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21 julho, 2021

A síndrome do pato manco, ou o isolamento do Papa.

Por Benoit et Moi | Tradução: FratresInUnum.com * – Na política, existe uma expressão ouvida com frequência e muito temida pelos governantes: o pato manco, que designa um pato incapaz de seguir o grupo e que se torna, portanto, o alvo dos predadores.

Esse apelido também é conferido a um dirigente que, por diversas razões, especialmente porque está chegando ao fim do mandato, perdeu o poder. E o modo mais claro de identificar um pato manco é ver a reação de seus amigos: quando o deixam sozinho, quando o grupo o abandona, há um sinal indiscutível de que o pobre palmípede está nas últimas[1].

Parece que é o que está acontecendo com o papa Francisco: sua claudicação não é somente o efeito de uma ciática, é também o efeito da perda de poder devido à gestão catastrófica de seu pontificado, e aos sinais nítidos de que seu fim se aproxima. O fato de que nada menos que Andrea Riccardi, figura de proa da Comunidade de Santo Egídio, tenha publicado um livro intitulado La Chiesa bruccia (A Igreja queima) é extremamente sintomático. Parece que a peronização provocada por um papa peronista tenha também seus lados obscuros, pois, diz-se que os peronistas acompanham seus colegas até a porta do cemitério, mas não entram, e é precisamente o que está acontecendo.

O papa está sozinho

Um dos erros mais graves que um dirigente que sofre da síndrome do pato manco pode cometer é dar ordens universais muito severas, pois ele corre o risco de ser desobedecido e revelar, assim, sua fraqueza. E é exatamente o que parece acontecer com o papa Francisco após a publicação do motu proprio Traditionis custodes. Por ora, a única adesão clara e universalmente conhecida que ocorreu é a de Dom Ángel Luis Ríos Matos, bispo de Mayaguez, em Porto Rico, que publicou um decreto hilariante no qual ele anuncia que, ainda que não seja celebrada a missa tradicional em sua diocese, ele a proíbe mesmo assim, e, aproveitando o embalo, ele também aproveita para proibir o uso da casula romana, das toalhas de linho e do véu umeral.

Similar disposição foi tomada pelos bispos da Costa Rica. Os tiranos engendram tiranias patéticas, e Bergoglio engendrou incontáveis bispos medíocres que povoarão tristemente os Prados de Asfódelos[2] (é curioso que nas fotos que se encontra facilmente na internet, Dom Ríos Matos apareça sempre vestido com todos os ornamentos episcopais possíveis). E, não sei o porquê, mas tudo isso me lembra o romance de Evelyn Waugh, Black Mischie[3].

O site Rorate Coeli faz uma lista das missas proibidas pelos bispos. Veremos o que acontecerá, mas, até agora, as reações foram aquelas que havíamos predito neste blog há alguns dias, ainda que, devo admitir, tenha sido surpreendido pela rapidez e clareza com as quais os bispos franceses, ingleses e americanos reagiram.

A Conferência episcopal francesa, com estas circunlocuções tipicamente gaulesas, tirou a bola de campo. Para eles, não se trata de discutir sobre a lex orandi ou a lex credendi da igreja do Papa Francisco, mas, de fato, de que o motu proprio os convida a refletir sobre a importância da Eucaristia na vida da Igreja, e que, em setembro, após as férias, eles se reunirão sobre isso.

Na mesma linha, o bispo de Versalhes, onde estão instaladas importantes comunidades tradicionalistas, já fez saber por escrito que, em sua diocese, as coisas continuarão como estavam, e o mesmo foi dito, logo após a publicação do documento, pelo arcebispo de São Francisco, seguido por numerosos outros bispos americanos – por exemplo, o de Cincinatti – que, mais discretamente, informaram aos padres e fiéis próximos do rito tradicional que eles não promoverão nenhuma mudança, apesar das ordens pontifícias.

Na Inglaterra, a maioria dos bispos fizeram a mesma coisa: logo após a publicação do motu proprio, eles mesmos anunciaram, de modo oficial e selado, que, em suas dioceses, não haveria nenhuma mudança em relação à missa tradicional. E o curioso é que, em sua maioria, quer sejam franceses, americanos ou ingleses, não são bispos com simpatias tradicionalistas particulares, mas bispos com tendências claramente liberais. Logo, por que essa reação tão rápida, tão clara e tão contrária aos desejos pontifícios evidentes?

Pode-se apenas conjecturar sobre a resposta, mas podemos propor algumas. Uma coisa que fica clara é que os bispos não temem mais as “misericórdias pontifícias”, o que teria acontecido, sem dúvida, outrora. E isso é um sinal evidente da síndrome do pato manco: Francisco poderia demitir Salvatore Cordileone de sua sé arcebispal? Ele não tem mais força para fazer isso. O episcopado americano está muito furioso com o papa, e a ameaça de uma “misericórdia” em razão da não aplicação do motu proprio seria combatida pela Conferência dos bispos. A declaração dos bispos franceses, ainda que para alguns ela dê a impressão de eles estão lavando as mãos, é um tipo de blindagem: aqui a gente vai refletir sobre a Eucaristia, dizem eles, e, quanto às proibições, cada bispo verá o que fará. E já vimos o que eles fazem: eles não proíbem nada.

Este é precisamente o nó do problema: os bispos dos dois lados do Atlântico não querem iniciar uma guerra inútil. Em suas dioceses, graças ao Summorum Pontificum, a pax liturgica foi concretizada. As coisas funcionam, e funcionam bem: as ideologias, salvo em casos raros, desapareceram. E o crescimento constante das comunidades, dos padres e das vocações tradicionalistas já era considerado como uma bênção, e não um perigo, ou seja, precisamente a visão oposta àquela apresentada por Bergoglio em seu documento.

Localmente, nas dioceses, os únicos que funcionam mais ou menos bem são os grupos litúrgicos tradicionais. Na Europa, exterminar a missa tradicional significaria importar diretamente da África curas de misa y olla[4].

Se todo documento jurídico deve ser interpretado conforme o espírito do legislador, o que sobressai do motu proprio é que o papa Francisco quer evitar quebrar a unidade sobre as questões litúrgicas. Assim, com toda legitimidade e com toda tranquilidade de espírito, os bispos que julgam que, em suas dioceses, a diversidade litúrgica do rito romano não gera problema e não fere a unidade, podem ignorar a norma. Mais honestamente, a maioria dos bispos não tem vontade de entrar em uma guerra que não existe senão na mente de Bergoglio e de seus ideólogos de serviço, desta vez, Andrea Grillo. Como escreveu justamente Tim Stanley em The Spectatorparecemos viver nos anos de Leonid Brejnev, na União soviética: um governo de gerentes, ligados a uma velha fotografia desgastada que retrata a situação de um país que não existe mais.

É inconcebível que a Igreja latina tenha caído ao longo dos dois últimos séculos em um hiperpapalismo tão extremo que permita manifestações tais como Traditionis custodes, na qual o papa de Roma se intromete a tal ponto em cada dioceses, que ele indique ao bispo quais paróquias ele pode ou não erigir. É um contrassenso impensável na Igreja medieval e impensável na igreja oriental. Como disse o cardeal Müller, em sua carta de leitura indispensável, os bispos são colocados enquanto pastores e “não simples representantes de um escritório central, com possibilidades de promoção”.

A carta do cardeal Müller desmonta, além do mais, os artifícios teológicos sobre os quais Bergoglio tentou construir seu motu proprio, explicando, por exemplo, o que significa e o que não significa a lex orandi – lex credendi, e mostrando os absurdos bergoglianos. Trata-se de um fato histórico: em 1646, o papa Inocêncio X, sob instigação dos jesuítas, suprimiu (o termo utilizado era redução) a florescente congregação dos educadores fundada por São José Calasanz – os piaristas – por meio do breve Ea quae pro felici. Assim que ficou conhecido, espalharam-se críticas. Ingoli, secretário da Propaganda fidei, ao ver o documento impresso, disse: “Em outro pontificado, eles poderiam utilizá-lo como tampa para os potes”, e o padre Orsini, internúncio da Polônia, escreveu: “É um Breve feito com um machado… Não tenha dúvidas… que, em outro pontificado, será anulado”. E, com efeito, foi o que aconteceu.

Em resumo, Bergoglio sofre da síndrome do pato manco. Com a publicação de Traditionis custodes, ele ficou amplamente desacreditado e acelerou o declínio e o fim de seu pontificado catastrófico.

* Nosso agradecimento a um caro leitor pela gentileza da tradução fornecida.

Nota: a dureza e a ironia da carta do cardeal Müller se juntam a expressões de repúdio de Bergoglio provenientes de outros meios. Michel Onfray, o popular ateu e filósofo progressista francês, escreveu no Le Figaro que a missa em latim é um patrimônio universal ao qual não se pode tocar e desqualifica Bergoglio, classificando-o de “jesuíta e peronista” cuja formação é a de um “químico”. José Manuel de Prada, em ABC, declarou que ele tira o chapéu para entrar na igreja, mas não levanta a cabeça, o que pede o motu proprio franciscano.

[1] No mundo político anglo-saxão, um lame duck designa um eleito cujo mandado chega ao fim, e, mais particularmente, um eleito ainda no cargo, enquanto seu sucessor, já eleito, ainda não ocupa o cargo.

[2] Um lugar dos Infernos na mitologia grega.

[3] Em francês “Diablerie”, 1932: caricatura dos esforços de Hailé Sélassié Iº para modernizar a Abissínia. Narração irônica, cínica e convincente de um fracasso retumbante.

[4] Em linguagem familiar designa padres que possuem uma baixa formação e pouca autoridade.

20 julho, 2021

A falácia da única “lex orandi”.

Por FratresInUnum.com, 20 de julho de 2021 – A pedra fundamental de todo o Motu Proprio sadicamente intitulado de Traditioni Custodes é a afirmação de que “os livros litúrgicos promulgados pelos santos Pontífices Paulo VI e João Paulo II, em conformidade com os decretos do Concílio Vaticano II, são a única expressão da lex orandi do Rito Romano” (art. 1).

Pachamama e Francisco. Em “Querida Amazônia”, o Papa cita benevolamente a proposta de se criar um Rito Amazônico. Fará ele parte da única Lex Orandi da Igreja dos pobres?

Esta pretensão de Francisco é simplesmente uma aberração teológica com aparências de sapiente e, em si mesma, tal afirmação não exprime coisa alguma, mas apenas vacuidade.

De um lado, o significado do axioma “lex orandi, lex credendi” é precisamente o de indicar a tradição litúrgica da Igreja como fonte da fé teologal da mesma: ou seja, o acervo de textos da longa tradição litúrgica da Igreja é um grande monumento da ortodoxia da fé católica e, por isso, fonte mesma para a sua elaboração teológica.

Neste sentido, a liturgia romana tradicional é em si mesma, independentemente do que diga quem quer que seja, exímia expressão da “lex orandi” e da “lex credendi”, pois é um colosso de ortodoxia que organicamente se foi desenvolvendo ao longo dos séculos, numa continuidade comovente, que remete, em última análise, à Fé apostólica.

No referido Motu Proprio, Francisco demonstra ignorar o significado preciso dessa terminologia teológica, entendendo por “lex orandi” aquilo que o Papa determinar segundo o seu arbítrio, aleatoriamente, autoritariamente. “Lex orandi”, na cabeça do papa argentino, são as normas litúrgicas tais quais expressas no direito positivo.

A má vontade de Bergoglio para com os “rígidos” conservadores é tamanha que ele, durante toda a vida, ignorou as lições do Papa alemão, dentre as quais:

“O Papa não é monarca absoluto, cuja vontade é lei; antes, ele é guardião da Tradição autêntica e, portanto, o primeiro garantidor da obediência. Ele não pode agir como bem entende e, por isso, ele pode se opor àqueles que, por sua vez, querem fazer o que lhes vem à cabeça. A sua lei não é a do poder arbitrário, mas da obediência na fé. É por isso que, no que diz respeito à Liturgia, ele tem o papel de jardineiro, e não de técnico que constrói novas máquinas e joga as antigas no ferro velho” (Cardeal Joseph Ratzinger, prefácio a “O Desenvolvimento Orgânico da Liturgia”, 2005).

Na carta aos bispos que acompanha o motu proprio, Francisco chega ao primarismo de dizer que está fazendo o mesmo que São Pio V, isto é, abolindo os livros litúrgicos precedentes. Ora, São Pio V jamais quis criar uma nova missa em seu tempo. Seguindo exatamente o critério teológico “lex orandi, lex credendi”, restaurou a liturgia romana como em sua tradição e retirou alguns usos recentes, de menos de 200 anos, garantindo então uma desintoxicação protestante e estabelecendo os novos livros como obrigatórios, justamente porque mais antigos e não porque mais novos.

O Novus Ordo, ao contrário, foi produção de laboratório, criado por um time que incluía protestantes e maçons em sua redação — certamente de participação menos relevante e perigosa que a dos próprios modernistas titulares da equipe. Nunca se inventou uma nova liturgia do dia para a noite na Igreja e, aliás, não foi isso que o Concílio Vaticano II pediu que se fizesse. Os reformadores foram muito além do que solicitado pelo Concílio e, neste caso, nem a autoridade do Papa pode mudar os fatos: diferentemente da missa tradicional, a missa nova não foi uma produção orgânica, mas um experimento laboratorial imposto sobre todos os fiéis.

“A reforma litúrgica, na sua realização concreta, distanciou-se a si mesma ainda mais da sua origem. O resultado tem sido não uma reanimação, mas uma devastação. Em vez da liturgia, fruto dum desenvolvimento contínuo, puseram uma liturgia fabricada. Esvaziaram um processo vital de crescimento para o substituir por uma fabricação. Não quiseram continuar o desenvolvimento, a maturação orgânica de algo vivo através dos séculos, e substituíram-na, à maneira da produção técnica, por uma fabricação, um produto banal do momento”. (Cardeal Joseph Ratzinger, Revue Theologisches, Vol. 20, Fev. 1990, pgs. 103-104)

Obviamente, pressupõe-se que, havendo matéria, forma e intenção, a Missa Nova é válida, mas isso não significa que ela esteja liturgicamente numa continuidade intrínseca com a “lex orandi” objetiva da Igreja e muito menos que não possa e até não deva ser corrigida em seus defeitos e melhorada (aquilo que Bento XVI chamava de “reforma da reforma”).

Em todo caso, é absurdo, ridículo, fruto de ignorância, tentar definir de maneira propriamente legalista qual é a “lex orandi” da Igreja mediante um decreto. Isso não é apenas atropelar os fatos e impor despoticamente uma opinião infantil, mas é sobretudo ignorância acerca da própria natureza da coisa e dos próprios limites em que existe a autoridade pontifícia.

Há muita leviandade que se diz atualmente, inclusive com boa intenção. Uma delas é a ideia de que, se o Papa alterou, temos que obedecer; que ele tem autoridade para mudar ritos na Igreja, etc.

O que essas almas bem intencionadas não entendem é que isso aqui não se trata de uma mudança de rito (aliás, estamos falando sempre do Rito Romano, o qual sofreu não uma reforma, mas uma recriação na chamada reforma litúrgica – precisamos dar o nome correto para as coisas!), mas uma simultaneamente ignorante e abusiva nova interpretação do que significa “lex orandi”, como se um papa pudesse criá-la ex nihilo, ao invés de identificá-la e determiná-la em sua fidelidade intrínseca e objetiva.

Assim como a Sagrada Escritura é uma das fontes da Teologia, a “lex orandi” é uma das fontes da Tradição. Não se trata de uma regra canônica, de uma lei eclesiástica positiva, a qual se possa mudar de qualquer modo. O conceito teológico de “lex orandi” é muito mais rico e preciso e dizer que, a partir de agora, os novos livros litúrgicos são a sua única expressão para o Rito Romano é simplesmente ridículo. Não é algo que se possa levar à sério.

Portanto, aqui não é o caso de se obedecer ou não. É que o que está escrito não tem sentido, mesmo. É como querer mudar as leis da física ou da lógica por decreto, é extrapolar os limites de uma autoridade e da própria realidade. Isso, Francisco não pode fazer. Assim como ele não pode mudar os dogmas, alterar as Sagradas Escrituras ou o conteúdo mesmo da Tradição. Ele é um Papa, não é um Deus.

19 julho, 2021

O totalitarismo bergogliano, recorrência jesuítica.

Por FratresInUnum.com, 19 de julho de 2021 – Um dos dias mais traumatizantes da história da Igreja foi 21 de julho de 1773, quando o Papa Clemente XIV, com uma canetada, decretou a supressão da Companhia de Jesus pelo Breve Dominus ac Redemptor, um ato autoritário que teve como consequência a prisão do Padre Ricci, prepósito na época, e o imediato despojamento de 23 mil jesuítas. Expulsos de suas casas, os padres foram exilados de vários países, perderam todos os seus bens e cerca de 20% tiveram de abandonar o sacerdócio. Foi o momento mais doloroso na história da Companhia de Jesus e uma página negra da história da Igreja.

Fiéis rezam na Catedral de Buenos Aires após o anúncio da eleição do Papa Francisco.

Fiéis rezam na Catedral de Buenos Aires após o anúncio da eleição do Papa Francisco.

Não é sem certa ironia que, agora, o primeiro papa jesuíta reproduza modos tão similarmente autoritários. Com uma simples canetada, não apenas pretende extinguir a “forma extraordinária do rito romano”, mas restringe o seu acesso a ponto de proibir que seja celebrado em Igrejas paroquiais e de que os padres ordenados doravante precisem de uma autorização de Roma para poder celebrá-la.

Francisco quis desqualificar a “forma extraordinária” pelo fato de dizer que a única lex orandi do rito romano é o novus ordo. Essa imposição é completamente alheia a qualquer pretensão do rito romano, que sempre admitiu várias formas (seja de celebrá-lo, como a forma lida, a forma solene, a forma pontifical, a missa papal, além de uma pluralidade de usos, como os ritos das ordens religiosas ou mesmo as variações do próprio rito romano, como o rito bracarense ou o ambrosiano, por exemplo).

Por detrás de palavras aparentemente sérias, Francisco apenas diz um non sense que esconde o seu senso ditatorial e totalitário — senso há muito conhecido pelos irmãos argentinos, nos tempos do Cardeal Bergoglio enquanto arcebispo de Buenos Aires.

Na carta aos bispos, ele confessa que a sua motivação é censurar todas as críticas ao Vaticano II. Obviamente, censurar as críticas dos tradicionalistas, pois as críticas progressistas, que dizem estar ultrapassado o Concílio, estas ele deixa correr soltas.

Além de plurirritualista, a Igreja sempre teve pluralidade de discussões quando o assunto não é dogmático. Francisco ama chocar, vive lacrando às custas da doutrina da Igreja, mas não admite nenhuma crítica a um concílio que quis ser tudo, menos dogmático. É o Vaticano II como super dogma, expressão do então Cardeal Ratzinger, redivivo.

Estamos vivendo a mais terrível censura jamais vista em nenhuma ditadura, nem sequer nos tempos do nazismo. Francisco não quer discussão, quer calar a boca e retirar os meios de ação dos grupos católicos. Trata-se de um amordaçamento coletivo e da criação de campos de concentração de católicos tradicionais para a sua sumária extinção. Os métodos são nazistas como nazista é a pretensão. Recorda-se Francisco que o Papa não é dono da Igreja, nem que a palavra final é de Nosso Senhor?

Francisco ressuscitou Clemente XIV, colocando-se, como ele, nas mãos dos mais sanguinários revolucionários. Ele está repetindo a história, dessa vez contra os católicos indefesos, sem conseguir esconder o seu ódio, de quem realmente quer eliminar os desafetos.

O título sádico que ele escolheu para o Motu Proprio, “Traditione Custodes”, revela ele mesmo a sua aguda malícia e o seu venenoso escárnio. Isso é um costume da sua crueldade. Não foi ele que chamou de “Como uma Mãe Amorosa” o documento em que ele criminaliza potencialmente os bispos, enquanto se exime de culpa no caso dos abusos sexuais?

Contudo, este sadismo revela também a sua sanha psicopática. Não se trata apenas de ironia diabólica, mas também daquilo que os psicólogos chamam de “estimulação contraditória”, “uma técnica de engenharia social que dispara comandos opostos a indivíduos docilmente dispostos a obedecê-los, desorientando suas defesas psicológicas e fazendo com que sutilmente passem a aceitar qualquer outro comando mesmo que absurdo”.

Esta é a razão pela qual você, querido leitor, talvez tenha se sentido desorientado e perplexo diante do AI-5 promulgado por Francisco na última sexta-feira. Você e a maior parte dos fiéis percebeu que há uma malícia superior à nossa ordinária capacidade de discernimento.

Não estamos lidando com um amador, mas com um verdadeiro ditador, um maquiavélico descontrolado que usa o poder papal dos modos mais agressivos para promover a completa extirpação daqueles que odeia. No caso, o ódio não é apenas doutrinal, mas é objetificado em pessoas, em você e em mim, em nós que somos e queremos continuar sendo simplesmente católicos.

18 julho, 2021

De ‘Summorum Pontificum’ a ‘Traditionis Custodes’. Ou, da reserva ao zoológico.

Por FSSPX News | Tradução: FratresInUnum.com, 17 de julho de 2021: O Papa Francisco publicou ontem um Motu Proprio cujo título poderia nos encher de esperança: Traditionis custodes, “Guardiões da Tradição”. Sabendo que este texto é dirigido aos bispos, poder-se-ia começar a sonhar: acaso a Tradição está em vias de recuperar seus direitos da Igreja?

Pelo contrário.  Este novo Motu Proprio realiza uma aniquilação. Ilustra a precariedade do atual magistério e indica a data de validade de  Summorum Pontificum de Bento XVI, que não poderá nem mesmo comemorar seu décimo quinto aniversário.

Tudo, ou quase tudo, de Summorum pontificum foi disperso, abandonado ou destruído. Além disso, o objetivo é claramente declarado na carta que acompanha esta aniquilação.

O Papa enumera dois princípios «sobre o modo de proceder nas dioceses»: «por um lado, proporcionar o bem a quem está enraizado na forma anterior de celebração e que necessita de tempo para regressar ao rito romano promulgado por S. Paulo VI e João Paulo II”.

E, por outro lado: “interromper a ereção de novas paróquias pessoais, ligadas mais ao desejo e à vontade individual dos sacerdotes do que à necessidade real do ‘santo povo fiel de Deus’”.

Uma aniquilação programada

Enquanto Francisco se torna o defensor das espécies animais ou vegetais ameaçadas, ele decide e promulga a extinção daqueles que estão apegados ao rito imemorial da Santa Missa. Esta espécie não tem mais o direito de viver: deve desaparecer. E todos os meios serão usados ​​para alcançar este resultado.

Primeiro, uma redução estrita da liberdade. Até agora, os espaços reservados para o rito antigo possuíam uma certa latitude de movimento, muito semelhante às reservas naturais. Hoje, passamos para o regime de zoológico: gaiolas, bem confinadas e delimitadas. Seu número é estritamente monitorado e, uma vez instalado, será proibido criar mais. 

Os guardiães (ou deveríamos dizer os carcereiros?) não são outros senão os próprios bispos.

Tudo isso está especificado no artigo 3, parágrafo 2: “o bispo deve indicar um ou mais lugares onde os fiéis pertencentes a estes grupos possam se reunir para a celebração da Eucaristia (não em igrejas paroquiais e sem erigir novas paróquias pessoais)”.

O regulamento interno destas celas é estritamente controlado (artigo 3º, parágrafo 3º): “O bispo fixará no local indicado os dias em que são permitidas as celebrações eucarísticas, utilizando o Missal Romano promulgado por São João XXIII em 1962.”

Este controle se estende ao menor detalhe (idem): “Nessas celebrações, as leituras serão proclamadas no vernáculo, utilizando as traduções da Sagrada Escritura para uso litúrgico, aprovadas pelas respectivas Conferências Episcopais”. Nem se fale em tradução de um lecionário de outrora.

A eutanásia está prevista para espécimes considerados inaptos para cuidados paliativos (artigo 3º, parágrafo 5º): “O bispo procederá, nas paróquias pessoais canonicamente erigidas em benefício destes fiéis, uma avaliação adequada de sua real utilidade para o crescimento espiritual, e decidirá se as mantêm ou não”.

Além disso, a reserva é eliminada em sua totalidade, pois a comissão Ecclesia Dei desaparece (artigo 6): “Os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, instituídos pela Pontifícia Comissão  Ecclesia Dei,  passam a ser da competência da Congregação para o Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica”.

Proibido para imigrantes

Enquanto o Papa não deixa de cuidar de todos os tipos de imigrantes, nas prisões que agora ele instala qualquer tipo de imigração é estritamente proibida.

Para evitar a constituição de reservas indígenas, o Papa proíbe qualquer expansão da prisão (artigo 3º, parágrafo 6º): “O bispo (…) terá o cuidado de não autorizar a criação de novos grupos”.

Essa medida também se assemelha à esterilização: é proibida a reprodução e a perpetuação desses selvagens do passado que devem desaparecer.

Esta esterilização também diz respeito aos padres que serão ordenados no futuro (artigo 4): “Os padres ordenados após a publicação do presente Motu Proprio, que desejam celebrar com o Missale Romanum de 1962, devem apresentar um pedido formal ao bispo diocesano, que consultará a Sé Apostólica antes de conceder autorização”.

Quanto aos padres que já beneficiam de autorização, a partir de agora necessitarão de uma renovação do seu visto de “celebração”, que se assemelha a um visto temporário (artigo 5º): “padres que já celebram segundo o  Missale Romanum de  1962 pedirão ao bispo diocesano autorização para continuar a manter essa faculdade”.

Portanto, quando se trata de conter, reduzir ou mesmo destruir esses grupos, os bispos têm carta branca, mas se for preciso autorizar [que um novo padre celebre a Missa], o Papa não confia neles: é preciso passar por Roma.

Enquanto dezenas de padres, muitas vezes apoiados por seus bispos, zombavam da Congregação para a Doutrina da Fé ao “abençoar” casais homossexuais sem qualquer reação romana, exceto a aprovação velada de Francisco por meio de uma mensagem ao Padre [James] Martin [ndt: jesuíta americano defensor do gayzismo em todas as modalidades], os futuros padres serão observados de perto se eles considerarem celebrar a Missa de São Pio V.

Obviamente, é mais fácil esconder sua falta de autoridade aterrorizando os fiéis que não resistirão, do que controlar o cisma alemão. Como se não houvesse nada mais urgente do que atingir essa parte do rebanho…

Vacinação contra o lefebvrismo

O grande temor da contaminação pelo vírus Lefebvrista é exorcizado com a vacina obrigatória Vaticano II – do Laboratório Moderno – (artigo 3º, parágrafo 1º): “O bispo verificará se esses grupos não excluem a validade e legitimidade da reforma litúrgica, das disposições do Concílio Vaticano II e do Magistério dos Sumos Pontífices”.

E tudo o que poderia ser uma potencial fonte de contágio é brutalmente eliminado (artigo 8º): “Revogam-se as normas anteriores, instruções, concessões e costumes que não observem o disposto neste Motu Proprio”.

Levado pelo entusiasmo, o Papa diz praticamente que a missa antiga é um vírus perigoso do qual é preciso proteger-se. Por exemplo, o artigo 1 especifica: “Os livros litúrgicos promulgados pelos Sumos Pontífices Paulo VI e João Paulo II, de acordo com os decretos do Concílio Vaticano II, são a única expressão da lex orandi do Rito Romano.”

Se o Novus ordo é a única expressão da lex orandi , como qualificar a Missa Tridentina? Está em um limbo litúrgico ou canônico? Esta missa não tem direito ao lugar ainda ocupado pelo rito dominicano, pelo rito ambrosiano ou pelo rito Lyon na Igreja latina?

É o que se depreende do que diz o Papa na carta que acompanha o Motu proprio. Parece que, sem suspeitar do paralogismo que comete, escreve: «Consolo-me nesta decisão que, depois do Concílio de Trento, São Pio V também revogou todos os ritos que não podiam gabar-se de comprovada antiguidade, estabelecendo um Missale Romanum único  para toda a Igreja latina. Durante quatro séculos, este Missale Romanum  promulgado por São Pio V foi, portanto, a expressão principal da  lex orandi  do rito romano, cumprindo uma função unificadora na Igreja”.

A conclusão lógica que se segue dessa comparação é que esse rito deve ser mantido. Ainda mais quando a bula Quo primum de São Pio V o protege de qualquer ataque.

Isso também foi confirmado pela comissão de cardeais reunida por João Paulo II, que afirmou, quase unanimemente (8 de 9), que nenhum bispo poderia impedir um padre de celebrar a missa antiga, depois de ter unanimemente observado que esta última nunca tinha sido ab-rogada.

E que também é confirmado pelo que o Papa Bento XVI aceitou e ratificou em Summorum Pontificum .

No entanto, para Francisco, os antigos ritos defendidos por São Pio V, incluindo a chamada Missa Tridentina, aparentemente não têm valor unificador. O novo rito, e só ele, com seus cinquenta anos de existência, suas infinitas variações e seus inúmeros abusos, é capaz de dar unidade litúrgica à Igreja. A contradição é gritante.

Voltando à sua ideia de eliminação das espécies, o Papa escreve aos bispos: «Antes de tudo, corresponde a vós trabalhar pelo regresso a uma forma única de celebração, verificando caso a caso a realidade dos grupos que celebram com este Missale Romanum “.

Uma lei claramente oposta ao bem comum

A visão geral que emerge desses documentos – o Motu Proprio e carta anexa do Papa – dá a impressão de sectarismo acompanhado de um manifesto abuso de poder.

A Missa Tradicional pertence à parte mais íntima do bem comum da Igreja, portanto, restringindo-a, rejeitando-a, jogando-a em guetos e, em última instância, planejando seu desaparecimento, não se pode ter qualquer legitimidade. Esta lei não é uma lei da Igreja, porque, como diz Santo Tomás, uma lei não pode ser válida se violar o bem comum. 

Mas há algo mais nas entrelinhas, um tom evidente da maldade manifestada por certos fanáticos furiosos da reforma litúrgica contra a Missa Tradicional. O fracasso desta reforma é revelado, como no claro-escuro, pelo sucesso da Tradição e da Missa Tridentina.

É por isso que eles não podem aceitá-la. Sem dúvida, eles imaginam que seu desaparecimento total fará com que os fiéis retornem às igrejas esvaziadas do sagrado. Erro trágico. O magnífico ápice desta celebração digna de Deus só realça ainda mais a sua indigência: ela não é a causa da desertificação produzida pelo novo rito.

A verdade é que este Motu Proprio, que mais cedo ou mais tarde acabará no esquecimento na história da Igreja, não é em si uma boa notícia: marca um golpe na reapropriação da Igreja com sua Tradição, e atrasará o fim da crise que já dura mais de sessenta anos.

Quanto à Fraternidade São Pio X, ela vê nele uma nova razão de fidelidade ao seu fundador, Dom Marcel Lefebvre, e de sua admiração por sua clarividência, sua prudência e sua fé.

Embora a Missa tradicional esteja em vias de ser eliminada e as promessas feitas às sociedades Ecclesia Dei também estejam a ser cumpridas, a Fraternidade São Pio X encontra na liberdade que lhe foi legada pelo Bispo de ferro a possibilidade de continuar a luta pela Fé e pelo Reinado de Cristo Rei.

16 junho, 2021

Não, o Papa Francisco não cancelou um encontro com o presidente Biden.

Por Joshua J. McElwee, National Catholic Register, 15 de junho de 2021 | Tradução: FratresInUnum.comO Papa Francisco não se encontrou com o presidente dos EUA, Joe Biden, hoje, 15 de junho. Apesar de relatos da mídia conservadora em sentido contrário, sequer parece que o papa planejou fazê-lo.

Biden está na Europa desde 9 de junho para sua primeira viagem ao exterior como presidente, participando de uma cúpula de líderes do G7 na Grã-Bretanha no fim de semana, antes de participar de reuniões com oficiais da Otan e da União Europeia em Bruxelas, Bélgica, de 14 a 15 de junho.

O então vice-presidente dos EUA, Joe Biden, encontra o Papa Francisco depois que os dois líderes falaram em uma conferência sobre pesquisa com células-tronco adultas no Vaticano, em 29 de abril de 2016, foto de arquivo. (CNS / Paul Haring)

Durante a tarde de 15 de junho, o presidente deveria viajar a Genebra, na Suíça, para um encontro bastante aguardado, no dia seguinte, com o presidente russo Vladimir Putin.

Segundo a Catholic News Agency – CNA [no Brasil, ACI Digital], de propriedade da EWTN, Biden faria uma parada rápida em Roma para se encontrar com Francisco no caminho de Bruxelas para Genebra. Alguns problemas imediatos com essa história: Roma não está no caminho para Genebra (fica a cerca de 885 quilômetros mais ao sul). E não há sequer uma única evidência que demonstre que tal encontro alguma vez esteve na ordem do dia.

CNA originalmente relatou sobre a possibilidade de um encontro Biden-Francisco  em 3 de junho , citando fontes não identificadas do Vaticano. O veículo dobrou a história em 14 de junho, relatando  em um artigo sem um autor nomeado  que o encontro aconteceria em 15 de junho, mas Francisco teria rejeitado os planos de celebrar a missa com Biden, um católico.

Mais problemas: no meio da manhã em Roma, nenhum encontro havia acontecido. O tráfego de pedestres na Via della Conciliazione, a rua que leva ao Vaticano, não foi bloqueado por segurança, como quase sempre acontece quando visitantes importantes visitam o papa (quando o presidente Donald Trump conheceu Francisco, em 2017, barricadas foram erguidas para bloquear os quarteirões do Vaticano.) 

Ao meio-dia, Emily Zeeberg, oficial de relações públicas da embaixada dos Estados Unidos na Santa Sé, disse ao NCR: “O presidente Biden não tem planos de visitar Roma ou a Cidade do Vaticano esta semana”. O arcebispo Paul Gallagher, ministro das Relações Exteriores do Vaticano, também disse ao NCR que “não tinha conhecimento” dos planos para tal encontro entre Biden e Francisco.

A programação oficial do presidente para 15 de junho certamente não deixava muito espaço para improvisações. Ele deveria ter encontros privados com o rei e o primeiro-ministro da Bélgica e com os presidentes do Conselho e da Comissão Europeia, antes de ir a Genebra para encontros com o presidente da Confederação Suíça. 

O sentimento entre outras fontes do Vaticano e de autoridades americanas em Roma sobre os relatos de uma visita de Biden era algo como o emoji de “encolher os ombros”. Por que Biden viria agora, especialmente quando ele já deve viajar a Roma em outubro para participar de uma cúpula dos líderes do G20?

As reuniões papais demoram a ser preparadas e Biden ainda nem nomeou um embaixador dos Estados Unidos junto à Santa Sé.

Claro, os relatos sem fontes da reunião presidencial não ocorrida com Francisco surgiram enquanto o catolicismo de Biden estava sob os holofotes nacionais. Os bispos dos Estados Unidos estão se preparando para realizar uma reunião virtual, de 16 a 18 de junho, na qual  discutirão  um documento sobre se políticos católicos pró-escolha [ndt: isto é, favoráveis ao aborto] como Biden devem receber a comunhão.

Pode-se notar que a matéria de 14 de junho da CNA alegando que Francisco cancelou os planos de celebrar a missa com Biden foi elogiada em um e-mail para jornalistas enviado pelo Instituto Bento XVI, uma organização com sede em São Francisco, que nas últimas semanas tem divulgado comunicados de imprensa do Arcebispo Salvatore Cordileone.

Cordileone, arcebispo de São Francisco desde 2012, está entre os membros da Conferência Episcopal dos Estados Unidos que lideram os trabalhos sobre o novo documento sobre políticos católicos pró-escolha, mesmo depois que o chefe da congregação doutrinária do Vaticano pediu aos prelados que  procedessem com cautela  no plano .

Em um comunicado de 26 de maio divulgado pelo Instituto Bento XVI, Cordileone disse ter ficado “profundamente entristecido” por outros bispos que sugeriram que a conferência poderia adiar o plano, dadas as preocupações do Vaticano.

Na tarde de 15 de junho, a CNA corrigiu sua matéria sobre a missa papal supostamente planejada de Biden. A reportagem, disseram, foi feita “erroneamente”. 

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15 junho, 2021

“Preso ou morto”. A renúncia frustrada do Cardeal Marx.

Ao analisar situações político-eclesiásticas, precisamos considerar todos os pontos de vista em questão e ponderar o que possa haver de verdade neles. No artigo abaixo, que traduzimos na íntegra, o autor analisa a situação da renúncia do cardeal Marx e deixa entrever a malícia do Papa Francisco na manobra de toda a situação.

Por Caminante | Tradução: FratresInUnum.com, 15 de junho de 2021 – Já antes da publicação da carta-resposta de Francisco confirmando-o em sua arquidiocese, muitos diziam que a renúncia não passava de uma mise-em-scène, destinada unicamente a provocar a renúncia do arcebispo conservador de Colônia.

Porém, as coisas não se contradizem. Pelo contrário, o maquiavelismo de Bergoglio fica ainda mais evidente quando se colocam em perspectiva todas essas eventualidades que, ao fim e ao cabo, apenas solidificam o seu poder, em detrimento de tudo que ele diga ou faça.

Realmente, quanto mais passa o tempo, mais fica evidente que os europeus não estão preparados para lidar com este nível de maquinação, com um papa jesuíta, argentino, peronista e progressista até o último nível.

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Contam que quando o arrecadador de rendas do presidente Néstor Krichner, prevendo futuras complicações, apresentou à viúva Kirchner a sua renúncia, recebeu como resposta a seguinte advertência: “Não se renuncia a mim. Daqui você sai preso ou morto”. Muito antes, quando um atribulado ministro de Perón fez o mesmo por causa de uma queima de Igrejas, o general mandou dizer-lhe, através do seu assistente: “Renuncia-se ao general apenas quando ele o pedir”. Os césares mandavam aqueles que caiam em sua desgraça que se suicidassem, os peronistas lhes proíbem de renunciar e lhes obrigam a suicidarem-se lentamente. A perversidade do poder tem múltiplas formas.

Bergoglio seguiu a tradição peronista, uma vez mais, rechaçando a renúncia do cardeal Marx. A jogada, na verdade, é uma contra-jogada maquiavélica, muito mais maquiavélica que a do inocente alemão. Com efeito, Marx, com sua renúncia, buscava candidamente duas coisas: escapar do rol necessariamente disciplinador do Sínodo que o seu cargo lhe impunha; e ficar livre como um civil a mais para poder agir em favor da rebeldia sinodal, e livre como um cardeal (ele não renunciou a isso) para armar o seu jogo de poder em Roma. Um príncipe do povo por direito próprio nessa grande queda-de-braço entre Alemanha e Roma, entre a máfia teutônica e o portenho e seus laterais. Com este simples golpe, Bergoglio desarma Marx, tira-lhe a sua principal arma (já não poderá ameaçar com a renúncia) e força-o a alinhar-se com Roma ante ao Sínodo. Marx ficou neutralizado, debilitado, esvaziado. Com que cara poderá representar os revolucionários, ele, que foi ratificado pelo próprio papa? Com um só golpe certeiro, Bergoglio matou Marx e deixou um zumbi em seu lugar. E não vejo o alemão insistindo com a sua renúncia, não ficou nenhuma margem para isso, ainda que seria interessante ver como lhe responderiam e como isso iria terminar. Preso ou morto. Porque, além disso, as denúncias que seriam o presumido motivo da sua resignação, continuam vigentes e em curso.

Que não nos engane o tom aparentemente melífluo e confiante da carta. É tal a humildade e mansidão que transmite, que o seu autor se compara com Jesus Cristo ao mesmo tempo em que crava a espada da missão suicida no pobre Marx: “E esta é a minha resposta, caro irmão. Continua como propões, mas como Arcebispo de Munchen e Freising. E se tiveres a tentação de pensar que, ao confirmar a tua missão e ao não aceitar a tua demissão, este Bispo de Roma (teu irmão que te ama) não te compreende, pensa no que sentiu Pedro diante do Senhor quando, do seu modo, apresentou-lhe a renúncia: ‘Afasta-te de mim, que sou um pecador’, e escuta a resposta: ‘Apascenta as minhas ovelhas’”.

Deve-se reconhecer em Bergoglio, vazio de pensamento como é, profissional frívolo, um mestre dessas “pequenas astúcias”, como dizia Kafka, muito bem meditadas e preparadas. Como uma aranha pensativa, tecerá todas as intrigas possíveis para confundir os filhos de Armínio e evitar que se discuta o seu poder. Podemos antecipar uma guerra realmente espetacular, cheia de trapaças, chicanas e jogos sujos, e, se a biologia o acompanha, uma vitória de Francisco sobre o ingênuo episcopado progressista alemão, que terminará desaguado em um recôncavo de lugares comuns e platitudes que escamoteiam, temas que se não poderão impor, modulados por Marx e outros zumbis. Em politicagem não vão ganhar dele. E o cisma é filho da malícia, não da heterodoxia. Não são inimigos para o compadre de Flores, êmulo de Juan Perón e de Néstor Kirchner.

27 maio, 2021

Summorum Pontificum em risco? E agora?

Por FratresInUnum.com, 27 de maio de 2021 – O prestigioso blog italiano Messa in latino publicou, anteontem, uma notícia inquietante, segundo a qual o Papa Francisco teria dito aos bispos da Conferência Episcopal Italiana que estaria por ao menos restringir o Motu Proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI. A notícia foi rapidamente replicada pelo respeitado blog Rorate coeli e daí rapidamente chegou ao Brasil. 

Dom Rifan e Papa Francisco

7 de Fevereiro de 2018 – Papa Francisco cumprimenta Dom Fernando Rifan e seminaristas da Administração Apostólica São João Maria Vianney.

Obviamente, a possibilidade de que essa previsível desventura aconteça deixa apreensivos os católicos que se beneficiam da liturgia tradicional, muitos dos quais têm sofrido já gravemente com o desacato dos bispos às disposições da Santa Sé que dão aos fieis o direito de ter a Missa de Sempre.

Contudo, é preciso dizer que o próprio Messa in latino deixa claro que chegaram apenas “notícias ainda fragmentárias” e que “parece que o Papa teria anunciado uma reforma para pior do texto do Motu Proprio Summorum Pontificum”. Esses conjuntivos são importantes sobretudo para que se não antecipe nenhuma medida restritiva, visto que a Missa tradicional é uma grande pedra de tropeço no caminho dos modernistas, a qual eles estão ansiosos por remover. Hoje, chega-nos a informação, por meio do movimento francês Paix Liturgique, de que a medida só não foi ainda promulgada por obstrução da Congregação para a Doutrina da Fé, “que sustenta que ela provocaria desordem e oposições incontroláveis em todo o mundo”. Há notícias que já dão conta de grupos franceses se organizando para protestar em Roma, caso, de fato, Francisco vá adiante.

É óbvio que, embora o que vazou forneça maiores detalhes, o ato seria coerente tanto com o trabalho de desmonte da Tradição protagonizado pelo Papa reinante em seu ministério geral, quanto com o específico esfacelamento da Comissão Ecclesia Dei, supressa por Francisco e reduzida a uma Seção da Congregação para a Doutrina da Fé, entregando-se todos os institutos que dela dependiam diretamente à Congregação para os Religiosos, sob a chefia do Cardeal Braz de Aviz. 

Na prática, esse estratagema foi utilíssimo para o boicote à Missa Tradicional, pois os fieis simplesmente deixaram de ter a quem suplicar quando o assunto é a garantia dos direitos explicitados no Motu Proprio Summorum Pontificum. Agora, a restrição das suas disposições seria uma consequência natural de toda essa sabotagem.

A questão, porém, é se Francisco daria tal passo com Bento XVI ainda vivo (pressupondo que existisse por parte dele uma real consideração para com a pessoa do Papa alemão) e, sobretudo, se ele está disposto a enfrentar a fúria dos fieis lesados, especialmente nos Estados Unidos, onde a Missa Tradicional prospera dia após dia e de onde o apelo dos donativos é bastante persuasivo.

No cálculo de ganhos e perdas, compensará para Francisco dar esse golpe, justamente quando ele lança a ideia da sinodalidade? De nossa parte, nunca subestimamos a obstinação do papa argentino e a sua decidida oposição a tudo aquilo que seja realmente católico e tradicional. 

No entanto, vale lembrar que Bento XVI, em Summorum Pontificum, não se limitou a tratar de aspectos disciplinares,  concedendo, sob determinadas condições, a todos os sacerdotes a faculdade de celebrar segundo a chamada forma extraordinária do Rito Romano, mas estabeleceu com todas as letras, em linha de princípio, que “é lícito celebrar o Sacrifício da Missa segundo a edição típica do Missal Romano, promulgada pelo Beato  João XXIII em 1962 e nunca ab-rogada”. 

Em outras palavras, o Papa Ratzinger estava garantindo aquilo já previsto pela bula Quo primum tempore, de São Pio V: mesmo que surgisse alguém que quisesse restringir a celebração da dita forma extraordinária, tal medida seria sempre inválida na raiz, visto que a Missa Tradicional é um rito oficial da Igreja Católica e que jamais foi derrogado validamente por nenhuma disposição anterior — e, ademais, não o poderia ser posteriormente, dado que, “aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial”, conforme ele mesmo tentou explicar aos bispos.

As eventuais medidas de restrição que poderiam ser tomadas por Francisco, na verdade, não teriam nenhum valor e os padres que quisessem poderiam continuar tranquilamente celebrando a Missa de Sempre. Portanto, a manutenção da Fé ortodoxa e da liturgia católica, nesses casos, exigiria mais virtude e mais coragem da parte do pequeno resto do clero que se quisesse manter fiel à Tradição, o que significa que isso atrairia mais graças para eles mesmos e para os fieis, mesmo que salgados pelo peso da perseguição.

Se os bons padres estarão dispostos a chegar a isso nós não sabemos. Contudo, tais medidas deixariam mais clara, como se fosse necessário, a ruptura de Francisco com a parte sadia da Igreja e tornariam ainda mais insustentável a narrativa concordista.

Diante do cisma herético alemão, é bem provável que os inimigos da Igreja cheguem a este ponto para provocarem a parte ortodoxa a fim de forçarem uma espécie de “cisma” à direita, graças às medidas persecutórias que se tomariam contra aqueles que quisessem conservar intacto o direito de celebrar na forma tradicional.

Trata-se da reedição do “empurremo-lo ao cisma“, estratégia dos primeiros anos de pós-concílio confessada por um bispo progressista quando se referia a Dom Marcel Lefebvre. A diferença, hoje, é que à época só havia Dom Lefebvre, Dom Antonio de Castro Mayer e alguns poucos leigos; agora, contra toda a expectativa dos moribundos amantes do Vaticano II, há um exército de jovens leigos e padres que brotam feito água de fontes ocultas em cada diocese. 

Em caso de um “empurrão ao cisma”, caberia a esses Católicos a fortaleza de resistir sem cair na armadilha colocada pelo adversário de uma ruptura institucional, ruptura que a parte heterodoxa institucionalmente não admite para si em hipótese alguma, apesar de todas as suas heresias (vide o caso já citado da Igreja alemã; seria tão fácil pegar as malas e partirem para a igreja protestante, não?) para as quais podem contar com a complacência do papa argentino, que justamente apertou o acelerador para que se chegasse nesse ponto. A não ruptura da parte heterodoxa, porém, é tão somente uma impostura institucional, pois, sem a verdadeira Fé, mesmo que se mantenham na estrutura, já não mais pertencem à Igreja.

26 maio, 2021

Platitudes da obsessão: mais uma vez a questão dos seminaristas rígidos.

Por FratresInUnum.com, 26 de maio de 2021 – Há quase duas semanas, uma notícia ganhava os jornais italianos: o pároco e o vigário de uma paróquia na Perugia abandonaram juntos o sacerdócio “por amor”. A manchete assustava, pois deixava em mistério se os dois tinham abandonado a batina para viverem juntos… Mas, logo o conteúdo da notícia dizia que cada um se apaixonou por uma paroquiana.

Nossa vida é uma chamada de Deus, recorda o Papa em carta à Arquidiocese do Rio de Janeiro

Imagem: Papa Francisco e seminaristas. Créditos: ACI Digital

O fato não é uma raridade na Igreja nesse início de milênio. O número de sacerdotes que anualmente pede dispensa das obrigações sacerdotais ou que é demitido por questões de grave desvio de conduta é imenso. O pontificado de Francisco, nesse sentido, não viu senão o agravar-se do fenômeno, que cresce na medida em que passam os anos desse marasmo eclesiástico inaugurado em março de 2013.

Contudo, apesar dos escândalos sexuais, apesar da difusão do homossexualismo clerical, apesar dos sacerdotes que prevaricam com mulheres ou por razões financeiras, apesar do inverno de uma geração de padres sem Fé e sem devoção, apesar de uma Igreja que ameaça desaparecer em algumas partes do mundo, apesar do esquecimento de Deus em todo o ocidente, qual é a preocupação de Francisco?

Anteontem, na abertura da Assembleia da Conferência Episcopal Italiana, ele disse: “neste momento, existe um grande perigo: errar na formação e também errar na prudência na admissão dos seminaristas. Temos visto com frequência seminaristas que pareciam ser bons, mas que eram rígidos. A rigidez não é do bom Espírito”.

Não, não é uma piada. Diante de uma Igreja em franca decadência, o Papa se dignou a dizer tal banalidade; a qual, porém, revela muito de quem ele é.

A total boçalidade do atual pontificado em qualquer matéria intelectual é arquiconhecida. Sobressai a incapacidade articular duas ideias com coerência e, ao mesmo tempo, de dizer insolências indizíveis, passando por cima não apenas das doutrinas milenares da Igreja, mas até sobre convenções sociais básicas em uma civilização.

É muito próprio de pessoas ineptas a incapacidade de enxergar a riqueza da realidade ao seu entorno. Reduzem tudo a meras impressões vagas, rotulam pessoas de acordo com aparências superficiais, movem-se apenas por instinto animal, dizendo aquilo que farejam. 

Francamente, que quer dizer “ser rígido”? 

Será que os seminaristas que vão aos assentamentos dos Sem Terra ou os padres que declaram publicamente o seu voto em políticos LGBTs não são rígidos? Será que aqueles que repetem há décadas a mesma cantilena da Teologia da Libertação não são rígidos? Será que esses que afastam o povo porque insistem em metodologias pastorais contraproducentes, mesmo diante da evasão massiva de fieis, não são rígidos?

Será que a obsessão por tratar repetidamente desse tema, fechando os olhos a todos os outros problemas, não torna Francisco, ele mesmo, um rígido?

Rígido é apenas quem obedece às normas litúrgicas e segue a moral católica, que usa vestes clericais e ensina o catecismo, que se esforça por cumprir as leis da Igreja e procura ensinar os outros a fazê-lo? Seriam esses os rígidos? Os que têm uma vida espiritual e um compromisso sério com Nosso Senhor ao invés de se entregarem a excessos e ostentações impróprias do estado sacerdotal?

A tolice das observações de Francisco chega a ser burlesca, envergonha os fieis. Seguem-na todos esses negligentes que se encostaram na Igreja e que nunca tiveram mérito algum para chegar às suas posições, não fossem favorecidos por apadrinhamentos espúrios ou pela politicagem tosca que predomina nas sacristias e nunciaturas. 

Enquanto se preocupam em entabular pessoas em seus verbetes ideológicos, a Igreja padece com gente imoral que, em todas as tendências, de progressistas a conservadores, enxovalham impiedosamente a sua santidade. 

Pecado não tem benefício ideológico nem anistia eclesiológica. Pecado é pecado, imoralidade é imoralidade!

Mas, para Francisco, a misericórdia é seletiva e este é o único critério que ele pretende impor a todas as futuras gerações sacerdotais: agir conforme a cartilha do seu partido, subscrevendo todos os itens da sua agenda revolucionária.

Antigamente, um padre queria salvar a sua alma e a de todos os fieis, livrando-se do inferno e alcançando o paraíso. Hoje, quer apenas livrar-se do inferno que é cair sob a impiedosa inquisição bergogliana e, dessa, não há misericórdia que possa livrar, pois é fruto da paranóia, da obsessão compulsiva e da perseguição.  

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24 maio, 2021

Sínodo do Sínodo e o novo significado de pós-Concílio.

FratresInUnum.com, 24 de maio de 2021 – Acabam de sair as novas disposições sobre o próximo sínodo, cujo tema é o sínodo mesmo — o enclausuramento eclesiológico é praticamente crônico nas reflexões das últimas décadas e, por mais ridícula que pareça, a redundância é apenas o signo léxico de uma eclesiologia em si mesma redundante. Novas disposições, por quê? Enfim, também nós não entendemos, já que o Sínodo da Família usou a mesma metodologia: consultas à “base” para, depois, resultar em sínteses diocesanas, nacionais, continentais e, com isso, realizar o circo midiático sinodal. 

Papa sínodo

Imagem: a Pachamama glorificada no Sínodo da Amazônia.

Talvez a novidade não esteja propriamente na metodologia, mas, sim, na finalidade a que ela se propõe de maneira estrutural: criar um sistema plebiscitário para dar a impressão de que todos podem participar do governo da Igreja. No entanto, longe de uma “Igreja em saída”, temos cada vez mais uma cúpula clericalista ensimesmada, cada dia mais afundada em suas burocracias, conferências, regionais, congressos e comissões eclesiásticas.

Dizemos “para dar a impressão” porque definitivamente a última coisa que interessa aos progressistas é escutar o povo fiel. Exatamente como ocorreu no sínodo para a família, quando o resultado das consultas não chegava como os chefes do sínodo queriam, eles engambelavam e davam um jeitinho de fazer suas ideias prosperarem. Se os bispos fossem eleitos pelo povo, a maioria das inócuas excelências eleitas para portarem uma mitra sobre a cabeça jamais sairiam do anonimato, inclusive porque alguns, mesmo depois de bispos, perseveram heroicamente na posição de nulidades absolutas.

O povo é e sempre foi católico raiz e nunca entendeu direito as manhas do clero progressista. O descolamento do corpo dos fieis é mais do que flagrante. Afinal de contas, não é por acaso que justamente os países que querem determinar os rumos do catolicismo no século XXI sejam aqueles cuja erosão do número de católicos seja tão vultuosa quanto a sua presunção.

Fato é que, ao fim e ao cabo, todas essas consultas servem para muito pouco, pois acabam sendo o adubo de que as vacas ideológicas irão formar o seu esterco. De resto, o próprio Papa Francisco já disse que o sínodo não consiste em colocar temas sob votação, mas em escutar o Espírito Santo – a pena é que coloquem na conta do Espírito Santo tantas obsolescências pensadas pelos teólogos!

Há, contudo, uma utilidade que não aparece numa visão superficial e é esta novidade que é visada como objetivo principal do sínodo sobre o sínodo. Trata-se, agora, não mais de realizar um sínodo sobre um tema específico, mas de realizar uma mudança na estrutura divina da Igreja, introduzindo-a numa dinâmica abertamente revolucionária. 

Dizendo em outras palavras, o que se quer é revolucionar permanentemente a Igreja em discussões contínuas, numa bagunça perpétua, em que ninguém mais terá paz, pois a cada quinquênio (quando muito!) tudo corre o risco de mudar.

Dom Hélder Câmara, na época do Concílio, fez a singela sugestão de que o papa convocasse a cada dez anos um novo Concílio Ecumênico para aggiornare – atualizar! – a Igreja no contexto do progresso daquela década, a fim de que não perdesse o bonde da história. O que ele não imaginava é que a sua sugestão, naquele tempo tão vanguardista, seria relegada como antiquada justamente pelos seus devotos!

Com a Igreja Sinodal, provavelmente a história dos Concílios ficará encerrada, pois estas reuniões de todo o episcopado serão consideradas desnecessárias e até indesejáveis. A sinodalidade bergogliana jogou o progressismo no verdadeiro pós-Concílio, quer dizer, não apenas na fase sucessiva do Vaticano II, mas numa fase que superará definitivamente a estrutura mesma de todo e qualquer Concílio, pois assumirá a perturbadora inovação como método de sua autorrealização.

A frase do protestante reformado holandês, Gisbertus Goetius, “Ecclesia Reformata, semper reformanda” (“A Igreja reformada sempre está em reforma”) agora será assumida como essência da pastoralidade da Igreja Católica. Tudo estará sempre em constante mutação. Tudo!

E não há nada de novo nisso, também. Quem não compreendeu que a provisorialidade é um elemento essencial de todas as formas da Nova Teologia, inclusive da Teologia da Libertação, simplesmente não entendeu nada. Para essas correntes de pensamento, toda e qualquer teologia é fruto do seu próprio período histórico e de sua realidade econômico-sócio-política. Não há uma teologia absoluta, feita de verdades imutáveis, de dogmas, de preceitos emanados univocamente da Divina Revelação. Tudo está em discussão e interpretação sempre!

Para os progressistas, na verdade, tudo é questão de velocidade: uns querem ir mais rápido, outros mais devagar, mas, no fundo, é preciso avançar, mesmo que lentamente. Como dizia Francisco, em Evangelii Gaudium, “o tempo é superior ao espaço” (n. 222) e, por isso, “este princípio permite trabalhar a longo prazo, sem a obsessão pelos resultados imediatos” (n. 223).

Ao contrário, a Igreja nunca precisou apelar para uma dinâmica de plebiscito porque está fundada sobre verdades eternas, as verdades da Fé, permanentes para todos os períodos da história. Os papas, os bispos, os sacerdotes ou qualquer outra autoridade nunca pensaram em mudar nada disso, por mais corruptos que fossem. A estrutura da Igreja foi criada para conservar e transmitir a Fé, e não para deixa-la à mercê das instabilidades das modas do momento. É justamente essa permanência que manteve a Igreja firme e estável por mais de dois milênios!

Não adianta nos comportarmos com aquela cegueira voluntária de quem se recusa a admitir os fatos. O Papa Francisco e toda a sua equipe, especialmente o gabinete das sombras, que atua de modo oculto e inteligente, estão atirando a Igreja Católica na diluição completa. Estamos às portas de mais uma imensa confusão que gerará nada mais nada menos que uma Igreja líquida. Resistamos e brademos sempre: Non praevalebunt!

20 maio, 2021

Cardeal Braz de Aviz: “O Papa está preocupado por algumas posições tradicionalistas na vida consagrada”.

Por FratresInUnum.com, 20 de abril de 2021 – Numa live dirigida a religiosos espanhóis, o Prefeito da Congregação dos Religiosos, o cardeal brasileiro João Braz de Aviz, disse, sem meias palavras:

“O seguimento de Cristo é a nossa regra suprema. Hoje estivemos com o Santo Padre, e o Papa está preocupado por algumas posições tradicionalistas, também no seio da vida religiosa”.

A queixa, francamente, tem um tom de piada! Enquanto a maior parte da vida religiosa está se desfazendo, a preocupação do Papa, segundo o purpurado, é justamente com aquela parte que está dando certo, que são os religiosos conservadores. A preocupação, no caso, deveria ser com essas Congregações imensamente ricas, mas que são constituídas por freiras solteironas, tão burguesas quanto amargas, ou por frades que vivem em conventos luxuosos e saem às noites para passear por lugares pouco ortodoxos a fim de esbanjar um pouco seus modos de playboys.

Cardeal João Braz de Avis, o representante brasileiro no consistório de hoje.

Cardeal João Braz de Avis.

A vida religiosa foi uma das piores vítimas do fantasma conciliar. Basta ver o que eram as Congregações antes e depois do Vaticano II. Se o Papa tivesse um pouco de auto-crítica, começaria a ver isso dentro de sua própria casa, a Companhia de Jesus, que está em franca decadência vocacional e, como a maior parte das congregações, tem a imensa maioria de seus membros na terceira idade.

Mas, não. Em uma mensagem de vídeo enviada ao mesmo evento, Francisco se queixou: “É triste ver como alguns institutos, para alcançar uma cerca segurança, para poder ter o controle, tenham caído em ideologias de qualquer tendência, de esquerda, de direita, de centro, de qualquer tendência”, como se os jesuítas não tivessem feito exatamente isso, a diluição do seu carisma na mais vergonhosa militância da esquerda internacional.

O Papa Francisco continuou como o seu chamado ao aggiornamento, dizendo que “quando um instituto reformula o carisma numa ideologia, perde a sua identidade, perde a sua fecundidade. Manter vivo o carisma fundacional é mantê-lo em caminho de crescimento, em diálogo com aquilo que o Espírito nos está dizendo na história dos tempos e dos lugares, em diversas épocas, em diferentes situações”.

Em outras palavras, manter-se fiel ao carisma fundacional tal como saído das mãos do fundador é, para Francisco, uma ideologia. E o único modo para não cair nisso é o que ele chama de “contato com a realidade”, bem ao estilo jesuítico: “não se percam em formalismos, em ideologias, em medos, em diálogos consigo mesmos e não com o Espírito Santo. Não tenham medo dos limites! Não tenham medo das fronteiras! Não tenham medo das periferias!”

Na verdade, tudo isso não passa deste complexo de traição que sofre a Companhia de Jesus depois de ter traído o seu Santo Fundador. João Paulo II quis suprimi-la novamente, justamente porque se tinha tornado um foco de irradiação de tudo que não presta na Igreja, mas teve de voltar atrás graças à mediação dos bispos espanhóis. Contudo, apesar de sua intervenção forte, o Papa polonês não conseguiu reverter aquilo que se tinha tornado irremediável. Depois da famosa 32ª. Congregação Geral, convocada pelo Pe. Pedro Arrupe, a traição ao carisma fundacional estava consumada e a Companhia não voltaria mais atrás.

Desde então, ser fiel a um carisma original, aprovado pela Igreja, passou a ser visto como algo ruim e restritivo, formalista e rígido. A nova norma é adaptar-se ao momento novo, às ideologias que estão em voga (cuidadosamente não chamadas de ideologias, mas de “realidade”). A fidelidade passou a ser interpretada como conservadorismo intransigente e os seus protagonistas passaram a ser perseguidos, pois a lei, por incrível que pareça, é destruir a vida religiosa, mesmo.

Enquanto isso, há muitas congregações que ainda estão de pé por causa de alguns bons padres e freiras tradicionais, que conseguem atrair alguma vocação, enquanto os velhos progressistas, decrépitos e derrotados, já não conseguem atrair sobre si sequer as moscas.

Talvez o Cardeal Braz de Aviz poderia acenar ao Papa que seria mais interessante preocupar-se com outros problemas mais importantes, como o alcoolismo de certos clérigos ou outras perversões menos nomeáveis, ao invés de oprimir a parte sadia da Igreja. Essas ameaças veladas são demonstração de uma fraqueza não mais dissimulável, a fraqueza da esterilidade do clero progressista, que relegou populações inteiras à descrença e que destruiu instituições veneráveis na estrutura da Igreja.