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16 janeiro, 2017

Cardeal Caffarra: “Somente um cego pode negar que haja uma grande confusão”.

Abaixo, FratresInUnum.com publica uma importantíssima entrevista do Cardeal Carlo Cafarra, arcebispo emérito de Bologna e atualmente uma das maiores autoridades em Teologia Moral, acerca dos dubia recentemente apresentados ao Papa Francisco. Pedimos aos nossos leitores que leiam atentamente e, para o bem da Igreja, divulguem essa entrevista. Diante das retaliações esboçadas contra o Cardeal Burke, Cafarra vem a público mostrar que o tema não é a conduta pessoal desse ou daquele cardeal, mas as contradições de Amoris Laetitia. De certo modo, ele devolve o tema ao debate, e num nível muito elevado. É realmente confortante podermos ler declarações tão lúcidas, nas quais se sente o seu amor à Igreja, a sua fidelidade à doutrina, a sua retidão de consciência e a serenidade de quem sabe estar cumprindo um dever. São palavras dignas de um bispo da Igreja!

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Entrevista com Cardeal Caffarra: “A divisão entre os pastores é a causa da carta que enviamos a Francisco. Não o seu efeito. Insultos e ameaças de sanções canônicas são coisas indignas”. “Uma Igreja com pouca atenção à doutrina não é mais pastoral, é apenas mais ignorante”.

Por Matteo Matzuzzi, Il Foglio, 14 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com

Bolonha. “Creio que devam ser esclarecidas diversas coisas. A carta, – e os dubia anexos –, foi longamente refletida, durante meses, e longamente discutida entre nós. Pelo que me diz respeito, foi também objeto de longas orações diante do Santíssimo Sacramento”. O cardeal Carlo Caffarra coloca estas premissas, antes de iniciar a longa conversa com ‘Il Foglio’, sobre a hoje célebre carta “dos quatro cardeais”, enviada ao Papa para pedir-lhe esclarecimentos em relação a Amoris Laetitia, a exortação que tirou as conclusões do duplo Sínodo sobre a família e que tanto debate, — nem sempre com nobreza e elegância —, desencadeou dentro e fora dos muros vaticanos.

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“Estávamos conscientes de que o gesto que estávamos realizando era muito sério. As nossas preocupações eram duas. A primeira era a de não escandalizar os pequenos na fé. Para nós, pastores, este é um dever fundamental. A segunda preocupação era que nenhuma pessoa, crente ou não crente, pudesse encontrar na carta expressões que, mesmo remotamente, parecessem ainda que uma mínima falta de respeito para com o Papa. O texto final, portanto, foi fruto de diversas revisões: textos revisados, rejeitados, corrigidos”. Colocadas estas premissas, Caffarra entra no assunto.

“O que nos levou a este gesto? Uma consideração de caráter geral-estrutural e outra de caráter contingente-conjuntural. Comecemos com a primeira. Existe para nós, cardeais, o grave dever de aconselhar o Papa no governo da Igreja. É um dever, e os deveres obrigam. Há também o fato,  de caráter mais contingente, — que somente um cego pode negar —, que na Igreja existe uma grande confusão, incerteza, insegurança, causada por alguns parágrafos da Amoris Laetitia. O que está acontecendo nos últimos meses é que, sobre as mesmas questões fundamentais em relação à economia sacramental (matrimônio, confissão e Eucaristia) e a vida cristã, alguns bispos disseram A, outros disseram o contrário de A. Com a intenção de bem interpretar os mesmos textos”.

E “este é um fato, inegável, porque os fatos são teimosos, como dizia David Hume. O caminho de saída deste ‘conflito de interpretações’ seria o recurso aos critérios interpretativos teológicos fundamentais, utilizando os quais penso ser possível mostrar razoavelmente que Amoris Laetitia não contradiz a Familiaris Consortio. Pessoalmente, nos encontros públicos com leigos e sacerdotes, sempre segui este caminho”. Não foi suficiente, observa o arcebispo de Bolonha. “Entendemos que este modelo epistemológico não era suficiente. O contraste entre estas duas interpretações continuava. Havia um único modo para resolvê-lo: pedir ao autor do texto, interpretado de duas maneiras contraditórias, qual é a interpretação correta. Não há outro caminho. Colocava-se, em seguida, o problema sobre o modo pelo qual dirigir-se ao Pontífice. Escolhemos um caminho muito tradicional na Igreja, os assim chamados ‘dubia’”.

Por que? “Porque tratava-se de um instrumento pelo qual, caso o Santo Padre, segundo o seu soberano julgamento, tivesse querido responder, não seria obrigado a respostas elaboradas e longas. Deveria responder apenas ‘Sim’ ou ‘Não’. E remeter, como frequentemente os Papas o fizeram, aos autores de comprovado saber (em latim, ‘probati auctores‘), ou pedir à Doutrina da Fé que publicasse uma declaração adicional pela qual fosse explicado o ‘Sim’ ou o ‘Não’.  Parecia-nos o caminho mais simples. A outra questão que se colocava era se isto deveria ser feito privada ou publicamente. Refletimos e concordamos que teria sido uma falta de respeito tornar tudo público desde o início. Assim, o fizemos de modo privado, e somente quando tivemos a certeza que o Santo Padre não teria respondido, decidimos publicar”.

Este é um dos pontos sobre os quais mais se discutiu, e que deram origem a polêmicas relacionadas. Por último, veio o cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito do ex Santo Ofício, que julgou como um erro a publicação da carta. Caffarra explica. “Interpretamos o silêncio como autorização para prosseguir o debate teológico. E, ademais, o problema envolve tão profundamente tanto o magistério dos bispos, (que, não esqueçamos, o exercem não por delegação do Papa, mas pelo próprio sacramento que receberam), como a vida dos fiéis. Uns e outros têm o direito de saber. Muitos fiéis e sacerdotes diziam: ‘mas os senhores cardeais, em uma situação como esta, têm o dever de intervir junto ao Santo Padre; senão, para que existem, se não ajudam o Papa em questões tão graves?’ Começava a produzir-se o escândalo de muitos fiéis, como se nós estivéssemos nos comportando como os cães que não ladram, dos quais fala o Profeta. Isto é o que há por trás daquelas duas páginas”.

Mesmo assim, as críticas choveram, inclusive de irmãos bispos ou monsenhores de cúria: “Algumas pessoas continuam a dizer que nós não somos dóceis ao magistério do Papa. É falso e calunioso. É exatamente porque não queremos ser indóceis que escrevemos ao Papa. Eu posso ser dócil ao magistério do Papa se sei o que o Papa ensina em matéria de fé e de vida cristã. Mas o problema é exatamente este: que sobre alguns pontos fundamentais não se entende bem o que o Papa ensina, como o demonstra o conflito de interpretações entre os bispos. Nós queremos ser dóceis ao magistério do Papa, mas o magistério do Papa deve ser claro. Nenhum de nós, — diz o arcebispo de Bolonha —, quis ‘obrigar’ o Santo Padre a responder: na carta falamos de soberano julgamento. Simples e respeitosamente fizemos perguntas. Finalmente, não merecem atenção as acusações de querermos dividir a Igreja. A divisão, já existente na Igreja, é a causa da carta, não o seu efeito. São, ao contrário, coisas indignas dentro da Igreja, sobretudo em um contexto como este, os insultos e as ameaças de sanções canônicas”. Na introdução da carta reconhecemos “uma grave perplexidade de muitos fiéis e uma grande confusão sobre questões muito importantes para a vida da Igreja”.

Em que consistem, especificamente, a confusão e a perplexidade? Responde Caffarra: “Recebi uma carta de um pároco que é uma fotografia perfeita do que está acontecendo. Escrevia ele: ‘Na direção espiritual e na confissão não sei mais o que dizer. Quando um penitente me diz: vivo, para todos os efeitos, como marido com uma mulher que é divorciada e agora estou comungando; eu lhe proponho um caminho para corrigir esta situação. Mas o penitente me detém e logo responde: ouça, padre, o Papa disse que posso receber a Eucaristia, sem precisar fazer o propósito de viver em continência. Eu não posso suportar mais esta situação. A Igreja pode me pedir tudo, mas não que eu traia a minha consciência. E a minha consciência tem objeções a um suposto ensinamento pontifício de permitir a Eucaristia para quem vive como marido e mulher, sem ser casado’. Assim escrevia o pároco. A situação de muitos pastores de almas, refiro-me sobretudo aos párocos, — observa o cardeal —, é esta: têm sobre os ombros um peso que não estão em condições de suportar. É nisso que penso quando falo de uma grande perplexidade. Falo dos párocos, mas muitos fiéis estão ainda mais perplexos. Estamos falando de questões que não são secundárias. Não estamos discutindo se o peixe quebra ou não quebra a abstinência. Trata-se de questões gravíssimas para a vida da Igreja e para a salvação eterna dos fiéis. Não devemos esquecer nunca que esta é a lei suprema da Igreja, a salvação eterna dos fiéis. Não outras preocupações. Jesus fundou a sua Igreja para que os fiéis tenha a vida eterna, e a tenham em abundância”.

A divisão a que se refere o cardeal Carlo Caffarra originou-se principalmente por causa da interpretação dos parágrafos de Amoris Laetitia que vão do número 300 ao 305. Para muitos, inclusive diversos bispos, encontramos aqui a confirmação de uma ruptura, não apenas pastoral, como também, e sobretudo, doutrinal. Outros, ao contrário, pensam que tudo está perfeitamente inserido e em conformidade com o magistério precedente. Como se pode sair de semelhante equívoco? “Colocaria duas premissas muito importantes. Pensar em uma práxis pastoral não fundamentada e enraizada na doutrina significa fundamentar e enraizar a práxis pastoral sobre o arbítrio. Uma Igreja com pouca atenção à doutrina não é uma Igreja mais pastoral, mas é uma Igreja mais ignorante. A Verdade da qual nós falamos não é uma verdade formal, mas uma Verdade que nos concede salvação eterna: ‘veritas salutaris‘, em termos teológicos. Explico. Existe uma verdade formal. Por exemplo, quero saber se o maior rio do mundo é o Rio Amazonas ou o Rio Nilo. Esta é uma verdade formal. Formal significa que este conhecimento não tem nenhuma relação com o meu modo de ser livre. Mesmo que a resposta tivesse sido a contrária, não teria mudado nada no meu modo de ser livre. Mas há verdades que eu chamo de existenciais. Se é verdade, — como Sócrates já havia ensinado —, que é melhor padecer a injustiça do que praticá-la, estou enunciando uma verdade que provoca a minha liberdade para agir de um modo muito diverso se fosse verdade o contrário. Quando a Igreja fala de verdade, — acrescenta Caffarra —, fala da verdade do segundo tipo, a qual, se é obedecida pela liberdade, gera a verdadeira vida. Quando ouço dizer que se trata apenas de uma mudança pastoral e não doutrinal, ou pensamos que o mandamento que proíbe o adultério seja uma lei puramente positiva que pode ser mudada, (e penso que nenhuma pessoa reta possa sustentar isto), ou isso significa admitir, sim, que o triângulo tem geralmente três lados, mas que existe também a possibilidade de construir algum que tenha quatro lados. Ou seja, estou dizendo um coisa absurda. Os medievais, além disso, diziam: “theoria sine praxi, currus sine axi; praxis sine theoria, caecus in via” (ndt: a teoria, sem a práxis, é como um carro sem eixo, que é o mesmo que dizer, sem rodas; a práxis, sem a teoria, é como um cego na estrada).

A segunda premissa que faz o arcebispo diz respeito “ao grande tema da evolução da doutrina, que sempre acompanhou o pensamento cristão. E que sabemos ter sido retomado de modo esplêndido pelo Beato John Henry Newman. Se há um ponto claro é que não há evolução onde há contradição. Se eu digo que ‘s’ é ‘p’ e depois digo que ‘s’ não é ‘p’, a segunda proposição não desenvolve a primeira, mas a contradiz. Aristóteles já havia justamente ensinado que ao se enunciar uma proposição universal afirmativa (por exemplo, todo adultério é injusto) e ao mesmo tempo uma proposição particular negativa tendo o mesmo sujeito e predicado (por exemplo, certos adultérios não são injustos), não se faz uma exceção à primeira. Mas a contradiz. Por fim, se quisesse definir a lógica da vida cristã, usaria a expressão de Kiekegaard: ‘Mover-se sempre, permanecendo sempre parado no mesmo ponto’”.

O problema, acrescenta o purpurado, “é ver se os famosos parágrafos nn. 300-305 de Amoris Laetitia e a famosa nota n.351 estão ou não estão em contradição com o magistério precedente dos Pontífices que enfrentaram a mesma questão. Segundo muitos bispos, estão em contradição. Segundo muitos outros bispos, não se trata de uma contradição, mas de um desenvolvimento. É por isso que pedimos uma resposta do Papa”. Chega, assim, ao ponto mais contestado e que tanto animou as discussões sinodais: a possibilidade de conceder aos divorciados e recasados civilmente a reaproximação à Eucaristia. Coisa que não encontra explicitamente espaço em Amoris Laetitia, mas que, segundo o juízo de muitos, é um fato implícito, que representa nada mais do que uma evolução em relação ao n. 84 da Exortação Familiaris Consortio, de João Paulo II.

“O problema no seu nó é o seguinte”, argumenta Cafarra: “O ministro da Eucaristia (em geral, o sacerdote) pode dar a Eucaristia a uma pessoa que vive more uxorio (ndt. como se fosse casada, isto é, tendo relações sexuais) com uma mulher ou com um homem que não é a sua mulher ou o seu marido, e não pretende viver em continência? As respostas são apenas duas: Sim ou Não. Ninguém, aliás, põe em questão que Familiaris consortio, Sacramentum unitatis, o Código de Direito Canônico e o Catecismo da Igreja Católica à esta pergunta respondam Não. Um Não válido, até que o fiel não proponha abandonar o estado de convivência more uxorio. Amoris Laetitia ensinou que, dadas certas circunstâncias precisas e realizado um certo percurso, o fiel poderia aproximar-se da Eucaristia sem se comprometer em viver a continência? Há bispos que ensinam que se pode. Por uma simples questão de lógica, se deveria, então, ensinar que o adultério não é um mal em si e por si. Não é pertinente apelar à ignorância ou ao erro em relação à indissolubilidade do matrimônio: um fato infelizmente muito difuso. Este apelo tem um valor interpretativo, não orientativo. Deve ser usado como método para discernir a imputabilidade das ações já realizadas, mas não pode ser princípio para ações a serem realizadas. O sacerdote – diz o cardeal – tem o dever de iluminar o ignorante e corrigir o errante”.

“Ao contrário, aquilo que Amoris Laetitia trouxe de novo sobre essa questão é a chamada aos pastores de alma de não se contentarem com responder Não (não se contentar, porém, não significa responder Sim), mas de tomar a pessoa pela mão e ajudá-la a crescer até o ponto que entenda que se encontra em uma tal condição que não pode receber a Eucaristia, se não cessar com as intimidades próprias dos esposos. Mas não é que o sacerdote possa dizer ‘ajudo o seu caminho dando-lhe os sacramentos’. E é sobre isso que, na nota n. 351, o texto é ambíguo. Se eu digo à pessoa que não pode ter relações sexuais com aquele que não é o seu marido ou a sua mulher, porém, no entanto, visto que isso é tão difícil, pode ter… apenas uma ao contrário de três por semana, não há sentido; e não uso de misericórdia para com essa pessoa. Porque, para pôr fim a um comportamento habitual – um habitus, diriam os teólogos – é necessário que haja o decidido propósito de não realizar nenhum ato próprio daquele comportamento. Há um progresso no bem, mas entre deixar o mal e iniciar a fazer o bem há uma escolha instantânea, mesmo que longamente preparada. Por um certo período, Agostinho rezava: ‘Senhor, dai-me a castidade, mas não já’”. A discorrer sobre os dúbia, parece-me compreender que, em jogo, mais do que Familiaris Consortio, esteja a Veritatis Splendor. É assim?

“Sim”, responde Carlo Cafarra. “Aqui está em questão aquilo que ensina a Veritatis Splendor. Esta Encíclica (6 de agosto de 1993) é um documento altamente doutrinal, nas intenções do Papa São João Paulo II, a tal ponto que – coisa excepcional atualmente nas encíclicas – é endereçada somente aos bispos, enquanto responsáveis da fé que se deve crer e viver (cf. n. 5). A estes, ao fim, o Papa recomenda serem vigilantes a respeito de doutrinas condenadas ou ensinadas pela própria encíclica. Aquelas, para que não se difundam na comunidade cristã, essas, para que sejam ensinadas (cf. n. 116). Um dos ensinamentos profundos do documento é que existem atos que podem ser por si mesmos e em si mesmos, prescindindo das circunstâncias em que são realizados e das intenções que o agente se propõe, qualificados como desonestos. E acrescenta que negar este fato pode levar a negar o sentido do martírio (cf. nn. 90-94). Cada mártir, de fato – sublinha o arcebispo emérito de Bolonha – poderia ter dito: ‘Mas eu me encontro em uma circunstância… em tais situações para as quais o dever grave de professar a minha fé ou de afirmar a intangibilidade de um bem moral não me obrigam mais’. Se pensarmos às dificuldades que Tomás More sofria por causa de sua esposa, na prisão: ‘tens deveres para com tua família, para com teus filhos’. Não é, então, apenas um discurso de fé. Mesmo usando apenas a reta razão vejo que, negando a existência de certos atos intrinsecamente desonestos, nego que exista um confim além do qual os poderosos deste mundo não podem e não devem ir. Sócrates foi o primeiro no ocidente a compreender isso. A questão, portanto, é grave, e sobre isso não se podem deixar incertezas. Por isso, nos permitimos pedir ao Papa para deixar claro, porque há bispos que parecem negar tal fato, fazendo referência a Amoris Laetitia. O adultério, de fato, sempre foi considerado entre os atos intrinsecamente maus. Basta ler o que diz Jesus a respeito, São Paulo e os mandamentos dados por Deus a Moisés”. Mas há ainda espaço, hoje, para os assim chamados atos “intrinsecamente maus”. Ou, talvez, é tempo de olhar mais o outro lado da balança, ao fato que tudo, diante de Deus, pode ser perdoado?

Atenção, diz Cafarra: “Aqui se faz uma grande confusão. Todos os pecados e as escolhas intrinsecamente desonestas podem ser perdoadas. Então, ‘intrinsecamente desonestos’ não significa ‘imperdoáveis’. Jesus, todavia, não se contenta em dizer à adúltera: ‘Nem eu te condeno’. Diz-lhe também: ‘Vai e, de agora em diante, não peques mais’ (Jo 8,10). São Tomás, inspirando-se em Santo Agostinho, faz um comentário belíssimo, quando escreve que ‘Teria podido dizer: vai, e vivas como queiras e estejas certa do meu perdão. Não obstante todos os teus pecados, eu te libertarei dos tormentos do inferno. Mas o Senhor, que não ama a culpa e não favorece o pecado, condena a culpa… dizendo: de agora em diante, não peques mais. Mostra-se, assim, como é terno o Senhor em sua misericórdia e justo na sua Verdade’ (cf. Comentário a João, 1139). Nós somos verdadeiramente – não é apenas um modo de dizer – livres diante do Senhor. E, então, o Senhor não nos joga seu perdão por trás de nossas costas. Deve haver um admirável e misterioso matrimônio entre a infinita misericórdia de Deus e a liberdade do homem, que se deve converter se quiser ser perdoado”.

Perguntamos ao cardeal Cafarra se uma certa confusão não deriva também da convicção, radicada também entre tantos pastores, de que a consciência seja uma faculdade para decidir autonomamente em relação àquilo que é o bem ou o mal, e que em última análise a palavra decisiva seja da consciência individual. “Considero este o ponto mais importante de todos”, responde. “É o lugar onde nos encontramos e desencontramos com a pilastra fundamental da modernidade. Comecemos por esclarecer a linguagem. A consciência não decide, porque ela é um ato da razão; a decisão é um ato da liberdade, da vontade. A consciência é um juízo em que o sujeito da proposição que o exprime é a escolha que estou para realizar ou que já realizei, e o predicado é a qualificação moral da escolha. É, então, um juízo, não uma decisão. Naturalmente, cada juízo racional se exercita à luz de critérios, de outro modo não seria um juízo, mas qualquer outra coisa. Critério é aquilo com base em que eu afirmo aquilo que afirmo ou nego aquilo que nego. A este ponto, é particularmente iluminante uma passagem do Tratado sobre a consciência moral do Beato Rosmini: ‘Há uma luz que está no homem e há uma luz que é o homem. A luz que está no homem é a lei da Verdade e a graça. A luz que é o homem é a reta consciência, porque o homem se torna luz quando participa da luz da lei da Verdade mediante a sua consciência conformada àquela luz’. Ora, diante dessa concepção da consciência moral se opõe a concepção que erige como tribunal inapelável da bondade ou malícia das próprias escolhas a própria subjetividade. Aqui, para mim – diz o purpurado – está o desencontro decisivo da visão da vida própria da Igreja (porque própria da divina Revelação) e a concepção da consciência própria da modernidade”.

“Quem viu isso de maneira lucidíssima – acrescenta – foi o Beato Newman. Na famosa carta ao Duque de Norfolk, diz: ‘A consciência é um vigário aborígene de Cristo. Um profeta nas suas informações, um monarca nas suas ordens, um sacerdote nas suas bênçãos e nos seus anátemas. Para o grande mundo da filosofia de hoje, estas palavras não são verbosidades vãs e estéreis, privadas de um significado concreto. Em nosso tempo, ferve uma guerra renhida, diria, quase uma espécie de conspiração contra os direitos da consciência’. Mais adiante, acrescenta que ‘em nome da consciência se destroem as verdadeiras consciências’. Eis porque, entre os cinco dúbia, o número cinco é o mais importante. Há uma passagem de Amoris Laetitia, no n. 303, que não está clara; parece – repito: parece – admitir a possibilidade de haver um juízo verdadeiro da consciência (não invencivelmente errôneo; isso sempre foi admitido pela Igreja) em contradição com aquilo que a Igreja ensina como atinente ao depósito da divina Revelação. Parece. E, por isso, apresentamos a dúvida ao Papa”.

“Newman – recorda Cafarra – diz que ‘se o Papa falasse contra a consciência, tomada no verdadeiro significado da palavra, cometeria um verdadeiro suicídio, cavaria uma fossa debaixo dos seus pés’. São coisas de uma gravidade alarmante. Não diga nunca a uma pessoa: ‘Siga sempre a tua consciência’, sem acrescentar, sempre e na mesma hora: ‘Ama e procura a verdade sobre o bem’. Colocaria em suas mãos a arma mais destrutiva da sua humanidade”.

11 janeiro, 2017

Entrevista de Cardeal Müller na TV causa espanto.

Chefe doutrinal do Vaticano censura publicação de ‘dubia’, mas alguns críticos afirmam que ele se engana, enquanto surge a informação de que nenhuma das correções da Congregação para a Doutrina da Fé a ‘Amoris Laetitia’ foi aceita. 

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 9 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé [CDF], afirmou em uma entrevista ao vivo de televisão, no domingo, que a “correção fraterna” ao Papa Francisco acerca de sua exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor) “não é possível por ora”, porque a documento não “apresenta perigo para a fé”.

Mas o comentário do cardeal, feito ontem ao correspondente no Vaticano do canal italiano Tgcom24, Fabio Marchese, contrasta com revelações feitas por ao menos dois eminentes oficiais do Vaticano ao Register na semana passada, de que a CDF apresentou um grande número de correções a Amoris Laetitia antes de sua publicação, no último mês de abril, “e sequer uma das correções foi aceita”.

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Surpreso com a divulgação dos dubia

Cardeal Müller afirmou, no domingo, que os cardeais têm “todo direito de escrever uma carta ao Papa”, porém, acrescentou que estava “surpreso de que tenha se tornado público, quase forçando o Papa a dizer ‘sim’ ou ‘não'”.

“Não gosto disso”, disse. “Também, uma possível correção fraterna ao Papa parece-me muito distante; não é possível por ora, porque não se trata de um perigo para a fé, como afirmava Santo Tomás [de Aquino]”.

Ele declarou que sentia ser “uma perda para a Igreja discutir essas coisas publicamente”, acrescentando que Amoris Laetitia é “claríssima em sua doutrina e que podemos interpretar todo a doutrina de Jesus sobre o matrimônio, toda a doutrina da Igreja em 2000 mil anos de história”.

Papa Francisco, concluiu o cardeal, “pede para se discernir a situação dessas pessoas que vivem em uniões irregulares, que não estão de acordo com o ensinamento da Igreja sobre o matrimônio, e para ajudá-las a encontrar um caminho para uma nova integração na Igreja, segundo as condições dos sacramentos,a mensagem cristã sobre o matrimônio”. Ele declarou que não vê “nenhuma oposição: por um lado, temos o ensinamento claro sobre o matrimônio, por outro, a obrigação da Igreja em se preocupar com essas pessoas em dificuldade”.

Todavia, as declarações do cardeal encontraram espanto em Roma, com alguns argumentando que o cardeal perdeu o foco: a questão, dizem, não é se Amoris Laetitia pode ser lida em continuidade com a tradição, mas se é ambígua o bastante de modo que possa ser lida de maneira heterodoxa.

As observações do cardeal também vêm após a divulgação de que a CDF teve claro receio sobre o documento antes de sua publicação — preocupações que nunca foram objeto de consideração. Um bem informado oficial recentemente declaro ao Register que uma comissão da CDF que revisou um rascunho de Amoris Laetitia levantou dubia “similares” àquelas dos quatro cardeais. Esses dubia fizeram parte da correção de 20 páginas [a Amoris Laetitia] da CDF, primeiramente revelada por  Jean-Marie Genois em Le Figaro, de 7 de abril, na véspera da publicação do documento.

Outro experiente oficial foi além, revelando ao Register que, na semana passada, o Cardeal Müller disse-lhe pessoalmente que a CDF “apresentou muitas, muitas correções, e sequer uma das correções foi aceita”. Ele acrescentou que o que afirma o Cardeal na entrevista “é exatamente o contrário de tudo que ele me disse sobre a questão até agora” e que tinha a “impressão de alguém que não falava por si mesmo, mas repetia o que alguém dizia-lhe para dizer”.

Histórico forte

Cardeal Müller frequentemente falou de modo firme em defesa do ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e a família nos últimos três anos (ver aqui e aqui). E em um discurso em Oviedo, Espanha, no ano passado, ele enfaticamente afirmou que Amoris Laetitia não abre as portas da Sagrada Comunhão a divorciados, reafirmando o art. 84 da exortação apostólica Familiaris Consortio, de S. João Paulo II, que afirma que os divorciados recasados não podem ser admitidos à Comunhão Eucarística ao menos que estejam aptos a viver em “completa continência”.

Porém, analistas afirmam que ele parece ignorar as preocupações sobre as interpretações divergentes do documento — profundas apreensões que se alega serem compartilhadas por muitos outros além dos quatro cardeais — e suspeitam que após o Papa recentemente remover três colaboradores do cardeai sem apresentar qualquer justificativa, e com uma correção formal possivelmente iminente, ele tenha se sentido compelido, ou foi compelido, a demonstrar ao Papa um inequívoco sinal de lealdade. Outros alegam que o italiano usado pelo cardeal na entrevista é mais matizado do que a tradução inglesa, que ele sabe o que está fazendo, e está tentando defender a ortodoxia e a unidade da Igreja a seu modo.

Um número significativo de conferências episcopais por todo o mundo expressaram suas preocupações ao Papa, averiguou o Register, e, como os quatro cardeais, não receberam resposta. Mesmo antes da publicação do documento,  30 cardeais, tendo lido uma versão antecipada da exortação apostólica, escreveram ao Papa expressando suas reservas, especialmente quanto à questão da Comunhão a divorciados civilmente recasados, advertindo que o documento enfraqueceria os três sacramentos essenciais da Igreja: a Eucaristia, o matrimônio e a confissão. O Papa também nunca respondeu à carta, disse uma fonte do Vaticano ao Register. 

A Sala de Imprensa da Santa Sé declinou comentar sobre a rejeição das correções da CDF a Amoris Laetitia, afirmando, em 2 de janeiro, que ela “não comenta o processo [de redação] dos documentos papais”.

Cardeal Müller também não respondeu, questionado por Register em 9 de janeiro, se está ciente da alegada confusão decorrente das diferentes interpretações de Amoris Laetitia, ou por que ele crê ser desnecessária uma correção formal quando as correções de seu próprio dicastério não foram aceitas.

3 janeiro, 2017

Crônicas de final de ano em Roma.

Por Padre Romano | FratresInUnum.com

Poucos dias antes do Natal, entrando na Livraria Vaticana “Bento XVI”, deparei-me com o Cardeal Walter Kasper comprando alguns livros. Chamou-me a atenção um que tinha na capa a foto do Cardeal Tagle, Arcebispo de Manila, nas Filipinas — famoso teórico da “hermenêutica da ruptura” feito cardeal, incrivelmente, por Bento XVI. Fui ver o título: “Guardare con l’ascolto” (Olhar com a escuta) – Biografia do Cardeal Tagle, Arcebispo de Manila e Presidente da Cáritas Internacional – Editrice Vaticana – Preço: 12,00 euros, com desconto de 10%. O autor é o próprio Cardeal Luis Antonio Tagle, o que torna esse livro uma auto-biografia. Francisco acabara de completar 80 anos e me veio a pergunta, como um raio: – Será que já estão fazendo a campanha para o sucessor de Bergoglio? Nestes dias, foi publicada uma carta de jesuítas chilenos pedindo que o Papa nomeie cardeais e bispos alinhados com o seu pensamento, para neutralizar a ação dos conservadores, e tornar suas reformas irrevogáveis.

Basílica de São Pedro, 31 de dezembro de 2016: Cardeais Müller e Burke observam o Papa Francisco em celebração do Te Deum.

Basílica de São Pedro, 31 de dezembro de 2016: Cardeais Müller e Burke observam o Papa Francisco em celebração do Te Deum.

Nas Vésperas da solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus, e do Te Deum de ação de graças pelo ano, o Cardeal Raymond Leo Burke se fez presente – para surpresa e desconforto de alguns purpurados, que procuravam evitá-lo. Com a retirada das cadeiras reservadas aos cardeais, que estavam sobrando, terminou que Burke ficou ao lado de Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e após algum tempo de silêncio entre ambos, via-se os dois cardeais que conversavam por um longo tempo. A homilia de Francisco foi forte e, diria, agressiva e ameaçadora, também no tom da voz, disparando contra a rigidez dos que se apegam às leis e não são audaciosos para acolher a novidade do Evangelho, e querem criar divisões na Igreja para aparecer – é o que lembro, mais ou menos, porque estava já me sentindo mal e querendo ir embora.

Nesse mesmo período, falando com alguém que trabalha no Vaticano, pude confirmar o que vem sendo dito: reina, de fato, nos Sagrados Palácios, um clima de medo e suspeita. Fui convidado a sair do escritório e dar 2 passos no corredor porque – dizia meu interlocutor, que mantinha sempre o tom de voz baixo – as paredes têm ouvidos.

Nas conversas com padres e leigos, percebe-se uma não disfarçada tensão. Muitos se calam, poucos levantam a voz para defender a atual conjuntura, vários começam a falar abertamente o que pensam — e são coisas sérias. Surpreende-me uma coisa: ao falar com católicos de “preceito” dominical ou com pessoas afastadas da Igreja, ainda se vê alguma simpatia pelo atual pontificado, mas não um retorno efetivo à prática cristã. Continua-se a criticar a Igreja como antes: a ignorância religiosa na Itália é surpreendente. O slogan “Jesus, sim, Igreja não” parece ter mudado para “Francisco, sim, Igreja não”. O relativismo avança assustadoramente. Todas as religiões se valem.

Neste clima, iniciamos 2017. O que nos aguarda? Sinceramente, espero que alguém dentre o povo grite – e já há quem está pronto a fazê-lo – : – “O Rei está nu!”, pondo fim a esse desfile surreal e patético.

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29 dezembro, 2016

Francisco, a Cúria e o governo.

Episódios que nos deixam perplexos. Mas, este Papa é bom?

Por Marco Tosatti, 26 de dezembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.comNão é de hoje que as censuras do Papa à Cúria já não surpreendem mais ninguém. Digamos que elas assumiram um tom quase ritual. Pela leitura de suas palavras dá a impressão que ele tenha se irritado contra eventuais resistências à reforma da Cúria. Mas, isso pode parecer desconcertante. Até agora, a reforma procurou centrar-se sobre a unificação de alguns conselhos pontifícios e dicastérios, bem como o lançamento da nova Secretaria de Comunicações. Mas não parece que qualquer destas iniciativas tenha causado especial ressentimento. E o esvaziamento progressivo da Secretaria de Economia de algumas grandes prerrogativas que o próprio Papa havia lhe atribuído foi feito com o consentimento do próprio Pontífice. E mesmo ali não parece que as principais partes interessadas tenham se acorrentado aos portões de São Pedro por causa disso. Quem conseguiu manobrar-se para obter de volta o dinheiro e o poder que o primeiro Motu Proprio parecia ter subtraído, acabou ficando bem satisfeito. E Pell, ainda que tenha se sentido um pouco traído, e talvez um pouco ingênuo por ter acreditado em exortações como a que dizia “siga em frente sem olhar para ninguém” proveniente de Alto Loco acabou também por absorver o golpe como um  bom atleta australiano.
Talvez, então, a ira do soberano tinha outros motivos e alvos.
O que se percebe na Cúria é algo diferente; e não se trata de resistência, mas de medo, insatisfação e sentimentos que são colocados num contexto diferente.
Fomos informados por uma fonte fidedigna sobre vários episódios. Vamos citar alguns, sem comentários.
O primeiro diz respeito às nomeações episcopais. Algum tempo atrás, houve o caso de se fazer um bispo, não na Itália. O núncio preparou a tríade. Um cardeal, chefe do dicastério, talvez o próprio titular da Congregação para os Bispos, durante a assembléia geral ordinária, tomou a palavra, dizendo: o primeiro candidato indicado é ótimo, o segundo é bom. Mas, gostaria de alertar sobre o terceiro, que eu conheço bem, desde os tempos em que ele era seminarista, e que apresenta problemas, tanto em termos de doutrina como de moralidade e responde pouco aos critérios necessários. Mas, esse terceiro era amigo de alguém; e, assim, um outro cardeal do círculo atualmente no poder, saiu ao ataque contra seu colega, acusando-o de impropriedade. A reunião foi encerrada sem mais decisões. Mas, um dia depois, o secretário pessoal do Pontífice se apresentou à Congregação dizendo que a escolha havia recaído sobre o terceiro candidato.
Outro caso é decididamente o mais triste. Um chefe de dicastério recebeu uma ordem para se livrar de três de seus empregados (que trabalham no Vaticano há várias décadas), sem qualquer explicação. Ele recebeu a carta oficial: “Do venerável encargo peço-lhe que para que se demita…”. A ordem era: envie-o de volta à diocese ou à família religiosa à qual ele é afiliado. Ele ficou muito perplexo, porque se tratava de ótimos sacerdotes e pessoas entre as mais capazes profissionalmente. Ele se recusou a obedecer, e pediu audiência ao Papa. Teve, então, que esperar, porque por diversas vezes a audiência foi transferida. Finalmente, ele foi recebido. Ele disse então: Santidade, eu recebi essas cartas, mas eu não fiz nada ainda, porque essas pessoas estão entre as melhores do meu dicastério… o que eles fizeram? A resposta foi: “e eu sou o papa, e não tenho que dar satisfações a ninguém a respeito das minhas decisões. Eu decidi que eles devem ir embora, e tem que ir embora”. Levantou-se e estendeu a mão para  significar que a audiência estava encerrada. Até 31 de dezembro, dois dos três deixarão o dicastério em que trabalharam durante anos, sem ao menos saber o porquê. Para o terceiro, ao que parece, houve uma prorrogação. Mas, há um desdobramento que, se for verdade, como parece ser, é ainda mais desagradável. Um dos dois se expressava livremente, talvez até demais, sobre algumas decisões do Papa. Alguém, muito amigo de um colaborador do Pontífice, ouviu e delatou. A vítima recebeu uma chamada muito dura do número um e depois veio a punição.
Mas, as fofocas não era um anátema no reinado do Papa Bergoglio?
A tentativa atrapalhada de convocar uma comissão de inquérito para um organismo de direito internacional, como é a Ordem de Malta, independente da Santa Sé, com a qual se troca embaixadores, e, portanto, que não pode “ser investigada a partir do exterior”, é outro sintoma da febre autocrática que parece permear o Vaticano.
Não é de admirar se o clima, por trás dos muros e palácios, não seja exatamente sereno. É de se perguntar qual crédito podemos dar a toda essa fanfarra sobre misericórdia.
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28 dezembro, 2016

Francisco segundo Der Spiegel: “Não excluí a hipótese de que eu seja lembrado como o Papa que, na história da Igreja Católica, a dividiu”.

Cardeal Brandmüller, um dos signatários do dubia: “Quem quer que que considere compatíveis o adultério e a recepção dos Sagrados Mistérios é um herege e dirige-se a um cisma certo”.

Por Walter Mayr – Der SpiegelRoma, 23 de Dezembro de 2016 | Tradução: Georges-François Sassine – FratresInUnum.comO Salmo 118 ressoa como um gracejo carregado. “Este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos“, diz solenemente o Cardeal Decano Angelo Sodano, a partir da leitura daquele livro do Antigo Testamento, e olha com expectativa para o Papa. Já este, olha para o espaço.

É a última manhã de sábado na Capela Paulina do Vaticano, pouco depois das oito horas. Meia centena cardeais residentes em Roma, vestidos com seus paramentos e solidéus púrpuras, alinham suas perspectivas para honrarem uma devoção comum com o Papa, pela ocasião de seu 80º aniversário.

Como se sentam os dignatários presentes, os quais contemplam o afresco de Michelangelo sobre a Crucificação de São Pedro, e o poderoso homem situado à esquerda do altar, a distância é quase palpável. “Tenha a certeza de que permanecemos próximos”, reafirma o Cardeal Decano para Francisco. Mas a expressão soa estranhamente vazia.

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A poucos metros da Capela Paulina, acima da sacristia de São Pedro, resiste, entretanto, um idoso prelado alemão: Walter Brandmüller se desculpou por seu estado de fragilidade e felicitou o Papa por meio de carta. É a segunda carta enviada a Francisco pelo cardeal alemão, de 87 anos de idade.

A primeira carta foi nada menos que aquela assinada por Brandmüller e três colegas cardeais – o alemão Joachim Meisner, o americano Raymond Burke e o italiano Carlo Caffara – exigindo do Papa a resposta sem ambiguidade a cinco “dubia” – dúvidas sobre a exortação apostólica “Amoris Laetitia”. Entende-se, segundo os autores, que somente desta maneira podem ser tratadas e dissipadas a “desorientação grave e grande confusão” causadas pela exortação apostólica entre os fiéis.

A carta dirigida ao Pontífice teve caráter pessoal e foi posta em cópia apenas para a Congregação realmente competente, liderada pelo também alemão Gerhard Ludwig Müller, e mostra onde a ala conservadora católica localiza a fonte de todos os problemas. O Papa Francisco respondeu à admissível, porém surpreendente, carta de seus irmãos na Fé com a máxima pena: ele ignorou a carta e se recusou a dar qualquer resposta.

“TRATA-SE DA QUESTÃO CENTRAL”

Notavelmente, em uma passagem do seu discurso de Natal dirigido à Cúria na última 5ª feira, Francisco demonstrou sua percepção de que ele se vê em via de ser atingido. Ele falou de “maliciosas formas de resistência”, as quais almejam apenas suscitar culpas sobre ele, debaixo da pretensão de luta pela manutenção da Tradição, em conteúdo e forma de expressão.

O Papa está cozinhando [de raiva]“, diz o vaticanista Edward Pentin, o qual conduz suas fontes desde a Casa Santa Marta onde Francisco mora. O centro da disputa é uma nota de rodapé à questão de saber se os divorciados recasados devem ou não ser admitidos à Sagrada Comunhão. Em verdade, porém, diz cardeal Walter Brandmüller desde seu apartamento, perto da Basílica de São Pedro “Neste ponto, falando coloquialmente sobre a questão central: se há uma decisão significativa, o assunto e a decisão tornam-se matéria séria – sabidamente o núcleo do todo, relativo à Doutrina da Fé“.

O Papa e o Cardeal Walter Kasper, que são teologicamente alinhados, tendem a enfraquecer preceitos centrais da fé católica e a deixar questões de interpretação (responsabilidade de bispos e padres) relegadas meramente ao cotidiano local de cada caso. Isso ataca diretamente as bases da Igreja Universal: “Quem quer que que considere compatíveis o adultério e a recepção dos Sagrados Mistérios é um herege e dirige-se a um cisma certo”. As Escrituras, de acordo com o Cardeal Brandmüller, não é uma loja self-service: “De acordo com São Paulo Apóstolo, somos participantes dos Divinos Mistérios, mas não podemos assumir a participação como um direito incondicionalmente à disposição.

“CAOS PURO”

A primeira impressão: alguns teimosos e idosos cardeais entram novamente em disputa contra um papa incansavelmente reformista. Mas, desta vez, parece que há mais em jogo. Francisco encontra-se cada vez mais solitário, desmoralizado pela resistência na Cúria e pela falta de coragem para que mudanças estruturais sejam efetuadas. “Bergoglio, escolhido em 2013, já não é reconhecido por muitos na pessoa de Francisco”, diz um confidente do Papa.

O Ano Santo da Misericórdia tem sido palco de “um tema que cobre tudo, ao mesmo tempo que deixa tudo em aberto”. Este mesmo ano tem observado um número de fiéis muito abaixo das expectativas. Além disso, a reestruturação da Cúria se mostra hesitante na sua realização, “puro caos, segundo relatado de gabinetes individuais”. E a loquacidade ininterrupta do Papa prepara problemas adicionais: que ele impute à mídia e seu público uma “tendência para coprofagia” (a ingestão de excrementos), o que deve aliená-lo de seus adjuntos mais próximos.

No entanto, o pontífice argentino luta pelo seu legado. Às cinco da manhã, a luz dele está acesa em Santa Marta, enquanto nos demais nos apartamentos dos veneráveis prevalece o silêncio e só pode ser ouvido o barulho de gaivotas sobre a praça de São Pedro. Entretanto, tempo é algo que Francisco já não dispõe de muito. Seu prazo de pontificado, de quatro ou cinco anos segundo ele mesmo prescreveu-se, deve expirar em breve.

Os críticos do Papa, dentro e fora dos muros do Vaticano, no entanto, ainda podem ser surpreendidos. No círculo menor, Francisco é mencionado por ter autocrítica, tendo já declarado: “Não excluí a hipótese de que eu seja lembrado como o Papa que, na história da Igreja Católica, a dividiu”.

20 dezembro, 2016

Cardeal Burke defende signatários de ‘dubia’ em entrevista bombástica à EWTN.

Por LifeSiteNews – 16 de dezembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: No programa “The World Over with Raymond Arroyo” da última quinta-feira, o Cardeal Raymond Burke respondeu àqueles dentro da Igreja que estão criticando a ele e a outros três cardeais por pedirem esclarecimentos morais sobre Amoris Laetitia. Ele afirmou que os cardeais não estão criando divisão, mas “abordando” a divisão já existente dentro da Igreja. Ele também insiste que ele “nunca” fará parte de um cisma por defender a Fé Católica, e que ataques contra o matrimônio desestabilizam a Igreja e a sociedade.

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Cardeal Burke e Dom Athanasius Schneider na Marcha pela Vida, em Roma, 8 de maio de 2016.

Burke diretamente respondeu às afirmações feitas pelos colaboradores próximos do Papa, padre Antonio Spadaro e Cardeal Cristoph Schönborn, sobre Amoris Laetitia. Em particular, ele se referiu à declaração de Spadaro de que o Papa Francisco já respondeu ao dúbia dos quatro cardeais ao aprovar as diretrizes lançadas pelos bispos de Buenos Aires, que permitiram a Comunhão a divorciados recasados. Burke também respondeu à afirmação do Papa Francisco de que pessoas que são excessivamente “rígidas” quanto à defesa da doutrina sofrem de um tipo de “condição”.

Respondendo à afirmação de Spadaro de que Burke e os outros três cardeais estão tentando “potencializar” a divisão e tensão na Igreja, Burke disse, “de fato, estamos tentando tratar da divisão que já está muito potencializada, para usar a expressão dele”.

“Somente quando essas questões, que foram apresentadas segundo a maneira tradicional de resolver questões na Igreja, e que têm relação com matérias muito sérias, somente quando essas questões forem adequadamente respondidas a divisão será dissipada”, afirmou Burke. “Porém, como está acontecendo agora, na medida em que isso continuar, a divisão somente crescerá e, é claro, o fruto da divisão é o erro. E aqui estamos falando sobre a salvação das almas, pessoas levadas a erro em matérias que têm a ver com a sua salvação eterna. Então, o padre Spadaro está muitíssimo errado nessa afirmação”.

Burke declarou estar “muitíssimo ofendido” pela recente afirmação de padre Spadaro de que o Papa Francisco não responde a questões “binárias”.

“É o papel do papa, como pastor da Igreja universal, como guardião da unidade dos bispos e de todo o Corpo de Cristo, responder a essas questões”, disse Burke. “Sugerir que fazer essas questões é sinal de falta de sinceridade é profundamente ofensivo. Posso assegurar que, por mim, e conheço os outros cardeais envolvidos, nós nunca levantaríamos questões a menos que tivéssemos a mais profunda e sincera preocupação pela própria Igreja e por cada um dos fiéis”.

O Papa Francisco “deu sua própria opinião” sobre a Comunhão a divorciados recasados, mas “a questão só pode ser respondida em termos do que a Igreja sempre ensinou e praticou”, declarou Burke. “Não é uma questão de… alguma ideia especulativa que eu possa ter sobre como abordar essas questões, mas de como Cristo em sua Igreja trata essas questões?…. até que se dê essa resposta, nós permanecemos em um estado de confusão”.

Burke e Arroyo discutiram as aparentes incompatibilidades de Amoris Laetitia com trechos da exortação Familiaris Consortio do Papa S. João Paulo II e a afirmação de Schönborn de que se trata de uma “evolução” do ensinamento da Igreja.

“Não se pode ter um amadurecimento de um ensinamento que é uma ruptura com o próprio ensinamento, que é um rompimento com esse ensinamento”, disse Burke. “As afirmações do Cardeal Schönborn a esse respeito não refletem o que se chama de desenvolvimento doutrinal – em outras palavras, através da reflexão da Igreja ela aprofunda sua apreciação de um ensinamento e ajuda os fiéis a praticar esse ensinamento. Neste caso, trata-se de uma completa ruptura com o ensinamento da Igreja, um completo distanciamento em relação ao que a Igreja sempre ensinou e praticou. Um amadurecimento é algo orgânico, onde se vê que aquilo que a Igreja vem ensinando sobre o matrimônio agora é expresso com maior plenitude”.

Burke denunciou a “politização da Igreja” que ocorreu com os ataques aos quatro cardeais, através dos meios de comunicação, realizados pelos defensores de um relaxamento na prática da Igreja. Essa “politização” é “muito aumentada por todas essas formas de intervenção midiática, é muito prejudicial e estão causando um grande dano ao bem comum na Igreja”, afirmou.

“Eu percebo que um espírito mundano, um espírito terreno entrou na Igreja, que divide seus membros em vários campos: liberais e conservadores”, disse Burke, sendo esses últimos “os ‘fundamentalistas’, como alguns adoram aqueles de nós que estamos lutando para defender o ensinamento constante da Igreja”.

Burke também respondeu à recente entrevista de Dom Athanasius Schneider na qual ele explicou a “estranha forma de cisma” que se dá hoje na Igreja. Schneider enfatizou como “muitos eclesiásticos guardam uma unidade formal com o Papa, por vezes, para o bem de suas próprias carreiras e por uma espécie de papolatria”, mas, “ao mesmo tempo, romperam os laços com Cristo, a Verdade, e com Cristo, a verdadeira cabeça da Igreja”. Fizeram-no ao negar a verdade do matrimônio e ao aderir “a um evangelho da liberdade sexual” que rompe com o sexto mandamento, afirmou.

Burke falou do assunto na mesma linha de Schneider, explicando que os que defendem o ensinamento perene da Igreja são o contrário dos cismáticos.

“De minha parte, nunca serei parte de um cisma”, disse Burke. “Sou Católico Romano e defender a Fé Católica Romana não é a causa de me separar da Igreja. E, então, eu simplesmente pretendo continuar a defender a Fé por amor a Nosso Senhor e por seu Corpo Místico, por meus irmãos e irmãs na Igreja, e creio que os outros cardeais têm o mesmo espírito”.

Quando Arroyo questionou Burke sobre as afirmações do Papa Francisco de que pessoas que estão “meio que presas em sua ‘rigidez’ quanto a doutrina e, por outro lado…, sofrem de uma compulsão ou condição”, o Cardeal afirmou que os dúbia “não são reações de pessoas que sofrem de desordens emocionais”.

“Nossa apresentação de cinco perguntas é feita com grande serenidade e respeito”, disse. “Estarmos profundamente preocupados com a verdade da doutrina da Fé e sua integridade não é sinal de enfermidade”.

19 dezembro, 2016

Os oitenta anos do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, “Il Tempo”, 16 de dezembro de 2016 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO Papa Francisco transpõe o limiar do seu 80º aniversário: Ingravescentem aetatem (idade avançada), conforme a define Paulo VI no motu proprio de 21 de novembro de 1970, cuja chegada impõe a todos os cardeais abandonar seus cargos,  tirando-lhes até o direito de entrar no conclave. Paulo VI estabeleceu a regra para criar uma nova cúria “montiniana”, mas introduziu assim uma profunda contradição no âmago de uma  prática mais do que milenar da Igreja. Porque se a idade é obstáculo para a condução de uma diocese ou de um dicastério, e até mesmo impede um cardeal de eleger um Papa, como se pode imaginar que, completados oitenta anos, possa um cardeal que se tornou Papa suportar o peso de guiar a Igreja universal?

Não são essas, contudo, as considerações que levaram o Papa Francisco a declarar em 12 de dezembro: “Eu tenho a sensação de que meu pontificado será breve, 4, 5 anos. […] Talvez não, mas tenho a sensação de que o Senhor me colocou aqui por pouco tempo. Mas é um sentimento, por isso deixo sempre a possibilidade aberta”. A verdadeira razão de uma possível abdicação parece ser não um enfraquecimento das forças, mas a consciência do Papa Bergoglio de ter-se embrenhado, menos de três anos após a sua eleição, naquilo que foi definido  por Antonio Socci no “Libero” como o inexorável “crepúsculo de um pontificado” (20 de novembro de 2016).

O projeto Papa Francisco de “reformar” a Igreja com a ajuda do Sínodo dos Bispos e de colaboradores dóceis enguiçou, e o balanço do Jubileu foi mais do que decepcionante. “O Papa Francisco fechou a porta santa, mas sua mensagem é acompanhada pelo ruído de uma crise subterrânea. Uma guerra civil está em curso na Igreja”, escreveu Marco Politi em “Il Fatto quotidiano” (21 de novembro de 2016). O conflito foi aberto, premeditadamente ou não, pelo próprio Papa Francisco, especialmente após a exortação Amoris laetitia, e hoje a Igreja não avança, mas afunda numa terra sulcada pelas fissuras de profundas divisões.

Alguém comparou o fracasso do pontificado do Papa Francisco ao de Barack Hussein Obama. Em três anos consumou-se em Roma aquilo que em Washington tardou oito anos: a passagem da euforia da primeira hora à depressão final, pelo fracasso total dos objetivos almejados.

Mas seria errado ler o pontificado do Papa Francisco em termos puramente políticos. Ele nunca poderia pronunciar o “yes,  we can” de Obama.  Para um Papa, diferentemente de um político, nem tudo é possível. O Sumo Pontífice tem poder supremo, pleno e imediato sobre toda a Igreja, mas não pode alterar a lei divina que Jesus Cristo deu à Igreja, nem a lei natural que Deus inscreveu no coração de cada homem. É o Vigário de Cristo, mas não o seu sucessor. O Papa não pode mudar as Sagradas Escrituras, nem a Tradição, que são a regra remota da fé da Igreja, mas deve submeter-se a elas.

É este  o impasse diante do qual se encontra hoje o Papa Bergoglio. Os “dubia” apresentados pelos quatro cardeais (Brandmüller, Burke, Caffara e Meisner) à Congregação para a Doutrina da Fé o colocaram num beco sem saída. Face ao teor da Exortação Apostólica Amoris laetitia, os cardeais pedem ao Papa para responder claramente com um sim ou com um não às seguintes questões: os divorciados que voltaram a casar no civil e não querem abandonar a situação objetiva do pecado em que se encontram têm o direito a receber o Sacramento da Eucaristia? E, de modo mais geral: a lei divina e natural ainda é absoluta, ou em alguns casos permite exceções?

A resposta atinge os fundamentos da moral e da fé católica. Se aquilo que era verdade ontem não o é hoje, aquilo que é verdade hoje poderia não sê-lo amanhã. Mas caso se admita que a moralidade pode sofrer uma mutação de acordo com os tempos e as circunstâncias, a Igreja está destinada a afundar-se no relativismo da sociedade fluida de nossos dias. Caso contrário, será então preciso remover o cardeal Vallini, Vigário de Roma, que na sua exposição durante o encontro da Conferência Pastoral da diocese do Papa, em 19 de setembro, disse que o divorciados novamente casados podem ser admitidos à comunhão, de acordo com um “discernimento que distinga adequadamente cada caso”. Sua posição foi adotada em 2 de dezembro pelo jornal “Avvenire”, órgão da Conferência Episcopal Italiana, segundo o qual as disposições de Amoris laetitia eram “palavras muito claras sobre as quais o Papa colocou o seu imprimatur”.

Mas pode o Papa atribuir ao “discernimento” dos pastores o direito de quebrar a lei divina e a lei natural das quais a Igreja é a guardiã? Se um Papa tentar mudar a fé da Igreja, ele renuncia explícita ou implicitamente ao seu mandato como Vigário de Cristo e, mais cedo ou mais tarde, será obrigado a renunciar ao pontificado. A hipótese de uma reviravolta como esta não pode ser excluída no decurso de 2017. A abdicação voluntária tornaria possível ao Papa Francisco abandonar o campo como um reformador incompreendido, imputando à rigidez da Cúria a responsabilidade pelo seu fracasso. Se isso vier a acontecer, é mais provável que ocorra após o próximo Consistório, que permita ao Papa Bergoglio introduzir no Sacro Colégio um novo grupo de cardeais próximos dele, para influenciar a escolha de seu sucessor. A outra hipótese seria a  de uma correção fraterna da parte dos cardeais, a qual, uma vez tornada pública, equivaleria a uma constatação de erro ou heresia.

Nada de mais errado, em qualquer caso, do que as palavras do cardeal Hummes: “São quatro cardeais. Nós somos duzentos”. Além do fato de que a fidelidade ao Evangelho não se mede de acordo com critérios numéricos, os duzentos cardeais aos quais se refere o cardeal Hummes nunca se distanciaram de seus quatro confrades, mas com o seu silêncio de algum modo tomaram distância do Papa Francisco. As primeiras declarações de apoio aos dubia, tanto pelo cardeal Paul Josef Cordes, ex-presidente emérito do Pontifício Conselho Cor Unum, quanto pelo Cardeal George Pell, Prefeito da Secretaria para a Economia, são significativas. Alguns já começam a quebrar o silêncio. Não são duzentos, mas são certamente mais de quatro.

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16 dezembro, 2016

Dom Athanasius Schneider: “Infalibilizar tudo o que diz o Papa não é católico”.

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29 novembro, 2016

Sua Santidade se recusa a responder.

Por , The New York Times, 26 de novembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: “Isso não é normal” – assim dizem os críticos de Donald Trump, enquanto ele se prepara para assumir a presidência. Mas, a República Americana é apenas a segunda mais antiga instituição que está enfrentando uma situação distinta e incomum no momento. O lugar de honra vai para a Igreja Católica Romana, que, com menos alarde (talvez porque o papado não tem um arsenal nuclear) também entrou em terra incógnita.

Há duas semanas, quatro cardeais publicaram o chamado dubia – um conjunto de perguntas, endereçadas ao Papa Francisco, pedindo que ele esclareça pontos de sua exortação apostólica sobre a família “Amoris Laetitia”.  Em particular, eles pediram-lhe para esclarecer se a proibição da Igreja em relação à comunhão para católicos divorciados em novos (e, aos olhos da igreja, adúlteros) casamentos civis continua, ou se a tradicional oposição da Igreja à situação ética se “desenvolveu” a ponto de cair no obsoleto.

O dubia começa como uma carta privada, como é habitual em tais pedidos de clareza doutrinal. Francisco não ofereceu nenhuma resposta. Mas, tornou-se pública pouco antes do consistório da semana passada em Roma, quando o Papa se reúne com o colégio cardinalício e apresenta os membros recém-elevados ao cardinalato. O Papa continuou a ignorá-la, mas tomou o passo incomum de cancelar a reunião geral com os cardeais (não poucos deles são silenciosos partidários dos quatro cardeais).

Francisco cancelou porque o dubia tinha deixado-o “fervendo de raiva”, como foi alegado. “Isso não era verdade”, escreveu no twitter seu colaborador próximo, o padre jesuíta Antonio Spadaro, pouco depois de responder aos críticos, comparando-os com o personagem de J.R.R. Tolkien, Grima Wormtongue, num tweet que ele logo em seguida apagou rosnando sua recusa de “trocar palavras distorcidas com um verme estúpido”.

Enquanto isso, um daqueles quatro autores do dubia, o combativo e tradicionalista Cardeal Raymond Burke, deu uma entrevista sugerindo que o silêncio papal pode exigir um “ato formal de correção” por parte dos cardeais – algo sem óbvios precedentes na história Católica (Papas já foram condenados por flertar com heresia, mas só depois de suas mortes). Essa foi uma linguagem forte; mas ainda mais forte foi a resposta do cabeça dos bispos católicos da Grécia, que acusou os autores do dubia de “heresia” e, possivelmente, “apostasia” por terem questionado o papa.

Enquanto isso, ele próprio continua em silêncio. Ou melhor, continuou sua prática de dar entrevistas e sermões lamentando a rigidez, farisaísmo e possíveis problemas psicológicos entre os seus críticos – mas continua se recusando a tomar uma atitude direta de responder às perguntas.

Não que haja qualquer dúvida real sobre onde o pontífice se situa. Durante um período de debate vigoroso entre 2014 e 2015, ele advogou persistentemente uma abertura à comunhão sacramental para pelo menos alguns católicos recasados sem a concessão da nulidade. Mas a resistência conservadora correu forte o suficiente para que o papa parecesse se sentir constrangido. Assim, ele produziu um documento, que ainda carece de esclarecimentos, a “Amoris Laetitia”, onde essencialmente tentou passar por cima da controvérsia, deixando implícitos os vários modos em  que a comunhão pode ser dada caso a caso, mas nunca dizendo isso diretamente.

Esta falta de objetividade é importante, porque dentro do Catolicismo as palavras formais do Papa, suas encíclicas e exortações, têm um peso que sinaliza e implicações que são carentes nas cartas pessoais. Elas são o que se supõe para exigir obediência, o que se supõe ser sobrenaturalmente preservado do erro.

Dessa forma, evitar clareza parece ter a intenção de se evitar um comprometimento. Os liberais então tem permissão pra deslizar para as experimentações, enquanto os conservadores preservam a letra da lei e os bispos do mundo ficam com a tarefa de escolher essencialmente seu próprio ensino sobre o casamento, o adultério e os sacramentos – que na verdade, foi o que muitos fizeram no ano passado, os de inclinação conservadora na Filadélfia e na Polônia, os liberais em Chicago, na Alemanha ou na Argentina, com inevitáveis atritos entre prelados que seguem diferentes interpretações da “Amoris Laetitia”.

Mas o estranho espetáculo em torno do dubia é um lembrete de que isso não pode ser uma solução permanente. A lógica do “Roma falou, o caso está encerrado” está profundamente enraizada nas estruturas do Catolicismo para permitir qualquer outra coisa, senão uma descentralização doutrinária temporária. Enquanto o Papa continuar a ser o Papa, qualquer grande controvérsia inevitavelmente vai subir de volta para o Vaticano.

Francisco deve estar ciente disso. Por enquanto, ele parece estar escolhendo a menor crise, que são bispos rivais e ensinos confusos sobre a maior crise que ainda está por vir (embora quem pode dizer com certeza?) se ele decidir presentear os conservadores da Igreja com suas próprias respostas pessoais para o dubia e simplesmente exigir que eles se submetam. Submissão ou cisma acontecerão eventualmente, é o que ele pode pensar – mas não até que o tempo e a operação do Espírito Santo tenha enfraquecido a posição dos seus críticos na Igreja.

Mas nesse meio tempo, seu silêncio está tendo o efeito de confirmar os conservadores em sua resistência, porque para eles parece que sua recusa em dar respostas definitivas poderia ser por si só obra da Providência. Ou seja, ele pode até achar que está sendo maquiavélico e estratégico, mas na verdade é o Espírito Santo impedindo-o de ensinar o erro.

Esta é uma hipótese teológica rara que pode ser facilmente refutada. O Papa precisa apenas exercer a sua autoridade, responder a seus críticos, e dizer aos fiéis explicitamente o que ele quer que eles acreditem.

Mas até que ele resolva falar, a hipótese está aberta.

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23 novembro, 2016

Uma guerra civil está em curso na Igreja.

Por Marco Politi, Il Fatto Quotidiano, 21 de novembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Papa Francisco fechou a Porta Santa, mas a sua mensagem é acompanhada pelo ruído de uma crise subterrânea. Uma guerra civil está em curso na Igreja. Um confronto que toca a autoridade do pontífice e seu programa de reformas. Estão em jogo visões opostas sobre o papel da Igreja, o “pecado”, a salvação das almas. E como em todas as guerras civis, o conflito não contempla concessões.

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Quatro cardeais escolheram estes dias para colocar diretamente sob acusação  a teologia de Francisco e seu documento pós-sinodal Amoris Laetitia (que abre o caminho para a comunhão de divorciados novamente casados). Os cardeais atribuem a Bergoglio ter semeado entre os fiéis “a incerteza, confusão e perplexidade” e pedem para que ele “lance luz” sobre o documento. Na carta, no estilo de disputas teológicas, são anexadas os chamados Dubia: “Perguntas sobre questões controversas”.

Com um gesto que tem o sabor de um desafio, a carta foi enviada “para informação” também ao responsável oficial da ortodoxia, o cardeal Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Trata-se de um acontecimento absolutamente sem precedentes na história moderna do papado. E a primeira coisa que chama a atenção é o silêncio constrangedor da hierarquia eclesiástica. Nem um cardeal se contrapôs publicamente à sua tese, nem um presidente de Conferência Episcopal, ou um dirigente de uma grande Associação Católica [ndt: posteriormente à divulgação deste artigo, o presidente da Conferência Episcopal da Grécia atacou duramente os cardeais]. E de pensar que, encarando o papel da consciência do qual fala Francisco, os quatro cardeais afirmam que em tal caso, arrisca-se a chegar ao ponto em que se tornam concebíveis “casos de adultério virtuosos, homicídio legal e perjúrio obrigatório”.

Dois dos cardeais são membros da Cúria: o alemão Walter Brandmüller, ex-presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, e o norte-americano Raymond Burke, ex-presidente do Tribunal da Assinatura Apostólica. E dois são arcebispos eméritos de dioceses importantes: Carlo Caffara, um dos prediletos de  João Paulo II e Bento XVI, e até 2015 pastor de Bolonha, e Joachim Meisner, um íntimo do Papa Ratzinger, que até 2014 dirigiu a diocese de Colônia.

Liquidar a carta – a qual Francisco respondeu indiretamente em uma entrevista ao Avvenire, denunciando um “certo legalismo que pode ser ideológico – como sendo o lamento de quatro ultra-conservadores é não compreender o confronto subterrâneo que tem se desenvolvido na Igreja Católica nos últimos dois anos. Os quatro são apenas a ponta do iceberg, que está se alargando e se espalhando. Eles também falam por muitos que não se expõem.

Durante anos, os meios de comunicação não entenderam a profundidade do movimento anti-Obama, que provocou em 8 de novembro passado a derrota de sua política. Agora, arriscam repetir o mesmo erro com Francisco. Deslumbrados com o seu carisma e o consenso planetário que goza até mesmo entre os agnósticos e não-crentes, muitos ignoram a escalada sistemática daqueles entre o clero, os bispos, o colégio de cardeais que contestam a teologia da misericórdia do pontífice.

Entre os dois Sínodos houve uma mudança de acento fundamental. Enquanto nas últimas décadas, entre o confronto entre reformistas e conservadores, o pontífice permanecia como “árbitro” para a maioria da hierarquia da Igreja, hoje, ao invés, o Papa tornou-se a parte em causa. Basta ler a última entrevista do Cardeal Burke. A Amoris Laetitia diz ele, “não é o Magistério, pois contém graves ambiguidades que confundem os fiéis e pode induzi-los ao erro e pecado grave. Um documento que apresenta esses defeitos não pode ser ensinamento perene da Igreja“.

Em dois anos, tem havido um crescimento de ações dissidentes. Antes do Sínodo de 2014, cinco cardeais escreveram um livro em defesa da doutrina tradicional sobre o matrimônio. Em seguida, intervieram com outro livro 11 cardeais de todo o mundo, incluindo personalidades importantes, reconhecidas entre o clero e episcopado. Enquanto isso, cerca de 800 mil católicos, incluindo 100 bispos, assinaram uma petição ao Papa pedindo um bloqueio das inovações. No Sínodo de 2015, 13 cardeais escreveram a Bergoglio questionando a direção que estava tomando a assembleia.

Um movimento sistemático de contestação em que o reformador fez frente apenas timidamente. E, de fato – embora muitos desejam esquecer – na votação no Sínodo de 2015 sobre a Família, foram rejeitadas as teses de uma via penitencial que reconhecesse abertamente a possibilidade de comunhão para divorciados novamente casados. A maioria tradicional deste parlamento mundial de bispos disse “não”. Nesse meio tempo surgiu uma rede de cardeais, bispos, sacerdotes, teólogos e leigos empenhados, signatários de uma “declaração de fidelidade ao ensinamento perene da Igreja sobre o casamento.” Posteriormente, 45 teólogos escreveram (anonimamente) ao Colégio dos Cardeais, sugerindo que certas interpretações da Amoris Laetitia poderiam ser “heréticas”.

O movimento anti-Bergoglio trabalha sobre o tempo. Nos Estados Unidos, a escalada silenciosa subestimada contra Obama levou à derrota dos democratas. Na Igreja Católica, o que está em jogo é o futuro conclave. Hoje, o historiador da Igreja Alberto Melloni  fala de “isolamento” do pontífice. E Andrea Riccardi, outro historiador, diz que nunca no século XX um pontífice encontrou tanta oposição entre os bispos e o clero.

Na guerra civil em curso na Igreja, o objetivo é o pós-Francisco: não deverá subir ao trono papal um homem que leve a cabo o desenvolvimento das reformas iniciadas.
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