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10 junho, 2019

Papa Francisco, filósofo da inclusão.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 05 de junho de 2019 | Tradução: Hélio Dias Viana, FratresInUnum.com –  No dia 2 de junho, a tradicional parada militar na Itália para celebrar a festa da República transcorreu sob o signo da “inclusão”. O tema da inclusão, que caracterizou o evento, “representa bem os valores esculpidos em nossa Carta constitucional, a qual estabelece que nenhum cidadão pode se sentir abandonado, mas deve ser garantido no exercício efetivo de seus direitos”, declarou o Presidente da República Sergio Mattarella [democrata-cristão de esquerda].

No mesmo dia, em Blaj, na Romênia, o Papa Francisco fez um mea culpa em nome da Igreja pelas discriminações sofridas pelas comunidades ciganas: “Em nome da Igreja, peço perdão, ao Senhor e a vós, por todas as vezes que, ao longo da história, vos discriminamos, maltratamos ou consideramos de forma errada, com o olhar de Caim em vez do de Abel, e não fomos capazes de vos reconhecer, apreciar e defender na vossa peculiaridade”. Ao longo da História não há traços de perseguições ou maus tratos da Igreja em relação aos ciganos, mas com essas palavras o Papa Francisco quis reafirmar aquele princípio de “inclusão” do qual ele é hoje o teórico por excelência e ao qual a União Europeia submete a sua política. A insistência com a qual o Papa Francisco retorna a temas como inclusão, não discriminação, acolhida, cultura do encontro pode parecer a alguns como uma expressão de amor ao próximo que, para usar uma metáfora do próprio Papa Bergoglio, faz parte do “documento de identidade do cristão”.

Quem assim pensa, no entanto, comete um erro de perspectiva análogo ao dos católicos progressistas do final do século XX, para os quais a preocupação de Marx para com o proletariado nasceu de seu amor pela justiça social. Esses católicos propunham cindir o marxismo, rejeitando sua filosofia materialista, mas aceitando sua análise econômica e social. Eles não entenderam que o marxismo constitui um bloco inseparável e que a sociologia marxista é uma consequência direta de seu materialismo dialético. Marx não era um filantropo debruçado sobre a miséria do proletariado para aliviar seu sofrimento, mas um filósofo militante que usava tais instrumentos como ferramenta para realizar seu objetivo revolucionário.

De maneira similar, a atenção do Papa Francisco para com os subúrbios e os menos favorecidos não nasce de um espírito evangélico nem de uma filantropia laica, mas de uma opção filosófica mais do que política e que pode ser resumida em termos de um igualitarismo cosmológico. Francisco usa um neologismo em sua encíclica Laudato sì: o termo castelhano “inequidad” [na versão portuguesa foi traduzido por “desigualdade”], que basicamente significa qualquer forma de desigualdade social injusta. “O que queremos é a luta contra as desigualdades, este é o maior mal que existe no mundo”, declarou ele a Eugenio Scalfari no Repubblica em 11 de novembro de 2016. Na mesma entrevista, o papa Bergoglio adotou o conceito de “hibridização” proposto por Scalfari [nós, brasileiros, diríamos “miscigenação”]. E Scalfari, em editorial no mesmo jornal de 17 de setembro de 2017, afirma que, segundo o Papa Francisco, “na sociedade global em que vivemos, povos inteiros migrarão para este ou aquele país e criarão, com o passar do tempo, um tipo de ‘hibridização’ cada vez mais integrado. Ele o considera um fato positivo, onde indivíduos, famílias e comunidades se tornam cada vez mais integrados, os vários grupos étnicos tendem a desaparecer e uma grande parte da nossa Terra será habitada por uma população com novos traços físicos e espirituais. Levará séculos ou até milênios para que tal fenômeno aconteça, mas – de acordo com as palavras do Papa – essa é a tendência. Não é por acaso que ele prega o Deus Único, isto é, um por todos. Eu não sou crente, mas reconheço uma lógica nas palavras do Papa Francisco: um povo único e um Deus único. Até agora, não houve líder religioso que tenha pregado essa verdade ao mundo”.

O termo “mestiçagem”, como os de inclusão e acolhida, retornam amiúde na linguagem pastoral do papa Bergoglio. Em 14 de fevereiro de 2019, por ocasião de seu discurso no Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), em Roma, Francisco se encontrou com uma representação de povos indígenas e, chamando essas comunidades de “um grito vivo a favor da esperança”, pediu uma “mestiçagem cultural” entre os “povos chamados civilizados” e as populações nativas, que “sabem o que significa ouvir a terra, ver a terra, tocar a terra”. A “mestiçagem cultural”, explicou, é o caminho a seguir trabalhando “para tutelar quantos vivem nas áreas rurais e mais pobres do planeta, mas mais ricas na sabedoria de conviver com a natureza”.

Em 19 de janeiro de 2018, em Puerto Maldonado, no coração da Amazônia peruana, o Papa Francisco, encontrando os indígenas, disse-lhes: “O tesouro que encerra esta região” não pode ser entendido, compreendido, sem “vossa sabedoria” e “vossos conhecimentos”. Para se compreender melhor essa referência à “sabedoria” e ao “conhecimento” dos nativos, precisamos recorrer ao trabalho de um autor caro ao Papa Francisco, o ex-franciscano Leonardo Boff. A Amazônia – explica Boff – tem “um valor paradigmático universal”, porque representa a antítese do modelo de desenvolvimento moderno “carregado de pecados capitais e antiecológicos”; mas também “é o lugar de ensaio de uma alternativa possível, em consonância com o ritmo daquela natureza luxuriante, respeitando e valorizando a sabedoria ecológica dos povos originários que há séculos ali vivem” (Ecologia: Grito da Terra e Grito dos Pobres, Rio de Janeiro-RJ: Sextante, 2004, p. 145). Para Boff, “precisamos passar do paradigma moderno para o paradigma pós-moderno, global, ‘holístico’, que propõe ‘um novo diálogo com o universo’, ‘uma nova forma de diálogo com a totalidade dos seres e suas relações’” (ibid., p. 23).

A Amazônia não é apenas um território físico, mas um modelo cosmológico em que a natureza é vista como um todo vivo que tem em si uma alma, um princípio de atividade interna e espontânea. Com essa natureza prenhe de divindades, os povos indígenas da América Latina mantêm uma relação que o Ocidente perdeu. A sabedoria dos nativos deve ser recuperada, pedindo perdão pela discriminação cometida contra eles, sem esperar que peçam perdão pelo canibalismo e pelos sacrifícios humanos que seus ancestrais praticaram. As pontes que precisam substituir os muros são unidirecionais. Este é o pano de fundo cultural do Sínodo que será aberto no Vaticano em 6 de outubro. A inclusão é um conceito filosófico, e não social: significa afirmar uma realidade híbrida, indistinta, “miscigenada”, na qual tudo se funde e se confunde, como a teoria do gênero, que é a teoria da inclusão por excelência. As pessoas LGBT, como os migrantes ou os nativos da América do Sul, devem ser bem-vindos e respeitados não como pessoas, mas pelas culturas e rumos que veiculam. Esta cosmologia lembra o deus sive natura de Spinoza, que pleiteia a identidade de Deus com a substância infinita da qual todos os seres derivam. Deus deve ser incluído na natureza e a natureza deve ser incluída em Deus, que não é uma causa transcendente, mas imanente do mundo, com a qual Ele coincide. Não há diferença qualitativa entre Deus e a natureza, assim como não há diferença qualitativa entre diferentes sociedades, religiões ou culturas, nem entre o bem e o mal que, segundo Spinoza, são “correlativos” (Ética, IV, prop. 68).

A doutrina da inclusão não é a da encíclica Aeterni Patris de Leão XIII ou da Pascendi de São Pio X, mas se opõe a esses documentos. Poucos, no entanto, se atrevem a dizê-lo abertamente. Quanto tempo durará este silêncio ambíguo, confortável para muitos, mas sobretudo para aqueles que o utilizam para alcançar fins alheios à finalidade sobrenatural da Igreja? (Traduzido por Hélio Dias Viana)

4 março, 2019

A condenação do cardeal Pell, a Igreja e o mundo.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 27 de fevereiro de 2019 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: A condenação do Cardeal Pell – que caiu como um raio após o encerramento da reunião de cúpula no Vaticano – recorda uma verdade que há cinquenta anos muitos querem esquecer: não há compromisso possível entre a Igreja e o mundo, porque o mundo odeia a Igreja e quer a sua destruição. A sentença também demonstra o fracasso da estratégia deste pontificado, que renunciou ao exercício da soberania da Igreja, confiando na benevolência do mundo.

Cardeal George Pell.

Cardeal George Pell.

A soberania da Igreja é expressa acima de tudo em sua lei canônica. A Igreja Católica enquanto sociedade visível é dotada de um direito, inclusive penal, que é o direito que Ela possui de punir os fiéis que cometeram violações à sua lei. O delito é uma violação externa da ordem jurídica da Igreja, distinto do pecado, que é uma violação da ordem moral.

Portanto, a Igreja, “por direito próprio e exclusivo”, tem o poder de julgar a violação das leis eclesiásticas e de sancionar crimes com penas canônicas (cânon 1402 §2). Entre os muitos crimes canônicos enumerados no Código, há a apostasia, a heresia e o cisma (cânon 1364), a communicatio in sacris [ou seja, a concelebração de sacramentos com hereges], a profanação das coisas sagradas (cânon 1376), além de uma série de violações graves do sexto mandamento (cânon 1395).

A distinção entre pecados e delitos não parece ser clara para o Papa Francisco, que proclama “tolerância zero” contra os crimes civis, como a pedofilia, mas invoca o “perdão” e a misericórdia para os “pecados da juventude”, como a homossexualidade, esquecendo a presença desse crime nas leis da Igreja.

Segundo as leis e o sentimento comum de grande parte dos países ocidentais, a pedofilia e o estupro são considerados um crime infame, mas não por causa da imoralidade do ato em si, mas pela violação que esses crimes implicam, respectivamente, dos direitos das crianças e das mulheres. Seguindo o exemplo dos Estados modernos, as autoridades eclesiásticas parecem ter desclassificado alguns pecados de atentados contra a moral em delitos contra a pessoa.

Nessa mesma linha de pensamento, o pecado não consistiria em violar a lei natural, mas em impedir com violência um indivíduo de seguir seus próprios instintos e tendências. Hoje, as autoridades do Vaticano tratam crimes como a sodomia como se fossem simples pecados particulares, limitando-se, nos casos ocorridos, a pedidos de expiação penitencial, sem aplicar as sanções penais exigidas pelos crimes.

Os únicos delitos reconhecidos como tais pela atual prática canônica são aqueles sancionados pelos Estados laicos, mas ainda no tocante a esse tipo de crimes, como o de pedofilia, as autoridades eclesiásticas se conformam hoje com as sentenças de culpa e de inocência dos processos nos tribunais estatais, renunciando a investigar e processar por conta própria, exceto quando tal se torna necessário para não perder a “credibilidade”, como aconteceu no “caso McCarrick”. Mas também a redução ao estado laical do cardeal Theodore McCarrick, como sublinhou Sandro Magister em recente artigo, é fruto de um processo não judicial, mas apenas administrativo (“Settimo Cielo”, 15 de fevereiro de 2019).

A Igreja, pelo contrário, tem o dever de abrir um processo criminal regular contra os acusados de abuso sexual, sem violar seus direitos fundamentais. De fato, não há apenas os direitos daqueles que afirmam serem vítimas, mas também os daqueles que são acusados ​​pelas vítimas.

Eles devem ser julgados de acordo com as normas do Direito Canônico, possivelmente antes do Estado, para se apurar a veracidade dos fatos. Uma vez que essa verdade tenha sido estabelecida, se eles forem considerados culpados, deverão ser submetidos às sanções corretas, mas se forem reconhecidos como inocentes, também deverão ser defendidos contra as autoridades civis dos Estados.

A Igreja, que é dotada de um direito penal e de tribunais, deve ter a coragem de desafiar o julgamento dos tribunais do mundo, na certeza de que não é o mundo que julga a Igreja, mas a Igreja que julga o mundo.

A crise moral da Igreja não se resolve com as chamadas melhores práticas – indicações práticas dadas pela Organização Mundial de Saúde, um corpo laico que promove a educação sexual e gostaria de incluir a contracepção e o aborto em todos os programas nacionais de planejamento familiar –, nem instituindo novas comissões ou forças-tarefa de “especialistas”, mas com uma visão sobrenatural, que infelizmente está totalmente ausente do discurso do Papa Francisco, que concluiu a cúpula do Vaticano em 24 de fevereiro passado.

As consequências são de que se ouve falar de uma maior sinodalidade das igrejas locais, “abertas” às contribuições do mundo secularizado, e da abolição do segredo pontifício em nome da “transparência”. A “cultura do segredo” é aquela denunciada por Frédéric Martel em seu recente panfleto tendente a “normalizar” a sodomia dentro da Igreja. Mas que segredo existe de mais impenetrável do que o segredo imposto aos sacerdotes pelo sacramento da confissão? Esta parece ser a próxima pedra que os inimigos da Igreja querem remover, para cuja obtenção o julgamento do Tribunal de Victoria [Austrália] parece ter preparado o caminho.

Na Austrália, no território de Canberra, adotou-se uma lei que torna processável o padre que não denunciar casos de abuso infantil, mesmo que tome conhecimento deles durante a confissão.

A lei – que aplica as recomendações da Royal Commission, uma comissão encarregada pelo governo australiano de ocupar-se dos abusos sexuais contra menores – foi aprovada em junho passado pela Assembleia Legislativa do território da capital australiana e estende a denúncia obrigatória de abusos contra menores também à Igreja e às suas atividades, incluindo o confessionário. Entre essas recomendações havia precisamente a ideia de tornar crime a não denúncia por um padre de perseguições e violências contra menores das quais ele tome conhecimento no exercício do Sacramento da Confissão (Acistampa, 29 de junho de 2017).

Enquanto isso, as Nações Unidas pediram à Itália para estabelecer uma “comissão independente e imparcial de inquérito para examinar todos os casos de abuso sexual de crianças por membros religiosos da Igreja Católica”, e “tornar obrigatória para todos, mesmo para os funcionários religiosos da Igreja Católica, a denúncia de qualquer caso de suposta violência contra menores às autoridades competentes do Estado”.

O pedido foi feito pelo Comitê da ONU para os Direitos da Infância e da Adolescência, com sede em Genebra. Por fim, solicitou-se a revisão das Concordatas nacionais (como o Tratado de Latrão com a Itália) na parte em que elas dispensam a hierarquia da obrigação de delatar. Na Itália, de acordo com a Nova Concordata de 1984, “a República italiana assegura que a autoridade judicial comunicará à autoridade eclesiástica competente pelo território do processo penal promovido contra os eclesiásticos” (Protocolo Adicional nº 2b).

Este princípio deve agora ser revertido, porque a ONU pede ao Vaticano para prestar total cooperação às autoridades civis que julgam os abusos nos vários países, fornecendo, por exemplo, todas as informações recolhidas pela Congregação para a Doutrina da Fé.

A questão da obrigatoriedade da denúncia às autoridades civis, sobre a qual o padre Lombardi afirmou que “é certo que se trata de uma questão abordada nesta reunião” (cúpula de 21 de fevereiro, n.d.r.), abre caminho para o pedido de violação do sacramento da confissão e do segredo pontifício. Outrora o Estado era o “braço secular” da Igreja, agora a Igreja se tornaria quase um “braço secular” do Estado.

Mas uma lei civil que quisesse impor a violação do sigilo confessional para alguns crimes, como a pedofilia, seria uma lei injusta, diante da qual os sacerdotes deveriam opor o seu “non possumus”, até o martírio. É este testemunho, e não outros, que tornaria a Igreja credível diante de Deus e do mundo. Contudo, cumpre reverter a relação que a Igreja tem há mais de cinquenta anos com o mundo secularizado e anticristão.

28 fevereiro, 2019

Um pasquim LGBT contra a Igreja.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 14 de fevereiro de 2019 | Tradução: Dies Irae – Um pasquim LGBT contra a Igreja. O título é Sodoma [No Armário do Vaticano, em Portugal] e o autor Frédéric Martel, um conhecido activista LGBT francês. O livro, no entanto, nasceu em Itália, durante uma conversa entre o autor e o editor Carlo Feltrinelli, filho de Gian Giacomo, o editor-terrorista que morreu a 14 de Março de 1972, enquanto colocava uma bomba numa treliça da Enel[1] em Segrate[2]Sodoma será apresentado nos próximos dias em oito idiomas e em vinte países.

O lançamento oficial ocorrerá no dia 21 de Fevereiro, coincidindo com a abertura da cimeira do Vaticano dedicada ao abuso sexual de menores. É, portanto, uma poderosa operação mediática que tem como alvo a Igreja Católica. O autor do livro, Frédéric Martel, apresentado pela imprensa com os títulos, de vez em quando diferentes, de sociólogo, investigador, historiador, alcançou uma certa popularidade com o seu mais recente ensaio, traduzido em várias línguas, Global Gay, dedicado à marcha triunfante de hoje do movimento gay em todo o mundo.

Envolvido directamente em inúmeras associações activas na difusão da agenda LGBT, Martel trabalha há anos na linha da frente no processo de promoção e “normalização” da homossexualidade. A “militância” LGBT do autor deSodoma levou-o a ser um dos principais promotores da lei n.º 99-944 de 15 de Novembro de 1999 (Dupacte civil de solidarité et du concubinage), o chamado PACS, que introduziu as uniões civis em França. Nos anos seguintes, o activista LGBT continuou a contribuir para a causa homossexual, dedicando numerosos artigos a favor da introdução do pseudo-casamento homossexual em França até à sua completa legalização, ocorrida a 18 de Maio de 2013.
Martel aborda agora a sodomia na Igreja, alegando ter realizado um inquérito sobre o tema, com duração de 4 anos, entrevistando cerca de 1500 pessoas no Vaticano e em vários países do mundo. Na realidade, o que falta no livro é precisamente a documentação. Nada sabemos, depois da sua leitura, para além do que já se sabia sobre a difusão da homossexualidade na Igreja.

Este gravíssimo problema, trazido à luz pelo testemunho do Arcebispo Carlo Maria Viganò, foi analisado cientificamente e documentado por dois estudiosos polacos, o P. Dario Oko e o P. Andrzej Kobyliński, autores de estudos que foram ignorados pela imprensa internacional. Mas Martel não procura a verdade, tem uma tese ideológica para provar e nas suas páginas não demonstra, mas sugere, insinua, calunia, denigre.

Monsenhor Battista Ricca, definido por Sandro Magister como «o prelado do lobby gay», abriu-lhe as portas do Vaticano. «Explica-me minuciosamente como passar o controlo dos gendarmes e, depois, dos guardas suíços. Encontrarei frequentemente este prelado de olhos líquidos, um atirador próximo de Francisco que conheceu a glória e a desgraça. Como veremos, é a ele que devo ter podido estar alojado numa das residências do Vaticano». O autor conta que se instalou em Roma uma semana por mês, «permanecendo regularmente dentro do Vaticano graças à hospitalidade de outros prelados que muitas vezes revelaram ser “da paróquia”[3]; “cerca de quarenta cardeais e centenas de bispos, monsenhores, padres e núncios (os embaixadores do Papa) aceitaram encontrar-se comigo. Entre estes, supostos homossexuais, presentes todos os dias no Vaticano, fizeram-me penetrar no seu mundo de insiders».

Entre os seus informadores está o P. Antonio Spadaro, «um jesuíta considerado como uma das eminências cinzentas do papa, com quem eu falava regularmente na sede da revista La Civiltà Cattolica, da qual é o director»Foi ele quem lhe explicou que «o cardeal Burke está à frente da oposição ao Papa». O cardeal Raymond Leo Burke, a quem Martel dedica um capítulo do seu livro, representa logicamente um dos seus alvos. A sua culpa? A de condenar categoricamente a homossexualidade.

A tese de Martel é que por trás de cada “homofóbico” esconde-se, na verdade, um homossexual, mas como nada desse tipo pode ser demonstrado contra o cardeal americano, o activista francês contenta-se com uma descrição minuciosa e caricatural do normalíssimo apartamento cardinalício. «O cardeal – escreve – evoca irresistivelmente, no seu modo de vestir e na sua forma de ser, uma drag-queen[4]». No entanto, admite Martel, «Burke é um dos poucos a ter a coragem das suas opiniões», como também o Arcebispo Viganò, que lhe aparece «como testemunha fiável e a sua carta irrefutável»; «parece-me, no entanto – acrescenta –, que o gesto de Viganò seja mais irracional e solitário do que se acreditava: um acto desesperado, uma vingança pessoal que é, antes de mais, fruto de uma profunda ferida interna».

De que coisa são culpados os clérigos homossexuais? Não de terem violado a lei moral, mas de serem hipócritas e não terem dado testemunho público do seu vício. «Que fique claro que para mim um padre ou um cardeal não deveria ter vergonha de ser homossexual; acho, pelo contrário, que deveria ser um possível status social entre tantos outros». Os homens da Igreja deveriam dizer: somos homossexuais e gabamo-nos disso; e a Igreja deveria dizer: errei ao condenar a homossexualidade.

Esta é a razão pela qual Martel é um defensor da “reforma” do Papa Francisco: «A renúncia de Bento XVI e a vontade de reforma do Papa Francisco contribuem para a liberdade de expressão». «Este papa latino é o primeiro a ter usado a palavra “gay” – e não apenas o termo “homossexual” – e pode ser considerado, comparando-o com os seus predecessores, como o mais “gay-friendly” entre os papas modernosTeve palavras mágicas e contorcidas sobre a homossexualidade: «Quem sou eu para julgar?». E pode-se também pensar que este Papa não tem sequer as tendências ou inclinações que foram atribuídas a quatro dos seus recentes predecessores. No entanto, Francisco é, hoje, o objecto de uma campanha violenta devido ao seu alegado liberalismo em questões de moralidade sexual, levada a cabo por cardeais conservadores que são muito homofóbicos – e, em grande parte, secretamente homofílicos».

«O que não tolera Francisco não é tanto a homofilia difundida, quanto a vertiginosa hipocrisia daqueles que apoiam uma moralidade austera apesar de terem um parceiro, das aventuras e, às vezes, até dos acompanhantes. Por esta razão, flagela incessantemente os falsos devotos, os fanáticos, os fariseus. Esta duplicidade, esta esquizofrenia, têm sido frequentemente denunciadas por Francisco nas suas homilias matinais em Santa Marta. A sua fórmula merece ser colocada em primeiro plano neste livro: «Por trás da rigidez, há sempre algo oculto; em muitos casos, uma vida dupla».

Martel, tal como o Papa Francisco, está convencido de que por trás de cada “homofóbico” existe um “homófilo”, um homem atraído, ou obcecado, pela homossexualidade, quer a pratique ou não. «Poder-se-ia também dizer que há uma regra não escrita que é quase sempre verdadeira em Sodoma: quanto mais um prelado é homofóbico, maior é a probabilidade de que ele mesmo seja homossexual». «Quanto mais um prelado é veemente contra os gays, mais forte é a sua obsessão homofóbica, mais é provável que ele não seja sincero e que a sua veemência nos esconda algo».

O propósito do livro? Derrubar a Bastilha da moral católica. «Cinquenta anos depois de Stonewall, a revolução gay dos Estados Unidos, o Vaticano é o último bastião a libertar! Muitos católicos já intuíram a mentira antes mesmo de lerem a descrição de Sodoma».

Os passos a seguir são: apoiar e encorajar a “reforma” bergogliana; desqualificar os homens da Igreja fiéis à Tradição; impedir que na Igreja se discuta a praga da homossexualidade, especialmente na próxima cimeira. Deve-se notar, no entanto, que o apoio LGBT ao Papa Francisco certamente não o ajudará na situação das graves dificuldades em que se encontra; os cardeais e os bispos demonizados no livro, sairão mais fortes depois deste ataque tão mal conduzido; e se os presidentes das Conferências Episcopais mundiais não lidarem com a questão da homossexualidade, aquele de 21 a 24 de Fevereiro será um encontro fracassado. Mas o que pode ser considerado um fiasco a partir deste momento é o pasquim de Frédéric Martel.

Roberto de Mattei  

12 fevereiro, 2019

A “Arca da fraternidade” e a caridade cristã.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 7 de fevereiro de 2019 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO logotipo da viagem do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos mostra uma pomba com um ramo de oliveira. É uma imagem, explicou o Papa, “que nos traz à memória a narração do dilúvio primordial, presente em várias tradições religiosas. Segundo a narração bíblica, para preservar a humanidade da destruição, Deus pede a Noé para entrar na arca com a sua família. Hoje também nós, em nome de Deus, para salvaguardar a paz, precisamos entrar juntos, como uma única família, numa arca que possa sulcar os mares tempestuosos do mundo: a arca de fraternidade”.

Segundo essa leitura, a Arca de Noé é uma arca da fraternidade na qual convivem homens de diferentes religiões, porque o próprio Deus queria o pluralismo religioso. Com efeito, acrescentou o Papa: “O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos”.

Essa interpretação parece deturpar a doutrina do Evangelho. Com efeito, a Arca, que por ordem divina Noé construiu antes do Dilúvio para seu refúgio, de seus familiares e de todas as espécies animais (Gn 6, 13-22), é apresentada por São Paulo como um refúgio de salvação para os crentes e um sinal de perdição para o mundo (Hebreus 11, 7).

Portanto, a Tradição Católica sempre viu na Arca de Noé o símbolo da Igreja, fora da qual não há salvação (cf. Santo Ambrósio, De Noe et Arca, 6. 9, in Migne, Patrologia Latina, vol. 14 , col. 368-374, e Hugo von Hurter, De arca Noe Ecclesiae typo Patrum sententiae, em Sanctorum Patrum opuscula selecta, III, Innsbruck 1868, pp. 217-233). É por isso que a Igreja tem a missão de preservar e difundir a fé católica.

Nosso Senhor disse aos Apóstolos: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado, será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16, 16). E o Apóstolo dos Gentios reafirma: “Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4, 5).

É o dogma da fé proclamado pelo IV Concílio de Latrão sob Inocêncio III: “Só há uma Igreja universal dos fiéis, fora da qual não há salvação“.

O princípio “nulla salus extra Ecclesiam” não exclui da salvação aqueles que estão fora da Igreja devido a um erro invencível, mas estão orientados a Ela ao menos por um desejo implícito. No entanto, eles são privados da garantia da salvação e dos meios ordinários para alcançá-la.

Esta verdade da fé foi confirmada, entre outros, por Gregório XVI (Mirari Vos, de 15 de agosto de 1832); Pio IX (Singulari quidem, de 17 de março de 1856, aos bispos da Áustria); Leão XIII (Satis cognitum, de 29 de junho de 1896). Na Encíclica Mortalium animos, de 6 de janeiro de 1928, Pio XI explica, por sua vez, que no campo da fé não se pode chegar à unidade fraterna da mesma maneira que no campo político.

Subordinar a verdade da fé à fraternidade significa professar o indiferentismo religioso, condenado de maneira constante pelo Magistério universal da Igreja.

A “Fraternidade”, juntamente com a “Liberdade” e a “Igualdade”, é um dos princípios fundadores da Revolução Francesa. O trinômio revolucionário se reduz a um sistema de relações privado de qualquer princípio transcendente ao qual se referir, pelo que, considerado cada um dos três valores supremos como um absoluto, eles entram necessariamente em conflito um com os outros.

Carente de um fim superior, a fraternidade, em vez de ser um fator de coesão da sociedade, se torna a fonte de sua desintegração. Com efeito, se em nome da fraternidade os homens se virem forçados a uma convivência destituída de um objetivo que dê consistência ao affectio societatis, a “Arca” se torna uma prisão, e, por um impulso centrífugo, a fraternidade imposta no grito estará fadada a se dissolver na fragmentação e no caos.

A simples afirmação da convivência fraterna não é capaz de justificar o sacrifício, que é a mais alta expressão do amor ao próximo; e isto porque sacrifício significa renunciar a um bem real em nome de bens superiores; mas a fraternidade não propõe nenhum bem superior que seja digno de sacrifício, além da convivência, que não é um valor em si, mas apenas um fato, sem um sentido positivo ou negativo. O mito da fraternidade oculta de fato o mais profundo egoísmo social e representa a antítese da caridade cristã, o único fundamento verdadeiro das relações sociais entre os homens.

A Fraternidade também constitui um dogma da maçonaria, que em sua ideologia e seus rituais propõe uma paródia da doutrina e da liturgia cristã. Não foi por acaso que a Grande Loja da Espanha agradeceu ao Papa Francisco por sua Mensagem natalina de 2018 com o seguinte tweet: “Todos los masones del mundo se unen a la petición del Papa por  ‘la fraternidad entre personas de diversas religiones’” (Todos os maçons do mundo se unem ao pedido do papa de ‘fraternidade entre pessoas de diferentes religiões) (https://twitter.com/GranLogiaEspana/status/1082192984161038336).

 “Na sua mensagem de Natal do balcão central do Vaticano – continuam os maçons espanhóis – o Papa Francisco pediu o triunfo da fraternidade universal entre todos os seres humanos. Fraternidade entre pessoas de todas as nações e culturas. Fraternidade entre pessoas de ideias diferentes, mas capazes de se respeitarem e de ouvir o outro. Fraternidade entre pessoas de diferentes religiões. (…) As palavras do Papa demonstram o distanciamento atual da Igreja do conteúdo da Humanum genus (1884), a última grande condenação católica da maçonaria”.

Na realidade, a maçonaria continua a ser condenada pela Igreja, mesmo que os homens da Igreja, nos mais altos escalões, pareçam abraçar suas ideias. Mas o ensinamento do Divino Mestre continua a ressoar nos corações fiéis: ali o amor ao próximo só pode ser fundado no amor de Deus. E sem referência ao verdadeiro Deus, que só pode ser amado sobrenaturalmente dentro da Arca de Salvação da Igreja, a fraternidade é apenas uma palavra vazia que esconde o ódio a Deus e ao próximo.

28 janeiro, 2019

Ousai, Monsenhor!

Um apelo da Fundação Lepanto.

VINTE E CINCO ANOS DEPOIS…

Por Fundação Lepanto | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Há vinte e cinco anos, em 8 de fevereiro de 1994, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução convidando os Estados europeus a promover e proteger legalmente a homossexualidade. No Angelus de 20 de Fevereiro de 1994, o Papa João Paulo II se dirigiu a opinião pública mundial, afirmando que “o que não é moralmente permissível é a aprovação legal da prática homossexual. (…) Com a resolução do Parlamento Europeu, quis-se legitimar uma desordem moral. O Parlamento conferiu indevidamente um valor institucional a comportamentos desviados, em desconformidade com o plano de Deus”.

Em maio daquele ano, o Centro Cultural Lepanto lançou em Estrasburgo, entre os deputados, um manifesto intitulado “Europa, em Estrasburgo representada ou traída”, no qual dirigiu um protesto indignado contra a promoção de um vício condenado pelos cristãos e pela  consciência ocidental e pediu a todos os Bispos europeus “para juntar as suas vozes à do Supremo Pastor, para multiplicar em suas próprias dioceses, para denunciar publicamente a culpa moral que tem manchado a assembleia europeia e colocar em alerta o seu rebanho sobre os crescentes ataques das forças anticristãs no mundo”.

Hoje, um após outro, os grandes Estados europeus, incluindo os de tradição católica mais antiga, elevaram a sodomia a direito legal, reconhecendo, em várias formas, o chamado “casamento gay” e introduzindo o crime de “homofobia”. Pastores da Igreja, que deveriam ter formado uma barragem de oposição à homossexualização da sociedade promovida pela classe política e pelas oligarquias financeiras e da mídia, ficam em silêncio. Mesmo nos níveis mais altos da Igreja, a prática da homossexualidade e da chamada cultura “gay-friendly”, que justifica e encoraja o vício homossexual, espalhou-se como um câncer.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Astana, no Cazaquistão, disse em uma mensagem datada de 28 de julho de 2018, que “estamos testemunhando um cenário incrível, em que alguns padres e até mesmo bispos e cardeais, sem corar, já oferecem grãos de incenso ao ídolo da homossexualidade ou à ideologia de gênero, com o aplauso dos poderosos deste mundo, isto é, com o aplauso de políticos, gigantes da mídia social e poderosas organizações internacionais”.

O arcebispo Carlo Maria Viganò, em seu depoimento histórico de 22 de agosto de 2018, denunciou – utilizando nomes e circunstâncias necessárias – a existência de uma “horda homossexual que subverte a doutrina católica em relação à homossexualidade” e a presença de “redes de homossexuais, que agora são comuns em muitas dioceses, seminários, Ordens religiosas, etc.”  que “agem às escondidas, em sigilo, e se encontram com o poder de tentáculos de polvo, a estrangular as vítimas inocentes e as vocações sacerdotais, que acabam estrangulando a Igreja inteira”.

Essas vozes corajosas permanecem isoladas até hoje. O clima de indiferença e encobrimento que reina dentro da Igreja tem profundas raízes morais e doutrinárias que datam do Concílio Vaticano II, quando as hierarquias eclesiásticas aceitaram o processo de secularização como um fenômeno irreversível. Mas quando a Igreja se submete ao secularismo, o Reino de Cristo torna-se conformado a este mundo e é reduzido a uma mera estrutura de poder. O espírito militante se dissipa e a Igreja, ao invés de converter o mundo à lei do Evangelho, entrega o Evangelho às exigências do mundo.

Quanto tempo para ouvir ressoando mais uma vez as palavras de fogo de um novo São Pedro Damião ou São Bernardino de Siena, em vez da frase do Papa Francisco – “Se uma pessoa é gay e está buscando o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?” Se é verdade que o significado dessa declaração foi distorcido pela mídia, tal abuso deveria ter sido combatido por meio de documentos claros e solenes condenando a sodomia, como o fez São Pio V com as duas constituições Cum Primumd, de 1º de abril de 1566, e Horrendum Illud Scelus, de 30 de agosto de 1568. Em vez disso, a Exortação Apostólica pós-sinodal do Papa Francisco Amoris Laetitia, de 8 de abril de 2016, não só calou sobre essa grave desordem moral, mas relativizou os preceitos da lei natural, abrindo o caminho para a aprovação da coabitação e do adultério.

E é por isso que agora lhe fazemos um apelo, Monsenhor.

SERVIR A IGREJA

O termo “Monsenhor” evoca certa dignidade, não um poder ou uma função burocrática. Cada um dos bispos, como Sucessores dos Apóstolos, é reconhecido com o título de “Monsenhor”, mas os simples sacerdotes também podem receber esse título. A palavra “dignidade” parece ter perdido seu significado hoje, apesar do fato de que houve uma declaração inteira do Vaticano II dedicada a ela. Dignidade significa a consciência de um papel e missão dados por Deus. O respeito pela dignidade de uma pessoa é a fonte do sentimento de honra. Sua dignidade, Monsenhor, deriva da honra que o senhor tem de servir a Igreja, sem buscar seus próprios interesses ou a aprovação dos poderosos. A dignidade de Monsenhor o senhor a recebeu da Igreja, e não dos homens da Igreja, e é à Igreja que o senhor deve prestar contas. A Igreja é a sociedade divina fundada por Jesus Cristo, sempre perfeita e sempre vitoriosa, tanto no tempo como na eternidade. Os homens da Igreja podem servir a Igreja ou traí-la. Servir a Igreja significa colocar os interesses d’Ela, que são os de Jesus Cristo, à frente dos interesses pessoais. Trair a Igreja significa colocar os interesses de uma família, de um instituto religioso ou de uma autoridade eclesiástica como pessoa privada por cima da Verdade da Igreja, que é a Verdade de Jesus Cristo, o único Caminho, a Verdade e a Vida. (João 14:6).

Estaríamos insultando sua inteligência, Monsenhor, se não supusermos sua ciência da crise na Igreja. Certos cardeais eminentes manifestaram em diversas ocasiões seu desconforto e preocupação com o que está acontecendo na Igreja. O mesmo mal-estar é demonstrado pelo homem comum, profundamente desorientado pelos novos paradigmas religiosos e morais. Diante desse mal-estar, Monsenhor, muitas vezes o senhor ergueu os braços, procurando acalmar seu interlocutor, usando palavras como: “Não há nada que possamos fazer além de ficar em silêncio e orar. O Papa não é imortal. Vamos esperar pelo próximo conclave.” É tudo o que podemos fazer – o senhor nos diz. Nós não podemos falar; nós não podemos agir. O senhor adotou o silêncio como regra suprema do seu comportamento. Não estará influindo nessa atitude o servilismo, o egoísmo de quem procura acima de tudo viver calmamente ou o oportunismo daqueles que conseguem adaptar-se com sucesso a todas as situações? Afirmá-lo seria fazer um julgamento sobre suas intenções, e um julgamento sobre intenções não pode ser feito por homens; somente Deus pode fazê-lo no Dia do Juízo, quando cada um de nós permanecerá sozinho diante d’Ele para ouvir Seus lábios pronunciarem a sentença inapelável que nos enviará para a felicidade eterna ou para a eterna condenação.

Nós, que vivemos na Terra, só podemos julgar fatos e palavras, tais como eles aparecem objetivamente. E as palavras com que o senhor explica o seu comportamento, Monsenhor, parecem por vezes mais nobres do que seus verdadeiros sentimentos: “Devemos seguir o Papa, mesmo quando ele nos desagrada, porque ele é a rocha sobre a qual Cristo fundou a Sua Igreja”, ou “devemos evitar um cisma a qualquer custo, porque este seria o desastre mais sério para a Igreja”.

Palavras nobres, porque afirmam verdades. É verdade que o Papa é o fundamento da Igreja e que a Igreja não pode temer nada pior do que um cisma. Mas o que gostaríamos que Monsenhor refletisse é que o caminho do silêncio absoluto que o senhor quer seguir trará maiores danos ao papado e apressará um cisma na Igreja.

É verdade que o Papa é o fundamento da Igreja, mas antes do que nele, a Igreja é fundada em Jesus Cristo. Jesus Cristo é o fundamento primário e divino da Igreja, enquanto Pedro é o fundamento secundário e humano – mesmo que seja verdade que ele é divinamente auxiliado. A assistência divina não exclui a possibilidade de erro ou a possibilidade de pecado. Na história da Igreja não faltaram papas que pecaram ou erraram, sem que isso prejudicasse a instituição do papado. Dizer que “é preciso sempre seguir o Papa e nunca afastar-se dele” enquanto se recusa a corrigi-lo respeitosamente em casos excepcionais, significa atribuir à Igreja todos os erros que ao longo dos séculos têm sido feitos pelos homens da Igreja. A ausência dessa distinção entre a Igreja e os homens da Igreja permite que os inimigos da Igreja a ataquem, e que muitos falsos amigos da Igreja se recusem a servi-la verdadeiramente.

Igualmente carregada de consequências é a afirmação de que romper o silêncio, dizer a verdade e denunciar – se necessário – a infidelidade do próprio Supremo Pastor levaria a um cisma. A palavra “cisma” significa divisão, e nunca neste momento de sua história a Igreja apareceu tão dividida e fragmentada internamente. Dentro de cada nação, dentro de cada diocese, mesmo dentro de cada paróquia, é impossível chegar a um acordo sobre uma maneira comum de viver segundo o Evangelho, porque cada um experimenta e vive um cristianismo de modo diferente – tanto litúrgica quanto dogmaticamente –, construindo cada um sua própria religião, de tal maneira que a única coisa que permanece em comum é o nome “católico”, mas a essência do catolicismo não está mais presente. Quais são as razões para essa fragmentação? A estrela que ilumina o caminho desapareceu, e os fiéis fazem o seu percurso na escuridão da noite, seguindo opiniões pessoais e sentimentos sem uma só voz que os lembre de quais são a doutrina e a práxis imutáveis da Igreja. O cisma está sendo causado pela escuridão, que é filha do silêncio. Só vozes claras, vozes cristalinas, vozes totalmente fiéis à tradição, são capazes de dissipar as sombras e permitir que bons católicos superem as divisões provocadas por este pontificado, e para evitar à Igreja novas humilhações além daquelas que já lhe foram infligidas pelo Papa Francisco. Existe apenas uma maneira de salvar a Igreja do cisma: Proclamem a Verdade. Permanecendo em silêncio, apenas aprofundaremos o cisma.

UM APELO URGENTE

Monsenhor, o senhor que goza de certa dignidade, que exerce uma autoridade moral, que recebeu uma herança, do quê tem medo? O mundo pode atacá-lo com difamações e injúrias. Seus superiores podem privá-lo de sua autoridade e dignidade externa. Mas é ao Senhor que deve prestar contas, como deverá cada um de nós no Dia do Juízo, quando tudo será pesado e julgado segundo a medida. Não nos pergunte o que o senhor deve fazer concretamente. Se o senhor tiver a coragem de falar, o Espírito Santo não deixará de sugerir à sua consciência momentos, caminhos e tons para vir a público, a fim de ser “a luz do mundo, a cidade situada em uma colina, uma lâmpada colocada num candelabro” (Mateus 5: 13-16).

O que nós lhe pedimos, Monsenhor, é que assuma uma atitude crítica filial, de resistência respeitosa, de devota separação moral daqueles responsáveis pela autodestruição da Igreja. Ouse encorajar abertamente os que defendem internamente a Igreja e professam de público a Verdade inteira da Fé Católica. Ouse procurar outros que se juntem ao senhor e a nós para emitir o brado de guerra e amor levantado por São Luís de Grignion de Montfort em sua “Oração Abrasada” com as palavras proféticas: “Fogo! Fogo! Fogo! Fogo na Casa de Deus! Fogo nas almas! Fogo até mesmo no Santuário!”.

Línguas de fogo como aquelas do dia de Pentecostes, assim como flashes de fogo como aqueles do Inferno, parecem se abater sobre a terra. Um fogo destruidor, um fogo purificador; um fogo restaurador, destinado a abarcar o mundo todo, a consumi-lo e transformá-lo. Que se acenda dentro de nós o fogo divino antes que o faça o fogo da ira de Deus, que reduzirá nossa sociedade a cinzas, como aconteceu com Sodoma e Gomorra. E esta é a razão pela qual, vinte e cinco anos depois da infeliz resolução do Parlamento Europeu, vos faço agora este apelo, pelo bem das almas, a honra da Igreja e a salvação da sociedade.

Monsenhor, por favor, aceite este apelo, que é também uma invocação à Santíssima Virgem e aos Anjos para que intervenham o quanto antes a fim de salvar a Igreja e o mundo inteiro.

Monsenhor, assuma com coragem essa causa santa em 2019, e nos encontrará batalhando ao seu lado nessa boa luta!

Roberto de Mattei – Presidente da Fundação Lepanto

Escrito aos pés da Manjedoura, neste primeiro sábado de janeiro de 2019, Vigília da Epifania do Senhor.

20 setembro, 2018

Igreja e homens de Igreja.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 12 de setembro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com:  A corajosa denúncia dos escândalos eclesiásticos feita pelo arcebispo Carlo Maria Viganò suscitou a aprovação de muitos, mas também a desaprovação de alguns, convencidos de que se deve cobrir de silêncio tudo aquilo que desacredite os representantes da Igreja.

Esse desejo de proteger a Igreja é compreensível quando o escândalo é uma exceção. Pois em tal caso há o risco de generalizar, atribuindo a todos o comportamento de alguns. Diferente é quando a imoralidade constitui a regra, ou pelo menos um modo de vida generalizado e aceito como normal.

Neste caso, a denúncia pública é o primeiro passo para a necessária reforma dos costumes. Quebrar o silêncio faz parte dos deveres do pastor, como adverte São Gregório Magno: “O que representa, com efeito, para um pastor o ter medo de dizer a verdade senão virar as costas ao inimigo com o seu silêncio? Se em vez disso ele luta pela defesa do rebanho, ele constrói um baluarte contra os inimigos para a casa de Israel. É por isso que o Senhor adverte pelos lábios de Isaías: ‘Clama em alta voz, sem constrangimento; faze soar a tua voz como o trompete’ (Is 58, 1).”

Nas origens de um silêncio culposo há muitas vezes uma falha em distinguir entre a Igreja e os homens da Igreja, sejam estes simples fiéis, bispos, cardeais ou papas. Uma das razões para essa confusão é precisamente a eminência das autoridades envolvidas nos escândalos.

Quanto maior a sua dignidade, mais se tende a identificá-los com a Igreja, atribuindo o bem e o mal indiferentemente a eles e a Ela. Na realidade, o bem pertence somente à Igreja, enquanto todo o mal se deve apenas aos homens que a representam.

É por isso que a Igreja não pode ser chamada de pecadora.  “Ela – escreve o padre Roger T. Calmel O.P. (1920-1998) – pede perdão ao Senhor não por pecados que Ela teria cometido, mas pelos pecados que cometemos seus filhos, na medida em que não a ouvimos como Mãe” (Breve apologia da Igreja de sempre, Editora Ichtys, Albano Laziale 2007, p. 91).

Todos os membros da Igreja, tanto os da esfera docente como os da discente, são homens cuja natureza foi ferida pelo pecado original. Nem o batismo torna os fiéis impecáveis, nem a Ordem sagrada torna tais os membros da Hierarquia. Até mesmo o Sumo Pontífice pode pecar e errar, exceto quando faz uso do carisma da infalibilidade.

Devemos também lembrar que não foram os fiéis que constituíram a Igreja, como acontece nas sociedades humanas, criadas pelos membros que as compõem, e que se dissolvem quando esses se separam.

Dizer “Nós somos Igreja” [n.d.t.: nome de um movimento internacional que visa democratizar a Igreja] é falso, porque a pertencença dos batizados à Igreja não deriva de sua vontade: é o próprio Cristo que convida a fazer parte do seu rebanho, repetindo a todos: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi” (Jo 15, 16). A Igreja fundada por Jesus Cristo tem uma constituição humano-divina: humana, porque possui um componente natural e receptivo, composto por todos os fiéis, sejam eles membros do clero ou do laicato; e outro sobrenatural e divino, por sua alma.

Jesus Cristo, sua Cabeça, é o seu fundamento, enquanto o Espírito Santo é o seu propulsor sobrenatural. Assim, a Igreja não é santa por causa da santidade de seus membros, mas seus membros é que são santificados por Jesus Cristo, que A dirige, e pelo Espírito Santo, que lhe dá vida. Portanto, atribuir alguma culpa à Igreja é o mesmo que atribuí-la a Jesus Cristo e ao Espírito Santo. Deles procede todo o bem, ou seja, “tudo que é verdadeiro, tudo que é nobre, tudo que é justo, tudo que é puro, tudo que é amável, tudo que é de boa fama, tudo que é virtuoso e louvável” (Fil.4, 8), e dos homens da Igreja procede todo o mal: desordens, escândalos, abusos, violência, torpezas, sacrilégios.

 “Portanto – escreve o teólogo passionista Enrico Zoffoli (1915-1996), que dedicou algumas belas páginas a este tema –, não temos nenhum interesse em encobrir as faltas dos maus cristãos, padres indignos, pastores covardes, ineptos, desonestos e arrogantes. Ingênua e inútil seria a intenção de defender sua causa, atenuar sua responsabilidade, reduzir as consequências de seus erros, recorrer a contextos históricos e situações singulares para depois tudo explicar e tudo absolver” (Igreja e homens de Igreja, Edições Segno, Udine 1994, p.41).

Existe hoje uma grande sujeira na Igreja, como disse o então cardeal Ratzinger na Via Crucis da Sexta-feira Santa de 2005, que precedeu a sua ascensão ao pontificado. “Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! (Jesus)”

O testemunho de Mons. Carlo Maria Viganò é meritório porque, trazendo à luz essa sujeira, torna mais urgente o trabalho de purificação da Igreja. Deve ficar claro que a conduta de bispos ou padres indignos não se inspira nos dogmas ou na moral da Igreja, antes ela trai uns e outra, porque representa uma negação da lei do Evangelho.

O mundo que atribui à Igreja as culpas desses clérigos acusa-a de transgredir a ordem moral. Mas em nome de que lei e de que doutrina pretende o mundo colocar a Igreja no banco dos réus? A filosofia de vida professada pelo mundo moderno é o relativismo, que não reconhece verdades absolutas e sustenta que a única lei do homem é ser isento de leis. A consequência prática é o hedonismo, segundo o qual a única forma possível de felicidade é a fruição do próprio prazer e a satisfação dos instintos. Como pode um mundo desprovido assim de princípios, pretender julgar e condenar a Igreja? A Igreja é que tem o direito e o dever de julgar o mundo, porque possui uma doutrina absoluta e imutável.

O mundo moderno, filho dos princípios da Revolução Francesa, desenvolve com coerência as ideias do famoso libertino, o Marquês de Sade (1740-1814): amor livre, blasfêmia livre, liberdade para negar e destruir qualquer bastião da fé e da moral como nos dias da Revolução Francesa foi destruída a Bastilha onde Sade tinha estado preso. O resultado de tudo isso foi a dissolução da moral, que destruiu os fundamentos da convivência civil e tornou os últimos dois séculos a época mais sombria da História.

A vida da Igreja é também a história de traições, de deserções, de apostasias, de falta de correspondência à graça divina. Mas esta trágica fraqueza vai sempre acompanhada de uma extraordinária fidelidade: as quedas, mesmo as mais assustadoras, de muitos membros da Igreja, estão entrelaçadas com o heroísmo da virtude de muitos outros de seus filhos.

Um rio de santidade flui do lado de Cristo e corre luxuriante ao longo dos séculos: são os mártires que enfrentam as feras do Coliseu; são os eremitas que deixam o mundo para levar uma vida de penitência; são os missionários que vão até os confins da terra; são os intrépidos confessores da fé que combatem cismas e heresias; são os religiosos contemplativos que sustentam com sua oração os defensores da Igreja e da Civilização Cristã; são todos aqueles que, de diferentes maneiras, conformaram as suas vidas à vida divina. Santa Teresa do Menino Jesus queria reunir todas essas vocações em um único e supremo ato de amor a Deus.

Os santos são diferentes uns dos outros, mas o que há de comum em todos eles é a união com Deus: e essa união, que nunca diminui no Corpo Místico de Cristo, faz com que a Igreja, antes mesmo de ser una, católica e apostólica, seja acima de tudo perfeitamente santa. A santidade da Igreja não depende da santidade de seus filhos: é ontológica, porque está ligada à sua própria natureza. Para que a Igreja possa ser chamada de santa, não é necessário que todos os seus filhos vivam santamente: basta que, graças ao fluxo vital do Espírito Santo, uma parte deles, ainda que pequena, permaneça heroicamente fiel à lei do Evangelho em tempos de provação.

30 agosto, 2018

“Eu não vou dizer uma palavra sobre isso”.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 29 de agosto de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com – “Eu não vou dizer uma palavra sobre isso.” Com esta frase, pronunciada em 26 de agosto de 2018 no voo de volta de Dublin a Roma, o Papa Francisco reagiu às impressionantes revelações do arcebispo Carlo Maria Viganò, que o colocavam diretamente em causa. Para a jornalista Anna Matranga (NBC), que lhe perguntara se era verdade o que foi escrito pelo ex-núncio nos Estados Unidos, o Papa respondeu: “Li essa declaração esta manhã. Eu a li e sinceramente tenho que lhe dizer isso, para você e para todos aqueles que estão interessados: leia, cuidadosamente, a declaração e faça seu próprio julgamento. Não vou dizer uma palavra sobre isso. Eu acredito que a declaração fala por si, e você tem capacidade jornalística suficiente para tirar conclusões. É um ato de confiança: quando tiver passado algum tempo e você tiver tirado conclusões, talvez eu fale. Mas eu gostaria que sua maturidade profissional fizesse esse trabalho: vai te fazer bem, de verdade. Fica bem assim.”

Um arcebispo rompe o clima de silêncio e conivência e denuncia, com nomes e circunstâncias específicos, a existência de uma “corrente filo-homossexual favorável a subverter a doutrina católica em relação à homossexualidade” e a presença de “redes de homossexuais difundidas atualmente em muitas dioceses, seminários, Ordens religiosas, etc.”, que “encobrem o segredo e a mentira com o poder dos tentáculos de um polvo e esmagam vítimas inocentes, vocações sacerdotais e estrangulam toda a Igreja”. Diante dessa voz corajosa que rompe o silêncio, o Papa Francisco se cala e confia aos meios de comunicação de massa a tarefa de julgar segundo seus critérios políticos e mundanos, muito diferentes dos critérios religiosos e morais da Igreja. Um silêncio que parece ainda mais grave do que os escândalos revelados pelo arcebispo Viganò.

Esta lepra se desenvolveu após o Concílio Vaticano II, como resultado de uma nova teologia moral que negava os absolutos morais e reivindicava o papel da sexualidade fora do casamento, hétero e homossexual, considerada como um fator de crescimento e desenvolvimento da pessoa humana. A homossexualização da Igreja se espalhou nos anos setenta e oitenta do século XX, como testemunha o livro, meticulosamente documentado, do padre Enrique Rueda, The Homosexual Network: Private Lives And Public Policy [A rede homossexual: vidas privadas e políticas públicas], publicado em 1982.

Para se entender como a situação não fez desde então senão agravar-se, é essencial ler o estudo Homossexualidade e sacerdócio – O nó górdio dos católicos? (Poznań Theological Studies, 31, 2017, pp. 117-143), pelo Prof. Andrzej Kobylinski, da Universidade Cardeal Stefan Wyszynski de Varsóvia (https://journals.indexcopernicus.com/api/file/viewByFileId/261531.pdf). Kobylinski cita um livro intitulado The Changing Face of the Priesthood: A Reflection on the Priest’s Crisis of Soul [A face mutante do sacerdócio: uma reflexão sobre a crise de alma do sacerdote], de Donald Cozzens, Reitor do Seminário em Cleveland, Ohio, onde o autor diz que, no início do século XXI, o sacerdócio tornou-se uma “profissão”, eminentemente exercida por homossexuais, podendo-se falar de um “êxodo heterossexual do sacerdócio”.

Há um caso emblemático que Kobylinski recorda – aquele do arcebispo de Milwaukee (Wisconsin), Rembert Weakland, aclamado expoente da corrente progressista e “liberal” americana: “Weakland encobre, há décadas, casos de abuso sexual de padres, apoiando uma visão da homossexualidade contrária à do Magistério da Igreja Católica. No final do exercício episcopal, ele também deu um desfalque enorme, roubando quase meio milhão de dólares dos cofres de sua arquidiocese para pagar seu ex-parceiro que o acusava de assédio sexual. Em 2009, Weakland fez o seu ‘coming out’, publicando uma autobiografa intitulada A Pilgrim in a Pilgrim Church [Um peregrino em uma Igreja peregrina], na qual ele admitiu ser homossexual e ter tido durante décadas relações sexuais seguidas com muitos parceiros. Em 2011, a Arquidiocese de Milwaukee foi forçada a declarar falência, devido ao alto custo das indenizações devidas às vítimas de padres pedófilos”.

Em 2004 apareceu o John Jay Report [título baseado no nome da seção especializada em justiça penal da Universidade da Cidade de Nova Iorque, que o preparou], documento preparado a pedido da Conferência Episcopal Americana, no qual foram analisados todos os casos de abuso sexual de menores por padres e diáconos católicos nos EUA nos anos 1950-2002. “Este documento de quase 300 páginas tem um valor informativo extraordinário – escreve Kobyliński. O John Jay Report demonstrou a ligação entre a homossexualidade e o abuso sexual de menores pelo clero católico. De acordo com o relatório de 2004, na grande maioria dos casos de abuso sexual, não é uma questão de pedofilia, mas de efebofilia, ou seja, uma perversão que não consiste em atração sexual pelas crianças, mas por adolescentes na puberdade. O John Jay Report mostrou que cerca de 90% dos padres condenados por abuso sexual infantil são padres homossexuais”.

Portanto, o escândalo de McCarrick não é senão o último ato de uma crise que vem de longe. No entanto, na Carta do Papa ao Povo de Deus, e ao longo de sua jornada na Irlanda, o Papa Francisco nunca denunciou essa desordem moral. O Papa acredita que no abuso sexual pelo clero o principal problema não é a homossexualidade, mas o clericalismo. Referindo-se a esses abusos, o historiador progressista Alberto Melloni escreve que “Francisco finalmente confronta o crime no plano eclesiológico: e o confia àquele agente teológico que é o povo de Deus. Ao povo Francisco diz sem rodeios que é o ‘clericalismo’ que incubou essas atrocidades, não um excesso ou uma insuficiência de moral” (La Repubblica, 21 de agosto de 2018).

“Le cléricalisme, voilà l’ennemi!” – “O clericalismo, eis o inimigo!” A famosa frase pronunciada em 4 de maio de 1876 na Câmara de Deputados francesa por Léon Gambetta (1838-1882), um dos expoentes máximos do Grande Oriente da França, poderia ser adotada pelo Papa Francisco. Essa frase, no entanto, é considerada a palavra de ordem do laicismo maçônico do século XIX e foi por sua aplicação que os governos da Terceira República Francesa realizaram nos anos seguintes um programa político “anticlerical” que teve como etapas a laicização completa do ensino, a expulsão dos religiosos do território nacional, o divórcio, a abolição da concordata entre a França e a Santa Sé.

O clericalismo de que fala o Papa Francisco é aparentemente diferente, mas no final das contas ele corresponde àquela concepção hierárquica tradicional da Igreja, que foi combatida ao longo dos séculos pelos galicanos, pelos liberais, pelos maçons e pelos modernistas. Para reformar a Igreja, purificando-a do clericalismo, o sociólogo italiano Marco Marzano sugere ao Papa Francisco este caminho: “Pode-se, por exemplo, começar a retirar completamente dos párocos o governo das paróquias, privando-os das funções de governo (financeiro e pastoral) absoluto e monocrático das quais se beneficiam hoje. Introduzindo um elemento importante de democracia, poder-se-ia tornar os bispos elegíveis. Poder-se-ia fechar os seminários, instituições da Contra-Reforma nas quais o clericalismo como espírito de casta é ainda hoje exaltado e cultivado, substituindo-os por estruturas de formação abertas e transparentes. Pode-se, sobretudo, suprimir a regra sobre a qual o clericalismo na maioria das vezes se funda hoje (e que é também a base da grande maioria dos crimes sexuais do clero), que é o celibato obrigatório. É justamente a suposta castidade do clero, com todo o corolário de pureza e sacralidade sobre-humana que a acompanha, que estabelece a premissa principal do clericalismo” (Il Fatto quotidiano, 25 de agosto, 2018).

Quem quer eliminar o clericalismo, quer de fato destruir a Igreja. E se, em vez disso, se entende o clericalismo como o abuso de poder exercido pelo clero quando abandona o espírito do Evangelho, não há clericalismo pior do que o daqueles que renunciam a estigmatizar pecados gravíssimos como a sodomia e deixam de recordar que a vida cristã deve necessariamente terminar no céu ou no inferno.

Nos anos seguintes ao Vaticano II, grande parte do clero abandonou o ideal da realeza social de Cristo e aceitou o postulado da secularização como um fenômeno irreversível. Mas quando o Cristianismo se submete ao laicismo, o Reino de Cristo é transformado em um reino mundano e reduzido a uma estrutura de poder. O espírito militante é substituído pelo espírito do mundo. E o espírito do mundo impõe silêncio sobre o drama que a Igreja está vivendo atualmente.

17 agosto, 2018

40 anos da morte de Paulo VI.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 15 de agosto de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: No dia 6 de agosto último transcorreram quarenta anos da morte de Giovanni Battista Montini, cujo pontificado sob o nome de Papa Paulo VI (1963 a 1978) mudou a vida da Igreja no século XX.

Papa Paulo VIGiovanni Battista Montini nasceu em Concesio, perto de Brescia, em 26 de setembro de 1897. Seu ambiente familiar era caracterizado por uma forte tendência ao liberalismo e uma semente jansenista, expressa especialmente no campo litúrgico. Na sua formação juvenil influenciou-o também o liturgismo pró-modernista do sacerdote oratoriano Giulio Bevilacqua, seu diretor espiritual, que em 1965 recebeu o capelo cardinalício de suas mãos. Em 19 de maio de 1920, com apenas vinte e dois anos, o jovem Montini foi ordenado sem ter cursado os estudos teológicos no Seminário, por causa de sua saúde frágil. Chegado a Roma, foi chamado para a Secretaria de Estado e nomeado assistente eclesiástico da FUCI (Federação Universitária Católica Italiana), atividade que o envolveu intensamente, mas da qual foi removido por suas ideias litúrgicas “inovadoras” e uma forte tendência à “politização” dos jovens. Seu pai, Giorgio, tinha sido um membro do Partido Popular italiano, e a política, juntamente com a liturgia, permaneceu sempre uma de suas grandes paixões.

Em dezembro de 1937, Mons. Montini foi promovido a Substituto da Secretaria de Estado, sucedendo a Mons. Amleto Tardini. Ele não tinha experiência diplomática, salvo alguns meses passados ​​na Nunciatura em Varsóvia, mas trabalhou quase continuamente na Secretaria de Estado, até 1954, quando Pio XII nomeou-o arcebispo de Milão, sem atribuir-lhe o chapéu cardinalício. A promoção foi de fato uma “remoção”, cujas razões ainda não estão claras. De acordo com o cardeal Siri, Montini foi enviado a Milão após o parecer negativo de uma comissão secreta criada pelo Papa Pio XII, que tinha perdido a confiança no Substituto por sua proteção ao presidente da Juventude da Ação Católica, Mario Rossi, que estava lutando por uma Igreja aberta ao socialo-comunismo. O cardeal Casaroli confiou a Andrea Tornielli que as relações do Papa com seu colega de trabalho estavam se deteriorando pelos contatos de Montini com ambientes da esquerda política italiana a não sabendas de Pio XII. Do epistolário de Mons. Montini com o padre Giuseppe De Luca se pode presumir que através deste último o Substituto manteve relações com os católicos comunistas e setores do Partido Comunista Italiano. O historiador Andrea Riccardi, por sua vez, recorda que algumas nomeações de bispos na Lituânia tinham dado origem a rumores sobre uma infidelidade de Montini nas relações entre a Santa Sé e a Rússia Soviética. Esses rumores remontam a um “relatório secreto” do coronel Claude Arnould, que recebeu dos serviços de inteligência franceses o encargo de investigar a filtração de informações confidenciais aos governos comunistas orientais a partir da Secretaria de Estado. Arnould havia rastreado a responsabilidade pelo vazamento de notícias até Mons. Montini e seu séquito, alertando o Vaticano.

O Arcebispo de Milão certamente foi um progressista, admirador da nouvelle théologie e do “humanismo integral” de Jacques Maritain. Após a morte de Pio XII, ocorrida em 15 de dezembro de 1958, o recém-eleito Papa João XXIII o elevou à púrpura cardinalícia, permitindo-lhe participar do próximo Conclave. Quando, em 1962, o Concílio Vaticano II se abriu, o nome do Arcebispo de Milão era mencionado pelos jornalistas junto aos porta-estandartes do progressismo, como os cardeais König, Arcebispo de Viena; Frings, de Colônia; Döpfner, de Munique; Alfrink, de Utrecht, e Suenens, de Malines. Dom Helder Câmara recorda em suas cartas conciliares uma reunião que teve com o cardeal Suenens, na qual concordaram com o nome de Montini como o melhor sucessor de João XXIII.

Após a morte do Papa Roncalli, ocorrida em 3 de junho de 1963, o confronto no Conclave foi duro, mas apesar da forte oposição do cardeal Ottaviani, em 21 de junho o cardeal Montini ascendia ao trono de Pedro com o nome de Paulo VI. Em 22 de junho, o novo Papa dirigiu sua primeira mensagem radiofônica a “toda a família humana” e anunciou que a parte preeminente de seu pontificado seria dedicada à continuação do Concílio Ecumênico Vaticano II. No dia seguinte, no Angelus na Praça de São Pedro, na janela do Palácio Apostólico, ele chamou ao seu lado o cardeal Suenens, a quem atribuiu um papel dominante na orientação dos trabalhos conciliares.

Paulo VI apoiou desde o início a “abertura à esquerda” dos democratas-cristãos, que em 23 de novembro de 1963, sob a liderança de Aldo Moro, formaram o primeiro governo italiano com os socialistas. Pelo menos duas vezes, entre 1963 e 1964, ele interveio, através de alguns artigos no L’Osservatore Romano, em apoio à ação política de Moro.

No Concílio, Paulo VI foi quem bloqueou pessoalmente, em 1965, a iniciativa de quase quinhentos padres conciliares que exigiam a condenação do comunismo. No plano internacional, a exemplo de seu antecessor, ele apoiou a chamada Ostpolitik, que estendeu a mão aos regimes comunistas da Europa Oriental. Uma das vítimas mais ilustres dessa política foi o cardeal József Mindszenty, que havia se refugiado na embaixada dos EUA em Budapeste após a revolta húngara de 1956 e permaneceu firme contra qualquer hipótese de acordo com os governos comunistas. Quando Paulo VI pediu-lhe que renunciasse ao título de Arcebispo de Esztergom e de Primaz da Hungria, o Cardeal respondeu com uma recusa respeitosa, mas clara. Paulo VI assumiu a responsabilidade de declarar vaga a arquidiocese primacial, comunicando ao cardeal Mindszenty, em 18 de novembro de 1973, sua remoção do arcebispado. Foi um escândalo que marcou época.

No discurso de abertura do segundo período do Concílio, em 29 de setembro de 1963, Paulo VI colocava na liturgia um dos principais campos de atuação dos Padres conciliares. Quis-se fazer de Mons. Annibale Bugnini, religioso lazarista, o “arquiteto” da reforma litúrgica contra a vontade de Paulo VI. Na realidade, como testemunha o próprio Bugnini, a nova liturgia nasceu de uma estreita colaboração entre ambos. “Quantas horas da noite – recorda Mons. Bugnini – passei com ele estudando juntos os numerosos, muitas vezes volumosos dossiês que se empilhavam sobre sua mesa! Ele lia e considerava linha por linha, palavra por palavra, escrevendo tudo em preto, vermelho e azul, criticando, se necessário, com sua tão característica dialética que podia levantar dez questões sobre um mesmo ponto.” O desfecho desta revolução na Igreja foi a elaboração do Novus Ordo Missae, promulgado por Paulo VI em 3 de Abril de 1969. Em outubro de 1969, o cardeais Ottaviani e Bacci apresentaram ao Papa um Breve exame crítico do Novus Ordo Missae elaborado por um grupo de teólogos de diversas nacionalidades, no qual eles afirmavam que “o Novus Ordo Missae […] representa, quer em seu todo, quer nos seus  detalhes, um surpreendente afastamento da teologia católica da Missa tal como ela foi formulada na XXII sessão do Concílio de Trento”.

O que estava acontecendo naqueles anos dramáticos não passava despercebido de Paulo VI. Em 18 de Janeiro de 1967, o cardeal Journet transmitiu-lhe a sugestão de Maritain de uma nova “profissão de fé” que restabelecesse as verdades fundamentais do Cristianismo, distorcidas nos anos pós-Concílio. Naquela ocasião, Paulo VI pediu ao cardeal suíço um julgamento sobre a situação da Igreja. “Trágica”, foi a resposta lapidar de Journet. Em 7 de dezembro de 1968, em um discurso no Seminário Lombardo, Paulo VI teve palavras impressionantes: “A Igreja está passando hoje por um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica, pode-se até dizer a autodemolição. É como uma convulsão interna aguda e complexa que ninguém esperaria depois do Concílio.” Três anos mais tarde, em 29 de junho de 1972, referindo-se à situação da Igreja, Paulo VI disse com igual clareza “ter a sensação de que por alguma fissura a fumaça de Satanás penetrou no templo de Deus. […] Acreditava-se que após o Concílio teria chegado um dia ensolarado para a história da Igreja. Em vez disso, um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza”. Para superar a crise, o Papa seguiu a estratégia política de condenação dos “extremistas de ambos os lados”, que consistia em uma atitude de benévola indulgência para com as posições dos progressistas e severas sanções contra aqueles que, como o arcebispo francês Marcel Lefebvre, desejavam permanecer fiéis à Tradição da Igreja.

Dois acontecimentos perturbaram profundamente a vida de Paulo VI: a contestação que sofreu no verão de 1968 e, dez anos depois, a morte de Aldo Moro.

Paulo VI não compartilhava a posição do cardeal Suenens, que estava pressionando para que o uso da pílula contraceptiva fosse autorizado. E apesar da opinião contrária dos “especialistas” nomeados por ele para estudar o problema, reiterou em 25 de julho de 1968 a condenação da contracepção com a encíclica Humanae Vitae. A este documento contrário à corrente seguiu-se um violento protesto conduzido por teólogos, bispos e conferências episcopais inteiras, começando pela belga, presidida pelo Cardeal Suenens. Paulo VI se sentiu traído pelos Padres conciliares mais próximos a ele, os quais, por sua vez, o consideraram um “traidor”, contrapondo-lhe a utopia do “Papa bom” João XXIII. Ficou tão perturbado que nenhuma encíclica foi promulgada pelo Papa Paulo VI nos próximos dez anos, embora ele continuasse a acompanhar de perto a política italiana, incentivando a tentativa de seu amigo de infância Aldo Moro, de realizar, após a abertura à esquerda, o compromisso histórico com os comunistas.

Em 16 de março de 1978, dia em que se deveria com o apoio externo do Partido Comunista dar um voto de confiança ao governo liderado por Giulio Andreotti, as Brigadas Vermelhas sequestraram Moro, matando na emboscada os cinco homens de sua escolta. Paulo VI ficou chocado. No dia seguinte, através de uma declaração da Secretaria de Estado, ele anunciou que daria todo o seu apoio moral e material para salvar a vida do presidente da Democracia Cristã. Em 22 de abril, o Papa escreveu uma carta aberta “aos homens das Brigadas Vermelhas”, como ele definiu os terroristas, implorando-lhes de joelhos que libertassem Aldo Moro sem condições, “não tanto por causa da minha intercessão humilde e cordial, mas em virtude de sua dignidade como um irmão em humanidade”. O premente apelo ficou desatendido. Em 9 de maio, o corpo do presidente da Democracia Cristã foi encontrado no porta-malas de um Renault, na via Caetani, a poucos metros dos escritórios do Partido Comunista e da Democracia Cristã. Esse foi – recorda o secretário de Paulo VI, Mons. Macchi –  “um golpe mortal que marcou sua pessoa, já enfraquecida pela doença e pela velhice”.

No dia 13 de maio, na Basílica de São João de Latrão, o Papa compareceu à cerimônia fúnebre celebrada pelo cardeal vigário Ugo Poletti e fez um discurso que pareceu quase uma repreensão a Deus por não ter ouvido o pedido de salvação de Aldo Moro. O trágico acontecimento acelerou o declínio de suas forças. Em meados de julho, Paulo VI deixou Roma para se fixar na residência de verão de Castelgandolfo, onde morreu às 21h40 do dia 6 de agosto de 1978. As mensagens de pesar pela morte de Paulo VI foram inumeráveis. As palavras do ex-Grão-Mestre do Grande Oriente da Itália, Giordano Gamberini, impressionaram: “É a primeira vez na história da Maçonaria moderna que morre o chefe da maior religião ocidental, não em estado de hostilidade com os maçons. E pela primeira vez na história, os maçons podem homenagear o túmulo de um papa, sem ambigüidade ou contradições.”

Eu estava em Savigliano (Piemonte), na vila do filósofo Augusto Del Noce (1910-1989), com Giovanni Cantoni e Agostino Sanfratello, quando recebemos a notícia da morte de Paulo VI. Lembro-me que alguém presente deixou escapar um Deo gratias! Augusto Del Noce foi, em particular, um severo crítico do pontificado de Montini e a esperança estava viva em nós, que com o falecimento de Paulo VI a fumaça de Satanás que penetrou no Templo de Deus seria dissipada. Nos sucessivos pontificados, porém, as janelas por onde a fumaça penetrava foram fechadas apenas parcialmente e agora estão de novo escancaradas. A fumaça de Satanás se transformou em um incêndio que assola a Igreja, como os incêndios que, da Grécia à Califórnia, se intensificam neste verão quente. O papa que há quarenta anos desapareceu, e de quem uma canonização surpreendente foi anunciada, foi um dos principais culpados do incêndio que se propaga hoje.

10 agosto, 2018

A liceidade da pena de morte é uma verdade de fé católica.

Por Roberto de Mattei, LifeSiteNews, 3 de agosto de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com:  A liceidade da pena de morte é uma verdade fide tenenda, definida de modo constante e inequívoco pelo Magistério ordinário e universal da Igreja. Quem afirmar que a pena capital é em si mesma um mal, cai em heresia.

O ensinamento da Igreja a tal respeito foi claramente expresso na carta de 18 de dezembro de 1208, na qual Inocêncio III condena a posição valdense com estas palavras, transcritas por Denzinger: “De potestate saeculari asserimus, quod sine peccato mortali potest iudicium sanguinis exercere, dummodo ad inferendam vindictam non odio, sed iudicio, não incaute, sed consulte procedat” (Enchiridion symbolorum, definitionum et declaratium de rebus fidei et morum, editado por Peter Hünermann SJ, nº 795). (Quanto ao poder secular, afirmamos que se pode exercer a pena de morte sem pecado mortal, desde que ao infligir tal punição não se proceda por ódio, mas com juízo, não de maneira imprudente, mas com moderação).

A mesma posição foi reiterada pelo Catecismo do Concílio de Trento (Terceira Parte, nº 328), pelo Catecismo Maior de São Pio X (Terceira Parte, nº 413) e pelo novo Catecismo da Igreja Católica (nº 2267). O Papa Francisco assinou agora um rescrito que modifica o Catecismo com esta nova formulação: “A Igreja ensina, à luz do Evangelho, que ‘a pena de morte é inadmissível porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa’, e se empenha com determinação por sua abolição em todo o mundo.”

Segundo o Prefeito da Congregação para a Fé, cardeal Luis Ladaria, o novo texto segue os passos do ensinamento de João Paulo II na encíclica Evangelium vitae, mas a diferença é radical. Nesta, João Paulo II acredita que nas atuais circunstâncias históricas a Igreja deveria ser a favor da abolição da pena de morte, mas afirma que em si mesma ela não é injusta e que o mandamento “não matar” só tem valor absoluto “quando se refere à pessoa inocente” (nºs 56-57). Pelo contrário, o Papa Francisco considera a pena capital inadmissível, negando abertamente uma verdade definida infalivelmente pelo Magistério ordinário da Igreja.

Para justificar essa mudança, apela-se para condições sociológicas mutáveis. No rescrito do Papa Francisco está dito: “Durante muito tempo, o recurso à pena de morte pela autoridade legítima, após um julgamento regular, foi considerado uma resposta adequada à gravidade de alguns crimes e um meio aceitável, ainda que extremo, para a proteção do bem comum. Hoje é cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não se perde nem mesmo depois de ter cometido crimes gravíssimos. Além disso, difundiu-se uma nova compreensão do senso das sanções penais pelo Estado. Finalmente, foram desenvolvidos sistemas de detenção mais eficazes, que garantem a defesa adequada dos cidadãos, mas, ao mesmo tempo, não eliminam in modo definitivo do réu a possibilidade de se redimir.”

Contudo, a noção de “dignidade humana” não muda de acordo com os tempos e as circunstâncias históricas, assim como não muda o significado moral da justiça e da punição. Pio XII explica que quando o Estado recorre à pena de morte, não pretende ser o mestre da vida humana, mas apenas reconhece que o criminoso, através de uma espécie de suicídio moral, se privou do direito à vida. Segundo o Papa, “mesmo quando se trata da execução de uma pessoa condenada à morte, o Estado não dispõe do direito do indivíduo à vida. Cabe ao poder público privar o condenado do bem da vida, em expiação por sua falta, após ele, com seu crime, já ter perdido seu direito à vida” (Discurso de 14 de setembro de 1952, in Discorsi e Radiomessaggi vol. XIV, p. 328).

Por sua vez, teólogos e moralistas ao longo dos séculos, de São Tomás de Aquino a Santo Afonso de Ligório, explicaram como a pena de morte não se justifica apenas pela necessidade de proteger a comunidade, mas também por seu caráter retributivo, na medida em que restabelece a ordem moral violada e tem um valor expiatório, como foi a morte do Bom Ladrão, que o uniu ao supremo sacrifício de Nosso Senhor.

O novo rescrito do Papa Francisco exprime aquele evolucionismo teológico condenado por São Pio X na Pascendi e por Pio XII no Humani generis, nada tendo a ver com o desenvolvimento homogêneo do dogma do qual trata o Cardeal John Henry Newman. A condição para o desenvolvimento do dogma é, de fato, que as novas afirmações teológicas não contradigam o ensinamento anterior da Igreja, mas se limitem a explicitá-lo e aprofundá-lo.

Finalmente, como no caso da condenação da contracepção, não estamos tratando aqui de opiniões teológicas sobre as quais é legítimo debater, mas de verdades morais que pertencem ao Depositum fidei, e que, portanto, é obrigatório aceitar para permanecer católico. Esperamos que os teólogos e pastores da Igreja intervenham o quanto antes para fazer uma correção pública deste grave erro do Papa Francisco.

16 julho, 2018

Releiamos a Humanae Vitae à luz da Casti connubii.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 6 de julho de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO Ocidente conheceu nas últimas décadas uma Revolução antifamiliar sem precedentes na História. Um dos pilares desse processo de desagregação da instituição familiar tem sido a separação dos dois fins primários do matrimônio, o procriativo e o unitivo.

O fim procriativo, separado da união conjugal, levou à fertilização in vitro e ao útero alugado. O fim unitivo, emancipado da procriação, levou à apoteose do amor livre, hétero e homossexual. Um dos resultados dessas aberrações é o recurso de casais homossexuais ao útero alugado para realizar uma grotesca caricatura da família natural.

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A encíclica Humanae Vitae, de Paul VI, cujo quinquagésimo aniversário será celebrado em 25 de julho de 2018, teve o mérito de reafirmar a inseparabilidade dos dois significados do casamento e de condenar claramente a contracepção artificial, tornada possível nos anos 60 do século passado pela comercialização da pílula do Dr. Pinkus.

No entanto, até a Humanae Vitae tem culpa no cartório: a de não ter afirmado com igual clareza a hierarquia dos fins, ou seja, a primazia do fim procriativo sobre o unitivo. Dois princípios, ou valores, nunca podem estar num mesmo nível, em condição de igualdade. Um é sempre subordinado ao outro.

Isso se dá nas relações entre a fé e a razão, a graça e a natureza, a Igreja e o Estado, e assim por diante. Essas são realidades inseparáveis, mas distintas e ordenadas hierarquicamente. Se a ordem dessas relações não for definida, as tensões e os conflitos se seguirão, até a inversão da ordem dos princípios. Deste ponto de vista, uma das causas do processo de desintegração moral dentro da Igreja foi a falta de uma definição clara do fim primário do casamento pela encíclica de Paulo VI.

A doutrina da Igreja sobre o casamento foi afirmada como definitiva e obrigatória pelo Papa Pio XI em sua encíclica Casti Connubii, de 31 de dezembro de 1930. Neste documento, o Papa recorda à Igreja e à humanidade as verdades fundamentais sobre a natureza do casamento, estabelecido não pelos homens, mas pelo próprio Deus, e sobre as bênçãos e benefícios que advêm daí para a sociedade.

O primeiro objetivo é a procriação: que não significa apenas trazer filhos ao mundo, mas educá-los intelectual e moralmente, e, acima de tudo, espiritualmente, para conduzi-los ao seu destino eterno que é o Céu. O segundo objetivo é a assistência mútua entre os cônjuges, que não é apenas material, nem tampouco sexual ou sentimental, mas antes de tudo uma assistência e uma união espiritual.

A encíclica contém uma condenação clara e vigorosa do uso de meios contraceptivos, definidos como “uma ação torpe e intrinsecamente desonesta”. Portanto: “Qualquer uso do casamento em que pela maldade humana o ato seja destituído de sua virtude procriadora natural, vai contra a Lei de Deus e da natureza e aqueles que ousam cometer tais ações se tornam responsáveis de culpa grave.”

Pio XII confirmou em muitos discursos o ensinamento de seu antecessor. O esquema original sobre a família e o casamento do Concílio Vaticano II, aprovado por João XXIII em julho de 1962, mas rejeitado no início dos trabalhos pelos Padres Conciliares, reafirmou essa doutrina, condenando explicitamente “teorias que invertem a ordem correta dos valores, colocam o fim primordial do matrimônio no segundo plano em relação aos valores biológicos e pessoais dos cônjuges e que, na mesma ordem objetiva, indicam o amor conjugal como fim primário” (nº 14).

O fim procriativo, objetivo e enraizado na natureza se cumpre espontaneamente. O objetivo unitivo, subjetivo e baseado na vontade dos cônjuges pode desaparecer. A primazia do fim procriativo salva o casamento, a primazia do fim unitivo o expõe a sérios riscos.

Além disso, não devemos esquecer que os fins do casamento não são dois, mas três, porque subsidiariamente existe também o remédio para a concupiscência. Ninguém fala deste terceiro fim, porque se perdeu o significado da noção de concupiscência, confundido muitas vezes com o pecado, à maneira luterana.

A concupiscência, presente em todos os homens, exceto na Santíssima Virgem, imune do pecado original, nos recorda que a vida na terra é uma luta incessante, porque, como diz São João, “no mundo não existe senão concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da vida” (1 Jo 2:16).

A exaltação dos instintos sexuais, inoculados na cultura dominante pelo marxismo-freudismo, não é senão a glorificação da concupiscência e, consequentemente, do pecado original.

Essa inversão dos fins matrimoniais, que conduz inevitavelmente à explosão da concupiscência na sociedade, aflora na exortação do Papa Francisco Amoris laetitia, de 8 de abril de 2016, em cujo o número 36 se lê: “Com frequência apresentamos o casamento de modo tal que o fim unitivo, o convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua permanecem à sombra de uma nota quase exclusiva sobre o dever de procriar.”

Estas palavras repetem quase literalmente aquelas pronunciadas pelo cardeal Leo-Joseph Suenens na aula conciliar, em 29 de outubro de 1964, num discurso que escandalizou Paulo VI. “Pode ser – disse o cardeal arcebispo de Bruxelas – que tenhamos acentuado a palavra da Escritura: ‘Crescei e multiplicai’ a ponto de deixar a outra palavra divina nas sombras: ‘Os dois serão uma só carne’. (…) Caberá à Comissão nos dizer se não enfatizamos muito o primeiro objetivo, que é a procriação, em detrimento de um fim igualmente imperativo, que é o crescimento da unidade conjugal”.

O cardeal Suenens insinua que a finalidade principal do casamento não é crescer e multiplicar, mas que “os dois sejam uma só carne”. Passamos de uma definição teológica e filosófica para uma descrição psicológica do casamento, apresentada não como um vínculo enraizado na natureza e dedicado à propagação da humanidade, mas como uma comunhão íntima, voltada para o amor recíproco dos cônjuges.

O casamento é reduzido mais uma vez a uma comunhão de amor, enquanto o controle de natalidade – natural ou artificial – é visto como um bem que merece ser encorajado sob o nome de “paternidade responsável”, pois ajuda a fortalecer o bem primário da união conjugal. A consequência inevitável é que, no momento em que essa comunhão íntima vier a fracassar, o casamento pode se dissolver.

A inversão dos fins é acompanhada pela inversão dos papéis dentro da união conjugal. O bem-estar psicofísico da mulher substitui sua missão de mãe. O nascimento de uma criança é visto como um elemento que pode perturbar a íntima comunhão de amor do casal. A criança pode ser considerada como um injusto agressor do equilíbrio familiar, da qual o casal se defende com a contracepção e, em casos extremos, com o aborto.

A interpretação que demos das palavras do cardeal Suenens não é forçada. Em coerência com aquele discurso, o cardeal primaz da Bélgica liderou em 1968 a revolta dos bispos e teólogos contra a Humanae Vitae. A Declaração do episcopado belga, de 30 de agosto de 1968, contra a encíclica de Paulo VI, foi, com a do episcopado alemão, uma das primeiras elaboradas por uma Conferência Episcopal e serviu de modelo de protesto a outros episcopados.

Aos herdeiros dessa contestação, que se propõem reinterpretar a Humanae Vitae à luz da Amoris laetitia, respondemos com firmeza que continuaremos a ler a encíclica de Paulo VI à luz da Casti connubii e do Magistério perene da Igreja.