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5 outubro, 2017

“Correctio filialis”: um primeiro balanço.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 4 de outubro de 2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Em 25 de setembro, dia seguinte à publicação da Correctio filialis ao Papa Francisco, o porta-voz da Sala de Imprensa do Vaticano, Greg Burke, desmentiu ironicamente a notícia difundida pela agência Ansa, segundo a qual o acesso ao site da Correctio teria sido bloqueado pela Santa Sé: “Imaginem se íamos fazer isso por uma carta com 60 nomes.”

O diretor da Sala de Imprensa, que julga as iniciativas com base no número de seguidores, pode estar interessado em saber que, oito dias após sua publicação online, http://www.correctiofilialis.org teve mais de 180.000 visitantes únicos e 330.000 páginas visitadas. As visitas são provenientes de 200 países diferentes dos cinco continentes. A Itália e os EUA estão à frente no número de acessos.

Além disso, a carta de correção dirigida ao Papa Francisco por 62 estudiosos foi subscrita até 21 de outubro por 216 teólogos, pastores, professores e estudiosos de todas as nacionalidades, cujas assinaturas são visíveis no site. Juntam-se a isso dezenas de milhares de aderentes que afixaram suas assinaturas no site oficial, ou em outros sites católicos que apoiam ativamente a iniciativa, como onepeterfive.com, lifesitenews.com, katholisches.info.

Guido Mocellin, no jornal Avvenire [propriedade da Conferência Episcopal Italiana] de 27 de setembro, teve de admitir que na “blogosfera eclesial”, graças a um “site moderno em seis idiomas”, as “publicações sobre a ‘correção filial’ dirigida ao Papa Francisco ‘por causa da propagação de heresias’ têm estado mais presentes nos últimos dias: constituíram 30% de tudo o que pude consultar entre sábado 24 e segunda-feira, 26 de setembro”.

Caso se queira permanecer no terreno das cifras, o número de cardeais, bispos e teólogos que se levantaram contra a Correctio e em defesa de Amoris laetitia é irrelevante. Mesmo o cardeal mais próximo do Papa Francisco, o secretário de Estado Pietro Parolin, assumiu uma atitude quase equidistante, declarando que “as pessoas que não estão de acordo expressam a sua dissensão, mas essas coisas devem ser fundamentadas, procurando compreender-se mutuamente”.

O que falta em peso, além do escasso número de opositores, é a substância dos argumentos com os quais se tentou replicar a Correctio. O maior esforço, com acrobacias de sofista, se deve ao deputado-filósofo Rocco Buttiglione, no Vaticaninsider no dia 3 de outubro. A passagem central de Amoris laetitia criticada pelos signatários da Correctio, segundo Buttiglione, é “uma coisa absolutamente tradicional que todos estudamos quando criança no catecismo da Igreja Católica, não só naquele novo de S. João Paulo II, mas também no antigo de São Pio X”. É verdade – admite Buttiglione – que existe “uma impossibilidade absoluta de dar a comunhão para aqueles que estão em pecado mortal (e esta regra é de direito divino e, portanto, irrevogável), mas se, devido à falta de plena advertência e consenso deliberado, não há pecado mortal, a comunhão pode ser dada, do ponto de vista da teologia moral, mesmo a um divorciado recasado”. 

Para Buttiglione, como para o teólogo de confiança do papa Bergoglio, Mons. Víctor Manuel Fernández, o problema subjacente seria o da “imputabilidade” dos atos. Uma imputabilidade que faltaria à grande maioria dos conviventes more uxorio, porque as situações concretas em que vivem atenuam a sua responsabilidade e, sobretudo, tornam-lhes praticamente impossível observar a lei do Senhor. Com o que se contradiz tranquilamente o Concílio de Trento, que fulmina com um anátema quem diz que “ao homem justificado e constituído em graça é impossível observar os preceitos de Deus” (Denz-H, 1568). “Porque Deus não manda coisas impossíveis, mas quando manda, adverte que faças o que possas e peças o que não possas, e ajuda a poder” (Denz-H, 1356).

Por outro lado, os bispos que aplicam o ensinamento do Papa Francisco não se inspiram nem no catecismo de São Pio X nem no novo de João Paulo II. Em suas dioceses, os divorciados recasados, perfeitamente conscientes de sua situação, exigem a comunhão, que lhes é concedida, segundo a Amoris laetitia, como um direito legítimo.

Para justificar essa prática imoral, chega-se a falsificar o pensamento de São Tomás de Aquino. Mas um valente moralista italiano que assinou a Correctio, padre Alfredo Morselli, mostrou no site Messainlatino em 3 de outubro, a impossibilidade de harmonizar a Exortação do Papa Francisco com a doutrina de São Tomás. O padre Morselli lembra alguns trechos inequívocos do Doutor Angélico que afirmam o contrário do § 301 da Amoris laetitia: “A boa intenção não é suficiente para determinar a bondade de um ato: pois um ato pode ser mau em si mesmo e de modo algum pode tornar-se bom” (Super Sent., lib. 2 d. 40 q. 1 a. 2 co.). “Há algumas [ações humanas] que têm uma deformidade inseparavelmente conexa, como a fornicação, o adultério e outras coisas desse gênero, que não podem ser realizadas de uma maneira moralmente boa” (Quodlibet IX, q. 2 co.).

Em coerência com o tomismo autêntico, Mons. Fernando Ocáriz, hoje Prelado do Opus Dei, por ocasião de um simpósio promovido para celebrar os 20 anos da Humanae Vitae, recordava que “a existência de normas particulares de moral natural, de valor universal e incondicional, pertence à doutrina católica e, portanto, é uma verdade de fé” (Humanae Vitae 20 anos depois, Edições Ares, Milão 1989, p. 129). Entre estas, a proibição da contracepção e do adultério.

Mudou ou mudará o ensino das Universidades da Santa Cruz (Roma) e de Navarra, promotoras desse simpósio juntamente com o Instituto João Paulo II? A pergunta é pertinente, após a entrevista de dia 30 de setembro para a Infovaticana.com, na qual o atual vigário do Opus Dei, Pe. Mariano Fazio, censura outros membros da prelatura que assinaram a Correctio, acusando-os de “escandalizar a Igreja inteira”. A entrevista é curiosa: nem os bispos argentinos nem os malteses, que autorizam o adultério em suas dioceses, são culpados de escandalizar a Igreja, mas sim os que protestam contra esses escândalos. O Papa, segundo o Pe. Fazio, pode ser criticado, mas em círculos privados, nunca publicamente. Na avalanche de comentários contrários, que submergiram o blog de Infovaticana.com, há um que é lapidar: “E São Paulo?”. Não foi o próprio São Paulo quem corrigiu publicamente São Pedro (Gálatas 2: 7-14)? A franqueza apostólica de São Paulo e a humildade de Pedro, Príncipe dos Apóstolos, permaneceram desde então como o modelo da justa relação entre a autoridade e aqueles que filialmente, mas não sem discernimento, lhe obedecem. A fé nunca pode contradizer a razão. Mas recusar-se a pensar é confortável, sobretudo quando o exercício da razão obriga a assumir responsabilidades desagradáveis.

Não se recusa a pensar um dos signatários mais proeminentes da Correctio, o teólogo e filósofo da ciência padre Alberto Strumia, que em uma entrevista de 30 de setembro ao Il Giornale explicou: “A ‘doutrina da Igreja’ não foi inventada por teólogos nem mesmo por Papas, mas é baseada nas Escrituras e enraizada na tradição da Igreja. O Papa está a serviço, como guardião e garante dessa continuidade, e não pode quebrá-la, sequer veladamente, deixando a entender, com uma redação ambígua, que hoje se pode crer e fazer o contrário daquilo que foi ensinado até agora pelo Magistério sobre questões essenciais, como a doutrina dos sacramentos ou da moral familiar, com a alegação de que os tempos mudaram e o mundo exige uma adequação das mesmas. Por isso é um dever de caridade, que tem como escopo a ‘salvação das almas’, como se costumava dizer, assim como a defesa da dignidade do trono de Pedro e daquele que o ocupa, colocar em relevo com o maior respeito esta ambigüidade. […] Ousar dirigir uma correção doutrinal ao Papa pode e deve ser feito somente quando a verdade da fé está em perigo e, portanto, a salvação do povo de Deus”. 

Numa época de obscurecimento das consciências, a Correctio filialis exprime o sensus fidei de dezenas de milhares de católicos que recordam filialmente ao Pastor Supremo que a salvação das almas é o maior bem e que por nenhuma razão do mundo se pode praticar o mal ou transigir com ele.

15 setembro, 2017

O caso Seifert: quem está se separando da Igreja?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 06-09-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: A notícia foi divulgada por Maike Hickson. Em 31 de agosto, Dom Javier Martínez Fernández, Arcebispo de Granada, após ter suspendido do magistério o filósofo austríaco Josef Seifert, demitiu-o da Academia Internacional de Filosofia, da qual é um dos fundadores, mas que hoje depende da Arquidiocese. Deve-se lembrar que o Prof. Josef Seifert é considerado um dos maiores filósofos católicos contemporâneos. Seu currículo e sua bibliografia ocupam numerosas páginas. Mas, acima de tudo, ele é conhecido por sua fidelidade ao Magistério pontifício, o que lhe valeu a nomeação como membro da Pontifícia Academia para a Vida. Qualquer universidade católica ficaria honrada em tê-lo entre seus professores. Qual é o motivo da medida drástica contra ele? De acordo com uma declaração da Arquidiocese, o motivo de sua recente demissão é um artigo no qual o Prof. Seifert fez uma súplica a propósito da Exortação pós-sinodal Amoris laetitia do Papa Francisco.

No artigo incriminado, o Prof. Seifert pediu ao Papa Francisco para retificar uma afirmação da Amoris laetitia da qual, com base em uma lógica rígida, pode resultar a dissolução de todo o ensino moral católico.

Seifert cita a sentença de Amoris laetitia segundo a qual a consciência de casais adúlteros ou, dito de outra forma, “irregulares”, “pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objetivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus e descobrir com certa segurança moral que esta é a doação que o próprio Deus está pedindo no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo” (AL, 303).

Em outras palavras, comenta o Prof. Seifert, além de definir o estado objetivo de pecado grave como “não ainda plenamente o ideal objetivo”, Amoris laetitia afirma que podemos conhecer “com certa segurança moral” que o próprio Deus nos pede cometer atos intrinsecamente negativos, como o adultério ou a homossexualidade ativa.

O filósofo austríaco coloca a esta altura sua questão: “Partindo desse pressuposto, eu pergunto, a pura lógica não pode deixar de perguntar: Se um ato intrinsecamente imoral pode ser permitido num caso, e até desejado por Deus, como não deve ser aplicado a todos os atos considerados ‘intrinsecamente maus’? Caso seja verdade que Deus pode desejar que um casal adúltero viva em adultério, não deverá então ser reformulado também o mandamento ‘Não desejar a mulher do próximo’? (…) Não deverão, portanto, cair também os outros nove mandamentos, a Humanae Vitae, a Evangelium Vitae e todos os documentos passados, presentes ou futuros da Igreja, os dogmas ou os concílios, que ensinam a existência de atos intrinsecamente maus? (…) Não deveriam, então, por pura lógica, ser bons e louváveis ​​por causa da complexidade de uma situação concreta, a eutanásia, o suicídio ou assistência ao suicídio, a mentira, o roubo, o perjúrio, a negação ou traição a Cristo, como a de São Pedro, ou o homicídio, em algumas circunstâncias e depois de um ‘discernimento’ adequado?”. 

Eis a súplica ao Papa Francisco: “Quero suplicar ao nosso supremo Pai espiritual na Terra, o ‘doce Cristo na terra’, como Santa Catarina de Siena chamou um dos Papas sob cujo reino tinha vivido, enquanto o criticava ferozmente (…), para retificar essa afirmação. Se as suas consequências lógicas levam com férrea rigidez a nada menos que a destruição total dos ensinamentos morais da Igreja Católica, não deveria o ‘doce Cristo na Terra’ retificar a afirmação por conta própria? Não deveria ser revogada a mencionada tese, posto que ela conduz como consequência lógica à rejeição do fato de haverem atos que devem ser considerados intrinsecamente maus moralmente em qualquer circunstância e em todas as situações, e posto que se essa última afirmação chegasse a ser negada, isso destruirá, além da Familiaris Consortio e da Veritatis Splendor, também a Humanae Vitae e muitos outros ensinamentos solenes da Igreja? (…) E não deveriam todos os cardeais e bispos, todos os sacerdotes, monges ou Virgens consagradas e todos os leigos da Igreja, demonstrar o mais vivo interesse por esse assunto e subscrever este apaixonado apelo de um humilde leigo, um simples professor de filosofia e (entre outras matérias) também de Lógica?”.

Não houve qualquer resposta à pergunta levantada pelo Prof. Seifert. A declaração da Arquidiocese de Granada se limita a afirmar que a posição do filósofo “prejudica a comunhão da Igreja, confunde a fé dos fiéis e suscita desconfiança no sucessor de Pedro, o que, no final, não serve à verdade da fé, mas aos interesses do mundo”. A Arquidiocese de Granada acrescenta “ter feito seu, desde o primeiro momento, a aplicação do texto pontifício preparado pelos bispos da Região de Buenos Aires”, ou seja, de seguir as diretrizes dos prelados argentinos que em seu documento, aprovado pelo Papa Francisco, permitem o acesso dos adúlteros à comunhão.

A atitude do Arcebispo de Granada resume-se naquela proibição de fazer perguntas que, de acordo com o filósofo Eric Voegelin, é a característica dos regimes totalitários. Com o mesmo critério foram eliminados da Pontifícia Academia para a Vida todos os católicos fiéis à ortodoxia da Igreja, a começar pelo próprio Prof. Seifert, os professores mais ortodoxos são expulsos das escolas e das universidades católicas, os sacerdotes fiéis à Tradição são transferidos de suas paróquias e, em alguns casos, suspensos a divinis. O que acontecerá com os cardeais se e quando chegar a sua correctio fraterna?

Essa lógica repressiva é a que abre o cisma na Igreja. O único argumento que os fanáticos da Amoris laetitia são capazes de levantar contra os que a criticam é aquele, fraquíssimo, da “ruptura da comunhão”. Mas os que levantam objeções à Exortação pontifícia apelam para a doutrina imutável da Igreja, da qual não têm nenhuma intenção de distanciar-se. Se eles são sancionados oficialmente por causa de  sua fidelidade ao Magistério, aqueles que os sancionam são os que fazem um ato de auto-separação desse mesmo Magistério.

Os artigos do Prof. Josef Seifert são movidos pelo amor à Igreja e, sobretudo, à Verdade. O arcebispo que o pune se separa da lei natural e divina que proíbe o adultério, o assassinato e outros pecados graves, sem exceção ou compromisso. Acusando-o de romper a unidade com o Papa, o prelado reconhece a existência de um magistério do Papa Francisco incompatível com o Magistério da Igreja de sempre.

Dom Martínez Fernández puniu o Prof. Seifert porque este pediu humilde e respeitosamente ao Papa para retificar uma afirmação que conduz ao adultério e à dissolução da moral. Portanto, na Arquidiocese de Granada, como em Malta, na Argentina e em muitos outros lugares da Cristandade, para estar em comunhão com o Papa Francisco é necessário admitir, pelo menos em certas ocasiões, a liceidade do adultério e de outras transgressões da lei moral.

O Papa Francisco é o sucessor de Pedro, mas nosso Senhor não diz: ‘Aquele que me ama deve seguir cegamente o sucessor de Pedro’. Ele diz: “Aquele que me ama, aceita o meus mandamentos e os observa” (Jn 14: 15-21). Se o Pastor Supremo se desviar dos mandamentos divinos e convidar o rebanho a segui-lo, os fiéis devem afastar-se dele, pois “importa antes obedecer a Deus que aos homens” (Atos 5:29). Se para estar em comunhão com o Papa Francisco se é forçado a abraçar o erro, quem quiser permanecer na verdade de Cristo é obrigado a separar-se do Papa Francisco. É o que afirma publicamente Dom Martínez Fernández, Arcebispo de Granada.

 

15 agosto, 2017

Francisco impõe a concelebração nos colégios sacerdotais de Roma.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 28-06-2017 | Tradução: Hélio dias Viana – FratresInUnum.com: Corre no Vaticano este rumor. A um colaborador que lhe perguntou se era verdade que existe uma comissão para “reinterpretar” a Humanae vitae, o  Papa Francisco teria respondido: “Não é uma comissão, é um grupo de trabalho”. Não se trata apenas de artifícios linguísticos  para ocultar a verdade, mas de jogos de palavras que revelam como o culto da contradição constitui a essência deste pontificado. Mons. Gilfredo Marengo, coordenador do “grupo de trabalho”, resume  bem essa filosofia, quando afirma ser necessário fugir do “jogo polêmico ‘pílula sim – pílula não’, como também daquele atual ‘comunhão aos divorciados  sim – comunhão aos divorciados não’” (Vatican Insider, 23 de março de 2017).

concelebrazione-doc

Esta premissa nos é necessária para apresentar um novo documento confidencial, resultado igualmente de outro “grupo de trabalho”. É o “working paper” [documento de trabalho] da Congregação do Clero “Sobre a concelebração nos colégios sacerdotais de Roma”, que circula de maneira reservada nos colégios e seminários romanos. O que emerge com clareza desse texto é que o Papa Francisco deseja impor de fato, embora ainda não de princípio, a concelebração eucarística nos colégios e nos seminários romanos, afirmando que “a celebração comunitária deve ser sempre preferida à individual”. 

O motivo dessa decisão emerge do documento. Roma não é somente a sede da Cátedra de Pedro e o coração da Cristandade, mas também o lugar para onde convergem sacerdotes e seminaristas de todo o mundo a fim de adquirir aquela veneração pela fé, pelos ritos e tradições da Igreja, chamado outrora de “espírito romano”. A permanência em Roma, que ajudava a desenvolver o amor à Tradição da Igreja, oferece hoje a oportunidade de uma “reeducação” doutrinária e litúrgica para aqueles que querem “reformar” a Igreja segundo as diretivas do papa Bergoglio. A vida nos colégios romanos – afirma com efeito  o  “working paper” –  oferece ocasião “para se viver ao mesmo tempo um período intenso  de formação permanente  integral”.

O documento recorda explicitamente um recente discurso dirigido aos sacerdotes que estudam em Roma, no qual o Papa Francisco lembrou a importância eclesial da concelebração no contexto da comunidade dos  sacerdotes estudantes: “Trata-se de um desafio permanente para superar o individualismo e viver a diversidade como uma dádiva, procurando a unidade do presbitério, que é sinal da presença de Deus na vida da comunidade. O presbitério que não mantiver a unidade, na realidade expulsa Deus do próprio testemunho. Não dá testemunho da presença de Deus. Rejeita-o. Deste modo, congregados em nome do Senhor, de maneira particular quando celebrais a Eucaristia, manifestais inclusive sacramentalmente que Ele é o amor do vosso coração” (Discurso de 1° de abril de 2017).

À luz dessa doutrina, o “working paper” da Congregação para o Clero reitera que a Missa concelebrada é preferível à celebração individual” (grifado no original, como também nas citações seguintes).

“Portanto, os Superiores são vivamente instados a encorajar a Concelebração, até mesmo várias vezes ao dia, na grande comunidade presbiteral. Em consequência, podem-se esperar várias celebrações nos Colégios, para que os presbíteros neles residentes possam participar de acordo com as próprias necessidades, cuidando de estabelecer dois ou três momentos ao longo do dia.” 

“Com efeito, os relacionamentos cotidianos, compartilhados diariamente e durante anos no mesmo Colégio Romano, são uma experiência importante na trajetória vocacional de cada sacerdote. Dessa maneira, na verdade se estabelecem vínculos de fraternidade e de comunhão entre os sacerdotes de diferentes dioceses e nações, que encontram uma expressão sacramental na celebração eucarística.”

“O distanciar-se das próprias diocese de incardinação e da missão pastoral por um tempo bastante longo garante certamente não só a formação intelectual, mas sobretudo oferece a ocasião de viver ao mesmo tempo um intenso período de formação integral permanente. Nesta perspectiva, a vida comum dos Colégios sacerdotais oferece esta modalidade de fraternidade sacerdotal, provavelmente nova em comparação com o passado. A experiência do Colégio representa uma oportunidade para uma frutuosa celebração da Eucaristia pelos sacerdotes. Portanto, a prática da Concelebração eucarística diária nos Colégios pode tornar-se uma oportunidade para o aprofundamento da vida espiritual dos sacerdotes, com importantes frutos, como: a expressão da comunhão entre os sacerdotes das várias Igrejas particulares, que se manifesta particularmente quando os Bispos das várias dioceses presidem a concelebração na ocasião das visitas a Roma; a oportunidade de ouvir a homilia feita por outro irmão; a celebração acurada, e mesmo solene, da Eucaristia cotidiana, o aprofundamento da devoção eucarística que cada sacerdote deve cultivar, além da própria celebração.”

 Entre as normas práticas indicadas,  lê-se:

“É recomendável que os sacerdotes possam participar ordinariamente da Concelebração eucarística nos horários previstos no Colégio, preferindo sempre a celebração comunitária à individual. Nesse sentido, os Colégios com um considerável número de sacerdotes hóspedes poderão estabelecer a Concelebração Eucarística em 2 ou 3 horários diversos no dia, de modo a permitir a cada um de participar de acordo com as  próprias necessidades pessoais, acadêmicas ou pastorais.” 

“Se os sacerdotes residentes no Colégio não puderem por razões particulares  participar da  Concelebração nos horários previstos,  devem preferir sempre celebrar juntos em outro horário mais conveniente.” 

É flagrante, e repetida em duas passagens do texto, a violação do cânon 902, segundo o qual “os sacerdotes podem concelebrar a Eucaristia; permanece íntegra, porém, a liberdade de cada um celebrar a Eucaristia individualmente”.  Em consequência, os colégios que aplicarem ao pé da letra o “working paper” infringirão a lei universal vigente.

Em 5 de março de 2012, por ocasião da apresentação do livro de Mons. Guillaume Derville, A concelebração eucarística. Do símbolo à realidade (Wilson & Lafleur, Montreal 2012), o cardeal Antonio Cañizares, então prefeito da Congregação para o Culto Divino, salientou a necessidade de “moderar” a concelebração, fazendo suas as palavras de Bento XVI: recomendo aos sacerdotes ‘a celebração diária da Santa Missa, mesmo quando não houver participação de fiéis’. Tal recomendação é ditada, antes de mais, pelo valor objetivamente infinito de cada celebração eucarística; e é motivada ainda pela sua singular eficácia espiritual, porque, se vivida com atenção e fé, a Santa Missa é formadora no sentido mais profundo do termo, enquanto promove a configuração a Cristo e reforça o sacerdote na sua vocação” (Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, n. 80).

A doutrina católica vê de fato na Santa Missa a renovação incruenta do Sacrifício da Cruz. A multiplicação das Missas dá mais glória a Deus e é um bem imenso para as almas. “Se cada Missa tem em si mesma um valor infinito – escreve Pe. Joseph de Sainte Marie –, as disposições dos homens para receber seus frutos são sempre imperfeitas e, nesse sentido, limitadas. Daí a importância do número de celebrações da Missa para multiplicar os frutos da salvação. Apoiada por este raciocínio teológico elementar, mas suficiente, a fecundidade salvífica da multiplicação das Missas também é comprovada pela prática litúrgica da Igreja e pela atitude do magistério. Dessa fecundidade, a Igreja – a história o ensina – tomou progressivamente consciência ao longo dos séculos, promovendo a prática e depois encorajando oficialmente cada vez mais a multiplicação das Missas” (L’Eucharistie, salut du monde, Dominique Martin Morin, Paris 1982 pp. 457-458).

Para os neo-modernistas, a Missa se reduz a uma assembleia, tanto mais significativa quanto maior for o número dos padres e dos fiéis que dela participam. A concelebração é entendida como um instrumento para fazer o sacerdote perder lentamente a consciência de seu caráter sacerdotal e de sua missão, que é unicamente a celebração do sacrifício eucarístico e a salvação das almas. Mas a diminuição das Missas e a perda do conceito verdadeiro do que é uma Missa constituem uma das principais causas da crise religiosa do nosso tempo. Agora, até mesmo a Congregação para o Clero, a mando do papa Bergoglio, faz sua contribuição para esse desmantelamento da fé católica.

11 agosto, 2017

O Concílio Vaticano II e a Mensagem de Fátima.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 2-8-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comRorate Coeli, Corrispondenza Romana e outras publicações católicas reproduziram uma valiosa intervenção de Dom Athanasius Schneider sobre a “interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a atual crise da Igreja”. De acordo com o Bispo Auxiliar de Astana, o Vaticano II foi um Concílio pastoral e seus textos devem ser lidos e julgados à luz do ensinamento perene da Igreja.

De fato, “do ponto de vista objetivo, os pronunciamentos do Magistério (Papas e concílios) de carácter definitivo têm mais valor e mais peso frente aos pronunciamentos de carácter pastoral, os quais são, por natureza, mutáveis e temporários, dependentes de circunstâncias históricas ou respondendo às situações pastorais de um determinado tempo, como é o caso com a maior parte dos pronunciamentos do Vaticano II”.

Ao artigo de Dom Schneider seguiu-se, em 31 de julho, um equilibrado comentário do padre Angelo Citati, FSSPX,  segundo o qual a posição do bispo alemão se assemelha àquela reafirmada constantemente por Dom Marcel Lefebvre: “Dizer que avaliamos os documentos do Concílio ‘à luz da Tradição’ significa, evidentemente, três coisas inseparáveis: que aceitamos aqueles que estão de acordo com a Tradição; que interpretamos segundo a Tradição aqueles que são ambíguos; que rejeitamos aqueles que são contrários à tradição” (Mons. M. Lefebvre, Vi trasmetto quello che ho ricevuto. Tradizione perenne e futuro della Chiesa, editado por Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, Sugarco Edizioni, Milão 2010, p. 91).

Tendo sido publicado no site oficial do Distrito italiano, o artigo do padre Citati também nos ajuda a compreender qual poderia ser a base para um acordo visando regularizar a situação canônica da Fraternidade São Pio X. Devemos acrescentar que, no plano teológico, todas as distinções podem e devem ser feitas para interpretar os textos do Concílio Vaticano II, que foi um Concílio legítimo: o vigésimo primeiro da Igreja Católica. Dependendo do respectivo teor, esses textos poderão então ser classificados como pastorais ou dogmáticos, provisórios ou definitivos, conformes ou contrários à Tradição.

Em suas obras mais recentes, Mons. Brunero Gherardini nos dá um exemplo de como um juízo teológico, para ser preciso, deve ser articulado (Il Concilio Vaticano II un discorso da fare, Casa Mariana, Frigento 2009 e Id., Un Concilio mancato, Lindau, Turim 2011). Para o teólogo, cada texto tem uma qualidade diferente e um grau diverso de autoridade e cogência. Portanto, o debate está aberto.

Do ponto de vista histórico, contudo, o Vaticano II é um bloco inseparável: tem sua unidade, sua essência, sua natureza. Considerado em suas raízes, no seu desenvolvimento e em suas consequências, ele pode ser definido como uma Revolução na mentalidade e na linguagem que mudou profundamente a vida da Igreja, iniciando uma crise religiosa e moral sem precedentes.

Se o juízo teológico pode ser matizado e indulgente, o juízo histórico é implacável e inapelável. O Concílio Vaticano II não foi apenas um Concílio malogrado ou falido: foi uma catástrofe para a Igreja.

Uma vez que este ano marca o centenário das aparições de Fátima, convém debruçar sobre a seguinte questão: quando, em outubro de 1962, inaugurou-se o Concílio Vaticano II, os católicos de todo o mundo esperavam a revelação do Terceiro Segredo e a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. O Exército Azul de John Haffert (1915-2001) liderou durante anos uma maciça campanha nesse sentido.

Haveria melhor ocasião para João XXIII (falecido em 3 de Junho de 1963), Paulo VI e os cerca de 3000 bispos reunidos em torno deles, no coração da Cristandade, corresponderem em uníssono e solenemente aos desejos de Nossa Senhora? Em 3 de fevereiro de 1964, Dom Geraldo de Proença Sigaud entregou pessoalmente a Paulo VI uma petição assinada por 510 bispos de 78 países, na qual se implorava que o Pontífice, em união com todos os bispos, consagrasse o mundo, e de maneira explícita a Rússia, ao Imaculado Coração de Maria. O Papa e a maioria dos Padres Conciliares ignoraram o apelo. Se a consagração pedida tivesse sido feita, uma chuva de graças teria caído sobre a humanidade. E um movimento de volta à lei natural e cristã teria iniciado.

O comunismo teria caído com muitos anos de antecedência, de maneira não fictícia, mas autêntica e real. A Rússia se teria convertido e o mundo teria conhecido uma era de paz e de ordem, como Nossa Senhora prometera. A consagração omitida concorreu para que a Rússia continuasse a espalhar seus erros pelo mundo, e para que esses erros conquistassem as cúpulas da Igreja Católica, atraindo um castigo terrível para toda a humanidade. Paulo VI e a maioria dos Padres Conciliares assumiram uma responsabilidade histórica, cujas consequências bem podemos hoje medir.

3 agosto, 2017

O novo Panteón dos mártires do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 19-7-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Entre os diversos “grupos de trabalho” constituídos pelo Papa Francisco está a Comissão Mista de Especialistas croatas católicos e sérvios ortodoxos para uma releitura em comum da figura do Cardeal Alojzije Stepinac, Arcebispo de Zagreb, que em 12 e 13 de Julho 2017 realizou sua última reunião na Casa de Santa Marta, no Vaticano, sob a direção do padre Bernard Ardura, presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas. O comunicado conjunto da Comissão, publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé em 13 de julho, afirma que “o estudo da vida do Cardeal Stepinac ensinou que na história todas as Igrejas sofreram cruelmente diversas perseguições e têm seus mártires e confessores da fé. A este respeito, os membros da Comissão chegaram a um acordo sobre a possibilidade de futura colaboração, com vista a um trabalho comum para partilhar a memória dos mártires e confessores das duas Igrejas”.

Essa afirmação, que sintetiza as seis reuniões de trabalho realizadas pela Comissão, inverte o conceito católico de martírio. Com efeito, o martírio, segundo a Igreja Católica, é a morte enfrentada para testemunhar a Verdade. Não uma verdade qualquer, mas uma Verdade de fé ou de moral católica. Na Igreja se celebra, por exemplo, o martírio de São João Batista, que sofreu a morte por ter repreendido publicamente o adultério de Herodes. Vale o dito de Santo Agostinho: martyres non facit poena, sed causa (Enarrationes in Psalmos, 34, 13, col 331.). Não é a morte que faz o mártir, mas a causa da morte, infligida por ódio à fé ou à moral católica.

Para a comissão chefiada pelo padre Ardura, pelo contrário, martyres non facit causa, sed poena: não significa outra coisa a equiparação “dos mártires e confessores das duas Igrejas”, a Católica e a ortodoxa. Este princípio, segundo o comunicado, pode ser estendido a “todas as igrejas” que tiveram “mártires” e “confessores” de suas respectivas crenças. Mas se o mártir é quem sofre a morte para defender a sua crença, por que não considerar mártir aquele cristão sui generis que foi Giordano Bruno, colocado na fogueira pela Igreja Católica em Campo de Fiori, em 17 de fevereiro de 1600? No fundo a Maçonaria sempre o considerou um “mártir” da religião da liberdade, e como tal o apóstata dominicano foi homenageado no último 17 de fevereiro na sede do Grande Oriente da Itália por um sacerdote da Diocese de Mileto – o padre Francesco Pontoriero –, que  relembrou as decisões de Giordano Bruno “até a última, aquela que o levou a voltar a Veneza, onde pesava sobre  ele uma sentença de morte, e depois a de abraçar o martírio, na certeza de que só asim sua mensagem de liberdade peduraria longamente no tempo”.

A reunião de Santa Marta foi precedida de dois dias por um Motu proprio do Papa Francisco – Maiorem hac dilectionem, de 11 de julho –, que escapou à atenção geral e introduz “o oferecimento da vida” como um novo motivo para o processo de beatificação e canonização, distinto da modalidade tradicional do martírio e da heroicidade das virtudes. Em artigo publicado em 11 de julho no Osservatore Romano, o arcebispo Dom Marcello Bartolucci, secretário da Congregação para a Causa dos Santos, disse que até agora as três formas pré-estabelecidas para alcançar a beatificação eram as do martírio e das virtudes heróicas, e a da chamada “beatificação equipolente” [de servos de Deus que viveram há muitos séculos]. Agora, a essas três é adicionada uma quarta via, “o oferecimento da vida”, que “visa promover um heróico testemunho cristão, até aqui sem um procedimento específico, porque não se encaixa inteiramente no caso oe martírio, nem no das virtudes heróicas”.

O Motu proprio precisa que o oferecimento da vida, para que seja válido e efizaz para a beatificação de um Servo de Deus, deve responder aos seguintes critérios: a. oferecimento livre e voluntário da vida e heróica aceitação propter caritatem de uma morte certa e em breve prazo; b. nexo entre o oferecimento da vida e a morte prematura; c. exercício, pelo menos em grau ordinário, das virtudes cristãs antes do oferecimento da vida e, depois, até a morte; e. necessidade do milagre para a beatificação, ocorrido após a morte do Servo de Deus e pela sua intercesão.

Mas o que significa propter caritatem? A caridade, definida por Santo Tomás como a amizade do homem com Deus e de Deus com o homem (Suma Teológica, II-IIae, q, 23, a. 1), é a mais excelente de todas as virtudes. Ela consiste em amar a Deus e, em Deus, o nosso próximo. A caridade não é, portanto, uma virtude que nos leva a amar os nossos semelhantes enquanto homens, mas é um ato sobrenatural que tem em Deus o seu fundamento e o seu último fim. A caridade tem também uma hierarquia: primeiramente, os interesses espirituais de nosso próximo devem prevalecer sobre os seus interesses materiais. Em segundo lugar, é preciso amar os que nos são próximos antes daqueles que estão mais distantes de nós (Suma Teológica, II-IIae, q. 26, a. 7), e se houvesse alguma vez um conflito entre os interesses dos próximos e os dos distantes, dever-se-ia dar prioridade aos primeiros sobre os segundos. É esta a nova visão do Motu proprio papal? É de se duvidar.

Entrevistado por Voce Isontina,  revista semanal da Arquidiocese de Gorizia, Dom Vincenzo Paglia, novo presidente da Academia Pontifícia para a Vida, expressou sua alegria pelo documento do Papa Francisco porque, destaca, “tenho estado de algum modo envolvido como postulador da Causa de beatificação de Dom Oscar Arnulfo Romero”. “O arcebispo de El Salvador, de fato – prossegue –, não foi morto por perseguidores ateus para que renegasse a fé na Trindade: foi assassinado por cristãos porque queria que o evangelho fosse vivido na sua profunda intuição de dom da vida”.

Dom Romero representa, portanto, o modelo de um “oferecimento da vida” equiparado ao martírio. A “quarta via” que, de acordo com o Motu proprio do Papa Francisco, levará à canonização, é a morte sofrida não por ódio à fé, mas como resultado de uma escolha política a serviço dos pobres, dos imigrantes e da “periferia” da terra. Poderão ser excluídos das beatificações os sacerdotes guerrilheiros mortos propter caritatem nas revoluções políticas das últimas décadas? Mas então, por que não equiparar aos mártires e começar a beatificação de todos os cristãos que deram suas vidas em uma guerra justa? Morrendo por sua pátria, eles fizeram um excelente ato de caridade, uma vez que “o bem da nação é superior ao bem individual” (Aristóteles, Ética, I, cap. II, n° 8). A Igreja Católica nunca os considerou mártires porque lhes falta a motivação religiosa, mas parece injusto privá-los de um espaço no novo Panteão dos mártires do Papa Francisco.

 

19 julho, 2017

O escândalo do silêncio.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 20-06-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Os quatro cardeais autores dos “dubia” sobre a Exortação Amoris laetitia tornaram público, através do blog do vaticanista Sandro Magister, um pedido de audiência apresentado pelo cardeal Carlo Caffarra ao Papa em 25 de abril passado, uma vez que os “dubia” não obtiveram resposta. O silêncio deliberado do Papa Francisco – que, no entanto, recebe personalidades muito menos relevantes em Santa Marta para discutir questões muito menos importantes para a vida da Igreja – é a razão da publicação do documento.

No pedido filial de audiência, os quatro cardeais (Brandmüller, Burke, Caffara e Meisner) fazem saber que gostariam de explicar ao Pontífice as razões dos “dubia” e expor a situação de grave confusão e perplexidade em que se encontra a Igreja, especialmente no que diz respeito a pastores de almas, em particular os párocos.

Na verdade, no ano que transcorreu a partir da publicação da Amoris laetitia, “foram dadas em público interpretações de alguns passos objetivamente ambíguos da Exortação pós-sinodal, não divergentes do, mas contrárias ao permanente Magistério da Igreja. Conquanto o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé tenha declarado mais de uma vez que a doutrina da Igreja não mudou, apareceram numerosas declarações de bispos, cardeais e até mesmo de conferências episcopais, que aprovam o que o Magistério da Igreja jamais aprovou. Não apenas o acesso à Santa Eucaristia daqueles que objetiva e publicamente vivem numa situação de pecado grave, e pretendem nela continuar, mas também uma concepção da consciência moral contrária à Tradição da Igreja. Sucede assim – oh, e quão doloroso é vê-lo! – que o que é pecado na Polônia é bom na Alemanha, o que é proibido na Arquidiocese de Filadélfia é lícito em Malta, e assim por diante. Vem-nos à mente a amarga constatação de B. Pascal: ‘Justiça do lado de cá dos Pirenéus, injustiça do lado de lá; justiça na margem esquerda do rio, injustiça na margem direita’ ”.

Não há escândalo nem transgressão no fato de os colaboradores do Papa pedirem uma audiência privada, e que no pedido descrevam, com parrhesia mas objetivamente, a divisão que a cada dia cresce na Igreja. O escândalo é a recusa do Sucessor de Pedro em ouvir aqueles que pedem para ser recebidos. Tanto mais quanto o Papa Francisco quis fazer do “acolhimento” a marca registrada de seu pontificado, afirmando em um de seus primeiros sermões em Santa Marta (25 de maio de 2013) que “os cristãos que pedem nunca devem encontrar portas fechadas”. Por que recusar audiência a quatro cardeais que não fazem senão cumprir o seu dever de conselheiros do Papa?

         As palavras dos cardeais são filiais e respeitosas. Pode-se supor que a intenção deles seja de procurar “discernir” melhor, em uma audiência privada, as intenções e os planos de Papa Francisco, e eventualmente de fazer ao Pontífice uma correção filial in camera caritatis. O silêncio do Papa Francisco em relação a eles é obstinado e descortês, mas expressa em sua teimosia a conduta daqueles que vão adiante em seu caminho com determinação. Dada a impossibilidade de uma correção privada, pela inexplicável recusa de uma audiência, também os cardeais deverão prosseguir com decisão em seu caminho, se quiserem evitar que na Igreja o silêncio seja mais forte que suas palavras.

29 junho, 2017

O plano de “reinterpretação” da Humanae Vitae.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 14-06-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Mons. Gilfredo  Marengo, docente no  Pontifício Instituto João Paulo II, será o coordenador da comissão nomeada pelo Papa Francisco para “reinterpretar”,  à luz da Amoris Laetitia, a encíclida Humanae Vitae de Paulo VI, no cinquentenário de sua promulgação no ano vindouro.

humanae-vitaeAs primeiras indiscrições sobre a existência dessa comissão ainda “secreta”,  feitas pelo vaticanista Marco Tosatti, eram de boa fonte. Podemos confirmar que tal comissão existe, composta  por Mons.  Pierangelo Sequeri, presidente do Pontifício Instituto João Paulo II,  pelo Prof.  Philippe Chenaux, docente de História da Igreja na Pontifícia Universidade Lateranense, e por Mons. Angelo Maffeirs, presidente do Instituto Paulo VI de Bréscia. O coordenador  é Mons. Gilfredo Marengo, professor de Antropologia teológica do Pontifício Instituto João Paulo II e membro do Comitê Diretivo da revista CVII-Centro Vaticano II Studi e ricerche.

A comissão tem a tarefa  de encontrar nos arquivos do Vaticano a documentação relativa  ao trabalho preparatório da Humanae Vitae, desenvolvido ao longo de três anos, durante e depois do Concílio Vaticano II.

O primeiro  grupo de estudo do problema do “controle da natalidade” foi constituído por João XXIII em março de 1963 e expandido a 75 membros por Paulo VI. Em 1966, os “peritos” entregaram suas conclusões ao papa Montini, sugerindo abrir as portas à contracepção artificial. Em  abril  de  1967,  o documento reservado da comissão – aquele que deveria hoje servir de base para a “revisão” da encíclica – apareceu simultaneamente na França (no Le Monde), na Grã-Bretanha (no Tablet) e nos Estados Unidos (no National Catholic Reporter). No entanto, após dois anos de oscilações,  Paulo VI  publicou, em 25 de julho de 1968, a encíclica Humanae Vitae, confirmando a posição tradicional da  Igreja,  que sempre vetou a limitação artificial dos nascimentos. Tratou-se, segundo o filósofo Romano Amerio, do ato mais  importante de seu pontificado.

A Humanae Vitae foi objeto de uma contestação sem precendentes, proveniente não somente de teólogos e sacerdotes, mas também de alguns episcopados, a começar pelo  belga, capitaneado pelo cardeal-primaz Leo Suenens, que no Concílio havia exclamado em tom veemente: “Sigamos o progresso da ciência. Conjuro-vos, Irmãos. Evitemos um novo processo Galileu. Um só bastou à Igreja.” O cardeal Michele Pellegrino,  arcebispo de Turim, definiu a encíclica como “uma tragédia da história pontifícia”. Em 1969, nove bispos holandeses, entre eles o cardeal Alfrink, votaram a chamada Declaração de Independência, na qual convidavam os fiéis a refutar o ensinamento da encíclica Humanae Vitae.  Na mesma ocasião, o  Concílio Pastoral Holandês, com a abstenção dos  bispos, declarou-se a favor do Novo Catecismo, recusando as correções sugeridas por Roma e pedindo que a Igreja permanecesse aberta a “novas abordagens radicais” sobre temas morais não citados na moção final, mas que emergiam dos trabalhos do Concílio, como relações pré-matrimoniais, uniões homossexuais, aborto e eutanásia. 

“Em 1968 – recorda  o cardeal Francis J. Stafford – aconteceu alguma coisa de terrível na Igreja. No seio do sacerdócio ministerial, entre amigos, verificaram-se em toda parte fraturas que jamais se recomporiam, feridas que continuam a afligir toda a Igreja” (1968, o ano da prova,  in “L’Osservatore Romano”, 25 de julho de 2008).

Sobre o tema da contracepção, Paulo VI se expressou na Humanae Vitae de modo considerado infalível pelos teólogos, e, portanto, irreformável, não porque o documento tenha em si mesmo os requisitos da infalibilidade per se,  mas por reafirmar uma doutrina proposta desde sempre pelo Magistério perene da Igreja. Os teólogos jesuítas Marcelino Zalba, John Ford e Gerald  Kelly,  os filósofos Arnaldo Xavier da Silveira e Germain Grisez, e muitos outros  autores, explicam como a doutrina da Humanae Vitae deve ser considerada infalível, não em virtude de seu ato de promulgação, mas porque confirma o Magistério ordinário universal dos Papas e dos bispos no mundo.

Mons. Gilfredo Marengo, a quem o Papa Francisco confiou a tarefa de reler a Humanae Vitae, pertence, pelo contrário, à categoria dos prelados que estão convencidos de poder conciliar o  inconciliável. Em fim de setembro de 2015,  comentando no Vatican Insider os trabalhos do Sínodo sobre a família, ele convidou a “abandonar uma concepção do patrimônio doutrinário da Igreja como um sistema fechado, impermeável às perguntas e provocações daqueles aos quais a comunidade cristã é chamada a dar razões da própria fé, como anúncio e testemunho”. Em um artigo mais recente no  mesmo órgão, com o significativo título Humanae Vitae e Amoris laetitia: histórias paralelas (Vatican Insider, 23 de março de 2017), Mons. Marengo se pergunta se “o jogo polêmico ‘pílula sim–pílula não’, assim como o atual ‘comunhão aos divorciados sim–comunhão aos divorciados não’, não seja senão a aparência de um desconforto e de uma fadiga, muito mais decisiva no tecido da vida eclesial”. De fato, segundo Marengo,“cada vez que a comunidade cristã cai no erro de propor modelos de vida derivados de ideais teológicos demasiado abstratos e artificialmente construídos, ela concebe sua ação pastoral como a aplicação esquemática de um paradigma doutrinário”. “Certo modo de defender e receber o ensinamento de Paulo VI – acrescenta – foi provavelmente um dos fatores pelos quais (cita neste momento o Papa Francisco) ‘apresentamos um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são. Esta excessiva idealização, sobretudo quando não despertamos a confiança na graça, não fez com que o matrimônio fosse mais desejável e atraente; muito pelo contrário’ (Francisco). 

No entanto, se a antítese “pílula sim–pílula não”, bem como aquela de hoje “comunhão para os divorciados sim–comunhão para os divorciados não” é apenas “um jogo polêmico”, o mesmo princípio pode ser aplicado a todos os grandes temas da fé e da moral: “aborto sim–aborto não”, mas também “ressurreição sim–ressurreição não”, “pecado original sim–pecado original não”, e assim por diante. A mesma contraposição entre verdade e erro, bem e mal se torna a esta altura “um jogo polêmico”.

Deve-se notar que Mons. Marengo não propõe ler a Amoris Laetitia na linha da hermenêutica da continuidade. Ele não nega a existência de uma contradição entre os dois documentos: admite que Amoris Laetitia autoriza aquilo que a Humanae Vitae proíbe. Mas acredita que toda antítese teológica e doutrinária é relativizada e superada em uma síntese que consiga conciliar os opostos. A verdadeira dicotomia é entre abstrato e concreto, entre verdade e vida. Para Mons. Marengo, o que importa e imergir-se na prática pastoral, sem inclinar-se para “ideais teológicos demasiado abstratos e construídos artificialmente”. Será a prática, não a doutrina, a indicar as linhas de ação. Em suma, o comportamento nasce do comportamento. E nenhum comportamento pode ser submetido a avaliações teológicas e morais abstratas. Não existem “modelos de vida”, mas apenas o fluxo da vida, que acolhe tudo, justifica tudo, santifica tudo.

O princípio de imanência, fulminado por São Pio X na encíclica Pascendi (1907), é reproposto de maneira emblemática. Haverá algum pastor ou teólogo que em face deste programa de “reinterpretação” da Humanae Vitae tenha a coragem de pronunciar a palavra “heresia”?

19 junho, 2017

“A Rússia será católica” (II).

Leia antes: A Rússia será católica.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 08-06-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com“A Rússia será católica”.  O sonho de tantos convertidos russos do século XIX,  como o padre Šuvalov, constituiu também o título de um livro que fez sensação em sua época: La Russie sera-t-elle catholique? (Paris, 1856),  do padre Ivan Gagarin, da Companhia de Jesus.

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Ivan Sergeevič Gagarin nasceu em Moscou no dia 20 de julho de 1814, de uma ilustre casa principesca,  descendente dos príncipes de Kiev. Foi adido junto à legação russa em Munique, e depois na embaixada de Paris, onde participou da vida intelectual francesa, frequentando o salão de Sophie Swetchine. Sob a influência desta e de autores como Pëtr Jakovlevič Čaadaev (1794-1856), amadureceu sua conversão ao catolicismo. Em 7 de abril de 1842 abjurou a religião ortodoxa e abraçou a fé católica pelas mãos do padre François Xavier de Ravignan (1795-1858), que já obtivera a conversão do conde Šuvalov. Ivan Gagarin renunciava, aos 28 anos, não só a um brilhante futuro político e diplomático, mas à esperança de poder retornar à sua pátria. Com efeito, na Rússia dos Czares a conversão ao catolicismo constituía um delito comparável à deserção ou ao parricídio. O abandono da ortodoxia por uma outra religião, ainda que cristã, era punido  com a perda de todos os bens, dos direitos civis e dos título nobiliárquicos, e previa a reclusão perpétua em um mosteiro ou o exílio na Sibéria.

Um ano depois, Ivan, tornado Jean Xavier Gagarin, solicitou sua admissão na Companhia de Jesus, sendo admitido no noviciado de Saint Acheul. Iniciou então um período de longos estudos, que concluíram com a ordenação sacerdotal e a profissão dos votos religiosos na Ordem de Santo Inácio de Loyola. Para o padre Gagarin, no qual um zelo ardente se unia a uma viva inteligência e a uma educação de grande senhor, iniciou-se uma nova vida.

Durante a guerra da Crimeia, participou com o célebre matemático Augustin Cauchy (1789-1857) na fundação da obra da École d’Orient.  E no final de 1856 fundou a revista quadrimestral Études de théologie, de philosophie et d’histoire, que se tornou a célebre revista Études. Contudo, quando em 1862 a publicação foi retirada dos jesuítas franceses, ela sofreu uma radical transformação. Quando se iniciou o Concílio Vaticano I, Études, diferentemente de sua coirmã romana Civiltà Cattolica, tomou uma  posição filoliberal que conservou no século seguinte.

O governo russo, que se propunha extirpar o catolicismo das províncias ocidentais do Império, considerou o príncipe Gagarin como um inimigo a ser eliminado. Ele foi acusado de ter escrito cartas anônimas ao poeta Aleksandr Sergeevič Puškin (1799-1837) que o teriam exasperado, levando-o a um duelo no qual teria morrido. Recentemente, a jovem historiadora polonesa Wiktoria Sliwowska demonstrou que se tratava de uma campanha de calúnias organizada pela Terceira Seção da Chancelaria Imperial (L’Affaire Gagarine, Institutum Historicum Societatis Iesu, Roma, 2014, pp. 31-72).

O livro La Russie sera-t-elle catholique? foi publicado em 1856. Nele o padre Gagarin se refere à solene bula de Bento XIV Allatae sunt, de 26 de julho de 1755, em que o Santo Padre,  manifestando “a benevolência com a qual a Sé Apostólica abraça os orientais”, “ordena que se conservem seus antigos ritos que não se oponham à Religião Católica nem à honestidade; nem se peça aos Cismáticos que retornam à Unidade Católica para abandonarem seus Ritos, mas apenas que abjurem a heresia, desejando fortemente que seus diferentes povos sejam conservados, não destruídos, e que todos (para dizer muitas coisas com poucas palavras) sejam Católicos, não latinos”. 

Para reconduzir os povos eslavos à unidade – comenta o padre Gagarin –, é preciso respeitar os ritos orientais, pedir a abjuração dos erros contrários à fé católica, mas, sobretudo, combater a concepção político-religiosa dos ortodoxos. Para o jesuíta russo, o cisma ortodoxo é principalmente o resultado do “bizantinismo”,  um conceito com o qual eles entendem a diferença das relações entre a Igreja e Estado existentes no mundo bizantino e no ocidental. Para Bizâncio, não há  distinção entre os dois poderes. A Igreja é  de fato subordinada ao Imperador, que a dirige enquanto delegado de Deus no campo eclesiástico e no secular. Os autocratas russos, como os imperadores bizantinos, veem na Igreja e na religião um meio do qual servir-se para garantir e dilatar a unidade política. Este calamitoso sistema se funda em três pilares: a religião ortodoxa, a autocracia e o princípio da nacionalidade, sob cujo signo penetraram na Rússia as ideias de Hegel e dos filósofos alemães. Aquilo que se esconde sob as palavras pomposas de ortodoxia, autocracia e nacionalidade, “não é senão a formulação oriental da ideia revolucionária do século XIX” (p. 74).

Gagarin entrevê a ferocidade com a qual as ideias revolucionárias seriam aplicadas em seu país. As páginas de Proudhon e Mazzini parecem moderadas a seus olhos, se comparadas à  violência dos agitadores russos. “É uma comparação que pode servir para medir a diferença que há entre o princípio revolucionário como ele é entendido na Europa Ocidental e como seria posto em prática na Rússia” (pp. 70-71).  Em  uma profética página, o padre Gagarin escreve:

“Quanto mais se desce ao fundo das coisas, mais se é levado a concluir que a única luta verdadeira é entre o Catolicismo e a Revolução. Quando em 1848 o vulcão revolucionário aterrorizava o mundo com seus rugidos e fazia tremer a sociedade abalada em seus fundamentos, o partido que se dedicou a defender a ordem social e a combater a Revolução não hesitou em inscrever em sua bandeira Religião, Propriedade, Família; ele não hesitou em enviar um exército para restabelecer em sua sede o Vigário de Jesus Cristo, que a Revolução havia forçado a tomar o caminho do exílio. Esse partido tinha perfeitamente razão; está-se em presença de apenas dois princípios: o princípio revolucionário, que é essencialmente anti-católico, e o princípio católico, que é essencialmente anti-revolucionário.  Apesar de todas as  aparências contrárias, só há no mundo dois partidos e duas bandeiras. De um lado, a Igreja Católica arvora o estandarte da cruz, que contém o verdadeiro progresso, a verdadeira civilização e a verdadeira liberdade; de outro, apresenta-se a bandeira revolucionária, em torno da qual se agrupa a coalizão de todos os inimigos da Igreja.

“Ora, o que faz a Rússia? De um lado, combate a Revolução; de outro, combate a Igreja Católica. Tanto externa quanto internamente, encontrareis a mesma contradição. Não hesito em dizê-lo, o que faz sua honra e sua força é ser adversária inabalável do princípio revolucionário. O que faz sua fraqueza é ser, ao mesmo tempo, adversária do Catolicismo.

“E se ela quiser ser coerente consigo mesma, se quiser francamente combater a Revolução, tem apenas um partido a tomar: colocar-se sob o estandarte católico e reconciliar-se com a Santa Sé” (La Russie sera-t-elle catholique?, Charles Douniol, Paris 1856, pp. 63-65).

A Rússia não atendeu ao apelo e a Revolução bolchevique, após ter exterminado os Romanov, difundiu seus erros no mundo. A cultura abortista e homossexual, que hoje conduz o Ocidente à morte, tem suas raízes na filosofia hegeliano-marxista que triunfou na Rússia em 1917. A derrota dos erros revolucionários não poderá ser ultimada, na Rússia e no mundo, senão sob os estandartes da Igreja Católica.

As ideias do padre Gagarin inspiraram o barão alemão August von Haxthausen (1792-1866), que com o apoio dos bispos de Münster e de Paderborn fundou uma Liga de orações denominada Petrusverein (União de São Pedro) para a conversão da Rússia. Uma associação análoga, sob o impulso dos padres barnabitas Šuvalov e Tondini, nasceu na Itália e na França. Aos inscritos nessas associações recomendava-se rezar em todos os primeiros sábados do mês pela conversão da Rússia. Em 30 de abril de 1872, Pio IX concedeu com um Breve indulgência plenária a todos aqueles que, tendo confessado e comungado, assistissem no primeiro sábado do mês à Missa celebrada pelo retorno da Igreja greco-russa à unidade católica.

Nossa Senhora aprovou certamente essa devoção, pois em Fátima, em 1917, Ela recomendou a prática reparadora dos primeiros cinco sábados do mês como instrumento da instauração de seu Reino, na Rússia e no mundo.

1 junho, 2017

“A Rússia será católica”.

Por Roberto de Mattei – Corrispondenza Romana,  31 de maio de 2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com“A Rússia será católica”: esta é a inscrição que foi colocada no túmulo do padre Gregório Agostinho Maria Šuvalov no cemitério de Montparnasse,  em Paris. O barnabita russo se imolou como vítima por esta causa (Antonio Maria Gentili, Os barnabitas, Padres Barnabitas, Roma,  2012,  pp. 395-403).

O conde Grigorij Petrovič Šuvalov nasceu no dia 25 de outubro de 1804 em Petersburgo, numa família da antiga nobreza. Um tio dele, general do exército, recebeu a missão de acompanhar Napoleão, derrotado, na ilha de Elba, e outro antepassado fundou a Universidade de Moscou. Ele estudou de 1808 a 1817 no colégio dos jesuítas de Petersburgo, até que, expulsos estes da Rússia, continuou seus estudos primeiro na Suíça e depois na Universidade de Pisa, onde aprendeu perfeitamente a língua italiana. No entanto, foi influenciado pelo materialismo e pelo niilismo então imperantes nos círculos liberais que frequentava. Nomeado pelo Czar Alexandre I oficial dos hussardos da Guarda, aos vinte anos, em 1824, desposou Sofia Soltikov, uma moça profundamente religiosa, ortodoxa, mas “católica na alma e no coração”, que morrerá em Veneza em 1841 e com a qual terá dois filhos: Pedro e Helena.

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A morte de Sofia levou-o a estudar religião. Um dia, Šuvalov se deparou com o livro Confissões, de Santo Agostinho, que foi para ele uma revelação. “Eu o lia incessantemente, copiava páginas inteiras, extraía longos trechos. Sua filosofia enchia-me de bons desejos e amor. Com tais transportes de contentamento, eu encontrava naquele grande homem sentimentos e pensamentos que até então haviam dormido na [minha] alma e que a leitura despertava”.

Mudando-se para Paris, o conde Šuvalov passou a frequentar um grupo de aristocratas russos convertidos à Igreja Católica graças, sobretudo, ao conde Joseph de Maistre (1753-1821), que de 1802-1817 fora embaixador do Rei da Sardenha em Petersburgo. Entre eles estavam Sofia Swetchine (1782-1857), o príncipe Ivan Gagarin (1814-1882) e o príncipe Teodoro Galitzin (1805-1848). Este último, notando a profunda crise espiritual de seu amigo, ajudou-o a encontrar a verdade, recomendando-lhe a leitura e meditação de Du Pape, de Joseph de Maistre. Lendo a obra do conde saboiano, Šuvalov compreendeu que a primeira nota da Igreja é a unidade, a qual exige uma autoridade suprema, que não pode ser outra senão a do Romano Pontífice. “Senhor, tu dizes: a minha Igreja, e não as minhas igrejas. Por outro lado, a Igreja deve manter a verdade; mas a verdade é una; portanto, a Igreja só pode ser uma. (…) Quando conheci que não pode existir senão uma Igreja verdadeira, compreendi também que essa Igreja deve ser universal, isto é, católica.”

Šuvalov ia todas as noites a Notre-Dame para ouvir os sermões do padre Francisco Xavier de Ravignan (1795-1858), um jesuíta que se tornaria seu guia espiritual. Em 6 de janeiro de 1843, festa da Epifania, Šuvalov abjurou os erros da Igreja Ortodoxa russa e fez a profissão da fé católica na Chapelle des Oiseaux. Mas aspirava a uma dedicação mais profunda à causa católica.

Através de um jovem liberal italiano, Emilio Dandolo, encontrado por acaso no trem, ele conheceu o padre Alexandre Piantoni, reitor da faculdade Longone, dos Barnabitas em Milão, que em 1856 o recebeu no noviciado em Monza, com o nome de Agostinho Maria. Na ordem fundada por Santo Antonio Maria Zaccaria (1502-1539), Šuvalov encontrou um ambiente profundamente espiritual. Ele escrevia ao padre Ravignan: “Acho que estou no Paraíso. Meus superiores são como santos, os noviços como anjos”. Entre os jovens irmãos confrades estava César Tondini de’ Quarenghi (1839-1907), que teria recolhido mais do que qualquer outro a sua herança espiritual. Em 19 de setembro de 1857, Agostinho Šuvalov foi ordenado sacerdote em Milão por monsenhor Angelo Ramazzotti, futuro Patriarca de Veneza.

No dia da ordenação, na elevação do cálice, ele fez esta súplica a Deus. “Meu Deus, tornai-me digno de dar a vida e o sangue em união com o vosso, para a glorificação da Bem-aventurada Virgem Imaculada e pela conversão da Rússia.” Este foi o sonho de sua vida, que ele confiou à Imaculada, de quem, em 8 de dezembro de 1858, Pio IX proclamou o dogma. Recebido em audiência pelo Papa, o padre Šuvalov lhe manifestou o desejo de dedicar sua vida ao retorno dos cismáticos à Igreja de Roma. No memorável encontro, “Pio IX falou-me da Rússia com aquela fé, aquela esperança e aquela convicção apoiadas na palavra de Jesus, e com aquela caridade ardente da qual era movido pensando em seus filhos extraviados, pobres órfãos voluntários. Estas suas palavras me inflamavam o coração”. O padre Šuvalov declarou-se pronto para fazer o sacrifício de sua vida pela conversão da Rússia. “Contudo, disse então o Santo Padre, repeti continuamente este propósito três vezes ao dia diante do crucifixo; estai certo de que vosso desejo se realizará”.

Paris foi o campo de seu apostolado e de sua imolação: ali ele se esforçou incansavelmente, conquistando inúmeras almas e dando vida à Associação de orações para o triunfo da Bem-aventurada Virgem Imaculada na conversão dos cismáticos orientais, e especialmente dos russos, à fé católica, chamada comumente de Obra do Padre Šuvalov. Pio IX a aprovou com um breve de 1862 e o padre César Tondini foi dela um incansável propagador. Mas o padre Šuvalov morreu em Paris no dia 2 de abril de 1859.

Ele acabava de escrever sua autobiografia Minha conversão e minha vocação (Paris 1859). Traduzido e reimpresso no século XIX, o livro foi apresentado em uma nova edição italiana pelos padres Enrico M. Sironi e Franco M. Ghilardotti (La mia conversione e la mia vocazione, Gráfica Dehoniane, Bolonha, 2004), da qual extraímos as nossas citações. O padre Ghilardotti também trabalhou para trazer de volta à Itália os restos do padre Šuvalov, que agora repousam na igreja de San Paolo Maggiore em Bolonha, construída em 1611 pelos padres barnabitas. Ao pé de um altar encimado por uma cópia da Santíssima Trindade feita por Andrei Rublev, o maior pintor russo de ícones, o padre Gregório Agostinho Maria Šuvalov aguarda a hora da ressurreição.

Em sua autobiografia, o barnabita russo escreveu: “Quando a heresia ameaça, quando a fé definha, quando os costumes se corrompem e as pessoas adormecem à beira do abismo, Deus, que tudo dispõe com peso, número e medida, para despertá-los, abre os tesouros de sua graça; e ora suscita em alguma obscura aldeia um santo escondido, cuja eficaz oração retém seu braço  pronto para punir; ora faz aparecer na face da terra uma esplêndida luz, um Moisés, um Gregório VII, um Bernardo; ora inspira, pelo concurso de algum fato milagroso, passageiro ou permanente, a ideia de uma peregrinação ou de qualquer outra nova devoção, nova talvez pela forma, mas sempre antiga na essência, um culto comovente e salutar. Tal foi a origem da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Esse culto nascido  no meio de muitas contradições, num pequeno claustro da aldeia de Paray-le-Monial…”.

Tal, podemos acrescentar, é a origem da devoção ao Coração Imaculado de Maria, cuja propagação Nossa Senhora pediu cem anos atrás numa pequena aldeia de Portugal. Em Fátima, Nossa Senhora anunciou a realização do grande ideal do padre Šuvalov: a conversão da Rússia à fé católica. Um acontecimento extraordinário que pertence ao nosso futuro, e que fará ressoar em todo o mundo as misteriosas palavras da Escritura que o padre  Šuvalov aplica à sua própria conversão: Surge qui Dormis, surge a mortuis et iluminabit te Christus“Desperta, tu que dormes! Levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará” (Ef 5, 14).

 

17 maio, 2017

13 de Maio em Fátima.

Por Roberto de Mattei, Il Tempo, Roma,  14-05-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Quinhentas mil pessoas esperavam o Papa Francisco  na esplanada do santuário de Fátima para a canonização dos dois pastorinhos Francisco  e Jacinta, com idades de 9 e 11 anos, que juntamente com a prima Lúcia dos Santos viram e ouviram as palavras de Nosssa Senhora entre 13 de maio e 13 de outubro 1917. A canonização ocorreu, e a Igreja inscreveu no rol dos santos as crianças mais jovens não mártires de sua história. Sobre a prima Lúcia, falecida em 2010, está em curso o processo de beatificação.

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No entanto, o que os devotos de Fátima de todo o mundo estavam esperando não era apenas a canonização dos videntes, mas também o cumprimento da parte do Papa de alguns dos pedidos de Nossa Senhora,  até agora não atendidos.

Dois centenários opostos se comemoram de fato  neste ano: as aparições de Fátima e a Revolução bolchevique de Lênin e Trotsky, ocorrida na Rússia no mesmo mês em que em Portugal terminou o ciclo mariano. Em Fátima, Nossa Senhora anunciou que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo e que desses erros nasceriam guerras, revoluções e perseguições à Igreja. Para evitar esses infortúnios Nossa Senhora pediu sobretudo um sincero arrependimento da humanidade e um retorno aos princípios da ordem moral cristã. A essa necessária emenda dos cristãos, a Santíssima Virgem juntou dois pedidos específicos: a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, feita pelo Papa em união com todos os bispos do mundo, e a propagação da prática dos primeiros sábados do mês, consistente em unir-se a Ela, confessar-se e comungar durante cinco sábados consecutivos, meditando quinze minutos e rezando o terço.

A difusão da prática dos primeiros sábados do mês nunca foi promovida pelas autoridades eclesiásticas e os atos pontifícios de entrega e consagração à Virgem Maria foram parciais e incompletos. Mas, acima de tudo, desde cinquenta anos atrás, os clérigos não pregam mais o espírito de sacrifício e de penitência, tão intimamente ligado à espiritualidade dos dois pastorinhos canonizados. Quando em 1919 Lúcia visitou Jacinta no hospital, na véspera de sua morte, a conversa foi toda ela centrada no sofrimento oferecido pelos dois primos a fim de evitar para os pecadores as terríveis penas do Inferno, mostrado por Nossa Senhora aos videntes.

O Papa Francisco, que nunca tinha ido a Fátima, nem como sacerdote, não tocou em nenhum desses temas. Em 12 de maio, na Capela das Aparições, apresentando-se como “bispo vestido de branco”, ele disse: “Venho como um profeta e mensageiro para lavar os pés de todos na mesma mesa que nos une”.  Depois, convidou para seguir o exemplo de Francisco e Jacinta. “Percorreremos, assim, todas as rotas, seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros e venceremos todas as fronteiras, saindo em direcção a todas as periferias, aí revelando a justiça e a paz de Deus”.  Em sua homilia de 13 de maio na esplanada do santuário, Francisco lembrou “todos os meus irmãos no batismo e em humanidade”, em particular “os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados”, convidando-os a “descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”.

A dimensão trágica da Mensagem de Fátima, que gira em torno dos conceitos de pecado e de castigo, foi posta de lado. Nossa Senhora havia dito à pequena Jacinta que as guerras não são outra coisa senão a punição pelos pecados do mundo, e que os pecados que mais levam almas para o inferno são aqueles contra a pureza. Se hoje vivemos uma “terceira guerra mundial em pedaços”, como muitas vezes disse o Papa Francisco, como não  relacioná-la com a terrível explosão de imoralidade contemporânea, chegada ao ponto de legalizar a inversão das leis morais? Nossa Senhora disse ainda a Jacinta que, se não houvesse arrependimento e penitência, a humanidade seria punida, mas que por fim o seu Imaculado Coração triunfaria e o mundo inteiro se converteria. Hoje não só a palavra castigo é abominada, porque a misericórdia de Deus supostamente apaga todo pecado, mas a própria idéia de conversão é indesejável, uma vez que segundo o Papa Francisco “o proselitismo é o veneno mais forte contra o caminho ecumênico”.

É  preciso admitir que a Mensagem de Fátima, reinterpretada de acordo com as categorias sociológicas do papa Bergoglio, tem pouco a ver com o profético anúncio do triunfo do Coração Imaculado de Maria, feito por Nossa Senhora ao mundo há cem anos.