Posts tagged ‘O Papa’

22 julho, 2016

Grupo de intelectuais católicos apelam ao Papa para repudiar ‘erros’ em Amoris Laetitia.

Por Edward Pentin – National Catholic Register, 11 de julho de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Um grupo de estudiosos católicos, prelados e clérigos enviou um apelo ao Colégio dos Cardeais pedindo que eles solicitem do Papa Francisco um “repúdio” ao que eles vêem como “proposições errôneas” contidas na Amoris Laetitia.

Em um comunicado divulgado hoje, os 45 signatários do apelo dizem que Amoris Laetitia – o documento pós-sinodal do Papa (documento de síntese) sobre o recente Sínodo sobre a Família, que foi publicado em abril – contém “uma série de declarações que podem ser entendidas num sentido contrário à fé católica e à moral”.

O documento de 13 páginas, traduzido em seis idiomas e enviado ao cardeal Angelo Sodano, decano do Colégio dos Cardeais, bem como 218 cardeais e patriarcas individuais, cita 19 passagens na exortação que “parecem entrar em conflito com doutrinas católicas”.

Os signatários – descritos como prelados católicos, estudiosos, professores, autores e clérigos de várias universidades pontifícias, seminários, faculdades, institutos teológicos, ordens religiosas e dioceses de todo o mundo – então prosseguem com uma lista de “censuras teológicas aplicáveis especificando a natureza e grau dos erros” contidos na Amoris Laetitia.

Uma censura teológica é um juízo sobre uma proposição concernente à fé católica ou a moral como contrária à fé ou no mínimo duvidosa.

A declaração diz que aqueles que assinaram o apelo fizeram a solicitação ao Colégio dos Cardeais, na sua qualidade de conselheiros oficiais do Papa,  para que “se aproximem do Santo Padre com um pedido: que ele repudie os erros listados no documento de forma definitiva e final, e afirme com autoridade que Amoris Laetitia não requer que se creia em qualquer um desses itens, ou que sejam considerados como possivelmente verdadeiros”.

“Nós não estamos acusando o Papa de heresia”, disse Joseph Shaw, um dos signatários do apelo e que também está atuando como porta-voz para os demais autores, “mas consideramos que numerosas proposições da Amoris Laetitia podem ser interpretadas como heréticas se fazemos uma leitura natural do texto. Declarações adicionais cairiam no campo de outras censuras teológicas estabelecidas, como escandalosas, errôneas em matéria de fé e ambíguas, entre outras”.

Tal é o clima em grande parte da Igreja de hoje, que um dos principais organizadores do apelo disse ao Register que a maioria dos signatários prefere permanecer anônimos porque “temem represálias, ou estão preocupados com repercussões em sua comunidade religiosa, ou têm uma carreira acadêmica e uma família e temem que possam perder os seus empregos”.

Entre os problemas citados na exortação, os signatários acreditam que Amoris Laetitia “mina” o ensinamento da Igreja sobre a admissão dos católicos divorciados e recasados civilmente aos sacramentos. Eles também acreditam que ela contradiz o ensinamento da Igreja de que todos os mandamentos podem ser obedecidos, com a graça de Deus, e que certos atos são sempre errados.

Shaw, um acadêmico da Universidade de Oxford, disse que os signatários esperam que, “ao buscar do nosso Santo Padre um repúdio definitivo desses erros, nós podemos ajudar a dissipar a confusão já provocada pela Amoris Laetitia entre os pastores e os fiéis leigos”.

Essa confusão, ele acrescentou, “pode ser dissipada eficazmente apenas por uma afirmação inequívoca do autêntico ensinamento católico pelo Sucessor de Pedro”.

Várias interpretações e críticas a Amoris Laetitia se seguiram à sua publicação. Em particular, cardeais têm debatido se o documento é magistério ou não.

O Cardeal Christoph Schönborn, que apresentou o documento em abril, acredita firmemente que é, ao dizer à Civilta Cattolica na semana passada que “não faltam passagens na Exortação que afirmam fortemente o seu valor doutrinário e de forma decisiva.”

O Cardeal Raymond Burke, no entanto, acredita que o documento contém passagens que não estão em conformidade com os ensinamentos da Igreja e é, portanto, não magisterial, algo que o Papa Francisco “deixa claro” no texto.

Na semana passada, o arcebispo Charles Chaput, da Filadélfia emitiu orientações pastorais para a implementação da Amoris Laetitia em que ele esclareceu passagens na exortação que parecem ambíguas no cuidado pelas almas dos católicos que vivem em situações difíceis ou objetivamente pecaminosas. Dom Chaput fez parte da delegação americana de padres sinodais no Sínodo sobre a Família em outubro passado.

11 julho, 2016

Reforma de um mínimo suspiro de tentativa de reforma da reforma. 

Nota do Fratres: Nada mais do que o esperado por parte da Sala de Imprensa da Santa Sé. O demissionário padre Lombardi — descanse em paz –, desmentidor oficial do Vaticano, rápido em rechaçar qualquer vestígio de ortodoxia e sonolentíssimo em fustigar enganos, não fez mais do que o seu papel. Nada havia a ser esclarecido. O bom cardeal Sarah foi claríssimo quando apenas sugeriu uma mudança, sem valor oficial. Mas, é fundamental, imperioso, defender as reformas pós-conciliares contra o menor sussurro dos restauracionistas.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

Não se deve esquecer que, há pouco mais de um ano, o Papa Francisco, comemorando o aniversário da primeira missa em italiano celebrada por Paulo VI, disse, referindo-se aos que defendem uma “reforma da reforma”:

Vamos agradecer ao Senhor pelo que Ele tem feito na sua Igreja nestes 50 anos de reforma litúrgica. Foi realmente um gesto corajoso para a Igreja se aproximar do povo de Deus para que eles pudessem entender o que estavam fazendo. Isso é importante para nós, seguir a missa dessa forma. Não é possível voltar atrás. Devemos sempre ir adiante. Sempre adiante! E aqueles que querem voltar atrás estão enganados. Sigamos adiante neste caminho.

É importante ressaltar que a fala do cardeal guineense, pela clareza que incomoda a atual hierarquia, mobilizou, numa velocidade insólita, todo o aparato modernista-eclesiástico de apologetas do “espírito do Concílio”. Primeiro, foi Dom Vincent Nichols, o ultra-progressista arcebispo de Westminster, sede do encontro em que discursou Sarah, a escrever imediatamente a seus padres, instando-os ao não seguir o pedido do prefeito da liturgia. Um gesto nada elegante de “comunhão episcopal” nada fraterna.

Até no Brasil, o Cardeal Arcebispo de São Paulo, privadamente, demonstrou ceticismo e minimizou as notícias acerca do discurso de Sarah, afirmando ser um gosto particular do prefeito e não um ato oficial do Vaticano, e que uma tal mudança significaria rever o estabelecido pelo Vaticano II — da nossa parte, é inacreditável que um Cardeal ignore que o Vaticano II, em sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, nada tenha disposto sobre a posição do altar.

Por fim, a reunião de Francisco e Sarah logo após a conferência do purpurado em Londres já estava na agenda? Ou foi um chamado à ordem? Esperamos que a primeira alternativa seja a verdadeira. No entanto, alguns analistas associaram o duro discurso de Francisco, chamando de “hereges e não católicos” os que afirmam “‘é isso ou nada’”, ao livro “Deus ou nada”, do Cardeal Robert Sarah (cujo prefácio de Bento XVI desapareceu misteriosamente).

* * *

Celebração da Missa, nenhuma mudança dos altares

O cardeal Sarah, durante uma conferência em Londres havia convidado os sacerdotes a celebrar voltados ao Oriente, de costas para o povo. Após um esclarecimento com o Papa, a nota de Lombardi.

Por Andrea Tornielli – La Stampa | Tradução: FratresInUnum.com: Parecia mais que um convite, porque a falar sobre isso, se bem que durante uma conferência e não como um ato oficial, foi o cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. O cardeal Africano, há uma semana, em Londres, na abertura da conferência Sacra Liturgia, havia lançado uma espécie de apelo a todos os sacerdotes do mundo, convidando-os a começarem, no primeiro domingo do Advento, em novembro, a celebrar a missa “versus Orientem”, isto é, com o altar voltado para o leste, de costas para o povo, como se usava antes da reforma conciliar. “É muito importante que voltemos, o mais rápido possível para uma direção comum, sacerdotes e fiéis voltados na mesma direção, para o oriente, ou pelo menos para a abside, para o Senhor que vem”, disse ele, acrescentando: “Peço-vos aplicar esta prática sempre que possível “.

As palavras de Sarah reverberaram em todo o mundo, encontrando apoio entusiástico nos sites e nos assim chamados blogs tradicionalistas, mesmo porque o cardeal tinha acrescentado que iria começar, de acordo com o Papa, um estudo para se chegar a uma “reforma da reforma” litúrgica, visando melhorar a sacralidade do rito. Um dia após a conferência de Sarah, o cardeal arcebispo de Westminster, Vincent Nichols, escreveu uma carta a seus sacerdotes, instando-os a não celebrar a Missa voltada para o Oriente, tal como solicitado pelo prefeito do Culto Divino, também por causa da legislação em vigor sobre esse assunto.

Nos últimos dias, o Cardeal Sarah se encontrou novamente em audiência com Francisco. E na tarde de segunda-feira, 11 julho, padre Federico Lombardi, no mesmo dia em que foi anunciada a nomeação do seu sucessor, emitiu uma declaração, evidentemente em concordância com o Pontífice e o cardeal, que desmonta a validade do convite de Sarah e põe fim à expressão “reforma da reforma”, já há tempos abandonada até mesmo por Bento XVI.

“É oportuno um esclarecimento – afirma o porta-voz do Vaticano – na sequência de relatos da mídia que circularam após uma conferência realizada em Londres pelo Cardeal Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, poucos dias atrás. O Cardeal Sarah sempre esteve preocupado justamente com a dignidade da celebração da missa, de modo que seja expressa adequadamente a atitude de respeito e adoração do mistério eucarístico. Algumas de suas expressões foram, no entanto, mal interpretadas”, como se anunciassem novas indicações diferentes daquelas até agora promulgadas nas normas litúrgicas e nas palavras do Papa sobre a celebração voltada para o povo e sobre o rito ordinário da Missa.

“Portanto é bom lembrar – continua Lombardi – que a Institutio Generalis Missalis Romani (Instrução Geral do Missal Romano), que contém as normas relativas à celebração eucarística e que ainda está em pleno vigor, no nº 299, diz:”  “Altare extruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit. Altare eum autem occupet locum , ut revera centrum sit ad quod totius congregationis fidelium attentio sponte convertatur”(isto é :” O altar deve ser construído destacado da parede, para que se possa facilmente circular em volta e celebrar voltado para o povo, o que é conveniente que seja realizado sempre que possível. O altar seja pois posicionado de modo a estar verdadeiramente no centro para que a atenção do fiel se volte naturalmente para a sua direção.”)

“Por sua parte, o Papa Francisco – afirma ainda o porta-voz do Vaticano – por ocasião da sua visita à Congregação para o Culto Divino, recordou expressamente que a forma” ordinária” da celebração da Missa é a prevista pelo Missal promulgado por Paulo VI, enquanto a forma “extraordinária”, que foi autorizada pelo Papa Bento XVI para as finalidades e com as modalidades por ele explicadas no motu proprio Summorum Pontificum, não deve tomar o lugar do “ordinário”.

“Não são, portanto, previstas novas orientações litúrgicas a partir do próximo Advento – esclarece Lombardi – como alguns erroneamente deduziram a partir de algumas palavras do Cardeal Sarah, e é melhor evitar o uso da expressão ‘reforma da reforma’, referindo-se à liturgia, dado que às vezes ela tem sido fonte de equívocos. Tudo isso foi expresso em concordância durante o curso de uma audiência recente concedida pelo Papa ao mesmo Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino”.

11 julho, 2016

Dom Aldo: “Pedi para conversar com o próprio papa. Mas isso não me foi concedido. Essa resposta nem veio”.

O padrão do Vaticano de Francisco se repete: um bispo tido por “conservador” e “divisivo”, que fere a “comunhão”, acusado de imoralidades por uma quadrilha eclesiástica de imorais, é instado a renunciar. O bispo tenta dialogar, clama por ser ouvido, mas não consegue sequer trocar meias palavras com o Papa da Misericórdia. 

‘Quando você mexe no bolso, vêm as reações’, diz bispo acusado de proteger padres pedófilos

Aldo di Cillo Pagotto diz que foi vítima de retaliação por investigar desvios de dinheiro na Igreja, fala da ‘infiltração’ gay no seminário e diz ter sido pressionado pelo Vaticano a renunciar

Dom Aldo Pagotto, arcebispo da Paraíba.

Dom Aldo Pagotto, arcebispo emérito da Paraíba.

Por Veja – Na última quarta-feira, o Vaticano anunciou que o papa Francisco aceitou a renúncia do arcebispo da Paraíba, dom Aldo di Cillo Pagotto. Oficialmente, dom Aldo deixou o posto por “motivos de saúde”. Mas só oficialmente. Por trás da decisão, há muito mais. Há pelo menos quatro anos, o arcebispo era investigado pelo próprio Vaticano sob suspeita de acobertar padres pedófilos. Dom Aldo também era acusado de promover orgias e de ter mantido relacionamento com um jovem de 18 anos – o que ele nega. Foi o primeiro caso, no Brasil, de um arcebispo que deixa o posto no curso de uma investigação sobre envolvimento em escândalos sexuais.

Na mesma quarta-feira, dom Aldo falou por quase duas horas a VEJA. O resultado da conversa é revelador dos bastidores da Igreja – e de segredos que, na grande maioria das vezes, graças à hierarquia e à disciplina dos religiosos, são mantidos distantes dos olhos e ouvidos do distinto público. Na entrevista, o bispo deixa evidente que, na verdade, foi obrigado a renunciar. Ele conta que, no início de junho, foi chamado a Brasília para uma conversa com o núncio apostólico, o representante do papa no Brasil. E que, naquele mesmo dia, o núncio — em nome do papa — o fez redigir a carta de renúncia.

O arcebispo se diz alvo de uma grande injustiça cometida pelo papado de Francisco e atribui a sua situação a uma disputa que tem como pano de fundo acusações de corrupção, homossexualismo, pedofilia e, quase sempre, disputa por poder.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Desvio de dinheiro

Dom Aldo diz que foi vítima de uma orquestração maquinada por um grupo de padres que se opunham a medidas que ele adotou desde que assumiu a Arquidiocese da Paraíba. Ao falar desses padres, cujos nomes ele se esforça para não revelar, o religioso escancara o ambiente interno conflagrado no clero – algo que a Igreja, quase sempre, consegue manter em segredo. Ele acusa os adversários de estarem envolvidos em desvios de dinheiro e de serem, eles próprios, personagens de escândalos sexuais. Na origem de tudo, diz ele, está a disputa pelo controle das finanças.

“Tudo começou porque eu tenho uma visão mais moderna. A questão administrativa e patrimonial da Arquidiocese estava bastante comprometida. Então começamos a colocar as coisas em ordem, com prestação de contas. Isso mexeu na posição de uns privilegiados. Havia coisas não muito bem resolvidas.”

“Quando você mexe no bolso, que é a parte mais delicada do corpo da pessoa, vêm as reações, que não são tão diretas no começo. Aí começam com outras acusações. Diziam que eu era financista, materialista, e que a Igreja não é só isso.”

“Essa reação partia de um grupo pequeno, mas muito bem articulado, formado por cinco padres. Passaram a acusar que o clero no estado estaria dividido, e outras coisas morais. Diziam que eu era ditador. Depois foram para os ataques pessoais de ordem afetiva e sexual. Aí foram para a baixaria mesmo, com acusações horrendas à minha pessoa e a outros padres também.”

“Esses padres têm poder financeiro. E a reação vinha justamente daí. Tudo parte de quando você quer mexer nas finanças.”

Mas esses padres estavam envolvidos com corrupção?, perguntou VEJA.

A resposta: “Havia um colégio aqui, o Pio XII, que eu tive que fechar quando cheguei porque havia uma coisa não resolvida ali. Era um colégio tradicional, de mais de 80 anos. Pedimos uma auditoria e fizeram de tudo para não fazer essa auditoria. Sempre me era aconselhado: ‘Não é bom mexer com isso’”.

Dom Aldo diz que, só nas contas da escola, havia um rombo de 1,8 milhão de reais. E quem são esses padres?

“Eu sei quem são. Alguns nomes eu levei para a Santa Sé. Pelo menos o nome de dois, entre eles o que capitaneia, eu informei à Santa Sé. São padres muito bem posicionados aqui, veteranos.”

O segredo do processo e o silêncio do papa

Alvo de denúncias cada vez mais constantes, e de uma série de dossiês enviados a Roma, dom Aldo Pagotto passou a ser formalmente investigado pelo Vaticano. O rol de acusações contra ele era extenso: além de ser acusado de proteger padres pedófilos, diziam as denúncias, teria relaxado os critérios para a aceitação de novos seminaristas. Além disso, era apontado como personagem central de um grupo de religiosos que se esbaldavam em festas e promoviam orgias sexuais. Em janeiro de 2015, já em consequência das investigações, o Vaticano impediu o arcebispo de ordenar novos padres.

“Em junho do ano passado fui ao Vaticano tirar a história limpo. Falei com o cardeal Stella (Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero — uma espécie de ministro do Vaticano). O cardeal me tratou muito bem, me escutou durante uma hora, mas disse que a resposta viria só depois de agosto e setembro e que o desfecho dependia também da Congregação para os Bispos. Comecei a cobrar e não vinha nada.”

“Em maio eu pedi para conversar com o próprio papa. Mas isso não me foi concedido. Essa resposta nem veio. Dois ou três dias depois de redigir a carta de renúncia, fiz outra carta ao papa reforçando esse pedido. Escrevi ao papa dizendo que gostaria muito de falar com ele. Ali eu ainda tinha esperança (de que a investigação pudesse ter outro desfecho). Nada.”

O chamado para renunciar

Dom Aldo revela que a renúncia não foi um ato de vontade própria. Foi uma determinação do Vaticano – uma determinação que a disciplina religiosa e o respeito à hierarquia da Igreja o obrigavam a aceitar. A renúncia era uma forma de evitar mais desgastes. A explicação oficial que viria na sequência – “motivos de saúde”— ajudaria

“Fiquei lá (na Nunciatura Apostólica, em Brasília) uma manhã inteira. A conversa com o núncio foi de pelo menos uma hora. A sós, no gabinete dele. Ele recordou todos os fatos. Eu pedi, de novo, para ter acesso ao que eu era acusado, ao relatório ou ao dossiê. Ele disse: não se pode mostrar. Então, se é assim… Ele também não disse quem acusava. Ele aconselha. Eu também tirei minhas dúvidas. Ele disse: ‘O papa está muito preocupado com você. É para o seu bem. Para o seu bem e para o bem da Igreja. Então, para o bem da Igreja e para o seu bem, você pense’. Eu cheguei a dizer: está bem, está muito certo, entendi tudo. Eu mesmo me choquei.”

“Ele me falou: ‘Olha, você faça essa carta’. É assim mesmo. Ele é o representante do papa.”

A certa altura, o arcebispo percebe que estava falando demais. E tenta se corrigir:

O senhor, então foi instado a renunciar?

“Não é bem assim…. Eu me aconselhei também. E eu aqui já dizia para alguns padres da minha insatisfação, do meu estado de saúde. Não é que recebi uma ordem: faça. Não é bem assim. A gente é livre. Eu disse a ele (ao núncio): é até interessante que eu faça (a carta), e fiz.”

O senhor acha justo o desfecho do caso?

“Não acho. Eu tenho muita dificuldade de aceitar uma coisa dessas. É muito ruim, muito ruim.”

‘Tive que limpar o seminário’

Dom Aldo Pagotto admite que havia “problemas” na Arquidiocese. Entre eles problemas, ele cita o fato de ter aceitado, como candidatos a padre, jovens homossexuais que já haviam sido rejeitados em outros seminários por “conduta inadequada”. Ele diz, porém, que fez o que tinha de ser feito: “limpou” o seminário.

“Nós tivemos problemas no seminário. Eu tive que limpar o seminário de pessoas suspeitas de comportamento não adequado.”

Em que sentido? Sexual?

“É, exatamente.”

E o que é “limpar”?

“Limpar quer dizer convidar a sair. Isso foi em 2012. Em um seminário sempre há entrada e saída de pessoas. Seminário onde só entram pessoas e ninguém sai não é bom. Tem pessoas com determinada tendência que vêm procurar seminário e você sabe que a intenção pode ser outra. Eu não posso ser julgado por isso. Na verdade, os papas todos tiveram problemas assim. O João Paulo teve problemas imensos. Depois veio Bento 16, que estatuiu normas muito caridosas, mas muito objetivas. E, agora, Francisco da mesa forma. No caso daqui, houve problemas, eu não posso negar. Mas eu fiz relatórios disso, desde o outro núncio apostólico, como estava o seminário, que tinha havido infiltração (de gays). Eu relatei a infiltração. Não escondi.”

A “infiltração” gay

“No seminário, o problema era homossexualismo. Falando abertamente, é isso. Tivemos alguns casos. O relato é de que houve infiltração, romance, defesa de comportamentos que não são admitidos pela Igreja. Naquele momento, entre 2011 e 2012, isso envolveu cinco ou seis pessoas. Faziam defesa desse comportamento lá dentro. Também havia comportamentos estranhos. Colegas estranharam, pessoas da comunidade também. Diziam: ‘Olha, esse rapaz aqui parece que é…’. Havia toda uma preocupação para evitar a reprodução desses escândalos que estamos vendo.”

Pedofilia na Arquidiocese

“Eu digo que por misericórdia eu aceitei alguns padres em crise. Aceitei seminaristas egressos (que já haviam sido expulsos de outros seminários), mas eu não sabia desse comportamento. Por indicação de alguém, por pedidos para que eu desse chance. Esses pedidos vinham de bispos, de superiores de alguma congregação. Enfim, eu fui misericordioso. Aceitei e me dei mal. Esses seminaristas foram ordenados por mim e depois tive que afastá-los. Eu afastei seis. Eram acusados de envolvimento de pedofilia. Um foi inocentado.”

“Era aquela questão com meninos, coroinhas. Dentro da igreja. Eram casos na região metropolitana de João Pessoa e no interior. Do interior eram três, e três da capital. As denúncias foram feitas por familiares dos meninos. Comecei a receber essas denúncias de 2012 para 2013, tudo de uma vez, uma atrás da outra. Os padres foram afastados imediatamente. Um deles morreu. Nunca foi ouvido em juízo e morreu de muita depressão, coitadinho.”

A acusação de relacionamento homossexual

“Deus me livre, isso não existe. É mentira. Não tem como.”

E com base em que o acusam de ser homossexual?

“Respondo com uma frase: ‘Acusemo-lo daquilo que nós somos’.”

Isso existe entre os religiosos que o acusam?

“Claro que existe. Acuse-o daquilo que a gente é.”

A acusação de organizar festas e orgias

“Mas que festas? Deus me livre, eu não tenho tempo para pecar. A minha única diversão é nadar na piscina de um colégio aqui perto. Não vou ao cinema. Minha vida é trabalho. Não existe isso aí.”

 

5 julho, 2016

A renúncia a Bento XVI e a sombra de Carl Schmitt.

Por Guido Ferro Canale | Tradução: FratresInUnum.com: A recente intervenção de Dom Georg Gänswein sobre a renúncia de Bento XVI ao pontificado provocou alvoroço e reflexões,  sobretudo porque parecia oferecer um suporte à teoria dos “dois papas.” Sem entrar no debate sobre este aspecto, ou a distinção problemática entre exercício ativo e passivo do ministério petrino, gostaria de chamar a atenção para um ponto diferente no texto, cujas implicações me parecem dignas de aprofundamento.

papiPermitam-me começar por salientar, em primeiro lugar, o título escolhido pelo ilustre autor: “Bento XVI, o fim do velho, o início do novo”. Ele o justifica, inicialmente, afirmando que Ratzinger “encarnou a riqueza da tradição católica como nenhum outro; e – ao mesmo tempo – foi tão ousado a ponto de abrir a porta para uma nova fase, para aquela viragem histórica que ninguém, cinco anos atrás, poderia ter imaginado”. Em outras palavras: o “início do novo” não se reconhece por qualquer um dos muitos atos de governo ou de magistério, mas justamente pela renúncia e a situação inédita que ela cria.

Situação que ele não só descreve nos termos da dicotomia no exercício do ministério, mas também emprega – embora de modo menos evidente –  uma outra categoria, o estado de exceção.

O autor a introduz de maneira oblíqua, como referindo-se a uma opinião de outros: “Muitos continuam a perceber ainda hoje esta nova situação como uma espécie de estado de exceção querida pelo Céu”. No entanto, em seguida, faz com que apropria-se dela, estendendo-a a todo o pontificado de Ratzinger: “desde 11 de fevereiro de 2013, o ministério papal não é mais o mesmo de antes. Ele é e continua a ser o fundamento da Igreja Católica; mas, todavia, é uma fundação que Bento XVI aprofundou e transformou de modo duradouro em seu pontificado de exceção (Ausnahmepontifikat), sobre o qual o sóbrio Cardeal Sodano, reagindo de forma simples e direta após a declaração surpreendente de renúncia, profundamente comovido e quase pego de surpresa, exclamou que aquela notícia ecoou entre os cardeais reunidos ‘como um raio em céu sereno'”.

A leitura parece bastante clara: o Pontificado de Bento XVI torna-se um “pontificado de exceção” em virtude da renúncia e no momento da renúncia.

Mas, por que a expressão também é registrada em alemão como “Ausnahmepontifikat“?

Em italiano, “Pontificado de Exceção” simplesmente soa como “fora do comum “. Mas, a referência à sua língua materna deixa claro que Dom Gänswein não tem em mente uma símile banalidade, mas sim a “categoria do estado de exceção”. (Ausnahmezustand).

Uma categoria que qualquer alemão de cultura média imediatamente associa à figura e ao pensamento de Carl Schmitt.

“Soberano é quem decide sobre o estado de exceção. […] Aqui com estado de exceção se entende um conceito geral da doutrina do Estado, e não qualquer decreto de emergência ou estado de sítio. […] Na verdade, nem toda competência incomum, nem todas as medidas ou ordem de emergência policial são uma situação de exceção: a esta pertence muito mais uma competência ilimitada em via de princípio, isto é, a suspensão de todo o sistema de direito. Se essa situação é verificada, então, é claro que o Estado continua a existir, enquanto o direito falha”(C. Schmitt, “Teologia Política”, em Id., “As categorias políticas “, Bolonha, 1972, pp. 34 e 38-9).

Aus-nahme“: literalmente, “fora da lei”. Um estado de coisas que não podem ser reguladas e, em seguida, se ocorrer, obriga a suspender toda a ordem jurídica.

Um “Ausnahmepontifikat“, então, seria de alguma forma uma pontificado que suspende as regras ordinárias de funcionamento do ofício petrino ou, como disse Dom Gänswein, “renovam” o próprio ofício.

E, se a analogia procede, essa suspensão seria justificada, ou melhor, imposta por uma emergência impossível de ser enfrentada de outra maneira.

Em um outro texto intitulado “O guardião da Constituição”, Schmitt analisa o poder de decidir sobre o caso de exceção do presidente da República de Weimar e o retém como funcional para salvaguardar a Constituição. Talvez esse aspecto do pensamento de Schmitt não seja pertinente, mas, certamente, dá uma ideia da gravidade da crise exigida para um estado de exceção.

É possível, então, que um conceito com implicações semelhantes tenha sido empregado [por D. Gänswein] levianamente, de modo impreciso, talvez apenas para aludir às dificuldades de enquadrar a situação criada com a renúncia segundo as regras e conceitos ordinários?

Parece-me impossível, por três razões:

1) A  impropriedade da linguagem não se justifica, mesmo porque se trata de um dos conceitos mais conhecidos por um estudioso que, pelo menos na Alemanha, é conhecido “Lippis et tonsoribus”.

2) A ênfase, evidente a partir do título, sobre os efeitos e o âmbito da renúncia, o que certamente não é considerado uma possibilidade de ocorrência rara, mas, facilmente prevista pelo Código de Direito Canônico (se considera que ela é definida, entre outras coisas como, “bem ponderado passo de peso milenar”);

3) As possíveis referências à situação crítica concreta que me parecem entrevistas na intervenção de Dom Gänswein.

Se consideramos tudo o que ele diz sobre a eleição de Bento XVI  “como o resultado de uma luta dramática”: “foi certamente também o resultado de um confronto, cuja chave de compreensão havia sido fornecida pelo próprio Ratzinger como cardeal decano, na homilia histórica de 18 de Abril 2005, em São Pedro; e precisamente ali, diante de “uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo, e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”, ele havia contraposto outra medida: “o Filho de Deus e verdadeiro homem como a medida do verdadeiro humanismo “.

Um confronto onde, senão no conclave, no coração da Igreja?

Aqui também ele indica os protagonistas. E não é mais nenhum mistério para ninguém que o grupo “San Gallo” entrou novamente em ação em 2013.

Grande parte da dificuldade do pontificado de Bento XVI poderia ser explicada precisamente por esse confronto, talvez subterrâneo, mas incessante, entre aqueles que permanecem fiéis à imagem evangélica do “sal da terra” e os que querem prostituir a Noiva do Cordeiro com a ditadura do relativismo? Este confronto, que não é apenas uma luta pelo poder, mas sim uma batalha sobrenatural pelas almas, é a principal razão pela qual alguns amaram Bento XVI, enquanto outros o odiaram.

E prosseguimos com a leitura.

“Durante a eleição, então, na Capela Sistina, fui testemunha de que ele [Ratzinger] viveu a eleição como um ‘verdadeiro choque’ e ‘perturbação’, e que a sentiu ‘como uma vertigem’ assim que percebeu que a decisão da eleição cairia sobre ele. Não estou a revelar nenhum segredo aqui, porque foi o próprio Bento XVI a confessar isso publicamente na primeira audiência concedida aos peregrinos que vieram da Alemanha. E por isso também não é nenhuma surpresa que Bento XVI foi o primeiro Papa que, imediatamente após a sua eleição, convidou os fiéis a orar por ele. Um fato que mais uma vez este livro [de Roberto Regoli] nos recorda”.

Mas, muito além do “acima de tudo, confio-me às suas orações” pronunciado imediatamente após a eleição, talvez não lembremos do convite dramático da Missa do início do ministério petrino: “Orem por mim, para que eu não fuja, por medo do lobos”. Na parábola do Evangelho, o mau pastor não foge por medo. Ele foge porque “é um mercenário, e não se importa com as ovelhas”.

Creio, portanto, que Bento XVI estava confessando um medo concreto. E que pensava em lobos muito reais. Creio que isso também explica o seu choque, confusão e vertigens.

E talvez uma outra referência pode ser encontrada na menção a uma crítica bastante frequente: “Regoli não deixa de mencionar a acusação de falta de conhecimento dos homens que frequentemente  dirigida ao teólogo brilhante em vestes de Pescador; alguém que era capaz de avaliar de modo genial textos e livros difíceis, e que, no entanto, em 2010, confidenciou com franqueza a Peter Seewald, o quanto achava difícil decidir sobre pessoas já que ‘ninguém pode ler o coração do outro’. Como é verdade!”.

Quando os lobos estão disfarçados de cordeiros ou pastores; quando seus pensamentos não são impressos em papel e passíveis de refinada análise teológica; como desmascará-los? Como descobrir em quem confiar e a quem confiar parte da autoridade sobre o rebanho do Senhor?

Por isso, parece-me que até a frase “Bento XVI estava ciente de que faltava-lhe a força necessária para o pesadíssimo ofício” adquire um sentido menos anódino e talvez muito mais sinistro. Seria pesadíssimo o ofício, não por causa da multiplicidade de compromissos externos, definitivamente cansativos, mas por causa da extenuante luta interna. Tão extenuante que ele não se sentia mais capaz de suportá-la …

Talvez eu esteja lendo demais as minúcias desse texto. Talvez Dom Gänswein ame as imagens coloridas ou frases de efeito. Certamente, não faltará quem o diga. E eu sou o primeiro a admitir que meu gosto pela análise acaba por me deixar levar.

Mas, se eu posso estar errado na reconstrução da emergência concreta, não creio que seja possível libertar a renúncia da sombra que cobre aquela expressão pesada como uma pedra: “Ausnahme“. Não evoquei a sombra de Carl Schmitt: limitei-me a indicar o ponto em que Dom Gänswein a tornou visível, ouso dizer, palpável..

Resta, no entanto, uma questão em aberto: de que modo e sob que circunstâncias a renúncia, com a introdução de “papa emérito”, seria uma resposta adequada a uma situação de emergência?

Pode-se pensar na força espiritual do desapego do poder ou mais simplesmente no fato de que o exército de Cristo teria um novo comandante, ainda não desgastado pela luta em questão e capaz de conduzi-lo melhor. Mas, essas razões são válidas para a renúncia e não para o “emeritato”.

Talvez um sinal possa surgir da afirmação que  que Bento XVI “enriqueceu” o papado “com a ‘centralidade’ de sua oração e sua compaixão colocadas nos jardins do Vaticano”.

A compaixão, destes tempos, seria o caso de recordá-lo, não é a misericórdia. Na teologia ascética ou mística, compaixão é unir-se aos sofrimentos de Cristo crucificado, oferecendo-se a si mesmo para a santificação do próximo.

Um serviço de com-paixão da parte do Papa se torna necessário – na minha opinião – só quando a Igreja parece viver em primeira pessoa a Sexta-Feira Santa. Quando devem ecoar as palavras amargas: “Haec est hora vestra et potestas Tenebrarum”.

Bem entendido, com isso eu não denuncio conspirações e nem formulo acusações: o estado de exceção pode muito bem ser “querido pelo céu”, dado que as trevas não teriam poder algum sem a permissão divina. E nós sabemos que existe também uma necessidade misteriosa do “mysterium iniquitatis”: é necessário que seja afastado aquele que o detém. Por uma razão maior, portanto, entrarão no plano de Deus os anticristos menores e as horas das trevas.

Eu não possuo e nem posso fornecer respostas definitivas sobre as causas concretas da renúncia de Bento XVI, nem sobre as razões teológicas ou pessoais que possam tê-lo induzido a definir-se como “papa emérito”, e menos ainda sobre os planos sobrenaturais da Providência. Mas, que hoje os anticristos estão desencadeados – e principalmente aqueles que deveriam apascentar o rebanho do Senhor – me parece incontestável.

Então, de qualquer modo, chegamos definitivamente no tempo da com-paixão.

Tempo de colocar a esperança cristã acima da “impostura religiosa que oferece aos homens uma solução aparente para os seus problemas ao preço da apostasia da verdade”, o “pseudo-messianismo pelo qual o homem glorifica a si mesmo no lugar de Deus e do seu Messias que veio em carne “(Catecismo da Igreja Católica, 675).

Tempo para se apressar com o sofrimento cristão, a arma espiritual mais poderosa que nos foi dado empregar no momento em que Deus vai intervir de um modo conhecido apenas por Ele “ab aeterno” para restabelecer a verdade, o direito e justiça.

Kyrie eleison!

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5 julho, 2016

Francisco sobre “ultraconservadores”: “Eles fazem seu trabalho. Não corto cabeças”.

Francisco: quero uma Igreja aberta e compreensiva

Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco concedeu mais uma entrevista ao jornal argentino La Nación, que foi publicada na edição deste domingo (03/07).

O Pontífice recebeu pela segunda vez em seu escritório na Casa Santa Marta o jornalista Joaquín Morales Solá, que conhece Bergoglio há 20 anos.

Na entrevista foram tratados temas que dizem quase exclusivamente à vida política, social e eclesial argentina. Mas não só. O encontro ocorreu em 28 de junho, dia em que se celebraram os 65 anos de sacerdócio do Papa emérito Bento XVI.

Bento XVI: revolucionário

“Um revolucionário”, o definiu Francisco. “A sua generosidade foi incomparável. A sua renúncia, que tornou evidentes todos os problemas da Igreja, não teve motivações pessoais. Foi um ato de governo. O seu último ato de governo”. Sobre as condições de saúde do Papa emérito, o Pontífice destacou: “Tem problemas para se locomover, mas a sua cabeça e a sua memória estão intactas, perfeitas”.

Nenhum problema com Macri. Não gosto de conflitos

Quanto ao relacionamento considerado “frio” com o Presidente argentino Mauricio Macri, o Papa respondeu: “Não tenho qualquer problema com o presidente Macri. Não gosto de conflitos. Macri me parece uma pessoa de boa família, uma pessoa nobre”. Recordou, depois, de ter tido alguma divergência com ele no passado, mas se tratou de “uma única vez, em Buenos Aires”, durante os seis anos em que Macri foi prefeito da cidade e Bergoglio, o Arcebispo. “Uma vez só em tanto tempo é uma média muito baixa”, destacou o Papa. Outros problemas, acrescentou, “foram discutidos e resolvidos em privado e este acordo de privacidade foi respeitado por ambos”. “Não tenho qualquer reprovação pessoal a fazer ao Presidente Macri”, reiterou.

Audiência com Hebe de Bonafini, líder das Mães da Plaza de Mayo

O Papa respondeu ainda a uma pergunta sobre a audiência concedida a Hebe de Bonafini, líder do ramo mais intransigente das Mães da Plaza de Mayo, que no passado criticou Bergoglio acusando-o, falsamente, de ter colaborado com o regime militar. A senhora depois adminitiu seu erro publicamente. A audiência concedida “foi um gesto de perdão” – explicou Francisco. “Ela me pediu perdão e eu não o neguei”, porque o perdão “não se nega a ninguém”. “É uma mulher que teve dois filhos assassinados. E eu meu inclino, me ajoelho diante de tamanho sofrimento. Não importa o que ela disse a meu respeito. E sei que disse coisas terríveis no passado”.

Sala de Imprensa vaticana, única porta-voz do Papa

Sobre as vozes que circulam na Argentina de que, no país, haveria um porta-voz diferente da Sala de Imprensa, Francisco explicou: “Não existem outros porta-vozes oficiais, nem na Argentina nem em outros países. Repito: a Sala de Imprensa do Vaticano é a única porta-voz do Papa”.

Scholas Occurrentes

Outra questão disse respeito às Scholas Occurrentes, a Fundação reconhecida pela Santa Sé que nasceu em Buenos Aires há mais de 15 anos, impulsionada pelo então Arcebispo Bergoglio, e que atua em prol da formação dos jovens [ndr: envolvida, há poucos dias, em casos de corrupção]. Recentemente, o Pontífice convidou os responsáveis pelo organismo a não aceitarem uma doação em dinheiro por parte do governo. Mas não se tratou de uma decisão “contra o governo de Macri”, destaca o Papa: “Esta interpretação é absolutamente errada. Não aludia de modo algum ao governo. Disse somente aos responsáveis das Scholas, com afeto, aquilo que poderia ajudá-los a evitar eventuais erros na gestão da Fundação”. “Continuo acreditando – explicou o Papa – que não temos o direito de pedir dinheiro ao governo argentino, que tem tantos problemas sociais por resolver”.

Quero uma Igreja aberta e compreensiva

Por fim, respondendo a uma pergunta sobre os “ultraconservadores da Igreja”, o Papa Francisco afirmou: “Eles fazem seu trabalho e eu, o meu. Eu desejo uma Igreja aberta, compreensiva, que acompanhe as famílias feridas. Eles dizem não a tudo. Eu continuo firme pela minha estrada, sem olhar para os lados. Não corto cabeças. Nunca gostei de fazer isso. Reitero: rejeito o conflito”.

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4 julho, 2016

Cardeal Zen aos católicos chineses: se houver um acordo com o governo, não precisam seguir o Papa.

IHU – Se a China Popular e a Santa Sé chegarem a um acordo, este teria, evidentemente, “a aprovação do Papa”. No entanto, os católicos chineses não precisariam levá-lo em conta caso o considerarem, “em consciência”, “contrário ao princípio da fé”. Estas são palavras do cardeal Joseph Zen, salesiano, bispo emérito de Hong Kong.

A reportagem é de Gianni Valente e publicada por Vatican Insider, 30-06-2016. A tradução é de André Langer.

O combativo Cardeal Zen.

O combativo Cardeal Zen.

Como se sabe, o cardeal ancião não gosta muito do tipo de “pax” sino-vaticana que parece estar ganhando forma com as negociações em curso entre os funcionários chineses e os oficiais vaticanos, confirmadas inclusive pelo Papa Francisco. Assim, tomando a iniciativa, o alto prelado salesiano exortou os católicos chineses a empreender o caminho da dissociação silenciosa, e também com respeito a eventuais medidas e práticas que poderiam ser aprovadas oficialmente pelo Bispo de Roma, como “extrema ratio” para esquivar as implicações de um possível e futuro acordo entre Pequim e a Sé Apostólica.

O apelo foi feito por Zen em seu blog pessoal: “Irmãos e irmãs do Continente, devemos honrar-nos!”, escreveu o cardeal com tons peremptórios aos católicos da República Popular da China. Nas primeiras linhas, o cardeal identifica imediatamente os seus polêmicos alvos: são aqueles que “estão do lado do governo” e “os oportunistas da Igreja”, que “esperam que a Santa Sé assine um acordo para legitimar a atual e anômala situação”.

Todos eles, defende Zen, ultimamente gritaram que devemos estar “prontos para escutar o Papa” e obedecer “a tudo o que disser”. E os mesmos chegam a prognosticar que a rejeição das decisões aprovadas pelo Papa poderiam vir justamente de alguns daqueles que sempre usaram contra outros a crítica da pouca fidelidade ao Papado e à Igreja de Roma.

Diante destes novos cenários, Zen convidou, sobretudo, para “manter a calma”, e na sequência ofereceu aos irmãos e irmãs “continentais” diretrizes para enfrentar este momento tão delicado, enquanto chegam tempos melhores. Reconhece que na Igreja “a autoridade suprema é o Papa, Vigário de Cristo na Terra”.

Recorda que nos últimos anos, sobretudo durante o Pontificado do Papa Bento, ele mesmo sempre repetiu “que a Santa Sé não representa o Papa. Mas, claro, se um dia fosse assinado um acordo oficial entre a China e a Santa Sé – reconhece Zen –, então seguramente esse acordo teria a aprovação do Papa”. Nesta eventual circunstância, sugere preliminarmente o bispo emérito de Hong Kong, “qualquer coisa que for aprovada pelo Papa, nós não teríamos que criticá-la”.

Deve-se evitar qualquer reação que possa ser reconhecida e recusada como uma crítica direta ao Sucessor de Pedro. Mas, o que é certo, acrescenta imediatamente Zen, “afinal de contas, a consciência é o critério último para julgar o nosso comportamento. Então, se de acordo com sua consciência o conteúdo de qualquer acordo for contrário ao princípio da nossa fé, não tem necessidade de segui-lo”.

Para justificar a evocada dissociação com respeito a eventuais acordos entre a China e a Santa Sé aprovados pelo Papa, Zen cita (propondo uma síntese livre, que não representa o texto original) as palavras do Papa Bento XVI aos católicos chineses (de junho de 2007) e na qual se declara que os princípios da autonomia, da independência, da autogestão e da administração democrática da Igreja perseguidos pela Associação Patriótica e pelos demais organismos patrióticos inspirados pelos aparelhos políticos chineses, não são “conciliáveis” com a doutrina católica. “Vocês, escreveu o cardeal aos irmãos e irmãs do Continente, não devem nunca, por motivo algum, unir-se à Associação Patriótica”.

Na parte final da sua breve mensagem, o cardeal emérito prognostica um futuro de catacumbas para os que não queiram aceitar o acordo entre a Santa Sé e a China, e que, na sua opinião, devem estar prontos para renunciar à prática pública dos sacramentos e da vida eclesial que hoje conotam e alimentam a condição ordinária e cotidiana dos católicos chineses.

“No futuro – explicou Zen comparando os efeitos de um possível acordo entre a China e o Vaticano com as condições que viveram os cristãos chineses nos anos obscuros e cruéis da Revolução Cultural –, devemos temer que já não terão um lugar público para rezar, mas poderão rezar em casa; e embora não exista a oportunidade de receber os sacramentos, o Senhor Jesus irá ao seu coração; e embora já não fosse possível ser sacerdote, poderão voltar para casa e cultivar os campos. O sacerdote é sacerdote para sempre”.

A mensagem de Zen termina com frases tranquilizadoras para os seus leitores: a resistência que propõe diante de um eventual acordo entre Pequim e a Sé Apostólica poderia ser breve: “A Igreja primitiva, escreveu o cardeal que nasceu em Shangai, teve que esperar 300 anos. Não creio que tenhamos que esperar tanto. O inverno está para acabar”.

O apelo do cardeal Zen para ignorar eventuais decisões futuras aprovadas pelo Papa representa uma fratura anunciada, depois da mobilização, que já dura 20 anos, do alto prelado de Hong Kong contra todos os passos dados pela Sé Apostólica no campo das relações entre os aparelhos estatais chineses e a Igreja católica que não considerava adequados.

O arsenal do cardeal de 84 anos inclui a deslegitimação das posições que não compartilha e que apresenta sempre como ambíguas e, na sua opinião, que cedem no nível da sã doutrina, motivo pelo qual seriam suspeitas de suposto oportunismo e mancomunação interesseiro com o poder chinês e, sobretudo, uma representação fixa e pré-fabricada da vida do catolicismo chinês durante os últimos 70 anos, com a finalidade de ocultar todos os dados da realidade que não servem para a sua permanente luta.

Por exemplo, para reconhecer como um pretexto a objeção de consciência proposta perante eventuais acordos sino-vaticanos aprovados pelo Papa, tingidos a priori de condescendência para com os organismos patrióticos construídos pelo poder chinês, bastaria recordar que João Paulo II e Bento XVI, durante seus respectivos pontificados, legitimaram ou nomearam diretamente dezenas de bispos chineses que tinham relações ordinárias com esses organismos e inclusive alguns tinham importantes cargos em seu interior.

Para o Papa Wojtyla e para o Papa Ratzinger, o fato de que os bispos pertencessem formalmente à Associação Patriótica dos católicos chineses nunca foi, em si mesmo, um obstáculo para a plena e reconhecida comunhão sacramental e hierárquica entre esses bispos e o Sucessor de Pedro. E ninguém impôs sua saída formal da Associação Patriótica como condição para obter o mandato pontifício ao próprio ministério episcopal.

João Paulo II e Bento XVI sempre indicaram a via do diálogo, e não do confronto, como instrumento para resolver os problemas vividos pelo catolicismo chinês nas relações com as autoridades civis.

Seja como for, no delicado momento em que se encontram atualmente as relações sino-vaticanas, as indicações divulgadas pelo cardeal Zen dizem respeito a todos, a começar pelos católicos chineses: bispos e sacerdotes, religiosos e leigos, aos ditos oficiais e clandestinos. Cada um, na liberdade da própria consciência iluminada pela fé, poderá entesourar esse “sensus fidei” que, no ex-Império Celeste, foi guardado inclusive nos tempos difíceis da cruel perseguição. O mesmo “sensus fidei” que sempre assinala também a comunhão real com o Bispo de Roma, Sucessor de Pedro.

3 julho, 2016

Foto da semana.

Sala Clementina, Vaticano, 28 de junho de 2016 – Os papas se encontram em cerimônia pública em comemoração dos 65 anos de ordenação sacerdotal de Bento XVI.

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1 julho, 2016

Editorial: Pedir desculpas aos gays?

Por FratresInUnum.com

Eu creio que a Igreja não só deve pedir desculpas – como disse aquele cardeal ‘marxista’ … [risos] [ndt: o Papa se referia ao Cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique] – a essa pessoa que é gay, que ofendeu, mas também deve pedir desculpas aos pobres, às mulheres e às crianças exploradas no trabalho; deve pedir desculpas por ter abençoado tantas armas”.

A citação quase dispensa referências, dado que foi repetida como refrão pela mídia. Mas foi dita por Papa Francisco em seu vôo de retorno da Armênia, no último domingo, dia 26 de junho.

A Igreja deve pedir desculpas aos gays? Por que será?…

Por eles realizarem orgias em plena luz do dia, em suas paradas?

Por eles blasfemarem contra Nosso Senhor, escolhendo qual será o mais sensual de seus modelos a o arremedarem?

Por eles usarem as imagens de nossos santos, como meio de zombaria e profanação, desafiando sempre a nossa fé?

Por seus gritos de guerra contra as Escrituras, contra a Igreja, contra o ensino da Tradição?

Por eles colocarem rosários como penduricalhos em seus corpos despidos, e se fantasiarem da Imaculadíssima Virgem Maria?

* * *

Ah, não! Papa Bergoglio deve estar dizendo que devemos pedir desculpas por outros motivos: seria por aquilo que já se disse na Igreja sobre quem pratica tais coisas?

Será que é porque o Levítico (28,22) chama esses costumes de “abominação”?

Ou será porque São Paulo os chama de idólatras (Rm 1,24-27)?

Ou porque o mesmo Apóstolo diz que eles não herdarão o Reino dos Céus (1Cor 6,10), caso não se convertam?

Ou porque Santo Agostinho disse que “os delitos que vão contra a natureza, como os dos sodomitas, devem ser condenados. Mesmo se todos os homens o cometessem, seriam envolvidos na mesma condenação divina: Deus, de fato, não criou os homens para que cometessem tais abusos de si mesmos. Quando, movidos por uma paixão pervertida, profanam a própria natureza que Deus criou, é a mesma união que deve existir entre Deus e nós que é violada” (Confissões, III)?

Ou porque São Gregório Magno disse que “assim como o enxofre fede e o fogo queima, era justo que os sodomitas queimando pelos desejos pervertidos originados pelo fedor da carne perecessem ao mesmo tempo por meio do fogo e do enxofre, de modo que, por causa do justo castigo, percebessem o mal que fizeram sob a indução de um desejo perverso” (Comentário moral ao livro de Jó, 14,23)?

Ou porque São Pedro Damião disse que “este vício não pode ser considerado como um vício qualquer, porque supera a gravidade de todos os outros vícios. Este, de fato, mata o corpo, arruína a alma, contamina a carne, extingue a luz do intelecto, expulsa o Espírito Santo do templo da alma” (Opúsculo Sétimo. PL 145, coll. 161-190)?

Ou porque São Tomás de Aquino escreveu que “nos pecados contra a natureza, em que é violada a ordem natural, o próprio Deus é ofendido enquanto ordenador do universo” (Suma Teológica, II-II, q. 154, a.12)?

Ou porque Santa Catarina de Sena afirma que “cometendo o maldito pecado contra a natureza, como cegos e loucos, estando ofuscada a luz de seu intelecto, não conhecem o fedor e a miséria em que estão” (Diálogo, cap. 124)?

Ou porque garantiu São Bernardino de Sena que “maior castigo sente alguém que viveu nesse vício da sodomia que em um outro, porque este é o maior pecado que existe” (Sermão 39)?

Ou porque São Pedro Canísio, jesuíta, disse que “dessa torpeza nunca demais execrada são escravos aqueles que não se envergonham de violar a lei divina e natural” (Suma da doutrina cristã, III a/b)?

Ou porque São Pio V decretou que é “ execrável o vício libidinoso contra a natureza, culpa pela qual os povos e as nações são flagelados por Deus com justa condenação, com secas, guerras, fomes e pestes” (Constituição Cum primum)?

Ou, enfim, porque São Pio X escreveu que o “pecado contra a natureza clama a vingança diante de Deus” (Catecismo, n. 966)?

Talvez ele esteja se referindo a esses textos acima, em que o pecado é comentado em total sintonia com as Sagradas Escrituras pelas maiores autoridades da Tradição cristã. E, isso, porque não tivemos tempo de fazer uma pesquisa mais minuciosa.

* * *

Alguns dirão: o Papa se refere aos homossexuais de boa vontade, que querem ser acolhidos pela Igreja, e não ao movimento gayzista organizado enquanto tal, o que ele, mais de uma vez, rejeitou ao se referir a um lobby gay. Ora, se é assim, por que não apresentar a doutrina Católica de maneira límpida e cristalina, com Caridade e Verdade juntas, como sempre fizeram os pastores da Igreja? Os que hoje ousam fazê-lo na Igreja de Francisco, inevitavelmente acabam desterrados.

* * *

Papa Francisco quer pregar uma nova doutrina, desconhecida pelos Apóstolos, pelos Padres da Igreja, pelos Doutores, pelos Papas, por todos os santos? Decerto, está agradando muito a mídia secular, que odeia a Igreja.

Francisco quer colocar a Santa Igreja de joelhos diante do movimento LGBT, que não cessa de escarrá-la, desfigurando-a como fizeram com Nosso Senhor em sua beatíssima Paixão?

Diante disso, ouçamos as Palavras sacratíssimas de Cristo, nosso Deus:

“Eu sou o bom pastor. O bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, porém, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, quando vê que o lobo vem vindo, abandona as ovelhas e foge; o lobo rouba e dispersa as ovelhas. O mercenário, porém, foge, porque é mercenário e não se importa com as ovelhas” (Jo 10,11-13).

Não desanimemos, porém! Embora seja chegada “a hora e o poder das trevas” (Lc 22,53s), nunca estivemos tão perto de que Deus nos venha socorrer em nossa vergonha.

Enquanto aqueles que deveriam ser pastores se omitem, continuemos firmes na fé de nossos pais, certos de que Deus nos recompensará.

Resistamos! Resistamos com firmeza!

O que quer Francisco? Que façamos atos penitenciais em nossas Catedrais, reunindo os membros do movimento LGBT, para lhes ocular os pés, para lhes pedirmos perdão? Isso não equivaleria à canonização da sodomia?

Francisco quer pedir perdão porque os católicos são católicos?

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28 junho, 2016

Papa Francisco: Bento XVI continua servindo a Igreja com vigor e sabedoria.

Cidade do Vaticano (Rádio Vaticano) – O Papa Francisco conduziu nesta terça-feira (28/06), na Sala Clementina do Vaticano, a celebração solene de comemoração dos 65 anos de Ordenação sacerdotal do Papa emérito Bento XVI.

“Hoje, festejamos a história de um chamado iniciado há 65 anos com a sua Ordenação sacerdotal ocorrida na Catedral de Frisinga em 29 de junho de 1951”, disse Francisco a Bento XVI.

“Em uma das mais belas páginas que o senhor dedica ao sacerdócio, sublinha como, na hora do chamado definitivo de Simão, Jesus, olhando para ele, no fundo pergunta-lhe somente uma coisa: ‘Me amas?’. Como é bonito e verdadeiro isto! Porque é aqui, o senhor nos diz, é neste “me amas” que o Senhor funda o apascentar, porque somente se existe amor pelo Senhor Ele pode apascentar por meio de nós”, frisou ainda o Pontífice.

“É esta a nota que domina uma vida inteira dedicada ao serviço sacerdotal e à teologia que o senhor não por acaso definiu como a ‘busca do amado’; é isto que o senhor sempre testemunhou e testemunha ainda hoje: que a coisa decisiva nos nossos dias – de sol ou de chuva – a única com a qual vem também todo o resto, é que o Senhor esteja realmente presente, que o desejemos, que interiormente sejamos próximos a ele, que o amemos, que realmente acreditemos profundamente nele e acreditando o amemos verdadeiramente. É este amar que realmente nos preenche o coração, este acreditar é aquilo que nos faz caminhar seguros e tranquilos sobre as águas, mesmo em meio à tempestade, precisamente como acontece a Pedro; este amar e este acreditar é o que nos permite de olhar ao futuro não com medo ou nostalgia, mas com alegria, também nos anos já avançados de nossa vida.”

Testemunho

“E assim, precisamente vivendo e testemunhando hoje em modo tão intenso e luminoso esta única coisa realmente decisiva – tendo o olhar e o coração voltado a Deus – o senhor, Santidade, continua servindo a Igreja, não deixa de contribuir realmente com o vigor e a sabedoria para o crescimento dela”, disse Francisco que acrescentou:

“E o faz daquele pequeno Mosteiro Mater Ecclesiae no Vaticano, que se revela desta forma ser bem outra coisa do que um daqueles cantinhos esquecidos nos quais a cultura do descarte de hoje tende a relegar as pessoas quando, com a idade, as suas forças começam a faltar. É bem ao contrário; e isto permite que o diga com força o seu Sucessor que escolheu chamar-se Francisco!”.

“Porque o caminho espiritual de São Francisco iniciou em São Damião, mas o verdadeiro lugar amado, o coração pulsante da ordem, lá onde o fundou e onde no final rendeu sua vida a Deus foi a Porciúncula, a ‘pequena porção’, o cantinho junto à Mãe da Igreja; junto a Maria que, pela sua fé tão firme e pelo seu viver tão inteiramente do amor e no amor com o Senhor, todas as gerações chamarão bem-aventurada. Assim, a Providência quis que o senhor, caro irmão, chegasse a um lugar por assim dizer propriamente ‘franciscano’ do qual emana uma tranquilidade, uma paz, uma força, uma confiança, uma maturidade, uma fé, uma dedicação e uma fidelidade que me fazem tão bem e dão força para mim e para toda a Igreja”.

Palavras de Bento XVI

E o Papa Francisco concluiu: “Que o senhor, Santidade, possa continuar sentido a mão do Deus misericordioso que o sustenta, que possa experimentar e nos testemunhar o amor de Deus; que, com Pedro e Paulo, possa continuar exultando de alegria enquanto caminha rumo à meta da fé.”

A seguir, o Papa emérito Bento XVI, em um breve discurso improvisado de agradecimento, recordou que sua vida sacerdotal foi marcada desde o início pela palavra grega “Eucharistomen” e suas tantas dimensões.

“Ao final, queremos nos incluir neste obrigado do Senhor e, assim, receber realmente a novidade da vida e ajudar a transubstanciação do mundo, que seja um mundo não de morte, mas de vida – um mundo no qual o amor venceu a morte.”

(JE/MJ/RB)

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27 junho, 2016

Papa: “A Igreja deve pedir perdão aos gays”. E sobre Lutero: “Ele foi um reformador, tinha boas intenções”.

Francisco a todo vapor no vôo da Armênia: “Bento XVI  é Emérito, mas o Papa é um só”. “Depois do Brexit, é necessário uma União Europeia menos maciça”. E responde ainda aos ataques de Ancara: “Os armênios? Eles não conheciam outra palavra senão genocídio.”

Por La Repubblica | Tradução: FratresInUnum.com: “Pedimos perdão por termos marginalizado os gays. Martinho Lutero foi um reformador. Bento é Emérito, mas o Pontífice é um só”. É um Papa a todo vapor aquele que se entretém com os jornalistas no vôo da Armênia. Francisco encontra tempo para falar até da União Europeia após o referendo sobre Brexit e para voltar ao tema do genocídio armênio, que causou a forte reação da Turquia. E são todas as palavras destinadas a causar controvérsia.

224526713-ef385206-b78f-4edd-82f6-bc3fa6b6a879“A Igreja pede perdão aos gays e não apenas a eles”.”Eu acredito que a Igreja não só deve pedir perdão aos gays, mas deve pedir perdão também aos pobres, às mulheres estupradas, as crianças exploradas no trabalho, deve pedir perdão por ter abençoado tantas armas. Os cristãos devem pedir perdão por terem acompanhado tantas escolhas erradas”. Assim Papa Francisco, no vôo de regresso de Yerevan, respondeu quando perguntado se ele concorda com o cardeal Reinhard Marx, que em uma conferência internacional em Dublin disse que a Igreja deveria pedir perdão à comunidade gay. “Eu disse em minha primeira viagem e repito, aliás repito o Catecismo da Igreja Católica – disse o Papa -: os homossexuais não devem ser discriminados, devem ser respeitados, acompanhados pastoralmente.  Se pode condenar qualquer manifestação ofensiva aos outros, mas o problema é que, com uma pessoa com aquela condição, que tem boa vontade e que busca a Deus, quem somos nós para julgar? Devemos fazer um bom acompanhamento – acrescentou – é o que diz o Catecismo. Então, em alguns países e tradições, existe outra mentalidade, alguns que tem uma visão diferente sobre este problema “.

“As intenções de Lutero não eram erradas”. “Eu creio que as intenções de Martinho Lutero não eram erradas. Ele foi um reformador”. Estas são as palavras do Papa Francisco no vôo de regresso da capital armênia, Yerevan, e responde também a uma pergunta sobre a viagem que o Papa fará a Lund, Suécia, para o 500º aniversário da Reforma Protestante. “Talvez – continuou o Papa – os métodos foram errados. Mas a Igreja não era nenhum modelo a ser imitado: havia corrupção, mundanismo, lutas de poder”. Respondeu ele dando um passo adiante para criticá-la.  “Em seguida, verificou-se que ele não estava sozinho  pois Calvino e os príncipes alemães queriam o cisma.  Devemos colocar-nos na história desse tempo, não é fácil de compreender hoje – continua o Papa – buscamos retomar a estrada para nos encontrarmos novamente depois de 500 anos.  Rezar juntos e trabalharmos em conjunto para os pobres. Mas isso não é suficiente. O dia da plena unidade, dizem alguns, é o dia depois da vinda do Filho do Homem. No entanto, nós temos que orar, dialogar e trabalhar em conjunto por tantas coisas, como na luta contra a exploração das pessoas.No plano teológico, finalmente, estamos de acordo com os luteranos sobre o tema da Justificação. O documento conjunto sobre esta questão é um dos mais claros. Os irmãos -assim, concluiu o Papa- se respeitam, se amam”.

“Há apenas um Papa, Bento é Emérito”. “Há apenas um Papa. O outro, Bento XVI é um papa emérito, uma figura que antes não existia e que ele, com coragem, oração, ciência, e até mesmo teologia, abriu o caminho. Eu nunca esqueci o discurso que ele fez aos cardeais em 28 de fevereiro, há três anos atrás: “entre vocês com certeza está o meu sucessor, a ele eu prometo obediência”. E assim o fez.”. Assim Papa Francisco respondeu aos repórteres sobre as declarações de Mons. Georg Gaenswein sobre o ministério petrino, que agora seria compartilhado entre dois papas, um ativo e outro contemplativo. “Eu não li as declarações, eu não tive tempo para ver essas coisas”, assim disse Francisco. “Bento é o Papa emérito – disse ele. – Ele disse claramente naquele 11 de fevereiro, que sua demissão seria efetiva em 28 de fevereiro, que se retirava para ajudar a Igreja com a oração. E Bento XVI está no seu mosteiro, rezando. Eu fui vê-lo, eu de vez enquanto falo com ele ao telefone. Outro dia mesmo ele me escreveu uma cartinha, com aquela assinatura sua, desejando-me boa viagem à Armênia.  Mais de uma vez- recordou o Pontífice- eu disse que é um graça ter em casa um sábio. Até disse isso pra ele e ele riu. Ele pra mim é o Papa emérito e o avô sábio, é o homem que sustenta as costas e a coluna com a sua oração. Depois eu ouvi falar,  pois me contaram, mas eu não sei se é verdade, porém se encaixa bem com seu caráter, que alguns foram lá para se queixar de mim com ele: “… mas este Papa … ‘, e ele os expulsou de lá…no melhor estilo bávaro, educado, mas os expulsou. Este homem é assim, um homem de palavra, é um homem reto, reto. É o Papa Emérito “.

“A Europa após Brexit precisa de uma união menos maciça.” “Há um ar de divisão, não só na Europa.  Dentro dos próprios países:.. a Catalunha e a Escócia no ano passado. Há algo errado nesta União ‘enorme’: talvez seja necessário pensar em uma nova forma de união, mais livre. Mas não se deve jogar fora o bebê com a água suja do banho “. Assim o Papa, no vôo de Yerevan respondeu sobre Brexit e os perigos de desintegração da Europa. “Essas divisões – disse o Papa – não digo que são perigosas, mas precisamos estudá-las bem e antes de tomar um passo adiante conversarmos bem entre nós, e buscar soluções viáveis”.  Francisco disse que ele não havia estudado o “porque o Reino Unido quis tomar essa decisão. Mas há divisões por independência, que são feitas para a emancipação, como os dos Estados que eram colônias, e há secessões. Um passo que, no caso da União Europeia, deve ser dado para recuperar a força de suas raízes, um passo de criatividade, e até mesmo de saudável “desunião”, dar mais liberdade aos países da UE pensar uma outra forma de União”.  “Seja criativo – afirmou ele- em postos de trabalho, na economia, é impensável que em países como a Itália, há tantos jovens fora do mercado de trabalho.  Há algo errado nesta União ‘maciça’.  Mas não vamos deitar fora o bebê com a água do banho.Precisamos recriar – concluiu – Recriar é algo que sempre precisa ser feito. E isso dá vida e vontade de viver. Dá fecundidade. Para a União Europeia, na minha opinião há duas palavras-chave: criatividade e fecundidade…”

“Os armênios? Não conhecem outra palavra senão genocídio”. “Na Argentina, sempre que se fala sobre o extermínio dos Armênios se usava a palavra genocídio. Não conheci outra. Só que quando eu vim para Roma ouvi outra palavra, o” grande mal “, a terrível tragédia … E me disseram que a outra era ofensiva “. Assim disse o Papa respondendo sobre a reação turca às suas declarações sobre a perseguição do povo armênio. “Por causa do meu passado com esta palavra, por já tê-la usado publicamente, seria muito estranho se eu não a tivesse usado na Armênia.  Mas eu nunca falei com espírito de ofensa. Eu sempre falei de três genocídio no século passado..: o primeiro Armênio, o segunda o de Hitler e o último, o de Stalin. Houveram outros, como na África, mas estes foram os que aconteceram no âmbito de duas grandes guerras “, disse o pontífice. “Eu me perguntava porque há alguns que acham que este não foi um verdadeiro genocídio. Um advogado me disse algo que me impressionou muito, que” genocídio “é um termo técnico, tem sua tecnalidade, não é sinônimo de extermínio. Pode-se dizer extermínio, mas o genocídio implica que são necessárias ações de reparação”.

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