Posts tagged ‘Summorum Pontificum’

20 março, 2014

Inacreditável – a única maneira do moribundo Mario Palmaro conseguir uma Missa de Réquiem no Rito Tradicional: pedir autorização do município para que o pároco envergonhado a “permitisse”.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com – O ódio atroz pela Missa Tradicional continua mesmo após a morte – em janeiro, nosso colaborador Joseph Shaw apresentou o guia da Latin Mass Society sobre a maneira de garantir que a sua própria Missa de Réquiem seja celebrada de acordo com o Rito Romano Tradicional (pelo menos, em algumas jurisdições, veja aqui: Um Guia Prático para conseguir uma Missa de Réquiem no Rito Tradicional). 

Agora, habituado como estava ao ódio diabólico pela Missa em Latim, o finado Mario Palmaro (requiescat in pace) concebeu, durante vários meses de sofrimento e dores excruciantes causadas pela doença que o levou à morte, uma outra maneira de garantir que o pároco da catedral de sua cidade, Monza, “permitisse” que a sua Missa de réquiem fosse celebrada no Rito Romano Tradicional na Duomo:

“Mario Palmaro deixa esposa e quatro filhos jovens, assim, a fim de ter um funeral católico, ele teve que recorrer a um tipo de estratagema: enquanto ainda estava vivo, pediu ao pároco (arcipreste) da catedral de Monza que a Santa Missa Católica [Vetus Ordo] fosse celebrada em sua morte: o padre respondeu – ‘de maneira alguma.’ Porém, Mario ameaçou pedir ao Prefeito, caso o funeral fosse recusado na Igreja, que ela fosse celebrada por um padre católico (fiel ao Vetus Ordo) na praça [fora da catedral]. Assim, diante de algo que poderia ter se tornado um escândalo vergonhoso, o pároco permitiu que a Missa de Sempre fosse celebrada dentro da Catedral na presença de uma multidão profundamente comovida.” [Riscossa Cristiana, em italiano]

Um grande amigo do Rorate esteve presente na Duomo, e ele nos conta que mais de mil fiéis compareceram à Missa de Réquiem. Palmaro agiu com base em sua experiência: um dos primeiros artigos que publicamos em tradução aqui por Mario Palmaro e Alessandro Gnocchi foi sobre a recusa da Missa de Réquiem no Rito Tradicional para o próprio pai de Alessandro Gnocchi (Outra Misa de Réquiem no Rito tradicional negada por uma diocese, 11 de novembro de 2011).

17 março, 2014

Comunicado Oficial: Missa Tridentina proibida na Costa Rica.

Comunicado Oficial

– Aos Católicos Perplexos da Costa Rica e do Exterior –

Por Una Voce Costa Rica | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com – A finalidade desta declaração é apresentar um relato resumido da situação na Costa Rica, particularmente, na Arquidiocese de San José, com relação à Missa de Sempre, também chamada de Missa Tridentina, Missa Tradicional em Latim ou Forma Extraordinária do Rito Romano.

A Una Voce Costa Rica, afiliada à Foederatio Internationalis Una Voce, uma federação com reconhecimento da Santa Sé, tem trabalhado nos últimos anos para que todos os católicos na Costa Rica desfrutem daquilo que na carta que acompanha o Motu Proprio Summorum Pontificum, de Sua Santidade o Papa Bento XVI, foi denominado “um tesouro precioso a ser preservado”.

Bispo emérito Hugo Barrantes.

Bispo emérito Hugo Barrantes.

Desde o final de 2010, primeiramente, como “Grupo São Pio V” e hoje em dia como Una Voce Costa Rica, contatamos diversos padres diocesanos que estavam muito interessados em aprender a celebrar a Missa, e que ficaram ainda mais motivados quando perceberam que se tratava de uma iniciativa séria, e que esta era em grande parte conduzida por jovens. Desde o início achamos que era muito importante que o nosso projeto fosse colocado sob os cuidados pastorais de nosso Arcebispo (Sua Excelência Hugo Barrantes) e, portanto, nós o contatamos e lhe pedimos uma audiência, que ocorreu no final de 2011. O bispo foi breve. Ele basicamente nos disse para procurarmos padres interessados. Nós o fizemos e, cerca de três meses mais tarde, solicitamos uma segunda reunião, onde apresentamos uma lista de padres, enquanto ao mesmo tempo o informamos que tínhamos todos os itens básicos necessários para a Missa (Missal, Sacras, etc.). Na segunda reunião o Bispo nomeou o Padre German Rodriguez (um pároco que não pertencia a San Jose) como supervisor para todos os assuntos relacionados à Missa Tradicional.

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3 março, 2014

Novo abuso de poder: bispo de Fort Worth proíbe a Missa Tradicional.

Por Corrispondenza Romana | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com – Continua a repressão à Missa celebrada segundo a Forma Extraordinária. O site “Rorate Caeli”, sempre bem informado, relata o último episódio surpreendente e preocupante envolvendo Michael Olson, o jovem bispo, recém-nomeado, da diocese de “Fort Worth”, no Texas, que, de uma hora para outra e de forma arbitrária, proibiu a celebração da Missa segundo o antigo rito romano na capela da Faculdade Fisher-More, onde a celebração vinha sendo realizada há três anos com grande sucesso e participação dos alunos.

“Rorate Caeli” teve acesso à carta original, que pode ser vista aqui e que reproduzimos abaixo. Nela, o Bispo Olson formaliza, sem meias palavras, aquilo que já havia sido comunicado verbalmente ao reitor da instituição, Sr. Michael King, ou seja, sua decisão de proibir completamente e com efeito imediato, a celebração da Missa segundo a Forma Extraordinária, incluindo domingos e dias de semana, na capela do campus estudantil, enfatizando que a Missa tradicional já é celebrada aos domingos em outra paróquia da diocese. O texto conclui com a afirmação paradoxal de que essa decisão pastoral visa proteger os alunos do “Fisher More College”, bem como preservar a alma do Sr. King.

O site americano publica também um parecer canônico interessante e autorrevelador do “Centro de Direito Canônico”, que comprova, de maneira clara e irrepreensível, como, após a promulgação do motu proprio “Summorum Pontificum”, de Bento XVI, não compete mais a uma autoridade eclesiástica, ainda que se trate de um bispo, permitir ou proibir a celebração da Missa segundo o usus antiquior. Na realidade, os fiéis têm o direito, sancionado por lei eclesiástica, de poder assistir à missa e receber os sacramentos de acordo com o Vetus Ordo.

Portanto, a decisão do bispo Michael Olson é ilegítima, pois contraria a norma eclesiástica superior representada pelo motu proprio e, por isso, unimo-nos ao apelo do site “Rorate Caeli” de difundir e divulgar ao máximo possível a notícia desse novo abuso contra a Missa tradicional (Lupo Glori)

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A carta de Monsenhor Olson

DIOCESE DE FORT WORTH

GABINETE EPISCOPAL

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24 de fevereiro de 2014

Sr. Michael King

Fisher-More College

801 West Shaw Street

Fort Worth, Texas 76110

Prezado Sr. King,

Agradeço sua visita nesta data. Escrevo-lhe para afirmar formalmente o que lhe disse durante nosso encontro. Essas normas passam a vigorar imediatamente.

  1. O senhor não tem permissão para a celebração pública da Forma Extraordinária da Missa na Capela da Faculdade Fisher More. Isso inclui domingos e dias de semana. A celebração semanal da Forma Extraordinária é disponibilizada aos fiéis todos os domingos na Igreja Católica Santa Maria da Assunção, em Fort Worth.
  2. Vocês podem participar da Missa na Forma Ordinária celebrada por padres que explicitamente tenham faculdades para essa celebração, conforme garantido por mim na qualidade de bispo de Fort Worth.
  3. A falta de cumprimento das normas supracitadas resultará no cancelamento de minha permissão para a celebração da Eucaristia em sua capela, bem como o cancelamento da permissão para a guarda do Santíssimo Sacramento na Capela.

Promulgo essas normas por solicitude e zelo pastoral pelos alunos da Faculdade Fisher More, bem como pela sua própria alma. Exorto-vos a cumpri-las. Por favor, transmita aos seus alunos minha gratidão pelo presente do buquê espiritual. Por favor, diga-lhes que estão em minhas orações.

Atenciosamente, em Cristo,

+ Michael F Olson

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Comentário do Fratres: Talvez as fotos do Fisher More College que apresentamos abaixo expliquem por si o porquê da proibição episcopal.  Admiramos, no entanto, a franqueza de Dom Olson, que reafirmou por escrito o que dissera pessoalmente ao reitor e que alguns de seus pares no episcopado, até mesmo brasileiros, falam ao pé do ouvido de seus padres sem, contudo, terem a virilidade de assinar embaixo. Segundo o site Rorate Caeli, a Santa Missa na Forma Extraordinária até então era celebrada diariamente por capelães aprovados pelo bispo anterior. Esse golpe acontece depois que os alunos da faculdade levantaram a quantia de US$300.000,00 em cerca de uma semana para manter a faculdade aberta durante o semestre de verão.

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Carta do Centro de Direito Canônico: Canon Law Centre

Parecer Canônico

REf.: Carta do Reverendíssimo [Arcebispo] Michael Olson ao Sr. Michael King (Fisher-More College), datada de 24 de fevereiro de 2014

Após a promulgação do Summorum Pontificum, o bispo diocesano não tem mais a autoridade para permitir ou restringir a celebração da Missa de acordo com o usus antiquior, uma prerrogativa de que anteriormente desfrutava. Assim, nenhum bispo tem o poder de restringir arbitrariamente a celebração da Missa de acordo com o Rito Romano Tradicional. Enquanto o bispo diocesano tem “todo o poder ordinário, próprio e imediato, necessário para o exercício de sua função pastoral” (CIC/83, c. 381, §1), a sua autoridade não é absoluta.

Os fiéis tem o direito, embasado no direito eclesiástico, de acesso à Missa e aos sacramentos celebrados de acordo com o usus antiquior. A celebração da liturgia romana tradicional não é mais um privilégio estendido aos fiéis individualmente, mas sim um direito que pode ser propriamente reivindicado se as solicitações para essas celebrações não forem atendidas (cf. SP, art. 7). O Prof. Winfried Haunerland, Chefe do Departamento de Estudos Litúrgicos na Ludwig-Maximilians Universität, de Monique, argumenta que não há outro documento na história da Igreja, além do Summorum Pontificum, que tenha feito valer direitos em questões litúrgicas de maneira tão bem articulada para os fiéis. (cf. W. Haunerland, “Ein ritus in zwei ausdrucksformen? Hintergrunde und Perspektiven zur Liturgiefeier nach dem Motu proprio ‘summorum Pontificum’”, em Liturgisches Jarhbuch, 58 (2008) p. 185).

Há vários anos após a promulgação do Summorum, os mecanismos legais para a reivindicação de direitos relativos à implementação adequada do motu proprio tem deixado muito a desejar. Com a promulgação da Instrução Universae Ecclesiae, em 30 de abril de 2011, a lei universal do Summorum efetivamente ganhou eficácia: o processo de recurso hierárquico agora poderá ser utilizado pelos fiéis que acreditarem que seus direitos tenham sido violados por decisão de um Ordinário que lhes pareça ser contrária ao motu proprio (cf. EU, 10 § 1).

A recente carta de Dom Olson ao Fisher-More College certamente parece representar uma decisão desse tipo.  Na medida em que ela restringiu ilegalmente os direitos dos fiéis, o ato administrativo do bispo pode e deve ser questionado. O tempo está correndo: as partes agravadas no Fisher-More College têm 10 dias a partir da data de notificação judicial da decisão do bispo para ajuizar uma remonstratio, o pedido preliminar para a revogação ou reconsideração (cf. CIC/83, c. 1734), que inicia o processo de recurso hierárquico à Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, de acordo com a norma legal (cf. CIC/83, cc. 1732-1739; EU, 10 § 1).

25 janeiro, 2014

No Altar à Hora Nona. O Silêncio e a Solidão do Gólgota: Assistindo à Missa Tradicional.

Por Antonio Margheriti Mastino

Há duas facetas em particular que nos permitem uma compreensão mais profunda da Missa, especialmente, de acordo com a Forma Extraordinária, que pessoalmente prefiro:  o silêncio e a solidão.  O altar, antes, durante e depois do Sacrifício é coberto em silêncio. E pela solidão: a do celebrante, o “Alter Christus.”

Mas como isso pode acontecer, alguém dirá, uma vez que a Páscoa e, portanto, a celebração são triunfos? Isso é verdade. Mas a celebração da Missa também é a representação da Paixão e Morte de Cristo, que se desenrola no silêncio, na solidão, na traição, na negação e na fuga dos discípulos. Na Última Ceia, Cristo é traído e vendido por Judas. No Jardim das Oliveiras, na noite antes de sua morte, Cristo é deixado sozinho para suar sangue, enquanto seus discípulos dormem em vez de orar com ele, a única coisa que ele lhes havia pedido. Naquela mesma noite, Pedro o nega três vezes. Ninguém tenta salvá-lo, ninguém se oferece para suportar o peso de sua cruz, mesmo por pouco tempo (o Cireneu foi forçado a fazê-lo).  Ninguém parece conhecê-lo ou reconhecê-lo.

Cristo, em um momento de verdadeira dor humana, clama em voz alta ao seu Deus, ao Abba, o abismo de miséria e solidão em que mergulha em silêncio. “Solidão”. A mesma solidão que o sacerdote, o Alter Christus, experimenta nesse momento no altar do Sumo Sacrifício, o Gólgota renovado, onde, de um modo real e mais uma vez a Paixão de Cristo irrompe. O sacerdote está sozinho no altar.  E a esta solidão soma-se a sombra protetora da solidão: silêncio. Na colina desolada do Gólgota, primeiro no Jardim e em seguida assim como no túmulo, Cristo está sozinho e em silêncio: o silêncio de sua obediência, do cálice de amarga aflição, o suor misturado com sangue.  E este é o silêncio da impotência, uma impotência que por um momento parece até mesmo a de Deus.  “Meu Pai, Abba, por que me abandonaste?” O “silêncio” de Deus, neste momento quando a onda do abismo está quebrando sobre Cristo, parece quase como o naufrágio da Divindade no nada.

Porém, ela também é a impotência e a desolação que vem do primeiro e eterno “Sim” em obediência da Maria aos pés da Cruz, ao aceitar este Filho que não era para ela manter: “Stabat Mater dolorosa…” Esse é o silêncio temeroso que foi experimentado pela maravilhosa Santa Teresa de Lisieux em seu leito de morte, quando ela gritou, naquele momento derradeiro de agonia e escuridão, que ela não tinha sensação da presença de Deus.

Silêncio. Tal como os discípulos estavam em silêncio, tal como Maria estava em silêncio, todos os quem amavam Cristo como homem e Messias. Havia silêncio aos pés da Cruz. Havia silêncio quando os outros se esconderam. Havia silêncio por causa da obediência. Havia silêncio por causa da covardia. Eles estavam silenciosos, paralisados pela dor. Eles estavam silenciosos em confusão. Ou porque, ao final, as coisas “tinham que resultar” nesta maneira… Todos permaneceram em silêncio. Eles apenas permaneceram lá: na Paixão e Morte do Filho de Deus. Pelo mesmo motivo, na Missa do Sacrifício, os fiéis não deveriam “participar”, mas “assistir”, guardando o silêncio, aquele silêncio que encobre o sacerdote enquanto ele oferece o Sacrifício de Cristo e de si mesmo.  E eles devem estar em estado aceitação ativa, devem oferecer o seu apoio naquilo que não é penetrável, o milagre, como prometeu o Messias, de que não nos deixaria órfãos.

Mas e a Ressurreição? Ela é o triunfo, isso é verdade. Porém, ela é o triunfo vivido de maneira oculta, por um Deus sem arrogância. Ela acontece novamente, mas em silêncio e solidão.  Dentro do túmulo de pedra, de noite, ninguém estava lá, exceto os soldados que guardavam a entrada. Da mesma maneira, em uma voz mais baixa, no silêncio que permanece escondido nas profundezas das palavras do sacerdote, o “Alter Christus” no altar do Sacrifício, a Ressurreição novamente estará presente.  Em silêncio e solidão.

E assim vemos o “porquê” e o “como” o que significa “estar na Missa”, como alguém “assiste” o Santo Sacrifício da Missa, a Missa antiga. Isso está longe da gritaria e dos aplausos, longe do comportamento frenético e da síndrome de querer ser o centro das atenções, longe os microfones crepitantes e com deformação de som, longe da inundação de fraseologia fria e longe da Missa reformada no estilo dos anos 70, uma década cheia de retórica cansativa ornada de slogans populistas que no final não têm utilidade alguma para alguém de qualquer tempo, uma das piores décadas já vividas na face da terra.

Traduzido do italiano pelo Padre Richard G. Cipolla

Fonte original:  “La Cuccia del Mastino”, 14 de janeiro de 2014

Fonte imediata: Rorate Caeli – Tradução: Fratres in Unum.com

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Atenção: blog em recesso – Comentários demorarão mais do que o habitual para serem liberados. Atualmente há 219 comentários aguardando moderação.

3 janeiro, 2014

Uma nova ofensiva de Herodes contra os Filhos da Imaculada.

“Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem” (Mateus 2:18)

Por Brian McCall – The Remnant | Tradução: T. M. Freixinho – Fratres in Unum.com: A vinda do Salvador traz não somente alegria, mas sofrimento. Após o Dia de Natal segue-se imediatamente a Festa de Santo Estevão, primeiro mártir. Dois dias depois, comemoramos o massacre dos Santos Inocentes no lugar do Divino Infante. Herodes, um usurpador da autoridade legítima na Judeia, está cheio de ódio e raiva quando ouve a respeito da possível chegada da verdadeira autoridade dentro de seu domínio. Ele não pode encontrar O Santo, a fim de colocar suas mãos Nele e, assim, descarrega sua fúria nos Santos Inocentes, aqueles recém-nascidos incapazes de se defender. Todos os tiranos ilegítimos por fim atacam com injustiça, porque, no fundo, eles sabem que sua posição é insustentável.

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Há cinquenta anos, uma autoridade tirana usurpou a governança do corpo de Cristo. Esta autoridade não é um único homem, papa ou bispo. Chama-se modernismo.[1] Ele se instalou nos mais altos postos da Igreja, cuja função é guardar e transmitir o Depósito da Fé. Ele tem exercido, de maneira injusta e ilícita, a mais alta autoridade na Igreja, agindo através dos ocupantes desses cargos — não nos cabe julgar se eles são ou não colaboradores voluntários do modernismo — não para as finalidades para as quais esses cargos foram criados, mas para injetar vírus mortais de novidade e confusão no Corpo de Cristo. Ainda assim, não obstante toda essa inovação injusta, o Corpo conserva uma pulsação fraca. A Tradição não apenas sobrevive ao ataque viral, mas cresce de maneira constante, ainda que vagarosamente, atraindo novas gerações para a beleza da Fé e da Liturgia verdadeiras.

Os Franciscanos da Imaculada (denominados FIs) não foram e não são tradicionalistas. Eles não foram fundados pelo Arcebispo Lefebvre nem jamais tiveram um relacionamento formal ou informal com a Fraternidade São Pio X. Desde a sua fundação, eles aceitaram e usaram o Novus Ordo Missae. Ainda assim, os FIs adotaram uma adesão fiel à espiritualidade de São Maximiliano Kolbe. A lealdade ao autêntico espírito de São Maximiliano inevitavelmente deve conduzir a um conflito com a tirania modernista reinante na Igreja.

O modernismo pretende sintetizar tudo, a fim de negociar um armistício com os inimigos da Igreja, especialmente, o espírito da Maçonaria. Recentemente, em um momento de verdadeira clareza, Dom Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, um Cardeal pessoalmente próximo ao Papa Francisco e escolhido por ele para liderar o seu Conselho de Oito Cardeais, explicou que essa reconciliação com o modernismo estava no centro dos [acontecimentos] de “1789 na Igreja,” conforme o Vaticano II foi descrito pelo Cardeal Suenens:

O Concílio Vaticano II foi o principal evento na Igreja no século XX. A princípio, ele significou um fim às hostilidades entre a Igreja e o modernismo, que havia sido condenado no Concílio Vaticano I. Ao contrário: nem o mundo é o reino do mal e do pecado – essas são conclusões claramente conquistadas no Vaticano II—nem a Igreja é o único refúgio do bem e da virtude. O Modernismo foi, em grade parte, uma reação contra as injustiças e abusos que menosprezavam a dignidade e os direitos da pessoa.[2]

Uma vez que o Modernismo foi uma reação ao ensinamento e a práxis tradicionais da Igreja, o Cardeal considera claramente essas coisas como “injustiças” e “abusos.” Aqui temos uma avaliação honesta por parte do Cardeal mais influente neste Pontificado, deixando claro que o último século envolveu um combate entre o Modernismo e a Igreja antes do Vaticano II, em seu ponto de vista, o Modernismo triunfando sobre o Concílio. Os FIs não depuseram suas armas e não uniram-se a esse cessar-fogo profano. O resultado tem sido a sua perseguição permanente.

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O combate de São Maximiliano foi claramente uma parte dessa luta. Ele direcionava seus esforços particularmente contra o adjutório do Modernismo na esfera temporal, a Maçonaria. A Maçonaria se alegrou com o resultado do Vaticano II, que os maçons abertamente proclamaram como uma vitória para a Maçonaria. Assim, um compromisso com o combate da Imaculada inevitavelmente levará a um confronto com o Modernismo. O engajamento em um combate assim, ao final, nos levará a enxergar as armas perenes que têm logrado êxito nessa batalha, a Missa de Sempre e a doutrina imutável da Igreja preservada há séculos e somente obscurecida sob uma nuvem de ambiguidades no Vaticano II. Ainda assim, o encontro da Missa e da Doutrina Tradicional, inevitavelmente, conduzirá a um confronto com os inimigos internos da Igreja.

Recentemente, Dom Bernard Fellay comentou que a lealdade dos FIs a São Maximiliano é o que os aproximou dos tradicionalistas e os puseram em conflito com as forças que ocupam as mais altas posições na Igreja.

Isso é muito interessante, porque Maximiliano Kolbe deseja um combate pela Imaculada, a vitória de Deus sobre os Seus inimigos — podemos realmente usar essa expressão — ou seja, os maçons. É muito interessante constatar isso. Esse combate contra o mundo, contra o espírito do mundo aproximou os FIs de nós, quase por natureza, alguém poderia dizer, porque alistar-se em um combate contra o mundo implica, em algum momento, a Cruz. O que implica os princípios eternos da Igreja: que se chama o espírito cristão. Esse espírito cristão é expresso de maneira magnífica na Missa Antiga, na Missa Tridentina. De tal maneira que quando Bento XVI publicou o seu Motu Proprio, que novamente disponibilizou amplamente a Missa, essa congregação decidiu em seu Capítulo, ou seja, uma decisão tomada por toda a congregação, retornar à Missa antiga, e realmente fazê-lo em todos os sentidos, percebendo que viriam a ter muitos problemas, uma vez que eles têm paróquias, porém, todavia, esses problemas não eram intransponíveis. Alguns deles também começaram a fazer certas indagações sobre o Concílio.

Consequentemente, alguns insatisfeitos, uns poucos se considerarmos o seu número (há cerca de 300 padres e irmãos no total), talvez uma dúzia, protestaram a Roma, dizendo: “Eles estão tentando nos impor a Missa antiga, eles estão atacando o Concílio.”[3]

As forças do Modernismo não podem destruir a Igreja e a Sagrada Tradição. A promessa de indefectibilidade de Nosso Senhor os impede de fazer isso. Igualmente, foi impossível que o usurpador Herodes matasse Nosso Senhor antes da consumação do tempo para o Seu sacrifício redentor. Sim, Herodes poderia desferir a sua raiva nos inocentes e desamparados que estavam “próximos” de Nosso Salvador, ou seja, na região de Belém.

Os FIs são, em certo sentido, como os Santos Inocentes. Eles não são tradicionalistas, mas, como observou Dom Fellay, são “próximos” por defender a Tradição de maneira inequívoca e coerente. Nos últimos anos, os FIs podiam ser vistos caminhando em direção a um “renascimento” como uma comunidade plenamente tradicionalista. Eles estão potencialmente nos estágios iniciais dessa transição, encorajando e permitindo o uso amplo da liturgia tradicional e mantendo a mente aberta para considerar o lugar que o Vaticano II e seus frutos ocupam no combate da Imaculada. Ainda assim, como é claro, eles ainda conservaram o uso do Novus Ordo Missae.

As forças do Modernismo, incapazes de acabar com a Tradição na Igreja e incapazes de armar o que, em retrospectiva, pode ter sido uma armadilha prática para a FSSPX em um reconhecimento canônico, estão tentando destruir a essência dos FIs caso isso possa ser uma fonte de derrota derradeira do Modernismo.

Os FIs foram fundados em 1970, curiosamente, no mesmo ano que a FSSPX, e têm crescido de modo a incluir padres, freiras, terciários, membros da ordem terceira, casas de estudo, editoras e distribuidoras, além de apostolados leigos. Os FIs foram elevados ao nível de direito diocesano em 1990 e o Papa João Paulo II os elevou a direito pontifício. Hoje em dia, contam com mais de 500 membros em seis continentes. Embora aceitem o Novus Ordo Missae como forma normativa antes do Summorum Pontificum, os FIs mantiveram-se fiéis ao carisma franciscano, conforme expresso por São Maximiliano. Eles falam frequentemente e de maneira apaixonada sobre Nossa Senhora Mediadora de Todas as Graças (uma doutrina esnobada no Vaticano II) e sua Co-redenção. Após o Summorum Pontificum, os FIs deliberaram, e, de acordo com as regras que regem o seu processo de tomada de decisões, votaram esmagadoramente no sentido de promover e facilitar o uso amplo e generoso da liturgia tradicional, embora permitindo que padres individuais celebrem o Novus Ordo Missae. Ainda assim, mesmo essa posição prudente e moderada foi demais para o Modernismo, e, após a eleição do Papa Francisco, o Vaticano agiu segundo as reclamações de uma meia dúzia de descontentes (assim como o Vaticano agiu contra a FSSP em 1999, após as reclamações de uma meia dúzia de membros desejosos de celebrar a Missa Nova, e que acabaram saindo da FSSP).

Agora recordaremos que durante décadas a hierarquia fez ouvidos moucos às graves acusações de abuso homossexual de crianças por parte de padres. Os criminosos foram mimados, protegidos e enviados disfarçadamente para novas atribuições. O Cardeal Law, que protegeu criminosos por décadas, não foi destituído como bispo, mas voluntariamente renunciou a uma promoção para um cargo confortável em Roma (onde ele está livre de qualquer possível prisão nos Estados Unidos).

A Congregação para a Doutrina da Fé investigou as ordens religiosas femininas nos Estados Unidos e descobriu evidências chocantes de heterodoxia e, embora algumas discussões tenham sido realizadas com o conselho de liderança, nenhuma ordem religiosa foi assumida, nenhum superior foi destituído.

Nenhum Comissário Apostólico foi nomeado para assumir a Arquidiocese de Los Angeles quando ela faliu devido aos pagamentos multimilionários de dólares às vítimas de abusos.

Ainda assim, agora, depois que alguns padres dos FIs, que não gostam da decisão tomada por toda a congregação, por amplo consenso, reclamaram que estão sendo forçados a sentir que devem celebrar a Missa Tradicional, embora sejam perfeitamente livres para fazer o contrário, qual é a reação do Vaticano? Intervir com uma arma nuclear.

Considere as seguintes medidas disciplinares que só podem ser descritas como perseguição imoral e injusta e que foram tomadas até a presente data.

1) Os superiores devidamente eleitos dos FIs, incluindo o fundador e Superior Geral Padre Stephano Maria Manelli, foram sumariamente destituídos e substituídos por um Comissário nomeado pelo Vaticano, Padre Fidenzio Volpi.

2) Dizem que o velho padre Manelli, de 80 anos de idade, foi colocado efetivamente sob prisão domiciliar, tendo sido proibido de receber visitantes ou sair para encontrar qualquer pessoa.

3) Em contradição direta não somente com a lei natural e divina, mas também com a lei positiva da Igreja, conforme expresso no Summorum Pontificum, o padre Volpi proibiu a celebração da Missa Tradicional pelos membros dos FIs.

4) Os recursos temporais dos FIs foram confiscados pelo padre Volpi.

5) O padre Volpi fechou o seminário/casa de estudos até segunda ordem.

6) Aqueles no curso de estudo, se e quando o padre Volpi decidir que podem retornar aos seus estudos, serão enviados para instituições específicas não afiliadas aos FIs. A Casa Mariana, [editora] vinculada à casa de estudos, recebeu ordem do padre Volpi para fechar.

7) O padre Volpi cancelou as ordenações para o diaconato e sacerdócio marcadas para este ano.

8) Uma vez que as ordenações tiverem permissão para se realizarem, o padre Volpi ordenou que todos os candidatos às Ordens que atualmente estejam em formação devem subscrever pessoalmente uma aceitação formal:

a. do Novus Ordo como uma autêntica expressão da tradição litúrgica da Igreja e, portanto, da tradição franciscana (sem prejuízo daquilo que é permitido pelo Motu Proprio Summorum Pontificum, se a proibição ilegal à Missa Tradicional atualmente imposta pelo padre Volpi for revogada), e

b. dos documentos do Concílio Vaticano Segundo, em conformidade com a autoridade que lhes for conferida pelo Magistério.

9) Qualquer candidato que não aceitar essas disposições será imediatamente demitido do Instituto.

10) Todo religioso no Instituto deve expressar clara e formalmente por escrito a sua disposição em continuar a sua jornada no Instituto dos Freis Franciscanos da Imaculada, de acordo com o carisma Mariano-Franciscano, no espírito de São Maximiliano M. Kolbe, de acordo com as diretrizes relativas à vida religiosa contidas nos documentos do Concílio Vaticano Segundo.

11) O padre Volpi suspendeu os grupos de Missão Imaculada Mediadora na Itália até que esses grupos façam uma declaração formal de adesão à nova autoridade, presumivelmente o padre Volpi.

12) O padre Volpi suspendeu a Ordem Terceira de São Francisco sem garantia de restabelecimento, mas somente uma declaração de que o padre Volpi irá nomear três religiosos a quem os membros desses grupos poderão consultar relativamente a quaisquer esclarecimentos.

13) O padre Volpi suspendeu a distribuição ao público das publicações da “Casa Mariana Editrice”, que inclui muitos livros e artigos simpáticos a um ponto de vista Católico Tradicional moderado sobre a liturgia, teologia e o Vaticano II.[4]

Esta lista é de tirar o fôlego. Quando os padres e bispos facilitaram o abuso de crianças pequenas, por acaso as propriedades de uma única diocese foram confiscadas? Após inúmeros relatórios de encorajamento e até mesmo exaltação de homossexualidade nos seminários (Veja livro Good Bye Good Men de Michael Rose, por exemplo), por acaso quaisquer dos seminários criminosos foram fechados? Alguma ordenação foi cancelada para garantir que os candidatos não eram pedófilos? Por acaso Hans Küng ou qualquer um do tipo dele foi proibido de distribuir livros questionando os ensinamentos perenes da Igreja, como, por exemplo, a ressurreição física de Nosso Senhor?

Obviamente, a resposta a essas perguntas é um inequívoco não. Ainda assim, um instituto religioso está sendo submetido à perseguição mais severa simplesmente por reverenciar a Tradição Católica.

Quando o ultraje dessa perseguição tão injusta foi contestado na imprensa italiana, o padre Volpi respondeu por carta defendendo a sua dura perseguição. Que crime ele invoca para justificar essas medidas extremas? Alguns “religiosos” não especificados reclamaram “de uma tendência cripto-lefebvriana e, definitivamente, tradicionalista” na comunidade dos FIs, e o padre Manelli “já tinha evitado o diálogo construtivo com” esses religiosos não especificados. Há também uma reclamação ex post facto sobre uma tentativa não especificada e sem comprovação de reter alguns bens após a instalação do ditador comissário. (Obviamente, mesmo se alguma coisa acontecesse após a tomada de controle, logicamente, isso não pode ser um motivo para a tomada de controle.)

Então, aí você chegou ao ponto que eu queria! Os únicos crimes na Igreja que produzem diversas medidas criminais graves hoje em dia são ser “cripto-lefebvriano” (seja lá o que isso significa), ter uma tendência “tradicionalista” e recusar o engajamento em um “diálogo construtivo” com inferiores que reclamam sobre as decisões legítimas de suas congregações. O direito penal da Igreja nos últimos cinquenta anos é efetivamente reduzido a “Não te aproximarás de um Tradicionalista.” Você pode abusar de crianças, escrever e pregar heresias, encobrir crimes seculares e então você é promovido e continua sendo um padre em situação canônica regular. Mas ouse ter uma “tendência tradicionalista” e você estará acabado. Isso é tão insano que parece irreal, mas é real — uma perseguição real dos inocentes pelas autoridades na Igreja que alegam agir sob a aprovação expressa da “mais alta autoridade,” o Papa Francisco.

É interessante observar que todas as ações do padre Volpi desde a sua nomeação correspondem exatamente àquilo que o Arcebispo Lefebvre previu que iria acontecer se ele concordasse com a exigência do Papa Paulo VI, em 1974, de entregar toda a FSSPX, seu seminário em Ecône, e seus priorados a um Comissário nomeado por Paulo VI. Dom Lefebvre recusou alegando que o seminário seria fechado, os seminaristas seriam forçados a entrar nos seminários [modernistas] após a nova orientação, a Missa seria suspensa e os fiéis que dependiam da FSSPX seriam abandonados.

Mais uma vez a previsão do Arcebispo se justificou. O que aconteceu aos FIs teria acontecido à FSSPX em 1974 se o Arcebispo tivesse vacilado. Onde a Missa Tradicional estaria hoje se isso tivesse acontecido? Provavelmente, não haveria nenhum indulto em 1984, nenhum Indulto em 1988, nenhum Summorum Pontificum, nenhuma Fraternidade de São Pedro (uma vez que não haveria nenhuma FSSPX de onde eles pudessem sair), etc.

O que os FIs devem fazer? O que qualquer pessoa sob opressão devido a perseguição injusta pode fazer, especialmente, quando a honra de Deus ou a nossa própria salvação ou a salvação de outra pessoa assim o exigir? Respeitosamente recusar-se a cumprir ordens injustas e ilícitas. Os FIs deveriam todos recusar essa exigência ultrajante de um juramento de obediência à Missa Nova e ao Vaticano II. Por acaso Hans Küng alguma vez foi forçado a fazer um juramento de fidelidade a Trento ou ao Vaticano I sob pena de perder suas faculdades? Nunca! Nenhum católico é obrigado a fazer um juramento ao Vaticano II e à Missa Nova para obter a salvação. Por outro lado, todo santo diante dessas anomalias teria se perdido. Os FIs deveriam simplesmente continuar o seu trabalho, que foi aprovado por ninguém menos que o Papa João Paulo II. Os FIs são uma congregação aprovada na Igreja. O golpe que se abateu sobre eles é injusto e ilegal, uma vez que não cometeram crime algum. Continuar vivendo o combate da Imaculada e celebrando a Missa Tradicional, confiando na autoridade do Papa Bento XVI em Summorum Pontificum quando este afirma:

Em Missas celebradas sem o povo, qualquer sacerdote de Rito Latino, seja secular ou religioso, pode usar o Missal Romano publicado pelo Beato João XXIII em 1962 ….Com a devida observância da lei, inclusive os fiéis Cristãos que espontaneamente o solicitem, podem ser admitidos à Santa Missa mencionada no art. 2 (Artigos 2 e 4).

Se Comunidades ou Institutos de Vida Consagrada ou Sociedades de Vida Apostólica de direito pontifício ou diocesano desejam ter uma celebração da Santa Missa segundo a edição do Missal Romano promulgado em 1962 em uma celebração conventual ou comunitária em seus próprios oratórios, isto está permitido. Se uma comunidade individual ou todo o Instituto ou Sociedade desejar ter tais celebrações frequente ou habitualmente ou permanentemente, o assunto deve ser decidido pelos Superiores Maiores segundo as normas da lei e das leis e estatutos particulares. (Artigo 3)

Mesmo se os FIs tivessem decidido adotar a Missa Tradicional em caráter permanente, eles tinham a permissão para fazê-lo se a decisão fosse tomada por seus superiores de acordo com a sua lei interna de governo. Eles somente decidiram facilitar e encorajar, mas não adotar a Missa Tradicional em caráter permanente.

Os FIs não cometeram crime algum que justificasse o término de seus estudos e formação religiosa. Eles são um instituto aprovado pela mais alta autoridade da Igreja, e, uma vez que essa aprovação é concedida, ela não pode ser revogada por uma justa causa. Ser um “cripto-lefebvriano” ou ter uma “tendência tradicional” equivale a uma acusação inventada do nada, uma técnica digna de um grande número dos regimes seculares totalitários que dominaram o século passado. Todas essas penalidades são nulas segundo a lei natural, divina e até mesmo eclesiástica. Como Santo Tomas, citando Santo Agostinho, nos recorda, uma lei injusta não é lei de maneira alguma, mas sim um ato de violência. Continuem os seus estudos e formação como vocês sempre fizeram. Aquilo que era perfeitamente legal no ano passado deve ser legal hoje em dia.

Talvez os bens temporais dos FIs estejam perdidos para sempre para o padre Volpi, mas talvez este seja um sacrifício que a Imaculada esteja pedindo de seus filhos para provar a sua fidelidade ao seu combate contra a Maçonaria e o Modernismo. Afinal de contas, eles são Franciscanos! Eles devem estar dispostos a perder os bens e confiar na generosidade dos fiéis para apoiá-los no combate, mas não devem deixar de combater. Pergunte-se, será que a mãe de um dos Santos Inocentes teria pecado se ela tivesse evitado a ordem injusta de Herodes e tirado seu filho de Jerusalém? Seria ela culpada de desobediência? Obviamente que não. Ela não teria qualquer obrigação de cumprir a sua perseguição injusta. Nós ordens, grupos, associações e católicos ordinários tradicionais, temos o dever de vir em auxílio dos FIs. Se eles se mostrarem dispostos a continuar o combate da Imaculada usando as armas invencíveis do passado, temos o dever de auxiliá-los no âmbito temporal. Se os FIs tomarem uma posição a favor da Imaculada, da Igreja e da Missa de Sempre devemos estar prontos na medida de nossas possibilidades a auxiliá-los no âmbito temporal.

Essa perseguição aos FIs pode sinalizar uma batalha final, uma ofensiva final do Modernismo contra a Igreja a partir de dentro. A Irmã Lúcia nos disse décadas atrás que o demônio estava disposto a uma batalha decisiva contra as forças da Imaculada. Ela também advertiu que os religiosos e religiosas estavam no centro dessa batalha. Talvez esse pontificado marque as etapas mais difíceis dessa batalha final pela alma da Igreja. Se tiver que ser assim, devemos estar dispostos a sacrificar tudo pela Imaculada, por seu Divino Filho e seu Corpo Místico.

As palavras de Winston Churchill à ilha sitiada da Grã Bretanha, em setembro de 1940, poderiam se aplicar com analogia adequada à posição na Igreja no momento. Que os membros dos FIs e todos envolvidos na causa da Tradição prestem atenção a este chamado de cada um a tomar sua posição, chamado esse que não procede de um primeiro ministro, mas da própria Imaculada:

Portanto, todos os homens e mulheres se prepararão para cumprir o seu dever, seja lá qual for, com orgulho e zelo especial. Nossas frotas e flotilhas são muito poderosas e numerosas; a nossa Força Aérea chegou ao máximo de força que poderia ter alcançado e está consciente de sua superioridade comprovada, não certamente em números, mas em homens e máquinas. Nossas costas estão bem fortificadas e firmemente guardadas por homens, e atrás delas, prontas ao ataque dos invasores, temos um Exército móvel muito maior e melhor equipado do que jamais tivemos antes. Além disso, temos mais de um milhão e meio de homens da Guarda de Defesa Interna, que são tantos soldados do Exército Regular quanto Guardas Granadeiros, e que estão determinados a lutar por cada centímetro do solo em cada bairro e em cada rua. É com confiança devota, mas também com confiança segura, que digo: Que Deus defenda os Justos.

Que os Santos Inocentes roguem por nós e, em particular, intercedam para a solução do caso dos Franciscanos da Imaculada perseguidos nesta época de Natal!

* * *

[1] Ao falar usurpar, não quero dizer que os homens que detêm os mais altos cargos na Igreja não ocupam esses cargos, mas sim que tem havido uma usurpação neles do espírito cristão por parte do Modernismo.

[2] Para ver o texto de uma das ocasiões em que essa declaração foi feita, veja, http://www.miamiarch.org/ip.asp?op=Article_13102810144642

[3] http://www.dici.org/en/documents/interview-with-bispo-bernard-fellay-menzingen-november-2013/

[4] Esta lista foi compilada a partir das declarações e comentário disponíveis em http://www.rorate-caeli.blogspot.com/2013/12/for-record-situation-with-franciscans.html

12 novembro, 2013

Cardeal garante à Una Voce que o Papa não tocará no status da Missa Tradicional.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum – A Assembleia Geral da Federação Internacional Una Voce (FIUV) foi realizada em Roma nos últimos dias – e eles receberam uma visita edificante do Cardeal Castrillón: O ex-prefeito da Congregação para o Clero disse ao grupo tradicionalista que o Papa Francisco não pretende restringir o acesso à Forma Extraordinária da liturgia em latim.

“Encontrei o Papa Francisco muito recentemente, e ele me disse que não tem problema com o rito antigo nem tem qualquer problema com grupos e associações leigas como a de vocês, que a promovem”, disse o Cardeal Dario Castrillon Hoyos aos membros da Una Voce Internacional (FIUV), que estiverem em Roma para a assembleia geral.

Respondendo a perguntas dos membros da FIUV sobre tensões dentre os Frades da Imaculada, o cardeal colombiano disse que o Papa se moveu para insistir no uso do Novus Ordo nessa comunidade religiosa somente por causa de dissenso interno, e não por causa de qualquer juízo negativo sobre a liturgia tradicional. Em sua assembleia geral, a FIUV elegeu um novo presidente: James Bogle, um advogado, autor e presidente da União Católica da Grã Bretanha.

“Somos muito gratos a Sua Eminência o Cardeal Castrillon Hoyos, Sua Eminência o Cardeal Brandmüller e o Arcebispo Pozzo por participarem de nossa Assembleia Geral da Federação Internacional Una Voce,” disse Bogle em uma declaração breve à CWN. “Estamos muito satisfeitos com o modo como a celebração da Missa tradicional agora está se espalhando mundialmente.

Obviamente somos muito gratos a Bento XVI e também ao nosso Papa atual Papa Francisco por todo o apoio que eles têm nos dado em nosso direito de prestar culto a Deus no rito romano tradicional.” (Fonte: CWN; dica: E.F.)

30 outubro, 2013

Periferias existenciais (I).

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Mas quero sublinhá-lo, também porque se trata de um elemento que vivi muito quando estava em Buenos Aires: a importância de sair para ir ao encontro do próximo, nas periferias… Num primeiro sentido, as periferias desta Diocese, por exemplo, são as áreas da Diocese que correm o risco de ser marginalizadas, permanecendo fora das faixas de luz dos reflectores. Mas são também pessoas, realidades humanas deveras marginalizadas, desprezadas. São pessoas que talvez se encontrem fisicamente próximas do «centro», mas que sob o ponto de vista espiritual estão distantes. Não tenhais medo de sair e ir ao encontro destas pessoas, de tais situações. Não vos deixeis bloquear por preconceitos, por hábitos, por inflexibilidades mentais ou pastorais, pelo famoso «sempre fizemos assim!». Mas só podemos ir às periferias, se tivermos a Palavra de Deus no nosso coração e se caminharmos com a Igreja, como fez são Francisco. Caso contrário, estamos a anunciar a nós mesmos, e não a Palavra de Deus, e isto não é bom, não beneficia ninguém! Não somos nós que salvamos o mundo: é precisamente o Senhor que o salva!

Do discurso do Papa Francisco ao clero em Assis – 4 de outubro de 2013.

* Populus Summorum Pontificum: na imagem, família na Basílica de São Pedro para a Missa Pontifical do Cardeal Castrillón Hoyos – 26 de outubro de 2013.

20 outubro, 2013

Foto da semana.

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O Santo Sacrifício da Missa no Rito Romano Tradicional: perpetuado em nossos altares para a remissão de nossos pecados; sóbrio, sagrado, singelo, uno e único. Nunquam abrogatam. Eis a maior beleza de ser Católico Apostólico Romano. Na imagem, monges da abadia beneditina francesa de Sainte-Madeleine du Barroux. Créditos: Paula Luckhurst.

14 outubro, 2013

Corredores romanos sussurram…

… aos ouvidos do sempre bem informado Francisco José Fernández de la Cigoña. Na apresentação ocorrida há poucos dias, no Angelicum, das atas do III Congresso Summorum Pontificum, enquanto o abalizado vaticanista Sandro Magister discursava, apresentando praticamente os mesmos argumentos de suas últimas colunas, ocorreu algo que chamou a atenção dos presentes. Conta a fonte de Francisco de la Cigoña: “Segundo Magister, este Papa está sendo muito suave com todos, menos com os tradicionalistas, e tem dado uma interpretação restritiva ao uso da liturgia antiga, ao considerá-la novamente como algo para grupos que “têm essa sensibilidade”, e que contém o perigo da ideologização. Em suma, disse Magister, a liturgia já não é obra de Deus, mas serviço ao povo e releitura à luz de nossos tempos. O mútuo enriquecimento que augurava Bento XVI não parece que ocorrerá, por ora, com Francisco. E agora vem o mais chamativo do ato: o Cardeal Burke e Mons. Pozzo saíram na metade da intervenção de Magister, não sei se porque tinham que ir ou se por prudência, dada a crítica, serena mas dura, de Magister a Francisco. A saída de um cardeal de um evento é chamativa. E cabem todas as interpretações.”

Também segundo Francisco de la Cigoña, Monsenhor Guido Marini poderia ser nomeado bispo da pequena diocese italiana de Ventimiglia-San Remo. Seria o típico promoveatur ut amoveatur.

7 outubro, 2013

A reviravolta de Francisco.

Ele revelou o verdadeiro programa de seu pontificado em duas entrevistas e uma carta a um intelectual ateu. Em relação aos Papas que o precederam, o distanciamento é cada vez mais nítido, tanto em palavras como nos fatos. 

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com – Roma, 3 de outubro de 2013 – A primeira reunião nestes dias dos oito cardeais chamados para consulta pelo Papa Francisco, e sua visita amanhã a Assis, cidade do Santo do qual tomou o nome, são atos que, certamente, caracterizam este início de pontificado.

Mas o que mais caracterizou a definição de sua linha foram quatro acontecimentos midiáticos do mês passado:

a entrevista do Papa Jorge Mario Bergoglio à “La Civiltà Cattolica”;

– sua carta resposta às perguntas que lhe dirigiu publicamente Eugenio Scalfari (na foto), fundador do principal periódico laico italiano, “La Repubblica”;

o posterior colóquio-entrevista com o mesmo Scalfari;

– e a outra carta, resposta a outro campeão do ateísmo militante, o matemático Piergiorgio Odifreddi, escrita não pelo Papa atual, mas por seu predecessor, o Papa emérito.

A pessoa interessada em entender que direção quer tomar Francisco e em que se distancia de Bento XVI e dos outros Papas que o precederam, só tem que estudar e confrontar estes quatro textos.

* * *

Na entrevista do Papa Bergoglio à “La Civiltà Cattolica” há uma passagem que foi percebida universalmente como uma clara mudança de linha, não só em relação a Bento XVI, mas também a João Paulo II:

«Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente. Os ensinamentos, tanto dogmáticos como morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de carácter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús. Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio; de outro modo, mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do Evangelho».

Sem dúvida, o Papa Francisco é muito consciente de que também para os dois Papas que o precederam a prioridade absolutamente era o anúncio do Evangelho; que para João Paulo II a misericórdia de Deus era tão essencial que lhe dedicava um domingo do ano litúrgico; que Bento XVI escreveu precisamente sobre Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o livro de sua vida como teólogo e pastor; que, em suma, nada de tudo isso lhe separa deles.

Francisco sabe também que a mesma consideração vale para os bispos que, mais do que outros, atuaram em sintonia com os dois Papas que o precederam. Na Itália, por exemplo, o Cardeal Camillo Ruini, cujo “projeto cultural” se desenvolveu com eventos fundados em Deus e em Jesus.

Todavia, tanto para Karol Wojtyla e Joseph Ratzinger, como para pastores como Ruini ou, nos Estados Unidos, os cardeais Francis George e Timothy Dolan, existia a intuição de que o anúncio do Evangelho hoje não podia ser separado de uma leitura crítica acerca da nova visão do homem que se estava desenrolando — em radical contraste com o homem criado por Deus a sua imagem e semelhança — e, portanto, da consequente ação de orientação pastoral.

É aqui que o Papa Francisco se separa. Em sua entrevista à “La Civiltà Cattolica” há outra passagem chave. Quando o Padre Antonio Spadaro lhe pergunta sobre o atual “desafio antropológico”, ele responde de maneira elusiva. Mostra não fixar-se na gravidade histórica da mudança de civilização analisada e contestada fortemente por Bento XVI e, antes, por João Paulo II. Mostra seu convencimento de que vale mais responder aos desafios do presente com o simples anúncio do Deus misericordioso, esse Deus “que faz surgir o sol sobre os maus e os bons, e que faz chover sobre os justos e os injustos”.

Na Itália, mas não só neste país, foi o cardeal e jesuíta Carlo Maria Martini a pessoa que representava essa tendência alternativa a João Paulo II, a Bento XVI e ao cardeal Ruini.

Nos Estados Unidos, essa tendência era representada pelo Cardeal Joseph L. Bernardin, antes que a liderança da conferência episcopal passasse aos cardeais George e Dolan, muito fiéis a Wojtyla e Ratzinger.

Os seguidores e animadores de Martini e Bernardin vêm hoje em Francisco o Papa que dá corpo a suas expectativas de revanche.

E do mesmo modo que o cardeal Martini era e segue sendo muito popular também entre a opinião pública externa e hostil à Igreja, o mesmo ocorre com o Papa atual.

* * *

A troca de cartas e o posterior colóquio entre Francisco e o ateu professo Scalfari ajudam a explicar essa popularidade do Papa também “in partibus infidelium”.

Uma passagem do artigo de 7 de agosto passado, no qual Scalfari lhe dirigia algumas perguntas, nos mostra a idéia positiva que o fundador do “La Repubblica” faz do Papa atual:

“Sua missão contém duas novidades escandalosas: a Igreja pobre de Francisco, a Igreja horizontal de Martini. E uma terceira: um Deus que não julga, mas perdoa. Não há condenação, não há inferno”.

A carta de resposta do Papa Bergoglio, recebida e publicada, foi comentada por Scalfari, que acrescentou esta outra grata consideração:

“Até agora, nunca se havia visto na cátedra de Pedro uma abertura à cultura moderna e laica de tal amplitude, uma visão tão profunda entre a consciência e sua autonomia”.

Quando afirmava isso, Scalfari se referia em particular ao que o Papa Francisco lhe havia escrito sobre o primado da consciência:

“A questão está em obedecer à própria consciência. O pecado, também para quem não tem fé, existe quando se atua contra a consciência. Escutar e obedecer à consciência significa, de fato, decidir-se frente ao que é percebido como bem e como mal. E sobre esta decisão está a bondade ou a maldade do nosso atuar”.

O Papa não havia acrescentado nada mais. E alguns leitores astutos se perguntaram como era possível unir essa definição tão subjetiva da consciência, — segundo a qual o indivíduo aparece como a única instância da decisão –, com a idéia de consciência como caminho do homem à verdade, idéia aprofundada durante séculos de reflexão teológica, de Agostinho a Newman, e confirmada com força por Bento XVI.

Mas no sucessivo colóquio com Scalfari, o Papa Francisco foi ainda mais drástico reduzindo a consciência a um ato subjetivo:

“E repito aqui: Cada um tem sua própria idéia de bem e mal e deve escolher seguir o bem e combater o mal como concebe. Isso bastaria para fazer o mundo um lugar melhor”.

Não surpreende, portanto, que o iluminista ateu Scalfari tenha escrito que “compartilha perfeitamente” estas palavras de Bergoglio sobre a consciência.

Como tampouco nos surpreende sua acolhida complacente destas outras palavras do Papa, quase um programa do novo pontificado, isto é, “o problema mais urgente que a Igreja tem diante de si”:

“Nossa meta não é fazer proselitismo, mas ouvir às necessidades, desejos e desilusões, desespero, esperança. Precisamos restaurar a esperança dos jovens, auxiliar os idosos, estarmos abertos para o futuro, espalharmos o amor. Sermos pobres dentre os pobres. Precisamos incluir os excluídos e pegar a paz. O Vaticano II, inspirado pelo Papa Paulo VI e João, decidiu olhar para o futuro com um espírito moderno e abrir-se para a cultura moderna. O Padres Conciliares sabiam que abrir-se para a cultura moderna significava ecumenismo religioso e diálogo com não crentes. Mas posteriormente muito pouco foi feito nessa direção. Tenho a humildade e ambição de querer fazer alguma coisa”.

Não há nada neste programa de pontificado que não seja aceito pela opinião laica dominante. Também o juízo de que João Paulo II e Bento XVI fizeram “muito pouco” para abrir ao espírito moderno está em sintonia com tal opinião. O segredo da popularidade de Francisco está na generosidade com que se concede às expectativas da “cultura moderna” e na astúcia com que evita aquilo que pode se converter em sinal de contradição.

Também nisso ele se separada decididamente de seus predecessores, inclusive Paulo VI. Há uma passagem na homilia do então arcebispo de Munique, Ratzinger, e que pronunciou na morte do Papa Giovanni Battista Montini, em 10 de agosto de 1978, que é extraordinariamente esclarecedora, também por seu chamado à consciência “que se mede sobre a verdade”:

“Um Papa que hoje não sofresses críticas fracassaria em sua tarefa ante este tempo. Paulo VI resistiu à telecracia [ndr: poder da mídia] e à demoscopia [o poder das pesquisas de opinião], as duas potências ditatoriais do presente. Pôde fazê-lo porque não tomava como parâmetro o êxito ou a aprovação, mas a consciência, que se mede segundo a verdade, segundo a fé. É por isso que em muitas ocasiões buscou o acordo: a fé deixa muito aberto, oferece um amplo espectro de decisões, impõe como parâmetro o amor, que se sente na obrigação para com o todo e, portanto, impõe muito respeito. Por isso pôde ser inflexível e decidido quando o que se colocava em jogo era a tradição essencial da Igreja. Nele, esta dureza não derivava da insensibilidade daqueles cujo caminho é ditado pelo prazer do poder e o desprezo das pessoas, mas da profundidade da fé, que lhe fez capaz de suportar as oposições”.

* * *

Confirmando o que separa o Papa Francisco de seus predecessores, vem a carta com a qual Ratzinger-Bento XVI — rompendo seu silêncio após a renúncia — respondeu ao livro “Caro papa, ti scrivo” (“Caro Papa, te escrevo”), publicado em 2011 pelo matemático Piergiorgio Odifreddi.

Os dois últimos Papas dialogam com gosto com ateus professos e formadores de opinião laicos, mas o fazem de modo muito distinto. Se por sua parte Francisco se esquiva das pedras de escândalo, Ratzinger, por sua vez, as ressalta.

Basta ler esta passagem de sua carta a Odifreddi:

“O que o senhor diz sobre a figura de Jesus não é digno de sua categoria científica. Se o senhor coloca a questão como se de Jesus, no fundo, não se soubesse nada e dEle, como figura histórica, nada fosse comprovável, então somente posso convidá-lo, decididamente, a que se o senhor se torne um pouco mais competente do ponto de vista histórico. Para isso, recomendo-lhe, sobretudo, os quatro volumes que Martin Hengel (exegeta da Faculdade Teológica Protestante de Tübingen) publicou juntamente com Maria Schwemer: é um excelente exemplo de precisão e de amplíssima informação histórica. Em face disso, o que o senhor diz sobre Jesus é uma ousadia que o senhor não deveria repetir. É um fato incontestável que na exegese muito se escreveu com falta de seriedade. O seminário americano sobre Jesus que o senhor cita, nas pp. 105 e seguintes, apenas confirma uma vez mais o que Albert Schweitzer escrevera a respeito de “Leben-Jesu-Forschung” (Pesquisa sobre a vida de Jesus), isto é, que o tal dito “Jesus histórico” é no máximo o reflexo das idéias dos autores. No entanto, tais formas de trabalho mal redigidas não comprometem de modo algum a gravidade da pesquisa histórica séria, que nos trouxe verdadeiro conhecimento no que concerne o anúncio e o personagem de Jesus”.

E mais adiante:

“Porém, se o senhor pretende substituir Deus por “Natureza”, cumpre saber pois quem é essa natureza ou o que é. O senhor não a define em parte alguma e ela acaba por aparecer como uma divindade irracional que não explica nada. Eu gostaria sobretudo lhe fazer notar que em sua religião das matemáticas, três temas fundamentais da existência humana não são considerados: a liberdade, o amor e o mal. Surpreende o fato que com um simples gesto o senhor liquide a liberdade que no entanto foi e ainda é o valor fundamental da época moderna. Em seu livro, o amor não aparece de modo algum, assim como não há alguma informação a propósito do mal. O que importa o que diz ou não a neurobiologia a respeito da liberdade, no drama real de nossa história, ela está presente como uma realidade determinante e deve ser levada em consideração. No entanto, sua religião matemática nada diz sobre o mal. Uma religião negligente das buscas fundamentais permanece vazia de sentido”.

“Minha crítica ao seu livro é em parte dura. Mas a franqueza faz parte do diálogo; o conhecimento só pode crescer desse modo. O senhor foi bem franco e eu espero que aceite minha crítica com o mesmo espírito. Em todos os casos, eu avalio positivamente o fato que através de sua confrontação com minha introdução ao cristianismo, o senhor tenha procurado um diálogo aberto com a Fé da Igreja Católica e que, não obstante os contrastes, no campo central, há várias convergências”

* * *

Até aqui foram as palavras. Mas o que distancia os dois Papas são também os fatos.

A proibição lançada pelo Papa Bergoglio à congregação dos frades Franciscanos da Imaculada de celebrar a missa no rito antigo foi uma efetiva restrição a essa liberdade de celebrar que Bento XVI havia assegurado a todos.

Por conversas com seus visitantes, sabe-se que o próprio Ratzinger viu em tal restrição um “vulnus” [ndr: ferida, chaga] em seu motu proprio de 2007 “Summorum Pontificum”.

Na entrevista à “La Civiltà Cattolica”, Francisco definiu a liberação do rito antigo decidida por Bento XVI como uma simples “escolha prudencial ligada à ajuda para com algumas pessoas que têm esta sensibilidade”, quando, por sua vez, a intenção explícita de Ratzinger — expressa a seu tempo em uma carta aos bispos de todo o mundo — era que “as duas formas de uso do rito romano possam se enriquecer mutuamente”.

Na mesma entrevista, Francisco definiu a reforma litúrgica pós-conciliar como “um serviço ao povo como releitura do Evangelho a partir de uma situação histórica concreta”. Definição fortemente redutiva em relação à visão da liturgia que era própria de Ratzinger teólogo e Papa.

Ademais, ainda neste campo, Francisco substituiu em bloco, no último dia 26, os cinco consultores da oficina das celebrações litúrgicas papais.

Entre os substituídos está, por exemplo, o pe. Uwe Michael Lang, liturgista de quem o próprio Ratzinger escreveu o prólogo do seu livro mais importante, dedicado à orientação “ao Senhor” da oração litúrgica. [nota do Fratres: também foi destituído Mons. Nicola Bux, intrépido defensor da “hermenêutica da continuidade”].

Em troca, entre os liturgistas promovidos há figuras muito mais inclinadas a colaborar com o estilo celebrativo do Papa Francisco, também este visivelmente distante do inspirado “ars celebrandi” de Bento XVI.

* * *

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Antes que com o Papa Bergoglio, Scalfari havia tido uma relação ainda mais intensa com o Cardeal jesuíta Carlo Maria Martini, arcebispo de Milão de 1979 a 2002.

Em particular, Scalfari resenhou de modo muito positivo o que foi, talvez, o livro mais revelador da visão desse cardeal sobre o cristianismo e a Igreja, “Conversazioni notturne a Gerusalemme. Sul rischio della fede” (“Conversações noturnas em Jerusalém. Sobre o risco da fé”), publicado em 2008, muito lido e discutido dentro e fora da Igreja.

> Dios no es católico, palabra de cardenal

Como ateu professor, Scalfari escreveu que considerava confortante que “o Filho do Homem seja para Martini mais significativo que o Filho de Deus”.

Neste momento, fez assombro uma expressão de Martini nesse livro: “Não podes fazer que Deus seja católico”. É significativo que essa expressão tenha sido retomada pelo Papa Francisco em seu colóquio com Scalfari do último 24 de setembro: “Creio em Deus. Não em um Deus católico, não existe um Deus católico; existe Deus”.

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Sobre a questão da consciência, Bento XVI se deteve sobre ela em especial em 2010, durante sua viagem à Grã-Bretanha, na beatificação de John Henry Newman, e mais ainda no discurso à cúria romana do Natal desse mesmo ano:

> “Conciencia significa la capacidad del hombre de reconocer la verdad…”

Por sua vez, a homilia do então cardeal Ratzinger por ocasião da morte de Paulo VI, na qual também havia feito uma referência à consciência “que se mede sobre a verdade”, foi publicada pela primeira vez no início de agosto passado, em uma edição especial de “L’Osservatore Romano”, no cinquentenário da eleição do Papa Montini.