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20 setembro, 2018

Igreja e homens de Igreja.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 12 de setembro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com:  A corajosa denúncia dos escândalos eclesiásticos feita pelo arcebispo Carlo Maria Viganò suscitou a aprovação de muitos, mas também a desaprovação de alguns, convencidos de que se deve cobrir de silêncio tudo aquilo que desacredite os representantes da Igreja.

Esse desejo de proteger a Igreja é compreensível quando o escândalo é uma exceção. Pois em tal caso há o risco de generalizar, atribuindo a todos o comportamento de alguns. Diferente é quando a imoralidade constitui a regra, ou pelo menos um modo de vida generalizado e aceito como normal.

Neste caso, a denúncia pública é o primeiro passo para a necessária reforma dos costumes. Quebrar o silêncio faz parte dos deveres do pastor, como adverte São Gregório Magno: “O que representa, com efeito, para um pastor o ter medo de dizer a verdade senão virar as costas ao inimigo com o seu silêncio? Se em vez disso ele luta pela defesa do rebanho, ele constrói um baluarte contra os inimigos para a casa de Israel. É por isso que o Senhor adverte pelos lábios de Isaías: ‘Clama em alta voz, sem constrangimento; faze soar a tua voz como o trompete’ (Is 58, 1).”

Nas origens de um silêncio culposo há muitas vezes uma falha em distinguir entre a Igreja e os homens da Igreja, sejam estes simples fiéis, bispos, cardeais ou papas. Uma das razões para essa confusão é precisamente a eminência das autoridades envolvidas nos escândalos.

Quanto maior a sua dignidade, mais se tende a identificá-los com a Igreja, atribuindo o bem e o mal indiferentemente a eles e a Ela. Na realidade, o bem pertence somente à Igreja, enquanto todo o mal se deve apenas aos homens que a representam.

É por isso que a Igreja não pode ser chamada de pecadora.  “Ela – escreve o padre Roger T. Calmel O.P. (1920-1998) – pede perdão ao Senhor não por pecados que Ela teria cometido, mas pelos pecados que cometemos seus filhos, na medida em que não a ouvimos como Mãe” (Breve apologia da Igreja de sempre, Editora Ichtys, Albano Laziale 2007, p. 91).

Todos os membros da Igreja, tanto os da esfera docente como os da discente, são homens cuja natureza foi ferida pelo pecado original. Nem o batismo torna os fiéis impecáveis, nem a Ordem sagrada torna tais os membros da Hierarquia. Até mesmo o Sumo Pontífice pode pecar e errar, exceto quando faz uso do carisma da infalibilidade.

Devemos também lembrar que não foram os fiéis que constituíram a Igreja, como acontece nas sociedades humanas, criadas pelos membros que as compõem, e que se dissolvem quando esses se separam.

Dizer “Nós somos Igreja” [n.d.t.: nome de um movimento internacional que visa democratizar a Igreja] é falso, porque a pertencença dos batizados à Igreja não deriva de sua vontade: é o próprio Cristo que convida a fazer parte do seu rebanho, repetindo a todos: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi” (Jo 15, 16). A Igreja fundada por Jesus Cristo tem uma constituição humano-divina: humana, porque possui um componente natural e receptivo, composto por todos os fiéis, sejam eles membros do clero ou do laicato; e outro sobrenatural e divino, por sua alma.

Jesus Cristo, sua Cabeça, é o seu fundamento, enquanto o Espírito Santo é o seu propulsor sobrenatural. Assim, a Igreja não é santa por causa da santidade de seus membros, mas seus membros é que são santificados por Jesus Cristo, que A dirige, e pelo Espírito Santo, que lhe dá vida. Portanto, atribuir alguma culpa à Igreja é o mesmo que atribuí-la a Jesus Cristo e ao Espírito Santo. Deles procede todo o bem, ou seja, “tudo que é verdadeiro, tudo que é nobre, tudo que é justo, tudo que é puro, tudo que é amável, tudo que é de boa fama, tudo que é virtuoso e louvável” (Fil.4, 8), e dos homens da Igreja procede todo o mal: desordens, escândalos, abusos, violência, torpezas, sacrilégios.

 “Portanto – escreve o teólogo passionista Enrico Zoffoli (1915-1996), que dedicou algumas belas páginas a este tema –, não temos nenhum interesse em encobrir as faltas dos maus cristãos, padres indignos, pastores covardes, ineptos, desonestos e arrogantes. Ingênua e inútil seria a intenção de defender sua causa, atenuar sua responsabilidade, reduzir as consequências de seus erros, recorrer a contextos históricos e situações singulares para depois tudo explicar e tudo absolver” (Igreja e homens de Igreja, Edições Segno, Udine 1994, p.41).

Existe hoje uma grande sujeira na Igreja, como disse o então cardeal Ratzinger na Via Crucis da Sexta-feira Santa de 2005, que precedeu a sua ascensão ao pontificado. “Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! (Jesus)”

O testemunho de Mons. Carlo Maria Viganò é meritório porque, trazendo à luz essa sujeira, torna mais urgente o trabalho de purificação da Igreja. Deve ficar claro que a conduta de bispos ou padres indignos não se inspira nos dogmas ou na moral da Igreja, antes ela trai uns e outra, porque representa uma negação da lei do Evangelho.

O mundo que atribui à Igreja as culpas desses clérigos acusa-a de transgredir a ordem moral. Mas em nome de que lei e de que doutrina pretende o mundo colocar a Igreja no banco dos réus? A filosofia de vida professada pelo mundo moderno é o relativismo, que não reconhece verdades absolutas e sustenta que a única lei do homem é ser isento de leis. A consequência prática é o hedonismo, segundo o qual a única forma possível de felicidade é a fruição do próprio prazer e a satisfação dos instintos. Como pode um mundo desprovido assim de princípios, pretender julgar e condenar a Igreja? A Igreja é que tem o direito e o dever de julgar o mundo, porque possui uma doutrina absoluta e imutável.

O mundo moderno, filho dos princípios da Revolução Francesa, desenvolve com coerência as ideias do famoso libertino, o Marquês de Sade (1740-1814): amor livre, blasfêmia livre, liberdade para negar e destruir qualquer bastião da fé e da moral como nos dias da Revolução Francesa foi destruída a Bastilha onde Sade tinha estado preso. O resultado de tudo isso foi a dissolução da moral, que destruiu os fundamentos da convivência civil e tornou os últimos dois séculos a época mais sombria da História.

A vida da Igreja é também a história de traições, de deserções, de apostasias, de falta de correspondência à graça divina. Mas esta trágica fraqueza vai sempre acompanhada de uma extraordinária fidelidade: as quedas, mesmo as mais assustadoras, de muitos membros da Igreja, estão entrelaçadas com o heroísmo da virtude de muitos outros de seus filhos.

Um rio de santidade flui do lado de Cristo e corre luxuriante ao longo dos séculos: são os mártires que enfrentam as feras do Coliseu; são os eremitas que deixam o mundo para levar uma vida de penitência; são os missionários que vão até os confins da terra; são os intrépidos confessores da fé que combatem cismas e heresias; são os religiosos contemplativos que sustentam com sua oração os defensores da Igreja e da Civilização Cristã; são todos aqueles que, de diferentes maneiras, conformaram as suas vidas à vida divina. Santa Teresa do Menino Jesus queria reunir todas essas vocações em um único e supremo ato de amor a Deus.

Os santos são diferentes uns dos outros, mas o que há de comum em todos eles é a união com Deus: e essa união, que nunca diminui no Corpo Místico de Cristo, faz com que a Igreja, antes mesmo de ser una, católica e apostólica, seja acima de tudo perfeitamente santa. A santidade da Igreja não depende da santidade de seus filhos: é ontológica, porque está ligada à sua própria natureza. Para que a Igreja possa ser chamada de santa, não é necessário que todos os seus filhos vivam santamente: basta que, graças ao fluxo vital do Espírito Santo, uma parte deles, ainda que pequena, permaneça heroicamente fiel à lei do Evangelho em tempos de provação.

30 agosto, 2018

“Eu não vou dizer uma palavra sobre isso”.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 29 de agosto de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com – “Eu não vou dizer uma palavra sobre isso.” Com esta frase, pronunciada em 26 de agosto de 2018 no voo de volta de Dublin a Roma, o Papa Francisco reagiu às impressionantes revelações do arcebispo Carlo Maria Viganò, que o colocavam diretamente em causa. Para a jornalista Anna Matranga (NBC), que lhe perguntara se era verdade o que foi escrito pelo ex-núncio nos Estados Unidos, o Papa respondeu: “Li essa declaração esta manhã. Eu a li e sinceramente tenho que lhe dizer isso, para você e para todos aqueles que estão interessados: leia, cuidadosamente, a declaração e faça seu próprio julgamento. Não vou dizer uma palavra sobre isso. Eu acredito que a declaração fala por si, e você tem capacidade jornalística suficiente para tirar conclusões. É um ato de confiança: quando tiver passado algum tempo e você tiver tirado conclusões, talvez eu fale. Mas eu gostaria que sua maturidade profissional fizesse esse trabalho: vai te fazer bem, de verdade. Fica bem assim.”

Um arcebispo rompe o clima de silêncio e conivência e denuncia, com nomes e circunstâncias específicos, a existência de uma “corrente filo-homossexual favorável a subverter a doutrina católica em relação à homossexualidade” e a presença de “redes de homossexuais difundidas atualmente em muitas dioceses, seminários, Ordens religiosas, etc.”, que “encobrem o segredo e a mentira com o poder dos tentáculos de um polvo e esmagam vítimas inocentes, vocações sacerdotais e estrangulam toda a Igreja”. Diante dessa voz corajosa que rompe o silêncio, o Papa Francisco se cala e confia aos meios de comunicação de massa a tarefa de julgar segundo seus critérios políticos e mundanos, muito diferentes dos critérios religiosos e morais da Igreja. Um silêncio que parece ainda mais grave do que os escândalos revelados pelo arcebispo Viganò.

Esta lepra se desenvolveu após o Concílio Vaticano II, como resultado de uma nova teologia moral que negava os absolutos morais e reivindicava o papel da sexualidade fora do casamento, hétero e homossexual, considerada como um fator de crescimento e desenvolvimento da pessoa humana. A homossexualização da Igreja se espalhou nos anos setenta e oitenta do século XX, como testemunha o livro, meticulosamente documentado, do padre Enrique Rueda, The Homosexual Network: Private Lives And Public Policy [A rede homossexual: vidas privadas e políticas públicas], publicado em 1982.

Para se entender como a situação não fez desde então senão agravar-se, é essencial ler o estudo Homossexualidade e sacerdócio – O nó górdio dos católicos? (Poznań Theological Studies, 31, 2017, pp. 117-143), pelo Prof. Andrzej Kobylinski, da Universidade Cardeal Stefan Wyszynski de Varsóvia (https://journals.indexcopernicus.com/api/file/viewByFileId/261531.pdf). Kobylinski cita um livro intitulado The Changing Face of the Priesthood: A Reflection on the Priest’s Crisis of Soul [A face mutante do sacerdócio: uma reflexão sobre a crise de alma do sacerdote], de Donald Cozzens, Reitor do Seminário em Cleveland, Ohio, onde o autor diz que, no início do século XXI, o sacerdócio tornou-se uma “profissão”, eminentemente exercida por homossexuais, podendo-se falar de um “êxodo heterossexual do sacerdócio”.

Há um caso emblemático que Kobylinski recorda – aquele do arcebispo de Milwaukee (Wisconsin), Rembert Weakland, aclamado expoente da corrente progressista e “liberal” americana: “Weakland encobre, há décadas, casos de abuso sexual de padres, apoiando uma visão da homossexualidade contrária à do Magistério da Igreja Católica. No final do exercício episcopal, ele também deu um desfalque enorme, roubando quase meio milhão de dólares dos cofres de sua arquidiocese para pagar seu ex-parceiro que o acusava de assédio sexual. Em 2009, Weakland fez o seu ‘coming out’, publicando uma autobiografa intitulada A Pilgrim in a Pilgrim Church [Um peregrino em uma Igreja peregrina], na qual ele admitiu ser homossexual e ter tido durante décadas relações sexuais seguidas com muitos parceiros. Em 2011, a Arquidiocese de Milwaukee foi forçada a declarar falência, devido ao alto custo das indenizações devidas às vítimas de padres pedófilos”.

Em 2004 apareceu o John Jay Report [título baseado no nome da seção especializada em justiça penal da Universidade da Cidade de Nova Iorque, que o preparou], documento preparado a pedido da Conferência Episcopal Americana, no qual foram analisados todos os casos de abuso sexual de menores por padres e diáconos católicos nos EUA nos anos 1950-2002. “Este documento de quase 300 páginas tem um valor informativo extraordinário – escreve Kobyliński. O John Jay Report demonstrou a ligação entre a homossexualidade e o abuso sexual de menores pelo clero católico. De acordo com o relatório de 2004, na grande maioria dos casos de abuso sexual, não é uma questão de pedofilia, mas de efebofilia, ou seja, uma perversão que não consiste em atração sexual pelas crianças, mas por adolescentes na puberdade. O John Jay Report mostrou que cerca de 90% dos padres condenados por abuso sexual infantil são padres homossexuais”.

Portanto, o escândalo de McCarrick não é senão o último ato de uma crise que vem de longe. No entanto, na Carta do Papa ao Povo de Deus, e ao longo de sua jornada na Irlanda, o Papa Francisco nunca denunciou essa desordem moral. O Papa acredita que no abuso sexual pelo clero o principal problema não é a homossexualidade, mas o clericalismo. Referindo-se a esses abusos, o historiador progressista Alberto Melloni escreve que “Francisco finalmente confronta o crime no plano eclesiológico: e o confia àquele agente teológico que é o povo de Deus. Ao povo Francisco diz sem rodeios que é o ‘clericalismo’ que incubou essas atrocidades, não um excesso ou uma insuficiência de moral” (La Repubblica, 21 de agosto de 2018).

“Le cléricalisme, voilà l’ennemi!” – “O clericalismo, eis o inimigo!” A famosa frase pronunciada em 4 de maio de 1876 na Câmara de Deputados francesa por Léon Gambetta (1838-1882), um dos expoentes máximos do Grande Oriente da França, poderia ser adotada pelo Papa Francisco. Essa frase, no entanto, é considerada a palavra de ordem do laicismo maçônico do século XIX e foi por sua aplicação que os governos da Terceira República Francesa realizaram nos anos seguintes um programa político “anticlerical” que teve como etapas a laicização completa do ensino, a expulsão dos religiosos do território nacional, o divórcio, a abolição da concordata entre a França e a Santa Sé.

O clericalismo de que fala o Papa Francisco é aparentemente diferente, mas no final das contas ele corresponde àquela concepção hierárquica tradicional da Igreja, que foi combatida ao longo dos séculos pelos galicanos, pelos liberais, pelos maçons e pelos modernistas. Para reformar a Igreja, purificando-a do clericalismo, o sociólogo italiano Marco Marzano sugere ao Papa Francisco este caminho: “Pode-se, por exemplo, começar a retirar completamente dos párocos o governo das paróquias, privando-os das funções de governo (financeiro e pastoral) absoluto e monocrático das quais se beneficiam hoje. Introduzindo um elemento importante de democracia, poder-se-ia tornar os bispos elegíveis. Poder-se-ia fechar os seminários, instituições da Contra-Reforma nas quais o clericalismo como espírito de casta é ainda hoje exaltado e cultivado, substituindo-os por estruturas de formação abertas e transparentes. Pode-se, sobretudo, suprimir a regra sobre a qual o clericalismo na maioria das vezes se funda hoje (e que é também a base da grande maioria dos crimes sexuais do clero), que é o celibato obrigatório. É justamente a suposta castidade do clero, com todo o corolário de pureza e sacralidade sobre-humana que a acompanha, que estabelece a premissa principal do clericalismo” (Il Fatto quotidiano, 25 de agosto, 2018).

Quem quer eliminar o clericalismo, quer de fato destruir a Igreja. E se, em vez disso, se entende o clericalismo como o abuso de poder exercido pelo clero quando abandona o espírito do Evangelho, não há clericalismo pior do que o daqueles que renunciam a estigmatizar pecados gravíssimos como a sodomia e deixam de recordar que a vida cristã deve necessariamente terminar no céu ou no inferno.

Nos anos seguintes ao Vaticano II, grande parte do clero abandonou o ideal da realeza social de Cristo e aceitou o postulado da secularização como um fenômeno irreversível. Mas quando o Cristianismo se submete ao laicismo, o Reino de Cristo é transformado em um reino mundano e reduzido a uma estrutura de poder. O espírito militante é substituído pelo espírito do mundo. E o espírito do mundo impõe silêncio sobre o drama que a Igreja está vivendo atualmente.

17 agosto, 2018

40 anos da morte de Paulo VI.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 15 de agosto de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: No dia 6 de agosto último transcorreram quarenta anos da morte de Giovanni Battista Montini, cujo pontificado sob o nome de Papa Paulo VI (1963 a 1978) mudou a vida da Igreja no século XX.

Papa Paulo VIGiovanni Battista Montini nasceu em Concesio, perto de Brescia, em 26 de setembro de 1897. Seu ambiente familiar era caracterizado por uma forte tendência ao liberalismo e uma semente jansenista, expressa especialmente no campo litúrgico. Na sua formação juvenil influenciou-o também o liturgismo pró-modernista do sacerdote oratoriano Giulio Bevilacqua, seu diretor espiritual, que em 1965 recebeu o capelo cardinalício de suas mãos. Em 19 de maio de 1920, com apenas vinte e dois anos, o jovem Montini foi ordenado sem ter cursado os estudos teológicos no Seminário, por causa de sua saúde frágil. Chegado a Roma, foi chamado para a Secretaria de Estado e nomeado assistente eclesiástico da FUCI (Federação Universitária Católica Italiana), atividade que o envolveu intensamente, mas da qual foi removido por suas ideias litúrgicas “inovadoras” e uma forte tendência à “politização” dos jovens. Seu pai, Giorgio, tinha sido um membro do Partido Popular italiano, e a política, juntamente com a liturgia, permaneceu sempre uma de suas grandes paixões.

Em dezembro de 1937, Mons. Montini foi promovido a Substituto da Secretaria de Estado, sucedendo a Mons. Amleto Tardini. Ele não tinha experiência diplomática, salvo alguns meses passados ​​na Nunciatura em Varsóvia, mas trabalhou quase continuamente na Secretaria de Estado, até 1954, quando Pio XII nomeou-o arcebispo de Milão, sem atribuir-lhe o chapéu cardinalício. A promoção foi de fato uma “remoção”, cujas razões ainda não estão claras. De acordo com o cardeal Siri, Montini foi enviado a Milão após o parecer negativo de uma comissão secreta criada pelo Papa Pio XII, que tinha perdido a confiança no Substituto por sua proteção ao presidente da Juventude da Ação Católica, Mario Rossi, que estava lutando por uma Igreja aberta ao socialo-comunismo. O cardeal Casaroli confiou a Andrea Tornielli que as relações do Papa com seu colega de trabalho estavam se deteriorando pelos contatos de Montini com ambientes da esquerda política italiana a não sabendas de Pio XII. Do epistolário de Mons. Montini com o padre Giuseppe De Luca se pode presumir que através deste último o Substituto manteve relações com os católicos comunistas e setores do Partido Comunista Italiano. O historiador Andrea Riccardi, por sua vez, recorda que algumas nomeações de bispos na Lituânia tinham dado origem a rumores sobre uma infidelidade de Montini nas relações entre a Santa Sé e a Rússia Soviética. Esses rumores remontam a um “relatório secreto” do coronel Claude Arnould, que recebeu dos serviços de inteligência franceses o encargo de investigar a filtração de informações confidenciais aos governos comunistas orientais a partir da Secretaria de Estado. Arnould havia rastreado a responsabilidade pelo vazamento de notícias até Mons. Montini e seu séquito, alertando o Vaticano.

O Arcebispo de Milão certamente foi um progressista, admirador da nouvelle théologie e do “humanismo integral” de Jacques Maritain. Após a morte de Pio XII, ocorrida em 15 de dezembro de 1958, o recém-eleito Papa João XXIII o elevou à púrpura cardinalícia, permitindo-lhe participar do próximo Conclave. Quando, em 1962, o Concílio Vaticano II se abriu, o nome do Arcebispo de Milão era mencionado pelos jornalistas junto aos porta-estandartes do progressismo, como os cardeais König, Arcebispo de Viena; Frings, de Colônia; Döpfner, de Munique; Alfrink, de Utrecht, e Suenens, de Malines. Dom Helder Câmara recorda em suas cartas conciliares uma reunião que teve com o cardeal Suenens, na qual concordaram com o nome de Montini como o melhor sucessor de João XXIII.

Após a morte do Papa Roncalli, ocorrida em 3 de junho de 1963, o confronto no Conclave foi duro, mas apesar da forte oposição do cardeal Ottaviani, em 21 de junho o cardeal Montini ascendia ao trono de Pedro com o nome de Paulo VI. Em 22 de junho, o novo Papa dirigiu sua primeira mensagem radiofônica a “toda a família humana” e anunciou que a parte preeminente de seu pontificado seria dedicada à continuação do Concílio Ecumênico Vaticano II. No dia seguinte, no Angelus na Praça de São Pedro, na janela do Palácio Apostólico, ele chamou ao seu lado o cardeal Suenens, a quem atribuiu um papel dominante na orientação dos trabalhos conciliares.

Paulo VI apoiou desde o início a “abertura à esquerda” dos democratas-cristãos, que em 23 de novembro de 1963, sob a liderança de Aldo Moro, formaram o primeiro governo italiano com os socialistas. Pelo menos duas vezes, entre 1963 e 1964, ele interveio, através de alguns artigos no L’Osservatore Romano, em apoio à ação política de Moro.

No Concílio, Paulo VI foi quem bloqueou pessoalmente, em 1965, a iniciativa de quase quinhentos padres conciliares que exigiam a condenação do comunismo. No plano internacional, a exemplo de seu antecessor, ele apoiou a chamada Ostpolitik, que estendeu a mão aos regimes comunistas da Europa Oriental. Uma das vítimas mais ilustres dessa política foi o cardeal József Mindszenty, que havia se refugiado na embaixada dos EUA em Budapeste após a revolta húngara de 1956 e permaneceu firme contra qualquer hipótese de acordo com os governos comunistas. Quando Paulo VI pediu-lhe que renunciasse ao título de Arcebispo de Esztergom e de Primaz da Hungria, o Cardeal respondeu com uma recusa respeitosa, mas clara. Paulo VI assumiu a responsabilidade de declarar vaga a arquidiocese primacial, comunicando ao cardeal Mindszenty, em 18 de novembro de 1973, sua remoção do arcebispado. Foi um escândalo que marcou época.

No discurso de abertura do segundo período do Concílio, em 29 de setembro de 1963, Paulo VI colocava na liturgia um dos principais campos de atuação dos Padres conciliares. Quis-se fazer de Mons. Annibale Bugnini, religioso lazarista, o “arquiteto” da reforma litúrgica contra a vontade de Paulo VI. Na realidade, como testemunha o próprio Bugnini, a nova liturgia nasceu de uma estreita colaboração entre ambos. “Quantas horas da noite – recorda Mons. Bugnini – passei com ele estudando juntos os numerosos, muitas vezes volumosos dossiês que se empilhavam sobre sua mesa! Ele lia e considerava linha por linha, palavra por palavra, escrevendo tudo em preto, vermelho e azul, criticando, se necessário, com sua tão característica dialética que podia levantar dez questões sobre um mesmo ponto.” O desfecho desta revolução na Igreja foi a elaboração do Novus Ordo Missae, promulgado por Paulo VI em 3 de Abril de 1969. Em outubro de 1969, o cardeais Ottaviani e Bacci apresentaram ao Papa um Breve exame crítico do Novus Ordo Missae elaborado por um grupo de teólogos de diversas nacionalidades, no qual eles afirmavam que “o Novus Ordo Missae […] representa, quer em seu todo, quer nos seus  detalhes, um surpreendente afastamento da teologia católica da Missa tal como ela foi formulada na XXII sessão do Concílio de Trento”.

O que estava acontecendo naqueles anos dramáticos não passava despercebido de Paulo VI. Em 18 de Janeiro de 1967, o cardeal Journet transmitiu-lhe a sugestão de Maritain de uma nova “profissão de fé” que restabelecesse as verdades fundamentais do Cristianismo, distorcidas nos anos pós-Concílio. Naquela ocasião, Paulo VI pediu ao cardeal suíço um julgamento sobre a situação da Igreja. “Trágica”, foi a resposta lapidar de Journet. Em 7 de dezembro de 1968, em um discurso no Seminário Lombardo, Paulo VI teve palavras impressionantes: “A Igreja está passando hoje por um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica, pode-se até dizer a autodemolição. É como uma convulsão interna aguda e complexa que ninguém esperaria depois do Concílio.” Três anos mais tarde, em 29 de junho de 1972, referindo-se à situação da Igreja, Paulo VI disse com igual clareza “ter a sensação de que por alguma fissura a fumaça de Satanás penetrou no templo de Deus. […] Acreditava-se que após o Concílio teria chegado um dia ensolarado para a história da Igreja. Em vez disso, um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza”. Para superar a crise, o Papa seguiu a estratégia política de condenação dos “extremistas de ambos os lados”, que consistia em uma atitude de benévola indulgência para com as posições dos progressistas e severas sanções contra aqueles que, como o arcebispo francês Marcel Lefebvre, desejavam permanecer fiéis à Tradição da Igreja.

Dois acontecimentos perturbaram profundamente a vida de Paulo VI: a contestação que sofreu no verão de 1968 e, dez anos depois, a morte de Aldo Moro.

Paulo VI não compartilhava a posição do cardeal Suenens, que estava pressionando para que o uso da pílula contraceptiva fosse autorizado. E apesar da opinião contrária dos “especialistas” nomeados por ele para estudar o problema, reiterou em 25 de julho de 1968 a condenação da contracepção com a encíclica Humanae Vitae. A este documento contrário à corrente seguiu-se um violento protesto conduzido por teólogos, bispos e conferências episcopais inteiras, começando pela belga, presidida pelo Cardeal Suenens. Paulo VI se sentiu traído pelos Padres conciliares mais próximos a ele, os quais, por sua vez, o consideraram um “traidor”, contrapondo-lhe a utopia do “Papa bom” João XXIII. Ficou tão perturbado que nenhuma encíclica foi promulgada pelo Papa Paulo VI nos próximos dez anos, embora ele continuasse a acompanhar de perto a política italiana, incentivando a tentativa de seu amigo de infância Aldo Moro, de realizar, após a abertura à esquerda, o compromisso histórico com os comunistas.

Em 16 de março de 1978, dia em que se deveria com o apoio externo do Partido Comunista dar um voto de confiança ao governo liderado por Giulio Andreotti, as Brigadas Vermelhas sequestraram Moro, matando na emboscada os cinco homens de sua escolta. Paulo VI ficou chocado. No dia seguinte, através de uma declaração da Secretaria de Estado, ele anunciou que daria todo o seu apoio moral e material para salvar a vida do presidente da Democracia Cristã. Em 22 de abril, o Papa escreveu uma carta aberta “aos homens das Brigadas Vermelhas”, como ele definiu os terroristas, implorando-lhes de joelhos que libertassem Aldo Moro sem condições, “não tanto por causa da minha intercessão humilde e cordial, mas em virtude de sua dignidade como um irmão em humanidade”. O premente apelo ficou desatendido. Em 9 de maio, o corpo do presidente da Democracia Cristã foi encontrado no porta-malas de um Renault, na via Caetani, a poucos metros dos escritórios do Partido Comunista e da Democracia Cristã. Esse foi – recorda o secretário de Paulo VI, Mons. Macchi –  “um golpe mortal que marcou sua pessoa, já enfraquecida pela doença e pela velhice”.

No dia 13 de maio, na Basílica de São João de Latrão, o Papa compareceu à cerimônia fúnebre celebrada pelo cardeal vigário Ugo Poletti e fez um discurso que pareceu quase uma repreensão a Deus por não ter ouvido o pedido de salvação de Aldo Moro. O trágico acontecimento acelerou o declínio de suas forças. Em meados de julho, Paulo VI deixou Roma para se fixar na residência de verão de Castelgandolfo, onde morreu às 21h40 do dia 6 de agosto de 1978. As mensagens de pesar pela morte de Paulo VI foram inumeráveis. As palavras do ex-Grão-Mestre do Grande Oriente da Itália, Giordano Gamberini, impressionaram: “É a primeira vez na história da Maçonaria moderna que morre o chefe da maior religião ocidental, não em estado de hostilidade com os maçons. E pela primeira vez na história, os maçons podem homenagear o túmulo de um papa, sem ambigüidade ou contradições.”

Eu estava em Savigliano (Piemonte), na vila do filósofo Augusto Del Noce (1910-1989), com Giovanni Cantoni e Agostino Sanfratello, quando recebemos a notícia da morte de Paulo VI. Lembro-me que alguém presente deixou escapar um Deo gratias! Augusto Del Noce foi, em particular, um severo crítico do pontificado de Montini e a esperança estava viva em nós, que com o falecimento de Paulo VI a fumaça de Satanás que penetrou no Templo de Deus seria dissipada. Nos sucessivos pontificados, porém, as janelas por onde a fumaça penetrava foram fechadas apenas parcialmente e agora estão de novo escancaradas. A fumaça de Satanás se transformou em um incêndio que assola a Igreja, como os incêndios que, da Grécia à Califórnia, se intensificam neste verão quente. O papa que há quarenta anos desapareceu, e de quem uma canonização surpreendente foi anunciada, foi um dos principais culpados do incêndio que se propaga hoje.

10 agosto, 2018

A liceidade da pena de morte é uma verdade de fé católica.

Por Roberto de Mattei, LifeSiteNews, 3 de agosto de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com:  A liceidade da pena de morte é uma verdade fide tenenda, definida de modo constante e inequívoco pelo Magistério ordinário e universal da Igreja. Quem afirmar que a pena capital é em si mesma um mal, cai em heresia.

O ensinamento da Igreja a tal respeito foi claramente expresso na carta de 18 de dezembro de 1208, na qual Inocêncio III condena a posição valdense com estas palavras, transcritas por Denzinger: “De potestate saeculari asserimus, quod sine peccato mortali potest iudicium sanguinis exercere, dummodo ad inferendam vindictam non odio, sed iudicio, não incaute, sed consulte procedat” (Enchiridion symbolorum, definitionum et declaratium de rebus fidei et morum, editado por Peter Hünermann SJ, nº 795). (Quanto ao poder secular, afirmamos que se pode exercer a pena de morte sem pecado mortal, desde que ao infligir tal punição não se proceda por ódio, mas com juízo, não de maneira imprudente, mas com moderação).

A mesma posição foi reiterada pelo Catecismo do Concílio de Trento (Terceira Parte, nº 328), pelo Catecismo Maior de São Pio X (Terceira Parte, nº 413) e pelo novo Catecismo da Igreja Católica (nº 2267). O Papa Francisco assinou agora um rescrito que modifica o Catecismo com esta nova formulação: “A Igreja ensina, à luz do Evangelho, que ‘a pena de morte é inadmissível porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa’, e se empenha com determinação por sua abolição em todo o mundo.”

Segundo o Prefeito da Congregação para a Fé, cardeal Luis Ladaria, o novo texto segue os passos do ensinamento de João Paulo II na encíclica Evangelium vitae, mas a diferença é radical. Nesta, João Paulo II acredita que nas atuais circunstâncias históricas a Igreja deveria ser a favor da abolição da pena de morte, mas afirma que em si mesma ela não é injusta e que o mandamento “não matar” só tem valor absoluto “quando se refere à pessoa inocente” (nºs 56-57). Pelo contrário, o Papa Francisco considera a pena capital inadmissível, negando abertamente uma verdade definida infalivelmente pelo Magistério ordinário da Igreja.

Para justificar essa mudança, apela-se para condições sociológicas mutáveis. No rescrito do Papa Francisco está dito: “Durante muito tempo, o recurso à pena de morte pela autoridade legítima, após um julgamento regular, foi considerado uma resposta adequada à gravidade de alguns crimes e um meio aceitável, ainda que extremo, para a proteção do bem comum. Hoje é cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não se perde nem mesmo depois de ter cometido crimes gravíssimos. Além disso, difundiu-se uma nova compreensão do senso das sanções penais pelo Estado. Finalmente, foram desenvolvidos sistemas de detenção mais eficazes, que garantem a defesa adequada dos cidadãos, mas, ao mesmo tempo, não eliminam in modo definitivo do réu a possibilidade de se redimir.”

Contudo, a noção de “dignidade humana” não muda de acordo com os tempos e as circunstâncias históricas, assim como não muda o significado moral da justiça e da punição. Pio XII explica que quando o Estado recorre à pena de morte, não pretende ser o mestre da vida humana, mas apenas reconhece que o criminoso, através de uma espécie de suicídio moral, se privou do direito à vida. Segundo o Papa, “mesmo quando se trata da execução de uma pessoa condenada à morte, o Estado não dispõe do direito do indivíduo à vida. Cabe ao poder público privar o condenado do bem da vida, em expiação por sua falta, após ele, com seu crime, já ter perdido seu direito à vida” (Discurso de 14 de setembro de 1952, in Discorsi e Radiomessaggi vol. XIV, p. 328).

Por sua vez, teólogos e moralistas ao longo dos séculos, de São Tomás de Aquino a Santo Afonso de Ligório, explicaram como a pena de morte não se justifica apenas pela necessidade de proteger a comunidade, mas também por seu caráter retributivo, na medida em que restabelece a ordem moral violada e tem um valor expiatório, como foi a morte do Bom Ladrão, que o uniu ao supremo sacrifício de Nosso Senhor.

O novo rescrito do Papa Francisco exprime aquele evolucionismo teológico condenado por São Pio X na Pascendi e por Pio XII no Humani generis, nada tendo a ver com o desenvolvimento homogêneo do dogma do qual trata o Cardeal John Henry Newman. A condição para o desenvolvimento do dogma é, de fato, que as novas afirmações teológicas não contradigam o ensinamento anterior da Igreja, mas se limitem a explicitá-lo e aprofundá-lo.

Finalmente, como no caso da condenação da contracepção, não estamos tratando aqui de opiniões teológicas sobre as quais é legítimo debater, mas de verdades morais que pertencem ao Depositum fidei, e que, portanto, é obrigatório aceitar para permanecer católico. Esperamos que os teólogos e pastores da Igreja intervenham o quanto antes para fazer uma correção pública deste grave erro do Papa Francisco.

16 julho, 2018

Releiamos a Humanae Vitae à luz da Casti connubii.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 6 de julho de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO Ocidente conheceu nas últimas décadas uma Revolução antifamiliar sem precedentes na História. Um dos pilares desse processo de desagregação da instituição familiar tem sido a separação dos dois fins primários do matrimônio, o procriativo e o unitivo.

O fim procriativo, separado da união conjugal, levou à fertilização in vitro e ao útero alugado. O fim unitivo, emancipado da procriação, levou à apoteose do amor livre, hétero e homossexual. Um dos resultados dessas aberrações é o recurso de casais homossexuais ao útero alugado para realizar uma grotesca caricatura da família natural.

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A encíclica Humanae Vitae, de Paul VI, cujo quinquagésimo aniversário será celebrado em 25 de julho de 2018, teve o mérito de reafirmar a inseparabilidade dos dois significados do casamento e de condenar claramente a contracepção artificial, tornada possível nos anos 60 do século passado pela comercialização da pílula do Dr. Pinkus.

No entanto, até a Humanae Vitae tem culpa no cartório: a de não ter afirmado com igual clareza a hierarquia dos fins, ou seja, a primazia do fim procriativo sobre o unitivo. Dois princípios, ou valores, nunca podem estar num mesmo nível, em condição de igualdade. Um é sempre subordinado ao outro.

Isso se dá nas relações entre a fé e a razão, a graça e a natureza, a Igreja e o Estado, e assim por diante. Essas são realidades inseparáveis, mas distintas e ordenadas hierarquicamente. Se a ordem dessas relações não for definida, as tensões e os conflitos se seguirão, até a inversão da ordem dos princípios. Deste ponto de vista, uma das causas do processo de desintegração moral dentro da Igreja foi a falta de uma definição clara do fim primário do casamento pela encíclica de Paulo VI.

A doutrina da Igreja sobre o casamento foi afirmada como definitiva e obrigatória pelo Papa Pio XI em sua encíclica Casti Connubii, de 31 de dezembro de 1930. Neste documento, o Papa recorda à Igreja e à humanidade as verdades fundamentais sobre a natureza do casamento, estabelecido não pelos homens, mas pelo próprio Deus, e sobre as bênçãos e benefícios que advêm daí para a sociedade.

O primeiro objetivo é a procriação: que não significa apenas trazer filhos ao mundo, mas educá-los intelectual e moralmente, e, acima de tudo, espiritualmente, para conduzi-los ao seu destino eterno que é o Céu. O segundo objetivo é a assistência mútua entre os cônjuges, que não é apenas material, nem tampouco sexual ou sentimental, mas antes de tudo uma assistência e uma união espiritual.

A encíclica contém uma condenação clara e vigorosa do uso de meios contraceptivos, definidos como “uma ação torpe e intrinsecamente desonesta”. Portanto: “Qualquer uso do casamento em que pela maldade humana o ato seja destituído de sua virtude procriadora natural, vai contra a Lei de Deus e da natureza e aqueles que ousam cometer tais ações se tornam responsáveis de culpa grave.”

Pio XII confirmou em muitos discursos o ensinamento de seu antecessor. O esquema original sobre a família e o casamento do Concílio Vaticano II, aprovado por João XXIII em julho de 1962, mas rejeitado no início dos trabalhos pelos Padres Conciliares, reafirmou essa doutrina, condenando explicitamente “teorias que invertem a ordem correta dos valores, colocam o fim primordial do matrimônio no segundo plano em relação aos valores biológicos e pessoais dos cônjuges e que, na mesma ordem objetiva, indicam o amor conjugal como fim primário” (nº 14).

O fim procriativo, objetivo e enraizado na natureza se cumpre espontaneamente. O objetivo unitivo, subjetivo e baseado na vontade dos cônjuges pode desaparecer. A primazia do fim procriativo salva o casamento, a primazia do fim unitivo o expõe a sérios riscos.

Além disso, não devemos esquecer que os fins do casamento não são dois, mas três, porque subsidiariamente existe também o remédio para a concupiscência. Ninguém fala deste terceiro fim, porque se perdeu o significado da noção de concupiscência, confundido muitas vezes com o pecado, à maneira luterana.

A concupiscência, presente em todos os homens, exceto na Santíssima Virgem, imune do pecado original, nos recorda que a vida na terra é uma luta incessante, porque, como diz São João, “no mundo não existe senão concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da vida” (1 Jo 2:16).

A exaltação dos instintos sexuais, inoculados na cultura dominante pelo marxismo-freudismo, não é senão a glorificação da concupiscência e, consequentemente, do pecado original.

Essa inversão dos fins matrimoniais, que conduz inevitavelmente à explosão da concupiscência na sociedade, aflora na exortação do Papa Francisco Amoris laetitia, de 8 de abril de 2016, em cujo o número 36 se lê: “Com frequência apresentamos o casamento de modo tal que o fim unitivo, o convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua permanecem à sombra de uma nota quase exclusiva sobre o dever de procriar.”

Estas palavras repetem quase literalmente aquelas pronunciadas pelo cardeal Leo-Joseph Suenens na aula conciliar, em 29 de outubro de 1964, num discurso que escandalizou Paulo VI. “Pode ser – disse o cardeal arcebispo de Bruxelas – que tenhamos acentuado a palavra da Escritura: ‘Crescei e multiplicai’ a ponto de deixar a outra palavra divina nas sombras: ‘Os dois serão uma só carne’. (…) Caberá à Comissão nos dizer se não enfatizamos muito o primeiro objetivo, que é a procriação, em detrimento de um fim igualmente imperativo, que é o crescimento da unidade conjugal”.

O cardeal Suenens insinua que a finalidade principal do casamento não é crescer e multiplicar, mas que “os dois sejam uma só carne”. Passamos de uma definição teológica e filosófica para uma descrição psicológica do casamento, apresentada não como um vínculo enraizado na natureza e dedicado à propagação da humanidade, mas como uma comunhão íntima, voltada para o amor recíproco dos cônjuges.

O casamento é reduzido mais uma vez a uma comunhão de amor, enquanto o controle de natalidade – natural ou artificial – é visto como um bem que merece ser encorajado sob o nome de “paternidade responsável”, pois ajuda a fortalecer o bem primário da união conjugal. A consequência inevitável é que, no momento em que essa comunhão íntima vier a fracassar, o casamento pode se dissolver.

A inversão dos fins é acompanhada pela inversão dos papéis dentro da união conjugal. O bem-estar psicofísico da mulher substitui sua missão de mãe. O nascimento de uma criança é visto como um elemento que pode perturbar a íntima comunhão de amor do casal. A criança pode ser considerada como um injusto agressor do equilíbrio familiar, da qual o casal se defende com a contracepção e, em casos extremos, com o aborto.

A interpretação que demos das palavras do cardeal Suenens não é forçada. Em coerência com aquele discurso, o cardeal primaz da Bélgica liderou em 1968 a revolta dos bispos e teólogos contra a Humanae Vitae. A Declaração do episcopado belga, de 30 de agosto de 1968, contra a encíclica de Paulo VI, foi, com a do episcopado alemão, uma das primeiras elaboradas por uma Conferência Episcopal e serviu de modelo de protesto a outros episcopados.

Aos herdeiros dessa contestação, que se propõem reinterpretar a Humanae Vitae à luz da Amoris laetitia, respondemos com firmeza que continuaremos a ler a encíclica de Paulo VI à luz da Casti connubii e do Magistério perene da Igreja.

25 abril, 2018

A guerra religiosa do século IV e o nosso tempo.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza romana, 24-04-2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: A Igreja avança sempre vitoriosa na História, segundo os desígnios imprevisíveis de Deus. Os primeiros três séculos de perseguição atingiram o seu auge sob o imperador Diocleciano (284-305). Tudo parecia perdido. O desânimo foi uma tentação para muitos cristãos, entre os quais houve os que perderam a fé. Mas aqueles que perseveraram tiveram a imensa alegria, alguns anos depois, de ver a Cruz de Cristo brilhar sobre o  lábaro de Constantino na batalha de Saxa Rubra (312). Esta vitória mudou o curso da História. O Edito de Milão-Nicomédia de 313, concedendo liberdade aos cristãos, derrubou o senatusconsulto de Nero, que proclamava o Cristianismo como “superstitio illicita”. A cristianização pública da sociedade iniciou-se num clima de entusiasmo e fervor.

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Em 325, o Concílio de Niceia pareceu marcar a revivescência doutrinária da Igreja, com a condenação de Ario, que negava a divindade do Verbo. Em Niceia, graças à contribuição decisiva do diácono Atanásio (295-373), mais tarde Bispo de Alexandria, definiu-se a doutrina da “consubstancialidade” da natureza das três Pessoas da Santíssima Trindade.

Nos anos seguintes, entre a posição ortodoxa e a dos heréticos arianos, fez caminho um “terceiro partido”, o dos “semiarianos”, divididos em várias correntes. Reconheciam certa analogia entre o Pai e o Filho, mas negavam que Ele fosse “gerado, não criado, da mesma substância que o Pai”, como afirmou o Credo Niceno. Substituíram a palavra homoousios, que significa “a mesma substância”, pelo termo homoiousios, que significa “de substância similar”.

Os hereges arianos e semiarianos entenderam que o seu sucesso dependeria de dois fatores: o primeiro era permanecer dentro da Igreja; o segundo, obter o apoio do poder político – de Constantino, portanto, e depois de seus sucessores, o que de fato aconteceu. Uma crise nunca antes conhecida irrompeu dentro da Igreja e durou mais de 60 anos.

Ninguém a descreveu melhor do que o Cardeal Newman em seu livro Os arianos do século IV (1833), colhendo todas as nuances doutrinárias da questão. Um estudioso italiano, Prof. Claudio Pierantoni, traçou recentemente um esclarecedor paralelo entre a controvérsia ariana e a atual, sobre a exortação apostólica Amoris laetitia (http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1351421.html). Mas, já em 1973, Dom Rudolf Graber (1903-1992), Bispo de Regensburg, recordando a figura de Santo Atanásio no décimo sexto centenário de sua morte, comparou a crise do século IV com a do Concílio Vaticano II (Athanasius und die Kirche unserer Zeit: zu seinem 1600 Todestag, Kral 1973).

Atanásio, por sua fidelidade à ortodoxia, foi severamente perseguido por seus próprios irmãos e forçado cinco vezes, entre 336 e 366, a abandonar a cidade da qual era bispo, passando longos anos de exílio e de lutas árduas em defesa da fé. Duas assembleias de bispos, em Cesareia e Tiro (334-335), condenaram-no por rebelião e fanatismo. E em 341, enquanto um Concílio de cinquenta bispos proclamava em Roma a sua inocência, o Concílio de Antioquia, com a presença de mais de noventa bispos, ratificava os sínodos de Cesareia e Tiro, e colocava um ariano no trono episcopal de Atanásio.

O posterior Concílio de Sárdica, no ano 343, terminou com uma cisão: os Padres ocidentais declararam ilegal a deposição de Atanásio e reconfirmaram o Concílio de Niceia; os orientais condenaram não apenas Atanásio, mas também o Papa Júlio I, mais tarde canonizado, que o apoiara. O Concílio de Sirmio, em 351, procurou um meio termo entre a ortodoxia católica e o arianismo. No Concílio de Arles de 353, os Padres, incluindo o legado de Libério, que sucedera como Papa a São Júlio I, assinaram uma nova condenação de Atanásio. Os bispos foram forçados a escolher entre a condenação de Atanásio ou serem exiliados. São Paulino, Bispo de Trier, foi praticamente o único que lutou pela fé de Niceia. Exilado na Frígia, ali morreu em consequência dos maus-tratos sofridos nas mãos dos arianos. Dois anos mais tarde, no Concílio de Milão (355), mais de trezentos bispos ocidentais assinaram a condenação de Atanásio, enquanto outro Padre ortodoxo, Santo Hilário de Poitiers, era banido para a Frígia por sua inflexível lealdade à ortodoxia.

Em 357, o Papa Libério, vencido pelo sofrimento do exílio e pela insistência de seus amigos, mas também impulsionado pelo “amor à paz”, subscreveu a fórmula semiariana de Sirmio e rompeu a comunhão com Santo Atanásio, declarando-o separado da Igreja romana, pelo uso do termo “consubstancial”, como o testemunham quatro cartas de Santo Hilário (Manlio Simonetti, La crisi ariana del IV secolo, Institutum Patristicum Augustinianum, Roma 1975, pp. 235-236). Sob o pontificado do próprio Libério, os Concílios de Rimini (359) e de Selêucia (359), que constituíam um único grande Concílio representando o Ocidente e o Oriente, abandonaram o termo “consubstancial” de Niceia e estabeleceram um equívoco “meio termo” entre os arianos e Santo Atanásio. A heresia desenfreada parecia ter vencido na Igreja.

Os Concílios de Selêucia e Rimini não estão computados hoje pela Igreja entre os oito concílios ecumênicos da Antiguidade, mas mesmo assim contaram com até 560 bispos, a quase totalidade dos Padres da Cristandade, além de terem sido definidos como “ecumênicos” por contemporâneos. Foi então que São Jerônimo cunhou a expressão segundo a qual “o mundo gemeu e percebeu com espanto que se tornara ariano” (Dialogus adversus Luciferianos, n°. 19, em PL, 23, col. 171).

O que é importante ressaltar é que não se tratou de uma disputa doutrinária limitada a alguns teólogos, nem um simples entrechoque de bispos no qual o Papa deveria agir como árbitro. Foi uma guerra religiosa em que todos os cristãos estavam envolvidos, desde o Papa até os últimos fiéis. Ninguém se trancou em seu bunker espiritual, ninguém permaneceu na janela como espectador silencioso do drama. Todos desceram para combater nas trincheiras, em ambos os lados do embate. Não era fácil naquele momento alguém entender se seu bispo era ortodoxo ou não, mas o sensus fidei era a bússola para se orientar.

Falando em Roma no dia 7 de abril de 2018, o Cardeal Walter Brandmüller recordou que “o sensus fidei age como uma espécie de sistema imunológico espiritual que faz os fiéis reconhecer e rejeitar instintivamente quaisquer erros. Nesse sensus fidei repousa, portanto, independentemente da promessa divina, até mesmo a infalibilidade passiva da Igreja, ou seja, a certeza de que a Igreja, em sua totalidade, jamais poderá incorrer em uma heresia”.

Santo Hilário escreve que durante a crise ariana os ouvidos dos fiéis que interpretavam em sentido ortodoxo as afirmações ambíguas de teólogos semiarianos eram mais piedosos que os corações dos sacerdotes. Os cristãos que haviam resistido durante três séculos aos imperadores resistiam agora a seus próprios pastores, em alguns casos até mesmo ao Papa, culpados, se não de aberta heresia, pelo menos de grave negligência.

         Monsenhor Graber recorda as palavras do livro Athanasius (1838), do escritor Joseph von Görres (1776-1848), publicado na época da prisão do Arcebispo de Colônia [um lance da Kulturkampf bismarckiana], mas que conserva ainda hoje uma extraordinária atualidade: “A terra treme sob os nossos pés. Pode-se presumir com certeza que a Igreja sairá ilesa de tal ruína, mas ninguém pode dizer e conjeturar quem e o quê sobreviverá. Nós, portanto, advertindo, recomendando, erguendo nossas mãos, gostaríamos de prevenir o mal mostrando os seus sinais. Inclusive os jumentos que carregam os falsos profetas encabritam-se, recuam e reprovam com linguagem humana a injustiça daqueles que os espancam e não veem a espada desembainhada (de Deus), que fecha seu caminho (Numeros, XXII, 22-35). Agi, portanto, enquanto é dia, porque à noite ninguém pode trabalhar. De nada serve aguardar: a espera não faz nada além de agravar todas as coisas”.

            Há ocasiões em que um católico é obrigado a escolher entre a covardia e o heroísmo, entre a apostasia e a santidade. Foi o que aconteceu no século IV, é o que está acontecendo hoje.

 

13 abril, 2018

Opositores da Ostpolitik: Padre Alessio Ulisse Floridi (1920-1986).

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 03-03-2018 |Tradução:  Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Entre os mais firmes opositores da Ostpolitik vaticana está uma figura de considerável estatura cultural e moral, o padre Alessio Ulisse Floridi (1920-1986).

Ingressado muito jovem na Companhia de Jesus, o padre Floridi foi enviado para estudar no Pontifício Colégio Russicum, onde aprendeu perfeitamente a língua russa e, em 1949, foi ordenado sacerdote do rito bizantino-eslavo.

mosca-e-il-vaticanoSua aspiração era realizar um apostolado clandestino na Rússia, como outros de seus confrades, mas seus superiores o designaram para a revista Civiltà Cattolica, considerada a menina dos olhos da Companhia. O padre Floridi tornou-se o sovietólogo por excelência da revista, com a qual colaborou com artigos derivados de leituras de primeira mão provenientes de jornais, revistas e documentos da União Soviética. Seus artigos, cheios de notas e observações, eram lidos e apreciados pela sua seriedade até pelos próprios comunistas, na Itália e no exterior.

A eleição de João XXIII e a convocação do Concílio Vaticano II representaram um encruzilhada na vida dos escritores de Civiltà Cattolica. A revista jesuíta, no obituário que fez do padre Floridi em 20 de dezembro de 1986, escreveu que ele deixou essa publicação porque a vida de escritor parecia-lhe “muito estática e muito sedentária”. De fato, como o padre Floridi me contou pessoalmente, ele foi demitido abruptamente por não se curvar à imposição de superiores, que lhe pediram que aplicasse ao comunismo a máxima de São Francisco de Sales, segundo a qual “uma gota de mel atrai mais moscas que um barril de vinagre”. O mesmo palavrório foi feito ao padre Giovanni Caprile (1917-1993), que, em vez disso, aceitou a sugestão, e de crítico implacável tornou-se apologista da Maçonaria.

O padre Floridi relembrava que o voto jesuíta de obediência não era indiscriminado, como muitos creem, mas exige apenas “ir a qualquer parte onde Sua Santidade mandar, quer entre os fiéis, quer entre infiéis” (Constituições, § 7). E ele não se eximiu dessa obrigação quando nas altas cúpulas foi decidido que deveria ser enviado o mais longe possível da Vila Malta, sede da Civiltà Cattolica em Roma. Então ele acabou primeiramente no Brasil, entre os refugiados russos, e depois nos Estados Unidos, onde realizou uma fecunda missão entre os católicos ucranianos de rito oriental, mas sem jamais capitular diante do novo curso das coisas.

Quando o conheci em 1977, o padre Floridi era um homem imponente, com cinquenta e sete anos, com uma barba negra que moldava seu rosto aberto e jovial, cheio do humor típico dos autênticos “romanos de Roma”.

Em 1976 ele havia publicado na editora La Casa di Matriona o livro Moscou e o Vaticano, traduzido depois em várias línguas e ainda referência para o estudo das relações entre o Vaticano e o Kremlin. Em 28 de novembro de 1977, fiz ao padre Floriti uma entrevista para o mensário Cristianità, que reproduzo na íntegra (“In tema di dissenso e di Ostpolitik”, Cristianità, n° 32, 1977, pp. 3-4). Relendo-a, parece-me que sua análise histórica nos ajuda a entender em profundidade a Ostpolitik de ontem e de hoje:

P: A impostação que o senhor deu ao volume Moscou e o Vaticano é especial. Ele tem como subtítulo Os dissidentes soviéticos em face ao “diálogo”. Ou seja, a política de distensão entre a Santa Sé e o Kremlin aos olhos da dissidência soviética. Qual é o motivo do seu interesse pelos “dissidentes soviéticos”?

R: É muito simples. Sempre estudei a União Soviética, o “homem soviético”, um homem cuja natureza não é diferente da nossa, apesar do caráter antinatural do regime em que vive. Percebi então que algo estava acontecendo neste mundo, que uma reação começava a produzir-se.

P: Essa reação está limitada a uma elite cultural, ou se estende ao povo soviético? Alguns suspeitam tratar-se de um fenômeno não suficientemente enraizado, quase uma “moda” cultural…

R: O fenômeno não é de nenhum modo limitado apenas a uma elite intelectual. Especialmente a dissidência religiosa está estendida a grandes setores da população. Penso, por exemplo, nos católicos ucranianos e lituanos, nos batistas, na Igreja ortodoxa das catacumbas, nos seguidores do padre Dudko, ou no que está acontecendo na Polônia, onde a dissidência está se desenvolvendo e ampliando-se entre os trabalhadores. Deve-se dizer, no entanto, que a realidade da dissidência nem sempre e necessariamente coincide com a imagem que dela se projeta no Ocidente. Na verdade, no Ocidente é conhecida certa dissidência, a que filtra através dos canais intelectuais, enquanto conhecemos muito menos a realidade da dissidência religiosa popular.

P: Qual é, então, o julgamento dos dissidentes em relação ao “diálogo” entre Moscou e o Vaticano?

R: Extremamente negativo. Os dissidentes não têm confiança no diálogo, do qual experimentam, aliás, as consequências concretas. Eles deveriam ser os beneficiários desta política de distensão, quando na realidade são as vítimas. Deixe-me acrescentar que me parece inconcebível que do lado católico existam alguns que querem lançar sombra de desconfiança e suspeita sobre eles. Refiro-me a um artigo do meu confrade suíço, o padre Hotz, publicado na Civiltà Cattolica e depois brilhantemente refutado pela vossa revista. Parece-me paradoxal que enquanto os dissidentes conjuram os católicos ocidentais a desconfiar do diálogo, sejam precisamente os católicos que, no Ocidente, convidam a suspeitar e desconfiar dos dissidentes.

P: Quais são os interesses do Kremlin no “diálogo”?

R: Através do diálogo, a União Soviética obtém o silêncio do Vaticano. E esse silêncio enfraquece a oposição interna e externa ao regime comunista, contribuindo assim para consolidar as posições internas do império soviético e a favorecer o seu expansionismo internacional. É claro que Moscou procura apoio de Roma para aumentar a sua “credibilidade” no plano internacional. Uma “distensão” tanto mais procurada quanto mais aumentam as tensões internas.

P: Quais são, em sua opinião, os motivos que levaram o Vaticano a buscar o “diálogo” com o Kremlin?

R: O arrazoado aqui é mais complexo. Eu diria que podem ser identificadas pelo menos duas linhas estratégicas. A primeira, diplomática, concordatária, visa a obter um modus vivendi entre o Vaticano e o Estado comunista, a fim de salvaguardar a “paz” internacional e a estrutura eclesial católica no território do império soviético. Portanto, o Vaticano prefere ignorar a Igreja clandestina e catacombal, que conduzia e conduz um apostolado heroico além da Cortina de Ferro, para estabelecer um novo tipo de relações “à luz do sol” com as autoridades comunistas. Isto significa, por exemplo, que os bispos católicos devem ter o “placet” soviético para a  sua nomeação… Trata-se de uma estratégia liderada pelo arcebispo Casaroli e seu dicastério. O próprio Casaroli traçou um programa suficientemente explícito em seu discurso sobre A Santa Sé e a Europa, proferido em Milão no dia 20 de janeiro de 1972.

P: Falava também de uma segunda diretriz…

R: Sim, é aquela que eu poderia definir como “ecumênica”, da qual se incumbe o Secretariado pela Unidade dos Cristãos presidido pelo cardeal Willebrands. Em outras palavras, é o “diálogo ecumênico” entre a Igreja Católica Romana e o Patriarcado Ortodoxo de Moscou. Foi o mesmo Mons. Willebrands, então secretário do dicastério, que “combinou”, durante uma estadia em Moscou (27 de setembro a 2 de outubro de 1962), a participação dos ortodoxos russos no Concílio Vaticano II como observadores. Os representantes russos foram, de fato, os primeiros observadores ortodoxos presentes em Roma, já na noite da inauguração do Concílio (11 de outubro). Justamente nesses dias há, no Russicum, uma delegação ortodoxa que vem – como de costume – para uma peregrinação.

Um comunicado da ANSA precisa que “as reuniões ocorrem no marco dos intercâmbios periódicos de visitas entre representantes da Santa Sé e da Igreja Ortodoxa Russa e coincidem com a visita de uma delegação vaticana ao Patriarcado de Moscou”.

O Concílio Vaticano II representou assim uma “virada” histórica no curso das relações entre a Igreja de Roma e o patriarcado ortodoxo de Moscou, caracterizado até então por uma violenta atitude anticatólica.

P: Quais são, a seu ver, os motivos dessa inversão de rota?

R: Não devemos esquecer os laços de estreita colaboração e dependência direta do Patriarcado de Moscou ao Kremlin. E é certo que, por parte do Kremlin, houve um profundo empenho em evitar qualquer tentativa do Concílio de condenar oficialmente o comunismo. Não faltaram ocasiões nas quais os hóspedes russos fizeram entender claramente que o silêncio sobre a questão do comunismo constituía uma conditio sine qua non para a permanência deles em Roma. A Igreja ortodoxa russa desfez suas “reservas” ao Concílio somente após ter ficado claro que o Concílio não condenaria o comunismo.

P: Quais são os “obstáculos” encontrados pela Santa Sé no seu “diálogo ecumênico” com o patriarcado de Moscou?

R: Um dos principais é constituído hoje pela incômoda presença de seis milhões de católicos ucranianos determinados a permanecer fiéis às suas tradições religiosas, históricas e culturais. A Santa Sé não quer reconhecer um Patriarcado ucraniano ‒ único meio de manter a Igreja Católica ucraniana viva no país e no exterior ‒ porque a Igreja ortodoxa de Moscou exige a supressão dos católicos ucranianos. O Vaticano tem hoje mais consideração pelos metropolitas cismáticos Nikodim e Pimen do que pelo Patriarca católico Slipyi.

P: Por que essa estreita relação entre o Kremlin e o patriarcado de Moscou?

R: O patriarcado de Moscou desempenha duas funções capitais. A primeira, interna, é uma função de filtro, de suporte. Consiste em manter os crentes subservientes ao regime comunista; a segunda, externa, consiste em convencer os líderes das outras Igrejas cristãs de que o comunismo não é tão ruim quanto se pinta e em dar credibilidade, dessa maneira, ao seu “esforço” para a paz no mundo. É significativo a este respeito o papel desempenhado pela Igreja ortodoxa de Moscou no Conselho Mundial das Igrejas, o qual se recusou a apoiar os pacíficos dissidentes soviéticos, embora não poupe apoio aos “dissidentes”, terroristas na sua maioria, de outros países ocidentais.

P: Não acredita que o Kremlin considere o desenvolvimento de suas relações com o Vaticano com um intuito análogo?

R: É claro. Nos países comunistas nos quais se estabelecem relações diplomáticas ou um regime concordatário, as autoridades governamentais dão seu consentimento à nomeação dos bispos, desde que estes aceitem toda a legislação soviética, incluindo, obviamente, a parte relativa à religião. Desta forma, o governo descarrega sobre as autoridades eclesiásticas o peso odioso de fazer respeitar leis iníquas. Hoje, o sacerdote zeloso que ensina o catecismo é frequentemente punido antes por seu bispo que pela autoridade civil.

P: Como os fiéis reagem diante desta situação dramática?

R: Os fiéis da Cortina de Ferro encontram-se diante de verdadeiros dramas de consciência. Eles geralmente os resolvem escolhendo o caminho difícil, mas corajoso, da resistência às autoridades eclesiásticas. Este talvez seja o aspecto mais interessante do fenômeno: o alargamento da dissidência da esfera civil para a eclesiástica. Acontece na Hungria, na Checoslováquia, na Lituânia. Mais de uma centena de sacerdotes lituanos manifestaram ao Santo Padre que preferem permanecer sem bispo a trair o mandato de Cristo.

P: Também o senhor vê como impossível um modus vivendi entre o Estado soviético e o Vaticano?

R: Temo que o Vaticano se esqueça de algo que foi reiterado até mesmo pelos dissidentes durante as audiências do “Tribunal Sakharov” [sobre as violações dos direitos humanos na URSS], a saber, que o Estado soviético quer a destruição de todas as religiões e, portanto, também da religião católica. Não vejo, portanto, quais poderiam ser os elementos sobre os quais estabelecer um modus vivendi entre a Igreja Católica e o ateísmo comunista.

            P: O que o senhor acha da tese segundo a qual um enrijecimento do Vaticano poderia pôr em perigo a paz internacional?

R: Sempre nos ensinaram no catecismo, desde criança, que Deus deve ser colocado acima de tudo, e que seria melhor o mundo perecer do que se cometer um só pecado, uma só ofensa a Deus. Uma catástrofe nuclear seria menos grave que um pecado mortal. Esta fé parece ter minguado nas autoridades eclesiásticas, obcecadas por buscar a paz a todo custo. A salvação de vidas humanas parece-lhes preferível, ainda que isso implique a violação dos direitos de Deus. Trata-se de um problema moral muito sério, cuja solução incumbe aos teólogos, aos bispos e ao Papa. Transfiro-lhes essa interrogação. Esta atitude justifica, creio, a dissidência religiosa, que faz sua a prescrição de São Pedro de que é necessário “obedecer a Deus antes que aos homens” (Atos 5, 29).

O padre Alessio Ulisse Floridi morreu prematuramente em 7 de novembro de 1986, na clínica Regina Apostolorum de Albano (Roma), depois de algumas complicações inesperadas que se seguiram a uma operação. As freiras da clínica ficaram edificadas pelo seu comportamento durante a doença. Hoje, nós o invocamos como testemunha de acusação contra a “venda” da Igreja chinesa ao regime comunista pelo Papa Francisco e pelo Cardeal Parolin. (Traduzido por HDV).

 

9 abril, 2018

O Papa Francisco e o destino eterno das almas.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza romana, 04-04-2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: A finalidade da Igreja é a glória de Deus e a salvação das almas. Salvação de quê? Da condenação eterna, que é o destino que aguarda os homens que morrem em pecado mortal. Para a salvação dos homens, Nosso Senhor ofereceu sua Paixão Redentora. Nossa Senhora lembrou-o em Fátima: o primeiro segredo comunicado aos três pastores, aquele de 13 de julho de 1917, começa com a visão aterrorizante do mar de fogo do inferno. Se não fosse a promessa de Nossa Senhora de levá-los ao Céu, escreve a Irmã Lúcia, os videntes teriam morrido de comoção e medo. As palavras de Nossa Senhora são tristes e severas: “Vistes o inferno, onde caem as almas dos pobres pecadores. Para salvá-los, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração”. Um ano antes, o Anjo de Fátima ensinara aos três jovens pastores esta oração: “Ó meu Jesus! Perdoai-nos, livrai-nos do fogo do Inferno, levai as almas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem”.

Jesus fala repetidamente da “Geena” e do “fogo inextinguível” (Mt 5, 22, 13, 42, Mc 9, 43-49) reservado àqueles que se recusam a se converter no fim da vida. O primeiro fogo, o espiritual, é a privação da posse de Deus. É o castigo mais terrível, que constitui essencialmente o inferno, porque a morte dissolve como um feitiço os laços terrenos da alma, que anseia com toda sua força juntar-se a Deus, mas não pode fazê-lo porque escolheu livremente separar-se d’Ele pelo pecado.

A segunda pena, misteriosa, é aquela pela qual a alma sofre um fogo real, não metafórico, que acompanha inextinguivelmente aquele fogo espiritual da perda de Deus. E como a alma é imortal, a punição devida ao pecado mortal sem arrependimento dura tanto quanto dura a vida da alma, que é para sempre, para a eternidade. Esta doutrina é definida pelos Concílios Lateranense IV, Lyon II, de Florença e de Trento. Na constituição Benedictus Deus, de 29 de janeiro de 1336, com a qual condena os erros de seu predecessor João XXII sobre a visão beatífica, o Papa Bento XII afirma: “Nós definimos que, de acordo com a disposição geral de Deus, as almas daqueles que morrem em pecado mortal atual descem imediatamente ao inferno após a morte e lá sofrem a dor do inferno” (Denz-H 1002).

Em 29 de março de 2018, Quinta-feira Santa, apareceu um colóquio do Papa Francisco no jornal La Repubblica. Seu agora familiar interlocutor, Eugenio Scalfari, pergunta-lhe: “O senhor nunca me falou das almas que morrem em pecado e vão pagar eternamente no inferno. O senhor me falou, pelo contrário, das almas boas admitidas à contemplação de Deus. Mas e as almas ruins? Onde elas são punidas?”.

O Papa Francisco teria respondido assim: “Não são punidas. Aqueles que se arrependem obtêm o perdão de Deus e vão para as fileiras das almas que o contemplam; mas aqueles que não se arrependem e não podem, portanto, ser perdoados, desaparecem. Não existe um inferno, existe o desaparecimento das almas pecaminosas.”

Estas palavras, como soam, constituem uma heresia. O clamor já começava a se difundir quando a Sala de Imprensa do Vaticano interveio com uma declaração na qual se lê: o Papa Francisco “recebeu recentemente o fundador do jornal La Repubblica num encontro privado por ocasião da Páscoa, mas sem dar nenhuma entrevista. O que o autor diz no artigo de hoje é fruto de uma reconstrução feita por ele, na qual não são citadas palavras textuais pronunciadas pelo Papa. Nenhum texto entre aspas do artigo acima mencionado deve, portanto, ser considerado como uma transcrição fiel das palavras do Santo Padre”.

Não foi portanto uma entrevista, mas um colóquio privado que o Papa sabia bem que seria transformado em uma entrevista, porque assim aconteceu nos quatro encontros precedentes com o mesmo Scalfari. E se, apesar das controvérsias levantadas pelas entrevistas anteriores com o jornalista do La Repubblica, ele persiste em considerá-lo como seu interlocutor favorito, isso significa que o Papa pretende exercer, com esses colóquios, uma espécie de magistério midiático, com consequências inevitáveis.

Nenhuma frase – diz a Santa Sé – deve ser considerada como uma transcrição fiel, mas nenhum conteúdo específico da entrevista é negado, de tal maneira que não sabemos se, e em que ponto, o pensamento bergogliano foi deturpado. Em cinco anos de pontificado, Francisco nunca fez uma única referência ao inferno como castigo eterno para as almas que morrem em pecado. Para esclarecer seu pensamento, o Papa, ou a Santa Sé, deveria reafirmar publicamente a doutrina católica, em todos os pontos da entrevista nos quais ela foi negada. Isso infelizmente não aconteceu e fica-se com a impressão de que a notícia de La Repubblica não é uma fake news, mas uma iniciativa deliberada, para aumentar a confusão dos fiéis.

A tese segundo a qual a vida eterna seria reservada às almas dos justos, enquanto as dos ímpios desapareceriam, é uma antiga heresia, que nega, além da existência do inferno, a imortalidade da alma definida como verdade de fé pelo Concílio de Latrão V (Denz-H, n 1440). Essa opinião extravagante foi expressa pelos socinianos, pelos protestantes liberais, por alguns seitas adventistas e, na Itália, pelo pastor valdense Ugo Janni (1865-1938), teórico do “pancristianismo” e grão-mestre maçônico da loja Mazzini, de Sanremo.

Para esses autores, a imortalidade é um privilégio concedido por Deus apenas às almas dos justos. O destino das almas obstinadas no pecado não seria um castigo eterno, mas a perda total do ser. Essa doutrina também é conhecida como “imortalidade facultativa” ou “condicionalismo”, porque considera que a imortalidade é condicionada pela conduta moral. O termo da vida virtuosa é a perpetuidade do ser; o termo da vida culposa é a autodestruição.

O condicionalismo se une ao evolucionismo porque afirma que a imortalidade é uma conquista das almas, uma espécie de ascensão humana análoga à “seleção natural” que leva os organismos inferiores a se tornarem organismos superiores. Trata-se de uma concepção pelo menos implicitamente materialista, porque a verdadeira razão para a imortalidade da alma é a sua espiritualidade – o que é espiritual não pode ser dissolvido –, enquanto quem afirma a possibilidade de uma decomposição da alma lhe atribui uma natureza material. Uma substância simples e espiritual como a alma não poderia perdê-la senão pela intervenção de Deus, mas isso é negado pelos condicionalistas, porque significaria admitir a sanção de um Deus justo que recompensa e pune, no tempo e na eternidade. Por outro lado, sua concepção de um Deus apenas misericordioso atribui à vontade do homem a faculdade de autodeterminação, escolhendo tornar-se uma centelha incorporada no fogo divino ou extinguir-se no nada absoluto.

O panteísmo e o niilismo são as opções deixadas ao homem nesta cosmologia que nada tem a ver com a fé católica e com o bom senso. E para um ateu, já convencido de que nada existe depois da morte, o condicionalismo tira essa possibilidade de conversão, que é dada pelo timor Domini: o temor do Senhor é o princípio da Sabedoria (Salmos 110, 10), a cujo julgamento ninguém escapará. É somente crendo na infalível justiça de Deus que podemos nos abandonar à Sua imensa misericórdia. Nunca como agora se faz necessária a pregação do destino final das almas, que a Igreja resume nos quatro Novíssimos: Morte, Juízo, Inferno e Paraíso. Nossa Senhora em pessoa quis lembrá-lo em Fátima, prevendo a deserção dos Pastores, mas nos assegurando que a assistência do Céu nunca nos faltará.

6 março, 2018

Opositores da Ostpolitik: Dom Pavol Maria Hnilica (1921-2006).

Por Roberto de Mattei
Corrispondenza romana, 21-02-2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com – A política de colaboração com a China comunista do Papa Francisco tem seus antecedentes diretos na Ostpolitik de João XXIII e de Paulo VI. Mas ontem, como hoje, a Ostpolitik teve fortes opositores, que merecem ser lembrados. Um deles foi o bispo eslovaco Dom Pavol Hnilica (1921-2006), que quero recordar baseando-me nas minhas memórias pessoais e num estudo cuidadoso dedicado a sua figura que será publicado em breve pela professora Emilia Hrabovec, a quem expresso a minha gratidão por permitir-me consultar e citar seu manuscrito.

Quando, na década de 1960, a diplomacia vaticana começou a pôr em prática a Ostpolitik, na então Checoslováquia, como hoje na China, havia duas igrejas. Uma era a Igreja “patriótica”, representada por sacerdotes subjugados ao regime comunista; a outra era a Igreja “clandestina”, fiel a Roma e ao seu Magistério. Dom Pavol Hnilica, originário de Unatin, perto de Bratislava, depois de entrar nos jesuítas, foi clandestinamente ordenado sacerdote (1950) e sagrado bispo (1951) por Dom Robert Pobozny (1890-1972), bispo de Roznava. Desta forma ele pôde, por sua vez, sagrar bispo Ján Chryzostom Korec (1924-2015), de vinte e sete anos e futuro cardeal, que após ter exercido clandestinamente seu ministério por nove anos, em 1960 foi preso e condenado a doze anos de prisão.

Em dezembro de 1951, quando Dom Hnilica foi forçado a abandonar seu país e ir para Roma, Pio XII aprovou totalmente o modo de proceder da Igreja na Eslováquia, confirmando a validade das sagrações clandestinas e rejeitando qualquer conluio com o regime comunista. Na Radiomensagem de 23 de dezembro de 1956, o Papa afirmou: “Com profundo desgosto devemos a tal propósito lamentar o apoio prestado por alguns católicos, eclesiásticos e leigos, à tática do desbotamento [da verdade], para obter um efeito não desejado nem por eles mesmos. Como podem ainda não perceber que essa é a finalidade de todo aquele agitar-se insincero, sob o nome de ‘colóquios’ e ‘encontros’? Com que finalidade, aliás, discutir se nem sequer há uma linguagem comum, ou como é possível encontrar-se se os caminhos divergem, isto é, se uma das partes obstinadamente rejeita e nega os valores absolutos coletivos, tornando impossível qualquer ‘coexistência na verdade’?”.

Após a morte de Pio XII, ocorrida em 9 de outubro de 1958, o clima mudou e Mons. Agostino Casaroli tornou-se o principal protagonista da política oriental da Santa Sé, promovida por João XXIII, mas implementada sobretudo por Paulo VI. Naqueles anos, Dom Hnilica teve a oportunidade de encontrar-se diversas vezes com o Papa Montini e apresentar-lhe vários memorandos nos quais o colocava de sobreaviso contra as ilusões, advertindo-o de que os regimes comunistas não renunciaram ao seu plano de liquidar a Igreja e aceitavam o diálogo com a Santa Sé unicamente para obter vantagens unilaterais e recuperar a credibilidade dentro e fora de seus países, sem cessar sua política antirreligiosa. “Hnilica – escreve Emilia Hrabovec – convidava a não se contentar com concessões cosméticas, a exigir a libertação e reabilitação de todos os bispos, religiosos e fiéis ainda na prisão e o reconhecimento efetivo da liberdade de professar a fé e a não consentir jamais no afastamento dos bispos impedidos, o que seria ‘a pior humilhação para suas sagradas pessoas e, nelas, para toda a Igreja mártir, diante dos traidores, dos inimigos e de toda a opinião pública’. O bispo exilado temia que as negociações, conduzidas à custa da parte mais heróica do episcopado, e um acordo fechado sem concessões relevantes suscitasse nos católicos ‒ sobretudo nos melhores, naqueles que resistiam à opressão com força e lealdade ‒ uma desorientação e a sensação de terem sido abandonados até pela autoridade eclesiástica”.

Enquanto se desenrolava o Concílio Vaticano II, Paulo VI tornou público, em 13 de maio de 1964, o status de bispo de Mons. Hnilica, até então mantido em segredo. O novo status permitiu ao bispo eslovaco participar da última sessão do Concílio, onde interveio juntando-se aos Padres Conciliares que exigiam a condenação do comunismo. Dom Hnilica afirmou na aula conciliar que aquilo que o esquema de Gaudium et Spes dizia sobre o ateísmo era tão pouco “que dizê-lo era o mesmo que não dizer nada”. Acrescentou que uma grande parte da Igreja sofre “sob a opressão do ateísmo militante, mas isso não pode ser deduzido do esquema, que também quer falar da Igreja no mundo moderno!”. “A história nos acusará justamente de pusilanimidade ou de cegueira por esse silêncio”, disse o orador, lembrando que não falava em abstrato, pois esteve em um campo de concentração e de trabalho com 700 sacerdotes e religiosos. “Falo pela minha experiência direta e pela dos sacerdotes e religiosos que conheci na prisão e com os quais sofri os fardos e os perigos da Igreja” (AS, IV / 2, pp. 629-631).

Naquela época, Dom Hnilica teve inúmeras conversas com Paulo VI, para tentar em vão dissuadi-lo da Ostpolitik. Em fevereiro de 1965 foi libertado e chegou a Roma o arcebispo de Praga, Dom Josef Beran (1888-1969), que Paulo VI criou cardeal. Dom Hnilica advertiu o Papa de que o suposto sucesso da diplomacia vaticana tinha sido pelo contrário um sucesso do regime comunista, o qual, com o exílio do arcebispo, havia se livrado de um problema internacional cada vez mais desagradável, sem ter nada que temer do novo administrador de Praga, considerado um membro tímido do Movimento do Clero pela Paz.

Emilia Hrabovec lembra que, se em 1964 se tinha conseguido assinar um acordo com a Hungria, ao qual sucederia, em 1966, um acordo com a Iugoslávia, bem como iniciado uma diplomacia de encontros de alto nível com as cúpulas soviéticas, no entanto as conversações com a Checoslováquia apresentavam-se mais difíceis, e seus resultados mais escassos do que nunca. “Os representantes checoslovacos – recorda a historiadora – se sentaram à mesa diplomática com instruções explícitas de ganhar tempo, recusar qualquer concessão e aceitar somente aquilo que lhes prometia vantagens unilaterais e danos à outra parte, de modo que as negociações se limitavam muitas vezes à formulação dos respectivos pontos de vista pouco conciliáveis e à promessa de querer prosseguir com as reuniões”.

O cardeal Korec, após a sua libertação dos cárceres do comunismo, lembrou por sua vez: “Nossa esperança era a Igreja clandestina, que colaborava silenciosamente com os sacerdotes nas paróquias e formava jovens prontos para o sacrifício: professores, engenheiros, médicos dispostos a se tornarem sacerdotes. Essas pessoas trabalhavam silenciosamente entre os jovens e as famílias, publicavam revistas e livros secretamente. Na realidade, a Ostpolitik vendeu essa nossa atividade em troca das promessas vagas e incertas dos comunistas. A Igreja clandestina era a nossa grande esperança. E, em vez disso, eles cortaram suas veias, desgostaram milhares de rapazes e moças, pais e mães, e muitos sacerdotes clandestinos prontos a se sacrificarem. (…) Para nós foi verdadeiramente uma catástrofe, quase como se nos tivessem abandonado, varrido. Eu obedeci. Mas foi a maior dor da minha vida. Desse jeito, os comunistas lançaram mão da pastoral pública da Igreja” (Entrevista com Il Giornale, 28 de julho de 2000).

Enquanto isso, sob uma forte pressão do governo de Praga, a Secretaria de Estado começou a conter as atividades públicas do bispo eslovaco, chegando até a convidá-lo, em 1971, a sair de Roma e mudar-se para o exterior. Como lembra a Sra. Hrabovec, o bispo foi atingido pela acusação de ter-se tornado obstáculo às negociações e, implicitamente, motivo da persistente perseguição à Igreja e de agir contra a vontade do Papa, o que o levou a declarar-se pronto para deixar Roma, desde que o Papa ou o Geral da Companhia de Jesus lhe ordenassem explicitamente. Não tendo recebido tal ordem de qualquer dessas duas autoridades, Dom Hnilica permaneceu na Cidade Eterna e continuou suas atividades, embora os contatos com a Secretaria de Estado tenham cessado completamente.

Os anos da Ostpolitik foram também os do compromisso histórico [entre a Democria Cristã e o Partido Comunista Italiano]. Quando parecia a muitos que o sistema de perseguição comunista era um capítulo fechado e o PCI celebrava vitórias eleitorais desconhecidas anteriormente, “o incansável bispo tentou persuadir seu público de que os regimes comunistas apenas mudavam suas táticas, escolhendo métodos mais refinados, sem dar um passo atrás no seu programa antirreligioso e anti-humano, e que a Igreja era obrigada em consciência a não se conformar com o sistema comunista e com a sua ordem jurídica, mas a continuar denunciando seus crimes e o perigo que representava”.

Como lembra ainda Emilia Hrabovec, “com a radicalidade evangélica das pessoas profundamente religiosas, Hnilica estava convencido de que na época da ‘decisão final pela Verdade ou contra a Verdade, por Deus ou contra Deus’, a neutralidade era impossível, e que quem não se colocasse do lado da Verdade tornava-se cúmplice da Mentira e corresponsável pela propagação do Mal. Nesse espírito, Hnilica criticava duramente a política ocidental de distensão e de compromissos nas negociações com os regimes comunistas, a fraqueza e a indiferença dos cristãos ocidentais, muito concentrados em si mesmos, muito propensos a manter seu bem-estar material e muito pouco dispostos a interessar-se e a empenhar-se, seja pelos confrades detrás da Cortina de Ferro, seja pela defesa de seus valores cristãos. Referindo-se à conhecida expressão de Pio XI na década de 1930, Hnilica denunciava o silêncio da política, da mídia e da opinião pública, mesmo a católica, diante do regime comunista e das perseguições dos cristãos de além Cortina de Ferro como ‘a conspiração do silêncio’, observando que enquanto antes era costume falar da ‘Igreja do silêncio’ além da Cortina de Ferro, agora seria mais apropriado usar esse nome para definir a Igreja (as Igrejas) do Ocidente”.

Dom Pavol Hnilica era um homem profundamente bom, mas às vezes ingênuo. Quando eu o conheci, em 1976, ele estava sempre acompanhado por seu secretário, Witold Laskowski, um aristocrata polonês, poliglota de maneiras impecáveis, que nos traços do rosto e na figura maciça se assemelhava de modo surpreendente a Winston Churchill. Laskowski tinha emigrado para a Itália na década de 1920, fez parte do exército do general Anders e dedicara sua vida à luta contra o comunismo. Ele era uma espécie de “anjo da guarda” de Dom Hnilica, porque o ajudava a frustrar as manobras dos serviços secretos comunistas que tinham se infiltrado em seu grupo servindo-se não só de uma densa rede de agentes, mas também da ajuda do Partido Comunista Italiano. Se Laskowski estivesse vivo, Dom Hnilica não teria sido envolvido em um caso esdrúxulo na década de noventa, quando foi persuadido pelo maçon Flavio Carboni a dar dinheiro para coletar documentos que pudessem provar a inocência do Vaticano na falência do Banco Ambrosiano.

Dom Hnilica era um fervoroso devoto de Nossa Senhora de Fátima, convencido de que essa aparição representava uma das mais fortes intervenções de Deus na história humana desde a época dos apóstolos. Em todos os contatos que teve com os Pontífices, ele sempre insistiu para que fosse feita a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, pedida por Nossa Senhora em 13 de julho de 1917. João Paulo II, após ter sido gravemente ferido em 13 de maio de 1981, atribuiu a Nossa Senhora de Fátima uma proteção milagrosa, sendo então instado a aprofundar a mensagem. Por isso, enquanto convalescia na Policlínica, ele pediu a Dom Hnilica uma documentação completa sobre Fátima. E em 13 de maio de 1982 foi em peregrinação a Fátima, onde confiou e consagrou a Nossa Senhora “aqueles homens e aquelas nações, que desta entrega e desta consagração particularmente têm necessidade”. No dia seguinte, acompanhada pelo padre Luigi Bianchi e por Wanda Poltawska, a Irmã Lúcia conheceu Dom Hnilica, e quando lhe perguntaram se considerava válida a consagração do Papa, a vidente acenou com um dedo e a seguir explicou-lhes que faltava a consagração explícita da Rússia.

Uma segunda consagração foi feita por João Paulo II em 25 de março de 1984 na Praça de São Pedro, na presença da imagem da Virgem, especialmente vinda de Portugal. Tampouco nessa ocasião a Rússia foi explicitamente mencionada, havendo apenas uma referência “[a]os povos dos quais esperais a nossa consagração e a nossa entrega”. O Papa escreveu aos bispos do mundo pedindo que se juntassem a ele. Entre os poucos que corresponderam ao apelo estava o arcebispo Pavol Hnilica, que da Índia, onde se encontrava, conseguiu obter um visto de turista para a Rússia e, no mesmo dia 25 de março, dentro do Kremlin, escondido atrás das grandes folhas do Pravda, pronunciou as palavras de consagração ao Imaculado Coração de Maria.

Em 12 e 13 de maio de 2000 eu estava com Dom Hnilica em Fátima, por ocasião da jornada de João Paulo II para a beatificação dos pastores Jacinta e Francisco. Não compartilhei de seu otimismo excessivo pelo pontificado de João Paulo II, mas a memória que tenho dele, após acompanhá-lo durante vinte e cinco anos, é de um homem de grande fé que hoje estaria ao lado de quem luta contra aquilo que o cardeal Zen define como a Igreja sendo posta à venda.

 

12 fevereiro, 2018

Espírito de resistência e amor à Igreja.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza romana, 07-02-2018 | Tradução: Helio Dias Viana – FratresInUnum.com – À medida que se aproxima o quinto aniversário da eleição do Papa Francisco, ouvimos muitas vezes repetir que estamos diante de uma página dramática e absolutamente inédita na história da Igreja. Isto é apenas parcialmente verdadeiro. A Igreja sempre conheceu horas trágicas que viram a laceração de seu Corpo Místico, desde o nascimento no Calvário até tempos mais recentes.

Os mais jovens não sabem e os idosos esqueceram os terríveis anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II, dos quais a era atual provém. Cinquenta anos atrás, enquanto explodia [na Sorbonne] a revolta de 1968, um grupo de cardeais e bispos, que tinham sido os protagonistas do Concílio, tentaram impor uma mudança radical na doutrina católica sobre o casamento. A tentativa foi frustrada porque Paulo VI, com a encíclica Humanae Vitae, de 25 de julho de 1968, reiterou a proibição da contracepção artificial, restituindo força e esperança ao rebanho desorientado. Mas Paulo VI, o Papa da Humanae Vitae, foi também aquele que causou uma ruptura profunda com a tradição católica, ao impor em 1969 o novo rito da Missa, que está na origem da devastação litúrgica atual. O mesmo Paulo VI promoveu a Ostpolitik, assumindo em 18 de novembro de 1973 a grave decisão de retirar de seu cargo de Arcebispo de Esztergom e Primaz da Hungria o Cardeal József Mindszenty (1892-1975), campeão da oposição católica ao comunismo. O Papa Montini desejava a realização do “compromisso histórico” na Itália, por meio de um acordo entre o secretário da Democracia Cristã, Aldo Moro, e o secretário do Partido Comunista, Enrico Berlinguer. A operação foi abruptamente interrompida unicamente pelo sequestro e assassinato de Moro, do qual ocorrerá em breve o quadragésimo aniversário, seguido da morte do próprio Papa Montini em 6 de agosto de 1978.

Naqueles anos de prevaricação e de sangue, algumas vozes corajosas se ergueram e devem ser lembradas não apenas por dever de memória, mas porque ajudam a nos orientar na escuridão do momento presente. Recordamos duas, anteriores à explosão do chamado “caso Lefèbvre”, o arcebispo francês de quem Mons. Athanasius Schneider, em uma entrevista recente, sublinhou a “missão profética em um tempo obscuro e extraordinário de uma crise generalizada da Igreja”.

A primeira voz é a do teólogo dominicano francês padre Roger Calmel, que em 1969 rejeitou o Novus Ordo de Paulo VI e em junho de 1971 escreveu na revista Itinéraires:

“A nossa resistência cristã de sacerdotes ou de leigos, resistência dolorosíssima porque nos obriga a dizer não ao próprio Papa a respeito da manifestação modernista da Missa católica, nossa resistência respeitosa, mas inflexível, é ditada pelo princípio da plena fidelidade à Igreja sempre viva; ou, em outras palavras, pelo princípio da fidelidade viva ao desenvolvimento da Igreja. Nunca pensamos frear ou, menos ainda, impedir aquilo que alguns, com palavras aliás muito equivocadas, chamam de ‘progresso’ da Igreja, mas que é na realidade seu crescimento homogêneo em questões doutrinárias e litúrgicas, na continuidade da tradição, a caminho da ‘consummatio sanctorum’. (…) Como Nosso Senhor nos revelou nas parábolas, e como ensina São Paulo nas suas epístolas, acreditamos que a Igreja, através dos tempos, cresce e se desenvolve em harmonia, mas através de mil sofrimentos, até o retorno glorioso do próprio Jesus, seu Esposo e Senhor nosso. É precisamente porque estamos convencidos de que ao longo dos séculos se verifica o crescimento da Igreja, e porque estamos prestes a nos inserir, tanto quanto depende de nós e o mais retamente possível, neste movimento ininterrupto e misterioso, que rejeitamos este pretenso progresso que o Vaticano II reinvidica e que na realidade é um desvio mortal. Retomando a distinção clássica de São Vincente de Lerins, quanto mais temos desejado um belo crescimento, um esplêndido ‘profectus’, tanto mais vigorosamente rejeitamos, sem consentir em transações, uma fatal ‘permutatio’ ou qualquer mudança radical e vergonhosa ‒ radical, porque provindo do modernismo nega toda a fé; vergonhosa, porque toda negação de molde modernista é evasiva e oculta”.

A segunda voz é a do pensador e homem de ação brasileiro Plinio Corrêa de Oliveira, autor de um manifesto de resistência à Ostpolitik vaticana publicado no dia 10 de abril de 1974 em nome da associação Tradição, Família e Propriedade, sob o título de A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas. Para a TFP: omitir-se ou resistir?

Plinio Corrêa de Oliveira explicava: “Resistir significa que aconselharemos os católicos a que continuem a lutar contra a doutrina comunista com todos os recursos lícitos, em defesa da Pátria e da Civilização Cristã ameaçadas.”; e acrescentava: “As laudas da presente declaração seriam insuficientes para conter o elenco de todos os Padres da Igreja, Doutores, moralistas e canonistas – muitos deles elevados à honra dos altares – que afirmam a legitimidade da resistência. Uma resistência que não é separação, não é revolta, não é acrimônia, não é irreverência. Pelo contrário, é fidelidade, é união, é amor, é submissão. ‘Resistência’ é a palavra que escolhemos de propósito, pois ela é empregada nos Atos dos Apóstolos pelo próprio Espírito Santo, para caracterizar a atitude de São Paulo. Tendo o primeiro Papa, São Pedro, tomado medidas disciplinares referentes à permanência no culto católico de práticas remanescentes da antiga Sinagoga, São Paulo viu nisto um grave fator de confusão doutrinária e de prejuízo para os fiéis. Levantou-se então e “resistiu em face” a São Pedro (Gal. II, 11). Este não viu, no lance fogoso e inesperado do Apóstolo das Gentes, um ato de rebeldia, mas de união e amor fraterno. E, sabendo bem no que era infalível e no que não era, cedeu ante os argumentos de São Paulo. Os Santos são modelos dos católicos. No sentido em que São Paulo resistiu, nosso estado é de resistência. E nisto encontra paz nossa consciência.”

A “resistência” não é uma declaração de fé puramente verbal, mas um ato de amor à Igreja que acarreta consequências práticas. Quem resiste se distancia daquele que causa divisão na Igreja, critica-o abertamente, corrige-o. Expressaram-se nessa linha, em 2017, a Correctio filialis ao Papa Francisco e o manifesto dos movimentos pró-vida, publicado sob o título Fiéis à verdadeira doutrina, não aos pastores errados. Situa-se hoje na mesma linha a atitude intransigente do Cardeal Joseph Zen Zekiun em relação à nova Ostpolitik do Papa Francisco com a China comunista. Aos que lhe objetam ser necessário “tentar encontrar um terreno comum para unir o Vaticano e a China separados por décadas”, o Cardeal Zen responde: “Mas pode haver algo de ‘comum’ com um regime totalitário? Ou você se entrega ou então aceita a perseguição, permanecendo fiel a si mesmo. Pode-se imaginar um acordo entre São José e o Rei Herodes?”. E para aqueles que lhe perguntam se ele está convencido de que o Vaticano está vendendo a Igreja Católica na China, ele responde: “Sim, indubitavelmente, se eles continuarem a caminhar na direção que é óbvia em tudo o que fizeram nessses últimos meses e anos”.
Anunciou-se para o dia 7 de abril um simpósio em Roma, do qual muito ainda se ignora, mas cujo tema seria a atual crise da Igreja. A participação de alguns cardeais e bispos, sobretudo do Cardeal Zen, daria máximo crédito a essa reunião. Devemos rezar para que dela possa elevar-se uma voz de amor pela Igreja e de firme resistência a todos os desvios teológicos, morais e litúrgicos do atual pontificado, sem a ilusão de que a solução seria de insinuar a invalidade da renúncia de Bento XVI ou a eleição do Papa Francisco. Refugiar-se na questão canônica equivale a evitar debater o problema doutrinário, que está na raiz da crise que estamos vivendo.