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16 março, 2017

O Papa Francisco quatro anos depois.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza romana, 15-3-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO quarto aniversário da eleição do Papa Francisco vê a Igreja Católica dilacerada por profundas divisões. “É uma página inédita na história da Igreja – diz-me em tom preocupado um alto prelado vaticano – e ninguém pode dizer qual será o desfecho desta crise sem precedentes”.

papa-francesco-468x278A mídia, que desde o início havia expressado apoio maciço ao Papa Bergoglio, começa a manifestar uma certa perplexidade. “Nunca se viu tanta oposição ao Papa, nem mesmo no tempo de Paulo VI”, admite o historiador Andrea Riccardi, para o qual, no entanto, “a liderança papal é forte” (Corriere della Sera, 13-3-2017). Demasiado forte para muitos que acusam o Papa de autoritarismo e veem a confirmação do clima de medo reinante no Vaticano nas denúncias anônimas expressas em cartazes, epigramas e vídeos exibidos na web. Sarcasmo e anonimato são as características da dissidência sob regimes totalitários, onde ninguém se atreve a sair a descoberto por medo de represálias do poder.

E cresce hoje na Igreja a resistência ao Papa Bergoglio. O site LifeSiteNews publicou uma lista de bispos e cardeais que expressaram publicamente o seu apoio ou a sua oposição às “dubia” apresentadas pelos quatro cardeais ao Papa, em 16 de setembro de 2016. Não são poucos, e a eles deve ser adicionada a voz de quem, como o cardeal Joseph Zen, critica o papado bergogliano por sua política a favor do governo comunista chinês, apelidando-a de “diálogo com Herodes”.

Enquanto os católicos fiéis aos ensinamentos perenes da Igreja denunciam a novidade de um pontificado que desvirtua de facto a moral tradicional, os inovadores estão insatisfeitos com uma “abertura” que ocorre tão-só de maneira implícita, sem materializar-se em gestos de verdadeira ruptura com o passado. O correspondente de Der Spiegel, Walter Mayr, em 23 de dezembro último, citou algumas palavras que o Papa teria confiado a um grupo restrito de colaboradores: “Não é impossível que eu passe para a história como aquele que dividiu a Igreja Católica”.

A sensação é a de estar na véspera de um confronto doutrinário interno na Igreja, que será tanto mais violento quanto mais se procurará evitá-lo ou adiá-lo, sob o pretexto de não rachar a unidade eclesial há tempo desconjuntada. Mas há uma segunda guerra iminente, desta vez não metafórica. O quarto aniversário do pontificado coincidiu com as pesadas ameaças do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan contra a Holanda, culpando-a de não oferecer suas praças aos propagandistas do sultão de Ankara. O próprio Erdogan, em novembro passado, ameaçou inundar a Europa com milhões de migrantes se Bruxelas interromper as negociações para uma rápida entrada da Turquia na União Europeia. Mas, para o Papa Francisco, essas massas migratórias são uma oportunidade e um desafio.

Proteger os imigrantes é um “imperativo moral”, reiterou nos últimos dias o Papa, que após estabelecer um Dicastério pontifício para o Desenvolvimento Humano Integral, reservou para si a responsabilidade direta pelas questões da imigração. Um brilhante escritor francês, Laurent Dandrieu, publicou um ensaio intitulado Église et immigration. Le grand malaise [Igreja e imigração. O grande mal-estar] (Presses de la Renaissance, Paris 2016), no qual denuncia a atitude política do Papa Bergoglio, dando a um capítulo de seu livro o título: De Lepanto a Lesbos, a Igreja na idolatria do acolhimento? Enquanto a Europa é submersa por uma onda migratória sem precedentes, o Papa Francisco fez do “direito de emigrar” e do “dever de acolher” os pilares da sua política, desconsiderando o direito das nações europeias de defender a sua identidade religiosa e cultural. Eis a “conversão pastoral” que ele exige da Igreja: a renúncia às raízes cristãs da sociedade, sobre as quais João Paulo II e Bento XVI haviam insistido tanto, para dissolver a identidade cristã em um turvo caldeirão multiétnico e multirreligioso.

O teólogo predileto do Papa, Dom Víctor Fernández, Reitor da Pontifícia Universidade Católica Argentina, explica que a “conversão pastoral” deve ser entendida como uma transformação “que conduza toda a Igreja a ‘uma saída de si’, renunciando a centrar-se em si mesma”, ou seja, a uma renúncia da Igreja à própria identidade e à própria tradição, para assumir as múltiplas identidades propostas pelas periferias do mundo.

Mas a invasão migratória produz necessariamente uma reação da opinião pública em defesa de tudo o que hoje está ameaçado: não só a identidade cultural, mas os interesses econômicos, a qualidade de vida, a segurança das famílias e da sociedade. Em face de uma reação que pode manifestar-se de modo às vezes exasperado, a Igreja Católica deveria desempenhar um papel moderador, alertando para os erros opostos, como fez Pio XI em março 1937 com as duas encíclicas Divini Redemptoris e Mit brennender Sorge – das quais transcorre o octogésimo aniversário –, condenando, respectivamente, o comunismo e o nacional-socialismo. Hoje como ontem, com efeito, delineia-se uma falsa alternativa.

De um lado, os seguidores de uma religião forte, antitética ao catolicismo, como o Islã. De outro, os defensores de uma irreligião igualmente forte, o relativismo. Os relativistas procuram assumir a direção dos movimentos identitários, para lhes conferir uma coloração anticristã. A política bergogliana dá pretexto a essas posições xenófobas e neopagãs, permitindo aos relativistas de acusarem a Igreja de conluio com o Islã.

O Papa diz que rejeitar os imigrantes é um ato de guerra. Mas é seu apelo ao acolhimento indiscriminado que alimenta a guerra.

8 março, 2017

Por que em 2017 vamos a Fátima.

Por Roberto de Mattei, “Il Tempo”, Roma, 7-3-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Quem vai em peregrinação a Lourdes o faz para imergir-se na atmosfera sobrenatural de um lugar. A Gruta onde a Virgem Maria apareceu a Santa Bernadete em 1858 e as piscinas em cuja água milagrosa os doentes continuam a banhar-se são enclaves abençoados em uma sociedade dessacralizada. Pelo contrário, quem vai a Fátima o faz para obter refrigério espiritual não de um lugar, mas de uma Mensagem celeste: o chamado “segredo”, que Nossa Senhora confiou a três pastorinhos há cem anos, entre maio e outubro de 1917. Lourdes cura especialmente corpos, Fátima oferece orientação espiritual às almas desorientadas.

Em 13 de maio de 1917, na Cova de Iria – um lugar remoto, todo de pedra e oliveiras, perto da aldeia de Fátima, em Portugal  – a três crianças que estavam cuidando de suas ovelhas, Francisco e Jacinta Marto e a prima Lúcia dos Santos, apareceu, de acordo com as suas palavras, “uma Senhora vestida de branco, mais brilhante que o sol, irradiando luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente”. Essa Senhora se revelou  a Mãe de Deus, encarregada de trazer uma mensagem aos homens, e disse aos três pastores que voltassem ali no dia 13 do mês seguinte, e assim por diante, até 13 de outubro. A última aparição terminou com um grandioso milagre atmosférico, denominado a “dança do sol”, visto  por dezenas de milhares de testemunhas, até mesmo a mais de 40 quilômetros de distância.

O segredo revelado por Nossa Senhora em Fátima é composto de três partes que formam um todo orgânico e coerente. A primeira é a visão aterradora do inferno, onde as almas dos pecadores caem; a este castigo opõe-se a misericórdia do Imaculado Coração de Maria, remédio supremo oferecido por Deus à humanidade para a salvação das almas.

A segunda parte se refere a uma alternativa histórica dramática: a paz, fruto da conversão do mundo e do cumprimento dos pedidos de Nossa Senhora, ou um terrível castigo que aguarda a humanidade se esta se obstinar na via do pecado. A Rússia seria o instrumento desse castigo.

A terceira parte, divulgada pela Santa Sé em junho de 2000, amplia a tragédia à vida da Igreja, oferecendo a visão de um Papa e de bispos, religiosos e leigos mortos a tiros pelos perseguidores. As discussões que se abriram nos últimos anos sobre esse “Terceiro Segredo” podem,  no entanto, ofuscar a força profética da parte central da Mensagem, resumida por duas frases decisivas: “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo” e “Por fim, o meu Imaculado coração triunfará”.

Em 13 de julho de 1917, quando Nossa Senhora dirigiu às crianças de Fátima essas palavras, a minoria bolchevique não havia ainda tomado o poder na Rússia. Isso acontecerá alguns meses depois com a “Revolução de Outubro”, que marca o início da expansão mundial de uma filosofia política que visa minar os fundamentos da ordem natural e cristã. “Pela primeira vez na história – disse Pio XI na encíclica Divini Redemptoris de 19 de março 1937 – estamos assistindo a uma insurreição, cuidadosamente preparada e calculadamente dirigida contra ‘tudo o que se chama Deus’ (cfr. 2 Tess 1, 4)”. Não houve no século XX crime análogo ao do comunismo, por sua duração, pelos territórios que abraçou, pela veemência do ódio que foi capaz de insuflar. Após o colapso da União Soviética, esses erros como que se libertaram do invólucro que os continha, para se propagarem como miasmas ideológicos em todo o Ocidente, sob a forma de relativismo cultural e moral.

Os erros do comunismo parecem ter penetrado no interior da própria Igreja Católica. O Papa Bergoglio recebeu recentemente no Vaticano os representantes dos chamados “movimentos populares”, representantes da nova esquerda  ecolo-marxista e, desde o início de seu pontificado, expressou sua simpatia para com os regimes pró-comunistas dos irmãos Castro em Cuba, de Chávez e Maduro na Venezuela, de Morales na Bolívia, de Rafael Correa no Equador, de José Mujica no Uruguai, esquecendo as palavras de Pio XI que, na aludida encíclica Divini Redemptoris, definiu o socialocomunismo como “intrinsecamente perverso”.

A Mensagem de Fátima é um antídoto à penetração desses erros. Seis papas reconheceram e honraram as aparições da Cova da Iria. Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI visitaram o Santuário de Fátima,  enquanto João XXIII e João Paulo I lá estiveram quando ainda eram os cardeais Roncalli e Luciani. Pio XII enviou o seu delegado, o cardeal Aloisi Masella.

Quem nunca foi a Fátima, não perca a ocasião de ir, no centenário deste acontecimento. Quem já esteve uma ou mais vezes, faça como eu: retorne. Não vai encontrar, pelo menos até a Páscoa, uma grande massa de peregrinos. Ignore o novo santuário, cuja feiúra lembra aquele de São Pio de Pietrelcina em San Giovanni Rotondo, e restrinja sua visita à capela das aparições, ao antigo santuário, que abriga os restos mortais de Jacinta e Francisco, e à loca  do Cabeço, onde em 1916 o Anjo de Portugal antecipou as aparições aos três pastorinhos. Fátima revela a seus devotos a gravidade da tragédia do nosso tempo, mas também abre o coração para uma esperança invencível no futuro da Igreja e de toda a sociedade.

7 fevereiro, 2017

Um Papa violento?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 03-03-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Contra a evidência quase não há o que discutir. A mão estendida do papa Bergoglio à Fraternidade São Pio X é a mesma que se abateu nestes dias sobre a Ordem de Malta e os Franciscanos da Imaculada.

O caso da Ordem de Malta terminou com a rendição incondicional do Grão-Mestre e o retorno ao poder de Albrecht von Boeslager e do poderoso grupo alemão que ele representa.

O caso foi resumido nestes termos por Riccardo Cascioli em La Nuova Bussola quotidiana: o responsável pelo desvio moral da Ordem foi reabilitado e quem tentou contê-lo foi mandado para casa.

Isso aconteceu em plena desconsideração pela soberania da Ordem, como resulta da carta de 25 de janeiro, dirigida aos membros do Conselho Soberano pelo secretário de Estado Pietro Parolin em nome do Santo Padre, com a qual a Santa Sé estabeleceu, de fato, um comissariado junto à Ordem.

Seria lógico que os mais de 100 Estados que mantêm relações diplomáticas com a Ordem de Malta retirassem os seus embaixadores, a partir do momento em que as relações podem ser travadas diretamente com o Vaticano, do qual agora a Ordem depende em tudo.

O desprezo que o Papa Francisco demonstra com relação à lei se estende do direito internacional ao direito civil italiano.

Um decreto emitido pela Congregação dos Religiosos com o consentimento do Papa impõe ao padre Stefano Maria Manelli, superior dos Franciscanos da Imaculada, não se comunicar com os meios de informação, nem aparecer em público; não participar de qualquer iniciativa ou encontros de qualquer gênero; e, acima de tudo, “de remeter dentro do limite de 15 dias, a partir da entrega do presente decreto, o patrimônio econômico gerido por associações civis e qualquer outra quantia à sua disposição na plena disponibilidade total do único instituto”, isto é, de devolver à Congregação dos Religiosos bens patrimoniais dos quais (como foi confirmado pelo Tribunal de Apelações de Avellino) o padre Manelli não dispõe, porque pertencem a associações legalmente reconhecidas pelo Estado italiano.

 “Em 2017, na Igreja da Misericórdia” – comenta Marco Tosatti –, “falta apenas o cavalete e a máscara de ferro, e o catálogo está completo”.

Como se não bastasse, Dom Ramón C. Argüelles, Arcebispo de Lipa, nas Filipinas, soube de sua demissão através de um comunicado da Sala de Imprensa do Vaticano.

Ignoram-se as razões de tal decisão, mas as podemos intuir: Dom Argüelles reconheceu canonicamente uma associação que reúne um grupo de ex-seminaristas dos Franciscanos da Imaculada que abandonaram sua Ordem a fim de poderem estudar e preparar-se para o sacerdócio com plena liberdade e independência. Trata-se de uma culpa, ao que parece, imperdoável.

Surge a questão de saber se o Papa Francisco não é um Papa violento, entendendo-se bem o significado deste termo. A violência não é a força exercida de maneira cruenta, mas a força aplicada de modo ilegítimo, em desafio à lei, para alcançar o seu objetivo.

O desejo de Mons. Bernard Fellay de regularizar a situação canônica da Fraternidade São Pio X com um acordo que em nada lese a identidade de seu instituto é certamente louvável, mas surge a pergunta: é oportuno colocar-se sob o guarda-chuva legal de Roma no exato momento em que a lei é ignorada, ou mesmo usada como meio para reprimir aqueles que querem permanecer fiel à fé e à moral católica?

12 janeiro, 2017

Quem quer destruir a Ordem de Malta?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 11-01-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com“Muito antes que as Nações tivessem chegado a estabelecer uma lei internacional; muito antes que tivessem podido forjar o sonho – ainda não realizado – de uma força armada comum para proteção da sã liberdade humana, da independência dos povos e de uma pacífica equidade nas suas relações mútuas, a Ordem de São João já havia reunido em uma irmandade religiosa e sob a disciplina militar, homens de oito ‘línguas’ diferentes, votados à defesa dos valores espirituais, que constituem o apanágio comum da Cristandade:  a fé, a justiça, a ordem social e a paz.”

ordine-di-maltaEssas palavras, dirigidas em 8 de janeiro de 1940 pelo Papa Pio XII aos Cavaleiros da Soberana Ordem Militar de São João de Jerusalém, dita de Rodes e depois de Malta, resumem as características da mais antiga das Ordens de Cavalaria, o único Estado soberano cuja bandeira ondulou no campo das Cruzadas. Uma ordem cujo carisma tem sido sempre o da “Tuitio fidei et Obsequium pauperum” [Defesa da fé e serviço dos pobres]. É imaginável que um Papa queira destruir essa instituição, glória da Cristandade? Infelizmente, é precisamente esta a impressão que se tem  dos últimos acontecimentos relativos à Ordem de Malta.

Correspondência Romana ofereceu uma primeira reconstrução dos fatos em 24 de dezembro de 2016. Edward Pentin aprofundou e enriqueceu o cenário com novos detalhes no National Catholic Register de 7 de janeiro de 2017. O quadro, em resumo, é o seguinte: em 6 de dezembro, o Grão-Mestre da Ordem de Malta, Fra Matthew Festing, na presença de duas testemunhas, uma das quais era o cardeal-patrono Raymond Leo Burke, pediu ao chanceler Albrecht Freiherr von Boeselager que renunciasse. Com efeito, tinha vindo à luz que o chanceler Boeselager, durante o período em que foi o Grande Hospitalário da Ordem, havia abusado de seu poder promovendo a distribuição de milhares de preservativos e contraceptivos, inclusive abortivos, em alguns países do Terceiro Mundo. Apesar da promessa de obediência que o liga ao Grão-Mestre, o Grão-Chanceler recusou-se a renunciar. Contra ele foi então iniciado um procedimento para suspendê-lo de todas as posições que ocupava.

Boeselager pediu ajuda à Secretaria de Estado do Vaticano, que nomeou uma comissão de inquérito para “recolher elementos susceptíveis de informar plena e rapidamente a Santa Sé” sobre o assunto. Em 23 de dezembro, o Grão-Mestre da Ordem definiu como “inaceitável” a decisão do Secretário de Estado, observando que a remoção de Boeselager é um “ato de administração interna do governo da Ordem Soberana de Malta e, em consequência, recai exclusivamente na sua competência”. Com uma declaração subsequente de 10 de janeiro, o Grande Magistério reiterou a sua intenção de não cooperar com a comissão de investigação do Vaticano, “também a fim de proteger sua esfera de soberania com relação a iniciativas que se apresentam objetivamente (e, portanto, além das intenções, que são juridicamente irrelevantes) como visando questionar ou pelo menos  restringir dita  esfera”.

A iniciativa do Vaticano parece ter sido uma enorme gafe. O sistema jurídico da Ordem de Malta é regulado pela Constituição de 1997. O artigo 3º da Constituição, parágrafo 1, afirma que “a Ordem é sujeito de direito internacional e exerce funções soberanas”. Estas são: o Poder Executivo, representado pelo Grão-Mestre, assistido pelo Conselho Soberano; o Poder Legislativo, representado pelo Capítulo Geral; o Poder Judiciário, representado pelos Tribunais Magisteriais. A Ordem de Malta emite passaportes diplomáticos e possui escritórios extraterritoriais em Roma, onde oficialmente recebe os representantes de mais de cem países com os quais mantém relações de igual para igual.

A Ordem tem relações privilegiadas com a Santa Sé, mas com plena autonomia. A Santa Sé nomeia um cardeal-patrono e a Ordem o seu embaixador, de acordo com as normas do Direito internacional. Como observa o Prof. Paolo Gambi, apesar de ser detentora da natureza religiosa própria às Ordens dependentes da autoridade eclesiástica, a Ordem tem uma posição muito peculiar, “gozando de uma autonomia quase única na cena eclesiástica e limitando o influxo dessa natureza aos membros que emitiram votos” (La soberana militar Ordem de Malta en el orden jurídico eclesial e internacional, Ius Canonicum, XLIV, n. 87 (2004), pp. 197-231). O artigo 4, parágrafo 6 da Constituição da Soberana Ordem de Malta é claro ao afirmar que “a natureza religiosa não exclui o exercício das prerrogativas soberanas relativas à Ordem enquanto sujeito de direito internacional reconhecido pelos Estados”.

A confirmação de tal status de direito internacional, inclusive em relação à Santa Sé, encontra-se no Anuário Pontifício, onde a Ordem é mencionada apenas uma vez, e não entre as Ordens religiosas, mas antes como uma das Embaixadas dos Estados acreditados junto à Santa Sé. A Constituição de 1997 também eliminou várias intervenções eclesiásticas previstas anteriormente, como a aprovação da Santa Sé para a validade da eleição do Grão-Mestre e o consentimento expresso dela para que a profissão solene de votos seja válida.

A competência da Santa Sé sobre a vida religiosa dos Cavaleiros diz respeito apenas àqueles pertencentes à primeira classe, os Cavaleiros de Justiça, que emitem, de forma solene, os três votos monásticos. Os membros da segunda classe, os Cavaleiros na Obediência, cuja promessa nada tem a ver com o voto de obediência dos Cavaleiros de Justiça, estão subordinados apenas aos seus superiores na Ordem. O ex-Grão-Chanceler Albrecht von Boeselager, casado e pai de cinco filhos, é um leigo que pertence à segunda classe, não dependendo de nenhum modo da Santa Sé. Além disso, os Cavaleiros de Justiça, que devem ser considerados “religiosos para todos os efeitos” (artigo 9 parágrafo 1 da, Constituição), não têm vida em comum e representam um unicum na vida da Igreja. Fra Ludovico Chigi Albani della Rovere (1866-1951), Príncipe e Grão-Mestre da Ordem de 1931 a 1951, após a morte de sua esposa (1898) pronunciou os votos religiosos como Cavaleiro da Justiça, mas continuou a viver no Palazzo Chigi [atual sé do Grande Magisteriado da Ordem], que até 1916 era propriedade de sua família, levando uma vida de grande senhor, como competia à sua condição.

Naturalmente, a Igreja tem sobre a Ordem de Malta os mesmos direitos que tem em relação a cada Estado, quando estão em jogo questões que afetam diretamente a fé e a moral. O Papa, de fato, tem o direito e o dever de intervir em toda questão social e política relacionada com a consecução do fim supremo do homem, que é a vida eterna. Se, por exemplo, um Estado legitima as uniões sexuais contra a natureza, o Papa tem o dever de intervir, denunciando a grave violação da Lei divina e natural. E se a Ordem de Malta estiver promovendo a contracepção e o aborto, o Papa tem o dever de fazer ouvir sua voz. Hoje, pelo contrário, a Igreja se abstém  de pronunciar-se sobre problemas morais que Lhe são próprios [a distribuição de preservativos], e intervém em questões políticas e administrativas que fogem de sua alçada [a suspensão do ex-Grão-Chanceler].

Christopher Lamb cita no Tablet de 5 de Janeiro uma carta enviada em 21 de dezembro a Fra Matthew Festing pelo Secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, na qual se nota que o Papa Francisco deseja que a remoção de von Boeselager não ocorra. “Como já expressei em minha carta anterior, de 12 de dezembro de 2016: sobre o uso e a difusão de métodos e meios contrários à lei moral, Sua Santidade pediu um diálogo sobre o modo pelo qual podemos enfrentar e resolver eventuais problemas. Mas ele jamais disse para exonerar ninguém!”.

Portanto, com relação àqueles que violam a lei divina e natural, o caminho é o do diálogo e da mão estendida. Para quem, pelo contrário, defende a fé e a moral católica, está pronta a vara do comissariado político e da comissão de inquérito.

O grupo de cavaleiros que faz coro com Albrecht von Boeselager representa a corrente secularista, que gostaria de transformar a Ordem de Malta numa ONG humanitária, enquanto a atual equipe dirigente representa a fidelidade às raízes religiosas da Ordem. Mas esse é, aliás, o seu grande pecado, ao qual se soma outro. Ao longo de nove séculos de história, a Soberana Ordem Militar de Malta nunca perdeu sua fisionomia aristocrática, cavalheiresca e soberana. Esta fisionomia representa a antítese do miserabilismo e do igualitarismo professados por aqueles que hoje governam a Igreja. O resultado é que se denuncia o clericalismo, mas se o aplica, de fato, com desastrosas consequências. A truculenta intervenção da Secretaria de Estado em nome do Papa Francisco está, de fato, causando caos e divisões dentro da Ordem.

A Soberana Ordem Militar de Malta superou todas as vicissitudes ao longo de sua história. Durante dois séculos na Palestina, dois séculos em Rodes e dois séculos e meio em Malta, muitas vezes sua missão pareceu caducar. Mas a instituição sempre se reergueu, mesmo quando se alastrou pela Europa o turbilhão da Revolução Francesa e de Napoleão. Deve-se esperar que o Grão-Mestre Fra Matthew Festing e o Conselho Soberano que o assiste saibam resistir com firmeza às fortes pressões que estão recebendo nestes dias.

Ninguém teria podido duvidar do amor ao Papado do Grão-Mestre Ludovico Chigi Albani, que na sua qualidade de Marechal da Santa Igreja Romana participou de três eleições pontifícias. No entanto, ele se opôs tenazmente a qualquer tentativa eclesiástica de ingerência na vida da Ordem. A Santa Sé devia reconhecer a natureza soberana da Ordem de Malta, “sem a interferência de outras autoridades seculares ou religiosas”, como recordou Bento XVI ao receber os cavaleiros, por ocasião do nono centenário da bula pontifícia Pie postulatio voluntatis de 15 de fevereiro de 1113, que reconheceu a Ordem e outorgou-lhe seus privilégios. Com este ato solene, disse o Papa Bento XVI, “Pascoal II colocava a recém-nascida ‘fraternidade hospitalar’ de Jerusalém, em homenagem a São João Batista, sob a tutela da Igreja, e a tornava soberana”.

25 novembro, 2016

As contradições de um jubileu que se encerra

Por Roberto de Mattei, “Il Tempo”, Roma, 22/11/2016 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com

 

Entre as chaves de interpretação do pontificado do Papa Francisco há seguramente o seu amor pela contradição. Esta disposição de ânimo torna-se evidente na Carta Apostólica Misericordia et Misera, assinada na conclusão do Jubileu extraordinário da misericórdia. Nela Bergoglio estabelece que aqueles que frequentam as igrejas atendidas pelos sacerdotes da Fraternidade de São Pio X podem válida e licitamente receber deles a absolvição sacramental. O Papa remedeia, portanto, aquilo que era o principal fator de “irregularidade” da Fraternidade fundada por Dom Lefebvre: a validade das confissões. Seria contraditório imaginar que, uma vez aceitas como válidas e lícitas as confissões, não sejam também consideradas lícitas as Missas celebradas pelos padres da Fraternidade, as quais são, em qualquer caso, certamente válidas. A partir de agora, não se entende qual é a necessidade de um acordo entre Roma e a Fraternidade, visto que a posição desses sacerdotes já está realmente regularizada e que, como se sabe,interessam pouco ao Papa os problemas doutrinários ainda em discussão.

Na mesma Carta Apostólica,o Papa Bergoglio concede doravante “a todos os sacerdotes, em virtude de seu ministério, a faculdade de absolver todas as pessoas que incorreram no pecado de aborto”, a fim de que “nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus”. De fato, os sacerdotes já tinham o poder de perdoar o pecado do aborto na confissão. No entanto, de acordo com a prática multissecular da Igreja, o aborto está entre os pecados graves punidos automaticamente com a excomunhão. “Quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae, lê-se no cânon 1398 Código de Direito Canônico de 1983. Os sacerdotes, portanto, precisavam da permissão de seu bispo para levantar a excomunhão antes de poderem absolver o pecado de aborto. Agora, qualquer sacerdote pode levantar a excomunhão, sem necessidade de recorrer ao seu bispo ou ser delegado por ele. A excomunhão é privada de fato da sua força e o aborto perde a gravidade que o Direito Canônico lhe atribuía.

Em uma entrevista publicada na TV2000em 20 de novembro, o Papa Francisco disse que “o aborto continua um pecado grave”, um “crime horrendo”, porque “põe fim a uma vida inocente”. Pode ele ignorar que sua decisão de afrouxara excomunhão latae sententiae pelo crime de aborto relativiza esse “crime horrendo” e permite aos meios de comunicação de apresentá-lo como um pecado que a Igreja considera hoje menos grave do que no passado e que agora Ela facilmente perdoa?

O Papa afirma em sua Carta Apostólica que “não existe nenhum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai”,mas, como é evidente a partir de suas próprias palavras, a misericórdia é tal porque pressupõe a existência do pecado e, portanto, da justiça ofendida. Por que falar sempre e somente do Deus bom e misericordioso, e nunca do Deus justo, que premia ou castiga segundo os méritos e as culpas do homem? Os Santos, como tem sido observado por muitos autores espirituais, nunca cessaram de exaltar a misericórdia de Deus, inesgotável em dar; e, ao mesmo tempo, de temer a sua justiça, rigorosa em exigir. Seria contraditório um Deus capaz unicamente de amar e recompensar o bem e incapaz de odiar e punir o mal.

Exceto para alguém que acredite na existência da lei divina,mas julgue que ela é abstrata e impraticável, e que a única coisa que realmente conta é a vida concreta do homem, que não pode senão pecar. Nesse caso, o que importa não é a observância da lei, mas a confiança cega no perdão e na misericórdia divina: Pecca fortiter, sed crede fortius. Mas esta é a doutrina de Lutero, não da Igreja Católica.

22 novembro, 2016

Com a vitória de Trump, tornar-se- á o Papa Bergoglio o líder da esquerda internacional?

Por Roberto de Mattei, “Il Tempo”, Roma, 11/11/2016 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, enviou a Donald Trump os augúrios da Santa Sé, exprimindo sua esperança de que o novo Presidente trabalhe a serviço da pátria e da paz do mundo. Dom Joseph Kurtz, Arcebispo de Louisville e Presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, felicitou o recém-eleito, instando-o a governar para o bem comum de todos os cidadãos. A diplomacia do Vaticano parece querer corrigir ou temperar a posição do Papa Francisco, que nunca escondeu sua aversão ao candidato à presidência americana.

Em 18 de fevereiro deste ano, no voo de volta do México, comentando o projeto de Trump de construir um muro entre os EUA e o México a fim de conter o fluxo de migrantes, o Papa disse que “uma pessoa que só pensa em fazer muros e não fazer pontes não é cristão”. Em outro voo de regresso, o de 2 de outubro de Baku para Roma, quando perguntado sobre qual era o candidato de sua preferência nas eleições americanas, Francisco não se pronunciou. No entanto, por mais fortes que sejam as reservas devidas em relação a Trump, para um católico seria difícil adotar uma posição equidistante entre o candidato republicano e Hilary Clinton, que tinha incluído oficialmente em seu programa uma implementação maciça do aborto e da agenda LGBT. A menos que se considere a autodefesa em relação à invasão migratória um pecado maior do que a legalização do aborto e do chamado casamento homossexual.

Além do julgamento moral sobre essas questões, o problema subjacente que divide o Vaticano da nova presidência norte-americana é de ordem política. A questão da imigração é, de fato, desde o início do atual pontificado, a espinha dorsal da política bergogliana, mas também uma pedra angular do programa de Donald Trump. Sobre este ponto, as visões de Francisco e do Presidente eleito dos Estados Unidos se opõem. “Uma nação sem fronteiras não é nação, assim como não é nação um país sem leis”, afirma Trump, enquanto para o Papa Bergoglio a hospitalidade ilimitada aos imigrantes é quase um locus teológico. Se Trump seguir adiante em seu caminho, não só porá um freio no multiculturalismo galopante que impera em seu país desde a era Kennedy, mas também dará inevitavelmente impulso aos partidos de direita e “identitários” que nas próximas semanas e meses irão às urnas na Áustria, Holanda, França e Alemanha.

Por sua vez, após a derrota de H. Clinton, Francisco permanece como o único ponto de referência da esquerda internacional, privada de líder. Ao concluir em 5 de novembro no Vaticano o Terceiro Encontro Mundial dos chamados “movimentos populares”, com a presença de agitadores revolucionários dos cinco continentes, o Papa Francisco virou-se para eles e disse: “Faço meu o vosso grito.” Mas o grito de protesto que se levanta desses movimentos congregados na sala de audiência Paulo VI é infelizmente caracterizado pelo fanatismo ideológico e a incitação à violência.

A tendência é clara. Em sua última viagem à América do Sul, Francisco expressou sua simpatia pelos presidentes da Bolívia e do Equador, e em 24 de outubro recebeu em audiência privada no Vaticano o presidente venezuelano, Nicolás Maduro Moros, também da extrema-esquerda, a quem assegurou o seu apoio. Nenhuma palavra de aprovação e comprazimento, entretanto, partiu do Vaticano pelo extraordinário gesto do presidente Pedro Pablo Kuczynsky, do Peru, que em 21 de outubro, no Café-da-manhã de Oração, na presença da presidente do Congreso e de outras personalidades, consagrou seu país ao Sagrado Coração de Jesus e ao Coração Imaculado de Maria.

Quão oportuno seria se, abandonando a política, o Papa e os bispos do mundo unissem seus esforços em atos religiosos desse gênero, começando pela tão esperada consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, por ocasião do centenário de Fátima de 2017, que coincide com o da funesta Revolução bolchevique de outubro. 

8 novembro, 2016

Terremotos e castigos divinos.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza romana, 05-11-2016 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comA partir de 24 de agosto deste ano, a Itália foi sacudida por uma série de terremotos violentos que, transcorridos dois meses, não dão sinal de diminuir. São milhares, segundo os sismólogos, com intensidade e magnitude diversas. Até o momento eles provocaram um número limitado de vítimas, mas sérios danos a igrejas e edifícios públicos e privados, despojando dezenas de milhares de italianos de seus bens e de suas casas.

san_benedtto_norcia-468x278O terremoto de 30 de outubro, o mais grave desde o de 24 de agosto, foi sentido em toda a Itália, de Bari a Bolzano, e teve seu símbolo no colapso da Basílica de Núrsia. A notícia de sua destruição correu o mundo. Construída sobre o local de nascimento de São Bento, dela restou apenas uma frágil fachada. Todo o resto desapareceu em uma nuvem de poeira. Muitos meios de comunicação, como a CNN americana, enfatizaram a natureza simbólica do acontecimento, exibindo a imagem da catedral desmoronada na página inicial de seus sites.

Houve um tempo em que os homens eram capazes de ler as mensagens de Deus em todos os acontecimentos que escapavam à vontade deles, cada um dos quais tem um significado expresso na linguagem do símbolo, que não é uma representação convencional, mas a mais profunda expressão do ser das coisas.

O racionalismo moderno, de Descartes a Hegel e de Marx ao neocientificismo, quis racionalizar a natureza, substituindo a verdade do símbolo pela interpretação puramente quantitativa da natureza. O racionalismo está hoje em crise, mas, abeberando-se em suas fontes intelectuais, do nominalismo ao evolucionismo, a cultura pós-moderna criou um novo sistema simbólico que, ao contrário dos antigos sistemas, não se reporta à realidade das coisas, mas a deforma como num jogo de espelhos. O código simbólico que se exprime em todas as formas de comunicações pós-modernas, dos tweets aos talk-shows, visa criar emoções e despertar sentimentos, recusando-se a compreender a razão profunda das coisas.

A Basílica de Núrsia, por exemplo, é um símbolo da arte, da cultura e da fé, cuja destruição evoca para os meios de comunicação a perda do patrimônio artístico da região central da Itália, mas não a imagem do colapso da fé ou dos valores fundamentais da civilização cristã.

Por exemplo, embora o vocábulo “terremoto” seja usado na linguagem cotidiana para indicar transtornos culturais e sociais, para a mídia ele nunca pode significar uma intervenção divina, porque Deus só pode ser apresentado como misericordioso, jamais como justo.

Os que falam de “castigo divino” incorrem imediatamente na difamação da mídia, como aconteceu com o padre Giovanni Cavalcoli, cujas recentes palavras na Rádio Maria foram definidas pelo substituto da Secretaria de Estado, Mons. Angelo Becciu, como “declarações ofensivas aos crentes e escandalosas aos não crentes”.

Mas, se há escândalo, é aquele causado pela tomada de posição do prelado vaticano, que demonstra ignorar a teologia católica e o ensinamento dos Papas, como Bento XVI, que na audiência de 18 de maio de 2011, falando sobre a oração de intercessão de Abraão por Sodoma e Gomorra, as duas cidades bíblicas punidas por Deus pelos seus pecados, afirma:

“O Senhor estava disposto a perdoar, desejava fazê-lo, mas as cidades estavam fechadas num mal totalizador e paralisador, sem sequer poucos inocentes, a partir dos quais começar para transformar o mal em bem. Pois é precisamente este o caminho da salvação, que também Abraão pedia: ser salvos não quer dizer simplesmente evitar a punição, mas ser libertados do mal que habita em nós. Não é o castigo que deve ser eliminado, mas o pecado, aquela rejeição de Deus e do amor que já traz em si o castigo. O profeta Jeremias dirá ao povo rebelde: «Valeu-te este castigo a tua malícia, e as tuas infidelidades atraíram sobre ti a punição. Sabe, portanto, e vê como te foi funesto e amargo abandonar o Senhor teu Deus» (Jr 2, 19).”

Como esquecer que entre agosto e setembro de 2016 foram celebradas na Itália as primeiras uniões civis? “Reconstruiremos tudo”, disse o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi.

Mas, em 23 de julho de 2016, o mesmo Renzi apôs sua assinatura no decreto de aplicação da Lei nº. 76/2016, ou Lei Cirinnà, que legaliza o casamento homossexual na Itália. Esta lei é um terremoto moral, porque abate as paredes da lei divina natural. Como imaginar que essa lei calamitosa seja privada de consequências? Aqueles que não renunciaram ao bom senso percebem-no imediatamente. Hoje o homem se rebela contra Deus e a natureza se rebela contra o homem. Ou melhor, o homem se rebela contra a lei natural, que tem o seu fundamento em Deus, e a desordem da natureza explode.

A lei Cirinnà não destrói as casas, mas a instituição da família, produzindo uma devastação moral e social não menos grave do que aquela material causada pelo terremoto. Quem pode negar-nos o direito de pensar que a desordem da natureza é permitida por Deus como consequência da negação da ordem natural praticada pelas classes dirigentes do Ocidente? E, uma vez que os símbolos permitem diversas leituras, como culpar aqueles que veem na fachada de uma basílica o símbolo daquilo que hoje, sob o aspecto humano, parece restar da Igreja Católica: uma pilha de escombros? As declarações de Mons. Becciu, um dos colaboradores mais próximos do Papa Francisco, são a expressão de um mundo eclesiástico em ruínas que atrai sobre si outras ruínas.

Da promulgação da Exortação Amoris Laetitia às honras prestadas a Lutero em Lund, o Papa Francisco certamente não ajudou a restaurar a ordem neste mundo em frangalhos.

O Papa repetiu que não se devem construir muros, mas derrubá-los. Pois bem, as paredes colapsam, mas com elas desmoronam a fé e a moral católica, rui a civilização cristã, que em Núrsia, local de nascimento de São Bento, tem o seu berço simbólico.

Ainda assim, se a basílica caiu, a estátua de São Bento permaneceu de pé, no centro da praça em frente. Em torno dela reuniu-se um grupo de monges, freiras e leigos, rezando o terço. Esta é também uma mensagem simbólica, que nos fala da única reconstrução possível: aquela que se faz de joelhos, rezando.

Além da oração, deve também haver ação, luta, testemunho público da própria fé na nossa Igreja e na Civilização cristã, que ressurgirão dos escombros. Nossa Senhora o prometeu em Fátima. Mas antes do triunfo do Coração Imaculado, a Santíssima Virgem também previu um castigo planetário para a humanidade impenitente. Devemos ter a coragem de lembrá-lo. 

20 outubro, 2016

A que Igreja, afinal, pertence o Papa Bergoglio?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 19 de outubro de 2016 | FratresInUnum.com  – Duas celebrações se sucederão em 2017: os 100 anos das aparições de Fátima, ocorridas entre 13 de maio e 13 de outubro de 1917, e os 500 anos da revolta de Lutero, iniciada em Wittenberg, Alemanha, em 31 de outubro de 1517. Mas no próximo ano ocorrem também dois outros aniversários, dos quais se fala menos: os trezentos anos da fundação oficial da maçonaria (Londres, 24 de junho de 1717) e os cem anos da Revolução russa de 26 de outubro de 1917 (no calendário juliano, em uso no império russo; no dia 8 de novembro, segundo o calendário gregoriano). No entanto, entre a Revolução protestante e a comunista, passando pela Revolução francesa, filha da maçonaria, corre um ininterrupto fio vermelho que Pio XII, no famoso discurso Nel contemplare, de 12 de outubro de 1952, resumiu em três fases históricas, correspondentes ao protestantismo, ao iluminismo e ao ateísmo marxista: “Cristo sim, a Igreja não. Depois: Deus sim, Cristo não. Finalmente, o grito ímpio: Deus está morto; ou antes, Deus nunca existiu.”

Nas primeiras negações do protestantismo – observou Plinio Corrêa de Oliveira – já estavam implícitos os anelos anárquicos do comunismo: “Se, do ponto de vista da formulação explícita, Lutero não era senão Lutero, todas as tendências, todo o estado de alma, todos os imponderáveis da explosão luterana já traziam consigo, de modo autêntico e pleno, embora implícito, o espírito de Voltaire e de Robespierre, de Marx e de Lenine” (Revolução e Contra-Revolução, Parte I, Cap. 6, 1 B).

Sob  este aspecto, os erros difundidos pela Rússia soviética a partir de 1917 foram uma cadeia de aberrações ideológicas que de Marx e Lênin remontam aos primeiros hereges protestantes. A Revolução luterana de 1517 pode portanto ser considerada um dos eventos mais nefastos da história da humanidade, ao lado da revolução maçônica de 1789 e da comunista de 1917. E a Mensagem de Fátima, que previu a propagação dos erros comunistas no mundo, contém em si, implicitamente, a rejeição dos erros do protestantismo e da Revolução francesa.

O início do centenário das aparições de Fátima, em 13 de outubro de 2016, foi enterrado sob um manto de silêncio. Nesse mesmo dia, o Papa Francisco recebeu mil “peregrinos” luteranos na Sala Paulo VI, enquanto no Vaticano era homenageada uma estátua de Martinho Lutero, como aparece nas fotos que Antonio Socci difundiu em primeira mão em sua página do facebook. Além disso, o Papa Francisco viajará no próximo dia 31 de outubro a Lund, na Suécia, onde participará da cerimônia conjunta luterano-católico para comemorar o 500º aniversário do protestantismo. Como se lê no comunicado redigido pela Federação Luterana Mundial e pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, o objetivo do evento é “expressar os dons da Reforma e pedir perdão pela divisão perpetuada pelos cristãos das duas tradições”.

O teólogo e pastor valdense Paolo Ricca, empenhado há décadas no diálogo ecumênico, manifestou a sua satisfação “porque é a primeira vez que um Papa comemora a Reforma. Isso, na minha opinião, constitui um passo à frente em relação às metas significativas que foram alcançadas pelo Concílio Vaticano II, o qual – incluindo em seus textos e valorizando assim alguns princípios e temas fundamentais da Reforma – marcou uma reviravolta decisiva nas relações entre católicos e protestantes. Participar da comemoração, como se dispõe a fazer o representante supremo da Igreja Católica, significa, a meu ver, considerar a Reforma um evento positivo na história da Igreja, que fez bem inclusive ao catolicismo. A participação na comemoração é um gesto de grande significado, porque o papa irá a Lund, no lar dos luteranos, como se fosse um da família. A minha impressão é de que ele, de uma maneira que eu não saberia definir, também se sente parte daquela porção de cristianismo que nasceu da Reforma”.

Segundo o mesmo Ricca, o principal contributo oferecido pelo Papa Francisco é “o seu esforço para reinventar o papado, ou seja, a busca de um modo novo e diferente de entender e viver o ministério do bispo de Roma. Esta busca – supondo que a minha leitura acerte ao menos um pouco no alvo – poderia levar muito longe, porque o papado – pelo modo como foi entendido e vivido nos últimos 1000 anos – é um dos grandes obstáculos à unidade dos cristãos. Parece-me que o Papa Francisco está se movendo rumo a um modelo de papado diferente do tradicional, em relação ao qual as outras Igrejas cristãs poderiam assumir novas posições. Se assim fosse, este tema  poderia ser completamente repensado em âmbito ecumênico”.

O fato de a entrevista ter sido publicada em 9 de outubro pelo Vatican Insider, considerado um site semi-oficioso do Vaticano, sugere que esta interpretação da viagem a Lund e das intenções pontifícias seja autorizada e bem-vinda ao Papa Francisco.

Em 13 de outubro, no decurso da  audiência aos luteranos, o papa Bergoglio também disse que o proselitismo, é “o veneno mais forte contra o ecumenismo”. E acrescentou:  “Os maiores reformadores são os santos e a Igreja deve ser sempre reformada.” Estas palavras contêm ao mesmo tempo, como é comum em seus discursos, uma verdade e um engano. A verdade é que os santos, de São Gregório VII a São Pio X, foram os maiores reformadores. O engano consiste em insinuar que os pseudo-reformadores, como Lutero, devem ser considerados santos. A afirmação de que o proselitismo ou o espírito missionário é “o veneno mais forte contra o ecumenismo” deve, pelo contrário, ser invertida: o ecumenismo, como entendido hoje, é o veneno mais forte contra o espírito missionário da Igreja. Os santos foram sempre movidos pelo espírito missionário, começando por aqueles jesuítas que no século XVI aportavam no Brasil, no Congo e nas Índias, enquanto seus irmãos Diego Lainez, Alfonso Salmeron e Pedro Canísio, reunidos no Concílio de Trento, combatiam os erros do luteranismo e do calvinismo.

Mas, para o Papa Francisco, quem está fora da Igreja Católica não deve ser convertido. Na audiência de 13 de outubro, respondendo de improviso às perguntas dos jovens, disse: “Eu gosto muito dos bons luteranos, dos luteranos que seguem verdadeiramente a fé de Jesus Cristo. No entanto, não gosto dos católicos mornos e dos luteranos mornos.” Com outra deformação da linguagem, o  papa Bergoglio define como “luteranos bons” aqueles protestantes que não seguem a fé de Jesus Cristo, mas uma deformação dela, e como “católicos mornos” aqueles filhos fervorosos da Igreja que rejeitam a equiparação entre a verdade da religião católica e o erro do luteranismo.

Tudo isso leva a perguntar o que acontecerá em Lund no dia 31 de outubro. Sabemos que a comemoração compreendeerá uma celebração comum, fundada no guia litúrgico católico-luterano Common Prayer (Oração Comum), elaborado com base no documento Do conflito à comunhão. Comemoração comum luterano-católica da Reforma em 2017, elaborado pela Comissão católico-luterana pela unidade dos Cristãos. Há quem tema com razão uma “intercomunhão” entre católicos e luteranos, que seria sacrílega porque os luteranos não acreditam na transubstanciação. Mas, sobretudo, se dirá que Lutero não é um heresiarca, mas um reformador injustamente perseguido, e que a Igreja deve recuperar os “dons da reforma”. Quem se obstinar a considerar justa a condenação de Lutero e heréticos e cismáticos seus seguidores, deve ser severamente condenado e excluído da igreja do Papa Francisco. Mas a que Igreja, afinal, pertence Jorge Mario Bergoglio?

Tradução de Hélio Dias Viana

17 outubro, 2016

Pedofilia no clero, uma crise moral e doutrinária.

Por Roberto de Mattei, Il Tempo, Roma,  08-10-2016 | Tradução: FratresInUnum.com – O cotidiano “Il Tempo”, de Roma, dirigido por Gian Marco Chiocci, publicou no dia 8 de outubro uma ampla reportagem dedicada à difusão da pedofilia no clero italiano. Triste fenômeno, que resultou em 130 sacerdotes condenados e 100 processados. Para erradicá-lo, o padre Nicola Bux declarou em entrevista ao referido cotidiano que “é preciso ter a coragem de dizer que a pedofilia é conexa à homossexualidade. Todos o negam, mas os estudiosos e especialistas afirmam que é assim”. Reportamo-nos à contribuição de Roberto de Mattei publicada em “Il Tempo” sob o título Crise moral e doutrinária.

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A difusão da pedofilia no clero é uma das muitas manifestações da profunda crise moral que explodiu nas últimas décadas dentro da Igreja. Bento XVI, que na Via Crucis de 2005 denunciou a “sujeira na Igreja”, sempre se expressou por uma linha extremamente rigorosa contra os abusos do clero, sublinhando a urgência de uma reforma moral da Igreja. Entre suas muitas declarações nesse sentido, destaca-se a Carta aos católicos da Irlanda, de 19 de março de 2010.

crise-morale-et-doctrinale-delleglise-468x232Às vezes, porém, a pedofilia é utilizada instrumentalmente para desqualificar o clero como um todo, e propor a abolição do celibato como solução para o problema. Na verdade, a pedofilia não afeta senão uma parte mínima do clero, e os casos de padres pedófilos não nos devem fazer esquecer a existência de sacerdotes acusados falsamente, como o padre Giorgio Govoni, pároco da Bassa Modenese, acusado por um assistente social no final dos anos noventa de liderar um grupo de “satanistas pedófilos”. O Supremo Tribunal confirmou em 2002 a decisão do Tribunal de Recurso de Bolonha, segundo o qual o sacerdote havia sido difamado injustamente. Mas o padre Govoni, atingido pela vergonha, morreu em 19 de maio de 2000 de ataque cardíaco, no escritório de seu advogado.

Além disso, segundo o sociólogo Philip Jenkins, um dos principais estudiosos da pedofilia no clero, a taxa de padres condenados por abuso infantil varia, de acordo com as áreas geográficas, de 0,2% a 1,7% do total, enquanto que para ministros protestantes ela é de 2 a 3%. Nos Estados Unidos, em particular, a presença de pedófilos entre os pastores protestantes supera de duas a dez vezes aquela existente entre padres católicos.

A estatística é importante, porque o fato de os pastores protestantes serem quase todos casados demonstra que o problema não reside de modo algum no celibato dos sacerdotes. Outro estudo da John Jay College of Criminal Justice da City University of New York, citado pelo sociólogo Massimo Introvigne, afirma que mais de 80% dos padres incriminados por pedofilia são de orientação homossexual.

Isso não estabelece a equivalência entre homossexualidade e pedofilia, mas confirma que a solução do problema não está no casamento dos padres. Deve também ser dito que dentro da Igreja Católica se espalhou uma cultura hedonista e relativista, existindo hoje seminários, faculdades de teologia e instituições religiosas nas quais a homossexualidade, ou pelo menos uma tendência homossexual, é considerada irrelevante do ponto de vista moral e pacificamente tolerada. Mas as práticas homossexuais, que ao contrário da pedofilia não são crime na maioria dos países, continuam a ser um grave pecado para a Igreja Católica e a sua propagação no interior do clero deveria provocar na hierarquia eclesiástica um alarme que tem faltado.

O verdadeiro problema reside no fato de a crise moral da Igreja vir acompanhada de uma crise doutrinária. A Igreja, em vez de converter o mundo com a lei do Evangelho, parece querer adaptar o Evangelho às exigências do mundo. É o caminho que parece indicar a Exortação Amoris laetitia do Papa Francisco, cujo equívoco de fundo está na ilusão de que, acolhendo com “misericórdia” as tendências amorais da cultura contemporânea, será a sociedade, e não a Igreja, quem vai renunciar à sua identidade.

11 outubro, 2016

Da invasão migratória à guerra civil.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 05-10-2016 | Tradução: FratresInUnum.comAté os mais relutantes começam agora a abrir os olhos. Existe um plano organizado para desestabilizar a Europa por meio da invasão migratória. Este projeto vem de longe. No fim dos anos noventa, no livro 1900 a 2000. Dois sonhos se sucedem: a construção, a destruição (Fiducia, Roma 1990), descrevi-o através das palavras de alguns de seus “apóstolos”, como o escritor Umberto Eco e o cardeal Carlo Maria Martini.

Eco escrevia: “Hoje na Europa não estamos diante de um fenômeno de imigração. Encontramo-nos diante de um fenômeno migratório (…) e, como todas as grandes migrações, terá como resultado final uma reorganização étnica da terra de destino, uma mudança inexorável dos costumes, uma incontenível hibridação que mudará estatisticamente a cor da pele, do cabelo, dos olhos das pessoas”. O cardeal Martini, por sua vez, julgava necessária “uma escolha profética” para se compreender que “o processo migratório em curso, do Sul cada vez mais pobre para o Norte cada vez mais rico, é uma grande oportunidade ética e civil para uma renovação, para inverter a rota da decadência do consumismo em curso na Europa Ocidental”.

Nessa perspectiva de “destruição criativa”, comentou ele, “não seriam os imigrantes que deveriam integrar-se na na civilização europeia, mas seria ao contrário, a Europa que deveria desintegrar-se e regenerar-se graças à influência das etnias que a ocupam (… ) É o sonho de uma desordem criativa, de um choque semelhante àquele que deu nova vida ao Ocidente na época das invasões bárbaras, para gerar a sociedade multicultural do futuro”.

O plano era – e continua sendo – de destruir os Estados nacionais e suas raízes cristãs, não para construir um super-Estado, mas para criar um não-Estado, um horrível vácuo, no qual tudo aquilo que ainda tem a aparência de verdade, de bom, de justo, seja tragado no abismo do caos. A pós-modernidade é esta: não um projeto de “construção”, como tinha sido o pseudo-civilização nascida do Humanismo e do Iluminismo, e que resultou na totalitarismo do século XX, mas uma utopia nova e diferente: a da desconstrução e tribalização da Europa. O fim do processo revolucionário que durante muitos séculos atacou a nossa civilização é o niilismo; o “nada estruturado”, segundo uma feliz expressão de Mons. Jean-Joseph Gaume (1802-1879).

Os anos se passaram e a utopia do caos se transformou no pesadelo que estamos vivendo. O projeto de desintegração da Europa descrito por Alberto Carosa e Guido Vignelli em seu documentado estudo A  invasão silenciosa. O “imigracionismo”: benefício ou conspiração? (Roma 2002) tornou-se um fenômeno de época. Quem denunciava esse projeto era chamado de “profeta de desgraça”. Hoje ouvimos dizer que se trata de um processo incontenível, que deve ser “governado”, mas não pode ser freado. O mesmo foi dito do comunismo nos anos setenta e oitenta do século passado, até que veio a queda do Muro de Berlim, para mostrar que nada é irreversível na História, exceto, talvez, a cegueira dos “idiotas úteis”. Entre esses idiotas úteis devem certamente ser contados os prefeitos de Nova York, Paris e Londres, respectivamente Bill de Blasio, Anne Hidalgo e Sadiq Khan, que em 20 de setembro, por ocasião da Assembleia Geral das Nações Unidas, em uma carta ao The New York Times intitulada Our immigrants, our strenght (Nossos imigrantes, nossa força), lançaram um apelo “para se tomarem medidas visando garantir assistência e abrigo seguro aos refugiados que fogem dos conflitos e aos migrantes em fuga da miséria”.

As centenas de milhares de imigrantes que chegam em nossas costas não fogem nem do conflito, nem da miséria. São jovens com ótima saúde, aparência bem cuidada, sem sinal de lesão ou desnutrição, como acontece com aqueles que vêm de zonas de guerra ou de fome. O coordenador antiterrorismo da União Europeia, Gilles de Kerchove, falando em 26 de setembro no Parlamento Europeu, denunciou a infiltração maciça do ISIS entre esses imigrantes. Pior ainda do que se entre eles os terroristas fossem apenas uma pequena minoria, todos os imigrantes ilegais que desembarcam na Europa são portadores de uma cultura antitética à cristã e ocidental. Eles não querem integrar-se na Europa, mas dominá-la, se não com armas, através do ventre de suas mulheres e das nossas. Onde esses grupos de jovens muçulmanos do sexo masculino se estabelecem, as mulheres europeias engravidam, formam-se novas famílias “mistas” submetidas à lei do Alcorão que exigem do Estado mesquitas e subvenção econômica. Isso é feito com o apoio dos prefeitos, das prefeituras e das paróquias católicas.

A reação da população é inevitável, e em países com alta taxa de imigração,  como a França e a Alemanha, está se tornando explosiva. “Estamos à beira de uma guerra civil”, disse Patrick Calvar, chefe da DGSI, a Direção-Geral da Segurança Interna francesa, diante de uma comissão parlamentar (Le Figaro, 22 de junho de 2016). O governo alemão, por sua vez, elaborou um “plano de defesa civil” de 69 páginas, no qual se convida a população a fazer estoque de comida e de água, e “preparar-se adequadamente para um evento que poderá ameaçar a nossa existência” (Reuters, 21 de agosto de 2016).

Quem são os responsáveis por essa situação? Devemos olhar para eles em diversos níveis. Há naturalmente a classe dirigente pós-comunista e de Maio de 1968, que assumiu as rédeas da política europeia; há intelectuais que elaboraram teorias deformadas no campo da física, da biologia, da sociologia, da política; há certos lobbies, a maçonaria, os potentados financeiros, que agem ora na escuridão, ora em plena luz do dia. E é conhecido, por exemplo, o papel do financista George Soros e de sua fundação internacional Open Society. Após um ataque de hackers, mais de 2.500 e-mails foram roubados do servidor do magnata americano-húngaro e publicados na internet, através do portal DC Leaks. A correspondência privada substraída a Soros revela o seu financiamento de atividades subversivas em todos os campos, da agenda LGBT aos movimentos pró-imigração. Com base nesses documentos, Elizabeth Yore, em uma série de artigos em The Remnant, mostrou o apoio de Soros, direto e indireto, também ao Papa Bergoglio e a alguns de seus colaboradores mais próximos, como o cardeal Oscar Andres Rodríguez Maradiaga e o arcebispo Marcelo Sánchez Sorondo.

Entre George Soros e o Papa Francisco aparece uma convergência estratégica objetiva. A política do acolhimento, apresentada como a “religião das pontes”, em oposição à “religião dos muros”, tornou-se o lema do pontificado de Francisco, a ponto de alguém se perguntar se a sua eleição não foi favorecida com o objetivo de oferecer aos arquitetos da invasão migratória o “endosso” moral de que necessitam. O certo é que hoje a confusão na Igreja e na sociedade avançam lado a lado. O caos político prepara a guerra civil, o caos religioso abre caminho aos cismas, que são uma espécie de guerra civil religiosa.

O Espírito Santo, cujas inspirações os cardeais nem sempre seguem no conclave, não deixa entretanto de agir e hoje alimenta o sensus fidei daqueles que se opõem aos projetos de demolição da Igreja e da sociedade. A Divina Providência não os abandonará.