Posts tagged ‘O Papa’

30 outubro, 2018

É golpe!

IMG-20181030-WA0020Donald Trump telefonou, congratulando-o; Evo Moralez e até Nicolas Maduro cumprimentaram o presidente eleito Jair Bolsonaro. Mas, até agora [terça-feira, 30 de outubro de 2018, às 14:31], o Vaticano e a CNBB não divulgaram nenhuma, nenhuma mísera nota ao novo Chefe de Estado do maior país católico do mundo. Antes de ser um grave lapso diplomático, é uma enorme falta de dignidade, de educação, de bons modos, frutos do ranço ideológico que caracteriza a política eclesiástica nos dias de hoje. De fato, sentiram o golpe!

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23 outubro, 2018

Viganò responde ao Cardeal Ouellet. O terceiro testemunho.

Mons. Carlo Viganò responde às objeções de seu antigo companheiro de cúria romana, o Cardeal Marc Ouellet.

Fonte: Marco Tosatti | Tradução: FratresInUnum.com

19 de outubro de 2018

Na memória dos mártires da América do Norte

Testemunhar a corrupção na hierarquia da Igreja Católica tem sido para mim uma decisão dolorosa e ainda o é. Mas eu sou um homem já velho, que sabe que em breve terá que prestar contas ao justo Juiz por suas ações e omissões, que teme Aquele que tem o poder de jogar corpo e alma no inferno.

Dom Carlo Maria Viganò.

Dom Carlo Maria Viganò.

Juiz, que apesar de sua infinita misericórdia, “dará a cada um segundo os méritos, a recompensa ou o castigo eterno” (Ato de fé). Antecipando a terrível pergunta daquele Juiz: “Como você pôde, você que estava ciente da verdade, permanecer em silêncio no meio de tanta falsidade e depravação?” Que resposta eu poderia dar?

Eu falei tendo plena consciência de que o meu testemunho iria provocar alarme e consternação em muitas pessoas eminentes: eclesiásticos, irmãos no Episcopado, colegas com quem trabalhei e rezei. Eu sabia que muitos deles se sentiriam magoados e traídos. Eu sabia que alguns deles iriam me acusar e questionar minhas intenções. E, o mais doloroso de tudo, eu sabia que muitos fiéis inocentes ficariam confusos e perplexos com o espetáculo de um bispo que acusa seus irmãos e superiores de malfeitos, pecados sexuais e grave negligência no seu dever. No entanto, acredito que meu contínuo silêncio teria posto em perigo muitas almas e certamente teria condenado a minha própria. Apesar de ter reportado várias vezes aos meus superiores, e até mesmo ao Papa, sobre as ações aberrantes de McCarrick, eu poderia ter denunciado antes e publicamente as verdades das quais eu estava ciente. Se existe alguma responsabilidade da minha parte por esse atraso, eu me arrependo, pois foi devido à gravidade da decisão que eu estava prestes a tomar e ao longo conflito da minha consciência.

Eu fui acusado de ter criado com o meu testemunho confusão e divisão na Igreja. Esta afirmação só pode ter algum fundo de verdade para aqueles que acreditam que tal confusão e divisão eram irrelevantes antes de Agosto de 2018. Qualquer observador desapaixonado, no entanto, já teria sido capaz de ver bem a presença prolongada e significativa de ambos, algo inevitável quando o Sucessor de Pedro se recusa a exercer sua principal missão, que é confirmar seus irmãos na fé e na sólida doutrina moral. Quando, pois, com mensagens contraditórias ou declarações ambíguas, a crise é agravada, a confusão só piora.

Então, eu falei. Porque é a conspiração do silêncio que causou e continua a causar enormes danos à Igreja, a tantas almas inocentes, a jovens vocações sacerdotais ou aos fiéis em geral. No mérito dessa minha decisão é que tomei consciência diante de Deus, e aceito com toda boa vontade qualquer correção fraterna, conselho, recomendações e convite a progredir na minha vida de fé e de amor a Cristo, à Igreja e ao papa.

Permitam-me lembrá-los novamente dos principais pontos do meu testemunho.

  • Em novembro de 2000, o núncio nos Estados Unidos, o Arcebispo Montalvo informou à Santa Sé sobre o comportamento homossexual do Cardeal McCarrick com seminaristas e sacerdotes.
  • Em dezembro de 2006, o novo núncio, o Arcebispo Pietro Sambi, informou à Santa Sé sobre o comportamento homossexual do cardeal McCarrick juntamente com outro padre.
  • Em dezembro de 2006, escrevi um memorando ao secretário de Estado, Cardeal Bertone, que o entregou pessoalmente ao substituto para os Assuntos Gerais, Arcebispo Leonardo Sandri, pedindo ao papa para tomar medidas disciplinares extraordinárias contra McCarrick visando prevenir crimes e escândalos futuros. Este memorando não recebeu nenhuma resposta.
  • Em abril de 2008, uma carta aberta ao Papa Bento XVI por parte de Richard Sipe foi transmitida ao Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Levada e ao secretário de Estado, o cardeal Bertone, e que continha acusações adicionais sobre o hábito de McCarrick levar para a cama seminaristas e sacerdotes. Foi-me entregue, um mês depois, em maio de 2008, um segundo memorando que eu mesmo apresentei ao então Substituto para os Assuntos Gerais, Arcebispo Fernando Filoni, referindo-se às alegações contra McCarrick e pedindo sanções contra ele. Também esse meu segundo memorando não obteve uma resposta.
  • Em 2009 ou 2010, eu ouvi do cardeal Re, prefeito da Congregação para os Bispos, que o Papa Bento XVI tinha ordenado a McCarrick que cessasse seu ministério público e começasse uma vida de oração e penitência. O núncio Sambi comunicou as ordens do papa a McCarrick, levantando a voz de tal maneira que chegou a ser ouvido nos corredores da nunciatura.
  • Em novembro de 2011, o cardeal Ouellet, o novo prefeito da Congregação para os Bispos, reconfirmou para mim, o novo núncio nos Estados Unidos, as restrições ordenadas pelo papa para McCarrick, e eu mesmo comuniquei cara a cara a McCarrick.
  • No dia 21 de Junho de 2013, no final de uma reunião oficial dos núncios no Vaticano, o Papa Francisco me dirigiu palavras de reprovação e de difícil interpretação sobre o episcopado Americano.
  • No dia 23 de junho de 2013, encontrei-me pessoalmente com o Papa Francisco em uma audiência privada em seu apartamento para maiores esclarecimentos, e o papa me perguntou: “O Cardeal McCarrick, como é ele?”. Palavras que só podem ser interpretadas como uma falsa curiosidade para saber se eu era ou não aliado de McCarrick. Então, disse-lhe que McCarrick havia corrompido sexualmente gerações de sacerdotes e seminaristas, e que o Papa Bento lhe havia ordenado a dedicar-se a uma vida de oração e penitência.
  • Em vez disso, McCarrick continuou a desfrutar de uma consideração especial por parte do papa Francisco, que de fato lhe confiou novas responsabilidades e missões importantes.
  • McCarrick era parte de uma rede de bispos favoráveis à homossexualidade e que, gozando do favor do papa Francisco, promoveu nomeações episcopais para se proteger da justiça e fortalecer a homossexualidade na hierarquia e na Igreja em geral.
  • O próprio Papa Francisco parece ser conivente com a propagação desta corrupção ou ciente daquilo que faz. Ele é gravemente responsável porque não se opõe a essa corrupção e nem procura erradicá-la.

Eu invoquei Deus como testemunha da veracidade dessas minhas afirmações, e nenhuma delas foi desmentida. O Cardeal Ouellet escreveu-me, censurando-me pela minha ousadia em ter quebrado o silêncio e moveu acusações graves contra os meus irmãos no episcopado e superiores, mas, na verdade, sua repreensão me confirma na minha decisão e, de fato, confirma minhas declarações, uma por uma e em sua totalidade.

  • O cardeal Ouellet admite ter me falado sobre a situação de McCarrick antes de eu partir para Washington para começar minha missão como núncio.
  • O Cardeal Ouellet admite ter me comunicado por escrito sobre as condições e restrições impostas a McCarrick pelo Papa Bento XVI.
  • O cardeal Ouellet admite que essas restrições proibiam McCarrick de viajar e aparecer em público.
  • O Card. Ouellet admite que a Congregação para os Bispos, por escrito, em primeiro lugar através do Núncio Sambi, e depois novamente por mim, ordenou McCarrick a levar uma vida de oração e penitência.

Então o que o cardeal Ouellet está contestando?

  • O Card. Ouellet contesta a possibilidade de que o Papa Francisco teria sido capaz de se lembrar de informações importantes sobre McCarrick, num dia em que ele havia se encontrado com dezenas de núncios e dedicado a cada um apenas alguns momentos de conversa. Mas não foi isso que eu testemunhei. Eu testemunhei que, num segundo encontro privado, eu informei pessoalmente ao Papa, respondendo a uma pergunta dele sobre Theodore McCarrick, o então cardeal arcebispo emérito de Washington, figura proeminente na Igreja dos Estados Unidos, dizendo ao papa que McCarrick havia corrompido sexualmente seus próprios seminaristas e sacerdotes. Nenhum papa pode se esquecer disso.
  • O Card. Ouellet nega a existência em seus arquivos de cartas assinadas pelo Papa Bento XVI ou do Papa Francisco sobre as sanções contra McCarrick. Mas não foi isso que eu testemunhei. Eu testemunhei que havia nos seus arquivos documentos-chave — independente da proveniência — que incriminam McCarrick e sobre as medidas tomadas contra ele e outras evidências do encobrimento de sua situação. E eu confirmo tudo isso novamente.
  • O Card. Ouellet contesta a existência nos arquivos do seu predecessor, o Cardeal Re, dos “memorandos de audiências” que impunham a McCarrick as restrições citadas. Mas não foi isso que eu testemunhei. Eu testemunhei que existem outros documentos, por exemplo, uma nota do Cardeal Re, não “ex-audientia SS.mi”, ou seja assinada pelo Secretário de Estado ou pelo Substituto.
  • O Card. Ouellet contesta que é falso apresentar as medidas tomadas contra McCarrick como “sanções” decretadas pelo Papa Bento XVI e anuladas pelo Papa Francisco. Verdade. Elas não eram tecnicamente “sanções”, mas eram procedimentos, “condições e restrições.” Desqualificar se eram sanções ou procedimentos não passa do mais puro legalismo. Do ponto de vista pastoral, é exatamente a mesma coisa.

Em suma, o cardeal Ouellet admite as afirmações importantes que eu fiz e faço, e contesta as afirmações que eu não faço, e nunca fiz.

Há um ponto que devo absolutamente desmentir naquilo que o cardeal Ouellet escreve. O cardeal afirma que a Santa Sé tinha conhecimento apenas de simples “boatos”, que não eram suficientes para se tomar medidas disciplinares contra McCarrick. Pois eu afirmo que a Santa Sé tinha conhecimento de uma multidão de fatos concretos e em posse de documentos comprobatórios, e que apesar de tudo, as pessoas responsáveis preferiram não agir ou foram impedidas de fazê-lo. As indenizações das vítimas de abuso sexual de McCarrick na Arquidiocese de Newark e na Diocese de Metuchen, as cartas do Padre Ramsey, dos núncios Montalvo no ano 2000 e Sambi em 2006, as cartas do Dr. Sipe em 2008, os meus dois memorandos à Secretaria de Estado, descrevendo em detalhes as acusações específicas contra McCarrick, são apenas boatos de sacristia? São correspondência oficial e não fofoca da sacristia. Os delitos denunciados eram gravíssimos, havia até mesmo a denúncia das absolvições dos cúmplices em atos torpes, com sucessiva celebração sacrílega da Missa. Estes documentos especificam a identidade dos autores, de seus protetores e a seqüência cronológica dos acontecimentos. Eles estão guardados nos arquivos apropriados; e não é necessário nenhuma investigação extraordinária para recuperá-los.

Nas acusações feitas contra mim publicamente, notei duas omissões, dois silêncios dramáticos. O primeiro silêncio é sobre as vítimas. A segunda é a causa básica de tantas vítimas, a saber, o papel da homossexualidade na corrupção do sacerdócio e da hierarquia. No tocante ao primeiro silêncio, é chocante que, em meio a tantos escândalos e indignação, haja tão pouca consideração por aqueles que foram vítimas de predadores sexuais por parte de quem foi ordenado como ministro do Evangelho. Não se trata de acertar contas ou questões de carreiras eclesiásticas. Não é uma questão de política. Não é uma questão de como os historiadores da igreja possam avaliar este ou aquele papado. Trata-se de almas! Muitas almas foram colocadas em perigo e ainda estão em perigo por sua salvação eterna.

Em relação ao segundo silêncio, essa grave crise não pode ser adequadamente afrontada e resolvida, enquanto não chamarmos as coisas por seu devido nome. Esta é uma crise devido à praga da homossexualidade naqueles que a praticam, em seus movimentos e em sua resistência a serem corrigidos. Não é exagero dizer que a homossexualidade se tornou uma praga no clero e que só pode ser erradicada com armas espirituais. É uma enorme hipocrisia fingir reprovar o abuso, dizer chorar pelas vítimas e recusar a denunciar a principal causa de tantos abusos sexuais: a homossexualidade. É uma hipocrisia recusar admitir que esse flagelo se deve a uma grave crise na vida espiritual do clero e não recorrer aos meios para remediá-lo.

Existe sem dúvidas no clero, violações sexuais também com mulheres, e estas também causam sérios danos às almas daqueles que as praticam, à Igreja e às almas daqueles que são corrompidos. Mas essas infidelidades ao celibato sacerdotal são geralmente limitadas aos indivíduos imediatamente envolvidos; eles não tendem, por si mesmos, a promover, ou disseminar comportamentos semelhantes, para cobrir tais malfeitos. Ao passo que esmagadoras são as provas de como a homossexualidade é endêmica e se dissemina por contágio, com raízes profundas difíceis de se erradicar.

É certo que os predadores homossexuais desfrutam de seus privilégios clericais a seu favor. Mas reivindicar a crise em si como clericalismo é puro sofisma. É fingir que um meio, um instrumento, é na realidade sua causa principal.

A denúncia da corrupção homossexual e da vileza moral que as permite crescer não encontra consenso e nem solidariedade em nossos dias, infelizmente, nem nas mais altas esferas da Igreja. Não é de se surpreender que ao chamar a atenção para essas feridas, eu seja acusado de deslealdade ao Santo Padre e de fomentar uma rebelião aberta e escandalosa, mas a rebelião implicaria em incitar os outros a derrubar o papado. E eu não estou exortando a nada desse tipo. Eu rezo todos os dias pelo Papa Francisco mais do que já fiz pelos outros papas. Peço, na verdade, imploro que o Santo Padre enfrente os compromissos que assumiu. Ao aceitar ser o sucessor de Pedro, ele assumiu a missão de confirmar seus irmãos e a responsabilidade de guiar todas as almas no seguimento de Cristo, no combate espiritual, pelo caminho da cruz. Que ele admita seus erros, arrependa-se, e demonstre querer seguir o mandado dado a Pedro e que, uma vez convertido, confirme seus irmãos (Lucas 22:32).

Concluindo, gostaria de repetir o meu apelo aos meus irmãos bispos e sacerdotes que sabem que as minhas afirmações são verdadeiras e que estão em condição de poder testemunhar, ou que têm acesso aos documentos que possam resolver esta situação para além de qualquer dúvida. Vocês também estão diante de uma escolha. Vocês podem escolher se retirar da batalha, continuar na conspiração do silêncio e desviar o olhar do avanço da corrupção. Vocês podem inventar desculpas, compromissos e justificativas que irão protelando até o dia do ajuste de contas. Vocês podem se consolar com a duplicidade e a ilusão de que será mais fácil dizer a verdade amanhã e depois novamente no dia seguinte.

Ou vocês podem escolher falar. Confie Naquele que nos disse: “a verdade vos libertará”. Não digo que será fácil decidir entre o silêncio e o falar. Exorto-vos a considerar em seu leito de morte qual a escolha diante do justo Juiz que você não se arrependerá de ter tomado.

+ Carlo Maria Viganò, 19 de outubro de 2018

Arcebispo Titular de Ulpiana –  Memória dos Mártires da América do Norte

Núncio Apostólico

21 outubro, 2018

Foto da semana.

 

Vaticano, 3 de outubro de 2018: Papa Francisco estreia nova férula em missa de abertura do Sínodo sobre os Jovens.

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17 outubro, 2018

Papa: ter cuidado com cristãos que se apresentam como “perfeitos” e rígidos.

Perfeita e rígida condenação do Papa Francisco…

“A salvação é um dom do Senhor”, Ele nos dá “o espírito da liberdade”, disse o Papa na manhã desta terça-feira em sua homilia na Missa na Casa Santa Marta. Francisco recomenda para guardar-se dos hipócritas, cujo coração não está aberto à graça.

Adriana Masotti – Cidade do Vaticano, VaticanNews

“A salvação é um dom do Senhor”, Ele nos dá “o espírito da liberdade”, disse o Papa na missa celebrada na manhã desta terça-feira na Capela da Casa Santa Marta.

Francisco comenta a passagem do Evangelho de Lucas, que narra o episódio em que Jesus dá uma dura resposta ao fariseu que fica admirado com o fato de que Jesus põe-se à mesa sem ter lavado as mãos antes da refeição, como prescrito pela Lei.

O Papa enfatiza a diferença existente entre o amor do povo por Jesus – porque chega aos seus corações, e também um pouco por interesse – e o ódio dos doutores da Lei, Escribas, Saduceus, Fariseus que o seguiam para pegá-lo em alguma falta. Eram os “puros”:

“Eram realmente um exemplo de formalidade. Mas faltava vida a eles. Eram, por assim dizer –  “engomados”. Eram os rígidos. E Jesus conhecia a alma deles. Isto nos escandaliza, porque eles se escandalizavam das coisas que Jesus fazia quando perdoava os pecados, quando curava no sábado. Rasgavam as suas vestes: “Oh! Que escândalo! Isto não é de Deus, porque se deve fazer assim”. Eles não se importavam com as pessoas: importava a Lei, as prescrições, os preceitos”.

Mas Jesus aceita o convite do fariseu para o almoço, porque é livre, e vai ter com ele. Ao fariseu, escandalizado pelo seu comportamento, Jesus diz: “’Vós fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades”:

Não são palavras bonitas, hein! Jesus falava claro, não era hipócrita. Falava claro. E disse a ele: “Mas por que você olha para o exterior? Olha o que tem dentro”. Outra vez havia dito a eles: “Vocês são sepulcros caiados”. Belo elogio, hein! Belos por fora, todos perfeitos…todos perfeitos… Mas dentro cheios de podridões, ou seja, roubos e maldades, diz. Jesus faz a distinção entre a aparência e a realidade interior. Estes senhores são “os doutores das aparências”: sempre perfeitos, mas dentro, o que há?”.

Francisco recorda outras passagens do Evangelho em que Jesus condena estas pessoas, como a parábola do Bom Samaritano ou onde fala de seu modo de jejuar e dar esmolas com ostentação.

Porque – afirma o Papa – a eles o que importava era “a aparência”. “Jesus qualifica estas pessoas com uma palavra: ‘hipócrita!’”. Pessoas com uma alma gananciosa, capazes de matar. “E capazes de pagar para matar ou caluniar, como se faz hoje. Também hoje se faz assim: se paga para dar más notícias, notícias que sujam os outros”.

Em uma palavra – continua Francisco – eram pessoas “rígidas”, que não estavam dispostas a mudar. “Mas sempre, por trás de uma rigidez, existem problemas, problemas graves – observa. Por trás das aparências de bom cristão – aparências, hein!, que sempre procura aparecer, de maquiar a alma – existem problemas. Ali não está Jesus. Ali está o espírito do mundo”.

Jesus os chama de “insensatos”, aconselhando-os a abrirem sua alma ao amor para que a graça entre. Porque a salvação “é um dom gratuito de Deus. Ninguém salva a si mesmo, ninguém. Ninguém salva a si mesmo, nem com as práticas destas pessoas”:

Tenham cuidado com os rígidos. Tenham cuidado com os cristãos – sejam eles leigos, padres, bispos – que se apresentam como “perfeitos”, rígidos. Tenham cuidado. Não há o Espírito de Deus ali. Falta o espírito da liberdade. E tenhamos cuidado com nós mesmos, porque isso deve nos levar a pensar em nossa vida. Eu procuro olhar somente para as aparências? E não mudo o coração? Não abro o meu coração à oração, à liberdade da oração, à liberdade da esmola, à liberdade das obras de misericórdia?”.

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5 outubro, 2018

O Primado do Papa desfigurado pelo Sucessor de Pedro.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 26 de setembro de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comA impressionante rapidez com que os eventos se sucedem na Igreja leva a pensar que isto é devido não apenas a uma dinâmica de aceleração histórica, mas a uma escolha deliberada dos agentes do caos para aumentar a desorientação e paralisar as forças daqueles que tentam resistir à maré que avança.

São PedroEm 22 de setembro, a Santa Sé e a República Popular da China, em um comunicado conjunto, anunciaram a assinatura de um acordo “provisório” sobre a modalidade de nomeação dos bispos católicos chineses. No entanto, o texto do acordo não foi publicado e seu conteúdo é ignorado.

O bispo emérito de Hong Kong, cardeal Joseph Zen, enviou à agência AsiaNews a declaração seguinte:

“O comunicado há muito aguardado da Santa Sé é uma obra-prima da criatividade em não dizer nada com muitas palavras. Ele diz que o acordo é provisório, sem dizer a duração de sua validade; diz que fornece avaliações periódicas, sem dizer quando será o primeiro prazo. Afinal de contas, qualquer acordo pode ser considerado temporário, porque uma das duas partes pode sempre ter o direito de solicitar uma alteração ou inclusive a anulação do mesmo. Mas o importante é que, se ninguém pedir para mudar ou cancelar o acordo, este, embora temporário, é um acordo em vigor. A palavra ‘provisório’ não diz nada.

“‘O acordo trata da nomeação dos bispos’. Isto já foi dito muitas vezes pela Santa Sé, durante muito tempo. Então, qual é o resultado do longo esforço? Qual é a resposta para nossa longa espera? Não se diz nada! É secreto! Toda a declaração remonta a estas palavras: ‘Houve a assinatura de um acordo entre a Santa Sé e a República Popular da China sobre a nomeação dos Bispos’. Todo o resto são palavras sem sentido. Então, que mensagem a Santa Sé pretende enviar aos fiéis na China com esta declaração? ‘Confie em nós, aceite o que decidimos’ (?) E o que o governo dirá aos católicos na China? ‘Obedeça-nos, a Santa Sé já concorda conosco’ (?) Aceite e obedeça sem saber o que deve ser aceito, o que você deve obedecer?’.”

A substância do acordo deve ser esta: os candidatos ao episcopado são escolhidos pela igreja oficial chinesa, que é controlada pela Associação Patriótica, emanação direta do Partido Comunista. Os escritórios chineses proporão à Santa Sé um candidato aceitável pelo Partido Comunista.

Mas o que acontecerá se o Papa não concordar? O padre Bernardo Cervellera comenta sobre essa hipótese no AsiaNews de 24 de setembro. “Até agora se falava de um poder de veto temporário do pontífice: o Papa é quem tinha de dar as razões de sua recusa no prazo de três meses, mas se o governo julgasse as motivações papais inconsistentes, continuaria com a nomeação e ordenação de seu candidato. Não tendo o texto do acordo, não sabemos se esta cláusula foi mantida, se de fato o Papa terá a palavra final sobre as nomeações e ordenações, ou se, pelo contrário, se reconhece sua autoridade apenas formalmente.”

Se o veto fosse temporário e a última palavra pertencesse ao governo chinês, se cairia num grave erro condenado pela Igreja. Pio VII, por exemplo, rescindiu a Concordata de Fontainebleau, assinada com Napoleão em 25 de janeiro de 1813, porque ela previa que se dentro de seis meses não chegasse a ratificação pontifícia, o candidato do Império francês seria confirmado bispo de ofício.

Mas, ainda que no acordo com a China o veto fosse permanente, o papel do Papa se reduziria ao de um simples notário. Ele se limitaria a ratificar a nomeação e, se quiser evitar um confronto com as autoridades políticas com quem freneticamente procurou o acordo, o “veto” será a exceção, não a regra. De qualquer forma, estamos diante de uma repetição da Ostpolitik de Paulo VI, a qual tanto dano causou aos católicos nos países do Leste Europeu.

Infelizmente existe uma estreita coerência entre o funesto acordo com a China e a recém-promulgada Constituição Apostólica Episcopalis communio, sobre a estrutura do Sínodo dos Bispos, assinada pelo Papa Francisco em 15 de setembro e tornada pública três dias depois. Com este documento – explica Stefania Falasca no Avvenire de 18 de setembro –, “agora se torna normativamente estável a prática da sinodalidade como forma do caminho da Igreja e com ela o princípio que regula as fases deste processo: a escuta. Povo de Deus, Colégio Episcopal, Bispo de Roma: ouvindo os outros e todos ouvindo o Espírito Santo”.

Como se encerra esse processo de escuta carismática? Os artigos 17 e 18 da Constituição Apostólica o explicam. As conclusões da Assembleia sinodal são reunidas em um Documento Final, o qual, após ser aprovado por uma comissão especial, “é oferecido ao Romano Pontífice, que decide sobre a sua publicação. Se expressamente aprovado pelo Romano Pontífice, o documento final participa do Magistério ordinário do Sucessor de Pedro (artigo 18, § 2). Mesmo que o Romano Pontífice tenha outorgado poder deliberativo à Assembleia do Sínodo, de acordo com o can. 343 do Código de Direito Canônico, o Documento Final participa do Magistério ordinário do Sucessor de Pedro, uma vez ratificado e promulgado por ele. Neste caso, o Documento Final é publicado com a assinatura do Romano Pontífice juntamente com a dos Membros (Artigo 18, § 3)”.

Em cada caso, o documento sinodal “participa do Magistério ordinário do Sucessor de Pedro”. É confirmado o alcance magisterial de documentos como Amoris laetitia, ou as conclusões dos próximos sínodos sobre os jovens e a Amazônia. Mas qual é o papel de Pedro na elaboração dos documentos do Sínodo? Como no caso da nomeação dos bispos chineses, é o papel de um simples notário, cuja assinatura é necessária para dar validade ao ato, sem que ele seja o autor do seu conteúdo.

A Igreja está prestes a se tornar uma República, nem sequer presidencial, mas apenas parlamentar, em que o chefe de Estado tem um mero papel de garantia da vida política e de representante da unidade nacional, renunciando à missão de monarca absoluto e de legislador supremo do Romano Pontífice. Para realizar esse projeto “democrático”, o Sucessor de Pedro usa paradoxalmente poderes ditatoriais que nada têm a ver com a tradição de governo da Igreja.

Durante uma conferência de imprensa para apresentar o documento papal, o cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, afirmou “que a Constituição Apostólica Episcopalis communio do Papa Francisco marca uma verdadeira ‘refundação’ do organismo sinodal”, e que “em uma Igreja sinodal, até mesmo o exercício do primado petrino poderá receber mais luz. O Papa não está sozinho acima da Igreja, mas dentro dela como Batizado entre os Batizados, e dentro do Colégio dos Bispos como Bispo entre os Bispos, chamado ao mesmo tempo – como Sucessor do Apóstolo Pedro – a guiar a Igreja de Roma que preside no amor todas as igrejas” (Vaticano Insider, 18 de setembro de 2018).

Os teólogos fiéis ao ensino tradicional podem avaliar a gravidade dessas declarações que pretendem “refundar” e “reformar” o múnus petrino. Nunca como agora o Primado Romano foi tão negado e desfigurado, especialmente numa época em que uma onda de lama parece submergir a Esposa de Cristo.

Quem ama verdadeiramente o Papado teria o dever de denunciar esse desfiguramento nos telhados. Mas parece que a conspiração do silêncio não diz respeito apenas ao Papa Francisco. Mesmo os bispos e os cardeais que guiam a Igreja, confrontados com os escândalos e os erros que hoje a atingem, parecem repetir: “Não direi uma só palavra sobre isto”. (Traduzido por Hélio Dias Viana)

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2 outubro, 2018

A dialética de Francisco (III). O tiro no pé.

Por FratresInUnum.com, 2 de outubro de 2018 — Em nosso último editorial, salientávamos como Francisco incorporou na Igreja uma política da divisão, colocando em confronto dialético progressistas e conservadores, em intencional benefício dos primeiros. O medo, a suspeita, a vigilância são como que a música de fundo deste pontificado. Tal como nos tempos de Robespierre, o “terror de Bergoglio” assassina reputações e destrói ministérios, mas acoberta amigos criminosos e silencia vítimas inertes.

tiroA crise americana é apenas sintoma de um problema muito mais profundo que se estabeleceu na Igreja, uma certa psicopatologia eclesial, uma esquizofrenia eclesiológica: o mesmo papa que se imuniza contra os críticos mediante lacaios treinados para fiscalizar os eventuais opositores, que se esconde por trás da mídia, alvo principal do seu dito magistério, e que se eleva, deste modo, à encarnação de único dogma do catolicismo, é o papa que dissolve o poder papal numa falsa sinodalidade, isto é, na sinodalidade das máfias promovidas por seu séquito, detentoras de uma agenda corrosiva de qualquer coisa que se pareça minimamente com a fé católica.

Acontece, porém, que, contrariamente à política de “equilíbrio de forças e coalizão” dos pontificados anteriores, que produziu um culto à neutralidade e ao centrismo e fez até os mais progressistas adotarem, ao menos, a camuflagem como modus vivendi, o pontificado atual produziu, também pessoalmente contra si, verdadeiras oposições.

Quem já imaginou que um ex-núncio apostólico, como Mons. Viganó, treinado na academia diplomática da Santa Sé para falar sempre de modo ameno e por insinuações, viria à público denunciar contundentemente a leniência do papa com predadores sexuais por serem seus amigos e parceiros naquilo que ele chama de “reforma da Igreja”, obtendo como resposta o silêncio papal e um pedido desesperado de orações contra Satanás?… — Quem cogitou que alguns cardeais que, nos pontificados anteriores eram eclesiásticos medianos e inexpressivos, politicamente comedidos e eclesialmente corretos, ocupariam o protagonismo na resistência católica contra um pontificado comprometido em assumir a liderança mundial da esquerda e em pisotear impiedosamente tradições do cristianismo?

Francisco flagrou o que os papas anteriores tentaram maquiar: os progressistas saíram do armário e estão completamente descontrolados, crentes de que este pontificado é eterno e que eles podem fazer e dizer tudo que sempre fizeram e disseram na surdina, apenas para os seus círculos íntimos — aliás, muy íntimos.

O Cardeal Hummes, por exemplo, nos tempos de Santo André, ufanava-se por passeatas e protestos protagonizados por seu amigo pessoal, o ex-presidente e atual presidiário Lula, mas, nos últimos anos do pontificado de João Paulo II, assumiu ares conservadores, de tal modo que, nomeado arcebispo de São Paulo, foi elevado posteriormente por Bento XVI à Prefeito da Congregação para o Clero, exatamente por sua fama de linha dura na formação dos seminaristas. Obviamente, apenas quem não está habituado com a mentalidade dialética enganou-se com a fingida “conversão” conservadora do prestigiado purpurado. Antes de chegar em Roma, ele já tinha dado uma entrevista favorável à ordenação dos homens casados, opinião mantida cautelosamente em stand-by em seus tempos romanos, mas atualmente desfraldada com orgulho, a ponto de ser ele o líder dessa agenda no já concluído, apesar de nem começado, Sínodo da Amazônia. Aquilo que estava escondido, pôs-se à luz.

Mesmo o Cardeal Schönborn, que não é, digamos, suspeito de ortodoxia, acaba de publicar e, ato seguido, deletar um Tweet em que auspicia poder “ordenar mulheres como diaconisas”.

Atitudes como estas têm sido frequentíssimas, para não dizer cotidianas, por todos os lados na Igreja. Citamos apenas dois exemplares de uma plêiade tão numerosa de exemplos tais como dois grãos de areia na praia de Copacabana.

A autoconfiança progressista é a forca na qual eles mesmos serão enforcados. O efeito da dialética de Francisco é que ele mesmo está produzindo a superdose do antídoto que anulará tudo aquilo que ele está fazendo, haja vista a tendência hegemônica no clero mundial. O único benefício dos bajuladores de Bergoglio é o respaldo que recebem dele, mas, incapazes de reprodução, suas vozes caem incessantemente no vazio e eles, desprezados porque ridículos, fomentam apenas o odium plebis, cujas consequências serão devidamente colhidas por eles no tempo certo. Tudo é uma questão de espera…

Incapaz de superar a própria psicologia dialética por uma percepção integradora mais abrangente, o papa argentino tornou-se a vítima mais irredimível de si mesmo, condenado a produzir reversos de si indefinidamente. E isso não terá fim! Não se trata de uma falta de lealdade ou de uma disputa intestina. É um defeito intrínseco da eclesiologia dialética, que é, ao fim e ao cabo, uma eclesiologia do tiro no pé!

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28 setembro, 2018

Exclusivo – A segunda carta de Mons. Viganò: “Será que Cristo se tornou invisível para o seu vigário?”.

Apresentamos nossa tradução exclusiva para português da segunda carta de Mons. Carlo Viganò.

Scio Cui credidi

(2 Tm 1,12)

Antes de iniciar meu escrito, gostaria em primeiro lugar de dar graças e glória a Deus Pai por cada situação e provação que Ele tem preparado e preparará para mim durante minha vida. Como padre e bispo da santa Igreja, esposa de Cristo, sou chamado como toda pessoa batizada a dar testemunho da verdade. Pelo dom do Espírito que me sustenta com alegria no caminho que sou chamado a trilhar, pretendo fazer isso até o fim de meus dias. Nosso único Senhor dirigiu também a mim o convite, “Segue-me!”, e pretendo segui-lo com o auxílio da graça até o fim de meus dias.

“Enquanto viver, cantarei à glória do Senhor,

Salmodiarei ao meu Deus enquanto existir.

Possam minhas palavras lhe ser agradáveis!

Minha única alegria se encontra no Senhor.”

(Salmo 103,33-34)

*****

Faz um mês desde que ofereci meu testemunho, somente para o bem da Igreja, sobre o que ocorreu na audiência com o Papa Francisco em 23 de junho de 2013 e sobre certas questões que chegaram a meu conhecimento nas atribuições que me foram confiadas na Secretaria de Estado e em Washington, em relação àqueles que têm responsabilidade pelo encobrimento dos crimes cometidos pelo ex-arcebispo daquela capital.

Minha decisão de revelar aqueles graves fatos foi para mim a mais dolorosa e séria que já tomei em minha vida. Eu a tomei após longa reflexão e oração, durante meses de profundo sofrimento e angústia, durante o aparecimento contínuo de notícias sobre eventos terríveis, com vidas de milhares de vítimas inocentes destruídas e vocações e vidas de jovens padres e religiosos perturbadas. O silêncio dos pastores que poderiam ter providenciado um remédio e evitado novas vítimas tornou-se cada vez mais indefensável, um crime devastador para a Igreja. Completamente ciente das enormes conseqüências que meu testemunho poderia ter, porque o que eu estava para revelar envolvia o próprio sucessor de Pedro, mesmo assim resolvi falar para proteger a Igreja, e declaro com consciência limpa diante de Deus que meu testemunho é verdadeiro. Cristo morreu pela Igreja, e Pedro, Servus servorum Dei, é o primeiro a ser chamado a servir a esposa de Cristo.

Certamente, alguns fatos que eu estava para revelar estavam protegidos pelo segredo pontifício, que eu tinha prometido observar e que tinha observado fielmente desde o início de meu serviço à Santa Sé. Mas o propósito de qualquer segredo, incluindo o segredo pontifício, é proteger a Igreja contra seus inimigos, não encobrir crimes cometidos por alguns de seus membros, tornando-me, assim, cúmplice. Fui testemunha, não por escolha minha, de fatos chocantes e, como o Catecismo da Igreja Católica (nº 2491) afirma, o selo do segredo não é vinculante quando um mal muito grave só pode ser evitado com a divulgação da verdade. Apenas o selo da confissão justificaria meu silêncio.

Nem o papa nem qualquer dos cardeais em Roma negaram os fatos que afirmei em meu testemunho. “Qui tacet consentit” certamente se aplica aqui, porque se quisessem negar meu testemunho, bastaria que assim o fizessem e fornecessem a documentação para fundamentar a negação. Como é possível evitar que se conclua que a razão para não fornecerem a documentação é que eles sabem que esta confirma o testemunho?

O núcleo de meu testemunho foi que, desde pelo menos 23 de junho de 2013, o papa sabia por meu intermédio o quão perverso e mau era McCarrick em suas intenções e ações, e em vez de tomar as medidas que todo bom pastor teria tomado, o papa fez de McCarrick um de seus principais agentes no governo da Igreja, no que diz respeito aos Estados Unidos, à Cúria e mesmo à China, a qual acompanhamos nesses dias com grande preocupação e ansiedade por aquela Igreja mártir.

Ora, a resposta do papa ao meu testemunho foi: “Não direi uma só palavra!” Mas então, contradizendo a si mesmo, comparou seu silêncio ao de Jesus em Nazaré e diante de Pilatos, comparando-me ao grande acusador, Satanás, que semeia escândalo e divisão na Igreja — apesar de nunca pronunciar meu nome. Se ele tivesse dito: “Viganò mentiu,” teria desafiado minha credibilidade tentando afirmar a sua. Ao fazer isso, teria intensificado a demanda do povo de Deus e do mundo pela documentação necessária para determinar quem teria falado a verdade. Em vez disso, lançou uma sútil calúnia contra mim — sendo a calúnia uma ofensa que ele freqüentemente compara com a gravidade de um assassinato. De fato, assim o fez repetidamente, no contexto da celebração do Santíssimo Sacramento, a Eucaristia, onde ele não corre o risco de ser questionado por jornalistas. Quando falou com jornalistas, pediu que exercessem sua maturidade profissional e tirassem suas próprias conclusões. Mas como os jornalistas podem descobrir e conhecer a verdade se aqueles diretamente envolvidos com a questão recusam-se a responder quaisquer perguntas ou a fornecer quaisquer documentos? A falta de vontade do papa de responder a minhas acusações e sua surdez aos apelos dos fiéis que exigem uma prestação de contas são difíceis de conciliar com seus pedidos por transparência e construção de pontes.

Mais ainda, o acobertamento de McCarrick por parte do papa claramente não foi um erro isolado. Muitas outras instâncias foram documentadas recentemente na imprensa, mostrando que o Papa Francisco defendeu clérigos homossexuais que cometeram sérios abusos sexuais contra menores ou adultos. Isso inclui seu papel no caso do Pe. Julio Grassi em Buenos Aires, sua reintegração do Pe. Mauro Inzoli após o Papa Bento XVI o ter removido do ministério (até o momento em que o padre foi preso, quando então o Papa Francisco o laicizou), e sua paralisação da investigação das alegações de abuso sexual contra o Cardeal Cormac Murphy O’Connor.

Enquanto isso, uma delegação da USCCB, liderada por seu presidente, o Cardeal DiNardo, foi a Roma pedindo uma investigação sobre McCarrick. O Cardeal DiNardo e os outros prelados deveriam dizer à Igreja na América e no mundo: teria o papa se recusado a conduzir uma investigação no Vaticano sobre os crimes de McCarrick e daqueles responsáveis por encobri-los? Os fiéis merecem saber.

Gostaria de fazer um apelo especial ao Cardeal Ouellet porque, como núncio, sempre trabalhei em grande harmonia com ele e o tenho em alta estima e afeição. Ele lembrará quando, no fim de minha missão em Washington, recebeu-me em seu apartamento em Roma numa tarde para uma longa conversa. No começo do pontificado do Papa Francisco, o cardeal manteve sua dignidade, como mostrou com coragem quando era Arcebispo de Québec. Depois, entretanto, quando seu trabalho como prefeito da Congregação dos Bispos foi minado porque recomendações para indicações episcopais estavam sendo passadas diretamente para o Papa Francisco por dois “amigos” homossexuais de seu discatério, passando por cima do cardeal, ele desistiu. Seu longo artigo em L’Osservatore Romano, no qual se mostra favorável aos aspectos mais controversos de Amoris Laetitia, representa sua rendição. Eminência, antes de eu sair de Washington, foi o senhor que me contou sobre as sanções do Papa Bento XVI contra McCarrick. O senhor tem à sua completa disposição documentos chaves que incriminam McCarrick e muitos na cúria por seus encobrimentos. Eminência, eu insisto que o senhor seja testemnha da verdade.

*****

Finalmente, desejaria encorajá-los, queridos fiéis, meus irmãos e irmãs em Cristo: jamais desanimem! Tomem posse do ato de fé e de completa confiança em Cristo Jesus, nosso Salvador, feito por São Paulo em sua segunda Carta a Timóteo, Scio cui credidi (sei em quem tenho crido), que escolhi como meu lema episcopal. É um tempo de arrependimento, de conversão, de orações, de graça, para preparar a Igreja, a esposa do Cordeiro, para lutar e vencer com Maria a batalha contra o antigo dragão.

Scio Cui credidi” (2 Tim 1,12)

Em vós, Jesus, meu único Senhor, ponho toda a minha confiança.

“Diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum” (Rom 8,28).

Para comemorar minha ordenação episcopal em 26 de abril de 1992, a mim conferida por São João Paulo II, escolhi essa imagem retirada de um mosaico da Basílica de São Marcos em Veneza. Ela representa o milagre da tempestade acalmada. Fiquei impressionado pelo fato de que na barca de Pedro, jogada pelas águas, a figura de Jesus é representada duas vezes. Jesus dorme profundamente na proa, enquanto Pedro tenta acordá-lo: “Mestre, não te importas que morramos?” e os Apóstolos, aterrorizados, olham cada um para uma direção diferente e não se dão conta de que Jesus está de pé atrás deles, abençoando-os e comandando seguramente a barca: “Ele se levantou, repreendeu o vento e disse ao mar: ‘Aquiete-se! Acalme-se,’… Então perguntou aos seus discípulos: ‘Por que vocês estão com tanto medo? Ainda não têm fé?’” (Mc 4,38-40).

A cena é muito propícia para representar a tremenda tempestade pela qual a Igreja está passando neste momento, mas com uma diferença substancial: o sucessor de Pedro não apenas falha em ver que o Senhor está no pleno controle barca; parece que ele não tem sequer a intenção de acordar Jesus adormecido na proa.

Será que Cristo se tornou invisível para o seu vigário? Será que ele está sendo tentado a agir como substituto do nosso único Mestre e Senhor?

O Senhor tem o pleno controle da barca!

Possa Cristo, a Verdade, ser sempre a luz de nosso caminho!

+ Carlo Maria Viganò

Arcebispo Titular de Ulpiana

Núncio Apostólico

29 de setembro de 2018

Festa de São Miguel Arcanjo

27 setembro, 2018

A dialética de Francisco (II). A destruição da Igreja pela divisão.

Por FratresInUnum.com, 27 de setembro de 2018 — Apresentamos na semana passada um editorial sobre a “Dialética de Francisco”, mostrando o abismo que existe entre a mente de um homem comum e a de um revolucionário, na qual a contradição forma parte da estrutura mesma de sua psicologia. Nada de coerência, nada de ação linear… A unidade do processo, em si, determina o significado das ações pontuais que, via de regra, se contradizem, garantindo a vitória do movimento.

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Nossa abordagem estaria incompleta sem entendermos que, a esta psicologia nefasta, Hegel introduziu outro elemento que lhe é absolutamente essencial: aquilo que ele chamava de “trabalho do negativo”. Em poucas palavras, o processo, em sua dinâmica de autoafirmação subjetiva, destrói toda a objetividade. Obviamente, essa mesma estrutura lógica foi assumida e desenvolvida por Marx e, sobretudo, pelos filósofos da Escola de Frankfurt, que entendiam ser sua missão não apenas incutir a subjetiva psicologia dialética, mas também destruir toda a ordem objetiva.

Os frakfurtianos inventaram, para isso, duas táticas simples: primeiro, convencer a todos de que toda a sabedoria humana existente não passava de vigarice e trapaça, ou seja, de proceder a uma impiedosa desmoralização intelectual de toda a história do pensamento; para, depois, substituir tudo o que é bom por tudo que há de pior, na estética, na ética e em todos os âmbitos da cultura humana. No fundo, este último passo consistia também numa deformação sociológica: o homem honesto tem de ser considerado uma fraude, e os únicos realmente bons são os bandidos, os depravados etc.

Ora, compreendendo essas coisas fica muito fácil entender o modus procedendi do papa argentino. Não basta pensar de modo dialético e manipular as contradições sobredeterminando-as em vista de um fim, que é o advento do socialismo, do qual a Igreja está sendo feita escrava; é necessário desmontar a estrutura mesma da Igreja em todos os âmbitos, desmoralizando suas doutrinas como vigarices farisaicas e impondo de todos os lados a imoralidade como imperativo moral, anistiando o adultério, a fornicação, o homossexualismo e promovendo ao mais alto escalão da hierarquia eclesiástica os mais escandalosos dentre os efeminados e prevaricadores.

Agora, Francisco acaba de transferir ao Sínodo dos Bispos faculdades do poder papal, permitindo que, após ampla consulta popular, os representantes das conferências episcopais escrevam um documento que será submetido apenas à formal aprovação do Bispo de Roma, sendo considerado ipso facto magistério ordinário do Romano Pontífice. É a substituição da monarquia papal pelo sindicalismo eclesiástico, é a adulteração da Igreja como sempre a conhecemos feita propositalmente para a inserção de uma arquitetura que permitirá simultaneamente eximir o papa de sua responsabilidade, de um lado, deixando-o completamente amarrado, de outro, caso queira cumprir o seu encargo de defensor da fé a despeito de qualquer desvio entre a maioria do episcopado. Com este sistema em vigor, Santo Atanásio ou Santo Agostinho de nada teriam valido, e a Igreja seria hoje ariana ou pelagiana.

Com vistas à aprovação da ordenação sacerdotal dos homens casados na Amazônia (que será apenas o pontapé inicial para todo o resto do mundo), essa estrutura é adequada para preservar o Papa Francisco de críticas e, ao mesmo tempo, fazer avançar a sua agenda revolucionária, pois ele mesmo pode conferir às assembleias sinodais poder deliberativo (Cf. Constituição Episcopalis Communio, art. 18 § 2). A questão transcende, contudo, a ordenação dos viri bropati. É uma verdadeira mudança na arquitetura da Igreja, que permitirá a introdução de todas as mudanças revolucionárias controladas nas últimas décadas, a despeito do papa ou, caso ele as queira promover, sem lhe produzir algum deficit junto à opinião pública. Um golpe de mestre!

Obviamente, Papa Bergoglio é muito consciente do mal-estar que está produzindo por todos os lados. Mas este não é um efeito colateral indesejado, ao contrário, faz parte de todo o seu modo de atuar.

Os pontificados anteriores se notabilizaram por uma espécie de “governo de equilíbrio de forças e coalização”, harmonizando progressistas e conservadores através de uma constelação de centristas insípidos e apáticos. Isto é muito diferente do que fizeram os melhores e mais santos Papas, que não equilibravam forças, mas defendiam a verdade mesmo às custas de toda e qualquer intranquilidade.

Francisco radicaliza e encarna na Igreja o imperativo de Maquiavel, sistematizado por Marx et caterva: dividir para conquistar! Ele está acirrando a divisão na Igreja. Com efeito, segundo o jornal Der Spiegel, ele mesmo teria confessado a um círculo muito íntimo de amigos: “passarei para a história como o papa que dividiu a Igreja Católica”.

De fato, a dialética de Jorge Bergoglio não é apenas psicológica, é uma forma de governo e uma estratégia desconstrutivista. Ele é a versão eclesial do “trabalho do negativo” de Hegel e está muito imbuído dessa consciência.

Quem quiser permanecer fiel terá de ser muito, realmente muito, virtuoso. Caso contrário, sucumbirá ao caos. Como dizia Nosso Senhor: “de todos sereis odiados por causa do meu nome, mas não perecerá um único cabelo da vossa cabeça. É pela perseverança que salvareis as vossas almas” (Luc. XXI,17-19).

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26 setembro, 2018

Francisco brinca: “Eu sou o diabo”.

Por Gloria.tv, 25 de setembro de 2018 – Antes de iniciar a sua jornada apostólica para a Lituânia, em 22 de setembro, o Papa Francisco, cumprimentando jornalistas, foi apresentado a um livro sobre João Paulo II (+2005).

Francisco admitiu que a sua reputação está esmaecendo, em comparação à de João Paulo II, brincando: “João Paulo II era um santo, eu sou o diabo.”

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17 setembro, 2018

A dialética de Francisco: o caso americano e o ataque ao celibato.

Por FratresInUnum.com, 17 de setembro de 2018 — Um dos problemas dos analistas católicos é a sua incapacidade de assimilar o modo dialético de pensar, sempre subestimando-o como uma incoerência entre doutrina e prática, sem perceber que a contradição é como que a gramática do movimento revolucionário e que aproveitar as contradições sistematizando-as numa unidade de ação é a sua psicologia essencial.

francisco fidelPara um revolucionário, por exemplo, não existe a verdade factual, mas apenas a verdade do processo revolucionário como um todo, que ressignifica os fatos de acordo com a sua conveniência. Há apenas uma coerência para eles, a coerência do processo, não dos dados pontuais que o compõem.

As teologias revolucionárias, como a teologia da libertação ou a teologia do povo (da qual é signatário Jorge Mário Bergoglio), partem do mesmo paradigma: o “Reino de Deus”, vale dizer, a sociedade organizada segundo os moldes socialistas, é a direção para a qual caminha a história da humanidade (direção um tanto difusa, para não dizer confusa, cujos contornos concretos nunca ninguém absolutamente descreveu) e ao seu serviço está a Igreja, a qual deve moldar segundo a unidade deste processo a sua liturgia, os seus dogmas, a sua moral etc.

Ora, quando é conveniente com o processo assumir ares de moralidade sexual, o movimento revolucionário nunca hesitou em condenar, por exemplo, a prática da homossexualidade (W. Reich), quando, por outro lado, nunca deixou de fomentar a anarquia sexual generalizada. A mudança é de ênfase, mais do que de conduta, sempre obedecendo à coerência do “partido”.

Esta é exatamente a movimentação que observamos no cenário eclesiástico atual. Enquanto os católicos americanos dão a vida para denunciar a máfia gay cujos tentáculos chegaram ao Vaticano com escandalosos acobertamentos de abusos sexuais, psicológicos e de autoridade impetrados por bispos e cardeais, os revolucionários já sabem exatamente como usar isso em seu favor: atacando o celibato sacerdotal.

À beira do Sínodo da Amazônia, nunca um escândalo sexual de proporções internacionais poderia ser tão conveniente. O silêncio do papa argentino é apenas sinal da artimanha que está sendo orquestrada. Ele não se defende porque quer ser acusado para dar justamente a resposta que toda a mídia está esperando, a ordenação dos homens casados.

A ingenuidade dos analistas europeus e anglo-saxões está a anos-luz de saber lidar com a malandragem latino-americana de um revolucionário que está obstinadamente submetendo a Igreja às finalidades do movimento socialista. Inclusive, enquanto for útil para o processo continuar no pontificado, ele continuará e não cederá a nenhuma pressão, prosseguindo no aparelhamento esquerdista de toda a máquina eclesial. Quando for útil, ele renunciará, para sair do trono mais forte e tornar a sua revolução mais inexpugnável.

Existe uma saída humana para este nível de tirania? Não o sabemos. A estabilidade do papado é politicamente muito grande e, por isso, a desgraça de um revolucionário tão empoderado da psicologia socialista no sólio de Pedro está longe de ser entendida em sua totalidade por quem não compreenda a estrutura lógica do problema.

Contudo, sabemos que a Igreja é divina e que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Como se dará este desfecho? Só a Divina Providência o sabe. De nossa parte, cabe-nos apenas a fidelidade à doutrina católica, a oração e a resistência aberta e decidida. E deste dever ninguém poderá nos demover!

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