Posts tagged ‘O Papa’

17 setembro, 2019

Francisco, Amoris Laetitia e o Vaticano II.

Amoris lætitia representa, na história da Igreja dos últimos, o que Hiroshima ou Nagasaki foram para a história moderna do Japão: humanamente falando, o dano é irreparável […] Amoris laetitia constitui um dos resultados que, cedo ou tarde, dar-se-ia das premissas estabelecidas pelo Concílio [Vaticano II]. O Cardeal Walter Kasper já havia enfatizando que a uma nova eclesiologia — a do Concílio — corresponde uma nova concepção de família cristã.

De fato, o Concílio é principalmente eclesiológico, isto é, propõe em seus documentos uma nova concepção da Igreja. De maneira simples, a Igreja fundada por Nosso Senhor já não equivaleria à Igreja Católica, mas se trataria de algo mais amplo, que incluiria as demais confissões cristãs. Como resultado, as comunidades ortodoxas ou protestantes teriam a “eclesialidade” em virtude do batismo. Em outras palavras, a grande novidade eclesiológica do Concílio é a possibilidade de pertencer à Igreja fundada por Nosso Senhor em diferentes formas e graus. Daí a noção moderna de comunhão total ou parcial, “com geometria variável”, poderíamos dizer. A Igreja se tornou estruturalmente aberta e flexível. A nova modalidade de pertença à Igreja, extremamente elástica e variável, segundo à qual todos os cristãos estão unidos na mesma Igreja de Cristo, constitui a origem do caos ecumênico.

[…]

Concretamente, do mesmo modo que a Igreja de Cristo “pan-cristã” teria elementos bons e positivos fora da unidade católica, haveria igualmente elementos bons e positivos para os fiéis fora do matrimônio sacramental, por exemplo, em um matrimônio civil, e também em qualquer outro tipo de união. Assim como já não há mais distinção entre uma Igreja “verdadeira” e igrejas “falsas”, dado que as igrejas não católicas são boas, embora imperfeitas, igualmente todas as uniões se tornam boas, porque sempre há algo bom nelas, mesmo que somente o amor. […] Deste modo, o ensinamento objetivamente desconcertante do Papa Francisco não supõe uma consequência estranha, mas uma consequência lógica dos princípios estabelecidos pelo Concílio. O Papa extrai dela algumas conclusões últimas… por ora.

Da entrevista do Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Padre Davide Pagliarani, publicada hoje

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13 setembro, 2019

Heresia e cisma: Papa Francisco e as palavras inquietas.

IHU – A imagem do cisma na Igreja emergiu repentinamente nas palavras do Papa Francisco por ocasião do encontro com jornalistas na viagem de ida e volta à África (Moçambique, Madagascar, Ilhas Maurício; 4-7 de setembro de 2019). Tudo nasceu a partir de um livro que o autor, Nicolas Senèze, correspondente do Vaticano do La Croix, Como os EUA querem mudar o Papa ofereceu como presente ao Papa na viagem de ida.

O comentário é de Gabriele Passerini, publicado por Settimana News, 11-09-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

O papa comentou: “Para mim, é uma honra que os estadunidenses me ataquem“, aludindo a algumas franjas da direita católica norte-americana que o livro evoca: dos Cavaleiros de Colombo a Steve Bannon, da rede de televisão da EWTN a Timothy Busch, do grupo de empresários Legatus ao centro “Ethics and Public Policy” de George Weigel. No retorno, a uma pergunta específica de Jason Drew Horowitz (The New York Times), expressou em termos mais suaves a sua posição sobre um possível perigo de cisão.

Migrações dos significados

Embora seja um episódio limitado dentro de uma viagem que teve bem outros focos e objetivos (nas Ilhas MaurícioMoçambique e Madagascar), é útil ressaltar as tendências que sinaliza:

do silêncio à palavra. Até o momento, o Papa falou das críticas dirigidas a ele como episódios que não tiram seu sono, a serem discernidos com atenção, que devem ser entendidos em suas intenções. É a primeira vez que ele responde diretamente a uma das vertentes críticas mais organizadas e cautelosas;

da heresia ao cisma. A acusação de heresia contra o Papa é de várias formas reevocada nas cartas críticas que ilustres eclesiásticos e “professores” vários dirigiram a ele. Com maior precisão, o Papa Francisco fala de um perigo não sobre a doutrina, mas sobre a disciplina na Igreja, precisamente o cisma;

dos eclesiásticos aos laicos. O descontentamento com seu ministério e magistério (da migração à denúncia do sistema econômico, das indicações pastorais sobre a família à defesa dos pobres) era principalmente liderado por eclesiásticos: de Burke a Brandmüller, de Viganò a Ejik. Agora, surgem alguns laicos estadunidenses, fortemente expostos no apoio a Trump;

das aquisições aos processos. Se o efeito esperado pela oposição tradicionalista norte-americana era de romper o consenso eclesial ao papa, o perigo real poderia ser de impor uma desaceleração nas reformas em vista dos próximos eventos, como o Sínodo sobre a Amazônia. O Papa está lucidamente ciente disso;

de Viganò ao novo conclave. As variadas acusações de Mons. Carlo Maria Viganò faziam pensar a uma pretensão de provocar as demissões do Papa. Hoje, a intenção parece mais a de condicionar o novo conclave que elegerá o sucessor, quando isso acontecer.

Crítica, dissenso e cisma

Aqui estão as palavras da resposta do papa ao medo de um cisma (do Sismografo-blog): “Antes de tudo, as críticas sempre ajudam, sempre. Quando alguém recebe uma crítica, imediatamente deve fazer uma autocrítica e dizer: isso é verdade ou não? Até que ponto? E eu sempre tiro vantagem das críticas. Às vezes eles te deixam com raiva … Mas as vantagens existem. Na viagem de ida para Maputo, um de vocês me deu esse livro em francês sobre como os americanos querem mudar o papa. Eu tinha conhecimento sobre esse livro, mas não o tinha lido. As críticas não são apenas dos norte-americanos, estão por toda parte, mesmo na cúria. Pelo menos aqueles que as dizem têm a vantagem da honestidade de dizê-las.

Não gosto quando as críticas ficam por baixo dos panos: te fazem um sorriso mostrando os dentes e depois dão uma punhalada pelas costas. Isso não é leal, não é humano. A crítica é um elemento de construção e, se a tua crítica não for justa, fique preparado para receber a resposta, dialogar e chegar ao ponto justo. Essa é a dinâmica da crítica verdadeira. Em vez disso, a crítica das pílulas de arsênico, de que falamos a respeito nesse artigo que dei ao padre Rueda, é parecido como jogar a pedra e esconder a mão … Isso não serve, não ajuda. Ajude aos pequenos grupinhos fechados, que não querem ouvir a resposta às críticas. Em vez disso, uma crítica leal – eu penso isso, isso e isso – está aberta à resposta, isso constrói, ajuda.

Diante do caso do papa: não gosto disso do papa, eu o crítico, falo, escrevo um artigo e peço que ele responda, isso é leal. Fazer uma crítica sem querer ouvir a resposta e sem fazer o diálogo não é gostar da Igreja, é perseguir uma ideia fixa, mudar o papa ou fazer um cisma. Isso é claro: sempre uma crítica leal é bem recebida, pelo menos por mim.

Segundo, o problema do cisma: na Igreja aconteceram muitos cismas. Após o Vaticano I, por exemplo, a última votação, aquela da infalibilidade, um bom grupo saiu e fundou os vétero-católicos para serem justamente “honestos” com a tradição da Igreja. Depois eles encontraram um desenvolvimento diferente e agora fazem as ordenações das mulheres. Mas naquele momento eles eram rígidos, iam atrás de uma ortodoxia e pensavam que o concílio tivesse cometido um erro. Outro grupo saiu em silêncio, mas não quiseram votar … O Vaticano II teve entre as consequências essas coisas.

Talvez o afastamento pós-conciliar mais conhecido seja o de Lefebvre. Sempre há a opção cismática na Igreja, sempre. Mas é uma das opções que o Senhor deixa para a liberdade humana. Não tenho medo dos cismas, rezo para que não ocorram, porque está em jogo a saúde espiritual de tantas pessoas. Que exista diálogo, que haja a correção se houver algum erro, mas o caminho do cisma não é cristão. Vamos pensar no início da Igreja, como começou com tantos cismas, um após o outro: arianos, gnósticos, monofisitas …

Povo de Deus e Intellectus Fidei

Eu gostaria de contar uma anedota: foi o povo de Deus que salvou dos cismas. Os cismáticos sempre têm uma coisa em comum: eles se separam do povo, da fé do povo de Deus. E quando no Concílio de Éfeso houve uma discussão sobre a divina maternidade de Maria, o povo – isso é histórico – ficava na entrada da catedral quando os bispos entravam para fazer o concílio. Estavam lá armados com paus. Eles os mostravam aos bispos e gritavam “Mãe de Deus! Mãe de Deus!”, como se dissessem: se vocês não fizerem isso, esperem por … O povo de Deus sempre conserta e ajuda. Um cisma é sempre um afastamento elitista causado por uma ideologia separada da doutrina.

É uma ideologia, talvez justa, mas que entre na doutrina e a separa… Por isso, rezo para que não ocorram cismas, mas não tenho medo. Isso é um resultado do Vaticano II, não deste ou daquele outro Papa. Por exemplo, as coisas sociais que eu falo são as mesmas que João Paulo II disse, as mesmas! Eu o copio. Mas dizem: o papa é comunista … As ideologias entram na doutrina e quando a doutrina desliza para as ideologias, ali existe a possibilidade de um cisma. Existe a ideologia da primazia de uma moral asséptica sobre a moral do povo de Deus. Os pastores devem conduzir o rebanho entre a graça e o pecado, porque essa é a moral evangélica.

Em vez disso, uma moral de uma ideologia tão pelagiana leva a rigidez, e hoje temos tantas escolas de rigidez dentro da Igreja, que não são cismas, mas formas cristãs pseudo-sismáticas, que terminarão mal. Quando vocês veem cristãos, bispos, sacerdotes rígidos, por trás existem problemas, não existe a santidade do Evangelho. Por isso, devemos ser suaves com as pessoas que são tentadas por esses ataques, elas estão passando por um problema, devemos acompanhá-las com mansidão”.

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8 setembro, 2019

Foto da semana.

O Pontificado do lobby gay – Novos cardeais Dom Matteo Zuppi, Dom Jean-Claude Hollerich, Michael Czerny e Dom José Tolentino Mendonça (Fotos: Wikipédia, Wikimedia e Jesuits.org)

Bispos simpatizantes a LGBTQs na lista de novos cardeais do Papa Francisco

IHU – Pelo menos dois bispos que já teceram comentários positivos sobre pessoas LGBTQs constam na lista de clérigos que o Papa Francisco irá tornar cardeais no próximo mês.

Na semana passada, o Papa Francisco anunciou um consistório surpresa a acontecer em 5 de outubro. Entre os nomeados estão Dom Matteo Zuppi, de Bolonha, e Dom Jean-Claude Hollerich, de Luxemburgo, religiosos que já fizeram comentários positivos a respeito de pessoas LGBTQs.

A reportagem é de Robert Shine, publicada por New Ways Ministry, 04-09-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Zuppi escreveu o prefácio para a edição italiana do livro do padre jesuíta James Martin, “Building a Bridge” (sem edição no Brasil), que aborda questões LGBTs na Igreja. O arcebispo, por vezes referido como o “Bergoglio italiano”, explicou que o livro era “útil para incentivar o diálogo, bem como um conhecimento e uma compreensão recíprocos”. Ele também reafirmou a decisão de Martin de se referir às pessoas LGBTs com termos que eles próprios empregam quando falam de si (p. ex.: lésbica, gay, bissexual, transgênero), dizendo que este era “um passo necessário para se começar um diálogo respeitoso”.

Em uma conversa com a imprensa durante o Sínodo dos Jovens ocorrido ano passado, Bonding 2.0 perguntou a Zuppi sobre se os bispos presentes no evento mostravam-se abertos a um diálogo mais amplo. Ele respondeu que o ministério pastoral para lésbicas e gays é “um tópico importante”. Referindo-se a um grupo católico LGBTQ atuante em sua arquidiocese, Zuppi continuou:

“Há sensibilidades diferentes, e devemos também considerar situações diferentes com base nas regiões geográficas. Essa questão não é vista da mesma forma na América do Norte e na África, por exemplo. Não é novidade. Isso nasce do fato de que o grupo de homossexuais católicos de Bolonha tem mais de 30 anos. A meu ver, é uma questão pessoal, e como tal acredito que deveria ser tratada: quando se torna ideológico, fica mais complexo e é melhor deixar de lado.

Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, também serve como presidente da conferência episcopal europeia. Ele abordou o tema de padres gays durante uma reunião do Vaticano sobre o abuso sexual clerical ocorrido em fevereiro deste ano. O The New York Times reproduziu o seu comentário:

“[Hollerich] Disse no domingo que alguns bispos recorriam à homossexualidade como uma causa para os abusos porque ‘algumas pessoas têm alguns modelos na cabeça e vão continuar assim’. Ele disse que ele e outros bispos procuraram mudar essa forma de pensar. ‘Eu falei para estas pessoas que o primeiro-ministro do meu país é homossexual e que era uma pessoa que jamais abusaria de crianças’”.

Além dos arcebispos Zuppi e Hollerich, dois outros nomeados pelo Papa Francisco são, aparentemente, amigos da causa LGBTQ.

Em 2015, o padre jesuíta Michael Czerny juntou-se ao Cardeal Peter Turkson, então presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, hoje não mais existente, num encontro com dois representantes do Fórum Europeu de Grupos Cristãos de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros para debater leis de descriminalização. Czerny, atualmente subsecretário para a seção Migrantes e Refugiados, do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, também fundou e coordenou, durante alguns anos, a organização African Jesuit AIDS Network (Rede Africana Jesuíta contra a AIDS). Foi nomeado pelo papa como um dos dois secretários especiais para o Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia deste ano.

Finalmente, Dom José Tolentino Mendonça, arquivista e bibliotecário do Vaticano, falou em termos positivos sobre os ministérios LGBTQs já em 2010. O jornal The Catholic Herald reportou que Mendonça havia sido criticado por seu trabalho pastoral voltado a lésbicas e gays e por escrever o prefácio para um livro de teologia feminista da irmã beneditina Teresa Forcades, defensora declarada das questões LGBTQs.

Os outros clérigos nomeados por Francisco para o consistório de outubro são:

• Dom Ignatius Suharyo Hardjoatmodjo, de JakartaIndonésia;

• Dom Juan de la Caridad García Rodríguez, de HavanaCuba;

• Dom Fridolin Ambongo Besungu, de KinshasaRepública Democrática do Congo;

• Dom Álvaro Ramazzini Imeri, de HuehuetenamgoGuatemala;

• Dom Cristóbal López Romero, de RibatMarrocos;

• Dom Miguel Ayuso Guixot, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso.

Mas além dos históricos das pessoas, o próximo consistório pode ter um outro – e bem maior – impacto sobre as questões LGBTQs na Igreja. Após o dia 5 de outubro, o Papa Francisco terá nomeado mais da metade dos membros do Colégio Cardinalício aptos ao votar. John Allen, do sítio Crux, assim diz:

“Poderíamos continuar com os exemplos, mas a questão que deve ficar clara é: este é um consistório em que Francisco está aumentando uma corte de religiosos com mentalidades semelhantes, posicionando-os para ajudar no desenvolvimento de sua pauta já, e também para ajudar a garantir que o próximo papa, quem quer que seja, não venha a ser alguém inclinado a atrasar o relógio”.

“Em outras palavras, Francisco sairá deste consistório numa posição mais forte para liderar. Se é uma notícia boa ou não dependerá, naturalmente, de sabermos se o fiel católico vier a gostar da direção que ele está tomando”.

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6 setembro, 2019

Dom Athanasius Schneider: o Vaticano está traindo ‘Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade’.

Por LifeSiteNews, Roma, 26 de agosto de 2019 | Tradução: Hélio Dias Vian – FratresInUnum.com – A decisão do Vaticano de implementar um documento afirmando que a “diversidade de religiões” é “desejada por Deus”, sem corrigir esta declaração, equivale a “promover a negligência do primeiro mandamento” e a uma “traição ao Evangelho”, disse Dom Athanasius Schneider.

Bishop Athanasius Schneider

Em entrevista exclusiva ao LifeSiteNews sobre uma iniciativa apoiada pelo Vaticano para promover o “Documento sobre Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos”, o  Bispo-auxiliar de Astana, no Cazaquistão, disse que “por mais nobres que possam ser os objetivos de ‘fraternidade humana’ e ‘paz mundial’, elas não podem ser promovidas à custa de relativizar a verdade da unicidade de Jesus Cristo e Sua Igreja”.

A divulgação desse documento nesta forma incorreta “paralisará a missão ad gentes da Igreja” e “sufocará seu zelo ardente de evangelizar todos os homens”, disse Dom Schneider. E acrescentou: “As tentativas de paz estão fadadas ao fracasso se não forem propostas em nome de Jesus Cristo”.

Um “Comitê Superior”

Na semana passada, o Vaticano anunciou que havia sido estabelecido nos Emirados Árabes Unidos um “Comitê Superior” de várias religiões para implementar o “Documento sobre Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos”, assinado pelo Papa Francisco em 4 de fevereiro de 2019, em Abu Dhabi, juntamente com Ahmad el-Tayeb, grão-imã al-Azhar, durante uma visita apostólica de três dias à Península Arábica.

Os membros da comissão de sete membros (católicos e muçulmanos) incluem o secretário pessoal do Papa Francisco, Pe. Yoannis Lahzi Gaid, e o presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Interreligioso, arcebispo Miguel Angel Ayuso Giuxot.

Em comunicado divulgado na segunda-feira, 26 de agosto, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, disse que o Papa Francisco “encoraja os esforços do Comitê para difundir o conhecimento do Documento; agradece aos Emirados Árabes Unidos pelo compromisso concreto demonstrado em nome da fraternidade humana e expressa a esperança de que iniciativas semelhantes possam surgir em todo o mundo”.

Documento controvertido

O documento de Abu Dhabi gerou polêmica ao afirmar que “o pluralismo e a diversidade” de religiões são “desejados por Deus”.

A passagem que suscita controvérsia diz:

“A liberdade é um direito de toda pessoa: todo indivíduo desfruta da liberdade de crença, pensamento, expressão e ação. O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e linguagem são desejados por Deus em Sua sabedoria, através da qual Ele criou seres humanos. Essa sabedoria divina é a fonte da qual deriva o direito à liberdade de crença e a liberdade de ser diferente. Portanto, o fato de as pessoas serem forçadas a aderir a uma determinada religião ou cultura deve ser rejeitado, assim como a imposição de um modo de vida cultural que outras pessoas não aceitam.”

Em 1º de março de 2019, durante uma visita ad limina dos bispos da Ásia Central a Roma, Dom Schneider, cuja diocese está localizada em uma nação predominantemente muçulmana, expressou preocupação com essa formulação ao Papa Francisco. O Papa disse que a frase em questão sobre a “diversidade de religiões” significava “a vontade permissiva de Deus”, e deu permissão explícita a Dom Schneider e aos outros bispos presentes para citar suas palavras.

Dom Schneider, por sua vez, pediu ao Papa que esclarecesse a declaração de maneira oficial.

O Papa Francisco apareceu para oferecer um esclarecimento informal em sua audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, mas nenhum esclarecimento ou correção oficial ao texto foi dado até o momento.

Nesta entrevista exclusiva, Dom Schneider revela novos detalhes sobre sua interlocução direta com o Santo Padre na reunião de 1º de março. Ele também discute suas opiniões sobre o esclarecimento informal do Papa na audiência geral de 3 de abril e a gravidade do estabelecimento de um “Comitê Superior” para implementar o documento de Abu Dhabi na ausência de uma correção oficial da passagem controversa.

Segundo Dom Schneider, ao impulsionar o documento de Abu Dhabi sem corrigir sua afirmação errônea sobre a diversidade das religiões, “os homens da Igreja não apenas traem Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade e a necessidade de Sua Igreja para a salvação eterna, mas também cometem uma grande injustiça e pecam contra o amor ao próximo”.

Aqui está nossa entrevista completa com o bispo Athanasius Schneider.

Excelência, o esclarecimento do Papa Francisco sobre o documento de Abu Dhabi na audiência geral de na quarta-feira, 3 de abril de 2019, foi suficiente na sua opinião? E quais são seus pensamentos sobre os comentários dele?

– Na audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, o Papa Francisco falou estas palavras: “Por que Deus permite muitas religiões? Deus queria permitir isso: os teólogos escolásticos costumavam se referir às voluntas permissiva [vontade permissiva] de Deus. Ele queria permitir esta realidade: existem muitas religiões.”

Infelizmente, o Papa não fez nenhuma referência à frase objetivamente errônea do documento de Abu Dhabi, que diz: “O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e linguagem são desejados por Deus em sua sabedoria.” Essa frase é errônea e contradiz a Revelação Divina, já que Deus nos revelou que Ele não deseja diversas religiões, mas apenas a religião ordenada por Ele no Primeiro Mandamento do Decálogo: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te trouxe para fora da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não deves fazer para ti uma imagem esculpida, ou qualquer semelhança de qualquer coisa que esteja acima no céu, ou que esteja abaixo na terra, ou que esteja na água debaixo da terra. Não deves curvar-te a eles ou servi-los” (Êx 20: 2-5). Nosso Senhor Jesus Cristo confirmou a validade perene desse mandamento, dizendo: “Está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e servirás somente a Ele’ (Mt 4:10). As palavras “Senhor” e “Deus”, expressas no primeiro mandamento, significam a Santíssima Trindade, que é o único Senhor e o único Deus. Portanto, o que Deus deseja positivamente é que todos os homens devam cultuar e adorar somente a Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o único Senhor e Deus. O Catecismo da Igreja Católica ensina: “Como eles expressam os deveres fundamentais do homem em relação a Deus e ao próximo, os Dez Mandamentos revelam, em seu conteúdo primordial, graves obrigações. Eles são fundamentalmente imutáveis ​​e obrigam sempre e em qualquer lugar. Ninguém pode dispensar deles” (n.  2072).

As declarações do Papa Francisco na audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, são um pequeno passo na direção de um esclarecimento da frase errônea encontrada no documento de Abu Dhabi. No entanto, permanecem insuficientes, porquanto não se referem diretamente ao documento e porque o católico comum e quase todos os não católicos nem conhecem ou compreendem o significado da expressão teologicamente técnica “vontade permissiva de Deus”.

Do ponto de vista pastoral, é altamente irresponsável deixar os fiéis de toda a Igreja em incerteza numa questão tão vital como a validade do primeiro Mandamento do Decálogo e a obrigação divina de todos os homens de acreditar e adorar, com seu livre arbítrio, em Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade. Quando Deus ordenou a todos os homens “Este é o meu Filho amado, com quem me comprazo; ouça-o!” (Mt 17: 5) e quando, consequentemente, em Seu julgamento, Ele “infligirá vingança àqueles que não obedecem ao evangelho de Nosso Senhor Jesus” (2 Ts 1: 8), como pode Ele ao mesmo tempo considerar positivamente a diversidade das religiões? As palavras inequívocas reveladas por Deus são inconciliáveis com a frase contida no documento de Abu Dhabi. Afirmar o contrário significaria formar um círculo ou adotar a mentalidade do gnosticismo ou do hegelianismo.

Não se pode justificar a teoria de que a diversidade de religiões seja positivamente desejada por Deus acrescentando a verdade do depósito da fé em relação ao livre arbítrio como um presente de Deus, o Criador. Deus concedeu o livre arbítrio ao homem precisamente para que ele possa adorar somente a Deus, que é o Deus Trino. Deus não deu ao homem o livre arbítrio para adorar ídolos, ou negar ou blasfemar Seu Filho Encarnado Jesus Cristo, que disse: “Quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do único Filho de Deus” (Jo 3:18).

Após a sua interlocução com o Papa Francisco em 1º de março, durante a visita ad limina a Roma, Vossa Excelência teve mais alguma comunicação com ele sobre suas preocupações? Em caso afirmativo, foi antes ou depois da audiência geral de na quarta-feira, 3 de abril de 2019?

– Durante a audiência de 1º de março de 2019, por ocasião da visita ad limina, dirigi-me ao Papa Francisco, na presença dos bispos de nosso grupo, com estas palavras:

 “Santíssimo Padre, na presença de Deus, imploro a Vossa Santidade em nome de Jesus Cristo que nos julgará, a retratar-se dessa declaração do documento inter-religioso de Abu Dhabi, que relativiza a singularidade da fé em Jesus Cristo. Caso contrário, a Igreja em nossos dias não será objetiva sobre a verdade do Evangelho, como o apóstolo Paulo disse a Pedro em Antioquia (ver Gálatas 2:14). ”

O Santo Padre respondeu imediatamente, dizendo que é preciso explicar a frase no documento de Abu Dhabi referente à diversidade das religiões no sentido da “vontade permissiva de Deus”. Ao que respondi: “Visto que essa frase enumera indiscriminadamente os objetos da vontade sábia de Deus, colocando-os logicamente no mesmo nível, a diversidade dos sexos masculino e feminino deve também ser desejada pela vontade permissiva de Deus, o que significa que Ele tolera essa diversidade, assim como pode tolerar a diversidade de religiões.”

O Papa Francisco admitiu então que a frase poderia ser mal interpretada e disse: “Mas você pode dizer às pessoas que a diversidade de religiões corresponde à vontade permissiva de Deus.” Ao que respondi: “Santo Padre, por favor, diga isso a toda a Igreja.” Deixei meu pedido verbal com o Papa também na forma escrita.

O Papa Francisco respondeu-me gentilmente com uma carta datada de 5 de março de 2019, na qual repetiu suas palavras da audiência de 1º de março de 2019. Ele disse que é preciso entender a frase aplicando o princípio da vontade permissiva de Deus. Também observou que o documento de Abu Dhabi não pretende igualar a vontade de Deus em criar diferenças de cor e sexo com as diferenças de religião.

Com uma carta datada de 25 de março de 2019, respondi à carta do Papa Francisco de 5 de março de 2019, agradecendo-lhe por sua gentileza e pedindo-lhe com franqueza fraterna que publicasse, pessoalmente ou através de um Dicastério da Santa Sé, uma nota de esclarecimento repetindo a substância do que ele disse na audiência de 1º de março de 2019 e em sua carta de 5 de março de 2019. Adicionei estas palavras: “Publicando tais palavras, Vossa Santidade terá a ocasião auspiciosa e abençoada, em um momento histórico difícil da humanidade e da Igreja, de confessar Cristo, o Filho de Deus.”

Devo também dizer que o Papa Francisco enviou-me um cartão, datado de 7 de abril de 2019. Ele anexou uma cópia de seu discurso na audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, e sublinhou a seção referente à vontade permissiva de Deus. É claro que sou grato ao Santo Padre por esta amável atenção.

O Documento sobre “Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos” não foi oficialmente emendado ou corrigido, e ainda assim foi estabelecido um “Comitê Superior” para implementá-lo. Na segunda-feira, 26 de agosto de 2019, a Sala de Imprensa da Santa Sé divulgou uma declaração informando que o Papa Francisco ficou satisfeito ao saber da formação de um “Comitê Superior” para alcançar as metas contidas no documento. De acordo com a declaração, o Papa Francisco disse a seu respeito: “Embora, infelizmente, o mal, o ódio e a divisão façam notícia, há um mar oculto de bondade que está crescendo e nos leva à esperança no diálogo, no conhecimento recíproco e na possibilidade de construir, junto com os seguidores de outras religiões e todos os homens e mulheres de boa vontade, um mundo de fraternidade e paz.” Excelência, qual é a gravidade deste problema?

O problema é da maior gravidade, porque, sob a frase retoricamente bela e intelectualmente sedutora de “fraternidade humana”, os homens da Igreja estão de fato promovendo hoje a negligência do primeiro Mandamento do Decálogo e a traição do âmago do Evangelho. Por mais nobres que sejam os objetivos de “fraternidade humana” e “paz mundial”, eles não podem ser promovidos à custa de relativizar a verdade da singularidade de Jesus Cristo e de Sua Igreja e de minar o primeiro Mandamento do Decálogo.

O documento de Abu Dhabi sobre “Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos” e o “Comitê Superior” encarregado de implementá-lo são como um bolo lindamente decorado que contém uma substância nociva. Cedo ou tarde, quase sem perceber, enfraquecerá o sistema imunológico do corpo.

O estabelecimento do “Comitê Superior” acima mencionado, encarregado de implementar em todos os níveis, entre outros bons objetivos o princípio supostamente divinamente desejado da “diversidade de religiões”, na verdade paralisa a missão ad gentes da Igreja, sufoca o zelo ardente de evangelizar todos os homens – é claro que com amor e respeito –, e dá a impressão de que a Igreja hoje está dizendo: “Tenho vergonha do Evangelho”; “Tenho vergonha de evangelizar”; “Tenho vergonha de trazer a luz do Evangelho a todos que ainda não creem em Cristo”. É o contrário do que disse São Paulo, Apóstolo dos gentios. Ele, pelo contrário, declarou: “Não tenho vergonha do Evangelho” (Rom 1:16) e “Ai de mim se não pregar o Evangelho!” (1 Cor 9:16).

O Documento de Abu Dhabi e os objetivos do “Comitê Superior” também enfraquecem consideravelmente uma das características e tarefas essenciais da Igreja, ou seja, ser missionário e cuidar principalmente da salvação eterna dos homens. Ele reduz as principais aspirações da humanidade aos valores temporais e imanentes da fraternidade, da paz e da convivência. De fato, as tentativas de paz estão destinadas ao fracasso se não forem propostas em nome de Jesus Cristo. Esta verdade profeticamente recorda-nos o Papa Pio XI, que disse que as principais causas das dificuldades sob as quais a humanidade está trabalhando “eram devidas ao fato de a maioria dos homens expulsar Jesus Cristo e sua santa Lei de suas vidas. Pio XI prosseguiu dizendo que,  “enquanto indivíduos e Estados se recusassem a se submeter ao governo de nosso Salvador, não haveria nenhuma perspectiva esperançosa de uma paz duradoura entre nações” (Encíclica Quas Primas, 1). O mesmo Papa ensinou que os católicos “se tornam grandes fatores para a paz mundial porque trabalham para a restauração e a expansão do Reino de Cristo” (Encíclica Ubi arcano, 58).

Uma paz que é uma realidade do mundo interior e puramente humana falhará. Pois, de acordo com Pio XI, “a paz de Cristo não se nutre nas coisas da Terra, mas nas do Céu. Tampouco poderia ser de outro modo, já que é Jesus Cristo quem revelou ao mundo a existência de valores espirituais e obteve para eles a devida apreciação. Ele disse: ‘Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se ele vier a perder sua alma?’  (Mt 16:26) Ele também nos ensinou uma lição divina de coragem e constância quando disse: ‘Não temas os que matam o corpo e não são capazes de matar a alma; antes, tema o que pode destruir a alma e o corpo no inferno’ (Mt 10:28; Lucas 12:14) ”(Encíclica Ubi arcano 36).

Deus criou os homens para o Céu. Deus criou todos os homens para conhecerem Jesus Cristo, terem vida sobrenatural n’Ele e alcançarem a vida eterna. Levar todos os homens a Jesus Cristo e à vida eterna é, portanto, a missão mais importante da Igreja. O Concílio Vaticano II nos forneceu uma bela e adequada explicação para esta missão: “A atividade missionária deriva sua razão da vontade de Deus, ‘que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois existe um Deus e um mediador entre Deus e os homens, ele próprio um homem, Jesus Cristo, que se deu como resgate por todos’ ‘(1 Tim 2:45), ‘nem há salvação em nenhum outro’ (Atos 4 : 12). Portanto, todos devem ser convertidos a Ele, tornados conhecidos pela pregação da Igreja, e todos devem ser incorporados a Ele pelo batismo e à Igreja que é Seu corpo. Porque o próprio Cristo, ‘enfatizando em linguagem expressa a necessidade de fé e batismo (cf. Mc 16, 16; Jo 3, 5), confirmou ao mesmo tempo a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo batismo, como por um porta. Portanto, embora Deus, por caminhos conhecidos por Ele, possa conduzir esses homens ignorantes não culposos do Evangelho a encontrar aquela fé sem a qual é impossível agradá-Lo não podem ser salvos, que, embora cientes de que Deus, por meio de Jesus Cristo, fundou a Igreja como algo necessário, ainda não deseja entrar nela, nem perseverar nela. ” (Cf. Decreto “Treinamento sacerdotal”, 4, 8, 9.) Portanto, embora Deus, de maneiras conhecidas de Si mesmo, possa levar os inculpáveis ​​ignorantes do Evangelho a encontrar aquela fé sem a qual é impossível agradá-Lo (Heb 11: 6), há ainda para a Igreja uma necessidade (1 Cor 9:16), e ao mesmo tempo um dever sagrado, de pregar o Evangelho. E, portanto, a atividade missionária hoje, como sempre, conserva seu poder e necessidade ”(Ad Gentes, 7).

Quero enfatizar estas últimas palavras: “A atividade missionária da Igreja hoje conserva a sua necessidade!”

Vossa Excelência gostaria de acrescentar algo?

Em sua audiência geral de quarta-feira de 3 de abril de 2019, o Papa Francisco também disse o seguinte sobre a diversidade das religiões: “Existem muitas religiões. Alguns nascem da cultura, mas sempre olham para o céu; elas olham para Deus.”

Estas palavras contradizem de alguma forma a seguinte declaração luminosa e clara do Papa Paulo VI: “Nossa religião cristã efetivamente estabelece com Deus um relacionamento autêntico e vivo que as outras religiões não conseguem fazer, mesmo tendo, por assim dizer, seus braços estendidos para o céu” (Encíclica Evangelii Nuntiandi, 52). Quão oportunas são também as palavras do Papa Leão XIII: “A visão de que todas as religiões são iguais é calculada para causar a ruína de todas as formas de religião, e especialmente da religião católica, que, por ser a única verdadeira, não pode, sem grande injustiça, ser considerada meramente igual a outras religiões” (Encíclica Humanum genus, 16).

Também são adequadas as seguintes palavras do Papa Paulo VI:

“É com alegria e consolo que, no final da grande Assembleia de 1974, ouvimos estas palavras esclarecedoras: ‘Desejamos confirmar mais uma vez que a tarefa de evangelizar todas as pessoas constitui a missão essencial da Igreja’. É uma tarefa e missão que as vastas e profundas mudanças da sociedade atual tornam ainda mais urgente. Evangelizar é de fato a graça e a vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda. Ela existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na Missa, que é o memorial de Sua morte e ressurreição gloriosa” (Encíclica Evangelii Nuntiandi, 14).

Portanto, como ensina o Catecismo da Igreja Católica, “o objetivo último da missão não é outro senão o de fazer os homens compartilharem a comunhão entre o Pai e o Filho em seu Espírito de amor” (n. 850).

Ao reconhecer direta ou indiretamente a igualdade de todas as religiões – através da divulgação e implementação do documento de Abu Dhabi (de 4 de fevereiro de 2019), sem corrigir sua afirmação errônea sobre a diversidade de religiões –, os homens na Igreja hoje não apenas traem Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade e a necessidade de Sua Igreja para a salvação eterna, mas também cometem uma grande injustiça e pecam contra o amor ao próximo. Em 1542, São Francisco Xavier escreveu das Índias a seu pai espiritual Santo Inácio de Loyola: “Muitas pessoas nesses lugares não são cristãs simplesmente porque não há ninguém para torná-las tais. Muitas vezes sinto o desejo de viajar para as universidades da Europa, especialmente Paris, e gritar por toda parte, como um louco, para impulsionar aqueles que têm mais conhecimento do que caridade com estas palavras: ‘Ai, quantas almas, por causa de sua preguiça, são privadas do Céu e terminam no inferno!’”.

Possam essas palavras inflamadas do patrono celestial das missões e primeiro grande missionário jesuíta tocar a mente e o coração de todos os católicos, e especialmente o do primeiro Papa jesuíta, para que, com coragem evangélica e apostólica, ele possa retratar-se da declaração errônea sobre a diversidade de religiões contidas no documento de Abu Dhabi. Por tal ato, ele pode muito bem perder a amizade e a estima dos poderosos deste mundo, mas certamente não a amizade e a estima de Jesus Cristo, de acordo com Suas palavras: “Todo aquele que me confessar diante dos homens, Eu também o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus ”(Mt 10:32).

26 de agosto de 2019

 + Athanasius Schneider

30 agosto, 2019

O Papa Peron.

Católicos argentinos afirmam que Bergoglio ascendeu ao poder como um camaleão impiedoso.

Por George Neumayr, The American Spectator, 25 de agosto de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – Eu ainda estou em Buenos Aires, coletando histórias de Jorge Bergoglio. Algumas delas são estranhas; outras, muito duvidosas e explosivas para reproduzir.

Uma história persistente e difundida sobre Bergoglio é que ele costumava socorrer maus padres como uma forma de obter influência sobre eles.

“Bergoglio chamaria os que estão investigando, dizem, um padre pederasta e pedia para parar”, afirmou um entendido a respeito de assuntos da Igreja em Buenos Aires. “Ele então informava ao padre transgressor de sua intervenção e então utilizava disso para obter total obediência dele”. Muitos desses padres estavam em débito com Bergoglio.

Alguns se questionam o porquê do Papa Bergoglio se cercar de tantos bandidos, excêntricos e depravados. Mas isso não é mistério para os católicos argentinos: “Ele fazia o mesmo como arcebispo”, afirma um deles. “Usava seus segredos para controlá-los”. Era essa malévola tática de gestão que levou Bergoglio a uma aliança com Theodore McCarrick e outros incontáveis abusadores.

Os católicos argentinos descrevem Bergoglio como um Peron eclesiástico — um cruel e confuso socialista — camaleão desejoso de contar alguma mentira e experimentar alguma estratégia baixa para se manter no poder.

“Peron costumava dizer que era um catavento, que se movia para onde ia o vento”, disse-me um jornalista. “Bergoglio era assim também. Na segunda-feira, era uma liberal. Na terça, um conservador. Na quarta, um liberaval de novo. E assim ia”.

Para tentar julgar e compreender Bergoglio, visitei lugares-chaves em sua vida em Buenos Aires — desde onde ele nasceu até os locais em que trabalhou. Tenho que dizer que foi um tour bastante sombrio. Meu guia observou, no início de nosso trajeto, que muito da história de Bergoglio se concentra em “mentiras” que visam alavancar o turismo. “Custa 100 dólares fazer o tour de Bergoglio”, afirmou. Não é necessário dizer que eu não vi ninguém fazendo o passeio. Em uma economia em que a taxa de juros chegou a 75%, 100 dólares é um investimento alto.

Uma parada do tour é o confessionário da Basílica de São José, onde Bergoglio supostamente decidiu se tornar uma jesuíta. Meu guia riu dessa lorota. “As datas não batem com as contas oficiais. De fato, ele se decidiu anos antes”, declarou. E acrescentou que a razão para Bergoglio entrar na ordem não foi espiritual, mas política: ele sabia que a ordem estava rapidamente se movendo para a esquerda e ele estava ávido por trilhar essa jornada ideológica.

“Os jesuítas estavam cheios de comunistas, e Bergoglio era um deles”, observou uma jornalista. De fato, Bergoglio recebeu sua educação política aos pés de uma comunista paraguaia chamada Esther Ballestrino, que foi sua chefe em um laboratório de Buenos Aires, após ele obter um diploma equivalente a bacharel em química. Bergoglio afirmou que ele “devia” muito “àquela grande mulher”. Ele louvou a forma com que ela o introduziu a publicações e literatura comunistas e festejou com ele histórias sobre o “tribunal de Rosenberg”.

Bergoglio orgulhosamente ostenta o crédito de esconder sua literatura marxista em uma biblioteca jesuíta durante sua perseguição. “Ela foi jogada de uma avião e seu corpo foi encontrado na costa do mar”, afirmou um católico conhecedor desse período da vida de Bergolgio. Em uma total violação ao direito canônico, Bergoglio a sepultou em uma Igreja Católica, muito embora ela não tivesse sido uma católica praticante”. Fui informado que a igreja onde ela estava enterrada é agora uma espécie de monumento para os socialistas revolucionários. Eu me programei para visitá-lo antes de partir.

Um dos lugares mais hilários ao qual já fui é o antigo vicariato de Bergoglio. Meu guia me informou que do outro lado da rua se encontrava um “prostíbulo” chamado Hotel Helen. Eu o examinei, e claramente não parecia um hotel: por um ponto, não tinha janelas. Buenos Aires, onde a prostituição foi legalizada, é abarrotada dessas tocas sem janela.

Mas ainda mais sombriamente cômico eram as paredes em torno do vicariato, adornadas com pontiagudas garrafas de vinho quebradas, a fim de impedir que pulem os muros. Hey, Papa Francisco, isso não é muito acolhedor! Mas é só mais uma contradição em uma triste história cheia delas.

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30 agosto, 2019

Papa nomeia arcebispo envolvido na polémica de abusos sexuais no Chile como embaixador do Vaticano em Portugal.

Ivo Scapolo era embaixador do Vaticano no Chile e vem agora para Portugal. As vítimas do histórico caso do padre Karadima acusam-no de ter ajudado a promover um bispo que encobriu os abusos sexuais.

Observador – O Papa Francisco nomeou o arcebispo italiano Ivo Scapolo para o cargo de núncio apostólico em Portugal — ou seja, embaixador da Santa Sé —, anunciou esta quinta-feira o Vaticano em comunicado. O diplomata italiano era, até agora, embaixador da Santa Sé no Chile, país que no ano passado esteve no centro de um dos maiores escândalos de abusos sexuais na Igreja Católica. O próprio Scapolo não foi imune à polémica, tendo sido um dos principais responsáveis pela nomeação para a liderança da diocese de Osorno do bispo Juan Barros, acusado de encobrir décadas de abusos sexuais praticados por um padre chileno — nomeação que motivou o reacender da polémica contra Barros.

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23 agosto, 2019

Arturo Sosa denuncia um complô ultraconservador para forçar um futuro Papa a renegar o Concílio Vaticano II.

IHU – “Existem pessoas dentro e fora da Igreja, que desejam que o papa Francisco renuncie, porém ele não o fará”. Claro e direto, o superior-geral da Companhia de Jesus, Arturo Sosa, sj., denunciou durante o Meeting de Rimini um complô dos setores ultraconservadores contra Bergoglio e o que isso representa.

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 20-08-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

O objetivo não é somente ir contra Francisco, mas ir mais além: “Creio que a estratégia final desses setores não é tanto forçar o papa Francisco a renunciar, mas também afetar a eleição do próximo pontífice, criando as condições para que o Papa seguinte não continue aprofundando o caminho que Francisco indicou e empreendeu”.

Por oposição, o superior dos jesuítas considera que “é essencial que essa viagem continue, de acordo com a vontade da Igreja claramente expressada no Concílio Vaticano II, do qual o papa Francisco é um filho legítimo e direto”.

Durante sua intervenção em RiminiArturo Sosa apontou a “nostalgia” da Igreja europeia por “um passado idealizado, como se a sociedade na Europa fosse uma sociedade cristã perfeita. As pessoas vivem nostalgicamente por um passado que nunca existiu. Nos Estados Unidos, por outro lado, se centram na inculturação”.

“O cristianismo não é uma religião intimista, somente se pode viver em comunidade”, agregou o jesuíta, que recordou como “o Espírito Santo nos fala hoje através dos jovens. Todos estamos chamados a nos aproximar deles”.

“A Igreja dirigida por Francisco está apostando na educação dos jovens, extraindo deles recursos e valores”, apontou Sosa, que citando Bergoglio insistiu que “o futuro da humanidade passa pela inclusão social dos pobres. Porém isso não se faz de fora, é uma condição para caminhar juntos. Devemos nos aproximar dos pobres, adquirir seu olhar na vida”.

“O discernimento deriva do sentido de obrigação para o imperativo da consciência, a obediência à vontade de Deus. A liberdade e a verdade, a lei e a responsabilidade, a autoridade e a obediência somente se integram no discernimento”, afirmou em outro momento do diálogo, no qual enfatizou a “mensagem revolucionária” que Francisco traz à Igreja: “Necessitamos conhecer intimamente ao Senhor que se fez homem para mim, para que quem o ama, o siga”.

“No discernimento – agregou – não estamos divididos entre crentes e não crentes, entre homens morais e não morais, entre aqueles que promovem o bem de todos ou aqueles que semeiam medo e divisão”.

Finalmente, e sobre a secularização da sociedade, Sosa apontou que “se o lemos como um sinal dos tempos, talvez seja um sinal de esperança e não desespero. A sociedade secular é talvez o novo espaço para viver e difundir nossa fé”.

16 agosto, 2019

Visita do papa à Argentina? Só quando o presidente for seu amigo Alberto Fernández, vencedor das primárias de domingo.

IHU – Sabe-se que, nas singulares – seria melhor dizer “únicas no mundo” – eleições primárias presidenciais de domingo passado na Argentina (chamadas PASO) [1], quem venceu com ampla margem foi o advogado criminalista Alberto Fernández, expoente do peronismo (Partido Justicialista), político especialista e hábil, 62 desde 2 de abril passado.

A reportagem é de Il Sismógrafo, 15-08-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fernández é defensor e animador de uma grande coalizão chamada “Frente de Todos” [2], na qual confluíram quatro importantes famílias políticas (partidos, movimentos e agrupamentos) e diversos grupos menores. A chapa proposta pela Frente para as primárias de alguns dias atrás – Alberto Fernández, candidato à presidência, e Cristina Fernández Kirchner [3], candidata à vice-presidência – teve o relevante apoio eleitoral e político da poderosa Confederação Geral do Trabalho e de dois ramos da Central dos Trabalhadores da Argentina.

Os dois candidatos da Frente em nível nacional receberam mais de 11.600.000 votos populares (o equivalente a 49,2%). O adversário, o atual presidente Mauricio Macri, do agrupamento “Juntos pela Mudança”, parou em pouco mais de 7.800.000 votos (33,1%) [4].

Segundo a Constituição argentina, para ganhar, é preciso que os candidatos da fórmula recebam pelo menos 45% dos votos no primeiro turno (27 de outubro) ou bastam apenas 40%, mas com uma diferença de pelo menos 10 pontos percentuais em relação ao segundo. Se essas condições não forem cumpridas, haverá segundo turno entre as duas primeiras maiorias no dia 24 de novembro.

Pode-se dizer, neste ponto, que os futuros governantes da Argentina, depois das próximas eleições presidenciais, serão quase certamente Alberto Fernández e Cristina Fernández Kirchner, que tomarão posse nos seus altos cargos no dia 10 de dezembro.

Esses dois políticos são pessoas muito próximas do Santo Padre, mesmo que, nos últimos anos, quando o pontífice era arcebispo de Buenos Aires, em mais de uma circunstância houve polêmicas, controvérsias e atritos entre eles.

Depois, com o passar dos anos, e em particular com a eleição do cardeal Bergoglio para a Sé de Pedro, tudo mudou, a ponto de Cristina Fernández Kirchner visitar o Vaticano em várias ocasiões em pouco tempo.

No momento em que Cristina Fernández Kirchner deixou a presidência, a aproximação entre ela e o pontífice estava mais do que completa. Até mesmo o futuro presidente Alberto Fernández foi protagonista nestes anos de uma aproximação e de um fortalecimento da amizade recíproca com o papa. Entre ele e J. M. Bergoglio, assim como no caso de Cristina, existe uma relação constante, embora a distância ou indireto.

Dos dois, o último a se encontrar com o Santo Padre foi justamente Alberto Fernández, recebido em Santa Marta há um ano, junto com o ex-ministro das Relações Exteriores do presidente Lula (Brasil), Celso Amorim, e o ex-ministro chileno, Carlos Ominami, no dia 2 de agosto de 2018 (foto abaixo)

Amorin, Francisco, Ominami e Fernández no Vaticano (Foto: L’Osservatore Romano)

Sabe-se que o papa já decidiu, como todos os setores argentinos muitas vezes lhe pediram, que vai visitar o seu país natal e também se sabe que essa visita deve ser em 2020. O anúncio oficial e talvez uma listagem genérica do programa devem ser oferecidos depois que se conhecer definitivamente o nome do novo presidente, ou seja, até o fim do ano.

Trabalha-se há muito tempo na preparação da peregrinação do Papa Francisco à Argentina, em particular no âmbito da catequese que normalmente precede essas visitas do pontífice. Agora, tais exigências se tornam mais prementes, porque, na realidade, já existem aquelas condições mínimas necessárias para organizar uma visita de Francisco, em particular as garantias que são oferecidas amplamente pelas futuras autoridades máximas da Argentina, especificamente que a presença do pontífice seja um sinal sólido e um símbolo de unidade nacional, de colaboração recíproca e de compromissos solidário de todos para enfrentar os desafios da nação.

Essa visita tão aguardada há vários anos deverá durar alguns dias e, portanto, não será uma viagem-relâmpago [5]. Provavelmente o papa visitará o país de uma ponta à outra e terá encontros com todos os setores sociais e as categorias da população. É bem sabido que o papa está ansioso por essa visita à Argentina, e, portanto, sua disponibilidade será mais do que generosa.

Notas:

[1] PASO.

[2] Frente para todos.

[3] Ex-presidente da Argentina, viúva do presidente Néstor Kirchner. Governou o país de 2007 a 2015.

[4] Resultados das primárias PASO – 11 de agosto de 2019.

[5] Com toda a probabilidade, a viagem papal incluirá uma parada no Uruguai(Montevidéu). João Paulo II visitou a Argentina duas vezes: em 1982 e depois em 1987. Durante essa última viagem, ele também visitou o Uruguai.

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12 agosto, 2019

Cardeais atacam sínodo e miram o papa Francisco.

Religiosos alemães dizem que evento sobre Amazônia seria uma ‘desculpa’ para tratar de política, abolição do celibato e sacerdócio feminino.

Por José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo, 11 de agosto de 2019 – As críticas de cardeais alemães ao Instrumento de Trabalho do Sínodo para a Amazônia e indiretamente ao papa Francisco deverão tumultuar o encontro em Roma, de 6 a 27 de outubro. A reunião de alguns dos principais nomes da Igreja Católica, já alvo de críticas políticas, também vira palco do confronto interno em relação ao atual pontificado.

O prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé (1912-1917), Gerhald Muller, de 71 anos, e seu colega Walter Brundemuller, de 90 anos – um dos signatários da carta Dubia, que pede esclarecimentos sobre a exortação apostólica Amoris Laetitia, na qual se discutem situações como a comunhão dos divorciados -, disseram que o documento sobre o Sínodo contém heresia, estupidez e apostasia.

Papa Francisco

Prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé acusa Francisco de trabalhar pela dissolução da Igreja Foto: MAURIZIO BRAMBATTI/EPA/EFE

No livro recém-publicado Römische Begegnungen (Encontros em Roma, em livre tradução), Muller acusa o papa Francisco de trabalhar pela dissolução da Igreja. No texto, há amplas críticas a aproximações com “política” e “intrigas”, além de falas sobre uma secularização da Igreja ao modelo protestante. São amplas as queixas, por exemplo, à celebração dos 500 anos da Reforma (em 2017), que teve em seu final a presença do pontífice.

Marxismo

Em relação ao encontro de outubro, Muller concentra suas objeções aos conceitos de cosmovisão (com acenos a mitos e rituais evocando a “mãe natureza”), ecoteologia, cultura indígena e ministério sacerdotal, com a possibilidade de ordenar padres casados, presente no instrumento de trabalho. “A cosmovisão dos povos indígenas é uma concepção materialista semelhante ao marxismo e não é compatível com a doutrina cristã”, afirmou o cardeal, em entrevista em 17 de julho. Àqueles que por acaso veem nele um defensor do eurocentrismo, Muller afirma que por 15 anos visitou o Peru, em viagens regulares de ao menos três meses. Nessas, manteve contatos constantes com Gustavo Gutierrez, principal teórico da Teologia da Libertação.

O ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé adverte que a tarefa dos cristãos não é preservar a natureza como ela é, mas ter a responsabilidade pelo progresso da humanidade, na educação e na justiça social, pela paz. Os homens, incluindo os índios da Amazônia, são assim chamados a colaborar com a vontade salvífica de Deus.

“É impossível esconder o fato de que esse sínodo é particularmente adequado para implementar dois dos projetos mais ambiciosos e que nunca foram implementados até agora: a abolição do celibato e a introdução de um sacerdócio feminino, a começar por mulheres diaconisas”, afirmou o cardeal Brundemuller.

O Sínodo da Amazônia terá cerca de 250 participantes, dos quais 61 brasileiros, sem contar os convidados do papa. Estarão presentes os bispos titulares dos nove Estados da Amazônia Legal: Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Amazonas, Pará, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso. Os países estrangeiros cortados pela floresta são Bolívia, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.

Dom Cláudio

O cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, d. Cláudio Hummes, presidente da Comissão Episcopal Especial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e nomeado pelo papa relator-geral do sínodo, não comentou ao Estado as críticas dos cardeais alemães ao Instrumento de Trabalho. Mas seu pensamento está em uma entrevista concedida ao padre Antonio Spadaro, diretor da Civiltà Cattolica, e publicada agora no semanário alemão Stimmen der Zeit.

Para Hummes, o foco da próxima reunião está em criar “uma Igreja indígena para as populações indígenas” e “inculturada”. Ele ainda destaca que o evento responde a um desejo do papa Francisco, sobre o qual conversavam – e “rezavam” – desde 2015.

Francisco diz que ordenação de casados não será tema central

“Absolutamente, não.” Em uma clara resposta a setores da Igreja que levantam dúvidas sobre o sínodo, o papa afirmou esta semana que a possibilidade de ordenar “viri probati” – normalmente idosos, ligados a comunidades amazônicas e de virtude comprovada – não será tema central do encontro. “É simplesmente um ponto do Instrumentum Laboris. O foco são os ministros da evangelização e as diferentes formas de atuação”, disse em entrevista publicada anteontem pelo jornal italiano La Stampa.

Mais diretamente, o pontífice afirmou que essa reunião é filha direta de sua encíclica verdeLaudato Si, na qual expõe o planeta como uma casa comum. “Quem não a leu não entenderá o sínodo”, diz Francisco. O papa defendeu a Amazônia como parte importante a ser preservada, a exemplo dos oceanos. Sua perda, segundo ele, poderia levar à redução da biodiversidade e ao surgimento de doenças mortíferas.

Na entrevista, o chefe da Igreja Católica não fugiu das discussões políticas na região, destacando por exemplo que os governos locais devem responder diretamente sobre “as minas ao ar livre” que envenenam os rios, por exemplo. “A ameaça à vida dessas populações e desse território envolve interesses econômicos e políticos dos setores dominantes da sociedade”, afirmou.

No texto divulgado na Alemanha, na semana passada, o cardeal d. Cláudio Hummes também afirmou que é necessário confrontar “resistências” existentes “tanto na Igreja quanto fora dela”. Para ele, “ interesses econômicos e o paradigma tecnocrático se opõem a qualquer tentativa de mudança e estão prontos a se impor pela força”. Ele fala ainda de crimes ambientais que ficaram impunes e destaca a necessidade de o encontro tratar de direitos humanos.

Medalha

Uma medalha cunhada especificamente para o sínodo foi apresentada anteontem, na qual aparece uma imagem do trabalho missionário da Igreja na Amazônia via rito do batismo e da eucaristia.

Em seu texto oficial, o Vaticano alega que “o enfoque missionário na Amazônia exige mais do que nunca um magistério eclesial exercido na escuta do Espírito Santo, que seja capaz de assegurar tanto a unidade como a diversidade e, portanto, uma cultura de encontro em harmonia multiforme”.

5 agosto, 2019

Revolução no Instituto João Paulo II para a Família.

Dom Vincenzo Paglia [o arcebispo do mural gay que outrora destruiu a Academia para a Vida] supervisiona amplas mudanças no instituto acadêmico dedicado ao matrimônio e à família.

Por ChurchMilitant.com, 26 de julho de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – Tem causado preocupação as grandes mudanças que se desenrolam sobre um instituto acadêmico pro-família e pro-matrimônio gerido pelo Vaticano.

Paglia e Francisco

Dom Vincenzo Paglia e Francisco.

O Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família está no meio de um furação, segundo uma matéria divulgada na quarta-feira no jornal italiano La Nuova Bussola Quotidiana. Dois padres que ocupavam as cátedras de teologia moral no instituto, Pe. José Noriega e Mons. Livio Melina, foram agora demitidos de seus cargos, como parte de vastas mudanças pedidas pelo Papa Francisco.

Padre Noriega, professor de Teologia Moral específica, e Mons. Livio Melina, professor de Teologia Moral Fundamental, foram ambos informados, na segunda-feira, que estavam sendo dispensados. A demissão dos padres se deve, segundo informam, à decisão de extinguir um curso de teologia moral.

Todos os outros professores do instituto tomaram ciência, na segunda-feira, de que eles estavam oficialmente suspensos, no aguardo de decisões sobre o ano acadêmico seguinte. Alguns podem perder seus cargos, outros não. Informaram-lhes que a decisão final seria tomada dentro de alguns dias.

Supervisiona a reformulação o grão-chanceler do instituto, Dom Vincenzo Paglia — presidente da Pontifícia Academia para a Vida. As mudanças aparentemente contradizem a declaração dada por Paglia em 2007, onde afirmava que as mudanças vindouras não envolveriam o corte do corpo docente.

A demissão de Monsenhor Melina é especialmente significativa, uma vez que ele foi presidente do instituto de 2006 a 2016 e esteve envolvido com ele desde seu início, na década de 80.

Riccardo Cascioli, editor de La Nuova Bussola Quotidiana, observou, no artigo de quarta-feira, que “antes de tudo, a demissão de Mons. Melina é de grande e grave significado”.

Cascioli notou ainda no artigo que “Melina já havia entrado no instituto como estudante à época de sua fundação, em 1982, para então ser o primeiro [estudante do instituto] a obter um doutorado em 1985”.

Church Militant contatou a Dra. Jennifer Roback Morse, do Ruth Institute, uma entidade católica pró-família que busca combater os efeitos danosos da revolução sexual. Ela comentou que a demissão dos dois padres: “Trata-se de um ato de vandalismo intelectual”.

“Uma faculdade boa e ortodoxa deveria contratar esses dois professores de teologia moral”, acrescentou. “Qualquer instituição que fizesse isso certamente faria algo notável”. 

A reformulação é resultado dos novos estatutos do Instituto João Paulo, supostamente elaborados no início do ano por Dom Paglia e pelo presidente do instituto, Mons. Pierangelo Sequeri. Dentre outros pontos, o novo estatuto concede um nível de controle sem precedentes ao grão-chanceler.

O próprio estatuto foi parte do resultado da carta apostólica do Papa Francisco, de setembro de 2017, Summa Familiae Cura. Nela, Francisco essencialmente acabou com o instituto existente e estabeleceu um novo, mudando sua missão oficial e atualizando seu nome.

Logo após o documento, Dom Paglia comentou que a reestruturação incluiria um foco “teológico” e “científico” adicional, assim como acrescentar uma ênfase no “diálogo”.

Ele também afirmou: “É claro que o diálogo com aqueles que não são católicos deve ocorrer”.

A publicação de Summa Familiae Cura se deu em 8 de setembro de 2017, apenas dois dias após a morte do Cardeal Carlo Caffarra, em 6 de setembro, o fundador e presidente emérito do instituto.

O então Mons. Caffarra foi presidente do Instituto João Paulo II durante sua fundação no início de 1980.

Cardeal Caffarra foi um dos quatro cardeais que assinaram o dubia, uma série de questionamentos teológicos apresentados ao Papa Francisco, publicados em novembro de 2016. O dubia buscava esclarecimentos acerca de Amoris Laetitia, um documento papal criticado por ser ambíguo e interpretado por alguns como favorecedor da Sagrada Comunhão para divorciados recasados civilmente.

O Papa S. João Paulo II deu aprovação oficial ao Instituto, que posteriormente tomaria seu próprio nome, em outubro de 1982, com a constituição apostólica Magnum Matrimonii Sacramentum.