Posts tagged ‘São Pio X’

3 setembro, 2014

O verdadeiro rosto de São Pio X.

Por Roberto de Mattei – Corrispondenza Romana | Tradução: Fratres in Unum.com – Cem anos após sua morte, a figura de São Pio X ergue-se, triste e majestosa, no firmamento da Igreja. A tristeza que vela o olhar do Papa Sarto nas suas últimas fotografias não deixa entrever apenas as catastróficas conseqüências da Primeira Guerra Mundial, iniciada três semanas antes de sua morte. O que sua alma parece pressagiar é uma tragédia, de porte ainda maior, das guerras e revoluções do século XX: a apostasia das nações e dos próprios homens da Igreja, no século que se seguiria. 

O principal inimigo que São Pio X haveria de enfrentar tinha um nome, com o qual o mesmo Pontífice o designou: modernismo. A luta implacável ao modernismo caracterizou indelevelmente o seu pontificado e constituiu um elemento de fundo da sua santidade. “A lucidez e a firmeza com que Pio X conduziu a vitoriosa luta contra os erros do modernismo – afirmou Pio XII no discurso de canonização do Papa Sarto – atestam em que heroico grau a virtude da fé ardia em seu coração de santo (…)”. 

Ao modernismo, que se propunha “uma apostasia universal da fé e da disciplina da Igreja”, São Pio X opunha uma autêntica reforma, que tinha seu ponto principal na proteção e transmissão da verdade católica. A encíclica Pascendi (1907), com a qual ele fulminou os erros do modernismo, é o documento teológico e filosófico mais importante produzido pela Igreja no século XX. Mas São Pio X não se limitou a combater o mal nas ideias, como se este fosse dissociado da História. Ele queria golpear os portadores históricos dos erros aplicando censuras eclesiásticas, exercendo vigilância sobre os seminários e as universidades pontifícias, impondo a todos os sacerdotes o juramento antimodernista. 

Esta coerência entre a doutrina e a prática pontifícia suscitou violentos ataques, provenientes dos ambientes cripto-modernistas. Quando Pio XII promoveu sua beatificação (1951) e sua canonização (1954), o Papa Sarto foi definido pelos opositores como estranho aos fermentos renovadores de seu tempo, como o culpado por ter reprimido o modernismo com métodos brutais e policialescos. Pio XII confiou a Mons. Ferdinando Antonelli, futuro cardeal, a redação de uma Disquisitio histórica dedicada a desmontar as acusações contra seu predecessor com base em testemunhos e documentos. Mas essas acusações ressurgem hoje até mesmo na “celebração” que o “Osservatore Romano” dedicou a São Pio X, em 20 de agosto, aniversário de sua morte, através da pena de Carlo Fantappié.

Em sua recensão, no jornal da Santa Sé, do livro Pio X. Alle origini del cattolicesimo contemporaneo (Pio X. Às origens do catolicismo contemporâneo – Lindau, Torino 2014), de autoria de Gianpaolo Romanato, o Prof. Fantappié, preocupado em tomar distância da “instrumentalização dos lefebvristas” – como ele escreveu, de modo infeliz, usando um termo desprovido de qualquer significado teológico –, chega a identificar-se com as posições dos historiadores modernistas. Ele atribui de fato a Pio X “um modo autocrático de conceber o governo da Igreja”, acompanhado “de uma atitude tendencialmente defensiva no confronto com o establishment e de desconfiança em relação aos próprios funcionários, de cuja lealdade e obediência não raro duvidava”. Ele “faz também compreender como foi possível que o Papa tenha se excedido em práticas dissimulatórias ou tido uma desconfiança e dureza particulares contra certos cardeais, bispos e clérigos. Valendo-se de recentes pesquisas sobre documentos do Vaticano, Romanato elimina definitivamente aquelas hipóteses apologéticas que procuravam debitar a responsabilidade pelas medidas policialescas aos estreitos colaboradores associados, em vez de diretamente ao Papa”. Trata-se das mesmíssimas críticas novamente propostas alguns anos atrás no artigo Pio X, flagelo dos modernistas, de Alberto Melloni, segundo o qual “as cartas nos permitem documentar o ano em que Pio X havia sido parte ativa e consciente da violência institucional implementada pelos antimodernistas” (“Corriere della Sera”, 23 de agosto de 2006). 

O problema básico não seria “do método com o qual o modernismo foi reprimido, mas da oportunidade e validade de sua condenação”. A visão de São Pio X estava “superada” pela História, porque ele não compreendia a evolução da teologia e da eclesiologia do século XX. Sua figura no fundo tem o papel dialético de uma antítese em relação à tese da “modernidade teológica”. Então Fantappié conclui que o papel de Pio X teria sido o de “transportar o catolicismo das estruturas e da mentalidade da Restauração para a modernidade institucional, jurídica e pastoral”. 

Para tentar sair dessa confusão, podemos recorrer a um outro livro, de Cristina Siccardi, publicado há pouco pelas edições São Paulo com o título São Pio X. Vita del Papa che ha ordinato e riformato la Chiesa (São Pio X. Vida do Papa que ordenou e reformou a Igreja) e com um precioso prefácio de Sua Eminência o Cardeal Raymond Burke, Prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica. 

O cardeal recorda como, no final de sua primeira encíclica E supremi apostolatus, de 4 de outubro de 1903, São Pio X anunciava o programa de seu pontificado, que se defrontava no mundo com uma situação de confusão e de erros, e na Igreja, com a perda da fé da parte de muitos. A essa apostasia ele contrapunha a palavra de São Paulo: Instaurare omnia in Christo, reconduzir a Cristo todas as coisas. “Instaurare omnia in Christo – escreve o cardeal Burke –, é verdadeiramente a divisa do pontificado de São Pio X, todo voltado a recristianizar a sociedade agredida pelo relativismo liberal, que espezinhava os direitos de Deus em nome de uma ‘ciência’ desvinculada de todo tipo de liame com o Criador” (p. 9). 

É nessa perspectiva que se situa a obra reformadora de São Pio X, a qual é, antes de tudo, uma obra catequética, porque ele compreendeu que aos erros invasivos impunha contrapor um conhecimento sempre mais profundo da fé, difundida aos mais simples, a começar pelas crianças. Por volta do fim de 1912, seu desejo se realizou com a publicação do Catecismo que dele toma o nome, destinado originalmente à Diocese de Roma, mas depois difundido em todas as dioceses da Itália e do mundo. 

A gigantesca obra reformadora e restauradora de São Pio X desenvolveu-se na incompreensão dos próprios meios eclesiásticos. “São Pio X – escreve Cristina Siccardi – não procurou o consenso da Cúria romana, dos sacerdotes, dos bispos, dos cardeais, dos fieis, e sobretudo não procurou o consenso do mundo, mas sempre e somente o consenso de Deus, ainda que em detrimento da própria imagem pública, e, assim agindo, fez sem dúvida muitos inimigos em vida e ainda mais após a morte” (p. 25). 

Hoje podemos dizer que os seus piores inimigos não são aqueles que o atacam frontalmente, mas os que procuram desvirtuar o significado de sua obra, fazendo dele um precursor das reformas conciliares e pós-conciliares. O quotidiano “La Tribuna de Treviso” informa que, por ocasião do centenário da morte de São Pio X, a diocese de Treviso “abriu as portas aos divorciados e aos casais de fato”, convidando-os, em cinco igrejas – entre elas a de Riese, cidade natal do Papa Giuseppe Sarto –, a rezar pelo bom êxito do Sínodo de outubro sobre a família, cuja linha o cardeal Kasper ditou em seu relatório ao Consistório de 20 de fevereiro. Fazer de São Pio X o precursor do cardeal Kasper é uma ofensa em relação à qual a desdenhosa definição melloniana de “flagelo dos modernistas” se torna um elogio.

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29 maio, 2014

Há 60 anos, o Santo Papa Sarto era canonizado.

Em 29 de maio de 1954, Giuseppe Sarto, o Papa Pio X, era canonizado.

A fama de santidade de Pio X remontava há muito tempo. Mesmo quando ainda vivo, atribuía-se a ele o dom da cura. Aqui mencionamos apenas três casos da época de seu pontificado. Certo dia, uma freira belga, que sofria de tuberculose, foi admitida a uma audiência pública com o Papa. Quando saiu, percebeu que estava completamente curada e não teve recaída. Em outra ocasião, após uma audiência pública, um alemão, cego de nascimento, ganhou sua visão após Pio X colocar as mãos em seus olhos e exortá-lo a confiar em Deus. De modo similar, uma criança cega foi imediatamente curada após o Papa pôr a mão em sua cabeça e dizer à mãe: “Reze ao Senhor e tenha fé”.

São Pio X.

São Pio X.

Tão logo o corpo de Pio X foi colocado no túmulo, começaram as peregrinações. Em breve chegaram relatos de favores e graças miraculosamente recebidas, atribuídas à sua intercessão. Em fevereiro de 1923, todos os cardeais residentes em Roma — a única vez na história — assinaram um requerimento para o início de sua causa de beatificação. Um postulador foi designado: Dom Benedetto Pierami, Procurador Geral dos Beneditinos de Vallambroso. Em São Pedro, poucos meses depois, em 28 de junho de 1923, Pio XI inaugurou um monumento em honra a Pio X. Uma estátua de mármore o mostra de braços estendidos e olhos voltados para o céu. Na base do monumento, oito painéis de bronze representando os mais proeminentes aspectos e acontecimentos de seu pontificado: 1. O Pontífice da Eucaristia; 2. O defensor da fé; 3. O apoiador da França Católica; 4. O Patrono das Artes; 5. O Guardião dos Estudos Bíblicos; 6. O reorganizador do Direito Canônico; 7. O Reformador da Música Sacra; 8. O Pai dos Órfãos e dos Abandonados.

O processo de beatificação

Os processos diocesanos (ou “processos ordinários”) começaram. Eles se deram na diocese de origem de Pio X e nas dioceses onde ele havia atuado em diferentes funções. Os quatro “processos ordinários” foram organizados sob a autoridade de cada um dos bispos responsáveis: em Treviso, 1923-1926; em Mântua, 1924-1927; em Veneza, 1924-1930; e em Roma, 1923-1931. Estes processos começaram menos de dez anos após a morte do Papa e, portanto, foi possível questionar pessoas que o conheceram: algumas de suas irmãs, alguns amigos de infância e juventude, alguns eclesiásticos que o conheceram em diferentes responsabilidades sacerdotais e episcopais, e também alguns prelados e cardeais do Vaticano. Ao todo, 205 testemunhas de sua vida foram interrogadas e suas declarações, sob juramento, foram examinadas. A cada testemunha foram feitas as mesmas perguntas (63 questões ao todo).

As declarações examinadas dos processos ordinários (mais de 10 mil páginas manuscritas) foram publicadas em forma de grandes sínteses — summarium — na Positio super introductione causae (Relatório sobre a introdução da causa). Esta Positio, que finalmente foi editada e produzida em 1941, tem 1130 páginas. Ela foi examinada pela Congregação dos Ritos, que publicou o Decreto para a Introdução da Causa em 1943 — significando que a causa de beatificação e canonização fora julgada oficialmente digna de ser apreciada pela Santa Sé.

Agora os novos processos, chamados apostólicos, seriam repetidos nos mesmos lugares dos “processos ordinários”. Eles duraram de 1943 a 1946. Oitenta e nove testemunhas foram chamadas, cada uma tendo de responder a oitenta e uma perguntas. Embora algumas das testemunhas do processo ordinários já não estavam mais vivas, havia novas testemunhas disponíveis para dar seu depoimento. No total, nessas duas séries de processos, cerca de 240 testemunhas foram interrogadas e deram declarações sobre a vida e virtudes de Pio X. Uma nova Positio foi redigida, composta de excertos das duas fases do processo, chamando-se Positio super virtutibus. Publicada em 1949, continha 897 páginas. As “objeções” (animadversiones) lançadas pelo Promotor da Fé — chamado de advogado do diabo — resultou, em 1950, em uma Nova Positio super virtutibus e em uma Novissima positio super virtutibus (82 e 17 páginas).

Enquanto isso, um exame canônico dos restos mortais foi realizado. Os restos mortais de Pio X foram retirados de seu túmulo em 19 de maio de 1944 e trazidos para a Basílica Vaticana. O esquife principal foi colocado na Capela do Santo Crucifixo e foi aberto na presença dos prelados membros do Tribunal do Processo Apostólico. O propósito do exame era ter certeza de que os restos mortais no túmulo eram os da pessoa candidata à beatificação. Por longa tradição, todavia, a cerimônia também servia para verificar se o corpo poderia estar incorrupto. Esta não corrupção não é uma prova adicional de santidade, mas é um milagre que pode confirmar a fama de santidade que, de toda forma, já havia sido estabelecida. Foi o caso dos restos mortais de Pio X. Uma testemunha presente na exumação e exame descreve o estado de incorruptibilidade descoberto em 19 de maio de 1944:

A exumação.

A exumação.

Abrindo o caixão, encontraram o corpo intacto, vestido com as insígnias papais tal como foram enterrado 30 anos antes. Sob a firme pele que cobria a face, o contorno do crânio era claramente reconhecível. As cavidades dos olhos pareciam escuras, mas não vazias; estavam cobertas pelas pálpebras muito enrugadas e afundadas. O cabelo era branco e cobria o topo da cabeça completamente. A cruz peitoral e o anel pastoral brilhavam reluzentes. Em seu último testamento, Pio X pediu especialmente que seu corpo não fosse tocado e que o tradicional embalsamento não fosse realizado. Apesar disso, seu corpo estava excelentemente preservado. Nenhuma parte do esqueleto estava descoberta, nenhum osso exposto. Enquanto o corpo estava rígido, os braços, cotovelos e ombros estavam totalmente  flexíveis. As mãos eram belas e magras, e as unhas nos dedos estavam perfeitamente preservadas.

Terminada o exame canônico, os restos mortais de Pio X permaneceram na capela do Santo Crucifixo, aberta à veneração dos fiéis, até a manhã de 3 de julho. Depois, foram levadas para outra capela na Basílica Vaticana, a Capela da Apresentação, a primeira à esquerda quando se ingressa na Basílica, onde estão até hoje, abaixo do altar.

O processo de beatificação continuou. Alguns consultores da Congregação dos Ritos consideraram que os testemunhos sobre a batalha de Pio X contra o modernismo eram muito numerosos e controversos: eles lançaram detalhadas objeções a esse respeito e solicitaram um estudo suplementar com pesquisa documental. Este trabalho foi realizado pelo Relator Geral, Antonelli, um franciscano, que produziu sua Disquisitio circa quasdam obiectiones modus agendi Servi Dei respicientes in modernismi debellatione una cum summario additionali ex officio compilato, 1950. Esta longa compilação de documentos e comentários (303 páginas) conseguiu o apoio da Congregação e do Papa Pio XII.

Beato e Santo

Em 3 de setembro de 1950 [ndr: dia em que, no calendário tradicional, celebra-se a festa de São Pio X], o decreto foi assinado reconhecendo que Pio X praticou heroicamente as virtudes teologais da fé, esperança e caridade e as virtudes cardeais da prudência, justiça, fortaleza e temperança. Restava apenas para a beatificação o reconhecimento canônico de dois milagres realizados pela intercessão do Papa. Entre centenas de curas registradas pelo Postulador da Causa que não podiam ser atribuídas à medicina, duas foram selecionadas para reconhecimento canônico.

Missa de canonização de São Pio X.

Missa de canonização de São Pio X.

Uma foi a da freira francesa, Marie-Françoise Deperras, que sofria de um câncer no fêmur esquerdo, e que foi curada de maneira espetacular após a imposição de uma relíquia de Pio X e duas novenas ao Soberano Pontífice. A segunda, de uma outra religiosa, italiana, que sofria com um tumor maligno no abdome. A cura se deu em fevereiro de 1938 após a imposição da relíquia de Pio X e quando seu convento fez uma novena pedido sua intercessão. Após o estudo científico de ambos os casos, conduzido por peritos médicos da Congregação dos Ritos, as curas foram declaradas instantâneas, perfeitas e definitivas. Uma vez que foram decorrentes do recurso à intercessão de Pio X, elas foram declaradas de ordem sobrenatural e, em 11 de fevereiro de 1951, foram reconhecidas por decreto como autênticos milagres. Em 3 de junho de 1951, Pio XII pôde proceder com a solene cerimônia de beatificação de seu predecessor.

Finalmente, em 29 de maio de 1954, após o exame de um novo milagre, Pio XII realizou a canonização de Pio X. Em seu discurso, o Papa afirmou:

“A santidade, inspiradora e guia de Pio X em todos os seus empreendimentos, brilhou ainda mais fulgurante em suas ações quotidianas. A meta que almejava, unir e restaurar todas as coisas em Cristo, é algo que ele fez se tornar realidade em si mesmo antes de levá-la aos outros”.

Saint Pius X, Restorer of the Church – Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 303-305. Tradução: Fratres in Unum.com.

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20 setembro, 2013

Senhor, dai-nos um novo São Pio X!

Temos a honra de apresentar o sermão proferido pelo Reverendíssimo Padre Anderson Batista da Silva na paróquia de San Juan Bautista, em El Paso, Texas, EUA, no Oitavo Domingo depois de Pentecostes – 18 de julho de 2010, por ocasião do centenário da atualíssima Carta Encíclica Notre Charge Apostolique, de São Pio X, acerca dos erros do movimento SillonTrata-se de uma transcrição literal para auxiliar a compreensão do vídeo, sem revisão do autor e na qual o estilo oral é mantido. Agradecemos a uma uma generosa alma o trabalho de tradução e transcrição.

Caros irmãos, dessa vez vou falar somente em espanhol.

Neste ano comemoramos o centenário de um documento do papa São Pio X de uma grande importância. O documento se chama Nostre Charge Apostolique, uma carta que o Santo Padre escreveu, em 25 de agosto de 1910, no dia de São Luiz Rei de França, aos bispos franceses. E de que falava aquela carta? Falava de um movimento católico chamado Sillon, que começou elogiado pelo papa, começou a atrair muitos católicos, mas que terminou por desvirtuar-se. O Santo Padre e os bispos começaram a chamar a atenção para a correção, mas o Sillon não quis atender à chamada de correção do Santo Padre e continuou com as suas doutrinas. Então, São Pio X, com a santidade e a força que sempre tinha, escreveu esse documento refutando os erros do Sillon e falando da verdadeira ação dos cristãos no mundo.

Nosso Senhor no Evangelho de hoje disse que os filhos das Trevas são mais sagazes em seus negócios do que os filhos da Luz.

São Pio X fala disso e nos ensina como sermos sagazes. Qual é o fim de nosso apostolado? O papa começa assim o seu documento:

Nosso cargo apostólico nos impõe a obrigação de zelar pela pureza da fé, pela integridade da disciplina católica e de preservar os fiéis dos perigos do erro e do mal, principalmente quando o erro e o mal se apresentam com uma linguagem atraente que, encobrindo a ambiguidade das ideias e o equívoco das expressões com o ardor do sentimento e a sonoridade das palavras, pode inflamar os corações no amor de coisas sedutoras, mas funestas.”

Aqui termina a citação do Santo Padre.

É interessante que o Santo Padre fala no início qual é o encargo dos pastores e bispos. Qual é o seu primeiro encargo, como pastor supremo da Igreja, qual é o encargo dos próprios pastores da Igreja?

Em primeiro lugar, zelar pela pureza da fé.

Os pastores em primeiro lugar devem zelar pela pureza da fé, pela integridade da disciplina católica e preservar os fiéis do perigo do erro e do mal.

Hoje em dia, infelizmente, parece que o tema da liberdade, da solidariedade, da imigração, da água, da reforma agrária e da economia chama mais a atenção dos pastores do que zelar pela pureza da fé, pela integridade da disciplina católica e pela preservação dos fiéis dos perigos do erro e do mal.

Há perigos, há perigos para os fiéis” e São Pio X disse isso há cem anos. O que diria se ele estivesse aqui hoje conosco?

Mas São Pio X disse: “principalmente quando esse perigo e esse erro se apresentam em linguagem atraente”. O erro é mais perigoso quando se apresenta com linguagem atraente. É óbvio! O veneno se coloca na parte mais gostosa do bolo. O veneno muitas vezes tem essa apresentação atraente, cobrindo a ambiguidade das ideias. Os erros e as heresias sempre são contraditórios, mas cobrem a ambiguidade das ideias com essas palavras atraentes, e a sonoridade das palavras – bonitas para serem ditas e escutadas. São Pio X disse que podem inflamar os corações; [quem] escutar a doutrina errônea, com esse equívoco, se põe como que com os corações inflamados. E é esta a verdade, mas inflamar os corações no amor de coisas sedutoras, mas funestas.

As questões sobrenaturais são as que estão a cargo dos pastores. Qual é o fim da Igreja? A Igreja não é um Greenpeace. Não é uma ONG que tem que tratar da política e das coisas da sociedade. A Igreja é o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo e seu fim é dar glória e Deus e salvar as almas. Então, quais são os deveres dos pastores da Igreja? Cuidar da ortodoxia da Fé, cuidar do ensino reto da moral, zelar por uma esmerada celebração eucarística, cuidar da vida espiritual das almas. Mas, infelizmente, não é o que comumente vemos.

O Santo Padre, o Papa Bento XVI, reuniu os bispos do Sul do Brasil, minha nação, ao final do ano passado, e disse essas palavras: “Os fiéis se sentem defraudados e desiludidos” quando veem seus pastores cederem, falando de temas como a igualdade, a liberdade, a economia, a imigração e etc., mas deixam de falar de temas sobrenaturais e de verdades fundamentais da fé, “como o pecado, a graça, a vida teologal — de fé, esperança e caridade –, dos novíssimos” — da morte, do juízo e do inferno e do paraíso.

Infelizmente, a tentativa de fazer de Nosso Senhor Jesus Cristo um messias político, libertador e da Igreja um simples instrumento para realizar, na história, sua utopia, está muito difundida.

Muitos pensam na Igreja como uma instituição para ajudar a viver bem aqui na Terra, para viver bem aqui, para se sentir muito à vontade aqui, mas jamais para o Céu. Para lá a porta é estreita e larga a porta que leva à perdição. [Evita-se] falar do pecado que leva à morte, falar do juízo de Deus, ou seja, que ao final da vida, como disse São João da Cruz, seremos julgados pelo amor, seremos julgados por tudo o que fizermos.

Hoje em dia, a confusão é tão grande que a podemos notar em muitos círculos, em muitos lugares. Aqui me lembro de um slogan de um instituto de formação cristã, católico, próximo daqui que dizia que lá se preparava a Igreja do futuro e que lá se ensinava um cristianismo adulto, onde não se pregava o Evangelho, se vivia o Evangelho. Que confusão de ideias! Que confusão! Eles têm um cristianismo adulto. O que a Igreja ensinou durante 2000 anos talvez, para eles, seja coisa de crianças.

Porém, talvez eles também tenham esquecido do que Nosso Senhor disse no Evangelho de hoje: “Às crianças pertence o Reino dos Céus[…]”

Eles diziam: “Aqui não se prega o Evangelho, se vive”, como se a Igreja nunca tivesse vivido o Evangelho, como se agora se descobrisse uma vivência nova, um vinho novo …

A confusão também se estende quando olhamos a abertura que se tem em relação a todos, a caridade para com todos, a abertura, o amor…

Se eu vou a uma igreja protestante e lá rezo com eles, dirão: “Vejam! Vejam! Como o padre é ecumênico! Que bom!”.

Se estou com os muçulmanos, dizem: “Vejam! Como ele dialoga com as religiões, que bom! Porque Deus está em todos os lugares.”

Se estou com os maçons, dizem: “Vejam! O padre é aberto ao mundo, dialoga com todos!”

Porém, se eu me chego perto da Fraternidade São Pio X, dizem: “Ó! Excomungado! Cismático!” Que errado!

Há algo errado com o pensamento dessas pessoas.

Se estou com o mundo, com as outras religiões, e dialogo, [as pessoas dizem]: “Ele é um homem de diálogo, está com todos, aberto a todos.”

Mas se assumo a Tradição e amo esta Missa que estou celebrando — a missa que os santos celebraram por séculos e séculos da Igreja –, sou rechaçado como um louco, um fanático, um fundamentalista, um excomungado, um cismático.

Porém, esses adjetivos não aparecem em relação aos muçulmanos, que não creem em Nosso Senhor Jesus Cristo; aos maçons, que rejeitam a Igreja; aos protestantes, que não aceitam a Nossa Santíssima Mãe, [nem] a presença eucarística de Nosso Senhor.

Para eles não! Excomunhão não, caridade!

Diz São Pio X que o erro se apresenta como algo bom. O Sillon, este movimento que São Pio X condena em sua encíclica Notre Charge Apostolique, tentava ser uma atuação política e social dos católicos na vida social e política, mas sem relação com a fé. O que é um absurdo, porque é impossível falar da realidade sem falar de Deus. É impossível querer construir um mundo sem Deus.

Já tentaram fazê-lo – Babel. A cidade construída contra Deus e sem Deus é um absurdo. O pensamento liberal [é o] de querer ser católico, mas que, ao entrar nas universidades, nos escritórios ou no congresso, retira como a um chapéu a fé católica. Mas ao tratar de leis, de ensinos, de comunicações, da política, da sociedade, não, nada da Palavra de Deus nem da fé.

É tão impossível referir-se à realidade fazendo abstração de Deus como é impossível ver sem a luz.

Disse São Pio X em sua Encíclica: “Eles, do Sillon, formaram um conceito especial da dignidade humana, da liberdade, da justiça e da fraternidade e, para justificar os seus sonhos sociais, apelam ao Evangelho interpretado a sua própria maneira e, o que é mais grave, a um Cristo desfigurado e diminuído”.

De modo que eles teriam o Evangelho verdadeiro. A Igreja, não. Eles é que conheceriam como era Nosso Senhor, mas a Igreja não.

E, por tudo isso, há que se fazer muitas coisas. Deve-se mudar a missa, porque a missa é uma ceia; [dizem:] Nosso Senhor celebrava desta maneira, com todos sentados na sala de jantar… Como se a Igreja estivesse equivocada por vinte séculos.

Continua São Pio X: “Bem sabemos que se jactam de levantar a dignidade humana e a condição, há muito menosprezada, das classes trabalhadoras […] seu sonho consiste em trocar as bases naturais e tradicionais e prometer uma cidade futura edificada sobre outros princípios, que ousam declarar mais fecundos, mais benfazejos do que os princípios sobre os quais repousa a atual sociedade cristã”.

Eles – diz São Pio X – ensinam que a doutrina tradicional da Igreja não se equipara a sua versão da fé, porque eles irão construir um mundo novo. Um novus ordo. Um novus ordo saeculorum. Um novo mundo… sem Deus, sem a Igreja, sem a Graça dos Sacramentos.

Com firmeza, responde São Pio X: “Não, Veneráveis Irmãos – e é preciso reconhecer energicamente nestes tempos de anarquia social e intelectual – a cidade não será construída de outra forma senão aquela pela qual Deus a construiu; a sociedade não se edificará se a Igreja não lhe lançar as bases e não dirigir os trabalhos; não, a civilização não mais está para ser inventada nem a cidade nova para ser construída nas nuvens. Ela existiu e existe; é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se apenas de instaurá-la e restaurá-la sem cessar sobre seus fundamentos naturais e divinos contra os ataques sempre renovados da utopia malsã, da rebeldia e da impiedade: omnia instaurare in Christo”.

Tudo restaurar em Nosso Senhor Jesus Cristo. Este era o lema pontifício de São Pio X. Que podemos concluir dessas palavras? Em primeiro lugar, é muito interessante notar: São Pio X disse que em sua época, ou seja, há um século, havia uma anarquia social e intelectual. Que diria ele se visse o que ocorre hoje com a Santa Igreja de Deus, em toda parte?

O papa Bento XVI disse, ano passado, dia 09 de Janeiro, em uma carta aos Bispos: a fé está, em muitas partes da Terra, como a chama de uma vela – a ponto de apagar-se.

Creio que São Pio X não diria, como outros disseram, que as alegrias e as esperanças do mundo moderno são as mesmas alegrias e esperanças da Igreja. Não! Porque a alegria do mundo é a alegria do pecado, é a alegria do carnaval, é a alegria de uma festa que se esquece de Deus, é a alegria das virgens néscias que se olvidam de colocar o azeite em suas lâmpadas.

E as esperanças do mundo moderno são as de um mundo novo sem Deus, sem necessidade da Igreja – aqui mesmo estaria o Céu.

Nossas alegrias e nossas esperanças são sobrenaturais; as alegrias que temos vêm da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. E nossa esperança é o Céu e não a terra.

São Pio X também recorda que o modelo de civilização não está para ser inventado; não há que se construir um novus ordo saeculorum como quer a Maçonaria, mas se deve restaurar a civilização cristã.

E, que civilização é esta? A civilização [é aquela] que tem a Igreja Católica como sua alma; a mesma civilização que fez surgir a universidade, o hospital, grandes obras de arte e arquitetura; viu surgir a caridade e viu homens e mulheres dar toda sua vida somente para a glória de Deus. A civilização que fez surgir uma das obras arquitetônicas mais belas, se não a mais bela da história da humanidade: a Catedral Gótica, apontando ao Céu e dando Glória a Deus pela perfeição da pedra trabalhada e pelo vitral, que fazia com que o homem pudesse olhar para o sol; sinal da própria Igreja que nos permite olhar para Deus ao olhar para Ela.

Mas São Pio X também recorda que “há ataques sempre renovados da utopia malsã, da rebeldia e da impiedade”. Sempre há novos ataques a esta Civilização Cristã.

Pio XII, certa vez, falou-nos de três ataques à Civilização Cristã; e a partir deles podemos falar, talvez, de um quarto ataque.

O primeiro ataque à Civilização Cristã foi o grito, no século XVI, “Cristo Sim, a Igreja Não!”. O protestantismo: não necessito da Igreja para ter fé em Cristo. Não necessito da Igreja, não necessito do Papa, não necessito dos sacerdotes para perdoar os pecados, não necessito dos sacerdotes para celebrar a missa [é o que eles dizem].

O segundo grande ataque veio com a Revolução Francesa e o ideal maçônico: “Deus sim, Cristo Não!”; todas as religiões seriam boas porque, no fundo, nenhuma delas poderia falar de Deus verdadeiramente. Deus não poderia revelar-se; Deus seria um grande arquiteto do Universo ou um grande relojoeiro. Não haveria religião verdadeira, mas uma vaga ideia de Deus.

Depois, o ateísmo do século XIX, com sua força no comunismo, dizia: “Deus morreu. O homem é Deus!”.

Durante o século vinte, vimos, também, surgir uma confusão ainda maior: o homem já não é [exclusivamente] Deus. O panteísmo, a New Age e tantas coisas mais têm dito: a natureza é Deus; o homem é um a mais na natureza.

Meus irmãos, este pensamento, infelizmente, não está somente fora do recinto da Igreja. A fumaça de Satanás entrou na Igreja. Não é assim? Não vemos, hoje, católicos dizer como os protestantes: “Cristo Sim, a Igreja Não!”? “Não necessito do padre para [receber] os sacramentos. Todos somos sacerdotes, iguais. Eu irei diretamente a Deus”. E há a desobediência às leis litúrgicas, canônicas, à fé, à moral: eu e Cristo, muitos católicos dizem.

Mas, também, quantos católicos não dizem: todas as religiões são boas e nos salvaremos todos? É a mentalidade maçônica.

Mas também a mentalidade comunista, a teologia da libertação e todos os similares que tentam harmonizar o Evangelho com Marx: o “Cristianismo adulto”.

Quantos católicos confusos com esta revolução cultural em que vivemos. [Eles] dizem: sou católico, mas a favor do aborto ou, como vocês viram mais recentemente, pessoas muito bem doutoradas em teologia a favor das uniões homossexuais.

Omnia instaurare in Christo, diz São Pio X. Quero terminar já e, infelizmente, não poderei ler o restante, porque já passou muito tempo.

Nesta viagem aos Estados Unidos e a El Paso, eu pude estar na primeira igreja dedicada ao Sagrado Coração de Jesus no país, em Pensilvânia; é uma Basílica do Sagrado Coração de Jesus. E lá pedi uma Graça a Deus: a graça a Bento XVI ou a seu sucessor… Eu estou pedindo ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria a graça – e creio que todos devemos pedi-la – de um novo São Pio X para a Igreja. Um Papa santo e forte o suficiente para fazer tremer os inimigos fora da Igreja e expulsar – ou corrigir – os inimigos que estão dentro dela. Os lobos em pele de cordeiro que estão no recinto sagrado fazendo sofrer o Coração Sacratíssimo de Nosso Senhor.

Esta, creio, é a nossa missão e a de todos os cristãos: rezar, rezar e rezar. Lutar contra o demônio, o mundo e a carne, contra as tentações, e submetermo-nos aos ensinamentos perenes do magistério da Igreja. Pedir ajuda a Deus e a sua Mãe Santíssima: a ela, possam nossos pensamentos e nossos corações. E agora também, a seus pés, aprendermos a dizer — e repito o pensamento de um santo sacerdote que me ajudou muito: “Tenho na mente, nos lábios e no coração uma só jaculatória: Roma, Roma, Roma”.

Peçamos ao Coração Imaculado de Maria que a Igreja saia logo desta crise e muitas almas se salvem, que nós nos salvemos – não nos consideremos melhores que ninguém, porque é uma graça imerecida estar aqui hoje. E como os Cristeros, quero terminar este sermão com o maior louvor que uma alma pecadora e pequena pode dizer diante do mundo que persegue a Deus e a sua Igreja: Viva Cristo Rei! Amém. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

3 setembro, 2013

A atitude pessoal de São Pio X para com os modernistas.

Na festa de São Pio X, pedimos a intercessão de tão insígne Pontífice para que imitemos o seu exemplo de caridade e zelo.

Desde sua primeira encíclica, Pio X urgia por caridade mesmo para com “aqueles que se nos opõem e perseguem, vistos, talvez, como piores do que realmente são”. Esta caridade não era um sinal de fraqueza, mas estava fundamentada na esperança: “a esperança”, escreveu o Papa, “de que a chama da caridade Cristã, paciente e afável, dissipará as trevas de suas almas e trará a luz e a paz de Deus”.

Pio X também tinha sua esperança – de ver os adversários da Igreja emendando seus caminhos e renunciando seus erros – no que diz respeito aos modernistas.

Os testemunhos que citaremos o provarão de maneira incontestável. Mas Pio X fez mais: discretamente  deu assistência financeira a alguns deles ou lhes arranjou outros ofícios; em outros casos, mostrou-se prudente antes de condená-los. Era esta generosidade, nada excepcional, incompatível com sua determinação na luta contra o modernismo? Como pode o mesmo homem que impõe sanções, depõe clérigos, excomunga, simultaneamente mostrar-se caridoso e contido? Durante o processo de beatificação, o Promotor da Fé apresentou uma série de objeções; uma delas era: “Sejamos francos: a questão, a única questão que, a meu ver, parece se levantar neste grande inquérito, é saber se Pio X, em sua luta contra o modernismo, ultrapassou as fronteiras da prudência e da justiça, particularmente em seus últimos anos…” [Novae Animadversiones, citado em Conduite de s. Pie X, p. 14] A isso, o Postulador da Causa respondeu com um volumoso dossiê de mais de 300 páginas no qual mostrava que Pio X era “firme em seus princípios, correto em suas intenções e paciente e afável com aqueles com quem lidava, mesmo se tivesse razões justas para expressar sua angústia por causa deles”. [Ibid., p. 20]

Voltemo-nos a esta questão da atitude pessoal de Pio X para com os modernistas e citemos vários casos. Os contemporâneos de Pio X talvez desconhecessem esses gestos de caridade e justiça da parte do Pontífice. No dia seguinte à morte do Papa, Mons. Mignot, que era próximo dos modernistas, repreendeu o falecido nos seguintes termos: “Pio X era um santo, com um desinteresse raro para um italiano, mas suas idéias absolutas paralisavam seu coração… Ele esmagou muitas almas, a quem um pouco de ternura teria mantido no caminho correto”. [Carta de Mons. Mignot a Hügel, 9 de setembro de 1914, citado por Poulat, Histoire, dogma et critique, p. 480] Os historiadores do modernismo não mencionam os gestos de caridade ou justiça de Pio X, ou o fazem apenas de passagem. O número e a consistência desses atos mostram, todavia, que não foram resultados de decisões excepcionais de sua parte, mas manifestavam uma disposição intelectual e uma atitude espiritual. Na luta contra o fenômeno do modernismo, todos os métodos eram usados, e sem piedade, pois Pio X considerava que a fé dos fiéis estava em perigo e que o futuro da Igreja estava em jogo; por outro lado, quando se tratava da sorte dos modernistas, Pio X, sabendo-o, fazia grande esforço para ser o mais justo, prudente e caridoso possível.

Um exame das relações de Pio X com Loisy, o mais famoso dos modernistas, dá-nos uma boa idéia de seus profundos sentimentos. Como já vimos, quando Loisy manifestou sua disposição de se submeter, Pio X exigia, insistia que o exegeta francês fizesse uma completa e sincera submissão “com seu coração”. Loisy, que persistiu em seus erros após a Pascendi, acabou excomungado. Viveu em retiro em Ceffonds, Haute-Marne, e logo seria eleito para o Collège de France. No entanto, Pio X não o via como um filho perdido da Igreja. Em 1908, recebendo o novo bispo de Châlons, Dom Sevin, Pio X recomendou-lhe Loisy (a quem havia excomungado há pouco tempo). As palavras do Papa foram relatadas pelo próprio Loisy: “O senhor será o bispo do Pe. Loisy. Se tiver a oportunidade, trate-o com gentileza; e se ele der um passo em sua direção, dê dois na direção dele”. [Loisy, Mémoires, vol. III, p. 27. Pe. Lagrange dá outra versão destas palavras, versão que ouviu da boca de Dom Sevin; quando o bispo de Châlons perguntara ao Papa que atitude deveria adotar com relação a Loisy se este demonstrasse arrependimento, o Papa respondeu: Recebei-o de braços abertos. Digo ao senhor que ele, meu filho, irá voltar” (Lagrange, M. Loisy et le modernisme, p. 138)]

Outro caso é o do Pe. Murri. Como veremos, a Liga Nacional Democrática que fundara foi condenada pelo Papa. Ele tinha conhecidos laços com modernistas. Em abril de 1907, no despertar de uma série de artigos nos quais Murri amargamente criticava a política do Vaticano na França, Pio X enviou uma carta ao bispo da diocese deste líder democrático, instruindo-lhe informar a este último que estava suspenso a divinis. Quando, alguns meses depois, a Encíclica Pascendi estava prestes a ser publicada, havia uma certa expectativa de que Murri fosse imediatamente excomungado, dado que estava absolutamente claro que o turbulento líder democrata cristão se oporia à Encíclica. O problema foi colocado a Pio X, que preferiu ser paciente. Em 25 de agosto de 1907, escreveu à Congregação do Santo Ofício: “Se tudo estiver em ordem com o celebret do Pe. Romolo Murri, ele não pode, sem grave injustiça, ser proibido de rezar Missa, na medida em que não realizou qualquer ato condenado pela Encíclica”. [Citado por Dal-Gal, Pie X, p. 404] Murri, contudo, persistiu publicamente em suas posições e foi, ao fim, excomungado em 1909. Posteriormente, ele experimentou graves dificuldades financeiras; Pio X soube disso e pagou-lhe uma pensão mensal.[Depoimento do Cardeal Merry del Val, Summarium, p. 195]

[…]

Pio X tinha de levar muitas coisas em consideração: a salvaguarda da fé e do bem da Igreja, a necessidade e a legitimidade de estudos em matérias de religião, o bem pessoal e a boa fé das pessoas envolvidas, assim como as manobras, as ambições e o zelo das partes. Enquanto Papa, seus deveres eram aqueles primeiros; como cristão, estava obrigado a seguir a caridade, prudência e justiça. […] Pio X sentia como seu dever, enquanto guardião da fé, combater o modernismo, e fazê-lo usando os mais variados métodos e sem fraqueza, pois, como via, a própria existência da Igreja estava ameaçada. Ao mesmo tempo, sem fazer qualquer concessão ao erro, esforçava-se por ajudar os culpados ou suspeitos, e tomava grande cuidado em limitar os excessos dos anti-modernistas. Uma de suas máximas favoritas era: “devemos combater o erro sem ferir as pessoas envolvidas”.

Saint Pius X, Restorer of the Church – Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 236-237;241-242. Tradução: Fratres in Unum.com.

Publicado originalmente na festa de São Pio X em 2011.

20 março, 2013

Há 110 anos, a coroação de São Pio X.

Em todos os detalhes, o ritual de uma cerimônia hoje simplificada em missa de entronização.

piox3Por Les temps | Tradução: Fratres in Unum.com – 10 de agosto de 1903: « […] O Papa, acompanhado dos cardeais, do pessoal da Corte Pontifícia, dos Guardas Nobres e dos Guardas Suíços, apareceu às 8:30 no pórtico da Basílica. Diante da Porta Santa, Pio X, revestido das vestes pontificais, usando a mitra, está sentado no trono. Os cardeais assentam-se em bancos especiais. Rampolla, Cardeal Arcipreste da Basílica, acompanhado do capítulo e do clero, profere em latim o discurso de costume ao novo Papa. Pio X, em seguida, admite o capítulo e o clero para beijar os múleos. Enquanto isso, o coro da Capela Sistina canta o Tu es Petrus. O Papa, então, é elevado na sede gestatória, rodeado pelos flabelos e precedido pelos dignitários e cardeais. Ele ingressa às 9:30 na Basílica pela porta central. É acolhido pela aclamação da multidão enquanto que da loja da bênção soam as trombetas de prata. A Guarda Palatina presta as honras. O Papa dá sua bênção e faz sinal com a mão para que se fizesse silêncio e parassem as aclamações. Diante do altar do Santíssimo Sacramento, o Papa desce de sede gestatória. Ele permanece alguns minutos em adoração diante do Santíssimo Sacramento, exposto de forma solene. Todos os cardeais ajoelhados formam como que uma coroa em torno dele. A cena é magnífica. […]

Os mestres de cerimônias pontifícias vão naquele instante à frente do Papa e queimam estopas por três vezes, clamando: “Santo Padre, assim passa a glória do mundo”. Finalmente, o Papa chega ao altar enquanto o coro da Sistina canta o Ecce sacerdos Magnus. Na abside, à direita e à esquerda do trono, foram construídas tribunas para a família do Papa, os Cavaleiros de Malta, o corpo diplomático, o patriciado romano. […] Depois do Sacro Colégio, os bispos e padres proferem o ato de obediência, os cardeais beijando os pés, os joelhos e o rosto do Papa; os Bispos, os pé e os joelhos; os padres, apenas os pés.

A missa começa de acordo com o cerimonial das missas papais. Após o canto da epístola e do Evangelho em latim e grego, o Cardeal diácono Macchi, acompanhado pelos auditores da rota e dos advogados consistoriais, chega ao altar, enquanto o Pontífice sobe o trono e recita as ladainhas especiais para a coroação. No momento da elevação, as trombetas de prata ressoam do alto da cúpula, enquanto o Corpo de Armas do Vaticano se ajoelha. A assistência observa um silêncio religioso. Após o Papa ter se assentado em seu trono e comungado com o cerimonial habitual, o diácono e o subdiácono comungam igualmente. A Missa termina, o Papa se levanta novamente na sede gestatória, entre os flabelos, sob um baldaquino suntuoso, e é levado a um pódio especialmente erigido em frente ao altar da confissão. Neste momento, o Cardeal Decano recita a oração do novo Pontífice eleito e, em seguida, o Cardeal subdiácono retira a mitra, enquanto o Cardeal diácono coloca a tiara e pronuncia a entronização. O Papa então lê em voz alta algumas orações, em seguida sobe ao trono e dá a benção solene à assistência, que aclama calorosamente o Pontífice enquanto este atravessa a igreja para se dirigir ao altar da Pietà. O Papa recebe os votos do Sacro Colégio, e, depois, pela escada interior da capela do Santíssimo Sacramento, finalmente entra em seus apartamentos. »

* * *

O blog está em recesso até a Semana Santa. A moderação dos comentários pode demorar mais do que o habitual —   no momento, há 211 comentários aguardando liberação. Notícias urgentes podem ser postadas a qualquer momento.

12 março, 2013

Giuseppe Sarto, a eleição de um santo (III – Final).

Leia antes o primeiro e segundo posts da série.

As razões por trás da eleição

São Pio X, rogai por nós!A eleição de um cardeal ao Sumo Pontificado é sempre o resultado de muitas considerações, políticas e espirituais. Se Sarto foi eleito, é porque havia um amplo acordo quanto a seu nome. Não que uma grande maioria de cardeais compartilhavam a mesma visão sobre ele, mas, antes, havia um acúmulo das várias razões que eles individualmente tinham para querê-lo como Papa. Gianpaolo Romanato assim resumiu estes motivos:

O Patriarca de Veneza parecia ser a pessoa mais satisfatória. Seus traços biográficos representavam uma espécie de garantia. Ele era um homem do povo, muito humilde, e não da nobreza; havia nascido não nos Estados Papais, mas no Reino da Lombardia-Venécia; ele nunca servira como diplomata pontifício; era um homem discretamente culto, mas não um intelectual; passara toda a sua carreira na cura das almas; era de conhecimento geral que, se necessário, ele sabia mandar e fazer-se obedecido. Além do mais, era conhecido por sua profunda piedade; totalmente distante dos lobbies romanos e desprovido de interesses pessoais. Por último, mas não menos importante, ele tinha exatamente a idade certa (68) para dar a todos as necessárias garantias de discernimento e prudência”. [Romanato, “Pio X: profile storico”, in Sulle orme di Pio X, p. 13.] 

Em suma, de muitas formas ele era o anti-Rampolla. Até o veto, o conclave havia sido em grande parte um reflexo das lutas de influência entre os grandes blocos de poder. O veto austríaco escandalizou muitos cardeais e fez com que eles vissem que o critério para escolher o sucessor de São Pedro deveria ser essencialmente religioso. Também é possível que, mesmo que os participantes do conclave ainda não tivessem informação suficiente para avaliar os resultados do pontificado de Leão XIII, eles tinham algumas de suas deficiências em mente. Enquanto as encíclicas sociais de Leão XIII, o seu prestígio com certos governos e seu encorajamento da renovação intelectual cristã (notavelmente através de um retorno à filosofia tomista e da renovação dos estudos bíblicos) contavam a seu favor, os observadores mais atentos não podiam deixar de ver os problemas que permaneceram não resolvidos: a inadequada formação do clero italiano e o seu laxismo, a crescente laicização das consciências e dos estados, os primeiros sinais do modernismo, etc. Dando os seus votos gradativamente ao Cardeal Sarto, os cardeais do conclave de 1903, evidentemente, queriam romper com um certo tipo de pontificado e com uma certa maneira com que a Igreja se apresentava ao mundo. Sem exagerar grosseiramente as diferenças — pois havia também continuidade –, podemos dizer que os cardeais queriam ver um papa proeminentemente político sucedido por um papa religioso, que traria a Igreja “de volta ao centro” — o centro sendo Cristo — ao unir o povo cristão nos fundamentos da disciplina e da defesa da fé.

O Cardeal Sarto, no entanto, não aspirava ao Sumo Pontificado. Há uma riqueza de detalhadas evidências de que ele não estava fingindo uma aparente humildade; nem é esta imagem o resultado de reconstrução hagiográfica após o acontecimento. Na mesma medida em que os votos cresciam para o Patriarca de Veneza, aumentava também a sua apreensão. Após o quarto escrutínio, ele declarou que “não foi feito para o Papado, e que as pessoas estavam usando o seu nome sem consultá-lo” [Landrieux, “Le Conclave de 1903”, p. 176]. Diversos cardeais foram à sua cela para encorajá-lo a não rejeitar o ofício pontifício se este lhe fosse confiado. O Cardeal Satolli repetiu a ele as palavras de Cristo a São Pedro, andando sobre as águas: “Ego sum, nolite timere!” e, sorrindo, disse-lhe: “Deus que vos ajudou a comandar a gôndola de São Marcos, ajudará a guiar a barca de São Pedro”. Após a quinta votação, parecia que movimento em favor do Patriarca de Veneza só poderia ficar cada vez mais forte. Porém, como relatou o conclavista Landrieux, “após o escrutínio, Sarto se levantou e declarou que ele era indigno da escolha que muitos estavam fazendo, e lhes implorou que votassem em outros” [Ibid., p. 178].

Os escrúpulos e as recusas do Cardeal Sarto eram tão insistentes que o Cardeal Decano, Oreglia di San Stefano, pediu a Monsenhor Merry del Val que fosse vê-lo. Monsenhor Merry del Val fez um relato deste primeiro encontro com o homem de quem ele seria o principal colaborador:

Sua Eminência (Cardeal Oreglia di San Stefano) se sentiu obrigado em consciência a assegurar que o conclave não se arrastasse [em um impasse], e enviou-me ao Cardeal Sarto para questioná-lo se ele insistiria em sua recusa e, fazendo-o, se desejaria e autorizaria que Sua Eminência, o Cardeal Decano, fizesse uma pública e definitiva declaração a este respeito ao conclave durante a sessão da tarde. Neste caso, o Cardeal Decano convidaria os seus confrades a refletir e ao menos a considerar a possibilidade de direcionar suas escolhas a outro candidato.

Eu parti imediatamente para procurar o Cardeal Sarto. Disseram-me que ele não estava em seu quarto e que eu provavelmente o encontraria na capela Paulina.

Era quase meia-noite quando adentrei à silenciosa e sombria capela…

Eu notei um cardeal ajoealhado no chão de mármore próximo ao altar, absorto em oração, com a cabeça entre as mãos e seus cotovelos apoiados em um pequeno banco.

Era o Cardeal Sarto.

Ajoelhei-me ao seu lado e, em voz baixa, dei-lhe a mensagem da qual havia sido incumbido.

Sua Eminência, assim que me compreendeu, levantou os seus olhos e lentamente voltou sua cabeça para mim, com lágrimas transbordando de seus olhos…

“Sim, sim, Monsignore”, ele acrescentou gentilmente, “pedi ao Cardeal Decano que me faça esta caridade…”

As únicas palavras que tive forças para expressar, e que vieram espontaneamente aos meus lábios, foram:

“Eminência, tende coragem! O Senhor vos ajudará!” [Cardeal Merry del Val, Pie X, Impressions et souvenirs”, p. 51]

Quando Pio X escreveu, nas primeiras linhas de sua primeira encíclica, “inútil é lembrar-vos com que lágrimas e com que ardentes preces Nos esforçamos por desviar de nós o múnus tão pesado do Pontificado supremo”, não se tratava de mera formulação costumeira de palavras.

A eleição

Entrementes, o Cardeal Sarto havia se restabelecido de suas apreensões. Outros cardeais, particularmente Ferrari e Satolli, vieram fazer “um premente apelo à sua consciência, para persuadi-lo a aceitar o sacrifício. [Cardeal Mathieu, “Les derniers jours”, p. 283.] O Cardeal Rampolla, apesar de seus votos em declínio, manteve sua candidatura. Fê-lo, afirmou ele, “por uma questão de princípio” e estava agindo “sob conselho formal de seu confessor”. [Cardeal Perraud, “Jounal du Conclave de 1903”, pp. 65-66.] Esta atitude, ao fim, atrasou a eleição do Cardeal Sarto. Parecia mesmo, após várias abordagens relatadas pelo Cardeal Perraud, que a obstinação de Rampolla era uma tática deliberada de obstrução contra Sarto. [O Cardeal Perraud relata duas visitas que o Cardeal Rampolla lhe fez em 4 de agosto: Ibid., p. 67. O Padre Landrieux, por sua vez, conta em seu Diário os esforços feitos pelos cardeais franceses para persuadir Rampolla a se retirar “nobremente”: a recusa deste impressionou os purpurados. Landrieux observa, sobre o penúltimo dia do conclave, após o sexto escrutínio no qual Rampolla recebeu apenas 16 votos (apenas metade do que recebera no dia anterior): “O comportamento de Rampolla é incompreensível. Ele não alcançou nada. Em quatro escrutínios, manteve 30 votos a seu favor para nada. Ele foi incapaz e relutante em dar qualquer direção àqueles que o apoiaram. Ele se recusou a sair quando se viu comprometido e perdeu o momento psicológico quando ele poderia salvar tudo com uma saída digna e honrosa”(“Le Conclave de 1903”, p. 179).]

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Finalmente, na votação — a sétima — da manhã de 4 de agosto, Cardeal Sarto recebeu 50 votos, contra apenas 10 do Cardeal Rampolla e 2 do Cardeal Gotti. “O Cardeal Sarto estava acabado”, recorda o Cardeal Mathieu: “seus olhos estavam cheios de lágrimas, o suor escorria por sua face e parecia estar quase desmaiando”. Segundo o ritual, o Cardeal Oreglia, Decano do Sacro Colégio, dirigiu-se a ele com dois outros cardeais para questionar ao recém eleito:

“Aceitais a eleição que canonicamente vos faz Soberano Pontífice?”

O Cardeal Sarto respondeu humildemente:

“Quoniam calix non potest transire, fiat voluntas Dei! (Já que não posso afastar-me deste cálice, faça-se a vontade de Deus)”.

Canonicamente, esta não era a resposta correta. O Cardeal Oreglia questionou novamente:

“Aceitais ou não?”

Então o Cardeal Sarto respondeu com a fórmula exigida:

Accepto!”

E quando questionado sobre qual nome ele doravante gostaria de ter, declarou:

“Pius Decimus (Pio X)”.

Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 124-127 | Tradução: Fratres in Unum.com. As notas com meras remissões bibliográficas foram excluídas.

11 março, 2013

Giuseppe Sarto, a eleição de um santo (II).

Leia antes o primeiro post da série.

O veto contra Rampolla

Cardeal Mariano Rampolla.

Cardeal Mariano Rampolla.

Até o quinto escrutínio, Rampolla era o “candidato” mais bem colocado, ao menos com a maioria dos votos. Para muitos observadores não eclesiásticos, e para um certo número de cardeais, como dissemos, ele era o candidato óbvio para suceder a Leão XIII, uma vez que as pessoas estavam certas de que ele daria continuidade às políticas do Papa a quem servira como Secretário de Estado. Isso explica o elevado número de votos em seu favor nos primeiros escrutínios. Relativamente pouca atenção foi dada, todavia, ao fato de que o crescimento de seus votos, de um escrutínio a outro, não era impressivo. Da segunda para a terceira votação ele ficou estagnado em 29, um sinal de que seu nome encontrava dura oposição no coração do Sagrado Colégio e que ele havia atingido, talvez, o máximo de votos possível. Neste ponto, antes da quarta votação, ocorreu o que ficaria conhecido como o “veto” do cardeal Puzyna.

Cardeal Puzyna, Princípe de Kozielsko, Bispo de Cracóvia (então dentro do Império Austríaco), levantou-se para ler uma declaração em latim. [Ele o fez “ao sinal do Cardeal Kopp”, afirma Landrieux, informado por um cardeal (“Le Conclave de 1903”, p. 177). Cardeal Kopp era o bispo de Breslau (hoje Wroclaw, Polônia)]

Ele declarou: “… oficialmente e em nome e pela autoridade de Franz-Josef, Imperador da Áustria e Rei da Hungria, que Sua Majestade, em virtude de um antigo direito e privilégio, pronuncia um veto de exclusão contra o meu Eminentíssimo Senhor, o Cardeal Mariano Rampolla del Tindaro”. [O Cardeal Mathieu, em “Les derniers jours de León XIII et le conclave de 1903”, p. 280, dá o  texto latino integral da declaração; Marchesan, p. 483, o reproduz. As outra fontes dão a substância do texto, com notáveis diferenças (Cardeal Perraud insistia na natureza “semi-oficial” do veto).]

O Cardeal Puzyna falou muito rapidamente, com enorme emoção. Muitos cardeais não compreenderam o que a sua declaração significava, e alguns sequer ouviram-na completamente. Um cardeal italiano então leu a declaração novamente em voz clara. Todos entenderam que um veto fora lançado contra o Cardeal Rampolla.

Nenhum dos participantes do conclave, nos relatos escritos que citamos, deu as razões que levaram a Áustria a pronunciar este veto. Nem os primeiros biógrafos de Pio X se arriscaram a especular o motivo dessa exclusão do antigo Secretário de Estado de Leão XIII. Desde então, os historiadores aventaram razões de natureza política. A Áustria estaria insatisfeita com o apoio dado pelo antigo Secretário de Estado às aspirações de eslavos e balcânicos, e o próprio cardeal Puzyna havia acusado Rampolla de ter sacrificado os interesses dos poloneses em favor de suas políticas pró-Rússia.

Algumas de suas críticas são ecoadas nos relatórios de diplomatas franceses à época da eleição. Quando o conclave estava para começar, Bihourd, embaixador da França em Berlim, escreveu ao seu governo: “O que o governo austro-húngaro mais teme é o possível sucesso do Cardeal Rampolla. Em Viena, teme-se que a sua eleição apenas encorajaria as aspirações de independência por parte dos católicos eslávos na Croácia, Carniola, Boemia e outras partes do reinado”. [Cf. Aubert, “Pio X tra restaurazione e riforma”, Storia della Chiesa, vol. XXII/1, La Chiesa e la società industriale, pp. 108-109, que remete aos estudos de F. Engel-Janosi e Z. Obertynski.] … Após a eleição, contudo, o cônsul-geral da França na Hungria daria uma razão adicional: “Não é tanto a hostilidade do antigo Secretário de Estado vis-à-vis a Tríplice Aliança que levou a esta intervenção direta da Áustria, mas a sua obstinada frustração, em diversas ocasiões, dos interesses da Hungria”, e deu como exemplos as dificuldades encontradas em relação às indicações episcopais na Hungria e sua rejeição — oposta pela Santa Sé — do desejo do Império de ver o cardinalato concedido a Dom Samossa. [Relatório do cônsul-geral da França na Hungria ao Ministro de Assuntos Exteriores, 12 de agosto de 19023, AMAE, NS 4, f.46-49.]

Alguns outros escritores levantaram outra razão para o veto austríaco estritamente religiosa: o Cardeal Rampolla supostamente era maçom. [O Marquês de La Franquerie, em seu livreto Saint Pie X sauveur de L’Église et de la France (Montsûrs: Éditions Résiac, 1976), p.3, escreve: “Devemos ter em mente que o Cardeal Rampolla estava praticamente eleito, mas o Imperador da Áustria – sem dúvida ciente de que o Secretário de Estado de Leão XIII pertencia à maçonaria – lançou o seu veto. Este veto providencialmente evitou que uma ferramente de Lúcifer ascendesse ao trono pontifício, e felizmente resultou em um Santo sendo elevado e ele”.] Na época não houve nenhuma menção disso, nem em relatórios de diplomatas nem nos escritos dos participantes do conclave, e sequer pelos “integristas” da La Sapinière[Em 1913, em uma lista elaborada por Monsenhor Benigni e alguns de seus amigos antes do futuro conclave, apenas um cardeal era suspeito de ser maçom; Agliardi foi julgado muito severamente: “um homem de tipo superior, sua mente cheia de ilusões, um sonhador, o Júlio Verne da política eclesiástica, o Crispi do governo papal, um megalomaníaco” (lista publicada por Émile Poulat, Intégrisme et catholicisme intégral [Tournai-Paris: Casterman, 1969], pp. 329-330).] Só após o pontificado de Pio X é que este rumor começou a se espalhar. [O rumor de que ele pertencera à maçonaria apenas começou a ser difundido após 1929, em decorrência dos artigos que apareceram em publicações contra-revolucionárias: cf. as citações encontradas em Georges Virabeau, Prélats et francs-maçons (Paris: Publications HC, 1978), pp. 26-31.] Podemos imaginar que se houvesse a mínima suspeita a este respeito em 1903, o Cardeal Sarto, uma vez eleito Papa, teria removido o Cardeal Rampolla de toda função pública na Igreja. Rampolla, no entanto, embora tenha perdido o posto de Secretário de Estado, manteve a maior parte de suas funções no pontificado de Pio X, e mesmo alcançou outras novas. Ademais, nós veremos que, se ele apenas exercia um papel secundário, era porque voluntariamente ingressara em uma semi-aposentadoria.

Neste momento, porém, confrontado com o veto impetrado contra si, o Cardeal Rampolla levantou-se e respondeu, calmamente, em latim: “Em nome dos princípios, protesto contra este ataque à liberdade e dignidade do Sagrado Colégio. No que diz respeito à minha própria pessoa, eu declaro que nada mais agradável e honroso (nihil jucundius, nihis honorabilius) poderia me acontecer”. Oreglia, o Cardeal Decano, fez uma declaração protestando contra esta intervenção estrangeira e afirmou que o conclave manteria a sua completa liberdade. Posteriormente, o Cardeal Perraud, em nome dos cardeais franceses, também fez o seu protesto.[Alguns meses após a sua eleição, na Constituição Apostólica Commissum nobis (20 de janeiro de 1904), Pio X formalmente condenou esta prática do veto ou exclusive e ameaçou de excomunhão qualquer cardeal que, no futuro, concordasse a apresentar tal medida no conclave (Documents pontificaux, vol. I, pp. 85-87).]

Inicialmente, o veto austríaco não teve nenhum efeito, uma vez que, no quarto escrutínio, o Cardeal Rampolla continuou a ter a maioria dos votos, mesmo que só tivesse alcançado um voto a mais do que nas votações anteriores e estivesse longe de obter os necessários dois terços dos votos. Diferentemente, o Cardeal Sarto continuava a avançar tranquilamente. Ele recebeu 24 votos neste quarto escrutínio e 27 no seguinte — o maior número de votos entre todos os cardeais nesta quinta votação. Tornava-se mais e mais certo que ele seria eleito ao Sumo Pontificado.

Continua…

Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 121-124 | Tradução: Fratres in Unum.com. As notas com meras remissões bibliográficas foram excluídas.

9 março, 2013

Giuseppe Sarto, a eleição de um santo (I).

Iniciamos hoje uma série sobre a eleição ao Sólio Pontifício de São Pio X, que esperamos concluir até a eleição do novo Sumo Pontífice.

sartoOs eleitores entraram em conclave na sexta-feira, 31 de julho de 1903, às 5 da tarde. Os cardeais poderiam ser acompanhados por duas pessoas, diante dos quais eles manteriam o mais absoluto sigilo: um “conclavista” e um “guarda nobre”. O Cardeal Sarto escolheu Monsenhor Bressa como seu conclavista e o Conde Stanislao Mucciolli como seu guarda nobre.

A cargo do conclave estavam o Decano do Sagrado Colégio e Camerlengo, Cardeal Oreglia de San Stefano, o único purpurado vivo criado por Pio IX. Monsenhor Merry del Val, presidente da Academia de Nobres Eclesiásticos, era o secretário do conclave. Monsenhor Cagiado de Azevedo e o Príncipe Mario Chigi eram, respectivamente, governador e marechal do conclave.

Sessenta e dois cardeais se reuniram na Capela Sistina para proferir o juramento [Dos 62 cardeais presentes no conclave, dois (Herrero e Cretoni) estavam doentes e tiveram que permanecer na cama; eles não puderam estar presentes nas sessões de votação na Capela Sistina.]

A Sistina servia tanto como lugar de orações quanto espaço para a contagem dos votos. Ao se aproximar às 8 da noite, os cerimoniários percorreram os corredores lançando o famoso brado extra omnes (“todos fora!”) enquanto o Cardeal Oreglia e seus assistentes se certificavam de que todas as portas estavam fechadas e todas as frestas lacradas, de modo que não pudesse haver comunicação entre os cardeais e o mundo de fora.

No dia seguinte, o Cardeal Sarto contou a seu secretário que não havia conseguido dormir. Ele passara grande parte da noite em oração. Na manhã do primeiro dia, após a chamada Missa “de comunhão” — os cardeais não celebravam a Missa, mas assistiam a celebração do Cardeal Decano e recebiam a Comunhão de suas mãos –, ocorreu a primeira votação.

A eleição ao Sumo Pontificado não pode ser comparada às eleições políticas que ocorrem nas democracias. Enquanto pode haver encontros entre cardeais antes e durante o conclave, não há “campanha eleitoral”– ou ao menos não deveria haver. Não há candidatos, promessas ou acordos — ou ao menos não deveria haver. Antes de cada voto, os cardeais proferem um juramento, com as mãos sobre os Evangelhos, de votar segundo as suas consciências: “Chamo por testemunha a Cristo, que um dia será meu Juiz, de que estou votando naquele que, diante de Deus, acredito ser o mais digno de ser eleito”. Há uma outra diferença: a eleição não se dá por uma simples maioria de votos. Para ser eleito, o futuro papa precisa ter alcançado dois terços dos votos. O novo papa não deve aparecer como tendo sido eleito por um partido em oposição a outro: deve haver o maior consenso possível.

Historicamente, os conclaves foram mais curtos ou mais longos. Três escrutínios foram necessários para eleger Leão XIII e sete para eleger aquele que tomaria o nome de Pio X. O curso do conclave que elegeu este último é bem conhecido pelos relatos de vários participantes, em escritos publicados logo depois do conclave ou postumamente: os cardeais franceses Mathieu e Perraud, o conclavista Maurice Landrieux, o secretário do conclave Merry del Val. A estas fontes podemos acrescentar a reconstrução feita pelo biógrafo “autorizado”, Marchesan.

Os resultados obtidos pelos três principais “candidatos” ao longo de sete votações podem ser assim apresentados: [Marchesan e as outras fontes citadas concordam quanto ao número de votos, em cada escrutínio, do principal papabile. Por outro lado, há divergência ou silêncio sobre o número de votos dos candidatos secundários. Damos aqui os números fornecidos pela embaixada francesa na Santa Sé, AMAE, NS 4, f. 36-37).]

 

1 de agosto

 

2 de agosto

 

3 de agosto

 

4 de agosto

 

Manhã

Tarde

Manhã

Tarde

Manhã

Tarde

manhã

Rampolla

24

29

29

30

24

16

10

Gotti

17

16

9

3

6

7

2

Sarto

5

10

21

24

27

35

50

Para ser completo, deve-se notar que os cardeais Serafino Vannutelli, Oreglia di San Stefano, Capecelatro, Di Pietro, Agliardi, Ferrata, Cassetta, Portanova, Segna, Tripedi e Richelmy receberam, cada um, um ou mais votos no primeiro ou seguintes escrutínios. Mas eles nunca se encontraram entre os favoritos e no sétimo e último escrutínio apenas os cardeais Sarto, Rampolla e Gotti estavam na contagem. Sarto obteve 5 votos na primeira votação e 10 na segunda, o que o instigou a dizer, em latim, ao cardeal Lecto, que estava ao seu lado: “Volunt jocare super nomen meum” (“Eles querem fazer uma piada com o meu nome”).

Continua…

Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 119-121 | Tradução: Fratres in Unum.comAs notas com meras remissões bibliográficas foram excluídas.

18 outubro, 2012

Um centenário memorável e nossa sugestão para o Ano da Fé: Catecismo de São Pio X.

Na efervescência das comemorações dos cinquenta anos do Concílio Vaticano II e dos vinte anos do Catecismo da Igreja Católica, caiu no completo esquecimento o centésimo aniversário do Catecismo de São Pio X comemorado hoje.

Nada impede, declarou em 2003 o então Cardeal Joseph Ratzinger, que em nossos dias “possa haver pessoas ou grupos de pessoas que se sintam mais à vontade com o Catecismo de São Pio X”. Não só mais à vontade, mas convictas de que a segurança, clareza e eficiência, cujos resultados falam por si, do Catecismo da Doutrina Cristã é um santo remédio para a “auto-demolição da Igreja” e para a perda de Fé generalizada — ainda mais em tempos de “catecismos” joviais de conteúdo duvidoso e questionável.

Eis, portanto, a nossa sugestão para o Ano da Fé: baixe-a aqui.

* * *

O Papa do Catecismo

Em 1909, o Papa [São Pio X] criou a Comissão Catequética com a função de preparar um novo catecismo segundo as suas orientações. Esta comissão era composta por três membros (incluindo o Pe. Pietro Benedetti e Mons. Faberi). O Papa afirmou que este catecismo deveria ser “mais curto e mais adaptado às necessidades de hoje” [1].

Cinco versões foram elaboradas entre 1909 e 1911. Em novembro de 1911, a última delas foi submetida a 50 cardeais, bispos e prelados italianos, para suas observações. A Comissão levou em consideração as sugestões feitas. Vale notar que foi solicitado a um poeta, Guido Salvadori, que lesse e aperfeiçoasse a obra do ponto de vista estilístico [2]. Finalmente, em outubro de 1912, o Catechismo della dottrina cristiana foi publicado.

Em sua carta de aprovação a este novo catecismo, Pio X claramente indicava as melhorias que foram introduzidas:

“Temos confiança de que, com a benção do Senhor, este novo texto será mais útil. Ele oferecerá tantas vantagens quanto o antigo, ou até mais. O menor volume do livro e o menor número de questões a aprender serão menos desencorajadores para os jovens, que já estão sobrecarregados com seus afazeres escolares; com a ajuda de seus professores e catequistas, eles poderão aprendê-lo todo. Apesar de sua brevidade, ele contém melhores explicações e lança mais luzes sobre as verdades que hoje, para grande prejuízo das almas e da sociedade, são mais atacadas, mais incompreendidas ou mais esquecidas. Ademais, Nós confiamos que ele encontrará utilidade mesmo entre adultos que desejam, ou que — por conta de suas responsabilidades para ter uma vida mais digna e para melhorar a eduçacão em suas famílias — são obrigados a reviver em suas almas aquele conhecimento fundamental sobre o qual se baseiam a vida espiritual e a moral Cristã” [3].

Duas versões do catecismo foram publicadas. Havia uma mais curta, intitulada Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, que seria chamada, mais simplesmente, de Pequeno Catecismo; era destinada a crianças em preparação para a confissão e primeira comunhão. Ela consistia em um texto de orações e conceitos básicos da Fé Cristã, seguido de 188 perguntas e respostas. A versão mais longa, intitulada O Catecismo da Doutrina Cristã, consistia em 814 perguntas e respostas, seguindo a mesma estrutura do Catecismo do Concílio de Trento: I. A Fé (o Credo); II. A Lei (os Mandamentos de Deus, os preceitos da Igreja, as Virtudes); III. Graça (os sacramentos, oração) [4].

Ao aprovar este catecismo, Pio X o fez obrigatório apenas para a Diocese de Roma e sua província eclesiástica. Porém, a exemplo de seu predecessor, expressou o desejo de que as outras dioceses da Itália também o adotassem. Foi o que ocorreu. Sua clareza, assim como sua organização coerente, encontrou admiradores além das fronteiras. Em 1913, foram feitas traduções para o Espanhol, Alemão, Francês (uma em Paris e outra em Annecy) e Inglês.

[1] Carta Fin dai Primordi, 18 de outubro de 1912, Documents pontificaux, vol. II, p. 477

[2] Guglielmoni, “Il pionieri della catechesi”, in L’ultimo papa santo Pio X, p. 157

[3] Carta Fin dai Primordi, p. 478

[4] Referimo-nos à última edição italiana: Catechismo di San Pio X (Salpan Editore, Matino, 1991).

Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 287-288 – Tradução: Fratres in Unum.com

3 setembro, 2012

“Esta é a paz da Igreja”.

E sim, peçamos a paz, tal como é compreendida e desejada pelos filhos de Deus; uma paz digna deste nome, que a Sagrada Escritura de modo algum separa da Verdade, da Justiça e da Graça; esta é a paz da Igreja: o tranquilo cumprimento da lei cristã, o pacífico desenvolvimento das obras da Fé e Caridade, a afirmação pública da verdade e dos preceitos do Evangelho, a conformidade das leis e instituições humanas com a doutrina e o ensinamento moral de Jesus Cristo, a contínua resistência ao Príncipe das Trevas e a todos aqueles que propagam as suas perversas máximas.

Dom Giuseppe Melchiorre Sarto, então bispo de Mântua — futuro São Pio X, alocução de 3 de setembro de 1889. Citado em Dal-Gal, Pie X, apud Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, p.297 – Tradução: Fratres in Unum.com