Posts tagged ‘Revolução Francisco’

3 dezembro, 2014

Entrevista do Cardeal Seán O’Malley à CBS.

O arcebispo de Boston conta à Norah O’Donnell a respeito do trabalho com o Papa Francisco para refazer a Igreja Católica e combater a pedofilia. A seguir um script da entrevista “Cardeal Seán”, que foi ao ar no dia 16 de novembro de 2014. Norah O’Donnell é a correspondente. L. Franklin Devine, produtor.

Cardeal Sean O'MalleyPor CBS | Tradução: Fratres in Unum.com: No centro da revolução causada pelo Papa Francisco na Igreja Católica encontra-se um tímido frei franciscano, o consultor americano mais próximo do papa, o Cardeal Seán O’Malley. O papa o nomeou presidente da nova comissão crucial da Igreja para combater a pedofilia e o nomeou como membro do Conselho de Cardeais, a pequena “panelinha” do Papa encarregada de ajudar a reformular a maneira como a Igreja é governada.

Modesto e de fala mansa, geralmente, ele veste o hábito marrom de sua ordem franciscana capuchinha, em vez dos trajes vermelhos de cardeal. Ele é tratado por “Cardeal Seán.” E, como o Papa Francisco, ele está mais inclinado à conversão do que à condenação. Ele viaja para Roma de seu trabalho diário como arcebispo de Boston para ajudar Francisco a refazer uma instituição antiga.

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24 novembro, 2014

O futurismo de Francisco tem futuro?

Por Pe. Cristóvão | Fratres in Unum.com

Os progressistas andam contentes. Vivem dizendo que Bento XVI foi a última expressão de resistência ao Concílio, juntamente com João Paulo II, do qual é herdeiro. Entretanto, dizem eles, agora é a hora em que, afinal, a revolução conciliar chegará ao seu objetivo. Com Francisco, a Igreja entraria em sua nova era. E cantam vitória. E tripudiam.

Mas, será?

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Esquecem-se eles que a Igreja não é como qualquer outra organização social. A dinâmica de seu organismo tem características muito peculiares, que a subtraem subitamente do alcance da ciência sociológica. Uma destas é a lentidão do seu metabolismo.

Como sociedade guiada por anciãos, a autoridade de governo sobre ela nunca representa perfeitamente as tendências do seu tempo, excetuando-se os casos extraordinários de pastores visionários, que enxergaram muito à frente e conseguiram discernir que as mudanças, apesar de aparentemente convulsivas, são na verdade evanescentes e só ostentam a definitividade do eterno e imutável Deus, da verdade da fé, da indefectibilidade do catolicismo.

Em síntese, “olhar para frente”, na Igreja, significa ultrapassar as modas e chegar àquilo que é estável, duradouro, perene…

Contudo, quando tais visionários faltam, ficamos reféns de perspectivas de curto alcance e, embora estas se travistam de um otimismo efusivo, ao fim e ao cabo, todos percebem que são um delírio “quase” patológico.

Este me parece ser o caso de Papa Francisco. Francamente, não há nada em sua postura que me evoque uma visão realmente de longo alcance. Ao contrário, ele parece mais alguém perdido no tempo, fixado naquele entusiasmo futurista típico dos anos 70 ou 80 do século passado… Ele representa bem aquela geração.

E não é sem razão que é justamente a parcela da população que naquelas décadas já era adulta que se entusiasma ao ver a reedição de suas utopias de outrora, agora desempoeiradas e desfraldadas em plena Loggia de São Pedro.

Os jovens, ao contrário, não têm feeling com Francisco. Com ele não se passa nem de longe o mesmo fenômeno dado durante o pontificado de Bento XVI, quando uma multidão de jovens, coroinhas, acólitos, seminaristas, néo-sacerdotes se encheram de vida ao ver o renascimento da Igreja de sempre, e agora têm de amargar goela abaixo a rotulação, dada por Francisco, de restauracionistas.

Toda uma plêiade de jovens foi reduzida a uma mera classificação pejorativa em sua boca, o que demonstra bem o desatino de sua percepção pastoral, ferreamente encarcerada naquelas décadas confusas do pós-concílio. Definitivamente, Francisco não é o papa do futuro, mas do passado.

É interessante notar como a admiração por sua pessoa – nunca pelo sublime ofício que ocupa – é despertada sobretudo entre incrédulos, comunistas, hereges, imorais, gays, abortistas, roqueiros, satanistas, fofoqueiros de plantão, enfim, personalidades boçais sem as quais o mundo televisivo nunca iria para a frente…, mas, na Igreja, os olhares dos fieis ainda brilham quando se vislumbra o vulto de seu predecessor.

Francisco vive chamando Bento de vovô, mas, na verdade, embora a opinião pública o tenha estigmatizado, suas palavras ecoavam com a autoridade de um pai, enquanto seu sucessor é somente objeto de uma vaga simpatia, típica daquela devotada a um “avô”. Com efeito, ele se pôs rapidamente na posição de um bom velhinho, entusiasmado, com a irreverência de um Chespirito caricaturado e a poesia de um John Lennon do túnel do tempo, sem a gravidade requerida de um papa, a confiabilidade esperada de um pastor e a respeitabilidade suposta de um pai.

Se há algo patente na reação dos jovens a Francisco é a sua total apatia, o desconcerto mal disfarçado, o mal-estar incontido, a nostalgia de uma referência forte, a perplexidade de quem se sente perdido dentro de casa e órfão de pai vivo.

A única salvação para o “legado” de Francisco será o uso autoritário que ele faz de seu poder, pelo qual favorece ostensivamente a diplomacia vaticana. Com Francisco, a Igreja não se tornará mais pastoral, como propalam os progressistas; antes, ela está se tornando mais política do que nunca, e politicamente correta.

Ele não é o líder dos católicos, mas o porta-voz dos discursos da ONU, das ONGs, da Nova Ordem Mundial, dos Illuminati. Se algum católico não se deu ainda conta disso, as Fundações internacionais já o perceberam, e não cessam de usar o magistério franciscanista contra a própria doutrina da Igreja e contra a dignidade humana em geral. Falta apenas a alguns cristãos a clarividência de poderem verbalizar o que já sentem, simples assim: #FranciscoNãoMeRepresenta!

Ele só tem uma saída: o aparelhamento eclesial. Por isso suas movimentações grotescas, o fracasso na dissimulação de sua manipulação no sínodo e em tudo o mais, a pressa em remover seus inimigos (Piacenza, Cañizares, Burke, além de soldados de pouca monta) e nomear seus cúmplices. Em definitiva, aquilo que foi Lula para o Brasil, é Francisco para a Igreja.

Contudo, contra eles corre um relógio inexorável: a ampulheta da vida. Alguém já disse que os maiores reformadores da Igreja são o infarto e o derrame cerebral. Talvez seja uma afirmação fisiológica demais…, não sei! Porém, uma coisa é certa: toda esta gente está confinada no surto de uma época que não convence mais.

Ao contrário de Bento XVI, este sim, um visionário, que soube ler as ânsias do âmago da mocidade católica e despertar seus mais genuínos desejos de santidade, e fez escola!, Francisco passará para a história como um papa obtuso, cultivador das defecções de nossa civilização adoecida, também ele doente, de miopia histórica, refém de sua geração, réu do mesmo destino dos insanos, que não conseguem transcender sua própria biografia, reproduzindo compulsivamente os mesmos padrões de sua mentalidade tacanha, provinciana, que não consegue ir além da presumível “bondade” de umas intenções equivocadas.

Não sou futurólogo, nem me agrada a adivinhação, mas talvez esta cafonice chegue ao seu fim, talvez seja o canto do cisne daquela primeira geração do pós-concílio, e que, no final deste pesadelo, voltemos à normalidade, tendo apenas de remover alguns deslocados que foram promovidos, os mesmos que estavam silenciados em sua insignificância e agora se inebriam com sua própria loquacidade ensandecida, mas que não serão capazes de lidar com as novas gerações que, cansadas deles mesmos, os farão sentir-se tais quais são: ridículos.

No fundo, teremos de pagar pra ver. Mas não me parece impossível que, dadas estas circunstâncias, este seja um eventual desfecho.

17 novembro, 2014

O Concílio Vaticano I e o Sínodo de 2014.

Roberto de Mattei, 5 de novembro de 2014 | Tradução: Fratres in Unum.com – A fase histórica que se abre após o Sínodo de 2014 exige da parte dos católicos não somente a disponibilidade para a polêmica e a luta, mas também uma atitude de prudente reflexão e estudo dos novos problemas que estão sobre o tapete.

O primeiro desses problemas é a relação dos fiéis com uma autoridade que parece estar faltando com a sua missão. O cardeal Burke, em uma entrevista à “Vida Nueva” em 30 de outubro, afirmou que “há uma forte sensação de que a igreja está como um navio sem timão”. A imagem é forte, mas corresponde perfeitamente ao quadro geral.

O caminho a seguir nesta confusa situação não é por certo o de substituir o Papa e os bispos à frente da Igreja, em cujo supremo timão permanece sempre Jesus Cristo. A Igreja não é uma assembléia democrática, mas uma sociedade monárquica e hierárquica fundada divinamente sobre a instituição do Papado, que representa a pedra insubstituível. O sonho progressista de republicanizar a Igreja e de transformá-la em um estado de colegialidade permanente é destinado a colidir com a constituição Pastor Aeternus, do Concílio Vaticano I, que definiu não só o dogma da infalibilidade, mas sobretudo o poder pleno e imediato do Papa sobre todos os bispos e toda a Igreja.

Nas discussões do Concílio Vaticano I, a minoria anti-infalibilidade, ecoando a tese conciliarista e galicana, afirmava que a autoridade do Papa não residia apenas no Pontífice, mas no Papa unido aos bispos. Um grupinho de Padres conciliares pediu a Pio IX para declarar no texto dogmático que o Pontífice era infalível pelo testemunho das Igrejas (“nixus testimonio Ecclesiarum”), mas o Papa quis retocar o esquema no sentido oposto, fazendo adicionar à fórmula “ideoque eiusmodi Romani Pontificis definitionis esse ex se irreformabilis” o inciso “non autem ex consensu Ecclesiae” (estas definições do Romano Pontífice são, portanto, irreformáveis per se e não pelo consenso da Igreja), para esclarecer definitivamente que o consentimento da Igreja não constituía em absoluto condição para a infalibilidade.

Em 18 de julho, na presença de uma imensa multidão que enchia a Basílica, o texto final da Constituição Apostólica Pastor Aeternus foi aprovado com 525 votos a favor e dois contra. Cinquenta e cinco membros da oposição se abstiveram. Logo após a votação, Pio IX promulgou solenemente a referida Constituição como regra de fé.

A Pastor Aeternus afirma que o primado do Papa consiste em um poder real e supremo de jurisdição, independente de qualquer outro poder, sobre todos os Bispos e todo o rebanho de fiéis. Ele tem esse poder supremo não por delegação de todos os bispos ou de toda a Igreja, mas em virtude de um direito divino. O fundamento da soberania papal não consiste no carisma da infalibilidade, mas na primazia apostólica que o Papa possui sobre a Igreja universal como sucessor de Pedro e Príncipe dos Apóstolos.

A Constituição Pastor Aeternus afirma com clareza quais são as condições da infalibilidade papal. Estas condições foram amplamente ilustradas, na sua intervenção de 11 de julho de 1870, por Dom Vincent Gasser, bispo de Brixen e porta-voz oficial da defesa da fé. Em primeiro lugar, precisou Dom Gasser, o Papa não é infalível como pessoa privada, mas como “pessoa pública”. E por “pessoa pública” deve-se entender que o Papa está cumprindo o seu oficio falando ex cathedra como Doutor e Pastor universal; em segundo lugar, o Papa deve exprimir-se em matéria de fé ou de costume, res fidei vel morum. Por fim, ele deve querer pronunciar uma sentença definitiva sobre a matéria objeto de sua intervenção. A natureza do ato que empenha a infalibilidade do Papa deve ser expressa pela palavra “definir”, que tem como correlativo a fórmula ex cathedra.

O Papa não é infalível quando exerce o seu poder de governo: as leis disciplinares da Igreja, diversamente das leis divinas e naturais, podem de fato mudar. Mas é de fé divina, e portanto assegurada pelo carisma da infalibilidade, a constituição monárquica da Igreja, que confere ao Romano Pontífice a plenitude da autoridade. Esta jurisdição compreende, além do poder de governo, o de Magistério.

A infalibilidade do Papa não significa de forma alguma que ele goza, em matéria de governança e de ensino, de um poder ilimitado e arbitrário. O dogma da infalibilidade, enquanto define um supremo privilégio, fixa limites precisos, admitindo a possibilidade da infidelidade, do erro, da traição. Nas orações pelo Sumo Pontífice não haveria do contrário necessidade de se rezar “ut non tradat in animam inimicorum eius”. Se fosse impossível o Papa passar para o campo inimigo, não ocorreria rezar para que tal não aconteça. Mas a traição de Pedro é o paradigma de uma possível infidelidade que paira desde então sobre todos os Papas da História até o fim do mundo.

Apesar de ser a mais alta autoridade na terra, o Papa está suspenso entre os cumes de uma fidelidade heróica ao seu mandato e o abismo sempre presente da apostasia. Estes são os problemas que o Concílio Vaticano I teria enfrentado se não tivesse sido suspenso em 20 de outubro de 1870, um mês após a entrada do exército italiano em Roma. São estas as questões que os católicos ligados à Tradição devem hoje estudar e aprofundar. Sem negar de nenhum modo a infalibilidade do Papa e a sua suprema autoridade de governo, é possível e de que modo resistir-lhe, se ele falhar em sua missão, que é a de assegurar a transmissão inalterada do depósito da fé e da moral entregue por Jesus Cristo à Igreja?

Este não foi, infelizmente, o caminho seguido pelo Concílio Vaticano II, que também se propôs continuar, e de algum modo integrar, o Vaticano I. A tese da minoria anti-infalibilidade, derrotada por Pio IX, ressurgiu na aula do Vaticano II sob a nova forma do princípio da colegialidade. Segundo alguns membros da Nouvelle Théologie, como o Padre Yves Congar, a minoria de 1870 obteve, quase um século depois, uma estrondosa revanche. Se o Vaticano I havia concebido o Papa como o vértice de uma perfecta societas, hierárquica e visível, o Vaticano II, e sobretudo os provimentos pós-conciliares, redistribuíram o poder no sentido horizontal, atribuindo-o às Conferências Episcopais e às estruturas sinodais.

Hoje o poder da Igreja parece ter sido transferido para o “povo de Deus”, que compreende as dioceses, as comunidades de base, as paróquias, os movimentos e associações de fiéis. A infalibilidade e a suprema jurisdição, subtraídas à autoridade papal, são atribuídas à base católica, cujas exigências os Pastores da Igreja devem se cingir a interpretar e expressar. O Sínodo dos Bispos de outubro pôs em evidência os resultados catastróficos desta nova eclesiologia, que pretende basear-se em uma  “vontade geral” expressa através de pesquisas e questionários de todos os tipos. Mas qual é hoje a vontade do Papa, ao qual compete por mandato divino a missão de preservar a lei natural e divina?

O certo é que em tempos de crise como a que atravessamos, todos os batizados têm o direito de defender a sua fé, ainda que opondo-se aos pastores inadimplentes. Aos Pastores e teólogos autenticamente ortodoxos incumbe por sua vez a tarefa de estudar a extensão e os limites deste direito de resistência.

17 novembro, 2014

A remoção de um grande Cardeal.

Por Roberto de Mattei, 12 de novembro de 2014 | Tradução: Fratres in Unum.com – O Papa, enquanto supremo Pastor da Igreja universal, tem o pleno direito de remover de seu cargo um bispo ou um cardeal, mesmo insigne. Ficou célebre o caso do cardeal Louis Billot (1846-1931), um dos maiores teólogos do século XX, que em 13 de setembro de 1927 entregou o barrete cardinalício nas mãos de Pio XI, com o qual havia entrado em colisão sobre o caso da Action Française, e que terminou sua vida como simples jesuíta, na casa de sua Ordem em Galloro.

Um outro caso famoso é o do cardeal Jósef Mindszenty, removido por Paulo VI do cargo de Arcebispo de Esztergom e Primaz da Hungria pela sua oposição à Ostpolitik vaticana. Muitos outros bispos foram destituídos nos últimos anos por envolvimento em escândalos financeiros ou morais. Mas se ninguém pode negar ao Sumo Pontífice o direito de demitir qualquer prelado pelas razões que ele julgar mais oportunas, ninguém pode também tolher aos fiéis o direito que lhes assiste como seres racionais, antes ainda do que como batizados, de se interrogarem sobre as razões dessas destituições, sobretudo se as mesmas não forem declaradas explicitamente.

Isso explica a consternação de muitos católicos com a notícia, formalmente comunicada pela Sala de Imprensa do Vaticano em 8 de novembro, da transferência do Cardeal Raymond Leo Burke de seu cargo de Prefeito da Signatura Apostólica para o de Patrono da Ordem de Malta. Com efeito, quando a transferência, como neste caso, concerne um cardeal ainda relativamente jovem (66 anos) e oriundo de um posto da máxima importância para outro puramente honorífico, sem sequer respeitar o questionável princípio promoveatur ut amoveatur, trata-se evidentemente de um castigo público. E, neste caso, é lícito perguntar-se  quais são as acusações contra o prelado em questão.

O cardeal Burke desempenhou de fato muito bem seu cargo de Prefeito da Suprema Signatura Apostólica e é estimado por todos como um proeminente canonista e homem de profunda vida interior, tendo sido recentemente definido por Bento XVI como um “grande cardeal”. Do quê ele é culpado?

Os observadores do Vaticano das mais diversas tendências responderam com clareza a essa pergunta. O cardeal Burke teria sido acusado de ser “muito conservador” e de estar em desacordo com o Papa Francisco. Após a malfadada exposição introdutória do cardeal Kasper no Consistório de 20 de fevereiro de 2014, o cardeal americano promoveu a publicação de um livro em que cinco influentes purpurados e outros estudiosos expressaram suas respeitosas reservas em relação à nova linha vaticana, aberta à hipótese da concessão da comunhão aos divorciados recasados e do reconhecimento das uniões de fato.

As apreensões dos cardeais se viram confirmadas pelo Sínodo de outubro, quando as teses mais arriscadas em termos de ortodoxia foram de fato recolhidas na relatio post disceptationem que antecedeu o relatório final. A única razão plausível é que o Papa tenha oferecido em uma bandeja a cabeça do cardeal Burke ao cardeal Kasper, e através deste ao cardeal Karl Lehmann, ex-presidente da Conferência Episcopal Alemã. Com efeito, é sabido por todos, pelo menos na Alemanha, que quem ainda está puxando as cordas da dissidência alemã contra Roma é o próprio Lehmann, antigo discípulo de Karl Rahner. O padre Ralph Wiltgen, em seu livro O Reno se lança no Tibre, trouxe à luz o papel de Rahner no Concílio Vaticano II, a partir do momento em que as conferências episcopais passaram a desempenhar um papel determinante.

As Conferências Episcopais eram de fato dominadas por seus peritos em teologia e, uma vez que a mais poderosa delas era a alemã, foi decisivo o papel de seu principal teólogo, o jesuíta Karl Rahner. O padre Wiltgen o resume de forma contundente, ao descrever a força do lobby progressista coligado naquilo que ele chama de “Aliança Europeia”: “A posição dos bispos de língua alemã sendo regularmente adotada pela aliança europeia, e a posição da aliança sendo, o mais das vezes, adotada pelo Concílio, bastava que um teólogo fizesse sua opinião ser adotada pelos bispos de língua alemã para que o Concílio as fizesse suas. Ora, tal teólogo existia: era o Padre Karl Rahner S.J.”.

Cinquenta anos após o Concílio Vaticano II, a sombra de Rahner ainda perdura na Igreja Católica, exprimindo-se, por exemplo, nas posições pró-homossexuais de alguns dos discípulos mais jovens dos cardeais Lehmann e Kasper, como o cardeal-arcebispo de Munique, Dom Reinhard Marx, e o arcebispo de Chieti, Dom Bruno Forte.

O Papa Francisco se pronunciou contra duas tendências, a do progressismo e a do tradicionalismo, embora sem esclarecer qual é o conteúdo desses dois rótulos. Mas se, de palavra, ele se distancia desses dois pólos que se enfrentam hoje na Igreja, na verdade toda a sua compreensão é reservada ao “progressismo”, enquanto o machado se abate sobre o que ele chama de “tradicionalismo”. A destituição do cardeal Burke tem um significado exemplar análogo à destruição em curso dos Franciscanos da Imaculada.

Muitos observadores têm atribuído ao cardeal Braz de Aviz o projeto de dissolução do Instituto, mas agora ficou evidente para todos que o Papa Francisco compartilha inteiramente a decisão. Não se trata da questão da Missa tradicional, que nem o Cardeal Burke nem os Franciscanos da Imaculada celebram regularmente, mas de sua atitude de inconformidade com a política eclesiástica hoje dominante.

Por outro lado, o Papa entreteve-se longamente com os representantes dos chamados “Movimentos sociais”, de orientação ultramarxista, que se reuniram em Roma de  27 a 29 de outubro, e em julho passado nomeou consultor do Conselho Pontifício para a Cultura um sacerdote abertamente heterodoxo, o padre Pablo d’Ors. Cabe perguntar-se quais serão as consequências desta política, tendo presente dois conceitos: o princípio filosófico da heterogênese dos fins, segundo o qual determinadas ações produzem efeitos contrários às intenções, e o princípio teológico da ação da Providência na História, pelo qual, conforme as palavras de São Paulo, “omnia cooperantur in bonum” (Rom. 8:28). Nos desígnios de Deus, tudo coopera para o bem.

O caso do cardeal Burke e caso o dos Franciscanos da Imaculada, como, em um nível diferente, o caso da Fraternidade São Pio X, são apenas os sintomas de um mal-estar difuso que fazem realmente a Igreja parecer como um barco à deriva. Mas, ainda que esses indicadores desaparecessem, ou seja, que a Fraternidade São Pio X não existisse, que os Franciscanos da Imaculada fossem dissolvidos ou “reeducados” e o cardeal Burke reduzido ao silêncio, a crise da Igreja não deixaria por isso de ser ainda mais grave. O Senhor prometeu que a Barca de Pedro jamais afundará, não graças à habilidade do timoneiro, mas pela Divina assistência à Igreja, que vive, pode-se dizer, entre as tempestades, sem jamais deixar-se submergir pelas ondas (Mateus 8: 23-27 ; Mc 4, 35-41; Lucas 8: 22-25).

Os fiéis católicos não estão desencorajados: cerram fileiras, voltam seus olhos para o Magistério contínuo e imutável da Igreja, que coincide com a Tradição, buscam força nos Sacramentos, continuam a rezar e a agir, na convicção de que, na História da Igreja como na vida dos homens, o Senhor intervém apenas quando tudo parece perdido. O que se pede de nós não é uma inação resignada, mas uma luta confiante na certeza da vitória.

Face ao cardeal Burke, e já prevendo as novas provações que certamente virão para ele, gostaríamos de repetir aqui as palavras com as quais, em 10 de fevereiro de 1974, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira se referiu ao martírio espiritual infligido por Paulo VI ao cardeal Mindszenty, quando “as mãos mais sagradas da terra abalaram a coluna e a atiraram, partida, ao chão”. E concluiu: “Se o Arcebispo caiu ao perder a sua diocese, cresceu até as estrelas a figura moral do Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas”.

8 novembro, 2014

Burke defenestrado.

Como esperado,  foi anunciada hoje a remoção do Cardeal Burke da chefia do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica,  sendo rebaixado para a função meramente honorífica de Soberano Militar da Ordem de Malta.

29 outubro, 2014

Admira, regozija-se, apoia, prega, estimula. Mas não é.

Admira comunistas. Regojiza-se com comunistas. Apoia comunistas. Estimula trabalho de entidades comunistas. Mas afirma não ser comunista. Ok, o mundo todo acreditará piamente!

Para certos postos, já dizia o velho adágio: “Não basta ser honesto, é preciso parecer honesto”.

João Pedro Stedile encontra Papa Francisco - o líder do MST foi convidado para fazer o discurso de encerramento de encontro de "Movimentos Populares" no Vaticano.

João Pedro Stedile encontra Papa Francisco – o líder do MST foi convidado para fazer o discurso de encerramento de encontro de “Movimentos Populares” no Vaticano.

De duas, uma:

1) Ou todas essas organizações são verdadeiras promotoras dos valores do Evangelho e se associam aos princípios de Nosso Senhor — o que justificaria o espaço e os louvores dados a elas pelo Sumo Pontífice. Para isso, ter-se-ia que provar que não só as “belíssimas” intenções dos membros dos grupos, mas suas obras, estão em conformidade com o que Cristo ensinou.

2) Ou, não sendo o caso, admirar, apoiar, estimular, etc, é buscar um amálgama impossível, pois que auto-excludentes entre si, entre a revolução pregada por tais entidades e a doutrina social da Igreja, pretendendo difundir amor de Cristo aos pobres quando, na verdade, conscientemente ou não, difunde-se o mau e velho comunismo amplamente condenado pelo Magistério da Igreja.

Tertium non datur.

* * *

“Continuem com a vossa luta, caros irmãos e irmãs, faz bem a todos nós” — Papa Francisco.

O bem, por João Pedro Stedile – do artigo “As mentiras paraguaias das elites brasileiras”, sobre o impeachment do ex-bispo e ex-presidente do Paraguai Fernando Lugo, Folha de São Paulo, 17 de julho de 2012

“Se a sociedade paraguaia estivesse dividida e armada, certamente os defensores do presidente Lugo não aceitariam pacificamente o golpe”.

Pois, assim a Cartilha do MST descreve o pensamento dele, que é um de seus dirigentes:

“Os dirigentes possuem um sonho revolucionário que é construir sobre os escombros do capitalismo uma sociedade socialista. Muitas vezes as aspirações dos dirigentes não são as mesmas da massa. Nesse caso é preciso desenvolver um trabalho ideológico para fazer com que as aspirações da massa adquiram caráter político e revolucionário”.

* * *

Comentário do leitor Alcleir:

Ao longo de dois mil anos tudo que a Igreja fez foi dar de comer a quem tem fome, vestir quem está nu e instruir os ignorantes. Os primeiros hospitais e sanatórios do mundo foram criados pela Igreja. As primeiras universidades do mundo foram criadas pela Igreja. De dentro do povo católico nasceram as SANTAS CASAS DE MISERICÓRDIA. A Igreja forjou a santidade de homens e mulheres extraordinários como São Francisco de Assis, São Vicente de Paula, São Martinho de Tours, São Bernardo de Claraval. Santos que renunciaram ao mundo para abraçar a causa de Cristo e o serviço aos pobres e doentes. Com o regime de suserania e vassalagem a Igreja amparou e protegeu o camponês que deixou de ser um mero escravo do senhor de terras para ser um servo da gleba que, embora preso a um pacto de vassalagem, era livre para ter seus bens e seus animais.
Em todos estes tempos a Igreja nunca pregou o conceito de “luta” como método para fazer “justiça social”.
Pelo contrário.
Pregou a OBEDIÊNCIA e SUBMISSÃO dos trabalhadores para com seus patrões;
A CARIDADE dos homens de negócio para com os desempregados;
A GRATIDÃO dos pobres para com seus benfeitores;
A PACIÊNCIA dos doentes diante das enfermidades;
A Igreja não prega a luta nem busca terra, teto e trabalho. Quem busca isto é Karl Marx.
A Igreja busca o Reino de Deus e Sua Justiça. Importa buscar antes a Justiça de Deus, pois com ela tudo o mais será dado por acréscimo (Mateus 6,33).“Tirai-lhe o talento e dai ao que tem dez, pois aquele que tem em abundância lhe será dado mais ainda, mas ao que não tem, lhe será tirado até aquilo que julga ter. Quanto a este servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes. “(Mateus 25,28-30)Santidade, Jesus nunca foi marxista… nem a Igreja.

28 outubro, 2014

Padres casados? No Brasil?

Chega até mim, desde o Brasil, uma notícia que causaria uma verdadeira revolução na Igreja. Em diálogo com a Congregação para o Clero, se está buscando um modo de ordenar “ad experimentum” “viri probati” para superar a falta de sacerdotes nas dioceses da Amazônia. A Amazônia poderia ser o primeiro lugar no mundo no qual existiriam, no rito latino, sacerdotes com família.

13072738Por Marco Tosatti | Tradução: Fratres in Unum.com – Chega até mim, desde o Brasil, uma notícia que causaria uma verdadeira revolução na Igreja. Em diálogo com a Congregação para o Clero, se está buscando um modo de ordenar “ad experimentum” “viri probati” para superar a falta de sacerdotes nas dioceses da Amazônia, onde as distâncias são enormes, o número dos sacerdotes sempre mais escasso e as possibilidades para algumas comunidades cristãs terem os sacramentos são extremamente reduzidas.

A iniciativa seria do Card. Cláudio Hummes, outrora prefeito da Congregação para o Clero, agora arcebispo emérito de São Paulo, onde continua, porém, não obstante os 80 anos de idade, há pouco atingido, a estar ativo num encargo diocesano análogo àquele de Vigário episcopal e como responsável pela região amazônica [na CNBB]. Cláudio Hummes é o cardeal que Jorge Mario Bergoglio quis ao seu lado quando apareceu, logo após a eleição, na sacada da Basílica de São Pedro. Segundo alguns especialistas, o próprio Cláudio Hummes teria sido um dos principais articuladores e organizadores da eleição de papa Francisco.

Hummes, quando Prefeito do Clero, tinha a ideia de levar avante o projeto da ordenação dos “viri probati”, mas não foi bem sucedido em seu intento [ndr: recorde-se suas declarações desastrosas ao sair do Brasil, quando nomeado prefeito para o Clero por Bento XVI, que o fez se retratar a respeito] . Entende-se por “viri probati” os homens de comprovada fé, anciãos, casados ou viúvos, que nas antigas comunidades católicas eram ordenados como sacerdotes para suprirem as necessidades de comunidades cristãs isoladas, geralmente situadas em zonas pouco acessíveis e distantes do centro das dioceses.

Erwin Krautler, à direita da foto, em procissão ao lado do que parece ser uma "presbítera" anglicana.

Erwin Krautler, à direita da foto, em procissão ao lado do que parece ser uma “presbítera” anglicana.

O Card. Hummes, além de estar em diálogo sobre este assunto com a Congregação para o Clero, guiada pelo homem de confiança do Papa, o Card. Stella, falou naturalmente com os bispos da Amazônia. Um destes, D. Erwin Kraeutler, bispo de origem austríaca [ndr: partidário do cisma austríaco e colaborador fanfarrão de Francisco na encíclica ecológica], missionário no Brasil, prelado do Xingú, na região amazônica, disse em abril deste ano [ndr: fato noticiado em primeira mão em Fratres in Unum.com] que conversou com o Papa Francisco sobre a hipótese de que fossem ordenados os tais “viri probati” — para assegurar a assistência espiritual em um território de 700 mil fiéis, 800 comunidades e apenas 27 padres.

“Contei ao Papa que sou o bispo da diocese de maior extensão do Brasil, com 700 mil fiéis, e que nossas comunidades podem celebrar a eucaristia apenas duas ou três vezes por ano”, disse D. Krautler numa entrevista à Salzburger Nachrichten. “Em relação às necessidades das nossas comunidades, falou-se também dos viri probati, os homens casados, de fé segura, que são ordenados padres” [ver: Papa Francisco: homens casados podem ser ordenados sacerdotes se os bispos estiverem de acordo].

Se a iniciativa do Card. Hummes se concretizar, a Amazônia poderia ser o primeiro lugar no mundo no qual existiriam, no rito latino, sacerdotes com família.