a gota d’água. A evidência existe e é abundante. Culpado como acusado. Qualquer pessoa sensata esperaria que um padre ou bispo que abusasse tanto de seu rebanho fosse deposto.

O Papa Francisco continua seu curso de destruição através de nomeações episcopais desastrosas para Newark, Chicago e San Diego, feitas com prelados à sua imagem e que zombam de nossa inteligência com sua tagarelice sem sentido e ideologia pró-homossexualista. Se não deixamos falar nossas consciências, estaremos comprometendo nossa própria salvação, assim como também a daqueles que traímos com o nosso silêncio.

* Padre Kevin M. Cusick é Capelão militar, exerce seu ministério atualmente em Washington, EUA, palco da crise atual envolvendo as denúncias de Mons. Viganò contra o Cardeal Arcebispo Wuerl e o Papa Francisco.

Obrigado por ler e louvado seja Jesus Cristo, agora e para sempre.

13 setembro, 2018

Até os “franciscólatras” reconhecem.

Papa Francisco precisa dar uma resposta melhor às duvidosas acusações de Viganò

IHU – É difícil saber o que pensar sobre a bomba lançada pelo arcebispo Carlo Maria Viganò, a carta de domingo (26 de agosto) pedindo que o papa Francisco renunciasseViganò, ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos, afirma na carta que o papa Francisco sabia que o cardeal Theodore McCarrick havia abusado seminaristas quando este último era bispo em Nova Jersey, mas não puniu o cardeal.

read more »

11 setembro, 2018

O Arcebispo Viganò será punido por ter dito a verdade?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 05 de setembro 2018 | Tradução: FratresInUnum.com – O arcebispo Carlo Maria Viganò, que revelou a existência de uma rede de corrupção no Vaticano, pondo em dúvida os responsáveis, a começar pelas autoridades eclesiásticas supremas, será punido por dizer a verdade? O Papa Francisco está examinando tal possibilidade – a ser verdade, conforme confirmaram várias fontes –, tendo consultado o cardeal Francesco Coccopalmerio e alguns outros canonistas, para estudar as possíveis sanções canônicas a serem infligidas contra o arcebispo, começando por sua suspensão a divinis.

carlo_maietto_cardinale_coccopalmerio_lino_banfi_1

Cardeal Coccopalmerio

Se a notícia for confirmada, seria de extrema gravidade e até um pouco surreal, porquanto o “expert” convocado para sancionar Mons. Viganò seria o cardeal Coccopalmerio, acusado pelo ex-núncio nos Estados Unidos de fazer parte do “lobby homossexual” que domina o Vaticano.

Não podemos nos esquecer, além disso, que o secretário do referido cardeal, Mons. Luigi Capozzi, está envolvido em um caso de orgias homossexuais, no qual a posição de seu superior ainda precisa ser esclarecida. Mas o problema de fundo naturalmente é outro. A Igreja Católica, como uma sociedade visível, tem um Direito penal, que é o direito que Ela possui para punir os fiéis que violarem a sua lei.

A este respeito, cumpre distinguir entre pecado e crime. O pecado diz respeito a uma violação da ordem moral, enquanto o crime é uma transgressão da lei canônica da Igreja, que é naturalmente diferente da lei civil dos Estados.

Todos os crimes são habitualmente pecados, mas nem todos os pecados são crimes. Há crimes comuns à legislação civil e canônica, como o crime de pedofilia, mas outros crimes são atinentes apenas ao Direito canônico, e não ao Direito penal dos Estados.

A homossexualidade e o concubinato, por exemplo, não são considerados crimes pela maioria dos Estados contemporâneos, mas permanecem crimes graves para os membros do clero que neles incorrem, os quais são, como tais, sancionados pelo Direito canônico. De fato, o crime não é toda ação externa que viola uma lei, mas apenas aquelas violações da lei para as quais é prevista uma sanção, segundo o princípio da nullum crimen, nulla pena sine lege.

O Código de Direito Canônico – como recordou recentemente o padre Giovanni Scalese em seu blog Antiquo Robore – considera crime não somente o abuso contra os menores, mas também outros pecados contra o sexto mandamento, como o concubinato e situações escandalosas, que incluem a homossexualidade (Cânone 395 do Novo Código).

Essas distinções não parecem claras ao Papa Francisco, que proclama “tolerância zero” para os crimes da legislação civil, como a pedofilia, mas invoca o “perdão” e a misericórdia para os “pecados da juventude”, como a prática homossexual, esquecendo que este crime está incluído na legislação penal da Igreja. Além de, logo após, ele cair em contradição: as leis da Igreja são invocadas não para punir o clero imoral, mas quem denuncia a imoralidade do clero, como corre o risco de contecer no caso de Mons. Carlo Maria Viganò, que em seu testemunho nada fez senão agir na linha dos reformadores da Igreja, de São Pedro Damião a São Bernardino de Sena, grandes fustigadores da sodomia.

Qual é a razão da punição canônica que se desejaria aplicar ao corajoso arcebispo? Como na fábula de Fedro, o Papa Francisco poderia responder: “Não preciso dar razões; eu o castigo quia nominor leo, porque sou o mais forte.”

Mas quando a autoridade não é exercida para servir à verdade, ela se torna abuso de poder, e a vítima desse abuso ganha um poder moral que ninguém lhe pode arrebatar: o poder da Verdade. Neste momento trágico da vida da Igreja, a primeira coisa que não apenas os católicos, mas a opinião pública de todo o mundo pedem aos clérigos, é de “viver sem mentiras”, para usar o famoso dito de Soljenítsin. O tempo das ditaduras socialistas acabou e a verdade está destinada a prevalecer.

1 setembro, 2018

Viganò foragido diz: “Eu não sou o corvo”. Eu quero apenas a verdade.

Nota do editor de 1Peter5: A entrevista a seguir é entre o arcebispo Carlo Maria Viganò, agora mundialmente famoso por seu testemunho explosivo, e Aldo Maria Valli, o repórter com quem Viganò originalmente planejou a publicação de suas alegações contra o Papa Francisco e vários cardeais do Vaticano. Para os detalhes da aventura de como o relatório do arcebispo Viganò veio a se concretizar, clique aqui. [No FratresInUnum.com, aqui

Por OnePeterFive | Tradução: Paulo Frade – FratresInUnum.com

Monsenhor, como está o senhor?

Graças a Deus, eu estou indo muito bem, com grande serenidade e paz em minha consciência – esta é a recompensa da verdade. A luz sempre conquista a escuridão. Não pode ser suprimida, especialmente para quem tem fé. Portanto, tenho muita fé e esperança pela Igreja.

Como o senhor julga as várias reações à publicação do seu testemunho?

Como você sabe, as reações são contraditórias. Há aqueles que não conseguem parar de procurar lugares para extrair veneno para destruir minha credibilidade. Alguém até escreveu que eu fui hospitalizado duas vezes com tratamento compulsório (TSO) por uso de drogas. Existem aqueles que acreditam em conspirações, enredos políticos, tramas de todo tipo, etc., mas há também muitos artigos de apreciação, e eu tive a chance de ver mensagens de padres e pessoas fiéis que estão me agradecendo, porque meu testemunho tem sido para eles, um vislumbre de nova esperança para a Igreja.

Qual é a sua resposta àqueles que nessas horas estão objetando que você deve ter motivos de rancor pessoal contra o papa, e que é por essa razão que o senhor decidiu escrever e circular seu testemunho? 

Talvez porque eu seja ingênuo e acostumado a sempre pensar bem das pessoas – mas acima de tudo eu reconheço que este é de fato um presente que o Senhor me deu – eu nunca tive sentimentos de vingança ou rancor em todos esses anos quando fui colocado à prova por tantas calúnias e falsidades faladas contra mim. Como escrevi no início do meu testemunho, sempre acreditei que a hierarquia da Igreja deveria ter encontrado em si os recursos necessários para sanar toda a corrupção. Também escrevi isso em minha carta aos três cardeais designados pelo papa Bento XVI para investigar o caso do Vatileaks, uma carta que acompanhava o relatório que os dei. “Muitos de vocês” – escrevi – “sabiam, mas vocês permaneceram em silêncio. Ao menos agora que vocês receberam essa designação de Bento XVI, tenham a coragem de relatar com exatidão o que foi revelado a vocês sobre tantas situações de corrupção ”.

Por que o senhor decidiu publicar e divulgar seu testemunho? 

Falei porque agora, mais do que nunca, a corrupção se espalhou para os níveis mais altos da hierarquia da Igreja. Pergunto aos jornalistas: por que eles não estão perguntando o que aconteceu com o acervo de documentos que, como vimos, foram entregues em Castel Gandolfo ao papa Francisco do Papa Bento XVI? Isso foi tudo inútil? Teria sido suficiente ler o meu relatório e a transcrição que foi feita do meu depoimento perante os três cardeais encarregados da investigação do caso Vatileaks (Julian Herranz, Jozef Tomko e Salvatore De Giorgi), a fim de começar a fazer uma limpeza na Cúria. Mas você sabe o que o Cardeal Herranz me disse quando o chamei de Washington, preocupado que tanto tempo havia passado desde que a comissão de investigação foi nomeada pelo papa Bento XVI e ainda ninguém havia me contatado? Nós estávamos conversando juntos, e eu disse a ele: “Você não acha que talvez eu também tenha algo a dizer sobre minhas cartas, que foram publicadas sem o meu conhecimento?” Ele respondeu para mim: “Ah, se você realmente quer.”

Como o senhor responderia àqueles que estão dizendo que você é um “corvo” ou um dos “corvos” na origem do caso do Vatileaks?

Eu sou um corvo? Como você viu com meu testemunho, costumo fazer coisas à luz do dia! Na época, eu estava em Washington e definitivamente tinha outras coisas para me ocupar. Por outro lado, sempre foi meu hábito mergulhar completamente em minha nova missão. Foi o que fiz quando fui enviado para a Nigéria: não lia mais as notícias italianas – tanto é que, depois de seis anos, quando fui chamado para trabalhar na Secretaria de Estado por São João Paulo II, levei vários meses para me reorientar, apesar de já ter trabalhado na Secretaria de Estado por onze anos, de 1978 a 1989.

Como responderia àqueles que afirmam que o senhor foi expulso da Governadoria e que, por causa disso, você teria sentimentos de rancor e vingança?

Como já disse, o rancor e a vingança não são sentimentos que eu tenho. Minha oposição em deixar meu posto na Governadoria foi motivada por um profundo sentimento de injustiça de uma decisão que eu sabia não corresponder à vontade do Papa Bento XVI, da qual ele próprio me havia dito. Para me expulsar, o cardeal Bertone havia cometido uma série de graves abusos de sua autoridade: dissolvera a primeira comissão de três cardeais nomeada pelo papa Bento XVI para investigar as graves acusações feitas por mim como secretário-geral e pelo vice-secretário-geral, monsenhor Giorgio Corbellini, sobre os abusos cometidos pelo monsenhor Paolo Nicolini; em lugar desta comissão de cardeais, ele criou uma comissão disciplinar, alterando em sua constituição a comissão institucional da Governadoria; Ainda antes de criar essa comissão, ele havia me chamado para me dizer que o Santo Padre havia me nomeado núncio de Washington. Não obstante o fato de a comissão disciplinar ter decidido, em 16 de julho de 2011, demitir o monsenhor Paolo Nicolini, ele anulou de maneira abusiva essa decisão e impediu que ela fosse publicada. Ao fazer isso, ele me impediu de continuar o trabalho de sanar a corrupção presente na administração da Governadoria.

Como responderia àqueles que falam de sua “fixação” em se tornar um cardeal e que afirmam que você está atacando o papa porque não recebeu essa honra?

Posso afirmar com toda a sinceridade perante Deus que rejeitei a oportunidade de me tornar cardeal. Depois da minha primeira carta ao Cardeal Bertone, que enviei ao Papa Bento XVI para que ele pudesse fazer o que bem entendesse, o Papa Bento XVI me convocou e me recebeu em uma audiência em 4 de abril de 2011 e imediatamente me disse estas palavras: “Acredito que a tarefa em que você pode servir melhor a Santa Sé é como presidente da Prefeitura de Assuntos Econômicos, em lugar do cardeal Velasio De Paolis. Agradeci ao papa pela confiança que ele me mostrara, e acrescentei: Santo Padre, por que você não espera seis meses ou um ano? Porque, se você me promover agora, a equipe que teve fé em mim e trabalhou para remediar a situação na Governadoria será imediatamente dispersa e perseguida (como de fato aconteceu). Eu também adicionei outro argumento. Dado que o cardeal De Paolis havia sido nomeado apenas recentemente para lidar com a situação delicada dos Legionários de Cristo (o cardeal De Paolis havia me consultado antes de aceitar essa designação), eu disse ao papa que seria melhor se ele continuasse a ter uma posição institucional que lhe daria maior autoridade como pessoa como também com o seu trabalho com os Legionários. No final da audiência, o Papa Bento XVI disse-me mais uma vez: “No entanto, continuo achando que a posição em que melhor pode servir a Santa Sé é como presidente da Prefeitura de Assuntos Econômicos”. O Cardeal Re pode confirmar esta história. Assim, renunciei a ser cardeal para o bem da Igreja.

E àqueles que envolvem sua família nesse assunto falando da “saga” sob a bandeira de ter grandes interesses econômicos?

Em 20 de março de 2013, meus irmãos haviam preparado uma declaração para a imprensa, cuja publicação eu me opunha para evitar envolver toda a família. Como a acusação do meu irmão Lorenzo agora está sendo repetida – isto é, que menti ao Papa Bento XVI escrevendo-lhe pedindo licença para cuidar do meu irmão doente – decidi tornar público este comunicado. Ao lê-lo, fica evidente que senti uma séria responsabilidade moral de cuidar e proteger meu irmão. (Quem estiver interessado em se aprofundar neste último ponto pode ler aqui o texto do comunicado, que foi redigido em março de 2013 por vários dos irmãos de Viganò em sua defesa.) Esta entrevista foi traduzida por Giuseppe Pellegrino. O italiano original pode ser encontrado no site do Aldo Maria Valli.

26 agosto, 2018

Bombástico! Antigo núncio nos EUA: “Papa Francisco sabia de tudo. Ele deve renunciar”.

Por Rorate Caeli, 26 de agosto de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com


“Il papa si deve dimittere.” — O Papa deve se demitir,

São essas as palavras explosivas do antigo núncio apostólico (embaixador papal) nos Estados Unidos, de 2011 a 2016, o Arcebispo Carlo Maria Viganò.

Sua entrevista segue a publicação de seu explosivo testemunho escrito (leia íntegra aqui – tradução para o português sendo providenciada, se leitores puderem nos ajudar, enviem a tradução para fratresinunum@gmail.com) sobre como a máfia homossexual governa o Vaticano e ocupa os postos mais importantes nos EUA. Ela também trata de como Bento XVI tentou punir o ex-Cardeal McCarrick — e como o Papa Francisco, e o Cardeal Wuerl, embora cientes das sanções e razões, promoveram-no e honraram-no.

A passagem mais grave é a seguinte:

“Minha consciência exige que também revele fatos que experimentei pessoalmente, a respeito do Papa Francisco, que possuem dramático significado, que, como bispo, compartilhando a responsabilidade colegial por todos os bispos na Igreja universal, não me permitem ficar em silêncio, e eu declaro aqui, pronto a reafirmar tudo sob juramento, tomando a Deus como minha testemunha.

 

Nos últimos meses de seu pontificado, Bento XVI convocou um encontro de todos os núncios apostólicos em Roma, como Paulo VI e S. João Paulo II fizeram em diversas ocasiões. A data definida para a audiência com o Papa era sexta-feira, 21 de junho de 2013. O Papa Francisco manteve este compromisso marcado por seu predecessor. Claro, eu também vim a Roma, de Washington. Era meu primeiro encontro com o novo papa, eleito há apenas três meses, após a renúncia do Papa Bento.

Na manhã de quinta-feira, 20 de junho de 2013, fui à Casa Santa Marta para me juntar a meus colegas que estavam se hospedando lá. Tão logo adentrei o saguão, encontrei o Cardeal McCarrick, que vestia sua batina púrpura. Cumprimentei-o respeitosamente, como sempre fiz. Ele imediatamente me disse, em um tom tanto ambíguo como triunfante: “O Papa me recebeu ontem, amanhã irei para a China”.

À época, eu nada sabia acerca da sua longa amizade com o Cardeal Bergoglio e do papel importante que ele teve em sua recente eleição, como McCarrick mesmo revelaria em uma conferência na Villanova University e em uma entrevista ao National Catholic Reporter. Sequer havia pensado no fato de ele ter participado nos encontros preliminares ao conclave, e no papel que ele pôde desempenhar enquanto cardeal eleitor em 2005. Portanto, eu não compreendi imediatamente o significado da mensagem criptografada que McCarrick me comunicou, mas isso se tornaria claro para mim nos dias seguintes.

No dia posterior, ocorreu a audiência com o Papa Francisco. Após o seu discurso, que foi parcialmente lido e parcialmente improvisado, o Papa desejou cumprimentar todos os núncios, um a um. Em uma fila única, lembrei-me que estava entre os últimos. Quando chegou minha vez, somente tive tempo de dizer-lhe: “Sou o núncio nos Estados Unidos”. Ele imediatamente me atacou em um tom de reprovação, usando estas palavras: “Os bispos nos Estados Unidos não devem ser ideologizados! Devem ser pastores!”. Evidentemente, eu não estava em condições de pedir explicações sobre o significado de suas palavras e a maneira agressiva com que ele me repreendeu. Eu tinha em mão um livro em português que o Cardeal O’Malley enviou por mim ao Papa alguns dias antes, dizendo-me “então, ele poderá estudar seu português antes de ir ao Rio para a Jornada Mundial da Juventude”. Entreguei-lhe imediatamente e então me livrei daquela situação extremamente desconcertante e embaraçosa.

Ao fim da audiência, o Papa anunciou: “Àqueles que ainda estiverem em Roma no próximo domingo, convido-os a concelebrar comigo na Casa Santa Marta”. Eu, naturalmente, pensei em ficar para esclarecer, o quanto antes, tudo o que o Papa quis me dizer.

No domingo, 23 de junho, antes da concelebração com o Papa, perguntei a Mons. Ricca, que, como pessoa a cargo da casa, ajudava-nos a nos paramentar, se ele poderia pedir ao Papa para me receber por algum tempo durante a semana seguinte. Como poderia eu retornar a Washington sem esclarecer o que o Papa queria de mim? Ao fim da missa, enquanto o Papa cumprimentava alguns poucos leigos presentes, Mons. Fabian Pedacchio, seu secretário argentino, veio a mim e disse: “O Papa me pediu para perguntar se o senhor está livre agora!”. Naturalmente, respondi que estava à disposição do Papa e que o agradecia por me receber imediatamente. O Papa me levou ao primeiro andar em seu apartamento e disse: “Temos 40 minutos antes do Angelus”.

Iniciei a conversa, perguntando ao Papa o que ele quis me dizer com as palavras que me dirigiu quando o cumprimentei na última sexta-feira. E o Papa, de forma muito diferente, amigavelmente, em um tom quase afetuoso, disse-me: “Sim, os bispos nos Estados Unidos não devem ser ideologizados, não devem ser direitistas como o Arcebispo da Filadélfia (o Papa não me disse o nome do Arcebispo), devem ser pastores; e não devem ser esquerdistas — e ele acrescentou, levantando os dois braços — e, quando digo esquerdista, quero dizer homossexual”. Claro, a lógica da correlação entre ser esquerdista e ser homossexual me escapou, mas não acrescentei nada.

Imediatamente depois, o Papa me perguntou, de forma capciosa: “Como é a vida do Cardeal McCarrick?” Respondi-lhe com total franqueza e, se preferir, com grande ingenuidade:  “Santo Padre, não sei se o senhor conhece o Cardeal McCarrick, mas, se perguntar à Congregação para os Bispos, há um dossiê dessa grossura a respeito dele. Ele corrompeu gerações de seminaristas e padres e o Papa Bento ordenou-lhe que se retirasse para uma vida de oração e penitência”. O Papa não fez o menor comentário sobre essas palavras gravíssimas e não demonstrou nenhuma expressão de surpresa em sua face, como se já soubesse do assunto por algum tempo, e imediatamente mudou de Dtema. Mas, então, qual era o propósito do Papa em me perguntar: “Como é a vida do Cardeal McCarrick?” Ele claramente queria saber se eu era um aliado de McCarrick ou não.

De volta a Washington, tudo ficou muito claro para mim, graças também a um novo fato ocorrido pouco após o meu encontro com o Papa Francisco. Quando o novo bispo Mark Seitz tomou posse na diocese de El Paso, em 9 de julho de 2013, enviei o primeiro conselheiro [da nunciatura], Mons. Jean-François Lantheaume, enquanto fui a Dallas, no mesmo dia, para um encontro internacional sobre bioética. Quando voltei, Mons. Lantheaume disse-me que em El Paso ele encontrara o Cardeal McCarrick que, tomando-lhe de lado, disse-lhe quase as mesmas palavras que o Papa me dissera em Roma: “os bispos nos Estados Unidos não devem ser ideologizados, não devem ser de direita, devem ser pastores…”. Eu estava atônito! Era claro, portanto, que as palavras de repreensão que o Papa Francisco me dirigiu naquele 21 de junho de 2013 foram colocadas em sua boca no dia anterior pelo Cardeal McCarrick. Também a menção do Papa “a não serem como o Arcebispo de Filadélfia” poderia ser traçada a McCarrick, pois houve um duro desentendimento entre os dois a respeito da admissão à Comunhão de políticos pró-aborto. Em sua comunicação com os bispos, McCarrick manipulou a carta do então Cardeal Ratzinger, que proibia administrar-lhes a Comunhão. De fato, eu também sabia como certos Cardeais, como Mahony, Levada e Wuerl, eram muito próxims de McCarrick; eles se opuseram às mais recentes nomeações feitas pelo Papa Bento, para importantes postos como Filadélfia, Baltimore, Denver e São Francisco.

Não satisfeito com a cilada que me armara no dia 23 de junho de 2013, quando me perguntou sobre McCarrick, apenas poucos meses depois, na audiência que me concedeu em 10 de outubro de 2013, o Papa Francisco armou uma outra para mim, dessa vez sobre um outro protegido seu, Cardeal Donald Wuerl. Ele me perguntou: “Como é o Cardeal Wuerl, ele é bom ou ruim?” Respondi: “Santo Padre, não lhe direi se ele é bom ou ruim, mas lhe contarei dois casos”. São os que citei acima, que diz respeito à falta de cuidad pastoral de Wuerl a respeito dos aberrantes desvios da Georgetown University e o convite da Arquidiocese de Washington a jovens aspirantes aos sacerdócio para se encontrarem com o Cardeal McCarrick! Novamente, o Papa não demonstrou nenhuma reação.

Era também claro para mim, desde a eleição do Papa Francisco, que McCarrick, agora livre de todos as restrições, sentiu-se à vontade para viajar continuamente, dar conferências e entrevistas. Em um esforço conjunto com o Cardeal Rodriguez Maradiaga, ele se tornou o “fazedor de reis” para as nomeações na Cúria e nos Estados Unidos, e o conselheiro mais ouvido no Vaticano para as relações com a administração Obama. É isso que explica a substituição do Papa, na Congregação para os Bispos, de Burke por Wuerl, e a nomeação imediata de Cupich após este ser feito cardeal. Com essas nomeações, a Nunciatura em Washington estava era fora de cena no que diz respeito à nomeação de bispos. Além disso, ele nomeou o brasileiro Ilson de Jesus Montanari — um grande amigo de seu secretário pessoal, o argentino Fabian Pedaccio — como Secretário da mesma Congregação para os Bispos e Secretário do Colégio de Cardeais, promovendo-lhe em uma única canetada de simples oficial de departamento a Arcebispo Secretário. Algo sem precedentes para uma posição tão importante! As nomeações de Blase Cupich para Chicago e Joseph W. Tobin para Newark foram orquestradas por McCarrick, Maradiaga e Wuerl, reunidos por um iníquo pacto de abusos pelo primeiro, e ao menos por acobertamentos pelos outros dois. Os nomes dos designados não estavam entre os apresentados pela Nunciatura para Chicago e Newark.

A respeito de Cupich, não se pode deixar de notar sua ostensiva arrogância e a insolência com que ele nega a evidência que agora é óbvia a todos: que 80% dos abusos reconhecidos foram cometidos contra jovens por homossexuais que possuíam relação de autoridade com as vítimas. Durante a conferência que ele deu quando tomou posse da Sé de Chicago, na qual eu estava presente como representante do Papa, Cupich fez um gracejo dizendo que ninguém, certamente, esperasse que o novo arcebispo andasse sobre as águas. Talvez seria suficiente para ele poder manter seus pés no chão e não tentar virar a realidade de cabeça para baixo, cego por sua ideologia pro-gay, como ele afirmou recentemente em uma entrevista para a revista America. Louvando sua própria experiência no assunto, tendo sido Presidente do Comitê para Proteção de Crianças e Jovens da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, ele afirmou que o principal problema da crise de abusos sexuais pelo clero não era a homossexualidade, e que afirmá-lo é só uma forma de desviar a atenção para o problema real, que é o clericalismo. Para confirmar sua tese, Cupich “estranhamente” fez referência aos resultados de uma pesquisa realizada no ápice da crise de abuso de menores, no início dos anos 2000, enquanto ele “candidamente” ignorava que os resultados daquela investigação foram totalmente negados pelas pesquisas independentes feitas pelo John Jay College of Criminal Justice em 2004 e 2011, que concluíram que, nos casos de abuso sexual, 81% das vítimas eram homens. De fato, o Padre Hans Zollner, S.J., Vice-Reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana, Presidente do Centro para a Proteção da Criança e membro da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores, recentemente afirmou ao jornal La Stampa que “na maior parte dos casos trata-se de uma questão de abuso homossexual”. A nomeação de McElroy em San Diego foi orquestrada desde cima, com uma ordem criptografada peremptória para mim, enquanto núncio, feita pelo Cardeal Parolin: “Reserve a Sé de San Diego para McElroy”. McElroy também estava ciente dos abusos de McCarrick, como pode ser visto pela carta enviada a ele por Richard Sipe, em 28 de julho de 2016.

Esses personagens estão proximamente associados com indivíduos pertencentes, em particular, à ala desviada da Sociedade de Jesus, infelizmente, hoje, a maioria, que já havia sido uma causa de séria preocupação a Paulo VI e seus sucessores. Devemos apenas considerar o Padre Robert Drinan, SJ, eleito quatro vezes para a Câmara dos Representantes [parte do Congresso americano], um grande apoiador do aborto; ou Padre Vincent O’Keefe, SJ, um dos principais promotores da The Land O’Lakes Statement de 1967, que seriamente comprometeu a identidade católica das universidades e colégios nos Estados Unidos. Deve-se notar que McCarrick, então presidente da Universidade Católica de Puerto Rico, também participou naquela nefasta iniciativa que foi tão danosa à formação das consciências da juventude americana, muito próximo, como era, da ala desviada dos jesuítas. Padre James Martin, S.J., aclamado pelas pessoas citadas acima, em particular por Cupich, Tobin, Farrell e McElroy, nomeado consultor do Secretariado para as Comunicações, conhecido ativista que promove a agenda LGBT, escolhido para corromper os jovens que em breve estarão se reunindo em Dublin para o Encontro Mundial das Famílias, não é nada mais que um triste e recente exemplo daquela desviada ala da Sociedade de Jesus.

O Papa Francisco repetidamente pediu por total transparência na Igreja e, aos bispos e fiéis, que agissem com parrhesia. Os fiéis por todo o mundo também pedem isso a ele, de maneira exemplar. Ele deve honestamente afirmar quando ele tomou conhecimento dos crimes cometidos por McCarrick, que abusou de sua autoridade sobre seminaristas e padres.

Em todo caso, o Papa soube disso por mim, em 23 de junho de 2013, e continuou a acobertá-lo. Ele não levou em consideração as sanções que o Papa Bento impôs a McCarrick e lhe fez um conselheiro de confiança, juntamente com Maradiaga.

Este último é tão confiante da proteção do Papa que ele pode descartar como “fofoca” o doloroso apelo de diversos de seus seminaristas que tiveram coragem para escrever-lhe, após vários terem tentando suicídio por conta do abuso homossexual no seminário.

Agora, os fiéis compreenderam a estratégia de Maradiaga: insulte as vítimas para se salvar a si mesmo, minta para o amargo fim de acobertar um abismo de abuso de poder, de má gestão na administração dos bens da Igreja, e desastres financeiros mesmo contra amigos próximos, como no caso do Embaixador de Honduras, Alejandro Valladares, ex decano do Corpo Diplomático da Santa Sé.

No caso do ex bispo auxiliar Juan José Pineda, após um artigo publicado no semanário italiano L’Espresso no último mês de fevereiro, Maradiaga afirmou ao jornal Avvenire: “Foi meu bispo auxiliar Pineda que pediu por uma visitação, a fim de ‘limpar’ seu nome após ter sido submetido a tanta calúnia”. Agora, acerca de Pinada, o único fato que foi feito público foi de que sua renúncia foi aceita, fazendo, assim, toda responsabilidade dele e de Maradiaga desaparecer. Em nome da transparência tão louvada pelo Papa, o relatório do Visitador, o bispo argentino Alcides Casaretto, entregue mais de um ano atrás diretamente ao Papa, deveria ser publicado. Finalmente, a recente nomeação como Substituto [da Secretaria de Estado] do Arcebispo Edgar Peña Parra também tem relação com Honduras, isto é, com Maradiaga. De 2003 a 2007, Peña Parra trabalhou como Conselheiro na nunciatura de Tegucigalpa. Como delegado das Representações Pontifícias, eu recebi preocupantes informações a respeito dele.

Em Honduras, um escândalo tão grande como o ocorrido no Chile está para se repetir. O Papa defende o seu homem, o Cardeal Rodriguez Maradiaga, até o fim, como fez com o bispo chileno Juan de la Cruz Barros, que ele mesmo nomeou bispo de Osorno contra o conselho dos bispos chilenos. Primeiro, ele insultou as vítimas de abuso. Depois, somente quando foi forçado pela mídia, e por uma revolta das vítimas e dos fiéis chilenos, ele reconheceu seus erros e pediu desculpas, enquanto afirmava ter sido mal informado, causando uma situação desastrosa para a Igreja no Chila, mas continuando a proteger os dois cardeais chilenos, Errazuriz and Ezzati.

Mesmo no trágico caso de McCarrick, o comportamento do Papa não foi diferente. Ele sabia pelo menos desde 23 de junho de 2013 que McCarrick era um predador em série. Embora soubesse que era um homem corrupto, ele o acobertou até o fim; de fato, ele fez dos conselheiros de McCarrick seus, que, certamente, não foi inspirado por intenções sadias e pelo amor à Igreja. Apenas quando foi forçado pelas denúncias de abusos de menores, novamente por conta da atenção da mídia, ele agiu acerca de McCarrick para salvar sua própria imagem na imprensa.

Agora, nos Estados Unidos, um coro de vozes está se levantando, especialmente dos leigos, e recentemente unidas a de diversos bispos e padres, pedindo que todos aqueles que, por silêncio, acobertaram o comportamento criminoso de McCarrick, ou que se usaram dele para promover suas carreiras e intenções, ambições e poderes na Igreja, renunciem

Mas isso não será suficiente para curar uma situação de comportamento imoral extremamente grave pelo clero: bispos e padres. Um tempo de conversão e penitência deve ser proclamado. A virtude da castidade deve ser redescoberta no clero e nos seminários. A corrupção no mau uso dos recursos da Igreja e das ofertas dos fiéis deve ser combatida. A gravidade do comportamento homossexual deve ser denunciada. As redes homossexuais presentes na Igreja devem ser erradicadas, como Janet Smith, Professor de Teologia Moral no Seminário Maior do Sagrado Coração em Detroit, recentemente escreveu: “O problema do abuso do clero não pode ser simplesmente resolvido pela renúncia de alguns bispos, e menos ainda com diretrizes burocráticas. O problema mais profundo está nas redes homossexuais dentro do clero que devem ser erradicadas”. Essas redes homossexuais, agora difundidas em muitas dioceses, seminários, ordens religiosas, etc, agem sob a ocultação de segredos e mentiras com o poder de tentáculos de um polvo, e estrangulam vítimas inocentes e vocações sacerdotais, e estão estrangulando a Igreja inteira. Eu imploro a todos, especialmente aos bispos, que levantem suas vozes a fim de abater essa conspiração de silêncio que está tão disseminada, e a relatar os casos de abuso que souberem à mídia e às autoridades civis.

* * *

Francisco não deveriam estar se exibindo agora em Dublin: deveria estar assinando sua carta de renúncia. Ele se demonstrou absolutamente comprometido com a máfia pecaminosa que, liderada por conhecidos promotores do homossexualismo, tais como Dannels e posteriormente aderida por Bertone, elegeram-no. A presença de Bergoglio no topo da Igreja é uma indelével marca de vergonha e desonra.

Indelével, mas não inconsertável: Fora agora!
7 fevereiro, 2012

Ocaso sem glória para o Cardeal Bertone.

O vazamento de cartas acusatórias. A malsucedida operação do San Raffaele. O Secretário de Estado está cada vez mais solitário, na cúria que não governa e com um Papa a quem não ajuda.

por Sandro Magister, L’Espresso nº 6 de 2012 | Tradução: Fratres in Unum.com

Roma, 2 de fevereiro de 2012 – No Vaticano não marcham os “indignados”, mas se combate a golpes de documentos. No sábado, 28 de janeiro, o conselho de ministros da cúria romana, na presença do Papa, dedicou uma parte de sua reunião a estudar como colocar uma barreira ao vazamento de documentos. Haviam passado somente três dias desde a última e clamorosa fuga: um maço de cartas confidenciais escritas a Bento XVI e ao Cardeal Secretário de Estado, Tarcisio Bertone, pelo então secretário do Governatorato da Cidade do Vaticano, hoje núncio em Washington, o arcebispo Carlo Maria Viganò.

Continue lendo…

26 janeiro, 2012

Santa Sé: Nota de imprensa sobre o programa de televisão “Os intocáveis”.

Por Vatican Information Service | Tradução: Fratres in Unum.com

Cidade do Vaticano, 26 de janeiro de 2012 – Foi publicada, ao meio-dia de hoje, uma nota do Padre Federico Lombardi, S.I., diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, a respeito do programa de televisão “Os intocáveis”, transmitido ontem à noite pela rede italiana “La7”. O Pe. Lombardi manifesta a “tristeza pela difusão de documentos reservados”, e assinala os “métodos jornalísticos discutíveis” com que foi realizado o programa,  que frequentemente fazem parte de um “estilo de informação agitador em relação ao Vaticano e à Igreja Católica”.

Da mesma forma, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé realiza duas considerações “que não tiveram espaço no debate”. Em primeiro lugar, “o trabalho levado a cabo por Mons. Viganò como Secretário-geral do Governo [do Estado da Cidade do Vaticano] teve, certamente, aspectos muito positivos, contribuindo a uma gestão caracterizada pela busca do rigor administrativo, da economia e da correção de uma situação econômica ao todo difícil. (…) Uma avaliação mais adequada requereria, todavia, ter em conta o andamento dos mercados e dos critérios das aplicações no curso dos últimos anos, assim como recordar também outras circunstâncias importantes. (…)

“Algumas acusações – inclusive muito graves – feitas durante o programa, em particular as relativas a membros do comitê de Finanças e Gestão do Governo e da Secretaria de Estado, comprometem a própria Secretaria de Estado e o Governatorato, que seguirão todas as vias oportunas, inclusive as legais, se necessário, para garantir a honra das pessoas moralmente íntegras e de reconhecido profissionalismo, que servem lealmente à Igreja, ao Papa e ao bem comum. Em todo caso, os critérios positivos e claros da correta e sã administração e de transparência nos quais se inspirou Mons. Viganò seguem sendo, certamente, os que guiam também os atuais responsáveis do Governatorato. (…) E isso é coerente com a linha de crescente transparência, confiabilidade e atento controle das atividades econômicas com que a Santa Sé está claramente comprometida”.

Em segundo lugar, “um procedimento de discernimento difícil sobre os diversos aspectos do exercício do governo em uma instituição complexa e articulada como o Governatorato – e que não se limitam ao justo rigor administrativo —  foi, entretanto, apresentado de modo parcial e banal, exaltando evidentemente os aspectos negativos, com o fácil resultado de apresentar as estruturas do governo da Igreja não tanto como afetadas pela fragilidade humana – o que seria facilmente compreensível – mas como caracterizadas profundamente por disputas, divisões e jogo de interesses. (…) Tanta desinformação certamente não pode ocultar o sereno trabalho diário em vista a uma transparência cada vez maior de todas as instituições vaticanas”. (…)

“Desta perspectiva, é necessário reafirmar decididamente que a nomeação ao encargo de Núncio nos Estados Unidos de Mons. Viganò, uma das tarefas de maior relevo de toda a diplomacia vaticana, dada a importância do país e da Igreja Católica nos Estados Unidos, é uma prova indubitável de estima e confiança por parte do Papa”.

26 janeiro, 2012

Entenda o caso Viganò.

Duas notícias para compreender o post “Grandes funerais na corte!” – Leia aqui.