Posts tagged ‘O Papa’

15 julho, 2019

Ofensiva do diabo: derrubar os padres.

Por FratresInUnum.com, 15 de julho de 2019Há algo de sobrenatural naquela cena. Uma mulher desequilibrada desce as arquibancadas, salta as cercas de ferro, passa pelas estruturas de som, sobe num palco de dois metros, sai correndo sem ser percebida em todo o trajeto e atira ao chão um padre de quase dois metros e cerca de cem quilos como se fosse uma folha de papel…

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Alguém dizia que “Deus permite ao diabo agir apenas com a condição de que não esconda o rabo”. Deixando de lado todas as tolices e infantilidades litúrgicas do Padre Marcelo Rossi, o ataque sofrido carrega um misterioso alerta: há uma guerra declarada de Satanás contra o clero.

Não é mera coincidência que a reportagem principal da revista VEJA deste fim de semana seja propriamente sobre os abusos sexuais cometidos por padres na diocese de Limeira, que obrigaram o bispo Dom Vilson a renunciar ao cargo. A foto de capa é a de um padre com vestes tradicionais: batina e barrete, ambos frisados.

Para além do significado fotográfico óbvio – mesmo sendo para representar um molestador, o que representa um padre católico continua sendo ainda a batina tradicional –, é evidente que a intenção semiótica principal é a de colar no clero conservador a marca de abusadores potenciais, coisa que se não faz com o clero progressista.

Fato é que a reportagem de VEJA não está descolada de uma agenda interna mais ampla, que decorre da opção preferencial de Francisco pelo politicamente correto, mesmo com sacrifício dos bispos e dos padres do mundo inteiro. Sejamos mais claros.

Com o Motu Proprio Vos estis lux mundi, o papa argentino institui uma política denuncista na Igreja, que não apenas desburocratiza acusações, mas as potencializa de modo quase incontrolável. Via de regra, as dioceses precisariam disponibilizar guichês para a denúncia de seus clérigos, criando, assim, espaços para a produção de documentos acusatórios contra si mesmas. Trata-se do completo aniquilamento da aplicação do direito pela Igreja, em favor da soberania mundana.

E, para eximir-se de responsabilidades e, ao mesmo tempo, amarrar completamente os bispos, no Motu Proprio Sicut mater amabilis (a ironia do título é simplesmente sádica), Francisco estabelece que o bispo renuncie ou seja removido por decreto num prazo de quinze dias quando, por negligência, tiver agido ou omitido algo que cause algum dano grave a outros, sejam indivíduos ou grupos. Pode-se questionar se não é daí que decorre a necessidade de Francisco ficar em silêncio ante as acusações de Dom Viganò — teria o pontífice argentino, por coerência, de renunciar ao papado que perseguiu com tanto afinco.

Em outras palavras, é a institucionalização da perseguição judicial na Igreja, tanto a padres quanto a bispos, é a ferramenta mais evoluída para infernizar inteiramente a vida eclesiástica.

A reportagem de VEJA é uma espécie de alarme, um tiro para o alto, a fim de que se institua todo este aparelhamento bergogliano nas cúrias. Os inimigos da Igreja estão exultantes e já perceberam que este pontificado é uma espécie de Cavalo de Troia, infiltrado para levar a cabo aquilo que Paulo VI chamava de autodemolição da Igreja. Em um vídeo recente, o ex-pastor Caio Fábio apresenta eufóricas louvações ao Papa Francisco, aclamado como aquele que veio para realizar a justiça contra os padres, tachados indistintamente como tarados.

“Criar dificuldades para vender facilidades”. Esta é a razão última de todas essas manobras. Em um pontificado que favorece a agenda gay, o feminismo descarado, o ecologismo psicótico, a esquerda internacional, parece quase incompreensível essa política de tolerância zero, não estivéssemos nós na iminência do Sínodo Pan-Amazônico, que é essencialmente um ataque ao sacerdócio católico e à santidade do celibato sacerdotal.

A hecatombe que visa desmoralizar o clero tem como objetivo principal a destruição do celibato para reduzir o sacerdócio a uma mera função profissional, dada a homens casados que se ocupem apenas de modo parcial do ministério, transformando a Igreja em uma mera empresa, destinada inexoravelmente à falência espiritual.

O plano do diabo não é somente derrubar os padres. É derrubar o sacerdócio católico como tal e inverter completamente a grande missão que Nosso Senhor concedeu aos Apóstolos: não se trata mais de converter o mundo, mas em ser convertido pelo mundo; não se trata mais de pregar para os índios, mas em regredir de tal modo que a Igreja se torne uma mera instituição tribal e pagã.

Quando o Padre Marcelo foi atacado, estava justamente falando que o sacerdote tem as mãos ungidas, não pertence mais a si mesmo e age in persona Christi. Foi um ataque bastante eloquente. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.

13 julho, 2019

Foto da semana.

Imagem foi compartilhada pelo perfil oficial do ex-presidente nas redes sociais
O Papa Francisco, juntamente com o preposto geral da Companhia de Jesus, pe. Arturo Sosa, recebe uma camiseta com a imagem e inscrição “Lula Livre”. A imagem foi divulgada pelo twitter do ex-presidente presidiário na última segunda-feira, 8.

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12 julho, 2019

O princípio de legalidade se extingue na Igreja?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 10 de julho de 2019 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com  Se o Papa Francisco fosse acusado de um crime por algum juiz, em qualquer parte do mundo, ele deveria despojar-se de seu cargo de Sumo Pontífice da Igreja Católica e submeter-se ao julgamento de um tribunal. Esta é a consequência lógica e necessária da decisão clamorosa com a qual a Santa Sé privou da imunidade diplomática o Núncio Apostólico na França, Mons. Luigi Ventura, acusado de assédio sexual.

A Santa Sé poderia ter dispensado o núncio de seu cargo e, enquanto esperava a justiça francesa seguir seu curso, ter dado início a uma investigação canônica contra ele, mesmo como uma garantia de imparcialidade para com o acusado. Mas a decisão de entregar o representante pontifício a um tribunal secular derruba a instituição da imunidade diplomática – expressão por excelência da soberania da Igreja e de sua liberdade e independência –, essa mesma imunidade diplomática, aliás, invocada para proteger os crimes cometidos na Itália pelo esmoleiro do Papa, o cardeal Konrad Krajewski [aquele que reconectou ilegalmente a eletricidade de um imóvel romano ocupado por grupos esquerdistas alternativos que não pagavam as contas].

O sucedido se insere no quadro de uma preocupante extinção de todo princípio de legalidade dentro da Igreja. O direito é coessencial à Igreja, que tem uma dimensão carismática e uma dimensão jurídica, ligadas inseparavelmente entre si, como o são a alma e o corpo. No entanto, a dimensão jurídica da Igreja é ordenada ao seu fim sobrenatural e está a serviço da verdade. Se a Igreja perde de vista seu fim sobrenatural, torna-se uma mera estrutura de poder, na qual a força da função eclesiástica prevalece sobre o que é verdadeiro e justo.

Este conceito “funcionalista” da Igreja foi denunciado pelo cardeal Gerhard Ludwig Müller, em recente entrevista a Edward Pentin no National Catholic Reporter. O cardeal Müller afirmou que a chamada reforma da Cúria, que está sendo discutida nos últimos meses, corre o risco de transformar a Cúria em uma instituição na qual todo o poder fica concentrado na Secretaria do Estado, desacreditando o colégio cardinalício e as congregações competentes: “Eles estão convertendo a instituição da Cúria em uma simples burocracia, em simples funcionalismo e não em uma instituição eclesiástica”.

Uma manifestação desse funcionalismo é o uso instrumental do direito canônico para sancionar institutos religiosos e simples sacerdotes que não estão dispostos a se alinhar com o novo paradigma do Papa Francisco. No caso das comunidades religiosas, a intervenção repressiva geralmente ocorre através do comissariado, seguida de um decreto de supressão ou reforma completa da instituição, sem dar motivação adequada e muitas vezes expressa na chamada “forma específica”, ou seja, com aprovação pontifícia, sem possibilidade de recurso.

Este procedimento, cada vez mais difundido, certamente não ajuda a acalmar os espíritos numa situação eclesial sujeita a fortes tensões. Mesmo se admitirmos a existência de deficiências humanas em algumas comunidades religiosas, não seria melhor corrigi-las do que destruí-las? O que acontecerá aos jovens sacerdotes e seminaristas que decidiram dedicar suas vidas à Igreja e são privados de seu carisma de referência? Que misericórdia é exercida em relação a eles? O caso dos Franciscanos da Imaculada é emblemático neste sentido.

No caso dos simples sacerdotes, o equivalente à supressão é a sua exclusão do status jurídico clerical, isto é, a chamada redução ao estado laico. Cumpre não confundir o estado clerical – que se refere a uma condição jurídica – com a ordem sagrada, que indica uma condição sacramental e imprime um caráter indelével na alma do sacerdote. A perda do estado clerical é uma medida problemática, especialmente no que diz respeito aos bispos, sucessores dos apóstolos. Muitos bispos, ao longo da História, caíram em pecados graves, cismas e heresias. A Igreja muitas vezes os excomungou, mas quase nunca os reduziu ao estado laical, precisamente por causa da indelebilidade de sua consagração episcopal.

Hoje, pelo contrário, se procede com muita facilidade à redução ao estado laical, e frequentemente não através de um processo judicial, mas usando o processo penal administrativo introduzido pelo novo código de 1983. No processo administrativo há apenas uma instância de julgamento, os poderes discricionários dos juízes são muito amplos, e o réu, a quem às vezes nem sequer se concede advogado de defesa, é privado dos direitos que lhe são atribuídos pelo processo judicial ordinário. O prefeito da congregação competente também tem a possibilidade, como no caso da dissolução de um instituto, de solicitar uma aprovação papal na forma específica, o que torna impossível qualquer recurso.

A consequência é uma praxe justicialista da parte da instituição que, ao longo da história, mais dava garantias aos processados, esquecendo as palavras que Pio XII dirigiu aos juristas: “A função do direito, sua dignidade e o sentimento de equidade, natural ao homem, exigem que a ação punitiva, do começo ao fim, não se baseie na arbitrariedade e na paixão, mas em regras jurídicas claras e fixas […]. Se é impossível estabelecer a culpa com certeza moral, o princípio deve ser aplicado: ‘in dubio standum est pro reo’” (Discurso de 3 de outubro de 1953 aos participantes do Congresso Internacional de Direito Penal, em AAS 45 (1953), pp. 735-737).

Ao contrário da excomunhão, que sugere a ideia de verdade absoluta defendida pela Igreja, a redução ao estado laico é um castigo mais facilmente compreendido por pessoas mundanas, que concebem a Igreja como uma vulgar empresa que pode “demitir” seus empregados, mesmo sem justa causa. Essa concepção funcionalista da autoridade anula a dimensão penitencial dos castigos na Igreja. Ao impor a oração e a penitência aos culpados, a Igreja demonstrava ter em vista acima de tudo suas almas. Hoje, para agradar o mundo, que exige punições exemplares, não há interesse pelas almas dos réus, que são mandados para casa, sem que a Igreja cuide mais deles.

Em artigo publicado pelo Corriere della Sera em 11 de abril de 2019, Bento XVI acusou o “garantismo” como uma das causas do colapso moral da Igreja. Nos anos seguintes à Revolução da Sorbonne, em Maio de 1968, dizia ele, mesmo na Igreja, “os direitos do acusado deviam ser garantidos, a ponto de excluir uma condenação”. O problema, na realidade, não era o de uma garantia excessiva para o acusado, mas de excesso de tolerância para seus crimes, alguns dos quais, como a homossexualidade, deixaram de ser considerados como tais desde os anos do Concílio Vaticano II, que antecedeu aquela Revolução. Foi nos anos do Concílio e do pós-Concílio que uma cultura relativista – na qual a homossexualidade foi considerada moralmente irrelevante e pacificamente tolerada – entrou nos seminários, faculdades e universidades católicas. Bento XVI, que pediu “tolerância zero” contra a pedofilia, nunca invocou a “tolerância zero” contra a homossexualidade, curvando-se, como seu sucessor, às leis do mundo.

Nas últimas semanas foram feitas novas revelações do arcebispo Dom Carlo Maria Viganò a respeito de crimes graves contra a moralidade, cometidos pelo arcebispo Dom Edgar Peña Parra, escolhido pelo Papa Francisco como Substituto na Secretaria de Estado. Por que as autoridades eclesiásticas, que há anos estavam inteiradas dessas acusações, nunca iniciaram investigações, como não as iniciaram pelos crimes cometidos no pré-seminário Pio X, que forma os coroinhas para as cerimônias papais na Basílica de São Pedro? As autoridades têm o dever de iniciar uma investigação: um dever inalienável, depois que as palavras do corajoso arcebispo ressoaram em todo o mundo.

Outra pergunta aguarda resposta. O cardeal George Pell está, desde março passado, em confinamento solitário na penitenciária de segurança máxima de Melbourne, aguardando um novo julgamento, após ter sido condenado em primeira instância. Por que as autoridades eclesiásticas o privam de um processo canônico que estabeleça sua culpa ou inocência não diante do mundo, mas da Igreja? É escandaloso que o Cardeal Pell esteja na prisão e a Igreja esteja em silêncio, aguardando o julgamento do mundo e recusando-se a emitir seu próprio julgamento, possivelmente em contraste com o do mundo.

Do quê a Igreja tem medo? Jesus não veio para vencer o mundo? O direito, que deveria ser um instrumento da verdade, tornou-se um instrumento de poder por parte daqueles que hoje governam a Igreja. Mas uma Igreja na qual o princípio da legalidade se extingue é uma Igreja sem Verdade e uma Igreja sem Verdade deixa de ser Igreja.

8 julho, 2019

A última entrevista de Francisco com os jesuítas é reveladora – também de suas contradições.

IHU – Quando o Papa Francisco está viajando para fora da Itália, não há apenas entrevistas coletivas no avião para jornalistas perguntarem a ele e ouvirem suas respostas ao vivo. Há também encontros com os jesuítas locais, que acontecem a portas fechadas, mas os quais, alguns dias depois, o padre Antonio Spadaro publica a transcrição completa em “La Civiltà Cattolica“.

relatório da entrevista entre Francisco e os jesuítas da Romênia, que ocorreu na noite de 31-05-2019, na nunciatura em Bucareste, contém três passagens com três argumentos que são particularmente reveladores do pensamento do Papa.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 17-06-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

1.- O primeiro tem a ver com acusações públicas contra Francisco, de ter protegido e promovido pessoas que ele conhecia sobre seus delitos sexuais, em particular o ex-cardeal americano Theodore McCarrick e o bispo argentino Gustavo Óscar Zanchetta.

O papa não repetiu aos jesuítas da Romênia que nunca soube algo sobre os crimes de um ou de outro. Mas ele confirmou que não queria responder a essas acusações, invocando em apoio de seu próprio silêncio dois exemplos retirados da história da Companhia de Jesus.

O primeiro exemplo é a suavidade do jesuíta São Pedro Fabro (1506-1547), oposta por Francisco à dureza batalhadora de outro jesuíta contemporâneo a ele, São Pedro Canisio (1521-1597):

“Devemos carregar em nossos ombros o peso da vida e suas tensões. […] você tem que ter paciência e doçura. Foi o que Pedro Fabro fez, o homem do diálogo, da escuta, da proximidade, do caminho. O tempo atual é mais de Fabro que Canísio, que, ao contrário de Fabro, era o homem da disputa. Numa época de críticas e tensões devemos fazer como Fabro, que trabalhou com a ajuda dos anjos: pediu ao seu anjo que falasse com os anjos dos outros para fazer com eles o que não podemos fazer. […] não é hora de convencer, de fazer discussões. Se alguém tem uma dúvida sincera sim, pode falar, esclarecer. Mas não responda a ataques”.

O segundo exemplo é dado pelas cartas – reunidas em um volume editado pelos jesuítas de “La Civiltà Cattolica” – dos propósitos gerais da Companhia de Jesus no período da supressão da Ordem, na segunda metade do século XVIII:

“Se lerem o livro, verão que ali é dito o que deve ser feito nos momentos de tribulação à luz da tradição da Companhia. O que Jesus fez no tempo da tribulação e da crueldade? Ele não começou a litigar com os fariseus e saduceus, como fizera antes quando tentaram prendê-lo. Jesus permaneceu em silêncio. No momento da crueldade não se pode falar. Quando há perseguição […] abraça-se a cruz”.

2.- A segunda passagem reveladora refere-se à ideia apreciada por Francisco de sabedoria e inocência inata das “pessoas”. Uma ideia que apoia tanto sua visão teológica da Igreja como “santo povo fiel de Deus“, quanto a sua visão política tipicamente “populista”:

“Quais são os verdadeiros consolos? […] eu os encontro com o povo de Deus. […] O povo de Deus entende as coisas melhor do que nós. O povo de Deus tem um senso, o ‘sensus fidei‘ que corrige a linha e coloca você no caminho certo. “

Em apoio a essa visão, Francisco recorreu a duas anedotas.

Na primeira, ele relatou ter encontrado uma velha, em um dia qualquer, com “olhos lindos e brilhantes”, que depois de algumas piadas lhe disse que orava todos os dias por ele. E ele respondeu: “Diga-me a verdade: para mim ou contra mim”. E a velha que disse: “Mas, claro: eu rezo por você! Muitos outros dentro da Igreja oram contra você”. Moral da fábula: “A verdadeira resistência [contra o papa] não está no povo de Deus, que é o verdadeiro povo”.

A outra anedota refere-se a quando Jorge Mario Bergoglio era um simples sacerdote e chegava todos os anos ao santuário de Nossa Senhora do Milagre, localizado no norte da Argentina:

“Há sempre muitas pessoas lá. Um dia, depois da missa, saindo com outro padre, uma simples senhora vem da aldeia, não ‘iluminada’. Ela carregava consigo fotos e crucifixos. E ele perguntou ao outro padre: ‘Padre, você me abençoa?’ Ele, que é um bom teólogo, respondeu: ‘Mas você estava na missa?’ Ela respondeu: ‘Sim, padre’. Então ele perguntou: ‘Você sabe que a bênção final abençoa tudo?’ A senhora: ‘Sim, padre’. […] Naquele momento, outro padre saía e o ‘pequeno padre’ virou-se para cumprimentá-lo. Naquele momento, a senhora de repente se virou para mim e disse: ‘Padre, você me abençoa?’ Aí está. Percebem? A senhora aceitou toda a teologia, mas ela queria essa bênção. A sabedoria do povo de Deus! O concreto! Vocês dirão: mas pode ser superstição. Sim, às vezes alguém pode ser supersticioso. Mas o que importa é que o povo de Deus é concreto. No povo de Deus encontramos os aspectos concretos da vida, das verdadeiras questões, do apostolado, das coisas que temos que fazer. As pessoas amam e odeiam como deveriam amar e odiar”.

3.- A terceira passagem reveladora, na entrevista com os jesuítas da Romênia, refere-se à questão da comunhão para pessoas divorciadas que se casaram novamente, uma questão ainda não resolvida desde que as dubias” expostas por quatro cardeais permanecem sem resposta:

“O perigo em que corremos o risco de cair sempre será a casuística. Quando o Sínodo sobre a Família começou, alguns disseram: aí está, o papa chama um Sínodo para dar comunhão aos divorciados. E hoje eles ainda seguem falando! De fato, o Sínodo percorreu um caminho na moralidade matrimonial, indo da casuística do escolasticismo decadente à verdadeira moralidade de São Tomás. O ponto em que em Amoris laetitia se fala da integração dos divorciados, abrindo eventualmente à possibilidade dos sacramentos, foi feita segundo a moral mais clássica de São Tomás, a casuística mais ortodoxa, não a decadente de ‘pode ou não pode'”.

*

O argumento aqui apresentado por Francisco como uma justificativa para “Amoris Laetitia” é o mesmo que tinha exibido, quase com as mesmas palavras, aos jesuítas do Chile e do Peru, com quem ele conversou em 16-01-2018, em Santiago do Chile, durante a sua viagem a esses países.

Da mesma forma que se refere a São Pedro Fabro, ao contrário de São Pedro Canísio, com muitas invocações aos anjos, se encontra de forma idêntica na entrevista entre Francisco e os jesuítas da Lituânia e Letônia, com quem se reuniu em Vilnius, em 23-09-2018.

Acontece muitas vezes que Francisco se repete, principalmente quando fala improvisando. Mas às vezes acontece que também traz aspectos íntimos de sua personalidade.

Por exemplo, para os jesuítas do Chile e do Peru ele passou a dizer que é “pela saúde mental” que ele se recusa a ler os escritos de seus oponentes:

“Pela saúde mental, não leio os sites da Internet desta chamada ‘resistência’. Sei quem são, conheço os grupos, mas não os leio, simplesmente por causa da saúde mental. […] Algumas resistências vêm de pessoas que acreditam ter uma doutrina verdadeira e acusam você de ser um herege. Quando nessas pessoas, pelo que dizem ou escrevem, não encontro bondade espiritual, simplesmente rezo por elas. Sinto muito, mas não paro nesse sentimento de saúde mental”.

Em outras ocasiões, Bergoglio apresentou outras linhas sobre suas preocupações internas e sobre seus momentos de “desolação” em sua vida.

Mas basta destacar aqui sua mais recente contradição, com o declarado rechaço de ler “os sites da Internet” de seus oponentes.

Na quinta-feira, 13-06, em discurso aos núncios apostólicos que se reuniram em Roma, em algum momento, Francisco ordenou-lhes para cortar todo o contato com sites e blogs de “grupos hostis ao Papa, à Cúria e à Igreja de Roma”.

Agora, como Francisco concluiu esse discurso? Com a “Ladainha da humildade“, do Servo de Deus e cardeal Rafael Merry del Val (1865-1930), Secretário de Estado de São Pio X.

Uma nota de rodapé, no texto oficial do discurso, refere-se às fontes de onde essa sentença foi coletada.

Essa fonte é um post do site da Internet “Corrispondenza Romana“, com a assinatura de seu fundador e diretor Roberto de Mattei, historiador da Igreja, um dos críticos mais radicais do atual pontificado.

Este não é um sinal de que Francisco não apenas lê, mas também bebe, quando lhe serve, na fonte desses sites da Internet, que ele diz deixar de lado “pela saúde mental”?

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6 julho, 2019

Foto da semana.

Vaticano, 1º de julho de 2019: Consistório público de Francisco com os Cardeais para o anúncio de canonizações, dentre as quais a de Irmã Dulce Lopes Pontes e do Cardeal John Henry Newman. Nas imagens, os Cardeais Burke e Müller cumprimentam o pontífice.

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5 julho, 2019

Bomba: Viganò expõe ainda mais Francisco e sua corte. Denúncias de acobertamento de abusos e assassinato, parece que nunca se chega ao fundo do poço.

Novo testemunho de Viganò: o Vaticano encobriu alegações de abuso sexual de coroinhas do papa

Por LifeSiteNews, 3 de julho de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com –  Nota do Editor de LifeSiteNews: A entrevista do arcebispo Carlo Maria Viganò ao Washington Post, publicada em 10 de junho, continha uma resposta que o Washington Post decidiu expurgar da entrevista. Esta resposta continha informações importantes sobre as denúncias não tratadas de abuso sexual contra um alto funcionário da Santa Sé, bem como o acobertamento de um ex-seminarista, agora padre, acusado de abuso sexual contra adolescentes pré-seminaristas que serviam como coroinhas do Papa. O texto completo com as respostas inéditas que Viganò deu ao Washington Post, e que foi suprimido, segue abaixo. O texto foi ligeiramente modificado para incluir expressões normalmente usadas em inglês. O nome de um indivíduo foi removido pelo LifeSite porque não foi possível encontrar suporte suficiente para a acusação feita contra ele neste momento.

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O senhor vê algum sinal de que o Vaticano, sob o pontificado do Papa Francisco, está tomando as medidas adequadas para enfrentar as graves questões de abuso? Se não, o que está faltando?

Os sinais que vejo são verdadeiramente sinistros.  O papa não apenas não está fazendo quase nada para punir aqueles que cometeram abusos, mas também não está fazendo absolutamente nada para expor e levar à justiça aqueles que por durante décadas, facilitaram e acobertaram os abusadores. Só pra citar um exemplo, o Cardeal Wuerl, que acobertou os abusos de McCarrick e de outros por décadas seguidas e cujas repetidas e flagrantes mentiras foram manifestadas a todos que têm prestado atenção (para aqueles que não têm prestado atenção, ver http://washingtonpost.com / opiniões / cardeal-wuerl-sabia-sobre-theodore-mccarrick-e-ele-lied-sobre-it), teve que renunciar em desgraça devido à infâmia popular. No entanto, ao aceitar sua renúncia, o Papa Francisco o elogiou por sua “nobreza”. Que credibilidade o papa ainda tem depois desse tipo de declaração?

Mas tal comportamento não é de modo algum o pior. Voltando ao Encontro [ocorrido no Vaticano] e seu foco no abuso de menores, quero agora chamar a sua atenção para dois casos recentes e verdadeiramente aterrorizantes envolvendo alegações de abusos contra menores durante o mandato do papa Francisco. O papa e muitos prelados da cúria estão bem cientes dessas alegações, mas em nenhum dos casos foi permitida uma investigação aberta e minuciosa. Um observador objetivo não pode deixar de suspeitar que atos horríveis estão sendo encobertos.

1. O primeiro alega-se ter ocorrido dentro dos próprios muros do Vaticano, no Pré-Seminário Pio X, que fica a poucos passos da Domus Sanctae Marthae, onde o papa Francisco vive. Esse seminário forma os menores que servem como coroinhas na Basílica de São Pedro e em cerimônias papais.

Um dos seminaristas, Kamil Jarzembowski, colega de quarto de uma das vítimas, afirma ter testemunhado dezenas de incidentes de agressão sexual. Juntamente com outros dois seminaristas, ele denunciou o agressor, primeiramente e pessoalmente aos seus superiores no Pré-Seminário, depois por escrito aos cardeais e finalmente em 2014, novamente por escrito ao próprio papa Francisco. Uma das vítimas era um adolescente, supostamente abusado por cinco anos consecutivos, desde seus 13 anos de idade. O suposto agressor era um seminarista de 21 anos chamado Gabriele Martinelli.

Esse Pré-Seminário está sob a responsabilidade da diocese de Como e é dirigido pela Associação Don Folci. Uma investigação preliminar foi confiada ao vigário judicial de Como, Dom Andrea Stabellini, que encontrou evidências que justificaram investigações posteriores. Eu recebi as informações em primeira mão indicando que seus superiores proibiram que ele continuasse a investigação. Ele pode testemunhar por si mesmo e peço-lhe que vá entrevistá-lo. Eu rezo para que ele encontre a coragem para compartilhar com você o que ele tão corajosamente compartilhou comigo.

Juntamente com o anterior, fiquei sabendo como as autoridades da Santa Sé lidaram com este caso. Após a coleta de evidências feita por Dom Stabellini, o caso foi imediatamente encoberto pelo então bispo de Como, Diego Coletti, juntamente com o cardeal Angelo Comastri, vigário geral do papa Francisco para a Cidade do Vaticano. Além disso, o cardeal Coccopalmerio, então presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, quando foi consultado por Dom Stabellini, exortou-o fortemente a parar com a investigação.

Você pode se perguntar como esse caso horrível foi encerrado. O bispo de Como afastou Dom Stabellini do cargo de vigário judicial; o denunciante, ou seja, o seminarista Kamil Jarzembowski, foi expulso do seminário; seus dois companheiros seminaristas que se juntaram a ele na denúncia deixaram o seminário; e o suposto agressor, Gabriele Martinelli, foi ordenado sacerdote em julho de 2017. Tudo isso aconteceu dentro dos muros do Vaticano e nenhuma palavra sobre o caso saiu durante o Encontro sobre abuso sexual.

O Encontro foi, portanto, terrivelmente decepcionante, pois é hipocrisia condenar os abusos contra menores e alegar simpatizar com as vítimas, recusando-se a encarar os fatos honestamente. Uma revitalização espiritual do clero é mais que urgente, mas acabará sendo ineficaz se não houver disposição para abordar o problema real.

2. O segundo caso envolve o arcebispo Edgar Peña Parra, a quem o papa Francisco escolheu para ser o novo substituto na Secretaria de Estado, fazendo dele a terceira pessoa mais poderosa da cúria. Ao fazê-lo, o papa essencialmente ignorou um terrível dossiê enviado a ele por um grupo de fiéis de Maracaibo, intitulado “Quién es verdaderamente Monseñor Edgar Robinson Peña Parra, Nuevo Sustituto de la Secretaria de Estado do Vaticano?” (“Quem realmente é Monsenhor Edgar Robinson Peña Parra, o novo Substituto da Secretaria de Estado do Vaticano ”- LifeSite) O dossiê é assinado pelo Dr. Enrique W. Lagunillas Machado, em nome do “Grupo de Laicos de la Arquidiócesis de Maracaibo por una Iglesia e um Clero según o Corazón de Cristo” (“Grupo de Leigos da Arquidiocese de Maracaibo para uma Igreja e um Clero de acordo com o Coração de Cristo ”- LifeSite). Esses fiéis acusaram Peña Parra de terrível imoralidade, descrevendo em detalhes seus supostos crimes. Isso pode até ser um escândalo que supera o caso McCarrick, e não se deve permitir que ele seja coberto pelo silêncio.

Alguns fatos já foram publicados nos meios de comunicação, nomeadamente no semanário italiano L’Espresso (ver espresso.repubblica.it/inchieste/2018/10/18/news/buio-in-vaticano-ecco-l-ultimo-scandalo- 1,327923). Agora vou acrescentar fatos conhecidos pela Secretaria de Estado no Vaticano desde 2002, que fiquei sabendo quando servi como Delegado para Representações Pontifícias.

  • Em janeiro de 2000, o jornalista Gastón Guisandes López, de Maracaibo, fez sérias acusações contra alguns padres da diocese de Maracaibo, incluindo Mons. Peña Parra, envolvendo abuso sexual de menores e outras atividades possivelmente criminosas.
  • Em 2001, Gastón Guisandes López pediu duas vezes para ser recebido pelo arcebispo André Dupuy, núncio apostólico (o embaixador do Papa) na Venezuela, para discutir esses assuntos, mas o arcebispo inexplicavelmente se recusou a recebê-lo. No entanto, ele relatou à Secretaria de Estado que o jornalista havia acusado Mons. Peña Parra de dois crimes muito graves, descrevendo as circunstâncias.

Primeiro, Edgar Peña Parra foi acusado de ter seduzido, em 24 de setembro de 1990, dois seminaristas menores da paróquia de San Pablo, e que deveriam entrar no Seminário Maior de Maracaibo no mesmo ano. O evento teria ocorrido na igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde o reverendo José Severeyn era pároco. Rev. Severeyn foi posteriormente removido da paróquia pelo então arcebispo Mons. Roa Pérez. O caso foi denunciado à polícia pelos pais dos dois jovens e foi tratado pelo então reitor do seminário maior, Rev. Enrique Pérez, e pelo então diretor espiritual, Rev. Emilio Melchor. O Rev. Pérez, quando questionado pela Secretaria de Estado, confirmou por escrito o episódio de 24 de setembro de 1990. Vi esses documentos com meus próprios olhos.

Em segundo lugar, Edgar Peña Parra estaria envolvido, juntamente com [Nome removido], na morte de duas pessoas, um médico e um certo Jairo Pérez, que ocorreu em agosto de 1992, na ilha de San Carlos, no Lago Maracaibo. Eles foram mortos por uma descarga elétrica, e não está claro se as mortes foram acidentais ou não. Essa mesma acusação também está contida no referido dossiê enviado por um grupo de leigos de Maracaibo, com o detalhe adicional de que os dois cadáveres foram encontrados nus, com indícios de encontros lascivos e homossexuais macabros. Essas acusações são, para dizer no mínimo, extremamente graves. No entanto, Peña Parra não só não foi obrigado a encará-los, mas também foi autorizado a continuar no serviço diplomático da Santa Sé.

  • Essas duas acusações foram denunciadas à Secretaria de Estado em 2002 pelo então núncio apostólico na Venezuela, o arcebispo André Dupuy. A documentação pertinente, se não tiver sido destruída, pode ser encontrada tanto nos arquivos do pessoal diplomático da Secretaria de Estado onde ocupei o cargo de Delegado para as Representações Pontifícias, como também nos arquivos da nunciatura apostólica na Venezuela, onde os seguintes arcebispos serviram como núncios, desde Giacinto Berloco, de 2005 a 2009; Pietro Parolin, de 2009 a 2013; e Aldo Giordano, de 2013 até o presente. Todos tiveram acesso aos documentos que levantam estas acusações contra o futuro Substituto, assim como os cardeais Secretários de Estado Sodano, Bertone e Parolin e os Substitutos Sandri, Filoni e Becciu.
  • Particularmente notório é o comportamento do Cardeal Parolin que, como Secretário de Estado, não se opôs à recente nomeação de Peña Parra como Substituto, tornando-o seu colaborador mais próximo. E tem mais: anos antes, em janeiro de 2011, como núncio apostólico em Caracas, Parolin não se opôs à nomeação de Peña Parra como arcebispo e núncio apostólico no Paquistão. Antes de tais nomeações importantes, um rigoroso processo informativo é feito para verificar a idoneidade do candidato, de modo que essas acusações certamente foram trazidas à atenção do Cardeal Parolin.

Além disso, o cardeal Parolin conhece os nomes de vários padres da Cúria que são sexualmente ativos, violando as leis de Deus que eles solenemente se comprometeram a ensinar e praticar, e no entanto ele continua a fazer vistas grossas.

Se as responsabilidades do Cardeal Parolin são graves, mais ainda são as do papa Francisco por ter escolhido para uma posição extremamente importante na Igreja um homem acusado de crimes tão graves, sem antes insistir numa investigação aberta e minuciosa. Há mais um aspecto escandaloso nessa história horrível. Peña Parra está intimamente conectado a Honduras e, mais precisamente, ao cardeal Maradiaga e ao bispo Juan José Pineda. Entre 2003 e 2007, Peña Parra serviu na nunciatura em Tegucigalpa, e enquanto estava ali era muito próximo de Juan José Pineda, que em 2005 foi ordenado bispo auxiliar de Tegucigalpa, tornando-se o braço direito do cardeal Maradiaga. Juan José Pineda renunciou ao cargo de bispo auxiliar em julho de 2018, sem qualquer razão dada aos fiéis de Tegucicalpa. O Papa Francisco não divulgou os resultados do relatório que o Visitador Apostólico, o bispo argentino Alcides Casaretto, entregou diretamente e somente a ele há mais de um ano. Como poderíamos interpretar a firme decisão do Papa Francisco de não falar ou responder a qualquer pergunta sobre esse assunto, exceto como um acobertamento dos fatos e proteção de uma rede homossexual? Tais decisões revelam uma verdade terrível: em vez de permitir investigações abertas e sérias daqueles acusados ​​de graves ofensas contra a Igreja, o papa está permitindo que a própria Igreja sofra.

Voltando à sua pergunta. Você me pergunta se vejo sinais de que o Vaticano sob o Papa Francisco está tomando as medidas adequadas para enfrentar as graves questões de abuso. Minha resposta é simples: o próprio papa Francisco é que está acobertando os abusos agora, como fez com McCarrick. Eu digo isso com grande tristeza. Quando o rei David denunciou o homem rico ganancioso descrito na parábola de Natan, como sendo digno da morte, o profeta disse-lhe sem rodeios: “Tu és esse homem” (2 Sm 12: 1-7). Eu esperava que meu testemunho fosse recebido como o de Natan, mas ao invés disso foi recebido como o de Micaías (1Rs 22: 15-27). Eu oro para que isso mude.

27 junho, 2019

Herético e apóstata. Cardeal Brandmüller excomunga o sínodo da Amazônia.

Por Sandro Magister, 27 de junho de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – Desde que veio a público em 17 de junho, o documento base – ou “Instrumentum laboris” – do sínodo amazônico teve muitas reações críticas devido à anomalia de sua implantação e suas propostas, comparadas a todos os sínodos que o precederam. 

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Mas a partir de hoje tem mais. Quem está acusando o documento de heresias e apostasia é um cardeal, o alemão Walter Brandmüller, de 90 anos, historiador da Igreja, presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas de 1998 a 2009 e co-autor, em 2016, do famoso “dubia” sobre a interpretação e aplicação de “Amoris laetitia”, que o Papa Francisco sempre se recusou a responder.

Aqui está o seu “J’accuse”, tornado público hoje, dia 27 de junho, em todo o mundo e em vários idiomas.

Na Kath.net o texto original em alemão: “> Eine Kritik des “Instrumentum Laboris” für die Amazonas-Synode

Uma crítica ao “Instrumentum laboris” para o sínodo da Amazônia

de Walter Brandmüller

Introdução

De fato, pode causar espanto que, em contraste com as assembleias anteriores, desta vez o sínodo dos bispos se ocupe exclusivamente de uma região da terra cuja população é apenas a metade daquela da Cidade do México, ou seja, 4 milhões. Isto também causa suspeita no tocante às verdadeiras intenções que alguns gostariam de ver implementadas sub-repticiamente. Mas, acima de tudo, devemos nos perguntar quais são os conceitos de religião, de cristianismo e de Igreja que são a base do recém-publicado “Instrumentum laboris”. Tudo isso será examinado com o apoio de elementos individuais do texto.

Por que um sínodo nessa região?

Para começar, precisamos nos perguntar por que um sínodo de bispos deveria tratar de temas que — como é o caso de três quartos do “Instrumentum laboris” — têm só marginalmente algo relacionado com os Evangelhos e a Igreja. Obviamente, que a partir deste sínodo de bispos, realiza-se uma intromissão agressiva em assuntos puramente mundanos do Estado e da sociedade do Brasil. Há que se perguntar: o que a ecologia, a economia e a política têm a ver com o mandato e a missão da Igreja?

E acima de tudo: que competência profissional e autoridade tem um sínodo eclesial de bispos para emitir declarações nesses campos?

Se o sínodo dos bispos realmente o fizesse, isso constituiria uma invasão e uma presunção clerical, que as autoridades estatais teriam todo motivos para repelir.

Sobre as religiões naturais e a inculturação

Há outro elemento a se levar em conta, que é encontrado em todo o “Instrumentum laboris”: vale dizer, a avaliação muito positiva das religiões naturais, incluindo práticas curativas indígenas e similares, bem como práticas e formas de cultos mítico-religiosos. No contexto do chamado à harmonia com a natureza, fala-se até de diálogo com os espíritos (nº 75).

Não é apenas o ideal do “bom selvagem” esboçado por Rousseau e pelo Iluminismo, que aqui é comparado com o decadente homem europeu. Essa linha de pensamento vai além, até o século XX, culminando com uma idolatria panteísta da natureza.

Hermann Claudius (1913) criou o hino do movimento operário socialista: “Quando andamos lado a lado …”, e numa estrofe se lê: “Verde das bétulas e verde das sementes, que a velha Mãe Terra semeia com as mãos cheias, com um gesto de súplica para que o homem se torne seu … “. Vale notar que este texto foi posteriormente copiado no livro de cânticos da Juventude Hitlerista, provavelmente porque correspondia ao mito do “sangue e solo” nacional-socialista. Esta proximidade ideológica deve ser enfatizada: esta rejeição anti-racional da cultura “ocidental” que sublinha a importância da razão, é típica do “Instrumentum laboris”, que fala respectivamente da “Mãe Terra” no n. 44 e do “grito da terra e dos pobres” no n.101.

Consequentemente, o território – isto é, as florestas da região amazônica – pasmem, vem até declarado como um “locus theologicus”, uma fonte especial de revelação divina. Nela haveria lugares de uma epifania em que se manifestam as reservas de vida e sabedoria do planeta e que falam de Deus (nº 19). Além disso, a conseqüente regressão do Logos ao Mythos é elevada a um critério do que o “Instrumentum laboris” chama de inculturação da Igreja. O resultado é uma religião natural com uma máscara cristã.

A noção de inculturação é aqui virtualmente distorcida, pois na verdade significa o oposto do que a Comissão Teológica Internacional havia apresentado em 1988 e diferente do que havia ensinado anteriormente o decreto “Ad Gentes” do Concílio Vaticano II, sobre a atividade missionária da Igreja. 

Sobre a abolição do celibato e a introdução de uma sacerdócio feminino

É impossível esconder o fato de que esse “sínodo” visa particularmente implementar dois dos projetos mais ambicionados e que nunca foram implementados até agora: a abolição do celibato e a introdução de um sacerdócio feminino, a começar por mulheres diáconas. Em todo caso, trata-se de “levar em conta o papel central que as mulheres desempenham hoje na Igreja da Amazônia” (nº 129 a3). E da mesma forma, é uma questão de “abrir novos espaços para se recriar os ministérios adequados a este momento histórico. Chegou a hora de ouvir a voz da Amazônia … “(n. 43).

Mas aqui se omite o fato de que, conclusivamente, até mesmo João Paulo II já havia afirmado, com a mais alta autoridade magisterial, que não está no poder da Igreja administrar o sacramento da ordem às mulheres. De fato, em dois mil anos, a Igreja nunca administrou o sacramento da ordem a uma mulher. O pedido que se coloca em oposição direta a este fato mostra que a palavra “Igreja” é agora usada exclusivamente como termo sociológico pelos autores do “Instrumentum laboris”, implicitamente negando o caráter sacramental-hierárquico da Igreja.

Sobre a negação do caráter hierárquico-sacramental da Igreja

De maneira semelhante – embora com expressões bastante passageiras – o n. 127 contém um ataque direto à constituição hierárquico-sacramental da Igreja, quando se pergunta se não seria oportuno “reconsiderar a idéia de que o exercício da jurisdição (poder do governo) deve estar conectado em todas as áreas (sacramental, judicial, administrativo) e de maneira permanente ao sacramento da ordem”. É a partir dessa visão tão errada que surge no n. 129, o pedido para se criar novos ofícios que correspondam às necessidades dos povos amazônicos.

Todavia, é no campo da liturgia e do culto, no qual a ideologia de uma inculturação falsamente entendida encontra sua expressão de maneira particularmente espetacular. Aqui, algumas formas das religiões naturais são assumidas positivamente. O “Instrumentum laboris” (n. 126) não se retrai em  pedir que “os povos pobres e simples” possam expressar “a sua (!) Fé através de imagens, símbolos, tradições, ritos e outros sacramentos (!!)” .

Isto certamente não corresponde aos preceitos da constituição “Sacrosanctum Concilium” e nem aos do decreto “Ad gentes” sobre a atividade missionária da Igreja, e mostra uma compreensão puramente horizontal da liturgia.

Conclusão

“Summa summarum”: o “Instrumentum laboris” faz pesar sobre o sínodo dos bispos e, definitivamente, sobre o próprio papa uma violação grave do “Depositum Fidei”, que significa como consequência, a autodestruição da Igreja ou a transformação do “Corpus Christi Mysticum” em uma espécie de ONG secular com um papel ecológico-social-psicológico.

Depois dessas observações, naturalmente, abrem-se outras questões: pode-se encontrar aqui, especialmente no que diz respeito à estrutura hierárquica sacramental da Igreja, uma ruptura decisiva com a Tradição Apostólica como constitutiva da Igreja, ou melhor, os autores têm noção do desenvolvimento da doutrina que está sendo teologicamente substituído, a fim de justificar as rupturas acima mencionadas?

Este parece ser realmente o caso. Estamos testemunhando uma nova forma do Modernismo clássico do início do século XX. Na época, deu-se início a uma abordagem decididamente evolucionista e depois foi apoiada a idéia de que, no curso do contínuo desenvolvimento do homem a níveis mais elevados, seriam encontrados igualmente níveis mais elevados de consciência e cultura, o que significaria que o que era falso ontem poderia ser verdade hoje. Essa dinâmica evolutiva também foi aplicada à religião, isto é, à consciência religiosa com suas manifestações na doutrina, no culto e, naturalmente, também na moralidade.

Mas aqui, então, pressupõe-se uma compreensão do desenvolvimento do dogma que é claramente oposto ao entendimento católico genuíno. Este último compreende o desenvolvimento do dogma e da Igreja não como uma mudança, mas sim como um desenvolvimento orgânico de um assunto que permanece fiel à sua identidade.

É isso que os Concílios Vaticano I e II nos ensinam em suas constituições “Dei Filius”, “Lumen Gentium” e “Dei Verbum”.

Portanto, deve ser dito hoje com força que o “Instrumentum laboris” contradiz o ensinamento vinculante da Igreja em pontos decisivos e, portanto, deve ser qualificado como um documento herético. Dado que mesmo o fato da revelação divina é aqui questionado, ou mal entendido, deve-se também falar, que além disso, é apóstata.

Isto é ainda mais justificado à luz do fato de que o “Instrumentum laboris” usa uma noção puramente imanentista da religião e considera a religião como o resultado e a forma de expressão da experiência espiritual pessoal do homem. O uso de palavras e noções cristãs não consegue esconder que elas são simplesmente usadas como palavras vazias, independentemente do seu significado original.

O “Instrumentum laboris” para o sínodo da Amazônia constitui um ataque aos fundamentos da fé, de uma forma que até hoje não foi considerado possível. E, portanto, deve ser rejeitado com a máxima firmeza.

24 junho, 2019

O erro fatal de Francisco, o Papa que foi longe demais.

Por FratresInUnum.com, 24 de junho de 2019 — Foi por causa de um avanço imprudente que se deu a derrota do exército de Napoleão Bonaparte, em Waterloo, em 1815. Um dos maiores gênios da arte da guerra foi vencido por causa de um aparente progresso.

Nestes dias, o Papa Francisco deu um passo importantíssimo para a sua tentativa de reformar (ou deformar) a Igreja Católica. Como noticiamos, a Secretaria Geral do Sínodo dos bispos publicou o Instrumentum laboris, o texto fundamental de trabalho, construído mediante consultas cuidadosamente pilotadas pelo cardeal brasileiro Claudio Hummes.

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O texto apresenta a proposta da ordenação de homens casados, mais velhos e índios; sugere a criação de uma nova liturgia que incorpore os elementos indígenas; louva a atuação das Igrejas protestantes na Amazônia e auspicia a invenção de novos ministérios para as mulheres. É o recrutamento da Igreja nas fileiras da revolução tribalista!

A proposta pode parecer caótica, mas obedece a um plano de governo muito bem delineado em Evangelii gaudium, aplicado em Amoris Laetitia e Laudato si, os documentos principais do papa argentino, e agora concretizado num experimento concreto: o sínodo pan-amazônico.

Se as mudanças de Francisco em Vos estis lux mundi e em Sicut mater amabilis colocaram toda a responsabilidade pelos abusos sexuais do clero nas costas dos bispos, o que não foi desapercebido e deixou muitos deles para lá de preocupados, agora, o “avanço” do Papa Bergoglio deixou desconcertados os fieis.

A mídia não tardou em noticiar que o Vaticano está para decidir sobre a ordenação de homens casados e, de repente, muita gente despertou para o fato de que o bispo de Roma está indo “longe demais”.

No caso de Napoleão, a derrota consistiu no exílio na Ilha de Santa Helena, onde morreu em 1821. No caso de Francisco, a derrota não seria nada menos que a perda completa da credibilidade por parte do povo e do clero, pois, embora supremo, o poder do papa não é absoluto. De fato, não pode governar um soberano cuja autoridade seja ignorada. Seria como se, ao posto de um monarca, estivesse um mero ator, cuja encenação fosse encerrada pela desistência do público.

A Providência Divina age por caminhos muito mais altos do que os nossos e, neste sentido, podemos estar diante de uma genuína ação de Deus: um papa que não renunciasse, mas que fosse “renunciado” pela própria imposição dos fatos, exatamente como o rei Saul, quando a unção lhe foi retirada, pois a autoridade já estava sobre o rei Davi.

Um papa não pode usar do poder que tem contra a finalidade para a qual ele foi instituído, nem pode governar contra um povo do qual deveria ser pai. Esta é justamente a diferença entre uma legítima autoridade e uma tirania.

Os bispos e cardeais nunca agirão de motu proprio, mas apenas o farão forçados pelo povo, do qual sua subsistência concreta depende. Aliás, o abuso de poder de Francisco em relação aos bispos e cardeais é enorme: aos primeiros, tratou como coroinhas removíveis de seus ofícios com um decreto; e aos segundos, simplesmente há anos não recebe em colégio, recusando-se a tratá-los como o que são, o senado do romano pontífice.

Temos um papa que manipula as estruturas da Igreja em benefício de suas reformas, completamente à revelia do povo católico, sob o disfarce de uma sinodalidade fingida, tão fingida quanto a sua paternidade sobre a cristandade, à qual não cessa de esforçar-se por transformar em um inferno.

No final das contas, ele mesmo pode se colocar em um inferno, exilando-se voluntariamente num isolamento institucional absurdo, em uma ilha em que terminará por se destruir por completo, sendo que toda a Igreja seguirá um caminho completamente oposto.

Se a lei suprema da Igreja é a salvação das almas, Deus que a instituiu para isso decerto se servirá de todos os recursos para recuperar para si o povo que Francisco tentou cooptar, desviando-o para uma religião totalmente inventada, que perdeu completamente a identidade histórica com o que um dia já foi.

Alguém dizia que Deus permite ao diabo agir com a única condição de que não esconda o rabo. Pois bem… O povo já começou a ver o rabo e, daí, concluirá facilmente onde está o diabo. Há avanços que são apenas o começo do fim e, em nosso caso, temos um papa que já foi longe demais.

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17 junho, 2019

Rumo ao cisma. Lançado o documento preparatório do Sínodo da Amazônia.

Por FratresInUnum.com, 17 de junho de 2019 – Aconteceu! Exatamente como alertamos desde o início — estes posts de 2014, um único ano após a eleição de Francisco, impressionam e já indicavam o percurso que eles percorreram fielmente (1, 2, 3 e 4)!

O Papa Francisco não está brincando. Ele realmente quer destruir o catolicismo tal como se conhece atualmente e gestar uma nova religião a partir da estrutura da Igreja Católica. O documento preparatório do Sínodo da Amazônia não deixa margens para dúvida.

instrumentum laboris amazoniaEmbora o que chame imediatamente a atenção seja a solicitação de novas formas de ministério para a Igreja da Amazônia, a raiz da questão é muito mais profunda. O nº 129 do Instrumentum Laboris, de fato, diz que “afirmando que o celibato é uma dádiva para a Igreja, pede-se que, para as áreas mais remotas da região, se estude a possibilidade da ordenação sacerdotal de pessoas idosas, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os Sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã”. Trata-se da velha requisição de que se ordene homens casados.

Mas, ufa! Segundo o nosso super ortodoxo ex-núncio, Cardeal Lorenzo Baldisseri, não se trata de um prelúdio do fim: “Tudo que é doutrina permanece intacto. O resto pode-se estudar ou inventar”.

Inventar! Nisso eles são realmente pródigos.

Pois, um pouco antes, no nº. 126, o documento afirma que “constata-se a necessidade de um processo de discernimento em relação aos ritos, símbolos e estilos celebrativos das culturas indígenas em contato com a natureza, os quais devem ser assumidos no ritual litúrgico e sacramental. É necessário prestar atenção para captar o verdadeiro sentido do símbolo que transcende o meramente estético e folclórico, concretamente na iniciação cristã e no matrimônio. Sugere-se que as celebrações sejam festivas, com suas próprias músicas e danças, em línguas e com trajes originários, em comunhão com a natureza e com a comunidade. Uma liturgia que corresponda à sua própria cultura, para poder ser fonte e ápice de sua vida cristã, e ligada às suas lutas, sofrimentos e alegrias”.

A doutrina permanece intacta! O que faremos é apenas uma releitura dela, ressignificando-a completamente a ponto de se inventar uma nova religião. Afinal, não é o que o nº. 138 aprecia nos protestantes que atuam na Amazônia? Para os redatores deste documento naturalista, as seitas “nos mostram outro modo de ser Igreja, onde o povo se sente protagonista, onde os fiéis podem expressar-se livremente, sem censuras, dogmatismos, nem disciplinas rituais”.

Vamos inventar!

Como afirmava Dom Claudio Hummes em sua conferência na PUC-SP, eles querem, de fato, gestar uma Igreja com DNA Amazônico, ecologista, multiculturalista, indígena, tribalista! É disso que se trata.

Chega a ser absurdo que o Papa Francisco, embora escondendo-se sob a máscara sinodal, coloque-se tão flagrantemente em desconexão com o sensus fidei do povo católico. A pressa em demolir a Igreja é tão acelerada que já não consegue mais disfarçar uma fachada de catolicismo.

Alguns papas recentes também foram reformistas, mas eles tinham a preocupação de manter ainda aquela aparência católica que tranquilizava a alma das ovelhas enganadas. Agora, não. É sem anestesia, mesmo!

Mas isto é bom! Aliás, é excelente. Precisava ficar cada dia mais claro quem é Jorge Mario Bergoglio. Os cleaners já não conseguem respostas, pois Francisco os desarma totalmente.

Se não houver conversão, e é pelo que rezamos, Francisco precisa mesmo é escancarar ao máximo o seu desvio. O mais importante é a salvação das almas e a restauração da Igreja. E o fato de que toda esta Babel se torna cada dia mais manifesta aos olhos dos simples fieis será a circunstância de que se servirá a Providência para impelir a reação do povo cristão.

Por enquanto, Deus não intervém porque nós não merecemos. Quanta gente preocupada em disfarçar, em fazer de conta que estamos numa primavera! Nosso Senhor fará alguma coisa apenas quando a situação se tornar tão grave que seja indisfarçável, para que fique muito claro o milagre.

Neste ínterim, a estrutura eclesiástica se perverte cada dia com mais força, a fé é dissolvida no paganismo e a Igreja perece no mais inegável mundanismo. Semana passada, por exemplo, um bispo chileno recém-nomeado teve de renunciar não por ter dito uma heresia, mas porque falou coisas politicamente incorretas. A ditadura da opinião prevalece, invicta, sobre o clero moderno.

Até quando os fieis ficarão calados? Até quando assistirão, omissos, o desmonte da sua religião? Os avisos de Fátima são eloquentes! “O dogma da fé” foi o apelo da Virgem. Quem não curvará sua cabeça diante da impostura?

17 junho, 2019

Dom Viganò ao Washington Post: “O Papa Francisco está ocultando deliberadamente as evidências do caso McCarrick”.

Por OnePeterFive, 10 de junho de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – O arcebispo Carlo Maria Viganò está novamente nos noticiários de hoje, após o lançamento de uma nova entrevista de 8.000 palavras para o Washington Post. De acordo com o Post, a entrevista foi conduzida via e-mail durante um período de dois meses, com o ex-núncio papal nos EUA fornecendo respostas para cerca de 40 perguntas.

Dom Carlo Maria Viganò.

Dom Carlo Maria Viganò.

Aqueles que leram os testemunhos anteriores de Viganò perceberão muitas similaridades na entrevista, mas com maior profundidade. O arcebispo Viganò se recusou a responder perguntas sobre seu status pessoal, que, segundo ele, considera “irrelevante para os sérios problemas que a Igreja enfrenta”.

Ele começa com uma avaliação do Encontro sobre Abuso Sexual realizado em Roma, em fevereiro de 2019, o qual faz eco às preocupações que ele compartilhou com o National Catholic Register antes da abertura do Encontro. 

“Infelizmente”, diz Viganò ao Post, sobre o Encontro, “essa iniciativa acabou se tornando pura ostentação, pois não vimos nenhum sinal de uma disposição genuína de endereçar as causas reais da crise atual”. Ele destacou a falta de credibilidade do cardeal Cupich, que foi escolhido para ser um líder no Encontro, depois dele ter se referido às acusações de Viganò sobre o acobertamento dos abusos sexuais, como uma espécie de  “buraco de coelho”. Ele também lamentou a falta de transparência para com os jornalistas que procuravam informações sobre casos específicos.

Só pra citar um exemplo, o arcebispo [Charles] Scicluna, pego de surpresa com uma pergunta sobre o fato do papa ter acobertado o caso escandaloso do bispo Argentino Gustavo Zanchetta – “Como podemos acreditar que esta é de fato a última vez que vamos ouvir “não mais acobertamentos” quando, no final das contas, o próprio papa Francisco acobertou alguém na Argentina que tinha pornografia gay envolvendo menores? “-  acabou dando esta resposta embaraçosas:” Sobre esse caso, eu não, eu não, você sabe, eu não estou autorizado … ”. A resposta inepta de Scicluna deu a impressão de que ele precisava ser autorizado – o que levanta outra interrogação: autorizado por quem pra dizer a verdade? Alessandro Gisotti, o diretor do escritório interino de imprensa do Vaticano,  interveio rapidamente para assegurar aos repórteres que uma investigação havia sido iniciada e que, uma vez concluída, eles seriam informados dos resultados. É de se questionar se os resultados de uma investigação honesta e minuciosa serão realmente divulgados, e em tempo hábil”.

Viganò observa que um dos problemas-chave do Encontro foi a maneira pela qual “se concentrou exclusivamente no abuso de menores”.

“Esses crimes são de fato os mais horríveis”, acrescenta ele, “mas as recentes crises nos Estados Unidos, no Chile, na Argentina, em Honduras e em outros lugares têm muito mais a ver com abusos cometidos contra jovens adultos, inclusive seminaristas, não apenas nem principalmente contra menores. De fato, se o problema da homossexualidade no sacerdócio fosse honestamente reconhecido e devidamente tratado, o problema do abuso sexual seria muito menos severo ”.

Viganò ataca o papa Francisco, que segundo ele , “não apenas não está fazendo quase nada para punir aqueles que cometeram abusos”, mas também “não está fazendo absolutamente nada para expor e levar à justiça aqueles que, durante décadas, facilitaram e acobertaram os abusadores”.  Ele cita o exemplo do Cardeal Wuerl, que, não obstante as mentiras e acobertamentos dos abusos de “McCarrick e de outros por décadas”, sobre os quais ele só ofereceu “mentiras repetidas e descaradas”  e foi forçado a renunciar em desgraça,  ainda assim foi elogiado pelo papa por sua “nobreza”.

“Que credibilidade o papa ainda tem depois desse tipo de declaração?”, pergunta Viganó.

Sobre a questão da laicização de McCarrick, Viganò questiona por que isso só veio acontecer cinco anos depois que ele passou a informação ao Papa Francisco sobre McCarrick e por que isso só foi feito, “depois de mais de sete meses de silêncio total”, através de um procedimento administrativo e não judicial.

Viganò observa que, devido à natureza do procedimento, McCarrick foi “privado de qualquer oportunidade de recorrer da sentença” e foi privado do devido processo legal. “Ao tornar a sentença definitiva”, acrescenta Viganò, “o papa tornou impossível conduzir qualquer investigação adicional, o que poderia revelar quem na Cúria e em outros lugares sabia dos abusos de McCarrick, quando eles ficaram sabendo e quem o ajudou a ser nomeado arcebispo de Washington e, eventualmente, cardeal. A propósito, notem que os documentos deste caso, cuja publicação foi prometida, nunca foram produzidos ”.

“A linha de fundo”, diz Viganò, “é esta: o papa Francisco está deliberadamente ocultando as evidência do caso McCarrick”.

Sobre a questão da incomum intervenção da Santa Sé no encontro da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA em novembro passado, na qual o papa ordenou que os bispos reunidos não votassem em duas medidas contra o abuso sexual que haviam sido preparadas, Viganò diz que a Santa Sé estava tentando impedir um exame dos “problemas da corrupção episcopal, acobertamentos episcopais e falsidade, crimes sexuais do episcopado, tanto relacionados com menores como com adultos – qualquer um dos quais implicaria e embaraçaria intoleravelmente a Santa Sé”.

Questionado sobre a “notável falta de desmentidos” sobre o seu testemunho original – a pergunta foi feita antes de Francisco finalmente vir a público negando que ele sabia de alguma coisa, e que Vigano já havia declarado anteriormente ser “uma mentira” – o arcebispo argumenta que as acusações não podem ser desmentidas porque elas são verdadeiras. “Os cardeais e arcebispos que eu citei os nomes não querem ser pegos na mentira, e eles aparentemente acham que são tão poderosos e permanecerão intocáveis ​​se ficarem quietos e não levantarem polêmica”, disse ele.

Em um adendo à entrevista, depois que a longa e tardia negação feita pelo papa no mês passado foi divulgada, Viganò diz que as declarações do papa não podem ser reconciliadas entre si. “Ele primeiro diz que já respondeu várias vezes; segundo, que ele não sabia nada, absolutamente nada sobre McCarrick, e terceiro, que ele se esqueceu da minha conversa com ele. Como essas afirmações podem ser afirmadas e sustentadas juntas ao mesmo tempo? Todas essas três são mentiras descaradas ”, diz ele.

Sobre a mais óbvia alegação falsa feita pelo papa – de que ele havia respondido ao testemunho “várias vezes” – Viganò pergunta: “Durante nove longos meses ele não disse uma só palavra sobre meu testemunho, e até mesmo se gabou e continua a fazê-lo sobre seu silêncio, comparando-se a Jesus. Então, ele falou ou ficou em silêncio? Qual das duas opções é verdadeira?”

“Estamos em um momento verdadeiramente sombrio para a Igreja universal”, lamenta Viganò. “O Sumo Pontífice agora está mentindo descaradamente para o mundo inteiro para encobrir seus feitos perversos! Mas a verdade acabará por vir à tona, sobre McCarrick e todos os outros acobertamentos, como já aconteceu no caso do cardeal Wuerl, que também “não sabia de nada” e tinha “um lapso de memória”. Aqui o arcebispo se refere à revelação de que Wuerl sabia sobre as atividades sexuais ilícitas de seu antecessor, McCarrick, mesmo depois de muitas negações.

Além de sua tristeza pela desonestidade do papa, Viganò parece mais preocupado com o fato dos jornalistas falharem em investigar a fundo a história que ele colocou diante deles. “Não consigo imaginar que eles [os meios de comunicação] teriam sido tão tímidos se o papa em questão fosse João Paulo II ou Bento XVI”, diz ele, acrescentando: “É difícil não concluir que esses meios de comunicação relutam em fazê-lo porque eles apreciam a abordagem mais liberal do Papa Francisco em relação às questões de doutrina e disciplina da Igreja, e não querem comprometer sua agenda”.

Sobre a questão da homossexualidade no sacerdócio, Viganò sinaliza sua descrença de que a conexão está sendo ignorada. “Homens heterossexuais, obviamente, não escolhem meninos e homens jovens como parceiros sexuais de sua preferência, e aproximadamente 80% das vítimas são do sexo masculino, a grande maioria dos quais são homens pós-puberes.”

“Não são pedófilos, mas padres gays predadores atacando garotos pós-púberes e levando várias dioceses à falência nos EUA”, acrescenta ele.

“Dada a esmagadora evidência, é incompreensível que a palavra ‘homossexualidade’ não tenha aparecido uma só vez, em nenhum dos recentes documentos oficiais da Santa Sé, incluindo os dois Sínodos sobre a Família, o da Juventude e o recente Encontro sobre abuso sexual em fevereiro passado.”

Viganò segue afirmando que a chamada “máfia gay” na Igreja está “unida não pela intimidade sexual compartilhada, mas por um interesse comum em proteger e promover um ao outro profissionalmente e sabotar todos os esforços de reforma”. Ele diz que embora o papa Bento XVI  tenha iniciado uma investigação sobre os seminários, nada de novo foi descoberto, “aparentemente porque vários poderes juntaram forças para ocultar a verdadeira situação”.

“Será que existe um único bispo nos EUA que admita ser ativamente homossexual? Claro que não. O trabalho deles é constitucionalmente clandestino”.

Sobre a questão, se ele poderia vir a se reconciliar com o Papa Francisco, Viganò responde:

A premissa da sua pergunta está incorreta. Não estou lutando contra o Papa Francisco, nem o ofendi. Eu simplesmente falei a verdade. O Papa Francisco precisa se reconciliar com Deus e toda a Igreja, já que ele acobertou McCarrick, se recusa a admitir e agora está acobertando várias outras pessoas. Sou grato ao Senhor porque Ele me protegeu de ter quaisquer sentimentos de raiva ou ressentimento contra o Papa Francisco, ou qualquer desejo de vingança. Eu rezo por sua conversão todos os dias. Nada me faria mais feliz do que o Papa Francisco reconhecer e acabar com os acobertamentos e confirmar seus irmãos na fé.

Há muito mais na entrevista com o arcebispo Viganò que eu não toquei aqui. Leia na íntegra no The Washington Post.