Posts tagged ‘O Papa’

15 maio, 2019

Homossexuais no seminário. Uma pesquisa clamorosa no Brasil.

Por Sandro Magister, 13 de maio de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – A pesquisa não é muito recente, seus resultados foram publicados na primavera de 2017 em português, na “Revista Eclesiástica Brasileira”. Mas,“Il Regno – Documenti” publicou nestes dias a tradução integral para o italiano, fazendo-a, assim, conhecida a um público mais vasto, em uma questão que é ardente atualidade.

OmoA questão é a da homossexualidade nos seminários.

Desde há alguns meses, a homossexualidade é tabú na cúpula da Igreja. Proibiu-se de falar dela também no encontro sobre os abusos sexuais, realizado de 21 a 24 de fevereiro. Mas a sua presença difusa no clero e nos seminários é uma realidade conhecida há tempos, a ponto de, em 2005, a Congregação para a Educação Católica ter difundido uma instrução, precisamente sobre como enfrentá-la.

Essa instrução confirmou não só que os atos homossexuais são “pecado grave”, mas também as “tendências homossexuais profundamente arraigadas” são “objetivamente desordenadas”. Por isso, aquele que pratica esses atos, manifesta essas tendências ou de alguma forma apoia a “cultura gay”, de forma alguma deveria ser admitido às ordens sagradas.

Estas são as diretrizes pastorais de então. Mas, na verdade, quando elas foram aplicadas? A pesquisa mencionada teve como objetivo verificar o que ocorre hoje em dois seminários do Brasil, tomados como amostra.

Os autores da pesquisa, Elismar Alves dos Santos e Pedrinho Arcides Guareschi, ambos religiosos da Congregação do Santíssimo Redentor e especialistas em psicologia social, com prestigiosos títulos acadêmicos, questionaram a fundo 50 estudantes de teologia desses seminários, chegando a resultados absolutamente alarmantes.

Antes de tudo, dizem os entrevistados, a homossexualidade em seus seminários “é algo comum, uma realidade cada vez mais presente”. Tão normal que “chega inclusive a ser banalizada”. É uma convicção difundida entre eles “que, na realidade, 90% dos seminaristas hoje é homossexual”.

Alguns homossexuais — dizem — “buscam o seminário como meio de fuga para não assumir diante da família e da sociedade as responsabilidades vinculadas a seu comportamento”. Outros “se descobrem homossexuais quando já estão no seminário”, encontrando ali um ambiente favorável. E quase todos, fala-se de 80%, “vão em busca de parceiros sexuais”.

Com efeito, a homossexualidade — declaração — “é uma realidade presente nos seminários não só na ordem do ser, mas também na ordem do agir”. Muitos a praticam “como se fosse algo normal”. Escrevem os autores da pesquisa: “Na visão dos que participaram da investigação, no contexto atual dos seminários uma boa parte dos seminaristas é favorável à homossexualidade. E ainda mais, sustentam que se há amor na relação homossexual, não há nada de mal. Dizem: ‘Se há amor, o que tem de mal’?

Os participantes da pesquisa pedem, antes de tudo, que “deve haver um diálogo entre os homossexuais e a Igreja”. Mas justamente um diálogo para fazer que a “homossexualidade no interior dos seminários seja bem acompanhada e orientada”.

Em outras palavras, os entrevistados lamentam que os superiores não façam nada em matéria de homossexualidade, mas esperam ser aceitos e admitidos à Ordem Sagrada enquanto tais, com “uma acolhida que aceite humanamente a pessoa como é”.

“É claro — concluem os autores — que existe uma discrepância entre o que a Igreja propõe sobre como orientar a homossexualidade nos seminários e o modo em que os seminários ou casa de formação percebem e afrontam este fenômeno”.

Mas que discrepância” Entre a instrução de 2005 e os comportamentos revelados na pesquisa há um abismo.

Mas se adverte também que a instrução de 2005 é como se já não tivesse nenhum valor, a julgar por como se move hoje a cúpula da Igreja acerca deste assunto crucial.

Para romper o silêncio sobre a homossexualidade nos seminários e entre o clero, teve que se mover o Papa emérito Bento XVI, nos “Apontamentos” sobre o escândalo dos abusos, publicados por ele em 11 de abril passado, depois de durante dois meses o seu sucessor Francisco tê-los guardado na gaveta do escritório. “Vox clamantis in deserto” [Voz que clama no deserto].

14 abril, 2019

Bento XVI e o Outro.

Uma carta que abalou um pontificado.

FratresInUnum.com, Domingo de Ramos, 14 de abril de 2019 Representantes de todas as Conferências Episcopais reunidos sob a presidência de Francisco, vítimas de abusos sexuais em depoimentos emocionantes, cerimônias sentimentais calculadas para provocar comoção mundial, jornalistas de todo o mundo mobilizados, coletivas de imprensa diárias, artigos e mais artigos, fotografias cuidadosamente selecionadas… E um simples ensaio de Bento XVI consegue causar um estrondo muito maior, em apenas 18 páginas.

Na última semana, ganhou projeção internacional o breve escrito do Papa Bento XVI sobre “A Igreja e o escândalo do abuso sexual”. Em três breves pontos, o lucidíssimo texto simplesmente reduziu a zero todas as iniciativas de fachada promovidas por Francisco, o qual evitou cuidadosamente tratar do núcleo da questão levantada por Bento: a revolução sexual e o relativismo moral que penetraram na formação dos candidatos ao sacerdócio, sob o ativismo de grupos homossexuais no clero. Francisco preferiu reputar a responsabilidade dos abusos ao clericalismo, aos jogos de poder, diluindo toda a questão em generalidades abstratas.

O resultado da Cúpula convocada por Bergoglio foi simplesmente nenhum: uma reunião inconcludente, que apenas serviu como tentativa para anestesiar os ânimos.

O entourage de Francisco recebeu o golpe e já começou a agir. Em reação à imediata acolhida positiva e aliviada por grande parte dos fieis, como acontece em todas as ditaduras, o partido bergogliano já começou a mobilizar-se para, nada mais, nada menos que censurar o pontífice alemão. É isso, mesmo! Querem calar Bento XVI, o Papa que durante anos foi o defensor da fé!

No site Vatican Insider, Domenico Agasso escreveu um artigo no qual chega a afirmar que “o Vaticano ficou pequeno demais para dois papas” e Massimo Faggioli se atreve a dizer que o ensaio escrito pelo Papa Bento XVI cria uma “questão constitucional” na Santa Sé, chegando a declarar que “o Papa emérito é novo para a Igreja como instituição e pode funcionar bem, sem particulares regulamentações ou estatutos jurídicos, apenas se ficar invisível”. Querem assassinar juridicamente Bento XVI, mediante a censura institucional mais covarde que já se viu. Por que?

A receptividade dos fieis ao texto de Bento XVI revela a falta de legitimidade e o desprestígio em que este pontificado voluntariamente se jogou. É verdade que, lamentavelmente, Bento XVI renunciou ao pontificado, mas o fez de modo papal e, mesmo retirado num mosteiro dentro do Vaticano, é reconhecido como papa, goza de autoridade intelectual e moral sobre os fieis; enquanto o pontífice argentino, ao sentar-se à Cátedra de Pedro, atua de modo totalmente irresponsável, falando e agindo não como pastor da Igreja Católica, mas como acólito de toda a esquerda internacional, personificada pela mídia, à qual não cessa de bajular.

O sucesso de Bento desmistifica o coro entusiástico que hosana incessantemente o atual bispo de Roma. Notem que Francisco acaba de publicar a Exortação apostólica pós-sinodal Christus vivit, da qual ninguém simplesmente fala, sobre a qual ninguém comenta… O breve texto de Ratzinger submergiu completamente o inócuo documento do pontífice reinante, reduziu-o ao rídico e, com porte de uma encíclica, cheio de fé e de teologia, de realismo e de sensibilidade, confortou a alma das ovelhas de Cristo em todo mundo e, de modo especial, as vítimas dos abusos sexuais e suas famílias.

Ademais, Bento XVI pôs em evidência o nexo necessário entre a fé e a moral na doutrina da Igreja, defendendo de modo aberto o magistério da encíclica Veritatis Splendor, com uma clareza fulgurante. Isso, evidentemente, coloca em dificuldade a ação demolidora do magistério de Francisco, que se beneficia da ambiguidade justamente nestas matérias para levar adiante a destruição completa dos fundamentos da doutrina católica. Deste modo, Bento XVI respondeu discretamente aos dubia, levantados por quatro cardeais há três anos, aos quais Francisco ostensivamente ignorou, descumprindo também de modo explícito o seu dever como papa.

Em seu mencionado artigo, Agasso afirma que “o papa emérito intervém com um texto que pode representar ‘uma linha pastoral e teológica paralela à do papa”. Ora, com uma mentalidade de cortesão e de adulador, ele simplesmente parte do pressuposto de que o Papa é a Igreja, desconsiderando toda a realidade, bem como o corpo dos fieis católicos de toda a história e de todo o mundo.

É absolutamente incontestável que os fieis reconhecem na voz de Bento XVI a continuidade da fé dos papas e dos católicos de todos os tempos, enquanto sentem em relação à Francisco uma perplexidade que os faz simplesmente não se inteirarem de suas palavras e atos. O partido bergogliano é consciente da falta de respaldo da Igreja discente e procura suprir tal ausência de diferentes modos: chegaram a fraudar uma carta de Bento XVI, na tentativa desesperada de obter apoio para uma coletânea de livros acerca do “pensamento” do Papa Francisco; agora, tentam escorar-se na linha ratzingeriana, inventando a história de que o cardeal Scola teria pedido votos a Bergoglio no último conclave. Todas, tentativas patéticas de justificar o injustificável.

Enquanto Bergoglio faz sucesso nos jornais, Bento XVI é um ícone muito eloquente da Igreja Católica dos nossos dias: os católicos estão recolhidos no tabernáculo do silêncio, rezando e sofrendo, esperando a hora de Deus, que certamente chegará. O descolamento é grande demais, o povo está completamente à deriva, a rachadura não pode mais ser dissimulada: a hierarquia prevaricou e os poucos padres e bispos fieis estão sob dura censura.

Os dois papas representam duas Igrejas, uma real, outra parasita. Foi Gustavo Corção que se exprimiu nos famosos termos: “A Igreja Católica e a outra”, referindo-se à natimorta Igreja pós-conciliar. Atualmente, o fenômeno agravou-se: o parasita espalhou-se de tal modo que já ocupou toda a oficialidade, confinando o doente à resignada posição de clandestino. É assim que vive a quase totalidade dos fieis católicos: silenciados, impotentes, amarrados – exatamente como Bento XVI.

É assim que chegamos a esta triste realidade. São duas eclesiologias que se condensaram em dois papas! Contudo, Bento não está paralelo à Igreja, ao contrário, seu modus pensandi a representa; o paralelismo real é ocupado por Francisco, que ocupa, porém, apenas a oficialidade do seu cargo.

Andrea Grillo, outro teólogo progressista, escreveu nesses dias que a carta de Ratzinger é apenas “uma leitura traumatizada e traumática da virada conciliar e do 1968, como causa de todos os males da Igreja, incluindo os abusos”. Exercendo plenamente o jus sperniandi, Grillo simplesmente finge que Bento XVI não apela aos fatos, mas fica como ele, refugiado num mundo de abstrações, naquilo que poderíamos chamar de teologia da desculpa.

Mas as desculpas não convencem, elas jamais subjugarão os fatos. E é a humildade de ater-se a eles que distingue a autenticidade da cenografia. Para o povo, já está claro quem é real e quem é de plástico, quem é católico e quem não o é, e a diferença colossal entre um papa e o outro

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14 abril, 2019

Foto da semana.

Resultado de imagem para papa francisco beija pés sudão

O Papa Francisco, num gesto comovente, ajoelha-se e beija os pés pés de líderes do Sudão do Sul que viviam em guerra pelo controle do país.

A grande notícia é que o problema nos joelhos que impediam Sua Santidade de se prostrar diante do Santíssimo Sacramento parece ter sido superado. Igualmente, parece coisa do passado a preocupação do Papa em relação à proliferação de germes, demonstrada ao retirar a mão do alcance dos fiéis que desejavam oscular o Anel de Pedro.

 

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11 abril, 2019

Bento XVI rompe o silêncio sobre a crise de abusos sexuais na Igreja Católica.

Em ensaio redigido em língua alemã, publicado na quinta-feira, o papa emérito oferece um caminho a seguir.

Por Edward Pentin, 10 de abril de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – Em seu pronunciamento mais significativo desde que renunciou ao papado, em 2013, o Papa Emérito Bento XVI escreveu um longo ensaio sobre os abusos sexuais cometidos por clérigos, no qual explica a sua visão das causas da crise, os efeitos que ela tem exercido sobre o sacerdócio, e qual seria a melhor reação por parte da Igreja.

Pope Benedict in 2010

Discorrendo com mais de 6.000 palavras e a ser publicado em 11 de abril no Klerusblatt, uma publicação mensal de pequena circulação da Bavária, Bento XVI atribui a culpa predominantemente à revolução sexual e ao colapso da teologia moral católica desde o Concílio Vaticano Segundo. Ele alega que esses fatos resultaram em um “colapso” na formação dos seminários anterior ao Concílio.

Bento critica o direito canônico por inicialmente ser insuficiente para tratar do flagelo, explica as reformas que introduziu para lidar com os casos de abusos e afirma que “somente a obediência e o amor a nosso Senhor Jesus Cristo” podem tirar a Igreja da crise.

O papa emérito inicia o seu ensaio, intitulado “A Igreja e o Escândalo de Abusos Sexuais,” observando que a “extensão e a gravidade” da crise de abusos têm “entristecido profundamente” sacerdotes e leigos e “levado não poucos a questionarem a própria fé da Igreja.”

Relembrando o encontro nos dias 21 a 24 de fevereiro, no Vaticano, para tratar da proteção de menores na Igreja, ele diz que foi “necessário” enviar uma “mensagem forte” e buscar um “novo início”, para que a Igreja pudesse novamente se tornar “verdadeiramente credível.”

Bento escreve que compilou notas dos documentos e relatórios daquele encontro que culminaram nesse texto, que ele afirma ter mostrado ao Papa Francisco e ao Cardeal Pietro Parolin, o secretário de estado do Vaticano.

Este ensaio esta dividido em três partes. A primeira consiste em um exame do “contexto social mais amplo” da crise, na qual ele diz que tenta mostrar que um “evento egrégio” ocorreu nos anos 60 “em uma escala sem precedentes na História.”

Uma segunda seção trata dos efeitos desses fatos na “formação dos sacerdotes e nas vidas dos sacerdotes.”

E em uma terceira parte ele desenvolve “algumas perspectivas para uma resposta apropriada por parte da Igreja.”

‘Revolução de 1968’

Para dar uma ideia do contexto social mais amplo, o papa emérito relembra a “liberdade sexual total” que se seguiu à “Revolução de 1968”. Ele diz que de 1960 a 1980 os “padrões relacionados à sexualidade desmoronaram inteiramente,” resultando na “falta de regras”, que, a despeito das “tentativas trabalhosas,” não foi interrompida.

Citando basicamente exemplos dos países europeus de língua alemã, ele se recorda da educação sexual com imagens gráficas patrocinada pelo Estado, anúncios lascivos e “filmes de sexo e pornografia” que se tornaram uma “ocorrência comum” após 1968. Segundo ele, isso, por sua vez, levou à violência e agressão, e a pedofilia foi “diagnosticada como permitida e apropriada.”

Ele pensou naquele tempo como os jovens se aproximavam do sacerdócio nesse ambiente e diz que o colapso das vocações e o “número altíssimo de laicizações” foram consequência de todos esses processos.”

Ao mesmo tempo, a teologia moral católica também “sofreu um colapso,” ele diz, tornando a Igreja “indefesa contra essas mudanças na sociedade.”

Ele explica que, até o Concílio Vaticano Segundo, a teologia moral fundava-se em grande parte na lei natural, mas a “luta por uma nova compreensão da Revelação”, fez com que a “lei natural fosse amplamente abandonada, exigindo-se que a teologia moral fosse baseada inteiramente na Bíblia.

Consequentemente, diz Bento, nada mais poderia ser “constituído um bem absoluto”, mas apenas o “relativo” poderia ser “melhor, dependendo do momento e das circunstâncias”.

Essa perspectiva relativista alcançou “proporções dramáticas” ao final dos anos 80 e 90, quando surgiram documentos como a Declaração de Colônia,” de 1989, que discordou do ensinamento do Papa São João Paulo II, causando um “clamor contra o Magistério da Igreja”. Ele lembra como João Paulo II tentou conter a crise da teologia moral através de sua encíclica Veritatis Splendor , de 1993, e a criação do Catecismo.

Todavia, os teólogos dissidentes começaram a aplicar a infalibilidade somente a questões de fé e não de moral, ainda que, Bento escreve, o ensinamento moral da Igreja esteja profundamente relacionado à fé. Aqueles que negam essa realidade, ele continua, forçam a Igreja a permanecer em silêncio “precisamente onde a fronteira entre a verdade e a mentira está em jogo.”

Colapso de Formação

Voltando-se para a segunda parte do ensaio, Bento diz que esse “processo contínuo – preparado há muito tempo – de dissolução do conceito cristão de moralidade” levou a um “colapso de longo alcance” na formação sacerdotal.

Ele observa como “diversos clubes homossexuais de seminários” exerceram um impacto significativo sobre os seminários, resultando, ao menos nos EUA, em duas visitas apostólicas que tiveram poucos frutos.

Mas ele também salienta como as mudanças para a nomeação de bispos após o Vaticano II enfatiza a ‘conciliaridade”, levando a uma “atitude negativa” em relação à tradição – tanto é assim que Bento diz que até mesmo seus próprios livros foram “escondidos”, considerados como má literatura, e somente lidos debaixo da mesa.”

A pedofilia só se tornou “aguda” ao final dos anos 80, mas o direito canônico da época “não parecia suficiente” para lidar com o crime. Roma acreditava que a “suspensão temporária” era suficiente para “purificar e esclarecer”, mas os bispos americanos que lidavam com a crise de abusos do clero americano emergente não aceitava isso, porque os supostos abusadores ainda estavam “diretamente associados” aos seus bispos. Uma “renovação e aprofundamento” da “lei penal deliberadamente interpretada de maneira vaga” do Código de Direito Canônico de 1983 então começou a ocorrer “lentamente”.

Bento também salientou outro problema canônico: a percepção da Igreja do direito penal, que garantiu plenamente os direitos do réu de que “qualquer condenação” fosse “efetivamente excluída” – algo que ele descreve como “garantismo”.

Mas Bento argumenta que uma “lei canônica formada de maneira apropriada” deve conter uma “garantia dupla” – proteções legais tanto para o acusado quanto para o “bem em jogo”, que ele define como proteger o depósito de fé. A fé “não parece mais” ser um bem que “precisa de proteção”, acrescentando que esta é uma “situação alarmante” que os pastores devem levar “a sério”.

Para auxiliar a superar esse “garantismo”, Bento decidiu, com João Paulo II, transferir os casos de abuso da Congregação para o Clero para a Congregação para a Doutrina do Fé (CDF) – um movimento, segundo ele, que era crucialmente importante para a Igreja, uma vez que essa má conduta “em última análise, prejudica a fé” e isso possibilitou que “a pena máxima” fosse imposta.

Todavia, ele acrescenta que um aspecto do garantismo permaneceu em vigor, a saber, a necessidade de “prova clara do crime”. Para assegurar que as penalidades fossem legalmente impostas, Bento diz que a Santa Sé iria assumir as investigações dos casos se as dioceses estivessem “sobrecarregados” pela necessidade de um “processo penal genuíno”. A possibilidade de recurso também foi oferecida.

Mas tudo isso estava “além das capacidades” da CDF na época, levando a atrasos. Bento observa que o “Papa Francisco empreendeu reformas adicionais”.

 O que precisa ser feito

Voltando-se para o que precisa ser feito, Bento argumenta que a tentativa de “criar outra Igreja” já “fracassou” e prossegue dando uma catequese sobre como o “poder do mal surge da nossa recusa em amar a Deus”.

Ele ensina que um mundo sem Deus “só pode ser um mundo sem sentido”, sem padrões de “bem ou mal”, onde “o poder é o único princípio” e “a verdade não conta”. Uma sociedade sem Deus “significa o fim da liberdade”, continua ele, e a sociedade ocidental é aquela em que “Deus está ausente” e não resta nada para oferecer “.

“Em aspectos individuais torna-se subitamente evidente que aquilo que é ruim e destrói o homem tornou-se uma coisa óbvia”, escreve Bento. “Esse é o caso da pedofilia. Ela foi teorizada somente há pouco tempo como bastante legítima, mas tem se disseminado cada vez mais. E agora percebemos com surpresa que estão acontecendo coisas com nossos filhos e jovens que ameaçam destruí-los. O fato de que isso também poderia se espalhar na Igreja e dentre os sacerdotes deveria nos perturbar de maneira particular”.

Ele diz que a pedofilia atingiu essas proporções por causa da “ausência de Deus”, e observa como cristãos e sacerdotes “preferem não falar sobre Deus”, e que Ele “tornou-se assunto privado de uma minoria”.

Portanto, a “tarefa primordial” é colocar Deus novamente no “centro de nossos pensamentos, palavras e ações”, para sermos “renovados e dominados pela fé”, em vez de sermos “mestres de fé”.

Ele diz que o Concílio Vaticano Segundo “acertadamente” concentrou-se em trazer de volta a presença real de Cristo ao centro da vida cristã, mas, hoje em dia “prevalece uma atitude muito diferente”, que destrói a “grandeza do Mistério”. Isso resultou em uma participação reduzida na missa dominical, na desvalorização da Eucaristia como “gesto cerimonial” e na recepção da Sagrada Comunhão como simplesmente “algo natural”.

“O que é necessário primeiro e acima de tudo é a renovação da Fé na Realidade de Jesus Cristo, que nos foi dado no Santíssimo Sacramento”, diz Bento. “Em conversas com vítimas de pedofilia fiquei ciente dessa realidade.”

A Santa Igreja Indestrutível

Ele observa também que a Igreja hoje em dia é “amplamente considerada como apenas algum tipo de aparato político,” dito em “categorias políticas” como algo que precisamos “agora tomar em nossas próprias mãos e redefinir.” Porém, uma “Igreja feita por si mesma não pode constituir esperança,” ele diz.

Observando que a Igreja é atualmente e sempre foi constituída de trigo e ervas daninhas, de “peixes ruins” e “bons peixes,” ele diz que proclamar ambos “não é uma forma falsa de apologética, mas um serviço necessário à Verdade.”

Segundo ele, o demônio é identificado no livro do Apocalipse como “o acusador que acusa nossos irmãos diante de Deus dia e noite”, porque ele “quer provar que não há pessoas justas”. Hoje, a acusação contra Deus significa “acima de tudo depreciar a Sua Igreja como ruim em sua totalidade e, dessa forma, dissuadindo-nos dela”.

Todavia, ele enfatiza que, também hoje, uma Igreja é “não apenas constituída de peixes e ervas daninhas ruins”, mas continua a ser o “próprio instrumento” através do qual Deus nos salva.

“É muito importante opor-se às mentiras e meias verdades do demônio com a verdade integral”, diz Bento. “Sim, há pecado na Igreja e o mal. Porém, mesmo hoje em dia há a Santa Igreja, que é indestrutível “.

E ele lembra que “muitas pessoas que humildemente acreditam, sofrem e amam, nas quais o Deus real, o Deus amoroso, Se revela a nós,” bem como “Suas testemunhas (mártires) no mundo.”

“Precisamos apenas estar vigilantes para vê-los e ouvi-los,” ele diz, acrescentando que uma “inércia do coração” nos leva a “não desejar reconhecê-los” — mas reconhecê-los é fundamental para a evangelização, ele diz.

Bento encerra agradecendo ao Papa Francisco “por tudo que ele faz para nos mostrar, repetidas vezes, a luz de Deus, que não desapareceu, até mesmo hoje em dia. Obrigado, Santo Padre!”

* * *

A seguir, divulgamos a íntegra do texto de Bento XVI.

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4 abril, 2019

A escandalosa entrevista de Francisco (mais uma) à TV Espanhola.

Por FratresInUnum.com, 4 de abril de 2019, com informações de InfoVaticana.com – Talvez tenha passado desapercebido para o público brasileiro um dos últimos grandes escândalos de Papa Francisco: sua entrevista à ultra-comunista TV espanhola La Sexta, ao jornalista catalão ultra-esquerdista Jordi Érvole. A entrevista, em si, por ser dada a um veículo ideologicamente socialista, é já um escândalo, mas as declarações do papa argentino conseguem ainda piorar a situação.

entrevista francisco espanha

É deprimente ouvir um papa que não fala como pontífice da Igreja Católica e nem mesmo como um sacerdote ou um cristão, mas sim como um mero comentarista ordinário, fazendo elucubrações nas quais reverbera os cacoetes mentais da esquerda, aqueles mesmos jargões que aparecem na boca de atrizes da Globo ou de militantes do MST.

Critica Trump, alivia retoricamente para a prostituição e o homossexualismo, defende apaixonadamente a política multiculturalista da imigração… Quando perguntando porque avança tão lentamente na agenda de “transformação” da Igreja, ele simplesmente diz que faz tudo com calma, que dorme bem e que age movido pela “oração”, ou seja, não nega que seu objeto seja exatamente o de destruir o catolicismo tal como o conhecemos.

Em suma, através de sua entrevista, Francisco tenta influenciar a política espanhola e deter o avanço da direita emergente naquele país. Dias depois, na entrevista aérea para Marrocos, ele disse que “gostaria de ir à Espanha, mas quando houver paz”, entenda-se: quando o partido VOX, que aglutina os clamores populares e direitistas, perder as eleições. Com ironia, um analista espanhol rebateu afirmando que se os comunistas tivessem vencido a Guerra Civil Espanhola, Francisco já teria visitado o país.

A entrevista de Francisco a Jordi Évoli não passa senão de uma conversa interna do movimento socialista, uma conversa entre o seu autoproclamado líder internacional, Bergoglio, e um dos principais jornalistas esquerdistas da Espanha.

Ademais, a entrevista revela a frieza com a qual o pontífice usa a Igreja para favorecer o avanço da esquerda e para conter não o partido contrário, mas a reação espontânea do povo. Esta instrumentalização da estrutura eclesiástica é ainda mais grave porque Francisco se serve dela para neutralizar toda a ala conservadora da hierarquia e o povo fiel, que fica, assim, sem meios de ação e é obrigado a assistir, passivamente, o desmonte de sua religião e a sujeição dela ao seu mais visceral inimigo: a esquerda internacional.

Emudecendo toda resistência e a amordaçando institucionalmente, Bergoglio monopoliza o microfone eclesial, alistando-se devotamente nas fileiras da revolução cultural gramsciana e adotando o mesmo discurso socialista que relativiza toda a moral cristã e todo o patrimônio da civilização ocidental, servindo-se da própria Igreja como canal privilegiado para a sua autodestruição e anestesiamento cultural. Deixa, assim, o caminho aberto para o islã, para os secularistas e para todos aqueles que sempre sonharam com a derrocada do catolicismo.

Não estranha que, neste contexto, o Papa Francisco tenha afirmado em Marrocos que a missão da Igreja não é converter ninguém, não é fazer proselitismo, que ser cristão não é aderir a uma doutrina, mas é apenas um encontro… Em resumo, a Igreja está sendo impelida a abandonar a evangelização, a esvaziar o cristianismo da fé e a dissolvê-lo numa ética concebida apenas em termos socialistas, privada totalmente de princípios morais e infeccionada de todos esses “valores” que impulsionam as bandeiras da esquerda (ecologia, feminismo, multiculturalismo migratório, movimento trabalhista, reforma agrária etc).

Francisco é o papa que veio para neutralizar o catolicismo e imobilizá-lo completamente, na tentativa desesperada de reorganizar a esquerda no mundo. E ele está apressado para conseguir alcançar os seus objetivos. O Sínodo da Amazônia está chegando!

Acontece, porém, que ele não está obtendo o sucesso que esperava, mesmo com o favor de toda a mídia internacional e de toda a elite econômica que o ovaciona. O povo está caminhando na direção oposta, elegendo e apoiando seus adversários (Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Salvini na Itália, Orban na Hungria), com a esquerda se desmantelando na América Latina inteira e, na Espanha, VOX ganha cada vez mais o apoio popular…

Enquanto todo mundo já percebeu o ridículo da trapaça esquerdista, a liderança da Igreja é a única que ainda o leva à sério. No fim das contas, Francisco se consagrará nas páginas da história como o mais estrondoso e irrefutável vexame do qual a Igreja se envergonhará até os seus últimos dias de sua existência.

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2 abril, 2019

A Igreja está “cega pelo mistério da iniquidade”, afirma Cardeal Sarah em novo livro.

Por LifeSiteNews, 19 de março de 2019 | Tradução: FratresInUnum.comEm seu último livro,  Le soir approche et déjà le soir baisse (“Já é tarde e a noite vem chegando”, citação do episódio dos peregrinos de Emaus, no Evangelho de São Lucas), o Cardeal Robert Sarah decidiu “se manifestar” para os “católicos desorientados” atingidos pela profunda crise pela qual passa a Igreja.

Sarah

“Não consigo mais ficar em silêncio. Eu não posso mais ficar em silêncio”, escreveu o Cardeal Sarah em seu parágrafo inicial. Ele fez uma análise ampla da “noite escura” da Igreja e de que ela “está envolvida e cega pelo mistério da iniquidade”.

Diante antes da publicação do livro na França, em 20 de março, uma introdução foi publicada online, dando o aperitivo de um texto verdadeiramente arrebatador que aborda os problemas atuais de frente: abusos sexuais, mas também relativismo doutrinal, ativismo social e falta de oração, falsas acusações de homossexualidade e hipocrisia generalizadas, e as dúvidas dos fiéis que vêem os inimigos da Igreja em seu próprio meio.

O Cardeal Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, não oferece estratégias, diz ele. Pelo contrário, ele anuncia as respostas atemporais sem as quais todos os esforços são inúteis — uma vida profundamente arraigada de oração, fidelidade ao ensinamento transmitido pela Igreja, ao invés de subestimar a doutrina católica como “muitos pastores” estão fazendo, caridade fraterna e amor a Pedro.

Mas as suas palavras não são, de forma alguma, do suplício pelo qual a Igreja está passando.

O Cardeal Sarah não hesita em falar — nas palavras de Paulo VI — da “fumaça de Satanás” que invadiu a Igreja, apontando abertamente os “traidores” que, como Judas Iscariotes, tornaram-se “agentes do Mal”. “Eles buscaram profanar as puras almas dos pequeninos. Humilharam a imagem de Cristo presente em cada criança”, ao mesmo tempo em que humilharam e traíram a tantos padres fiéis, escreveu.

“A Igreja está passando pelo mistério da flagelação” pelas mãos daqueles que “deveriam amá-la e protege-lá”, advertiu o Cardeal.

Mas a causa do escândalo dos abusos sexuais, ele acrescentou, só pode ser encontrada em traições anteriores: “A crise pela qual o clero, a Igreja e o mundo estão passando é radicalmente uma crise espiritual, uma crise de fé”.

O cardeal africano recorda que o “mistério de Judas” — palavras tomadas do Papa Francisco — reside em se distanciar do ensinamento de Jesus, e pode, portanto, ser comparado ao mistério do mal em nosso tempo.

“Jesus o chamou tal como os outros apóstolos. Jesus o amava! Ele o enviou para anunciar a Boa Nova. Mas, pouco a pouco, o coração de Judas foi sendo tomado pelas dúvidas. Sem perceber, ele começou a julgar o ensinamento de Jesus. Ele disse a si mesmo: esse Jesus é muito exigente, e não eficiente o bastante. Judas queria fazer o reino de Deus vir à terra imediatamente, por meios humanos e de acordo com seus planos pessoais”. Ele deixou de rezar com Jesus e “buscou refúgio nas coisas do mundo, provavelmente murmurando em seu coração ‘não servirei’ quando Jesus lavou seus pés na última ceia”, escreveu o Cardeal Sarah.

“Ele recebeu a comunhão quando seus planos já estavam completos. Foi a primeira comunhão sacrílega da história. E ele traiu”.

Segundo o Cardeal Sarah, as mesmas faltas, as mesmas traições, são cometidas hoje: “Nós abandonamos a oração. O mal do ativismo eficiente se infiltrou em todo lugar. Nós buscamos imitar a organização das grandes empresas. Esquecemo-nos que só a oração é o sangue que irriga o coração da Igreja… Aquele que não reza já traiu. Já está preparado para toda concessão ao mundo. Ele segue os passos de Judas”.

O cardeal tem palavras duras quanto ao abandono da doutrina católica. Eis onde ele vê a causa dos atuais escândalos de abusos sexuais:

“Nós toleramos qualquer questionamento. A doutrina católica é desafiada e, em nome de posturas pretensamente intelectuais, teólogos sentem prazer em desconstruir o dogma e em esvaziar a moral de seu conteúdo profundo. O relativismo é a máscara de Judas disfarçada de intelectual. Como podemos nos surpreender de que tantos padres rompem os seus compromissos? Nós depreciamos o significado do celibato, nós exigimos o direito a uma vida privada, o que é oposto à missão sacerdotal. Alguns vão tão longe, a ponto de reivindicar o direito ao ato homossexual. Um escândalo segue o outro, envolvendo padres e bispos”.

O Cardeal Sarah prossegue, advertindo seus irmãos padres de que todos serão prejudicados por acusações que são verdadeiras apenas para uma minoria. Mas “não se inquiete os seus corações”, acrescentou, recordando que o próprio Cristo foi atingido pelas palavras “Crucifica-O!” e pede-lhes que não se inquietem por “investigações tendenciosas” que apresenta os pastores no topo da Igreja como “clérigos irresponsáveis com uma vida interior anêmica”.

“Padres, bispos e cardeais sem moral não vão, de maneira alguma, manchar o testemunho luminoso de mais de 400 mil padres no mundo que, todos os dias, leal, alegre e santamente servem ao Senhor. Apesar da violência dos ataques que ela suporta, a Igreja não morrerá. Esta é a promessa do Senhor, e Sua palavra é infalível”.

Dirigindo-se especificamente aos católicos que são levados à duvidas, ele falou do “sutil veneno de Judas” da traição. O demônio “quer nos ver (a Igreja) como uma organização humana em crise” quando ela é “Cristo perpetuando-Se”. Satanás leva os fiéis à divisão e ao cisma “ao nos fazer crer que a Igreja traiu”. “Mas a Igreja não trai. A Igreja, cheia de pecadores, é, ela mesma, sem pecado. Sempre haverá luz suficiente nela para aqueles que buscam a Deus”.

O Cardeal Sarah advertiu os fiéis católicos contra a tentação de “resolver as coisas com nossas próprias mãos” — uma tentação que levaria à divisão através da crítica e divisão. “Não hesitemos (…) em denunciar o pecado, a começar pelos nossos próprios”.

“Eu tremo com a ideia de que a túnica inconsútil de Cristo possa uma vez mais ser despedaçada. Jesus sofreu a agonia ao ver antecipadamente as divisões dos cristãos. Não O crucifiquemos novamente”, implorou o cardeal.

Sarah não está procurando popularidade ou sucesso, ele insistiu. “Este livro é um pranto de minha alma! Um pranto de amor a Deus e a meus irmãos. Eu devo a vós, cristãos, a única verdade que salva. A Igreja está morrendo porque os pastores têm medo de falar com toda a verdade e clareza. Estamos com medo da mídia, da opinião pública, de nossos próprios irmãos. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas”.

Aos católicos confusos a quem se dirige, o Cardeal Sarah exorta, especialmente aos padres, à oração: “Quem não reza se condena”, escreveu, citando Santo Afonso. “Não é uma questão de acumular devoções. É uma questão de guardar silêncio e adorar, de estar de joelhos, de entrar com temor e respeito na liturgia. É a obra de Deus, não um teatro”.

E ele prossegue sua meditação: “Caros amigos, querem colocar a Igreja em seu devido lugar? Caiam de joelhos! É o único caminho! Se fizer diferente, o que fizer não será de Deus (…) Se não encostarmos nossas cabeças, como São João, no Coração de Cristo, não teremos forças para segui-lO até a Cruz. Se não tivermos tempo de ouvir as batidas do Coração de nosso Deus, nós O abandonaremos, nós O trairemos como os apóstolos fizeram”.

Junto com as orações, na atual crise, é necessária a fidelidade à doutrina. O Cardeal Sarah está claramente consciente das razões da confusão dos dias de hoje. “Como podemos aceitar que conferências episcopais contradigam uma a outra? Onde reina a confusão, Deus não está!, escreveu.

“A unidade de fé supõe a unidade do magistério no espaço e no tempo. Quando um novo ensinamento nos é dado, deve ser sempre interpretado em coerência com o ensinamento que o precedeu. Se nós introduzimos rupturas e revoluções, rompemos a unidade que governa a Santa Igreja pelos séculos”, insistiu. “Aqueles que bradam em voz alta a mudança e ruptura são falsos profetas. Eles não procuram o bem do rebanho”.

Fidelidade à verdade significa aceitar a Cruz, escreveu o Cardeal Sarah, acrescentando que Cristo exige aquela fidelidade mais uma vez.

“Ele nos olha diretamente nos olhos e pergunta a cada um de nós: você me abandonará? Você renunciará o ensinamento da fé em toda sua plenitude? Terá coragem de pregar minha presença real na Eucaristia? Terá coragem de convidar os jovens à vida consagrada? Quando você terá força para dizer que sem a confissão frequente, a comunhão sacramental corre o risco de perder seu sentido? Você terá a audácia de recordar a verdade sobre a indissolubilidade do matrimônio? Terá a caridade de fazer o mesmo àqueles que ameaçam culpá-lo por isso? Você prefere o sucesso ou me seguirá? Queira Deus que respondamos com São Pedro, cheios de amor a humildade, ‘Senhor, a quem iremos? Só vós tendes palavras de vida eterna’. (João 6:68).”

Tudo isso exige “amor a Pedro”, escreveu o Cardeal Sarah. “O mistério de Pedro é um mistério de fé. Jesus escolheu confiar sua Igreja a um homem. Não nos esqueçamos, Ele permitiu a este homem trair três vezes à frente de todos, antes de lhe entregar as chaves de Sua Igreja. Nós sabemos que a barca da Igreja não foi confiada a um homem por causa de suas habilidades extraordinárias. Mas sabemos que este homem seria sempre assistido pelo Divino Pastor, a fim de guardar a regra da fé”.

Essa é a razão pela qual não devemos ter medo, acrescentou, falando do “fio de ouro das definições infalíveis dos pontífices, sucessores de Pedro” em oposição ao “fio negro dos atos humanos e imperfeitos dos Papas, sucessores de Simão”, nos quais ainda “sentimos a pequena agulha guiada pela mão invisível de Deus”.

Na mesma direção de sua introdução, Sarah deixou claro que não se espera que os católicos sejam cegos:

“Queridos amigos, os seus pastores estão cobertos de faltas e imperfeições. Mas não é desprezando esse fato que se construirá a unidade da Igreja. Não tenham medo de pedir a eles a fé católica, os sacramentos da vida divina. Lembrem-se das palavras de Santo Agostinho: ‘Quando Pedro batiza, é Jesus que batiza. Quando Judas batiza, ainda é Jesus que batiza!”.

E prosseguiu: “Se você pensa que seus padres e bispos não são santos, seja santo por eles. Faça penitência, jejum para reparar as faltas e covardia. É a única maneira de carregar o fardo do outro”.

A quarta exortação do cardeal é sobre a “caridade fraterna”, refletindo sobre a Igreja como mãe que abre seus braços a nós: “Em seu seio, nada pode nos ameaçar. Cristo abriu Seus braços de uma vez por todas na Cruz para que a Igreja pudesse abrir os seus a fim de nos reconciliar com ela, com Deus e conosco mesmo”, um chamado contra a divisão que “persegue a Jesus”.

Em resumo, o Cardeal Sarah está chamando os fiéis a reconhecer “a grandeza e a transcendência de Deus”, a quem devemos amar até a morte — a única condição que pode nos permitir ouvir as palavras ditas por São Francisco de Assis: “Vai e reconstrói a minha Igreja”. Ainda afirmou o Cardeal: “Vai, reconstrói pela sua fé, esperança e caridade. Vai e reconstrói pela sua o oração e fidelidade. Graças a você, minha Igreja novamente se tornará minha casa”.

Essas palavras foram assinadas em 22 de fevereiro, durante o encontro sobre abusos sexuais no Vaticano, no momento em que acusações horríveis começaram a se acumular contra a Igreja, especialmente contra aqueles membros mais fiéis a seu ensinamento perene.

31 março, 2019

Foto da semana.

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Loreto, 25 de março de 2019: O Papa Francisco retira, repetidamente, as mãos dos fieis que tentavam oscular o anel do Sucessor de Pedro.

“O papa me disse que a razão pela qual ele não permitiu que beijassem o anel em Loreto era a higiene, para evitar a disseminação de germes entre as pessoas que faziam fila”, afirmou Alessandro Gisotti, diretor do gabinete de imprensa do Vaticano, nesta quinta-feira (28).

Nossas sugestões para complementar a iniciativa pontifícia: abolir a Comunhão na Mão, especialmente após os fiéis todos tocarem em dinheiro, completamente cheio de germes, ao darem suas ofertas; eliminar o abraço da paz; eliminar as mãos dadas no Pai Nosso; eliminar o hábito de “Ministros” passarem o Cálice uns aos outros; eliminar as grandes aglomerações de pessoas, por exemplo, nas audiências pontifícias na Sala Paulo VI, etc.

 

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28 março, 2019

Sobre a questão de um papa herege.

Por Dom Athanasius Schneider | Tradução: José Antonio Ureta

Em toda a tradição católica, a questão de como se comportar com um papa herético ainda não foi tratada, em termos concretos, de modo a obter algo que se assemelhe a um verdadeiro consenso geral. Até agora, nem um papa nem um concílio ecumênico formularam declarações doutrinárias relevantes ou emitiram normas canônicas vinculantes sobre como lidar com um papa herético durante o período de seu mandato.

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Dom Anthanasius Scheider e Papa Francisco.

Não há nenhum caso histórico de perda de um pontificado por um papa durante seu mandato devido à heresia ou suposta heresia. O Papa Honório I (625-638) foi excomungado postumamente por três concílios ecumênicos (o Terceiro Concílio de Constantinopla de 681, o Segundo Concílio de Nicéia de 787 e o Quarto Concílio de Constantinopla de 870) porque apoiou a doutrina herética daqueles que promoveram o Monotelismo, contribuindo assim para espalhar esta heresia. Na carta com a qual ele confirmou os decretos do Terceiro Concílio de Constantinopla, o Papa São Leão II (682-683) lançou o anátema sobre o Papa Honório (” anathematizamus Honorium”), afirmando que seu predecessor “não esclareceu esta Igreja apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas procurou subverter a fé imaculada com uma traição ímpia” (Denzinger-Schönmetzer, 563).

O Liber Diurnus Romanorum Pontificum, uma coleção heterogênea de formas usadas na chancelaria papal até o século 11, contém o texto do juramento papal, segundo o qual todo novo papa, ao tomar posse, tinha que jurar que “reconhece o Sexto Concílio Ecumênico que golpeou com eterno anátema os criadores da heresia (monotelita), Sérgio, Pirro etc., juntamente com Honório” (PL 105, 40-44).

Em alguns Breviários até o século XVI e XVIII, o Papa Honório foi mencionado como  herege nas lições das Matinas do 28 de junho, festa de São Leão II: “In synodo Constantinopolitano condemnati sunt Sergius, Ciro, Honório, Pirro, Paulus e Petrus nec non et Macarius, cum discipulo seu Stephano, sed et Polychronius et Simon, qui unam voluntatem et operationem in Domino Jesu Christo dixerunt vel praedicaverunt”. A presença desta leitura em alguns Breviários ao longo de muitos séculos mostra que muitas gerações de católicos não consideraram escandaloso que um papa em particular, e em um caso muito raro, tenha sido considerado culpado de heresia ou de favorecer a heresia. Naqueles tempos, os fiéis e a hierarquia da Igreja distinguiam claramente entre a indestrutibilidade da fé católica divinamente garantida pelo Magistério da Sé de Pedro e a infidelidade e traição de um único papa no exercício concreto de seu ofício magistral.

Dom John Chapman, em seu livro “A Condenação do Papa Honório” (Londres, 1907), explica que o Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla, que lançou o anátema sobre o Papa Honório, determinou uma clara distinção entre o erro de um único papa e a inerrância na fé da Sé Apostólica como tal. Na carta ao papa Agatão (678-681) pedindo-lhe para aprovar as decisões conciliares, os Padres do Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla afirmam que Roma tem uma fé infalível, promulgada com autoridade para toda a Igreja pelos bispos da Sé Apostólica, os sucessores de Pedro. Pode-se perguntar: como foi possível o Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla afirmar isso e, ao mesmo tempo, condenar um papa como herege? A resposta é bem clara. Papa Honório era falível, ele estava errado, ele era um herege, precisamente porque não reafirmou com autoridade, como devia, a tradição petrina da Igreja Romana. Ele não apelou para essa tradição, mas simplesmente aprovou e espalhou uma doutrina incorreta. Mas, uma vez desaprovadas por seus sucessores, as palavras do Papa Honório I tornaram-se inofensivas para a inerrância na fé da Sé Apostólica. Elas foram reduzidas ao seu verdadeiro valor, ou melhor, à mera expressão de sua opinião pessoal.

O papa Santo Agatão não se deixou confundir e nem abalar pelo comportamento deplorável de seu predecessor Honório I, que contribuiu para espalhar a heresia, mas manteve sua visão sobrenatural na inerrância da Sé de Pedro ao ensinar a fé, como escreveu aos imperadores em Constantinopla: “Esta é a regra da verdadeira fé, que esta mãe espiritual do seu pacífico império, a Igreja Apostólica de Cristo (a Sé de Roma) sempre manteve e defendeu com energia tanto na prosperidade como na adversidade; que, pela graça do Deus Todo-Poderoso, como será demonstrado, ela nunca se desviou do caminho da tradição apostólica, nem foi ela adulterada cedendo a inovações heréticas, mas desde o princípio recebeu a fé cristã de seus fundadores, os príncipes dos Apóstolos de Cristo, e permanecerá inalterada até o final, de acordo com a promessa divina do mesmo Senhor Salvador, que anunciou nos Santos Evangelhos ao príncipe dos seus discípulos, dizendo: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos.” (Ep. “Considerando mihi” ad Imperatores ).

Dom Prosper Guéranger deu uma breve e lúcida explicação teológica e espiritual deste caso concreto de um papa herege, dizendo: “Que aplausos nos abismos quando, um dia, o representante d’Aquele que é a luz apareceu como cúmplice do poder das trevas para trazer a noite! Uma nuvem pareceu interpor-se entre o céu e os montes onde reside Deus no seu vigário; sem dúvida, o aporte social da intercessão não tinha sido como que devia” (L’Année liturgique, Paris 1911, vol. 3, p. 403)..

Há também o fato de que por dois mil anos nunca houve um caso em que um papa foi declarado deposto por causa do crime de heresia durante seu pontificado. O papa Honório I foi anatematizado somente após sua morte. O último caso de um papa herege ou quase herético foi o do Papa João XXII (1316-1334), quando ensinou a teoria segundo a qual os santos desfrutariam da visão beatífica somente após o Julgamento Universal, na segunda vinda de Cristo. O caso foi abordado da seguinte maneira: houve admoestações públicas (da Universidade de Paris e do rei Filipe VI da França), uma refutação das teorias papais por meio de várias publicações teológicas e uma correção fraterna do cardeal Jacques Fournier, que mais tarde sucedeu João XXII com o nome de Bento XII (1334-1342).

A Igreja, nos raros casos concretos de um pontífice que incorre em sérios erros teológicos ou heresias, certamente pode continuar a viver. A prática da Igreja até agora tem sido deixar o julgamento final sobre um papa herético reinante para seus sucessores ou para um futuro concílio ecumênico, como no caso do papa Honório I. O mesmo provavelmente teria acontecido com o papa João XXII, se ele não tivesse se retratado de seu erro.

Os pontífices foram depostos várias vezes por poderes seculares ou por grupos criminosos. Isso aconteceu especialmente durante o “saeculum obscurum”, o chamado século escuro (século X e XI), quando os imperadores alemães depuseram vários papas indignos, não por causa de heresia, mas por causa de sua escandalosa vida imoral e seus abusos de poder. No entanto, eles nunca foram depostos por meio de um procedimento canônico, sendo isso impossível por causa da estrutura divina da Igreja. O papa recebe sua autoridade diretamente de Deus e não da Igreja; portanto, a Igreja não pode depô-lo, por qualquer motivo que seja.

É um dogma de fé que o papa não pode proclamar uma heresia quando ensina ex cathedra. Esta é a garantia divina de que as portas do inferno não prevalecerão contra a cátedra veritatis, que é a Sé Apostólica do Apóstolo São Pedro. Dom John Chapman, especialista na história da condenação do Papa Honório I, escreve: “A infalibilidade é, por assim dizer, o vértice de uma pirâmide. Quanto mais solenes os pronunciamentos da Sé Apostólica, mais podemos ter certeza da sua verdade. Quando eles atingem o máximo da solenidade, ou seja, quando eles são ex cathedra em senso estrito, a possibilidade de erro é completamente eliminada. A autoridade de um papa, mesmo nas ocasiões em que não é realmente infalível, deve ser obedecida e reverenciada. Que possa estar do lado errado é uma contingência que a história e a fé mostram como possível “(The Condenation of Pope Honourius, Londres, 1907, p. 109).

Se um papa espalha erros doutrinários ou heresias, a estrutura divina da Igreja já fornece um antídoto: a suplência ministerial dos representantes do episcopado e do indefectível sensus fidei dos fiéis. Nesta matéria, o fator numérico não é decisivo. Basta ter apenas um par de bispos que proclamam a integridade da fé e, assim, corrigem os erros de um papa herege. É suficiente que os bispos instruam e protejam seu rebanho dos erros de um papa herege e que seus sacerdotes e os pais de famílias católicas façam o mesmo. Além disso, como a Igreja é também uma realidade sobrenatural, um mistério, um único organismo sobrenatural, o Corpo Místico de Cristo, os bispos, padres e fiéis leigos – além de correções, apelos, profissões de fé e resistência pública – devem necessariamente realizar atos de reparação e de expiação à Divina Majestade pelas heresias do Papa. De acordo com a constituição dogmática Lumen gentium (cf. n° 12) do Concílio Vaticano II, todo o corpo de fiéis não pode errar na fé, quando desde os bispos até os últimos fiéis leigos compartilham um consenso universal numa matéria de fé e moral. Mesmo que um papa esteja espalhando erros teológicos e heresias, a Fé da Igreja como um todo permanecerá intacta por causa da promessa de Cristo sobre a assistência especial e a presença permanente do Espírito Santo, o Espírito da verdade, em sua Igreja (cf. Jo 14,17; 1 Jo 2,27).

Quando, por uma permissão inescrutável de Deus, em um determinado momento da história e em um caso muito raro, um papa espalha erros e heresias através de seu magistério ordinário e quotidiano não infalível, a Providência divina desperta ao mesmo tempo o testemunho de alguns membros do colégio episcopal e também os fiéis, para compensar as falhas temporárias do Magistério Pontifício. Deve ser dito que tal situação é muito rara, mas não impossível, como mostra a história da Igreja. A Igreja é verdadeiramente um único corpo orgânico, e quando há uma enfermidade ou falha na cabeça (o papa), o resto do corpo (os fiéis) ou partes eminentes dele (os bispos) compensam os erros papais temporários. Um dos exemplos mais famosos e trágicos de tal situação ocorreu durante a crise ariana do século quarto, quando a pureza da fé foi mantida não tanto pela ecclesia docens (papa e episcopado), mas pela ecclesia docta (os fiéis), como afirmou o Bem-aventurado John Henry Newman.

A teoria ou opinião da perda do ministério papal por deposição ou por declaração da perda ipso facto, identifica implicitamente o papa com toda a Igreja ou manifesta a atitude doentia de um “centrismo papal”, em última análise, de papolatria. Os defensores dessa opinião (especialmente alguns santos) manifestaram um ultramontanismo exagerado ou “centrimo papal”, fazendo do pontífice uma espécie de semi-deus, que não pode cometer erros, mesmo em assuntos fora do objeto da infalibilidade papal. Assim, um papa que comete erros doutrinários – o que teórica e logicamente inclui também a possibilidade de cometer o mais grave erro doutrinário, isto é a heresia – é insuportável ou impensável para os seguidores dessa opinião (ou seja, a deposição de um papa e a perda de seu ofício por causa da heresia), mesmo se o papa incorre nesses erros em questões alheias ao objeto da infalibilidade papal.

A teoria ou opinião teológica de que um papa herege pode ser deposto ou vir a perder o cargo era desconhecida no primeiro milênio. Originou-se apenas no início da Idade Média, numa época em que o papo-centrismo atingia o seu auge, quando o papa foi inconscientemente identificado com a Igreja inteira. Isto já prefigurava, em sua raiz, a atitude mundana de um príncipe absolutista segundo o lema: “L’État, c’est moi!” Ou, em termos eclesiásticos: “Eu sou a Igreja!”.

A opinião de que um papa herege perde seu ofício ipso facto tornou-se comum entre os teólogos desde o início da Idade Média até o século XX. Continua, porém, sendo uma mera opinião teológica e não um ensinamento da Igreja e, portanto, não pode reivindicar o título de um verdadeiro ensinamento constante e perene da Igreja, uma vez que nenhum concílio ecumênico e nenhum papa apoiaram explicitamente essa opinião. De fato, a Igreja condenou um papa herético, mas somente após sua morte e não durante seu pontificado. Mesmo que alguns doutores sagrados da Igreja (por exemplo, S. Roberto Bellarmino e S. Francisco de Sales) apoiem tal opinião, isso não prova sua certeza ou um consenso doutrinário universal. Até os doutores da Igreja incorreram em erros; foi, por exemplo, o caso de São Tomás de Aquino sobre a questão da Imaculada Conceição, da matéria do sacramento da Ordem ou o caráter sacramental da ordenação episcopal.

Houve um período na Igreja em que, por exemplo, prevaleceu uma opinião teológica comum, objetivamente errada, segundo a qual a entrega dos instrumentos era a matéria do sacramento da Ordem; uma opinião, no entanto, que não podia invocar antiguidade ou universalidade, mesmo que tivesse sido apoiada por um papa (pelo decreto de Eugênio IV) por um tempo limitado ou por livros litúrgicos (também por um curto período). Essa opinião comum foi, no entanto, corrigida por Pio XII em 1947.

A teoria da deposição de um papa herético ou da perda de seu cargo ipso facto devido à heresia é apenas uma opinião teológica, que não satisfaz as categorias teológicas necessárias de antiguidade, universalidade e consenso (semper, ubique, ab omnibus ). Não houve declarações do Magistério universal ordinário ou do Magistério pontifício em apoio às teorias da deposição de um papa herege ou da perda de seu ofício ipso facto por causa da heresia. Segundo uma tradição canônica medieval, posteriormente coletada no Corpus Juris Canonici (a lei canônica válida na Igreja latina até 1918), um papa poderia ser julgado em caso de heresia: “Papa a nemine est iudicandus, nisi deprehendatur a fide devius”, quer dizer, que “o papa não pode ser julgado por ninguém, a menos que seja flagrado desviando-se da fé “(Decretum Graciano, Prima Pars, dist. 40, c. 6, 3. pars). O Código de Direito Canônico de 1917, no entanto, eliminou a norma do Corpus Juris Canonici, que falava de um papa herético. O Código de Direito Canônico de 1983 também não prevê essa regra.

A Igreja sempre ensinou que até mesmo uma pessoa herética, automaticamente excomungada por causa de heresia formal, pode validamente administrar os sacramentos e que, em um caso extremo, um padre herege ou excomungado também pode exercer um ato de jurisdição dando a um penitente a absolvição sacramental. As regras eleitorais papais, válidas até Paulo VI, ele incluído, admitiam que mesmo um cardeal excomungado podia participar da eleição e ser eleito papa: “Nenhum cardeal eleitor pode ser excluído da eleição, ativa e passiva, do Sumo Pontífice, por causa ou com o pretexto de excomunhão, suspensão, interdito ou qualquer outro impedimento eclesiástico; estas censuras devem ser consideradas suspensas, mas apenas para os fins dessa eleição” (Paulo VI, Constituição Apostólica Romano Pontifice eligendo , 35). Esse princípio teológico também deve ser aplicado ao caso de um bispo herege ou de um papa herege, que, apesar de suas heresias, pode validamente realizar atos de jurisdição eclesiástica e, portanto, não perde o cargo ipso facto devido à heresia.

A teoria teológica ou opinião que permite a deposição de um papa herege ou a perda de seu ofício ipso facto devido à heresia é praticamente impraticável. Se fosse aplicada na prática, criaria uma situação semelhante à do Grande Cisma, que a Igreja já experimentou desastrosamente no final do século XIV e início do século XV. Na verdade, sempre haverá uma parte do Colégio Cardinalício e uma parte considerável do episcopado mundial e também dos fiéis que não vai concordar em considerar um erro material (ou erros materiais) do papa como heresia formal (heresias formais), e, portanto, continuará a considerar o papa reinante como o único papa legítimo.

Um cisma formal, com dois ou mais pretendentes ao trono papal – que também será uma consequência inevitável da deposição canônica de um papa – necessariamente causará mais danos à Igreja como um todo do que um período relativamente curto e muito raro em que um papa espalhe erros doutrinais ou heresias. A situação de um papa herege será sempre relativamente curta, se comparada aos dois mil anos de existência da Igreja. Neste caso raro e delicado, devemos deixar margem para uma intervenção da Divina Providência.

A tentativa de depor um papa herege a qualquer custo é sinal de um comportamento demasiadamente humano, o que eventualmente reflete uma relutância em suportar a cruz temporária de um pontífice herético. Talvez reflita também o sentimento por demais humano da raiva. Em todo caso, oferecerá uma solução excessivamente humana e, como tal, semelhante ao comportamento na política. A Igreja e o Papado são realidades que não são puramente humanas, mas também divinas. A cruz de um papa herege – mesmo quando de duração limitada – é a maior cruz imaginável para toda a Igreja.

Outro erro na intenção ou tentativa de destituir um papa herético consiste na identificação indireta ou subconsciente da Igreja com o Papa ou em fazer do Papa o ponto focal da vida cotidiana da Igreja. Isso, em última instância, significa ceder subconscientemente a um ultramontanismo doentio, ao papo-centrismo e à papolatria, isto é, ao culto à personalidade papal.

Na verdade, houve períodos na história da Igreja quando, por um tempo considerável, a Sé de Pedro permaneceu vacante. Por exemplo, de 29 de novembro de 1268 a 1° de setembro de 1271, não houve papa nem antipapa. Portanto, os católicos não devem fazer do pontífice, de suas palavras e de suas ações, o foco diário de sua atenção.

Os filhos de uma família podem ser deserdados. No entanto, o pai de uma família não pode ser deserdado, não importa quão culposamente ou monstruosamente ele se comporte. Esta é a lei da hierarquia que Deus estabeleceu até na criação. O mesmo se aplica ao papa, que durante o seu mandato é o pai espiritual de toda a família de Cristo na terra. No caso de um pai criminoso ou monstruoso, as crianças devem retirar-se dele ou evitar o contato. No entanto, eles não podem dizer: “elegeremos um novo e bom pai para nossa família”. Seria contrário ao senso comum e à natureza. O mesmo princípio deve, portanto, ser aplicável à questão da deposição de um papa herege. O papa não pode ser deposto por ninguém; só Deus pode intervir e irá fazê-lo em seu tempo, já que Ele não comete erros em sua providência (“Deus in sua dispositione non fallitur”). Durante o Concílio Vaticano I, Dom Zinelli, Relator da deputação da Fé, falou nestes termos da possibilidade de um papa herege: “Se Deus permite um mal tão grande (isto é, um papa herético), não vão faltar os meios para remediar a esta situação “(Mansi 52, 1109).

A deposição de um pontífice herético acabaria por favorecer a heresia do conciliarismo, do sedevacantismo e de uma atitude mental semelhante à de uma comunidade puramente humana ou política. Também promoveria uma mentalidade semelhante ao separatismo no mundo protestante ou ao autocefalismo no conjunto das igrejas ortodoxas.

A teoria ou opinião que permite a deposição ou a perda do ofício revela-se também em suas raízes mais profundas – ainda que de modo inconsciente – uma espécie de “donatismo” aplicado ao ministério papal. A teoria donatista identificava os ministros sagrados (sacerdotes e bispos) quase com a santidade moral do próprio Cristo, exigindo, portanto, para a validade de seu ofício, a ausência de erros morais ou de má conduta em sua vida pública. De maneira similar, a teoria supracitada exclui a possibilidade de um papa cometer erros doutrinários, isto é, heresias, declarando seu cargo inválido ou vacante por este fato, assim como faziam os donatistas, que declaravam inválido ou vacante o ofício sacerdotal ou episcopal devido a erros na vida moral.

Pode-se imaginar que no futuro a autoridade suprema da Igreja (o Papa ou o Concílio Ecumênico) poderia estabelecer as seguintes normas canônicas ou vinculantes para o caso de um papa herético ou manifestamente heterodoxo:

  • Um papa não pode ser deposto de qualquer forma ou por qualquer razão, nem mesmo por razões de heresia.
  • Todo novo papa eleito que toma posse de seu ofício é obrigado, em virtude de seu ministério como Mestre supremo da Igreja, a fazer o juramento de proteger todo o rebanho de Cristo dos perigos das heresias e de evitar aparência de heresia, respeitando sua obrigação de fortalecer todos os pastores e fiéis na fé.
  • Um papa que espalhe erros teológicos óbvios ou heresias ou que contribua para sua difusão com suas ações e omissões deve ser devidamente corrigido de forma fraternal e privada pelo Decano do Colégio dos Cardeais.
  • Depois de correções privadas sem sucesso, o Decano do Colégio dos Cardeais é obrigado a tornar pública sua correção.

Juntamente com a correção pública, o decano do Colégio dos Cardeais deve fazer um apelo a rezar pelo Papa, para que ele possa recuperar a força para confirmar inequivocamente toda a Igreja na Fé.

  • Ao mesmo tempo, o Decano do Colégio Cardinalício deveria publicar uma fórmula de Profissão de Fé, na qual os erros teológicos que o Papa ensina ou tolera (sem necessariamente nomear o Papa) fossem rejeitados.
  • Se o decano do Colégio dos Cardeais omitir a correção, o apelo à oração e a publicação de uma Profissão de Fé, todo cardeal, bispo ou grupo de bispos deve fazê-lo; e se cardeais e bispos também deixarem de fazê-lo, qualquer membro dos fiéis católicos ou qualquer grupo de fiéis católicos deve fazê-lo.
  • O Decano do Colégio dos Cardeais ou um cardeal, ou um bispo ou um grupo de bispos, ou um fiel católico ou um grupo de fiéis católicos que fizerem a correção, pedirem orações e publicarem uma Profissão de Fé não podem ser submetidos a sanções canônicas ou acusados de falta de respeito pelo Papa por este motivo.

No caso extremamente raro de um papa herege, a situação espiritual da Igreja pode ser descrita com as palavras usadas pelo papa São Gregório Magno (590-604), que falou da Igreja de seu tempo como “um velho navio todo quebrado, que faz água por todos os lados, e cujas tábuas podres, na grande tempestade que o sacode todos os dias, fazem rangidos de naufrágio” (Registrum I, 4, Ep. Ioannem episcopum Constantinopolitanum ).

Os episódios evangélicos em que Nosso Senhor acalma o mar tempestuoso e salva Pedro que estava afundando na água nos ensinam que mesmo na situação mais dramática e humanamente desesperada de um papa herege, todos os Pastores da Igreja e os fiéis devem acreditar e confiar que Deus, em Sua Providência, intervirá, e que Cristo acalmará a furiosa tempestade e devolverá a força aos sucessores de Pedro, seus Vigários na terra, para confirmar todos os Pastores e fiéis na Fé Católica e Apostólica.

O Papa Santo Agatão (678-681), que teve a difícil tarefa de limitar os danos causados pelo Papa Honório I à integridade da Fé, deixou palavras vivas num apelo ardente a cada sucessor de Pedro, que deve estar sempre ciente de seu grave dever de preservar intacta a pureza virginal do Depósito da Fé: “Ai de mim se eu negligenciar a pregar a verdade do meu Senhor, que eles [os antecessores] pregaram sinceramente. Ai de mim, se eu cobrir pelo silêncio a verdade que sou obrigado a dar ao meu rebanho, isto é, ensinar e convencer o povo cristão. O que direi no futuro julgamento do próprio Cristo, se eu envergonhar-me – Deus me livre! – de pregar agora a verdade de suas palavras? Que satisfação posso dar por mim, pelas almas que me foram confiadas, quando Ele pedirá estrita conta do ofício que recebi?” (Ep.”Considerando mihi ”ad Imperatores ).

Quando o primeiro Papa, São Pedro estava fisicamente acorrentado, toda a Igreja implorou pela sua libertação: “Pedro estava assim encerrado na prisão, mas a Igreja orava sem cessar por ele a Deus” (Atos 12: 5). Quando um papa espalha erros ou mesmo heresias, ele está em cadeias espirituais ou em uma prisão espiritual. Portanto, toda a Igreja deve orar incessantemente por sua libertação desta prisão espiritual. Toda a Igreja deve ter uma perseverança sobrenatural em tal oração e uma confiança sobrenatural no fato de que, no fim das constas, é Deus e não o Papa quem governa Sua Igreja.

Quando o Papa Honório I (625-638) adotou uma atitude ambígua a respeito da propagação da nova heresia do Monotelismo, São Sofrônio, Patriarca de Jerusalém, enviou um bispo da Palestina a Roma, dizendo-lhe: “Vá à Sé Apostólica, onde estão as bases da doutrina sagrada e não deixe de rezar até que a Sé Apostólica condene a nova heresia”.

Ao tratar do trágico caso de um pontífice herege, todos os membros da Igreja, começando pelos bispos, até os simples fiéis, devem usar todos os meios legítimos, como as correções privadas e públicas ao papa errante, orações constantes e ardentes e profissões públicas da verdade, para que a Sé Apostólica volte a professar claramente as verdades divinas que o Senhor confiou a Pedro e a todos os seus sucessores. “O Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro, não de maneira que eles pudessem, por revelação sua, dar a conhecer alguma nova doutrina, mas que, por assistência sua, pudessem guardar santamente e expor fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, isto é, o depósito da fé” (Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Pastor aeternus ,cap. 4).

Cada Papa e todos os membros da Igreja devem lembrar as palavras sábias e atemporais que o Concílio Ecumênico de Constança (1414-1418) pronunciou sobre o Papa, considerado como a primeira pessoa na Igreja a ser vinculada pela Fé, cuja integridade ele deve guardar cuidadosamente: “Visto que o Romano Pontífice exerce um poder tão grande entre os mortais, é adequado que ele esteja cada vez mais ligado aos laços incontrovertíveis da fé e aos ritos que devem ser observados com respeito aos sacramentos da Igreja. Por isso decretamos e ordenamos, para que a plenitude da fé possa brilhar num futuro Pontífice Romano com um esplendor singular desde o primeiro momento de tornar-se papa, que a partir daquele momento em que será eleito Romano Pontífice faça a seguinte confissão e profissão pública” (Trigésima Nona Sessão de 9 de outubro de 1417.

Na mesma sessão, o Concílio de Constança decretou que todo novo papa eleito deveria fazer um juramento de fé, propondo a seguinte fórmula, da qual citamos as passagens mais cruciais:

“Eu, N., eleito Papa, com o coração e os lábios confesso e professo ao Deus todo-poderoso, que confessarei firmemente e preservarei a fé católica de acordo com as tradições dos Apóstolos, dos Concílios Gerais e dos outros Santos Padres. Que manterei esta fé inalterada até o último iota e que a confirmarei, defenderei e pregarei até a morte e o derramamento de meu sangue, e da mesma maneira que seguirei e observarei de todas as maneiras o rito transmitido dos sacramentos eclesiásticos da Igreja Católica”.

Quão urgente seria pôr em prática o juramento do papa, especialmente em nossos dias! O pontífice não é um monarca absoluto, que pode fazer e dizer o que quiser, que pode mudar a discrição a doutrina ou a liturgia. Infelizmente, nos séculos passados – ao contrário da tradição apostólica dos tempos antigos – o comportamento dos papas como monarcas absolutos ou semi-deuses tornou-se tão habitualmente aceito que chegou a influenciar as concepções teológicas e espirituais da maioria dos bispos e fiéis, e especialmente das pessoas piedosas. O fato de que o Papa deva ser o primeiro na Igreja a evitar as novidades, obedecendo de maneira exemplar à tradição da Fé e da Liturgia, foi às vezes apagado da consciência dos bispos e dos fiéis por uma aceitação cega e piedosa de uma espécie de absolutismo papal.

O juramento papal de Liber diurnus Romanorum Pontificum considerava como a principal exigência e qualidade distintiva de um novo papa a sua fidelidade inabalável a tradição, assim como foi transmitida por todos os seus antecessores: ” Nihil de traditione, quod em probatissimis praedecessoribus Meis servatum reperi, diminu vel vel mutare, aut aliquam novitatem admittere; sed ferventer, e verum discipulus et sequipeda, totis viribus meis conatibusque traído conservar ac venerari“(“Nada mudarei da Tradição que recebi, e nada do que encontrei antes de mim, preservado por meus veneráveis predecessores, nem tocarei, alterarei ou permitirei qualquer inovação nela; de fato, reverenciá-la-ei com ardente afeto como verdadeiro e fiel discípulo, transmitindo-a com toda a minha força e máximo esforço”).

O mesmo juramento papal definia, em termos concretos, a fidelidade à lex credendi (a regra da fé) e à lex orandi (a regra da oração). Quanto à lex credendi (a regra da fé), o texto do juramento diz:

Verae fidei rectitudinem, quam Christo autore tradente, per successori tuos atque discipulos, usque ad exiguitatem meam perlatam, in tua sancta Ecclesia reperi, totis conatibus meis, usico ad animam et sanguinem custodire, temporumque difficultates, cum tuo adjutorio, toleranter sufferre” ( “Prometo manter com todas as minhas forças, até a morte e o derramamento de meu sangue, a integridade da verdadeira fé, cujo autor é Cristo, e que, através de seus sucessores e discípulos, foi transmitida a minha humilde pessoa e que eu encontrei em Sua Igreja. Eu também prometo pacientemente suportar as dificuldades dos tempos”).

Em relação à lex orandi , o juramento do Papa afirma:

Disciplinam et ritum Ecclesiae, sicut inveni, et a sanctis praecessoribus meis traditum reperi, illibatum custodire” (“Prometo manter inviolada a disciplina e a liturgia da Igreja como as encontrei e como elas foram transmitidos por meus santos predecessores”).

Nos últimos cem anos, houve alguns exemplos espetaculares de absolutismo papal. Quando consideramos a lex orandi, as mudanças feitas pelos papas Pio X, Pio XII e Paulo VI foram drásticas e radicais e, no que diz respeito à lex credendi, pelo Papa Francisco.

Pio X tornou-se o primeiro papa na história da Igreja Latina a realizar uma reforma tão radical do Salterio (cursus psalmorum), que levou à construção de um novo tipo de ofício divino no que diz respeito à distribuição dos salmos. Depois, houve o Papa Pio XII, que aprovou para o uso litúrgico uma versão latina radicalmente modificada do texto milenar e melodioso do Vulgate Psalter. A nova tradução latina, o chamado “Saltério Piano”, era um texto fabricado artificialmente pelos acadêmicos e, em seu refinamento, era difícil de pronunciar. Esta nova tradução latina, acertadamente criticada com o ditado “accessit latinitas, recessit pietas”, foi depois rejeitada de fato por toda a Igreja sob o pontificado do papa João XXIII. O Papa Pio XII mudou também a liturgia da Semana Santa, um tesouro litúrgico milenar da Igreja, introduzindo parcialmente rituais inventados ex novo.  Mudanças litúrgicas inauditas foram, porém, levadas a cabo pelo Papa Paulo VI com uma reforma revolucionária do rito da Missa e dos outros sacramentos, uma reforma litúrgica, que nenhum Papa antes ousou realizar com tanta radicalidade.

Uma mudança teologicamente revolucionária foi feita pelo Papa Francisco na medida em que ele aprovou a prática de algumas igrejas locais de admitir à Santa Comunhão “caso por caso” adúlteros sexualmente ativos (aqueles que coabitam nas chamadas “uniões irregulares”). Mesmo que essas normas locais não representem uma norma geral na Igreja, constituem, no entanto, uma negação prática da verdade da absoluta indissolubilidade do matrimónio sacramental rato e consumado. Outra mudança radical nas questões doutrinárias é a modificação da doutrina bíblica e do magistério bimilenar da Igreja quanto ao princípio da legitimidade da pena de morte.

Neste contexto, destaca-se e nos faz refletir um fato impressionante narrado na vida do Papa Pio IX: diante do pedido de um grupo de bispos para introduzir uma pequena mudança no Canon da Missa (inserindo o nome de São José), ele respondeu: “Eu não posso fazer isso . Eu sou apenas o papa!”

A seguinte oração de Dom Prosper Guéranger, na qual ele elogia o papa São Leão II por sua vigorosa defesa da integridade da Fé depois da crise causada pelo Papa Honório I, deve ser rezada assiduamente por cada papa e por todos os fiéis, especialmente em nosso tempo:

“Impedi, ó São Leão, o retorno de situações a tal ponto dolorosas. Mantende o pastor acima da região das névoas malignas que se erguem da terra;  mantende no rebanho aquela oração que deve continuamente subir da Igreja a Deus em favor dele (Atos 12: 5): e Pedro, mesmo se ele estiver sepultado nas mais escuras prisões, não deixará de contemplar o puro esplendor do Sol da justiça; e todo o corpo da santa Igreja estará na luz. O corpo, de fato — diz Jesus – é iluminado pelo olho: se o olho é simples, todo o corpo resplandece (Mt 6,22). Instruídos por vós sobre o valor do benefício que o Senhor concedeu ao mundo quando o estabeleceu sobre o ensinamento infalível dos sucessores de Pedro, agora conhecemos a força da rocha que sustenta a Igreja; sabemos que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (ibid. 16, 18). De fato, o esforço desses poderes do abismo nunca foi tão longe como na crise fatal [do Papa Honório] a qual Vós colocastes o termo. ora, seu sucesso, por mais doloroso que tenha sido, não desmentiu as promessas divinas: não é ao silêncio de Pedro, mas ao seu ensino que foi prometida a assistência indefectível do Espírito da verdade ”(Année liturgique, Paris 1911, vol. 3, pp. 403-404).

O caso extremamente raro de um papa herético ou semi-herético deve, eventualmente, ser suportado e sofrido à luz da fé no caráter divino e na indestrutibilidade da Igreja e do ministério petrino. O Papa São Leão Magno formulou essa verdade, dizendo que a dignidade de São Pedro não foi diminuída em seus sucessores, por mais indignos que sejam, “Cuius dignitas etiam in indigno haerede non deficit” ( Serm . 3, 4).

Poderia ocorrer a situação verdadeiramente extravagante de um papa que pratica abuso sexual de menores ou de subordinados no Vaticano. O que a Igreja deve fazer nessa eventualidade? Deveria a Igreja tolerar um predador sexual de menores ou subordinados? Por quanto tempo a Igreja deveria tolerar tal papa? Ele deveria perder o papado ipso facto por causa desses abusos? Nessa situação, poderia surgir uma nova teoria ou opinião canônica ou teológica que permitisse a deposição de um papa e a perda de seu cargo devido a crimes morais monstruosos (por exemplo, o abuso sexual de menores ou subordinados acima mencionado). Tal opinião seria análoga à opinião de que seria possível a deposição de um papa ou a perda de seu cargo devido à heresia. No entanto, essa nova teoria ou opinião (deposição de um papa e a perda de seu cargo devido a crimes sexuais monstruosos) certamente não corresponderia à mente e à prática perenes da Igreja.

A tolerância de um papa herético como uma cruz não significa passividade ou aprovação de sua conduta errônea. Tudo deve ser feito para remediar esta situação. Suportar a cruz de um papa herege, em nenhum caso significa ser passivo ou consentir com suas heresias. Assim como as pessoas têm que suportar, por exemplo, um regime iníquo ou ateu como uma cruz (muitos católicos viveram sob tal regime na União Soviética, suportando essa situação como uma cruz, num espírito de expiação), ou como os pais devem carregar a cruz de um filho adulto que se tornou um descrente ou imoral, ou como os membros de uma família devem carregar como uma cruz um pai alcoólico. Os pais não podem “depor” o filho descarriado de pertencer à família, assim como as crianças não podem “destituir’ o pai transviado de pertencer à família ou do seu título de “pai”.

Não depor um papa herege é mais seguro e está mais de acordo com uma visão sobrenatural da Igreja. Fazer isso, com todas as contramedidas práticas e concretas a serem tomadas, em nenhum caso significa passividade ou colaboração com os erros papais, mas um engajamento muito ativo e uma verdadeira compaixão com a Igreja, que, no tempo de um papa herege ou semi-herege, vive suas horas no Gólgota. Quanto mais um papa dissemina ambiguidades doutrinárias, erros ou mesmo heresias, mais intensamente brilhará na Igreja a fé católica pura dos pequeninos: a Fé de crianças inocentes; de freiras religiosas; em particular a fé das gemas ocultas da Igreja: as monjas de clausura; a fé dos fiéis leigos heroicos e virtuosos de todas as condições sociais; a fé de padres e bispos.  Esta chama pura da fé católica, muitas vezes alimentada por sacrifícios e atos de expiação, brilhará mais do que a covardia, a infidelidade, a rigidez espiritual e a cegueira de um papa herético.

A Igreja tem um caráter tão divino que pode existir e viver por um período limitado de tempo apesar de um papa reinante herege, precisamente por causa da verdade de que o papa não é sinônimo ou idêntico à Igreja. A Igreja tem um caráter tão divino que nem mesmo um papa herege é capaz de destruí-la, apesar de prejudicar muito sua vida; porém, sua ação tem duração limitada. A fé de toda a Igreja é maior e mais forte do que os erros de um papa herege e esta fé não pode ser derrotada. A constância de toda a Igreja é maior e mais duradoura do que o desastre relativamente breve de um papa herege. A verdadeira rocha sobre a qual reside a indestrutibilidade da Fé e a santidade da Igreja é o próprio Cristo, sendo o papa somente seu instrumento, assim como todo sacerdote ou bispo é apenas um instrumento de Cristo Sumo Sacerdote.

A saúde doutrinal e moral da Igreja não depende exclusivamente do Papa, pois, pela lei divina, esta é garantida, na situação extraordinária de um papa herético, pela fidelidade do ensinamento dos bispos e, em última análise, também pela fidelidade de todo o corpo dos fiéis leigos, como foi suficientemente demonstrado pelo beato John Henry Newman e pela história. A saúde doutrinal e moral da Igreja não depende em tal grau dos erros doutrinários de um papa, por um período relativamente curto de tempo, como para tornar a Santa Sé vacante. Assim como a Igreja pode ficar um tempo sem o Papa, como já aconteceu na história por um período de vários anos), assim também a Igreja é tão forte pela sua constituição divina que pode até aturar um papa herege por um curto prazo.

O ato de depor um pontífice ou declarar sua sé vacante devido à perda ipso facto do pontificado por causa de heresia seria uma novidade revolucionária na vida da Igreja a respeito de uma questão muito importante de sua constituição e vida. Em uma matéria tão delicada, mesmo quando ela é de natureza prática e não estritamente doutrinal, é preciso seguir a via mais segura (via tutior), que é aquela do senso perene da Igreja. Apesar de três Conselhos Ecumênicos sucessivos (o Terceiro Concílio de  Constantinopla em 681, o Segundo Concílio de Nicéia em 787 e o Quarto Concílio de Constantinopla em 870) e o Papa São Leão II em 682 terem excomungado o Papa Honório I  por heresia, eles nem sequer implicitamente declararam que Honório havia perdido o papado ipso facto por causa da heresia. De fato, o pontificado do Papa Honório foi considerado válido mesmo depois de ter apoiado a heresia em suas cartas ao Patriarca Sérgio, em 634, enquanto reinou por mais quatro anos até 638. O seguinte princípio, formulado pelo Papa Santo Estêvão I (257), ainda que em outro contexto, deveria ser uma diretriz para lidar com a questão muito delicada e rara de um papa herege: “Nihil innovetur, nisi quod traditum est”, “Não haja nenhuma inovação em relação ao que foi transmitido”.

+ Athanasius Schneider, bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana

25 março, 2019

Pastor com cheiro de ovelha.

Mas não venham com esses beijos clericalistas, hein?!

Papa Francisco hoje, no Santuário de Nossa Senhora do Loreto.

 

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14 março, 2019

Dom Athanasius Schneider obtém do Papa Francisco esclarecimento sobre “diversidade de religiões” e diz que o Encontro sobre Abusos Sexuais foi um completo “fracasso”.

Por Diana Montagna, LifeSiteNews, 7 de março de 2019 | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.comEm sua recente visita ad limina a Roma, os bispos do Cazaquistão e da Ásia Central levantaram uma série de preocupações que têm sido amplamente compartilhadas na Igreja ao longo dos últimos anos, e que dizem respeito às percebidas ambigüidades no magistério do Papa Francisco.

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Na reunião de 1º de março, o bispo Athanasius Schneider, auxiliar de Astana, Cazaquistão, também obteve do papa Francisco um esclarecimento sobre seu pronunciamento segundo o qual Deus não apenas permitiria, mas positivamente desejaria, uma “diversidade de religiões”.

Em entrevista exclusiva à LifeSite, Dom Schneider disse que as preocupações levantadas durante o encontro de duas horas com o Santo Padre incluíram “Comunhão para católicos divorciados e civilmente recasados”, a questão da comunhão para os cônjuges protestantes em casamentos mistos e a questão da propagação prática da homossexualidade na Igreja”.

Em um intercâmbio direto entre o papa Francisco e o bispo Schneider, a alegação de que a “diversidade das religiões” é “desejada por Deus” também foi discutida. A expressão, contida em uma declaração conjunta que o Papa Francisco assinou no mês passado com um Grande Imam em Abu Dhabi, incitou uma controvérsia considerável.

O Papa declarou explicitamente que o bispo Schneider poderia compartilhar o conteúdo de seu intercâmbio sobre este ponto. “Você pode dizer que a frase em questão sobre a diversidade das religiões significa a vontade permissiva de Deus”, disse ele aos bispos reunidos, que vêm de regiões predominantemente muçulmanas.

O Bispo auxiliar de Astana, por sua vez, pediu ao papa que esclarecesse oficialmente a declaração no documento de Abu Dhabi.

LifeSite sentou-se com o Bispo Schneider em Roma após a visita ad limina. Em uma ampla entrevista, discutimos seu encontro com o Papa Francisco, seus pontos de vista sobre a recente cúpula do abuso sexual no Vaticano, e antecipamos ataques ao celibato clerical no próximo Sínodo Amazônico.

Schneider classificou a cúpula sobre abuso sexual como um “show clerical” e um “fracasso” por não abordar as “raízes profundas” da crise, além de não emitir “normas muito precisas, convincentes e incisivas”. Ele expõe o que ele acredita serem as quatro causas da crise do abuso e propõe duas normas concretas que segundo ele, deveriam ter saído do Encontro.

Questionado sobre a negação do cardeal Blase Cupich sobre uma relação causal entre a homossexualidade e o abuso sexual clerical, Schneider perguntou desesperadamente: “Como posso falar com um homem que nega a realidade?”

Na entrevista, o bispo Schneider também elogia a carta aberta emitida pelo cardeal Raymond Burke e pelo cardeal Walter Brandmüller antes do encontro no Vaticano sobre a proteção de menores e sugere novas medidas que cardeais e bispos poderiam tomar para enfrentar a atual crise na Igreja.

Aqui abaixo está a nossa entrevista exclusiva com o Bispo Athanasius Schneider.

LifeSite: Excelência, o que você pode nos dizer sobre sua recente visita ad limina e encontro com o Papa Francisco?

Bispo Schneider: Foi para mim uma experiência muito espiritual – uma peregrinação aos túmulos de São Pedro e São Paulo, onde celebramos a Santa Missa. No túmulo de São Pedro cantamos para o Papa Francisco a antífona “Oremus pro pontifice nostro” seguida pelo Credo. Também oramos pelas intenções do papa para obter a indulgência plenária. Fizemos o mesmo na Basílica de São Paulo Fora dos Muros e na Basílica Mariana de Santa Maria Maior.

Em relação ao nosso encontro com o Papa, ele é o Vigário de Cristo na terra neste tempo, e ele foi muito fraterno e gentil conosco. Foi uma atmosfera muito gentil.

Nosso encontro com ele durou duas horas. Considero isto um ato de grande generosidade por parte do Papa, passar tanto tempo com o nosso grupo de 10 bispos e ordinários do Cazaquistão e da Ásia Central.

Durante a reunião, o Papa nos convidou a expressar livremente nossas preocupações e até nossas críticas. Ele enfatizou que gosta de uma conversa muito livre.

Alguns bispos puderam levantar preocupações sobre a vida da Igreja em nossos dias. Por exemplo, a questão da comunhão para católicos divorciados e civilmente “recasados”; a questão da comunhão para os cônjuges protestantes em casamentos mistos; e a questão da disseminação prática da homossexualidade na Igreja. Esses pontos foram discutidos.

Então pedi também ao Santo Padre que esclarecesse a declaração do documento de Abu Dhabi sobre a diversidade de religiões como sendo “desejadas” por Deus.

O Papa foi muito benevolente em sua resposta às nossas perguntas e procurou nos responder a partir de sua própria perspectiva sobre esses problemas. Ele respondeu de maneira mais generalizada sobre os princípios da fé católica, mas nas circunstâncias dadas não pudemos entrar em detalhes sobre as questões específicas. Mesmo assim, sou muito grato ao Santo Padre por ter nos dado a possibilidade, de em um ambiente muito sereno, levantar várias preocupações e falar com ele.

Você pode nos dizer mais sobre como o Papa Francisco respondeu à sua preocupação com a declaração de Abu Dhabi sobre a diversidade das religiões? Na passagem controversa se lê: “O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e linguagem são desejadas por Deus em Sua sabedoria, mediante a qual Ele criou os seres humanos”.

Sobre o assunto de minha preocupação com a frase usada no documento de Abu Dhabi – que Deus “deseja” a diversidade de religiões – a resposta do Papa foi bem clara: ele disse que a diversidade de religiões é apenas a vontade permissiva de Deus. Ele enfatizou isso e nos disse: você pode dizer isso também, que a diversidade das religiões é a vontade permissiva de Deus.

Eu tentei ir mais fundo na questão, pelo menos citando a frase como se lê no documento. A sentença diz que, assim como Deus deseja a diversidade de sexos, cor, raça e linguagem, assim Deus quer a diversidade das religiões. Existe uma comparação evidente entre a diversidade das religiões e a diversidade dos sexos.

Mencionei este ponto ao Santo Padre, e ele reconheceu que, com essa comparação direta, a sentença pode ser entendida erroneamente. Eu enfatizei em minha resposta a ele que a diversidade de sexos não é a vontade permissiva de Deus, mas é positivamente desejada por Deus. E o Santo Padre reconheceu isso e concordou comigo que a diversidade dos sexos não é uma questão da vontade permissiva de Deus.

Mas quando mencionamos essas duas frases na mesma frase, a diversidade de religiões é interpretada como positivamente desejada por Deus, assim como a diversidade dos sexos. A sentença, portanto, leva a dúvidas e interpretações errôneas, e portanto foi meu desejo e meu pedido para que o Santo Padre retificasse isso. Mas ele disse para nós bispos: você pode dizer que a frase em questão sobre a diversidade de religiões significa a vontade permissiva de Deus.

Para os leitores que podem não estar familiarizados com a distinção entre a vontade permissiva e positiva de Deus, você pode dar alguns exemplos de outras coisas que Deus permite através de sua vontade permissiva?

Sim, a vontade permissiva significa que Deus permite certas coisas. Deus permitiu o pecado de Adão e todas as suas conseqüências; e mesmo quando pecamos pessoalmente, em certo sentido, Deus permite isso ou tolera isso. Mas Deus não permite positivamente o nosso pecado. Ele permite isso em vista do sacrifício infinitamente meritório de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz, e porque ele não quer destruir a nossa liberdade. Esse é o significado da vontade permissiva de Deus.

ENCONTRO “A PROTEÇÃO DOS MENORES NA IGREJA”

Muitas pessoas, incluindo vítimas de abuso sexual que vieram a Roma para o Encontro do Vaticano de 25 a 27 de fevereiro sobre a proteção de menores na Igreja, ficaram desapontadas com o encontro pelo que consideraram sua falta de ação concreta. Excelência, o que você acha que seria a maneira mais eficaz de resolver o problema do abuso e acobertamento sexual na Igreja?

Quando há um problema enorme – que é o abuso de crianças, menores e subordinados adultos pelo clero certamente – sempre temos que ir na raiz mais profunda, como todo bom médico faz.

Não podemos resolver uma doença apenas fazendo um diagnóstico superficial. Um diagnóstico profundo e integral é necessário. E na minha opinião, isso não foi feito nesse Encontro, porque uma das raízes evidentes, observáveis ​​e mais profundas do abuso sexual de menores é a homossexualidade entre o clero. É claro que não direi que todos os homossexuais estão necessariamente abusando de crianças. Isso seria injusto e falso. Mas estamos falando sobre abuso clerical na Igreja, e por isso temos que nos concentrar nessa doença. Está provado que mais de 80% das vítimas eram do sexo masculino pós-púberes. Portanto, é evidente que a natureza da maioria deste abuso envolveu atos homossexuais. Temos que salientar que esta é uma das principais raízes.

A outra raiz principal da crise dos abusos é o relativismo no ensino moral, que começou após o Concílio Vaticano II. Desde então, temos vivido em uma profunda crise de relativismo doutrinal, não apenas na esfera dogmática, mas também moral – a lei moral de Deus. A moral não foi ensinada claramente nos seminários nos últimos 50 anos; muitas vezes não foi claramente ensinado nos seminários e faculdades teológicas que um pecado contra o sexto mandamento é um pecado grave. Subjetivamente, pode haver circunstâncias atenuantes, mas objetivamente é um pecado grave. Todo ato sexual fora de um matrimônio válido é contra a vontade de Deus. Ofende a Deus e é um pecado grave, um pecado mortal. Esse ensinamento foi muito relativizado. E esta é uma das outras raízes profundas. Temos que enfatizar isso. E, na minha opinião, isso não foi enfatizado no Encontro: o relativismo do ensino moral, especificamente sobre o sexto mandamento.

Outra causa profunda é a falta de uma formação verdadeira, séria e autêntica de seminaristas. Houve falta de ascetismo na vida e formação dos seminaristas. Foi provado por dois mil anos, e pela natureza humana, que sem ascetismo físico como jejum, oração e até mesmo outras formas de mortificações corporais, é impossível viver uma vida constante em virtude sem cair no pecado mortal. Devido à profunda ferida do pecado original e à concupiscência ainda em ação em todo ser humano, precisamos da mortificação corporal.

São Paulo diz: “Não faça provisão para a carne, para satisfazer seus desejos.” (Rm 13:14) Podemos parafrasear estas palavras, dizendo: não nutram sua carne em demasia ou a concupiscência dominará você. E isso é exatamente o que muitas vezes aconteceu nos seminários. Seminaristas e sacerdotes alimentavam a carne através de uma vida confortável, sem ascetismo, sem jejum e outras mortificações corporais e espirituais.

Mas para mim, a causa mais profunda da crise do abuso sexual clerical é a falta de um relacionamento profundo e pessoal com Jesus Cristo. Quando um seminarista ou um padre não tem um profundo relacionamento pessoal com Jesus Cristo, em constante fidelidade a uma vida de oração e realmente desfrutando de um amor pessoal por Jesus, ele é presa fácil para as tentações da carne e outros vícios.

Além disso, quando você tem um amor profundo e pessoal a Cristo, você não pode deliberadamente cometer um pecado horrendo. Ocasionalmente, por causa da fraqueza da natureza humana, um padre ou seminarista poderia cometer um pecado mortal contra a pureza. Mas no mesmo momento, ele fica profundamente arrependido e decide evitar o próximo pecado a qualquer custo. Esta é uma manifestação de um verdadeiro amor de Cristo. Mas para mim está completamente excluído que uma pessoa que ama profundamente a Cristo possa abusar sexualmente de menores. Isso para mim é impossível. Na minha opinião, um profundo amor de Cristo exclui isso.

Estas são as raízes principais: a homossexualidade entre o clero, o relativismo na doutrina, a falta de ascese e sobretudo a ausência de um amor profundo e verdadeiro por Cristo. E isso não foi enfatizado no Encontro. Portanto, considero o evento como um fracasso.

Você mencionou a estatística de que 80% das vítimas eram homens pós-púberes. Como você responde ao Cardeal Blase Cupich e outros que apontam para o relatório de John Jay e outros estudos como prova de que não há relação causal entre homossexualidade e abuso sexual clerical?

É uma negação da realidade. Como posso falar com um homem que nega a realidade? Isso só é explicável como uma posição ideológica.

Que medidas concretas você acredita que a cúpula deveria ter feito para oferecer soluções reais para o problema do abuso sexual clerical?

A cúpula deveria ter emitido normas canônicas concretas e não o fez. Portanto, acho que a cúpula foi um fracasso. Foi um belo show clerical, foi um show de clericalismo – todos os clérigos com seus títulos vieram de todas as partes do mundo. E muitas palavras bonitas – palavras muito emocionais – foram ditas. Mas essas raízes profundas não foram abordadas e normas concretas e incisivas não foram dadas.

A meu ver, normas muito precisas, convincentes e incisivas devem ser dadas.

A primeira norma canônica que proponho seria a seguinte: que as pessoas com inclinações homossexuais, categoricamente não devem ser aceitas nos seminários. E, se forem descobertos, é claro, com respeito e amor, devem ser dispensados ​​do seminário e ajudados a serem curados para viver como um bom leigo cristão.

Atualmente, as normas dizem apenas que aqueles com “tendências homossexuais profundamente arraigadas” não devem ser admitidos no seminário, mas para mim isso não é suficiente. O que significa “profundamente arraigadas”? Se um homem adulto chega ao seminário e sente atração homossexual, mesmo que ainda não seja uma atração profundamente arraigada, ainda assim é uma atração homossexual. E em si mesma já é uma condição que, em algumas circunstâncias – como na atmosfera exclusivamente masculina de um seminário – poderia evoluir para uma tendência mais profunda ou mais agressiva.

E quando ele se tornar padre, ele estará com seminaristas, com jovens coroinhas e assim por diante. E assim, embora talvez no seminário essas tendências não sejam profundas, elas podem se tornar mais profundas em certas circunstâncias.

Pra mim isso é no mínimo arriscado. Digamos que um jovem não é um homossexual agressivo. Ele não sente prazer algum em ter tendências homossexuais, e elas não são tão profundamente enraizadas. Mas quando ele reconhece que ele tem essas tendências, ou quando é provado por atos exteriores ou sinais de que ele tem tendências homossexuais, mesmo que elas não sejam profundamente arraigadas, ele deve ser caridosamente mandado embora do seminário. E isso deveria ser uma norma canônica: alguém que reconhece que tem tendências homossexuais, mesmo não profundamente arraigadas, não pode ser recebido em outro seminário e não pode ser ordenado.

As tendências homossexuais são uma espécie de traço de desordem de personalidade e uma percepção distorcida da realidade, já que isso significa desejar um objeto de prazer contra a ordem natural dos sexos. Documentos magisteriais chamam isso de desordem “objetiva”. Como você pode ordenar um homem com uma desordem em sua personalidade ou em sua composição psico-somática? Claro, existem outros distúrbios psicológicos também. Nós não ordenamos homens com certos distúrbios psicológicos, mesmo quando eles não são tão profundos. Isso prejudicaria o sacerdócio.

Você mencionou sinais exteriores. Na norma canônica que você propõe, que tipo de sinais exteriores você tem em mente?

Se ele tivesse uma amizade exclusiva e ostensiva com um homem, já seria um sinal exterior. Ou se ele olha pornografia masculina na internet, isso seria outro sinal. Estes são sinais exteriores e verificáveis. Uma vez que estes sinais sejam descobertos, tal seminarista deve ser excluído para sempre da ordenação. Sim, ele pode ser curado, mas o seminário não é um sanatório para curar pessoas com distúrbios psicológicos ou tendências homossexuais. Isso é ingênuo e prejudicará o sacerdócio e a pessoa. Seria melhor para essa pessoa ser um bom cristão no mundo e salvar sua alma, e não ser um sacerdote. Naturalmente que podemos e devemos ajudá-lo. Mas temos que estar dispostos a dizer-lhe: você não será ordenado, é para a salvação da sua alma. Seja um bom cristão no mundo.

É melhor ter menos padres, mas homens saudáveis ​​e psicologicamente saudáveis. E profundos amantes de Cristo, homens profundamente espirituais. Seria melhor para toda a Igreja. É melhor deixar algumas paróquias sem padre e algumas dioceses sem um bispo por vários anos do que ordenar um homem que tenha um transtorno, seja homossexual ou outros transtornos de personalidade.

Que outras normas concretas você acredita que o Encontro sobre abuso sexual no Vaticano deveria ter emitido?

Em um caso quando um padre ou um bispo comete abuso sexual, mesmo um único caso, ele deve ser dispensado do estado clerical. Deveria haver “tolerância zero” neste caso, e deveria ser estabelecido no Direito Canônico. Não deve haver exceção. É claro que o ato do abuso sexual deve ser provado e verificado por um verdadeiro processo canônico, mas quando é comprovado, ele deve ser demitido do estado clerical.

Essas duas normas (a não admissão categórica ao seminário, a não ordenação de homens com tendências homossexuais e a demissão do estado clerical), a meu ver, deveriam ter sido explicitamente mencionadas no Encontro, se é que era para se ter um impacto concreto. De outro modo, foi só um belo encontro, mais ou menos um espetáculo clerical com palavras e declarações sentimentais.

Um padre que abusou de menores deveria receber algum dinheiro da Igreja?

Acho que sim. Nós temos que ser misericordiosos e não devemos ser cruéis. Devemos sempre ser humanos e cristãos, e acho que a Igreja deveria, pelo menos temporariamente, dar a esses clérigos que são demitidos ajuda financeira – talvez nos primeiros dois anos.

Carta Aberta dos Cardeais Burke e Brandmüller

Antes da cúpula, o cardeal Raymond Burke e o cardeal Walter Brandmüller publicaram uma carta aberta convidando os bispos presentes ao Encontro a por um fim em seu silêncio sobre a corrupção moral na Igreja e a defender a lei divina e natural. Quanto você acha que a carta aberta foi ouvida e ouvida na reunião?

Eu acho que a carta dos dois cardeais foi meritória e muito oportuna, e a história a considerará como uma contribuição verdadeiramente positiva nesta crise muito delicada de abuso a nível universal na Igreja. Foi um belo testemunho e acredito que esta carta honrou o Colégio dos Cardeais. Mas acho que foi mais ouvida pelas pessoas simples do que pelos clérigos: novamente, clericalismo.

Alguns sugeriram que o Encontro do abuso sexual no Vaticano foi o maior exemplo de clericalismo.

Eles falharam em ouvir as vozes dos leigos. A voz dos leigos não foi ouvida suficientemente pelos clérigos. Isso não é clericalismo?

O que você acha que explica a recusa óbvia e repetida em abordar a questão da homossexualidade no Encontro? Alguns argumentaram que poderia ser devido a um desejo de proteger as redes homossexuais dentro da hierarquia. Outros sugeriram que os bispos têm medo de dizer algo negativo sobre a homossexualidade por medo de repercussões do Estado.

Eu acho que o primeiro argumento não tem peso considerável no contexto do Encontro. Existem grupos homossexuais, mas neste Encontro não foi decisivo, na minha opinião.

O segundo argumento que você mencionou tem algum peso, mas não foi decisivo. O medo da parte dos bispos de confrontar o mundo é um fator; o medo do mundo. Mesmo que eles possam ser pessoalmente contra a homossexualidade, eles temem um confronto com o mundo. Covardia clerical: novamente, clericalismo.

Mas a razão mais profunda, na minha opinião, é que há poderosos grupos entre bispos e cardeais que querem promover e mudar na Igreja a lei moral divina sobre o mal intrínseco dos atos homossexuais e do estilo de vida homossexual. Eles querem tornar a homossexualidade aceitável como uma variante legítima da vida sexual. Na minha opinião, esta é a razão mais profunda e talvez decisiva porque eles ficaram em silêncio e falharam em endereçar o problema. 

 

Sínodo Amazônico

Em outubro, um Sínodo sobre a Amazônia será realizado no Vaticano. Sua Excelência morou no Brasil por um tempo e está familiarizado com a região. Tem sido dito que há falta de padres na Amazônia, o que segundo alguns dizem, justificaria a introdução do viri probati. É verdade que existe uma crise sacramental e falta de padres?

Bem, há uma falta de padres na Amazônia, mas também há escassez em outros lugares. Há uma crescente escassez de padres na Europa. Mas a falta de padres é apenas um pretexto óbvio para abolir praticamente (não teoricamente) o celibato na Igreja latina. Este tem sido o objetivo desde Lutero. Entre os inimigos da Igreja e seitas, o primeiro passo é sempre abolir o celibato. O celibato sacerdotal é a última fortaleza a ser abolida na Igreja. A vida sacramental é apenas o pretexto para assim proceder. 

Em minha própria experiência na União Soviética, passamos vários anos sem a Santa Missa e sobrevivemos fortes na fé. A fé foi vivida na Igreja doméstica que é a família. A fé foi transmitida através do Catecismo. Nós orávamos. Fazíamos comunhões espirituais através das quais recebemos muitas graças. Quando de repente um padre veio depois de um ou dois anos, foi realmente uma festa, e nós ficamos tão felizes, conseguimos nos confessar sacramentalmente e Deus nos guiou. Então eu tive uma experiência pessoal disso em minha vida, na União Soviética.

Em relação ao Brasil: também morei e trabalhei no Brasil por 7 anos. E eu conheço os brasileiros. Eles são pessoas muito piedosas, pessoas simples. Eles nunca pensariam em clérigos casados. Não, esta é uma idéia posta em suas cabeças, não por povos indígenas, mas por pessoas brancas, por padres que não estão vivendo uma profunda vida apostólica e sacrificial. Sem a verdadeira vida sacrificial de um apóstolo, você não pode edificar a Igreja. Jesus Cristo nos deu o exemplo da oferta sacrificial de si mesmo, como fizeram os Apóstolos, os Padres da Igreja, os Santos, os Missionários. Isso construiu a Igreja com frutos espirituais duradouros para gerações inteiras.

A escassez de sacerdotes na Amazônia é para mim um exemplo do contrário: talvez os sacerdotes não tenham uma vida profundamente comprometida e sacrificial no espírito de Jesus e dos apóstolos e dos santos. Eles, portanto, procuram substitutos humanos. O clero indígena casado não levará a um aprofundamento e crescimento na Igreja Amazônica. Outros problemas certamente surgirão com o advento do clero casado na cultura indígena da Amazônia e em outras partes do mundo de Rito Latino.

O mais necessário é aprofundar as raízes da fé e fortalecer a igreja doméstica na Amazônia. Precisamos começar uma cruzada na Amazônia entre essas famílias indígenas, entre os cristãos católicos, pelas vocações – implorando a Deus pelas vocações para o sacerdócio celibatário, e elas virão.

Nosso Senhor disse para “orar”, então essa falta é um sinal de que não estamos orando o suficiente. E as pessoas estão sendo tentadas a rezar ainda menos por causa dos homens que estão enchendo suas cabeças com a promessa de que em outubro eles contemplarão a possibilidade de ter padres casados. Por isso, eles não mais rezarão para que seus filhos sejam sacerdotes como Jesus, que era celibatário. E Jesus é o modelo para todas as culturas.

Até um bom sacerdote celibatário indígena, um homem espiritual, poderia transformar tribos, como os santos o fizeram. São João Maria Vianney transformou quase toda a França. Padre Pio é outro exemplo. Eu não estou dizendo que devemos esperar este padrão de santidade, mas estou apresentando-os como exemplos da fecundidade sobrenatural que pode vir através de um sacerdote santo. Mesmo um homem espiritual simples e profundo que é dedicado a Jesus e às almas com seu celibato, um sacerdote indígena da Amazônia, certamente muito edificará a Igreja ali e despertará novas vocações pelo seu exemplo.

Este tem sido o método da Igreja desde o tempo dos apóstolos. E esse método foi testado e comprovado em 2000 anos de experiência missionária da Igreja. E isso será verdade até que Cristo venha. Não há outro caminho. Adaptar-se a abordagens puramente humanistas e naturalistas não enriquecerá a Igreja da Amazônia. Temos 2000 anos de história para provar isso.

Eu repito: o povo brasileiro está profundamente consciente da sacralidade do sacerdócio.Eis o que o Sínodo Amazônico deveria fazer: aprofundar a consciência da santidade do sacerdócio celibatário. A Igreja tem belos exemplos de missionários. Deve aprofundar e fortalecer a Igreja doméstica, ou seja, a vida familiar. E o sínodo deve iniciar com campanhas de adoração eucarística e de oração pelos sacerdotes e pelas novas vocações sacerdotais. Sem o sacrifício do amor, sem oração, não edificaremos uma Igreja local. Com o clero casado, não.

Não estou falando contra o clero casado nas Igrejas Ortodoxas ou nas Igrejas Católicas Orientais. Estou falando da tradição latina na América e na Europa. Nós temos que manter este tesouro sem enfraquecê-lo através da introdução de um clero casado, porque isso já foi provado por tantos frutos quando olhamos para ele de um ponto de vista abrangente.

Cardeais e a crise atual

Você acredita que é importante que os Cardeais falem sobre a crise na Igreja e, em caso afirmativo, de que forma você acredita que isso deve ser feito?

Sim, é muito oportuno e muito necessário porque a confusão só aumenta.

Penso que os cardeais deveriam abordar a questão do documento de Abu Dhabi e a frase sobre a diversidade das religiões, porque essa declaração leva, em última análise, a uma negação da verdade do caráter único e obrigatório da Fé em Cristo, que é ordenada pela Divina Revelação. Na minha opinião, a declaração de Abu Dhabi é a mais perigosa do ponto de vista doutrinário. Os cardeais devem pedir respeitosamente ao Santo Padre que corrija esta frase oficialmente.

Creio que seria também muito oportuno e necessário que os cardeais ou bispos emitissem uma espécie de profissão de fé, de verdades, ao mesmo tempo em que rejeitam os erros mais generalizados do nosso tempo. Na minha opinião, eles deveriam fazer uma profissão de verdades muito específica e enumerada, dizendo, por exemplo: “Eu mantenho firmemente isso…” seguido da refutação de um erro. Creio que tal profissão deve incluir todos os principais erros perigosos que estão se espalhando pela vida da Igreja em nossos dias.

Uma profissão reafirmando a fé, mas também refutando o erro?

Sim, na mesma sentença. Tal texto deve ser publicado e amplamente divulgado aos sacerdotes e bispos, talvez pedindo-lhes para fazer uma profissão pública com este texto nas paróquias e catedrais. Não haveria novidades. Afirmaria apenas o que a Igreja sempre professou.