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4 dezembro, 2017

Os Cardeais Burke-Brandmüller-Müller e “O Papa ditador”.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 29 de novembro de 2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Nas últimas semanas houve três entrevistas de alguns eminentes cardeais. A primeira foi concedida em 28 de outubro de 2017 pelo cardeal Walter Brandmüller a Christian Geyer e Hannes Hintermeier, do Frankfurter Allgemeine Zeitung; a segunda foi dada em 14 de novembro pelo cardeal Raymond Leo Burke a Edward Pentin, do National Catholic Register; e a terceira, do cardeal Gerhard Müller ao jornalista Massimo Franco, apareceu em 26 de novembro nas colunas do Corriere della Sera.

ilpapadittatore

O cardeal Brandmüller manifestou sua preocupação com a possibilidade de se abrir uma divisão na Igreja. “O simples fato de uma petição com 870.000 assinaturas dirigidas ao Papa solicitando-lhe esclarecimentos permanecer sem resposta – como não obtiveram resposta 50 estudiosos internacionais – levanta questões. É verdadeiramente difícil de entender.” “Dirigir dúvidas ao Papa, dúvidas, perguntas, sempre foi uma forma absolutamente normal de dissipar as ambiguidades. Simplificando, a questão é a seguinte: o que ontem era pecado pode hoje sem bom? Pergunta-se também: existem realmente atos – é a doutrina constante da Igreja – que são sempre moralmente reprováveis em todas as circunstâncias? Como, por exemplo, o assassinato do inocente ou o adultério? Este é o ponto. Caso, de fato, se devesse responder à primeira pergunta com um ‘sim’ e com um ‘não’ à segunda, isso seria realmente uma heresia e, portanto, um cisma. Uma divisão na Igreja.”

O cardeal Burke, que declarou estar sempre em comunicação com o cardeal Brandmüller, formulou um novo alerta “sobre a gravidade de uma situação que nunca cessa de piorar” e reafirmou a necessidade de que todas as passagens heterodoxas da Amoris laetitia sejam esclarecidas. De fato, enfrentamos um processo que constitui “uma subversão das partes essenciais da Tradição”. “Além do debate sobre a moral, está cada vez mais erodido na Igreja o sentido da prática sacramental, especialmente no que diz respeito à penitência e à Eucaristia.”

O cardeal se dirige novamente ao Papa Francisco e a toda a Igreja, frisando “quão urgente é que o Papa, exercendo o ministério que recebeu do Senhor, possa confirmar seus irmãos na fé, exprimindo claramente o ensinamento sobre a moral cristã e o significado da prática sacramental da Igreja”.

O cardeal Müller, por sua vez, afirma existir o perigo de um cisma dentro da Igreja e que a responsabilidade da divisão não é dos cardeais dos dubia sobre a Amoris laetitia nem dos signatários da Correctio filialis ao Papa Francisco, mas do “círculo mágico” do Papa, que impede um debate aberto e equilibrado sobre os problemas doutrinários levantados por essas críticas:

“Atenção: se se generalizar a percepção de que uma injustiça foi praticada pela Cúria Romana, quase por força da inércia poder-se-ia pôr em movimento uma dinâmica cismática difícil depois de reabsorver. Creio que os cardeais que expressaram suas dúvidas sobre a Amoris laetitia, ou os 62 signatários de uma carta com críticas até mesmo excessivas ao Papa devem ser ouvidos, e não liquidados como ‘fariseus’ ou pessoas revoltosas. A única maneira de sair desta situação é um diálogo claro e direto. Em vez disso, tenho a impressão de que no ‘círculo mágico’ do Papa existem aqueles que estão especialmente preocupados em espionar seus pretensos adversários, impedindo assim uma discussão aberta e equilibrada. O dano mais grave que eles causam à Igreja é de classificar todos os católicos de acordo com as categorias ‘amigo’ ou ‘inimigo’ do Papa. Fica-se perplexo que um conhecido jornalista ateu [Eugenio Scalfari, fundador do La Repubblica] se gabe de ser amigo do Papa; e, paralelamente, que um bispo católico e cardeal como eu seja difamado como adversário do Santo Padre. Não acho que essas pessoas possam dar-me lições de teologia sobre o primado do Romano Pontífice.”

Segundo o seu entrevistador, o cardeal Müller ainda não se recuperou da “ferida” causada pela exoneração de três de seus colaboradores pouco antes de sua não recondução à frente da Congregação pela Doutrina da Fé, em junho passado. “Eram bons e competentes sacerdotes que trabalhavam para a Igreja com dedicação exemplar”, é o seu julgamento. “As pessoas não podem ser mandadas embora ad libitum, sem provas nem processo, só porque alguém denunciou anonimamente vagas críticas de uma delas ao Papa…”.

Qual é o regime sob o qual as pessoas são tratadas assim?”, pergunta Damian Thompson em The Spectator no dia 17 de julho passado. E responde que a demissão dos colaboradores do cardeal Müller “traz à mente alguns de seus predecessores mais autoritários, ou até mesmo algum ditador latino-americano que abraça as multidões e dá uma demonstração de seu estilo de vida humilde enquanto seus lugar-tenentes vivem no temor de sua cólera”.

Este aspecto do pontificado do Papa Francisco é agora objeto de um livro que acaba de ser publicado com o significativo título O Papa ditador. O autor é um historiador formado em Oxford que se oculta sob o nome de “Marcantonio Colonna”. O estilo é sóbrio e documentado, mas as acusações dirigidas ao papa Bergoglio são fortes e numerosas.

Muitos dos elementos sobre os quais o autor se baseia para formular suas acusações eram conhecidos, mas o que é novo é a acurada reconstrução de uma série de “quadros históricos”: o pano de fundo da eleição do Papa Bergoglio, guiada pela “máfia de São Galo”; as pendengas argentinas de Bergoglio antes de sua eleição; os obstáculos encontrados pelo cardeal Pell ao tentar fazer uma reforma financeira da Cúria; a revisão da Pontifícia Academia para a Vida; a perseguição aos Franciscanos da Imaculada e a decapitação da Soberana Ordem Militar de Malta.

A mídia, sempre pronta a fustigar alhures qualquer episódio de desgoverno e de corrupção, silencia-se diante desses escândalos. O principal mérito deste estudo histórico é de tê-los trazido à luz. “O medo é a nota dominante da Cúria sob a lei de Francisco, juntamente com a suspeita mútua. Não se trata apenas de informantes que procuram vantagens relatando uma conversa privada – como descobriram os três subordinados do cardeal Müller. Em uma organização onde as pessoas moralmente corruptas foram deixadas no lugar e até promovidas pelo Papa Francisco, uma chantagem sutil está na ordem do dia. Um sacerdote da Cúria ironizou assim: ‘Há um ditado segundo o qual [para encontrar emprego ou ser promovido] o que conta não é aquilo que sabes, mas quem conheces. No Vaticano, ele se aplica assim: o que conta é aquilo que sabes a respeito de quem conheces.”

Em suma, o livro de Marcantonio Colonna confirma aquilo que a entrevista do cardeal Müller deixa nebuloso: a existência de um clima de espionagem e delação que o antigo Prefeito da Doutrina da Fé atribui a um “círculo mágico” que condiciona as escolhas do Papa, enquanto o historiador de Oxford o imputa ao próprio modus gubernandi do Papa Francisco, que ele compara com os métodos autocráticos do ditador argentino Juan Perón, do qual o jovem Bergoglio era um seguidor.

Poder-se-ia responder nihil sub sole novum (Eclesiastes 1:10). A Igreja viu muitas outras deficiências de governo. Mas se este pontificado está realmente levando a uma divisão entre os fiéis, como sublinham os três cardeais, as causas não podem se limitar ao modo de governar de um Papa, mas devem ser procuradas em algo absolutamente inédito na História da Igreja: o afastamento do Romano Pontífice da doutrina do Evangelho, que ele tem, por mandato divino, o dever de transmitir e guardar. Este é o cerne do problema religioso do nosso tempo.

20 novembro, 2017

Crítica amigável às teses de Rocco Buttiglione.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 16-11-2017 | Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Conheço Rocco Buttiglione há mais de quarenta anos. Nós fomos assistentes do catedrático Augusto Del Noce (1910-1989) na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade La Sapienza em Roma, mas desde então as nossas posições divergem, especialmente no que se refere ao nosso modo de julgar a modernidade. Buttiglione considerava compatível com o Cristianismo o processo histórico inaugurado pela Revolução Francesa, enquanto eu o considerava incompatível.

Apesar dessas divergências, apreciei o trabalho de Buttiglione como ministro do Patrimônio Cultural do governo Berlusconi (2005-2006), e também lhe expressei minha solidariedade quando, em 2004, não obteve sua nomeação como Comissário europeu, por ter definido o homossexualismo como sendo “um pecado”. Relembro tudo isso para mostrar minha sinceridade ao falar de uma “crítica amigável” de suas teses, do mesmo modo como Buttiglione é realmente sincero quando se refere ao Prof. Josef Seifert como seu “amigo ao longo da vida”, ao polemizar com ele em seu último livro Respostas (amigáveis) às críticas de Amoris Laetitia, com um prefácio do cardeal Gerhard Ludwig Müller (Ares, Milano 2017, p. 41).

O livro, que acaba de vir a lume, compõe-se de 200 páginas divididas em quatro capítulos. Nada há  nele que os leitores da Buttiglione não conheçam. Os capítulos são constituídos por ensaios já publicados em diferentes órgãos entre 2016 e 2017. Isso explica as muitas repetições, mas estas ajudam a compreender melhor a tese de fundo: a suposta liceidade de se admitir à comunhão os divorciados recasados, porque embora seus “atos sejam ilegítimos”, em alguns casos as pessoas “não podem incorrer em pecado mortal pela ausência de pleno conhecimento e de consentimento deliberado” (p. 172).

Já tive  ocasião de criticar essa posição, como pode ser visto neste link: (https://www.corrispondenzaromana.it/card-muller-buttiglione-confusione-aumenta/). Deve-se acrescentar que, para justificá-la, Buttiglione introduz uma distinção falaciosa entre “pecado grave”, “especificado pelo objeto (da matéria grave)”, e “pecado mortal”, “especificado pelo efeito sobre o agente (faz morrer a alma)”. “Todos os pecados mortais – escreve – também são pecados graves, mas nem todos os pecados graves são necessariamente mortais. Pode acontecer de em alguns casos a matéria grave não estar acompanhada do pleno conhecimento e do consentimento deliberado” (p. 173).

Tal tese já foi refutada por João Paulo II por ocasião do Sínodo de 1984, quando em face da proposta de alguns teólogos e sacerdotes de introduzir uma distinção tripartite dos pecados – veniais, graves e mortais – declarou, na exortação pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia, que na doutrina da Igreja o pecado grave se identifica com o pecado mortal. Aqui estão as suas palavras: A tripartição poderia pôr em realce o fato de que entre os pecados graves existe uma gradação. Mas permanece sempre verdadeiro que a distinção essencial e decisiva é a que existe entre pecados que destroem a caridade e pecados que não matam a vida sobrenatural: entre a vida e a morte não há lugar para um meio termo” (Reconciliatio et paenitentia No. 17).

É claro que nos pecados graves há uma gradação. Na crucifixão de Nosso Senhor, por exemplo, não teve a mesma gravidade a participação de Pilatos e a dos líderes do povo judeu (Jo 19, 11). Mas todos os pecados graves são mortais, e todos os pecados mortais são graves. Para Buttiglione, pelo contrário, a coabitação de pessoas não casadas é sempre uma “ferida grave” ao bem moral da pessoa, mas nem sempre uma “ferida mortal” (p. 174). Depende de “circunstâncias”, que “não alteram a natureza do ato, mas podem alterar o julgamento sobre a responsabilidade da pessoa” (p. 174). A Igreja, portanto, “pode ​​excepcionalmente dar os sacramentos se  verificar que, apesar do conflito objetivo com a moral cristã, a pessoa não se encontra em um estado de pecado mortal devido a circunstâncias atenuantes subjetivas” (197). O adúltero, por exemplo, pode “estar em estado de pecado, mas não de pecado mortal” (p. 175). “Embora a regra seja válida sem exceção, os comportamentos que diferem da regra não são todos igualmente culposos” (p.185). A exceção aplica-se ao comportamento, não à regra. Fica-se atônito: como se pode violar de outra forma a regra moral a não ser pelo comportamento?

Buttiglione nega que a posição do Papa Francisco e seu deslize para a “ética da situação” sejam condenados pela Igreja. Mas para persuadir cumpre demonstrar aquilo que se afirma ou se nega. Infelizmente, devo reiterar com Josef Seifert, Carlos Casanova, Corrado Gnerre, Claudio Pierantoni e outros excelentes críticos de Buttiglione, que a posição de Amoris laetitia coincide com a da “ética da situação”, ou, mais precisamente, com a “ética das circunstâncias”.

De acordo com o Pe. Angelo Perego, a característica própria da ética da situação é “a negação da função decisiva e constitutiva da moralidade da ordem objetiva” (L’etica della situazione, edições “La Civiltà Cattolica”, Roma, 1958, pág. 106). Na moral tradicional, a suprema regra do agir humano é o ser, e não o agente operante. Por isso, a moral tradicional é essencialmente objetiva, porque surge do ser, ao qual se reporta continuamente. A ética das circunstâncias baseia-se, pelo contrário, no acontecer subjetivo. Na ética das circunstâncias de Buttiglione e do Papa Francisco o elemento constitutivo último da moralidade é de natureza estritamente subjetiva. A lei moral torna-se uma regra extrínseca que concorre para determinar o julgamento prático, sem nunca ser o elemento determinante. Qual é o fator decisivo? O “discernimento” das circunstâncias pelo confessor, que, como um mágico, pode transformar o bem em mal e o mal em bem.

 “À ética da situação – disse Pius XII – opomos três considerações ou máximas. A primeira é que admitimos que Deus deseja, antes de tudo e sempre, a reta intenção; mas isso não basta. Ele também quer uma boa obra. A segunda é que não é permitido fazer o mal para que dele venha o bem (Romanos 3: 8). A terceira é que pode haver circunstâncias em que o homem, e especialmente o cristão, deve lembrar-se que é necessário sacrificar tudo, até a própria vida, para salvar a alma. Todos os numerosíssimos mártires, mesmo em nosso tempo, o recordam. Mas a mãe dos Macabeus e seus filhos; santas Perpétua e Felicidade, sem levarem seus filhos em consideração; Maria Goretti e milhares de outros, homens e mulheres, venerados pela Igreja, teriam, portanto, contra as circunstâncias, afrontado inutilmente ou até mesmo erroneamente uma morte sangrenta? Certamente não; e eles permanecem, com seu sangue, as testemunhas mais eloqüentes da verdade, contra a nova moral” (Discurso de 18 de abril de 1952, AAS, 44 (1952), pp. 417-418).

Por outro lado, como observou um amigo, se a doutrina de Buttiglione sobre a imputabilidade da culpa fosse válida, disso resultaria que também o aborto poderia transformar-se um pecado grave mas não imputável à mulher que aborta, tendo em vista sua situação psicológico-econômica no momento de pôr fim à sua gravidez e os problemas psicológico-econômicos que lhe proporcionariam dar à luz uma criança. O mesmo poderia ser dito da eutanásia e, a fortiori, da sodomia, que seria, sim, um pecado que clama por vingança, mas não imputável ao “sodomita” que não o seja por escolha, mas apenas por “natureza”.

O esforço intelectual de Rocco Buttiglione é, aliás, estéril, porque além das palavras permanecem os fatos. E os fatos são que, baseados em Amoris laetitia, um número crescente de sacerdotes asseguram aos penitentes no confessionário que a misericórdia divina cobre sua situação irregular e os convidam a se aproximarem tranquilamente da eucaristia. Perguntamos, então, ao Prof. Buttiglione: o número de comunhões sacrilegas e confissões inválidas aumentou ou diminuiu depois da Amoris laetitia? A noção de indissolubilidade do casamento se fortaleceu ou diminuiu? A resposta é clara. A nova “estratégia pastoral” destrói o casamento e os sacramentos, dissolve a lei natural e abre o caminho para novos erros e heresias no plano da doutrina e da prática. Nenhum sofisma pode desmenti-lo.

10 novembro, 2017

O “giro luterano” do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 09-11-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comEm 31 de outubro de 2016, o papa Bergoglio inaugurava o ano de Lutero, reunindo-se com representantes do luteranismo mundial na catedral sueca de Lund. A partir de então, reuniões e celebrações “ecumênicas” se sucederam ad abundantiam no interior  da Igreja.

Selo 500 anos de LuteroA um ano exato daquela data, o “giro luterano” foi chancelado por um ato simbólico, de cuja gravidade poucos se deram conta: a emissão, pelos Correios do Vaticano, de um selo comemorativo do nascimento do protestantismo em 31 de outubro de 1517, com a afixação das 95 teses de Lutero na porta da capela do castelo de Wittenberg.

“V Centenário da Reforma Protestante”, lê-se no topo do selo, apresentado em 31 de outubro deste ano pelo Departamento Filatélico do Vaticano. Segundo o comunicado oficial, o selo retrata “em primeiro plano, Jesus crucificado, tendo ao fundo um céu dourado sobre a cidade de Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 foram fixadas pelo frei agostiniano as 95 teses. De joelhos, à esquerda, Martinho Lutero com uma Bíblia, enquanto à direita está seu amigo Felipe Melanchton – um dos maiores divulgadores da Reforma – tendo em mãos a Confissão de Augsburgo, o primeiro documento oficial dos princípios do protestantismo.”

A substituição, ao pé da Cruz, de Nossa Senhora e de São João pelos heresiarcas Lutero e Melanchton é uma afrontosa blasfêmia que nenhum cardeal ou bispo católico até agora criticou abertamente. O significado desta representação é explicado pela declaração conjunta da Federação Luterana Mundial e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, publicada no mesmo dia do lançamento do selo. A nota se refere ao balanço positivo do diálogo entre católicos e luteranos, confirma a “nova compreensão dos eventos do século XVI que provocaram a [sua] separação” e afirma como ambas as partes “d[ão] graças pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma”.

Como se não bastasse, naqueles mesmos dias La Civiltà Cattolica, a voz “oficiosa” do Papa Francisco, celebrou Lutero com um artigo do padre Giancarlo Pani (Martinho Lutero, quinhentos anos depois, in La Civiltà Cattolica de 21 de outubro a 4 de novembro de 2017, pp. 119-130).

O Pe. Pani é o mesmo que em 2014 afirmou que os Padres do Concílio de Trento teriam admitido a possibilidade do divórcio e do novo casamento em caso de adultério, de acordo com o costume em voga na igreja cismática grega. Agora ele sustenta que Martinho Lutero não foi de nenhum modo um herege, mas um verdadeiro “reformador”. De fato, “as teses de Wittenberg não são nem um desafio nem uma rebelião contra a autoridade, mas a proposta de renovação da proclamação evangélica, no desejo sincero de uma ‘reforma’ da Igreja” (p. 128). Apesar da reivindicação “tanto da Igreja de Roma quanto de Lutero, de encarnar em tudo a verdade e de serem os seus dispensadores”, “não se pode negar o papel que Lutero teve como testemunha da fé. Ele é ‘o reformador’: soube iniciar um processo de ‘reforma’ do qual – sejam quais tenham sido então os resultados – a Igreja Católica também se beneficiou” (p. 129).

De ser assim, Lutero teria sido injustamente perseguido e difamado pela Igreja durante 500 anos, e a hora de reabilitá-lo teria chegado. Para isso, não bastaria limitar-se a apresentar o seu rosto profético, mas seria necessário que a Igreja acolhesse e pusesse em prática suas iniciativas reformadoras. E a Exortação pós-sinodal Amoris laetitia representaria uma etapa decisiva nesse caminho. Não se equivocaram,  pois, os autores da Correctio filialis ao Papa Francisco, quando enfatizaram “a afinidade entre as ideias de Lutero sobre a lei, a justificação e o casamento, e aquelas ensinadas ou favorecidas pelo Papa Francisco em Amoris laetitia e outros lugares”.

Vale a esta altura lembrar que o papa Bergoglio pertence, como o Pe. Pani, à Companhia de Jesus, e que o fundador desta, Santo Inácio de Loyola, foi o campeão da fé suscitado pela Divina Providência no século XVI contra o luteranismo. Na Alemanha, apóstolos como São Pedro Canísio e o Beato Pedro Fabro disputaram palmo a palmo o terreno com os hereges, e no plano da controvérsia antiprotestante ninguém superou São Roberto Belarmino.

La Civiltà Cattolica foi fundada em 1850 com o encorajamento de Pio IX e desempenhou durante muito tempo o papel de bastião doutrinário contra os erros da época. Em sua primeira edição, em 6 de abril de 1850, ela dedicou um amplo ensaio (anônimo, mas de autoria do Pe. Matteo Liberatore) intitulado Racionalismo político da Revolução italiana, o qual encontrava no protestantismo a causa de todos os erros modernos. Essas teses foram desenvolvidas, entre outros, por dois conhecidos teólogos jesuítas, os padres Giovanni Perrone (O protestantismo e regra de fé, “La Civiltà Cattolica”, Roma, 1853, 2 vol.) e Hartmann Grisar (Lutero, Herder, Freiburg im Breisgau 1911/1912, 3 vols.).

Mas assume particular significado a comemoração da revolta luterana feita pela revista da Companhia de Jesus em outubro de 1917, no IV centenário da afixação das teses de Wittenberg (Lutero e o luteranismo, in La Civiltà Cattolica, IV (1917), pp. 207 -233; 421-430). O teólogo da Civiltà Cattolica explicava que: “A essência do espírito luterano, ou seja, do luteranismo, é a rebelião em toda a sua extensão e em toda a força da palavra. A rebelião que Lutero personificou foi variada e profunda, complexa e vastíssima; na aparência, ela de fato surgiu e foi violenta, odiosa, trivial, obscena e diabólica; mas, na realidade, foi planejada e dirigida de acordo com as circunstâncias, e visava objetivos conjunturais e de grande interesse, procurados e desejados com ânimo mesurado e tenacíssimo” (pp. 208-209).

Lutero – continua La Civiltà Cattolica“começou aquela indigna paródia com a qual o monge rebelde atribuía a Deus as ideias, as maldições, as infâmias de sua mente pervertida: ele ultrajou de modo inaudito o Papa em nome de Cristo; amaldiçoou a César em nome de Cristo; blasfemou contra a Igreja, contra os bispos, contra os monges com a mesma impetuosidade infernal, em nome de Cristo; jogou sua batina na árvore de Judá em nome de Cristo, e em nome de Cristo juntou-se com uma freira sacrílega” (p.209). “Com o pretexto muito cômodo de seguir a Escritura como a única fonte que contém a palavra de Deus, ele voltou sua guerra contra a teologia escolástica, a tradição, o direito canônico, a todas as instituições e preceitos da Igreja, aos Concílios: a todas essas coisas tão augustas e venerandas, ele, Martinho Lutero, monge pervertido e teólogo recauchutado, se substituiu com a sua autoridade! Os papas, os doutores, os Santos Padres não valiam mais nada: mais do que todos valia a palavra de Martinho Lutero!” (p.  212). A teoria da justificação luterana, finalmente, “nasceu da fantasia de Lutero, não a partir do Evangelho ou de outra palavra de Deus revelada aos autores do Novo Testamento: para nós qualquer novidade de Lutero encontra sua origem e estímulo na concupiscência, e seu desenvolvimento na falsificação da Escritura ou na mentira formal” (p.221).

O Pe. Pani não poderá negar que o julgamento que ele faz de Lutero discrepa em 360 graus daquele que seus confrades fizeram na mesma revista há um século. Em 1917, ele era reprovado como apóstata, rebelde, blasfemo; hoje é exaltado como reformador, profeta, santo. Nenhuma dialética hegeliana pode harmonizar o julgamento de ontem com o de hoje. Ou Lutero foi um herege que negou alguns dogmas básicos do Cristianismo, ou foi “testemunha da fé” que iniciou a Reforma da Igreja concluída pelo Concílio Vaticano II e pelo Papa Francisco. Em uma palavra, todo católico é chamado a escolher entre estar do lado do Papa Francisco e dos jesuítas de hoje, ou dos jesuítas de ontem e dos papas de todos os tempos.

É hora de escolher e a meditação de Santo Inácio sobre as duas bandeiras (Exercícios espirituais, nº 137) realmente nos ajuda nestes tempos difíceis.

3 novembro, 2017

O Cardeal Müller e o Prof. Buttiglione: uma crescente confusão.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 1°-11-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com – O Prof. Rocco Buttiglione vem lutando há meses contra os críticos da Amoris laetitia para tentar justificar o conteúdo da exortação pós-sinodal do Papa Francisco. Ele agora compendiou seus artigos em um livro intitulado Respostas amigáveis ​​aos críticos da Amoris laetitia, publicado pela Editora Ares com um inesperado prefácio do cardeal Gerhard Ludwig Müller.

Andrea Tornielli transcreve no Vatican Insider longos trechos dessa introdução, que acrescenta confusão à confusão já imperante. O ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ao contrário do Prof. Buttiglione, sempre manifestou certa simpatia pelos quatro cardeais dos “dubia”, mas acredita que, para “neutralizar” a Amoris laetitia, convém interpretá-la em continuidade com o ensino da Igreja em vez de criticá-la abertamente. Porém, para tentar resolver a aparente contradição entre a Amoris laetitia e os dogmas definidos pela Igreja sobre os sacramentos do matrimônio, da penitência e da Eucaristia, o cardeal faz sua a tese de fundo de Rocco Buttiglione, que se resume nestas duas linhas: “O que está em questão é uma situação objetiva de pecado que, por causa de circunstâncias atenuantes, não é imputável subjetivamente”.

O problema não seria o da objetividade da lei moral, mas apenas o da “imputabilidade” do pecador, ou seja, da suposta não responsabilidade subjetiva de seus atos. O ponto de partida do raciocínio é uma conhecida verdade moral, segundo a qual a imputabilidade moral de um ato exige que o agente o tenha praticado sabendo o que estava fazendo e agindo livremente, isto é, com plena advertência e deliberado consentimento. O ponto de chegada, que transforma essa verdade em sofisma, é a alegação implícita de que as circunstâncias poderiam anular a responsabilidade de quem se encontre consciente e voluntariamente em uma situação de pecado grave.

Com efeito, de acordo com Buttiglione, não poderíamos considerar “imputáveis” as relações conjugais, nem “culpados” aqueles divorciados recasados que gostariam de mudar sua condição de vida, mas que “não podem fazê-lo” devido a uma situação concreta que “determina” os seus atos, tornando-lhes supostamente impossível a escolha livre e consciente. Se, por exemplo, um casal de divorciados recasados tiver filhos para cuidar, a dissolução de sua coabitação poderia prejudicar o futuro desses filhos. Tampouco se lhes poderia pedir para viver como irmão e irmã, porque isso teria consequências psicológicas e morais desastrosas para o casal e para os próprios filhos. Neste caso, seria então necessário fazer um “discernimento” prudente e exercer a “misericórdia”, a fim de conceder a esses adúlteros o acesso ao sacramento da Eucaristia, mesmo se sua situação irregular desrespeite as exigências da lei moral.

O sofisma decorre do fato de que esse raciocínio nada tem a ver com a doutrina católica sobre a imputabilidade moral dos atos, mas provém da “moral de situação”, reiteradamente condenada por Pio XII e por João Paulo II. “A nota distintiva dessa moral – explica Pio XII – é que ela não se baseia nas leis universais da moral como, por exemplo, os Dez Mandamentos, mas nas condições e circunstâncias reais e concretas em que se deve agir e segundo as quais a consciência individual tem de julgar e escolher. Todo estado de coisas é único e vale uma só vez para cada ação humana. É por isso que a decisão da consciência, afirmam os defensores dessa ética, não pode ser comandada por idéias, princípios e leis universais” (Discurso à Federação Católica Mundial da Juventude da Mulher em 18 de abril de 1952).

A “plena advertência”, segundo a moral católica, não exige uma consciência clara e explícita de que, através de um ato, se ofende a Deus em matéria grave. Se essa consciência está presente no agente, isso acrescenta ao pecado uma malícia adicional. Mas, para pecar mortalmente basta consentir num comportamento em si mesmo oposto à lei divina em matéria grave (Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Pessoa Humana, de 29 de dezembro de 1975, nº 10). Pois cada homem tem o dever de saber o que é necessário para a sua própria salvação. A ignorância relativa a verdades éticas fundamentais não justifica o pecado, mas é em si mesma pecado. De fato, afirma João Paulo II, “não se encontra a verdade se ela não for amada; não se conhece a verdade se não se quiser conhecê-la” (Audiência Geral de 24 de agosto de 1983, nº 2). O Magistério condenou desde tempos imemoriais a afirmação segundo a qual “é privado de culpa tudo o que é feito por ignorância” (Concílio de Sens de 2 de junho de 1140, Errori de Pietro Abelardo, DS 337/730). A inimputabilidade por falta de advertência completa ou parcial limita-se a casos raros, tais como demência, doença mental, hipnose, embriaguez, sono ou torpor. Nesses casos, faltam as condições do ato consciente, porque a pessoa não tem pleno domínio sobre o seu intelecto.

No tocante ao consentimento deliberado, para atribuir caráter moral aos nossos atos basta um consentimento imperfeito. Todos os nossos atos estão sujeitos a condicionamentos externos de diversos tipos (educação, meio ambiente, estruturas sociais) e dependem de fatores genéticos ou de hábitos de vida (virtudes e vícios). Mas qualquer ato que não tenha sido obtido com violência física e envolva algum conhecimento, mesmo parcial, da lei natural, deve ser considerado voluntário e, portanto, imputável. A violência moral (aquela exercida, por exemplo, pelos meios de comunicação de massa ou pela difusão de modelos de conduta imoral) não suprime a voluntariedade do ato, porque o consentimento da vontade não está sendo determinado por nenhuma força estranha à própria vontade. Para haver consentimento pleno, basta que a vontade queira o ato, independentemente dos condicionamentos que recebe. Com efeito, o ato de vontade é interior e o ato interno de querer algo nunca pode ser imposto de fora (Ramón García de Haro, La vita cristiana. Corso di teologia morale fondamentale, Ares, Milano 1995, p. 253).

O verdadeiro discernimento moral, por sua vez, pressupõe também uma regra de avaliação objetiva. Por isso, como observa outro conhecido moralista, no juízo sobre a moralidade de um ato cumpre partir do objeto e não do sujeito (Maussbach, Teologia morale, tradução italiana, Paulinas, Roma 1957, vol. II,  pp. 310- 311). Para que um ato seja bom, é necessário que esteja em conformidade com a regra moral, de acordo com três elementos que constituem uma unidade inseparável: objeto, circunstância, fim. Para que um ato seja considerado imoral basta que um desses três elementos seja mau, de acordo com o princípio bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu (Summa theologiae, I-IIae, q 18, 4, 3). As circunstâncias da vida pessoal ou social podem agravar ou atenuar a moralidade de um mau ato, mas não lhe mudam a maldade intrínseca, a menos que se negue a existência de atos intrinsecamente maus.

A Veritatis splendor reafirma a existência dos “absolutos morais”, enquanto a Amoris laetitia, embora sem negá-los em princípio, desconsidera-os na prática, confiando a avaliação moral dos atos humanos a um falso discernimento que subordina a lei moral à consciência do agente e que considera todo ato e toda situação únicos e irrepetíveis. Mas, “em relação às normas morais que proíbem o mal intrínseco, não há privilégios nem exceções para ninguém” (Veritatis splendor, n° 96). A observância da lei moral pode implicar dificuldade, medo, angústia, conflitos internos. Mas, nesses casos, os verdadeiros cristãos na história da Igreja não contornam a lei moral através do atalho da “inimputabilidade”, mas recorrem à invencível ajuda divina da graça: uma palavra que parece desconhecida dos defensores de Amoris laetitia.

Quando São Tomás Morus foi convidado a aceitar o adultério de Henrique VIII, as pressões que recebeu de sua família, de amigos e do próprio soberano eram de molde a induzi-lo a invocar uma suposta inimputabilidade de sua eventual apostasia. Ele escolheu, no entanto, como os cristãos dos primeiros séculos, o caminho do martírio. Uma via que a encíclica Veritatis splendor traça com estas palavras: “Os mártires e, mais amplamente, todos os santos da Igreja, com o eloquente e fascinante exemplo de uma vida totalmente transfigurada pelo esplendor da verdade moral, iluminam todas as épocas da história, despertando seu senso moral. Dando pleno testemunho do bem, eles são uma viva censura àqueles que transgredem a lei (cf. Sph 12: 12) e fazem ressoar com relevância duradoura as palavras do profeta: ai daqueles que chamam o bem de mal e o mal  de bem, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas (Is 5, 20)” (Veritatis splendor,  n°s 91-93).

26 outubro, 2017

A Correctio filialis e a Laudatio do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 19-10-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comTrês semanas após a Correctio filialis (http://www.correctiofilialis.org), surgiu a primeira resposta organizada: uma Laudatio publicada na web, assinada por um grupo de sacerdotes e intelectuais oriundos principalmente da  área austro-germânica (http: // www.pro-pope-francis.com/).

Quem são os signatários da Laudatio? Um deles, o prelado alemão Fritz Lobinger, bispo emérito de Aliwal (África do Sul), é o “pai” da expressão “presbíteros comunitários”, exposta no livro Teams of Elders. Moving beyond Viri probati (20017) [Equipes de Anciãos. Indo além dos Viri probati], no qual ele preconiza a introdução na Igreja de dois tipos de sacerdotes: os diocesanos e os comunitários, os primeiros celibatários em tempo integral, e os segundos casados, com família, à disposição da comunidade em que vivem e trabalham.

Outro signatário é o Pe. Paul Zulehner, discípulo de Karl Rahner, também conhecido por uma fantasiosa “Futurologia Pastoral” (Pastorale Futurologie, 1990). Em 2011 ele apoiou o “apelo à desobediência” lançado por 329 sacerdotes austríacos a favor do casamento dos sacerdotes, da ordenação sacerdotal de mulheres, do direito dos protestantes e dos divorciados recasados de receber a comunhão, e dos leigos de pregar e dirigir paróquias.

Martin Lintner é um religioso servita de Bolzano, professor em Bressanone e presidente do Insect (International Network of Societies for Catholic Theology). Ele é conhecido por seu livro La riscoperta dell’eros. Chiesa, sessualità e relazioni umane (2015) [A redescoberta do eros. Igreja, sexualidade e relações humanas], no qual se declara favorável à homossexualidade e às relações extraconjugais, bem como à aceitação entusiástica de Amoris laetitia, que marca, segundo ele, “um ponto de não retorno” na Igreja. Com efeito, “não podemos mais afirmar que hoje haja uma exclusão categórica de se aproximar dos sacramentos da Eucaristia e da reconciliação para aqueles que, na nova união, não se abstenham das relações sexuais. Não há nenhuma dúvida sobre isso, a partir do próprio texto da AL” (www.settimananews.it, 5 de dezembro de 2016).

Fica claro a esta altura que a profunda divisão que percorre a Igreja não é entre opositores e fãs do Papa Francisco. A linha de fratura ocorre entre quem é fiel ao Magistério imutável dos Papas e quem apoia o Papa Bergoglio por almejar  o “sonho” de uma igreja nova diferente daquela fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não é preciso ser historiador para entender que estamos vivendo uma página absolutamente incomum na vida da Igreja. Não estamos no fim do mundo, mas à  nossa época se podem aplicar as palavras que com tristeza disse Nosso Senhor sobre o Seu retorno no fim dos tempos: “Quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a Terra?” (Lc 18, 8).

A perda de fé, até mesmo pelos homens da Igreja, é hoje uma evidência. Em 27 de janeiro de 2012, dirigindo-se à Assembleia Plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, Bento XVI afirmou: “Estamos diante de uma profunda crise de fé, de uma perda do sentido religioso que constitui o maior desafio para a Igreja de hoje. Por conseguinte, a renovação da fé deve ser a prioridade no compromisso de toda a Igreja nos nossos dias.”  Essa perda da fé tem hoje as características de uma apostasia geral.

O cardeal Robert Sarah, intervindo num encontro das Conferências Episcopais da Europa, realizada em Trieste em 4 de novembro de 2013, afirmou que “mesmo entre os batizados e os discípulos de Cristo, existe hoje uma espécie de ‘apostasia silenciosa’, uma rejeição de Deus e da fé cristã na política, na economia, na dimensão ética e moral e na cultura pós-moderna ocidental”. O cardeal Raymond Leo Burke, por sua vez, em uma homilia pronunciada em 13 outubro de 2017 na Abadia de Buckfast, lembrou que a Mensagem de Fátima “trata das forças diabólicas desencadeadas sobre o mundo em nosso tempo, entrando na própria vida da Igreja, conduzindo as almas para longe das verdades da fé e, portanto, do amor divino que flui do glorioso Coração transpassado de Jesus”.

As almas se perdem porque a linguagem é ambígua e enganosa, e erros e heresias são espalhados todos os dias no povo fiel. O pontificado do Papa Francisco representa o êxito e a culminação de um processo de autodestruição da Igreja cujas origens são remotas, mas que  atingiu hoje uma velocidade vertiginosa.

Nas trevas em que as almas estão imersas, a Correctio filialis de 24 de outubro de 2017 foi como um raio de luz que rasgou a escuridão. A denúncia das heresias apoiadas e propagadas pelo Papa Francisco ressoou de um canto ao outro da Terra, invadindo a mídia e constituindo o tema dominante das conversas particulares de numerosos católicos. Nessas conversas, poucos negam a veracidade dos fatos denunciados pela Correctio. As divergências são mais sobre “o que fazer” diante de uma situação que não tem precedentes na História.

Não falta quem pratique a dupla  linguagem: critica em privado  e homenageia em público os que conduzem a Igreja ao desastre. Essa atitude foi chamada de “nicodemita” por Calvino, para indicar aqueles protestantes que dissimulavam sua doutrina homenageando publicamente a fé e os ritos católicos. Mas a própria Igreja Católica sempre condenou a dissimulação, prescrevendo a confissão pública da fé e o martírio como modelo de vida.

Confessar a fé significa denunciar os erros que se lhe opõem, ainda que os mesmos sejam propostos por bispos e inclusive por um Papa, como aconteceu com Honório I (625-638). Não importa muito saber se Honório foi herege ou favens haeresim [favorecedor de heresia]. O fato de ele ter sido condenado solenemente pelo VI Concílio de Constantinopla (681), presidido pelo papa Leão II, e de sua condenação ter sido confirmada por dois Concílios ecumênicos subsequentes, mostra que a hipótese teológica de um Papa herege, admitida por todos os canonistas medievais, é possível, independentemente do fato de ter-se verificado historicamente.

Mas quem tem autoridade para resistir a um Papa e corrigi-lo? Em primeiro lugar, tal dever incumbe aos cardeais, que são os conselheiros do Papa no governo da Igreja; depois aos Bispos, que constituem, em união com o Papa, a Igreja docente; por fim, aos sacerdotes, religiosos e freiras, e até mesmo aos simples fiéis leigos, que, como batizados, têm aquele aprimoradíssimo sensus fidei que lhes permite discernir a fé verdadeira da heresia.

Eusébio, antes de se tornar bispo de Dorilea, era advogado em Constantinopla quando, em 429, interrompeu em público uma homilia do sacerdote Nestório, que colocava em dúvida a Maternidade divina de Maria. Eusébio teria feito o mesmo se naquele dia, em lugar do Patriarca, estivesse falando o próprio Papa. Seu espírito católico não podia tolerar que a Santíssima Virgem fosse insultada diante do povo fiel.

Hoje a Igreja não precisa de nicodemitas, mas de confessores da fé da  têmpera de Eusébio ou de Máximo o Confessor, um simples monge que não hesitou em desafiar o Patriarca de Constantinopla e os imperadores bizantinos. Para aqueles que queriam obrigá-lo a comungar junto com os hereges monotelitas, ele respondeu: “Ainda que todo o universo comungue com eles, eu não comungarei”. Aos oitenta anos, após sofrer três processos por causa de sua lealdade, Máximo foi condenado à mutilação da língua e da mão direita, os dois órgãos mediante os quais, por palavras e escritos, ele havia combatido erros e heresias.

Ele teria podido repetir as palavras de São Paulo: Ninguém me assistiu na minha primeira defesa, antes todos me desampararam. Não se os impute por isso. Mas o Senhor me assistiu e fortaleceu-me, para que fosse por mim cumprida a pregação e todos os gentios a ouvissem; e fiquei livre da boca do leão” (2 Timóteo 4: 16-17).

O fato de serem poucos, incompreendidos e perseguidos aqueles que dão testemunho da fé católica é permitido pela Divina Providência para aumentar o mérito deles e fazer com que sua conduta não seja apenas legítima e necessária, mas santa e heroica. O que é o exercício heroico das virtudes senão cumprir o próprio dever em circunstâncias excepcionais, apoiado não nas próprias forças, mas na ajuda de Deus?

 

5 outubro, 2017

“Correctio filialis”: um primeiro balanço.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 4 de outubro de 2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Em 25 de setembro, dia seguinte à publicação da Correctio filialis ao Papa Francisco, o porta-voz da Sala de Imprensa do Vaticano, Greg Burke, desmentiu ironicamente a notícia difundida pela agência Ansa, segundo a qual o acesso ao site da Correctio teria sido bloqueado pela Santa Sé: “Imaginem se íamos fazer isso por uma carta com 60 nomes.”

O diretor da Sala de Imprensa, que julga as iniciativas com base no número de seguidores, pode estar interessado em saber que, oito dias após sua publicação online, http://www.correctiofilialis.org teve mais de 180.000 visitantes únicos e 330.000 páginas visitadas. As visitas são provenientes de 200 países diferentes dos cinco continentes. A Itália e os EUA estão à frente no número de acessos.

Além disso, a carta de correção dirigida ao Papa Francisco por 62 estudiosos foi subscrita até 21 de outubro por 216 teólogos, pastores, professores e estudiosos de todas as nacionalidades, cujas assinaturas são visíveis no site. Juntam-se a isso dezenas de milhares de aderentes que afixaram suas assinaturas no site oficial, ou em outros sites católicos que apoiam ativamente a iniciativa, como onepeterfive.com, lifesitenews.com, katholisches.info.

Guido Mocellin, no jornal Avvenire [propriedade da Conferência Episcopal Italiana] de 27 de setembro, teve de admitir que na “blogosfera eclesial”, graças a um “site moderno em seis idiomas”, as “publicações sobre a ‘correção filial’ dirigida ao Papa Francisco ‘por causa da propagação de heresias’ têm estado mais presentes nos últimos dias: constituíram 30% de tudo o que pude consultar entre sábado 24 e segunda-feira, 26 de setembro”.

Caso se queira permanecer no terreno das cifras, o número de cardeais, bispos e teólogos que se levantaram contra a Correctio e em defesa de Amoris laetitia é irrelevante. Mesmo o cardeal mais próximo do Papa Francisco, o secretário de Estado Pietro Parolin, assumiu uma atitude quase equidistante, declarando que “as pessoas que não estão de acordo expressam a sua dissensão, mas essas coisas devem ser fundamentadas, procurando compreender-se mutuamente”.

O que falta em peso, além do escasso número de opositores, é a substância dos argumentos com os quais se tentou replicar a Correctio. O maior esforço, com acrobacias de sofista, se deve ao deputado-filósofo Rocco Buttiglione, no Vaticaninsider no dia 3 de outubro. A passagem central de Amoris laetitia criticada pelos signatários da Correctio, segundo Buttiglione, é “uma coisa absolutamente tradicional que todos estudamos quando criança no catecismo da Igreja Católica, não só naquele novo de S. João Paulo II, mas também no antigo de São Pio X”. É verdade – admite Buttiglione – que existe “uma impossibilidade absoluta de dar a comunhão para aqueles que estão em pecado mortal (e esta regra é de direito divino e, portanto, irrevogável), mas se, devido à falta de plena advertência e consenso deliberado, não há pecado mortal, a comunhão pode ser dada, do ponto de vista da teologia moral, mesmo a um divorciado recasado”. 

Para Buttiglione, como para o teólogo de confiança do papa Bergoglio, Mons. Víctor Manuel Fernández, o problema subjacente seria o da “imputabilidade” dos atos. Uma imputabilidade que faltaria à grande maioria dos conviventes more uxorio, porque as situações concretas em que vivem atenuam a sua responsabilidade e, sobretudo, tornam-lhes praticamente impossível observar a lei do Senhor. Com o que se contradiz tranquilamente o Concílio de Trento, que fulmina com um anátema quem diz que “ao homem justificado e constituído em graça é impossível observar os preceitos de Deus” (Denz-H, 1568). “Porque Deus não manda coisas impossíveis, mas quando manda, adverte que faças o que possas e peças o que não possas, e ajuda a poder” (Denz-H, 1356).

Por outro lado, os bispos que aplicam o ensinamento do Papa Francisco não se inspiram nem no catecismo de São Pio X nem no novo de João Paulo II. Em suas dioceses, os divorciados recasados, perfeitamente conscientes de sua situação, exigem a comunhão, que lhes é concedida, segundo a Amoris laetitia, como um direito legítimo.

Para justificar essa prática imoral, chega-se a falsificar o pensamento de São Tomás de Aquino. Mas um valente moralista italiano que assinou a Correctio, padre Alfredo Morselli, mostrou no site Messainlatino em 3 de outubro, a impossibilidade de harmonizar a Exortação do Papa Francisco com a doutrina de São Tomás. O padre Morselli lembra alguns trechos inequívocos do Doutor Angélico que afirmam o contrário do § 301 da Amoris laetitia: “A boa intenção não é suficiente para determinar a bondade de um ato: pois um ato pode ser mau em si mesmo e de modo algum pode tornar-se bom” (Super Sent., lib. 2 d. 40 q. 1 a. 2 co.). “Há algumas [ações humanas] que têm uma deformidade inseparavelmente conexa, como a fornicação, o adultério e outras coisas desse gênero, que não podem ser realizadas de uma maneira moralmente boa” (Quodlibet IX, q. 2 co.).

Em coerência com o tomismo autêntico, Mons. Fernando Ocáriz, hoje Prelado do Opus Dei, por ocasião de um simpósio promovido para celebrar os 20 anos da Humanae Vitae, recordava que “a existência de normas particulares de moral natural, de valor universal e incondicional, pertence à doutrina católica e, portanto, é uma verdade de fé” (Humanae Vitae 20 anos depois, Edições Ares, Milão 1989, p. 129). Entre estas, a proibição da contracepção e do adultério.

Mudou ou mudará o ensino das Universidades da Santa Cruz (Roma) e de Navarra, promotoras desse simpósio juntamente com o Instituto João Paulo II? A pergunta é pertinente, após a entrevista de dia 30 de setembro para a Infovaticana.com, na qual o atual vigário do Opus Dei, Pe. Mariano Fazio, censura outros membros da prelatura que assinaram a Correctio, acusando-os de “escandalizar a Igreja inteira”. A entrevista é curiosa: nem os bispos argentinos nem os malteses, que autorizam o adultério em suas dioceses, são culpados de escandalizar a Igreja, mas sim os que protestam contra esses escândalos. O Papa, segundo o Pe. Fazio, pode ser criticado, mas em círculos privados, nunca publicamente. Na avalanche de comentários contrários, que submergiram o blog de Infovaticana.com, há um que é lapidar: “E São Paulo?”. Não foi o próprio São Paulo quem corrigiu publicamente São Pedro (Gálatas 2: 7-14)? A franqueza apostólica de São Paulo e a humildade de Pedro, Príncipe dos Apóstolos, permaneceram desde então como o modelo da justa relação entre a autoridade e aqueles que filialmente, mas não sem discernimento, lhe obedecem. A fé nunca pode contradizer a razão. Mas recusar-se a pensar é confortável, sobretudo quando o exercício da razão obriga a assumir responsabilidades desagradáveis.

Não se recusa a pensar um dos signatários mais proeminentes da Correctio, o teólogo e filósofo da ciência padre Alberto Strumia, que em uma entrevista de 30 de setembro ao Il Giornale explicou: “A ‘doutrina da Igreja’ não foi inventada por teólogos nem mesmo por Papas, mas é baseada nas Escrituras e enraizada na tradição da Igreja. O Papa está a serviço, como guardião e garante dessa continuidade, e não pode quebrá-la, sequer veladamente, deixando a entender, com uma redação ambígua, que hoje se pode crer e fazer o contrário daquilo que foi ensinado até agora pelo Magistério sobre questões essenciais, como a doutrina dos sacramentos ou da moral familiar, com a alegação de que os tempos mudaram e o mundo exige uma adequação das mesmas. Por isso é um dever de caridade, que tem como escopo a ‘salvação das almas’, como se costumava dizer, assim como a defesa da dignidade do trono de Pedro e daquele que o ocupa, colocar em relevo com o maior respeito esta ambigüidade. […] Ousar dirigir uma correção doutrinal ao Papa pode e deve ser feito somente quando a verdade da fé está em perigo e, portanto, a salvação do povo de Deus”. 

Numa época de obscurecimento das consciências, a Correctio filialis exprime o sensus fidei de dezenas de milhares de católicos que recordam filialmente ao Pastor Supremo que a salvação das almas é o maior bem e que por nenhuma razão do mundo se pode praticar o mal ou transigir com ele.

15 setembro, 2017

O caso Seifert: quem está se separando da Igreja?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 06-09-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: A notícia foi divulgada por Maike Hickson. Em 31 de agosto, Dom Javier Martínez Fernández, Arcebispo de Granada, após ter suspendido do magistério o filósofo austríaco Josef Seifert, demitiu-o da Academia Internacional de Filosofia, da qual é um dos fundadores, mas que hoje depende da Arquidiocese. Deve-se lembrar que o Prof. Josef Seifert é considerado um dos maiores filósofos católicos contemporâneos. Seu currículo e sua bibliografia ocupam numerosas páginas. Mas, acima de tudo, ele é conhecido por sua fidelidade ao Magistério pontifício, o que lhe valeu a nomeação como membro da Pontifícia Academia para a Vida. Qualquer universidade católica ficaria honrada em tê-lo entre seus professores. Qual é o motivo da medida drástica contra ele? De acordo com uma declaração da Arquidiocese, o motivo de sua recente demissão é um artigo no qual o Prof. Seifert fez uma súplica a propósito da Exortação pós-sinodal Amoris laetitia do Papa Francisco.

No artigo incriminado, o Prof. Seifert pediu ao Papa Francisco para retificar uma afirmação da Amoris laetitia da qual, com base em uma lógica rígida, pode resultar a dissolução de todo o ensino moral católico.

Seifert cita a sentença de Amoris laetitia segundo a qual a consciência de casais adúlteros ou, dito de outra forma, “irregulares”, “pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objetivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus e descobrir com certa segurança moral que esta é a doação que o próprio Deus está pedindo no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo” (AL, 303).

Em outras palavras, comenta o Prof. Seifert, além de definir o estado objetivo de pecado grave como “não ainda plenamente o ideal objetivo”, Amoris laetitia afirma que podemos conhecer “com certa segurança moral” que o próprio Deus nos pede cometer atos intrinsecamente negativos, como o adultério ou a homossexualidade ativa.

O filósofo austríaco coloca a esta altura sua questão: “Partindo desse pressuposto, eu pergunto, a pura lógica não pode deixar de perguntar: Se um ato intrinsecamente imoral pode ser permitido num caso, e até desejado por Deus, como não deve ser aplicado a todos os atos considerados ‘intrinsecamente maus’? Caso seja verdade que Deus pode desejar que um casal adúltero viva em adultério, não deverá então ser reformulado também o mandamento ‘Não desejar a mulher do próximo’? (…) Não deverão, portanto, cair também os outros nove mandamentos, a Humanae Vitae, a Evangelium Vitae e todos os documentos passados, presentes ou futuros da Igreja, os dogmas ou os concílios, que ensinam a existência de atos intrinsecamente maus? (…) Não deveriam, então, por pura lógica, ser bons e louváveis ​​por causa da complexidade de uma situação concreta, a eutanásia, o suicídio ou assistência ao suicídio, a mentira, o roubo, o perjúrio, a negação ou traição a Cristo, como a de São Pedro, ou o homicídio, em algumas circunstâncias e depois de um ‘discernimento’ adequado?”. 

Eis a súplica ao Papa Francisco: “Quero suplicar ao nosso supremo Pai espiritual na Terra, o ‘doce Cristo na terra’, como Santa Catarina de Siena chamou um dos Papas sob cujo reino tinha vivido, enquanto o criticava ferozmente (…), para retificar essa afirmação. Se as suas consequências lógicas levam com férrea rigidez a nada menos que a destruição total dos ensinamentos morais da Igreja Católica, não deveria o ‘doce Cristo na Terra’ retificar a afirmação por conta própria? Não deveria ser revogada a mencionada tese, posto que ela conduz como consequência lógica à rejeição do fato de haverem atos que devem ser considerados intrinsecamente maus moralmente em qualquer circunstância e em todas as situações, e posto que se essa última afirmação chegasse a ser negada, isso destruirá, além da Familiaris Consortio e da Veritatis Splendor, também a Humanae Vitae e muitos outros ensinamentos solenes da Igreja? (…) E não deveriam todos os cardeais e bispos, todos os sacerdotes, monges ou Virgens consagradas e todos os leigos da Igreja, demonstrar o mais vivo interesse por esse assunto e subscrever este apaixonado apelo de um humilde leigo, um simples professor de filosofia e (entre outras matérias) também de Lógica?”.

Não houve qualquer resposta à pergunta levantada pelo Prof. Seifert. A declaração da Arquidiocese de Granada se limita a afirmar que a posição do filósofo “prejudica a comunhão da Igreja, confunde a fé dos fiéis e suscita desconfiança no sucessor de Pedro, o que, no final, não serve à verdade da fé, mas aos interesses do mundo”. A Arquidiocese de Granada acrescenta “ter feito seu, desde o primeiro momento, a aplicação do texto pontifício preparado pelos bispos da Região de Buenos Aires”, ou seja, de seguir as diretrizes dos prelados argentinos que em seu documento, aprovado pelo Papa Francisco, permitem o acesso dos adúlteros à comunhão.

A atitude do Arcebispo de Granada resume-se naquela proibição de fazer perguntas que, de acordo com o filósofo Eric Voegelin, é a característica dos regimes totalitários. Com o mesmo critério foram eliminados da Pontifícia Academia para a Vida todos os católicos fiéis à ortodoxia da Igreja, a começar pelo próprio Prof. Seifert, os professores mais ortodoxos são expulsos das escolas e das universidades católicas, os sacerdotes fiéis à Tradição são transferidos de suas paróquias e, em alguns casos, suspensos a divinis. O que acontecerá com os cardeais se e quando chegar a sua correctio fraterna?

Essa lógica repressiva é a que abre o cisma na Igreja. O único argumento que os fanáticos da Amoris laetitia são capazes de levantar contra os que a criticam é aquele, fraquíssimo, da “ruptura da comunhão”. Mas os que levantam objeções à Exortação pontifícia apelam para a doutrina imutável da Igreja, da qual não têm nenhuma intenção de distanciar-se. Se eles são sancionados oficialmente por causa de  sua fidelidade ao Magistério, aqueles que os sancionam são os que fazem um ato de auto-separação desse mesmo Magistério.

Os artigos do Prof. Josef Seifert são movidos pelo amor à Igreja e, sobretudo, à Verdade. O arcebispo que o pune se separa da lei natural e divina que proíbe o adultério, o assassinato e outros pecados graves, sem exceção ou compromisso. Acusando-o de romper a unidade com o Papa, o prelado reconhece a existência de um magistério do Papa Francisco incompatível com o Magistério da Igreja de sempre.

Dom Martínez Fernández puniu o Prof. Seifert porque este pediu humilde e respeitosamente ao Papa para retificar uma afirmação que conduz ao adultério e à dissolução da moral. Portanto, na Arquidiocese de Granada, como em Malta, na Argentina e em muitos outros lugares da Cristandade, para estar em comunhão com o Papa Francisco é necessário admitir, pelo menos em certas ocasiões, a liceidade do adultério e de outras transgressões da lei moral.

O Papa Francisco é o sucessor de Pedro, mas nosso Senhor não diz: ‘Aquele que me ama deve seguir cegamente o sucessor de Pedro’. Ele diz: “Aquele que me ama, aceita o meus mandamentos e os observa” (Jn 14: 15-21). Se o Pastor Supremo se desviar dos mandamentos divinos e convidar o rebanho a segui-lo, os fiéis devem afastar-se dele, pois “importa antes obedecer a Deus que aos homens” (Atos 5:29). Se para estar em comunhão com o Papa Francisco se é forçado a abraçar o erro, quem quiser permanecer na verdade de Cristo é obrigado a separar-se do Papa Francisco. É o que afirma publicamente Dom Martínez Fernández, Arcebispo de Granada.

 

15 agosto, 2017

Francisco impõe a concelebração nos colégios sacerdotais de Roma.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 28-06-2017 | Tradução: Hélio dias Viana – FratresInUnum.com: Corre no Vaticano este rumor. A um colaborador que lhe perguntou se era verdade que existe uma comissão para “reinterpretar” a Humanae vitae, o  Papa Francisco teria respondido: “Não é uma comissão, é um grupo de trabalho”. Não se trata apenas de artifícios linguísticos  para ocultar a verdade, mas de jogos de palavras que revelam como o culto da contradição constitui a essência deste pontificado. Mons. Gilfredo Marengo, coordenador do “grupo de trabalho”, resume  bem essa filosofia, quando afirma ser necessário fugir do “jogo polêmico ‘pílula sim – pílula não’, como também daquele atual ‘comunhão aos divorciados  sim – comunhão aos divorciados não’” (Vatican Insider, 23 de março de 2017).

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Esta premissa nos é necessária para apresentar um novo documento confidencial, resultado igualmente de outro “grupo de trabalho”. É o “working paper” [documento de trabalho] da Congregação do Clero “Sobre a concelebração nos colégios sacerdotais de Roma”, que circula de maneira reservada nos colégios e seminários romanos. O que emerge com clareza desse texto é que o Papa Francisco deseja impor de fato, embora ainda não de princípio, a concelebração eucarística nos colégios e nos seminários romanos, afirmando que “a celebração comunitária deve ser sempre preferida à individual”. 

O motivo dessa decisão emerge do documento. Roma não é somente a sede da Cátedra de Pedro e o coração da Cristandade, mas também o lugar para onde convergem sacerdotes e seminaristas de todo o mundo a fim de adquirir aquela veneração pela fé, pelos ritos e tradições da Igreja, chamado outrora de “espírito romano”. A permanência em Roma, que ajudava a desenvolver o amor à Tradição da Igreja, oferece hoje a oportunidade de uma “reeducação” doutrinária e litúrgica para aqueles que querem “reformar” a Igreja segundo as diretivas do papa Bergoglio. A vida nos colégios romanos – afirma com efeito  o  “working paper” –  oferece ocasião “para se viver ao mesmo tempo um período intenso  de formação permanente  integral”.

O documento recorda explicitamente um recente discurso dirigido aos sacerdotes que estudam em Roma, no qual o Papa Francisco lembrou a importância eclesial da concelebração no contexto da comunidade dos  sacerdotes estudantes: “Trata-se de um desafio permanente para superar o individualismo e viver a diversidade como uma dádiva, procurando a unidade do presbitério, que é sinal da presença de Deus na vida da comunidade. O presbitério que não mantiver a unidade, na realidade expulsa Deus do próprio testemunho. Não dá testemunho da presença de Deus. Rejeita-o. Deste modo, congregados em nome do Senhor, de maneira particular quando celebrais a Eucaristia, manifestais inclusive sacramentalmente que Ele é o amor do vosso coração” (Discurso de 1° de abril de 2017).

À luz dessa doutrina, o “working paper” da Congregação para o Clero reitera que a Missa concelebrada é preferível à celebração individual” (grifado no original, como também nas citações seguintes).

“Portanto, os Superiores são vivamente instados a encorajar a Concelebração, até mesmo várias vezes ao dia, na grande comunidade presbiteral. Em consequência, podem-se esperar várias celebrações nos Colégios, para que os presbíteros neles residentes possam participar de acordo com as próprias necessidades, cuidando de estabelecer dois ou três momentos ao longo do dia.” 

“Com efeito, os relacionamentos cotidianos, compartilhados diariamente e durante anos no mesmo Colégio Romano, são uma experiência importante na trajetória vocacional de cada sacerdote. Dessa maneira, na verdade se estabelecem vínculos de fraternidade e de comunhão entre os sacerdotes de diferentes dioceses e nações, que encontram uma expressão sacramental na celebração eucarística.”

“O distanciar-se das próprias diocese de incardinação e da missão pastoral por um tempo bastante longo garante certamente não só a formação intelectual, mas sobretudo oferece a ocasião de viver ao mesmo tempo um intenso período de formação integral permanente. Nesta perspectiva, a vida comum dos Colégios sacerdotais oferece esta modalidade de fraternidade sacerdotal, provavelmente nova em comparação com o passado. A experiência do Colégio representa uma oportunidade para uma frutuosa celebração da Eucaristia pelos sacerdotes. Portanto, a prática da Concelebração eucarística diária nos Colégios pode tornar-se uma oportunidade para o aprofundamento da vida espiritual dos sacerdotes, com importantes frutos, como: a expressão da comunhão entre os sacerdotes das várias Igrejas particulares, que se manifesta particularmente quando os Bispos das várias dioceses presidem a concelebração na ocasião das visitas a Roma; a oportunidade de ouvir a homilia feita por outro irmão; a celebração acurada, e mesmo solene, da Eucaristia cotidiana, o aprofundamento da devoção eucarística que cada sacerdote deve cultivar, além da própria celebração.”

 Entre as normas práticas indicadas,  lê-se:

“É recomendável que os sacerdotes possam participar ordinariamente da Concelebração eucarística nos horários previstos no Colégio, preferindo sempre a celebração comunitária à individual. Nesse sentido, os Colégios com um considerável número de sacerdotes hóspedes poderão estabelecer a Concelebração Eucarística em 2 ou 3 horários diversos no dia, de modo a permitir a cada um de participar de acordo com as  próprias necessidades pessoais, acadêmicas ou pastorais.” 

“Se os sacerdotes residentes no Colégio não puderem por razões particulares  participar da  Concelebração nos horários previstos,  devem preferir sempre celebrar juntos em outro horário mais conveniente.” 

É flagrante, e repetida em duas passagens do texto, a violação do cânon 902, segundo o qual “os sacerdotes podem concelebrar a Eucaristia; permanece íntegra, porém, a liberdade de cada um celebrar a Eucaristia individualmente”.  Em consequência, os colégios que aplicarem ao pé da letra o “working paper” infringirão a lei universal vigente.

Em 5 de março de 2012, por ocasião da apresentação do livro de Mons. Guillaume Derville, A concelebração eucarística. Do símbolo à realidade (Wilson & Lafleur, Montreal 2012), o cardeal Antonio Cañizares, então prefeito da Congregação para o Culto Divino, salientou a necessidade de “moderar” a concelebração, fazendo suas as palavras de Bento XVI: recomendo aos sacerdotes ‘a celebração diária da Santa Missa, mesmo quando não houver participação de fiéis’. Tal recomendação é ditada, antes de mais, pelo valor objetivamente infinito de cada celebração eucarística; e é motivada ainda pela sua singular eficácia espiritual, porque, se vivida com atenção e fé, a Santa Missa é formadora no sentido mais profundo do termo, enquanto promove a configuração a Cristo e reforça o sacerdote na sua vocação” (Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, n. 80).

A doutrina católica vê de fato na Santa Missa a renovação incruenta do Sacrifício da Cruz. A multiplicação das Missas dá mais glória a Deus e é um bem imenso para as almas. “Se cada Missa tem em si mesma um valor infinito – escreve Pe. Joseph de Sainte Marie –, as disposições dos homens para receber seus frutos são sempre imperfeitas e, nesse sentido, limitadas. Daí a importância do número de celebrações da Missa para multiplicar os frutos da salvação. Apoiada por este raciocínio teológico elementar, mas suficiente, a fecundidade salvífica da multiplicação das Missas também é comprovada pela prática litúrgica da Igreja e pela atitude do magistério. Dessa fecundidade, a Igreja – a história o ensina – tomou progressivamente consciência ao longo dos séculos, promovendo a prática e depois encorajando oficialmente cada vez mais a multiplicação das Missas” (L’Eucharistie, salut du monde, Dominique Martin Morin, Paris 1982 pp. 457-458).

Para os neo-modernistas, a Missa se reduz a uma assembleia, tanto mais significativa quanto maior for o número dos padres e dos fiéis que dela participam. A concelebração é entendida como um instrumento para fazer o sacerdote perder lentamente a consciência de seu caráter sacerdotal e de sua missão, que é unicamente a celebração do sacrifício eucarístico e a salvação das almas. Mas a diminuição das Missas e a perda do conceito verdadeiro do que é uma Missa constituem uma das principais causas da crise religiosa do nosso tempo. Agora, até mesmo a Congregação para o Clero, a mando do papa Bergoglio, faz sua contribuição para esse desmantelamento da fé católica.

11 agosto, 2017

O Concílio Vaticano II e a Mensagem de Fátima.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 2-8-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comRorate Coeli, Corrispondenza Romana e outras publicações católicas reproduziram uma valiosa intervenção de Dom Athanasius Schneider sobre a “interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a atual crise da Igreja”. De acordo com o Bispo Auxiliar de Astana, o Vaticano II foi um Concílio pastoral e seus textos devem ser lidos e julgados à luz do ensinamento perene da Igreja.

De fato, “do ponto de vista objetivo, os pronunciamentos do Magistério (Papas e concílios) de carácter definitivo têm mais valor e mais peso frente aos pronunciamentos de carácter pastoral, os quais são, por natureza, mutáveis e temporários, dependentes de circunstâncias históricas ou respondendo às situações pastorais de um determinado tempo, como é o caso com a maior parte dos pronunciamentos do Vaticano II”.

Ao artigo de Dom Schneider seguiu-se, em 31 de julho, um equilibrado comentário do padre Angelo Citati, FSSPX,  segundo o qual a posição do bispo alemão se assemelha àquela reafirmada constantemente por Dom Marcel Lefebvre: “Dizer que avaliamos os documentos do Concílio ‘à luz da Tradição’ significa, evidentemente, três coisas inseparáveis: que aceitamos aqueles que estão de acordo com a Tradição; que interpretamos segundo a Tradição aqueles que são ambíguos; que rejeitamos aqueles que são contrários à tradição” (Mons. M. Lefebvre, Vi trasmetto quello che ho ricevuto. Tradizione perenne e futuro della Chiesa, editado por Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, Sugarco Edizioni, Milão 2010, p. 91).

Tendo sido publicado no site oficial do Distrito italiano, o artigo do padre Citati também nos ajuda a compreender qual poderia ser a base para um acordo visando regularizar a situação canônica da Fraternidade São Pio X. Devemos acrescentar que, no plano teológico, todas as distinções podem e devem ser feitas para interpretar os textos do Concílio Vaticano II, que foi um Concílio legítimo: o vigésimo primeiro da Igreja Católica. Dependendo do respectivo teor, esses textos poderão então ser classificados como pastorais ou dogmáticos, provisórios ou definitivos, conformes ou contrários à Tradição.

Em suas obras mais recentes, Mons. Brunero Gherardini nos dá um exemplo de como um juízo teológico, para ser preciso, deve ser articulado (Il Concilio Vaticano II un discorso da fare, Casa Mariana, Frigento 2009 e Id., Un Concilio mancato, Lindau, Turim 2011). Para o teólogo, cada texto tem uma qualidade diferente e um grau diverso de autoridade e cogência. Portanto, o debate está aberto.

Do ponto de vista histórico, contudo, o Vaticano II é um bloco inseparável: tem sua unidade, sua essência, sua natureza. Considerado em suas raízes, no seu desenvolvimento e em suas consequências, ele pode ser definido como uma Revolução na mentalidade e na linguagem que mudou profundamente a vida da Igreja, iniciando uma crise religiosa e moral sem precedentes.

Se o juízo teológico pode ser matizado e indulgente, o juízo histórico é implacável e inapelável. O Concílio Vaticano II não foi apenas um Concílio malogrado ou falido: foi uma catástrofe para a Igreja.

Uma vez que este ano marca o centenário das aparições de Fátima, convém debruçar sobre a seguinte questão: quando, em outubro de 1962, inaugurou-se o Concílio Vaticano II, os católicos de todo o mundo esperavam a revelação do Terceiro Segredo e a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. O Exército Azul de John Haffert (1915-2001) liderou durante anos uma maciça campanha nesse sentido.

Haveria melhor ocasião para João XXIII (falecido em 3 de Junho de 1963), Paulo VI e os cerca de 3000 bispos reunidos em torno deles, no coração da Cristandade, corresponderem em uníssono e solenemente aos desejos de Nossa Senhora? Em 3 de fevereiro de 1964, Dom Geraldo de Proença Sigaud entregou pessoalmente a Paulo VI uma petição assinada por 510 bispos de 78 países, na qual se implorava que o Pontífice, em união com todos os bispos, consagrasse o mundo, e de maneira explícita a Rússia, ao Imaculado Coração de Maria. O Papa e a maioria dos Padres Conciliares ignoraram o apelo. Se a consagração pedida tivesse sido feita, uma chuva de graças teria caído sobre a humanidade. E um movimento de volta à lei natural e cristã teria iniciado.

O comunismo teria caído com muitos anos de antecedência, de maneira não fictícia, mas autêntica e real. A Rússia se teria convertido e o mundo teria conhecido uma era de paz e de ordem, como Nossa Senhora prometera. A consagração omitida concorreu para que a Rússia continuasse a espalhar seus erros pelo mundo, e para que esses erros conquistassem as cúpulas da Igreja Católica, atraindo um castigo terrível para toda a humanidade. Paulo VI e a maioria dos Padres Conciliares assumiram uma responsabilidade histórica, cujas consequências bem podemos hoje medir.

3 agosto, 2017

O novo Panteón dos mártires do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 19-7-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Entre os diversos “grupos de trabalho” constituídos pelo Papa Francisco está a Comissão Mista de Especialistas croatas católicos e sérvios ortodoxos para uma releitura em comum da figura do Cardeal Alojzije Stepinac, Arcebispo de Zagreb, que em 12 e 13 de Julho 2017 realizou sua última reunião na Casa de Santa Marta, no Vaticano, sob a direção do padre Bernard Ardura, presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas. O comunicado conjunto da Comissão, publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé em 13 de julho, afirma que “o estudo da vida do Cardeal Stepinac ensinou que na história todas as Igrejas sofreram cruelmente diversas perseguições e têm seus mártires e confessores da fé. A este respeito, os membros da Comissão chegaram a um acordo sobre a possibilidade de futura colaboração, com vista a um trabalho comum para partilhar a memória dos mártires e confessores das duas Igrejas”.

Essa afirmação, que sintetiza as seis reuniões de trabalho realizadas pela Comissão, inverte o conceito católico de martírio. Com efeito, o martírio, segundo a Igreja Católica, é a morte enfrentada para testemunhar a Verdade. Não uma verdade qualquer, mas uma Verdade de fé ou de moral católica. Na Igreja se celebra, por exemplo, o martírio de São João Batista, que sofreu a morte por ter repreendido publicamente o adultério de Herodes. Vale o dito de Santo Agostinho: martyres non facit poena, sed causa (Enarrationes in Psalmos, 34, 13, col 331.). Não é a morte que faz o mártir, mas a causa da morte, infligida por ódio à fé ou à moral católica.

Para a comissão chefiada pelo padre Ardura, pelo contrário, martyres non facit causa, sed poena: não significa outra coisa a equiparação “dos mártires e confessores das duas Igrejas”, a Católica e a ortodoxa. Este princípio, segundo o comunicado, pode ser estendido a “todas as igrejas” que tiveram “mártires” e “confessores” de suas respectivas crenças. Mas se o mártir é quem sofre a morte para defender a sua crença, por que não considerar mártir aquele cristão sui generis que foi Giordano Bruno, colocado na fogueira pela Igreja Católica em Campo de Fiori, em 17 de fevereiro de 1600? No fundo a Maçonaria sempre o considerou um “mártir” da religião da liberdade, e como tal o apóstata dominicano foi homenageado no último 17 de fevereiro na sede do Grande Oriente da Itália por um sacerdote da Diocese de Mileto – o padre Francesco Pontoriero –, que  relembrou as decisões de Giordano Bruno “até a última, aquela que o levou a voltar a Veneza, onde pesava sobre  ele uma sentença de morte, e depois a de abraçar o martírio, na certeza de que só asim sua mensagem de liberdade peduraria longamente no tempo”.

A reunião de Santa Marta foi precedida de dois dias por um Motu proprio do Papa Francisco – Maiorem hac dilectionem, de 11 de julho –, que escapou à atenção geral e introduz “o oferecimento da vida” como um novo motivo para o processo de beatificação e canonização, distinto da modalidade tradicional do martírio e da heroicidade das virtudes. Em artigo publicado em 11 de julho no Osservatore Romano, o arcebispo Dom Marcello Bartolucci, secretário da Congregação para a Causa dos Santos, disse que até agora as três formas pré-estabelecidas para alcançar a beatificação eram as do martírio e das virtudes heróicas, e a da chamada “beatificação equipolente” [de servos de Deus que viveram há muitos séculos]. Agora, a essas três é adicionada uma quarta via, “o oferecimento da vida”, que “visa promover um heróico testemunho cristão, até aqui sem um procedimento específico, porque não se encaixa inteiramente no caso oe martírio, nem no das virtudes heróicas”.

O Motu proprio precisa que o oferecimento da vida, para que seja válido e efizaz para a beatificação de um Servo de Deus, deve responder aos seguintes critérios: a. oferecimento livre e voluntário da vida e heróica aceitação propter caritatem de uma morte certa e em breve prazo; b. nexo entre o oferecimento da vida e a morte prematura; c. exercício, pelo menos em grau ordinário, das virtudes cristãs antes do oferecimento da vida e, depois, até a morte; e. necessidade do milagre para a beatificação, ocorrido após a morte do Servo de Deus e pela sua intercesão.

Mas o que significa propter caritatem? A caridade, definida por Santo Tomás como a amizade do homem com Deus e de Deus com o homem (Suma Teológica, II-IIae, q, 23, a. 1), é a mais excelente de todas as virtudes. Ela consiste em amar a Deus e, em Deus, o nosso próximo. A caridade não é, portanto, uma virtude que nos leva a amar os nossos semelhantes enquanto homens, mas é um ato sobrenatural que tem em Deus o seu fundamento e o seu último fim. A caridade tem também uma hierarquia: primeiramente, os interesses espirituais de nosso próximo devem prevalecer sobre os seus interesses materiais. Em segundo lugar, é preciso amar os que nos são próximos antes daqueles que estão mais distantes de nós (Suma Teológica, II-IIae, q. 26, a. 7), e se houvesse alguma vez um conflito entre os interesses dos próximos e os dos distantes, dever-se-ia dar prioridade aos primeiros sobre os segundos. É esta a nova visão do Motu proprio papal? É de se duvidar.

Entrevistado por Voce Isontina,  revista semanal da Arquidiocese de Gorizia, Dom Vincenzo Paglia, novo presidente da Academia Pontifícia para a Vida, expressou sua alegria pelo documento do Papa Francisco porque, destaca, “tenho estado de algum modo envolvido como postulador da Causa de beatificação de Dom Oscar Arnulfo Romero”. “O arcebispo de El Salvador, de fato – prossegue –, não foi morto por perseguidores ateus para que renegasse a fé na Trindade: foi assassinado por cristãos porque queria que o evangelho fosse vivido na sua profunda intuição de dom da vida”.

Dom Romero representa, portanto, o modelo de um “oferecimento da vida” equiparado ao martírio. A “quarta via” que, de acordo com o Motu proprio do Papa Francisco, levará à canonização, é a morte sofrida não por ódio à fé, mas como resultado de uma escolha política a serviço dos pobres, dos imigrantes e da “periferia” da terra. Poderão ser excluídos das beatificações os sacerdotes guerrilheiros mortos propter caritatem nas revoluções políticas das últimas décadas? Mas então, por que não equiparar aos mártires e começar a beatificação de todos os cristãos que deram suas vidas em uma guerra justa? Morrendo por sua pátria, eles fizeram um excelente ato de caridade, uma vez que “o bem da nação é superior ao bem individual” (Aristóteles, Ética, I, cap. II, n° 8). A Igreja Católica nunca os considerou mártires porque lhes falta a motivação religiosa, mas parece injusto privá-los de um espaço no novo Panteão dos mártires do Papa Francisco.