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13 abril, 2019

Coluna do Padre Élcio: Causas do alastramento do comunismo.

CARTA PASTORAL prevenindo os diocesanos contra os ardis da seita comunista. Escrita em 13 de maio de 1961 pelo então Bispo da Diocese de Campos, D. Antônio de Castro Mayer, de saudosa memória (continuação).

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 13 de abril de 2019.

Uma objeção capaz de embaraçar

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Poderia, diletos filhos, embaraçar-vos uma dificuldade. Sendo o marxismo intrinsecamente mau, e a natureza humana feita para o bem, como explicar a rápida e prodigiosa expansão dele? Já em 1937 registrava Pio XI “as falácias do comunismo espalhadas em todos os países, grandes e pequenos, cultos ou menos desenvolvidos, a ponto de que nenhum canto da terra estivesse delas imune” (Enc. “Divini Redemptoris”, ibid., p. 74). Hoje, só um cego não vê as enormes conquistas da seita marxista, que alcançou o domínio político em várias nações da Europa bem como em grande parte da Ásia, e vai alimentando agitações crescentes nos demais países tanto do Velho como do Novo Continente. Como explicar tão rápida difusão de um movimento aceleradíssimo (cf. Enc. cit. ibid., p. 75)?

Promessas alucinantes

A Encíclica “Divini Redemptoris” aponta várias causas para o fato, que hoje ainda são atuantes. Declara o providencial documento que “muito poucos conseguiram perceber o que intentam os comunistas” (ibid., p. 72), ao passo que a grande maioria  –  menos afeita ao estudo apurado das questões  –  “cede à tentação, habilmente preparada, sob forma de
alucinantes promessas” (ibid.). E realmente, o comunismo, que no começo se mostrou qual era, desde que percebeu que assim afastaria de si os povos, “mudou de tática e procura ardilosamente seduzir as multidões com uma linguagem dúbia e alguns objetivos imediatos atraentes” (ibid., p. 95). Apresenta-se desde então como desejoso de “melhorar a sorte das classes trabalhadoras, de eliminar os abusos causados pelos assim chamados liberais, e de obter mais equitativa distribuição dos bens terrenos” (ibid., pp. 72-73).

Crises econômicos sociais

Além disso, a eclosão de crises econômico-sociais cada vez mais sérias propicia ao marxismo ocasião para ampliar sua influência. Assim é que ele penetrou em classes por princípio avessas a qualquer materialismo ou terrorismo (cf. Enc. cit., ibid., p. 73).

Liberalismo

A responsabilidade pela difusão dos erros comunistas recai largamente –  se bem que não de modo exclusivo, como querem os progressistas  – sobre o liberalismo laicista. Ele pretendeu construir a cidade sem Deus, e terminou preparando o terreno para os demolidores de qualquer sociedade digna deste nome. Mediante o abandono moral e religioso a que votou os operários, pelas dificuldades que lhes criou para a prática da piedade, pelos obstáculos surdamente levantados contra a ação dos ministros de Deus, os Sacerdotes, pelo fomento das instituições de assistência laicas  –  hoje disseminadas e aprovadas praticamente em todos os países do mundo livre  –   o  liberalismo concorreu poderosamente para contaminar o operariado com as concepções revolucionárias dos comunistas (cf. Enc. cit. ibid., p. 73).

Forças secretas

Cabe ainda considerar a obra das forças secretas, que de há muito procuram destruir a ordem social cristã (cf. Enc. cit., ibid., p. 74-75). Intimamente relacionada com a atividade delas, está a campanha do silêncio com relação às obras anticomunistas, e a “propaganda verdadeiramente diabólica, como talvez o mundo nunca viu” (Enc. cit., ibid., p. 74), de que se beneficia o comunismo. “Propaganda dirigida por um único centro, mas que muito habilmente se adapta às condições dos diversos povos; propaganda de grandes recursos financeiros, de gigantescas organizações, de congressos internacionais, de inúmeras forças bem adestradas; propaganda que se faz por meio de folhas avulsas e revistas, nos cinemas, nos teatros, pelo rádio, nas escolas e até nas universidades, penetrando pouco a pouco em todas as classes sociais, ainda as melhores, sem quase perceberem elas o veneno que sempre mais lhes corrompe a mente e o coração” (Enc. cit. ibid., p. 74).

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6 abril, 2019

Coluna do Padre Élcio – Distinção ardilosa: combater o comunismo, não, porém, os comunistas.

CARTA PASTORAL prevenindo os diocesanos contra os ardis da seita comunista. Escrita em 13 de maio de 1961 pelo então Bispo da Diocese de Campos, D. Antônio de Castro Mayer, de saudosa memória (continuação).

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 6 de abril de 2019.

Passemos a considerar outros ardis que o inimigo semeia em nosso caminho.

Há uma distinção que não raro ilude a boa fé dos não comunistas. É a que se costuma fazer entre comunismo e comunistas. Todos os ódios se voltariam contra aquele, e para estes só haveria tolerância e compaixão. Distinção semelhante se faz com frequência entre o erro e os que erram, segundo a frase atribuída a Santo Agostinho: “Interficite errores, diligite errantes”. Sem nos determos no verdadeiro pensamento do Doutor da Graça  –  bastante inteligente para perceber que o erro não tem existência senão por alguém que o professa, e por isso mesmo só desaparece com a conversão ou com o desaparecimento desse alguém  –  sem nos determos, portanto, na consideração do verdadeiro sentido do axioma atribuído a Santo Agostinho, observamos que, aplicado ao comunismo, ele é sempre perigoso.

Pio XI

Com efeito, em outras heresias há a possibilidade de se encontrarem pessoas de boa fé, que, tendo se enganado na busca da verdade, aceitam todavia os primeiros princípios da razão, e cuja conversão, portanto, pode ser eficazmente auxiliada por uma elucidação ideológica. Não assim no comunismo. Este, negando o princípio da contradição, torna impossível uma discussão de ordem intelectual. Por isso mesmo, Pio XI, a “Divini Redemptoris”, praticamente não distingue entre o comunismo e os comunistas. Assim, menciona os princípios do comunismo como aparecem nas instituições e métodos dos bolchevistas (cf. A. A. S., vol. 29, p. 69); a doutrina dos comunistas (p. 75); os preceitos que
estes difundem (p. 69); os erros e meios violentos dos bolchevistas (p. 76); do mesmo modo, quando atribui aos comunistas o princípio da tirania da coletividade (p. 71); refere-se outrossim ao evangelho que os comunistas, bolchevistas e ateus anunciam (p. 72); ao poder político como meio de que os comunistas se apoderam para conseguir seu fim (p. 72); e em geral, onde normalmente se falaria de comunismo (como aliás se vê em várias traduções da “Divini Redemptoris”), o Papa não usa o termo abstrato para indicar a doutrina, mas o concreto que aponta as pessoas dos comunistas, aos quais ele diretamente acusa (p. 77).

De onde é lícito deduzir um especial cuidado do Santo Padre em prevenir os fiéis contra a pessoa dos sequazes de Marx, apontando-lhes o engodo que representa essa distinção entre comunismo e comunistas. Podemos, pois, concluir, e na conclusão fazer uma paterna advertência aos Nossos amados filhos em Jesus Cristo. Os verdadeiros comunistas rejeitam os primeiros princípios da lógica e os próprios fundamentos da ordem moral; são pessoas por cuja conversão se deve rezar, sem dúvida, e muito, mas em quem não se pode, de maneira nenhuma, confiar, e cuja ação se deve temer e combater.

Há comunistas e comunistas

Uma distinção melhor caberia entre comunistas e comunistas. Pois, de fato, nem todos os que se encontram sob o jugo soviético na Rússia e satélites podem ser considerados comunistas. Há, nessas infelizes nações, um número enorme de indivíduos, a maioria, que gemem debaixo do domínio cruel a que os comunistas os submeteram pela força. Esses tais só com uma grave injustiça se poderiam chamar de comunistas. Eles detestam o regime que sofrem em silêncio porque não lhes é facultado externar seu pensamento. Além desses, quer nos países de atrás da cortina de ferro, quer nos do chamado mundo livre, não são poucos os que aderiram ao partido comunista sem lhe conhecer toda a perversa doutrina e iludidos por enganosas esperanças. Deles, muitos o abandonaram já (na França, de um milhão de aderentes que contava o comunismo em 1945-1946, não restam hoje mais do que duzentos mil), outros ainda não se animaram a esse passo decisivo. De verdadeiros comunistas sobra uma pequena minoria (4 % da população na Rússia, porém ativa a audaz, que poderosamente coadjuvada pela boa fé de muitos não comunistas, e intencionalmente por não poucos dos chamados cristãos progressistas, cuja mentalidade só na aparência difere da  marxista, constitui o maior perigo atual para a civilização cristã (cf. Enc. “Divini Redemptoris”, ibid., pp. 66 e 76).

Tenhamos, pois, compaixão dos que sofrem sob o despotismo vermelho, bem como daqueles que a seita iludiu. Ao mesmo tempo, estejamos sempre em guarda contra os manejos e ardis dos comunistas. À vigilância juntemos a oração para que Deus nos proteja e os converta. Todos sejam abraçados pela caridade de nossa alma, traduzida em preces, sacrifícios e boas obras.

Dupla vantagem em expor a tática comunista

Quisemos, com a exposição da tática e dos ardis dos marxistas, proporcionar-vos, amados filhos, duas vantagens: de um lado, esclarecer-vos sobre o modo de combater o terrível inimigo; de outro, prevenir-vos a respeito do triste papel desempenhado a favor dele por aqueles que se dizem, muitas vezes, seus adversários. Cumpre ainda pôr em relevo a malícia do comunismo, considerado em si mesmo, e não mais em seus ardis e suas táticas.

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16 janeiro, 2012

Louis Billot: o cardeal que renunciou à púrpura.

IHU“Tendo-se retirado para Galloro, o venerado padre Billot viveu apartado de todo afazer, atendendo apenas à oração e ao estudo, dando aos coirmãos admiráveis exemplos de humildade e de obediência religiosa”. Esse foi o lacônico e conciso comentário publicado em janeiro de 1932 na revista La Civiltà Cattolica pela morte – ocorrida há 80 anos, no dia 18 de dezembro de 1931 – do padre Louis Billot: jesuíta, eminente teólogo neotomista, mas conhecido sobretudo por ter sido cardeal e por depois ter renunciado à púrpura.

A reportagem é de Filippo Rizzi, publicada no jornal dos bispos italianos, Avvenire, 15-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O fato – raríssimo na história da Igreja – ocorreu no dia 14 de setembro de 1927 e provocou escândalo. Uma semana depois, o jornal Il Popolo d’Italia descreveu-o com vivacidade simbólica: o cardeal que, em São Pedro, tinha colocado a tiara sobre a cabeça do recém-eleito pontífice Pio XI, no dia 12 de fevereiro de 1922 (havia sido precisamente Louis Billot quem o fizera), colocava novamente nas mãos do mesmo pontífice a púrpura e o barrete, voltando ao estado de simples religioso. E fez isso em vez de se retratar da sua manifesta simpatia pela Action Française, de Charles Maurras, condenada em 1926 pelo então reinante Pio XI (foto).

Louis Billot não merece ser lembrado apenas por esse gesto: a 80 anos da sua morte, continua viva a atualidade de um estudioso que foi considerado uma estrela guia pelo refinamento da pesquisa no campo da teologia dogmática e da escolástica até o Vaticano II. Não por acaso, famosos tratados seus como De Verbo Incarnato, De gratia Christi ou De Ecclesia Christi se tornaram clássicos.

Discípulos da sua escola foram importantes teólogos do século XX, como Pietro Parente, Carlo Figini ou o inesquecível Jules Lebreton. Os seus estudos sobre a disciplina dos sacramentos foram um ponto de referência para grandes teólogos do pós-Concílio como Karl Rahner e Edward Schillebeeckx, como documenta o recente livro de Giancarlo Vergano, La forza della grazia. La teoria della causalità sacramentale di L. Billot (Ed. Cittadela).

Estudioso de importância que levou novamente para as cátedras das faculdades pontifícias romanas a atualidade do pensamento de São Tomás de Aquino, por expressa vontade de Leão XIII, Billot havia sido chamado para a cátedra de dogmática da Universidade Gregoriana (1885), mas a influência teológica do jesuíta francês, natural de Metz, se impôs sobretudo durante o pontificado de Pio X: não por acaso, o filho de Santo Inácio foi um dos redatores da encíclica Pascendi, que condenava o modernismo, um dos méritos pelos quais o Papa Sarto criou-lhe cardeal em 1911.

Como, portanto, um teólogo tão benquisto na Sé Apostólica chegou ao gesto tão clamoroso da renúncia da púrpura? Quem revela hoje a verdadeira dinâmica do caso Billot é uma pesquisa realizada em 2009 pelo prefeito do Arquivo Secreto Vaticano, o bispo barnabita Sergio Pagano, agora publicada nos Collectanea Archivi Vaticani 68 – Il Papato Contemporaneo (Livraria Editora Vaticana). Pesquisa possibilitada graças à liberação dos documentos do próprio Arquivo sobre o papado de Achille Ratti (1922-1939).

A pesquisa permite iluminar o embaraço que havia sido criado no episcopado francês – em particular no cardeal de Bordeaux, Paul Andrieu – pelos atestados de estima (incluindo um bilhete endereçado ao jornalista Léon Daudet) enviados pelo cardeal Billot a alguns membros da Action Française, o movimento político que visava a um retorno da monarquia na França.

Na origem do conflito, estava, acima de tudo, a “pouca tolerância”, que depois se tornou “irritação”, de Pio XI para com um cardeal da Cúria que, com as suas declarações, servia de contraponto à posição oficial da Santa Sé, contrária a um confronto com a França republicana daquele tempo.

Em torno do caso Billot, desenvolveu-se subterraneamente uma verdadeira negociação diplomática, feita de correspondências e mediações, e conduzida no “mais absoluto sigilo”, que teve como atores o secretário de Estado, o cardeal Pietro Gasparri, o prepósito geral da Companhia de Jesus, Vlodimiro Ledóchovsky, e o núncio Francesco Borgoncini Duca. Mas não foi suficiente.

Como testemunho do clima de tensão que havia se adensado no Vaticano – como bem documenta a pesquisa de Pagano –, restam as palavras do cardeal no ato da sua renúncia (La passion est plus forte que moi) e a tentativa extrema, segundo muitos ingênua, da parte de Billot de se retirar para uma casa jesuíta na França para continuar assim a proximidade com a Action.

“O prudente superior Ledóchovsky – escreve Pagano –, sabendo que o papa jamais lhe consentiria isso, dirigiu a escolha para a quieta e apartada casa de Galloro“, nos arredores de Ariccia (província de Roma). Para dissipar qualquer boato e “assim cortar rente as lendas” em torno da sua saída do Sacro Colégio, o próprio Billot escreveu de seu próprio punho, no dia 2 de março de 1928, uma carta esclarecedora ao então diretor da Études, Henri du Passage, na qual explicou o sentido da escolha de voltar a ser um jesuíta simples e assim se preparar “para a boa morte”.

E a escolha do “claustro” em nome da mais rígida pobreza religiosa foi verdadeiramente sincera, mas também coerente com o caráter de Billot, como confirma Ledóchovski em uma carta a Pio XI: “Vossa Santidade se digne a rezar pelo pobre padre que, evidentemente, como posso confirmar novamente nestes dias, tem certas ideias fixas, das quais não pode se livrar”.

Além das afirmações oficiais, relatadas na época pela La Civiltà Cattolica e pelo L’Osservatore Romano, em que o papa lamentava como “perda nada leve” a renúncia à púrpura do jesuíta de Metz, a imprensa internacional da época (salvo exceções), interpretou a figura de Billot como uma “vítima sacrificial” do sistema curial romano.

Mas a verdade histórica desses fatos foi muito mais complexa, segundo Dom Pagano: “Os eventos finais do singular movimento da Action Française, contudo, dariam razão à clarividência de Pio XI, que, no caso Billot, considerando-se tudo, usou ‘insigne benevolência’, suportando com paciência até o tolerável que o irrefreável purpurado francês, sob as suas janelas, fizesse contínuos conciliábulos de apoiadores do movimento reacionário, ao qual reivindicava continuamente a liberdade de ação em âmbito político. Passada a medida, pelo decoro da Santa Sé e pela pacificação do clero francês, a única solução era constituída pela sua renúncia”.

Um gesto romântico que, 80 anos depois, ainda continua sendo emblematicamente forte e que, junto com o refinamento e a sutileza teológica do protagonista, foi objeto de admiração e de estima bipartidária por parte de “insuspeitos” como o cardeal Giacomo Biffi e o senador Francesco Cossiga, mas também do jesuíta e cardeal Carlo Maria Martini, que, justamente em Galloro, consultou parte da documentação inédita sobre a vida do coirmão francês.

Carlo Odescalchi: outro jesuíta que abriu “precedentes”

A pesquisa de Dom Sergio Pagano, prefeito do Arquivo Vaticano, permitiu sobretudo tirar um véu da vulgata jornalística que sempre confirmou a ideia de um cardeal Billot que, depois da conversa com o Papa Pio XI, saiu do apartamento papal instantaneamente privado da dignidade cardinalícia e como simples jesuíta.

A realidade dos fatos, como relatado, foi muito mais complexa. Quem tentou, em vão, com cartas e longas conversas na Gregoriana, convencer Billot a se retratar de sua posição foi o cardeal Pietro Gasparri.

É interessante descobrir também que, na carta de renúncia dirigida pelo jesuíta de Metz a Pio XI, a assinatura já é a de um simples religioso da Companhia de Jesus: “Louis Billot S.I.”. Uma confirmação de como o agora ex-cardeal estava certo da aceitação da sua renúncia.

Na refinada minuta (conservada no Arquivo Secreto Vaticano) de resposta à aceitação da despedida ao cardinalato, preparada por Gasparri, mas corrigida de seu próprio pelo Papa Ratti, será relembrado o exemplo do último cardeal da Cúria – em ordem de tempo – a renunciar à púrpura: tratava-se de Carlo Odescalchi (1785-1841, imagem ao lado), que deixou o cardinalato para entrar na Companhia de Jesus como simples noviço.

31 agosto, 2011

Pio XI, o papa dos desafios.

IHUEleito papa de surpresa no dia 6 de fevereiro de 1922, depois de apenas sete meses da sua designação como arcebispo de Milão, Achille Ratti era um homem acostumado desde jovem a escalar montanhas, a conquistar com tenacidade qualquer cume. Era “um desafiante que não gostava de ser desafiado”.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 29-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

De caráter forte e determinado, Pio XI, o papa dos Pactos Lateranenses, das corajosas encíclicas contra o fascismo (Não precisamos), o nazismo (Mit Brennender sorge) e o comunismo ateu (Divini Redemptoris), ele se impôs desde as primeiras horas que se seguiram à sua ascensão ao Sólio pontifício. Ele quis que sua antiga doméstica de Brianza, Teodolida Banfi, ao seu serviço há muito tempo, permanecesse como governanta do apartamento pontifício. Foi-lhe explicado que não era conveniente que uma mulher desempenhasse esse serviço, já que não havia nenhum precedente a esse respeito. “Todo precedente teve um início”, respondeu o papa. “Isso não pode nos impedir, portanto, de criar um precedente”.

Pio XI raramente perdia a paciência, mas, quando isso acontecia, todos se lembravam disso por um bom tempo. Como aquela vez em que não se conseguia encontrar um determinado documento nos arquivos do Santo Ofício, e o Papa Ratti convocou um de seus colaboradores, dizendo: “Ou esse papel aparece, ou todos os dirigentes da Suprema Congregação desaparecem”. O documento foi encontrado em menos de uma hora.

Outra vez, o pontífice não havia hesitado em retirar o chapéu cardinalício de um purpurado. Ocorreu em 1926, com o cardeal jesuíta Ludovico Billot, um dos membros mais influentes do Santo Ofício, colaborador na elaboração da encíclica antimodernista Pascendi de Pio X (1907). Havia sido justamente Billot, como substituto do cardeal protodiácono, que estava doente nesses dias, que colocou sobre a cabeça de Ratti a tiara papal durante a faustosa cerimônia da coroação.

Em 1926, Pio XI havia condenado a Action Française, o movimento do agnóstico Charles Maurras, que “se servia da Igreja sem servi-la” e que havia assumido “um agressivo e provocador espírito nacionalista que gerava acusações e calúnias ao papa”. Pio XI não aceitava que a fé católica fosse instrumentalizada para um projeto político, e vice-versa.

O cardeal Billot, no entanto, considerava aquela formação política francesa como um baluarte contra o liberalismo e, depois da condenação pontifícia, havia manifestado a sua solidariedade pessoal a Maurras com um bilhete, que foi publicado por um jornal, levantando a ira de Ratti. Convocado para uma audiência em setembro de 1927, Billot entrou como cardeal e saiu como simples padre jesuíta. No posterior dia 9 de dezembro, durante o Consistório, o Papa Pio XI explicou assim esse clamoroso gesto ao Sacro Colégio: “A sua ilustríssima ordem sofreu uma grave perda, quando o eminentíssimo Ludovico Billot renunciou à sagrada púrpura, voltando a ser um simples religioso da gloriosa e benemérita Companhia de Jesus. Quando ele nos escreveu de sua própria mão para que lhe concedêssemos a renúncia da excelsa dignidade, pareceu-nos que os motivos de renúncia apresentados eram generosos e espirituais, propostos, além disso, em graves circunstâncias. Assim, considerada a questão longamente, consideramos compatível com o nosso ofício ratificar a renúncia”. Na realidade, parece que a escolha do purpurado não foi tão espontânea…

Mas a audiência mais tempestuosa das concedidas por Pio XI foi a do arcebispo de Viena, o cardeal Theodor Innitzer. Este, no dia 15 de março de 1938, três dias depois do Anschluss (anexação) da Áustria à Alemanha, tinha recebido Adolf Hitler calorosamente e havia publicado uma carta que convidava todos os austríacos a se pronunciar pelo “nosso retorno glorioso ao Grande Reich” e terminava com as palavras “Heil Hitler”. O papa e o seu secretário de Estado, Eugenio Pacelli, convocaram o cardeal ao Vaticano, onde ele foi obrigado a assinar uma retratação já escrita, na qual declarava que os bispos estão subordinados às diretrizes da Santa Sé e que os fiéis austríacos não devem se sentir vinculados em suas consciências à acolhida favorável que a hierarquia eclesiástica havia reservado ao Führer de Berlim.

Depois de ter posto a sua assinatura no documento, Innitzer foi recebido pelo Papa Ratti: quem estava na antessala havia referido que foi possível ouvir nitidamente os gritos e a concitação. O cardeal austríaco retornaria a Viena com o rabo entre as pernas, mesmo que a sua retirada pública não mudaria o resultado da votação: 99,08% dos seus concidadãos dariam o seu próprio consentimento à “reunificação da Áustria com o Grande Reich“.

Conta-se que, um dia, o papa perguntou a um prelado o que se dizia dele na Cúria vaticana. Este respondeu: “Diz-se que Vossa Santidade é um bom pontífice, mas de pulso muito firme”. Na verdade, os curiais estavam acostumados a defini-lo com as palavras do Dies Irae: “Rex tremendae majestatis”. Ratti respondeu: “O papa não deve ser uma pessoa pusilânime, já que, como dizia o duque de La Rochefocauld, ‘a fraqueza se contrapõe mais à virtude do que ao vício'”.

Quando Hitler visitou Roma, acolhido triunfalmente por Benito Mussolini, Pio XI deu ordens de que nenhuma bandeira fosse exposta nas sacadas dos palácios da Santa Sé, abandonou a capital, retirando-se para Castel Gandolfo, e fez escrever no L’Osservatore Romano que o ar do Castelo lhe fazia bem, enquanto o de Roma lhe fazia mal.

O Papa Ratti desdenhava qualquer forma de nepotismo, jamais concedeu audiências especiais a parentes e, quando um sobrinho seu, engenheiro, executou alguns trabalhos no Vaticano, Pio XI deixou por escrito que ele não seria retribuído. Também era alérgico aos bajuladores. Papa de grandes impulsos missionários, sob o seu pontificado foram concluídas 18 concordatas com vários Estados, a fim de garantir a maior liberdade possível para a Igreja. No dia 13 de maio de 1929, ele disse: “Quando se tratar de salvar alguma alma, sentiremos a coragem de tratar com o diabo em pessoa”.

O seu caráter forte não lhe impedia de se comover, como testemunham as expressões em favor dos judeus pronunciadas no dia 6 de setembro de 1938, quando recebeu de presente um antigo missal de um grupo de peregrinos belgas. Abrindo a página em estava impressa a segunda oração depois da elevação da hóstia consagrada, o Papa Ratti leu em voz alta a passagem em que se suplicava que Deus aceitasse a oferta do altar com a mesma benevolência com que havia aceito uma vez o sacrifício de Abraão. “Todas as vezes que eu leio as palavras ‘o sacrifício de Abraão’ – disse –, não posso evitar de me comover profundamente. Notem bem: nós chamamos Abraão de nosso patriarca, o nosso antepassado. O antissemitismo é inconciliável com esse elevado pensamento, com a nobre realidade expressa por essa oração… Espiritualmente, somos todos semitas”.

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