Posts tagged ‘Novus Ordo Missae’

27 janeiro, 2012

Uma Igreja no Exílio (V): O choro amargo de Dom Antônio pelo seminário.

D

om Navarro começou sua atividade pastoral demitindo o chanceler da diocese e vigário da catedral do Santíssimo Salvador de Campos, Monsenhor Henrique Conrado Fischer, um amigo de Dom Antonio que por anos fora encarregado da supervisão dos assuntos diocesanos. Pouco depois, começou a acusar os padres da diocese de irregularidades econômicas. Ele sugeriu abertamente que muitos deles desviaram fundos para uso pessoal, venderam terras que não lhes pertenciam, auferiram ganhos pessoais com as vendas e encorajavam um boicote econômico ao novo bispo e à diocese. Essas acusações começaram a aparecer em revistas nacionais e circularam por todo o Brasil. Elas pararam abruptamente quando os padres da diocese deram a conhecer em uma “notinha” pública que, se o novo bispo continuasse a fazer tais acusações, poderia esperar ser desafiado a prová-las em juízo. Nada mais foi dito publicamente sobre esses assuntos, mas, é claro, os rumores continuaram a circular.

[…]

Uma forma de descontinuar a Missa Tridentina desde a fonte se tornou óbvia – parar de formar padres que celebram a Missa. Em uma visita ao seminário menor em Varre-Sai, em um período de férias, enquanto ninguém estava no seminário há várias semanas, Dom Navarro se declarou chocado com o estado do velho prédio. Por muitos anos, aquele fora o seminário maior da diocese, antes de se tornar o seminário menor, quando Dom Antonio, em uma medida de precaução por ocasião de uma tentativa de dividir a diocese e tomar controle do seminário, transferiu o seminário maior para a cidade de Campos. Dom Navarro agora declarava que o velho prédio era “pior que Auschwitz”. Ele o fechou sumariamente. Os jovens seminaristas que esperavam retornar ao curso para continuar seus estudos em preparação ao sacerdócio – português, francês, latim, grego, história geral, história eclesiástica, matemática, geografia, religião, canto gregoriano e filosofia – descobriram, de repente, que estudavam em um dilapidado, velho prédio que era “pior que Auschwitz”. Absolutamente, eles se viram, de fato, tendo de estudar para o sacerdócio.

O passo seguinte veio sem surpresas. O novo bispo anunciou sua intenção de fechar o seminário maior em Campos. Quando Dom Antonio entregou seu molho de chaves do seminário a um representante do novo bispo, chorou abertamente, talvez a primeira vez que chorava em público desde a carta chegada de Roma anunciando a instituição do novus ordo missae.

The Mouth of the Lion: Bishop Antonio de Castro Mayer and the last Catholic Diocese. Dr. David Allen White, Angelus Press, 1993 – pág. 128-129 | Tradução: Fratres in Unum.com

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19 janeiro, 2012

As “esquisitices” litúrgicas do caminho neocatecumenal.

Por Oblatvs

Relato um fato ocorrido não faz muito tempo.

Num encontro de bispos, os excelentíssimos prelados conversavam com informalidade sobre uma infinidade de temas quando um bispo tradicionalista – são tantos no mundo que se torna praticamente impossível identificá-lo – começou a discorrer sobre as “esquisitices” litúrgicas do Caminho Neocatecumenal.

Alguns de seus colegas ouviam a tudo com indisfarçável contrariedade, sem, entretanto contrariá-lo. Bispos educados não contrariam uns aos outros – na presença!

Tão logo o bispo que criticava a missa à la neocatecumenato deixou o grupo, um dos bispos contrariados com os comentários – fiel ao princípio de só contestar na ausência – emendou, arrancando risadas dos demais: “Vejam quem fala: quem celebra a missa antiga criticando as esquisitices dos outros”.

Pois é, meus amigos! Há quem considere a liturgia bimilenar da Igreja um amontoado de esquisitices. E pior: há quem julgue as práticas litúrgicas neocatecumenais meras esquisitices. Não é o caso do bispo tradicionalista; ele quis apenas ser elegante.

As missas neocatecumenais estão eivadas de práticas heterodoxas que refletem uma doutrina heterodoxa – também estou sendo elegante; o nome apropriado é outro.

Fiquei muito confortado em saber que o Santo Padre não haverá de sancionar tais práticas, como se ouvia dizer. Se a informação de Francisco de La Cigoña estiver correta (No, you can’t), as práticas litúrgicas neocatecumenais continuarão a ser o que são, ou seja, práticas ilícitas, não importando quem celebre suas missas, sejam cardeais, bispos ou sacerdotes.

A aprovação dos “ritos” neocatecumenais na missa andaria na contramão da reforma da reforma litúrgica posta em marcha pelo Papa Bento XVI, a quem muitos querem ver substituído por um mais camarada.

Devemos aguardar mais alguns dias para comemorar a vitória da Sagrada Liturgia, que nunca foi um amontoado de esquisitices, menos ainda a que nos foi legada pela tradição multissecular da Igreja.

13 janeiro, 2012

“Plácet” ou “Non plácet”? A aposta de Carmen e Kiko.

Os fundadores do Caminho Neocatecumenal esperam obter a aprovação vaticana definitiva de seu modo “convival” de celebrar as missas. O documento está pronto, mas poderia ser modificado ou bloqueado in extremis. O veredito em 20 de janeiro.

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com

Acordar, tomar café, fazer uma caminhada e... dar uma palavrinha com o Papa. Eis o protocolo dos líderes do Caminho Neocatecumenal: Bento XVI recebe, respectivamente, “Kiko” Argüello, Carmen Hernández e Pe. Mario Pezzi, em 13 de novembro passado, para receber informações sobre a próxima Jornada Mundial da Juventude. Fonte: Santa Iglesia Militante.

Acordar, tomar café, fazer uma caminhada e... dar uma palavrinha com o Papa. Eis o protocolo dos líderes do Caminho Neocatecumenal: Bento XVI recebe, respectivamente, “Kiko” Argüello, Carmen Hernández e Pe. Mario Pezzi, em 13 de novembro de 2010. Fonte: Santa Iglesia Militante.

Roma, 13 de janeiro de 2012 –  Como em outras vezes nos anos passados, também neste mês de janeiro, na sexta-feira, 20, Bento XVI encontrará no Vaticano, na sala de audiências, milhares de membros do Caminho Neocatecumenal, com seus fundadores e líderes, os espanhóis Francisco “Kiko” Argüello e Carmen Hernández.

Há um ano, na audiência de 17 de janeiro de 2011, o Papa comunicou à entusiasmada platéia que os treze volumes do catecismo em uso em suas comunidades haviam recebido a tão esperada aprovação, após um longo exame iniciado em 1997 pela Congregação para a Doutrina da Fé e após a introdução de numerosas correções, com quase 2000 citações de passagens paralelas do catecismo oficial da Igreja Católica.

No próximo 20 de janeiro, por sua vez, os líderes e os membros do Caminho esperam das autoridades supremas da Igreja um “plácet” ainda mais ardentemente desejado. A aprovação oficial e definitiva do que para eles é o elemento característico distintivo mais visível, e também o mais controverso: o modo como celebram as missas.

Os quatro elementos

As missas das comunidades neocatecumenais se distinguem desde sempre por, ao menos, quatro elementos.

1. São celebradas em grupos reduzidos que correspondem aos distintos estágios de avanço no itinerário catequético. Se em uma paróquia, por exemplo, há doze comunidades neocatecumenais, cada uma em um estágio distinto, outras tantas serão as missas, celebradas em locais separados, mais ou menos no mesmo horário, preferivelmente no sábado pela noite.

2. O ambiente e a decoração seguem a imagem de um banquete: uma mesa com os comensais sentados ao redor. Também quando os neocatecumenais celebram a missa em uma igreja, e não em uma sala paroquial, ignoram o altar. Colocam uma mesa no centro e se sentam em torno dela em círculo.

30 de dezembro de 1988: João Paulo II celebrada com o Neocatecumenato.

30 de dezembro de 1988: João Paulo II celebra com o Neocatecumenato.

3. Cada uma das leituras bíblicas da missa é precedida por uma extensa “monição” por parte de um ou outro dos catequistas que guiam a comunidade e são seguidas, especialmente após o Evangelho, pelas “ressonâncias”, isto é, por reflexões pessoais de um grande número dos presentes. A homilia do sacerdote se acrescenta às “ressonâncias, sem se distinguir delas.

4. Também a comunhão se realiza reproduzindo a forma do banquete. O pão consagrado – um grande pão ázimo de farinha de trigo, dois terços branca e um terço integral, preparado e cozido durante um quarto de hora, segundo as minuciosas regras estabelecidas por Kiko – é repartido e distribuído aos presentes, que permanecem em seus lugares. Uma vez acabada a distribuição, todos o comem simultaneamente, inclusive o sacerdote. Após, passa-se de um a um o cálice do vinho consagrado, do qual cada um dos presentes bebe.

Há outras particularidades, mas bastam estas quatro para entender quanta diversidade de forma e de substância há entre as missas dos neocatecumenais e as celebradas segundo as regras litúrgicas gerais. Uma diversidade certamente mais acentuada da que há entre as missas no romano antigo e no rito moderno.

As autoridades vaticanas tentaram várias vezes reconduzir os neocatecumenais a uma maior fidelidade à “lex orandi” em vigor na Igreja Católica. Mas com pulso débil e resultados quase nulos.

O chamado mais forte se deu com a promulgação dos estatutos definitivos do Caminho, aprovados em 2008.

Madri, Jornada Mundial da Juventude de 2011: Bispos brasileiros participam jubilosos de evento do Caminho Neocatecumenal.

Madri, Jornada Mundial da Juventude de 2011: Bispos brasileiros participam jubilosos de evento do Caminho Neocatecumenal.

Neles, no artigo 13, as autoridades vaticanas estabeleceram que as missas das comunidades devem estar “abertas também a outros fiéis”; que a comunhão deve ser recebida “de pé”; que para as leituras bíblicas são permitidas, além da homilia, apenas “breve monições” introdutórias.

Não há sinais das “ressonâncias” (admitidas nos estatutos precedentes, provisórios, de 2002) neste mesmo artigo 13, dedicado à celebração da missa. Fala-se disso apenas no artigo 11, que se refere, no entanto, às celebrações da Palavra durante a semana, que cada comunidade realiza com seus próprios catequistas.

É fato: o modo como hoje os neocatecumenais celebram a missa mudou muito pouco em relação ao modo como celebravam há alguns anos, quando, ademais, passavam de mão em mão, festivos, os copos com o vinho consagrado.

Somente na teoria suas missas de grupo foram abertas também a outros fiéis.

Sentados ou de pé, seu modo convivial de fazer a comunhão é sempre o mesmo.

As “ressonâncias” pessoais dos presentes continuam invandindo e prevalecendo na primeira parte da missa.

E não é só. Da audiência com Bento XVI do próximo dia 20 de janeiro, Kiko, Carmen e seus seguidores esperam sair com uma aprovação explícita de tudo isso.

Uma aprovação com todos as bençãos da oficialidade. Promulgada pela congregação vaticana para o Culto Divino.

Ratzingeriano e antipapa.

Com um Francis Arinze como cardeal prefeito da congregação e, sobretudo, com um Malcolm Ranjith como seu secretário – como era até há poucos anos – uma aprovação semelhante teria sido impensável.

O Cardeal Arinze, atualmente aposentado, foi protagonista, em 2006, de um choque memorável com os chefes do Caminho, quando lhes ordenou, por uma carta, uma série de correções, às quais eles insolentemente desobedeceram.

Quanto a Ranjith – hoje de volta à sua pátria, Sri Lanka, como arcebispo de Colombo –, é difícil encontrar, entre os cardeais, um mais aguerrido que ele na defesa da fidelidade à tradição litúrgica. No campo da liturgia, o Cardeal Ranjith tem fama de ser mais ratzingeriano que o próprio Joseph Ratzinger, seu mestre.

Hoje, à frente da congregação para o Culto Divino está outro cardeal que se passa também por um ratzingeriano de ferro, o espanhol Antonio Cañizares Llovera.

Mas, a julgar pelo documento que estaria pronto para o próximo 20 de janeiro, não seria próprio dizê-lo.

De fato, dar via livre, por sua parte, à “criatividade” litúrgica dos neocatecumenais não seria outra coisa senão arruinar a sábia e paciente obra de reconstrução da liturgia católica que o Papa Bento está realizando há anos, com uma valentia que é igual à grande solidão que o cerca.

E forneceria um argumento a mais às acusações dos tradicionalistas, para não falar dos lefebvrianos.

Entre a astúcia e a indulgência

30 de dezembro de 1988: João Paulo II celebra com o Neocatecumenato.

30 de dezembro de 1988: João Paulo II celebra com o Neocatecumenato.

Existe uma astúcia que os neocatecumenais adotam quando Papas, bispos e cardeais participam de suas missas: a de se ater às regras litúrgicas gerais.

O Cardeal Cañizares não é o único que caiu na armadilha. O que o fez acreditar que as intemperanças litúrgicas do Caminho, embora existam, seriam mínimas e perdoáveis, se comparadas ao fervor de fé de seus participantes.

Como ele, muitos cardeais e bispos tiveram os neocatecumenais em consideração, especialmente na Espanha. Na cúria vaticana, gozam de um forte apoio do prefeito da “Propaganda Fide”, Fernando Filoni, anteriormente substituto da Secretaria de Estado.

Assim, enquanto as autoridades vaticanas são inflexíveis com os outros movimentos católicos, exigindo o respeito das normas litúrgicas, são mais indulgentes com os neocatecumenais. Por exemplo, tolera-se que suas missas sejam inundadas de “ressonâncias” e, em troca, a poderosa comunidade de Santo Egídio foi obrigada, há anos, a que a homilia fosse proferida exclusivamente pelo sacerdote e não, como ocorria antes, por seu fundador, Andrea Riccardi, ou outros líderes leigos da comunidade.

Esta difundida indulgência em relação às licenças litúrgicas dos neocatecumenais tem uma explicação que se remonta aos primeiros tempos dos movimento, e é útil recordá-la.

“Lutero tinha razão”

No campo litúrgico, mais que Kiko, é a co-fundadora Carmen Hernández quem modela o “rito” neocatecumenal.

Nos anos do Concílio Vaticano II e imediatamente após, quando ainda usava o hábito religioso das Missionárias de Cristo Jesus e estudava para obter licença em teologia, Carmen se apaixonou pela renovação da liturgia. Seus mestres e inspiradores foram, na Espanha, o liturgista Pedro Farnés Scherer, e, em Roma, Don Luigi della Torre, outro liturgista de renome, pároco da igreja da Natividade na Via Gallia, uma das primeiras comunidades romanas do movimento, e Monsenhor Annibale Bugnini, na época poderoso secretário da congregação vaticana para o Culto Divino e principal artífice da reforma litúrgica pós-conciliar.

Foi exatamente Bugnini, no início dos anos 70, quem se alegrou com a maneira com que as primeiras comunidades fundadas por Kiko e Carmen celebravam a missa. Escreveu sobre isso em “Notitiae”, a publicação oficial da congregação para o Culto Divino. E foi ele, de novo, junto com os co-fundadores, quem decidiu chamar o recém-nascido movimento de “Caminho Neocatecumenal”.

Das visitas a estes liturgistas e de uma desenvolta reelaboração de suas teses, Kiko e Carmen retiraram sua concepção pessoal da liturgia católica, que colocaram em prática nas missas de suas comunidades.

Há um livro de um sacerdote da Ligúria [ndr: noroeste da Itália], pertencente ao Caminho, Piergiovanni Devoto, que, valendo-se de textos inéditos de Kiko e Carmen, expôs em público sua bizarra concepção.

O livro, publicado em 2004 com o título “O Neocatecumenato. Uma iniciação cristã para adultos”, e com a calorosa apresentação de Paul Josef Cordes, à época presidente do pontifício conselho “Cor Unum”, hoje cardeal, foi impresso por Chirico, a editora napolitana que também publicou a única obra traduzida ao italiano de Farnés Scherer, o liturgista que foi o primeiro a inspirar Carmen.

Eis, abaixo, algumas passagens do livro, extraídas das páginas 71-77.

“No decorrer dos séculos, a eucaristia foi partida e encoberta, revestida até o ponto em que não víamos em nenhuma parte de nossa mesa a ressurreição de Jesus Cristo”…

“No século IV, com a conversão de Constantino, também o imperador, com seu séqüito, ia à igreja para celebrar a eucaristia: nascem assim as liturgias de entrada, tornadas mais solenes por cantos e salmos e, quando estes são eliminados, permanece apenas a antífona, sem o salmo, o que constitui um verdadeiro e próprio absurdo”…

“De forma análoga, aparecem as procissões do ofertório, nas quais emerge a concepção própria da religiosidade natural que tende a aplacar a divindade através de dons e oferendas”…

Celebração do Neocatecumenato.

Celebração do Neocatecumenato.

“A Igreja tolerou durante séculos formas não genuínas. O ‘Gloria’, que fazia parte da liturgia das horas recitada pelos monges, entrou na missa quando se fez, das duas ações litúrgicas, uma única celebração. O ‘Credo’ fez sua aparição quando surgiram as heresias e apostasias. Também o ‘Orate Fratres’ é um grande exemplo das orações com as quais se ornamentava a missa”…

“Com o passar dos séculos, as orações privadas são incluídas em grande quantidade na missa. Já não existe a assembléia, a missa adquiriu um tom penitencial, em nítido contraste com a exultação pascal da qual surgiu”…

“E enquanto o povo vive a privatização da missa, por parte dos doutos são elaboradas teologias racionais que, embora contendo ‘in nuce’ o essencial da Revelação, estão cobertas por hábitos filosóficos alheios a Cristo e aos apóstolos”…

“Então se entende porque surgiu Lutero, que fez tabula rasa de tudo o que ele acreditava ser acréscimo ou tradição puramente humana”…

“Lutero, que nunca duvidou da presença real de Cristo na eucaristia, rechaçou a ‘transubstanciação’ por ser vinculada ao conceito de substância aristotélico-tomista, alheio à Igreja dos apóstolos e dos Padres”…

“A rigidez e o fixismo do Concílio de Trento geraram uma mentalidade estática na liturgia que chegou até os nossos dias, disposta a se escandalizar com qualquer mudança ou transformação. Isso é um erro, pois a liturgia é Vida, uma realidade que é o Espírito vivo entre os homens. Por isso não se pode engarrafá-la”…

“Fora já de uma mentalidade legalista e fixista, assistimos, com o Concílio Vaticano II, uma profunda renovação da liturgia. Eliminou-se da eucaristia toda essa pompa que a recobria. É interessante ver que, inicialmente, a anáfora [isto é, a oração da consagração – ndr de Chiesa] não estava escrita, mas era improvisada pelo presidente”…

“A celebração da eucaristia no sábado à noite não é para facilitar o êxodo dominical, mas para ir às raízes: o dia de descanso para os hebreus começa a partir das três primeiras estrelas da sexta-feira, e as primeiras vésperas do domingo para toda a Igreja são, desde sempre, o sábado à noite”…

“Com o sábado, trata-se de entrar na festa com todo o ser, para se sentar à mesa do Grande Rei e provar já hoje o banquete da vida eterna. Depois da ceia, um pouco de festa cordial e amigável concluirá esta jornada”…

Uma pergunta

Este seria “o espírito da liturgia” – título de um livro capital de Joseph Ratzinger – que as autoridades vaticanas se preparam para validar, com a práxis que dele decorre?

27 dezembro, 2011

Ranjith: “Chegou a hora”, pelo “retorno da verdadeira liturgia da Igreja”.

Desejo expressar, primeiramente, minha gratidão a todos vós pelo zelo e entusiasmo com que promoveis a causa da restauração das verdadeiras tradições litúrgicas da Igreja.

Como sabeis, é a liturgia que aperfeiçoa a fé e sua heróica realização na vida. Ela é o meio com que os seres humanos são elevados ao nível do transcendente e do eterno: o lugar de um profundo encontro entre Deus e o homem.

A liturgia, por esta razão, nunca pode ser criada pelo homem. Pois se rezamos da forma como queremos e ajustamos as normas a nós mesmos, corremos, então, o risco de recriar o bezerro de ouro de Aarão. Devemos constantemente insistir na liturgia enquanto participação naquilo que o próprio Deus faz, correndo o risco, de outra forma, de cair na idolatria. O simbolismo litúrgico nos ajuda a nos elevarmos acima do que é humano, em direção ao divino. A esse respeito, é minha firme convicção de que o Vetus Ordo representa em grande extensão e de maneira mais satisfatória aquele chamado místico e transcendente a um encontro com Deus na liturgia. Portanto, chegou para nós a hora de não só renovarmos, por mudanças radicais, o conteúdo da nova Liturgia, mas de também encorajarmos mais e mais o retorno do Vetus Ordo, como um caminho para uma verdadeira renovação da Igreja, que foi o que os Padres da Igreja assentados no Concílio Vaticano II tanto desejaram.

A cuidadosa leitura da Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium, demonstra que as imprudentes mudanças introduzidas posteriormente na Liturgia nunca estiveram nas mentes dos Padres do Concílio.

Assim, chegou a hora de sermos corajosos no trabalho por uma verdadeira reforma da reforma e também pelo retorno da verdadeira liturgia da Igreja, que se desenvolveu por sua história bimilenar em um contínuo fluxo. Desejo e rezo para que isso ocorra.

Possa Deus abençoar os vossos esforços com sucesso.

+Malcolm Cardeal Ranjith
Arcebispo de Colombo
24/8/2011

Carta do Cardeal Ranjith à 20ª Assembléia Geral da Foederatio Internationalis Una Voce, ocorrida em 5 e 6 de novembro de 2011, em Roma. Tradução: Fratres in Unum.com

13 dezembro, 2011

A infalibilidade: decretos disciplinares e as leis litúrgicas.

Por Padre Élcio Murucci

Já mostramos que a Santa Igreja é infalível quando define solenemente verdades por si reveladas, isto é, verdades de fé e moral contidas formalmente no depósito da Revelação. Estas verdades constituem o objeto direto e primário da Infalibilidade.

Mas existem outras verdades que não foram formalmente reveladas. Elas têm, entretanto, um nexo tão íntimo com a Revelação, que são necessárias para que o depósito da fé seja conservado íntegro, seja devidamente explicado e seja eficazmente definido. Entre estas verdades estão os Decretos Disciplinares e as Leis Litúrgicas. Estão entre os objetos indiretos e secundários da Infalibilidade.

Esta tese assim globalmente considerada, não é de fé. Isto significa que quem a negar não é herege. Mas é uma tese “teologicamente certa”. Quem a negar é “temerário”.

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21 novembro, 2011

A grande história de terror católica: a fraude pseudo-histórica da comunhão na mão.

Se você não crê na Presença Real, quão hiperbólico deve parecer… Para aqueles que sabem que Ele está lá, Corpo, Sangue, Alma e Divindade, o “horror” não começa a descrever os problemas ao redor da maneira de tratar o Santíssimo Sacramento nos locais pós-Conciliares, com base em “fontes” pseudo-históricas e fraude descarada.

A grande fraude acerca da Santa Comunhão na Mão

São Cirilo de Jerusalém e a Comunhão na mão


Com relação à chamada questão da “Comunhão na mão,” [Una Fides] apresenta um artigo escrito pelo Rev. Padre Giuseppe Pace, S.D.B., publicado na revista Chiesa Viva de janeiro de 1990 (Civiltà, Brescia.) [Tradução pela colaboradora do Rorate Francesca Romana.]

* * *

A bolota é um carvalho em potencial; o carvalho é uma bolota que chegou à perfeição. Para que o carvalho volte a ser uma bolota, supondo que ele o pudesse sem morrer, seria uma regressão. É por essa razão que a Mediator Dei do Papa Pio XII condenou o arqueologismo litúrgico como anti-litúrgico com essas palavras:

Durante...

Durante...

(…) assim, quando se trata da sagrada liturgia, não estaria animado de zelo reto e inteligente aquele que quisesse voltar aos antigos ritos e usos, recusando as recentes normas introduzidas por disposição da divina Providência e por mudança de circunstâncias (no.63) (…)

Este modo de pensar e de proceder, com efeito, faz reviver o excessivo e insano arqueologismo suscitado pelo ilegítimo concílio de Pistóia, e se esforça em revigorar os múltiplos erros que foram as bases daquele conciliábulo e os que se lhe seguiram com grande dano das almas, e que a Igreja – guarda vigilante do “depósito da fé” confïado pelo seu divino Fundador – condenou com todo o direito.(53)

Os pseudo–liturgistas que estão desolando a Igreja em nome do Concílio Vaticano Segundo são presas de tais obsessões de arqueologismo mórbido; pseudo-liturgistas, que, às vezes chegam ao ponto de obrigar os seus súditos com exortações e exemplos que violam as poucas leis sadias remanescentes que ainda sobrevivem, e que, eles próprios, formalmente promulgaram ou confirmaram.

O sintomático disso tudo é a questão do Rito da Santa Comunhão. Um bispo, de fato, após declarar que as Sagradas Espécies administradas na língua do comungante ainda está em vigor no Rito Tradicional, ao mesmo tempo, também permite que a Santa Comunhão seja distribuída em pequenas cestas que os fiéis passam de mão em mão; ou ele próprio deposita as Espécies Sagradas nas mãos (será que elas estão sempre limpas?) do comungante. Se você quer convencer os fiéis de que a Santíssima Eucaristia não é nada mais do que (um pedaço de) pão comum, talvez mesmo bento como uma refeição simbólica, não se poderia imaginar uma maneira melhor de fazer isso do que aquela do sacrilégio.

Os promotores da Comunhão na mão recorrem a esse arqueologismo pseudo-litúrgico condenado por Pio XII apertis verbis. Na verdade, eles dizem que é dessa maneira que você precisa recebê-la, porque ela foi conduzida dessa maneira por toda a Igreja, tanto no Oriente quanto no Ocidente desde seus primórdios e por mil anos daí em diante.

... e depois. Imagens: Blog do pe. Zuhlsdorf.

... e depois. Imagens: Blog do pe. Zuhlsdorf.

O que é certamente verdade desde os primórdios da Igreja é que por quase dois mil anos, em preparação para a Comunhão, os comungantes tinham que se abster de toda a comida e bebida da noite anterior até o momento da recepção. Por que esses arqueologistas não restauram esse jejum eucarístico? Isso certamente iria contribuir bastante para manter viva na mente do comungante o pensamento da iminente recepção da Santa Comunhão, para que eles se preparassem melhor.

Em vez disso, é praticamente falso que, desde o início da Igreja e por mil anos daí em diante, tanto no Oriente quanto no Ocidente, existiu a prática de colocar as Espécies Sagradas nas mãos dos fiéis.

Os pseudo-liturgistas amam evocar a seguinte passagem da Catequese Mistagógica atribuída a Santo Cirilo de Jerusalém:

«Adiens igitur, ne expansis manuum volis, neque disiunctis digitis accede; sed sinistram velut thronum subiiciens, utpote Regem suscepturæ: et concava manu suscipe corpus Christi, respondens Amen». (Dirigindo-se, pois (à Comunhão) aproximai-vos com as palmas da mão abertas, nem com os dedos disjuntos, mas tendo a esquerda em forma de um trono sob aquela mão que está por acolher o Rei e com a direita côncava, recebei o corpo de Cristo, respondendo Amém.)

Ao chegar nesse Amém, simplesmente param. Mas a Catequese Mistagógica prossegue com o texto acrescentando a seguinte:

Depois que tu, com cautela tiver santificado os teus olhos pondo te em contacto com o corpo de Cristo, aproximai também do cálice do sangue: não tendo as mãos estendidas, mas genuflexo de modo a expressar senso de adoração e veneração. Dizendo Amém, te santificarás, tomando também o sangue de Cristo. E tendo ainda os lábios úmidos, tocai-o com as mãos e depois com esse santificarás os teus olhos, a fronte e os outros sentidos. Da Comunhão jamais vos afastai, nem vos privai destes sagrados e espirituais mistérios, ainda que estejais manchados pelos pecado.

Quem poderia admitir que um tal rito fosse o costume ordinário na Igreja Universal por mais de mil anos? E como conciliar tal rito, segundo o qual a Comunhão deve ser dada até a quem está manchado de pecado com a ordem, certamente apostólica, que desde os primórdios da Igreja proibia que fossem admitidos à Santa Comunhão aqueles que estavam em estado de pecado? «reus erit corporis et sanguinis Domini. Probet autem seipsum homo: et sic de pane illo edat, et de calice bibat. Qui enim manducat et bibit indigne, indicum, sibi manducat et bibit non diiudicans corpus Domini» . (Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice.  Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação. (I Coríntios, 11, 27-29, Douay-Rheims)]

Um tal rito de Comunhão tão extravagante, cuja descrição se conclui com a exortação a receber ou distribuir a Santa Comunhão até para aqueles que se encontram manchados de pecado, certamente não foi pregado por São Cirilo na Igreja de Jerusalém e nem poderia ter sido lícito em qualquer época na Igreja. Trata-se de um rito derivado da fantasia, oscilando entre o fanatismo e o sacrilégio, do autor das apócrifas Constituições Apostólicas, um anônimo Siriano, devorador de livros, escritor incansável, que despeja nos seus escritos, indigestos e contaminados em grande parte por suas elucubrações mentais, grande porções de suas leituras, o qual no seu livro VIII das ditas Constituições Apostólicas, acrescenta, atribuindo ao Papa São Clemente, 85 cânones dos Apóstolos, os quais o Papa Gelásio I, declarou como apócrifos no Concílio de Roma do ano 494: «Liber qui appellatur Canones Apostolorum, apocryfus (P. L., LIX, col. 163). A descrição desse rito extravagante, em boa parte sacrílego, entrou na Catequese Mistagógica por obra de um sucessor de São Cirilo, que segundo alguns seria o bispo João, um cripto-ariano, origeniano e pelagiano, que mais tarde foi contestado por Santo Epifânio, São Jerônimo e Santo Agostinho.

Come pode então Leclercq afirmar que: “… precisamos ver nisso [nesse rito extravagante] uma representação exata do uso das grandes Igrejas da Síria? Ele não pode afirmar isso, a não ser que se contradissesse, uma vez que antes afirma tratar-se de «uma liturgia fantasia. Ela não procede e não se destina a nada mais do que entreter o seu autor; não é uma liturgia normal, oficial, pertencente a uma Igreja Específica” (Dictionaire de Archeologie chretienne et de Liturgie, vol. III, parte II, col. 2749-2750).

Temos, ao invés, provas concretas de costumes opostos, ou seja, a prática de colocar as Sagradas Espécies sobre a língua do comungante e da proibição aos fiéis leigos de tocar as Sagradas Espécies com as próprias mãos. Somente em casos de necessidade grave e em tempos de perseguição, nos assegura São Basílio, se podia derrogar as normas, permitindo aos leigos receber a Comunhão na próprias mão (P. G., XXXII, coll. 483-486).

Obviamente, não pretendemos fazer um relatório de todos os testemunhos invocados para demonstrar que o costume de colocar as Sagradas Espécies sobre a língua dos comungantes leigos era o uso na antiguidade, nem pretendemos indicar algo somente sintomático, e o que é mais suficiente, desmentir o que eles afirmam que por mil anos, tanto na Igreja Oriental como Ocidental, se costumava colocar as Sagradas Espécies sobre as mãos dos leigos.

Santo Eutiquiano, Papa de 275 até 283, para evitar que leigos tocassem as Espécies Sagradas com as sua mãos, proibia-os de levar o Santíssimo Sacramento aos doentes «Nullus præsumat tradere communionem laico vel femminæ ad deferendum infirmo» (Ninguém ouse entregar a comunhão a um leigo ou a uma mulher para portá-la a um enfermo) (P. L., V, coll. 163-168).

São Gregório Magno narra que Santo Agapito, Papa de 535 a 536, durante os poucos meses do seu pontificado, dirigindo-se a Constantinopla, curou um surdo-mudo durante o ato de «ei dominicum Corpus in os mitteret» (colocou em sua boca o Corpo do Senhor) (Dialoghi, III, 3).

Isso ocorreu na Igreja do Oriente. Já no Ocidente é indubitável que o próprio São Gregório Magno administrava desse modo a Santa Comunhão aos leigos, pois já bem antes do Concílio de Saragoza no ano 380, havia lançado a excomunhão contra aqueles que ousassem tratar a Santíssima Eucaristia como se estivessem em tempos de perseguição, ou seja, tempos em que ao fiel leigo era permitido tocar as espécies sagradas caso se encontrasse numa situação de necessidade (SAENZ DE AGUIRRE, Notitia Conciliorum Hispaniæ, Salamanca, 1686, pag. 495).

Certamente que até mesmo naquela época não faltavam inovadores indisciplinados. Esse fato levou as autoridades eclesiásticas a chamá-los à ordem. Assim fez o Concílio de Rouen, por volta do ano 650, proibindo ao ministro da Eucaristia de dispor as Sagradas Espécies sobre as mãos do comungante leigo:

«[Presbyter] illud etiam attendat ut eos [fideles] propria manu communicet, nulli autem laico aut fœminæ Eucharistiam in manibus ponat, sed tantum in os eius cum his verbis ponat: “Corpus Domini et sanguis prosit tibi in remissionem peccatorum et ad vitam æternam”. Si quis hæc transgressus fuerit, quia Deum omnipotentem comtemnit, et quantum in ipso est inhonorat, ab altari removeatur» ([O presbítero] deverá também estar atento disso: dê a Sagrada Communhão ao fiel somente com as suas próprias mãos; não coloque a Eucaristia nas mãos de qualquer leigo ou mulher, mas somente em suas bocas, com as seguintes palavras: “Que o Corpo e o Sangue do Senhor te ajude na remissão dos teus pecados e para alcançar a vida eterna”. Quem tiver transgredido essas normas, desprezado portando Deus Onipotente e o desonrado, deverá ser removido do altar). (Mansi, vol. X, coll. 1099-1100).

No tocante aos arianos, exatamente para demonstrar que não acreditavam na divindade de Jesus Cristo e que consideravam a Eucaristia apenas como um pão puramente simbólico, era costume comungar estando em pé e tocando as espécies eucarísticas diretamente com as mãos. Não foi sem razão que Santo Atanásio se levantou contra a apostasia ariana. (P. G., vol. XXIV, col. 9 ss.).

Não podemos negar que em certos casos, em certas Igrejas particulares e por algum tempo tenha sido permitido aos leigos tocar as Sagradas Espécies com as próprias mãos. Mas não só podemos negar com provas irrefutáveis de que esse tenha sido o costume ordinário por mais de mil anos tanto na Igreja Oriental como a de rito latino como também podemos afirmar que mais falso ainda é dizer que esse deveria ser o costume para os dias de hoje. Cabe lembrar que até no culto devido à Santa Eucaristia houve um sábio progresso, análogo àquele que ocorreu no campo dogmático (o qual não tem nada a ver com a teologia modernista da morte de Deus).

O supracitado progresso litúrgico  universalizou o costume de ajoelhar-se em ato de adoração e, daí, o uso dos genuflexórios; a prática de cobrir a balaustrada com uma toalha alva de linho, o uso da patena e às vezes uma tocha ou vela acesa; seguido da prática de pelo menos quinze minutos de ação de graças pessoal. Abolir tudo isso que é parte vital da Tradição Litúrgica não é incrementar o culto devido à Santa Eucaristia e nem a fé ou santificação dos fiéis, mas sim servir ao demônio.

Quando São Tomás de Aquino (Summa Theologica, III, q. 82, a 3) expõe os motivos pelos quais é vetado aos fiéis leigos tocar as Sagradas Espécies, ele não fala de um rito inventado recentemente, mas de um costume litúrgico tão antigo quanto a própria Igreja. Não foi sem razão que o Concílio de Trento não apenas afirmou que na Igreja de Deus, é costume constante e ordinário que os leigos recebam a Comunhão das mãos dos sacerdotes, enquanto os sacerdotes comunguem por si mesmos, como também afirmou que esse costume é de origem apostólica (Denzinger, 881). Eis porque encontramos a mesma norma prescrita no Catecismo de São Pio X (642-645).

Ora, tal norma jamais foi abrogada: no Novo Missal Romano, artigo 117, se lê que o comungante tenens patenam sub ore, sacramentum accipit (tendo a patena sob a boca, receba o sacramento).

Não dá pra entender como os próprios promulgadores de tão sábia norma sejam os primeiros a dispensá-la de diocese em diocese, uma paróquia após a outra.

O simples fiel, diante de tanta incoerência, não poderia reagir de outro modo senão demonstrar uma completa indiferença e desprezo pelas leis eclesiásticas litúrgicas e não litúrgicas.

Tradução de Fratres in Unum.com a partir do texto publicado em Rorate-Caeli, com adaptações da tradução disponível em “Últimas misericórdias de Deus“.

21 outubro, 2011

Gherardini: “Com o novo Ordo, algo de intimamente ligado ao essencial e enraizado na Tradição foi diminuído”.

Cônego da Basílica de São Pedro e postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, Mons. Gherardini é padre da diocese de Prato (Itália) e está a serviço da Santa Sé desde 1965, especialmente como professor de eclesiologia e ecumenismo na Pontifícia Universidade Lateranense até 1995.

Cônego da Basílica de São Pedro e postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, Mons. Gherardini é padre da diocese de Prato (Itália) e está a serviço da Santa Sé desde 1965, especialmente como professor de eclesiologia e ecumenismo na Pontifícia Universidade Lateranense até 1995.

Bento XVI, dando legitimidade ao uso do Ordo antigo, confirmou a unidade do Rito distinguindo “forma ordinária” e “forma extraordinária”. Que as coisas fiquem claras: é um pouco difícil considerar como “extraordinária” a forma clássica com a qual, durante séculos, a Igreja expressou seu culto público. Mas isso não se opõe à doutrina sobre a unidade de ritos e a duplicidade de formas… A pessoa que se lançasse a uma análise rigorosamente crítica das duas formas normalmente não teria dificuldade em demonstrar que a forma dita “extraordinária” se distingue substancialmente, ao menos em algumas passagens, da forma dita “ordinária”… Sabemos que o ofertório é uma parte integrante do Sacrifício… E, no entanto, sob o pretexto não demonstrado e historicamente infundado de que se tratava de fórmulas recentes, novas, individualistas e liturgicamente aberrantes, a Missa “de Paulo VI” aboliu o Ofertório. A ciência litúrgica tratou de demonstrar o contrário; todavia dispomos de manuscritos que provam o erro da análise: o “Suscipe Sancte Pater”, o “Deus, qui humanae substantiae”, o “Offerimus tibi Domine”, o texto “In spititu humilitatis”, o “Veni sanctificator”, o “Suscipe sancta Trinitas”, são orações atestadas por manuscritos do século IX. Não é necessário escrever muitas páginas, portanto, para demonstrar que com o novo Ordo algo de intimamente ligado ao essencial e enraizado na Tradição foi diminuído.

Palavras de Monsenhor Brunero Gherardini à Revista Catholica, nº 113.

17 outubro, 2011

Se dependesse de mim, eu nunca celebraria o ‘Novus Ordo Missae’ novamente.

Trechos da entrevista do padre Michael Rodriguez a Michael J. Matt, editor do periódico The Remnant. Não traduzimos os dados biográficos por já termos fornecido essas informações aos nossos leitores na primeira entrevista escrita que o padre Rodríguez nos concedeu. Os destaques são nossos.

* * *

MJM: Liturgicamente – onde o senhor se encaixaria? Sei que o senhor celebra a Missa Tradicional em Latim, mas podemos descrevê-lo como um “tradicionalista” de carteirinha?

Pe.: Liturgicamente, apóio integralmente a Missa Tradicional em Latim, que sem dúvida é a Missa verdadeira da Igreja Católica Romana. Teologicamente, liturgicamente, a espiritualidade católica e a ascese, e a própria história, tudo aponta para a superioridade óbvia do Rito Romano Clássico. Infelizmente, toda a minha formação no seminário foi no Novus Ordo, e só “descobri” a Missa em Latim cerca de seis anos atrás, assim ainda tenho muito a aprender em termos de “catolicismo real”, ou seja, o “catolicismo tradicional”.

MJM: O que o levou inicialmente a começar a oferecer a Missa antiga?

Pe.: Cerca de seis anos atrás, vários fiéis começaram a me perguntar se eu estaria interessado em oferecer a Missa Tradicional em Latim. Naquela época, havia uma grande preocupação da parte “dos católicos tradicionais remanescentes de El Paso” de que o padre jesuíta que oferecia a Missa em Latim duas vezes ao mês (sob o “indulto” Ecclesia Dei de 1988) fosse transferido. Assim, eles estavam procurando por outro padre que pudesse oferecer a Missa em Latim. A princípio, recusei, não tanto porque não estivesse interessado, mas devido à imensa carga de trabalho que eu já estava fazendo.

À medida que as semanas transcorriam, comecei a estudar as orações e a teologia da Missa Tradicional em Latim. Quanto mais eu estudava, mais eu ficava admirado e encantado. Eu estava “descobrindo” não apenas a verdadeira teologia católica da Missa, mas também a verdadeira teologia católica do sacerdócio, e muito mais! Ao longo dos meus primeiros nove anos de sacerdócio, eu lutara para entender os muitos problemas graves que existem na Igreja. Nesse ponto, ficou evidente que uma crise extrema invadiu a Igreja e sua hierarquia, mas por quê? Eu simplesmente não podia entender como toda essa “desorientação diabólica” tinha acontecido. . . Até que a luz brilhante da Missa católica verdadeira (“Emitte lucem tuam et veritatem tuam…”) começou a penetrar a minha alma. Essa “descoberta” da Missa Tradicional em Latim tem sido, de longe, o maior presente de Deus para o meu sacerdócio.

MJM: Então, isso nos dá uma idéia de como o motu proprio Summorum Pontificum do Papa Bento XVI pode e de fato afeta os sacerdotes que de outra forma talvez nunca tenham tido a oportunidade de descobrir este grande tesouro. Devido ao fato de como ele afetou o senhor, como o senhor crê que o Summorum Pontificum irá afetar a Igreja em longo prazo?

Pe.: Infelizmente, tanto o Summorum Pontificum quanto a Universæ Ecclesiæ têm muitos pontos fracos. Não obstante, esses documentos representam um passo inicial naquilo que provavelmente ainda será um longo e árduo “Calvário”, ou seja, a ânsia dos católicos tradicionais para restaurar a cruz, a missa, o reinado de Jesus Cristo, e a doutrina católica verdadeira, fora da qual não há salvação. No Artigo 1 do Summorum Pontificum, o Papa Bento XVI escreve que “a honra devida deve ser dada ao Missal Romano promulgado por São Pio V em razão de seu uso antigo e venerável”. A diretriz de nosso Santo Padre atualmente está sendo desobedecida quase universalmente. Na carta que acompanha o documento dirigida aos bispos do mundo (7 de julho de 2007), o Papa Bento XVI escreve, “Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial. Faz-nos bem a todos conservar as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo lugar”. Essas palavras notáveis do nosso Santo Padre também estão sendo desrespeitadas e desobedecidas quase que universalmente, especialmente, por muitos bispos. Finalmente, a Universæ Ecclesiæ, no nº 8, afirma muito claramente que o Rito Antigo é um “tesouro precioso a ser preservado” e deve ser “oferecido a todos os fiéis.”

Onde em todo o mundo católico esta diretriz está sendo efetivamente obedecida? O mesmo número da Universæ Ecclesiæ enfatiza que o uso da Liturgia Romana de 1962 “é uma faculdade generosamente concedida para o bem dos fiéis e, portanto, deve se interpretada em um sentido favorável aos fiéis que são os principais destinatários”. Essa é uma afirmação impressionante. Essa afirmação de Roma significa que o uso do Missal de 1962 não depende dos pontos de vista, preferências ou teologia particulares do bispo. Não se trata de bispos! Pelo contrário, trata-se de fiéis! Onde em todo o mundo católico esta diretriz está sendo efetivamente obedecida?

MJM: agora o senhor pode oferecer a Missa antiga com exclusividade?

Pe.: Desde que iniciei minha nova designação (24 de setembro de 2011) nas missões rurais isoladas da diocese de El Paso, tenho oferecido a Missa Tradicional em Latim em caráter exclusivo. Penso que isso é uma benção maravilhosa e inesperada da Providência em meio a uma provação muito difícil. Espero continuar oferecendo a Missa Tradicional em Latim em caráter exclusivo. Se dependesse só de mim, eu nunca celebraria o Novus Ordo Missæ novamente. Entretanto, a triste realidade de ter que “obedecer” na Igreja do Novus Ordo que em grande parte perdeu a fé, e a necessidade de alcançar pacientemente os fiéis do Novus Ordo que têm sido tão induzidos ao erro, significa que provavelmente serei “forçado” a celebrar o Novus Ordo ocasionalmente. Entretanto, nessas circunstâncias, será o Novus Ordo ad orientem,com o Cânon Romano, o uso do latim e a Santa Comunhão distribuída de acordo com as normas tradicionais.

MJM: Até o ano passado, creio, as coisas estavam muito calmas na sua vida sacerdotal. O que aconteceu para mudar tudo?

Pe.: A “polêmica” local, e até mesmo nacional, que tocou conta de mim se deve ao fato de que eu tenho me expressado verbalmente na promoção daquilo que a Igreja Católica ensina com relação a toda a questão do homossexualismo. É uma desgraça, porém, a Câmara Municipal de El Paso tem sido obstinada na tentativa de legitimar as uniões do mesmo sexo. Isso se opõe completamente ao magistério da Igreja Católica. Deixei claro aos católicos de El Paso (e mais além) de que todo católico tem a obrigação moral perante o próprio Deus de se opor a qualquer tentativa governamental de legalizar as uniões homossexuais. Um católico que deixa de se opor à agenda homossexual, está cometendo um grave pecado por omissão. Além disso, se um católico não consente com o ensinamento moral infalível da Igreja de que os atos homossexuais são mortalmente pecaminosos, então, esse católico está se colocando fora da comunhão com a Igreja. Esses são os católicos que estão efetivamente excomungando a si mesmos. Não a Fraternidade de São Pio X!

MJM: Eu posso entender porque as autoridades civis e a mídia possam achar esse assunto “polêmico”; mas por que os seus superiores eclesiásticos achariam isso?

Pe.: A reação deprimente tanto das autoridades civis quanto das eclesiásticas aos ensinamentos autênticos da Igreja Católica com relação ao homossexualismo demonstra quão extrema realmente é a crise atual de fé. De fato, a coisa não pode piorar ainda mais. Quase não há fé sobrando para ser perdida! Mesmo um pagão, desprovido da luz da fé, pode chegar à conclusão de que os atos homossexuais são intrinsecamente maus. Razão, lei natural e considerações da anatomia masculina e feminina confirmam de maneira mais que suficiente essa verdade moral.

MJM: E agora o senhor deve ir para onde o bispo lhe diz para ir. Isso é difícil para o senhor?

Pe.: Nas minhas circunstância particulares, obediência ao meu bispo tem sido incrivelmente difícil. Contudo, a obediência é essencial ao sacerdócio, e pretendo ser obediente. Um aspecto consolador da obediência “sacrifical, “morte para si mesmo”, é que o Espírito Santo sempre virá para nos assistir. Sou lembrado de que meus pobres sofrimentos não são nada comparados àqueles da Mater Dolorosa e de nosso Redentor Divino. Se sou contado como um mesmo ligeiramente digno de sofrer pela Fé e pela Missa Tradicional em Latim, eu me considerarei profundamente abençoado. Deus é tão bom.

MJM: Como o senhor já está passando por uma forma de perseguição, suponho que o senhor preveja mais por vir, não apenas para o senhor pessoalmente, mas para todos os católicos que se colocam em defesa do magistério da Igreja. Mas o que dizer do futuro? Alguma esperança?

Pe.: Sim, eu realmente prevejo muita perseguição ainda por vir para todos aqueles que permanecem firmes na Fé e em sua adesão ao Rito Antigo. Entretanto, a promessa de nosso Salvador não pode fazer outra coisa senão preencher as nossas almas com esperança, “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.” (Mt 5:10-12)

MJM: Como os leigos católicos podem sobreviver a esta crise de fé Ca melhor maneira?

Pe.: Para sobreviver a esta crise de fé, precisamos (1) fazer tudo em nosso poder para recobrar a Fé Católica: o Rito Antigo, o ensinamento católico tradicional em sua doutrina e moral, a teologia e filosofia de Santo Tomás de Aquino, a piedade e devoções católicas tradicionais, e um “código de vida” ou “ritmo de vida” católico tradicional.  (2) Precisamos rezar, estudar, jejuar, fazer penitência e praticar a caridade diariamente tendo em mente o objetivo acima. Finalmente, recomendo fortemente a todos os fiéis católicos que (3) rezem o Santo Rosário diariamente e prestem atenção na Mensagem de Nossa Senhora em Fátima.

Uma das marcas distintivas da Missa Tradicional em Latim é o seu enfoque requintado e concentrado na eternidade. Se tivermos que sobreviver e superar esta terrível crise de fé na Igreja Católica do pós-Vaticano II, temos que manter o nosso intelecto e vontade concentrados na eternidade. Não podemos perder a esperança quando, a partir de uma perspectiva mundana, tudo parece perdido. Jesus Cristo promete “o reino dos céus” àqueles que enfrentam a perseguição, e “uma grande recompensa nos céus” àqueles que sofrem por amor do seu nome. (Mt 5:10-12) A meta final é o céu! Como São Paulo, precisamos perseguir em direção ao alvo final (Fil 3:14) e nunca cessar de “buscar as coisas que estão no alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus.” (Col 3:1)

6 outubro, 2011

Uma Congregação para a Liturgia.

IHU – Sua publicação, em 27 de setembro, passou quase despercebida. Bento XVI divulgou uma carta apostólica em forma de Motu Proprio intitulada Quaerit Semper, na qual transferiu para a Rota Romana a competência em relação a duas matérias que até então eram tratadas pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. A primeira delas tem a ver com a nulidade da ordenação sacerdotal que, como acontece com o matrimônio, pode ser anulado por vícios de matéria e de forma, de consenso ou de intenção, tanto do bispo que ordena como do clérigo que é ordenado.

A reportagem é de Andrea Tornielli e está publicada no sítio Vatican Insider, 04-10-2011. A tradução é do Cepat.

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28 setembro, 2011

Mais uma reunião da Cetel e até agora nada!

Os sábios levitas em cujas mãos se encontra o "rito ordinário brasileiro".

Os sábios levitas em cujas mãos se encontra o "rito ordinário brasileiro".

Por Pe Clécio – Oblatvs

O site da CNBB informa que os responsáveis pela tradução da terceira edição típica do Missal Romano estiveram reunidos em Brasília.

“A Comissão Episcopal para a Tradução dos Textos Litúrgicos (Cetel) se reuniu em Brasília (DF), na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), para dar continuidade às revisões da tradução do Missal Romano e de outros textos litúrgicos. Esta é a segunda reunião do ano e a primeira reunião da nova composição da Cetel, após a sua escolha, em maio, em Aparecida (SP), na 49ª Assembleia Geral da CNBB. (…) Desde 2005 a equipe da Cetel vem fazendo o trabalho de tradução e revisão da terceira edição do Missal Romano. Por ano são três reuniões.”

Há seis anos – e com grande atraso – tal comissão começou a fazer um importantíssimo trabalho de rever as péssimas traduções clementinas que vigoram entre nós. A terceira edição típica não oferece grandes novidades em relação às edições anteriores, ou seja, não fizeram significativos acréscimos ou mudanças  no pobre Missal de Paulo VI, mas um novo missal em língua vulgar poderá acrescentar muito, sobretudo para os padres.

Costumo dar como exemplo as palavrinhas “sanctas ac venerabilis” do Cânon Romano. Elas estavam lá antes de “mudarem” a Missa; permaneceram no Missal de Paulo VI e são repetidas ininterruptamente há centenas de anos pelos sacerdotes ao se referirem às mãos de Nosso Senhor no sagrado momento da consagração. Desde que rezem em latim, como eu fiz ontem! Porque no Brasil Dom Clemente Isnard e Cia. decidiram amputar as mãos divinas.

Alguns alegam que se trata de um preciosismo tolo, que o mais importante é a participação do povo e que, afinal, o Cânon quase não é usado. Mas ninguém responde em que três palavrinhas incomodam tanto e a quem, para que tenham sido sumariamente eliminadas do Missal em português. E como elas, tantas outras que sobreviveram no Missal em latim, não foram poupadas nestas bandas.

Eu imagino que só veremos a tradução acabada quando a Santa Sé ameaçar o mundo com uma quarta edição do Missal Romano – revista, ampliada e corrigida. Se isto acontecesse, a Cetel se apressaria em trazer à luz a atualíssima de 2001 (sic!), antes que os curialistas resolvessem enriquecer o Missal ou eliminar seus excessos.