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17 junho, 2019

Dom Viganò ao Washington Post: “O Papa Francisco está ocultando deliberadamente as evidências do caso McCarrick”.

Por OnePeterFive, 10 de junho de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – O arcebispo Carlo Maria Viganò está novamente nos noticiários de hoje, após o lançamento de uma nova entrevista de 8.000 palavras para o Washington Post. De acordo com o Post, a entrevista foi conduzida via e-mail durante um período de dois meses, com o ex-núncio papal nos EUA fornecendo respostas para cerca de 40 perguntas.

Dom Carlo Maria Viganò.

Dom Carlo Maria Viganò.

Aqueles que leram os testemunhos anteriores de Viganò perceberão muitas similaridades na entrevista, mas com maior profundidade. O arcebispo Viganò se recusou a responder perguntas sobre seu status pessoal, que, segundo ele, considera “irrelevante para os sérios problemas que a Igreja enfrenta”.

Ele começa com uma avaliação do Encontro sobre Abuso Sexual realizado em Roma, em fevereiro de 2019, o qual faz eco às preocupações que ele compartilhou com o National Catholic Register antes da abertura do Encontro. 

“Infelizmente”, diz Viganò ao Post, sobre o Encontro, “essa iniciativa acabou se tornando pura ostentação, pois não vimos nenhum sinal de uma disposição genuína de endereçar as causas reais da crise atual”. Ele destacou a falta de credibilidade do cardeal Cupich, que foi escolhido para ser um líder no Encontro, depois dele ter se referido às acusações de Viganò sobre o acobertamento dos abusos sexuais, como uma espécie de  “buraco de coelho”. Ele também lamentou a falta de transparência para com os jornalistas que procuravam informações sobre casos específicos.

Só pra citar um exemplo, o arcebispo [Charles] Scicluna, pego de surpresa com uma pergunta sobre o fato do papa ter acobertado o caso escandaloso do bispo Argentino Gustavo Zanchetta – “Como podemos acreditar que esta é de fato a última vez que vamos ouvir “não mais acobertamentos” quando, no final das contas, o próprio papa Francisco acobertou alguém na Argentina que tinha pornografia gay envolvendo menores? “-  acabou dando esta resposta embaraçosas:” Sobre esse caso, eu não, eu não, você sabe, eu não estou autorizado … ”. A resposta inepta de Scicluna deu a impressão de que ele precisava ser autorizado – o que levanta outra interrogação: autorizado por quem pra dizer a verdade? Alessandro Gisotti, o diretor do escritório interino de imprensa do Vaticano,  interveio rapidamente para assegurar aos repórteres que uma investigação havia sido iniciada e que, uma vez concluída, eles seriam informados dos resultados. É de se questionar se os resultados de uma investigação honesta e minuciosa serão realmente divulgados, e em tempo hábil”.

Viganò observa que um dos problemas-chave do Encontro foi a maneira pela qual “se concentrou exclusivamente no abuso de menores”.

“Esses crimes são de fato os mais horríveis”, acrescenta ele, “mas as recentes crises nos Estados Unidos, no Chile, na Argentina, em Honduras e em outros lugares têm muito mais a ver com abusos cometidos contra jovens adultos, inclusive seminaristas, não apenas nem principalmente contra menores. De fato, se o problema da homossexualidade no sacerdócio fosse honestamente reconhecido e devidamente tratado, o problema do abuso sexual seria muito menos severo ”.

Viganò ataca o papa Francisco, que segundo ele , “não apenas não está fazendo quase nada para punir aqueles que cometeram abusos”, mas também “não está fazendo absolutamente nada para expor e levar à justiça aqueles que, durante décadas, facilitaram e acobertaram os abusadores”.  Ele cita o exemplo do Cardeal Wuerl, que, não obstante as mentiras e acobertamentos dos abusos de “McCarrick e de outros por décadas”, sobre os quais ele só ofereceu “mentiras repetidas e descaradas”  e foi forçado a renunciar em desgraça,  ainda assim foi elogiado pelo papa por sua “nobreza”.

“Que credibilidade o papa ainda tem depois desse tipo de declaração?”, pergunta Viganó.

Sobre a questão da laicização de McCarrick, Viganò questiona por que isso só veio acontecer cinco anos depois que ele passou a informação ao Papa Francisco sobre McCarrick e por que isso só foi feito, “depois de mais de sete meses de silêncio total”, através de um procedimento administrativo e não judicial.

Viganò observa que, devido à natureza do procedimento, McCarrick foi “privado de qualquer oportunidade de recorrer da sentença” e foi privado do devido processo legal. “Ao tornar a sentença definitiva”, acrescenta Viganò, “o papa tornou impossível conduzir qualquer investigação adicional, o que poderia revelar quem na Cúria e em outros lugares sabia dos abusos de McCarrick, quando eles ficaram sabendo e quem o ajudou a ser nomeado arcebispo de Washington e, eventualmente, cardeal. A propósito, notem que os documentos deste caso, cuja publicação foi prometida, nunca foram produzidos ”.

“A linha de fundo”, diz Viganò, “é esta: o papa Francisco está deliberadamente ocultando as evidência do caso McCarrick”.

Sobre a questão da incomum intervenção da Santa Sé no encontro da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA em novembro passado, na qual o papa ordenou que os bispos reunidos não votassem em duas medidas contra o abuso sexual que haviam sido preparadas, Viganò diz que a Santa Sé estava tentando impedir um exame dos “problemas da corrupção episcopal, acobertamentos episcopais e falsidade, crimes sexuais do episcopado, tanto relacionados com menores como com adultos – qualquer um dos quais implicaria e embaraçaria intoleravelmente a Santa Sé”.

Questionado sobre a “notável falta de desmentidos” sobre o seu testemunho original – a pergunta foi feita antes de Francisco finalmente vir a público negando que ele sabia de alguma coisa, e que Vigano já havia declarado anteriormente ser “uma mentira” – o arcebispo argumenta que as acusações não podem ser desmentidas porque elas são verdadeiras. “Os cardeais e arcebispos que eu citei os nomes não querem ser pegos na mentira, e eles aparentemente acham que são tão poderosos e permanecerão intocáveis ​​se ficarem quietos e não levantarem polêmica”, disse ele.

Em um adendo à entrevista, depois que a longa e tardia negação feita pelo papa no mês passado foi divulgada, Viganò diz que as declarações do papa não podem ser reconciliadas entre si. “Ele primeiro diz que já respondeu várias vezes; segundo, que ele não sabia nada, absolutamente nada sobre McCarrick, e terceiro, que ele se esqueceu da minha conversa com ele. Como essas afirmações podem ser afirmadas e sustentadas juntas ao mesmo tempo? Todas essas três são mentiras descaradas ”, diz ele.

Sobre a mais óbvia alegação falsa feita pelo papa – de que ele havia respondido ao testemunho “várias vezes” – Viganò pergunta: “Durante nove longos meses ele não disse uma só palavra sobre meu testemunho, e até mesmo se gabou e continua a fazê-lo sobre seu silêncio, comparando-se a Jesus. Então, ele falou ou ficou em silêncio? Qual das duas opções é verdadeira?”

“Estamos em um momento verdadeiramente sombrio para a Igreja universal”, lamenta Viganò. “O Sumo Pontífice agora está mentindo descaradamente para o mundo inteiro para encobrir seus feitos perversos! Mas a verdade acabará por vir à tona, sobre McCarrick e todos os outros acobertamentos, como já aconteceu no caso do cardeal Wuerl, que também “não sabia de nada” e tinha “um lapso de memória”. Aqui o arcebispo se refere à revelação de que Wuerl sabia sobre as atividades sexuais ilícitas de seu antecessor, McCarrick, mesmo depois de muitas negações.

Além de sua tristeza pela desonestidade do papa, Viganò parece mais preocupado com o fato dos jornalistas falharem em investigar a fundo a história que ele colocou diante deles. “Não consigo imaginar que eles [os meios de comunicação] teriam sido tão tímidos se o papa em questão fosse João Paulo II ou Bento XVI”, diz ele, acrescentando: “É difícil não concluir que esses meios de comunicação relutam em fazê-lo porque eles apreciam a abordagem mais liberal do Papa Francisco em relação às questões de doutrina e disciplina da Igreja, e não querem comprometer sua agenda”.

Sobre a questão da homossexualidade no sacerdócio, Viganò sinaliza sua descrença de que a conexão está sendo ignorada. “Homens heterossexuais, obviamente, não escolhem meninos e homens jovens como parceiros sexuais de sua preferência, e aproximadamente 80% das vítimas são do sexo masculino, a grande maioria dos quais são homens pós-puberes.”

“Não são pedófilos, mas padres gays predadores atacando garotos pós-púberes e levando várias dioceses à falência nos EUA”, acrescenta ele.

“Dada a esmagadora evidência, é incompreensível que a palavra ‘homossexualidade’ não tenha aparecido uma só vez, em nenhum dos recentes documentos oficiais da Santa Sé, incluindo os dois Sínodos sobre a Família, o da Juventude e o recente Encontro sobre abuso sexual em fevereiro passado.”

Viganò segue afirmando que a chamada “máfia gay” na Igreja está “unida não pela intimidade sexual compartilhada, mas por um interesse comum em proteger e promover um ao outro profissionalmente e sabotar todos os esforços de reforma”. Ele diz que embora o papa Bento XVI  tenha iniciado uma investigação sobre os seminários, nada de novo foi descoberto, “aparentemente porque vários poderes juntaram forças para ocultar a verdadeira situação”.

“Será que existe um único bispo nos EUA que admita ser ativamente homossexual? Claro que não. O trabalho deles é constitucionalmente clandestino”.

Sobre a questão, se ele poderia vir a se reconciliar com o Papa Francisco, Viganò responde:

A premissa da sua pergunta está incorreta. Não estou lutando contra o Papa Francisco, nem o ofendi. Eu simplesmente falei a verdade. O Papa Francisco precisa se reconciliar com Deus e toda a Igreja, já que ele acobertou McCarrick, se recusa a admitir e agora está acobertando várias outras pessoas. Sou grato ao Senhor porque Ele me protegeu de ter quaisquer sentimentos de raiva ou ressentimento contra o Papa Francisco, ou qualquer desejo de vingança. Eu rezo por sua conversão todos os dias. Nada me faria mais feliz do que o Papa Francisco reconhecer e acabar com os acobertamentos e confirmar seus irmãos na fé.

Há muito mais na entrevista com o arcebispo Viganò que eu não toquei aqui. Leia na íntegra no The Washington Post.

10 junho, 2019

Papa Francisco, filósofo da inclusão.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 05 de junho de 2019 | Tradução: Hélio Dias Viana, FratresInUnum.com –  No dia 2 de junho, a tradicional parada militar na Itália para celebrar a festa da República transcorreu sob o signo da “inclusão”. O tema da inclusão, que caracterizou o evento, “representa bem os valores esculpidos em nossa Carta constitucional, a qual estabelece que nenhum cidadão pode se sentir abandonado, mas deve ser garantido no exercício efetivo de seus direitos”, declarou o Presidente da República Sergio Mattarella [democrata-cristão de esquerda].

No mesmo dia, em Blaj, na Romênia, o Papa Francisco fez um mea culpa em nome da Igreja pelas discriminações sofridas pelas comunidades ciganas: “Em nome da Igreja, peço perdão, ao Senhor e a vós, por todas as vezes que, ao longo da história, vos discriminamos, maltratamos ou consideramos de forma errada, com o olhar de Caim em vez do de Abel, e não fomos capazes de vos reconhecer, apreciar e defender na vossa peculiaridade”. Ao longo da História não há traços de perseguições ou maus tratos da Igreja em relação aos ciganos, mas com essas palavras o Papa Francisco quis reafirmar aquele princípio de “inclusão” do qual ele é hoje o teórico por excelência e ao qual a União Europeia submete a sua política. A insistência com a qual o Papa Francisco retorna a temas como inclusão, não discriminação, acolhida, cultura do encontro pode parecer a alguns como uma expressão de amor ao próximo que, para usar uma metáfora do próprio Papa Bergoglio, faz parte do “documento de identidade do cristão”.

Quem assim pensa, no entanto, comete um erro de perspectiva análogo ao dos católicos progressistas do final do século XX, para os quais a preocupação de Marx para com o proletariado nasceu de seu amor pela justiça social. Esses católicos propunham cindir o marxismo, rejeitando sua filosofia materialista, mas aceitando sua análise econômica e social. Eles não entenderam que o marxismo constitui um bloco inseparável e que a sociologia marxista é uma consequência direta de seu materialismo dialético. Marx não era um filantropo debruçado sobre a miséria do proletariado para aliviar seu sofrimento, mas um filósofo militante que usava tais instrumentos como ferramenta para realizar seu objetivo revolucionário.

De maneira similar, a atenção do Papa Francisco para com os subúrbios e os menos favorecidos não nasce de um espírito evangélico nem de uma filantropia laica, mas de uma opção filosófica mais do que política e que pode ser resumida em termos de um igualitarismo cosmológico. Francisco usa um neologismo em sua encíclica Laudato sì: o termo castelhano “inequidad” [na versão portuguesa foi traduzido por “desigualdade”], que basicamente significa qualquer forma de desigualdade social injusta. “O que queremos é a luta contra as desigualdades, este é o maior mal que existe no mundo”, declarou ele a Eugenio Scalfari no Repubblica em 11 de novembro de 2016. Na mesma entrevista, o papa Bergoglio adotou o conceito de “hibridização” proposto por Scalfari [nós, brasileiros, diríamos “miscigenação”]. E Scalfari, em editorial no mesmo jornal de 17 de setembro de 2017, afirma que, segundo o Papa Francisco, “na sociedade global em que vivemos, povos inteiros migrarão para este ou aquele país e criarão, com o passar do tempo, um tipo de ‘hibridização’ cada vez mais integrado. Ele o considera um fato positivo, onde indivíduos, famílias e comunidades se tornam cada vez mais integrados, os vários grupos étnicos tendem a desaparecer e uma grande parte da nossa Terra será habitada por uma população com novos traços físicos e espirituais. Levará séculos ou até milênios para que tal fenômeno aconteça, mas – de acordo com as palavras do Papa – essa é a tendência. Não é por acaso que ele prega o Deus Único, isto é, um por todos. Eu não sou crente, mas reconheço uma lógica nas palavras do Papa Francisco: um povo único e um Deus único. Até agora, não houve líder religioso que tenha pregado essa verdade ao mundo”.

O termo “mestiçagem”, como os de inclusão e acolhida, retornam amiúde na linguagem pastoral do papa Bergoglio. Em 14 de fevereiro de 2019, por ocasião de seu discurso no Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), em Roma, Francisco se encontrou com uma representação de povos indígenas e, chamando essas comunidades de “um grito vivo a favor da esperança”, pediu uma “mestiçagem cultural” entre os “povos chamados civilizados” e as populações nativas, que “sabem o que significa ouvir a terra, ver a terra, tocar a terra”. A “mestiçagem cultural”, explicou, é o caminho a seguir trabalhando “para tutelar quantos vivem nas áreas rurais e mais pobres do planeta, mas mais ricas na sabedoria de conviver com a natureza”.

Em 19 de janeiro de 2018, em Puerto Maldonado, no coração da Amazônia peruana, o Papa Francisco, encontrando os indígenas, disse-lhes: “O tesouro que encerra esta região” não pode ser entendido, compreendido, sem “vossa sabedoria” e “vossos conhecimentos”. Para se compreender melhor essa referência à “sabedoria” e ao “conhecimento” dos nativos, precisamos recorrer ao trabalho de um autor caro ao Papa Francisco, o ex-franciscano Leonardo Boff. A Amazônia – explica Boff – tem “um valor paradigmático universal”, porque representa a antítese do modelo de desenvolvimento moderno “carregado de pecados capitais e antiecológicos”; mas também “é o lugar de ensaio de uma alternativa possível, em consonância com o ritmo daquela natureza luxuriante, respeitando e valorizando a sabedoria ecológica dos povos originários que há séculos ali vivem” (Ecologia: Grito da Terra e Grito dos Pobres, Rio de Janeiro-RJ: Sextante, 2004, p. 145). Para Boff, “precisamos passar do paradigma moderno para o paradigma pós-moderno, global, ‘holístico’, que propõe ‘um novo diálogo com o universo’, ‘uma nova forma de diálogo com a totalidade dos seres e suas relações’” (ibid., p. 23).

A Amazônia não é apenas um território físico, mas um modelo cosmológico em que a natureza é vista como um todo vivo que tem em si uma alma, um princípio de atividade interna e espontânea. Com essa natureza prenhe de divindades, os povos indígenas da América Latina mantêm uma relação que o Ocidente perdeu. A sabedoria dos nativos deve ser recuperada, pedindo perdão pela discriminação cometida contra eles, sem esperar que peçam perdão pelo canibalismo e pelos sacrifícios humanos que seus ancestrais praticaram. As pontes que precisam substituir os muros são unidirecionais. Este é o pano de fundo cultural do Sínodo que será aberto no Vaticano em 6 de outubro. A inclusão é um conceito filosófico, e não social: significa afirmar uma realidade híbrida, indistinta, “miscigenada”, na qual tudo se funde e se confunde, como a teoria do gênero, que é a teoria da inclusão por excelência. As pessoas LGBT, como os migrantes ou os nativos da América do Sul, devem ser bem-vindos e respeitados não como pessoas, mas pelas culturas e rumos que veiculam. Esta cosmologia lembra o deus sive natura de Spinoza, que pleiteia a identidade de Deus com a substância infinita da qual todos os seres derivam. Deus deve ser incluído na natureza e a natureza deve ser incluída em Deus, que não é uma causa transcendente, mas imanente do mundo, com a qual Ele coincide. Não há diferença qualitativa entre Deus e a natureza, assim como não há diferença qualitativa entre diferentes sociedades, religiões ou culturas, nem entre o bem e o mal que, segundo Spinoza, são “correlativos” (Ética, IV, prop. 68).

A doutrina da inclusão não é a da encíclica Aeterni Patris de Leão XIII ou da Pascendi de São Pio X, mas se opõe a esses documentos. Poucos, no entanto, se atrevem a dizê-lo abertamente. Quanto tempo durará este silêncio ambíguo, confortável para muitos, mas sobretudo para aqueles que o utilizam para alcançar fins alheios à finalidade sobrenatural da Igreja? (Traduzido por Hélio Dias Viana)

9 junho, 2019

Foto da semana.

O Papa Francisco visitou, de 31 de maio a 2 de junho,  a Romênia. Na imagem, a discrepância entre a solenidade oriental e a vulgaridade dos paramentos modernos dos latinos. Na ocasião, o papa beatificou sete mártires romenos assassinados pelo regime comunista.

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6 junho, 2019

“Se os bispos pedissem padres casados, o Papa aceitaria”, afirma cardeal Kasper.

IHU – O cardeal Walter Kasper dá uma no cravo e outra na ferradura. O presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos descartou por completo a ordenação de mulheres, já que ao adotá-la a Igreja se situaria fora de uma tradição milenar que reserva o sacerdócio apenas para os homens, ao mesmo tempo que abriu a porta para a ordenação de homens casados.

A reportagem é publicada por Religión Digital, 04-06-2019. A tradução é de André Langer.

“Com base no Novo Testamento, há uma tradição ininterrupta não só na Igreja Católica, mas em todas as Igrejas do primeiro milênio, segundo a qual a ordenação e a consagração são reservadas apenas aos homens”, disse Kasper ao jornal FrankfurterRundschau, de acordo com o sítio da internet dos bispos alemães, katholisch.de.

Mas, embora haja “pouco movimento atualmente” em relação inclusive ao diaconato feminino – depois que o Papa Francisco colocara um freio na ideia no voo de volta de sua recente viagem à Bulgária e à Macedônia –, ainda há coisas que a Igreja pode fazer e deve fazer para reconhecer a contribuição das mulheres, sem a qual qualquer diocese ou paróquia “entraria em colapso amanhã”, destacou Kasper.

“Parece-me mais importante que hoje – agentes de pastoral e ministras, assistentes da comunhão e professoras, na Caritas e na catequese, na teologia e na administração – façam dez vezes mais do que faziam as diaconisas”, observou o cardeal alemão, que considerou “importante” que se torne este serviço mais visível e que seja reconhecido publicamente.

A Igreja deve responder às legítimas demandas das mulheres por mais protagonismo e “dar os passos possíveis o mais rápido possível” às suas demandas, defendeu, enfatizando, por outro lado, que a solução não passa por greves eucarísticas como a da Campanha “Maria 2.0”, as organizadoras que o cardeal criticou por “instrumentalizar a Santíssima Virgem Maria”.

“O celibato não é um dogma”

Embora Kasper, desse modo, tenha jogado água fria sobre a possibilidade de a Igreja ordenar mulheres, não fez o mesmo com relação à ordenação de homens casados. Precisamente porque o celibato obrigatório, ao contrário do sacerdócio masculino, é uma mera disciplina que a Igreja adotou, razão pela qual pode ser alterada pelo Papa, e isso talvez já no próximo Sínodo para a Amazônia, em outubro deste ano.

“Se os bispos concordassem por consentimento mútuo ordenar homens casados – os chamados viri probati –, na minha opinião, o Papa aceitaria”, explicou Kasper, já que “o celibato… não é um dogma, não é uma prática inalterável”. “Sou, pessoalmente, muito favorável a manter o celibato como modo de vida obrigatório com um compromisso indiviso à causa de Jesus Cristo, mas isso não exclui que um homem casado possa realizar um serviço sacerdotal em situações especiais”, concluiu o cardeal.

29 maio, 2019

Viganò responde: o Papa mente.

Por Carlos Esteban – InfoVaticana | Tradução: Marcos Fleurer – FratresInUnum.com: O Papa não sabia de nada, nem tinha ideia, das “andanças” do defenestrado McCarrick, disse ele em entrevista concedida à Televisa, tentando desmoralizar a credibilidade do arcebispo Viganò. Mentira, respondeu em declarações ao LifeSiteNews o ex- núncio.

“O que o papa disse sobre não saber de nada é mentira”, respondeu o arcebispo Viganò, de seu desconhecido paradeiro ao portal LifeSiteNews.

“Ele finge não se lembrar do que eu disse sobre McCarrick, e finge que não foi ele quem me perguntou sobre McCarrick em primeiro lugar.”

E responde Carlo Maria Viganò, autor de um testemunho que inquietou e chocou o mundo católico e deixou literalmente sem palavras Sua Santidade, a entrevista concedida pelo Papa para a rede mexicana Televisa, no qual ele negou ter qualquer ideia das aventuras homossexuais e abusivas do ex-cardeal Theodore McCarrick, agora secularizado, e investiu contra o arcebispo que em seu documento sustentava ao contrário.

Infelizmente para a versão de Sua Santidade, no mesmo dia em que foi publicada no Vatican News a transcrição da entrevista, a revista Crux relatou o vazamento da correspondência do Papa e do secretário de Estado Pietro Parolin, no qual o cardeal confirma a existência de sanções privadas impostas ao ex-arcebispo de Washington pelo Vaticano em 2008 e das viagens de McCarrick por todo o globo durante o pontificado de Francisco desempenhando um papel fundamental para alcançar o polêmico pacto secreto entre a Santa Sé e o governo comunista chinês.

Não ajuda a credibilidade do Santo Padre, na entrevista, que parece ignorar seus próprios “discursos” contra a calúnia para atribuir a um julgamento civil sobre uma herança como “prova” de que Viganò não é crível no que diz. “O trabalho foi feito por vocês, foi ótimo, e tomei muito cuidado em dizer (certas) coisas, mas depois as disse três ou quatro meses depois, um juiz em Milão que o condenou”, afirma, surpreendentemente o Papa na entrevista, relacionando estranhamente a disputa trivial por uma herança com a veracidade do testemunho do ex-núncio nos Estados Unidos.

E ele acrescenta: “Eu fiquei quieto, para não denegri-lo, pois estragaria tudo. Que os jornalistas encontrem as coisas. E vocês encontraram, encontraram todo esse mundo. Foi um silêncio de confiança em relação a vocês, e ainda mais, essa é uma das razões que eu disse: “Aqui têm, estudem, isso é tudo “. E o resultado foi bom, foi melhor do que se eu me colocasse para explicar, para me defender … Vocês julgaram com as provas nas mãos “.

27 maio, 2019

Terror no Vaticano.

Por FratresInUnum.com, 27 de maio de 2019 – Mais um final de semana difícil para o papa argentino. Depois de semanas de uma campanha feroz contra o vice-primeiro ministro italiano Matteo Salvini, o único resultado que Papa Francisco conseguiu foi eleger o seu partido com ainda mais força nas eleições para o Parlamento Europeu.

A vitória do partido  de Salvini é a derrota de Francisco e do subserviente episcopado italiano, que não economiza bajulações ao bispo de Roma. O povo não suporta mais o discurso esquerdista de Bergoglio, cuja obsessão pelos “imigrantes” chegou ao ápice do delírio. Entre um político que fala de Deus e um papa que fala de política, o povo italiano fez a sua escolha.

Contudo, não foi apenas a vitória de Salvini. Le Pen derrotou Macron na França, os Brexit levaram nova vitória do Reino Unido, Orban ganhou com vantagem na Hungria, a Polônia impôs sua agenda conservadora… A Europa começa a tomar um novo rumo e o pontificado de Francisco isola-se no rumo oposto, suicida-se na irrelevância, dando provas de seu completo autismo, incapaz de ser outra coisa que uma prorrogação do governo de Barack Obama.

No Brasil, o sucesso das manifestações também frustrou os críticos esquerdistas, especialmente os eclesiásticos. Em clima pacífico, com discurso ostensivamente anti-comunista e em defesa de todos os valores conservadores (vida, família, nação, propriedade privada, tradição), a população não deixou de ostentar a sua fé, realizando inclusive piedosos momentos de oração, coisa impensável há dez anos, e, vale dizer, com zero protagonismo do clero.

Francisco, a CNBB e a esquerda “católica” perderam o povo, a força moral e o contato com a realidade. Inúteis são seus esforços de fingir relevância e dignidade, declarando, como Dom Walmor, que “estamos abertos ao diálogo”. Eles não entenderam. Ninguém quer dialogar com gente sem importância.

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15 maio, 2019

Homossexuais no seminário. Uma pesquisa clamorosa no Brasil.

Por Sandro Magister, 13 de maio de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – A pesquisa não é muito recente, seus resultados foram publicados na primavera de 2017 em português, na “Revista Eclesiástica Brasileira”. Mas,“Il Regno – Documenti” publicou nestes dias a tradução integral para o italiano, fazendo-a, assim, conhecida a um público mais vasto, em uma questão que é ardente atualidade.

OmoA questão é a da homossexualidade nos seminários.

Desde há alguns meses, a homossexualidade é tabú na cúpula da Igreja. Proibiu-se de falar dela também no encontro sobre os abusos sexuais, realizado de 21 a 24 de fevereiro. Mas a sua presença difusa no clero e nos seminários é uma realidade conhecida há tempos, a ponto de, em 2005, a Congregação para a Educação Católica ter difundido uma instrução, precisamente sobre como enfrentá-la.

Essa instrução confirmou não só que os atos homossexuais são “pecado grave”, mas também as “tendências homossexuais profundamente arraigadas” são “objetivamente desordenadas”. Por isso, aquele que pratica esses atos, manifesta essas tendências ou de alguma forma apoia a “cultura gay”, de forma alguma deveria ser admitido às ordens sagradas.

Estas são as diretrizes pastorais de então. Mas, na verdade, quando elas foram aplicadas? A pesquisa mencionada teve como objetivo verificar o que ocorre hoje em dois seminários do Brasil, tomados como amostra.

Os autores da pesquisa, Elismar Alves dos Santos e Pedrinho Arcides Guareschi, ambos religiosos da Congregação do Santíssimo Redentor e especialistas em psicologia social, com prestigiosos títulos acadêmicos, questionaram a fundo 50 estudantes de teologia desses seminários, chegando a resultados absolutamente alarmantes.

Antes de tudo, dizem os entrevistados, a homossexualidade em seus seminários “é algo comum, uma realidade cada vez mais presente”. Tão normal que “chega inclusive a ser banalizada”. É uma convicção difundida entre eles “que, na realidade, 90% dos seminaristas hoje é homossexual”.

Alguns homossexuais — dizem — “buscam o seminário como meio de fuga para não assumir diante da família e da sociedade as responsabilidades vinculadas a seu comportamento”. Outros “se descobrem homossexuais quando já estão no seminário”, encontrando ali um ambiente favorável. E quase todos, fala-se de 80%, “vão em busca de parceiros sexuais”.

Com efeito, a homossexualidade — declaração — “é uma realidade presente nos seminários não só na ordem do ser, mas também na ordem do agir”. Muitos a praticam “como se fosse algo normal”. Escrevem os autores da pesquisa: “Na visão dos que participaram da investigação, no contexto atual dos seminários uma boa parte dos seminaristas é favorável à homossexualidade. E ainda mais, sustentam que se há amor na relação homossexual, não há nada de mal. Dizem: ‘Se há amor, o que tem de mal’?

Os participantes da pesquisa pedem, antes de tudo, que “deve haver um diálogo entre os homossexuais e a Igreja”. Mas justamente um diálogo para fazer que a “homossexualidade no interior dos seminários seja bem acompanhada e orientada”.

Em outras palavras, os entrevistados lamentam que os superiores não façam nada em matéria de homossexualidade, mas esperam ser aceitos e admitidos à Ordem Sagrada enquanto tais, com “uma acolhida que aceite humanamente a pessoa como é”.

“É claro — concluem os autores — que existe uma discrepância entre o que a Igreja propõe sobre como orientar a homossexualidade nos seminários e o modo em que os seminários ou casa de formação percebem e afrontam este fenômeno”.

Mas que discrepância” Entre a instrução de 2005 e os comportamentos revelados na pesquisa há um abismo.

Mas se adverte também que a instrução de 2005 é como se já não tivesse nenhum valor, a julgar por como se move hoje a cúpula da Igreja acerca deste assunto crucial.

Para romper o silêncio sobre a homossexualidade nos seminários e entre o clero, teve que se mover o Papa emérito Bento XVI, nos “Apontamentos” sobre o escândalo dos abusos, publicados por ele em 11 de abril passado, depois de durante dois meses o seu sucessor Francisco tê-los guardado na gaveta do escritório. “Vox clamantis in deserto” [Voz que clama no deserto].

14 abril, 2019

Bento XVI e o Outro.

Uma carta que abalou um pontificado.

FratresInUnum.com, Domingo de Ramos, 14 de abril de 2019 Representantes de todas as Conferências Episcopais reunidos sob a presidência de Francisco, vítimas de abusos sexuais em depoimentos emocionantes, cerimônias sentimentais calculadas para provocar comoção mundial, jornalistas de todo o mundo mobilizados, coletivas de imprensa diárias, artigos e mais artigos, fotografias cuidadosamente selecionadas… E um simples ensaio de Bento XVI consegue causar um estrondo muito maior, em apenas 18 páginas.

Na última semana, ganhou projeção internacional o breve escrito do Papa Bento XVI sobre “A Igreja e o escândalo do abuso sexual”. Em três breves pontos, o lucidíssimo texto simplesmente reduziu a zero todas as iniciativas de fachada promovidas por Francisco, o qual evitou cuidadosamente tratar do núcleo da questão levantada por Bento: a revolução sexual e o relativismo moral que penetraram na formação dos candidatos ao sacerdócio, sob o ativismo de grupos homossexuais no clero. Francisco preferiu reputar a responsabilidade dos abusos ao clericalismo, aos jogos de poder, diluindo toda a questão em generalidades abstratas.

O resultado da Cúpula convocada por Bergoglio foi simplesmente nenhum: uma reunião inconcludente, que apenas serviu como tentativa para anestesiar os ânimos.

O entourage de Francisco recebeu o golpe e já começou a agir. Em reação à imediata acolhida positiva e aliviada por grande parte dos fieis, como acontece em todas as ditaduras, o partido bergogliano já começou a mobilizar-se para, nada mais, nada menos que censurar o pontífice alemão. É isso, mesmo! Querem calar Bento XVI, o Papa que durante anos foi o defensor da fé!

No site Vatican Insider, Domenico Agasso escreveu um artigo no qual chega a afirmar que “o Vaticano ficou pequeno demais para dois papas” e Massimo Faggioli se atreve a dizer que o ensaio escrito pelo Papa Bento XVI cria uma “questão constitucional” na Santa Sé, chegando a declarar que “o Papa emérito é novo para a Igreja como instituição e pode funcionar bem, sem particulares regulamentações ou estatutos jurídicos, apenas se ficar invisível”. Querem assassinar juridicamente Bento XVI, mediante a censura institucional mais covarde que já se viu. Por que?

A receptividade dos fieis ao texto de Bento XVI revela a falta de legitimidade e o desprestígio em que este pontificado voluntariamente se jogou. É verdade que, lamentavelmente, Bento XVI renunciou ao pontificado, mas o fez de modo papal e, mesmo retirado num mosteiro dentro do Vaticano, é reconhecido como papa, goza de autoridade intelectual e moral sobre os fieis; enquanto o pontífice argentino, ao sentar-se à Cátedra de Pedro, atua de modo totalmente irresponsável, falando e agindo não como pastor da Igreja Católica, mas como acólito de toda a esquerda internacional, personificada pela mídia, à qual não cessa de bajular.

O sucesso de Bento desmistifica o coro entusiástico que hosana incessantemente o atual bispo de Roma. Notem que Francisco acaba de publicar a Exortação apostólica pós-sinodal Christus vivit, da qual ninguém simplesmente fala, sobre a qual ninguém comenta… O breve texto de Ratzinger submergiu completamente o inócuo documento do pontífice reinante, reduziu-o ao rídico e, com porte de uma encíclica, cheio de fé e de teologia, de realismo e de sensibilidade, confortou a alma das ovelhas de Cristo em todo mundo e, de modo especial, as vítimas dos abusos sexuais e suas famílias.

Ademais, Bento XVI pôs em evidência o nexo necessário entre a fé e a moral na doutrina da Igreja, defendendo de modo aberto o magistério da encíclica Veritatis Splendor, com uma clareza fulgurante. Isso, evidentemente, coloca em dificuldade a ação demolidora do magistério de Francisco, que se beneficia da ambiguidade justamente nestas matérias para levar adiante a destruição completa dos fundamentos da doutrina católica. Deste modo, Bento XVI respondeu discretamente aos dubia, levantados por quatro cardeais há três anos, aos quais Francisco ostensivamente ignorou, descumprindo também de modo explícito o seu dever como papa.

Em seu mencionado artigo, Agasso afirma que “o papa emérito intervém com um texto que pode representar ‘uma linha pastoral e teológica paralela à do papa”. Ora, com uma mentalidade de cortesão e de adulador, ele simplesmente parte do pressuposto de que o Papa é a Igreja, desconsiderando toda a realidade, bem como o corpo dos fieis católicos de toda a história e de todo o mundo.

É absolutamente incontestável que os fieis reconhecem na voz de Bento XVI a continuidade da fé dos papas e dos católicos de todos os tempos, enquanto sentem em relação à Francisco uma perplexidade que os faz simplesmente não se inteirarem de suas palavras e atos. O partido bergogliano é consciente da falta de respaldo da Igreja discente e procura suprir tal ausência de diferentes modos: chegaram a fraudar uma carta de Bento XVI, na tentativa desesperada de obter apoio para uma coletânea de livros acerca do “pensamento” do Papa Francisco; agora, tentam escorar-se na linha ratzingeriana, inventando a história de que o cardeal Scola teria pedido votos a Bergoglio no último conclave. Todas, tentativas patéticas de justificar o injustificável.

Enquanto Bergoglio faz sucesso nos jornais, Bento XVI é um ícone muito eloquente da Igreja Católica dos nossos dias: os católicos estão recolhidos no tabernáculo do silêncio, rezando e sofrendo, esperando a hora de Deus, que certamente chegará. O descolamento é grande demais, o povo está completamente à deriva, a rachadura não pode mais ser dissimulada: a hierarquia prevaricou e os poucos padres e bispos fieis estão sob dura censura.

Os dois papas representam duas Igrejas, uma real, outra parasita. Foi Gustavo Corção que se exprimiu nos famosos termos: “A Igreja Católica e a outra”, referindo-se à natimorta Igreja pós-conciliar. Atualmente, o fenômeno agravou-se: o parasita espalhou-se de tal modo que já ocupou toda a oficialidade, confinando o doente à resignada posição de clandestino. É assim que vive a quase totalidade dos fieis católicos: silenciados, impotentes, amarrados – exatamente como Bento XVI.

É assim que chegamos a esta triste realidade. São duas eclesiologias que se condensaram em dois papas! Contudo, Bento não está paralelo à Igreja, ao contrário, seu modus pensandi a representa; o paralelismo real é ocupado por Francisco, que ocupa, porém, apenas a oficialidade do seu cargo.

Andrea Grillo, outro teólogo progressista, escreveu nesses dias que a carta de Ratzinger é apenas “uma leitura traumatizada e traumática da virada conciliar e do 1968, como causa de todos os males da Igreja, incluindo os abusos”. Exercendo plenamente o jus sperniandi, Grillo simplesmente finge que Bento XVI não apela aos fatos, mas fica como ele, refugiado num mundo de abstrações, naquilo que poderíamos chamar de teologia da desculpa.

Mas as desculpas não convencem, elas jamais subjugarão os fatos. E é a humildade de ater-se a eles que distingue a autenticidade da cenografia. Para o povo, já está claro quem é real e quem é de plástico, quem é católico e quem não o é, e a diferença colossal entre um papa e o outro

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14 abril, 2019

Foto da semana.

Resultado de imagem para papa francisco beija pés sudão

O Papa Francisco, num gesto comovente, ajoelha-se e beija os pés pés de líderes do Sudão do Sul que viviam em guerra pelo controle do país.

A grande notícia é que o problema nos joelhos que impediam Sua Santidade de se prostrar diante do Santíssimo Sacramento parece ter sido superado. Igualmente, parece coisa do passado a preocupação do Papa em relação à proliferação de germes, demonstrada ao retirar a mão do alcance dos fiéis que desejavam oscular o Anel de Pedro.

 

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11 abril, 2019

Bento XVI rompe o silêncio sobre a crise de abusos sexuais na Igreja Católica.

Em ensaio redigido em língua alemã, publicado na quinta-feira, o papa emérito oferece um caminho a seguir.

Por Edward Pentin, 10 de abril de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – Em seu pronunciamento mais significativo desde que renunciou ao papado, em 2013, o Papa Emérito Bento XVI escreveu um longo ensaio sobre os abusos sexuais cometidos por clérigos, no qual explica a sua visão das causas da crise, os efeitos que ela tem exercido sobre o sacerdócio, e qual seria a melhor reação por parte da Igreja.

Pope Benedict in 2010

Discorrendo com mais de 6.000 palavras e a ser publicado em 11 de abril no Klerusblatt, uma publicação mensal de pequena circulação da Bavária, Bento XVI atribui a culpa predominantemente à revolução sexual e ao colapso da teologia moral católica desde o Concílio Vaticano Segundo. Ele alega que esses fatos resultaram em um “colapso” na formação dos seminários anterior ao Concílio.

Bento critica o direito canônico por inicialmente ser insuficiente para tratar do flagelo, explica as reformas que introduziu para lidar com os casos de abusos e afirma que “somente a obediência e o amor a nosso Senhor Jesus Cristo” podem tirar a Igreja da crise.

O papa emérito inicia o seu ensaio, intitulado “A Igreja e o Escândalo de Abusos Sexuais,” observando que a “extensão e a gravidade” da crise de abusos têm “entristecido profundamente” sacerdotes e leigos e “levado não poucos a questionarem a própria fé da Igreja.”

Relembrando o encontro nos dias 21 a 24 de fevereiro, no Vaticano, para tratar da proteção de menores na Igreja, ele diz que foi “necessário” enviar uma “mensagem forte” e buscar um “novo início”, para que a Igreja pudesse novamente se tornar “verdadeiramente credível.”

Bento escreve que compilou notas dos documentos e relatórios daquele encontro que culminaram nesse texto, que ele afirma ter mostrado ao Papa Francisco e ao Cardeal Pietro Parolin, o secretário de estado do Vaticano.

Este ensaio esta dividido em três partes. A primeira consiste em um exame do “contexto social mais amplo” da crise, na qual ele diz que tenta mostrar que um “evento egrégio” ocorreu nos anos 60 “em uma escala sem precedentes na História.”

Uma segunda seção trata dos efeitos desses fatos na “formação dos sacerdotes e nas vidas dos sacerdotes.”

E em uma terceira parte ele desenvolve “algumas perspectivas para uma resposta apropriada por parte da Igreja.”

‘Revolução de 1968’

Para dar uma ideia do contexto social mais amplo, o papa emérito relembra a “liberdade sexual total” que se seguiu à “Revolução de 1968”. Ele diz que de 1960 a 1980 os “padrões relacionados à sexualidade desmoronaram inteiramente,” resultando na “falta de regras”, que, a despeito das “tentativas trabalhosas,” não foi interrompida.

Citando basicamente exemplos dos países europeus de língua alemã, ele se recorda da educação sexual com imagens gráficas patrocinada pelo Estado, anúncios lascivos e “filmes de sexo e pornografia” que se tornaram uma “ocorrência comum” após 1968. Segundo ele, isso, por sua vez, levou à violência e agressão, e a pedofilia foi “diagnosticada como permitida e apropriada.”

Ele pensou naquele tempo como os jovens se aproximavam do sacerdócio nesse ambiente e diz que o colapso das vocações e o “número altíssimo de laicizações” foram consequência de todos esses processos.”

Ao mesmo tempo, a teologia moral católica também “sofreu um colapso,” ele diz, tornando a Igreja “indefesa contra essas mudanças na sociedade.”

Ele explica que, até o Concílio Vaticano Segundo, a teologia moral fundava-se em grande parte na lei natural, mas a “luta por uma nova compreensão da Revelação”, fez com que a “lei natural fosse amplamente abandonada, exigindo-se que a teologia moral fosse baseada inteiramente na Bíblia.

Consequentemente, diz Bento, nada mais poderia ser “constituído um bem absoluto”, mas apenas o “relativo” poderia ser “melhor, dependendo do momento e das circunstâncias”.

Essa perspectiva relativista alcançou “proporções dramáticas” ao final dos anos 80 e 90, quando surgiram documentos como a Declaração de Colônia,” de 1989, que discordou do ensinamento do Papa São João Paulo II, causando um “clamor contra o Magistério da Igreja”. Ele lembra como João Paulo II tentou conter a crise da teologia moral através de sua encíclica Veritatis Splendor , de 1993, e a criação do Catecismo.

Todavia, os teólogos dissidentes começaram a aplicar a infalibilidade somente a questões de fé e não de moral, ainda que, Bento escreve, o ensinamento moral da Igreja esteja profundamente relacionado à fé. Aqueles que negam essa realidade, ele continua, forçam a Igreja a permanecer em silêncio “precisamente onde a fronteira entre a verdade e a mentira está em jogo.”

Colapso de Formação

Voltando-se para a segunda parte do ensaio, Bento diz que esse “processo contínuo – preparado há muito tempo – de dissolução do conceito cristão de moralidade” levou a um “colapso de longo alcance” na formação sacerdotal.

Ele observa como “diversos clubes homossexuais de seminários” exerceram um impacto significativo sobre os seminários, resultando, ao menos nos EUA, em duas visitas apostólicas que tiveram poucos frutos.

Mas ele também salienta como as mudanças para a nomeação de bispos após o Vaticano II enfatiza a ‘conciliaridade”, levando a uma “atitude negativa” em relação à tradição – tanto é assim que Bento diz que até mesmo seus próprios livros foram “escondidos”, considerados como má literatura, e somente lidos debaixo da mesa.”

A pedofilia só se tornou “aguda” ao final dos anos 80, mas o direito canônico da época “não parecia suficiente” para lidar com o crime. Roma acreditava que a “suspensão temporária” era suficiente para “purificar e esclarecer”, mas os bispos americanos que lidavam com a crise de abusos do clero americano emergente não aceitava isso, porque os supostos abusadores ainda estavam “diretamente associados” aos seus bispos. Uma “renovação e aprofundamento” da “lei penal deliberadamente interpretada de maneira vaga” do Código de Direito Canônico de 1983 então começou a ocorrer “lentamente”.

Bento também salientou outro problema canônico: a percepção da Igreja do direito penal, que garantiu plenamente os direitos do réu de que “qualquer condenação” fosse “efetivamente excluída” – algo que ele descreve como “garantismo”.

Mas Bento argumenta que uma “lei canônica formada de maneira apropriada” deve conter uma “garantia dupla” – proteções legais tanto para o acusado quanto para o “bem em jogo”, que ele define como proteger o depósito de fé. A fé “não parece mais” ser um bem que “precisa de proteção”, acrescentando que esta é uma “situação alarmante” que os pastores devem levar “a sério”.

Para auxiliar a superar esse “garantismo”, Bento decidiu, com João Paulo II, transferir os casos de abuso da Congregação para o Clero para a Congregação para a Doutrina do Fé (CDF) – um movimento, segundo ele, que era crucialmente importante para a Igreja, uma vez que essa má conduta “em última análise, prejudica a fé” e isso possibilitou que “a pena máxima” fosse imposta.

Todavia, ele acrescenta que um aspecto do garantismo permaneceu em vigor, a saber, a necessidade de “prova clara do crime”. Para assegurar que as penalidades fossem legalmente impostas, Bento diz que a Santa Sé iria assumir as investigações dos casos se as dioceses estivessem “sobrecarregados” pela necessidade de um “processo penal genuíno”. A possibilidade de recurso também foi oferecida.

Mas tudo isso estava “além das capacidades” da CDF na época, levando a atrasos. Bento observa que o “Papa Francisco empreendeu reformas adicionais”.

 O que precisa ser feito

Voltando-se para o que precisa ser feito, Bento argumenta que a tentativa de “criar outra Igreja” já “fracassou” e prossegue dando uma catequese sobre como o “poder do mal surge da nossa recusa em amar a Deus”.

Ele ensina que um mundo sem Deus “só pode ser um mundo sem sentido”, sem padrões de “bem ou mal”, onde “o poder é o único princípio” e “a verdade não conta”. Uma sociedade sem Deus “significa o fim da liberdade”, continua ele, e a sociedade ocidental é aquela em que “Deus está ausente” e não resta nada para oferecer “.

“Em aspectos individuais torna-se subitamente evidente que aquilo que é ruim e destrói o homem tornou-se uma coisa óbvia”, escreve Bento. “Esse é o caso da pedofilia. Ela foi teorizada somente há pouco tempo como bastante legítima, mas tem se disseminado cada vez mais. E agora percebemos com surpresa que estão acontecendo coisas com nossos filhos e jovens que ameaçam destruí-los. O fato de que isso também poderia se espalhar na Igreja e dentre os sacerdotes deveria nos perturbar de maneira particular”.

Ele diz que a pedofilia atingiu essas proporções por causa da “ausência de Deus”, e observa como cristãos e sacerdotes “preferem não falar sobre Deus”, e que Ele “tornou-se assunto privado de uma minoria”.

Portanto, a “tarefa primordial” é colocar Deus novamente no “centro de nossos pensamentos, palavras e ações”, para sermos “renovados e dominados pela fé”, em vez de sermos “mestres de fé”.

Ele diz que o Concílio Vaticano Segundo “acertadamente” concentrou-se em trazer de volta a presença real de Cristo ao centro da vida cristã, mas, hoje em dia “prevalece uma atitude muito diferente”, que destrói a “grandeza do Mistério”. Isso resultou em uma participação reduzida na missa dominical, na desvalorização da Eucaristia como “gesto cerimonial” e na recepção da Sagrada Comunhão como simplesmente “algo natural”.

“O que é necessário primeiro e acima de tudo é a renovação da Fé na Realidade de Jesus Cristo, que nos foi dado no Santíssimo Sacramento”, diz Bento. “Em conversas com vítimas de pedofilia fiquei ciente dessa realidade.”

A Santa Igreja Indestrutível

Ele observa também que a Igreja hoje em dia é “amplamente considerada como apenas algum tipo de aparato político,” dito em “categorias políticas” como algo que precisamos “agora tomar em nossas próprias mãos e redefinir.” Porém, uma “Igreja feita por si mesma não pode constituir esperança,” ele diz.

Observando que a Igreja é atualmente e sempre foi constituída de trigo e ervas daninhas, de “peixes ruins” e “bons peixes,” ele diz que proclamar ambos “não é uma forma falsa de apologética, mas um serviço necessário à Verdade.”

Segundo ele, o demônio é identificado no livro do Apocalipse como “o acusador que acusa nossos irmãos diante de Deus dia e noite”, porque ele “quer provar que não há pessoas justas”. Hoje, a acusação contra Deus significa “acima de tudo depreciar a Sua Igreja como ruim em sua totalidade e, dessa forma, dissuadindo-nos dela”.

Todavia, ele enfatiza que, também hoje, uma Igreja é “não apenas constituída de peixes e ervas daninhas ruins”, mas continua a ser o “próprio instrumento” através do qual Deus nos salva.

“É muito importante opor-se às mentiras e meias verdades do demônio com a verdade integral”, diz Bento. “Sim, há pecado na Igreja e o mal. Porém, mesmo hoje em dia há a Santa Igreja, que é indestrutível “.

E ele lembra que “muitas pessoas que humildemente acreditam, sofrem e amam, nas quais o Deus real, o Deus amoroso, Se revela a nós,” bem como “Suas testemunhas (mártires) no mundo.”

“Precisamos apenas estar vigilantes para vê-los e ouvi-los,” ele diz, acrescentando que uma “inércia do coração” nos leva a “não desejar reconhecê-los” — mas reconhecê-los é fundamental para a evangelização, ele diz.

Bento encerra agradecendo ao Papa Francisco “por tudo que ele faz para nos mostrar, repetidas vezes, a luz de Deus, que não desapareceu, até mesmo hoje em dia. Obrigado, Santo Padre!”

* * *

A seguir, divulgamos a íntegra do texto de Bento XVI.

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