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10 outubro, 2013

São Vicente Ferrer, um proselitista anti-conciliar.

Apresentamos a tradução de um texto do historiador dominicano Vicente Beltrán de Heredia sobre o costume medieval de se pregar nas sinagogas e realizar controvérsias com rabinos nos tempos de São Vicente Ferrer, um santo acusado de judeufobia, e que, se vivesse hoje, dificilmente receberia um doutorado honoris causa nas universidades ditas católicas.

S. Vicente Ferrer.

S. Vicente Ferrer.

A Chamada do Santo Pregador [Vicente Ferrer] pelo papa Luna [ndr: então anti-papa Bento XIII] obedecia à urgência em prover um sucessor ao rei Dom Martin de Aragão. Naquele mesmo ano de 1412, com o voto decisivo de São Vicente, foi nomeado Dom Fernando de Antequera [como sucessor de Dom Martin]. Tanto ele como Luna eram ferrenhos defensores de levar a cabo, por todos os meios lícitos, a conversão dos judeus. O dominicano, em suas andanças naquele ano e no ano seguinte, inclusive quando se dirigia a Caspe para assistir à famosa reunião do Compromisso, pregava nas sinagogas com abundante fruto. As últimas investigações assinalam sua passagem por Zaragoza, Teruel, Ainsa, Maella, Alcorisa, Castellote, Alcañiz, etc.

Mas este trabalho era demasiado lento e todos tinham pressa em levá-lo a cabo.

Para isso, Bento XIII, sem dúvida de acordo com o rei, decidiu convocar os rabinos de Aragão para um congresso de conferências que ocorreria em Tortosa; e onde uns e outros, mestres cristãos e judeus, teriam de discutir sobre suas diferenças religiosas.

O santo tomou parte ativa nelas [nas conferências]. Ele mesmo colaborou na composição de um tratado Adversus Judaeos, que versa acerca da vinda do Messias e da divindade de Jesus Cristo, tema sobre o qual costumava pregar nas sinagogas.

Compareceram nas conferências catorze dos mais doutos rabinos de Aragão e uma infinidade de representantes da comunidade judaica. O forte da discussão por parte dos cristãos repousou em Jerônimo de Santa Fé, um rabino convertido pelo dominicano valenciano, o qual, por ter profundos conhecimentos do Talmud, era o mais indicado para dissipar os erros contidos nele. Sua eloquência e a força de raciocínio surpreenderam os rabinos ali presentes, que ao fim de vários meses de discussão começaram a vacilar. Isso reconhece o citado Amador de los Ríos, que escreve: “Os mais sábios mestres da lei mosaica, chamados a Tortosa com o anseio de sair em sua defesa [da lei mosaica], sentiam nascer e crescer a dúvida em seus corações na medida em que se aferrava o debate. A inspirada oratória do converso dissipava, ao fim, as trevas do espírito, e eles creram na vinda do Messias verdadeiro e adoraram como Cristãos o Filho do Homem”. Somente dois dos rabinos presentes permaneceram obstinados.

As conversões em algumas comunidades foram numerosas. Calcula-se que, entre Aragão e Castilla, houve, nestes anos, umas 200.000 [conversões]. Humilhado o orgulho judaico, que nos anos de prosperidade achava na Espanha pretexto para perseverar em seus erros, alegando que a profecia de Jacó, «Non auferetur sceptrum de Juda», se verificava nela, onde tinham o centro do domínio e do governo, se creu conveniente estender a Aragão as normas restritivas adotadas em Castilla.

Por sua parte o papa Luna publicou em 1415 a bula Etsi doctoribus, em que, como medida profilática para afastar os judeus do trato com os cristãos, freia ainda mais a ousadia dos israelitas na propaganda de suas doutrinas, no exercício de suas profissões, na ostentação de seu culto, na prática da usura, mandando que três vezes ao ano se pregue em suas sinagogas sobre a vinda do Messias, o cumprimento das profecias e a concordância do Antigo com o Novo Testamento.

Toda esta política, ordenada a reprimir a demasiada liberdade e os excessos que a sua sombra  haviam cometido os judeus da Espanha durante o século XIV, e a impedir seu proselitismo entre os conversos, foi então e segue sendo hoje duramente censurada pelos mestres da seita [judaica]. Suas recriminações recaem em primeiro lugar sobre o pontífice Luna, o rei dom Fernando de Antequera e a rainha Catalina de Lancaster, e alcançam também aos conversos Jerónimo de Santa Fé e Pablo de Santa María, e, desde logo, a nosso Santo [Vicente Ferrer], como causadores principais de sua ruína. Na realidade, quase todas essas medidas estavam já acordadas em concílios anteriores, particularmente no provincial de Zamora de 1313 e nas Cortes de Castilla, “se bem que, pela grande influência judaica sobre nossos monarcas, não se cumpriram [as medidas]”.

Tampouco tiveram grande eficácia. Porque deposto, pouco depois, o Papa Luna, suas ordens perderam toda a força. E, no que diz respeito às ordens da rainha Catalina, uma testemunha, Alonso de Espina, que escrevia em 1460, diz que tampouco se cumpriam, já que os judeus compraram sua liberdade.

Mas interessa, de modo particular, defender o nosso Santo da acusação de antissemita, acusação feita pelos antigos e que, em nossos dias, é repetida pelo historiador rabínico Baer, apresentando como prova a Quaresma pregada por ele em Valencia no ano de 1413. O autorizado hebraísta Millás e Vallicrosa recordou esta acusação; e previa uma dupla leitura da referida Quaresma: “Cremos que nosso bom amigo, o professor Baer, equivocou-se ao descobrir intenções manifestamente antissemitas nestes sermões quaresmais. O problema judaico, um dos mais difíceis que pairava no horizonte espanhol, está absolutamente ausente, na forma e no conteúdo, em tais sermões”. E, voltando depois ao tema acrescenta que, longe de aparecer ali tendências antissemitas, encontra-se a mais resoluta condenação dos que a promoviam e patrocinavam.

E assim tinha que ser. As diretrizes deste apostolado vicentino eram as mesmas que havia ditado em seu tempo São Raimundo, ou seja, a persuasão, para que venham à Igreja, não forçados, mas convencidos de seu erro. O mesmo reconhece também o israelita Samarián, reproduzindo como evidência vários textos dos sermões catalães.

Concluamos, pois, que nosso Santo nessa campanha de apostolado pelas sinagogas foi fiel continuador daqueles que, tomados por um zelo de caridade, procuraram desinteressadamente a salvação de Israel. A crítica partidista de seus inimigos de sempre não pode privar-lhe desse mérito e dessa glória.

Fonte: Infocaótica