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1 agosto, 2012

[Post de Setembro de 2011] É possível ser um padre diocesano e celebrar a Missa tradicional com exclusividade? Um exemplo verdadeiro e encorajador.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com [publicação original em Setembro de 2011]

[Consideramos que esta seja uma de nossas matérias mais relevantes e inspiradoras.]

Logo após a publicação do motu proprio Summorum Pontificum, três padres da Diocese de Novara (Piedmont, Itália) tentaram celebrar a Missa Tradicional com exclusividade (relatamos esses acontecimentos aqui e aqui).

Em uma entrevista publicada poucos dias atrás, o padre Alberto Secci conta a sua história, e nos apresenta um relato maravilhoso de sua vida após o Summorum. Sim, existe vida para padres diocesanos que celebram os Sacramentos de acordo com o uso antigo em caráter exclusivo. E ela pode ser bonita, poderosa e gloriosa, a despeito das dificuldades normais da vida.

“Você pode imaginar o que aconteceria se todos os padres diocesanos optassem por fazer isso?” Esse é o tipo de argumento frágil que alguém esperaria ouvir – não é algo convence, não a nós, estando no mesmo nível que “Não deveria haver monges, porque a humanidade deixaria de existir se todos os homens se tornassem monges exemplares”: sim ela deixaria de existir, mas eles não se tornariam [todos monges]… O que esperamos propor através deste exemplo é que é possível existir conforto e consolação para esse número extremamente reduzido de sacerdotes que optam por fazer uso do seu direito de celebrar a “Forma Extraordinária” de maneira radical. E por que essa escolha deveria nos chocar? Quase todos optam por celebrar a “Forma Ordinária” de maneira radical e exclusiva, e eles não são vilipendiados por isso. Há tribulação na opção radical desses padres, e isso está bem: os padres que optam por esse caminho devem estar plenamente cientes de que serão destituídos, deslocados, transferidos, rebaixados, desprezados, achincalhados e ridicularizados, tomados como exemplo; eles terão de desistir de favores, carreiras eclesiásticas, anos sabáticos, nomeações especiais; mas, graças ao Summorum, eles poderão encarar tudo isso em perfeita paz de consciência, com a Missa, que, nas palavras de um grande cardeal, proporciona “um maior fruto espiritual”. E, quanto à tribulação, se vocês nos permitirem mencionar modestamente um grande leigo, “portanto, digo, que aqueles que estão em tribulação, têm, por outro lado, uma grande causa para extrair de sua dor grande conforto e consolação espiritual.” (Santo Thomas More, “Um diálogo de conforto contra tribulação“).

O Summorum é a carta de alforria de padres com mentalidade tradicional; é bom que aqueles que estão pensando em fazer a mesma escolha radical desses heróicos padres italianos saibam que não estão sozinhos, que, quando houver uma vontade, haverá uma maneira. Se ao menos um único padre diocesano for motivado por esta tradução de, ao menos, considerar a possibilidade de seguir esse caminho radical, então, todo o nosso trabalho aqui no Rorate [e nós do Fratres in Unum fazemos eco a essas palavras] ao longo desses anos terá valido à pena cada segundo. Dedicamos esse artigo a vocês, padres diocesanos: se eles podem fazê-lo, vocês também poderão.

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[Entrevista concedida por Don Alberto Secci a Marco Bongi]

[Fonte: Una Fides.]

[Tradução do italiano para o inglês: Francesca Romana.]

[Tradução do inglês para o português: Fratres in Unum]

O desconforto, os sofrimentos espirituais, as batalhas e a coragem de um autêntico sacerdote católico, forçado a viver em uma realidade eclesial que muito freqüentemente não pode compreendê-lo.

Don Alberto Secci e seus dois irmãos padres, Don Stefano Coggiola e Don Marco Pizzocchi, todos pertencentes ao clero de Novara, de repente alcançaram grande notoriedade nos meios de comunicação (pelo que muito se arrependeram) quando decidiram implementar fielmente o Motu Proprio do Papa Bento XVI Summorum Pontificum, de 2007.

A oposição à celebração da Missa Tradicional em Latim foi firme e violenta por parte da chancelaria de Novara, de modo que ela colocou os três pares em séria dificuldade, acima de tudo, com relação aos seus paroquianos. A lógica era simples: a celebração da Missa Tradicional em Latim deveria ser uma exceção, portanto, ela lhes era proibida.

Assim, algum tempo depois os três padres foram apresentados tanto pela mídia local quanto nacional como “provocadores” teimosos.

Até mesmo alguns estranhos ambientes ditos “tradicionais” julgaram por bem chamá-los à moderação, lembrando-lhes que a causa tradicional exigia o exercício da virtude da obediência, mesmo quando deparados com o repúdio das leis da Igreja, escárnio da Santa Missa e negligência no cuidado das almas. Obviamente esta (obediência) é pedida aos mais fracos, ou seja, padres e fiéis, especialmente quando eles são confrontados pelos bispos que fazem o que querem, como se eles fossem “mestres” de sua própria Igreja individual, enquanto as autoridades romanas são impotentes para segurar suas rédeas e, assim, incapazes de fazê-los respeitar os direitos dos padres e fiéis, mesmo quando esses direitos advêm das leis universais atuais da Igreja.

Contudo, o Senhor vê e provê. Os nossos três padres continuam em seu caminho – o caminho de fidelidade à Santa Tradição da Igreja Romana. Tal como suas igrejas em Vocogno e Domodossola, é possível hoje em dia acompanhar os apostolados de Don Alberto Secci e Don Stefano Coggiola em sua página na Internet Radicati nella fede.

[Entrevista por Marco Bongi]

Don Alberto, o seu papel como sacerdote que voltou à Missa de Sempre por ocasião do Motu Proprio ganhou muita notoriedade na mídia durante os anos de 2007 e 2008. Agora que transcorreu algum tempo desde aqueles eventos inquietantes, gostaríamos de fazer ao senhor algumas perguntas que ajudarão os fiéis italianos a se tornarem mais familiarizados com a sua história, bem como o seu apostolado que está se desenvolvendo. O senhor pode nos dizer brevemente quando a sua vocação ao sacerdócio começou e como foi a sua formação no seminário?

R. Nasci em Domodossola, mas minha família se mudou para Biellese, meu pai era um carabiniere [policial militar], e lá passei minha infância em uma boa paróquia, administrada por um velho pároco (nascido em 1890!), um patriarca, com a mais forte devoção a Nossa Senhora. Lá, mais certamente, as primeiras sementes de minha vocação cresceram. Atuando como coroinha, o mês de maio, o Santuário de Oropa… esses, juntamente com a fidelidade de minha mãe as suas tarefas diárias e (freqüência) à Missa, um sentido de dever e ordem do meu pai e muitas outras coisas, marcaram positivamente a minha infância católica.

Então, retornei à Domodossola com a minha família, e me matriculei no ensino médio da escola estadual [Liceo Scientifico]…boas memórias lá, mesmo se, até nas províncias, em 1977 o clima era muito secular. Nessa escola de ensino médio experimentei uma militância católica intensa com o movimento Comunhão e Libertação. Éramos poucos, mas bem treinados para a “batalha.” Lembro-me daqueles anos: oração (dizíamos as laudes, matinas, vésperas e completas, o rosário, a Missa diária – e tínhamos apenas 15 e 16 anos de idade! Também estudávamos livros diferentes daqueles adotados pelos professores, a fim de defender a Igreja e Sua História). O amor pela Igreja crescia cada vez mais com o aumento do conhecimento. Líamos os grandes escritores espirituais, São Bento, Santa Teresa de Ávila… para mim a idéia de uma vocação ao sacerdócio era um desejo natural, urgente. Cristo é tudo, a Igreja é o Seu Corpo: como alguém pode não dar a sua vida por eles?

Após a formatura do ensino secundário, aos 19 anos, entrei para o seminário. (Tinha) uma grande ajuda de um padre confessor muito ortodoxo, um pouco menos de teologia, embora a tenha estudado com paixão. A falha? Naqueles anos tudo era um “jardim de trabalho” de opiniões pessoais, ancoradas ideologicamente nas teorias de Rahner. Porém, passei por esses anos serenamente, estando acostumado a “batalhar” de maneira confiante pela fé desde o segundo grau. Não tenho ressentimentos e lembro-me com afeição de todos os professores, mas eu já havia sido preparado na militância católica de antemão, para manter um olho no ensino. Todos os dias no seminário eu vigiava os horizontes – esperando a “Restauração Católica”…que nunca chegava!

P. Que ministérios o senhor conduziu nos primeiros anos de ordenação?

R. Uma vez ordenado, aos 25 anos, eles me enviaram para uma enorme paróquia católica, com um grande oratório; eu era o vigário. Não foi fácil: eu ensinava religião na escola secundária e o resto do dia transcorria entre o oratório e a paróquia: trabalho duro, porque tinha que confrontar linhas eclesiais muito diferentes das minhas, já notadamente tradicionais. Espero ter feito algum bem e pouco dano. Depois disso, fui para a França por cerca de um ano, atraído pela experiência dos Cônegos Regulares, porque sentia a necessidade de maior apoio de outros padres: os Cônegos Regulares, bem com os monges, haviam construído a Europa Cristã, assim parecia que eu havia encontrado uma solução para servir Deus e as almas de uma maneira melhor. Voltei, apesar disso, porque descobri que as disputas teológicas e a fragilidade do seminário haviam entrado em casa: a atmosfera de confusão não permaneceu fora dos conventos, da mesma forma que ela não ficou fora dos nossos corações. Em seguida, “aportei” no Valle Vigezzo, onde me encontro atualmente, primeiro como assistente no Santuário e depois como pároco. Em todos esses anos, continuei ensinando religião nas escolas.

P. Como o senhor encontrou a Missa Tradicional em Latim e o que o levou a abraçar este rito exclusivamente, apesar das dificuldades?

R. Essa é uma resposta difícil. Parece que ela sempre existiu. Lembro-me de que eu nunca poderia suportar uma certa maneira de celebrar; lembro ter percebido coisas ridículas em muitas liturgias, sempre estive ciente. Era como se eu soubesse que aquele era um momento confuso (na época), de uma transição dramática, mas que ao final haveria uma volta para casa. Tudo na Igreja lhe falava sobre o Rito Antigo, que somente ele estava faltando, e assim… aguardei. Como vigário paroquial, e mais ainda quando me tornei um pároco, fiz tudo o que me parecia possível: altar ad orientem, canto gregoriano com os fiéis, comunhão na língua, sempre usei a batina, reuniões doutrinais com os adultos, catequese tradicional para crianças.

Mas isso não foi o suficiente, havia o cerne da questão, a Missa, mas como eu podia lidar com ela? Eu já estava sob “investigação” há anos por causa de algumas coisas que eu tinha feito! Em 2005, introduzi pela primeira vez o Ofertório, depois, o Cânon do Rito Antigo, na Missa de Paulo VI. Aguardei pacientemente por notícias do Motu Proprio durante algum tempo, que parecia nunca viriam. E no dia 11 de julho de 2007, (lembro-me) era uma terça-feira, comecei a celebrar exclusivamente a Missa de sempre. Tenho que dizer que foi meu irmão quem me deu o primeiro “empurrão”: estávamos viajando juntos através de uma montanha no dia anterior e ele me disse: “Não sei o que você está esperando …” …era o sinal que eu precisava para começar.

P. Por que o senhor recusou o chamado “bi-ritualismo” ao contrário de outros padres que acolheram o Summorum Pontificum?

R. Serei breve. Acho a obrigação do biritualismo absurda. Se alguém descobriu algo que é autêntico, que é melhor, que expresse a Fé Católica mais completamente, sem ambigüidades perigosas, por que haveria a necessidade de celebrar algo mais inferior? Com o biritualismo, na realidade, um rito morre e o outro permanece. Com o biritualismo, o padre fica desgastado, com a tristeza de um tipo de esquizofrenia e as pessoas não são edificadas, instruídas, consoladas na beleza de Deus. Evitarei discutir os aspectos teológicos – uma entrevista não é o lugar para isso. Direi somente que quem permanecer com o biritualismo, mais cedo ou mais tarde abandona o Rito Antigo e inventa razões para ficar no mundo da reforma, vivido talvez de uma maneira conservadora, mas com uma tristeza interior, como alguém que traiu o amor de Deus desde a sua juventude. Tenho que acrescentar que foi muito útil para mim a leitura do livro “The Anglican Liturgical Reform”, de Michael Davies – um texto fundamental que é muito claro: a ambigüidade do rito leva à heresia de fato. E não foi isso o que aconteceu?

P. Como os seus paroquianos reagiram ao saberem de sua decisão de voltar ao Rito Antigo?

R.: Ninguém ficou surpreso. Os apoiadores disseram: “…finalmente!” Os opositores disseram: “..Nós lhe dissemos isso!” Mas eu diria que a maioria das pessoas foram trabalhar com grande zelo: elas pegaram os folhetos, elas queriam entender …havia fervor… Em seguida, eu sempre fui auxiliado por um grupo de fiéis, gente forte e simples, que sempre estavam prontos para trabalhar comigo: estou pensando especialmente naqueles que participam do coral desde 1995. Então, eles começaram a dizer que estávamos desobedecendo o bispo e o papa e, conseqüentemente, tudo ficou mais complicado, mas inicialmente não foi assim.

P. Todos nós sabemos dos mal-entendidos com o bispo e a solução subseqüente de lhe confiar um tipo de capelania em Vocogno. Como eram as relações com os seus irmãos párocos na época, fora as variações com a Cúria de Novara?

R. Eles todos desapareceram. Alguns não aprovavam, a maioria ficou em silêncio, alguns nos disseram às escuras que não eram contra [a missa antiga], isso aconteceu raramente, em público eles não podiam fazer nada a respeito. Havia o medo de desobediência oficial. Don Stefano, o padre que seguiu a mesma estrada que eu e com quem trabalho, (mesmo que tenhamos tipos diferentes de apostolado)…bem, ele e eu nunca faltamos às reuniões do clero do vicariato… sempre participamos delas com entusiasmo.

P. Como são as suas relações hoje em dia com o bispo e os outros padres?

R. Elas parecem ser serenas, vejo que há muita coisa não resolvida, porque sempre se evitou uma discussão profunda sobre as razões de nossa escolha. Parece que eles quiseram que isso ficasse na superfície, no nível puramente jurídico. Esperamos que, com o tempo, algo mude para melhor a esse respeito.

P. Do seu posto de vista, como o senhor vê a situação na Igreja e o quê o senhor acha do papel da FSSPX no futuro?

R. A Igreja pertence a Deus, assim tenho que esperar. Mesmo porque vejo que essa crise é profunda e muito triste, será muito longa. Há um pensamento não cristão que entrou no cristianismo. Paulo VI disse isso! Ele é comumente aceito. Muitos pensam que são católicos, mas não o são mais. É terrível. Isso é abandonar Jesus Cristo enquanto se permanece dentro de Sua Igreja – não pode existir algo mais ambíguo do que isso! A Fraternidade tem que continuar o trabalho de Mons. Lefebvre, ou seja, guardar o sacerdócio, a fé, a Missa de Sempre…um dia, o papel providencial da Fraternidade será evidente para todos. Amar a Igreja significa preservar os tesouros de fé e graça que Nosso Senhor Jesus Cristo consignou à ela e a constitui. A Fraternidade sempre fez isso, pelo que agradeço a Deus.

P. A região Ossolana tem grandes tradições religiosas. O senhor acha que a Missa Tradicional em Latim poderia se espalhar nesta zona e nas adjacentes?

R. Não sei. Sei apenas que a vida em nossas montanhas se moldaram a partir da Missa Católica Antiga. As vidas das pessoas por essas bandas foram educadas pela liturgia tridentina e que ela lhes estava disponível para que permanecessem radicalmente diante de Deus, ou seja, com a confiança que dá forma à vida. Entretanto, o mundo “americanizado” também chegou por aqui, graças também à Igreja, infelizmente. Falando em termos humanos, isso foi um desastre.

P. Como está sendo o seu apostolado atualmente e como muitos fiéis habitualmente freqüentam a Igreja em Vocogno?

R. Missa Diária, 2 Missas aos domingos, confissões todos os dias por meia hora antes da Missa, escola em Domodossola, este ano 13 turmas, reuniões sobre doutrina católica toda sexta-feira, catecismo para crianças, ensaio de coral semanalmente – e, então, se estou disponível, um pouco de vida retirada, um pouco monástica, porque se um padre quer fazer algum bem, ele não deve permanecer por muito tempo no meio das coisas. Don Stefano e eu compartilhamos uma grande fraternidade sacerdotal – e ele também voltou à Missa Tradicional, que ele celebra para os fiéis na capela do hospital em Domodossola: trata-se também de uma fraternidade efetiva, vendo que os nossos fiéis partilham muitos momentos juntos. Tudo isso resultou em um Boletim e um sítio na Internet, que falam de nossa vida.

Quantos fiéis freqüentam a Missa? Não sei. O número varia. Pode chegar a 120 aos domingos durante o verão, no inverno o número cai, devido à distância e o local. Porém, aprendi a não contar: os reis de Israel foram punidos quando realizaram um recenseamento!

P. Como o senhor vê a recente instrução “Universae Ecclesiae” sobre o uso do Missal Antigo?

R. Ela reafirmou que a Missa de sempre nunca foi proibida e que ela não pode ser proibida. Porém, aqueles que não querem reconhecer isso continuarão a “embaralhar todas as cartas.”

27 julho, 2012

Índole pastoral do Vaticano II: uma avaliação.

Apresentamos a tradução da preleção de Monsenhor Brunero Gherardini no Congresso sobre o Vaticano II realizado em Roma, em dezembro de 2010, pelos Franciscanos da Imaculada.

Por Monsenhor Brunero Gherardini

Fratres in Unum.com | Com a generosa contribuição de Gederson Falcometa – Era uma vez a ave Fênix. Todo mundo falava dela, mas nunca ninguém a havia visto. E hoje há uma versão sua aggiornata, da qual todos também falam e ninguém sabe dizer do que se trata: chama-se Pastoral.

1 – A Palavra – Sejamos bem claros: a palavra em si não é um problema, sendo evidente a sua derivação de pascere: verbo que vem do latim pabulum (pasto, alimento), da qual surge uma família não muito numerosa, mas bem identificável em seus componentes: pascere, precisamente, no sentido de conduzir à pastagem e dar de comer; pastum, do qual uma clara tradução é o italiano pasto [alimento, comida], mas que também pode se traduzir com cibo [pasto, comida] ; pastor, indicando que conduz ao pabulum, dá alimento e mantém rebanhos e manadas. Pastor se torna, por sua vez, o pai de pastoricia ars, em italiano pastorizia, ou a arte de quem cria animais; de pastura, com o significado de pasto aberto, e de pastu — ou pastoral, já presente no latim tardio para descrever o “vestuário, os alimentos, os costumes, a linguagem do pastor. Não descende, todavia, a pasteurização, ou procedimento de conservação de elementos líquidos, como o leite, porque a palavra vem do francês pastoriser, derivando por sua vez de L. Pasteur (1822-1895), seu inventor.

[…] [O termo] Pastoral entrou cedo no jargão eclesiástico, para qualificar três das cartas paulinas, ou a atividade dos evangelistas e de seu ensino, ou as insígnias episcopais, como o anel, o báculo, as cartas. Mais recente, mas não moderno, é o uso de pastoral em referência à teologia e com abordagem não-dogmática; originalmente, de fato, foi anti-dogmático. Aos que desconhecem o jargão eclesiástico, no entanto, um homem da média cultura muito facilmente associará pastoral à mocinha da poesia arcádica, à composição poética de origem provençal e de conteúdo amoroso, à écloga virgiliana, à tragédia “Aminta” de T. Tasso e à música de caráter simples e terno, com específica tipificação na “sexta” de Beethoven.

2 – O termo no Vaticano II – Depois de um espectro semântico de tal amplitude, a alusão à desconhecida e invisível ave fênix poderia parecer insustentável por evidente contradição. A não ser que o condicional “poderia” esteja neutralizado pela ausência, nos documentos conciliares, de uma razão suficiente que o justifique. Digo “razão suficiente”, porque se dissesse que nos documentos conciliares está ausente a “palavra”, daria demonstração de uma ignorância crassa e imperdoável do Vaticano II. A “palavra” não só existe, mas é abundante; na realidade, caracteriza o Vaticano II em sua especificidade de Concílio ecumênico diante dos vinte Concílios que o precedem. O Vaticano II fala, de fato, de ação pastoral em gênero, e mais diretamente de atividades pastorais;  identifica várias necessidades pastorais e, diante delas, pede a instituição e a recíproca colaboração de vários subsídios pastorais, não deixando de assinalar entre estes o planejamento e organização de “cursos, congressos, centros com bibliotecas conexas destinadas aos estudos pastorais, a serem confiados a pessoas altamente capazes”. A fim de expandir no mais amplo raio possível a sensibilidade pastoral e os conhecimentos conveninentes, o Vaticano II obriga os bispos a “estudar isoladamente ou em nível interdiocesano o melhor sistema” que assegure aos presbíteros, “sobretudo alguns anos após sua ordenação”, o adequado aprofundamento dos métodos pastorais. Dado que uma forte contribuição para a ação apostólica da Igreja pode vir também dos leigos, o Concílio convida aos bispos a escolher “sacerdotes dotados das qualidades necessárias e convenientemente formados”, que, por sua vez, dêem uma formação adequada aos leigos para então confiar suas especiais tarefas de ação pastoral. E porque “a unidade de propósito entre padres e Bispo torna sempre mais fecunda sua atividade pastoral”, encoraja-se uma periódica reunião do clero, estendida também a outros membros do organismo eclesial, “para tratar de questões pastorais”.

Às Conferências Episcopais de cada nação, recomenda-se calorosamente a atenção e promoção da formação pastoral do clero mediante “institutos pastorais em colaboração com paróquias oportunamente escolhidas, congressos periódicos, exercícios apropriados”. Não se podia evitar um chamado à “competente autoridade eclesiástica territorial” para o estabelecimento de um instituto “de pastoral litúrgica” que se valha de “especialistas em liturgia, música, arte sacra e pastoral”.

Estes dados demostram que a ave fênix está em casa no Vaticano II, mas o Vaticano II não disse o que é ou quem ela é.

Aquele que “governa e apascenta o povo de Deus” é, ademais, instigado a encarnar o Bom Pastor “que dá a vida por suas ovelhas (Jo 10:11)” e a seguir “o exemplo daqueles padres que também em nosso tempo não hesitaram a sacrificar-se a si mesmos pelo próprio rebanho”. Em suma, ao exortar o clero a se fazer dia após dia instrumento de um serviço sempre mais idôneo para o povo de Deus, o Vaticano II declara explicitamente que a sua finalidade pastoral se compromete com “uma renovação interna da Igreja, a difusão do evangelho em todo o mundo e no estabelecimento de uma relação dialógica com este”. Uma tal finalidade corresponde, evidentemente, a uma ideia de fundo, a uma noção de pastoral ao menos rudimentar e tão logo ofuscada: relação dialógica com o mundo da parte de uma Igreja renovada em seus métodos de evangelização e de apostolado. Aqui, um pouco vagamente, a ave fênix começa a se fazer conhecida.

Tal e tamanha insistência não surpreende. É, antes, um sinal de docilidade e fidelidade às linhas mestras que o Papa Roncalli, em 11 de outubro de 1962, apresentou aos Padres abrindo oficialmente a grande Assembléia conciliar: ao colocar a doutrina em primeiro lugar nos trabalhos conciliares, diversificou sua metodologia com relação ao passado. Antes, a Igreja não evitava a condenação, severa e firme. Hoje, à severidade prefere o remédio da misericórdia. Para o Papa Roncalli, então, especialmente diante de uma humanidade presa a tantas dificuldades, a Igreja deveria mostrar o rosto bom, benévolo, paciente da Mãe, fomentar a promoção humana expandindo os espaços da caridade, difundir a serenidade, paz, harmonia e amor. Desta forma, as características da ave fênix, embora permanencendo ainda indefinidas, se confundem com as da mãe paciente e boa.

Confirmando a orientação de Roncalli, o Papa Paulo VI, na homilia de 07 de dezembro de 1965, por ocasião da nona sessão do Concílio, declarou que a Igreja traz em seu coração, junto com o reino dos céus, o homem e o mundo, e mais, está toda a serviço do homem e do mundo, sendo íntima a ligação entre a religião católica e a vida humana, a ponto que a religião católica pode se dizer a própria vida do homem e do gênero humano graças à sua sublimedoutrina, ao cuidado materno com que acompanha o homem ao seu fim último e aos meios que lhes dá para que possam alcançá-lo. Enésima declaração de propósitos pastorais que, mantendo-se dentro dos limites do genérico, ainda não revelam o rosto ou as feições da ave fênix.

No entanto, não há nenhuma dúvida e nenhuma discussão sobre a pastoralidade do Concílio. O Vaticano II não foi, apenas porque não deveria sê-lo, um Concílio dogmático e, considerando tudo, nem mesmo disciplinar. Quis apenas ser pastoral. E mesmo assim, apesar das muitas intervenções internas e externas, o verdadeiro significado de sua declarada pastoralidade ainda está debaixo de um nevoeiro.

3 – Um conceito não definido – Pouco acima, indiquei as facetas da pastoralidade conciliar. A pastoral como adjetivo qualificativo ou como adjetivo substantivado dá, na verdade, dezenas e dezenas de voltas. Nenhuma, porém, para lhes dar, senão a definição, ao menos um indício de explicação. Reconheço que, analisando criticamente as diversas declarações, é possível ter uma vaga idéia; mas, no entanto, não seria uma expressão direta do ensinamento conciliar.

O exemplo mais probatório é dado pela Gaudium et Spes, qualificada como “Constituição Pastoral”, sendo inteiramente um fermento intelectual e proativo em favor do homem, da sua liberdade e dignidade, da sua presença na família, na sociedade, na cultura e no mundo, com o objetivo de conferir à vida privada e pública um sopro e uma dimensão à medida do homem. A união das duas palavras-chaves – Constituição Pastoral – é a mais recente novidade de todo o Vaticano II; o foi para os próprios Padres conciliares que, antes de aprová-la, discutiram várias outras denominações. A única justificativa para a união está na nota que acompanha o incomum documento, definido como “pastoral” seja porque, “baseado em princípios doutrinais, pretende apresentar a atitude da Igreja em relação ao “mundo e aos homens de hoje”, ou porque atitude e princípios doutrinais permeiam um ao outro. Se deveria inferir que a atitude em questão é sempre a aplicação e a tradução prática dos princípios doutrinários. Mas permanece um problema, a descobrir a origem: talvez dos princípios sociológicos, políticos, econômicos, mas, pelo menos diretamente, não dos princípios evangélicos.

A referência ao homem e ao mundo recorda de ambos a finitude original, a condição de criaturas, a temporalidade, o dinamismo, o constante evoluir, sobre o quais paira a espada de Dâmocles de uma sempre possível involução. Isto evidencia suas condições variáveis e contingentes, mas também a problematicidade da aplicação prática desses princípios doutrinais que são em grande parte absolutos irreformáveis.

Também a nota adverte uma tal aporia e a assinala; mas não a resolve. Antes, a complica no exato momento no qual estabelece que “a Constituição deverá ser interpretada segundo as normas gerais da hermenêutica teológica, tendo em conta… as circunstâncias mutáveis intrinsecamente conexas às matérias tratadas”. Na realidade, se a pastoral devesse consistir nesse balé de dizer sim-e-não, uma definição sua seria impossível. Diz-se que ao contingente vai aplicada a indiscutibilidade da doutrina; mas se essa aplicação reduzisse a doutrina à contingência, ou tornasse indiscutível e absoluto o contingente, perverteria um e outro elemento: o sim de mãos dadas com o não. Compreendo porque, já na Aula conciliar, Gaudium et Spes foi o texto mais discutido e mais obstaculizado, para o qual pouco valeu a sua designação a comissões e subcomissões, como também a passagem por bem quatro reformulações: a dificuldade, para chegarmos no limite da presunção, está na afirmação simultânea do sim e do não.

E talvez dependesse desta aporia não resolvida a problemática que ainda acompanha, após cerca de meio século de pós-concílio, todo discurso sobre a pastoral. Na prática, ela serve para legitimar um pouco de tudo e o seu próprio contrário. As duas hermenêuticas conciliares, as quais frequentemente se referiu a análise do Santo Padre, aquela que faz do Vaticano II o início de um novo modo de ser Igreja e aquela que, pelo contrário, o conecta à Tradição eclesial vivente, são ambas legitimadas pela aporia não resolvida. Nas duas hermenêuticas, na realidade, o Vaticano II:

  1. assume, no âmbito doutrinário, a aparência e o valor de um Concílio dogmático: uma [corrente] faz dele um super Concílio, enquanto a outra faz dele a síntese doutrinal de todos os concílios precedentes;
  2. no âmbito pastoral, ele surge como um recipiente sem diferenciação pela sua própria qualidade de pastoral, uma espécie de “franco atirador” ao qual, por razões pastorais, é concedido dizer simultaneamente o sim e o não.

Se impõe, sobre este ponto, um juízo sereno e objetivo sobre a qualidade geral do Vaticano II, que apressada e ingenuamente foi encerrado na área pastoral.

4 – Os quatro níveis do Vaticano II – Quem tem familiaridade não só com a Gaudium et Spes, mas com todos os dezesseis documentos conciliares, tem consciência de que a variedade temática e a co-respectiva metodologia colocam o Vaticano II sobre quatro níveis, qualitativamente distintos:

  1. o genérico, do Concílio ecumênico enquanto Concílio ecumênico;
  2. o específico, do âmbito pastoral;
  3. o nível do evocar outros Concílios;
  4. e os das inovações.

No âmbito genérico, o Vaticano II satisfaz todas as condições para ser um autêntico Concílio da Igreja Católica; o 21º da série. Provém dele um magistério conciliar, isto é, supremo e solene. O que, por si mesmo, não depõe pela dogmaticidade e infalibilidade de suas assertivas; antes, nem mesmo a comporta, tendo, de início, afastado-a de seu próprio horizonte.

No âmbito especifico, a qualificação de pastoral lhe justifica os vastíssimos interesses, dos quais não poucos excedem o âmbito da Fé e da teologia: por exemplo, a comunicação social, a tecnologia, o eficientismo da sociedade contemporânea, a política, a paz, a guerra, a vida econômico-social. Mesmo este nível pertence ao ensinamento conciliar e é, então, supremo e solene, mas não pode reivindicar, pela matéria tratada e pelo modo não dogmático de tratá-la, uma validade por si infalível e irreformável.

A evocação de alguns ensinamentos dos Concílios precedentes constituem o terceiro nível. É uma evocação por vezes direta e explícita (LG 1: “praecedentium Conciliorum argumento instans”; LG 18: “Concili Vaticani primi vestigia premens”; DV 1: “Conciliorum Tridentini et Vaticani I inhaerens vestigis”), por vezes indireta e implícita, que recorda a verdade já definida: por exemplo, a natureza da Igreja, a sua estrutura hierárquica, a sucessão apostólica, a jurisdição universal do Papa, a encarnação do Verbo, a redenção, a infalibilidade da Igreja e do magistério eclesiástico, a vida eterna dos bons e a eterna condenação dos maus. Sob este aspecto, o Vaticano II goza de uma incontestável validade dogmática, sem ser por isso um Concílio dogmático, sendo sua uma dogmaticidade de reflexo, própria dos textos conciliares citados.

As inovações constituem o quarto nível. Se olharmos para o espírito que guiou o Concílio, seria possível afirmar que o Vaticano II foi todo ele um quarto nível, animado como era de um espírito radicalmente inovador, mesmo onde buscava o seu enraizamento na Tradição. Algumas inovações são, porém, específicas: a colegialidade dos bispos, o absorvimento da Tradição na Sagrada Escritura, a limitação da inspiração e inerrância bíblica, as estranhas relações com o mundo hebraico e islâmico, o irromper da assim chamada liberdade religiosa. Por fim, é muito claro que, se existe um nível ao qual a qualidade dogmática absolutamente não é reconhecível, é propriamente este das novidades conciliares.

5 – Conclusão – A adesão ao Vaticano II é, pelo acima exposto, qualitativamente distinta. Enquanto todos os quatro descritos níveis exprimem um magistério conciliar, todos os quatro colocam ao individuo e à comunidade cristã-católica o dever de uma adesão que não necessariamente será sempre “de Fé”. Esta só vale para as verdades do terceiro nível e apenas enquanto provêm de outros Concílios, seguramente dogmáticos. Aos outros três níveis, é necessário reservar uma religiosa e respeitosa acolhida, até que qualquer uma de suas assertivas não se choque contra a perene atualidade da Tradição por evidente ruptura com o “eodem sensu eademque sententia” de qualquer variante formal sua. O dissenso neste caso, particularmente quando sereno e fundamentado, não caracteriza nem heresia, nem erro. Quanto ao segundo nível, aquele pastoral, como observei na nota n.19, é necessário pensar que os Padres conciliares não conheceram a hipoteca iluminista paga por eles mesmos com a abertura do Concílio a uma pastoral que, desde o começo, segundo a lógica iluminista da qual dependia, havia expulsado a Deus para substituí-lo pelo homem e por vezes para identificar no homem o próprio Deus. Foi, de fato, a pastoral do século XVIII quem deu as costas para as motivações, as fontes, os conteúdos e o método da teologia dogmática. E para abrir as portas da fortaleza teológica ao primado do natural, do racional, do temporal e do sociológico.

Com isto não digo, absolutamente, que a pastoral do Vaticano II seja a mesma pastoral do século XVIII. Mas seria ingênuo ou desinformado quem, para não afirmar-lhe a identidade, negasse todo o seu parentesco. Também no Vaticano II a matriz da pastoral permaneceu aquela iluminista, embora diversamente expressa e motivada. Coube a Paulo VI retirá-la da areia movediça do iluminismo e, na abertura do segundo período conciliar, transferí-la para uma esfera romântica, para fazer dela “uma ponte para o mundo contemporâneo”, comunicando a ele “a sua vitalidade interior… como fenômeno vivificante e instrumento de salvação do próprio mundo”. A ave fênix tornava-se assim uma ponte, um coeficiente de vida, um instrumento de salvação. Sem perder, porém, o seu parentesco com a matriz iluminista, através da inspiração neomodernista dos seus apoiadores. Não à toa, a partir de uma teologia pastoral assim entendida tem origem a secularização que, mais tarde, triunfará na presente fase pós-conciliar. E se da ignorância dos seus precedentes depende a indecisa noção de pastoralidade, de seu originário parentesco com eles dependeria o absurdo da dogmática de um concílio que se auto-definiu simplesmente pastoral. A ave fênix, dessa forma, revela o seu rosto. Somando tudo isto, teria sido melhor se ela tivesse continuado a escondê-lo.

Brunero Gherardini

20 junho, 2012

O Leão de Campos e a Igreja de Deus.

No aniversário de Dom Antônio de Castro Mayer, publicamos seu artigo de 1985:

2 abril, 2012

“Ambientes tradicionais” não deveriam existir.

Por Padre Guillaume Gaud, FSSPX

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com

São Francisco Xavier

Um verdadeiro Apostolado deve, para ser frutífero, apresentar duas características: sobrenaturalidade, e ser adaptado ao ambiente que deve ser convertido. “Missas-espetáculo” já atraíram multidões, mas não produziram os resultados esperados. Este Naturalismo não apresenta as técnicas de Apostolado do Salvador….

Nossos priorados, se tentam ser verdadeiramente sobrenaturais, não estão atraindo tantas pessoas quanto deveriam. Por quê? Nós somos, freqüente e indubitavelmente, inacessíveis aos homens de nossos tempos. Nossa meta mais imediata não é atrair todo mundo, claro, mas aquelas almas que demonstram uma certa abertura à Fé e ao Amor de Deus. Mesmo essas almas ficam desencorajadas quando vem para as nossas capelas. Os motivos? Uma desconfiança elevada, divisões e críticas que só demonstram orgulho, comentários derrogatórios sobre as vestimentas, discussões políticas amargas e inúteis. Graças aos instrumentos subliminares do demônio… Graças àquelas pessoas que sabem melhor do que Deus a velocidade na qual as almas deveriam progredir… Tentemos diminuir os obstáculos para as conversões ao invés de elevá-los. Mas isso não basta: devemos atrair. Os missionários sempre conseguiram isso por 2000 anos: adaptar-se tanto quanto possível à população alvo, guiados por um sentido de objetivo e por princípios morais Cristãos.

O “Ambiente tradicional”

Não deveria existir um “ambiente tradicional”. A Tradição Católica não deve ser um meio social, porque isso não é Cristianismo. A Tradição deve parecer-se com todos os ambientes sociais e recebê-los com a sua própria identidade. Não somos a favor da eliminação das classes. A tendência no vestir que se tornou, aos poucos, dominante entre nós refletem a modéstia – que é necessária – mas a modéstia não está limitada às modas Tradicionais. Ao querer impor essas regras de vestimentas, nós desanimamos as pessoas mais do que as atraímos. A conseqüência é um tipo de libertação excessiva destas regras, que as leva à imodéstia. Uma outra conseqüência é um tipo de representação esclerosada da Tradição, que parece viver nos anos 50 – não muito atraente!

No entanto, a força que une as pessoas dentro da Tradição Católica se encontra na relação lógica entre nossa Fé e nossa vida diária. Esta coerência deve refletir nossa convicção e nossa sinceridade, não somente nossas regras. A Verdade Católica é trazida à luz por esta coerência. E é isso que atrai. Mas fiquemos sempre próximos aos nossos contemporâneos de boa vontade. Devemos, então, ser firmes com relação a nós mesmos, mas brilhar com misericórdia e entendimento por nosso próximo. Então, ele amará nossa firmeza!

Padre Guillaume Gaud, FSSPX

(Apóstolo, publicação para os priorados de Fabrègues e Perpignan, França

La Porte Latine – “The dilemmas of our bastions of faith“, trechos)

* * *

Nota do Rorate: Haverá quem leia as palavras do Padre e imediatamente diga: mas os anos 50 me atraem! Essa não é a questão: a questão é se isso atrai mais pessoas que poderiam ser favoráveis à Tradição. O que é mais importante, manter a estética de um período no tempo (um período de tempo para uma parte da humanidade), ou tentar encontrar a melhor maneira de atrair aquelas almas sensíveis que, de outro modo, rejeitariam a Tradição por causa de aspectos externos circunstanciais?

29 fevereiro, 2012

Idéias claras sobre o magistério da Igreja.

Por Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

O benemérito periódico italiano SI SI NO NO, em seu número de 15 de janeiro último, publicou uma importante matéria com o título Idéias claras sobre o magistério, que vale a pena resenhar para o leitor brasileiro, dada a atualidade do assunto.

Diz o referido artigo de Si SI NO NO que ultimamente apareceram vários artigos que, com o propósito de defender o magistério tradicional da Igreja, ou exageraram-lhe o alcance, fazendo-o um absoluto (erro por excesso) ou quase que o aniquilaram, negando-lhe a função de interpretar a Tradição e a Sagrada Escritura (erro por defeito). Recorda o artigo que o magistério é um múnus da Igreja e um instrumento de que ela se utiliza com autoridade  para propor aos fiéis a Revelação Divina. O magistério não está acima da Igreja como se diante dele não houvesse  o enorme monumento da Tradição a ser recebido, interpretado e transmitido integralmente e fielmente. Recorda também que o fiel atinge as verdades da fé não diretamente, mas mediante o magistério.

Quanto à questão do valor teológico do Vaticano II, o artigo de SI SI NO NO diz que para bem esclarecê-la é preciso ter presente a doutrina católica sobre o magistério, a qual o divide em solene e ordinário, sendo que o solene se subdivide em conciliar e pontifício e o ordinário em universal e pontifício. O artigo cita o teólogo alemão Alberto Lang, que diz que não reveste nenhuma importância  essencial o fato que os bispos exerçam o seu magistério de modo ordinário e universal ou exerçam o seu magistério de modo solene reunidos em concilio ecumênico convocados pelo papa. Em ambos os casos são infalíveis somente se, em acordo entre si e com o papa, anunciam uma doutrina de modo definitivo e obrigatório. Ou seja, para a infalibilidade o modo de ensinamento ordinário ou extraordinário é acidental e secundário; o que é principal é a vontade de definir e obrigar a crer uma verdade de fé e moral.

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25 fevereiro, 2012

Duas liturgias, duas Igrejas: Missa Cantada e Adoração versus Missa Carnaval.

Com informações do Distrito Alemão da FSSPX – Vejam aqui um resumo da celebração da Missa Cantada antes da exposição do Santíssimo por ocasião das 40 horas de Oração (21 de fevereiro de 2012).

Esse vídeo mostra o que a igreja sempre fez no tempo de carnaval: adoração e expiação pelos pecados do mundo.

Muito pelo contrário, está a prática da “Igreja conciliar”, para usarmos a expressão do Cardeal Benelli, de não apenas abandonar a adoração, mas sim de celebrar o carnaval na Igreja!

O sítio do Distrito Alemão da FSSPX coloca lado a lado o Sacrifício da Missa celebrado pela Fraternidade de São Pio X em Stuttgart e a Missa Carnaval de Ochsenhausen (dois dias antes).

[Nota: Não é necessário entender alemão. As imagens falam por si mesmas]

Gravado na igreja da Fraternidade em Stuttgart-Feuerbach, em 21 de fevereiro de 2012:

Dois dias antes aconteceu isso na igreja do Mosteiro de São Jorge em Ochsenhausen (Oberschwaben):

14 fevereiro, 2012

O que é um tradicionalista?

O Tradicionalismo é uma Afirmação.

Por Irmão André Marie | Tradução: Fratres in Unum.com

A pequena aldeia de Villatalla, na diocese italiana de Albenga-Imperia, onde os Beneditinos da Imaculada vivem e onde o pequeno campanário ainda convoca as pessoas para assistir à Missa Tradicional em Latim.

A pequena aldeia de Villatalla, na diocese italiana de Albenga-Imperia, onde os Beneditinos da Imaculada vivem e onde o pequeno campanário ainda convoca as pessoas para assistir à Missa Tradicional em Latim.

Uma das coisas mais importantes que uma pessoa tem é a identidade. Isso explica porque os nomes são tão importantes para nós. Adão recebeu poder para designar as coisas no Jardim do Édem, mostrando que ele tinha domínio sobre o restante da criação, incluindo Eva, a quem nomeou. Quando uma criança descobre que um grande animal de olhar estranho tem um nome, ela encontra conforto neste fato, e se o papai pode identificá-lo, a coisa não deve ser tão terrível. Ela é conhecida.

Os católicos tradicionais, ou tradicionalistas, designam a si mesmos dessa forma por causa de sua adesão às tradições da Igreja; uma vez que eles o fazem em vista do abandono em larga escala daquelas tradições por parte da hierarquia, assim como clero e fiéis, este é o motivo pelo qual a expressão “católicos” nem sempre é suficiente, embora devesse ser. Além desse conceito muito genérico do que é o tradicionalismo, há compreensões múltiplas e discrepantes do que exatamente define a identidade do tradicionalista. Evitando um dogmatismo rígido onde a Igreja não nos deu ainda uma definição dogmática — precisamos estar preparados para morrer pelo dogma católico, porém não por nossas próprias opiniões — gostaria de considerar o que o tradicionalismo é em sua essência.

O contraste clareia a mente, então começarei com o que o tradicionalismo não é. O tradicionalismo não é uma negação. Ele não é uma recusa. Ele não é um apontar de dedos seguido de “você está errado!”. Existe um nome para essa ideologia: protestantismo. O protestantismo não é um conteúdo, mas sim um anti-conteúdo. Ele não é uma afirmação, mas sim uma negação.

Certamente, o católico deve concordar com as condenações da Igreja, bem como com as suas definições, mas uma existência de condenação é contingente a duas coisas: a verdade que veio primeiro, e um erro que nega a verdade. Em outras palavras, uma condenação, embora boa e necessária, somente surge porque algum vilão (talvez o próprio Satanás) elaborou uma negação da verdade de Deus. Mas a verdade de Deus chegou primeiro.

Os textos do Concílio de Trento nos dão uma ilustração disso. Trento afirma a verdade católica em seus decretos, que são textos comparativamente longos que explicam a doutrina católica em detalhes. Ao final daqueles decretos de rico conteúdo, em seguida, o Concílio condena os diversos erros em seus breves cânones.

Assim, a curta resposta à pergunta referente à identidade do tradicionalista é que ele é um católico que afirma as verdades dogmáticas, os ensinamentos morais e às tradições litúrgicas da Igreja. Isso é substancial e primário. O fato de agir assim em face de oposição, não somente do mundo, mas de outras pessoas que se chamam católicos, é secundário e acidental. Não vamos inverter a ordem, se não permitiremos que o inimigo imponha a nossa identidade.

Uma palavra sobre a busca por uma identidade: acredito que isso seja algo muito moderno, um produto da falta de raízes da cultura moderna, que nos serve a partir de nossas tradições, nossa terra e nossa gente. A modernidade nos homogeneíza, efetivamente desenraizando costumes e culturas locais. O católico é um membro da Igreja universal, mas ele não é um cidadão do universo por causa disso. Ele está localizado, e seu encontro com a Fé está no contexto de lugar, idioma e costume. Um católico do século quatorze na França e seu correligionário do quarto século no Egito possuíam a mesma fé, moral e religião (com padres, bispos, Missa, sacramentos, etc.), mas a variedade de idioma, ritual e costume era grande.

Isso é como deveria ser. Recebemos a fé em nível local. Nós a vivemos em nossas famílias. Nós a pronunciamos em nossos idiomas. Nós a praticamos no prédio daquela igreja, com as pessoas daquela comunidade. (A noção italiana de campanirismo e a concepção Carlista de fueros são expressões culturais e políticas dessa realidade.) A vivência da fé verdadeira é o que produz uma cultura católica, e essa cultura é o que deve impressionar por si mesma nossos jovens, formando as suas convicções, inspirando as suas ações, comandando as suas reações. Uma identidade – genuína, em todo caso – é formada dessa maneira orgânica. Nós não as colocamos e retiramos como um aluno de faculdade indeciso faz com sua carreira universitária. Isso é o que o homem moderno, sem raízes e sem descanso, faz, e essa é uma das causas de sua insanidade.

Em nossos dias, é claro, a Fé não está sendo vivida em lugares onde habitualmente estava. Os campanários italianos, que proporcionam àqueles que os ouvem um sentido de lar, ainda soam, mas freqüentemente anunciam o oferecimento de uma liturgia bizarra, a pregação de uma doutrina aguada e uma religiosidade de conformidade aos padrões do mundo. Assim, o campanirismo, “espírito do campanário”, não representa totalmente o que fazia outrora. E isso vale para outros lugares na Igreja universal. Assim, essa é a razão pela qual os tradicionalistas viajam, às vezes grandes distâncias, para ouvir uma Missa tradicional, com a catequese e a cultura que a acompanham.

Mas ainda podemos fazer muito para viver a Fé em nossas famílias e nossas comunidades. Ao fazê-lo, devemos resistir à tentação de transformar o tradicionalismo em uma ideologia, uma reação ou uma negação do que as outras pessoas fazem. O tradicionalismo é aquilo que somos, aquilo que sabemos, e aquilo que fazemos. Aqui, então, catalogaremos algumas das coisas que os tradicionalistas afirmam ou devem afirmar:

Afirmamos o credo católico em toda a sua integridade.

Afirmamos que a Igreja Católica é a única esposa de Cristo, e que a sua Fé e a sua religião são os únicos caminhos divinamente revelados para se acreditar e servir ao Deus vivo. Conseqüentemente, a Igreja Católica é o único caminho para a salvação.

Afirmamos que a verdade divina é atacada por inimigos da Igreja de Deus, e que os fiéis devem “pelejar pela fé, confiada de uma vez para sempre aos santos.” (Judas 1, 3).

Afirmamos a constituição sobrenatural da Igreja, a hierarquia natural da família e o domínio de Cristo Rei na sociedade. Na medida de nossas possibilidades, trabalharemos para preservar ou restaurar essas coisas em nossas próprias famílias e comunidades; porque o mundo, a carne e o demônio estão minando esta ordem estabelecida por Deus.

Afirmamos que o louvor público de Deus pela Igreja e sua liturgia nos foram entregues com grande cuidado por nossos pais na Fé. Isso foi feito em uma bela variedade de ritos. É errôneo jogar fora esses tesouros de séculos de desenvolvimento cuidadoso sob a proteção do Espírito Santo. Assim, nós os praticaremos, honraremos, amaremos e ensinaremos aos nossos filhos.

A resposta autêntica ao mal é uma vida de virtude e santidade cristã, que nada mais é do que a resposta fiel à vocação básica (o chamado batismal à santidade), vivida de acordo com o modo da “vocação secundária” (ou seja, sacerdócio, vida religiosa, matrimônio, o celibato no mundo).

Há muita coisa obscura e má na vida, mas se optarmos por permitir a nós mesmos sermos consumados por essas coisas, então, que vergonha. São Paulo observa que o que perdemos em Adão é muitíssimo superado por aquilo que ganhamos em Cristo (cf. Romanos 5: 15 seg.). Não é necessário ter Fé para ver a maldade e o desespero; eles são óbvios demais aos sentidos. A grande maravilha é a quantidade de bem que realmente existe, e para ver isso é necessário ter Fé: a água regenerando pecadores como filhos de Deus e herdeiros do Céu, o Próprio Deus descendo em nossos altares nas aparências de pão e vinho, o Evangelho sendo pregado aos pobres.

E o próprio Evangelho, Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo! Esta é a “Boa Nova”: Boa, porque procede do bom Deus, e nova, porque precisa ser dita.

Temos um tesouro na liturgia tradicional da Igreja. Também temos grandes comentários sobre ela, nenhum melhor do que o Ano Litúrgico de Dom Gueranger. Também temos a Sagrada Escritura, os escritos dos Padres e Doutores, e os grandes monumentos intelectuais e artísticos da cultura católica que nasceram com as sociedades cristãs. Tudo o que temos, mais o Próprio Deus, os Anjos, os Santos, e a promessa de glória futura se perseverarmos! E não nos esqueçamos que temos Nossa Senhora, a Causa de Toda a nossa Alegria.

Se, com tudo isso, precisarmos sair em busca de uma identidade, ou defini-la em termos puramente negativos contra alguma outra classe de pessoas, então, realmente, não temos idéia alguma sobre o que seja a Tradição.

6 fevereiro, 2012

Tradição em Guerra com a Tradição?

Stephen Dupuy, The Remnant | Tradução: Fratres in Unum.com

O Papa recebe os membros da Congregação para a Doutrina da Fé ao fim de sua plenária.

O Papa recebe os membros da Congregação para a Doutrina da Fé ao fim de sua plenária.

Uma sessão plenária da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) teve início na terça-feira, 24 de janeiro. A finalidade, em parte, é deliberar sobre a resposta da Fraternidade de São Pio X relativamente ao preâmbulo doutrinal proposto pelo Vaticano. A aceitação do preâmbulo foi promovida pelo Vaticano como uma pré-condição a qualquer regularização canônica da Fraternidade. Membros da CDF que irão decidir o destino da Fraternidade incluem: Cardeal William Levada, “Peritos Ecumênicos” Cardeais Kurt Koch e Walter Kasper, o Cardeal de Viena, Christoph Schönborn (famoso pela Missa Balão), juntamente com o Bispo de Regensburgo, Gerhard Müller. Olhando para essa assembléia, parece que a Fraternidade tem tanta chance de receber o oferecimento de “plena comunhão” quanto o Tea Party [ntr: movimento político popular originado nos EUA reconhecido como conservador, que desde 2009 tem organizado protestos e apoiado candidatos políticos] tem de receber o convite para se unir ao Partido Democrata.

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4 fevereiro, 2012

“Se nos aceitarem como somos, sem mudanças, sem nos obrigar a aceitar essas coisas, então estamos prontos”.

Apresentamos a tradução do caríssimo amigo Gederson Falcometa, cuja  gentileza novamente agradecemos, de um extrato do sermão proferido ontem, festa da Purificação de Nossa Senhora, por Dom Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. O estilo coloquial foi preservado.

A Sociedade de São Pio X foi fundada pela Igreja e na Igreja, e nós dizemos que esta sociedade continua a existir, apesar do fato de que há uma pretensão de que ela não existe; que foi suprimida em 1976 (mas, obviamente, com total desrespeito das leis da própria Igreja). E é por isso que nós continuamos. E o nosso querido Fundador insistiu muitas e muitas vezes sobre a importância desta existência da Sociedade. E eu acho que, como o tempo evolui, temos de manter isso em mente – e é muito importante que mantenhamos este espírito católico.

Nós não somos um grupo independente. Mesmo se estamos lutando com a Roma, ainda somos, por assim dizer, com Roma. Estamos lutando com a Roma, ou, se você quiser, contra Roma, ao mesmo tempo com Roma. E nós afirmamos e continuamos a dizer, somos católicos. Queremos permanecer católicos. Muitas vezes eu digo a Roma, vocês tentam nos chutar para fora. E vemos que seria muito mais fácil para nós estar fora. Teríamos muito mais vantagens. Vocês nos tratariam muito melhor! Olhe para os protestantes, como abrem as igrejas a eles. Para nós, eles as fecham. E dizemos, nós não nos importamos. Nós fazemos as coisas na frente de Deus. Nós sofremos por parte da Igreja, tudo bem. Nós não gostamos disso, é claro. Mas temos de ficar lá na verdade. E nós temos que afirmar que pertencemos à Igreja. Nós somos católicos. Nós queremos ser e queremos permanecer, e é muito importante afirmar isso.

Também é importante que finalmente nós não imaginemos uma Igreja Católica que é apenas o fruto da nossa imaginação, mas que não é mais aquela [Igreja] real. E com a real nós temos problemas. Isso é o que torna ainda mais difícil: o fato de que temos problemas com ela. Isso não nos permite, por assim dizer, fechar a porta. Pelo contrário, é nosso dever continuamente ir até lá, bater à porta, não para implorar para que possamos entrar (porque estamos dentro), mas para pedir que possam se converter; que eles possam mudar e voltar ao que faz a Igreja. É um grande mistério, não é simples. Porque ao mesmo tempo que temos de dizer, sim, nós reconhecemos aquela Igreja — é o que dizemos no Credo, creio na Igreja Católica — de modo que aceitamos que há um Papa, aceitamos que existe uma hierarquia, nós aceitamos isso.

E na prática, em muitos níveis, temos de dizer não. Não porque isso [certos tópicos] não nos agrada, mas porque a Igreja já falou sobre isso. Já condenou mesmo muitas dessas coisas. E assim, em nossas discussões com Roma estávamos, por assim dizer, presos aí. O problema fundamental em nossas discussões com Roma foi realmente o Magistério, o ensinamento da Igreja. Porque eles dizem: “nós somos o papa, nós somos a Santa Sé” — e nós dizemos, sim. E então dizem, “nós temos o poder supremo”, e nós dizemos, sim. Eles dizem: “nós somos a última instância no ensino e somos necessários” — Roma é necessário para que tenhamos a fé, e nós dizemos, sim. E então eles dizem, “então, obedeçam.” E nós dizemos, não. E assim nos dizem, vocês são protestantes. Vocês colocam a sua razão acima do Magistério de hoje. E nós respondemos a eles, vocês são modernistas. Vocês alegam que o ensino de hoje pode ser diferente do ensino de ontem. Nós dizemos que, quando aderimos ao que a Igreja ensinou ontem, necessariamente aderimos ao ensinamento da Igreja hoje. Porque a verdade não está ligada ao tempo. A verdade está acima dele. O que foi dito uma vez é vinculante por todos os tempos.Esses são os dogmas. Deus é assim, Deus está acima do tempo. E a Fé é a adesão à verdade de Deus. Está acima do tempo. É por isso que a Igreja de hoje está vinculada e tem que ser como (e não só) a Igreja de ontem. E assim, quando você vê o Papa atual dizer que deve haver continuidade na Igreja, dizemos nós, é claro! Isso é o que temos dito em todos os momentos. Quando falamos de Tradição, é precisamente este o significado. Eles dizem, deve haver Tradição, deve haver continuidade. Portanto, há continuidade. O Vaticano II foi feito pela Igreja, a Igreja deve ser contínua, por isso o Vaticano II é Tradição. E nós dizemos, com licença?

E há mais, meus queridos irmãos. Isso foi durante a discussão. No final da discussão, surge esse convite de Roma. Neste convite há uma proposição de uma situação canônica para regularizar nossa situação. E posso dizer, o que é apresentado hoje, que já é diferente do que foi apresentado no dia 14 de setembro, podemos considerar como tudo certo, ótimo. Eles cumpriram todas as nossas condições, posso dizer, no plano prático. Então não há muito problema aí. O problema permanece em outro nível — o da doutrina. Mas mesmo aí ele vai muito além — muito além, meus queridos irmãos. A chave é um princípio. Que eles dizem, “isso você deve aceitar; você tem que aceitar que para os pontos que geram dificuldade no Concílio — pontos que são ambíguos, onde há disputa — esses pontos, como o ecumenismo, como a liberdade religiosa, estes pontos devem ser entendidos em coerência com o ensinamento perpétuo da Igreja”. “Então, se há algo de ambíguo no Concílio, é necessário entendê-lo como a Igreja sempre ensinou ao longo do tempo”.

Eles vão ainda mais adiante e dizem, “é necessário rejeitar o que se opõe a este ensinamento tradicional da Igreja”/ Bem, isso é o que sempre dissemos. Espantoso, não? Que Roma nos imponha este princípio. Impressionante. Então você pode se perguntar, então por que você não aceita? Bem, meus queridos irmãos, ainda há um problema. O problema é que neste texto dão duas aplicações do que e como temos de compreender esses princípios. Esses dois exemplos que eles nos dão são o ecumenismo e liberdade religiosa, como descritos no novo Catecismo da Igreja Católica, que são exatamente os pontos pelos quais nós repreendemos o Concílio.

Em outras palavras, Roma nos diz, nós fizemos isso o tempo todo. Somos tradicionais; Vaticano II é Tradição. A liberdade religiosa, o ecumenismo são Tradição. Estamos em plena coerência com a Tradição. Imaginem só, para onde vamos? Que tipo de palavras vamos encontrar para dizer que nós concordamos ou não? Se até mesmo os princípios que temos mantido e afirmado, dizem eles, sim, está ok, vocês podem afirmar isso, porque isso significa que queremos dizer, que é exatamente o contrário do queremos dizer.

Creio que não poderíamos ir adiante na confusão. Em outras palavras, meus queridos irmãos, isso significa que eles têm um outro significado para a palavra “tradição”, e talvez até mesmo para “coerência”. E é por isso fomos obrigados a dizer não. Nós não vamos assinar aquilo. Concordamos com o princípio, mas vemos que a conclusão é contrária. Grande mistério! Grande mistério! Então, o que vai acontecer agora? Bem, já enviámos a nossa resposta a Roma. Eles ainda dizem que estão refletindo sobre ela, o que significa que provavelmente eles estão embaraçados.Ao mesmo tempo, creio que podemos ver agora o que eles realmente querem. Será que eles realmente nos querem na Igreja ou não? Dissemo-lhes muito claramente, se nos aceitarem como somos, sem mudanças, sem nos obrigar a aceitar essas coisas, então estamos prontos. Mas se quiserem nos fazer aceitar estas coisas, não estamos. Na verdade, nós só citamos Dom Lefebvre quem disse isso já em 1987 — várias vezes antes, mas a última vez disse isso em 1987.

Em outras palavras, meus queridos irmãos, humanamente falando, é difícil dizer como será o futuro, mas sabemos que lidamos com a Igreja, lidamos com Deus, lidamos com a Providência Divina, e sabemos que esta Igreja é a Igreja Dele. Os seres humanos podem causar alguma perturbação, alguma destruição. Eles podem causar confusão, mas Deus está acima disso, e Ele sabe como, de todos esses acontecimentos — estes acontecimentos humanos — essas linhas tortuosas, Deus sabe como dirigir a Sua Igreja por meio dessas provações.

Haverá um fim para esta provação, não sei quando. Às vezes, há esperança de que ele virá. Às vezes, é como se perdêssemos a esperança. Deus sabe quando, mas na verdade, humanamente falando, temos de esperar por um bom tempo antes de esperar ver as coisas melhores — cinco, dez anos. Estou convencido de que em dez anos as coisas vão parecer diferentes, porque a geração do Concílio terá desaparecido e a próxima geração não tem essa ligação com o Concílio. E já agora ouvimos vários bispos, meus queridos irmãos, vários bispos nos dizer: vocês dão muito peso a este Concílio; deixe-o de lado. Poderia ser um bom caminho para Igreja ir adiante. Deixe-o de lado; esqueça-o. Vamos voltar ao que interessa, a Tradição.

Não é interessante ouvir bispos que dizem isso? É uma nova linguagem! Isso significa que temos uma nova geração que sabe que há coisas mais sérias que o Vaticano II na Igreja, e que temos de voltar a isso, se assim posso dizer. Vaticano II é sério por causa do dano que causou, sim, é. Mas, como tal, ele quis ser um concílio pastoral, que agora já acabou. Sabemos que alguém que está trabalhando no Vaticano escreveu uma tese para sua formação acadêmica sobre o magistério do Concílio Vaticano II. Ele mesmo nos disse e ninguém nas universidades romanas estava pronto para tomar esta tese. Finalmente, um professor o fez, e a tese é a seguinte: a autoridade do magistério do Vaticano II é a de uma homilia na década de 1960. E passou!

Veremos, meus queridos irmãos. Para nós é muito claro. Devemos nos firmar e nos ater à verdade, à Fé. Nós não vamos abrir mão disso — aconteça o que acontecer. Existem algumas ameaças, é claro, de Roma agora. Veremos. Nós colocamos todas essas coisas nas mãos de Deus, e nas mãos da Santíssima Virgem Maria. Oh, sim, temos de continuar a nossa cruzada de rosários. Contamos com ela, contamos com Deus. E então o que acontecer, acontecerá. Não posso prometer uma linda primavera. Eu não tenho a menor idéia do que vai acontecer nesta Primavera. O que sei é que a luta pela Fé vai continuar, aconteça o que acontecer. Reconhecidos ou não, você pode estar certo de que os progressistas não ficarão felizes. Eles vão continuar e nós vamos continuar a combatê-los também.

 

2 fevereiro, 2012

FSSPX-Polônia emite errata.

O site da FSSPX na Polônia emitiu uma errata. Nela se confirma a declaração do porta-voz da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi: a única carta existente foi assinada por Mons. Ladaria, e não pelo Cardeal Levada; nela, não há nenhuma aceitação da abjuração e qualquer referência à FSSPX; da mesma forma, não há concessão do título de prelado doméstico de Sua Santidade, o Papa. Por fim, o site, muito dignamente, reconhece o erro e pede desculpas.