Posts tagged ‘Sedevacante 2013’

11 março, 2013

Curtinhas pré-conclave.

150 anos

Neste último domingo, 10, em que todos os cardeais celebraram em suas igrejas titulares em Roma, o também cotado Cardeal Angelo Scola, Arcebispo de Milão, convenceu com sua pregação: “Rezemos para que o Espírito Santo dê à Sua Igreja um homem que a conduza nos caminhos mostrados pelos grandes papas dos últimos 150 anos”. Uma recordação sutil de que a Igreja tem mais de 50 anos e não foi fundada no último Concílio.

Entendimento eucarístico

O cotadíssimo Cardeal brasileiro Odilo Scherer causou mal-estar entre os italianos em sua missa celebrada ontem em Roma, na igreja de Sant’Andrea al Quirinale, da qual é titular. O fato foi publicado pelo prestigioso blog Messa in Latino, para quem Scherer é o “candidato do campo progressista e dos que trabalham silenciosamente na cúria romana”. O sítio italiano qualifica o “modus celebrandi [de Scherer] unicamente como descuidado e no limite canônico do abuso” e dá como exemplo o não uso da “patena da comunhão, embora ela seja prescrita nas rubricas do Novus Ordo. Não há motivos para não usá-la, ao menos quando um Príncipe da Igreja está celebrando, afirmando que há falta de acólitos”. Modo de celebrar que “tem consequências: uma hóstia consagrada escorregou da mão do Cardeal e caiu no chão por falta da patena”. A reação do purpurado, para Messa in Latino, indicaria o “entendimento eucarístico” do purpurado: “O Cardeal Scherer se limitou a recolhê-la e nada mais. Ele agiu assim, embora em tais casos a prática normal seja recolher as partículas da hóstia e purificar o chão de maneira especial”. O vídeo do ocorrido pode ser visto no La Reppubblica.

No bolo.

“Eu acho difícil, mas eu tô nesse meio aí”. Foram as palavras do Cardeal João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os religiosos, ao Canal Livre da Band, sobre a possibilidade de ser eleito.

Cardeais apostam em conclave curto

“Creio que nesta semana já teremos um novo papa”, disse o Cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida, ao Estadão. Já o Cardeal Giovanni Lajolo, presidente emérito do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano, dá suas razões pragmáticas ao La Stampa: “O conclave será muito curto. Por quê? As irmãs é que cozinharão”.

Habemus Champions League

Nossa tradução de matéria de ZENIT Espanhol: Enquanto o conclave começa na próxima terça-feira, 12 de março, um acontecimento menos transcedente ocorrerá no Camp Nou, em Barcelona. À partir das 20:45, se decidirá quem será o semi-finalista da Champions League. Ocorre que dois papáveis, o cardeal Lluís Martínez Sistach [arcebispo de Barcelona] e o cardeal Angelo Scola, de Milão, são aficionados por futebol e, obviamente, cada um torcerá pela equipe da sua cidade, Barça e Milan, respectivamente. Segundo difundiu o diário madrilenho ABC, os dois purpurados comentaram sua “preocupação” pelo fato de, na Casa Santa Marta, onde se alojarão os eleitores durante o conclave, não ter televisores para poder acompanhar o encontro, nem se permitir a utilização de celulares ou internet.

11 março, 2013

Giuseppe Sarto, a eleição de um santo (II).

Leia antes o primeiro post da série.

O veto contra Rampolla

Cardeal Mariano Rampolla.

Cardeal Mariano Rampolla.

Até o quinto escrutínio, Rampolla era o “candidato” mais bem colocado, ao menos com a maioria dos votos. Para muitos observadores não eclesiásticos, e para um certo número de cardeais, como dissemos, ele era o candidato óbvio para suceder a Leão XIII, uma vez que as pessoas estavam certas de que ele daria continuidade às políticas do Papa a quem servira como Secretário de Estado. Isso explica o elevado número de votos em seu favor nos primeiros escrutínios. Relativamente pouca atenção foi dada, todavia, ao fato de que o crescimento de seus votos, de um escrutínio a outro, não era impressivo. Da segunda para a terceira votação ele ficou estagnado em 29, um sinal de que seu nome encontrava dura oposição no coração do Sagrado Colégio e que ele havia atingido, talvez, o máximo de votos possível. Neste ponto, antes da quarta votação, ocorreu o que ficaria conhecido como o “veto” do cardeal Puzyna.

Cardeal Puzyna, Princípe de Kozielsko, Bispo de Cracóvia (então dentro do Império Austríaco), levantou-se para ler uma declaração em latim. [Ele o fez “ao sinal do Cardeal Kopp”, afirma Landrieux, informado por um cardeal (“Le Conclave de 1903”, p. 177). Cardeal Kopp era o bispo de Breslau (hoje Wroclaw, Polônia)]

Ele declarou: “… oficialmente e em nome e pela autoridade de Franz-Josef, Imperador da Áustria e Rei da Hungria, que Sua Majestade, em virtude de um antigo direito e privilégio, pronuncia um veto de exclusão contra o meu Eminentíssimo Senhor, o Cardeal Mariano Rampolla del Tindaro”. [O Cardeal Mathieu, em “Les derniers jours de León XIII et le conclave de 1903”, p. 280, dá o  texto latino integral da declaração; Marchesan, p. 483, o reproduz. As outra fontes dão a substância do texto, com notáveis diferenças (Cardeal Perraud insistia na natureza “semi-oficial” do veto).]

O Cardeal Puzyna falou muito rapidamente, com enorme emoção. Muitos cardeais não compreenderam o que a sua declaração significava, e alguns sequer ouviram-na completamente. Um cardeal italiano então leu a declaração novamente em voz clara. Todos entenderam que um veto fora lançado contra o Cardeal Rampolla.

Nenhum dos participantes do conclave, nos relatos escritos que citamos, deu as razões que levaram a Áustria a pronunciar este veto. Nem os primeiros biógrafos de Pio X se arriscaram a especular o motivo dessa exclusão do antigo Secretário de Estado de Leão XIII. Desde então, os historiadores aventaram razões de natureza política. A Áustria estaria insatisfeita com o apoio dado pelo antigo Secretário de Estado às aspirações de eslavos e balcânicos, e o próprio cardeal Puzyna havia acusado Rampolla de ter sacrificado os interesses dos poloneses em favor de suas políticas pró-Rússia.

Algumas de suas críticas são ecoadas nos relatórios de diplomatas franceses à época da eleição. Quando o conclave estava para começar, Bihourd, embaixador da França em Berlim, escreveu ao seu governo: “O que o governo austro-húngaro mais teme é o possível sucesso do Cardeal Rampolla. Em Viena, teme-se que a sua eleição apenas encorajaria as aspirações de independência por parte dos católicos eslávos na Croácia, Carniola, Boemia e outras partes do reinado”. [Cf. Aubert, “Pio X tra restaurazione e riforma”, Storia della Chiesa, vol. XXII/1, La Chiesa e la società industriale, pp. 108-109, que remete aos estudos de F. Engel-Janosi e Z. Obertynski.] … Após a eleição, contudo, o cônsul-geral da França na Hungria daria uma razão adicional: “Não é tanto a hostilidade do antigo Secretário de Estado vis-à-vis a Tríplice Aliança que levou a esta intervenção direta da Áustria, mas a sua obstinada frustração, em diversas ocasiões, dos interesses da Hungria”, e deu como exemplos as dificuldades encontradas em relação às indicações episcopais na Hungria e sua rejeição — oposta pela Santa Sé — do desejo do Império de ver o cardinalato concedido a Dom Samossa. [Relatório do cônsul-geral da França na Hungria ao Ministro de Assuntos Exteriores, 12 de agosto de 19023, AMAE, NS 4, f.46-49.]

Alguns outros escritores levantaram outra razão para o veto austríaco estritamente religiosa: o Cardeal Rampolla supostamente era maçom. [O Marquês de La Franquerie, em seu livreto Saint Pie X sauveur de L’Église et de la France (Montsûrs: Éditions Résiac, 1976), p.3, escreve: “Devemos ter em mente que o Cardeal Rampolla estava praticamente eleito, mas o Imperador da Áustria – sem dúvida ciente de que o Secretário de Estado de Leão XIII pertencia à maçonaria – lançou o seu veto. Este veto providencialmente evitou que uma ferramente de Lúcifer ascendesse ao trono pontifício, e felizmente resultou em um Santo sendo elevado e ele”.] Na época não houve nenhuma menção disso, nem em relatórios de diplomatas nem nos escritos dos participantes do conclave, e sequer pelos “integristas” da La Sapinière[Em 1913, em uma lista elaborada por Monsenhor Benigni e alguns de seus amigos antes do futuro conclave, apenas um cardeal era suspeito de ser maçom; Agliardi foi julgado muito severamente: “um homem de tipo superior, sua mente cheia de ilusões, um sonhador, o Júlio Verne da política eclesiástica, o Crispi do governo papal, um megalomaníaco” (lista publicada por Émile Poulat, Intégrisme et catholicisme intégral [Tournai-Paris: Casterman, 1969], pp. 329-330).] Só após o pontificado de Pio X é que este rumor começou a se espalhar. [O rumor de que ele pertencera à maçonaria apenas começou a ser difundido após 1929, em decorrência dos artigos que apareceram em publicações contra-revolucionárias: cf. as citações encontradas em Georges Virabeau, Prélats et francs-maçons (Paris: Publications HC, 1978), pp. 26-31.] Podemos imaginar que se houvesse a mínima suspeita a este respeito em 1903, o Cardeal Sarto, uma vez eleito Papa, teria removido o Cardeal Rampolla de toda função pública na Igreja. Rampolla, no entanto, embora tenha perdido o posto de Secretário de Estado, manteve a maior parte de suas funções no pontificado de Pio X, e mesmo alcançou outras novas. Ademais, nós veremos que, se ele apenas exercia um papel secundário, era porque voluntariamente ingressara em uma semi-aposentadoria.

Neste momento, porém, confrontado com o veto impetrado contra si, o Cardeal Rampolla levantou-se e respondeu, calmamente, em latim: “Em nome dos princípios, protesto contra este ataque à liberdade e dignidade do Sagrado Colégio. No que diz respeito à minha própria pessoa, eu declaro que nada mais agradável e honroso (nihil jucundius, nihis honorabilius) poderia me acontecer”. Oreglia, o Cardeal Decano, fez uma declaração protestando contra esta intervenção estrangeira e afirmou que o conclave manteria a sua completa liberdade. Posteriormente, o Cardeal Perraud, em nome dos cardeais franceses, também fez o seu protesto.[Alguns meses após a sua eleição, na Constituição Apostólica Commissum nobis (20 de janeiro de 1904), Pio X formalmente condenou esta prática do veto ou exclusive e ameaçou de excomunhão qualquer cardeal que, no futuro, concordasse a apresentar tal medida no conclave (Documents pontificaux, vol. I, pp. 85-87).]

Inicialmente, o veto austríaco não teve nenhum efeito, uma vez que, no quarto escrutínio, o Cardeal Rampolla continuou a ter a maioria dos votos, mesmo que só tivesse alcançado um voto a mais do que nas votações anteriores e estivesse longe de obter os necessários dois terços dos votos. Diferentemente, o Cardeal Sarto continuava a avançar tranquilamente. Ele recebeu 24 votos neste quarto escrutínio e 27 no seguinte — o maior número de votos entre todos os cardeais nesta quinta votação. Tornava-se mais e mais certo que ele seria eleito ao Sumo Pontificado.

Continua…

Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 121-124 | Tradução: Fratres in Unum.com. As notas com meras remissões bibliográficas foram excluídas.

11 março, 2013

O Espírito Santo e o próximo conclave.

Por Roberto de Mattei

Em 5 de março de 2013 – Os olhos do mundo, não só dos católicos, estão voltados neste momento para São Pedro, a fim de saber quem será o novo Vigário de Cristo. A espera que se manifesta antes de cada Conclave é desta vez mais acurada e intensa, pela sucessão de acontecimentos que nos deixam chocados e confusos.

Massimo Franco escreve no “Corriere della Sera” de 27 de fevereiro de 2013 que “dentro da Cidade do Vaticano está se consumando o fim de um modelo de governo e de uma concepção do papado”, e compara a dificuldade que a Igreja atravessa hoje com a fase final da crise do Kremlin soviético. “O declínio do Império vaticano – escreve – acompanha aquele dos EUA e da União Europeia em crise econômica e demográfica. Mostra um modelo de papado e de governo eclesiástico centralizado, desafiado por uma realidade fragmentada e descentralizada”. A crise do império vaticano vem apresentada como uma crise de modelo de papado e de governo eclesiástico inadequado para o mundo do século XXI. A única saída seria a de um processo de “auto-reforma” que salvasse a instituição desnaturando-lhe a essência.

Na realidade, o que está em crise não é o governo “monocrático” conforme com a Tradição da Igreja, mas o sistema de governo nascido das reformas pós-conciliares, que nos últimos 50 anos vêm expropriando o Papado de sua autoridade soberana para redistribuir o poder entre as conferências episcopais e uma onipotente Secretaria de Estado. Mas, sobretudo Bento XVI e seus predecessores, por razões diversas de temperamento, se tornaram vítimas do mito da colegialidade de governo na qual sinceramente acreditaram, renunciando a assumir muitas responsabilidades que teriam podido resolver o problema da aparente ingovernabilidade da Igreja. A atualidade perene do Papado está no carisma que lhe é próprio: o primado de governo sobre a Igreja universal, da qual o magistério infalível é a decisiva expressão.

Bento XVI, dizem alguns, não exerceu com autoridade seu poder de governo, por ser um homem suave e manso, que não tem nem o caráter nem a força física para fazer frente a essa situação de grave ingovernabilidade. O Espírito Santo o iluminou infalivelmente, sugerindo-lhe o supremo sacrifício da renúncia ao pontificado para salvar a Igreja. Porém, não se dá conta de quanto este discurso seculariza e humaniza a figura do Sumo Pontífice. O governo da Igreja não se rege com base no caráter de um homem, mas em sua correspondência à assistência divina do Espírito Santo.

O Papado tem sido ocupado por homens de caráter imperioso e guerreiro como Júlio II, e por temperamento suave e amável como Pio IX. Mas foi o beato Pio IX, e não Júlio II, que correspondeu mais perfeitamente à graça, ascendendo ao cume da santidade própria ao exercício heroico do governo papal. A concepção segundo a qual um Papa fraco e cansado deve renunciar não é sobrenatural, mas naturalista, porque nega a ajuda decisiva ao Pontífice daquele Espírito Santo que impropriamente vem invocado. O naturalismo se transforma neste ponto no seu oposto: em um fidelismo de impronta pietista, pelo qual a penetração do Espírito Santo absorve a natureza humana e torna-se o fator regenerador da vida da Igreja. Trata-se de heresias antigas que hoje afloram até nos ambientes mais conservadores.

O erro, sempre mais difuso, é aquele de tentar justificar qualquer decisão que seja tomada por um Papa, por um Concílio, por uma Conferência Episcopal, em nome do princípio pelo qual “o Espírito Santo assiste sempre a Igreja”. A Igreja é por certo indefectível porque, graças à assistência do Espírito Santo, o “Espírito da Verdade” (Jo 14, 17), tem a garantia de seu Fundador de perseverar até o fim dos tempos na profissão dessa mesma fé, desses mesmos sacramentos, da mesma sucessão apostólica de governo. Indefectibilidade, todavia, não significa infalibilidade estendida a todos os atos de Magistério e de governo, nem tampouco impecabilidade da suprema hierarquia eclesiástica.

Na história da Igreja, explica Pio XII, “alternam-se vitórias e derrotas, subidas e descidas, heroicas confissões com o sacrifício de bens e da vida, mas também, em alguns de seus membros, queda, traição e divisão. Um testemunho da história é inequivocamente claro: o portae infero non praevalebunt (Mt 16, 18); mas também não falta a outra testemunha, até as portas do inferno tiveram o seu sucesso parcial”(Discurso De todo coração, de 14 de setembro 1956). Malgrado os sucessos parciais e aparentes do inferno, a Igreja não fica abalada nem pelas perseguições, nem pelas heresias ou pelos pecados de seus membros; pelo contrário, obtém nova força e nova vitalidade diante das graves crises que a golpeiam.

Mas se os erros, as quedas, as deserções não devem nos desencorajar, quando ocorrem não podem ser negados. Foi, por exemplo, o Espírito Santo que inspirou a escolha de Clemente V e de seus sucessores de transferir a sede do Papado de Roma para Avignon? Hoje os historiadores católicos concordam em defini-la como uma decisão gravemente errada, que enfraqueceu o Papado no século XIV, abrindo o caminho para o Grande Cisma do Ocidente.

Foi o Espírito Santo que sugeriu a eleição de Alexandre VI, um Papa que teve uma conduta profundamente imoral antes e depois de sua eleição? Nenhum teólogo, mas também nenhum católico, poderia sustentar que os 23 cardeais que elegeram o Papa Borgia foram iluminados pelo Espírito Santo. E se isso não aconteceu naquela eleição, pode-se imaginar que não aconteça em outras eleições e conclaves, que viram a escolha de Papas fracos, indignos, inadequados para a sua alta missão, sem que de algum modo isso prejudicasse a grandeza do Papado.

A Igreja é grande também porque sobrevive à pequenez dos homens. Pode, portanto, ser eleito um Papa imoral ou inapropriado. Pode acontecer que os cardeais do conclave rejeitem o influxo do Espírito Santo, e que o Espírito Santo, que assiste o Papa no cumprimento de toda a sua missão, seja recusado. Isso não significa que o Espírito Santo é derrotado pelos homens ou pelo demônio. Deus, e só Ele, é capaz de tirar o bem do mal e, portanto, a Providência guia todos os acontecimentos da História. No caso do conclave, explica em seu tratado sobre a Igreja o cardeal Journet, assistência do Espírito Santo significa que ainda que a eleição fosse o resultado de uma má escolha, tem-se a certeza de que o Espírito Santo, que assiste a Igreja transformando em bem até o mal, permite que isso aconteça por fins superiores e misteriosos. Mas o fato de que Deus tire o bem do mal praticado pelos homens, como aconteceu com o primeiro pecado de Adão, que foi a causa da Encarnação do Verbo, não significa que os homens possam fazer o mal sem culpa. E todo pecado deve ser pago, no tempo ou na eternidade.

Cada homem, cada nação, cada assembleia eclesiástica deve corresponder à graça, que para ser eficaz necessita da cooperação humana. Em face do processo de demolição da Igreja, do qual já falava Paulo VI, não se pode, portanto, permanecer com os braços cruzados, em um estado de otimismo pseudo-místico. Devemos rezar e agir, cada um de acordo com a sua própria possibilidade, para que esta crise tenha fim e a Igreja possa mostrar visivelmente aquela santidade e aquela beleza que jamais perdeu, e que nunca perderá até o fim dos tempos.

Fonte: Sal e Luz

10 março, 2013

O duro ataque de Dom João Braz de Aviz à Cúria Romana.

Cardeal João Braz de Avia, o representante brasileiro no consistório de hoje.

Cardeal João Braz de Avia.

Fratres in Unum.com – As congregações gerais, encontros que antecedem o ingresso dos cardeais na Sistina, servem para que os purpurados sintam-se livres para dizer coisas que não seriam muito apropriadas em uma capela. E até mesmo para chegar ao confronto.

Foi o que teria ocorrido ontem, segundo matéria de Marco Ansaldo na edição de hoje do La Reppubblica. Dom João Braz de Avia, 64 anos, criado cardeal no ano passado por Bento XVI, ao pedir a palavra, teria criticado duramente a cúria romana como um todo. O torpedo tinha endereço certo: os escândalos financeiros e a insuficiência de informação fornecida aos cardeais — referência clara ao relatório do Vatileaks, reservado por Bento XVI ao seu sucessor. Para Dom João, o Vaticano daria pouca atenção às igrejas locais e a Secretaria de Estado seria excessivamente centralizadora.

O brado do cardeal brasileiro teria gerado aplausos por parte de alguns de seus confrades, que depois o cumprimentaram pela intervenção. Ao fim da congregação, Bertone, por sua vez, parecia muito contrariado.

10 março, 2013

Foto da semana.

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Três conjuntos de vestes papais — tamanhos pequeno, médio e grande — são expostos na vitrine da alfaiataria Gammarelli, em Roma, na segunda-feira, 4 de março de 2013. Por mais de meio século, a familia Gammarelli produz a batina do Papa em três diferentes tamanhos e as entrega antes do início do conclave, a fim de vestir o novo pontífice eleito. Foto: AP/Andrew Medichini.

9 março, 2013

Giuseppe Sarto, a eleição de um santo (I).

Iniciamos hoje uma série sobre a eleição ao Sólio Pontifício de São Pio X, que esperamos concluir até a eleição do novo Sumo Pontífice.

sartoOs eleitores entraram em conclave na sexta-feira, 31 de julho de 1903, às 5 da tarde. Os cardeais poderiam ser acompanhados por duas pessoas, diante dos quais eles manteriam o mais absoluto sigilo: um “conclavista” e um “guarda nobre”. O Cardeal Sarto escolheu Monsenhor Bressa como seu conclavista e o Conde Stanislao Mucciolli como seu guarda nobre.

A cargo do conclave estavam o Decano do Sagrado Colégio e Camerlengo, Cardeal Oreglia de San Stefano, o único purpurado vivo criado por Pio IX. Monsenhor Merry del Val, presidente da Academia de Nobres Eclesiásticos, era o secretário do conclave. Monsenhor Cagiado de Azevedo e o Príncipe Mario Chigi eram, respectivamente, governador e marechal do conclave.

Sessenta e dois cardeais se reuniram na Capela Sistina para proferir o juramento [Dos 62 cardeais presentes no conclave, dois (Herrero e Cretoni) estavam doentes e tiveram que permanecer na cama; eles não puderam estar presentes nas sessões de votação na Capela Sistina.]

A Sistina servia tanto como lugar de orações quanto espaço para a contagem dos votos. Ao se aproximar às 8 da noite, os cerimoniários percorreram os corredores lançando o famoso brado extra omnes (“todos fora!”) enquanto o Cardeal Oreglia e seus assistentes se certificavam de que todas as portas estavam fechadas e todas as frestas lacradas, de modo que não pudesse haver comunicação entre os cardeais e o mundo de fora.

No dia seguinte, o Cardeal Sarto contou a seu secretário que não havia conseguido dormir. Ele passara grande parte da noite em oração. Na manhã do primeiro dia, após a chamada Missa “de comunhão” — os cardeais não celebravam a Missa, mas assistiam a celebração do Cardeal Decano e recebiam a Comunhão de suas mãos –, ocorreu a primeira votação.

A eleição ao Sumo Pontificado não pode ser comparada às eleições políticas que ocorrem nas democracias. Enquanto pode haver encontros entre cardeais antes e durante o conclave, não há “campanha eleitoral”– ou ao menos não deveria haver. Não há candidatos, promessas ou acordos — ou ao menos não deveria haver. Antes de cada voto, os cardeais proferem um juramento, com as mãos sobre os Evangelhos, de votar segundo as suas consciências: “Chamo por testemunha a Cristo, que um dia será meu Juiz, de que estou votando naquele que, diante de Deus, acredito ser o mais digno de ser eleito”. Há uma outra diferença: a eleição não se dá por uma simples maioria de votos. Para ser eleito, o futuro papa precisa ter alcançado dois terços dos votos. O novo papa não deve aparecer como tendo sido eleito por um partido em oposição a outro: deve haver o maior consenso possível.

Historicamente, os conclaves foram mais curtos ou mais longos. Três escrutínios foram necessários para eleger Leão XIII e sete para eleger aquele que tomaria o nome de Pio X. O curso do conclave que elegeu este último é bem conhecido pelos relatos de vários participantes, em escritos publicados logo depois do conclave ou postumamente: os cardeais franceses Mathieu e Perraud, o conclavista Maurice Landrieux, o secretário do conclave Merry del Val. A estas fontes podemos acrescentar a reconstrução feita pelo biógrafo “autorizado”, Marchesan.

Os resultados obtidos pelos três principais “candidatos” ao longo de sete votações podem ser assim apresentados: [Marchesan e as outras fontes citadas concordam quanto ao número de votos, em cada escrutínio, do principal papabile. Por outro lado, há divergência ou silêncio sobre o número de votos dos candidatos secundários. Damos aqui os números fornecidos pela embaixada francesa na Santa Sé, AMAE, NS 4, f. 36-37).]

 

1 de agosto

 

2 de agosto

 

3 de agosto

 

4 de agosto

 

Manhã

Tarde

Manhã

Tarde

Manhã

Tarde

manhã

Rampolla

24

29

29

30

24

16

10

Gotti

17

16

9

3

6

7

2

Sarto

5

10

21

24

27

35

50

Para ser completo, deve-se notar que os cardeais Serafino Vannutelli, Oreglia di San Stefano, Capecelatro, Di Pietro, Agliardi, Ferrata, Cassetta, Portanova, Segna, Tripedi e Richelmy receberam, cada um, um ou mais votos no primeiro ou seguintes escrutínios. Mas eles nunca se encontraram entre os favoritos e no sétimo e último escrutínio apenas os cardeais Sarto, Rampolla e Gotti estavam na contagem. Sarto obteve 5 votos na primeira votação e 10 na segunda, o que o instigou a dizer, em latim, ao cardeal Lecto, que estava ao seu lado: “Volunt jocare super nomen meum” (“Eles querem fazer uma piada com o meu nome”).

Continua…

Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 119-121 | Tradução: Fratres in Unum.comAs notas com meras remissões bibliográficas foram excluídas.

9 março, 2013

Frases da semana.

O nome de d. Odilo cresce em mais de um continente. As pessoas têm conversado entre si. O telefone não para. Se percebe que há um interesse muito explícito por d. Odilo. Vocês [jornalistas] podem divulgar, dos cardeais brasileiros, elementos que podem apresentá-lo como um bom candidato.

Palavras de Monsenhor Antonio Luiz Catelan, assessor dos cardeais brasileiros no pré-conclave, à Folha de São Paulo.

* * *

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“Todo mundo conhece o terrível caso do Padre Maciel. Quem estava envolvido nisso? Isso certamente é considerado [na escolha do novo sucessor de Pedro]. Mesmo se com toda boa fé eles estavam convencidos de que ele era um homem de Deus — e eles estavam –, isso não ajudará. Agora o caso é de conhecimento público… as pessoas sabem quem estava associado a ele [Maciel]. Isso contribuiria para um senso de que esta não é a direção a seguir”.

Declarações do Cardeal Francis George, arcebispo de Chicago, ao jornal Chicago Tribune, sobre as possibilidades no conclave dos cardeais da cúria romana envolvidos no caso Marcial Maciel.

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Saudações novamente de Roma, a Cidade Eterna, a Sé dos Santos Pedro e Paulo! Saudades! São já dez dias desde que deixei a arquidiocese, e como diz a velha canção, “Eu quero ir para casa!”.

Do post de 8 de março, sexta-feira, do Cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova York, em seu blog.

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“O papa deveria comprar uma casa numa favela e morar lá”.

 Dom José Maria Pires, de 94 anos, arcebispo emérito de João Pessoa, em entrevista ao Estado de Minas.

* * *

O Papa deve ser fiel ao Evangelho. Ele não pode dizer: de agora em diante mudamos o que está no evangelho de Jesus Cristo. Por exemplo, em matéria de aborto, as coisas não vão mudar. Por mais que o mundo inteiro fale, não acontecerá. Não ocorrerá que se permitam novas uniões sacramentais após o divórcio. Não se trata de conservadorismo. Nossa posição são os mandamentos da lei de Deus, com eles damos uma resposta ao mundo de hoje.

Assim falou o Cardeal Geraldo Majella Agnelo, arcebispo emérito de Salvador, ao Vatican Insider.

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Cardeal Walter KasperEu sugeriria a ele que não se deixasse ser usado por ninguém. O risco de que o governo da Igreja sofra a influência dele é muito grande. Ele fez uma escolha específica, que supõe um passo atrás. Ele, portanto, tem que ser discreto. Evitar se envolver com problemas relacionados ao governo da Igreja. Depois, eu conversaria amigavelmente com ele sobre o que agrada a nós dois, teologia.

Conselho que o Cardeal Walter Kasper daria a Bento XVI ao reencontrá-lo.

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“A mídia vem com todo tipo de nomes exóticos como potenciais papas, mas quem na verdade vai votar neles?”

Palavras de um membro italiano da cúria ao vaticanista Giacomo Galleazzi.

* * *

O Papa ideal não existe”.

Segundo o Cardeal Arcebispo de Bordeaux Jean-Pierre Ricard.

* * *

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Quando se pergunta quem elege o papa, é comum ouvir a resposta automática: os cardeais. Na verdade, à luz da fé, quem elege ou escolhe o papa é o Espírito Santo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ou seja, Deus mesmo.

Do artigo “Quem elege o papa?”, publicado por Zenit, de autoria do doutor canonista pela Lateranense Edson Luiz Sampel.

8 março, 2013

Conclave começa na próxima terça-feira, 12 de março.

É o que informa a Sala de Imprensa da Santa Sé. A missa pro eligendo pontifice será celebrada pela manhã e o conclave tem início no período da tarde.

8 março, 2013

Data do início do conclave será votada daqui a pouco.

Segundo o porta-voz da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, SJ, a data de início do conclave será colocada em votação na 8ª congregação geral, que começa logo mais em Roma.

[Atualização – 08 de março de2013, às 10:03] Segundo o porta-voz da Santa Sé, a decisão deve ser anunciada após às 19 horas de Roma, 15 horas no horário de Brasília.

7 março, 2013

A preparação da Sistina. O jeitinho brasileiro. Os cardeais ainda não estão prontos.

Fratres in Unum.com – Enquanto a Capela Sistina é preparada para o conclave (fotos do La Stampa), chegaram hoje a Roma os últimos cardeais votantes. É possível que a data do conclave seja definida amanhã, embora haja uma corrente de cardeais de fora de Roma que deseja ter mais tempo para conhecer melhor o que ocorre nos corredores vaticanos. Aliás, o atraso de alguns, como o Cardeal  alemão Lehmann, que sem maiores explicações só chegou a Roma ontem, é visto como uma tentativa de boicotar o desejo dos cardeais da cúria de iniciar rapidamente o conclave. Com os “cardeais estrangeiros” despreparados, a chance de eleger o candidato curial seria maior.

Silêncio

Conforme a agência Reuters, “autoridades do Vaticano disseram nesta quarta-feira (6) aos cardeais reunidos para a eleição do próximo papa para não falarem mais com a mídia, depois de mais indicações de que um conclave não iria começar na próxima semana, como era esperado. Cardeais norte-americanos que tinham agendada uma terceira coletiva de imprensa em três dias cancelaram o evento menos de uma hora antes do previsto no Colégio Norte-Americano, em Roma, onde eles estão hospedados”.

Jeitinho brasileiro

Os americanos cancelaram os briefings nos quais não diziam nada de muito substancial. Por sua vez, os cinco cardeais tupiniquins, na mesmíssima noite, reuniram 100 padres no Colégio Pio Brasileiro “para refletir sobre o momento atual da Igreja e dos encaminhamentos para o próximo conclave que elegerá o sucessor de Bento XVI“. Faz toda a diferença, não é? São padres, e não jornalistas! Embora o relato acabe igualmente caindo na internet… Seria o famoso jeitinho brasileiro?

Vatileaks

Ainda sobre os vazamentos de informações que abalaram o fim do pontificado de Bento XVI, foi divulgado hoje que dois leigos estariam envolvidos. Enquanto cardeais de fora querem ter detalhes e nomes, os de Roma correm para abafar o caso. Hoje, Bertone, camerlengo, e Sodano, decano, enviaram um comunicado interno pedindo aos presentes que não citassem nomes, evitando o risco de fomentar um clima de suspeita e ressentimento. Após muita pressão, Sodano sugeriu aos cardeais que procurassem os três purpurados autores do relatório secreto, que Bento XVI decidiu encaminhar exclusivamente ao seu sucessor, a fim de ter informações sobre o Vatileaks. O objetivo é fazer com que não se crie uma discussão acalorada e ampla sobre o tema. E este parece ser o maior temor da cúria romana quanto a uma demora no início do conclave: que os podres das gestões Sodano e Bertone na Secretaria de Estado venham à tona.

Um cardeal europeu confessou a Andrea Tornielli: “Hoje novamente nós ouvimos alguns discursos genéricos, feitos no improviso. Na verdade, parece que estamos em um sínodo. E eu gostaria de salientar que esta observação não é positiva. Nós precisamos de tempo para conhecer uns aos outros, para conversar mais e para estabelecer quais são as principais necessidades da Igreja hoje. E a fim de encontrar o homem certo que possa enfrentar estas necessidades. Pensar na tarefa que se colocará para nós na próxima semana me faz tremer. Eu creio que ainda não estamos prontos”.