Posts tagged ‘Pio XII’

10 agosto, 2009

Curtas da semana.

Publicação oficial da Santa Sé: DVD tutorial para a Missa Gregoriana.

ecclesiadei1WDTPRS: ‹‹ Algumas pessoas reclamam que, embora o Santo Padre tenha publicado Summorum Pontificum, não se supõe que alguém realmente use os livros antigos. Eles têm a mesma atitude com relação à missa tradicional como têm para com o canto Gregoriano: deve ser visto, mas não ouvido. Eis um anúncio interessante. A Pontifícia Comissão Ecclesia Dei publicou seu próprio material de auxílio para a antiga forma da missa, a Missa Extraordinaria, ou  Usus Antiquior, em linha com o próprio Summorum Pontificum do Sumo Pontífice. É um lançamento multimídia oficial em DVD, pela Santa Sé, em quatro línguas para padres e leigos aprenderem a antiga forma da Missa ›› .

Pedidos podem ser feitos a:
Pontificia Commissione Ecclesia Dei – Palazzo della Congregazione per la Dottrina della Fede
Piazza del Sant’Uffizio, 11 – 00193 ROMA – Tel. (Italia:39) 06/69885213 – 69885494 – Fax 69883412

Ainda o congresso na Itália.

Mais informações do congresso sobre Summorum Pontificum despoticamente proibido pelo senhor Arcebispo de Clagliari. Segundo Kreuz.net, “entre outros, o encontro foi organizado pelo pároco local, Pe. Pascal Manca. Cinqüenta sacerdotes e inúmeros leigos desejavam participar do mesmo”. Imaginemos o efeito que poderiam causar cinqüenta sacerdotes inflamados de amor pela liturgia católica tradicional após terem sido expostos durante 3 dias à doutrina, beleza, sacralidade e excelência da Missa de Sempre! Rezemos para que essas muralhas caiam e nossos irmãos da Sardenha consigam realizar essas jornadas e que um dia consigamos fazer a mesma coisa aqui no Brasil, por padres que verdadeiramente amem a Missa Tradicional e reconheçam sua importância para a restauração da vida católica.

Arquidiocese de Cali é “o closet dos gays”.

Padre GermánO padre Germán Robledo, ex presidente do Tribunal Eclesiástico de Cali, falou duro contra o clero e falou sobre o explosivo livro que está escrevendo, intitulado “Hacia um clero Gay” [“Em direção a um clero gay”]. Em entrevista à revista colombiana Semana, Pe. Germán conta que há dois anos fez “denúncias muito concretas ao arcebispo Juan Francisco Sarasty sobre fatos gravíssimos de indisciplina eclesiástica e que aumentaram durante seu governo por falta de controle e vigilância. Todas estas denúncias foram levadas pelo vento. Seu livro, que trás denúncias de “homossexualismo, pederastia; sacerdotes com filhos, com demandas ante o ICBF por alimentos, corrupção… enfim, toda classe de violações diretas ao celibato”, conta como nos últimos 30 anos a Igreja de Cali “se inclina por perfis de sacerdotes com traços efeminados, doces, obedientes, submissos, não críticos e que se protegem sempre no papel autoritário do bispo e demais superiores”. O Padre considera que na arquidiocese de Cali “30 por cento dos 120 sacerdotes que dela fazem parte sejam homossexuais”. Seu livro narra, sem citar nomes, casos de “sacerdotes que pediam dinheiro para os pobres e o entregavam a quem lhes acompanhavam em suas tendências homossexuais”.

Pio XII exorcizava Hittler a distância.

O historiador e jesuíta alemão Peter Gumpel, teólogo relator do processo de beatificação de Pio XII, revelou no transcurso de uma mesa redonda realizada em Roma em companhia do senador Giulio Andreotti acerca do tema «Pio XII, construtor da paz», que o Papa Pacelli exorcizou «várias vezes» e a distância Adolf Hittler, por considerá-lo uma pessoa possuída, um endemoninhado; assim declarou Sor Pascalina, secretária particular do Pontifíce.  No exorcismo, o Papa invocava a Deus para que libertasse da influência diabólica que sofria o Führer. A notícia completa pode ser encontrada em Religion en Libertad.

Freiras americanas preocupadas com investigação do Vaticano.

Irmã Sandra M. Schneiders encorajou suas companheiras freiras a não participar da investigação do Vaticano.

Irmã Sandra M. Schneiders encorajou suas companheiras freiras a não participar da investigação do Vaticano.

Robert Pigott, BBC Religious Affairs Correspondent – Quando o Vaticano iniciou uma investigação, há  sete meses, sobre a “qualidade” das religiosas americanas, adotou uma abordagem discreta. Mas assim que detalhes foram emergindo na investigação sobre idéias sustentadas pelas religiosas – e o modo como elas rezam – a inquietação e irritação sentidas nas comunidades religiosas começaram a transbordar para a arena pública. Um memorando entregue recentemente pelo Vaticano às líderes das religiosas americanas foi interpretado por muitos como um sinal de que a hierarquia em Roma está preocupada quanto à tendência liberal dentre elas. As irmãs estão mais e mais ansiosas sobre o que isso pode significar. Antigamente, as irmãs trabalhavam principalmente em escolas e hospitais católicos, mas desde às varredouras reformas do Concílio Vaticano Segundo na última década de 1960 elas decidiram por conta própria como melhor fazer bem ao mundo. […] Mas importantes figuras no Vaticano estão preocupadas de que as algumas irmãs, ao responder às variáveis necessidades da sociedade americana, se tornaram muito liberais. Orientações recentes sobre a investigação – conhecida como “visitação apostólica” – revelam questões sobre se as irmãs assistem a missa diariamente e sobre a “retidão da doutrina professada e ensinada” por elas. Tradicionalistas estão há muito preocupados de que algumas irmãs possam estar desprezando o ensinamento da Igreja em assuntos delicados como homossexualidade e ordenação de mulheres ao sacerdócio. A investigação também pedirá por uma descrição do “processo para responder as irmãs que pública ou privadamente dissentem de ensinamentos impositivos da Igreja”. O processo foi bem recebido por algumas ordens mais conservadoras. […] Mas Francine Cardman, uma acadêmica na School of Theology and Ministry no Boston College, declarou que a investigação era um tentativa de estabelecer uma interpretação oficial dos ensinamentos do Concílio Vaticano Segundo.

29 novembro, 2008

Bento XVI, Pio XII e o Vaticano II.

Padre João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

Associação Civil Santa Maria das Vitórias

Padres Conciliares Na linha da hermenêutica da continuidade, Bento XVI declarou que uma das fontes mais importantes do Vaticano II é o magistério de Pio XII. Disse que, depois da Sagrada Escritura, os textos mais citados pelos padres conciliares são os documentos do papa Pacelli.

É muito louvável o empenho de Bento XVI de promover uma leitura do Vaticano II à luz da tradição, desautorizando assim aqueles que pretendem transformar o Vaticano II no marco inaugural de uma nova Igreja Católica, um “super-concílio” criado ex nihilo.

No entanto, é preciso reconhecer que o Vaticano II apresenta sérias dificuldades para ser interpretado na linha de continuidade do magistério da Igreja, ainda que se admita um desenvolvimento orgânico na vida eclesiástica. A Igreja está na história, mas sua doutrina não pertence à história e sim ao Verbo Eterno. Com efeito, como diz Romano Amério em Stat Veritas, ao que vem depois compete demonstrar sua continuidade com o precedente. E para tanto, não bastam citações de autores antigos. Os protestantes e os jansenistas citam, em tom elogioso, a Santo Agostinho. Todavia, seria grosseiro equívoco dizer que pertencem à mesma estirpe doutrinária de Santo Agostinho. Apenas o citam para corromper-lhe o pensamento ou para se cobrirem com o prestigio de um autor universalmente acatado.

Quanto ao Vaticano II, são conhecidas as lutas internas, os episódios dramáticos dos embates entre os padres fiéis à tradição da Igreja e os inovadores. Estes, depois de fulminados por São Pio X, passaram a viver homiziados à espera de uma ocasião oportuna para dar um golpe e revolucionar a Igreja. Em 1923, Pio XI pensou em convocar um concílio que pudesse concluir os trabalhos do Vaticano I, suspenso em 1870, em virtude de problemas políticos. Foi desaconselhado pelo cardeal Billot que lhe disse:

Eis a razão mais grave, aquela que me parece militar absolutamente contra a convocação.

A retomada do Concílio é desejada pelos piores inimigos da Igreja, isto é, os modernistas, que já se apressam – como o atestam os indícios mais certos – a aproveitar os estados gerais da Igreja para fazer a revolução, o novo 1789, objeto dos seus sonhos e esperanças.

Inútil dizer que não o conseguirão, mas veremos dias tão tristes como os do final do pontificado de Leão XIII e do início de Pio X; veremos coisa ainda pior, e seria a destruição dos bons frutos da encíclica Pascendi que os reduzira ao silêncio.[1]

Mas, enfim, por um desígnio insondável da Providência, o concílio realizou-se. Os seus frutos não são os melhores. Os próprios entusiastas do Vaticano II reconhecem que a situação da Igreja, após o VII, não é brilhante. Há problemas de toda ordem. Reina uma confusão enorme entre os católicos, a corrupção doutrinal é espantosa. Paulo VI chegou a falar em auto-demolição da Igreja e na penetração da fumaça de Satanás no templo de Deus.

Quanto à existência de uma crise na Igreja após o concilio há um testemunho concorde e unânime dos católicos dotados de um mínimo senso critico. O problema está em estabelecer uma relação de causa e efeito entre a crise e o próprio VII. Alguns chegam a admitir que a crise resulta de um espírito revolucionário dos anos Sessenta que invadiu toda a sociedade, inclusive a Igreja. O problema não estaria no próprio concilio. Nas atas conciliares não haveria nenhum problema, nada que justificasse uma reviravolta na vida da Igreja, nenhuma concessão à heresia, ao espírito mundano anti-católico.

Ora, isto não corresponde à verdade dos fatos. Está solidamente documentado que durante o Concílio houve uma tentativa de harmonizar correntes teológicas antagônicas, um esforço de operar uma síntese que lançasse a Igreja a um patamar mais alto, permitindo-lhe descortinar novos horizontes para a humanidade. Esse problema nos levaria longe demais, porque envolve toda a questão do humanismo de Maritain e da negação da ordem sobrenatural na obra de de Henri de Lubac e karl Rahner.[2] A questão merece estudo mais aprofundado e excede o objetivo deste modesto artigo.

O famoso livro O Reno se lança no Tibre do padre Ralph Wiltgen SVD (Editora Permanência, Rio de Janeiro, 2007) faz uma reportagem interessante dos momentos críticos do VII, quando, em face de um confronto doutrinário, optava-se por uma solução de compromisso mediante a redação de textos ambíguos. Wiltgen cita o dominicano holandês Schillebeeckx que disse: “A maioria tinha recorrido a uma terminologia deliberadamente vaga e excessivamente diplomática e o próprio padre Congar tinha bem cedo protestado contra a redação deliberadamente ambígua de um texto conciliar.” (o.c. p. 245)

Um concílio que não lança anátemas, não define pontos doutrinários, é algo inédito na história da Igreja. Um concílio que tenta ignorar o principio de não contradição para formular uma teologia à maneira hegeliana não pode prosperar. Se chegasse a uma síntese resultante de um compromisso de todos os envolvidos em tal concilio, essa síntese seria uma ruína geral.

Portanto, não causa admiração que o VII cite com profusão o magistério de Pio XII. Isto, porém, não significa que o VII esteja na linha de continuidade do magistério do grande papa. Com efeito, Pio XII na Mystici Corporis, aprofundando a doutrina perene dos papas sobre a constituição da Igreja, sobretudo a Satis Cognitum de Leão XIII, diz: “Afastam-se da verdade divina aqueles que imaginam a Igreja como se não pudesse ser alcançada nem vista, como se fosse uma coisa “pneumática” (como de fato o dizem), pela qual muitas comunidades de cristãos, se bem que separados entre si pela fé, todavia seriam entre si unidos por um vínculo invisível.”

Ora, é fato irrefragável que a Lumen Gentium atenta contra essa doutrina com sua tristemente célebre expressão subsistit e seus desdobramentos no campo da “política ecumênica” pós-conciliar, tais como os jargões “comunhão imperfeita entre as igrejas irmãs” Que significa isso? Para onde nos querem conduzir?

Igualmente, Pio XII reitera solenemente na encíclica Divino Afflante Spiritu, de 30 de setembro de 1943, a doutrina tradicional da Igreja sobre a inerrância absoluta da Sagrada Escritura como decorrência necessária da sua inspiração divina. Ao contrário, o VII se exprime em termos dúbios a respeito e o Catecismo pós-conciliar categórico ao reduzir a inerrância bíblica à verdade salvífca. (Cf. CIC nº 136).[3]

Concilio Vaticano IIOutrossim, o Santo Oficio, sob o pontificado de Pio XII, condenou a doutrina que equipara os fins do matrimônio: o auxílio mútuo não se subordinaria ao fim primário, o bem da prole (Cf. DS. Nº 3838). Ao contrário, a Gaudium et Spes do VII ignora essa hierarquia de fins. O Código de Direito Canônico de 1917, no cânon 1013, era claríssimo nessa matéria. O novo Código, de 1983, no cânon 1055, diz simplesmente que o matrimônio está ordenado ao bem dos cônjuges e à geração e educação da prole.

As conseqüências de todas essa inovações doutrinárias, de todas essas reformas, são desastrosas e estão aí para quem quiser ver. A grande maioria dos católicos hoje são ecumenistas radicais, irenistas ou quase sincretistas. Dizem com todas as letras, com a consciência tranqüila, que todas as religiões são boas. Que “o importante é o amor”. Que o importante é que haja paz para que a gente tenha vida boa aqui na terra. No campo da moral familiar, o que existe é um verdadeiro escândalo, consentido e apoiado por grande parcela do clero e do episcopado. Diz-se abertamente que se pode evitar filho por qualquer meio. A família católica tradicional está praticamente liquidada. É uma vergonha o que se vê!

Na verdade, esta questão é perfeitamente esclarecida pela desolação litúrgica vivida pela Igreja após o VII. A liturgia é a expressão da doutrina da fé. Ela não pode sofrer dilacerações, rupturas sem que o dogma seja ferido. A doutrina não pode ser alterada sem que a liturgia seja desfigurada. Após a reforma litúrgica o cardeal Benelli, de Florença, declarou que a missa tradicional não podia ser autorizada porque ela traduzia uma eclesiologia ultrapassada. Quer dizer, a Igreja da democracia e da colegialidade, na qual se obscurece o sacerdócio hierárquico e se corrói a autoridade suprema do Vigário de Cristo, é incompatível com a liturgia tradicional que se opõe a essas heresias.

Ora, o cardeal Ratzinger prefaciou a obra de Mons. Klaus Gamber La Réforme Liturgique en question (Édition Sainte-Madeleine, 1992). Ratzinger diz que a reforma litúrgica foi uma devastação, sustentando assim a tese do autor que diz que a reforma litúrgica de Paulo foi mais radical que a de Lutero.

Como se vê, é muito dificultoso, para não dizer impossível, pretender que o VII não ofereça nenhum problema de interpretação dos seus documentos ou simplesmente pretender que todos seus ensinamentos estão na linha da tradição. Há, sim, uma ruptura, que é urgente sanar. Como fazê-lo? Roma tem sabedoria milenar e a assistência do Espírito Santo para encontrar a forma adequada. Confiando ao Instituto do Bom Pastor a missão de fazer uma crítica construtiva ao VII, a Santa Sé admite a existência do problema e dá um passo importante na busca de um remédio. No momento, basta verificar que o VII é um concílio atípico.

Ademais, todo o espírito pós-conciliar é completamente oposto ao espírito de Pio XII. João Paulo II, por ocasião do Jubileu do Ano 2000, promoveu aquele infeliz e controvertido pedido de perdão por supostos pecados cometidos pelos filhos da Igreja que lhe teriam desfigurado o rosto.[4] Denegriu assim a história da Igreja. Consta que o cardeal Ratzinger foi contra esse pedido de perdão. Pio XII, ao contrário, lamentava: “Ouço em torno de mim inovadores que querem desmantelar a Sagrada Capela, destruir a flâmula universal da Igreja, rejeitar seus ornamentos, dar-lhe remorsos de seu passado histórico. Eu, meu caro amigo, tenho a convicção de que a Igreja de Pedro deve assumir seu passado ou ela cavará a sua sepultura.”[5]

Cardeal discutem no Concilio.

Pio XII, como bem o reconheceu o papa Bento XVI, foi, sem dúvida, um grande papa. Governou a Igreja em período de grande turbulência, não só durante a segunda guerra mundial, mas arrostou os desafios do pós-guerra, quando no mundo ocidental começava a acentuar-se a tendência laicista da sociedade contemporânea, de uma democracia atéia universal. Não cedeu um milímetro em matéria doutrinal, não negou um artigo do direito público eclesiástico. As várias concordatas assinadas pela Santa Sé em seu tempo são provas históricas da sua fidelidade.[6] Além disso, salvou a Itália da ameaça comunista em 1946. Até hoje os católicos italianos recordam com grande veneração o trabalho de mobilização, verdadeira cruzada, contra o comunismo, encetada por Pio XII.

Seria uma bênção para toda a Igreja a elevação de Pio XII à honra dos altares. Eu mesmo, segundo testemunho de minha mãe, fui salvo quando bebê por sua intercessão. Uma asma fortíssima e renitente me deixou à beira da morte e minha mãe invocou o papa Eugênio Pacelli. Desde pequeno o cultuo privadamente como um santo. Não é justo dizer que ele está para o VII assim como, por exemplo, um São Leão Magno, um São Gregório Magno, um São Bernardo de Claraval, um Santo Tomás de Aquino estão para Trento ou para o Vaticano I.


[1] Apud Spadafora, Francesco, La tradizione contro il Concilio, Roma, 1989.

[2] Aos interessados em aprofundar o tema recomenda-se a leitura de De Lamennais a Maritain, de Julio Meinvielle, Buenos Aires, 1945; Getsemani, Cardinale Giusppe Siri, Roma, 1987. Para uma leitura propedêutica, O humanismo integral de Jacques Maritain, disponível em www.santamariadasvitorias.com.br. Cf. Documentos.

[3] O cardeal Albert Vanhoye, ex-secretário da Pontifícia Comissão Bíblica, em entrevista à revista 30 Dias, confirmou a novidade exegética. (Cf. ano XXVI, n.6/7 -2008).

[4] Cf. João Paulo II, Carta Apostólica, Tertio Millennio Adveniente, § 35.

[5] Mgr. Roche, Pie XII devant l’histoire, p. 52-53.

[6] A propósito, recordo um interessante artigo do jornalista Fernando Pedreira, um verdadeiro trabalho de filosofia da cultura, em que o articulista de formação liberal dizia que o grande derrotada da Segunda Grande Guerra Mundial não foi o nazifascismo mas a Europa tradicional representada por Pio XII, pela Espanha de Franco e o Portugal de Salazar.

24 novembro, 2008

Pio XII e os problemas modernos (VI): A mulher moderna.

O caráter da vida da mulher e a iniciação da cultura feminina eram inspirados, conforme a mais antiga tradição, pelo seu instinto natural que lhe atribuía como reino próprio de atividade a família, a não ser no caso de, por amor de Cristo, preferir a virgindade. Retirada da vida pública e à margem das profissões públicas, a jovem, como flor que cresce guardada e reservada, estava destinada por sua vocação a ser esposa e mãe. Junto da mãe aprendia os labores femininos, os cuidados e negócios da casa e tomava parte na vigilância dos irmãos e irmãs menores, desenvolvendo assim as forças, o engenho, e instruindo-se na arte e no governo do lar. […] Hoje, pelo contrário, a antiga figura feminina está em rápida transformação. Podeis ver que a mulher, e, sobretudo a jovem, sai de seu retiro e entra em quase todas as profissões, até aqui exclusivo campo de ação e vida do homem. [1]

Pio XII

Digamos imediatamente que para Nós o problema feminino, tanto em seu complexo, como em cada um de seus múltiplos aspectos particulares, consiste todo na conservação e no incremento da dignidade que a mulher recebeu de Deus. […] Em que consiste, portanto esta dignidade que a mulher tem de Deus?

Em sua dignidade de filhos de Deus, o homem e a mulher são absolutamente iguais, como também a respeito do fim último da vida humana, que é a eterna união com Deus na felicidade do céu. É glória imortal da Igreja ter colocado em luz e em honra esta verdade e haver livrado a mulher de uma degradante servidão contrária à natureza. Mas o homem e a mulher não podem manter e aperfeiçoar esta sua igual dignidade, senão respeitando e colocando em ato as qualidades particulares, que a natureza lhes concedeu a um e a outra, qualidades físicas e espirituais indestrutíveis, das quais não é possível mudar a ordem sem que a própria natureza sempre novamente a restabeleça. […] Ainda mais. Os dois sexos, por sua própria qualidade particular, são ordenados um para o outro de tal modo que esta mútua coordenação exercita seu influxo em todas as múltiplas manifestações da vida humana social.

[…]

Em um como em outro estado [matrimônio ou vida religiosa] o dever da mulher aparece nitidamente traçado pelos lineamentos, pelas atitudes, pelas faculdades peculiares ao seu sexo. Colabora com o homem, mas no modo que lhe é próprio, segundo sua natural tendência. Ora, o ofício da mulher, sua maneira, sua inclinação inata, é a maternidade. Toda mulher é destinada a ser mãe; mãe no sentido físico da palavra, ou em um significado mais espiritual e elevado, mas não menos real.

Reação à morte do Papa Pio - New York, 1958.

Que desde muito tempo os acontecimentos públicos tenham-se desenvolvido de modo não favorável ao bem real da família e da mulher é um fato inegável. E para a mulher, voltam-se vários movimentos políticos, para ganhá-la à sua causa. Alguns sistemas totalitários colocam diante de seus olhos magníficas promessas; igualdade de direitos com os homens, proteção das gestantes e das parturientes, cozinha e outros serviços públicos comuns que libertarão do peso das obrigações domésticas. […] Permanece, porém, o ponto essencial da questão, a que já acenamos: a condição da mulher com isto se tornou melhor? A igualdade de direitos com o homem, trazendo o abandono da casa onde ela era Rainha, sujeita a mulher ao mesmo peso e tempo de trabalho. Desprestigiou-se a sua verdadeira dignidade e o sólido fundamento de todos seus direitos, quer dizer, perdeu-se de vista o fim desejado pelo Criador para o bem da sociedade humana e sobretudo pela família. Nas concessões feitas à mulher é fácil de perceber, mais que o respeito de sua dignidade e de sua missão, a mira de promover a potência econômica e militar do Estado totalitário, do qual tudo deve inexoravelmente ser subordinado.

[…]

Observemos a realidade das coisas.

Eis a mulher que, para aumentar o salário do marido, vai ela também trabalhar na fábrica, deixando durante sua ausência a casa no abandono, e esta, talvez já suja e pequena, torna-se também mais miserável pela falta de cuidado; os membros da família trabalham cada um separadamente, nos quatro ângulos da cidade e em horas diversas: quase nunca se encontram juntos, nem para o jantar, nem para o repouso depois das fadigas do dia, ainda menos para as orações em comum. Que permanece da vida de família? E quais atrativos que podem ser oferecidos aos filhos?

A estas penosas conseqüências da falta da mulher e da mãe no lar, ajunta-se outra ainda mais deplorável: ela diz respeito à educação, sobretudo da jovem e sua preparação para a vida real. Habituada a ver a mãe sempre fora de casa e a própria casa tão triste no seu abandono, ela será incapaz de encontrar aí qualquer fascínio, não provará o mínimo gosto pelas austeras ocupações domesticas, não saberá compreender a nobreza e a beleza das mesmas, nem desejará um dia dedicar-se a isso, como esposa e mãe.

Senhoras rezam pela alma do Papa Pio XII.

Isto é real em todos os graus sociais, em todas as condições de vida. A filha da mulher mundana, que vê todo governo da casa deixado nas mãos de pessoas estranhas e a mãe ocupada em ocupações frívolas, em fúteis divertimentos, seguirá seu exemplo, quererá emancipar-se o quanto antes, e segundo uma bem triste expressão, “viver a sua vida”. Como poderia ela conceber o desejo de se tornar um dia uma verdadeira “domina”, isto é, uma senhora da casa em uma família feliz, próspera e digna? Quanto às classes trabalhadoras, obrigadas a ganhar o pão cotidiano, a mulher, se bem refletisse, compreenderia talvez como não poucas vezes o suplemento de ganho, que ela obtém trabalhando fora de casa, é facilmente devorado pelas despesas ou também pelos desperdícios ruinosos para a economia familiar. A filha, que vai também ela trabalhar em uma fábrica, em uma empresa ou em um escritório, perturbada pelo mundo agitado em meio ao qual vive, cegada pelo ouropel do falso luxo, desejosa de tristes prazeres, que distraem mas não saciam nem repousam, naquelas salas de “revistas” ou de danças, que pululam em todo lugar, muitas vezes com intentos de propaganda de parte e corrompem a juventude, tornando-se “mulher de classe”, desprezadora das velhas normas “oitocentescas” de vida, como poderia ela não encontrar a modesta moradia doméstica inóspita e mais tetra daquilo que na realidade é? Para torná-la agradável, para desejar estabelecer um dia a dela própria, deveria saber compensar a impressão natural com a seriedade da vida intelectual e moral, com o vigor da educação religiosa e do ideal sobrenatural. Mas qual formação religiosa recebeu ela em tais condições?

E não é tudo. Quando, com o transcorrer dos anos, sua mãe, envelhecida pelo tempo, enfraquecida e desgastada pelas fadigas superiores às suas forças, pelas lágrimas, pelas angústias, a verá voltar à casa à tarde, em horas talvez bem avançadas, longe de ter nela um auxílio, um sustentáculo, deverá ela mesma cumprir junto da filha incapaz e não habituada às obras femininas e domésticas, todas as obrigações de uma serva. Nem mais feliz será a sorte do pai, quando a idade avançada, as doenças, os achaques, as desocupações obrigarão a depender para seu mesquinho sustento da boa ou má vontade dos filhos. A augusta, a santa autoridade do pai e da mãe, ei-las descoroadas de sua majestade. Diante das teorias e dos métodos que, por diferentes caminhos, arrancam a mulher de sua missão, e com a lisonja de uma emancipação desenfreada, ou na realidade de uma miséria sem esperança, nós ouvimos o grito de apreensão que invoca, o mais possível, sua presença ativa no lar. […] A sorte da família, a sorte da convivência humana, estão em jogo; estão em vossas mãos, “tua res agitur!”. Toda mulher, portanto, sem exceção, tem o dever, o estrito dever de consciência, de não permanecer ausente, de entrar em ação (nas formas e nos modos condizentes às condições de cada qual), para conter toda a corrente que ameaça o lar, para combater as doutrinas que lhe corroem os fundamentos, para preparar, organizar e cumprir sua restauração.

Fiéis rezam pela alma do Papa Pio XII

[…] Ela tem de concorrer com o homem para o bem da civilização, na qual está em dignidade igual a ele. Cada um dos dois sexos tem o dever de tomar a parte que lhe cabe segundo sua natureza, seus caracteres, suas atitudes físicas, intelectuais e morais. Ambos os sexos tem o dever e o direito de cooperar para o bem total da sociedade, da pátria, mas está claro que, se o homem é por temperamento mais levado a tratar dos negócios externos, os negócios públicos, a mulher tem, geralmente falando, maior perspicácia, tato mais fino para conhecer e resolver os problemas delicados da vida doméstica e familiar, base de toda a vida social, o que não tolhe que algumas saibam realmente dar demonstração de grande perícia também no campo da atividade pública. [2]

[1] Discurso à Juventude Feminina de Ação Católica, 24 de abril de 1943.

[2] Discurso às mulheres de Ação Católica, 21 de outubro de 1945.

23 outubro, 2008

Entraves no relacionamento entre Santa Sé e Israel.

Nota: A mera publicação da notícia não significa adesão a todas as idéias nela expostas.

A decisão do Papa Bento XVI de cancelar uma viagem a Israel lança nova luz numa crescente controvérsia sobre se o finado o Papa Pio XII deve ser beatificado. O atual Papa expressou apoio à beatificação, mas colocou esse plano em espera, já que o Papa Pio encontra-se sob pesadas críticas por fazer muito pouco para salvar Judeus durante a segunda guerra mundial.

Uma diretíssima acusação contra o Papa Pio e sua falha em socorrer os Judeus é encontrada no museu israelense Yad Vashem, que recorda o Holocausto. O Vaticano expressou seu descontentamento sobre uma exposição particular no museu, e um oficial papal diz que isso está ligado ao cancelamento da viagem. Outro oficial do Vaticano diz que o problema é mais complicado que um título numa parede de museu. Israel, que notou o ‘papel histórico controverso’ do Papa Pio, encorajou o Papa Bento a fazer a visita, apesar da controvérsia.

Emoções correm profundamente em ambos os lados do assunto. O Papa Bento sustentou que o Papa Pio ajudou os Judeus em face das ameaças Nazistas e Fascistas num “modo discreto e silencioso”, a fim de evitar tornar a situação deles pior. O Papa Pio tem outros defensores também. Como reportou o The Times:

Paolo Mieli, o historiador e editor de Corriere della Sera, que é Judeu, também defendeu Pio XII como um ‘grande Papa’ numa entrevista ao jornal do Vaticano L’Osservatore Romano. Ele disse que pessoas vêm procurando evidências de que Pio foi culpado por se manter calado durante o Holocausto desde 1960 e nada veio à tona”.

Ainda La Repubblica, um jornal Italiano, noticiou no fim de semana que uma nova evidência vinda de arquivos Britânicos e Americanos apóia as críticas Israelenses ao Papa Pio. Jornais Italianos também trouxeram importantes entrevistas com o antigo chefe da comunidade Judia Italiana, que declara que beatificar o antigo Papa seria “abrir uma ferida que seria difícil curar”.

A poeira não dá sinais que abaixará logo e ameaça desatar as ligações estreitas entre o Vaticano e os Judeus, que o predecessor do atual Papa, João Paulo II, estimulou durante seu reino. Mas o Papa Bento não é alheio a controvérsias, tendo magoado Muçulmanos há poucos anos, quando citou uma polêmica passagem sobre Muhammad. Deveria o corrente golpe demovê-lo de viajar a Israel, para não mencionar a aspiração de beatificar o Papa Pio?

23 outubro, 2008

Pio XII e os problemas modernos (V): Os fins do matrimônio.

Os “valores da pessoa” e a necessidade de respeitá-los é um tema que desde dois decênios ocupa sempre mais os escritores. Em muitas de suas elucubrações também o ato especificamente sexual tem seu lugar assinalado para fazê-lo servir à pessoa dos cônjuges. O sentido próprio e mais profundo do exercício do direito conjugal deveria consistir nisto: que a união dos corpos fosse expressão e atuação da união pessoal e afetiva.

Artigos, capítulos, livros inteiros, conferências, especialmente sobre a “técnica do amor”, difundem estas idéias e as ilustram com advertência aos jovens esposos como guia no matrimônio, para que eles não descurem, por estultice ou pudor mal entendido ou por infundado escrúpulo, aquilo que Deus, criador também das inclinações naturais, lhes oferece. Se deste completo dom recíproco dos cônjuges surge uma vida nova, ela é um resultado que fica fora ou ao máximo à periferia dos “valores da pessoa”, resultado que não se nega, mas não se quer que esteja no centro das relações conjugais.

Ora, se esta apreciação relativa não fizesse senão acentuar o valor da pessoa dos esposos, mais do que o valor da prole, poder-se-ia a rigor deixar de parte tal problema; mas aqui se trata pelo contrário de uma grave inversão da ordem dos valores e dos fins colocados pelo próprio Criador. Encontramo-nos diante da propagação de um complexo de idéias e de afetos, diretamente opostos à clareza, à profundidade e à seriedade do pensamento cristão.

Ora, a verdade é que o matrimônio, como instituição natural, em virtude da vontade do Criador, não tem como fim primário e íntimo o aperfeiçoamento pessoal dos esposos, mas a procriação e a educação da nova vida. Outros fins, embora também esses visados pela natureza, não se encontram no mesmo grau do primeiro, e de modo algum lhe são superiores, mas, pelo contrário, são essencialmente subordinados ao mesmo. Isto vale para cada matrimônio, ainda que infecundo; como de cada olho podemos dizer que foi destinado e formado para ver, ainda que em casos anormais, por especiais condições internas e externas, não é mais apto para a percepção visual.

[…] Para corrigir as opiniões contrastantes, a Santa Sé com um Decreto público pronunciou não se poder admitir a sentença de alguns autores recentes, os quais negam que o fim primário do matrimônio seja a procriação e a educação da prole, ou ensinam que os fins secundários não são essencialmente subordinados ao fim primário, mas equivalentes e dele independentes.

Pio XII, Discurso aos Esposos – 29 de outubro de 1951

9 outubro, 2008

Missa do Papa pelo 50º aniversário de morte de Pio XII

O Santo Padre, o Papa Bento XVI, celebrou hoje uma Capela Papal em memória do 50º aniversário de morte de Pio XII. E nela se nota outros esforços para enfatizar a ‘continuidade’ na liturgia: como grande novidade, a instalação de um novo ambão/púlpito na Basílica de São Pedro. Além do uso dos paramentos romanos, que já ele havia usado na última Sexta-feira Santa, e da já comum distribuição da comunhão aos fiéis ajoelhados.

Imagens cedidas por The New Liturgical Movement.

Atualização, 10 de outubro de 2008, às 11:39: Novas imagens da Agência Petrus acrescentadas à galeria.

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9 outubro, 2008

A morte de Pio XII

Numa entrevista concedida ao L’Osservatore Romano de 27 de agosto deste ano [leia a íntegra veiculada por Sandro Magister], o diretor das Vilas Pontifícias de Castelgandolfo, Saverio Petrillo, descreve a morte do Papa Pacelli há exatos cinqüenta anos:

Entrei pela primeira vez nas Vilas Pontifícias exatamente há 50 anos. Era o mês de junho de 1958. Devo dizer que o início não foi dos melhores. Em 9 de outubro morreu Pio XII. Foi um evento que me entristeceu muitíssimo e que todavia tenho gravado na memória. Antes de entrar neste ambiente, pensava que o Papa estava sempre rodeado de um seleto grupo de pessoas, pronto a responder a cada um de seus desejos. Quando entendi que Pio XII estava morrendo, me dei conta do quanto estava — pelo contrário — sozinho. Não havia nada. Também porque não estava o Secretário de Estado e faltava o Camerlengo, que logo foi imediatamente eleito pelos cardeais durante a vacância da sede. Com estupor vi que os restos mortais daquele grande pontífice eram tratados de modo superficial. O médico do Papa, Riccardo Galeazzi Lisi, fez um tipo de embalsamento usando apenas algumas pomadas. O corpo foi provisioriamente colocado na Sala dos Suíços. Só no dia seguinte, antes da exposição ao público, foi revestido com as roupas pontíficias. Me senti mal. Me consolou a grande corrente constante de pessoas que desde o dia da exposição do corpo desfilou frente à esquife. Recordo uma manifestação popular esplêndida. Muitíssimos regressavam pela segunda vez a este palácio. Como se sabe, Pio XII abriu as portas das Vilas para dar refúgio a quantos tratavam de escapar do cerco alemão no dias do desembarque dos aliados em Anzio. Estavam também muitas das mães às quais o Papa havia cedido seu próprio dormitório porque estavam grávidas. Naquele quarto nasceram cinqüenta crianças. Muitíssimos, hoje homens adultos, se chamam exatamente como ele, Eugênio ou Pio. Com dois deles, gêmeos, há uma graciosa anedota. A mulher que se encarregou deles apenas recém nascidos inadivertidamente retirou os braceletes que estavam com os nomes dados a cada um durante o batismo. Portanto, se fez impossível distingüí-los. Foi a mãe que em certo sentido os rebatizou, já que estabeleceu autonomamente quem se chamaria Eugênio e quem Pio.

Mais fotos dos funerais de Pio XII aqui.

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3 outubro, 2008

Traçar um caminho, um ‘caminhozinho’.

3 de outubro – Festa de Santa Teresinha do Menino Jesus

Há um terceiro templo, uma terceira casa de Deus entre os homens que, certamente, não nos cabe dedicar ou consagrar a Deus, já que Ele mesmo o fez, mas exaltar e glorificar no dia de hoje. Essa casa de Deus é a alma de vossa encantadora Santa Teresa do Menino Jesus. Por humilde que fosse, por pequenina que desejasse ser, a alma da Santa Teresa foi um imenso e magnífico templo.

[…] Deus hoje habita em seus templos, dizíamos há pouco, não como naqueles em que outrora repousavam insensíveis e inertes as tábuas da lei antiga – mas pelos ministros do seu poder, pelos mandatários de sua jurisdição que em nossas igrejas promulgam sua Lei e sancionam sua observância. Assim essa lei divina aí permanece viva e atuante guiando as almas no caminho da retidão e da pureza fora dos quais a natureza fraca e corrompida não  conhece senão descaminhos e vergonhas.

A Lei de Deus assim foi, viva e ativa, na alma de Teresa. Como a outra Virgem, de quem nos falam os Atos “que trazia sempre no peito o Evangelho do Senhor” Teresa trazia sempre presente em sua alma e seu coração, a Lei e os conselhos divinos de seu bem amado Jesus Cristo.

[…] Traçar um caminho, um “caminhozinho”. Sua ciência das coisas divinas, em parte adquirida, em parte infusa, ela não a guardou para si. Disse: “Minha missão é de ensinar a amar a Deus como eu O amo e de entregar meu ‘caminhozinho’ às almas”. É este um dos mais maravilhosos ângulos dessa figura tão atraente: a carmelitazinha, que do fundo do seu convento dá lições ao mundo do nosso século tão orgulhoso de sua ciência. Ela tem uma missão; tem uma doutrina. Mas sua doutrina, como ela mesma, é humilde e simples; resume-se em duas palavras: “Infância espiritual” ou em sua equivalente: “Caminhozinho”.

Cardeal Eugênio Pacelli, discurso de 11 de julho de 1937, por ocasião da Consagração da Basílica dedicada a Santa Teresinha, no 11º Congresso Eucarístico Nacional da França.

3 outubro, 2008

Pio XII e os problemas modernos (IV): A moda.

Mesmo seguindo a moda, a virtude está no meio. Aquilo que Deus pede é recordar sempre que a moda não é, nem pode ser, a regra suprema de conduta; que acima da moda e de suas exigências existem leis mais altas e imperiosas, princípios superiores e imutáveis, que em nenhum caso podem ser sacrificados ao talante do prazer ou do capricho, e diante dos quais o ídolo da moda deve saber inclinar a sua fugaz onipotência. Estes princípios foram proclamados por Deus, pela Igreja, pelos santos e pelas santas, pela razão e pela moral cristãs, assinalados limites, além dos quais não florescem lírios e rosas, nem pairam nuvens de perfume da pureza, da modéstia, do decoro e da honra feminina, mas aspira-se e domina um ar malsão de leviandade, de linguagem dúbia, de vaidade audaz, de vanglória, não menos de espírito que de traje. São aqueles princípios que Santo Tomás mostra para ornamento feminino e recorda, quando ensina qual deve ser a ordem de nossa caridade, de nossas afeições: o bem da própria alma deve preceder o do nosso corpo, e à vantagem de nosso próprio corpo devemos preferir o bem da alma de nosso próximo. Não se vê portanto que há um limite que nenhuma idealizadora de modas pode fazer ultrapassar, a saber, aquele além do qual a moda se torna mãe de ruína para a alma própria e dos outros?

Alguns jovens dirão talvez que uma determinada forma de vestido é mais cômoda, e também mais higiênica; mas, se constitui para a saúde da alma um perigo grave e próximo, não é certamente higiênica para o espírito: tem-se o dever de renunciar. A salvação da alma fez heroínas as mártires como Inês e Cecília, em meio dos tormentos e lacerações de seus corpos virginais.

Se por um simples prazer próprio, não se tem o direito de colocar em perigo a saúde física dos outros, não é talvez ainda menos lícito comprometer a saúde, até a própria vida de suas almas? Se, como pretendem alguns, uma moda audaz não faz sobre elas impressão alguma, que sabem da impressão que os outros vão ter? Quem lhes assegura que os outros não tenha disto um incentivo mau? Não se conhece o fundo da fragilidade humana, nem de que sangue de corrupção sangram as feridas deixadas na natureza humana pela culpa de Adão com a ignorância no intelecto, com a malícia na vontade, com a ânsia do prazer e a debilidade para o bem, árduo nas paixões dos sentidos a tal ponto que o homem, como cera amoldável ao mal, ‘vê o melhor e o aprova, e ao pior se apega’, por causa daquele peso que sempre, como chumbo, o arrasta para o fundo. Sobre isso justamente se observou que, se algumas cristãs suspeitassem as tentações e quedas que causam em outros com vestes e familiaridade a que, em suas leviandades, dão tão pouca importância, teriam pavor de suas responsabilidades. Ao que Nós não duvidamos de acrescentar: ó mães cristãs, se soubésseis que futuro de perigos e íntimos desgostos, de dúvidas e irreprimível rubor preparais para vossas filhas e filhos, com imprudência em acostumá-los a viver apenas cobertos, fazendo deles desaparecer o sentido ingênuo da modéstia, vós mesmas enrubesceríeis, e vos horrorizaríeis pela vergonha que causareis a vós mesmas e o dano que ocasionareis aos filhos que vos foram confiados pelo céu, para que crescessem cristãmente. E aquilo que dizemos para as mães, repetimo-lo a não poucas senhoras crentes, e mesmo piedosas, que aceitam seguir esta ou aquela moda arrojada, e com o seu exemplo, fazem cair as últimas hesitações que retêm uma turba de suas irmãs que estão longe daquela moda, a qual poderá tornar-se para elas fonte de ruína espiritual. Até certos provocadores ornamentos permanecem triste privilégio de mulheres de reputação duvidosa e quase sinal que as faz reconhecer; não se ousará, pois, usá-lo para si; mas no dia em que aparecerem como ornamentos de pessoas superiores a qualquer suspeitas, não se duvidará mais de seguir tal corrente, corrente que arrastará talvez para dolorosas quedas.

Pio XII, Discurso às Delegações de Juventude Feminina da Ação Católica, 22 de maio de 1941.

20 setembro, 2008

Pio XII e os problemas modernos (III): “Nos tempos em que é odiado pelo mundo, o cristianismo não é questão de palavras persuasivas, mas algo grandioso”.

No princípio da história da Igreja, durante o Império de Trajano, Santo Inácio de Antioquia escreveu um pensamento que fascina até os espíritos modernos, como a descoberta de um tesouro de experiência, duas vezes milenar: “Nos tempos em que é odiado pelo mundo, o cristianismo não é questão de palavras persuasivas, mas algo grandioso”.

Verdadeiramente, na crise religiosa de nosso tempo – a mais grave, talvez, que a humanidade atravessou desde a origem do cristianismo –, a racional e científica exposição das verdades da fé, embora possa ser eficaz e em realidade o seja, por si só não basta. E nem mesmo bastaria, o exemplo, infelizmente muito escasso, de uma vida cristã realizada por convenções habituais. Hoje é necessária a grandeza de um cristianismo vivido em sua plenitude, com uma perseverante constância; exige-se o esquadrão valoroso e ousado daqueles que – homens e mulheres – vivendo no meio do mundo, estão a todo momento prontos para combater por sua fé, pela lei de Deus, por Cristo, com os olhos fixos nele como modelo a ser imitado, como Chefe a ser seguido nas lides apostólicas.

Mesmo recentemente, foi dado ao cristianismo o conselho – se quer ainda conservar alguma importância, se quer superar o ponto morto –, de adaptar-se à vida e ao pensamento moderno, às descobertas científicas e às extraordinárias potências da técnica diante das quais suas fórmulas históricas e seus velhos dogmas não seriam senão luzes do passado, quase extintas.

Que erro! E como ele mesmo descobre a ilusão vaidosa de espíritos superficiais! Parecem querer fazer com que a Igreja entre em um leito de Procusto, nos estreitos limites das organizações puramente humanas. […] O pensamento e a vida moderna devem, entretanto, ser reconduzidos a Cristo, e reconquistados para Ele. Cristo, sua verdade, sua graça, não são menos necessários à humanidade de nosso tempo do que à de ontem e de anteontem, de todos os séculos passados e futuros. Tal é a única fonte de salvação.

Pio XII, Alocução ao Sacro Colégio, 24 de dezembro de 1953.