“Plácet” ou “Non plácet”? A aposta de Carmen e Kiko.

Os fundadores do Caminho Neocatecumenal esperam obter a aprovação vaticana definitiva de seu modo “convival” de celebrar as missas. O documento está pronto, mas poderia ser modificado ou bloqueado in extremis. O veredito em 20 de janeiro.

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com

Acordar, tomar café, fazer uma caminhada e... dar uma palavrinha com o Papa. Eis o protocolo dos líderes do Caminho Neocatecumenal: Bento XVI recebe, respectivamente, “Kiko” Argüello, Carmen Hernández e Pe. Mario Pezzi, em 13 de novembro passado, para receber informações sobre a próxima Jornada Mundial da Juventude. Fonte: Santa Iglesia Militante.
Acordar, tomar café, fazer uma caminhada e... dar uma palavrinha com o Papa. Eis o protocolo dos líderes do Caminho Neocatecumenal: Bento XVI recebe, respectivamente, “Kiko” Argüello, Carmen Hernández e Pe. Mario Pezzi, em 13 de novembro de 2010. Fonte: Santa Iglesia Militante.

Roma, 13 de janeiro de 2012 –  Como em outras vezes nos anos passados, também neste mês de janeiro, na sexta-feira, 20, Bento XVI encontrará no Vaticano, na sala de audiências, milhares de membros do Caminho Neocatecumenal, com seus fundadores e líderes, os espanhóis Francisco “Kiko” Argüello e Carmen Hernández.

Há um ano, na audiência de 17 de janeiro de 2011, o Papa comunicou à entusiasmada platéia que os treze volumes do catecismo em uso em suas comunidades haviam recebido a tão esperada aprovação, após um longo exame iniciado em 1997 pela Congregação para a Doutrina da Fé e após a introdução de numerosas correções, com quase 2000 citações de passagens paralelas do catecismo oficial da Igreja Católica.

No próximo 20 de janeiro, por sua vez, os líderes e os membros do Caminho esperam das autoridades supremas da Igreja um “plácet” ainda mais ardentemente desejado. A aprovação oficial e definitiva do que para eles é o elemento característico distintivo mais visível, e também o mais controverso: o modo como celebram as missas.

Os quatro elementos

As missas das comunidades neocatecumenais se distinguem desde sempre por, ao menos, quatro elementos.

1. São celebradas em grupos reduzidos que correspondem aos distintos estágios de avanço no itinerário catequético. Se em uma paróquia, por exemplo, há doze comunidades neocatecumenais, cada uma em um estágio distinto, outras tantas serão as missas, celebradas em locais separados, mais ou menos no mesmo horário, preferivelmente no sábado pela noite.

2. O ambiente e a decoração seguem a imagem de um banquete: uma mesa com os comensais sentados ao redor. Também quando os neocatecumenais celebram a missa em uma igreja, e não em uma sala paroquial, ignoram o altar. Colocam uma mesa no centro e se sentam em torno dela em círculo.

30 de dezembro de 1988: João Paulo II celebrada com o Neocatecumenato.
30 de dezembro de 1988: João Paulo II celebra com o Neocatecumenato.

3. Cada uma das leituras bíblicas da missa é precedida por uma extensa “monição” por parte de um ou outro dos catequistas que guiam a comunidade e são seguidas, especialmente após o Evangelho, pelas “ressonâncias”, isto é, por reflexões pessoais de um grande número dos presentes. A homilia do sacerdote se acrescenta às “ressonâncias, sem se distinguir delas.

4. Também a comunhão se realiza reproduzindo a forma do banquete. O pão consagrado – um grande pão ázimo de farinha de trigo, dois terços branca e um terço integral, preparado e cozido durante um quarto de hora, segundo as minuciosas regras estabelecidas por Kiko – é repartido e distribuído aos presentes, que permanecem em seus lugares. Uma vez acabada a distribuição, todos o comem simultaneamente, inclusive o sacerdote. Após, passa-se de um a um o cálice do vinho consagrado, do qual cada um dos presentes bebe.

Há outras particularidades, mas bastam estas quatro para entender quanta diversidade de forma e de substância há entre as missas dos neocatecumenais e as celebradas segundo as regras litúrgicas gerais. Uma diversidade certamente mais acentuada da que há entre as missas no romano antigo e no rito moderno.

As autoridades vaticanas tentaram várias vezes reconduzir os neocatecumenais a uma maior fidelidade à “lex orandi” em vigor na Igreja Católica. Mas com pulso débil e resultados quase nulos.

O chamado mais forte se deu com a promulgação dos estatutos definitivos do Caminho, aprovados em 2008.

Madri, Jornada Mundial da Juventude de 2011: Bispos brasileiros participam jubilosos de evento do Caminho Neocatecumenal.
Madri, Jornada Mundial da Juventude de 2011: Bispos brasileiros participam jubilosos de evento do Caminho Neocatecumenal.

Neles, no artigo 13, as autoridades vaticanas estabeleceram que as missas das comunidades devem estar “abertas também a outros fiéis”; que a comunhão deve ser recebida “de pé”; que para as leituras bíblicas são permitidas, além da homilia, apenas “breve monições” introdutórias.

Não há sinais das “ressonâncias” (admitidas nos estatutos precedentes, provisórios, de 2002) neste mesmo artigo 13, dedicado à celebração da missa. Fala-se disso apenas no artigo 11, que se refere, no entanto, às celebrações da Palavra durante a semana, que cada comunidade realiza com seus próprios catequistas.

É fato: o modo como hoje os neocatecumenais celebram a missa mudou muito pouco em relação ao modo como celebravam há alguns anos, quando, ademais, passavam de mão em mão, festivos, os copos com o vinho consagrado.

Somente na teoria suas missas de grupo foram abertas também a outros fiéis.

Sentados ou de pé, seu modo convivial de fazer a comunhão é sempre o mesmo.

As “ressonâncias” pessoais dos presentes continuam invandindo e prevalecendo na primeira parte da missa.

E não é só. Da audiência com Bento XVI do próximo dia 20 de janeiro, Kiko, Carmen e seus seguidores esperam sair com uma aprovação explícita de tudo isso.

Uma aprovação com todos as bençãos da oficialidade. Promulgada pela congregação vaticana para o Culto Divino.

Ratzingeriano e antipapa.

Com um Francis Arinze como cardeal prefeito da congregação e, sobretudo, com um Malcolm Ranjith como seu secretário – como era até há poucos anos – uma aprovação semelhante teria sido impensável.

O Cardeal Arinze, atualmente aposentado, foi protagonista, em 2006, de um choque memorável com os chefes do Caminho, quando lhes ordenou, por uma carta, uma série de correções, às quais eles insolentemente desobedeceram.

Quanto a Ranjith – hoje de volta à sua pátria, Sri Lanka, como arcebispo de Colombo –, é difícil encontrar, entre os cardeais, um mais aguerrido que ele na defesa da fidelidade à tradição litúrgica. No campo da liturgia, o Cardeal Ranjith tem fama de ser mais ratzingeriano que o próprio Joseph Ratzinger, seu mestre.

Hoje, à frente da congregação para o Culto Divino está outro cardeal que se passa também por um ratzingeriano de ferro, o espanhol Antonio Cañizares Llovera.

Mas, a julgar pelo documento que estaria pronto para o próximo 20 de janeiro, não seria próprio dizê-lo.

De fato, dar via livre, por sua parte, à “criatividade” litúrgica dos neocatecumenais não seria outra coisa senão arruinar a sábia e paciente obra de reconstrução da liturgia católica que o Papa Bento está realizando há anos, com uma valentia que é igual à grande solidão que o cerca.

E forneceria um argumento a mais às acusações dos tradicionalistas, para não falar dos lefebvrianos.

Entre a astúcia e a indulgência

30 de dezembro de 1988: João Paulo II celebra com o Neocatecumenato.
30 de dezembro de 1988: João Paulo II celebra com o Neocatecumenato.

Existe uma astúcia que os neocatecumenais adotam quando Papas, bispos e cardeais participam de suas missas: a de se ater às regras litúrgicas gerais.

O Cardeal Cañizares não é o único que caiu na armadilha. O que o fez acreditar que as intemperanças litúrgicas do Caminho, embora existam, seriam mínimas e perdoáveis, se comparadas ao fervor de fé de seus participantes.

Como ele, muitos cardeais e bispos tiveram os neocatecumenais em consideração, especialmente na Espanha. Na cúria vaticana, gozam de um forte apoio do prefeito da “Propaganda Fide”, Fernando Filoni, anteriormente substituto da Secretaria de Estado.

Assim, enquanto as autoridades vaticanas são inflexíveis com os outros movimentos católicos, exigindo o respeito das normas litúrgicas, são mais indulgentes com os neocatecumenais. Por exemplo, tolera-se que suas missas sejam inundadas de “ressonâncias” e, em troca, a poderosa comunidade de Santo Egídio foi obrigada, há anos, a que a homilia fosse proferida exclusivamente pelo sacerdote e não, como ocorria antes, por seu fundador, Andrea Riccardi, ou outros líderes leigos da comunidade.

Esta difundida indulgência em relação às licenças litúrgicas dos neocatecumenais tem uma explicação que se remonta aos primeiros tempos dos movimento, e é útil recordá-la.

“Lutero tinha razão”

No campo litúrgico, mais que Kiko, é a co-fundadora Carmen Hernández quem modela o “rito” neocatecumenal.

Nos anos do Concílio Vaticano II e imediatamente após, quando ainda usava o hábito religioso das Missionárias de Cristo Jesus e estudava para obter licença em teologia, Carmen se apaixonou pela renovação da liturgia. Seus mestres e inspiradores foram, na Espanha, o liturgista Pedro Farnés Scherer, e, em Roma, Don Luigi della Torre, outro liturgista de renome, pároco da igreja da Natividade na Via Gallia, uma das primeiras comunidades romanas do movimento, e Monsenhor Annibale Bugnini, na época poderoso secretário da congregação vaticana para o Culto Divino e principal artífice da reforma litúrgica pós-conciliar.

Foi exatamente Bugnini, no início dos anos 70, quem se alegrou com a maneira com que as primeiras comunidades fundadas por Kiko e Carmen celebravam a missa. Escreveu sobre isso em “Notitiae”, a publicação oficial da congregação para o Culto Divino. E foi ele, de novo, junto com os co-fundadores, quem decidiu chamar o recém-nascido movimento de “Caminho Neocatecumenal”.

Das visitas a estes liturgistas e de uma desenvolta reelaboração de suas teses, Kiko e Carmen retiraram sua concepção pessoal da liturgia católica, que colocaram em prática nas missas de suas comunidades.

Há um livro de um sacerdote da Ligúria [ndr: noroeste da Itália], pertencente ao Caminho, Piergiovanni Devoto, que, valendo-se de textos inéditos de Kiko e Carmen, expôs em público sua bizarra concepção.

O livro, publicado em 2004 com o título “O Neocatecumenato. Uma iniciação cristã para adultos”, e com a calorosa apresentação de Paul Josef Cordes, à época presidente do pontifício conselho “Cor Unum”, hoje cardeal, foi impresso por Chirico, a editora napolitana que também publicou a única obra traduzida ao italiano de Farnés Scherer, o liturgista que foi o primeiro a inspirar Carmen.

Eis, abaixo, algumas passagens do livro, extraídas das páginas 71-77.

“No decorrer dos séculos, a eucaristia foi partida e encoberta, revestida até o ponto em que não víamos em nenhuma parte de nossa mesa a ressurreição de Jesus Cristo”…

“No século IV, com a conversão de Constantino, também o imperador, com seu séqüito, ia à igreja para celebrar a eucaristia: nascem assim as liturgias de entrada, tornadas mais solenes por cantos e salmos e, quando estes são eliminados, permanece apenas a antífona, sem o salmo, o que constitui um verdadeiro e próprio absurdo”…

“De forma análoga, aparecem as procissões do ofertório, nas quais emerge a concepção própria da religiosidade natural que tende a aplacar a divindade através de dons e oferendas”…

Celebração do Neocatecumenato.
Celebração do Neocatecumenato.

“A Igreja tolerou durante séculos formas não genuínas. O ‘Gloria’, que fazia parte da liturgia das horas recitada pelos monges, entrou na missa quando se fez, das duas ações litúrgicas, uma única celebração. O ‘Credo’ fez sua aparição quando surgiram as heresias e apostasias. Também o ‘Orate Fratres’ é um grande exemplo das orações com as quais se ornamentava a missa”…

“Com o passar dos séculos, as orações privadas são incluídas em grande quantidade na missa. Já não existe a assembléia, a missa adquiriu um tom penitencial, em nítido contraste com a exultação pascal da qual surgiu”…

“E enquanto o povo vive a privatização da missa, por parte dos doutos são elaboradas teologias racionais que, embora contendo ‘in nuce’ o essencial da Revelação, estão cobertas por hábitos filosóficos alheios a Cristo e aos apóstolos”…

“Então se entende porque surgiu Lutero, que fez tabula rasa de tudo o que ele acreditava ser acréscimo ou tradição puramente humana”…

“Lutero, que nunca duvidou da presença real de Cristo na eucaristia, rechaçou a ‘transubstanciação’ por ser vinculada ao conceito de substância aristotélico-tomista, alheio à Igreja dos apóstolos e dos Padres”…

“A rigidez e o fixismo do Concílio de Trento geraram uma mentalidade estática na liturgia que chegou até os nossos dias, disposta a se escandalizar com qualquer mudança ou transformação. Isso é um erro, pois a liturgia é Vida, uma realidade que é o Espírito vivo entre os homens. Por isso não se pode engarrafá-la”…

“Fora já de uma mentalidade legalista e fixista, assistimos, com o Concílio Vaticano II, uma profunda renovação da liturgia. Eliminou-se da eucaristia toda essa pompa que a recobria. É interessante ver que, inicialmente, a anáfora [isto é, a oração da consagração – ndr de Chiesa] não estava escrita, mas era improvisada pelo presidente”…

“A celebração da eucaristia no sábado à noite não é para facilitar o êxodo dominical, mas para ir às raízes: o dia de descanso para os hebreus começa a partir das três primeiras estrelas da sexta-feira, e as primeiras vésperas do domingo para toda a Igreja são, desde sempre, o sábado à noite”…

“Com o sábado, trata-se de entrar na festa com todo o ser, para se sentar à mesa do Grande Rei e provar já hoje o banquete da vida eterna. Depois da ceia, um pouco de festa cordial e amigável concluirá esta jornada”…

Uma pergunta

Este seria “o espírito da liturgia” – título de um livro capital de Joseph Ratzinger – que as autoridades vaticanas se preparam para validar, com a práxis que dele decorre?

Verdadeira Reforma Litúrgica – Comunhão na mão proibida.

FSSPX-Alemanha | Tradução: Fratres in Unum.com – S. Em. Cardeal Albert Malcolm Ranjith, Arcebispo de Colombo e estreito confidente do Papa, proibiu a Comunhão na mão em sua arquidiocese. Ele revogou todos os “Indultos” de seu predecessor para a comunhão na mão e ordenou a reintrodução das mesas de comunhão.

O cardeal defende a celebração da liturgia antiga dentre seus inúmeros clérigos e anunciou ele mesmo uma Missa Pontifical no rito extraordinário em sua Catedral. O príncipe da Igreja, nascido em 1947, que foi secretário da Congregação para o Culto Divino em Roma, de 2005 a 2009, informou recentemente sobre esta e outras reformas litúrgicas – as quais realmente merecem esse nome – em uma diocese em um congresso romano sobre a promoção da Adoração Eucarística.

Albert Malcolm Ranjith foi chamado pelo Papa em 2010 ao Sacro Colégio – como Cardeal Presbítero para assumir a igreja de San Lorenzo em Lucina.

Novo passo na “reforma da reforma”: comunhão apenas na boca em Missa do Papa em San Marino.

Cerca de dois terços da população de San Marino assistiram a Santa Missa celebrada pelo Papa Bento XVI neste domingo, em sua rápida visita ao pequeno país europeu. Missa celebrada com as já conhecidas práticas do atual cerimonial pontifício: amplo uso do latim, canto gregoriano, cânon romano, etc. Mas a deste domingo traria ainda um novo passo no programa de “reforma da reforma” que está sendo implementado gradativamente por Bento XVI, por ora ainda com medidas que visam dar exemplo. Foi anunciado logo no início da celebração:

“Neste domingo da Santíssima Trindade, nossa Igreja diocesana se encontra unida com o Sucessor de Pedro para a celebração da Santa Missa, fonte e cume da vida nova em Cristo. Queremos viver este momento em comunhão com a Igreja universal, presidida na caridade por Sua Santidade, o Papa Bento XVI. Por esta razão, chamamos a atenção agora sobre o modo de receber a Sagrada Comunhão. (…) Os fiéis que, depois de ter confessado, se encontram atualmente em estado de graça e que, então, apenas eles, podem receber o Santíssimo Corpo do Senhor, se aproximarão do ministro que lhes estiver mais próximo. A Comunhão, segundo as disposições universais vigentes, será distribuída exclusivamente na língüa, a fim de evitar profanações mas sobretudo de educar a se ter uma sempre maior e mais alta consideração para com o Santo Mistério que é a Presença Real de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não será permitido a ninguém receber a Comunhão em suas próprias mãos. Após ter feito a devida reverência, adoremos a Hóstia que então é apoiada sobre a língua. Aos que não estão impedidos por motivos de espaço ou de saúde, a Comunhão pode ser recebida também de joelhos“.

Vale ainda recordar que o bispo diocesano de San Marino, Dom Luigi Negri, é um dos bispos mais ardorosos na defesa da “linha Ratzinger” [ver aqui] e discursou no recente congresso sobre o Concílio Vaticano II promovido pelos Franciscanos da Imaculada.

Um documento histórico e inédito que esclarece a situação atual.

Summorum Pontificum Observatus | Tradução: Fratres in Unum.com – Publicamos abaixo alguns extratos de uma carta enviada em 7 de setembro de 2003 pelo Cônego André Rose (1920-2003) à sua Eminência o Cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Publicamo-a com um duplo título. Primeiro, porque se trata de um documento histórico, a se debruçar sobre a questão da crise litúrgica e das tentativas de sair dela. Depois, porque as observações do Cônego André Rose iluminam de maneira singular a situação atual no momento em que tanto se fala de uma restrição na aplicação do motu proprio Summorum Pontificum.

Mas uma terceira razão explica também o nosso procedimento: a personalidade do autor desta carta. O Cônego André Rose foi consultor do Consilium de Mons. Bugnini, responsável pela revisão dos livros litúrgicos. Foi membro de quatro sub-grupos de trabalho do Consilium. Seu testemunho é, portanto, de primeira mão. Nesta carta, o Cônego Rose critica a nova liturgia em seus fundamentos, não somente em sua aplicação. Ele pede o reconhecimento do usus antiquior como um direito geral da Igreja latina, não como uma concessão. Por último, vincula a “reforma da reforma” à liberalização total (reconhecimento do direito geral) do usus antiquior. Ora, são estes últimos pontos que estão precisamente em questão na guerra atual contra o motu proprio. Não se trata hoje de impedir a celebração do usus antiquior, mas de impedir seu efeito enquanto exemplo, em vista de uma restauração da liturgia. No fundo, a guerra ainda é movida contra aquele que em 1985, em sua Entrevista sobre a fé, ousou falar de “restauração”.

Eminência,

Permiti a um antigo consultor do Consilium dar à Vossa Eminência o seu parecer sobre a situação litúrgica da Igreja latina? Participei das jornadas de Fontgombault e conheço o Vosso empenho em prol do motu proprio Ecclesia Dei adflicta. A experiência mostra que este indulto não deu os frutos esperados e cada vez mais numerosos são os que o percebem. Posto que a ‘intenção do Santo Padre era dar uma liberdade real aos que permanecem ligados a essas formas litúrgicas, não se deveria tomar outras medidas para tornar efetiva esta vontade papal?

(…)

Não voltarei às censuras que foram feitas, sobre muitos pontos, aos novos ritos. Gostaria apenas de sublinhar que críticas profundas foram emitidas ou aprovadas (em prefácios de obras) por vários bispos e cardeais, entre os quais Vós mesmo. É possível, portanto, formular verdadeiras críticas de fundo sobre os novos livros litúrgicos sem ferir a eclesialidade nem romper com o magistério ordinário universal. Assim sendo, o fato do Cardeal Secretário de Estado finalmente ter se unido publicamente ao vosso pedido de uma reforma da reforma é bem-vindo. Todavia, é  necessário ver se se tratará de uma reforma “cosmética” ou de um reexame aprofundado. Como antigo peritus, posso testemunhar que certas cabeças dirigentes do Consilium preferiam esconder suas obras e que certas decisões que nos levaram a tomar à época procediam de intenções não confessadas. Agora que quase mais ninguém ousa negar o caráter problemático dessas normas, não é necessário ter a coragem de reexaminá-las até os seus princípios subjacentes?

Esperando que tal revisão sem complacência seja efetivamente empreendida, penso que o senso comum demande que seja reconhecido a qualquer padre de rito romano a faculdade de usar os livros de 1962. Tal medida seria não somente uma questão de bom senso (o princípio de prudência pede, na incerteza, que se continue a utilizar o que já é experimentado) mas também de estrita justiça. Em 1986, uma comissão cardinalícia reconheceu que o missal de 1962 não tinha sido abolido. Questões de oportunidade podem justificar a postergação um ato de justiça? (…)

Como antigo consultor do Consilium, posso afirmar que fomos impulsionados por Mons. Bugnini numa reforma inconsiderada, precipitada e negligente sobre muitos pontos. E aqueles que promovem essa desordem e crêem poder questionar tudo ficam indignados que ‘se ouse debater livremente sobre a pertinência dos princípios doutrinais que guiaram a sua obra de abalo da lex orandi? Alguns entre nós, periti, não vimos onde se desejava conduzir. Penso que certas mudanças eram necessárias: distribuir melhor o saltério do breviário, enriquecer o lecionário da missa em certos dias, etc. Pensei que tinha participado de uma reforma. Fui obrigado a constatar uma revolta.

A instrução que está sendo preparada na S. Congregação do Culto Divino [o autor provavelmente se referia à instrução Redemptionis Sacramentum, publicada em 2004] não oferece a ocasião, ao mesmo tempo de expôr francamente os problemas novo rito e de afirmar o direito acerca do missal tradicional? Remeto tudo isso às mãos do Santo Padre por Vosso intermédio. Não vejo porque se fazer da “liberalização” do rito tradicional um caso de concessão. Um direito existente não deve antes ser reconhecido em vez de concedido? Os padres que desejam continuar a utilizar o novo missal reintegrando ao mesmo tempo as suas celebrações à tradição litúrgica seriam, sem dúvida, reforçados em suas aspirações por tal reconhecimento oficial do estado do direito. Parece-me que é a Igreja quem se beneficiaria.

Vemos que o Cônego Rose pedia simplesmente o que o motu proprio Summorum Pontificum ratificou. O Santo Padre reconheceu publicamente que o rito romano tradicional não tinha sido abrogado e que, consequentemente, não estabelecia sua celebração como uma concessão. As disposições que organizam sua celebração pública são da competência do governo da Igreja, da virtude da prudência para que uma reparação em justiça não termine em um caos ainda maior. No entanto, a missa romana tradicional não aparece no domínio da concessão, mas do direito geral da Igreja.

Em relação a esta carta do Cônego Rose, permanece a pesada tarefa de reexaminar a fundo os novos livros litúrgicos na perspectiva da reforma da reforma, necessariamente ligada a uma livre celebração do usus antiquior. É esta perspectiva que até elementos conservadores querem hoje impedir.

Reforma da reforma: Novo “motu proprio” sobre a Congregação para o Culto Divino. Lombardi: não há motivo para considerar a medida como “restritiva”.

[Atualização – 09 de fevereiro de 2011, às 11:28] (Rorate-Caeli) Respondendo a jornalistas, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, pe. Federico Lombardi, afirmou:

“É verdade que um motu proprio há tempos vem sendo estudado para dispor sobre a transferência de uma competência técnica legal — como, por exemplo, a dispensa para o matrimônio “ratum sed non consummatum” da Congregação para o Culto Divino para o tribunal da Sagrada Rota [Romana]. Mas não há qualquer fundamento nem motivo para se ver nele uma tentativa de promover um controle de tipo “restritivo” da parte da Congregação na promoção da renovação litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano Segundo”.

* * *

Tradução do sempre excelente Oblatvs:

Será publicado nas próximas semanas um documento de Bento XVI que reorganiza as competências da Congregação para o Culto Divino, confiando-lhe a função de promover uma liturgia mais fiel às intenções originárias do Concílio Vaticano II, com menos espaços para mudanças arbitrárias e a fim de recuperar uma dimensão de maior sacralidade.

O documento, que terá a forma de um motu proprio, é fruto de uma longa gestação – foi revisto pelo Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos e pelos ofícios da Secretaria de Estado – e é motivado principalmente pela transferência de competência sobre causas matrimoniais para a Rota Romana. Trata-se das chamadas causas do “rato mas não consumado”, isto é, que dizem respeito ao matrimônio realizado na igreja mas não consumado pela falta de união carnal dos dois esposos. São cerca de quinhentos casos por ano e dizem respeito sobretudo a alguns países asiáticos onde ainda existem os matrimônios combinados com mocinhas em idade muito tenra, mas também a países ocidentais para aqueles casos de impotência psicológica para cumprir o ato conjugal.

Perdendo esta seção, que passará à Rota, a Congregação para o Culto Divino, de fato, não se ocupará mais dos sacramentos e manterá apenas a competência em matéria litúrgica. Segundo algumas autorizadas indiscrições, uma passagem do motu proprio de Bento XVI poderia citar explicitamente aquele “novo movimento litúrgico” do qual falou recentemente o Cardeal Antonio Cañizares Llovera, intervindo durante o consistório de novembro passado.

Ao Giornale, em uma entrevista publicada nas véspera do Natal passado, Cañizares havia dito: “A reforma litúrgica foi realizada com muita pressa. Havia ótimas intenções e o desejo de aplicar o Vaticano II. Mas houve precipitação… A renovação litúrgica foi vista como uma pesquisa de laboratório, fruto da imaginação e da criatividade, a palavra mágica de então”. O cardeal, que não era parcial ao falar de “reforma da reforma”, havia acrescentado: “O que vejo absolutamente necessário e urgente, segundo o que deseja o Papa, é dar vida a um novo, claro e vigoroso movimento litúrgico em toda a Igreja”, para pôr fim a “deformações arbitrárias” e ao processo de “secularização que desafortunadamente atinge até o íntimo da Igreja”.

É sabido que Ratzinger tenha desejado introduzir nas liturgias papais gestos significativos e exemplares: a cruz no centro do altar, a comunhão de joelhos, o canto gregoriano, o espaço para o silêncio. Sabe-se quanto considera a beleza na arte sacra e quanto considera importante promover a adoração eucarística. A Congregação para o Culto Divino – que alguns gostariam de rebatizar como da sagrada liturgia ou da divina liturgia – deverá pois ocupar deste novo movimento litúrgico, inclusive com a inauguração de uma nova seção do dicastério dedicada à arte e à música sacra.

Fonte: Blog de Andrea Tornielli

Cardeal Burke: “Penso também no incansável trabalho de nosso Santo Padre para levar a cabo uma reforma da reforma litúrgica pós-conciliar, conformando a celebração da Sagrada Liturgia ao ensinamento perene da Igreja”.

Cardeal Burke profere homilia no Pontifício Colégio Norte-Americano, em Roma.
Cardeal Raymond Leo Burke profere homilia no Pontifício Colégio Norte-Americano, em Roma.

A batina, a tradicional e venerável veste do Padre, Bispo e Cardeal, ao executar o ofício da caridade pastoral, sobretudo nos Sacramentos da Penitência e Sagrada Eucarístia, é um sinal de sua pertença total a Cristo através da consagração sacerdotal. Quando o Padre veste a batina, é lembrado, de uma maneira visível, que foi configurado a Cristo, Cabeça e Pastor do rebanho em todo tempo e lugar, e que é Cristo quem age nele, mais especialmente no oferecimento no Santo Sacrifíio da Missa e no perdão dos pecados no Sacramento da Penitência, para a salvação de todos os homens de todo o mundo. A batina também o ajuda a evitar a tentação de se ver, em vez de Cristo, como o protagonista nas obras de caridade pastoral, e, por isso, ela é uma ajuda prática na vida conversão diária de vida, no esvaziamento diário de si, de modo que seu ser sacerdotal possa ser preenchido com a graça de Cristo Sumo Sacerdote.

[…] No empenho em compreender o serviço do Cardeal na Igreja, naturalmente nos voltamos para as vidas de Cardeais que foram heroicamente virtuosos em cumprir as responsabilidades de seu ofício. Penso, por exemplo, em São João Fisher, que recebeu o chapéu Cardinalício quando já estava na prisão por sua recusa a assinar o Ato de Supremacia, do Rei Henrique VIII, pelo qual ele teria traído Cristo, negando que Cristo apenas é Cabeça e Pastor da Igreja através de Seu Vigário na terra, o Romano Pontífice, Sucessor de São Pedro. Quando o chapéu Cardinalício chegou a Calais, na França, em seu caminho de Roma para Londres, o Rei foi informado e enviou imediatamente seu secretário, Thomas Cromwell, para conversar com Dom Fisher na prisão. Quando Cromwell perguntou ao bom bispo se ele aceitaria o chapéu Cardinalício que o Santo Padre, o Papa Paulo III, deveria lhe enviar, São João Fisher respondeu:

“Reconheço-me mui indigno de tamanha dignidade, que não penso absolutamente nada sobre tais questões; mas se ele o enviar, esteja certo que trabalharei de todas as formas para que possa beneficiar a Igreja de Cristo, e a este respeito o receberei de joelhos”.

O Rei, cujo coração outrora pertencera ao Senhor, mas que então havia se voltado contra o Senhor, compreendeu o significado das palavras de São João Fisher e, em sua irada rebelião contra lei de Nosso Senhor escrita em seu próprio coração, declarou:

“Bem, deixem que o Papa lhe envie um chapéu quando desejar. Mas providenciarei para que, ao chegar, ele possa usá-lo sobre seus ombros, pois não terá mais cabeça para nela vê-lo”.

Em 22 de junho de 1535, São João Fisher foi decaptado, intrépido em doar-se totalmente a Nosso Senhor e Sua Igreja, até o derramamento do seu sangue.

[…]

Há muitos outros aspectos do ministério petrino do Papa Bento XVI aos quais um Cardeal deve observar e estar pronto também a oferecer sua assistência ao Vigário de Cristo na Terra.

Penso também no incansável trabalho de nosso Santo Padre para levar a cabo uma reforma da reforma litúrgica pós-conciliar, conformando a celebração da Sagrada Liturgia ao ensinamento perene da Igreja como fora apresentado novamente no Concílio Ecumênico Vaticano Segundo, de modo que em toda ação litúrgica possamos ver mais claramente a ação do próprio Cristo, que une céu e terra, mesmo agora, na preparação de Sua vinda final, quando inaugurará “novos céus e nova terra”, quando celebraremos todos a plenitude da vida e do amor na liturgia da Jerusalém celestial. O Cardeal hoje é chamado, de maneira especial, a assistir o Sucessor de São Pedro, em transmitir, em uma intacta linha orgânica, o que o próprio Cristo nos deu na Igreja, Seu Sacrifício Eucarístico, “fonte e mais alta expressão de toda a vida Cristã”. A correta ordem do Culto Divino na Igreja é a condição da possibilidade da correta ordem de seu ensinamento e da correta ordem de sua conduta.

Excertos da homilia proferida por Sua Eminência Reverendíssima, o Cardeal Raymond Leo Burke, Prefeito da Assinatura Apostólica, por ocasião da Santa Missa celebrada no Pontifício Colégio Norte-Americano, em Roma, em ação de graças pelo Consistório em que foi criado Cardeal.

Monsenhor Guido Marini e a reforma da Reforma.

Trecho da entrevista de Monsenhor Guido Marini, mestre de cerimônias do Santo Padre, à Gaudium Press:

GP – O então professor Ratzinger nos seus escritos fala na reforma da reforma da liturgia. Como o senhor vê esta exigência das reformas, das mudanças na liturgia? De fato, algumas mudanças já foram introduzidas pelo Santo Padre Bento XVI.

Quando às vezes se fala e se usa este termo “reforma da reforma”, se arrisca a ser “mal entendido”. Porque nem todos o entendem da mesma maneira e nem todos o captam do mesmo modo. Eu creio que, além das frases feitas, aquilo que é importante é que a reforma que o Concílio Vaticano II iniciou seja efetivamente realizada em modo completo segundo os ensinamentos do Concílio, que colocam a liturgia em uma continuidade com toda a sua tradição no mesmo tempo com o critério de desenvolvimento orgânico. Como deve ser sempre na vida da Igreja. A atuação prática da reforma depois do Vaticano II não está sempre feliz. Exatamente por isto que talvez seja necessário fazer alguma correção, alguma mudança, alguma melhoria justamente para atuar em modo completo as indicações do Concílio e fazê-las de forma que pareça cada vez mais claro com o desenvolvimento da liturgia da Igreja e se coloque em orgânica continuidade com a que a precedeu.

Em Roma sopra uma brisa suave de mudança. Por ora, sem novas diretrizes.

O Papa Bento XVI deseja dar o exemplo na liturgia, porém, ele não planeja nenhuma diretriz nova. 

Por Guido Horst / Die Tagespost

Papa Bento XVI celebra missa 'Ad Orientem'Roma (Kath.net/DT) Um breve encontro com um homem agitado na Praça de São Pedro: Durante uma Missa celebrada na Basílica de São Pedro, o jovem de Hamburgo ficara na fila de fiéis, na qual um sacerdote distribuía a Comunhão. Quando, finalmente, ele estendeu a mão em direção ao “seu” padre, este se negou a dar a Comunhão na mão e lhe deu a hóstia consagrada na boca. O alemão indignado voltou para o seu lugar, entretanto, ele pode ainda observar como os outros sacerdotes não criavam nenhum problema em dar a Comunhão aos fiéis também na mão. Mais tarde em uma conversa o católico hamburguês deu azo à sua raiva: ele não conhecia absolutamente nenhuma outra maneira de receber a Comunhão que não fosse na mão, e aquela deveria ser então uma prática diferente de um único padre na Basílica de São Pedro.

Limbo Litúrgico no Centro da Igreja Mundial

Esse pequeno incidente, a que, felizmente, o hóspede do norte sobreviveu sem danos espirituais, é característico de um estado de incerteza nos assuntos litúrgicos, que de tempos em tempos desperta certas atenções no centro da Igreja mundial. Enquanto na Igreja Católica da Alemanha o altar do povo, a Comunhão recebida na mão e de pés e o uso do vernáculo são coisas óbvias raramente questionadas, em Roma sopra uma brisa suave de mudança no que tange essas questões. De alguma maneira, isso tem a ver com o Papa: Bento XVI distribui a Comunhão apenas na boca em um genuflexório, e causou sensação ao celebrar uma Missa de costas para os fiéis na Capela Sistina. O latim está avançando nas missas celebradas pelo Papa. De vez em quando, os observadores indagam se – após a liberação do missal romano segundo o “Rito Antigo”–se poderia esperar agora uma reforma fundamental da reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano Segundo.

Assim, não foi uma surpresa quando o diretor em exercício da sala de imprensa do Vaticano, padre Ciro Benedettini, no início da semana passada falou sucintamente à Radio Vaticano: “No momento, não existem quaisquer sugestões institucionais para uma alteração dos livros litúrgicos em uso atualmente.”

A expressão foi cunhada de um artigo do vaticanista do jornal italiano “Il Giornale”, Andrea Tornielli, que recentemente informou da assembléia plenária da Congregação para o Culto Divino e dos Sacramentos, realizada no último dia 4 de abril, sobre a conclusão de um suposto primeiro passo para a “Reforma da Reforma Litúrgica” e uma respectiva Nota que teria sido encaminhada ao Papa Bento XVI. O dicastério dirigido pelo cardeal espanhol Antonio Cañizares Llovera teria decidido quase que unanimemente, segundo Tornielli, sugerir ao Papa uma sacralidade maior do rito, uma recuperação tanto do espírito da adoração eucarística como também da língua latina, bem como uma reformulação dos textos introdutórios da missa, a fim de impedir experimentos e criatividade no início da Missa.

Igualmente, a Congregação do Cardeal Cañizares, que, devido aos estreitos laços de afinidade com o Papa, também é chamado de “pequeno Ratzinger”, recomendou a Bento XVI que, pelo menos, no momento da consagração eucarística, os sacerdotes celebrassem em direção ao oriente (“versus orientem”), ou olhassem para a cruz juntos com os fiéis. Tornielli escreveu explicitamente que os membros da Congregação para o Culto Divino se expressaram a favor da Promoção da Comunhão na boca, uma vez que a Comunhão na mão estaria prevista somente em razão de um indulto, também como exceção. Contudo, ao final de sua contribuição, Tornielli acrescentou uma observação “significativa”, que, provavelmente, remonta às informações adicionais do Vaticano: “Para a realização da “Reforma da Reforma” seriam necessários muitos anos. O Papa está convencido de que passos precipitados igualmente em vão são como uma promulgação simples de diretrizes do alto – com o risco de que mais tarde elas permaneçam como letras mortas. O estilo de Ratzinger é antes de tudo o do equilíbrio e, sobretudo, do exemplo. Isso mostra também o fato de que há mais de um ano aqueles que vão à Comunhão com o Papa precisam se ajoelhar em um banquinho colocado com antecedência pelo cerimoniário.”

O estilo do exemplo. Isso explica também a confusão do jovem hamburguês, que experimentou uma prática diversa durante a distribuição da Comunhão na mão ou na boca quando estava na Basílica de São Pedro.

Nem todos guardam o desejo do Papa no coração.

Uma pesquisa desse jornal junto aos canonistas da Basílica de São Pedro revelou que todos os sacerdotes que auxiliam na distribuição da Comunhão estariam cientes do desejo do Papa de promover a Comunhão na boca. Apenas uns mais e outros menos seguiriam essa orientação.

Ao ser indagado, Andrea Tornielli afirmou na semana passada que ele confirmava o conteúdo de sua contribuição sobre a Nota da Congregação para o Culto Divino. Igualmente, ele não se sentiria desmentido pelo porta-voz do Vaticano em exercício, Ciro Benedettini, uma vez que ele mesmo teria finalmente escrito que o Papa Bento não tinha planos de novas diretrizes.

No entanto, nesse meio tempo, canonistas enfatizaram que a expressão “Reforma da Reforma” utilizada por Tornielli não seria totalmente correta. Todas as sugestões, que a Congregação para o Culto Divino teria submetido ao Papa, não representariam nenhuma revogação ou modificação da reforma na liturgia, mas simplesmente a implementação do Direito em vigor. Nem o Concílio nem o regulamento pós-conciliar da Igreja teriam abolido a Comunhão na boca, o latim na Missa ou a celebração “versus Dominum”.