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17 novembro, 2017

Mons. Fernández: o Papa mudou a disciplina sobre a comunhão dos divorciados que voltaram a se casar.

É a única interpretação possível de Amoris Laetitia. Num artigo publicado em CEBITEPAL, Mons. Víctor Manuel Fernández assegura que o Papa mudou a disciplina vigente sobre os divorciados que voltaram a se casar.

Por InfoCatólica, 23 de agosto de 2017 | Tradução: FratresInUnum.comO artigo que se intitula “O capítulo VIII de Amoris Laetitia: o que fica depois da tormenta”, de Mons. Fernández, Reitor da Pontifícia Universidade Católica da Argentina.

O texto começa assim:

Na hora de interpretar o capítulo oitavo de Amoris Laetitia, particularmente no que se refere ao acesso à comunhão eucarística dos divorciados em uma nova união, convém partir da interpretação que o mesmo Francisco fez de seu próprio texto, explícita em sua resposta aos Bispos da região de Buenos Aires.

Francisco propõe um passo adiante, que implica numa mudança na disciplina vigente. Mantendo a distinção entre bem objetivo e culpa subjetiva, e o princípio de que as normas morais absolutas não admitem exceção, distingue entre a norma e sua formulação e sobretudo reclama uma atenção especial aos condicionamentos atenuantes.

Francisco admite que um discernimento pastoral no âmbito do “foro interno”, atento à consciência da pessoa, possa ter consequências práticas no modo de aplicar a disciplina. Esta novidade convida a recordar que a Igreja realmente pode evoluir, como já aconteceu na História, tanto na sua compreensão da doutrina como na aplicação de suas consequências disciplinares.

Mas assumir isto no tema que nos ocupa, exige aceitar uma nova lógica sem esquemas rígidos. Contudo, isto não significa uma ruptura, mas uma evolução harmoniosa e uma continuidade criativa em relação aos ensinamentos dos Papas anteriores.

A realidade é que o que indica Mons. Fernández não é uma novidade nem uma continuidade criativa, mas uma proposição condenada explicitamente pelo Magistério da Igreja. Por exemplo, é contrário ao indicado na “Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a recepção da comunhão eucarística por parte dos fiéis divorciados que voltaram a se casar”, aprovada pelo Papa São João Paulo II e enviada aos Bispos pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (logo depois, Papa Bento XVI), no dia 14 de setembro de 1994:

6. O fiel que convive habitualmente more uxorio com uma pessoa que não é a legítima esposa ou o legítimo marido, não pode receber a comunhão eucarística. Caso aquele o considerasse possível, os pastores e os confessores – dada a gravidade da matéria e as exigências do bem espiritual da pessoa(10) e do bem comum da Igreja – têm o grave dever de adverti-lo que tal juízo de consciência está em evidente contraste com a doutrina da Igreja(11). Devem também recordar esta doutrina no ensinamento a todos os fiéis que lhes estão confiados.

Isto não significa que a Igreja não tenha a peito a situação destes fieis que, aliás, de fato não estão excluídas da comunhão eclesial. Preocupa-se por acompanhá-las pastoralmente e convidá-las a participar na vida eclesial na medida em que isso seja compatível com as disposições do direito divino, sobre as quais a Igreja não possui qualquer poder de dispensa(12). Por outro lado, é necessário esclarecer os fiéis interessados para que não considerem a sua participação na vida da Igreja reduzida exclusivamente à questão da recepção da Eucaristia. Os fiéis hão-de ser ajudados a aprofundar a sua compreensão do valor da participação no sacrifício de Cristo na Missa, da comunhão espiritual(13), da oração, da meditação da palavra de Deus, das obras de caridade e de justiça(14).

7. A convicção errada de poder um divorciado novamente casado receber a comunhão eucarística pressupõe normalmente que se atribui à consciência pessoal o poder de decidir, em última instância, com base na própria convicção(15), sobre a existência ou não do matrimónio anterior e do valor da nova união. Mas tal atribuição é inadmissível(16). Efectivamente o matrimónio, enquanto imagem da união esponsal entro Cristo e a sua Igreja, e núcleo de base e factor importante na vida da sociedade civil, constitui essencialmente uma realidade pública.

Também é contrário ao ensinamento do Papa Bento XVI na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis:

O Sínodo dos Bispos confirmou a práxis da Igreja, fundamentada na Sagrada Escritura (cf. Mc 10, 2-12), de não admitir aos sacramentos os divorciados casados de novo, porque seu estado e sua condição de vida contradizem objetivamente essa união de amor entre Cristo e a Igreja que se significa e se atualiza na Eucaristia.

O arcebispo Fernández pretende que a novidade introduzida pelo Papa Francisco seja irreversível:

Depois de vários meses de intensa atividade dos setores que se opõem às novidades do capítulo oitavo de Amoris Laetitia – minoritários mas hiperativos – ou de fortes tentativas de dissimulá-las, a guerra parece ter chegado a um ponto morto. Agora convêm reconhecer o que é que concretamente nos deixa Francisco como novidade irreversível.

E explica o porquê afirma tal coisa:

Se o que interessa é conhecer como o próprio Papa interpreta o que ele escreveu, a resposta está muito clara em seu comentário às orientações dos Bispos da Região Buenos Aires. Depois de falar da possibilidade de que os divorciados numa nova união vivam em continência, eles dizem que “em outras circunstâncias mais complexas, e quando não se pode obter uma declaração de nulidade, a opção mencionada pode não ser de fato possível”. E a continuação, acrescentam que: “(…) não obstante, igualmente é possível um caminho de discernimento. Se se chega a reconhecer que, num caso concreto, há limitações que atenuam a responsabilidade e a culpabilidade (cf. 301-302), particularmente quando uma pessoa considere que cairia numa nova falta prejudicando aos filhos da nova união, Amoris Laetitia abre a possibilidade do acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia (cf. notas 336 e 351).

De fato, já que esta é a postura do Papa – acrescenta – não cabe esperar que responda a outras perguntas sobre sua própria interpretação como seria o caso dos Dubia apresentados por quatro cardeais:

Francisco lhe enviou imediatamente uma carta formal dizendo que “o escrito é muito bom e explicita definitivamente o sentido do capítulo VIII”. Mas é importante advertir que acrescenta: “Não há outras interpretações” (carta de 05/09/2016). Portanto, é desnecessário esperar outra resposta do Papa.

O restante do artigo de Mons. Fernández é uma tentativa de justificar a ruptura de Amoris Laetitia com o Magistério precedente. E vai mais além ao contrariar o ensinamento do Catecismo, que indica no seu parágrafo 2353 que “A fornicação é a união carnal entre um homem e uma mulher fora do matrimônio… É gravemente contrária… Além disso, é um escândalo grave.” No entanto, o Arcebispo considera que nem sempre é pecado:

 “(…) é lícito perguntar-se se os atos de uma convivência more uxório devem cair sempre, em seu sentido íntegro, dentro do preceito negativo que proíbe ‘fornicar’. Digo ‘em seu sentido íntegro’ porque não é possível sustentar que esses atos sejam, em todos os casos, gravemente desonestos em sentido subjetivo.

E também aponta a uma hipotética impossibilidade de cumprir os mandamentos em determinadas circunstâncias.

Francisco considera que, ainda conhecendo a norma, uma pessoa ‘pode estar em condições concretas que não lhe permitem atuar de maneira diferente e tomar outras decisões sem uma nova culpa. Como bem expressaram os Padres Sinodais, pode haver fatores que limitam a capacidade de decisão’. Fala de sujeitos que ‘não estão em condições seja de compreender, de valorizar ou de praticar plenamente as exigências objetivas da lei’. Num outro parágrafo o reafirma: ‘Em determindas circunstâncias, as pessoas encontram grandes dificuldades para agir de modo diverso’.

No entanto,  o Concílio de Trento, em seu cânon XVIII sobre a justificação, decreta:

Se alguém disser que é impossível ao homem ainda justificado e constituído em graça, observar os mandamentos de Deus, seja excomungado.

E diz a Escritura:

“Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela.” 1ª Cor 10,13

 

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14 novembro, 2017

Entrevista do Cardeal Raymond Burke sobre os “dubia”, um ano depois da sua publicação.

Por Sandro Magister, 14 de novembro de 2017

P. – Vossa Eminência, em que ponto estamos desde que, faz esta semana um ano, os “dubia” foram tornados públicos por Vossa Eminência, pelo Cardeal Walter Brandmüller, e pelos dois Cardeais recentemente falecidos, Carlo Caffarra e Joachim Meisner?

R. – Um ano depois da publicação dos “dubia” a respeito de “Amoris Laetitia”, que não receberam qualquer resposta por parte do Santo Padre, observamos que é cada vez maior a confusão acerca da interpretação da Exortação Apostólica. Torna-se por isso mais urgente ainda a minha preocupação pela situação da Igreja e pela sua missão no mundo. Naturalmente, continuo em contacto regular com o Cardeal Walter Brandmüller acerca destes assuntos de extrema gravidade. Ambos permanecemos em profunda unidade com os saudosos Cardeais Joachim Meisner e Carlo Cafarra, que nos deixaram nos últimos meses. É assim que de novo reitero a gravidade desta situação que se tem vindo a agravar continuamente.

P. – Muito se tem dito acerca dos perigos inerentes à natureza ambígua do Capítulo 8 de “Amoris Laetitia”, sublinhando-se como dá azo a interpretações diversas. Porque é que a clareza é tão importante?

R. – A clareza no ensinamento não implica de todo qualquer rigidez que pudesse impedir as pessoas de caminhar; bem pelo contrário, já que é precisamente essa clareza que vem trazer a luz necessária para se poder acompanhar as famílias a seguirem o caminho próprio dos discípulos de Cristo. É ao invés a obscuridade, e ela somente, que, impedindo que se enxergue o caminho, vem prejudicar a acção evangelizadora da Igreja, como nos diz Jesus: “Vem a noite, quando ninguém pode trabalhar” (Jo 9, 4).

P. – Poderia explicar algo mais, à luz dos “dubia”, acerca do que se está a acontecer na presente situação?

R. – A presente situação, longe de diminuir a importância dos “dubia” ou perguntas, torna-os ainda mais prementes. Não se trata de todo, como houve quem dissesse, de uma “ignorantia affectata”, que levanta dúvidas por não se querer aceitar um determinado ensinamento. Do que se trata nos dubia é sim, em vez disso, de determinar com precisão o que o Papa quis ensinar como sucessor de Pedro. Assim, as perguntas nascem precisamente do próprio reconhecimento daquele ofício petrino que o Papa Francisco recebeu de Nosso Senhor para confirmar na fé os seus irmãos, que é a sua finalidade. O Magistério é um dom de Deus à Igreja, para que faça clareza sobre pontos relativos ao depósito da fé. Afirmações em que falte essa mesma clareza, pela sua própria natureza, não podem ser qualificadas como expressões do Magistério.

P. – Do ponto de vista de Vossa Eminência, porque é que se torna tão perigoso que haja interpretações divergentes de “Amoris Laetitia”, em especial no que toca ao tratamento pastoral a dispensar a quantos vivam numa união irregular, e mais particularmente, no que diz respeito aos divorciados civilmente “recasados” que não vivem em perfeita continência e à questão de estes poderem ou não receber a Sagrada Eucaristia?

R. – É hoje evidente que foram sendo propostas várias interpretações, divergentes e até mesmo incompatíveis entre si, para certas indicações contidas em “Amoris Laetitia” e relativas a aspectos essenciais da fé e da prática da vida cristã. Este facto incontestável confirma que tais indicações aí contidas são ambivalentes e permitem diversas leituras, muitas das quais em contraposição com a doutrina católica. Assim sendo, as questões que nós Cardeais levantámos dizem respeito a saber o que foi exactamente que o Santo Padre ensinou e de que modo o seu ensinamento se harmoniza com o depósito da fé, dado que o magistério “não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado” (Concílio Vaticano II, Constituição dogmática “Dei Verbum”, n. 10).

P. – Não será que o Papa já não deixou claro qual seja a sua posição por meio da carta que endereçou a alguns bispos argentinos, na qual afirmou que “não há outra interpretação” senão a das linhas directrizes promulgadas por esses bispos – linhas directrizes essas que deixaram aberta a possibilidade de conviventes sexualmente activos não casados receberem a comunhão?

R. – Ao contrário do que foi dito entretanto, não podemos considerar como resposta adequada às questões levantadas a carta escrita pelo Papa pouco antes de receber os “dubia”, dirigida aos bispos da região de Buenos Aires e versando sobre as linhas directrizes estabelecidas por estes prelados. Por um lado, tais linhas directrizes podem elas próprias ser interpretadas de maneiras diferentes; e, por outro, não fica claro que a carta em questão seja um texto magisterial, mediante o qual o Papa tenha querido falar à Igreja universal enquanto sucessor de Pedro. O facto de que essa carta se tenha tornado conhecida porque houve uma fuga de informação para a imprensa – só depois tendo sido tornada pública pela Santa Sé – levanta uma dúvida razoável sobre se o Santo Padre teria a intenção de a dirigir à Igreja universal. Além do mais, seria bastante estranho – e contrário ao desejo manifestado explicitamente pelo Papa Francisco de deixar aos bispos de cada país a aplicação concreta de “Amoris Laetitia” (cf. AL, n. 3) – que agora o Papa viesse impor a toda a Igreja universal aquelas que são apenas as directivas concretas de uma pequena região. A ser assim, não deveriam porventura passar a considerar-se inválidas as diversas disposições promulgadas por vários bispos para as suas dioceses, desde Filadélfia até Malta? Um ensinamento que não é suficientemente determinado, seja quanto à respectiva autoridade como quanto ao seu efectivo conteúdo, não pode pôr em dúvida a clareza do ensinamento constante da Igreja, que, aliás, qualquer que seja o caso, permanece sempre normativo.

P. – Também está preocupado pelo facto de que certas conferências episcopais, ao permitirem que alguns divorciados “recasados” e que vivam “more uxorio” (isto é, que continuem a manter relações sexuais) possam receber a Sagrada Eucaristia sem um firme propósito de emenda, elas estejam com isso a contradizer o precedente ensinamento papal, em particular o contido na exortação apostólica “Familiaris consortio”, do Papa São João Paulo II?

R. – Sim, os “dubia”, as nossas questões continuam em aberto. Quantos afirmam que disciplina ensinada por “Familiaris consortio” n. 84 mudou, mostram-se em oposição entre si logo que se trata de explicar as razões e as consequências. Alguns há que chegam ao ponto de defender que os divorciados com uma nova união e que continuam a viver “more uxorio” não se encontrariam num estado objectivo de pecado mortal (citando em seu apoio AL n. 303); outros negam esta interpretação (citando em seu apoio AL n. 305), e no entanto, deixam depois completamente entregue ao juízo da consciência a determinação dos critérios de acesso aos sacramentos. Parece pois que o objectivo dos intérpretes seja aquele de se chegar a todo o custo a uma mudança da disciplina, sem importar os argumentos que para tal fim se aduzam, e sem ter em consideração o quanto põem em perigo pontos essenciais do depósito da fé.

P. – Que efeito tangível tem tido esta mistura de interpretações?

R. – Tamanha confusão hermenêutica já produziu, de facto, um triste resultado. Verificamos que a ambiguidade a respeito de um ponto concreto da pastoral familiar conduziu alguns a propor uma mudança de paradigma acerca de toda a prática moral da Igreja, cujos fundamentos foram ensinados com autoridade por São João Paulo II na encíclica “Veritatis splendor”.

A verdade é que se activou um processo de subversão de partes essenciais da Tradição. No que toca à moral cristã, alguns sustentam que é necessário relativizar as normas morais absolutas e que se deve dar à consciência subjectiva, a uma consciência auto-referencial, um primado – em última análise equívoco – em matéria de moral. Por conseguinte, o que aqui está em jogo não é um elemento tão-só secundário do “kerygma”, da mensagem fundamental do Evangelho. Do que estamos a falar é de saber se sim ou não, o encontro de uma pessoa com Cristo pode, por meio da graça de Deus, configurar o caminho da vida cristã, de modo a que este possa estar de acordo com o plano sapiente do Criador. Para melhor se compreender o alcance das mudanças que assim se propõem, basta pensar no que aconteceria se esse raciocínio viesse a ser aplicado a outros casos, como o do médico que pratica abortos, o do político que está ligado a uma rede de corrupção ou o de alguém que, estando em sofrimento, decida recorrer a uma modalidade de suicídio assistido…

P. – Alguns disseram que o efeito mais pernicioso é que tudo isto representa não só um ataque ao ensinamento moral da Igreja, mas também aos Sacramentos. De que modo?

R. – Para além do debate em torno da moral, está a provocar-se na Igreja uma erosão cada vez mais evidente do significado da sua prática sacramental, especialmente no que toca à Penitência e à Eucaristia. O critério decisivo para a admissão aos sacramentos sempre foi o da coerência do modo como uma pessoa vive com os ensinamentos de Jesus. Se agora, em vez disso, o critério decisivo passasse a ser a ausência de culpabilidade subjectiva das pessoas – como o fazem alguns dos intérpretes de “Amoris Laetitia” – não se estaria com isso a mudar também a própria natureza dos sacramentos? De facto, estes não são encontros privados com Deus nem meios sociológicos de integração comunitária. São sim sinais visíveis e eficazes da nossa incorporação em Cristo e na Sua Igreja, pelos quais e nos quais a Igreja professa publicamente a sua fé e a realiza. Assim, em se assumindo a culpabilidade subjectiva diminuída de uma pessoa ou a ausência de tal culpabilidade como critério decisivo para a admissão aos sacramentos, estar-se-ia a pôr em perigo a própria “regula fidei”, a regra da fé, que os sacramentos proclamam e realizam, não somente por meio de palavras mas também com gestos visíveis. Mais: como poderia a Igreja continuar a ser sacramento universal de salvação, se se esvaziasse de conteúdo o significado próprio dos sacramentos?

P. – Apesar de Vossa Eminência e muitos outros, incluindo mais de 250 académicos e sacerdotes que emitiram uma “correcção filial”, terem claramente sérias apreensões e reservas acerca dos efeitos destas passagens de Amoris Laetitia, e porque, até ao presente, não obteve ainda qualquer resposta por parte do Santo Padre, pode-se dizer que está aqui a dirigir-lhe um último apelo?

R. – Sim, por estas graves razões, um ano depois de se ter tornado públicos os “dubia”, de novo me dirijo ao Santo Padre e a toda a Igreja, sublinhando vigorosamente o quanto é urgente que o Papa, exercendo o ministério que recebeu do Senhor, confirme os seus irmãos na fé, com uma manifestação clara da doutrina atinente tanto à moral cristã como ao significado da prática sacramental da Igreja.

10 novembro, 2017

A fumaça de Satanás segundo Francisco.

Não, não é aquela denunciada por Paulo VI. Afinal, de que vale proibir a Comunhão aos recasados, o acesso a cargos importantes no Banco Vaticano e na cúria romana? Não há com o que se preocupar! “Quem sou eu para julgar”?!  “Ouso dizer, a Igreja nunca esteve tão bem“. 

Intolerável, mesmo, é o tabaco. É proibido fumar!

* * *

Papa decide proibir venda de tabaco no Vaticano

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João XXIII, canonizado por Francisco, propagava com seu exemplo “uma prática que prejudica claramente a saúde das pessoas”, nos dizeres do porta-voz do Vaticano.

Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco decidiu que a partir de 2018, será proibida a venda de tabaco na Cidade do Vaticano. “A explicação – segundo o porta-voz da Santa Sé, Greg Burke – é simples: nenhum lucro pode ser legítimo se está custando a vida de pessoas”.

Lembrando que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabaco causa de mais de sete milhões de mortes ao ano no mundo, o porta-voz anunciou que “a Santa Sé não pode cooperar com uma prática que prejudica claramente a saúde das pessoas”.

Até agora, os funcionários e aposentados do Vaticano podiam comprar cigarros, charutos e tabaco com desconto no supermercado que se encontra no Estado pontifício, o que representa uma fonte de receita para a Santa Sé.

“No entanto, nenhum lucro pode ser legítimo se coloca em risco a vida das pessoas”, completou Greg Burke.

 

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1 novembro, 2017

Um teólogo escreve ao Papa: Há um caos na Igreja, e o senhor é uma causa.

Por Sandro Magister, 1º de novembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – Thomas G. Weinandy é um dos teólogos mais conhecidos. Vive em Washington, no Seminário dos Capuchinhos, a ordem franciscana à qual pertence. É membro da Comissão Teológica Internacional, a comissão que Paulo VI colocou ao lado da Congregação para a Doutrina da Fé para que pudesse se valer dos melhores teólogos de todo o mundo. É membro desta comissão desde 2014, o que significa que foi nomeado pelo Papa Francisco.

No último mês de maio, enquanto estava em Roma para uma sessão da comissão, surgiu a idéia de escreveu a Francisco uma carta aberta para lhe confiar a inquietude, não só sua, mas de muitos fiéis, pelo crescente caos que há na Igreja, que considera ser causado, em boa parte, pelo próprio Papa.

Rezou muito, inclusive no túmulo de Pedro. Pediu a Jesus que lhe ajudasse a decidir escrever ou não a carta e que lhe desse um sinal… E ele chegou um dia depois, conforme o que havia pedido na oração, e que agora relata da seguinte forma:

> “There was no longer any doubt that Jesus wanted me to write…”

Ao ter sido confortado pelo céu, o padre Weinandy decidiu escrever a carta. Em meados do verão passado, enviou-a ao Papa Francisco. E hoje, festa de Todos os Santos, torna-a pública no portal americano de informação religiosa Crux e imediatamente depois, em Roma, em quatro idiomas, em Settimo Cielo [e, em português, no FratresInUnum.com, graças à gentileza de um nobre amigo].

Padre Weinandy, de 71 anos, lecionou nos Estados Unidos em diversas universidades, em Oxford durante doze anos e em Roma na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Foi, durante nove anos, diretor executivo do Secretariado para a Doutrina da Conferência Episcopal Norte-americana.

* * *

Santidade:

Escrevo esta carta com amor à Igreja e sincero respeito por vosso ministério. Vós sois o Vigário de Cristo na terra, o Pastor do Seu rebanho, o Sucessor de São Pedro e, portanto, a rocha sobre a qual Cristo construiu Sua Igreja. Todos os católicos, sejam clérigos ou leigos, devem dirigir-se a Vós com lealdade e obediência filiais fundamentadas na verdade. A Igreja se dirige a Vós com espirito de fé, com a esperança de que Vós a guieis no amor.

No entanto, Santidade, Vosso Pontificado parece estar marcado por uma confusão crônica. A luz da fé, a esperança e o amor não estão ausentes, mas muito frequentemente estão obscurecidos pela ambiguidade de vossas palavras e ações. Isto faz com que entre os fiéis haja cada vez mais inquietação, enfraquecendo sua capacidade de amor, de alegria e de paz. Permiti-me dar alguns exemplos.

O primeiro se refere à disputa em relação ao Capítulo oitavo de Amoris Laetitia. Não necessito compartilhar minhas próprias preocupações sobre seu conteúdo. Outros, não só teólogos, mas também cardeais e bispos, já o fizeram. A preocupação principal é vossa maneira de ensinar. Em Amoris Laetitia, vossas indicações parecem às vezes intencionalmente ambíguas, convidando tanto a uma interpretação tradicional do ensinamento católico sobre o matrimônio e o divórcio, como também a uma interpretação que parece levar consigo uma mudança neste ensinamento. Como Vós mesmo, com grande sabedoria, observa, os pastores devem acompanhar e animar às pessoas que se encontram em matrimônios irregulares; mas a ambiguidade persiste em relação ao significado real desse “acompanhamento”. Ensinar com uma falta de clareza pode inevitavelmente levar a pecar contra o Espírito Santo, o Espírito da verdade. O Espírito Santo foi entregue à Igreja e sobretudo a Vós, para dissipar o erro, não para fomentá-lo. Além disso, só onde há verdade pode haver verdadeiro amor, porque a verdade é a luz que liberta os homens e as mulheres da cegueira do pecado, uma obscuridade que mata a vida da alma. No entanto, Vós pareceis censurar e inclusive ridicularizar aqueles que interpretam o Capítulo oitavo de Amoris Laetitia segundo a Tradição da Igreja, rotulando-os de fariseus apedrejadores representantes de um rigorismo sem misericórdia. Este tipo de calúnia é alheia à natureza do Ministério Petrino. Parece que alguns de seus conselheiros se dedicam lamentavelmente a este tipo de atitude. Este comportamento dá a impressão de que vosso ponto de vista não pode sobreviver a um escrutínio teológico, e por isso deve ser sustentado mediante argumentos ad hominem.

Segundo. Muito frequentemente vossas formas parecem menosprezar a importância da doutrina da Igreja. Uma e outra vez Vós vos referis à doutrina como se fosse algo morto, algo útil somente para ratos de biblioteca, que estão longe das preocupações pastorais da vida diária. Aqueles que vos criticam foram acusados – e são palavras vossas – de fazer da doutrina uma ideologia. Mas é precisamente a doutrina cristã – incluindo as sutis distinções relacionadas às crenças fundamentais como a natureza trinitária de Deus, a natureza e a finalidade da Igreja; a Encarnação; a Redenção; os sacramentos – que liberta o homem das ideologias mundanas e garante-lhe que está pregando e ensinando o Evangelho verdadeiro, doador de Vida. Aqueles que subestimam a doutrina da Igreja se separam de Jesus, Autor da verdade. E o único que resta então é uma ideologia; uma ideologia que se conforma com o mundo do pecado e da morte.

Terceiro. Os fiéis católicos estão desconcertados pela vossa escolha de alguns bispos, homens que não só estão abertos àqueles que tem pontos de vista contrários à fé cristã, mas que também os apoiam e inclusive os defendem. O que escandaliza os fiéis e inclusive a alguns irmãos Bispos não é só o fato de que Vós nomeeis a estes homens como Pastores da Igreja, mas que permaneçais calado ante seu ensinamento e prática pastorais, debilitando assim o zelo de muitos homens e mulheres que defenderam a autêntica doutrina católica durante muito tempo, às vezes arriscando sua própria reputação e bem-estar. O resultado: muitos fiéis, em representação do sensus fidelium, estão perdendo a confiança em seu Pastor Supremo.

Quarto. A Igreja é um Corpo, o Corpo Místico de Cristo, e o Senhor vos encarregou a Vós a missão de promover e fortalecer sua unidade. Mas vossas ações e palavras parecem dedicar-se, frequentemente, a fazer o oposto. Alentar uma forma de “sinodalidade” que permite e fomenta várias opções doutrinais e morais dentro da Igreja só pode levar a uma maior confusão teológica e pastoral. Esta sinodalidade é insensata e na prática é contrária à unidade colegial dos Bispos.

Santo Padre, tudo isso me leva à última preocupação. Vós frequentemente falais sobre a necessidade de que haja transparência dentro da Igreja, exortando sobretudo nos dois últimos Sínodos, a que todos, especialmente os Bispos, falem francamente e sem medo ao que pudesse pensar o Papa. Mas, vós conseguistes perceber que a maioria dos Bispos do mundo estão surpreendentemente silenciosos? Por quê? Os Bispos aprendem rápido. E o que muitos aprenderam em vosso Pontificado é que vós não estais aberto a críticas, mas que vos molesta ser objeto delas. Muitos Bispos estão silenciosos porque desejam ser-vos leais e, por conseguinte, não se expressam – pelo menos publicamente; outra questão é se não o fazem privadamente – a preocupação que lhes causa vosso pontificado. Muitos temem que, se falarem francamente, serão marginalizados. Ou algo pior.

Constantemente me pergunto: “Por que Jesus deixa que tudo isso ocorra?” A única resposta que consigo dar-me é que Jesus quer manifestar quão débil é a fé de muitas pessoas que estão dentro da Igreja, inclusive de muitos – demasiados – Bispos. Ironicamente, Vosso Pontificado deu a liberdade e a confiança para aqueles que têm um ponto de vista pastoral e teológico prejudicial saíssem à luz e expusessem sua maldade, que antes estava oculta. Reconhecendo esta maldade, a Igreja humildemente necessitará renovar-se e assim seguir crescendo em santidade.

Santo Padre, rezo constantemente por Vós. E seguirei rezando. Que o Espírito Santo vos guie na direção da luz da verdade e da vida do amor, para que possais dispersar a maldade que nestes momentos está ocultando a beleza da Igreja de Cristo.

Sinceramente em Cristo,

Thomas G. Weinandy, O.F.M., Cap.

31 de julho de 2017
Festa de Santo Inacio de Loyola

 

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31 outubro, 2017

Editorial: Nos 500 anos da “Reforma” Protestante. Lutero e Bergoglio, um paralelo inquietante.

Por FratresInUnum.com – 31 de outubro de 2017

Uma heresia como as outras? Decisivamente, não. E isso não em benefício do luteranismo. Aliás, é exatamente o contrário.

As heresias antigas eram primores intelectuais em comparação com o disparate doutrinal de Lutero. O arianismo, embora tenha quase engolido a Igreja, era um erro em que humanamente a inteligência poderia tropeçar; erro que foi debelado com sucesso pela valentia de Santo Atanásio e do povo fiel. Como afirmava São Jerônimo, “enquanto o mundo de improviso amanheceu Ariano, em pé ficava o grande lutador Atanásio”.

“Em vida fui tua peste; morto, serei tua morte, ó papa” – Martinho Lutero.

Já o luteranismo era apenas uma caricatura de cristianismo: o livre exame das Escrituras, que acabava com a unidade da fé; uma Igreja sem sacramentos e sem uma hierarquia com poder de ordem; o desprezo pelas obras, como se a salvação fosse apenas resultado de uma confiança cega, a despeito do pecado. Enfim, a loucura mesma por escrito.

Lutero jamais teria sucesso por causa de suas ideias. Aliás, quando Melancton, seu fiel discípulo, escreveu a Constantinopla pedindo adesão à nova pregação, sua missiva foi desprezada, desconsiderada por causa de sua escandalosa incoerência doutrinal. Foram tratados simplesmente como desequilibrados.

Não fosse o interesse político e econômico que havia por trás da “Reforma”, Lutero teria acabado como um desvairado completo. Contudo, os príncipes alemães, sedentos de independência política em relação a Roma, insuflaram a insurreição luterana. A isto, e apenas a isto, deve-se o sucesso das “ideias” protestantes.

Deste modo, a sangria atingiu a cristandade ocidental, devorando um terço da Europa. O luteranismo foi emplacado propositalmente com um fim: destruir o papado católico e dividir a Igreja. O objetivo foi alcançado com sucesso.

Foi justamente graças à Companhia de Jesus que a Igreja conseguiu reverter a tormenta. Santo Inácio de Loyola, após sua extraordinária conversão, quis começar sua vida intelectual do zero: voltou a estudar com as crianças, reaprendeu tudo novamente, até que ingressou na Universidade de Paris, com a intenção explícita de arrebanhar as mentes mais brilhantes. Oito homens começaram a estudar juntos e, aprendendo como abordar o erro, passaram a estudar minuciosamente o protestantismo e começaram a combater aquele arremedo de cristianismo.

Em todo o território católico, justamente nas demarcações onde avançava a nova religião, jesuítas corajosos fundaram colégios e, assim, através da educação, contiveram a dissolução da cristandade, totalmente fieis à Cátedra de Pedro.

Duzentos anos após a “Reforma”, a maçonaria, oficialmente fundada em 1717, entendeu que a supressão da Companhia de Jesus, das Monarquias e das Instituições tradicionais era necessária para a internacionalização da economia e a refundação da sociedade sobre o novo pilar do capital. Aprenderam com Lutero a destruir a Igreja. Então, podiam jogar fora a nova crença e apenas utilizar seus métodos.

Atualmente, assistimos a um fenômeno parecido. Desde março de 2013, a Igreja Católica é chefiada por um Papa extremamente autoritário, com ideias completamente ineptas, confusas, contraditórias, que tenta a todo custo promover a destruição completa do catolicismo e do papado para trazer à luz um modelo de Igreja profundamente esquizofrênico. Nos discursos e nas ações de Francisco, surge o esboço de um catolicismo que se refunda numa Confederação de Igrejas Nacionais, independentes, que professam doutrinas contraditórias.

Em tempos normais, não haveria a mínima possibilidade de essas ideias ganharem algum prestígio…, não favorecessem elas a Nova Ordem Mundial, o esquema de poder globalista, que se serve da esquerda internacional apenas como instrumento para a destruição da Igreja e de todas as sociedades.

O luteranismo queria destruir a Igreja. O globalismo quer destruir as sociedades, para transformar os indivíduos em átomos soltos, totalmente suscetíveis ao governo planetário multicultural.

No pontificado de George Soros, Bergoglio escolheu ser apenas coroinha. Por isso, tem este “sucesso”. Mas, aliás, muito entre aspas. De fato, o clero e o povo não estão acompanhando a revolução bergogliana. Por exemplo, as Igrejas na Europa continuam vazias e, na América Latina, como reclamou o próprio George Soros num recente artigo, há uma onda conservadora em plena ascensão.

Nossa geração tem uma escolha a fazer: podemos permanecer inertes e assistir a dissolução completa do catolicismo ou resistir, confiantes no Triunfo do Imaculado Coração de Maria. Ela é a nossa escolha. É a escolha de todo o povo católico militante. Continuaremos a documentar todo o desmonte bergogliano, a atitude complacente dos pastores e a reação sadia de desprezo de todo o povo católico.

Como se sentirá Santo Inácio de Loyola ao ver o primeiro papa jesuíta destruindo tudo aquilo que ele deu a vida por defender e se sentando para comemorar Lutero, a quem o jesuíta São Roberto Belarmino atribuía a alcunha de “Dragão do Apocalipse”, justamente por ter arrastado com a cauda um terço da cristandade para o erro?…

Não desanimemos. Sigamos o exemplo daqueles varões doutos, eloquentes e militantes. Preguemos a tempo e contratempo, oportuna e inoportunamente, ensinemos a doutrina católica e o veneno de Lutero será completamente anulado pela força salvadora da verdade de Cristo, da nossa santíssima Fé Católica, Apostólica, Romana.

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27 outubro, 2017

Editorial – Descentralização: o golpe mortal de Francisco no papado.

Por FratresInUnum.com – 27 de outubro de 2017

Voltemos a Cesaréia de Filipe. Ali, na Cidade de César, considerado deus do império romano, pergunta Nosso Senhor a seus discípulos o que pensam os homens dEle e, para eles, quem Ele é. Num ímpeto, São Pedro responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

Essa é a primeira passagem do Evangelho de São Mateus em que Cristo é proclamado não “Filho de Deus”, mas “O Filho de Deus”.

A reação de Nosso Senhor foi imediata: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. Por isso, eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,17-18).

Simão foi o primeiro a crer e, por isso, se transforma em Pedro. Aquilo que o faz Pedra é a sua profissão de fé, a fé que a graça de Deus faz explodir em seu coração.

Sem fé, não temos acesso a Cristo. “Sem fé, é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6), pois Cristo habita em nossos corações pela fé (cf. Ef 3,17). “Quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é ‘o’ Filho de Deus?” (1Jo 5,5).

O ofício de Pedro consiste exatamente nisso: “Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos joeirar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22,31-32).

Papa Francisco, porém, caminha no sentido apontado por Nosso Senhor?

No relato da confissão de Pedro, no Evangelho de São Mateus, pouco depois, o apóstolo tenta demover Cristo da Cruz. “Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!” (Mateus 16,23). Ele tinha deixado de pensar como Deus, para pensar como César.

Quem é o César dos nossos dias? Não é justamente o politicamente correto, a nova ética da elite globalista que domina a mídia e as fundações internacionais? Não é o progressismo meta-capitalista de George Soros e companhia, que subsidiam a esquerda internacional para destruir a sociedade e, junto com ela, a Igreja?

Pois bem, em sua carta ao Cardeal Sarah, Papa Francisco, ao confirmar toda a radicalidade de seu ato de descentralização promulgado em Magnum Principium, parece cometer explicitamente um atentado ao papado, à natureza do ofício petrino e, portanto, à constituição divina da Igreja.

O Cardeal africano tentou ainda atenuar a gravidade da situação, dizendo que “reconhecimento” e “confirmação” seriam, na prática, a mesma coisa e estariam a cargo da Sé Apostólica. Francisco desmentiu publicamente, mandou que se publicasse a carta nos mesmos sites e encaminhasse às conferências episcopais de todo o mundo, num ato de urgência em fazer clareza impressionante. Enquanto isso, os dubia

Doravante, às Conferências Episcopais se confere o poder de “confirmar” as suas próprias traduções dos livros litúrgicos, acrescentando, inclusive, as alterações que acharem oportunas. A Santa Sé apenas reconhecerá aquilo que for estabelecido por elas.

Aqui, porém, cabe uma pergunta: e se alguma Conferência Episcopal apresentar uma tradução que contenha alguma heresia?

De fato, Francisco estaria abdicando o ofício de Pedro e se nega a confirmar seus irmãos na fé, que é o maior serviço, o serviço essencial de sua missão como Pastor da Igreja Universal.

Não se trata, aqui, de uma mera nuance administrativa. A Igreja Católica está fundada sobre a rocha fundamental da fé conservada por Pedro, mas Francisco parece renunciar a cumprir o seu papel e mais: fê-lo de modo formal, por escrito e sem deixar dúvidas.

É a fé! É a fé que importa! O ofício petrino é um serviço à fé. É por causa da fé que existe o Papa e não para simplesmente coordenar institucionalmente a Igreja. Aprovando a tradução dos missais, a Santa Sé não estava se impondo ou retirando autonomia dos bispos ou das Conferências dos mesmos, mas apenas servindo-os em benefício da fé. Agindo deste modo, Francisco está se retirando da posição de alicerce da Igreja e, quando se remove um alicerce, o prédio cai!

Qual é nosso papel nessa hora tão dramática? Precisamos fazer como São Paulo, na epístola aos Gálatas: “quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe francamente, porque era censurável” (Gl 2,11).

Precisamos resistir e conservar a nossa fé integralmente, a despeito de toda a leviandade em matérias tão fundamentais e sérias. Pelo que geralmente se entende das palavras e gestos de Francisco, ele expressa uma concepção de fé fundamentalmente luterana: uma confiança vaga em Deus que gera um amor naturalista, tão somente filantrópico. Dizendo que não quer transformar a Igreja numa ONG, é exatamente nisso que ele a está transformando, transformando seu ofício numa mera coordenação de ações programadas.

Resistamos! Resistamos com coragem! Conservemos nossa Fé Católica e não nos desencorajemos por causa dessa pública traição, desse adultério contra a sacralidade da Igreja.

Nosso Senhor olhará a nossa fidelidade e a premiará, concedendo-nos, pelas Mãos Imaculadas de Maria, um Pastor fiel, e não alguém que se engraçou com os lobos e que passou a dispersar o seu próprio rebanho, ao invés de congregá-lo.

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24 outubro, 2017

A “Correctio paternalis” do Papa ao Cardeal Sarah – íntegra da carta.

Leia antes: Editorial: Francisco humilha Sarah. O apogeu da Babel litúrgica.

* * *

Por Ricardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 22 de outubro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – A interpretação que o Cardeal Robert Sarah fez do Motu Proprio “Magnum Principium” não é a correta. O espírito do documento papal é exatamente conceder às Conferências Episcopais ampla autonomia e confiança na execução  das traduções litúrgicas, algo que o Cardeal Sarah queria limitar.  E quem o diz é o próprio Papa Francisco em uma carta de próprio punho endereçada ao prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos – ou seja, o Cardeal Sarah – que aqui publicamos na íntegra a pedido explícito do próprio Pontífice. Na verdade, foi exatamente a Nuova Bussola Quotidiana que  publicou, no dia 12 de outubro, a nota do cardeal Sarah, que levando em conta algumas das reações já manifestadas, propunha uma interpretação correta do Motu Proprio (clique aqui).

O Papa é quem pede que a Nova Bússola Quotidiana publique sua carta, logo após termos publicado a nota do Cardeal Sarah: é, por assim dizer, um gesto sem precedentes do Papa Francisco. E além das questões de mérito que acenamos, sentimo-nos honrados e gratos por essa atenção do Santo Padre que objetivamente confere à NBQ autoridade para sediar um debate sobre temas fundamentais para a vida da Igreja, que o vê como protagonista junto a alguns cardeais.

Mas, vamos nos ater ao tema da controvérsia: o assunto é a tradução dos textos litúrgicos do seu original em latim, que estão em uso em diversos países. As traduções (versões e eventuais adaptações) são preparadas pelas diversas Conferências episcopais, as quais logo depois solicitam a aprovação da Santa Sé. O exame da Santa Sé ocorre através de dois instrumentos: a confirmação (confirmatio) e o reconhecimento (recognitio), e é isso que o Motu proprio quer redefinir.  Nesse ponto, eis que surgem diferentes interpretações. Segundo o Cardeal Sarah, Confirmatio e Recognitio são diferentes para o efeito produzido: confirmação apenas para a tradução da edição típica em latim e reconhecimento para a adição de novos textos e modificações rituais que obviamente não sejam substanciais, portanto dois atos idênticos do ponto de vista da responsabilidade da Santa Sé. Assim, em ambos os casos é possível e se requer uma análise detalhada de tudo: novos textos, modificações rituais, traduções do original em latim.

 A preocupação do Cardeal Sarah como prefeito da Congregação para o Culto Divino é evidente: manter a unidade da Igreja também na liturgia, respeitando ao mesmo tempo a autonomia dos bispos de diversos países na elaboração da liturgia local.

O Papa, no entanto, agora vem a público e declara que não é essa a mensagem do Motu Proprio, cuja perspectiva é uma verdadeira “devolução” litúrgica. Ele deixa claro que os dois procedimentos – confirmação e reconhecimento – não são idênticos e que no exercício dessas duas ações ocorre uma responsabilidade “diferente”, tanto da parte da  Santa Sé como das Conferências Episcopais:

a) A Recognitio “significa apenas a verificação e a salvaguarda da conformidade com o direito e a comunhão da Igreja”. É uma frase um pouco hermética, mas que deveria provavelmente ser interpretada de acordo com as palavras do comentário de Monsenhor Artur Roche, secretário da Congregação para o Culto Divino, e que acompanhou a publicação do Motu Proprio Magnum Principium: “A Recognitio (…) envolve o processo reconhecimento da parte da Sé Apostólica das legítimas adaptações litúrgicas, incluindo aquelas ‘mais profundas’ que as conferências episcopais podem estabelecer e aprovar para seus territórios, dentro dos limites permitidos. Sobre esse terreno de encontro entre liturgia e cultura, a Sé Apostólica é, portanto, chamada a reconhecer, isto é, a rever e avaliar tais adaptações, visando salvaguardar a unidade substancial do rito romano”.

b) A Confirmatio é o ato sobre o qual a carta papal concentra mais atenção. Ali fica claramente dito que o julgamento sobre a fidelidade das traduções ao seu original em latim é competência das Conferências Episcopais, “ainda que em diálogo com a Santa Sé”. O que significa que a Santa Sé, ao conceder a confirmação, não realizará mais “um exame detalhado palavra por palavra”, exceto nos casos óbvios de fórmulas relevantes, como orações eucarísticas ou fórmulas sacramentais. Em suma, há muito mais liberdade para as Conferências Episcopais.

Na carta ao Cardeal Sarah , o Papa, em seguida, explica que algumas partes de Liturgiam Authenticam (2001),  o documento normativo para as traduções atualmente em vigor, estão suprimidas ou revogadas. “Passam cuidadosamente por uma releitura ” os nn. 79-84, relativos à aprovação da tradução e reconhecimento da Sede Apostólica; “e caem em desuso”, por sua vez, os nn. 76 e 80. Este último se concentra na recognitio e, obviamente, foi reformulado, enquanto o n. 76 requeria que a Congregação “examinasse mais de perto o trabalho de preparação de traduções nos principais idiomas”.

Uma outra passagem da carta do Papa que chama a atenção. Ele diz que Magnum Principium já não mais sustenta que as traduções devem se adequar em todos os pontos às regras da Liturgiam Authenticam, como foi feito no passado. Tal afirmação unida à outra, segundo a qual uma tradução litúrgica “fiel” implica numa fidelidade tríplice – ao texto original, ao idioma da tradução e à compreensão dos destinatários – dá a entender que Magnum Principium é apenas o início de um processo que pode ir muito longe.

E aqui está a importância desta controvérsia que vê o Papa desautorizando o cardeal Sarah, um Cardeal que nada mais faz senão que seguir a linha traçada por Bento XVI. Não há dúvida de que, com o “espírito” do Magnum Principium, esclarecido e acentuado pela carta papal que aqui publicamos, a tendência será a de avançar para diferentes missais nacionais cada vez mais diferentes entre si  e para um “espírito litúrgico” cada vez menos compartilhado.

A questão vai muito além do aspecto meramente litúrgico, como argumentou repetidamente o cardeal Joseph Ratzinger e mais tarde Papa BentoXVI, a respeito do conceito de Igreja e do entendimento que a Igreja tem de si mesma. Em jogo está principalmente o papel e o poder das Conferências Episcopais para as quais o Papa Francisco pretende transferir “até mesmo uma certa autêntica autoridade doutrinal ” (cfr. Evangelii Gaudium no. 32).

Pelo contrário, já no livro-entrevista com Vittorio Messori intitulado  “O Relatório sobre a Fé” (1985) – O Cardeal Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, comentando positivamente sobre a valorização do “papel de responsabilidade do bispo” desejada pelo Concílio, lamentou a deriva pós-Vaticano II: “o relançamento do papel do bispo foi realmente amortecido ou corre o risco de ser sufocado pela inserção dos bispos em conferências episcopais cada vez mais organizadas e com estruturas burocráticas, muitas vezes pesadas. No entanto, não devemos esquecer que as conferências episcopais não possuem base teológica, não fazem parte da estrutura ineliminável da Igreja, como ela é desejada por Cristo: elas só têm uma função prática e concreta”. O coletivo não substitui a pessoa do bispo. Este é um ponto decisivo, “porque – disse o Cardeal Ratzinger – se trata de salvaguardar a própria natureza da Igreja Católica que se baseia em uma estrutura episcopal, não em algum tipo de federação de igrejas nacionais. O nível nacional não é uma dimensão eclesial. É necessário que fique claro mais uma vez, que em cada diocese não há mais do que um só pastor e mestre da fé, em comunhão com os outros pastores e mestres e com o Vigário de Cristo”.

* * *

Publicamos a seguir a tradução da carta do Papa Francisco ao Cardeal Robert Sarah [destaques nossos]:

 

Cidade do Vaticano, 15 outubro 2017

À Sua Eminência Reverendíssima

Sr. Card. Robert SARAH

Prefeito da Congregação para o Culto Divino

e a Disciplina dos Sacramentos

Cidade do Vaticano

Eminência,

Recebi sua carta de 30 de setembro u.s., com o qual o senhor quis expressar gentilmente sua gratidão pela publicação do Motu Proprio Magnum Principium e transmitir-me uma nota elaborada, “Commentaire”, sobre o mesmo, visando uma melhor compreensão do texto.

Ao agradecê-lo sinceramente por seu empenho e contribuição, tomo a liberdade de expressar-me de modo simples e espero claramente, algumas observações sobre a referida nota que considero particularmente importante para a aplicação e a justa compreensão do Motu Proprio e para evitar qualquer mal-entendido.

Antes de tudo, é importante destacar a importância da nítida diferença que o novo Motu Proprio estabelece entre recognitio e confirmatio, bem sancionada nos §§ 2 e 3 do canon 838, para revogar a prática adotada pelo Dicastério seguindo a Liturgiam Authenticam (LA) e que o novo Motu Proprio decidiu modificar. Não se pode dizer, portanto, que recognitio e confirmatio são “estritamente sinônimos (ou) são intercambiáveis” ou mesmo que “são intercambiáveis ao nível de responsabilidade da Santa Sé”.

Na verdade, o novo canon 838, através da distinção entre recognitio e confirmatio, estabelece as diferentes responsabilidades da Sé Apostólica no exercício dessas duas ações, bem como a das Conferências Episcopais. Magnum Principium não sustenta mais que as traduções devem estar em tudo de acordo com as regras da Liturgiam Authenticam, como foi feito no passado. Por isso, cada um dos números da Liturgiam Authenticam devem ser relidos atentamente, incluindo os números. 79-84, a fim de distinguir o que é pedido pelo código para a tradução e o que é necessário para as legítimas adaptações.  Fica, portanto, claro que alguns números da LA foram revogados ou caíram em desuso, nos termos em que eles foram reformulados pelo novo canon do Motu Proprio (por ex. N. 76 e também o n. 80).

Sobre a responsabilidade das Conferências Episcopais de traduzir “fideliter”, é necessário deixar claro que o julgamento sobre a fidelidade ao original em latim e as eventuais correções necessárias, era tarefa do Dicastério, enquanto que agora a norma concede às Conferências Episcopais a faculdade de julgar a bondade e a coerência de um e de outro termo nas traduções do original, ainda que em diálogo com a Santa Sé. Portanto, a confirmatio não supõe mais um exame detalhado feito palavra por palavra, exceto em casos óbvios que podem ser fatos apresentados aos Bispos para a sua posterior reflexão. Isto aplica-se em particular às fórmulas relevantes, como para as Orações Eucarísticas, especialmente as fórmulas sacramentais aprovadas pelo Santo Padre. A confirmatio também leva em conta a integridade do livro, ou seja, verifica se todas as partes que compõem a edição típica foram traduzidas [1].

Aqui se pode acrescentar que, à luz do MP, o “fideliter” do § 3 do cânon, implica uma tríplice lealdade: ao texto original, em primeiro lugar; ao idioma particular no qual for traduzido e finalmente à compreensão do texto por parte dos destinatários (cf. Institutio Generalis Missalis Romani nos. 391-392)

Neste sentido, a recognitio indica apenas a verificação e salvaguarda da conformidade ao direito e à comunhão da Igreja. O processo de tradução dos textos litúrgicos relevantes (e as fórmulas sacramentais, o Credo, o Pai Nosso.) para um determinado idioma – a partir do qual são consideradas traduções autênticas – não deveria conduzir a um espírito de “imposição” às Conferências Episcopais de uma determinada tradução feita pelo Dicastério, pois isso poria em causa o direito dos bispos sancionado no cânon, e mesmo antes da SC 36 § 4. De resto, leve em conta a analogia com o canon 825 § 1 sobre a versão da Sagrada Escritura que não requer confirmatio por parte da Sé Apostólica.

Conclui-se, assim, que não é correto atribuir à confirmatio a finalidade da recognitio (ou seja, “verificar e salvaguardar a conformidade com o direito”). Certamente, a confirmatio não é um ato puramente formal, mas necessário para a edição do livro litúrgico “traduzido”, pois é concedida depois que a versão tiver sido submetida à Sé Apostólica para a ratificação da aprovação dada pelos Bispos, em um espírito de diálogo e ajuda à reflexão se e quando necessário, respeitando os direitos e deveres, considerando a legalidade do processo seguido e suas modalidades [2].

Finalmente, Eminência, reitero a minha gratidão fraterna por seu empenho e observando que a nota “Commentaire” foi publicada por alguns sites da internet e erroneamente atribuída à sua pessoa, eu peço gentilmente que o senhor providencie para que essa minha resposta seja divulgada nos mesmos sites, além de enviar a mesma à todas as Conferências Episcopais, aos membros e consultores do Dicastério.

Fraternalmente

Francisco

23 outubro, 2017

Estaria toda a doutrina moral da Igreja Católica ameaçada de destruição?

Num novo documento, o autor aborda uma pergunta fundamental: Se uma conclusão lógica chave derivada de Amoris Laetitia derrubará toda a doutrina moral da Igreja.

Por Josef Seifert | Tradução: FratresInUnum.com

Resumo

A pergunta do título deste artigo se dirige ao Papa Francisco e a todos os Cardeais, Bispos, filósofos e teólogos católicos. Trata-se de uma dúvida (dubium) sobre uma consequência puramente lógica resultante de uma afirmação em Amoris Laetitia [AL] e termina com uma súplica ao Papa Francisco para que retire ao menos uma afirmação da AL, caso a pergunta do título deste pequeno ensaio seja respondida afirmativamente e, se na realidade desta afirmação na AL, somente a pura lógica, usando premissas evidentes, pode-se deduzir a destruição de todo o ensinamento moral católico. Num estilo socrático, o artigo deixa nas mãos do Papa Francisco e de outros leitores a tarefa de responder à questão e propor suas próprias respostas.

Conteúdo

Sem dúvida alguma, Amoris Laetitia criou muita incerteza e evocou interpretações opostas em todo o mundo católico. Não desejo apresentar aqui toda a controvérsia nem repetir – ou desenvolver ainda mais – a postura que defendi sobre esta matéria em artigos anteriores (ver Josef Seifert, “Amoris Laetitia. Alegria, tristeza, esperanzas”) ainda que poderia fazê-lo como uma resposta a alguns comentários críticos que recebi de meu amigo pessoal Buttiglione, com o qual estou de acordo na maioria de outras matérias filosóficas e em outros temas.

Há uma única afirmação em AL, no entanto, que não tem nada a ver com um reconhecimento dos direitos de uma consciência moral subjetiva, relativo ao qual Rocco Buttiglione tenta demonstrar a total harmonia entre o magistério moral de São João Paulo II e do Papa Francisco, contra Robert Spaemann e outras afirmações que falam de uma clara ruptura entre eles. Buttiglione argumenta que tendo em conta os ensinamentos díspares sobre disciplina sacramental, o Papa João Paulo II tem razão se se considera somente o conteúdo objetivo dos atos humanos, enquanto que o Papa Francisco tem razão quando se concede, depois do devido discernimento, o papel e reconhecimento adequados aos fatores subjetivos e às condições excludentes de pecado mortal (conhecimento imperfeito e uma debilidade no livre-arbítrio).

A afirmação de AL sobre a qual quero aprofundar-me aqui, no entanto, não apela à consciência subjetiva de maneira alguma, mas a que sustenta que uma vontade divina totalmente objetiva nos permite realizar, em certas situações, atos que são intrinsecamente maus, e que foram sempre considerados como tais pela Igreja. Já que Deus certamente não pode carecer de conhecimento ético, nem ter uma “consciência errônea” nem uma debilidade no livre-arbítrio, esse texto não “defende os direitos da subjetividade humana”, como Buttiglione declara, mas parece afirmar claramente que estes atos intrinsecamente desordenados e objetiva e gravemente pecaminosos, como Buttiglione admite, podem ser permitidos, ou inclusive, podem ser objetivamente ordenados por Deus. Se isto é o que realmente AL diz, todos os alarmes sobre as afirmações diretas em AL, concernentes aos assuntos sobre mudanças na disciplina sacramental (permitir, depois do devido discernimento, a adúlteros, homossexuais ativos e outros casais em situação parecida, aceder aos sacramentos da confissão e da eucaristia, e logicamente também ao Batismo, à Confirmação e ao Matrimônio sem vontade alguma de mudar suas vidas nem de conviver numa total abstinência sexual, tal como pedia o Papa João Paulo II em Familiaris Consortio aos casais em tais “situações irregulares”) só são a ponta do iceberg, o débil princípio de uma avalanche ou um dos primeiros edifícios destruídos por uma bomba atômica teológica moral que ameaça com destruir completamente o edifício moral dos Dez Mandamentos e da doutrina moral católica.

Neste artigo, no entanto, não direi que este seja o caso. Pelo contrário, deixarei inteiramente nas mãos do Papa ou de qualquer outro leitor a resposta à pergunta de se há ou não ao menos uma afirmação em Amoris Laetitia que tenha como consequência lógica a destruição de todo o ensinamento moral católico. E devo admitir que o que eu li sobre uma comissão convocada para “reexaminar” a Humanae Vitae, uma Encíclica que põe fim, como mais tarde o fez a Veritatis Splendor, a décadas de debates éticos e teológico-morais, isto fez da pergunta do título de meu ensaio uma questão que me preocupa profundamente.

Vejamos o texto decisivo (AL 303) que o Papa Francisco está aplicando aos casos dos adúlteros ou outros “casais irregulares” que decidem não seguir a exigência que para eles fez o Papa São João Paulo II na Encíclica Familiaris Consortio. O Papa João Paulo II diz a estes casais que ou se separem totalmente ou, se isto é impossível, abstenham-se completamente das relações sexuais. O Papa Francisco diz, no entanto:

“… Mas esta consciência pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objetivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus e descobrir com certa segurança moral que esta é a doação que o próprio Deus está a pedir no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo…” (AL, n. 303)

Do que foi dito anteriormente, tanto como do texto que se segue, fica claro que esta “vontade de Deus” aqui se refere a continuar vivendo no que constitui objetivamente um pecado mortal. Cf. p. ex., AL, n. 298, em sua nota ao pé de página 329:

“…Nestas situações, muitos, conhecendo e aceitando a possibilidade de conviver «como irmão e irmã» que a Igreja lhes oferece, assinalam que, se faltam algumas expressões de intimidade, «não raro se põe em risco a fidelidade e se compromete o bem da prole»…”

Na Gaudium et Spes n. 51 da qual se toma a última citação, a ideia se utiliza como uma objeção não válida contra o mandato moral de não cometer nunca adultério ou um ato contraceptivo. Na AL se entende no sentido explicado anteriormente, como uma justificação para seguir cometendo, objetivamente falando, pecados mortais inclusive como isto fosse a Vontade objetiva de Deus.

Em outras palavras, além de chamar a um estado objetivo de pecado mortal, eufemisticamente, “não seja ainda plenamente o ideal objetivo”, AL diz que podemos saber com “uma certa segurança moral” que Deus mesmo nos pede que continuemos cometendo atos intrinsecamente maus tais como o adultério ou a homossexualidade ativa. Eu pergunto se pode a pura lógica falhar quando nos perguntamos sob estas premissas:

Se só um caso de um ato intrinsecamente imoral pode ser admitido e inclusive querido por Deus, isto não deveria ser aplicado a todos os atos considerados intrinsecamente maus? Não deveria então também o mandamento “não cometerás adultério” ser reformulado assim: “se na tua situação o adultério não é o mal menor, não o cometa, mas se é o mal menor continua vivendo assim”?

Não deveriam também ser eliminados os outros nove mandamentos, a Humanae Vitae, a Evangelium Vitae e todos os documentos, dogmas ou conselhos passados, presentes ou futuros da Igreja que expressam a existência de atos intrinsecamente maus? Já não seria intrinsecamente mau usar anticoncepcionais e não estaria equivocada a Humanae Vitae que diz sem dúvida alguma que nunca pode haver nenhuma situação moralmente justificável para a contracepção, nem muito menos que seja ordenada por Deus?

Para começar, não deveria então a nova comissão instituída pelo Papa Francisco para a Humanae Vitae concluir que o uso de anticoncepcionais pode ser bom em algumas ocasiões ou inclusive obrigatório e desejado por Deus? Não poderia o aborto ser justificado em alguns casos e que seja Deus mesmo o que o esteja pedindo, dentro da complexidade concreta dos limites de cada pessoa, ainda que não seja o objetivo ideal, como dizia o Mons. Fisichella, o então presidente da Academia Pontifícia para a Vida?

Não deveriam, assim, a partir do puro raciocínio lógico, considerar-se boas e dignas de louvores a eutanásia, a assistência ao suicídio ou o próprio suicídio, as mentiras, os roubos, perjúrios, a negação ou a traição a Cristo, como a de São Pedro, o assassinato, sob determinadas circunstâncias e depois de um devido discernimento, por causa da complexidade de cada situação concreta (ou devido a falta seja de conhecimento ético ou de força de vontade)? Deus não poderia então pedir que se siga com o assassinato a um siciliano que se sente obrigado a matar aos membros inocentes de uma família, cujo chefe assassinou previamente a um membro de sua própria família e cujo irmão assassinaria a quatro famílias inteiras se ele não o matasse, porque seu ato é, sob estas circunstâncias, “o que Deus mesmo está pedindo a ele dentro da complexidade concreta de seus próprios limites, ainda que não seja o ideal objetivo”? A lógica não nos pede que tiremos esta conclusão desta proposição do Papa Francisco?

No entanto, se a pergunta do título deve ser respondida afirmativamente, e acredito pessoalmente que isto seja assim, a consequência puramente lógica desta afirmação em Amoris Laetitia parece destruir todo o ensinamento moral da Igreja. Não deveria, por isso mesmo, tal afirmação ser removida e condenada pelo próprio Papa Francisco, a quem, sem dúvida nenhuma, não agrada tal consequência deduzida logica e inevitavelmente da citada afirmação do Papa Francisco?

Portanto, – se o Papa Francisco está de acordo com esta conclusão lógica, e responde à pergunta do título deste ensaio afirmativamente – rogaria ao nosso Supremo Pai espiritual na terra, “o doce Cristo na terra”, como Santa Catarina de Sena chamou a um dos Papas, sob cujo reinado ela viveu ainda que o criticasse duramente, que por favor retire esta afirmação da Amoris Laetitia.

Se suas consequências lógicas conduzem inevitavelmente a nada menos que à total destruição dos ensinamentos morais da Igreja Católica, não deveria o “doce Cristo na terra” retirar esta afirmação? Se esta tese leva como consequência lógica convincente a rejeição do fato de que haja atos que devam ser considerados intrínseca e moralmente maus sob qualquer circunstâncias e em qualquer situação, e se esta afirmação chegasse a se desvirtuar, junto com a Familiaris Consortio e a Veritatis Splendor, assim como a Humanae Vitae e tantos outros ensinamentos solenes da Igreja, não deveria ser revocada? Não existem evidentemente tais atos que são sempre intrinsecamente maus como há outros que são sempre intrinsecamente bons, justificados ou desejados por Deus? [1] E não deveriam todos os cardeais, bispos, sacerdotes, monges ou virgens consagradas e qualquer leigo na Igreja interessar-se intensamente por este problema e unir-se a esta súplica apaixonada de um humilde leigo, um simples professor de filosofia, e dentre outras matérias, de lógica?

Josef Seifer

[1] Ver João Paulo II, Veritatis Splendor. Ver também Josef Seifert, “El esplendor de la verdade y los actos intrinsecamente inmorales: uma defensa filosófica del rechazo del proporcionalismo y consecuencialismo em Veritatis Splendor.” In: Studia Philosophiae Christianae UKSW 51 (2015) 3, 7-37.

 

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21 outubro, 2017

Coluna do Padre Élcio: A ‘Amoris Laetitia’ é tomista?

“A lei do Senhor, que é imaculada, converte as almas; o testemunho do Senhor é fiel, dá sabedoria aos pequeninos”  (Salmo 18, 8).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Das 391 citações ou referências da “Amoris Laetitia” (AL), 19 são de Santo Tomás de Aquino, e destas somente a de nº 347 merece consideração, porque justamente sobre ela enfaticamente insiste o Papa Francisco com estas palavras:

“304. É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir duma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano. Peço encarecidamente [sublinhado meu] que nos lembremos sempre de algo que ensina São Tomás de Aquino e aprendamos a assimilá-lo no discernimento pastoral: « Embora nos princípios gerais tenhamos o carácter necessário, todavia à medida que se abordam os casos particulares, aumenta a indeterminação (…). No âmbito da acção, a verdade ou a rectidão prática não são iguais em todas as aplicações particulares, mas apenas nos princípios gerais; e, naqueles onde a rectidão é idêntica nas próprias acções, esta não é igualmente conhecida por todos. (…) Quanto mais se desce ao particular, tanto mais aumenta a indeterminação ».347 É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma. Isto não só geraria uma casuística insuportável, mas também colocaria em risco os valores que se devem preservar com particular cuidado. 347 Summa theologiae I-II, q. 94, art. 4.

Tudo leva crer que é neste texto de Santo Tomás que o Papa Francisco quer justificar a pretensa “moral tomista” da AL.

E, na mesma linha, na nota 348 cita ainda Santo Tomás:

348 – Referindo-se ao conhecimento geral da norma e ao conhecimento particular do discernimento prático, São Tomás chega a dizer que, « se existir apenas um dos dois conhecimentos, é preferível que este seja o conhecimento da realidade particular porque está mais próximo do agir » [Sententia libri Ethicorum, VI, 6 (ed. Leonina, t. 47, 354)].

Inicialmente gostaria de dizer que a “Correctio Filialis” (CF), além de respeitosa, é, outrossim, respeitável pela segurança e clareza na exposição da doutrina tradicional da Igreja, fundamentada com argumentos apodíticos. Os competentes autores da CF. tiveram o mérito inegável de fazer todas as citações que mostram a lídima doutrina da Igreja, baseada que é nas Sagradas Escrituras, na Sagrada Tradição e no Magistério Infalível e Perene da Santa Madre Igreja. Mas o Papa Francisco se limitou a dizer que a CF. foi respeitosa mas errada e afirmou sem mais que a Moral da AL é “tomista”, ou seja, é segura porque baseada no  grande Doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino.

Mas vale a pena mostrar o que ensinou Santo Tomás na Summa Theologiae I-II, q. 94, art. 4.

Aí o grande Doutor da Igreja fala da Lei Natural e prova que ela é a mesma para todos. Com esta e outras questões sobre a Lei, S. Tomás deixa claro que, após o pecado original, isto é, com a concupiscência e paixões humanas, a Lei Natural, não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano. Senão vejamos:

Summa Theologiae, q. 94, a. IV: Se a lei da natureza é a mesma para todos.

Neste 4º artigo discute-se assim: Parece que a lei da natureza não é a mesma para todos.

1. Pois, dizem as Decretais (dist. I, praef.): O direito natural é o que está contido na lei e no Evangelho. Ora, este não é o mesmo para todos, porque, no dizer da Escritura, nem todos obedecem ao Evangelho como está dito em Romanos, X, 16. Logo, a lei natural não é a mesma para todos.

2. Demais.  –  Chama-se justo ao que é conforme à lei, como diz o Filósofo Aristóteles em V Ethic. , lect. II. Ora, no mesmo livro (lect. XII) diz: nada há tão justo para todos, que se não diversifique para alguns. Logo, também a lei natural não é a mesma para todos.

3. Demais.  –  À lei natural pertence aquilo a que o homem por natureza se inclina, com foi dito no (a. 2 e 3). Ora, homens diversos naturalmente têm inclinações diversas: uns, para a concupiscência dos prazeres; outros, para o desejo das honras; outros, para outras
coisas. Logo, a lei natural não é a mesma para todos.

Mas, em contrário, Isidoro diz (Lib. V Etymol. c. IV): O direito natural é comum a todas as nações.

RESPONDO: Como já dissemos nos artigos 2 e 3, à lei natural pertence aquilo a que o homem naturalmente se inclina; e nisso se inclui a sua inclinação própria a agir segundo a razão. Ora, é próprio à razão proceder do geral para o particular, como está claro em Aristóteles (I Physic., lect. I). Mas o modo de proceder da razão especulativa difere do modo da razão prática. Pois a razão especulativa, versando principalmente sobre o necessário, onde é impossível haver mudança, a verdade se manifesta sem nenhuma exceção, tanto nas conclusões particulares, como nos princípios gerais. Ao contrário, a razão prática versa sobre o contingente, onde entram as obras humanas. Por onde, embora no geral também haja uma certa necessidade, quanto mais descermos ao particular, tanto mais exceções encontraremos. Assim, pois, na ordem especulativa a verdade é a mesma para todos, tanto nos princípios como nas conclusões; embora a verdade não seja conhecida de todos, nas conclusões, mas só nos princípios, chamados concepções comuns. Ao contrário, na ordem das ações, não há a mesma verdade ou retidão prática em todos, quanto ao particular, mas só quanto aos princípios gerais. E ainda, todos os que têm a mesma retidão, em particular, não a conhecem igualmente. Por onde é claro que, quanto aos princípios gerais da razão especulativa ou prática, a verdade ou retidão é igual para todos e é de todos igualmente conhecida. A verdade, porém das conclusões particulares da razão especulativa é a mesma para todos, mas não é de todos igualmente conhecida. Por exemplo, para todo o mundo é verdade que um triângulo tem os três ângulos iguais a dois retos, embora nem todos o saibam. Mas a verdade ou retidão das conclusões particulares da razão prática não é a mesma para todos, nem para aqueles aos quais é a mesma, é igualmente conhecida. Assim, todos têm como reto e verdadeiro que devem agir segundo a razão. E deste princípio resulta como uma conclusão própria, que se devem restituir os depósitos (empréstimos). O que, por certo, é verdade na maior parte dos casos; mas, num caso particular, pode ser danoso e, por conseguinte, irracional, restituí-los; por exemplo, se alguém o quisesse para lutar contra a pátria. E quanto mais particular for o caso tanto mais exceções haverá; p. ex., se dissermos que os depósitos se devem restituir com tal garantia ou de tal modo. Pois, quanto mais condições particulares se impuserem, de tantos modos mais poderá haver exceção à retidão no restituir ou em não o fazer.

Portanto, (continua Santo Tomás de Aquino), devemos concluir, que a lei da natureza, nos seus primeiros princípios gerais, é a mesma para todos, quanto à retidão e quanto ao conhecimento. Mas, relativamente a certos casos particulares, que são como conclusões dos princípios gerais, ela é, no mais das vezes, a mesma para todos, quanto à retidão e quanto ao conhecimento. Mas às vezes tal pode não se dar. Quanto à retidão, por causa de certos impedimentos particulares, do mesmo modo que, por causa deles, em alguns casos, falha a natureza, sujeita que está à geração e à corrupção. E também quanto ao conhecimento, porque uns têm a razão depravada pelas paixões ou pelos maus costumes, ou pela maus hábitos da natureza. Assim, p. ex. entre os Germanos, outrora, não era reputado por mal o latrocínio, embora seja expressamente contra a lei da natureza, como refere Júlio César (In lib. VI De bello gallico, cap. XXIII).

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO: [ Decretais: O direito natural é o que está contido na lei e no Evangelho. Ora, este não é o mesmo para todos, porque, “nem todos obedecem ao Evangelho].

RESPOSTA: A expressão citada não se deve entender como significando, que todo o conteúdo da lei e do Evangelho pertence à Lei Natural, pois, muitas coisas aí se ensinam superiores à Lei da Natureza; mas significa que aí se transmite plenamente, o que pertence à Lei da natureza. (…)

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: [Chama-se justo ao que é conforme à lei. Ora, nada há tão justo para todos, que se não diversifique para alguns].

RESPOSTA: O lugar citado do Filósofo se entende daquilo que é naturalmente justo, não como princípios gerais, mas como certas conclusões derivadas destes princípios gerais, e que, sendo retas na maior pare dos casos, falham em alguns poucos.

RESPOSTA À TERCEIRO OBJEÇÃO [que assim foi formulado por Santo Tomás]: À lei natural pertence aquilo a que o homem por natureza se inclina. Ora, homens diversos naturalmente têm inclinações diversas: uns, para a concupiscência dos prazeres; outros, para o desejo das honras; outros, para outras coisas. Logo a lei natural não é a mesma para todos.

RESPOSTA: Assim como a razão do homem domina e impera sobre as outras faculdades, assim é necessário que todas as inclinações naturais das outras potências se ordenem racionalmente. Por isso, é em geral reto para todos, que, segundo a razão sejam dirigidas todas as paixões dos homens.

Até aqui a q. 94, a. IV, da !ª – 2ª da S. T.. Agora, com a graça de Deus, baseados sempre em Santo Tomás de Aquino, vamos ver melhor ainda o sentido deste artigo, no qual o Papa Francisco pretende se basear para garantir que AL é tomista e, portanto, de uma Moral segura.

Na “Summa Theologiae, I-II, q. 93, a. VI, o Doutor Angélico prova que todas as coisas humanas estão sujeitas à Lei Eterna:

“De dois modos um ser está sujeito à Lei Eterna. De um modo, enquanto pelo conhecimento participa da lei eterna; de outro modo, pela ação e pela passividade (=que sofre a ação), participando dela como de princípio motivo interno. Ora, é deste segundo modo que à lei eterna estão sujeitas as criaturas irracionais. Mas a natureza racional (o homem) tendo, além do que lhe é comum com todas as criaturas, algo de próprio, como racional que é, está sujeita à lei eterna de um e de outro modo. Pois, de um lado, tem de certa maneira a noção da lei eterna; e de outro, em toda criatura racional existe uma inclinação natural para o que está de acordo com à lei eterna, pois, é-nos natural possuir as virtudes, como diz Aristóteles. Ambos estes modos, porém, são nos maus, imperfeitos, e de certa maneira, corrompidos. Pois, além de terem a inclinação natural para a virtude, depravada pelos hábitos viciosos, o próprio conhecimento natural do bem lhes está entenebrecido pelas paixões e pelos hábitos pecaminosos. Ao contrário, nos bons um e outro modo existe da maneira mais perfeita, porque ao conhecimento natural do bem se lhes acrescenta o conhecimento da fé e da sabedoria; e à inclinação natural para o bem, o motivo interior da graça e da virtude.

Por onde, os bons estão perfeitamente sujeitos à Lei Eterna, por agirem sempre de acordo com ela. Os maus, por seu lado também lhe estão sujeitos, embora imperfeitamente, pelas suas ações, pelo fato de a conhecerem imperfeitamente,  e pelo fato de também imperfeitamente se inclinarem ao bem. Mas o que lhes falta na ação é-lhes suprido pela passividade, pois, na medida em que deixaram de fazer o que exigia a lei eterna, nessa mesma medida, hão de sofrer o que ela pede deles.

Respondendo à segunda objeção que assim foi formulada: O Apóstolo diz: “A sabedoria da carne é inimiga de Deus, pois não é sujeita à lei de Deus.  Ora, há muitos homens em quem domina a sabedoria da carne. Logo, não estão  todos sujeitos à Lei eterna de Deus.

RESPOSTA: A sabedoria da carne, não pode estar sujeita à lei de Deus, no concernente à ação, pois inclina a ações contrárias à lei divina. Mas lhe está sujeita, no concernente à passividade, porque merece sofrer uma pena segundo a lei da divina justiça (Nota minha: S. Tomás não diz que os que se deixam guiar pelas paixões  merecem misericórdia mesmo não se arrependendo, mas sim merecem sofrer a pena da justiça divina). Contudo, em nenhum homem a sabedoria da carne domina a ponto de corromper totalmente o bem da natureza. Por isso, permanece no homem a inclinação para agir de conformidade com a lei eterna. Pois, o pecado não o priva totalmente do bem da natureza. [Nota minha: dizer que pode um adúltero achar que não está em pecado mortal, é utópico, e mesmo que possa haver algum caso, a Igreja é o sal da terra e a luz do mundo, e o confessor tem obrigação de tirar o penitente do pecado mortal material, somente excetuando no caso de morte, quando se percebe que o penitente moribundo corre o risco de não se retratar e se arrepender. O sacerdote neste caso, deixa-o na boa fé e dá-lhe todos os sacramentos e até o viático; mas, para evitar escândalo, deve fazê-lo de todo ocultamente, com a máxima discrição).

Santo Tomás de Aquino na Summa Theologiae, I-II, q. 91, a. IV mostra que além da lei natural e da humana é necessário, para a direção da vida humana, haver uma Lei divina. Cita primeiramente a Sagrada Escritura no Salmo 98, 33: “Impõe-me por lei, Senhor, o caminho das tuas justificações”.

E isto, diz o Doutor Angélico, por quatro razões:

– Primeiro, porque pela lei o homem dirige os seus atos em ordem ao fim último. Ora, se ele se ordenasse só para um fim que não lhe excedesse a capacidade das faculdades naturais, não teria necessidade de nenhuma regra racional, superior à lei natural e à humana derivada da natural. Mas como o homem se ordena ao fim da beatitude eterna, excedente à capacidade natural das suas faculdades, é necessário que, além da lei natural e da humana, seja também dirigido ao seu fim por uma lei imposta por Deus.

– Segundo, da incerteza do juízo humano, sobretudo no atinente às coisas contingentes e particulares, originam-se juízos diversos sobre atos humanos diversos; donde, por sua vez, procedem leis diversas e contrárias. Portanto, para poder o homem, sem nenhuma dúvida, saber o que deve fazer e o que deve evitar, é necessário dirija os seus atos próprios pela lei estabelecida por Deus, que sendo a própria sabedoria, não pode errar [ndr:Peço encarecidamente a atenção de todos sobre isto].

–  Terceiro, porque o homem só pode legislar sobre o que pode julgar. Ora, não pode julgar dos atos internos, que são ocultos, mas só dos externos, que aparecem. E contudo, a perfeição da virtude exige que ele proceda retamente em relação a uns e a outros.  Portanto, a lei humana, não podendo coibir e ordenar suficientemente os atos internos, é necessário que, para tal, sobrevenha a lei divina.  –  Quarto, porque, como diz Agostinho, a lei humana não pode punir ou proibir todas as coisas mal feitas. Pois, se quisesse eliminar todos os males, haveria consequentemente de impedir muitos bens, impedindo assim a utilidade do bem comum, necessário ao convívio humano. Por onde, afim de nenhum mal ficar sem ser proibido e permanecer impune, é necessário sobrevir a lei divina, que proíbe todos os pecados.

– E estas quatro causas estão resumidas no Salmo 18, 8 que diz o seguinte: “A lei do Senhor que é imaculada, isto é, que não permite a torpeza de nenhum pecado [ndr: não permite que a Igreja se suje na lama da estrada]; “converte as almas, porque regul, não só os atos externos, mas também os internos; “o testemunho do Senhor é fiel”, por causa da certeza da verdade e da retitude; “e dá sabedoria aos pequeninos” ordenando o homem a um fim sobrenatural e divino.

Santo Tomás de Aquino formula assim a primeira objeção contra a necessidade de uma Lei divina:

 

A Lei natural é uma participação da Lei eterna em nós. Ora, a Lei eterna é a lei divina. Logo, não é necessário haver uma lei divina, além da lei natural e das leis humanas dela derivadas.

Resposta: Pela lei natural, o homem participa da lei eterna, proporcionalmente à capacidade da sua natureza. Mas importa que, de modo mais alto, seja levado ao fim último e sobrenatural. E por isso se lhe acrescenta a lei dada por Deus, pela qual a lei eterna é participada de modo mais elevado.

Peço encarecidamente que lembrem-se ainda sempre destas afirmações de Santo Tomás de Aquino:

“O primeiro princípio na ordem das operações, à qual pertence a razão prática, é o fim último. E, sendo  o fim último da vida humana a felicidade ou beatitude, há de por força a lei dizer respeito, em máximo grau, à ordem da beatitude (…). Necessariamente a lei sendo por excelência relativa ao bem comum, nenhuma outra ordem, relativa a uma obra particular, terá natureza de lei, senão enquanto se ordena ao bem comum. (…) O ordenar-se para o bem comum, que é próprio da lei, é aplicável a fins particulares. E a esta luz, também se podem dar ordens relativas a certos fins particulares” (cf. S. Theol. I-II, q. 90, a. 2).

“Cristo, logo no princípio da sua pregação, convida para o reino dos céus, dizendo: ‘Fazei penitência, porque está próximo o reino dos céus” (Mat.Iv, 17).Donde o dizer Agostinho, que as promessas das coisas temporárias estão contidas no Antigo Testamento, que, por isso, se chama antigo; ao passo que a promessa da vida eterna pertence ao Novo Testamento. (…) A salvação dos homens não podia vir senão de Cristo, conforme à Escritura: “Nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual nós devamos ser salvos” (Atos, IV, 12). Por onde, a lei, que perfeitamente conduz todos à salvação, não podia ser dada senão depois do advento de Cristo. Mas antes dela, era necessário fosse dada ao povo, do qual Cristo havia de nascer, uma lei preparatória para recebê-lo, em que já se achassem contidos certos rudimentos da justiça salvífica.

A lei natural dirige o homem por certos preceitos gerais, em que convém tanto aos perfeitos como aos imperfeitos. Por isso é a mesma para todos. Ao passo que a lei divina o dirige mesmo em certas particularidades, em que os perfeitos não se comportam do mesmo modo que os imperfeitos. (cf. S. Theol. I-II, q. 91, a. V.).

A lei do homem, que lhe coube por ordenação divina, de acordo com a sua condição, é obrar de conformidade com a razão. E tanta força tinha essa lei, no estado primitivo [i. é, antes do pecado original] que nada de preter-racional ou de irracional podia surpreender o homem. Mas quando ele se afastou de Deus, incorreu na pena de ser arrastado pelo ímpeto da sensualidade. O que se dá com cada um em particular, quanto mais se afastar da razão; que, assim, de certo modo se assemelha aos brutos, levados pelo ímpeto da sensualidade, conforme àquilo da Escritura: ‘O homem, quando estava na honra não o entendeu; foi comparado aos brutos irracionais, e se fez semelhante a eles’ (Salmo 48, 21). (…) Por ter sido o homem, pela justiça divina, destituído da justiça original, e perdido o vigor da razão, o ímpeto mesmo da sensualidade, que o arrasta, tem natureza de lei, mas penal, por lei divina, inseparável do homem, destituído da dignidade que lhe era própria” (cf. S. Theol. I-II, q. 91, a. VI).

Caríssimos, veremos em outros artigos como o grande Doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino, fala especificamente dos Sacramentos do Matrimônio, da Penitência e da Santíssima Eucaristia. E aí compreenderemos sim que a CF é tomista.

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17 outubro, 2017

Sínodo para a Pan-Amazônia. Já vimos esse filme.

Mais um jogo de cartas marcadas? Pois foram exatamente assim os dois sínodos para a família, em que manobras das mais vergonhosas e o desprezo da vontade da maioria dos padres sinodais nos trouxeram, por fim, Amoris Laetitia.

Pois bem, leia aqui e anote em sua agenda (e reze muito, muito mesmo).

Papa anuncia o Sínodo para a Pan-amazônia

Cidade do Vaticano (RV) – Antes de rezar a oração mariana do Angelus, o Papa fez neste domingo (15/10) um anúncio surpreendente, que diz respeito de perto à nossa realidade. Após saudar todos os peregrinos e delegações oficiais de Brasil, França, Itália, México, Ordem de Malta e Espanha, países de origem dos santos recém-canonizados, Francisco disse:

“Atendendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, assim como ouvindo a voz de muitos pastores e fiéis de várias partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-amazônica. O Sínodo será em Roma, em outubro de 2019. O objetivo principal desta convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta. Que os novos Santos intercedam por este evento eclesial para que, no respeito da beleza da Criação, todos os povos da terra louvem a Deus, Senhor do universo, e por Ele iluminados, percorram caminhos de justiça e de paz”.

Há vários meses, tem-se cogitado a realização de um encontro do Papa no Vaticano com os bispos de toda a região (9 países compõem a Pan-Amazônia) para avaliar os desafios e buscar respostas comuns para seus mais de 30 milhões de habitantes.

Em maio de 2017, o Cardeal Cláudio Hummes, Presidente da REPAM, Rede Eclesial Pan-amazônica, entrevistado pela RV, ressaltou a importância de dois aspectos fundamentais: “o propriamente missionário e evangelizador naquela região, e a questão ecológica: a importância da floresta Amazônica e a ameaça que ela está sofrendo de destruição, de degradação, de desmatamento, etc.”.

A REPAM trabalha em sintonia com a Santa Sé, Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Secretariado da América Latina e Caribe de Caritas (SELACC) e Confederação Latino-americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (CLAR).

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