Posts tagged ‘Tradição’

30 janeiro, 2012

Pela obediência ao Motu Proprio e pelo fim dos altares indignos: carta de Dom Mario Oliveri a seu clero.

Iniciávamos esta tradução quando um futuro sacerdote de Deus Altíssimo fez a caridade de no-la enviar, prontinha! Deus lhe pague, amigo!

Trata-se de uma carta de Dom Mario Oliveri, bispo de Albenga-Imperia, a seu clero diocesano. O ordinário italiano é já um velho conhecido de nossos leitores, que tiveram várias [em ordem cronológica: 1, 2, 3, 4 e 5] oportunidades de lê-lo por aqui.

Em primeiro lugar, Dom Oliveri pede que seus padres respeitem e obedeçam ao Motu Proprio Summorum Pontificum. E o senhor bispo é claro: “As reações negativas ao Motu Proprio e às indicações teológicas e práticas do bispo são quase sempre de carácter emotivo e ditadas por um raciocínio teológico superficial, isto é, por uma visão “teológica” mais bem pobre e míope…”.

A referência que Dom Oliveri faz à “Tre Giorni del Clero” diz respeito a um encontro dos sacerdotes da diocese de Albenga-Imperia, em 2007, no qual Sua Excelência solicitou o “reeordenamento dos presbitérios”; neste, dentre outros aspectos, previa-se a remoção dos “altares-mesas” (página 26 em diante), “não pouco dos quais verdadeiramente indignos de ser o centro da ação litúrgico-divino-sacramental”.

Clique na imagem abaixo para baixar o documento.

18 janeiro, 2012

A guerra na diocese de El Paso continua: Padre Michael Rodríguez sofre mais um ataque sangrento.

Para os novos leitores, sugerimos nossas matérias anteriores sobre o caso aqui.

Inconformado com a sua transferência para a longínqua diocese de Fresno, na Califórnia, e ainda morando e atuando na Cúria de El Paso, TX, Dom Armando Ochoa vem a público para fazer uma declaração bombástica: O Reverendíssimo Padre Michael Rodríguez teria se apropriado indevidamente de fundos doados para a execução de obras em sua antiga paróquia San Juan Bautista!

Artilharia Pesada!

Comunicado de Imprensa de Dom Armando Ochoa publicado no sítio da Diocese de El Paso:

11 de janeiro de 2012 – Como bispo e pastor da Diocese de El Paso, tenho o dever pastoral de salvaguardar os recursos da diocese e de cada paróquia individual. Isso inclui uma responsabilidade fiduciária de responsabilizar todos aqueles que administram os assuntos financeiros de cada paróquia, especialmente, aqueles na administração.

Em 20 de setembro de 2011, o Padre Michael Rodríguez foi destituído como administrador da paróquia de San Juan Bautista com base em informações confiáveis e documentos que mostram que ele intencional e materialmente deixou de cumprir o Manual de Políticas e Procedimentos de Finanças da Paróquia da Diocese Católica Romana de El Paso. O cuidado e utilização pelo padre Rodríguez de fundos doados comprometeu a integridade financeira de San Juan Bautista. Apelei repetidamente ao Pe. Rodríguez para fazer uma revelação completa e uma contabilidade minuciosa de sua administração financeira da paróquia, porém, ele se recusou a fazê-lo.

Devido à gravidade da má administração de fundos pelo Pe. Rodríguez e sua omissão na completa prestação de contas, tive que recorrer a uma medida extraordinária a fim de proteger o patrimônio e restaurar a integridade financeira da Paróquia de San Juan Bautista. A finalidade da ação judicial que movi contra o Pe. Rodríguez e seu irmão David Rodríguez é possibilitar que a Diocese de El Paso e a paróquia de San Juan Bautista realizem uma contabilidade precisa dos valores e utilização de todos os fundos doados e recupere quaisquer fundos que tenham sido apropriados indevidamente.

O Pe. Rodríguez e todos que agem em conluio com ele, não tinham o direito de se apropriar dos fundos doados à paróquia de modo a violar o Manual de Políticas e procedimentos das Finanças da Paróquia da Diocese Católica Romana de El Paso. Somos meros administradores dos bens temporais da Igreja e devemos todos prestar contras de todas as coisas que nos foram confiadas.

Reverendíssimo Armando X. Ochoa, DD

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A resposta

COMUNICADO DE IMPRENSA do Pe. Michael Rodríguez

É lamentável que Dom Armando Ochoa, Administrador da Diocese de El Paso e não mais o seu bispo, tenha decidido mover uma ação judicial contra mim. Essa ação é injusta.

Ao longo dos nove anos e meio como pároco da Igreja Católica de San Juan Bautista dei meu coração e alma no cuidado dessa paróquia, tanto em termos de bens temporais como, especialmente, de bens espirituais. Tenho confiança que centenas dos meus antigos paroquianos estarão ávidos por testemunhar isso.

Em seu comunicado de imprensa do dia 11 de janeiro de 2012, o bispo Ochoa afirmou: “O cuidado e utilização pelo padre Rodríguez de fundos doados comprometeu a integridade financeira de San Juan Bautista.” Isso não é verdade. A declaração do bispo Ochoa também faz referência à “má administração de fundos pelo padre Rodríguez.” Novamente, isso não é verdade. Sempre honrei, respeitei e fiz bom uso do patrimônio financeiro de San Juan Bautista. Arrisco toda a minha reputação nessa afirmação.

Em 20 de setembro de 2011, abri meu coração para o meu bispo, como um filho a um pai, e fui completamente honesto e acessível com ele quanto aos assuntos financeiros de San Juan Bautista. Disse-lhe tudo. Ele preferiu não acreditar em mim. Nos últimos quatro meses, meu advogado canonista envidou repetidos esforços para resolver esse assunto com o Reverendíssimo Armando Ochoa, e ele se recusou.

Tenho um grande amor por minha antiga paróquia de San Juan Bautista, e por meus antigos paroquianos. Estou pronto para lutar e defendê-los, seja qual for o custo. Também estou pronto para proteger o meu bom nome e reputação. Nunca desviei ou utilizei indevidamente os fundos da paróquia. Finalmente, estou convencido de que o motivo real para as ações do meu antigo bispo contra mim se devem à minha defesa do ensinamento da Igreja Católica com relação ao homossexualismo, bem como minha adesão à Liturgia Romana de 1962.

Se necessário, apresentarei provas prodigiosas para corroborar esta alegação. Continuarei fazendo o meu melhor para ser um padre bom e santo, custe o que custar. Continuarei proclamando e ensinando as verdades da Igreja Católica Romana, especialmente na área de moralidade sexual, custe o que custar. Continuarei aderindo ao Rito Antigo da Igreja Católica Romana, custe o que custar.

Por favor, mantenham-me em suas orações durante esta provação difícil. Por favor, confiem a mim e o meu sacerdócio à proteção amorosa da Sancta Dei Genetrix, a Santíssima Mãe de Deus. Obrigado e que o bom Senhor os abençoe nesse alegre tempo de Natal.

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O contra-ataque

Comunicado de Imprensa

13 de janeiro de 2012 – Em 12 de janeiro de 2012, o Reverendíssimo Dom Armando Ochoa, Administrador da Diocese de El Paso, ajuizou uma ação contra mim. Mais uma vez, quero reiterar que a sua ação é desonesta e injusta. Eu faço a simples pergunta: ao longo dos últimos nove anos e meio, quem é que tem trabalhado, lutado, se sacrificado dia e noite, e cuidado do bem estar espiritual e material da igreja católica San Juan Bautista? Será que é o Padre Michael Rodríguez ou o Reverendíssimo Bispo Armando Ochoa? Com base no histórico real, qual dos dois tem maior credibilidade quando se trata de proteger e promover o patrimônio espiritual e material de San Juan Bautista?

BENS ESPIRITUAIS

Ao longo dos meus nove anos e meio como administrador paroquial de San Juan Bautista, pela graça e misericórdia de Deus, os seguintes bens espirituais foram “alcançados”:

1) Restauração da gloriosa Missa Tradicional em Latim
2) Restauração gradual do idioma sagrado da Igreja Católica, Latim
3) Restauração gradual do Canto Gregoriano e da música sacra
4) Recepção devota e digna da Santa Eucaristia na língua e de joelhos, acompanhada por orações preparatórias e de ação de graças
5) Silêncio na Santa Missa e um sentido católico do sagrado
6) Vestimenta modesta e comportamento reverente na Santa Missa e dentro da igreja
7) Duas Missas diárias às 8h e às 18h.
8) Horas Santas com Exposição do Santíssimo Sacramento ao menos quatro vezes por semana
9) Confissões em horários fixos ao menos cinco vezes por semana; Confissão disponível a qualquer momento, dia ou noite, através de agendamento
10) Via Sacra toda sexta-feira, tanto em inglês (12:30h.) quanto em espanhol (18:45h)
11) Retiros Quaresmais na Paróquia, tanto em inglês quanto em espanhol
12) Inúmeras vocações ao sacerdócio e vida religiosa
13) Cristo Rei, Corpus Christi e Nossa Senhora de Guadalupe: Procissões pela vizinhança
14) Além das aulas padrão de Catecismo e Preparação para os Sacramentos, conforme oferecidas em muitas paróquias (em San Juan, essas aulas ocorriam aos sábados e domingos), havia aulas sobre a Fé para toda a paróquia (tanto em inglês quanto em espanhol) às segundas-feiras, terças-feiras, quartas-feiras e quintas-feiras. Pessoalmente eu dava uma aula toda terça-feira à noite, e duas quinta-feira à noite.
15) Promoção de muitas devoções marianas, como, por exemplo, novenas paroquiais à Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora de Guadalupe, orações do Primeiro Sábado à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro
16) Promoção da Mensagem de Nossa Senhora de Fátima
17) Recitação diária do Santo Rosário
18) Devoções das Primeiras sextas-feiras
19) Devoções dos primeiros Sábados. Pessoalmente dirigi essas devoções todos os primeiros Sábados do mês das 6:30h às 7:30h.
20) Ministrava um “mini-retiro” mensalmente (em espanhol) nos Primeiros Sábados para as Guadalupanas e outros paroquianos interessados, das 8:45-11:30h, consistindo do Santo Rosário e uma oficina de oração.
21) Missa Especial no Primeiro Sábado do mês à 1h, para ajudar os fiéis a cumprirem as exigências dos Primeiros Cinco Sábados.
22) Santo Rosário todo domingo às 7:30h e às 9:30h, antes da Santa Missa
23) Santo Rosário todo sábado à tarde às 16:30h antes da Santa Missa
24) Diferentes devoções de terços rezados após cada Missa no final de semana
25) Adoração ao Santíssimo de dia inteiro nas Primeiras Sextas-Feiras
26) Adoração ao Santíssimo de noite inteira nas Primeiras Sextas-Feiras
27) Devoção ao Precioso Sangue nas noites de quintas-feiras às 11h.
28) Ao menos uma vez por semana, eu mesmo levava a Santa Comunhão aos paroquianos doentes e que não podiam sair de casa
29) Procissão diária através da vizinhança nos Dias de Rogações (os três dias antes da Quinta-Feira da Ascensão)
30) Promoção de abstinência de carne em toda Sexta-Feira do ano e promoção do aspecto penitencial de toda Sexta-Feira do ano

Tragicamente, desde minha destituição de San Juan Bautista, no dia 20 de setembro de 2011, não é exagero dizer que nenhum dos itens acima existe mais em San Juan Bautista. É absolutamente chocante! Missas foram canceladas. Confissões e Horas Santas foram canceladas, etc. Será que alguém, alguém, pensa seriamente que a diocese está conduzindo o seu “dever sagrado” de salvaguardar os bens espirituais de San Juan Bautista de alguma maneira próxima ao que o Pe. Michael Rodríguez estava fazendo?

BENS TEMPORAIS

San Juan Bautista é uma paróquia pobre, e a coleta semanal de domingo antes da minha chegada, em maio de 2002, geralmente era inferior a US$1.000,00. Ao longo dos meus nove anos e meio como administrador paroquial, pela graça e misericórdia de Deus, conseguimos levar à cabo os seguintes projetos arquitetônicos:
1) Um belo e novo sacrário
2) Uma renovação inicial do santuário, incluindo um novo acréscimo para o sacrário, novas estátuas, uma nova mesa de comunhão e um novo piso de mármore
3) A instalação de dois sinos magníficos para a Igreja
4) Renovação completa da cozinha paroquial, incluindo uma piso de cerâmica novíssimo e armários novos
5) Renovação da garagem de armazenagem do salão paroquial com armários novos
6) Um piso de cerâmica completamente novo para o salão paroquial
7) Um novo alpendre para o salão paroquial
8) Um telhado novíssimo para a Igreja
9) Todas as unidades de ar condicionado da Igreja e salão paroquial foram substituídas por novas
10) Renovação externa da Igreja: duas novas rampas de entrada laterais para a Igreja com corrimãos
11) Renovação externa da Igreja: um novo alpendre lateral para a Igreja
12) Asfalto completamente novo para todo o estacionamento da Igreja
13) Nova iluminação exterior para a Igreja e estacionamento
14) Um complexo do prédio de armazenagem totalmente novo atrás da reitoria
15) Uma nova e bela GRUTA para Nossa Senhora de Guadalupe com múltiplos santuários, uma fonte, um altar, placas, jardins [ainda no processo de conclusão quando fui transferido]
16) A renovação do santuário e um novo altar elevado, de acordo com as normas da forma antiga do Rito Romano [ainda no processo de conclusão quando fui transferido]

Será que alguém, alguém, pode pensar seriamente que a diocese está conduzindo o seu “dever sagrado” de salvaguardar os bens temporais de San Juan Bautista de alguma maneira próxima ao que o Pe. Michael Rodríguez estava fazendo?

Por favor continuem confiando-me à proteção amorosa da Santíssima Virgem Maria, nossa Mãe Imaculada e Dolorosa.

Pe. Michael Rodríguez
Vigário Paroquial, Igreja Católica Santa Teresa de Jesus
Presídio, TX

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O que pedimos aos nossos leitores?

Orações pelo Reverendíssimo Padre Rodríguez, para que Deus o sustente e fortaleça nessa provação. Faremos chegar ao conhecimento do referido padre todos os oferecimentos de terços e outras práticas de piedade depositados na caixa de comentários.

O que os fiéis da paróquia de San Juan Bautista pedem?

Orações pelo novo bispo, para que seja um bispo católico de verdade e restaure a fé na Diocese, bem como a ereção de uma paróquia pessoal para o rito antigo e a volta do Pe. Rodríguez.

Pedem também a intervenção do núncio apostólico nos EUA, para que ele ou alguém designado de outra diocese apure todas as acusações contra a boa fama de seu pastor. Em alguns fóruns da Tradição comenta-se que estes fiéis pedirão seu dinheiro de volta, uma vez que não confiam nos projetos pastorais da diocese.

Cartas com as intenções acima podem ser endereçadas a:

Arcebispo Carlo Maria Vigano
Núncio Apostólico para os Estados Unidos
3339 Massachusetts Avenue, N.W.
Washington, D.C. 20008-3687

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O poder da oração

Fiéis da Paróquia de San Juan ajoelham-se em frente à Cúria de El Paso para suplicar a Deus que lhes envie um bispo verdadeiramente católico, que corajosamente promova a fé católica em sua liturgia, doutrina e sacerdócio.

Nota: segundo o sítio da Diocese de El Paso, Dom Armando Ochoa só tomará posse em Fresno no próximo dia 2 de fevereiro.

1 janeiro, 2012

Grave Lapso Teológico de Mons. Ocáriz.

Refutação a artigo do Vigário Geral do Opus Dei no Obsservatore Romano.

Por Arnaldo Xavier da Silveira

Missa de abertura do Concílio Vaticano II.

Missa de abertura do Concílio Vaticano II.

1. – No Osservatore Romano de 2 de dezembro último, Mons. Fernando Ocáriz Braña, Vigário-Geral do Opus Dei, um dos peritos da Santa Sé nas discussões teológicas com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, publicou um substancioso artigo intitulado “Sobre a adesão ao Concílio Vaticano II”. O trabalho exprime de modo pleno a posição, hoje dominante em certos meios, dos que acolhem o Vaticano II mesmo nas passagens apontadas como contrárias à Tradição, invocando para isso uma tal ou qual infalibilidade do Magistério Ordinário, ou a obrigação de um “assentimento interno” regido pela virtude da obediência.

Do assentimento interno segundo Mons. Ocáriz

2. – O ilustre Prelado escreve: “O Concílio Vaticano II não definiu nenhum dogma, no sentido de que não propôs, mediante ato definitivo, nenhuma doutrina. Entretanto, o fato de que um ato do Magistério da Igreja não se exerça mediante o carisma da infalibilidade não significa que possa considerar-se ‘falível’, no sentido de que transmita uma ‘doutrina provisória’ ou ‘opiniões autorizadas’. Toda expressão de Magistério autêntico deve ser recebida como o que verdadeiramente é: um ensinamento ministrado pelos pastores que, na sucessão apostólica, falam com o ‘carisma da verdade’ (…), ‘revestidos da autoridade de Cristo’ (…), ‘à luz do Espírito Santo’. Este carisma, autoridade e luz, certamente estiveram presentes no Concílio Vaticano II; negar isso a todo o episcopado, cum Petro e sub Petro, reunido para ensinar a Igreja universal, seria negar algo da essência mesma da Igreja (…)”.

3. – Pouco adiante, Mons. Ocáriz acrescenta: “As afirmações do Concílio Vaticano II que recordam verdades de fé requerem, obviamente, a adesão da fé teologal, não porque tenham sido ensinadas por este Concílio, mas porque já haviam sido ensinadas infalivelmente como tais pela Igreja mediante um juízo solene ou mediante o Magistério ordinário e universal. (…) Os demais ensinamentos doutrinários do Concílio requerem dos fieis o grau de adesão denominado ‘religioso assentimento da vontade e da inteligência’. Um assentimento ‘religioso’, portanto não fundado em motivações puramente racionais. Tal adesão não se configura como um ato de fé, mas antes de obediência não simplesmente disciplinar, mas enraizada na confiança na assistência divina ao Magistério e, por isso, ‘na lógica e sob o impulso da obediência da fé’ (…). As palavras de Cristo: ‘quem a vós escuta a mim escuta’ (…) se dirigem também aos sucessores dos apóstolos”.

4. – Perto do final, Mons. Ocáriz declara: “Em todo caso, continua a haver espaços legítimos de liberdade teológica para explicar, de um modo ou outro, a não contradição com a Tradição, de algumas formulações presentes nos textos conciliares, e assim para explicar o próprio significado de algumas expressões ali contidas”.

Os caminhos de Deus não são os nossos

5. – Jesus Cristo poderia, evidentemente, ter dado a São Pedro e seus sucessores o carisma da infalibilidade absoluta. Essa infalibilidade poderia, em tese, cobrir todo e qualquer pronunciamento doutrinário dos Papas e concílios, além das decisões canônicas, litúrgicas, etc. E poderia mesmo abranger as decisões pastorais, administrativas. O problema não consiste em saber se a assistência do Espírito Santo, com tal alcance absoluto e geral, seria em princípio possível. É claro que o seria. ― Na verdade, contudo, Nosso Senhor não quis dotar São Pedro, o Colégio dos bispos com o Papa, a Igreja enfim, de uma assistência em tais termos absolutos. Os caminhos de Deus nem sempre são os nossos. A barca de Pedro está sujeita a tempestades. Em resumo: a teologia tradicional afirma que consta da Revelação que a assistência do divino Espírito Santo não foi prometida, e portanto não foi assegurada, de forma assim irrestrita, em todos os casos e circunstâncias.

6. – Essa assistência garantida por Nosso Senhor cobre de modo irrestrito as definições extraordinárias, tanto papais quanto conciliares. Mas as monumentais obras teológicas, especialmente da idade de prata da escolástica, revelam que é possível haver erros e mesmo heresias em pronunciamentos papais e conciliares não garantidos pela infalibilidade.

A doutrina é mais matizada do que pretende Mons. Ocáriz

7. – O artigo sustenta, como absoluto e incondicional, o princípio de que mesmo os ensinamentos não infalíveis do Magistério papal ou conciliar exigem necessariamente o assentimento interno do fiel. Ora, grandes autores da neoescolástica estabelecem importantes ressalvas a essa tese, mostrando que não se pode tomá-la, de modo simplista, como regra que não admite exceções.

8. – Com efeito. ― Diekamp declara que a obrigação de aderir aos ensinamentos papais não infalíveis “pode começar a cessar” no caso raríssimo em que um expert, após análise diligentíssima, “chegue à persuasão de que na decisão introduziu-se o erro” (Th. Dog. Man., I, 72). ― Pesch admite o referido assentimento “enquanto não se torne positivamente claro que houve erro em decreto da Cúria Romana ou do Papa” (Pr. Dogm., I, 314/315). ― Merkelbach ensina que a doutrina proposta de forma não infalível pode, acidentalmente e numa hipótese raríssima, admitir a suspensão do assentimento interno (S. Th. Mor., I, 601). ― Hurter afirma que, perante decisões não infalíveis, pode ser lícito “recear o erro, assentir condicionalmente, ou mesmo suspender o assentimento” (Th. Dogm., I. 492). ― Cartechini sustenta que o assentimento interno às decisões não infalíveis pode ser negado caso o fiel “tenha a evidência de que a coisa ordenada é ilícita, podendo nessa hipótese suspender o assentimento (…) sem temeridade e sem pecado” (Dall’Op. al Dom., 153-154). ― Dom Paul Nau explica que o assentimento pode ser suspenso ou negado se houver “uma oposição precisa entre um texto de encíclica e os demais testemunhos da tradição” (Une source doct., 84).

Absolutizando indevidamente a noção de assistência divina

9. – Aqui está o equívoco grave, prenhe de consequências ainda mais graves e mesmo gravíssimas, em que incide o ínclito e venerando Vigário-Geral do Opus Dei. Ele entende que o Magistério, assistido pelo divino Espírito Santo, seria omnímoda e necessariamente imune a qualquer desvio doutrinário. Ora, assim como o Magistério Ordinário de todos os tempos, embora assistido pelo Espírito Santo, nem sempre está coberto pela infalibilidade, assim também o Magistério de hoje conta com a assistência divina, o que no entanto não representa garantia absoluta de isenção de erro. Dessa forma, alguns ensinamentos do Magistério Ordinário podem divergir da Tradição, e até gravemente. É o que logicamente deflui da carta apostólica “Tuas Libenter”, em que Pio IX expõe as diversas condições necessárias para que o Magistério Ordinário goze da infalibilidade, condições essas que manifestamente o Vaticano I não afastou ao compendiar toda essa doutrina na expressão “Magistério Ordinário Universal” (tal questão exigiria um estudo mais amplo, que pretendo elaborar em curto prazo).

10. – As doutrinas novas do Vaticano II apontadas como divergentes da Tradição – as da liberdade religiosa, da colegialidade, do ecumenismo etc. – podem constituir ensinamento diverso (“si quis aliter docet”- S. Paulo, I Tim, 6, 3), sem que se possa dizer que com isso tenha falhado a assistência do divino Espírito Santo e que tenha sido vulnerada a indefectibilidade da Igreja.

Todos os dias até a consumação dos séculos

11. – Portanto, não se pode afirmar, sem mais, a infalibilidade absoluta dos pronunciamentos papais e conciliares. Quer em nome de uma infalibilidade magisterial, quer em nome da obediência devida pelos fieis a Pedro, quer em nome de uma pretendida segurança na aceitação de tudo quanto declare o Magistério autêntico não infalível, quer em nome de qualquer outra doutrina teológica ou para-teológica que possa ser excogitada, a verdade é que na Revelação nada assegura que os pronunciamentos não infalíveis sejam dessa ou daquela forma infalíveis. É aqui, repito, que as teses do eminente Mons. Ocáriz se afastam do bom caminho.

12. – Examinemos com lupa essa questão. Há, sem dúvida, documentos da Sé Apostólica e da teologia tradicional que afirmam, sem maiores distinções, que todos os ensinamentos doutrinários dos papas e concílios devem ser abraçados pelos fieis, ainda que não infalíveis e, portanto, não ornados pelo carisma da infalibilidade. Aqui se inserem as subtilezas da hermenêutica em geral e da sagrada exegese em particular: assim como não se pode tomar de modo monolítico o “não matarás” do Decálogo, porque este comporta exceções, por exemplo a da legítima defesa, da mesma forma não se pode tomar como absoluto o princípio de que se deve sempre, e em todos os casos, acatar os ensinamentos não revestidos do carisma da infalibilidade. O empréstimo a juros foi proscrito, foi admitido, passou por vicissitudes mil. Os ritos chineses conheceram iguais hesitações.

O outro lado da medalha: o Papa herege e o Papa cismático

13. – Essa medalha tem duas faces. Se, de um lado, a doutrina tradicional admite a possibilidade de erro em ensinamento não infalível do Magistério Supremo, como insofismavelmente admite, de outro lado, e paralelamente, admite também, sem qualquer conotação sedevacantista, as hipóteses de um Papa herege e de um Papa cismático.

14. – Sobre o Papa herege. – São Roberto Bellarmino, São Francisco de Sales, Suárez, Domingos Soto, Bouix, Coronata e tantos outros dentre os maiores mestres da escolástica admitem em tese que um Papa possa cair em heresia. – Pietro Ballerini, cuja obra foi importante para as definições da infalibilidade no Vaticano I, via na hipótese de um Papa herege “um perigo iminente para a fé e entre todos o mais grave”, diante do qual quaisquer fieis poderiam “resistir-lhe em face, refutá-lo e, se necessário, interpelá-lo e pressioná-lo a arrepender-se”, “para que todos pudessem precaver-se em relação a ele” (De Pot. Eccl., 104/105).

15. – Sobre o Papa cismático. – É incontestável que a idade de prata da escolástica e a neoescolástica tornaram claro que, em períodos de crise religiosa profunda, é em princípio possível que um Papa, sem perder o cargo de imediato, separe-se entretanto da Igreja, incidindo em cisma. É o que ocorre caso o Sumo Pontífice “subverta todas as cerimônias eclesiásticas”, “desobedeça à lei de Cristo”, “ordene o que é contrário ao direito natural ou divino”, “não observe aquilo que foi, pelos concílios universais ou pela autoridade da Sé Apostólica, ordenado universalmente, sobretudo quanto ao culto divino”, “não observe o rito universal do culto eclesiástico”, “deixe de respeitar, com pertinácia, aquilo que foi estabelecido para a ordem comum da Igreja”, tornando assim possível e eventualmente obrigatório em consciência “resistir-lhe em face”. A tal ponto, que nesses casos o Card. Caietano diz, igualmente sem conotação sedevacantista, que “nem a Igreja estaria nele, nem ele na Igreja” (II – II, q. 39, a. 1, n. VI).

* * *

16. – Submeto respeitosamente as presentes razões ao reverendíssimo Vigário-Geral do Opus Dei e, em toda a medida em que a Igreja o preceitua, à Sé de Pedro, coluna e fundamento da Verdade, objeto de todo o meu amor e devoção desde os tempos em que, congregado mariano, aprendi a venerar a sacrossanta doutrina da Igreja Católica, Apostólica e Romana. Submeto-as também aos teólogos tradicionais de nossos dias. Pelas brilhantes razões que muitos destes vêm proclamando, e por estas minhas, reputo que nada, em teologia dogmática e moral, obriga a assentir às doutrinas novas do Vaticano II que, ainda no dizer de Mons. Ocáriz, “foram e continuam sendo objeto de controvérsias sobre sua continuidade com o Magistério precedente, ou sobre sua compatibilidade com a Tradição”.

Nosso agradecimento aos amigos da Associação Santa Maria das Vitórias pela indicação.

16 dezembro, 2011

Excomunhão de Gherardini?

Uma postagem do colunista convidado Côme de Prévigny

Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com

Mons. Brunero Gherardini no Congresso dos Franciscanos da Imaculada. Na mesma foto (à direita), Dom Luigi Negri, bispo de San Marino.

Mons. Brunero Gherardini no Congresso dos Franciscanos da Imaculada. Na mesma foto (à direita), Dom Luigi Negri, bispo de San Marino.

Dom Bernard Fellay, o Superior Geral da Fraternidade de São Pio X (FSSPX / SSPX), disse em seu sermão de 8 de dezembro que: as propostas romanas estão cada vez mais interessantes, mas em suas formulações permanece um ponto com gosto amargo, que exige antes de mais nada a admissão de que o Vaticano II é compatível com a Tradição da Igreja.

Após as declarações de Sua Excelência suíça, a pressão aumenta, as mentes estão inflamadas. Agora que as sirenes familiares soam novamente o sinal de alerta de cisma definitivo, que o vaticanista Tornielli se deixa tomar pelo sentimento – ao imaginar o que o Arcebispo Lefebvre faria em circunstâncias semelhantes (ao falar que ele acha que ele “diria sim”), as exigências romanas parecem receber, no mesmíssimo coração da Cidade Eterna, um sério golpe. Por 25 anos, a Santa Sé não arredou o pé dos famosos textos conciliares, e, no exato momento em que o Superior Geral da Fraternidade de São Pio X entrega a sua nota ao Vaticano, um dos melhores alunos, dentre os mais fiéis e mais eruditos, se levanta para dizer que as exigências do mestre não resistem a exame.

Monsenhor Gherardini é decano dos teólogos da Universidade de Latrão, uma das instituições romanas mais veneráveis. Por meio século, ele tem formado centenas de bispos e padres, tentando apresentar-lhes o Concílio Vaticano II em continuidade com o magistério da Igreja. Ao final de uma longa e séria carreira, ele faz essa terrível confissão: a tentativa incansável não funciona. Falando do Concílio, ele descreve a sua continuidade com a Tradição como “problemática”: “não porque ele não tivesse declarado tal continuidade, mas sim porque, especialmente, naqueles pontos chave onde era necessário que essa continuidade fosse evidenciada, a declaração continuou sem comprovação.”

Em outras palavras, o teólogo diz que todas as demonstrações que tentam apresentar o Vaticano II em continuação com o magistério da Igreja são aos seus olhos nada mais que argumentos pouco convincentes.

No momento em que um dos teólogos vivos mais notáveis declara ter sérias dúvidas sobre os méritos dos textos conciliares, no momento em que ele pede um “exame crítico” desses textos, como a Santa Sé pode exigir o seu reconhecimento prévio como uma condição indispensável para a regularização da Fraternidade? Como se pode brincar com a esperança de milhares de fiéis ao redor do mundo, fazendo-os crer que a bola está do lado de Écône? A competente congregação [para a Doutrina da Fé] tem toda a capacidade de reconhecer, ao final de minuciosas discussões doutrinais, a catolicidade perfeita da Fraternidade e conceder-lhe a regularização que merece cada trabalho feito fielmente com o seu zelo pelas almas. Enquanto a Sagrada Liturgia e mesmo as verdades mais elementares (a Ressurreição de Cristo, a Presença Real, a universalidade salvífica de Jesus Cristo) são desprezadas por um bom número de bispos que não precisam assinar qualquer condição para serem nomeados e mantidos em exercício, será que esse reconhecimento realmente se revelaria uma aposta de alto risco?

Se afirmar que os textos do Concílio estão desconectados da Tradição torna a Fraternidade digna de ser considerada fora da Igreja, deve-se pensar que Monsenhor Gherardini merece excomunhão por ter ousado afirmar publicamente aquilo que outros nunca terão a coragem de dizer?

15 dezembro, 2011

Fellay: «Se Roma nos diz para aceitarmos em todo caso, não podemos fazê-lo».

Andrea Tornielli – Vatican Insider | Tradução: Fratres in Unum.com –  No último dia 8 de dezembro, durante a homilia por ocasião da festa da Imaculada Conceição, Dom Fellay, que já nas últimas semanas em uma entrevista – não muito apreciada pelo Vaticano — declarou que não podia aceitar o preâmbulo tal e como está, disse: “Vocês ouviram que existe uma proposta de Roma que diz ‘estamos preparados para lhes reconhecer’, porém, o problema é que continua existindo uma condição. Esta condição, independentemente da formulação, no fundo, é sempre a mesma: é preciso aceitar o Concílio Vaticano II. Em suma, a situação atual é a seguinte: disseram-nos, ‘sim, vocês podem criticar o Concílio, porém, com uma condição: que de toda maneira o aceitem’. Porém, dissemos: ‘Como podemos criticar a posteriori?’ Creio que seja uma síntese honesta da situação atual”.

Vale recordar que no preâmbulo doutrinal proposto pela Comissão Ecclesia Dei presidida pelo Cardeal William Levada e dirigida por Monsenhor Guido Pozzo, pedia-se aos lefebvristas que subscrevessem a “Professio Fidei” que se pede a todos aqueles que assumem um cargo eclesiástico. Ou seja, o que se considera indispensável para ser católicos. A profissão prevê três diversos graus de assentimento necessários e distingue entre verdades reveladas, declarações dogmáticas e magistério ordinário. Quanto a este último, afirma que o católico está chamado a assegurar um “religioso obséquio da vontade e do intelecto” aos ensinamentos que o Papa e o colégio dos bispos “propõem quando exercem o seu magistério autêntico”, embora não tenham sido proclamadas de maneira dogmática, como no caso da maior parte dos documentos do magistério.

“O espírito do mundo – disse Fellay durante a homilia do dia 8 de dezembro – foi introduzido na Igreja. Portanto, temos que lutar não apenas contra os inimigos externos, mas contra o espírito não católico que se insinua na Igreja. Pelo contrário, a intromissão deste espírito ocorreu a partir do Concílio Vaticano II. É um grande mistério, é como se o demônio tivesse colocado um pé dentro de um santuário. É algo estarrecedor”. “É como uma enfermidade – acrescentou o bispo – que se introduziu no corpo”. Para o superior da Fraternidade se chegou a um ponto em que “manifesta a profundidade do problema”. E “é necessário reconhecer que Roma teve um gesto para conosco”. “Porém, se Roma nos diz para aceitarmos em todo caso, não podemos fazê-lo”. O bispo lefebvrista afirma, porém, que o problema não reside na dissensão da Fraternidade, mas sim na presença de um espírito não católico que se insinua na Igreja.

13 dezembro, 2011

A infalibilidade: decretos disciplinares e as leis litúrgicas.

Por Padre Élcio Murucci

Já mostramos que a Santa Igreja é infalível quando define solenemente verdades por si reveladas, isto é, verdades de fé e moral contidas formalmente no depósito da Revelação. Estas verdades constituem o objeto direto e primário da Infalibilidade.

Mas existem outras verdades que não foram formalmente reveladas. Elas têm, entretanto, um nexo tão íntimo com a Revelação, que são necessárias para que o depósito da fé seja conservado íntegro, seja devidamente explicado e seja eficazmente definido. Entre estas verdades estão os Decretos Disciplinares e as Leis Litúrgicas. Estão entre os objetos indiretos e secundários da Infalibilidade.

Esta tese assim globalmente considerada, não é de fé. Isto significa que quem a negar não é herege. Mas é uma tese “teologicamente certa”. Quem a negar é “temerário”.

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11 dezembro, 2011

Gherardini responde a Ocariz. E o debate sobre o Vaticano II prossegue.

Por Disputationes Theologicae | Tradução: Fratres in Unum.com

Disputationes Theologicae solicitou a Monsenhor Brunero Gherardini uma contribuição sobre a noção de Magistério Autêntico e seus eventuais limites. O ilustre professor emérito da Universidade do Papa, decano da faculdade de teologia, que já interveio nestas colunas para qualificar o ensinamento constituído pelo Concílio Vaticano II, traz agora, com maior amplitude, de maneira ágil e profunda, certas precisões, chamando a atenção para distinções freqüentemente omitidas. Tal recordação está em consonância com o que havia sido observado a respeito da liberdade religiosa durante os anos 70 por Sua Excelência Reverendíssima Dom Antonio de Castro Mayer, à época Ordinário de Campos, na conclusão do estudo teológico sobre a liberdade religiosa enviado ao Papa Paulo VI (que não o condenou): há um caso específico no qual um ensinamento não é vinculante em consciência, embora sendo um ato do Magistério Autêntico:  quando há uma dissonância em relação ao que a Igreja já ensinou longamente.

A Redação

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Igreja-Tradição-Magistério

Por Monsenhor Brunero Gherardini

Começou a grande celebração cinqüentenária. Ainda não se ouve os tambores, mas percebe-se no ar. O cinqüentenário do Vaticano II deixará o caminho aberto ao que se poderá inventar de mais grandioso em matéria de juízos elogiosos. Da sobriedade que havia sido pedida como momento de reflexão e de análise para uma avaliação crítica e mais aprofundada do acontecimento conciliar, não se vê sequer a sombra. Já se atua desenfreadamente dizendo e repetindo o que se diz e repete há cinqüenta anos: o Vaticano II é o ponto culminante da Tradição e a sua própria síntese. Congressos internacionais sobre o maior e mais significante dentre todos os Concílios ecumênicos já estão programados; outros, de maior ou menor alcance, sê-lo-ão durante o período, e as publicações sobre o assunto crescem a cada dia. O Osservatore Romano, sem dúvida, faz a sua parte e insiste, sobretudo, na adesão devida ao Magistério (2/12/2011, p. 6): o Vaticano II é um ato do Magistério, logo… A razão aduzida é a de que qualquer ato do Magistério deve ser recebido como proveniente de pastores que, em razão da sucessão apostólica, falam com o carisma de verdade (DV 8), com a autoridade de Cristo (LG 25), à luz do Espírito Santo (ibid.).

Fora o fato de provar o Magistério do Vaticano II pelo Vaticano II, o que outrora se chamava petitio principia [ndr: “petição de princípio”: demonstrar uma tese partindo do princípio de que ela já é válida], parece evidente que tal maneira de proceder parte da premissa de um Magistério considerado absoluto, sujeito independente de tudo e de todos, exceto da sucessão apostólica e da assistência do Espírito Santo. Ora, se a sucessão apostólica é garantida pelo critério da legitimidade da sagrada ordenação, parece, em contrapartida, mais difícil estabelecer um critério que garanta a intervenção do Espírito Santo nos termos evocados.

Uma coisa, entre outras, está fora de discussão: nada no mundo, receptáculo das coisas criadas, tem o dom do absoluto. Tudo está em movimento, num circuito de interdependências recíprocas, e, por conseguinte, tudo é dependente; tudo teve um começo, tudo terá um fim: “Mutantur enim — dizia o grande Agostinho — ergo creata sunt”. A Igreja não é exceção; a sua Tradição e o seu Magistério também não. Certamente são realidades sublimes, situadas no topo da escala de todos os valores que pertencem à ordem criada, dotadas de qualidades que dão vertigens; mas permanecerão sempre “realidades penúltimas”. O eschaton, a realidade final, é Deus e só Ele. Com frequência se recorre a uma linguagem que abala este dado certo, e se atribui a essas sublimes realidades um alcance e um significado para além de seus confins: se lhes absolutiza. A conseqüência é que elas são expropriadas de seu estatuto ôntico, fazendo-se delas um pressuposto irreal, o que lhes faz perder a sublime grandeza de sua “realidade penúltima”.

Imersa no movimento trinitário que está na origem de sua estrutura, a Igreja é e opera no tempo como sacramento de salvação. O teandrismo, que dela faz uma continuação misteriosa de Cristo, não se discute; suas propriedades constitutivas (unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade) também não, nem mesmo sua estrutura e seu serviço; mas tudo isso permanece dentro de uma realidade deste mundo; qualificada para mediar sacramentalmente a presença divina, mas sempre como e enquanto realidade deste mundo, que, por definição,  exclui o absoluto.

De tal modo que Ela se identifica em sua Tradição, da qual extrai a continuidade consigo mesma, à qual deve a sua respiração vital, e pela qual é garantida de que o seu “ontem” se torne sempre o seu “hoje”, para preparar o seu “amanhã”. A Tradição, portanto, dá a ela o movimento interior que a impulsiona em direção ao futuro, salvaguardando o seu presente e o seu passado. Mas nem mesmo a Tradição é um absoluto: ela começou com a Igreja, terminará com ela. Só Deus permanece.

A Igreja exerce um verdadeiro controle sobre a Tradição: um discernimento que distingue o autêntico do não autêntico. Ela o faz com um instrumento, ao qual não falta “o carisma da verdade”, desde que não se deixe levar pela tentação do absoluto. Este instrumento é o Magistério, do qual são titulares o Papa, como sucessor do primeiro Papa (o apóstolo São Pedro) sobre a cátedra romana; e os bispos, como sucessores dos Doze no ministério ou serviço da Igreja, por toda a parte onde são a sua expressão local. Recordar as distinções do Magistério — solene, se for do Concílio Ecumênico ou do Papa, quando um ou outro define verdades de fé ou de moral; ordinário, se do Papa em sua função específica, ou dos bispos como um todo e em comunhão com o Papa — é coisa supérflua; bem mais importante é precisar em quais limites “o carisma da verdade” é garantido ao Magistério.

É necessário dizer, em primeiro lugar, que o Magistério não é uma super-igreja que imporia seus juízos e comportamentos à própria Igreja, nem uma casta privilegiada acima do povo de Deus, uma espécie de poder forte ao qual se deveria obedecer e ponto final. Ele é um serviço, uma diakonìa, mas é também um dever a cumprir, um múnus, o munus docendi, que não pode nem deve se sobrepor à Igreja, da qual nasce e pela qual trabalha. Do ponto de vista subjetivo, coincide com a Igreja docente (o Papa e os bispos a ele unidos), em vista da proposição oficial da Fé. Do ponto de vista operativo, é o instrumento pelo qual esta função é realizada.

No entanto, muito freqüentemente se faz do instrumento um valor em si, independente, e se recorre a ele para cortar toda discussão desde sua origem, como se ele estivesse acima da Igreja e como se  não houvesse diante de si o peso enorme da Tradição a acolher, interpretar e retransmitir em sua integridade e fidelidade. É precisamente aí que aparecem com evidência os limites que o salvaguardam da elefantíase e da tentação absolutista.

Não é o caso de nos determos sobre o primeiro desses limites, a sucessão apostólica. Não deveria ser difícil a ninguém demonstrar, caso a caso, a legitimidade e, portanto, a sucessão na posse do carisma próprio dos Apóstolos que dela decorre. É necessário, ao invés, dizer algumas palavras sobre o segundo, ou seja, sobre a assistência do Espírito Santo. O método apressado hoje estabelecido é mais ou menos o seguinte: Cristo prometeu aos Apóstolos, e, conseqüentemente, aos seus sucessores, ou seja, à Igreja docente, o envio do Espírito Santo e a sua assistência para um exercício do munus docendi na verdade; o erro, assim, estaria prevenido desde o início. Certamente, Cristo fez tal promessa, mas também indicou as condições de seu cumprimento. Ora, o que se passa é que nesta maneira de reivindicar a promessa se entrevê uma grave adulteração desta: ou não se cita as palavras de Cristo, ou, se são citadas, não se lhes dá o significado que têm. Vejamos do que se trata.

A promessa é relatada principalmente em dois textos do quarto evangelista: Jo 14, 16.26 e 16,13-14. Já no primeiro, um dos limites que mencionamos ressoa com extrema clareza: Jesus, com efeito, não pára na promessa “do Espírito da verdade” – destacado em itálico por causa do artigo “especificativo” thV, que se continua, de qualquer forma, a traduzir “de”, como se a verdade fosse um atributo opcional do Espírito Santo, quando é Ele quem a personifica –, mas anuncia sua função: recordar tudo que Ele, Jesus, havia antes ensinado. Trata-se, portanto, de uma assistência conservadora da verdade revelada, e não de uma integração nela de verdades outras ou diferentes das que foram reveladas, nem de verdades presumidas tais.

O segundo dos dois textos de São João, confirmando o primeiro, desce a precisões ulteriores: o Espírito Santo, com efeito, “ensinar-vos-á toda a verdade”; mesmo as verdades das quais Jesus não fala naquele momento, porque estavam acima da capacidade dos seus (16,12). Ao fazê-lo, o Espírito “não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir […] receberá do que é meu, e vo-lo anunciará”. Não haverá, portanto, outras revelações. A única Revelação se encerra com aqueles aos quais Jesus falava naquele momento. As suas palavras se apresentam com um significado unívoco, relativo ao ensinamento fixado por Ele, e apenas este ensinamento. Linguagem esta que não é codificada nem cifrada, mas límpida como o sol. Poder-se-ia levantar uma objeção sobre a perspectiva da aparente novidade em relação ao que Jesus não fala no momento e que será anunciado pelo Espírito Santo, mas a delimitação de sua assistência a uma ação de guia em direção à posse de toda a verdade revelada por Cristo exclui toda novidade substancial. Emergindo novidades, tratar-se-ão de significações novas e não verdades novas; de onde o justíssimo “eodem sensu eademque sententia” de S. Vincent de Lérins. Em suma, a pretensão de forçar à assistência do Espírito Santo não importa que farfalho, quero dizer, não importante que novidade, e especialmente as que querem redimensionar a Igreja às medidas da cultura dominante e da suposta dignidade da pessoa humana, não somente é um distúrbio estrutural da própria Igreja, mas é também uma formidável rejeição dos textos acima indicados.

E isso não é tudo. O limite da intervenção magisterial está também na sua própria formulação técnica. Para que ela seja realmente magisterial, em sentido definitório ou não, é necessário que a intervenção recorra a um conjunto de fórmulas já consagrado, do qual emerge, sem nenhuma incerteza, a vontade de falar como “Pastor e Doutor de todos os cristãos em matéria de Fé e Moral, em virtude de sua Autoridade Apostólica”, se aquele que fala é o Papa; ou que emerge com similar certeza, por parte do Concílio Ecumênico, por exemplo, através das fórmulas habituais da asserção dogmática, a vontade dos Padres Conciliares de ligar a Fé cristã com a Revelação divina e a sua transmissão ininterrupta. Na ausência de tais premissas, somente se poderá falar de Magistério em sentido lato: nem toda palavra do Papa, escrita ou pronunciada, é necessariamente Magistério; diga-se o mesmo dos Concílios Ecumênicos, dentre os quais um bom número não falou de dogma, ou não falaram dele exclusivamente; por vezes, alguns até enxertaram o dogma num contexto de diatribes internas e de litígios pessoais ou partidários, e uma pretensão magisterial dentro de tal contexto seria absurda. Ainda, um Concílio de indiscutível importância dogmático-cristológica como foi de Calcedônia, que dispensou a maior parte de seu tempo numa vergonhosa luta de personalismos, de precedências, de deposições e de reabilitações, suscita uma impressão claramente negativa; não é nisso que Calcedônia é um dogma. Assim como não o é a palavra do Papa quando declara de maneira privada que “Paulo não entendia a Igreja como instituição, como organização, mas como organismo vivo, no qual todos operam um para o outro e um com o outro, estando todos unidos a partir de Cristo”; é exatamente o contrário que é verdadeiro, e sabe-se que a primeira forma institucional, exatamente para favorecer o organismo vivo, foi estruturada por Paulo de maneira piramidal; o apóstolo no topo, e depois os episcopoipresbuteroi, os hgoumenoi, os proistamenoi, os nouqetounteV, os diakonoi: trata-se de distinções de encargos e de ofícios ainda não exatamente definidos, mas são já as distinções de um organismo institucionalizado. Mesmo neste caso, que isso fique bem claro, a atitude do cristão é de respeito e, ao menos em linha de princípio, de adesão. Mas se a consciência de um crente não puder dar sua adesão à afirmação exposta acima, isso não comporta uma rebelião contra o Papa ou uma negação de seu Magistério: significa apenas que esta afirmação não é do Magistério.

Por fim, retornemos agora ao Vaticano II para nos pronunciarmos, se possível de modo definitivo, sobre a sua pertença ou não à Tradição e sobre a sua qualidade magisterial. Sobre esta última, não cabe nenhum questionamento, e esses laudatores que não se cansam nunca, há cinqüenta anos, de sustentar a identidade magisterial do Vaticano II, perdem seu tempo e fazem com que os outros percam o deles: ninguém o nega. Contudo, observadas as suas exuberâncias acríticas, um problema se impõe quanto à qualidade: de que Magistério se trata? O artigo de “L’Osservatore Romano” que citei acima, fala de Magistério doutrinal: e quem alguma vez o negou? Mesmo uma afirmação meramente pastoral pode ser doutrinal, no sentido em que pertence a uma dada doutrina. Mas se enganaria quem dissesse doutrinal no sentido de dogmático: nenhum dogma é creditado ao Vaticano II que, se tem um valor dogmático, apenas o tem por modo de reflexo, onde ele se refere a dogmas previamente definidos. Resumidamente, o magistério do Vaticano II, como se diz e rediz a todos os que têm ouvidos para ouvir, é um Magistério solene e supremo. Mais problemática é a sua continuidade com a Tradição: não porque não a tenha afirmado; mas porque, sobretudo, nos pontos chaves onde era necessário que tal continuidade fosse evidente, esta afirmação permaneceu sem demonstração.

8 dezembro, 2011

‘Sursum corda’ pelos bispos do mundo!

Temos a grata satisfação de publicar o veemente apelo do Pe. Michael Rodríguez, bem conhecido de nossos leitores, aos católicos dos EUA, mais particularmente aos católicos de sua diocese de El Paso, TX, para que rezem incessantemente por um novo bispo que faça jus ao seu múnus apostólico. Impressiona-nos a clareza e a coragem de suas palavras, sobretudo ao apontar os problemas de seus confrades no sacerdócio de sua própria diocese, bem como o profundo senso de piedade e amor a Cristo e a sua Igreja.

A denúncia do reverendíssimo padre — que hoje completa 15 anos de vida sacerdotal — no tocante às três áreas mais afetadas pelo modernismo, a saber: a liturgia, a doutrina e o sacerdócio, podem muito bem ser aplicadas à maioria de nossas dioceses. Portanto, unamo-nos também às orações de nossos amigos de El Paso, pedindo ao Bom Deus, por intercessão de Sua Mãe Imaculada, que nos envie bispos santos, corajosos e cheios de fé, e que façam todo o possível para corrigir a desordem moral e doutrinal em suas dioceses.

* * *

Sursum Corda por um Novo Bispo de El Paso, Texas

Por Padre Michael Rodriguez | The Remnant Newspaper

Tradução: Fratres in Unum.com

Padre Michael Rodriguez

Em vista dos graves eventos recentes na Diocese de El Paso, TX, eu gostaria de fazer um pedido especial para os fiéis católicos romanos de toda a nação. Em 1º de dezembro de 2011, o nosso Santo Padre, Papa Bento XVI, nomeou o Bispo Armando X. Ochoa como o novo bispo de Fresno, Califórnia. Sursum corda! Agora é tempo de elevar os nossos corações a Deus todo poderoso e suplicar a Ele que tenha misericórdia de nós, pobres pecadores que somos. A fim de proteger e promover a preciosa religião católica, fora da qual não há salvação, é fundamental que todos nós lancemos aos céus orações fervorosas, especialmente, a recitação diária do Santo Rosário, suplicando a Deus que envie a El Paso um novo pastor santo, zeloso e intemerato.

Infelizmente, a Diocese de El Paso continua sendo castigada por problemas muito graves e pecados mortais contra Deus e a Fé. Precisamos desesperadamente de um líder espiritual que trate dessas questões com honestidade, determinação, perseverança e fidelidade absoluta a Jesus Cristo e à Santa Madre Igreja.

É importantíssimo prestar atenção a três áreas na vida da diocese que estão particularmente infestadas com os vermes do modernismo: (1) a Liturgia, ou o louvor a Deus, (2) a doutrina católica, ou o ensinamento das verdades da Fé, e (3) o sacerdócio.

A Liturgia

A Diocese de El Paso precisa de um novo bispo que começará a tomar as medidas necessárias para corrigir a desordem moral e espiritual dos abusos litúrgicos na celebração dos Santos Sacramentos da salvação, especialmente, a Missa e a Confissão. Por exemplo, é muito comum em nossas paróquias encontrar padres celebrando a Missa e ouvindo Confissões de maneira negligente e sem fé, amor e devoção aparentes. A maneira descuidada e escandalosa com que muitos padres e leigos manipulam o precioso Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo é, objetivamente, não apenas sacrílego, mas diabólico.

Além disso, insto que os fiéis implorem o auxílio poderoso da Sancta Dei Genetrix, a santa Mãe de Deus, para que o novo bispo de El Paso seja obediente às diretrizes litúrgicas do Papa Bento XVI, apóie a Liturgia Romana de 1962, conhecida também como a Missa Tradicional em Latim. Centenas de católicos em El Paso estão atualmente pedindo o estabelecimento de uma paróquia católica tradicional dedicada exclusivamente ao Usus Antiquior do Rito Romano.

O Papa Bento se refere ao Missal Romano promulgado em 1962 como “um tesouro precioso a ser preservado” (Universae Ecclesiae 8, 30 de abril de 2011), e declara que ele “precisa receber a honra devida por seu uso venerável e antigo” (Summorum Pontificum, art.1, 7 de julho de 2007). O Romano Pontífice instrui-nos ainda com relação ao Usus Antiquior do Rito Romano “aquilo que as gerações antigas consideravam sagrado, também permanece sagrado e grande para nós” (Carta do Papa Bento XVI aos bispos do mundo, em 7 de julho de 2007). À medida que o glorioso Rito Antigo espalha o seu divino aroma e se torna mais disponível em nossa diocese, ele se tornará efetivamente um “fermento” celestial, mais do que capaz de restaurar a beleza, dignidade, reverência, sacralidade e verdade para a celebração de todos os sacramentos.

Doutrina Católica

El Paso precisa de um novo bispo e Sucessor dos Apóstolos, que comece a tomar as medidas necessárias para corrigir a desordem moral e espiritual das apresentações aguadas, parciais, falsas e até mesmo heréticas da doutrina católica em nossas escolas católicas, no Instituto Tepeyac e nos programas catequéticos paroquiais. Pecados graves contra a Fé incluem a diminuição, ridicularizarão ou questionamento obstinado dos ensinamentos salvíficos da Santa Madre Igreja, bem como a ignorância intencional ou silêncio persistente de certas verdades doutrinais ou morais. Precisamos urgentemente de um bispo sábio, que deixe bem claro que qualquer forma de dissensão do ensinamento da Igreja é inaceitável e indesculpável. Desviar-se ou evitar a proclamação da verdade não é “pastoral” ou caritativo. Se o “amor e a compaixão” não estiverem fundamentados na única verdade ensinada por Jesus Cristo e Sua Igreja, então, “amor” é uma mentira e a “compaixão” uma ilusão.

Devido às forças furiosas desencadeadas por nossos três inimigos espirituais — o demônio, o mundo e a carne — não deveria nos surpreender que o santo sacramento do Matrimônio esteja sob ataque perverso. Em primeiro lugar, o pecado do divórcio, e a negação da indissolubilidade do matrimônio. Depois segue o pecado da contracepção, com a sua recusa em aceitar a procriação e educação dos filhos como as finalidades primárias do matrimônio. Finalmente, hoje em dia, nos deparamos com o ataque derradeiro do inferno no matrimônio: o detestável pecado de Sodoma e Gomorra, onde o fundamento natural, antropológico do matrimônio é rejeitado e destruído.

Como em muitas outras partes do país, há um esforço permanente em El Paso, por parte de autoridades municipais, para legitimar as uniões homossexuais sob o pretexto de estender “benefícios de assistência médica” a “parceiros não casados” de funcionários municipais. Isso é uma desgraça, totalmente irresponsável (a sociedade tem o dever fundamental de proteger e promover o matrimônio e a família), e gravemente imoral. Roma deixou muito claro que todo católico tem a obrigação de se opor a qualquer tentativa do governo de legalizar uniões homossexuais. O prefeito de El Paso, John Cook, supostamente é “católico,” ainda assim ele é a força motriz por trás da tentativa municipal de sancionar a sodomia. Precisamos rezar por um bispo heróico que, fortalecido pela graça apostólica, seja firme e defenda a santa Lei de Deus. Primeiramente, ele terá que trabalhar de maneira prudente para conquistar as mentes e corações dos muitos políticos “católicos” da cidade que estão à beira de uma ruína moral e espiritual. Todavia, se o prefeito e outras autoridades governamentais continuarem obstinadas em seu pecado e persistirem em dar escândalo público, o nosso novo bispo precisa exercer a sua autoridade apostólica para o bem das almas e declarar as excomunhões necessárias, sempre com a esperança do eventual arrependimento e conversão do pecador.

O sacerdócio

A Diocese de El Paso precisa de um novo bispo e pai espiritual que comece a tomar as medidas necessárias para corrigir a desordem moral e espiritual do homossexualismo violento dentro de nosso presbiterato. A abominação de padres ativamente homossexuais é um pecado que clama aos céus por vingança e está deformando a nossa diocese. El Paso precisa de um novo pastor que exigirá de nós padres aquilo que Cristo exige: obediência, celibato, uma profunda vida de oração, simplicidade de vida, um espírito de conversão contínua, caridade pastoral marcada por kenosis (morte para o ego), sacrifício, serviço e santidade verdadeira em nossa conduta pública ou privada. Se Deus quiser, o nosso novo bispo insistirá que nós padres priorizemos a dimensão espiritual de nossa vida e ministério sacerdotal: oferecendo o Santo Sacrifício da Missa diariamente, administrando o sacramento da Confissão, guiando a vida de oração da paróquia e instruindo os fiéis de acordo com a doutrina integral e autêntica da Santa Igreja Católica Romana. Padres bons, piedosos, santos e masculinos são um dom inestimável à Madre Igreja e a garantia mais segura de sucesso na promoção de futuras vocações ao sacerdócio.

Conclusão

Apesar das dificuldades, obstáculos e pecados que atualmente enfrentamos em El Paso, é uma grande alegria ser um sacerdote de Deus. Eu não queria que fosse de qualquer outra maneira. Amo o sacerdócio, e amo a Santa Madre Igreja. Não há nada mais doce. Nunca percamos a alegria e esperança cristãs. Não podemos permitir que nos tornemos amargos. Com confiança em Deus, precisamos continuar trabalhando e rezando, venha o que vier, conscientes de que tudo seja feito para a honra e glória de Deus e a salvação das almas.

Sursum corda! Elevemos os nossos corações ao brilhante mistério da Imaculada Conceição da Virgem Maria, e confiemos a nossa petição filial por um bispo puro e santo à Imaculada Mãe de Deus. Oh! Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós.

Pe. Michael Rodríguez é um padre da Diocese de El Paso, Texas. Atualmente, ele é vigário paroquial da Igreja Católica de Santa Teresa em Presídio, Texas. Seus deveres pastorais incluem o cuidado das igrejas de missões em Candelária, Redford e Shafter, Texas.

5 dezembro, 2011

A Tradição é a resposta, desde sempre, aos problemas da Igreja.

O Concílio Vaticano II produziu documentos, mas não é, ele mesmo, um documento: como todo Concílio é, antes de tudo, um evento, um momento da história da Igreja que, como tal, se coloca em um nível factual e não veritativo 1. Enquanto o dogma formula uma verdade que, uma vez formulada, transcende, por assim dizer, a história, o Concílio, ou melhor, os Concílios nascem e morrem na história, e pelos historiadores podem ser julgados”. (R. de Mattei)

Na capa do último livro de Roberto de Mattei 2 está São Jerônimo 3 (347-419/420); trata-se do célebre afresco ‘São Jerônimo em seu estúdio’ (c. 1480), de Domenico Ghirlandaio 4 (1449-1494), guardado na Igreja de Todos os Santos, em Florença. Os livros abertos e os pergaminhos, com escritas em grego e hebraico, remetem à sua atividade: foi o primeiro tradutor da Bíblia do grego e do hebraico para o latim, conhecida como Vulgata. Ghirlandaio quis representá-lo absorto em pensamentos, enquanto dirige seu olhar para quem o observa. Este Doutor da Igreja, garante da Tradição Católica, olha para nós, nos perscruta e, com o rosto apoiado na mão esquerda, enquanto a outra mão está em atitude de escrever, parece dizer: “mas o que fizeram da Tradição que vos entregamos?”.

O livro traz um título decididamente interessante: Apologia da Tradição. Pós-escrito em O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita (Lindau, pp 164, € 16,00). Com base na teologia mais segura, como o é aquela da Escolástica (e de São Tomás de Aquino em particular), da Contrarreforma e da Escola Romana dos séculos XIX e XX, a qual se estende até o XXI graças à extraordinária figura de Monsenhor Brunero Gherardini5, e com base no Magistério dos Sumos Pontífices, de Mattei se faz repetidor da posição da Tradição da Igreja, aquela que a torna Santa e Imaculada. Este estudo é a melhor resposta para aqueles que buscaram confutar, com argumentos pobres e às vezes mesquinhos, a obra O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita (Lindau), que valeu ao seu autor o Prêmio Acqui Storia 2011.

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2 dezembro, 2011

Recordando Gherardini: caminhar para além das afirmações retóricas.

Livro de Mons. Gherardini Para o bem da Igreja – e mais especificamente para a atuação da “salus animarum” que é a primeira e “suprema lex” – depois de décadas de livre criatividade exegética, teológica, litúrgica, historiográfica e “pastoral” em nome do Concílio Ecumênico Vaticano II, parece-me urgente que se faça um pouco de clareza, respondendo oficialmente à pergunta sobre a continuidade do mesmo – não declamada, mas demonstrada – com os outros Concílios e sua fidelidade à Tradição desde sempre em vigor na Igreja. […] Parece, de fato, difícil, se não impossível, colocar as mãos na esperada hermenêutica da continuidade, a menos que se proceda a uma análise cuidadosa e científica de cada um dos documentos, deles conjutamente e de todos os seus argumentos, suas fontes imediatas e remotas, e se continua, pelo contrário, a falar deles apenas repetindo o seu conteúdo ou apresentando-o como uma novidade absoluta. Esse pensamento há tempos nasceu em minha mente – que ouso ora apresentar à Sua Santidade –, de uma grande e possivelmente definitiva purificação sobre o último Concílio em todos os seus aspectos e conteúdo. Parece, de fato, lógico e adequado que todos os aspectos e conteúdos sejam estudados em si e em conjunto com todos os outros, com os olhos fixos em todas as fontes, e sob o ângulo específico do Magistério eclesiástico precedente, solene e ordinário. A partir desse amplo e irrepreensível trabalho científico, comparado com os resultados seguros da atenção crítica ao secular Magistério da Igreja, será então possível elaborar um argumento para uma avaliação segura e objetiva do Concílio Vaticano II […] Mas se a conclusão científica do exame levar à hermenêutica da continuidade como a única devida e possível, será portanto necessário provar – para além de toda afirmação retórica – que a continuidade é real, e tal se manifesta apenas na identidade dogmática de fundo. […] [Se] não resultar cientificamente provado, seria necessário dizê-lo com serenidade e franqueza, em resposta à exigência de clareza sentida e esperada por quase meio século.

Do livro de Monsenhor Brunero Gherardini, Concilio Ecumenico Vaticano II. Un discorso da fare, editado pela Casa Mariana Editrice di Frigento, fundada e dirigida pelos Franciscanos da Imaculada,  com prefácio de Dom Mario Oliveri, bispo de Albenga e Imperia, e apresentação de Dom Albert Malcom Cardeal Ranjith, Arcebispo de Colombo e antigo secretário da Congregação para o Culto Divino.