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7 março, 2019

O livro que quer transformar a Igreja em Sodoma.

Por FratresInUnum.com, 7 de março de 2019: Sodoma é o nome da cidade bíblica cujo fim está ligado ao castigo divino pela difusão do pecado sexual contra a natureza com pessoas do mesmo sexo (cf. Gen. XIX,1-26). Por isso, Frédéric Martel escolheu “Sodoma” como nome de seu livro acerca da homossexualidade no Vaticano, pois, segundo ele, a Igreja se tornou como que um refúgio para homossexuais.

Em recente entrevista, porém, Martel deixou bastante claros alguns de seus pressupostos, sem os quais seria impossível chegar a essa conclusão. Apresentaremos, primeiro, os pontos principais da entrevista e, em seguida, faremos uma análise crítica. Pedimos ao leitor a paciência de ler calmamente o nosso texto.

Análise dos principais pressupostos do livro

Em primeiro lugar, ele afirma que “a castidade é profundamente contranatura”. Este é o pressuposto central e principal para todas as conclusões a que chega o autor.

Além disso, Martel afirma que a Igreja é “um ambiente homoerótico e as pessoas heterossexuais não querem ir para lá, querem se casar” e que, portanto, “as figuras na Igreja mais fervorosamente a favor da castidade e do celibato são muitas vezes os padres homossexuais”.

Aqui, o autor mostra muito bem que a finalidade do seu escrito é, primeiramente, lançar sob suspeita todos os padres que preguem a castidade, que defendam o celibato e que, portanto, tenham atitudes mais espirituais, místicas e doutrinais.

Ademais, ele afirma claramente que “para mim um cardeal ou um bispo ser gay não é problema. Há um problema, sim, com a vida dupla, com a hipocrisia”. Em outras palavras, o autor, que é um homossexual confesso, declara que a homossexualidade em si não é um problema, mas, como todos os que a atacam, segundo ele, são homossexuais enrustidos, isto é uma hipocrisia da qual a Igreja tem que libertar os seus clérigos, pois, “a homossexualidade, quando é reprimida, quando a pessoa se odeia a si própria e se flagela, acaba por tornar-se um problema que vem à superfície”.

Deste modo, Martel afirma que a homossexualidade no clero é um fenômeno cuja abrangência é enorme, mas não é um problema em si — o problema é combatê-la.

Um último detalhe digno de nota é que ele se apresenta como grande defensor de Francisco, diz que, para escrever o seu livro, ficou hospedado no Vaticano (na residência Santa Marta, que é a única hospedagem intra muros, lugar onde, por mera coincidência, reside o pontífice argentino), mas se defende, negando que “foi o Papa que encomendou este livro e que foi por isso que a sua entourage me deu acesso ao Vaticano”. Teriam razão os antigos, quando afirmavam que “quem muito se defende, muito se acusa”?…

Passemos à análise crítica dos pressupostos declarados pelo autor em sua entrevista.

A castidade contranatura?

O pilar principal de todo o livro é que a “castidade é contranatura” e, portanto, que toda pregação acerca da castidade só pode ser sinal de hipocrisia ou de repressão, a qual depois explodiria sob a forma de abusos sexuais.

É óbvio que só uma pessoa que não pratica a castidade pode pensar que é impossível que alguém a pratique por pura virtude e também por graça de Deus, através de uma profunda vida de oração. Hoje, em um mundo tão erotizado e tiranizado pela luxúria, talvez seja mais raro encontrarmos pessoas espontaneamente castas, mas isso não era muito raro até alguns anos atrás. Fica fácil, portanto, enganar o leitor: toma-se uma espécie de clichê mental compartilhado socialmente como se fosse um absoluto inquestionável, ao qual o próprio autor se nega a comprovar, aliás, porque é totalmente falso.

A verdade é o contrário do que diz o autor, pois o ser humano é essencialmente dotado de razão e, portanto, capaz de dominar o seu instinto sexual pela razão, e é nisso que consiste a virtude da castidade. Nada mais conveniente à natureza humana…

A castidade é uma virtude extremamente humanizante, equilibradora da psique, tranquilizadora, elevada. O celibato é a verdadeira marca da consagração completa do sacerdote católico, totalmente absorvido na sua missão apostólica e desinteressado por qualquer outro bem que não o seu crescimento espiritual para a salvação das almas. É plenamente acessível a qualquer pessoa o testemunho de tantos cristãos que são felizes por praticar a castidade ainda hoje e o número imenso de celibatários que sempre foram a coroa da Igreja Católica.

No entanto, desde o início da modernidade, as sociedades ocidentais se tornaram vítimas de um violento processo de implosão da razão e hiper-estimulação das paixões, especialmente da libido, da pulsão sexual. São séculos de esforços para corromper a consciência das pessoas e tornar cada dia mais impossível o acesso à luz da razão e, portanto, totalmente inacessível a luz da fé, que é muito superior e mais sutil.

Chegamos ao ponto de que, como bem ilustra Martel, tornou-se quase impossível para muitos imaginar que existe um mundo para além dos limites tão estreitos da libido. O prazer venéreo tornou-se o único viés pelo qual estas pessoas enxergam o universo e, portanto, qualquer coisa que exista fora disso se lhes apresenta como hipócrita, ilógica, inexistente. Martel chega ao ponto de distorcer de tal modo a realidade que, para ele, se um padre se apresentar como celibatário e casto, espiritual e conservador, deve-se por força concluir que é um homossexual perigoso!

O mais incrível, porém, é como se conseguiu que os próprios sacerdotes da Igreja sucumbissem a esta desgraça e se tornassem materialistas práticos. Não é raro que encontremos padres que pensem exatamente como Martel, partindo do princípio de que a castidade é desumana e que a prática do sexo é como que um cume da vida do homem.

O Pe. Luís Correa Lima, jesuíta, por exemplo, escreveu há um ano um artigo intitulado “A fraternidade e a superação da violência contra LGBT”, no qual a única opção que lhe parecia razoável na pastoral da Igreja com pessoas homossexuais é a aceitação irrestrita das suas práticas sexuais. Ele raciocina como se a castidade não existisse, como se não fosse humanamente integradora, chegando a dizer que tem razão quem busca “almejar construir um mundo em que as pessoas possam viver e respirar dentro da sua própria sexualidade”. O Pe. James Martin, também jesuíta e predileto da corte de Papa Francisco, fez considerações muito similares durante o Encontro Mundial das Famílias. Estes são apenas dois exemplares de um cenário desolador.

A Igreja, um ambiente homoerótico?

Martel afirma que a Igreja é um ambiente homoerótico e que os heterossexuais não querem saber de castidade, mas querem se casar e ter filhos, e que, por fim, o clero superpopulou-se de gays que se escondem por trás de suas batinas.

A afirmação de Martel é tão evidentemente verdadeira do ponto de vista estatístico que chega a confundir o leitor, visto que o número de padres homossexuais é gritantemente enorme.

Contudo, Martel toma como pertencente à essência do sacerdócio celibatário aquilo que é apenas uma anormalidade das últimas décadas. Qualquer pessoa um pouco mais velha sabe que, embora hoje haja um número tão assustador de homossexuais no clero, há cinquenta anos a Igreja simplesmente não era assim. É verdade que sempre existiram casos de padres que praticaram a homossexualidade, mas eram a exceção e não a regra.

Os padres antigos eram desbravadores, conhecidos por sua virilidade e coragem de sua pregação, tiravam do nada Igrejas pujantes, eram homens de reputação ilibada, venerados pela população, influentes desde o ponto de vista político e respeitados moral e intelectualmente. Quanto mais os bispos e cardeais!…

Foi nas últimas décadas que a prática da homossexualidade tornou-se tão generalizada no clero católico. Mas, antes, não era assim. Como chegamos a este ponto?

A homossexualização do clero católico: um projeto de corrupção

É preciso dizer os fatos com clareza: os seminários católicos sofreram a infiltração sistemática de agentes externos que disseminaram homossexuais por toda a estrutura da Igreja com o fim de destruí-la, e isso em todos os graus da hierarquia.

Neste sentido, o estudo de Michael Rose, “Adeus Homens de Deus” (Editora Ecclesiae, Campinas: 2015) apresenta uma vasta documentação que não deixa margem para dúvidas. Temos o testemunho confesso da principal agente desta trama. O livro precisa ser lido para que todos entendamos a monstruosa operação realizada para corromper a Igreja.

No Brasil, tivemos um caso bastante similar, cujos bastidores foram revelados por um infiltrado de uma sociedade secreta na Igreja Católica muito conhecido nas décadas de 70 e 80, chamado Neymar de Barros. Os seus dois livretes, A verdade sobre Neymar de Barros, volumes I e II (Editora Exodus, São Paulo: 1987), contam como ele forjou sua conversão para recolher dados do clero a fim de que a sociedade secreta que lhe contratara difundisse a homossexualidade entre os padres. Ele chega mesmo a apresentar uma pesquisa que realizaram acerca da porcentagem de homossexuais no clero brasileiro por volta do ano de 1978 (vol. II, p. 70).

Em todo caso, os elementos principais para a difusão do homossexualismo no clero foram a perseguição sistemática dos seminaristas heterossexuais, católicos devotos, com princípios morais claros e com doutrina segura; e a promoção de homossexuais declarados, a destruição da dogmática, da moral e, sobretudo, da espiritualidade, com a completa propagação do liberalismo total nos costumes, que serviu como uma espécie de oxigênio moral para os homossexuais no clero, e da construção de uma apologia teológica da homossexualidade que chegou a constituir aquilo que hoje em muitos grupos se chama de homo-heresia, uma reinterpretação completa da doutrina católica em termos homossexuais, que se tornou o oxigênio intelectual para esse disparate.

Aos poucos, construiu-se aquilo que Michael Vorris chama de “A rede” (The Network), uma verdadeira organização comunista e homo-herética que ocupou a Igreja Católica em todos os níveis. O próprio Martel deixa muito claro em sua entrevista que não há problema nenhum em ser padre gay, nem muito menos em ter um amante – ele diz que acha isso lindo! –, mas que o problema é ser um padre gay de direita, embora ele mesmo faça a distinção de um sub-grupo, ao qual ele chama de homófilos, que são os homossexuais não praticantes no clero católico – com essa distinção, Martel apenas está mencionando os eventuais homossexuais não militantes, ou seja, aqueles que não são membros de “A Rede”.

“A Rede” é constituída por clérigos homossexuais ostensivos, que se protegem e se “reproduzem”, atraindo para os seminários gays de todas as proveniências possíveis, e que se auto-promovem para os cargos de maior expressão na Igreja, tentando manipular a sua doutrina e teologia em seu próprio favor.

Em outras palavras, o livro de Martel, na tentativa de colocar um sinalizador sobre os padres conservadores, o que faz é colocar um sinalizador sobre os membros de “A Rede”. Agora, ficou muito fácil identificá-los. Ele mesmo protegeu a identidade de todos os seus entrevistados, que não são outros que os próprios entrevistados de “A Rede”, de Vorris. Nunca “A Rede” foi tão longe, nunca se exprimiu tão claramente e nunca os seus objetivos ficaram tão claros. Martel disse que suas gravações explodiriam com o Vaticano. Não! Explodiriam apenas com “A Rede”.

Entretanto, não deixa de ser curioso como “A Rede” conseguiu atingir tão alta influência.

Papa Francisco, o Papa de “A Rede”

Martel apresenta o pontífice argentino como uma espécie de Gorbatchev, que tenta salvar o sistema e, para isso, mudá-lo. Ele defende Francisco contra todo o “complô” que ele diz ter se instado para persegui-lo. No final, defende-se contra a acusação de ser um marionete de Bergoglio e chega a falar demais, reclamando de que alguns digam que o livro foi encomendado pelo papa.

De fato, não temos como saber se o livro foi pessoalmente encomendado por Francisco. Contudo, é evidente que ele protege de modo muito claro os membros de “A Rede” e toda a sua linha de ação é muito coerente com a intenção de “Sodoma”. O próprio Martel o reconhece, mostrando a conexão de tudo isso com o sínodo sobre as famílias, que criptograficamente abriu a comunhão aos divorciados recasados e também não mencionou com letras claras nenhuma condenação às práticas homossexuais e às uniões gays. É evidente que as observações de Martel vão na mesma linha das ações de Papa Francisco: de um lado, visam a plena cidadania gay na Igreja Católica e, de outro, a ordenação de homens casados, que garantiria o coeficiente heterossexual no clero, segundo os princípios homossexualistas do autor.

Em todo caso, Papa Francisco é o papa sob medida para “A Rede” e os seus planos manipuladores. Assim como as Fundações internacionais usam o aborto para corromper as mulheres e destruir, assim, as sociedades; “A Rede” está usando o homossexualismo para corromper o clero e, assim, destruir a Igreja. Isso não é propriamente uma novidade.

No início do século XIX, as forças secretas na Itália publicaram um conhecido documento chamado “Instrução permanente para a Alta Venda”. Ali, eles afirmam:

– “O Papa, quem quer que seja, jamais virá às Sociedades secretas; cabe às Sociedades secretas dar o primeiro passo em direção à Igreja, com o objetivo de vencer os dois”.

– “Não pretendemos ganhar os Papas para a nossa causa, fazê-los neófitos dos nossos princípios, propagadores das nossas ideias… O que devemos pedir, o que devemos procurar e alcançar, assim como os judeus esperam do Messias, é um papa segundo as nossas necessidades. Alexandre VI, com todos os seus crimes privados, não nos conviria, porque jamais errou nas matérias religiosas”.

– “Esmagai o inimigo, qualquer que ele seja, esmagai o poderoso à força de maledicências ou de calúnias: mas, sobretudo esmagai-o no ovo. É preciso ir à juventude; é ela que precisamos seduzir, é ela que devemos arrastar, sem que o perceba, sob a bandeira das Sociedades Secretas”.

– “Ora, pois, para garantir-nos um Papa nas proporções exigidas, trata-se inicialmente de moldar para ele uma geração digna do reino com o qual sonhamos. Deixai de lado a velhice e a idade madura; ide à juventude e, se for possível, até à infância… Uma vez estabelecida vossa reputação nos colégios, nos ginásios, nas universidades e nos seminários, uma vez que tiverdes captado a confiança dos professores e dos estudantes, fazei com que principalmente aqueles que se comprometem com a milícia clerical gostem de procurar vossas conversas”.

– “Essa reputação permitirá o acesso das nossas doutrinas ao seio do clero jovem, assim como ao fundo dos conventos. Em alguns anos, esse clero jovem terá, pela força das coisas, invadido todas as funções; ele governará, administrará, julgará, formará o conselho do soberano, será chamado a escolher o Pontífice que deverá reinar, e esse Pontífice, como a maioria dos nossos contemporâneos, estará necessariamente mais ou menos imbuído dos princípios humanitários que iremos começar a pôr em circulação; é um pequeno grão de mostarda que confiamos à terra; mas o sol das justiças desenvolvê-lo-á até ao mais alto poder, e vereis um dia que rica colheita esse pequeno grão produzirá”.

Alguém ignorará que Francisco é este papa não apenas esperado, mas preparado por décadas de infiltração? Fingiremos que a publicação do livro de Martel no primeiro dia do encontro sobre o abuso sexual de menores no Vaticano é uma mera coincidência? Não se trata de um diagnóstico sobre “Sodoma”, mas de sua apologia, implantação e apogeu na Igreja.

Já é hora de acordar. A Igreja está quase completamente tomada pelos seus inimigos. Corromperam a maior parte do clero e, agora, querem expelir a pequena porção ainda saudável que mantém a Igreja em pé…

Ficaremos parados? Cruzaremos os braços? Não! A Promessa da Santíssima Virgem é clara! Como leigos, resistiremos a esse massacre e o enfrentaremos nem que seja à custa de morte. A esta “Rede” maligna opomos outra rede, a rede dos consagrados à Santíssima Virgem! É hora de reagir!

Assim como da primeira vez, sobre “Sodoma” cairá o fogo do céu! A Igreja, como a família do justo Lot, não toma parte nesta iniquidade e não recuará nenhum milímetro. São duas cidades em luta: de um lado, Sodoma; doutro lado, a Jerusalém Celeste! Reconheceremos estes prevaricadores onde estiverem e os denunciaremos. Se eles não temem mais a Igreja, temerão o povo!

Continuaremos fieis à virtude, conservaremos a fé, manteremos íntegra a observância do celibato e teremos inteiramente inabalável o fogo da nossa entrega, pois sabemos que, como disse Nossa Senhora em Fátima: “no fim o meu Imaculado Coração triunfará”!

4 março, 2019

A condenação do cardeal Pell, a Igreja e o mundo.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 27 de fevereiro de 2019 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: A condenação do Cardeal Pell – que caiu como um raio após o encerramento da reunião de cúpula no Vaticano – recorda uma verdade que há cinquenta anos muitos querem esquecer: não há compromisso possível entre a Igreja e o mundo, porque o mundo odeia a Igreja e quer a sua destruição. A sentença também demonstra o fracasso da estratégia deste pontificado, que renunciou ao exercício da soberania da Igreja, confiando na benevolência do mundo.

Cardeal George Pell.

Cardeal George Pell.

A soberania da Igreja é expressa acima de tudo em sua lei canônica. A Igreja Católica enquanto sociedade visível é dotada de um direito, inclusive penal, que é o direito que Ela possui de punir os fiéis que cometeram violações à sua lei. O delito é uma violação externa da ordem jurídica da Igreja, distinto do pecado, que é uma violação da ordem moral.

Portanto, a Igreja, “por direito próprio e exclusivo”, tem o poder de julgar a violação das leis eclesiásticas e de sancionar crimes com penas canônicas (cânon 1402 §2). Entre os muitos crimes canônicos enumerados no Código, há a apostasia, a heresia e o cisma (cânon 1364), a communicatio in sacris [ou seja, a concelebração de sacramentos com hereges], a profanação das coisas sagradas (cânon 1376), além de uma série de violações graves do sexto mandamento (cânon 1395).

A distinção entre pecados e delitos não parece ser clara para o Papa Francisco, que proclama “tolerância zero” contra os crimes civis, como a pedofilia, mas invoca o “perdão” e a misericórdia para os “pecados da juventude”, como a homossexualidade, esquecendo a presença desse crime nas leis da Igreja.

Segundo as leis e o sentimento comum de grande parte dos países ocidentais, a pedofilia e o estupro são considerados um crime infame, mas não por causa da imoralidade do ato em si, mas pela violação que esses crimes implicam, respectivamente, dos direitos das crianças e das mulheres. Seguindo o exemplo dos Estados modernos, as autoridades eclesiásticas parecem ter desclassificado alguns pecados de atentados contra a moral em delitos contra a pessoa.

Nessa mesma linha de pensamento, o pecado não consistiria em violar a lei natural, mas em impedir com violência um indivíduo de seguir seus próprios instintos e tendências. Hoje, as autoridades do Vaticano tratam crimes como a sodomia como se fossem simples pecados particulares, limitando-se, nos casos ocorridos, a pedidos de expiação penitencial, sem aplicar as sanções penais exigidas pelos crimes.

Os únicos delitos reconhecidos como tais pela atual prática canônica são aqueles sancionados pelos Estados laicos, mas ainda no tocante a esse tipo de crimes, como o de pedofilia, as autoridades eclesiásticas se conformam hoje com as sentenças de culpa e de inocência dos processos nos tribunais estatais, renunciando a investigar e processar por conta própria, exceto quando tal se torna necessário para não perder a “credibilidade”, como aconteceu no “caso McCarrick”. Mas também a redução ao estado laical do cardeal Theodore McCarrick, como sublinhou Sandro Magister em recente artigo, é fruto de um processo não judicial, mas apenas administrativo (“Settimo Cielo”, 15 de fevereiro de 2019).

A Igreja, pelo contrário, tem o dever de abrir um processo criminal regular contra os acusados de abuso sexual, sem violar seus direitos fundamentais. De fato, não há apenas os direitos daqueles que afirmam serem vítimas, mas também os daqueles que são acusados ​​pelas vítimas.

Eles devem ser julgados de acordo com as normas do Direito Canônico, possivelmente antes do Estado, para se apurar a veracidade dos fatos. Uma vez que essa verdade tenha sido estabelecida, se eles forem considerados culpados, deverão ser submetidos às sanções corretas, mas se forem reconhecidos como inocentes, também deverão ser defendidos contra as autoridades civis dos Estados.

A Igreja, que é dotada de um direito penal e de tribunais, deve ter a coragem de desafiar o julgamento dos tribunais do mundo, na certeza de que não é o mundo que julga a Igreja, mas a Igreja que julga o mundo.

A crise moral da Igreja não se resolve com as chamadas melhores práticas – indicações práticas dadas pela Organização Mundial de Saúde, um corpo laico que promove a educação sexual e gostaria de incluir a contracepção e o aborto em todos os programas nacionais de planejamento familiar –, nem instituindo novas comissões ou forças-tarefa de “especialistas”, mas com uma visão sobrenatural, que infelizmente está totalmente ausente do discurso do Papa Francisco, que concluiu a cúpula do Vaticano em 24 de fevereiro passado.

As consequências são de que se ouve falar de uma maior sinodalidade das igrejas locais, “abertas” às contribuições do mundo secularizado, e da abolição do segredo pontifício em nome da “transparência”. A “cultura do segredo” é aquela denunciada por Frédéric Martel em seu recente panfleto tendente a “normalizar” a sodomia dentro da Igreja. Mas que segredo existe de mais impenetrável do que o segredo imposto aos sacerdotes pelo sacramento da confissão? Esta parece ser a próxima pedra que os inimigos da Igreja querem remover, para cuja obtenção o julgamento do Tribunal de Victoria [Austrália] parece ter preparado o caminho.

Na Austrália, no território de Canberra, adotou-se uma lei que torna processável o padre que não denunciar casos de abuso infantil, mesmo que tome conhecimento deles durante a confissão.

A lei – que aplica as recomendações da Royal Commission, uma comissão encarregada pelo governo australiano de ocupar-se dos abusos sexuais contra menores – foi aprovada em junho passado pela Assembleia Legislativa do território da capital australiana e estende a denúncia obrigatória de abusos contra menores também à Igreja e às suas atividades, incluindo o confessionário. Entre essas recomendações havia precisamente a ideia de tornar crime a não denúncia por um padre de perseguições e violências contra menores das quais ele tome conhecimento no exercício do Sacramento da Confissão (Acistampa, 29 de junho de 2017).

Enquanto isso, as Nações Unidas pediram à Itália para estabelecer uma “comissão independente e imparcial de inquérito para examinar todos os casos de abuso sexual de crianças por membros religiosos da Igreja Católica”, e “tornar obrigatória para todos, mesmo para os funcionários religiosos da Igreja Católica, a denúncia de qualquer caso de suposta violência contra menores às autoridades competentes do Estado”.

O pedido foi feito pelo Comitê da ONU para os Direitos da Infância e da Adolescência, com sede em Genebra. Por fim, solicitou-se a revisão das Concordatas nacionais (como o Tratado de Latrão com a Itália) na parte em que elas dispensam a hierarquia da obrigação de delatar. Na Itália, de acordo com a Nova Concordata de 1984, “a República italiana assegura que a autoridade judicial comunicará à autoridade eclesiástica competente pelo território do processo penal promovido contra os eclesiásticos” (Protocolo Adicional nº 2b).

Este princípio deve agora ser revertido, porque a ONU pede ao Vaticano para prestar total cooperação às autoridades civis que julgam os abusos nos vários países, fornecendo, por exemplo, todas as informações recolhidas pela Congregação para a Doutrina da Fé.

A questão da obrigatoriedade da denúncia às autoridades civis, sobre a qual o padre Lombardi afirmou que “é certo que se trata de uma questão abordada nesta reunião” (cúpula de 21 de fevereiro, n.d.r.), abre caminho para o pedido de violação do sacramento da confissão e do segredo pontifício. Outrora o Estado era o “braço secular” da Igreja, agora a Igreja se tornaria quase um “braço secular” do Estado.

Mas uma lei civil que quisesse impor a violação do sigilo confessional para alguns crimes, como a pedofilia, seria uma lei injusta, diante da qual os sacerdotes deveriam opor o seu “non possumus”, até o martírio. É este testemunho, e não outros, que tornaria a Igreja credível diante de Deus e do mundo. Contudo, cumpre reverter a relação que a Igreja tem há mais de cinquenta anos com o mundo secularizado e anticristão.

3 março, 2019

Foto da semana.

Hummes Papa

Estado da Cidade do Vaticano, 25 de fevereiro de 2019: O papa Francisco recebe o Cardeal Dom Claudio Hummes e os membros da rede Pan-Amazônica. Leia a respeito aqui.

25 fevereiro, 2019

O teatro do Papa bom e da Igreja má.

Por FratresInUnum.com, 25 de fevereiro de 2019 –  No Brasil, já estamos acostumados com políticos que fingem honestidade em público, mas que se permitem, em privado, fazer todos os abusos, enquanto a população honesta trabalha e paga os seus impostos. O quadro é o mesmo e dele estamos fartos! Agora, no encontro sobre “a proteção dos menores na Igreja Católica”, a alta hierarquia, sob a direção de Papa Francisco, encena uma moralidade que nunca respeitou, com requintes de sentimentalismo afetado e discursos comoventes, muitas lágrimas e fotografias tocantes por todos os lados.

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Nos últimos dias, foi publicado um livro em que o autor sustenta que a renúncia de Bento XVI foi causada justamente pelo lobby gay, provocando-se, assim, o conclave em que Francisco foi eleito para sucedê-lo. Quem não se lembra que, meses antes de sua renúncia, fora entregue ao pontífice alemão o famoso relatório redigido pelos cardeais Tomko, de Giorgi e Herranz sobre a homossexualidade na cúria romana? Em sua primeira visita a Ratzinger depois de eleito, Francisco recebeu do próprio papa emérito o famoso relatório, nunca publicado, cujo conteúdo é completamente desconhecido em seus detalhes, mas que decerto não foi considerado…

De fato, desde eleito, Francisco adotou um clamoroso silêncio sobre o tema da homossexualidade. Não se fala disso, mesmo. Aliás, muito pelo contrário. Desde o seu “quem sou eu para julgar?”, que justificava a vida pregressa de um importante assessor, e que levou à euforia todo o movimento LGBT mundial, do qual ele se tornou o patrono honorário, Francisco não deixou de favorecer pessoas explicitamente ligadas ao chamado “lobby gay” e de proteger predadores sexuais, como muito bem comprova a explosiva carta de Mons. Viganò, cuidadosamente não respondida pelo pontífice.

Jornalista questiona a respeito de Dom Zanchetta, em coletiva de imprensa no encontro ocorrido no Vaticano para tratar da questão de abusos de menores. 

Nos últimos dias, o jornal “El Tribuno”, da Argentina, publicou um documento em que se demonstra que Papa Francisco conhecia desde 2015 as denúncias contra Mons. Zanchetta, que incluem desde fotografias em que o bispo aparece despido até o abuso sexual de seminaristas. A despeito de tudo, Francisco criou para ele um cargo, até então inexistente no Vaticano: o de Assessor da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica, em 2017. E o papa finge que nada está acontecendo… E continua fazendo contundentes discursos contra aqueles que protegem molestadores.

O evento ontem concluído parece mais um teatro muito bem armado para proteger a imagem do pontífice reinante, bem como as suas estratégias para mudar a arquitetura da Igreja Católica, com o cortejo de toda a mídia internacional, que se prepara para celebrar, juntamente com ele, o esperado Sínodo da Amazônia. “Criar dificuldades para vender facilidades”, esta é a tática: faz um evento midiático para reverberar a perversidade sexual do clero, insistindo em que ela se deve ao clericalismo e sem dar nenhuma solução efetiva para o problema — ignora-se deliberadamente o fato de que a esmagadora maioria dos casos de abusos são casos de homossexualismo — , enquanto planeja instituir a ordenação de homens casados e, quem sabe, também a readmissão de todos os traidores das últimas décadas, que abandonaram o ministério para se casar…

Ao mesmo tempo, o cardeal Marx joga lenha na fogueira, dizendo que a Igreja na Alemanha destruiu arquivos que comprovavam o abuso sexual de clérigos e silenciou as vítimas. O que pretende, com isso, o purpurado?

Em todo caso, ninguém parece preocupado com a alma dos fiéis. Nem pensam o que se passa pela cabeça de um leigo trabalhador, pai de família, devoto, que luta para colaborar com sua paróquia, que defende a honra de sua religião, que se esforça por viver a castidade matrimonial e não praticar a contracepção, e que se depara com a realidade de que seus pastores não vivem a fidelidade aos seus votos de ordenação e ainda cometem ilícitos contra jovens e crianças.

Seria tudo um teatro cujo gran finale consistiria em Francisco sancionando a ordenação de homens casados e, talvez, de mulheres para o diaconato, readmitindo para o sacerdócio os apóstatas que amargam há décadas o seu ressentimento contra a Igreja, tudo muito cautelosamente e ad experientiam? Iniciar-se-ia, assim, a maior crise jamais vista no catolicismo. Cenário perfeito para Francisco sair repentinamente — uma renúncia? —  de cena como o papa que passará para a história como o maior de todos os revolucionários, mas que não conseguiu resolver o problema da depravação moral de seu clero porque era um Papa bom demais, um Papa bom demais para uma Igreja má.

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21 fevereiro, 2019

Clamoroso: o livro Sodoma, de Frederic Martel, afirma que o Papa sabia de McCarrick. A corte confirma.

Por Marco Tosatti, 17 de fevereiro de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – Sodoma, o livro de Frederic Martel sobre o qual tratamos recentemente, traz informações clamorosas. Segundo o autor, na versão inglesa do texto, que aqui apresentamos traduzida, Papa Bergoglio foi realmente informado pelo Arcebispo Carlo Maria Viganò do passado predatório [do ex-cardeal McCarrick, reduzido ao estado laical na semana passada] contra seminaristas e jovens padres, mas não considerou o fato tão relevante.

McCarrickE, consequentemente, não só ele levantou as restrições que Bento XVI impôs (cuja existência foi confirmada, para além de Viganò, pelo Cardeal Marc Ouellet), mas o utilizou como conselheiro em nomeações nos Estados Unidos (a promoção de Kevin Farrell a Camerlengo e a delegação a Blase Cupich da organização do encontro sobre abuso de crianças são as mais recentes confirmações, se é que eram necessárias), bem como fez de McCarrick seu representante pessoal tanto nos Estados Unidos (com Obama), como fora, na China, Armênia, Irã e Cuba.

Em nossa opinião, trata-se de um caso extraordinariamente interessante de “fogo amigo”; pois, se há alguém de quem Frederic Martel fala bem, quando não entusiasticamente, em seu longo trabalho, este alguém é realmente o Papa Bergogio. Martel, como sabemos, foi ajudado e hospedado por prelados no Vaticano, a fim de desenvolver seu trabalho. Em uma entrevista na televisão, ele mencionou ao menos quatro altos prelados próximos ao Papa, que ajudaram e o encorajaram. Ele afirmou ter se encontrado com o diretor da Civiltà Cattolica, Antonio Spadaro, SJ, diversas vezes; no livro, há uma entrevista com Spadaro, e uma entrevista com o Cardeal Lorenzo Baldisseri, o grande diretor dos Sínodos (mais ou menos pré-arranjados) sobre a família e os jovens. Ele é um “famiglio” do Pontífice, homem de sua confiança. Então, devemos crer em Martel, particuparlmente porque ele coloca a frase central entre aspas. Eis aqui o pequeno trecho que traduzimos:

… Cardeais e bispos da Cúria Romana e do episcopado americano que, segundo ele, participaram desse enorme acobertamento: é uma lista interminável de nomes de prelados, entre os mais importantes no Vaticano, que foram “relevados”, independentemente de correta ou erroneamente (quando o Papa rejeitou as acusações, seu entorno me confirmou que Francisco ‘foi inicialmente informado por Viganò que o Cardeal McCarrick havia tido relações homossexuais com seminaristas maiores de idade, o que não era o bastante para, a seus olhos, condená-lo’).

Se Martel escreve a verdade — e não há razão para crer o contrário, uma vez que ele, certamente, não é um conservador homofóbico fariseu moralista e hipócrita — algumas considerações são necessárias.

A primeira: embora os seminaristas não eram menores, se uma pessoa hierarquicamente em posição superior, e que pode decidir o futuro de seus subordinados, abusa sexualmente deles, não se trata de uma questão de sexo entre adultos com consentimento: há uma forma de violência. Agora, sabemos que isso não parece importante ao Pontífice. Ou, ao menos, não tão importante, pelo menos para não favorecer ou usar o abusador até esse vínculo se tornar muito embaraçoso, para daí sacrificá-lo à opinião pública.

Depois: são meses e meses que os católicos estão esperando por uma resposta: Viganò mentiu ou não? Parece que, segundo Martel, e de acordo com a corte do Pontífice, ele falou a verdade.

Então, por que não admiti-lo? Por que não dizer, como homem e como cristão, “é verdade, eu fui advertido, mas, pensei que não era tão grave. Equivoquei-me no meu juízo, perdão”?

Tal comportamento teria um efeito muito diferente do que as reações ferozes com que os homens do pontífice, apoiados pela mídia complacente, partiram para a agressão à pessoa de Viganò, tentando atribuir a ascensão e a glória de McCarrick a papas anteriores, tentando negar que Bento XVI lhe tenha imposto restrições possíveis ao estado das coisas de então, e que essas restrições foram, de fato, canceladas pelo Papa Bergoglio. Não nos esqueçamos que o Núncio Viganò escreveu ao Cardeal Parolin, Secretário de Estado, perguntando se as sanções contra McCarrick deveriam ser consideradas abolidas. Sem nunca receber uma resposta…

Uma considerações final a respeito do cinismo implícito à reação do Pontífice.

Para esclarecer um tema dramático, os de minha idade se lembram das manifestações políticas da década de 70. Parafraseando um slogan muito usado naquela época, podemos dizer: “É o Papa — que ensinou — um padre que tenha assediado — não está errado” (ou em pecado, se você é um rígido fariseu).

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20 fevereiro, 2019

A nova religião ecologista de Dom Cláudio Hummes. Aos generais: “ninguém tem medo de cara feia”.

Por FratresInUnum.com, 19 de fevereiro de 2019 – Planeta! Planeta! Planeta! Esta foi a palavra mais repedida por Dom Cláudio Hummes em sua aula inaugural na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da PUCSP, com a presença do grão-chanceler, o cardeal Dom Odilo Scherer. E nós estávamos lá!

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Duas vezes emérito, como arcebispo de São Paulo e Prefeito da Congregação para o Clero, o cardeal Hummes fez uma conferência sobre o Sínodo da Amazônia, a qual dividiu em duas partes: na primeira, fez um histórico; na segunda, uma contextualização teórica.

Em seguida, apresentamos as nossas notas taquigrafadas da palestra do cardeal.

Histórico do Sínodo da Amazônia

Dom Cláudio começou dizendo que, após tornar-se emérito, não sabia bem o que ia fazer, quando a CNBB o encarregou de acompanhar o trabalho na Amazônia. Em 2014, fundou-se a REPAM – Rede Pan-Amazônica –, da qual ele é presidente, e que articula o trabalho pastoral da Igreja na Amazônia, envolvendo os nove países que a compõem.

“Neste meio tempo houve a mudança dos papas: Bento XVI renunciou, pelos motivos que vocês conhecem, e foi eleito um papa argentino, que tomou o nome de Francisco”. Para Dom Claudio, isso significa que a Igreja se tornou “mais universal e menos europeia”.

Em sua viagem ao Brasil, em 2013, Francisco fez um discurso aos bispos em que mencionou, ao final, o problema da Amazônia, pois teria ficado impressionado com a insistência dos bispos brasileiros acerca do tema na Conferência de Aparecida – este teria sido o despertar do Pontífice.

Neste discurso, Francisco teria afirmado que a “Amazônia é um texto definitivo para a Igreja do Brasil” e animou os episcopados a não ter medo, a criar um clero autóctone, a avançar, a ser corajosos, a fazer propostas ousadas… “A Igreja não pode errar na Amazônia”. Por causa deste impulso do Papa, fundou-se a REPAM, para criar um “Plano Pastoral de Conjunto” para a Amazônia.

Foi neste época que o Papa lhe teria dito: “Dom Claudio, vamos rezar juntos, pois nós precisamos reunir os bispos, ainda não sei de que forma… Podia até ser, talvez, um sínodo”. Ele conversou com outros bispos para fazer o discernimento. “O Papa é jesuíta e precisa fazer discernimento, precisa de tempo”.

Em 2017, “eu estava com um problema no pulmão muito sério” (ele se refere ao câncer que apareceu neste período), “eu estava um trapo”. Mas, como era a canonização dos mártires do Rio Grande do Norte, “eu fui lá”. Na noite anterior, o Papa me disse: “amanhã eu vou anunciar o sínodo”. “Essa foi uma história que avançou muito rápida”.

Logo, o Papa anunciou o objetivo do Sínodo: “encontrar novos caminhos”. “Ele sempre dizia: ‘nós precisamos do novo’, ‘não tenham medo do novo’, precisamos sair da acomodação’”.

“O novo sempre traz resistências. Este papa também tem resistências – às vezes sem muito sentido, sem cabimento, mas, em todo caso… ‘Não tenham medo do novo’, o novo para a Igreja e para os povos indígenas, que não têm um futuro sereno, são os mais abandonados, os mais esquecidos, os mais atropelados. E, ao mesmo tempo, a questão da ‘Casa Comum’, da Ecologia”. O Papa encarregou a REPAM para ajudar a secretaria geral do sínodo a prepará-lo.

Logo em seguida, Francisco decidiu ir a Porto Maldonado, onde entrou em contato com os povos indígenas para escutá-lo. Este teria sido o objetivo principal da viagem apostólica. “Foi algo histórico, empolgante e comovente como o Papa realizou o encontro com os povos indígenas”, aos quais disse: “vocês são interlocutores insubstituíveis e a Igreja está aqui para defendê-los, a fim de que vocês sejam os protagonistas da própria história”.

Naquela ocasião, eles tiveram uma reunião de cinco horas de reunião com os índios. No dia seguinte, aconteceu a reunião com o papa, que se sentou no meio dos anciãos indígenas, os seus “sábios”. “Nós estávamos atrás e os índios estavam na frente, junto com o papa, com as suas roupas, alguns meio sem roupas”. O Papa disse: “Eu vim aqui escutar vocês”.

Segundo Dom Cláudio, o Papa “mexeu” com a metodologia da Igreja Brasileira, “ver, julgar e agir”. “Ver é escutar, não fazer a nossa análise”. O papa disse: “Hoje aqui está começando o sínodo, vocês são os principais”.

Logo no dia seguinte, houve a reunião dos bispos representantes dos nove países com o cardeal Baldisseri, que veio ao encontro do REPAM para criar o conselho pré-sinodal.

Com as palavras do papa – “hoje aqui está começando o sínodo” –, ele cria uma nova concepção do sínodo: “o sínodo é todo o processo”. “Nós realizamos mais de 20 assembleias pré-sinodais”. A secretaria do sínodo pediu que houvesse duas fontes de trabalho: “uma, a que os bispos recolhem na sua diocese, outra a que é recolhida pelo REPAM”.

O sínodo trouxe uma empolgação muito grande “e até a preocupação de alguns generais por aí… Mas nós continuamos o nosso trabalho normalmente. Ninguém tem medo de cara feia… No final, tudo vai se resolver no diálogo e na paz”.

“Estamos terminando neste momento as sínteses que vão a Roma no final de fevereiro”.

Contexto do sínodo da Amazônia

“Nós sabemos que o mundo hoje está consciente e enfrenta uma grande crise ecológica e climática”. “É urgente, pois não há muito tempo, mas há tempo ainda”.

Na COP21 de Paris chegou-se à conclusão de que seria necessário reverter a crise climática e cuidar do planeta. Dom Claudio ressaltou duas falas conclusivas desta Conferência da ONU: “plus tard, trop tard”, “muito tarde, tarde demais” e “aqui, na COP21, nós não salvamos o planeta, mas salvamos a possibilidade de salvar o planeta”.

“Quase todos os países assinaram o acordo, os Estados Unidos também, o Brasil também, mesmo com todos os problemas que hoje temos com os Estados Unidos… Espero que, com o Brasil, não”. “É nesse contexto que está este Sínodo. Eclesialmente, é o contexto da Laudato sì”.

“É missão da Igreja cuidar do planeta. É uma missão que Deus entregou a nós. Nós o fazemos por causa de Jesus Cristo. Nós não podemos não cuidar do planeta”.

“A partir daí, é preciso reescrever a nossa teologia da criação. A teologia que nós aprendemos precisa ser reescrita a partir dessa nova posição da Igreja: nós temos que cuidar do planeta! Vocês, que são jovens, precisam fazer isso. A própria cristologia precisa ser reescrita”.

“Este sínodo não terá apenas significado para a pan-Amazônia, mas terá um significado para o mundo”.

“É muito difícil haver outro sínodo da Amazônia. Este é o momento histórico da Amazônia, não se pode oscilar, não se pode perder este momento, que é um kairós”.

Depois, Dom Claudio começou a falar sobre o CO2 e o efeito estufa. “O calor entra, mas não sai. O gás carbônico faz isso: uma espécie da capa ao redor do planeta; o calor não consegue sair”. É preciso acabar com o Petróleo! Mas, pergunta-se o cardeal, como mudar as fontes de energia? Há países que não têm condições!

É preciso, também, continuou, mudar o paradigma tecnocrático: “a filosofia moderna fez uma revolução copernicana: pôs o sujeito no centro. Veio o antropocentrismo, o subjetivismo, o individualismo…” Ao mesmo tempo, veio a descoberta das ciências exatas, que trouxeram tecnologia avançada. “Isso criou a ideia de que nós, os pequenos, somos os donos de tudo que está fora”. “Com a ciência, a tecnologia, começou-se a explorar o planeta. Daí vem a ideia de um progresso indefinido, como se o planeta tivesse recursos inesgotáveis”. Isso está por trás da grande crise!

“Outro tema é a ecologia integral”. “Ecologia integral é como a Igreja entende, mas não só como a Igreja entende, pois a ecologia integral é algo que vai além da fé. Mas, o que é esta ecologia integral? No fundo é o seguinte: tudo está interligado no planeta: nós, o planeta e, por fim, o próprio Deus com o planeta”. “Nós não somos seres que foram gerados fora e fomos colocados neste planeta. Nós somos filhos deste planeta, nós somos frutos deste planeta. E muitas vezes nós entendemos que o planeta é uma coisa e nós temos outro destino. Nós fomos feitos dentro de todo o processo de desenvolvimento deste planeta. Tudo foi criado por Deus. Que nós cuidemos da nossa Mãe Terra. Este é um conceito fundamental”.

“E Deus, se encarnando em Jesus de Nazaré, Ele faz a definitiva ligação dele com este planeta, com todo este sistema. Deus também se interligou definitivamente em Jesus Cristo. E Jesus Cristo ressuscitado é o ponto culminante de toda esta caminhada do planeta. Esta é a ideia sintética de toda esta ecologia integral”.

Então, Dom Claudio citou um cântico que “agora todos cantam”. Segue o verso:

“Tudo está interligado,
como se fôssemos um!
Tudo está interligado
nesta ‘Casa Comum’”.

“Por isso, eu dizia que é necessário reescrever todas essas coisas”. “Isso já está em São Paulo, quando ele diz que Jesus Cristo é cabeça de toda a criação. Isso já estava em Teillard Chardin, quando ele aplicou isso à teoria da evolução. Mas ficou à margem, porque a teologia escolástica clássica não tinha muito clara essa ideia”.

“É preciso a gente estar atento, para estar atualizado. A moral, nos tempos que eu estudei, tinha páginas e páginas sem fim sobre o sexto e o nono (mandamentos), mas sobre a questão do dinheiro, nada ou praticamente nada. Esses dias, ouvindo uma pregação do papa, me caiu uma ficha. ‘Não se pode servir a Deus e ao dinheiro’. O grande obstáculo para o Reino de Deus é o dinheiro: a corrupção, a roubalheira, toda a violência se faz por causa do dinheiro. É o dinheiro que impede, mas os livros de moral falam pouco. É preciso reescrever essas coisas. Estão acontecendo coisas novas, que não são novas porque são velhas, porque estão no Evangelho”.

“Precisamos encontrar novas formas de desenvolvimento que não sejam colonialistas. A Igreja também tem formas colonialistas quando evangeliza. Precisamos nos purificar de todo colonialismo. Colonialismo significa: ‘eu tenho a minha forma de desenvolvimento’, eles trazem de fora e simplesmente começam a atividade predatória”.

“Não podemos derrubar a floresta, pois, sem ela, os rios e as águas vão embora: os rios aéreos, terrestres e subterrâneos”. “Precisamos procurar novos modelos que não derrubem a floresta”.

“O Sínodo tem que estimular a busca de novos modelos. O sínodo não é competente pra isso, mas pode estimular”.

“Vocês sabem que o papa quer uma Igreja missionária, em saída. Uma Igreja misericordiosa, que não aposta na lei, nas instituições, na disciplina, na cobrança, mas aposta na caridade, na misericórdia. Uma Igreja missionária. A Igreja na Amazônia também sobre dos mesmos males que nós, por aí: sofremos com a nossa Igreja, que aposta muito na lei, na disciplina, na cobrança, nas instituições, nas estruturas, e isso não salva, a lei não salva. A única coisa que salva é a caridade, a misericórdia. É claro que a lei ajuda a colocar as coisas em ordem, mas apenas quando nos ajuda a ser misericordiosos e caritativos. O papa diz que a gora a lei está atrapalhando a Igreja de ser mais misericordiosa e em saída. Então, isso tem que ser mudado”.

“Deus se aproxima de nós com respeito e amor. Deus não manda males, ele nos ajuda a sair dos males. Essa ideia de que Deus me mandou um câncer, que meu filhou morreu porque Deus mandou… Não! Deus não manda males, não! Os males têm outra origem. Deus nos ajuda a sair dos males”.

“Temos que ser uma Igreja profética, que denuncia os males, que não têm medo de cara feia”. “Não ter medo de cara feia não significa que você tem que brigar, é você não ter medo, é se por à disposição pra dialogar… pra resolver as coisas pelo diálogo, não é pelo enfrentamento. Você tem que encontrar as pessoas, se elas têm outras ideias ou talvez elas sejam violentas… Essa ameaçazinha sobre a preparação do sínodo, que veio do governo, digo: ‘o povo tem liberdade democrática de falar, e sem se sentir ameaçado’. Isso é democraria, isso é direito. Pode até falar errado, mas não pode se sentir ameaçado. Isso não podemos aceitar”.

“O papa diz que os povos originários da panamazônia são os mais empobrecidos, os mais abandonados, os mais ameaçados. Eles são os pobres com os quais a Igreja deve caminhar e encorajar”.

“A Igreja sempre cuida da ‘Casa Comum’. Ela deve se envolver com isso. A Igreja, por missão, deve cuidar da ‘Casa Comum’, da criação, cuidar dela como um jardim”.

“Enfim, o assunto da Igreja inculturada. O papa é provocativo. Ele mexe conosco. A Igreja sempre soube que tem que fazer inculturação. Depois de fazer a inculturação europeia, a Igreja ficou com medo. E foi uma inculturação bem-sucedida e dura até os nossos dias. Mas não existe só a cultura europeia. O planeta é maior com isso”.

“A Europa não pode querer ser ela só. Em Evangelii Gaudium, o Papa diz que a fé cristã não pode ser só inculturada na europa. Ele dá o nome aos bois! A fé deve se inculturar em todas as culturas. Aí que vem a questão da colonização. Se nós implantamos a Igreja europeia aqui, isso é colonialismo. Então, como este sínodo vai estimular caminhos para que se inculture a fé! Em Porto Maldonado, ele disse aos indígenas que ajudem os seus bispos a inculturar na cultura deles a fé. Isso significa dar-lhes a possibilidade de que surja naquele lugar uma Igreja com o rosto daquela cultura. Que surja uma Igreja, não que venha de fora; que surja de dentro da sua história, da sua identidade, enfim, da sua espiritualidade, que de lá de dentro surja a Igreja de rosto panamazônico e de rosto indígena, diz o papa, uma Igreja indígena. Isso não significa que aqui em São Paulo nós temos de ter uma Igreja indígena, nós somos europeus com alguma misturinha, mas fundamentalmente europeus. Mas isso não acontece com os nossos indígenas nem com os nossos negros”.

“Hoje se fala de uma Igreja indigenista, que defende o direito dos índios. Mas isso não basta! Nós precisamos de uma Igreja indígena, com os seus próprios padres, com os seus próprios bispos, que parta da sua própria vida, da sua própria identidade, cultura e história”.

Respostas às perguntas finais

Após o término da palestra, reservaram um tempo de perguntas.

Dom Claudio explicou que o sínodo está sendo preparado com embasamento acadêmico, sendo respaldado por eventos sobretudo realizados pelas Universidades Jesuítas. Haverá um grande simpósio em Boston. “Os jesuítas foram os que mais agarraram esta causa”.

Um pouco adiante, ele disse que a Igreja precisa mobilizar a sociedade para pressionar os governos quanto às questões amazônicas.

O Padre Ruiz Barbosa, da Diocese de Santarém, perguntou acerca da carência de sacerdotes na Amazônia. Dom Claudio respondeu que “a questão dos ministérios certamente será discutida no sínodo, mas, logo de início o papa disse: ‘cuidado para não perder o foco! Cuidado para não transformar o sínodo da Amazônia num sínodo sobre os ministérios’, o foco principal é a ecologia integral. O grande problema das comunidades que você citou é que 70% não tem a Eucaristia. Podem até levar a comunhão, mas elas não têm a Celebração Eucarística e é a Celebração Eucarística que constrói a Igreja. Sem a Eucaristia, a Igreja não é nada. Então, ali falta a Eucaristia, falta a confissão sacramental. O povo quer ser reconciliado com Deus e com os irmãos. Sabemos que Deus perdoa quando se pede perdão, mas o sacramento da confissão é algo muito mais forte, mais estruturante. Não há o sacramento da unção dos enfermos. É um momento crucial, o do cristão que morre e a Igreja não dá nada a ele. A Igreja exigiu tanto dele e, no final da vida, a Igreja não dá nada. O sacramento é para isso. Jesus mandou ungir os enfermos, rezar pelos enfermos. Estes sacramentos são da vida cotidiana dos católicos. Pra nós é tão normal que a gente nem pensa nisso. Lá existe uma Igreja da Palavra. Fazem um grande trabalho, os catequistas, que fazem o culto da Palavra. Mas uma Igreja da Palavra não é uma Igreja cristã completa. Falta o sacramento. E o sacramento é a força que eu preciso para praticar a caridade. A caridade salva, a Palavra ilumina, mas é o sacramento que me dá força para eu, de fato, praticar a caridade que salva. Os sacramentos são meios, não são fins. Me ajudam a praticar a caridade, a misericórdia. Isso eles não têm. Eles têm que saltar da Palavra para a caridade. O Papa diz que isso tem que ser encaminhado diferentemente. Ele mesmo diz que ainda não têm ideias claras. E como fazer isso? Ele acena, às vezes, para aquela proposta daquele bispo sul-africano, na verdade missionário, Fritz Loginger. Ele tem umas propostas que o papa também acena, de presbíteros locais que só exercem o munus sanctificandi, ou seja, apenas os sacramentos e a oração, tenham apenas essa jurisdição. Ele acena um pouco para isso, mas ele mesmo diz que não temos clareza sobre essa situação. Ele diz que o celibato é um carisma que a Igreja não pode perder. Mas, em certas situações, absolutamente que não tem outras situações… Vejam como ele é: ele não citou a Amazônia, ele citou as ilhas do Pacífico. Claro que todo mundo sabia do que ele estava falando. Mas isso porque ele diz para não perder o foco, senão a imprensa só vai falar sobre isso. O importante é a Amazônia. Este é um problema!

Depois de falar sobre que cada país e cada Conferência Episcopal tem a sua parte da Amazônia, ele afirmou que “a Amazônia é um novo sujeito pastoral” e que deve ter um próprio plano de pastoral.

20 fevereiro, 2019

Também o encontro sobre abusos cria sérios “dubia”. A carta aberta de dois cardeais.

Por Sandro Magister, 19 de fevereiro de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com

Até um mês atrás, a dupla finalidade da reunião que, de 21 a 24 de fevereiro, congregará em torno do Papa os chefes da hierarquia católica mundial, era a “proteção de menores e adultos vulneráveis”, como escreveu Francisco, na “carta ao povo de Deus” publicada em 20 de agosto.

CupichProva disso era a edição de “L’Osservatore Romano” de 11 de janeiro, que, ao fim da primeira página de Andrea Tornielli, diretor editorial de todos os meios de comunicação vaticanos e porta-voz do Papa, deixava clara a dupla finalidade, inclusive no título:

> Incontro tra Pastori…

No entanto, mais tarde os “adultos vulneráveis” desapareceram da agenda oficial do encontro. E, com eles, a questão dos abusos homossexuais contra jovens, muitos jovens, apesar de eles constituírem, estatisticamente, a maior parte dos abusos cometidos pelo clero.

Na concorrida coletiva de imprensa de 18 de fevereiro, na qual se apresentava a reunião (foto), o Cardeal Blase Cupich, número um da comissão organizadora, insistiu, pelo contrário, em negar que a prática homossexual seja a causa dos abusos, apesar de ter dito que a diminuição dos delitos nos últimos anos, nos Estados Unidos, se deu também por conta da investigação detalhada de aspirantes ao sacerdócio, excluindo os que eram de “risco”.

É fato que se proibiu não só a questão da homossexualidade no clero, mas também a própria palavra “homossexualidade”, que não aparece no relatório de informação sobre o encontro colocado à disposição de todos os meios de comunicação do mundo:

> Incontro: La protezione dei minori nella Chiesa. Vaticano, 21-24 febbraio 2019

A eliminação da questão da homossexualidade da agenda do encontro é claramente fruto de uma decisão do Papa Francisco, na qual não escondeu estar mais convencido que não se trata de abusos sexuais, mas de abuso de poder; não de pessoas individuais, mas de uma casta, a casta clerical.

Mas, muitos na Igreja duvidam que tudo deva se reduzir ao “clericalismo”.

Não é a primeira vez que Francisco cria “dubia” na doutrina, na moral e na praxis. Continuam sendo memoráveis o que denunciaram quatro cardeais depois da publicação de “Amoris Laetitia”, ao que o Papa nunca deu resposta.

E agora, novamente, dois desses cardeais, o alemão Walter Brandmüller e o americano Raymond Leo Burke, acreditaram ser seu dever vir à luz pública com a carta aberta que publicamos a seguir, dirigida aos bispos que participarão do encontro sobre a “proteção dos menores”.

Eles fazem um chamamento urgente a não permanecer calados diante de outra “chaga [que é] a agenda homossexual”, que invadiu a Igreja e que, na sua opinião, é um abandono da “verdade do Evangelho” e, consequentemente, também está na original da crise de fé atual.

Na reunião dos próximos dias, comprovar-se-á em que medida será escutado este apelo.

* * *

CARTA ABERTA AOS PRESIDENTES DAS CONFERÊNCIAS EPISCOPAIS

Tradução: Dubia

Caros irmãos, Presidentes das Conferências Episcopais,

É com profunda aflição que nos dirigimos a todos vós!

O mundo católico está desorientado e levanta uma pergunta angustiante: para onde está a ir a Igreja?

Diante desta deriva, hoje em curso, pode parecer que o problema se reduz ao problema dos abusos de menores, um crime horrível, especialmente se perpetrado por um sacerdote, que, todavia, não é senão uma parte de uma crise bem mais ampla. A chaga da agenda homossexual difunde-se no seio da Igreja, promovida por redes organizadas e protegida por um clima de cumplicidade e de conspiração de silêncio (“omertà”). Como é evidente, as raízes deste fenómeno encontram-se nessa atmosfera de materialismo, relativismo e hedonismo, em que se põe abertamente em discussão a existência de uma lei moral absoluta, ou seja, sem excepções.

Acusa-se o clericalismo de ser responsável pelos abusos sexuais, mas a primeira e a principal responsabilidade do clero não recai sobre o abuso de poder, mas em se ter afastado da verdade do Evangelho. A negação, até mesmo em público, por palavras e nos factos, da lei divina e natural, está na raiz do mal que corrompe certos ambientes da Igreja.

Diante de tal situação, cardeais e bispos calam. Também vós vos calareis aquando da reunião convocada para o próximo dia 21 de Fevereiro, no Vaticano?

Em 2016, estivemos entre os que interpelaram o Santo Padre acerca dos “dubia” que dividiam a Igreja após a conclusão do Sínodo sobre a família. Hoje, esses “dubia” não só continuam sem receber qualquer resposta, mas são apenas parte de uma crise da fé mais geral. Por isso, vimos encorajar-vos a que levanteis a vossa voz para salvaguardar e proclamar a integridade da doutrina da Igreja.

Rezamos e pedimos ao Espírito Santo para que assista a Igreja e ilumine os pastores que a guiam. Neste momento, é urgente e necessário um acto resolutório. Confiamos no Senhor que nos prometeu: “Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 20).

Walter Card. Brandmüller

Raymond Leo Card. Burke

 

 

19 fevereiro, 2019

Papa Francisco aprova a reabilitação de sandinista Ernesto Cardenal.

O padre humilhado publicamente por João Paulo II por ter apoiado a revolução da guerrilha de esquerda na Nigarágua poderá voltar a administrar sacramentos. Mas o perdão chegou aos 94 anos e quando está doente.

Por Público, 17 de fevereiro de 2019 – O Papa Francisco aprovou a reabilitação do sacerdote e poeta Ernesto Cardenal, que apoiou a revolução sandinista na Nicarágua, e que o Papa João Paulo II humilhou em 1983, repreendendo-o, de dedo em riste, no alcatrão da pista do aeroporto de Manágua, quando Cardenal estava de joelhos.

A notícia ainda não foi tornada pública — foi avançada pelo jornal espanhol El País, citando uma carta enviada pelo Sumo Pontífice. Hoje com 94 anos, hospitalizado com uma infecção renal grave, Ernesto Cardenal recebeu a visita do núncio do Vaticano em Manágua, que se ofereceu para celebrar com ele a sua primeira missa em 35 anos — pois a pena a que João Paulo II o condenou impedia-o de o fazer.

Cardenal era seguidor da corrente cristã nascida na América Latina denominada teologia da libertação, que dá revelo ao apoio aos mais pobres e à libertação dos povos oprimidos. Para o Papa polaco João Paulo II, que viveu as durezas do comunismo, este tipo de ideias e as revoluções e guerrilhas de esquerda na América Latina eram difíceis de aceitar.

Ao sair do avião, o Papa foi recebido com um grande cartaz, que dizia “bem-vindo à Nicarágua livre graças a Deus e à revolução”, e pelo Presidente Daniel Ortega, líder da Frente Sandinista de Libertação Nacional desde 1962, que lhe deu um discurso de meia-hora, debaixo de um Sol escaldante, a exaltar a revolução, recorda para o El País, o jornalista veterano Juan Arias, que acompanhou a viagem papal.

“Sempre que o Papa tentava deixar clara a sua rejeição à chamada Igreja Popular, a multidão interrompia-o com gritos de ‘entre cristianismo e revolução não há contradição'”, recorda Arias. O Papa não conseguia terminar a sua homília.

A certa altura, Ernesto Cardenal aproximou-se do Papa, ajoelhou-se e tentou beijar-lhe a mão. João Paulo II tirou a mão. Quando Cardenal lhe pediu a bênção, esticou o dedo severo e disse-lhe: “Antes tens de te reconciliar com a Igreja”, recorda Juan Arias.

O Papa João Paulo II, que morreu a 2 de Abril de 2005, aplicou posteriormente a suspensão ad divinis a Cardenal por acumular de forma considerada “incompatível” com o sacerdócio o cargo de ministro da Cultura da Nicarágua. Ficou proibido de administrar sacramentos.

Bispo Silvio José Báez pede a benção do padre-poeta Ernesto Cardenal Foto: Reprodução/Twitter

Bispo Silvio José Báez pede a benção do padre-poeta Ernesto Cardenal Foto: Reprodução/Twitter.

Ernesto Cardenal é considerado um dos mais importantes poetas da América Latina ainda em vida. Com formação superior em Teologia, nos Estados Unidos, recebeu vários prémios literários pela Europa, tendo sido candidato a Nobel da Literatura em 2005, atribuído ao britânico Harold Pinter.

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12 fevereiro, 2019

A cortina de fumaça do Sínodo da Amazônia.

Por FratresInUnum.com, 12 de fevereiro de 2019 – No último domingo, o jornal “O Estado de São Paulo” publicou uma reportagem em que referia algumas palavras críticas do General Augusto Heleno em relação ao Sínodo da Amazônia, convocado pelo Papa Francisco para celebrar-se em Roma, no próximo mês de outubro.

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Segundo o jornal, o governo estaria preocupado com o fato de que o “clero progressista” aproveitará a ocasião do Sínodo para alavancar a agenda de esquerda, angariando apoio internacional e ingerindo em assuntos de segurança interna do país. “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, teria dito o General Heleno.

Embora alguns comentaristas tenham querido minimizar o assunto, o alvoroço criado pela reportagem foi imediato. O cardeal Cláudio Hummes, cuja atuação com vistas à ordenação de homens casados é tão intensa quanto silenciosa, reagiu prontamente, assim como Dom Erwin Kräutler. Mas não parou por aí!

O ex-seminarista, amigo pessoal de Dom Leonardo Steiner e Ministro do Governo Dilma, Gilberto Carvalho, um dos figurões do PT, também veio em defesa dos bispos, preocupado com o monitoramento dos mesmos, e afirmou que “o Sínodo é uma iniciativa da Santa Sé que articula bispos de toda a Amazônia que vai muito além do Brasil”. Devoto, não?!

O próprio PT publicou uma nota em que declara veementemente que “espionar Igreja é volta à repressão”. O partido acusa o General Heleno de intolerância, autoritarismo, espionagem, pois “ataca politicamente a Igreja, por debater em alto nível a realidade da Amazônia” e conclui dizendo que “o Sínodo da Amazônia é uma grande oportunidade de trazer esses temas à evidência. É um espaço qualificado de informação, debate e mobilização. Tratá-lo como ameaça à soberania ou à segurança nacional é sintoma de ignorância e preconceito”.

O candidato derrotado na eleição de 2018, Fernando Haddad, também comentou o assunto: “Vaticano comuna: Bolsonaro vê Igreja Católica como opositora, por discutir temas considerados de esquerda”. Comentando que “Bolsonaro quer que Itália pressione Vaticano a censurar bispos sobre pauta ambiental”, Haddad diz: “estive com o Papa discutindo a encíclica Laudato Sì. Acho difícil ele abrir mão das suas convicções para adotar as de Bolsonaro”. A conjectura de que o Planalto atuaria junto ao Vaticano através da Embaixada da Itália é, também, do “Estadão”.

A reação chegou a níveis tão altos que o Deputado Marcio Jerry, do PCdoB, apresentou requerimento para convocação do General Heleno à Câmara, a fim de que explique a alegada espionagem do clero progressista quanto ao Sínodo da Amazônia.

Por que tanto medo de uma eventual investigação? O que os bispos têm a esconder?

Ainda ontem, o jornalista Cristian Derosa publicou um artigo intitulado “Fundações estrangeiras doaram US$ 52 milhões às pautas do Sínodo da Amazônia”. O autor afirma que “com base no banco de dados das fundações internacionais, só em 2014, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) recebeu 450 mil dólares somente da Fundação Ford, entidade que financia outras centenas de pautas, indigenistas, quilombolas, questão racial, identidade de gênero, aborto, audiência de custódia e desarmamento no Brasil. Já a Pastoral Carcerária, também ligada à Igreja Católica, recebeu 420 mil dólares entre 2016 e 2018, da mesma fundação. O mesmo dinheiro que organiza eventos LGBT é doado à entidades albergadas na estrutura da Igreja Católica no Brasil. Segundo o mesmo levantamento, pautas relacionadas ao território nacional receberam, de outras grandes fundações internacionais, 52 milhões de dólares entre 2013 e 2018”.

Será que, por trás da cortina de fumaça da ordenação dos homens casados, na verdade, esconde-se um grande esquema financeiro respaldado pelo dinheiro de fundações internacionais, que visam a internacionalização da Amazônia como meio de subtraí-la do governo brasileiro? Estaria o serviço de inteligência brasileiro mais bem informado do que parece? A reação desproporcional da esquerda não é sintoma de que podemos estar debaixo de uma impostura histórica absurda, a cuja agenda o Papa Francisco submeteu a Igreja Católica, com o apoio devoto dos bispos vermelhos?

O frenesi foi tamanho que até Dom Steiner fez um vídeo, dizendo que o “Sínodo é da Igreja e para a Igreja”. Mas, onde está sua Igreja inclusiva, Dom Leonardo?! Precisamos criar pontos, não muros!…

Que a Igreja Católica tenha se tornado o quintal da Alemanha, todos já sabem. Assim foi com a agenda da comunhão aos recasados e assim será com a agenda da ordenação de homens casados e de mulheres. Só os patrícios de Lutero se empolgam com essas invencionices! Mas que tudo isso seja usado como capa para esconder um esquema internacional de poder, para nós, é uma grande surpresa – e tudo em nome de “uma Igreja pobre e para os pobres!” – Quanta mentira!

Já dissemos anos atrás que a última esperança do PT era a CNBB e, agora, após a eleição de Bolsonaro, publicamos um editorial mostrando como os bispos vermelhos, aliados ao Papa Francisco, tentariam criar um novo eixo para a esquerda internacional.

Em nota à imprensa, o Gabinete de Segurança Institucional separou muito bem as coisas: de um lado, a Igreja Católica não está sob nenhum tipo de ação do governo, mas, de outro, as pautas do Sínodo da Amazônia preocupam, sim, a estabilidade da segurança nacional.

Parece, realmente, que a prioridade do papa argentino é chefiar a esquerda internacional!

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12 fevereiro, 2019

A “Arca da fraternidade” e a caridade cristã.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 7 de fevereiro de 2019 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO logotipo da viagem do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos mostra uma pomba com um ramo de oliveira. É uma imagem, explicou o Papa, “que nos traz à memória a narração do dilúvio primordial, presente em várias tradições religiosas. Segundo a narração bíblica, para preservar a humanidade da destruição, Deus pede a Noé para entrar na arca com a sua família. Hoje também nós, em nome de Deus, para salvaguardar a paz, precisamos entrar juntos, como uma única família, numa arca que possa sulcar os mares tempestuosos do mundo: a arca de fraternidade”.

Segundo essa leitura, a Arca de Noé é uma arca da fraternidade na qual convivem homens de diferentes religiões, porque o próprio Deus queria o pluralismo religioso. Com efeito, acrescentou o Papa: “O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos”.

Essa interpretação parece deturpar a doutrina do Evangelho. Com efeito, a Arca, que por ordem divina Noé construiu antes do Dilúvio para seu refúgio, de seus familiares e de todas as espécies animais (Gn 6, 13-22), é apresentada por São Paulo como um refúgio de salvação para os crentes e um sinal de perdição para o mundo (Hebreus 11, 7).

Portanto, a Tradição Católica sempre viu na Arca de Noé o símbolo da Igreja, fora da qual não há salvação (cf. Santo Ambrósio, De Noe et Arca, 6. 9, in Migne, Patrologia Latina, vol. 14 , col. 368-374, e Hugo von Hurter, De arca Noe Ecclesiae typo Patrum sententiae, em Sanctorum Patrum opuscula selecta, III, Innsbruck 1868, pp. 217-233). É por isso que a Igreja tem a missão de preservar e difundir a fé católica.

Nosso Senhor disse aos Apóstolos: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado, será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16, 16). E o Apóstolo dos Gentios reafirma: “Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4, 5).

É o dogma da fé proclamado pelo IV Concílio de Latrão sob Inocêncio III: “Só há uma Igreja universal dos fiéis, fora da qual não há salvação“.

O princípio “nulla salus extra Ecclesiam” não exclui da salvação aqueles que estão fora da Igreja devido a um erro invencível, mas estão orientados a Ela ao menos por um desejo implícito. No entanto, eles são privados da garantia da salvação e dos meios ordinários para alcançá-la.

Esta verdade da fé foi confirmada, entre outros, por Gregório XVI (Mirari Vos, de 15 de agosto de 1832); Pio IX (Singulari quidem, de 17 de março de 1856, aos bispos da Áustria); Leão XIII (Satis cognitum, de 29 de junho de 1896). Na Encíclica Mortalium animos, de 6 de janeiro de 1928, Pio XI explica, por sua vez, que no campo da fé não se pode chegar à unidade fraterna da mesma maneira que no campo político.

Subordinar a verdade da fé à fraternidade significa professar o indiferentismo religioso, condenado de maneira constante pelo Magistério universal da Igreja.

A “Fraternidade”, juntamente com a “Liberdade” e a “Igualdade”, é um dos princípios fundadores da Revolução Francesa. O trinômio revolucionário se reduz a um sistema de relações privado de qualquer princípio transcendente ao qual se referir, pelo que, considerado cada um dos três valores supremos como um absoluto, eles entram necessariamente em conflito um com os outros.

Carente de um fim superior, a fraternidade, em vez de ser um fator de coesão da sociedade, se torna a fonte de sua desintegração. Com efeito, se em nome da fraternidade os homens se virem forçados a uma convivência destituída de um objetivo que dê consistência ao affectio societatis, a “Arca” se torna uma prisão, e, por um impulso centrífugo, a fraternidade imposta no grito estará fadada a se dissolver na fragmentação e no caos.

A simples afirmação da convivência fraterna não é capaz de justificar o sacrifício, que é a mais alta expressão do amor ao próximo; e isto porque sacrifício significa renunciar a um bem real em nome de bens superiores; mas a fraternidade não propõe nenhum bem superior que seja digno de sacrifício, além da convivência, que não é um valor em si, mas apenas um fato, sem um sentido positivo ou negativo. O mito da fraternidade oculta de fato o mais profundo egoísmo social e representa a antítese da caridade cristã, o único fundamento verdadeiro das relações sociais entre os homens.

A Fraternidade também constitui um dogma da maçonaria, que em sua ideologia e seus rituais propõe uma paródia da doutrina e da liturgia cristã. Não foi por acaso que a Grande Loja da Espanha agradeceu ao Papa Francisco por sua Mensagem natalina de 2018 com o seguinte tweet: “Todos los masones del mundo se unen a la petición del Papa por  ‘la fraternidad entre personas de diversas religiones’” (Todos os maçons do mundo se unem ao pedido do papa de ‘fraternidade entre pessoas de diferentes religiões) (https://twitter.com/GranLogiaEspana/status/1082192984161038336).

 “Na sua mensagem de Natal do balcão central do Vaticano – continuam os maçons espanhóis – o Papa Francisco pediu o triunfo da fraternidade universal entre todos os seres humanos. Fraternidade entre pessoas de todas as nações e culturas. Fraternidade entre pessoas de ideias diferentes, mas capazes de se respeitarem e de ouvir o outro. Fraternidade entre pessoas de diferentes religiões. (…) As palavras do Papa demonstram o distanciamento atual da Igreja do conteúdo da Humanum genus (1884), a última grande condenação católica da maçonaria”.

Na realidade, a maçonaria continua a ser condenada pela Igreja, mesmo que os homens da Igreja, nos mais altos escalões, pareçam abraçar suas ideias. Mas o ensinamento do Divino Mestre continua a ressoar nos corações fiéis: ali o amor ao próximo só pode ser fundado no amor de Deus. E sem referência ao verdadeiro Deus, que só pode ser amado sobrenaturalmente dentro da Arca de Salvação da Igreja, a fraternidade é apenas uma palavra vazia que esconde o ódio a Deus e ao próximo.