Posts tagged ‘O Papa’

19 abril, 2018

‘Cometi erros graves’, diz o Papa. ‘Peço perdão’.

A frase “Amar é nunca ter que pedir perdão” marcou mais do que o filme “Love Story“, no qual apareceu duas vezes. À primeira vista, as palavras pareciam belas, mas refletindo melhor não faziam nenhum sentido, principalmente para os cristãos.

IHU – O comentário é de Thomas Reese, jornalista e jesuíta, publicado por Religion News Service, 17-04-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O próprio pedido de perdão é uma expressão de amor. Pode expressar compaixão com alguém que sofre ou arrependimento por ter magoado alguém.

O que pode ser mais carinhoso?

Muitas vezes os advogados instruem seus clientes a nunca pedirem perdão para que isso não seja considerado um reconhecimento da culpa e da responsabilidade. Durante a crise de abuso sexual, bispos católicos que seguiram este conselho jurídico tiveram grandes problemas.

Figuras de autoridade muitas vezes têm medo de admitir seus erros para não prejudicar sua credibilidade. É por isso que muitos na Cúria Romana achavam que o Papa João Paulo II estava louco quando, na celebração de dois milênios do cristianismo, ele decidiu não apenas celebrar as realizações dos 2.000 anos de cristianismo, mas também pedir perdão pelos pecados da Igreja nesse período. Admitir isso, pensaram eles, enfraqueceria a autoridade da Igreja. Afinal, se a Igreja errou no passado, poderia errar também no futuro. Então por que as pessoas iriam segui-la?

Obviamente, aconteceu o contrário. João Paulo ganhou credibilidade e respeito por sua honestidade.

Em sua recente carta aos bispos chilenos, o Papa Francisco admitiu que cometeu “erros graves” em sua avaliação, ao lidar com a crise de abusos sexuais no país. Ele já havia defendido o bispo Juan Barros, que foi acusado de ter conhecimento do abuso do Rev. Fernando Karadima mas não fazer nada a respeito. Francisco disse que não havia provas. Ele mesmo acusou os acusadores do bispo de “calúnia”.

No final, Francisco tomou uma decisão acertada e enviou o arcebispo Maltês Charles Scicluna para investigar o caso. Scicluna é conhecido por ser um investigador obstinado, que persegue as evidências. Foi ele que encontrou evidências incriminatórias sobre o Rev. Marcial Maciel, um predador sexual e fundador dos Legionários de Cristo.

Scicluna é um dos poucos religiosos em quem as vítimas de abuso sexual confiam. Seu relatório de 2.300 páginas baseado em 64 entrevistas forçou o Papa a reconhecer, com “dor e vergonha”, as “muitas vidas crucificadas” dos que sofreram abuso.

Papa admitiu que estava errado e se desculpou. Não foi um “pedido de desculpas da boca para fora”, pois o Papa admitiu plenamente que tinha se equivocado.

“Cometi erros graves de avaliação e percepção da situação”, escreveu. Ele afirmou que foi por “falta de informação verdadeira e equilibrada”, mas que ainda assim o erro foi dele.

“Peço perdão a todos aqueles a quem eu ofendi”, declarou, “e espero ser capaz de fazê-lo pessoalmente, nas próximas semanas, nas reuniões que terei com os representantes das pessoas que foram entrevistadas”.

Papa convidou os bispos chilenos a irem a Roma para ajudá-lo “a discernir as medidas que devem ser adotadas a curto, médio e longo prazo para restabelecer a comunhão eclesiástica no Chile, no intuito de reparar o escândalo o máximo possível e restabelecer a justiça.”

Um papa não deve cometer erros. E se cometer, a Igreja tende a levar décadas — se não séculos — para admitir. Mas desde o início de seu papado Francisco admitiu que é pecador assim como todos os outros cristãos. Ele cometeu um erro, corrigiu, pediu perdão. Isso é ser cristão.

Os católicos devem lembrar que os sacerdotes e suas congregações começam cada Eucaristia com uma confissão de pecados: “Eu confesso a Deus Todo-poderoso e a vocês, meus irmãos e irmãs, que pequei muito em meus pensamentos e em minhas palavras, no que fiz e no que não fiz”.

Na Igreja Católica, amor significa sempre ter que pedir perdão.

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6 abril, 2018

Cardeal Burke: “A situação é intolerável. Não só é possível, mas é necessário criticar o Papa”.

«O que ocorreu com a última entrevista concedida a Eugenio Scalfari durante a Semana Santa supera tudo o que é tolerável», declarou o Cardeal Raymond Leo Burje em uma entrevista a Ricardo Cascioli, publicada em La Nuova Bussola Quotidiana, do último dia 4 de abril. 

Por«Que um ateu pretenda anunciar uma revolução no ensino da Igreja católica, afirme falar em nome do Papa, e negue a imortalidade da alma humana e a existência do inferno, suscitou um escândalo tremendo, não só para muitos católicos, mas também para numerosos não crentes que respeitam a Igreja Católica e seus ensinamentos, embora não compartilhe deles”, declarou o cardeal norte-americano, um dos quatro signatários dos dubia de 2016. «E mais, a resposta da Santa Sé à reação de escândalo que se produziu em todo o mundo foi extremamente insuficiente. Em vez de reafirmar claramente a verdade sobre a imortalidade da alma humana e o inferno, o desmentido se limita a dizer que algumas das palavras citadas não são do Papa. Não diz que o Sumo Pontífice não está de acordo com as idéias errôneas, e inclusive heréticas, expressas por tais palavras, nem que as repudia por serem contrárias à Fé Católica. Julgar desta forma a fé e a doutrina, ao nível mais elevado da Igreja, é, com razão, causa de escândalo entre os pastores e fiéis».

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Questionado por Cascioli sobre o silêncio dos pastores, o Cardeal Burke responde: «A situação se vê agravada pelo silêncio de tantos bispos e cardeais que compartilham, com o Sumo Pontífice, do dever de zelar pela Igreja universal. Alguns se limitaram a ficar em silêncio. Outros, fingem se há a menor gravidade. E outros propagam fantasias sobre uma nova Igreja, uma Igreja que empreende um rumo totalmente inovador, sonhando, por exemplo, com um novo paradigma para a Igreja ou uma conversão radical de sua praxis pastoral, fazendo dela algo completamente novo. Também há promotores entusiastas da suposta revolução na Igreja Católica. Os fiéis que percebem a gravidade da situação reagem com perplexidade diante da falta de direção doutrinal e disciplinar por parte de seus pastores. E para os que não compreendem a gravidade da situação, essa ausência lhes deixa confusos e vulneráveis a erros perigosos para as suas almas. Muitos que entraram em plena comunhão com a Igrea Católica após terem se batizados em uma comunhão eclesial protestante, pois tais comunidades abandonaram a fé apostólica, sofrem intensamente com esta situação: se dão conta de que a Igreja Católica está seguindo o mesmo caminho de abandono da fé. Esta situação me leva a refletir cada vez mais sobre a mensagem da Virgem de Fátima, que nos adverte do mal — pior ainda que os gravíssimos males originados da difusão do comunismo ateu — que é a apostasia da fé no seio da Igreja. O número 675 do Catecismo da Igreja Católica nos ensina que “Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final que abalará a fé de numerosos fiéis”, e que “A perseguição que acompanha a sua peregrinação sobre a terra desvelará o mistério da iniquidade sob a forma de uma impostura religiosa que proporcionará aos homens uma solução aparente de seus problemas, mediante o preço da apostasia da verdade” »

O Cardeal assinala possíveis iniciativas: « Diante de tal situação, os bispos e cardeais têm o dever de anunciar a verdadeira doutrina. Ao mesmo tempo, devem orientar aos fiéis para que ofereçam reparações pelas ofensas a Cristo e às feridas infligidas a seu Corpo Místico, a Igreja, quando a fé e a disciplina não são devidamente salvaguardadas e promovidas pelos pastores. O grande canonista do século XIII, Enrico da Susa, o Ostiense, diante da grave situação de como corrigir a um romano pontífice que age de modo contrário ao que seu cargo obriga, afirma que o colégio cardinalício é, de fato, um mecanismo de controle dos erros papais. Se o Papa não exerce bem o seu ofício para o bem das almas, não só é possível, como, inclusive, é necessário criticá-lo. Essa crítica deve se ajustar aos ensinamentos de Cristo sobre a correção fraterna (Mt.18, 15-18). Primeiro, o fiel ou pastor deve expressar a sua crítica em privado, para que o Pontífice possa se emendar. Se o Papa se nega a corrigir o seu modo gravemente deficiente de ensinar e agir, a crítica deve ser feita pública, porque dela depende o bem da Igreja e do mundo. Alguns criticaram aqueles que expressaram publicamente críticas ao Sumo Pontífice, como se se tratasse de uma manifestação de rebeldia ou desobediência, mas pedir — com o devido respeito ao cargo — a correção de uma confusão ou erro não é um ato de desobediência, mas de obediência a Cristo, e, portanto, também, a seu Vigário na Terra.»

Emmanuele Barbieri

26 março, 2018

Longe de continuidade, há um abismo. A verdadeira história dos onze opúsculos.

Por Sandro Magister, Settimo Cielo, 26 de março de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com – Conforme passam os dias, é cada vez mais evidente que Francisco não demitiu nem castigou, absolutamente, a Mons. Dario Edoardo Viganò, por conta da maneira com que utilizou o que lhe escreveu Bento XVI.

libretti1Pelo contrário, confirmou e inclusive reforçou seus poderes, renovando-lhe, explicitamente, a determinação de concluir a consolidação de todos os meios de comunicação do Vaticano, inclusive “L’Osservatore Romano”, em um “único sistema comunicativo” totalmente controlado por ele, em linha direta com o Papa e destinado a cuidar da imagem de pastor exemplar e também de teólogo culto.

De fato, a operação em que se instrumentalizou a carta de Bento é parte deste desenho geral.

*

A origem da operação se remete ao outono passado, quando Viganò colocou à frente da Libreria Editrice Vaticana um novo diretor, Giuliu Cesareo, de 39 anos, franciscano, com estudos teológicos em Friburgo e docente de teologia moral.

Em 12 de outubro de 2017, dia da nomeação, os dois estiveram em Frankfurt, na Feira do Livro que se celebra anualmente. Viganò declarou que a mudança de diretor da Libreria Editrice Vaticana “configura um novo reforço importante no processo de reforma pedido pelo Santo Padre”. E ambos anunciaram que a nova linha editorial seria inaugurada com uma coleção de onze opúsculos de diversos autores, que objetivava “mostrar a profundidade das raízes teológicas do pensamento, dos gestos e do ministério do Papa Francisco”.

Nos dias do Natal, a coleção chegou às livrarias de Roma. E entre os autores aparecem importantes nomes do campo teológico progressista, ou totalmente partidários da “mudança de paradigma” colocada em movimento por Francisco, como os argentinos Carlos Galli e Juan Carlos Scannone, os alemães Peter Hünermann e Jürgen Werbick, os italianos Aristide Fumagalli, Piero Coda, Marinella Perroni e Roberto Repole, o jesuíta esloveno Marko Ivan Rupnik, este último mais apreciado como artista do que como teólogo, e já há algum tempo diretor espiritual do próprio Viganò.

Na escolha destes autores, é significativa, particularmente, a de Hünermann. Dois anos mais novo que Joseph Ratzinger, foi-lhe um adversário irredutível durante toda a sua vida, sustentando, entre outros pontos, uma tese sobre a natureza do Concílio Vaticano II que o próprio Ratzinger, uma vez Papa Bento XVI, sentiu-se obrigado a citar e refutar em seu célebre discurso de 22 de dezembro daquele mesmo ano, sobre a reta interpretação do Concílio.

Disse Bento, com uma referência implícita a Hünermann, que não passou despercebida pelos entendedores:

“[Para alguns] o Concílio é considerado como uma espécie de Assembleia Constituinte, que elimina uma Constituição antiga e cria uma nova. Porém, a Assembleia Constituinte precisa de uma autoridade que lhe confira o mandado e, depois, uma confirmação por parte dessa assembleia, isto é, do povo ao qual a Constituição deve servir. Os padres não tinham mandado e ninguém lhes deu; ademais, ninguém lhes poderia dar, porque a Constituição essencial da Igreja provém do Senhor”.

Quanto a Jorge Mario Bergoglio, Hünermann o conhece desde o longínquo 1968, quando permaneceu em Buenos Aires para um período de estudo, no colégio dos jesuítas. E, uma vez Papa, teve com ele uma longa conversa em Santa Marta, em maio de 2015, no intervalo entre os dois sínodos sobre o matrimônio e divórcio.

Hünermann deu a conhecer os detalhes dessa conversa em uma longa entrevista publicada em  “Commonweal“, em 22 de setembro de 2016.

A pedido de amigos latino-americanos de Bergoglio, Hünermann enviou ao Papa um informe escrito, no qual argumentava que na teologia católica anterior ao Concílio de Trento, especialmente em Santo Tomás de Aquino e São Boaventura, a indissolubiidade do matrimônio não era um absoluto, mas admitia a ruptura. E o mesmo ocorria com a absolvição sacramental do adultério, também admitida apesar da continuidade da relação.

Na conversa posterior com o Papa Francisco, os dois falaram disso, em espanhol, durante uma hora. E depois, no ano seguinte, veio a exortação “Amoris Laetitia”, a qual, segundo Hünermann, levou em conta esta sua contribuição.

Pois bem, em 12 de janeiro deste ano, somente passadas as festas de Natal, Viganò envia a Bento XVI os onze opúsculos reunidos em um estojo, juntamente com uma carta em que pede que escreva uma apresentação deles, elogiando o conteúdo e recomendando sua leitura.

Não se conhece o texto da carta de Viganò. Porém, a substância do que está escrito nela se pode depreender da carta de resposta de Bento XVI, datada de 7 de fevereiro, esta sim posteriormente conhecida.

É evidente a intenção do pedido dirigido por Viganò ao Papa emérito: arrancar do grande teólogo Bento XVI a sua aprovação pública do “novo paradigma” de seu sucessor, tal como ilustrado nos opúsculos por uma fila de teólogos recrutados entre os apologetas do novo programa.

Vendo o conteúdo e os autores dos opúsculos, o atrevimento do pedido feito por Viganò a Bento XVI deixa boquiabertos a muitos.

É totalmente negativa, de fato, a resposta de Bento na carta “pessoal reservada” enviada por ele a Viganò, em 7 de fevereiro.

O Papa emérito se nega a escrever “a breve e densa página teológica”, que lhe foi pedida,  sobre os opúsculos. Diz que não os leu nem os lerá futuramente. Expressa sua “surpresa” ao ver, entre os autores escolhidos, o “professor Hünermann, quem, durante meu pontificado, colocou-se em evidência por encabeçar iniciativas anti papais”.

Ademais, ao responder a Viganò, Bento se sente na obrigação de rechaçar por si mesmo o “tolo preconceito” segundo o qual ele teria sido “apenas um teórico da teologia que pouco compreendera da vida concreta do cristão atual”.

Assim como seria injusto, escreve, pensar que “o Papa Francisco seria somente um homem prático privado de particular formação teológica ou filosófica”. Porque, certamente, insiste ele, “é um homem de uma profunda formação teológica e filosófica”.

Se se quer reconhecer uma “continuidade” entre seu pontificado e o de Francisco, Bento XVI especifica que ela deve ser considerada “interior”.

*

O que se seguiu já é conhecido. Na tarde de 12 de março, na véspera do quinto aniversário de eleição do Papa Francisco e por ocasião do lançamento, com toda pompa, no Vaticano — com o primeiro expositor sendo o Cardeal Walter Kasper — dos onze opúsculos, Viganò distribui um comunicado de imprensa no qual cita da carta de Bento XVI somente as poucas linhas referidas sobre “a profunda formação teológica” de Bergoglio e a continuidade entre os pontificados.

Inicialmente, Viganò obtém plenamente o que se propõe, isto é, um compacto coro de louvor nos meios de comunicação, sobretudo os italianos, pela suposta adesão pública de Bento XVI ao novo programa empreendido pelo papa Francisco.

Exceto que, no dia seguinte, 13 de março, Settimo Cielo publica também o outro parágrafo da carta de Bento XVI que contém sua recusa a ler e escrever qualquer coisa sobre os livretos, parágrafo também precipitadamente lido em público por Viganò na tarde anterior, porém, totalmente ignorado pelas dúzias de jornalistas presentes.

Então se desencadeou a tempestade. Pois, desde os meios de comunicação do mundo todo, recai agora sobre Viganò a acusação de ter construído e difundido uma “fake news” de gravidade inaudita, não só com o comunicado de imprensa, mas também com a foto oficial da carta de Bento XVI,  borrada em suas linhas mais incômodas.

A tempestade chega a seu ápice na manhã de 17 de março, quando, novamente, Settimo Cielo antecipa o último parágrafo da carta, que faz referência a Hünermann.

No entardecer do mesmo dia, Viganò é então obrigado a publicar o texto integral da carta de Bento XVI.

Dois dias depois, em 19 de março, ele pede por escrito ao Papa Francisco que aceite sua renúncia como prefeito da Secretaria para a Comunicação.

E, em 21 de março, Francisco a aceita, mas, também escreve, “não sem certo pesar”.

As duas cartas, na realidade, ambas publicadas no meio dia de 21 de março, não fazem a mínima alusão de arrependimento pela inédita maquinação realizada em desfavor de Bento XVI, que sequer é nomeado.

Em sua carta ao Papa, Viganò lamenta unicamente as “muitas polêmicas em torno do que foi feito por mim, que, para além das intenções, desestabilizam o complexo e grande trabalho de reforma que o senhor me confiou”.

E Francisco, em sua carta de resposta, precedida por conversas e encontros pessoais entre os dois, não faz outra coisa senão encher Viganò de elogios pelo trabalho de reforma realizado por ele até então, e volta a confirmar a ordem de concluí-lo, no novo papel de “assessor” criado deliberadamente para ele na Secretaria para a Comunicação.

*

Mas, voltando à carta de Bento XVI de 7 de fevereiro, é útil examinar mais de perto a sua referência a Hünermann.

Recorda que ele “participou de forma relevante do lançamento da “Kölner Erklärung” [Declaração de Colonia], que, em relação à encíclica “Veritatis Splendor”, atacou de forma virulenta a autoridade magisterial do Papa, especialmente em questões de teologia moral”.

Com efeito, a “Declaração de Colônia” foi um ataque frontal lançado em 1989 por diversos teólogos, em sua maioria alemães, contra o ensinamento de João Paulo II e de seu prefeito da doutrina da Fé, Joseph Ratzinger, sobretudo em matéria de teologia moral.

O que fez explodir o protesto foi a nomeação, como arcebispo de Colônia, do cardeal Joachim Meisner, o mesmo que, em 2016, foi um dos signatários dos “dubia” apresentados ao Papa Francisco acerca de Amoris Laetitia e sobre quem, em 2017, em seu dia de sepultamento, Bento XVI escreveu palavras profundas e impactantes.

Entre os signatários da “Declaração de Colônia” estava a nata do progressismo teológico, desde Hans Küng a Bernhard Häring, desde Edward Schillebeeckx a Johann Baptist Metz.  E estiveram também dois dos autores dos atuais onze opúsculos sobre a teologia do papa Francisco: Hünermann e Werbick.

À tese da “Declaração de Colônia”, João Paulo II reagiu, em 1993, com a encíclica “Veritatis Splendor” — que não foi citada uma única vez por Francisco em “Amoris Laetitia”. Enquanto que, por sua vez, nos parágrafos 303-305, “Amoris Laetitia” retoma e faz suas algumas das teses da “Declaração de Colônia”, especialmente ali onde, em seu terceiro e último ponto, atribui-se à consciência e à responsabilidade individual o juízo em decisões morais.

Neste mesmíssimo terceiro ponto da “Declaração de Colônia” ataca-se frontalmente a encíclica de Paulo VI “Humanae vitae“, reinvidicando a licitude dos anticoncepcionais. E também sobre este ponto o pontificado de Bergoglio está se movimento na mesma direção.

Pelo contrário, no texto quiçá mais amplo e meditado até agora publicado por Bento XVI desde sua renúncia, em um volume de 2014 de diversos autores sobre João Paulo II, o Papa emérito não duvida em indicar precisamente “Veritatis splendor” como a encíclica mais crucial desse pontificado para o tempo atual. “Estudar e assimilar esta encíclica — conclui — continua sendo um grande e importante dever”.

Não por acaso que três dos cinco “dubia” apresentados a Francisco por alguns cardeais em 2016 têm como tema justamente o risco de abandonar os fundamentos da doutrina moral confirmados em “Veritatis Splendor”.

E nem sequer é casualidade que Ratzinger tenha recordado, em sua carta a Viganò, precisamente a contestação aos princípios de “Veritatis Splendor” por parte dos teólogos da “Declaração de Colônia”, hoje no auge e clamorosamente citados por Francisco.

Um Papa cuja “continuidade” com seu predecessor pode ser realmente, neste ponto, única e totalmente “interior”.

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POST SCRIPTUM – Em 25 de março, na homilia da Missa de Domingo de Ramos, o Papa Francisco deu esta lição a quem elabora uma notícia falsa “quando se passa dos fatos para uma versão dos fatos”:

“É a voz de quem manipula a realidade e cria um relato conforma a sua conveniência e não tem problema em “manchar” a outros para se sair bem. É o grito de quem não tem problema em buscar os meios de se fazer mais forte e silenciar as vozes dissonantes. É o grito que nasce do “girar” a realidade”.

O Papa disse isso sem se ruborizar, como que esquecido do que se fez poucos dias antes em sua casa, com a carta de Bento XVI.

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25 março, 2018

Foto da semana.

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23 de fevereiro de 2018 – Fim dos exercícios espirituais quaresmais da Cúria Romana; somente um participante não se ajoelha (como tem feito desde o início de seu pontificado). Publicamos apenas para registro, a fim de saber se o seu problema nos joelhos se manifestará na próxima quinta-feira (créditos – Adelante La Fe).

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18 março, 2018

Foto da semana.

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San Giovanni Rotondo, 17 Mar. 18 / 09:47 am (ACI).- Durante alguns emocionantes minutos, o Papa Francisco venerou os restos mortais de Padre Pio de Pietrelcina no Santuário de Santa Maria das Graças, na cidade italiana de San Giovanni Rotondo, onde se encontra por ocasião do 50º aniversário do falecimento do “santo dos estigmas”.

Depois de visitar os enfermos do hospital “Casa do Alívio do Sofrimento” e as crianças no Departamento de Oncologia Pediátrica, o Santo Padre seguiu para o Santuário, onde Padre Pio viveu desde o ano 1916 até sua morte.

Após rezar diante da urna de cristal que contém as relíquias do santo, o Pontífice saudou os membros da comunidade religiosa dos Capuchinhos e se dirigiu ao exterior do santuário, onde saudou brevemente os fiéis reunidos.

Em seguida, dirigiu-se para a igreja de São Pio de Pietrelcina para celebrar a Santa Missa.

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28 fevereiro, 2018

“Hoje, estamos em um rigoroso inverno”.

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Francisco recebeu em São Damião esta mensagem: reconstruir a Igreja que está em ruínas. Hoje, estamos em um rigoroso inverno, e o próprio castelo que os dois últimos papas criaram está em ruínas. E agora um novo papa vem de fora dos muros de Roma, quase dos confins do mundo, como ele mesmo disse, externo àqueles círculos de poder. E eu acredito que, acima de tudo, ele trabalhará internamente à Cúria para resgatar a credibilidade da Igreja, manchada pelos imbróglios, pelos escândalos dos pedófilos e do banco vaticano… E depois fará uma abertura ao mundo moderno, porque tanto Bento XVI quanto João Paulo II interromperam o diálogo com a modernidade.

[…]

A nossa Igreja [latino-americana] não é mais o espelho da Igreja europeia. É uma Igreja fonte, que desenvolveu um rosto e uma teologia próprias, uma pastoral com raízes nas culturas locais. Francisco trará essa vitalidade à Igreja universal, para acabar com o inverno rigoroso e entrar em uma perspectiva de primavera. Bergoglio oferece essa esperança, e a promessa de que o papado possa ser vivido de forma diferente.

Leonardo Boff em entrevista ao jornal Il Manifesto, 15/03/2013

Na imagem, a basílica de São Pedro ontem, 26 de fevereiro de 2018, ainda a aguardar a tal “primavera” da era Francisco. Há anos não havia tamanha nevasca em Roma.

16 fevereiro, 2018

Carta Apostólica do Papa Francisco: “Aprender a despedir-se”.

Papa Francisco apresentou uma Carta Apostólica em forma de Motu Proprio, sobre a renúncia de bispos titulares e aos chefes da Cúria Romana de nomeação pontifícia por motivos de idade.

Por Vatican News – Nesta manhã desta quinta-feira, 15, o Papa Francisco em uma Carta Apostólica em forma de Motu Proprio, convidou a todos os bispos e titulares das dioceses e da Cúria Romana de nomeação pontifícia a refletir sobre a importância de “aprender a se despedir”. E com esta Carta informou as novas orientações para as renuncias por motivo de idade.

O Papa deseja refletir sobre a atitude interior da renúncia,  que  deve ser primeiro  uma atitude interior.

“Quem se prepara para apresentar a renúncia precisa se preparar adequadamente diante de Deus, despir-se dos desejos de poder e da pretensão de ser indispensável. Isto permitirá atravessar com paz e confiança tal momento, que poderia ser doloroso e de conflito. Ao mesmo tempo, quem assume na verdade esta necessidade de despedir-se, deve discernir na oração como viver a etapa que está por iniciar, elaborando um novo projeto de vida, marcado por quanto seja possível de austeridade, humildade, oração de intercessão, tempo dedicado a leitura e disponibilidade a fornecer simples serviços pastorais.”

Despedir-se para o Santo Padre pode ser também um pedido de continuar o serviço por um período mais longo onde já está, renunciando, com generosidade, ao novo projeto pessoal. (…) Cada eventual prorrogação se compreende somente por motivos ligados ao bem comum eclesial. Esta decisão pontifícia não é um ato automático de governo; de consequência implica a virtude da prudência que ajudará, através de um adequado discernimento, a tomar a decisão apropriada”.

Segundo o Motu Proprio, consideravelmente a mudança consiste em dizer que quando um bispo titular, após completar 75 anos, apresentar a carta de renúncia, ela não perderá a validade se não for respondida em três meses, mas deverá aguardar a resposta do Santo Padre.

No caso dos bispos da Cúria Romana ou chefes de dicastérios, com a isenção dos cardeais, não será automática a renúncia, pois deverá esperar também a confirmação do Santo Padre, no qual apresentou algumas possíveis razões, tais como: “a importância de completar adequadamente um projeto muito profícuo para a Igreja; a conveniência de assegurar a continuidade das obras importantes; algumas dificuldades ligadas a composição do Dicastério em um período de transição; a importância de contribuir que tal pessoa possa trazer a aplicação de diretrizes recentemente  emitida pela Santa Sé ou a por novas orientações magisteriais”.

Desta forma, o Papa Francisco, no que se refere à renúncia dos bispos diocesanos e dos titulares de setores da Cúria Romana de nomeação pontifícia, contida na Rescriptum ex audientia de 3 de novembro de 2014, desejou integrar na legislação canônica estas mudanças, atualizando as normas acerca do tempo e das modalidades de renúncia ao ofício por atingir os limites da idade.

O texto na íntegra, com as orientações canônicas, pode ser encontrado no site vatican.va .

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11 fevereiro, 2018

Foto da semana.

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Vaticano, Sala Paulo VI, 7 de fevereiro de 2018 – Dom Fernando Arêas Rifan e seminaristas da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney se encontram com o Papa Francisco, após audiência de quarta-feira.

9 fevereiro, 2018

Dom Víctor “Tucho” Manuel Fernández, inspirador de Amoris Laetitia, lança um ataque contra os cardeais Müller e Sarah.

Por Jeanne Smits[1], Réinformation TV, 17 de janeiro de 2018. Tradução: André Sampaio | FratresInUnum.com[2] Muito próximo do soberano pontífice, Dom Víctor Manuel Fernández publicou, há poucos dias [em 14/01/2018, n.d.t.], um artigo no jornal argentino La Nacion[3], com o fim de denunciar a atitude dos cardeais Sarah e Müller, que agem, segundo ele, como se Francisco não fosse papa. Reitor da Pontifícia Universidade Católica Argentina, arcebispo ad personam por graça do papa reinante, autor de um livro intitulado Cura-me com tua boca: a arte de beijar[4], chamado familiarmente de “Tucho”, Fernández influenciou de maneira altamente significativa a elaboração de Amoris laetitia[5], como demonstra a correspondência entre escritos seus do passado e os trechos mais controversos da exortação apostólica[6] [arcebispo ad personam: título honorífico pessoal, não implicativo de jurisdição de uma arquidiocese]. Ele se encontra 100% alinhado com as novidades do papa Francisco. Ao atacar dois cardeais que são conhecidos por suas visões tradicionais, mas que nunca tacharam de inaceitáveis os ensinamentos em causa – nem mesmo por meio dos dubia[7] [cujos signatários foram outros cardeais] –, o prelado argentino deixa entrever uma escalada na obra de desestabilização.

Víctor Manuel Fernández com o então cardeal Bergoglio

Víctor Manuel Fernández com o então cardeal Bergoglio.

Um verdadeiro ataque contra os dois cardeais

O artigo leva este título: “As errôneas interpretações da mensagem do papa”. “Tucho” Fernández escreve: “Muitas vezes se supõe que todos os que exercem alguma tarefa em instituições católicas estejam executando ordens do papa toda vez que se pronunciam. Contudo, isso sequer ocorre com os cardeais do Vaticano, visto que seguem pensando e falando como desejam, como se Francisco não fosse papa”. Acusação gravíssima, posta nesses termos.

São especificamente citados os cardeais Gerhard Müller[8], prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, organismo do qual ele foi demitido sem deferências pelo papa, e Robert Sarah[9], ainda prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, mas cercado de pessoas que tomam decisões que destoam das suas diretrizes. Müller deveria ter sido demitido antes, sugere o arcebispo Fernández: “Acaso não nos perguntamos, muitas vezes, por que não era afastado o cardeal Müller, que não ocultava uma linha de pensamento bastante diferente [da do papa] e inclusive o criticava? E olhemos para o cardeal Sarah, que segue propondo que se volte a celebrar a missa de costas para o povo”.

O inspirador de Amoris laetitia teria afastado bem antes o cardeal Müller

Curiosamente, o artigo, em seu conjunto, parece constituir uma defesa do direito de toda pessoa a falar livremente e do entendimento de que um dirigente católico, em algumas de suas ações, não se vincula necessariamente ao papa. Assim, explica Fernández, o arcebispo Sánchez Sorondo[10] – outro argentino próximo de Francisco – age sozinho e sem requerer a permissão de ninguém quando convida figuras controversas – favoráveis a certas formas de eutanásia, ao aborto, ao controle da população – para reuniões da Pontifícia Academia das Ciências, da qual é chanceler, no Vaticano…

“Hoje, com Francisco, a Igreja usufrui de uma liberdade de expressão sem precedentes, e, para poder-se opinar, não é necessário estar pensando o que diria o papa. Agora, muitos católicos podem, irresponsavelmente, tratar Francisco como herege ou cismático, sem que lhes chegue sequer um pedido de esclarecimento da parte do Vaticano. Poucos anos atrás, receberíamos sanções graves por muito menos”, escreve Fernández.

Que arte de inverter os papéis, e de modo incoerente, além do mais! Como se pode justificar a ideia de que o papa, que efetivamente se mostrou “grato” ao cardeal Müller, deveria tê-lo afastado antes, se a liberdade é, nesse campo, a regra? Como se ousa dizer que aqueles que se preocupam com a integridade da doutrina católica gozam de uma (culpável?) indulgência da parte do pontífice, enquanto se revelam abundantes os casos de demissão, destituição, aposentadoria desses “perturbadores da ordem”, isso sem falar nas mostras de irritação extremada que familiares da Casa Santa Marta atribuem a Francisco?

Todo mundo fala livremente, mas acabamos por nos indagar, e com certo gracejo, se “Tucho” não estaria um tanto se pronunciando sob ordens.

[1] http://reinformation.tv/mgr-victor-manuel-fernandez-attaque-cardinal-muller-amoris-laetitia-smits-79347-2/

[2] https://fratresinunum.com/

[3] http://www.lanacion.com.ar/2100513-las-erroneas-interpretaciones-del-mensaje-del-papa

[4] https://fratresinunum.com/2015/01/12/arcebispo-reitor-e-beijoqueiro/

[5] http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html

[6] https://fratresinunum.com/2016/05/25/amoris-laetitia-tem-um-escritor-fantasma-chama-se-victor-manuel-fernandez/

[7] https://fratresinunum.com/2016/11/14/bombastico-cardeais-divulgam-carta-e-questionamentos-sobre-amoris-laetitia-que-francisco-se-negou-a-responder/

[8] https://fratresinunum.com/tag/dom-gerhard-ludwig-muller/

[9] https://fratresinunum.com/tag/cardeal-robert-sarah/

[10] https://infovaticana.com/2017/08/08/sanchez-sorondo-arzobispo-amigo-los-poderosos-antinatalistas-jamas-celebra-misa-reza-breviario/

7 fevereiro, 2018

Mais um record (negativo) para Francisco.

Por Gloria.tv, 2 de fevereiro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com – Na audiência geral em 31 de janeiro, o Papa Francisco alcançou o menor comparecimento em uma audiência de quarta-feira. O padre dominicano Lawrence Lew, de Londres, estava presente e escreveu no Twitter (2 de fevereiro) que “ficou impressionado com os números baixos”.

João Paulo II teve um comparecimento médio de 32 mil pessoas e Bento XVI de 33 mil. De janeiro de 2015 a dezembro de 2017, Francisco alcançou apenas 9.041. A mídia do Vaticano editou as imagens da última audiência que mostravam apenas o primeiro bloco dos presentes.

Parece que Papa Francisco (e seu colaboradores) vai ter que aprender da maneira mais difícil que sua ideologia paleoliberal é um desastre para a Igreja e para ele também.

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