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22 julho, 2019

Dom Athanasius Schneider responde ao Bispo Kräutler e ao Instrumentum Laboris sobre o Sínodo da Amazônia.

Por Corrispondenza Romana, 19 de julho de 2019 | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.com – Apresentamos nossa tradução de uma declaração publicada no dia 17 de julho no site de notícias austríaco Kath.net e distribuída em vários idiomas. Nesta declaração, Dom Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, responde ao Bispo Erwin Kräutler e critica fortemente o Instrumentum laboris sobre o Sínodo da Amazônia.

Em sua entrevista do dia 14 de julho à ORF [uma emissora nacional austríaca de serviço público], o Bispo Erwin Kräutler afirmou ser “quase um escândalo” o fato de que em muitas paróquias na Amazônia a Sagrada Eucaristia raramente seja celebrada. Este modo de falar é em si obscuro e decididamente tendencioso. Ninguém tem um direito à Sagrada Eucaristia. O sacramento da Eucaristia é o mais elevado dom de Deus: pode-se falar, ao invés, de escândalo quando nas paróquias católicas a fé é negada e não praticada, quando Deus é insultado pelo desprezo de seus mandamentos, pelos pecados graves contra a caridade, pela idolatria, xamanismo e assim por diante. Pode-se falar de escândalo em uma paróquia católica quando as pessoas não rezam o bastante. Isso sim seria um verdadeiro escândalo.

Deveríamos, antes, falar de escândalo quando consideramos que durante as últimas décadas não foram promovidas na Amazônia iniciativas pastorais intensivas para promover vocações. Iniciativas que estariam de acordo com a experiência de dois mil anos da Igreja: orações constantes, sacrifícios espirituais e um estilo de vida exemplar e santo adotado pelos próprios missionários. De fato, para se promover efetivamente sólidas vocações sacerdotais é indispensável que até na Amazônia existam missionários que levem uma vida de verdadeiros homens de oração, de verdadeiros apóstolos, isto é, uma vida de amor e sacrifício totalmente dedicada a Cristo e à salvação das almas imortais.

O que Dom Kräutler e muitos de seus companheiros de viagem do clero estão querendo promover são caricaturas de sacerdotes, que têm como modelo agentes humanitários, funcionários de ONGs, sindicalistas socialistas e ecologistas. Mas esta não é a missão de Jesus Cristo, do Deus encarnado, que deu a Sua vida na Cruz para redimir a humanidade do maior mal que é o pecado, para que todos os homens possam ter em abundância a vida divina e sobrenatural (veja João 10.10).

Não é necessário recorrer ao truque de dramatizar a “fome eucarística” ou a falta de celebrações eucarísticas, porque para salvar a si mesmo não é necessário a recepção da Sagrada Eucaristia, mas sim a Fé, a oração e uma vida conforme os mandamentos de Deus.

Se por um longo período de tempo e por causa da falta de sacerdotes os católicos não puderam receber a Sagrada Comunhão, então deveriam ser ensinados a praticar a comunhão espiritual, que tem grande força e um grande efeito espiritual. Os Padres do Deserto, por exemplo, viveram durante anos sem a Eucaristia e alcançaram uma grande união com Cristo. Durante anos, eu mesmo e meus pais não conseguimos receber a Sagrada Comunhão na União Soviética. Mas sempre fazíamos a comunhão espiritual, que nos deu muita força e consolo. Então, quando aparecia um padre e podíamos confessar, participar do Santo Sacrifício da Missa e receber a Sagrada Comunhão sacramentalmente, era uma verdadeira festa e experimentávamos de maneira muito profunda e jubilosa o quão precioso é o dom do sacerdócio e o dom da Eucaristia.

Na Amazônia deveria haver uma maneira de garantir que os padres missionários itinerantes possam se dirigir a lugares afastados – ainda que poucas vezes ao ano – para organizar uma festa verdadeiramente espiritual, com boas confissões e com as Santas Missas celebradas com dignidade. Poderiam até deixar Jesus nos tabernáculos para que os católicos pudessem adorá-Lo e os fiéis pudessem ser ensinados sobre como fazer a adoração eucarística e como rezar o terço para pedir bons sacerdotes indígenas solteiros e boas famílias cristãs. Então, sem dúvida, Deus concederia essa graça. Sim, dever-se-ia fazer um apelo a nível mundial convidando padres para irem para a Amazônia, a fim de socorrer pastoralmente a população local. Finalmente, poderiam ordenar os diáconos casados ou, em casos excepcionais, delegar a função a acólitos ou a mulheres católicas para que pudessem expor o Santíssimo Sacramento e conduzir orações.

Há um exemplo na história da Igreja: o dos católicos japoneses que, mesmo sem sacerdotes, mantiveram a fé católica por mais de duzentos anos. Hoje, o Japão tem um número suficiente de padres nativos que, naturalmente, são celibatários. Ainda que naquela época a cultura pagã do Japão rejeitava o sacerdócio celibatário, os católicos japoneses tinham-no em tão alta estima, que se tornou seu sinal de identificação. Portanto, quando no século XIX chegaram os primeiros missionários protestantes, que eram casados, eles os rejeitaram exatamente por esse motivo. Mas, quando os sacerdotes católicos voltaram, uma vez que se certificaram de que eram solteiros, os fiéis japoneses os receberam como sacerdotes da verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Portanto, a Igreja no século XIX poderia ter apresentado os mesmos argumentos que estão sendo usados ​​hoje no Sínodo Amazônico em favor da ordenação de sacerdotes indígenas casados, já que naquela época muitas paróquias em algumas regiões missionárias contavam com a visita de um sacerdote raríssimas vezes durante o ano.

O casamento de padres foi legalizado na Igreja Oriental no século VII, mas não por causa da falta de sacerdotes, dado que, na época, havia uma superabundância de sacerdotes, especialmente em Constantinopla. Foi feito, antes, pela indulgência para com a fraqueza humana, porque aqueles que no ofício episcopal e sacerdotal imitavam Jesus Cristo – o Sacerdote  Eterno da Nova Aliança – agindo na pessoa de Cristo, o Cabeça, haviam se afastado da regra apostólica de uma vida celibatária. Naquela época, na Igreja Grega, tratou-se de uma solução regional para uma Igreja local, mas que os Romanos Pontífices não reconheciam e nem aceitavam. Foi um desvio e deslealdade à exigente imitação de Cristo; imitação que os apóstolos viveram na completa continência sexual, até a morte, como Pedro claramente testifica quando diz: “Deixamos tudo para te seguir” (Mt 19,27), até esposas e filhos.

Todos os Padres da Igreja viviam o sacerdócio na continência sexual. Embora alguns tenham sido casados ​​(por exemplo, Santo Hilário), foi demonstrado que, a partir da ordenação, começaram a praticar a continência e não tiveram mais filhos, porque conheciam e respeitavam a regra apostólica da continência sexual sacerdotal e episcopal.

A Igreja Romana transmitiu fielmente essa norma apostólica e sempre a defendeu até hoje, com a única exceção concedida às Igrejas Orientais, feita no contexto das negociações de unificação durante os Concílios de Lyon e Florença. Neste caso, foi dispensado o celibato dos sacerdotes Orientais visando o benefício da unidade.

A introdução do clero “uxorado” na Amazônia não produziria verdadeiros apóstolos, mas sim uma nova categoria de sacerdotes, uma espécie de dinastia. Ao mesmo tempo, deve-se ter em mente que a cultura indígena dos povos amazônicos ainda não alcançou a maturidade confiável e comprovada de gerações cristãs inteiras, completamente permeada pelo espírito do Evangelho.

Após a evangelização inicial e sistemática de São Bonifácio, por exemplo, as tribos germânicas levaram vários séculos até conseguirem produzir numerosos e confiáveis ​​padres nativos celibatários.

No século II, Santo Irineu já era uma testemunha da unidade da fé e da disciplina na Igreja, que era tão grande entre todos os povos, embora naquela época os católicos convertidos eram provenientes de culturas muito diferentes e em parte até contraditórias:

 “A Igreja, embora dispersa pelo mundo afora, todavia – como se habitasse em uma só casa – preserva cuidadosamente a Fé dos Apóstolos. Ela também crê que essas verdades têm uma só alma e o mesmo coração e as proclama, ensina e as oferece em perfeita união, como se tivesse uma só boca. Embora as línguas do mundo sejam diferentes, a mensagem da Tradição é uma só e a mesma. Portanto, as Igrejas na Alemanha não crêem e transmitem nada diferente, nem as da Espanha, nem as da Gália, nem as do Oriente, nem as do Egito, nem as da Líbia, nem as das regiões centrais da mundo”(Adversus haereses 1,10, 2).

Mesmo muitas das paróquias católicas recém-convertidas entre as tribos germânicas durante a Era da Migração (do século IV-VI) tiveram talvez apenas algumas vezes a oportunidade de assistir a Santa Missa e receber a Sagrada Comunhão. Depois de algumas gerações, todavia, gerações de padres celibatários e geralmente exemplares nasceram dessas paróquias alemãs.

A verdade é que aqueles que defendem um clero amazônico casado, usando como estratagema o lema elegante “homens provados” (“viri probati”), consideram os povos amazônicos inferiores, porque pressupõem desde o início que eles não têm a capacidade de dar à Igreja sacerdotes celibatários gerados em seu próprio meio. Ao longo de 2000 anos, todos os povos e até mesmo os bárbaros foram capazes de criar seus próprios filhos, com a ajuda da graça de Cristo, com um sacerdócio celibatário segundo o exemplo de Jesus Cristo. Os pedidos de padres casados ​​para os povos da Amazônia – vindos  exatamente de eclesiásticos de ascendência européia – contêm um racismo oculto. Para resumir, poderíamos simplificar desse modo: “Nós europeus, nós que somos brancos, somos realmente capazes de gerar padres celibatários. Mas para vocês da Amazônia, isso seria pedir demais!”

Os defensores de um clero amazônico casado são quase todos europeus e não de origem indígena, e no final não estão interessados ​​no verdadeiro bem espiritual dos fiéis da Amazônia, mas na implementação de sua própria agenda ideológica, que visa posteriormente um clero casado também na Europa e depois em toda a Igreja Latina. Porque todos sabem que após a introdução de um clero casado regionalmente limitado à Amazônia, iria surgir, com a ajuda do efeito dominó e depois de um breve período de tempo, um clero regular casado no próprio rito romano em outras partes do mundo. Deste modo, o legado apostólico de um sacerdócio celibatário, segundo o modelo de Jesus Cristo e seus apóstolos, seria efetivamente destruído em toda a Igreja.

Alguns católicos – aqueles que certamente não representam a maioria dos verdadeiros fiéis, mas que são funcionários de uma rica burocracia eclesiástica e que alcançaram posições clericais de poder na Igreja – querem atrair as pessoas mundanas com a idéia de um sacerdócio casado, sem sacrifícios, sem doação completa de si e sem um amor ardente e sobrenatural por Deus.

O próprio Senhor nos ensinou o que a Igreja deveria fazer para que os fiéis possam ter sacerdotes: “Peça ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua vinha” (Mateus 9:38). Não há remédio melhor ou mais eficaz do que esse. E se houvesse outro, Nosso Senhor nos teria dito.

Para se obter candidatos casados para ordenação sacerdotal, não há necessidade de iniciativas especiais de oração. Sempre haverá poucos operários na vinha do Senhor até o fim dos tempos. Numa época em que haviam muitos sacerdotes, o papa São Gregório Magno pronunciou essas palavras memoráveis: “Veja, o mundo está cheio de sacerdotes, mas poucos são os operários na vinha do Senhor” (Em Ev. Hom., 34). Deus sempre realiza Sua obra de graça e salvação de almas para a vida eterna com a ajuda de sacrifícios e, freqüentemente, apenas de algumas pessoas, e não com a ajuda de grandes multidões. Nesse sentido, São Gregório Nazianzeno disse que Deus não se compraz com números (ver Or. 42.7).

O bispo Erwin Kräutler pergunta então na entrevista: “O que então podemos fazer como Igreja para que essas pessoas possam celebrar a Eucaristia?” A vida paroquial, acrescenta ele, é bela, “mas está faltando o centro”. A resposta a esta pergunta é a seguinte: o centro é Cristo, a verdade ensinada por Ele, o exemplo dado por Ele. O tabernáculo é o verdadeiro centro da Igreja aqui na terra e o centro de toda paróquia local. Se uma comunidade católica local na Amazônia tem o tabernáculo – e muitas delas o têm – então eles têm o centro, e no final nada está faltando, porque eles têm Deus no meio deles, Deus em Carne e Sangue está presente no meio deles!

É necessário reunir os católicos da Amazônia em torno do tabernáculo para que eles tenham seus próprios sacerdotes e, se possível, numerosos sacerdotes. Ali, mães e crianças católicas deveriam dirigir suas orações íntimas a Deus, o dispensador de todos os dons, com a intenção de obter bons e únicos sacerdotes indígenas e com um espírito apostólico. Uma rede de adorações eucarísticas deve ser iniciada em toda a Amazônia. Esta corrente eucarística de adorações por parte dos simples fiéis, juntamente com os seus bispos e os seus sacerdotes – mesmo que sejam apenas uns poucos – poderão, sem sombra de dúvida – no momento escolhido por Deus -, trazer para o povo da Amazônia aqueles sacerdotes que são de acordo com o coração de Jesus. Não é preciso abusar dos povos amazônicos com o interesse de promover suas próprias ideologias decadentes e heresias teológicas que foram fabricadas na Europa.

Amplas partes do documento de trabalho (Instrumentum laboris) do Sínodo sobre a Amazônia e os pedidos desses sacerdotes enfeitam a imagem de Cristo Rei com pérolas e jargões como “varões provados”, “fome eucarística”, “empatia feminina”. Deste modo, eles desejam implementar o fim do celibato sacerdotal e a ordenação feminina de maneira mais sutil. Os verdadeiros católicos da Amazônia e de outras partes do mundo, entretanto, reconhecerão nela a imagem do engano e não acreditarão que é a imagem de Jesus Cristo, o Rei. Grandes partes do Instrumentum laboris e das exigências revolucionárias do Bispo Erwin Kräutler e seus companheiros de viagem clericais, realmente retratam uma atitude intelectual muito semelhante à Gnose e ao Naturalismo que queriam introduzir na Igreja desde o início, a partir do segundo século, como Santo Irineu de Lyon afirma:

“Tal então é o método deles, que nem os profetas anunciaram, nem o Senhor ensinou, nem os apóstolos transmitiram, mas do qual eles se orgulham de ter um conhecimento perfeito, muito além de todos os outros. Eles recolhem suas opiniões de outras fontes que não são as Escrituras; e, para usar um provérbio comum, eles se esforçam para tecer cordas de areia, lutando para adaptar as parábolas do Senhor, as palavras dos profetas e as palavras dos Apóstolos às suas afirmações particulares, dando-lhes uma aparência de veracidade, de modo que seu esquema não pareça totalmente privado de apoio. Ao fazê-lo, porém, eles ignoram a ordem e conexão das Escrituras e, na medida em que as vão encontrando, desmembram-nas e destroem a verdade, transferindo passagens, vestindo-as novamente e trocando uma coisa por outra. Assim, conseguem enganar muitos, graças à sua destreza perversa que conforma os oráculos do Senhor às suas próprias opiniões. Seu modo de agir é como se alguém – depois que uma bela imagem de um rei fosse fielmente esculpida por um artista habilidoso, com jóias preciosas – então resolvesse reduzir o retrato daquele homem aos pedaços, para depois reorganizar as gemas e recompor tudo novamente dando-lhes a forma de um cachorro ou uma raposa, e tudo isto mal executado. E mais, depois de tudo, ainda tivesse a coragem de declarar que esta sim é a verdadeira imagem do rei que o artista original esculpiu, apontando para as gemas que foram retiradas da obra anterior como prova de que aquela é a imagem do rei, apesar do resultado medíocre, mesmo depois de ter usado o mesmo material para fazer a imagem de um cachorro ou de uma raposa. E sempre apontando para as gemas para enganar os ignorantes que não têm a menor idéia de como era antes a imagem do rei. Persuadindo-os de que aquele decadente retrato de raposa seja, de fato, a verdadeira imagem do rei. Da mesma forma, essas pessoas remendam velhas lendas de comadres e depois se apropriam – afastando-se violentamente de seu contexto, de palavras, expressões e parábolas encontradas – para adaptar os oráculos de Deus às suas ficções infundadas ”( Adversus haereses 1, 8, 1).

É óbvio que o conteúdo de amplas partes do Instrumentum laboris e as exigências do Bispo Erwin Kräutler e seus companheiros de viagem clericais buscam realmente uma nova confissão cristã, que talvez venha a ser chamada de “Igreja Católica Amazônica”, mas que eventualmente se tornará uma seita em comparação com a verdadeira Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Esta última navegou e continua a navegar, com segurança e em todos os tempos, sempre com a mesma lealdade incondicional à pureza da fé e ao legado imutável dos apóstolos na liturgia e na disciplina da Igreja. Os católicos do nosso tempo reagirão com vigor a uma seita “católica amazônica” que pratica a adoração da natureza e que terá um sacerdócio feminino – com as palavras de Santo Agostinho aos membros da seita dos donatistas: “A Igreja em todo o mundo é segura em seus juízos da verdade!” (Securus iudicat orbis terrarum: Contra epistolam Parmeniani 3, 3).

O sucessor de Pedro, o Papa, tem o dever preciso, conferido por Deus, como titular da Cátedra da Verdade (cathedra veritatis), de preservar em sua pureza e integridade, a verdade da Fé Católica, a Constituição Divina da Igreja, a ordem sacramental estabelecida por Cristo e a herança apostólica do celibato sacerdotal, para transmiti-las ao seu sucessor e às gerações futuras. Ele não pode apoiar nem um pouco – com seu silêncio ou com uma conduta ambígua – o conteúdo claramente gnóstico e naturalista de partes do Instrumentum laboris, como também a abolição do dever apostólico do celibato sacerdotal (que seria primeiro regional, e então naturalmente se tornaria, passo a passo, universal). Se o papa fizesse isso no próximo Sínodo amazônico, violaria seriamente seu dever de Sucessor de Pedro e Representante de Cristo, causando assim um eclipse espiritual intermitente na Igreja. Mas Cristo, o invencível Sol da Verdade, varrerá este breve eclipse enviando novamente para a Sua santa Igreja papas corajosos e fiéis, para que as portas do inferno não sejam capazes de derrotar a rocha de Pedro (cf. Mateus 16, 18). A oração de Cristo por Pedro e seus sucessores é infalível. Isto significa que após a conversão, eles confirmarão novamente seus irmãos na fé (cf. Lc 22,32).

A verdade, como foi formulada por Santo Irineu, permanecerá em pé mesmo em um momento de intermitente eclipse espiritual na Igreja – como é o caso da atemporal, por insondável permissão de Deus: “Para que, na Igreja Romana, a Tradição Apostólica seja sempre preservada pelos fiéis que estão em toda parte”(Adversus haereses 3, 3, 2).

+ Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana

20 julho, 2019

Foto da semana.

Aconteceu em Brasília, de 16 a 18 de julho de 2019, o Seminário de Estudo do Documento de Trabalho do Sínodo para a Amazônia — documento considerado herético, apóstata e estúpido por eminentes cardeais.  Promovido pela REPAM – Rede Eclesial Pan-Amazônica, presidida pelo Cardeal Dom Claudio Hummes, participaram dele 23 bispos (destaque para a nova diretoria da CNBB e ao ex-secretário geral, Dom Steiner), 5 membros do Conselho Pré-Sinodal, “assessores” e “especialistas” convidados.

Na psicose que carateriza a religião neo-pagã-ecologista, uma série de “celebrações” ocorreram. Pode-se ver que a reação dos católicos nas redes sociais não foi muito amistosa.

15 julho, 2019

Cardeal Müller: documento vaticano sobre a Amazônia contém heresia e estupidez. “Não tem nada a ver com o cristianismo”.

IHU – O cardeal Gerhard Müller juntou-se ao seu colega alemão, o cardeal Walter Brandmüller, para condenar o tão debatido texto de trabalho do Vaticano para o próximo Sínodo da Amazônia, nos termos mais fortes possíveis, chamando-o de uma obra não apenas de heresia, mas também de estupidez.

A reportagem é de Debra Heine, publicada por PJMedia.com, 11-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O cardeal conservador tem soado sinais de alerta sobre o controverso Sínodo de 6 a 27 de outubro, advertindo que seu propósito secreto é modificar o ensino da Igreja sobre a moral sexual e abrir suas portas para a “ecoteologia”.

Instrumentum laboris (ou documento de trabalho) do Vaticano “representa a abertura, de par em par, das portas do Magistério à ‘teologia indígena’ e à ‘ecoteologia’, dois derivados latino-americanos da teologia da libertação, cujos corifeus, depois da derrubada da União Soviética e do fracasso do ‘socialismo real’, atribuem aos povos indígenas e à natureza o papel histórico da força revolucionária em chave marxista”, opinou o autor chileno José Antonio Ureta recentemente.

O ex-editor-chefe do The Catholic HeraldDamian Thompson, chamou o documento, sem meias palavras, de “lixo”.

Em sua entrevista à revista católica La Nuova Bussola QuotidianaMüller pareceu concordar, dizendo que o documento tem “uma visão ideológica que não tem nada a ver com o cristianismo”.

“O Sínodo da Amazônia é um pretexto para mudar a Igreja, e o fato de ser feito em Roma quer enfatizar o início de uma nova Igreja”, disse Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

O prelado alemão disse que os apoiadores do papa já atacaram a ele e a outros por criticarem o documento, em um esforço para reprimir suas críticas.

Mas o Instrumentum laboris, apontou ele, “não tem nenhum valor magisterial”, portanto, “só ignorantes podem dizer que aqueles que o criticam são inimigos do papa”.

Müller continuou:

“Infelizmente, esse é o truque deles para evitar qualquer diálogo crítico. Se você tenta fazer uma objeção, você é imediatamente rotulado como inimigo do papa. Um esclarecimento mais do que apropriado, porque o texto do Instrumentum laboris é desconcertante ao descrever a Amazônia e os povos que a habitam como um modelo para toda a humanidade, um exemplo de harmonia com a natureza, uma síntese perfeita do que se entende por ecologia integral.

“É um documento que apresenta um quadro idílico da Amazônia, incluindo as religiões indígenas, a ponto de tornar inútil o cristianismo, senão para o apoio ‘político’ que ele pode dar para manter esses povos incontaminados e defendê-los dos predadores que querem levar desenvolvimento e ‘roubar’ recursos.”

O cardeal acrescentou que o papa e seus aliados “querem salvar o mundo de acordo com sua ideia, talvez utilizando alguns elementos das Escrituras”, mas as ideias deles são “profanas” e “não têm nada a ver com a Revelação”.

“Não por acaso, embora se fale de Revelação, de Criação, de sacramentos, de relações com o mundo, não se faça quase nenhuma referência substancial aos textos do Concílio Vaticano II que definem esses aspectos: Dei VerbumLumen gentiumGaudium et spes. Não se fala da raiz da dignidade humana, da universalidade da salvação, da Igreja como sacramento de salvação do mundo. Há apenas ideias profanas, sobre as quais se pode discutir, mas que não têm nada a ver com a Revelação.”

Ele citou uma seção do documento em que se fala de “um amplo e necessário campo de diálogo entre as espiritualidadescrenças e religiões amazônicas, que exige uma abordagem cordial das diferentes culturas. (…) A abertura não sincera ao outro, assim como uma atitude corporativista, que reserva a salvação exclusivamente ao próprio credo, são destruidoras desde mesmo credo”.

“Eles tratam o nosso Credo como se fosse a nossa opinião europeia. Mas o Credo é a resposta iluminada pelo Espírito Santo à Revelação de Deus em Jesus Cristo, que vive na Igreja. Não há outros credos. Em vez disso, existem outras convicções filosóficas ou expressões mitológicas, mas ninguém jamais ousou dizer, por exemplo, que a Sabedoria de Platão é uma forma da revelação de Deus. Na criação do mundo, Deus manifesta apenas a Sua existência, o Seu ser um ponto de referência da consciência, do direito natural, mas não há nenhuma outra revelação fora de Jesus Cristo. O conceito de Lógos spermatikòs (as ‘sementes da Palavra’), adotado pelo Concílio Vaticano II, não significa que a Revelação em Jesus Cristo existe em todas as culturas independentemente de Jesus Cristo. Como se Jesus fosse apenas um desses elementos da Revelação.”

Quando perguntado se ele concordava com a avaliação do cardeal Brandmüller de que o documento é uma obra de “heresia”, Müller respondeu: “Heresia? Não só isso, é também estupidez. O herege conhece a doutrina católica e a contradiz. Mas aqui se faz apenas uma grande confusão, e o centro de tudo não é Jesus Cristo, mas eles mesmos, as suas ideias para salvar o mundo”.

No documento, a “cosmovisão” dos povos indígenas é um modelo de ecologia integral, que seria uma concepção na qual espíritos e divindades agem “com e no território, com e em relação com a natureza”.

Müller explicou porque o termo “cosmovisão” é incompatível com a doutrina da Igreja.

“A ‘cosmovisão’ é uma concepção materialista, semelhante à do marxismo, no fim, podemos fazer o que quisermos. Mas nós cremos na Criação, a matéria é a forma da essência da natureza, não podemos fazer o que quisermos. A Criação é para a glorificação de Deus, mas também é um desafio para nós, chamados a colaborar com a vontade salvífica de Deus para todos os homens. A nossa tarefa não é preservar a naturezacomo ela é, mas nós temos a responsabilidade pelo progresso da humanidade, na educação, na justiça social, pela paz.

“É por isso que os católicos constroem escolas, hospitais, essa também é a missão da Igreja. Não se pode idealizar a natureza como se a Amazônia fosse uma zona do Paraíso, porque a natureza nem sempre é amorosa para com o homem. Na Amazônia, existem predadores, existem infecções, doenças. E até mesmo essas crianças, esses jovens têm direito a uma boa educação, a fruir da medicina moderna. Não se pode idealizar, como se faz no documento sinodal, apenas a medicina tradicional.”

Ele também criticou a linguagem “hippie” do documento, como “conversão ecológica” e “Mãe Terra”.

“Devemos rejeitar absolutamente expressões como ‘conversão ecológica’, argumentou Müller. “Há apenas a conversão ao Senhor, e, como consequência, há também o bem da natureza.”

“Não podemos fazer do ecologismo uma nova religião, estamos aqui em uma concepção panteísta, que deve ser rejeitada. O panteísmo não é só uma teoria sobre Deus, mas também um desprezo pelo homem. Deus que Se identifica na natureza não é uma pessoa. Deus criador, ao contrário, criou-nos à Sua imagem e semelhança. Na oração, temos uma relação com um Deus que nos escuta, que entende o que queremos dizer, não um misticismo em que podemos dissolver a identidade pessoal.”

Ele continuou:

“A nossa mãe é uma pessoa, não a Terra. E a nossa mãe na fé é Maria. A Igreja também é descrita como mãe, como a noiva de Jesus Cristo. Mas essas palavras não devem ser infladas. Uma coisa é ter respeito por todos os elementos deste mundo, outra coisa é idealizá-los ou divinizá-los. Essa identificação de Deus com a natureza é uma forma de ateísmo, porque Deus é independente da natureza. Eles ignoram totalmente a Criação.”

Müller também discorda fortemente da crítica feita pelo documento ao antropocentrismo – a visão de que os seres humanos são a entidade mais importante no universo – chamando-a de “uma heresia contra a dignidade humana”.

“É uma ideia absurda pretender que Deus não seja antropocêntrico”, argumentou. “O homem é o centro da Criação, e Jesus se fez homem, não se fez planta.”

“Essa é uma heresia contra a dignidade humana. Pelo contrário, a Igreja deve enfatizar o antropocentrismo, porque Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança. A vida do homem é infinitamente mais digna do que a vida de qualquer animal. Hoje já existe uma inversão desse princípio: se um leão é morto na África, é um drama mundial, mas aqui se matam as crianças no ventre da mãe, e está tudo bem. Stalin também defendia que era preciso tirar essa centralidade da dignidade humana; assim, ele podia chamar muitos homens para construir um canal e fazê-los morrer em prol das gerações futuras. É para isso que servem essas ideologias, para fazer com que alguns dominem sobre todos os outros. Mas Deus é antropocêntrico, a Encarnação é antropocêntrica. A rejeição do antropocentrismo vem apenas do ódio a si mesmos e aos outros homens.

“Outro conceito promovido no Instrumentum laboris é a ideia de inculturação, que está intimamente associada à Encarnação, ou ‘o Verbo se fez carne’. De acordo com a doutrina da Igreja, Jesus Cristo, a segunda pessoa da Trindade, era ‘verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem’. Ele foi concebido no ventre de uma mulher, a Virgem Maria, assim, a natureza divina do Filho se uniu, mas não se misturou, com a natureza humana.”

inculturação é a adaptação da liturgia cristã a culturas principalmente não cristãs. O fato de o documento aparentemente usar as palavras em ambos os sentidos incomodou o cardeal imensamente. “Usar a Encarnação quase como um sinônimo de inculturação é a primeira mistificação”, irritou-se.

“A Encarnação é um evento único, irrepetível, é o Verbo que se encarna em Jesus Cristo. Deus não se encarnou na religião judaica, não se encarnou em Jerusalém. Jesus Cristo é único. É um ponto fundamental, porque os sacramentos dependem da Encarnação, são presença do Verbo encarnado. Não se pode abusar de certos termos que são centrais no cristianismo.

Pergunta – Voltemos à inculturação: a partir do documento sinodal, entendemos que devemos adotar todas as crenças dos povos indígenas, seus rituais e seus costumes. Também se faz referência ao modo como o cristianismo primitivo se inculturou no mundo grego. E se diz que, assim como fizemos naquela época, devemos fazer hoje com o povo amazônico.

“Mas a Igreja Católica nunca aceitou os mitos gregos e romanos. Pelo contrário, rejeitou uma civilização que desprezava os homens com a escravidão, rejeitou a cultura imperialista de Roma ou a pederastia típica dos gregos. A referência da Igreja era ao pensamento da cultura grega, que chegara a reconhecer elementos que abriam o caminho para o cristianismo. Aristóteles não inventou as 10 categorias: elas já existem no ser, ele as descobriu.

“Assim como acontece na ciência moderna: não é algo que diga respeito apenas ao Ocidente, mas sim a descoberta de algumas estruturas e mecanismos que existem na natureza. O mesmo vale para o direito romano, que não é um sistema arbitrário qualquer. Em vez disso, é a descoberta de alguns princípios jurídicos, que os romanos encontraram na natureza de uma comunidade. Certamente, outras culturas não tiveram essa profundidade. Mas nós não vivemos na cultura grega, o cristianismo transformou totalmente a cultura grega e romana. Certos mitos pagãos podem ter uma dimensão pedagógica em relação ao cristianismo, mas não são elementos que fundaram o cristianismo.”

Talvez o aspecto mais controverso do Instrumentum laboris seja a sua releitura dos sacramentos, especialmente no que diz respeito às ordens sagradas, sob o pretexto de que há poucos padres em áreas tão remotas.

Müller reclamou que a abordagem “não tem nada a ver com o cristianismo”.

“A Revelação de Deus em Cristo faz-se presente nos sacramentos, e a Igreja não tem nenhuma autoridade para mudar a substância dos sacramentos”, argumentou ele. “Eles não são alguns ritos que nos agradam, e o sacerdócio não é uma categoria sociológica para criar uma relação na comunidade.”

“Qualquer sistema cultural tem os seus ritos e os seus símbolos, mas os sacramentossão meios da Graça divina, de modo que não podemos mudar nem o seu conteúdo nem a sua substância. Também não podemos mudar o rito quando esse rito foi constituído pelo próprio Cristo. Não podemos fazer o batismo com qualquer líquido, nós o fazemos com água natural. Na Última Ceia, Jesus Cristo não tomou qualquer bebida ou comida, ele tomou vinho de uva e pão de trigo.”

Quando perguntado sobre quem ele tinha em mente quando se referia “àqueles que querem mudar a Igreja”, Müller disse que não se trata de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, mas sim a um “sistema” composto voluntariamente por pessoas cegas que acreditam que estão melhorando a Igreja, mas, de fato, a estão destruindo.

“Queremos nos adaptar ao mundo: matrimôniocelibatomulheres sacerdotes, tudo deve ser mudado na convicção de que assim haverá uma nova primavera para a Igreja”, explicou. “Eles não veem que, ao contrário, eles destroem a Igreja, são como cegos que caem na fossa. Mas, se alguém diz alguma coisa, é imediatamente marginalizado, rotulado como inimigo do papa.”

11 julho, 2019

Especialista peruano em teologia da libertação revela “esquema” por trás do Sínodo da Amazônia.

Por Diane Montagna, LifeSiteNews, Roma, 22 de junho de 2019 | Tradução: Juceli Bianco –  O próximo Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia é um “esquema” projetado para “renovar” a Igreja segundo as “versões mais radicais da teologia da libertação”, afirma um autor peruano.

Julio Loredo, presidente da filial italiana da Tradição Família e Propriedade (TFP) e autor de “Teologia da Libertação, um salva-vidas de chumbo para os pobres” [Teologia della Liberazione. Un Salvagente di Piombo per i Poveri (Cantagalli, 2014)], disse que a história “não contada” do Sínodo da Amazônia é que ele tem sido construído há décadas e foi projetado para “mudar Igreja inteira” de acordo com a assim chamada “teologia indigenista e ecológica”.

“É uma completa renovação da Igreja a partir de um ponto de vista “amazônico” que nada mais é que o ponto culminante da teologia da libertação”, disse Loredo em comentários a LifeSite na sexta-feira, 21 de Junho.

Loredo, que é editor e colaborador habitual para o novo site, “Pan-Amazn Synod Watch” (lançado por uma coalizão internacional para combater estes esforços), disse que esta visão “agora está sendo proposta por um papa latino-americano para toda a Igreja “.

“Isso é muito importante”, disse ele, acrescentando que este ponto de vista “também coincide com as opiniões mais extremas dos modernistas e progressistas em termos de eclesiologia”.

Loredo disse que o próximo Sínodo “está sendo preparado e formado por uma rede bem organizada de associações e movimentos “indigenistas”, como REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica).

“Todos os seus mentores vêm das fileiras do movimento da Teologia da Libertação”, disse ele.

“Outro ponto a destacar”, acrescentou Loredo, “é que a encíclica Laudato Si é a base doutrinal do Sínodo”. Esta encíclica, disse, “tem partes inspiradas na Teologia da Libertação Ecológica ou Eco-teologia e partes inspiradas em documentos das Nações Unidas, como a Agenda 21 e o Tratado sobre a Biodiversidade”.

“Estes são tratados vinculantes para todos os países que os assinaram durante a Cúpula da Terra no Rio de Janeiro, em 1992”, explicou o autor peruano. “Estes documentos foram estudados e propostos por pesquisadores da Internacional Socialista que procuravam explorar novas vias para o pós-socialismo ou pós-comunismo. Conceitos como “desenvolvimento sustentável” e “crescimento negativo” foram lançados por esses documentos. Então, não estamos falando apenas da Igreja na Amazônia. “

Loredo disse que foi “surpreendido” com o fato de que o Vaticano, através do Sínodo Pan-Amazônico, assume “a agenda neopagã proposta pelas das Nações Unidas, em conferências tais como a Cimeira do Rio em 1992 e a Rio+20 em 2012”.

“Eu participei como jornalista na conferência de 1992, e estudei estes tópicos em profundidade.”

Em relação ao documento preparatório e ao Instrumentum laboris para a reunião de Outubro, Loredo disse que o fato de que os documentos “abarcam uma interpretação radical de ‘desenvolvimento sustentável’” é particularmente preocupante.

Igualmente preocupante, segundo ele, é a ausência total de qualquer coisa negativa sobre as tribos amazônicas, algumas das quais disse “praticam o canibalismo, o infanticídio e a bruxaria”.

“Para alguém como eu, que venho estudando teologia da libertação e teologia indígena por tantas décadas, há tantas coisas nestes documentos que estão perfeitamente claras”, disse Loredo. “Mas para alguém que não acompanha essas correntes, pode ser desconcertante, ou pelo menos não completamente compreensível.”

1 julho, 2019

Brandmüller, o sínodo amazônico e o destino da Igreja.

Por Aldo Maria Valli, Duc in Altum, 29 de junho de 2019 | Tradução: Hélio Dias Viana, FratresInUnum.com – Queridos amigos do Duc in altum, voltemos a focalizar o próximo sínodo da Amazônia. Após ter publicado há alguns dias o discurso do professor Roberto de Mattei, tenho hoje o prazer de lhe oferecer uma carta que me foi enviada pelo professor José Antonio Ureta. Trata-se da acusação que o cardeal Walter Brandmüller fez ao documento preparatório da assembleia, cujo texto, segundo o cardeal alemão, “contradiz o ensinamento vinculante da Igreja em pontos decisivos e, portanto, deve ser qualificado como herético”. Não só isso. Uma vez que o documento questiona o próprio fato da revelação divina, na opinião de Brandmüller “também se deve falar, além disso, de apostasia”. O Instrumentum laboris, conclui o cardeal, “constitui um ataque aos fundamentos da fé, de uma maneira que não foi considerada possível até agora. E, portanto, deve ser rejeitado com a máxima firmeza”.

Comparado a todas as outras críticas ao sínodo e ao Instrumentum laboris, Ureta argumenta, o ataque do cardeal Brandmüller pode ser comparado a um golpe desferido pela Grande Berta, o supercanhão alemão usado na Primeira Guerra Mundial. Mas como responderão, se responderem, os paladinos do ecoindigenismo, que gozam de tantos créditos em Santa Marta e nos seus arredores?

Do professor Ureta, estudioso e conferencista chileno, lembremos o livro A “mudança de paradigma” do Papa Francisco. Continuidade ou ruptura na missão da Igreja? (Instituto Plinio Corrêa de Oliveira), análise inconformista dos primeiros cinco anos do pontificado de Bergoglio. (A.M.V.) 

* * *

A Grande Berta do cardeal Brandmüller

Caro Dr. Valli, como o seu blog está se ocupando amplamente do sínodo sobre a Amazônia, gostaria de lhe transmitir algumas observações pessoais sobre a recente tomada de posição do cardeal Walter Brandmüller relativa ao Instrumentum laboris. Espero que elas lhe interessem e aos seus leitores.

Em um ato digno de El Cid Campeador, o cardeal Walter Brandmüller desceu à arena lançando um desafio aos organizadores do sínodo sobre a Amazônia e, indiretamente, ao Papa Francisco: acusou o Instrumentum laboris nada menos que de heresia e de apostasia.

Como nos espetáculos do passado, um grande estrépito se elevou nas galerias, e os rostos agora se voltam com olhares interrogativos para o palco, onde estão localizadas as autoridades que presidem a celebração: chamarão elas alguns heróis do alinhamento místico-eco-indígena para calçar a luva e defender a ortodoxia de suas intenções e do documento de trabalho anatematizado? Darão uma gargalhada, convidando-os a continuar a festa como se nada tivesse acontecido? Enviarão a guarda pretoriana para prender o audacioso que perturbou o programa?

Ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: o debate subiu a outro patamar.

Em relação ao primeiro documento preparatório e às declarações feitas à imprensa por este ou aquele prelado ou representante da rede Panamazônica (uma verdadeira Wehrmacht de agitação social e racial que opera na região), apareciam alguns artigos de maior ou menor importância para alertar a opinião pública sobre a ofensiva em curso. Até mesmo um site especializado no monitoramento do trabalho preparatório do sínodo (panamazonsynodwatch.org) acolheu aqueles artigos que pareciam mais interessantes em vários campos: inculturação, ambientalismo, teologia indiana, tribalismo indígena, e assim por diante. Mas tudo isso foi uma contraofensiva de infantaria com a ajuda de alguns morteiros.

Os bombardeios bem calibrados da Grande Berta do cardeal alemão, pelo contrário, abriram não uma, mas diversas e grandes brechas no muro da próxima Assembleia especial do sínodo dos bispos. Ei-las:

– Os participantes do Sínodo são convidados a tratar principalmente de questões temporais que têm uma relação apenas marginal com a Revelação e a missão da Igreja: desmatamento, impacto climático, extração mineral e biodiversidade. Isso não é senão uma forma inaceitável de “mundanismo” e “clericalismo”.

– Os participantes do Sínodo são convidados a louvar as religiões fetichistas e rituais de cura e a apresentar os índios que os praticam como modelo de relação com o cosmos e com Deus Pai-Mãe.

– Os participantes do sínodo são convidados a considerar a floresta amazônica como uma manifestação divina e a cantar o hino de adoração à natureza que entusiasmou os jovens nacional-socialistas, deixando-os embriagados com a perspectiva de renunciar à sua individualidade para se fundir no tudo (“pan”…teísmo).

– Os participantes do sínodo são convidados a alterar a estrutura hierárquica da Igreja e a canonizar a abolição do celibato e a introdução do sacerdócio feminino, começando pelas diaconisas.

Em uma palavra, os participantes do sínodo são convidados a transformar o Corpo Místico de Cristo em uma vulgar ONG laica e ecocomunista.

Como na parábola do Evangelho de Lucas, mas em sentido inverso, o cardeal Brandmüller, fiel administrador, se apresenta respeitosamente diante de seu rico patrão e o acusa: “Administrastes mal o depósito que vos foi confiado. Redde rationem villicationis tuæ” (cf. Lucas 16.2).

O cardeal não apresenta um dubium. Ele faz duas declarações de potência atômica: “O Instrumentum laboris contradiz o ensinamento vinculante da Igreja em pontos decisivos e, portanto, deve ser qualificado como herético. Dado que o próprio fato da revelação divina é aqui posto em discussão ou mal entendido, deve-se também falar, além disso, da apostasia”.

O Vaticano do Papa Francisco (ou algumas de suas forças auxiliares) possui algum guarda-chuva atômico para salvar o próximo sínodo?

Se nos próximos dias nenhum paladino se apresentar para calçar a luva do desafio, a Assembleia especial sobre a região pan-amazônica deverá iniciar-se com um atestado de óbito: a data da morte será no dia 27 de junho e levará a assinatura do cardeal Walter Brandmüller.

José Antonio Ureta

27 junho, 2019

Herético e apóstata. Cardeal Brandmüller excomunga o sínodo da Amazônia.

Por Sandro Magister, 27 de junho de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – Desde que veio a público em 17 de junho, o documento base – ou “Instrumentum laboris” – do sínodo amazônico teve muitas reações críticas devido à anomalia de sua implantação e suas propostas, comparadas a todos os sínodos que o precederam. 

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Mas a partir de hoje tem mais. Quem está acusando o documento de heresias e apostasia é um cardeal, o alemão Walter Brandmüller, de 90 anos, historiador da Igreja, presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas de 1998 a 2009 e co-autor, em 2016, do famoso “dubia” sobre a interpretação e aplicação de “Amoris laetitia”, que o Papa Francisco sempre se recusou a responder.

Aqui está o seu “J’accuse”, tornado público hoje, dia 27 de junho, em todo o mundo e em vários idiomas.

Na Kath.net o texto original em alemão: “> Eine Kritik des “Instrumentum Laboris” für die Amazonas-Synode

Uma crítica ao “Instrumentum laboris” para o sínodo da Amazônia

de Walter Brandmüller

Introdução

De fato, pode causar espanto que, em contraste com as assembleias anteriores, desta vez o sínodo dos bispos se ocupe exclusivamente de uma região da terra cuja população é apenas a metade daquela da Cidade do México, ou seja, 4 milhões. Isto também causa suspeita no tocante às verdadeiras intenções que alguns gostariam de ver implementadas sub-repticiamente. Mas, acima de tudo, devemos nos perguntar quais são os conceitos de religião, de cristianismo e de Igreja que são a base do recém-publicado “Instrumentum laboris”. Tudo isso será examinado com o apoio de elementos individuais do texto.

Por que um sínodo nessa região?

Para começar, precisamos nos perguntar por que um sínodo de bispos deveria tratar de temas que — como é o caso de três quartos do “Instrumentum laboris” — têm só marginalmente algo relacionado com os Evangelhos e a Igreja. Obviamente, que a partir deste sínodo de bispos, realiza-se uma intromissão agressiva em assuntos puramente mundanos do Estado e da sociedade do Brasil. Há que se perguntar: o que a ecologia, a economia e a política têm a ver com o mandato e a missão da Igreja?

E acima de tudo: que competência profissional e autoridade tem um sínodo eclesial de bispos para emitir declarações nesses campos?

Se o sínodo dos bispos realmente o fizesse, isso constituiria uma invasão e uma presunção clerical, que as autoridades estatais teriam todo motivos para repelir.

Sobre as religiões naturais e a inculturação

Há outro elemento a se levar em conta, que é encontrado em todo o “Instrumentum laboris”: vale dizer, a avaliação muito positiva das religiões naturais, incluindo práticas curativas indígenas e similares, bem como práticas e formas de cultos mítico-religiosos. No contexto do chamado à harmonia com a natureza, fala-se até de diálogo com os espíritos (nº 75).

Não é apenas o ideal do “bom selvagem” esboçado por Rousseau e pelo Iluminismo, que aqui é comparado com o decadente homem europeu. Essa linha de pensamento vai além, até o século XX, culminando com uma idolatria panteísta da natureza.

Hermann Claudius (1913) criou o hino do movimento operário socialista: “Quando andamos lado a lado …”, e numa estrofe se lê: “Verde das bétulas e verde das sementes, que a velha Mãe Terra semeia com as mãos cheias, com um gesto de súplica para que o homem se torne seu … “. Vale notar que este texto foi posteriormente copiado no livro de cânticos da Juventude Hitlerista, provavelmente porque correspondia ao mito do “sangue e solo” nacional-socialista. Esta proximidade ideológica deve ser enfatizada: esta rejeição anti-racional da cultura “ocidental” que sublinha a importância da razão, é típica do “Instrumentum laboris”, que fala respectivamente da “Mãe Terra” no n. 44 e do “grito da terra e dos pobres” no n.101.

Consequentemente, o território – isto é, as florestas da região amazônica – pasmem, vem até declarado como um “locus theologicus”, uma fonte especial de revelação divina. Nela haveria lugares de uma epifania em que se manifestam as reservas de vida e sabedoria do planeta e que falam de Deus (nº 19). Além disso, a conseqüente regressão do Logos ao Mythos é elevada a um critério do que o “Instrumentum laboris” chama de inculturação da Igreja. O resultado é uma religião natural com uma máscara cristã.

A noção de inculturação é aqui virtualmente distorcida, pois na verdade significa o oposto do que a Comissão Teológica Internacional havia apresentado em 1988 e diferente do que havia ensinado anteriormente o decreto “Ad Gentes” do Concílio Vaticano II, sobre a atividade missionária da Igreja. 

Sobre a abolição do celibato e a introdução de uma sacerdócio feminino

É impossível esconder o fato de que esse “sínodo” visa particularmente implementar dois dos projetos mais ambicionados e que nunca foram implementados até agora: a abolição do celibato e a introdução de um sacerdócio feminino, a começar por mulheres diáconas. Em todo caso, trata-se de “levar em conta o papel central que as mulheres desempenham hoje na Igreja da Amazônia” (nº 129 a3). E da mesma forma, é uma questão de “abrir novos espaços para se recriar os ministérios adequados a este momento histórico. Chegou a hora de ouvir a voz da Amazônia … “(n. 43).

Mas aqui se omite o fato de que, conclusivamente, até mesmo João Paulo II já havia afirmado, com a mais alta autoridade magisterial, que não está no poder da Igreja administrar o sacramento da ordem às mulheres. De fato, em dois mil anos, a Igreja nunca administrou o sacramento da ordem a uma mulher. O pedido que se coloca em oposição direta a este fato mostra que a palavra “Igreja” é agora usada exclusivamente como termo sociológico pelos autores do “Instrumentum laboris”, implicitamente negando o caráter sacramental-hierárquico da Igreja.

Sobre a negação do caráter hierárquico-sacramental da Igreja

De maneira semelhante – embora com expressões bastante passageiras – o n. 127 contém um ataque direto à constituição hierárquico-sacramental da Igreja, quando se pergunta se não seria oportuno “reconsiderar a idéia de que o exercício da jurisdição (poder do governo) deve estar conectado em todas as áreas (sacramental, judicial, administrativo) e de maneira permanente ao sacramento da ordem”. É a partir dessa visão tão errada que surge no n. 129, o pedido para se criar novos ofícios que correspondam às necessidades dos povos amazônicos.

Todavia, é no campo da liturgia e do culto, no qual a ideologia de uma inculturação falsamente entendida encontra sua expressão de maneira particularmente espetacular. Aqui, algumas formas das religiões naturais são assumidas positivamente. O “Instrumentum laboris” (n. 126) não se retrai em  pedir que “os povos pobres e simples” possam expressar “a sua (!) Fé através de imagens, símbolos, tradições, ritos e outros sacramentos (!!)” .

Isto certamente não corresponde aos preceitos da constituição “Sacrosanctum Concilium” e nem aos do decreto “Ad gentes” sobre a atividade missionária da Igreja, e mostra uma compreensão puramente horizontal da liturgia.

Conclusão

“Summa summarum”: o “Instrumentum laboris” faz pesar sobre o sínodo dos bispos e, definitivamente, sobre o próprio papa uma violação grave do “Depositum Fidei”, que significa como consequência, a autodestruição da Igreja ou a transformação do “Corpus Christi Mysticum” em uma espécie de ONG secular com um papel ecológico-social-psicológico.

Depois dessas observações, naturalmente, abrem-se outras questões: pode-se encontrar aqui, especialmente no que diz respeito à estrutura hierárquica sacramental da Igreja, uma ruptura decisiva com a Tradição Apostólica como constitutiva da Igreja, ou melhor, os autores têm noção do desenvolvimento da doutrina que está sendo teologicamente substituído, a fim de justificar as rupturas acima mencionadas?

Este parece ser realmente o caso. Estamos testemunhando uma nova forma do Modernismo clássico do início do século XX. Na época, deu-se início a uma abordagem decididamente evolucionista e depois foi apoiada a idéia de que, no curso do contínuo desenvolvimento do homem a níveis mais elevados, seriam encontrados igualmente níveis mais elevados de consciência e cultura, o que significaria que o que era falso ontem poderia ser verdade hoje. Essa dinâmica evolutiva também foi aplicada à religião, isto é, à consciência religiosa com suas manifestações na doutrina, no culto e, naturalmente, também na moralidade.

Mas aqui, então, pressupõe-se uma compreensão do desenvolvimento do dogma que é claramente oposto ao entendimento católico genuíno. Este último compreende o desenvolvimento do dogma e da Igreja não como uma mudança, mas sim como um desenvolvimento orgânico de um assunto que permanece fiel à sua identidade.

É isso que os Concílios Vaticano I e II nos ensinam em suas constituições “Dei Filius”, “Lumen Gentium” e “Dei Verbum”.

Portanto, deve ser dito hoje com força que o “Instrumentum laboris” contradiz o ensinamento vinculante da Igreja em pontos decisivos e, portanto, deve ser qualificado como um documento herético. Dado que mesmo o fato da revelação divina é aqui questionado, ou mal entendido, deve-se também falar, que além disso, é apóstata.

Isto é ainda mais justificado à luz do fato de que o “Instrumentum laboris” usa uma noção puramente imanentista da religião e considera a religião como o resultado e a forma de expressão da experiência espiritual pessoal do homem. O uso de palavras e noções cristãs não consegue esconder que elas são simplesmente usadas como palavras vazias, independentemente do seu significado original.

O “Instrumentum laboris” para o sínodo da Amazônia constitui um ataque aos fundamentos da fé, de uma forma que até hoje não foi considerado possível. E, portanto, deve ser rejeitado com a máxima firmeza.

21 junho, 2019

O Sínodo a serviço da agenda neopagã.

Por José Antonio Ureta | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com

O jornalista Edward Pentin, do National Catholic Register, solicitou amavelmente minhas primeiras impressões sobre o Instrumentum laboris para a próxima Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, divulgado ontem. Eu o faço com muito gosto, como editorial para este observatório.

Em minha opinião, o Instrumentum laboris representa a abertura de par em par das portas do Magistério à Teologia Indígena e à Ecoteologia, dois derivados latino-americanos da Teologia da Libertação, cujos corifeus, após o desmantelamento da URSS e do fracasso do “socialismo real”, atribuíram aos povos indígenas e à natureza o papel histórico de força revolucionária, em clave marxista.

Tal como a Teologia da Libertação, o Instrumentum laboris toma como base de suas elucubrações não a Revelação de Deus contida na Bíblia e na Tradição, mas a realidade da suposta “opressão” a que estaria sujeita a Amazônia, que de simples área geográfica e cultural passa a ser “interlocutor privilegiado”, “lugar teológico”, “lugar epifânico” e “fonte de revelação de Deus” (números 12, 18 e 19).

Do ponto de vista teológico, o Instrumentum laboris não só recomenda o ensino da Teologia Indígena “em todas as instituições educativas” com vistas a “uma melhor e maior compreensão da espiritualidade indígena” e para que “sejam tomados em consideração os mitos, tradições, símbolos, ritos e celebrações originais” (nº 98), como repete ao longo do documento todos os seus postulados. Ou seja, que as “sementes do Verbo” não apenas estão presentes nas crenças ancestrais dos povos aborígenes, mas que já “cresceram e deram frutos” (nº 120), pelo que a Igreja, em lugar da evangelização tradicional que procura convertê-los, deve se limitar a “dialogar” com eles, uma vez que “o sujeito ativo da inculturação são os mesmos povos indígenas” (nº 122).

 Nesse diálogo intercultural, a Igreja deve também enriquecer-se com elementos claramente pagãos e/ou panteístas de tais crenças, como “a fé em Deus-Pai-Mãe Criador”, as “relações com os antepassados”, a “comunhão e harmonia com a terra” (nº 121) e a conectividade com “as diferentes forças espirituais” (nº 13). Nem sequer o curandeirismo fica à margem de tal “enriquecimento”. Segundo o documento, “a riqueza da flora e da fauna da selva contém verdadeiras ‘farmacopeias vivas’ e princípios genéticos inexplorados” (nº 86). Nesse contexto, “os rituais e cerimônias indígenas são essenciais à saúde integral, pois integram os diferentes ciclos da vida humana e da natureza. Criam harmonia e equilíbrio entre os seres humanos e o cosmos. Protegem a vida contra os males que podem ser provocados tanto por seres humanos como por outros seres vivos. Ajudam a curar as enfermidades que prejudicam o meio ambiente, a vida humana e outros seres vivos” (nº 87).

No plano eclesiológico, o Instrumentum laboris é um verdadeiro terremoto para a estrutura hierárquica que a Igreja possui por mandato divino. Em nome da “encarnação” na cultura amazônica, o documento convida a reconsiderar “a ideia de que o exercício da jurisdição (poder de governo) deve estar vinculado em todos os âmbitos (sacramental, judicial, administrativo) e de forma permanente ao sacramento da ordem” (nº 127). É inconcebível que o documento de trabalho de um Sínodo possa questionar uma doutrina de fé, como é a distinção, na estrutura da Igreja, entre clérigos e leigos, afirmada desde o Primeiro Concílio de Niceia e baseada na diferença essencial entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial dos clérigos, dotado de um poder sagrado que tem sua raiz na sucessão apostólica. Insere-se nessa diluição do sacerdote católico em algo similar a um pastor protestante o apelo para se reconsiderar a obrigatoriedade do celibato (nº 129 § 2) e, mais ainda, o pedido de identificar que tipo de “ministério oficial” pode ser conferido à mulher (§ 3). O Cardeal Joseph-Albert Malula, do Zaire, e Dom Samuel Ruiz, de Chiapas, devem estar se agitando no túmulo ao verem que os projetos que procuraram implementar (e que foram rapidamente interrompidos pela Santa Sé) estão sendo agora propostos em um Sínodo que,  segundo seus organizadores, tem valor universal.

Do ponto de vista ecológico, o Instrumentum laboris representa a aceitação pela Igreja da divinização da natureza promovida pelas conferências da ONU sobre o meio ambiente.

Com efeito, já em 1972, em Estocolmo, seus registros oficiais diziam que o homem administrou mal os recursos naturais principalmente devido a “uma determinada concepção filosófica do mundo”. Enquanto as “teorias panteístas […] atribuíam aos seres vivos uma parte da divindade […], as descobertas da ciência conduziram […] a uma espécie de dessacralização dos seres naturais”, que haure a sua melhor justificação “nas concepções judaico-cristãs, segundo as quais Deus teria criado o homem à sua imagem e lhe dado a terra para que a submeta”. Pelo contrário, dizia a ONU, as práticas dos cultos aos ancestrais “constituíam um baluarte para o meio ambiente, na medida em que as árvores ou cursos d’água eram protegidos e venerados como a reencarnação dos ancestrais” (Aspects éducatifs, sociaux et culturels des problèmes de l’environnement et questions d’information, ONU, Assembleia Geral de Estocolmo, 5-6 de junho de 1972, A / CONF. 48.9, pp. 8 e 9).

E no discurso de encerramento da Eco92, no Rio de Janeiro, o secretário-geral da ONU, Boutros Boutros-Ghali, declarou que “para os antigos, o Nilo era um deus venerável, assim como o Reno, fonte infinita de Mitos europeus, ou a selva amazônica, mãe de todas as selvas. Em todos os lugares, a natureza era a morada das divindades. Elas conferiram à selva, ao deserto, à montanha, uma personalidade que impunha adoração e respeito. A terra tinha uma alma. Reencontrá-la, ressuscitá-la, tal é a essência da [Conferência Intergovernamental] de Rio “(A / CONF.151 / 26, vol. IV, p. 76).

Essa agenda neopagã da ONU é agora reproposta por uma Assembleia Sinodal da Igreja Católica!

O Instrumentum laboris, citando um documento da Bolívia, afirma que “a selva não é um recurso para explorar, é um ser ou vários seres com quem se relacionar” (nº 23), e prossegue afirmando que “a vida das comunidades amazônicas ainda não afetadas pelo influxo da civilização ocidental [sic!] se reflete na crença e nos ritos sobre a ação dos espíritos, da divindade – chamada de múltiplas maneiras – com e no território, com e em relação à natureza. Essa cosmovisão se reflete no ‘mantra’ de Francisco: ‘tudo está conectado’” (n ° 25).

Do ponto de vista econômico-social, o Instrumentum Laboris é uma apologia do comunismo, disfarçado de “comunitarismo”. E da pior forma de comunismo, que é o coletivismo das pequenas comunidades. Com efeito, segundo o documento, o projeto de “bem viver” dos aborígenes (sumak kawsay) supõe “que haja uma intercomunicação entre todo o cosmos, onde não há excludentes nem excluídos”. A nota explicativa da expressão indígena remete para uma declaração de várias entidades indígenas, intitulada “O grito do sumak kawsay na Amazônia”, a qual afirma que dita expressão “é uma Palavra mais antiga e atual” (com “P” maiúsculo no texto, isto é, uma revelação divina) que propõe “um estilo de vida comunitária com o mesmo SENTIR, PENSAR e AGIR” (as maiúsculas são do texto).

Essa frase nos recorda a denúncia feita por Plinio Corrêa de Oliveira em 1976 do tribalismo indígena como sendo uma etapa nova ainda mais radical da Revolução anárquica: “O estruturalismo vê na vida tribal uma síntese ilusória entre o auge da liberdade individual e do coletivismo consentido, na qual este último acaba por devorar a liberdade. Em tal coletivismo, os vários ‘eus’ ou as pessoas individuais, com sua inteligência, sua vontade e sua sensibilidade, e conseqüentemente seus modos de ser, característicos e conflitantes, se fundem e se dissolvem na personalidade coletiva da tribo geradora de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns ” (Revolução e Contra-Revolução, Parte III, cap. III, item 2 “IV Revolução e tribalismo: uma eventualidade”).

O que o Instrumentum laboris em definitiva propõe é um convite para que a humanidade dê o último passo rumo ao abismo da Revolução anticristã: o anarco-primitivismo de John Zerzan e do terrorista Unabomber.

17 junho, 2019

Rumo ao cisma. Lançado o documento preparatório do Sínodo da Amazônia.

Por FratresInUnum.com, 17 de junho de 2019 – Aconteceu! Exatamente como alertamos desde o início — estes posts de 2014, um único ano após a eleição de Francisco, impressionam e já indicavam o percurso que eles percorreram fielmente (1, 2, 3 e 4)!

O Papa Francisco não está brincando. Ele realmente quer destruir o catolicismo tal como se conhece atualmente e gestar uma nova religião a partir da estrutura da Igreja Católica. O documento preparatório do Sínodo da Amazônia não deixa margens para dúvida.

instrumentum laboris amazoniaEmbora o que chame imediatamente a atenção seja a solicitação de novas formas de ministério para a Igreja da Amazônia, a raiz da questão é muito mais profunda. O nº 129 do Instrumentum Laboris, de fato, diz que “afirmando que o celibato é uma dádiva para a Igreja, pede-se que, para as áreas mais remotas da região, se estude a possibilidade da ordenação sacerdotal de pessoas idosas, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os Sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã”. Trata-se da velha requisição de que se ordene homens casados.

Mas, ufa! Segundo o nosso super ortodoxo ex-núncio, Cardeal Lorenzo Baldisseri, não se trata de um prelúdio do fim: “Tudo que é doutrina permanece intacto. O resto pode-se estudar ou inventar”.

Inventar! Nisso eles são realmente pródigos.

Pois, um pouco antes, no nº. 126, o documento afirma que “constata-se a necessidade de um processo de discernimento em relação aos ritos, símbolos e estilos celebrativos das culturas indígenas em contato com a natureza, os quais devem ser assumidos no ritual litúrgico e sacramental. É necessário prestar atenção para captar o verdadeiro sentido do símbolo que transcende o meramente estético e folclórico, concretamente na iniciação cristã e no matrimônio. Sugere-se que as celebrações sejam festivas, com suas próprias músicas e danças, em línguas e com trajes originários, em comunhão com a natureza e com a comunidade. Uma liturgia que corresponda à sua própria cultura, para poder ser fonte e ápice de sua vida cristã, e ligada às suas lutas, sofrimentos e alegrias”.

A doutrina permanece intacta! O que faremos é apenas uma releitura dela, ressignificando-a completamente a ponto de se inventar uma nova religião. Afinal, não é o que o nº. 138 aprecia nos protestantes que atuam na Amazônia? Para os redatores deste documento naturalista, as seitas “nos mostram outro modo de ser Igreja, onde o povo se sente protagonista, onde os fiéis podem expressar-se livremente, sem censuras, dogmatismos, nem disciplinas rituais”.

Vamos inventar!

Como afirmava Dom Claudio Hummes em sua conferência na PUC-SP, eles querem, de fato, gestar uma Igreja com DNA Amazônico, ecologista, multiculturalista, indígena, tribalista! É disso que se trata.

Chega a ser absurdo que o Papa Francisco, embora escondendo-se sob a máscara sinodal, coloque-se tão flagrantemente em desconexão com o sensus fidei do povo católico. A pressa em demolir a Igreja é tão acelerada que já não consegue mais disfarçar uma fachada de catolicismo.

Alguns papas recentes também foram reformistas, mas eles tinham a preocupação de manter ainda aquela aparência católica que tranquilizava a alma das ovelhas enganadas. Agora, não. É sem anestesia, mesmo!

Mas isto é bom! Aliás, é excelente. Precisava ficar cada dia mais claro quem é Jorge Mario Bergoglio. Os cleaners já não conseguem respostas, pois Francisco os desarma totalmente.

Se não houver conversão, e é pelo que rezamos, Francisco precisa mesmo é escancarar ao máximo o seu desvio. O mais importante é a salvação das almas e a restauração da Igreja. E o fato de que toda esta Babel se torna cada dia mais manifesta aos olhos dos simples fieis será a circunstância de que se servirá a Providência para impelir a reação do povo cristão.

Por enquanto, Deus não intervém porque nós não merecemos. Quanta gente preocupada em disfarçar, em fazer de conta que estamos numa primavera! Nosso Senhor fará alguma coisa apenas quando a situação se tornar tão grave que seja indisfarçável, para que fique muito claro o milagre.

Neste ínterim, a estrutura eclesiástica se perverte cada dia com mais força, a fé é dissolvida no paganismo e a Igreja perece no mais inegável mundanismo. Semana passada, por exemplo, um bispo chileno recém-nomeado teve de renunciar não por ter dito uma heresia, mas porque falou coisas politicamente incorretas. A ditadura da opinião prevalece, invicta, sobre o clero moderno.

Até quando os fieis ficarão calados? Até quando assistirão, omissos, o desmonte da sua religião? Os avisos de Fátima são eloquentes! “O dogma da fé” foi o apelo da Virgem. Quem não curvará sua cabeça diante da impostura?