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20 setembro, 2021

Traditionis custodes: os últimos cartuchos concilares?

Por Padre Claude Barthe | Tradução: Hélio Dias Vianna – FratresInUnum.com, 20 de setembro de 2021 – A não aceitação do Concílio Vaticano II centrou-se de forma concreta na recusa da reforma litúrgica, embora alguns frequentadores da antiga Missa afirmem sua adesão a intuições conciliares “bem interpretadas”. Em todo caso, a existência da liturgia tradicional é um fenômeno persistente e até mesmo crescente de não aceitação. Marginal? O papa Bergoglio, que deseja ser o papa da plena realização do Vaticano II, chegou a se convencer de que o fenômeno é tão importante que é necessário agir para erradicá-lo. Com isso, o que talvez seja marginal certamente se tornou central: a Missa Tridentina foi apontada como o mal a ser derrubado e os seminários treinando padres para celebrá-la, como cânceres a serem eliminados. E isso com precedência a tudo.

Um retorno à violência original da reforma litúrgica

A liturgia tradicional é, porém, novamente proscrita, como sob Paulo VI. A Carta que acompanha Traditionis Custodes explica sem ambiguidades o objetivo último do texto pontifício: garantir “que voltemos a uma forma de celebração unitária”, a nova liturgia. A decisão é brutal e peremptória: o Papa decide tanto o fim da Missa tradicional quanto do mundo tradicional, ao qual acusa — e somente a ele! de minar a unidade da Igreja.

O Vaticano II, cujo grande projeto uma abertura ao mundo moderno em sua modernidade para que a Igreja seja mais escutada pelos homens desta época — é uma espécie de ponto intermediário entre a ortodoxia tradicional e a heterodoxia (neste caso, um relativismo neomodernista). A adoção de algumas proposições ambíguas permite, por exemplo, afirmar que um cristão separado pode, enquanto tal, como separado, estar em certa comunhão com a Igreja: segundo a Unitatis redintegratio, Lutero, que pensava ter rompido com a Igreja do Papa, na realidade teria permanecido um católico “imperfeito” (UR 3).

O Papa Francisco, desde a sua eleição, avançou tanto quanto possível sobre esta linha vermelha: ele transmuta a colegialidade em sinodalidade, vai além de Nostra ætate e do Dia de Assis com a declaração de Abu Dhabi, mas tem o cuidado de não ultrapassar o limiar além do qual cairíamos ou cairíamos mais rapidamente nesse niilismo para onde já se inclinam as mais ousadas teologias progressistas. Como Paulo VI, ele permanece fiel ao celibato eclesiástico e ao sacerdócio masculino, mas contornando a disciplina tradicional por meio dos ministérios leigos que o Papa Montini havia aberto (instituição de ministros que exercem funções clericais sem serem clérigos, para chegar provavelmente ao ministério de diaconisas ou mesmo de presidente informal de uma Eucaristia), e confiando aos leigos, homens e mulheres, responsabilidades quase jurisdicionais (posições cada vez mais elevadas nos dicastérios romanos).

Em outras palavras, Francisco conserva o suficiente da instituição, mas continua a esvaziá-la de sua substância doutrinária. De acordo com sua expressão, ele derruba os muros:

  • A Humanæ vitæ e um conjunto de textos posteriores a esta encíclica preservaram a moral matrimonial da liberalização à qual o Concílio havia submetido a eclesiologia. A Amoris lætitia derrubou esse dique: quem vive em adultério público pode permanecer nele sem cometer pecado grave (AL 301).
  • [O motu proprio] Summorum Pontificum havia reconhecido um direito a este museu da Igreja de antes que é a antiga liturgia, com a catequese e os ofícios clericais relacionados com ela. A Traditionis custodes afastou essa tentativa de “retorno”: os novos livros litúrgicos são a única expressão da lex orandi do rito romano (TC, art. 1).

O fato é que o Papa e seus conselheiros correram grandes riscos ao adotarem essas disposições tão violentas quanto apressadas. Comentaristas perplexos falam da ignorância do papa latino-americano sobre o terreno eclesial ocidental; sublinham o descarte contundente da grande obra de Bento XVI; apontam o dedo para as contradições de um governo caótico, que esmaga o tradicionalismo “de dentro” ao mesmo tempo em que concede faculdades equivalentes a um semi-reconhecimento ao tradicionalismo “de fora”, ou seja, aos lefebvristas; finalmente, ficam surpresos ao ver que enquanto o fogo do cisma crepita na Alemanha e a heresia silenciosa se difunde em todos os lugares, uma prática litúrgica totalmente inocente seja tachada de cisma ou heresia.

Mas podemos supor que o Papa e sua comitiva tenham apenas um encolher de ombros diante dessas críticas. Para eles, a justificativa para o ataque repressivo é crucial: a Missa Tridentina cristaliza a existência de uma Igreja dentro da Igreja, já que representa uma lex orandi “anteconciliar” e, portanto, “anticonciliar”. Segundo eles, pode-se transigir com os excessos da Igreja alemã que, na pior das hipóteses, são demasiadamente conciliares, mas não se pode tolerar a velha liturgia que é anticonciliar.

O Vaticano II e tudo o que dele provém não pode ser discutido! De maneira muito característica, a Carta que acompanha Traditionis custodes infalibiliza o Concílio: se a reforma litúrgica provém do Vaticano II e este foi um “exercício solene de poder colegial”, duvidar que o Concílio se insere no dinamismo da Tradição é “duvidar do próprio Espírito Santo que guia a Igreja”.

Uma repressão que chega tarde demais

Só que estamos em 2021,  não em 1969, durante a promulgação arejada e alegre do novo missal, nem em 1985, época do livro Relatório Ratzinger e da Assembleia Sinodal, que fez um balanço já preocupado dos frutos do Vaticano II, nem mesmo em 2005, onde o surgimento da expressão “hermenêutica da reforma em continuidade” se assemelhava fortemente a uma laboriosa tentativa de recomposição de uma realidade que cada vez mais escapava. Hoje é tarde demais.

A instituição eclesial está como que letárgica, a missão extinta e, pelo menos no Ocidente, a visibilidade em número de sacerdotes e fiéis evanescida. Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, todo o contrário de um conservador, em seu último livro La Chiesa brucia. Crisis e futuro del cristianesimo (A Igreja em chamas. Crise e o futuro do cristianismo) [1], considera o incêndio de Notre-Dame de Paris como uma parábola da situação do catolicismo e analisa seu colapso na Europa, país por país. Seu discurso é o característico dos bergoglianos desapontados, que se tornam torcedores desapontados do Concílio.

Não surpreende que autores muito mais desligados do que ele do aparato eclesiástico deem gritos de alarme e não hesitem em dizer de onde vem o mal. Como Jean-Marie Rouart, membro da Academia Francesa, em Este país de homens sem Deus [2], para quem a batalha da sociedade ocidental perante o Islã está perdida de antemão, quando apenas um “sobressalto cristão” poderia nos salvar, ou seja, um retrocesso radical: a Igreja escreve ele “deve proceder ao equivalente a uma Contra-Reforma, retornar a esta reforma cristã que lhe permitiu no século XVII enfrentar vitoriosamente um protestantismo que a questionou” [3]. Ou Patrick Buisson em O fim de um mundo[4], que dedica duas partes de seu grande livro à situação do catolicismo: “O crash da fé” e “O sagrado massacrado”. “De uma forma desconcertante e brutal”, escreve ele, “o rito tridentino, que foi o rito oficial da Igreja latina durante quatro séculos, foi, da noite para o dia, considerado indesejável, sua celebração proscrita e seus fiéis expulsos. [5]”. Saímos do catolicismo para ir “para a religião conciliar”.

Além disso, em 2021 o equilíbrio de forças é muito diferente daquele dos anos 1970 entre aqueles que “fizeram o Concílio” e aqueles que sofreram suas consequências. Andrea Riccardi, como todos os demais, faz esta observação realista: “O tradicionalismo é uma realidade de certa importância na Igreja, tanto na organização como nos recursos”. O mundo tradicional pode ser minoritário (na França, de 8 a 10% dos praticantes), mas está crescendo em todos os lugares, especialmente nos Estados Unidos. É jovem, fecundo de vocações — pelo menos em comparação à fecundidade das paróquias —, capaz de assegurar a transmissão catequética e é atraente para o jovem clero e para os seminaristas diocesanos.

Aliás, foi isso que o Papa Bergoglio, vindo da Argentina, demorou a compreender, até que os bispos italianos e os prelados da Cúria puseram diante de seus olhos o aumento, para eles insuportável, do mundo tradicional, tanto mais visível quanto ocorre no meio de um colapso geral. Era necessário, portanto, aplicar os “remédios” apropriados, os mesmos que foram administrados no florescente seminário de San Rafael, na Argentina, na Congregação dos Franciscanos da Imaculada, da diocese de Albenga, na Itália, na diocese de San Luís na Argentina etc..

Para uma saída “à frente” da crise

Porém, a Igreja conciliar não sai revitalizada e sua obra missionária continua a definhar. Uma bateria de documentos tratou da missão: Ad Gentes, o decreto conciliar de 1965; a exortação Evangelii nuntiandi, de 1975; a encíclica Redemptoris missio, de 1990; o documento Diálogo e Anúncio, de 1991; as exortações apostólicas que repetem incansavelmente o tema da nova evangelização, Ecclesia in Africa, de 1995, Ecclesia in America, de 1999, Ecclesia in Asia, de 1999, Ecclesia in Oceania, de 2001, Ecclesia in Europa, de 2003. Criou-se um Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização. Os colóquios se multiplicaram, falando da missão que deve articular-se no diálogo; da evangelização que não deve ser proselitismo etc. Nunca se falou tanto em missão, nunca houve tão poucas conversões.

François Mitterrand disse, sobre a redução do desemprego, “tentamos de tudo”. Da mesma forma, para salvar a Igreja depois do Vaticano II, a tentativa representada pela eleição do Papa Bergoglio a de maximizar o Concílio , fracassou; como finalmente fracassada deve-se admitir a tentativa representada pela eleição do Papa Ratzinger, a de uma moderação do Concílio. Então, um passo para trás? Sim, mas como uma saída “para frente”.

São numerosos, incluindo os apoiadores de ontem do Papa Bergoglio, os que consideram a repressão brutal do mundo tradicional indefensável, já que motivada, em última análise, pela única razão de que é muito vivo. Podemos imaginar que a Traditionis custodes seja colocada entre parênteses em um pontificado vindouro? Certamente, e cremos que mais ainda: pode-se imaginar que seja dada liberdade ao que se convencionou chamar de “forças vivas” na Igreja. Quanto a essa força essencial dos fiéis atraídos pela liturgia de sempre visto que ela representa a tradição secular , pode-se razoavelmente imaginar a negociação de um compromisso que seria mais favorável à Igreja do que foi o Summorum Pontificum. Devemos almejar a suspensão de toda supervisão, em outras palavras, uma liberdade franca para a velha liturgia e para tudo o que vem com ela. E isso, em nome do bom senso. Da mesma forma que certo número de bispos no mundo permitiu que todas essas “forças vivas” se desenvolvessem em suas dioceses, com comunidades, fundações e obras que dão frutos missionários, também em nível da Igreja universal deverá chegar o tempo de se conceder liberdade para tudo aquilo “que funciona”.

O Summorum Pontificum pode ser analisado como uma tentativa de coexistência entre os católicos que não aceitam a liturgia do Vaticano II e aqueles que promovem uma aplicação moderada do Concílio. Uma nova tentativa poderia ser estabelecida com uma corrente conciliar aparentemente mais “liberal” do que a de Bento XVI, mas que agora se dá conta do fracasso irreparável da utopia abraçada há cinquenta anos.

 [1] Tempi nuovi, 2021.

[2] Livros, 2021.

[3] Op. Cit, p. 64

[4] Albin Michel, 2021.

[5] Op. Cit., “La trivialiation du sacré”, p. 124

2 setembro, 2021

Comunicado dos Superiores-gerais das Comunidades “Ecclesia Dei” sobre o motu proprio Traditionis Custodes.

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: FratresInUnum.com – 2 de setembro de 2021

“A misericória do Senhor se estende a toda carne”

(Eclesiástico 18, 13)

Os Institutos signatários querem, acima de tudo, reiterar seu amor pela Igreja e sua fidelidade ao Sant Padre. Este amor filial hoje está tingido de grande sofrimento. Sentimo-nos sob suspeita, margilizados, banidos. Todavia, não nos reconhecemos na descrição feita na carta que acompanha o Motu Proprio Traditionis Custodes, de 16 de julho de 2021.

Se dizemos que não temos pecado… ” (I João, 1, 8)

Não nos vemos, de forma alguma, como a “verdadeira Igreja”. Pelo contrário, vemos na Igreja Católica nossa Mãe, em quem encontramos a salvação e a fé. Estamos lealmente submetidos à jurisdição do Sumo Pontífice e dos bispos diocesanos, como demonstrado pelas boas relações nas dioceses (e as funções de conselheiros presbiterais, arquivistas, chanceleres e oficiais que foram encarregadas a nossos membros) e o resultado das visitações canônicas ou apostólicas dos últimos nos. Nós reafirmamos nossa adesão ao magistério (incluindo o do Vaticano II e o que o segue) segundo a doutrina da Igreja relativa ao assentimento que lhe é devido (cf. em particular Lumen Gentium, n ° 25,  e Catecismo da Igreja Católica n ° 891 e 892), como evidenciado pelos numerosos estudos e teses doutorais elaboradas por diversos de nós nos últimos 33 anos.

Algum erro foi cometido? Estamos prontos, como todo cristão, para pedir perdão se algum excesso de linguagem ou desconfiança da autoridade possam ter se introduzido em um ou outro membro. Estamos prontos a nos converter se  o espírito de partidarismo ou orgulho tenha manchado nossos corações

“Cumpre teus votos para com o Senhor” (Salmos 49, 14)

Pedimos por um diálogo humano, pessoal e de confiança, longe de ideologias ou da frieza de decretos administrativos. Gostaríamos de poder encontrar alguém que será para nós o rosto materno da Igreja. Gostaríamos de poder dizer-lhe sobre nosso sofrimento, as angústias, a tristeza de muitos fiéis leigos por todo o mundo, mas também dos padres, religiosos e religiosas que entregaram suas vidas confiando nas palavras dos papas João Paulo II e Bento XVI. 

A eles foi prometido que “todas as medidas seriam tomadas para garantir a identidade de seus Institutos na plena comunhão da Igreja Católica” [1]. Os primeiros Institutos aceitaram com gratidão o reconhecimento canônico oferecido pela Santa Sé, em pleno vínculo com a tradicional pedagogia da fé, particularmente no campo litúrgico (baseado no Memorando de Entendimento de 5 de maio de 1988, firmado pelo Cardeal Ratzinger e Dom Lefebvre). Este compromisso solene foi expresso no Motu Proprio Ecclesia Dei, de 2 de julho de 1988; a seguir, de maneira diversa para cada Instituto, no decreto de ereção e em suas constituições aprovadas em definitivo. Os religiosos, religiosa e padres pertencentes a nossos Institutos fizeram seus votos ou compromissos segundo essas especificidades. 

É desta forma que, confiando na palavra do Sumo Pontífice, eles deram suas vidas a Cristo para servir a Igreja. Esses padres e religiosos e religiosas serviram a Igreja com dedicação e abnegação. Podemos privá-los do que a Igreja lhes prometeu pela bocas dos Papas?

Tende paciência comigo!” (Mt 18. 29)

O Papa Francisco “encoraja os pastores da Igreja a ouvi-los com sensibilidade e serenidade, com sincero desejo de compreender suas aflições e pontos de vista, a fim de ajudá-los a viver melhor e reconhecer seu lugar próprio na Igreja”. (Amoris Laetitia, 312). Ansiamos poder confiar as angústias que vivemos a um coração de pai. Precisamos ser ouvidos com boa vontade, não condenações anteriores ao diálogo.

O juízo rude cria um sentimento de injustiça e produz ressentimento. A paciência abranda os corações. Precisamos de tempo.

Hoje ouvimos falar de visitações apostólicas disciplinares a nossos Institutos. Pedimos por encontros fraternos, onde podemos explicar quem somos e as razões de nossa ligação a certas formas litúrgicas. Acima de tudo, queremos um diálogo verdadeiramente humano e misericordioso: “Tende paciência comigo!”.

Circumdata varietate” (Salmos 44:10)

Em 13 de agosto, o Santo Padre afirmou que em matérias litúrgicas “a unidade não é uniformidade, mas harmonia multifacetada criada pelo Espírito Santo” [2]. Aspiramos dar nossa modesta contribuição a essa unidade harmoniosa e diversa, cientes que, como ensina a Sacrosanctum Concilium, “a liturgia é o cume para o qual a atividade da Igreja está dirigida; ao mesmo tempo, é a fonte da qual emana seu poder”. (SC, n ° 10).

Com confiança, voltamo-nos primeiramente aos bispos da França para que seja aberto um diálogo e que um mediador seja indicado, sendo para nós a face humana deste diálogo. Nós devemos “evitar juízos que não levam em conta a complexidade de várias situações… Trata-se de alcançar a todos, de precisar ajudar a cada pessoa encontrar a sua própria forma de participar na comunidade eclesial e, asim, experimentar seu tocado pela “imerecida, incondicional e gratuita misericórdia” (Amoris Laetitia, n ° 296-297).

Dado em Courtalain, França, 31 de agosto de 2021

Pe. Andrzej Komorowski, Superior-Geral da Fraternidade São Pedro.  

Mons. Gilles Wach, Prior Geral do Instituto de Cristo Rei e Sumo Sacerdote

Pe. Luis Gabriel Barrero Zabaleta, Superior Geral do Instituto do Bom Pastor

Pe. Louis-Marie de Blignières, Superior Geral da Fraternidade São Vicente Ferrer

Pe.. Gerald Goesche, Reitor Geral do Instituto de São Felipe Nery

Pe. Antonius Maria Mamsery, Superior Geral dos Missionários da Santa Cruz

Dom Louis-Marie de Geyer d’Orth, Padre Abade da Abadia de Santa Madalena do Barroux

Fr.  Emmanuel-Marie Le Fébure du Bus,  Padre Abade dos Cônegos da Abadia de Lagrasse

Dom Marc Guillot, Padre Abade da Abadia de Santa Maria de la Garde

Madre Placide Devillers, Abadessa da Abadia de Nossa Senhora da Anunciação do Barroux

Madre Faustine Bouchard, Priora das Canonisas de Azille 

Madre Madeleine-Marie, Superiora das Adoradoras do Coração Real de Jesus  Sumo Sacerdote 

27 agosto, 2021

Restrições à missa tradicional são retrocesso, diz arcebispo argentino.

LA PLATA, 25 ago. 21 / 04:15 pm (ACI).- O arcebispo emérito de La Plata, na Argentina, dom Héctor Aguer, disse que as restrições à missa tradicional estabelecida pelo motu proprio Traditionis custodes do papa Francisco não são um avanço, mas um “lamentável retrocesso”.

aguer“O atual pontífice declara que deseja avançar ainda mais na constante busca da comunhão eclesial (prólogo da Traditionis custodes) e para tornar efetivo esse propósito elimina a obra dos seus predecessores, colocando limites arbitrários e obstáculos àquilo que eles estabeleceram com intenção ecumênica intra-eclesial e respeito pela liberdade de sacerdotes e fiéis! Promove a comunhão eclesial ao contrário. As novas medidas implicam um lamentável retrocesso”, escreveu o prelado em um artigo enviado à ACI Prensa, agência em espanhol do grupo ACI, em 23 de agosto.

Dom Héctor afirmou que, com o novo texto pontifício, a decisão de autorizar ou não o uso do missal de 1962 “fica nas mãos dos bispos diocesanos” e, nesse sentido, “começa tudo de novo”.

“Tememos que os bispos sejam avaros na concessão das licenças. Muitos bispos não são Traditionis custodes, mas traditionis ignari (ignorantes), obliviosi (esquecidos), e pior ainda traditionis evertores, destructores”, continuou.

Dom Héctor questionou se, “para aqueles que já se serviam da forma extraordinária do rito romano”, ou seja, que usavam o missal de 1962, “não bastava a vigilância ordinária dos bispos e a eventual correção dos infratores? Era preciso ser caridoso e paciente com os rebeldes”.

Para o arcebispo emérito, “a limitação de lugares e dias para celebrar segundo o missal de 1962 (Art. 3, §2 e §3) são restrições injustas e antipáticas”. Além disso, “o artigo 3º, nº 6, é uma restrição injusta e dolorosa, porque impede que outros grupos de fiéis possam gozar da participação da missa celebrada segundo o missal de 1962”.

Entre as disposições do documento pontifício publicado em 16 de julho, o papa estabelece que o bispo é quem pode autorizar os sacerdotes que queiram celebrar a missa nessa forma, ou seja, com o missal de 1962, bem como onde e quando poderão ser as celebrações, desde que não sejam em igrejas paroquiais, e que os grupos de fiéis que nelas participam terão um sacerdote delegado que os acompanhará pastoralmente.

O texto pontifício, no nº 6 do artigo 3º, também afirma que o bispo diocesano não autorizará a criação de novos grupos que desejem celebrar a missa tradicional em latim.

Abusos litúrgicos

“Sei que muitos jovens das nossas paróquias estão cansados dos abusos litúrgicos que a hierarquia permite sem corrigi-los. Desejam uma celebração eucarística que garanta uma participação séria e profundamente religiosa. Não há nada de ideológico nesta aspiração”, escreveu dom Héctor.

“Também acho antipático que o sacerdote que já tem permissão e uma prática correta deva pedir permissão novamente (art. 5.) Não será esse um artifício para tirar sua permissão? Eu acho que deve haver vários bispos (novos, por exemplo) que farão resistência antes de concedê-la”, afirmou.

O artigo 5º da Traditionis custodes estabelece que “os presbíteros que já celebram segundo o Missale Romanum de 1962, pedirão ao bispo diocesano autorização para continuar a manter aquela faculdade”.

Dom Aguer afirmou que “todas as disposições da Traditionis custodes seriam tranquilamente aceitáveis se a Santa Sé prestasse atenção ao que eu chamo de ´devastação da liturgia`, que se verifica em múltiplos casos”.

Como exemplo, ele falou do que “acontece na Argentina. Em geral, é bastante comum que a celebração eucarística assuma um tom de banalidade, como se fosse uma conversa que o sacerdote mantém com os fiéis e na qual a sua simpatia é fundamental. Em certos lugares, torna-se uma espécie de show presidido pelo ´animador`, que é o celebrante, e a missa das crianças vira uma festinha, como aquelas de aniversário”.

“Em virtude desse critério, desapareceram os cantos latinos que as pessoas simples acostumavam cantar nas paróquias, como o ´Tantum ergo` na bênção eucarística. A falta de correção dos abusos leva ao convencimento de que ´agora a liturgia é assim`”, lamentou.

Segundo dom Héctor, para corrigir os abusos bastaria “simplesmente fazer cumprir o que o Concílio determinou, com sabedoria profética: ´que ninguém, ainda que seja sacerdote, acrescente, tire ou troque qualquer coisa por iniciativa própria na liturgia`”.

“Não se pode negar que a celebração eucarística perdeu precisão, solenidade e beleza. E em muitos casos o silêncio desapareceu. A música sagrada mereceria um capítulo à parte”, acrescentou.

O latim

Dom Héctor Aguer lembrou que “o latim foi, durante séculos, o vínculo de unidade e comunicação na Igreja do ocidente. Atualmente, não só foi abandonado, como também odiado. O seu estudo é negligenciado nos seminários, precisamente porque não acham isso útil”.

“Não percebem que, assim, o acesso direto aos Padres da Igreja do ocidente se fecha”, embora eles sejam “muito importantes para os estudos teológicos: penso, por exemplo, em santo Agostinho e são Leão Magno, ou em autores medievais como santo Anselmo e são Bernardo. Acho que isso simboliza essa situação de pobreza cultural e ignorância voluntária”.

Sempre “celebrei com a maior devoção que pude o rito vigente na Igreja universal”, disse dom Héctor. “Sendo arcebispo de La Plata, todos os sábados, no seminário maior são José, costumava cantar em latim a oração eucarística, usando o lindo missal publicado pela Santa Sé”, acrescentou.

“Tínhamos formado, segundo a recomendação do Concílio Vaticano II na constituição Sacrosanctum Concilium nº 114, uma ´Schola Cantorum`, que foi eliminada quando me retirei”, afirmou.

Dom Héctor disse que o Concílio Vaticano II incentiva o uso da língua latina nos ritos latinos, “salvo direito particular”. “Infelizmente”, disse o prelado, “o ´direito particular` aparentemente é o de proibir o latim, como de fato foi feito. Quem se atreva a propor uma celebração em latim é considerado um alienado, um troglodita imperdoável”.

“Parece que o juízo da Igreja, através da sua máxima instância, sobre o desenvolvimento da vida eclesial é feito com dois pesos e duas medidas: tolerância, e inclusive estima e identificação com as posições heterogêneas em relação à grande Tradição (´progressistas`, como elas são chamadas) e distância ou desgosto em relação às pessoas ou grupos que cultivam uma posição ´tradicional`”.

O arcebispo emérito de La Plata concluiu lembrando “o intuito de um célebre político argentino que declarou drasticamente: ´para os amigos, tudo; para o inimigo, nem a justiça`. Digo isso com o máximo respeito e amor, mas com uma imensa pena”.

25 agosto, 2021

O ponto era quando isso iria acontecer, não se aconteceria.

Por Chiesa e post concilio | Tradução: FratresInUnum.com, 25 de agosto de 2021 — O ponto era quando isso iria acontecer, não se aconteceria. O que será anunciado e referido em seguida se liga à novena iniciada pelos Superiores da FSSP (Fraternidade Sacerdotal São Pedro) da qual falamos anteriormente: Traditionis Custodes é apenas a “sacudida premonitória” do terremoto que vai acontecer? Estamos na parte da aplicação do Motu Proprio.

As comunidades “Ecclesia Dei” ou fraternidades ligadas à missa antiga foram convocadas a Roma para setembro que vem. E isso diz respeito à FSSP (Fraternidade Sacerdotal São Pedro), ao ICRSS (Instituto Cristo Rei) e ao IBP (Instituto do Bom Pastor). Há preocupação entre os fiéis da tradição por aquilo que poderia ser o próximo passa depois da devastação de Traditionis Custodes, cujas disposições deixam abertas muitas interrogações.

Declarações de observadores americanos sobre a situação: “alguém podia pensar que tudo se terminaria com Traditionis Custodes? Lembram dos Franciscanos da Imaculada? Ninguém tomou publicamente a sua defesa. Provavelmente, o Papa sabe que lhe resta pouco tempo e não quer desperdiçá-lo”.

Em relação aos interpelados (os Institutos tradicionalistas): “Terão perdido a espinha dorsal ou terão coragem de defender o ensinamento constante da Santa Igreja Católica e Apostólica, também sob a ameaça de sanção? Continuarão a combater o bom combate?”.

Nota do FratresInUnum: Será que a Administração Apostólica São João Maria Vianney passará ilesa? (Tomara que sim!) Caso haja restrições, Dom Rifan irá ceder ou voltará à resistência, reconhecendo que toda a sua política de diplomacia fracassou? Quem viver, verá!

10 agosto, 2021

O que mais preocupa o papa não são os múltiplos fenômenos de autodestruição que sacodem a Igreja.

Carta de Bernard Antony ao Papa Francisco.

Fonte: Le Salon Beige *

Papa Francisco,

Sem sombra de dúvida, com o vosso Motu proprio Traditionis Custodes, tudo indica que, ao lê-lo atentamente, acabastes de perpetrar até agora o ato mais decisivo de vosso pontificado.

Com efeito, para vós, papa reinante, não deve significar nada decidir anular a medida essencial, promulgada em 2007 por vosso predecessor: o Motu próprio Summorum Pontificum.

Sobretudo, enquanto esse último, o papa emérito Bento XVI, tão admirado, na Igreja e fora dela, por sua luminosa inteligência e fé, ainda esteja vivo, levando não longe de vós, no próprio Vaticano, uma vida reclusa na oração e meditação pelo futuro da Igreja. Sobretudo, também, porque a elaboração desse Motu proprio se inscrevera, manifestadamente, na continuidade da vontade pacificadora e de renovação da diversidade litúrgica desejada por São João Paulo II.

Papa Francisco, no dia seguinte a vossa eleição à Sé de Pedro, emitistes maliciosamente para a imprensa que vos reconheceis como sendo um “poco furbo”, ou seja, “astuto” em língua francesa[1]. Isso reforçava a legitimidade, que pertence a todo fiel, de não acolher com uma incondicional submissão todos os fatos e gestos do papa. Quanto mais porque exprimistes também a importância que dais à Praxis, essa palavra específica do vocabulário marxista-leninista que designa a preponderância da ação sobre o pensamento.

E, além do mais, todos os observadores, de direita ou de esquerda, de vossa carreira na Igreja até vossa eleição concordam em dizer que a preocupação pela liturgia não era uma de vossas preocupações maiores.

Papa Francisco, hoje, não há uma única pessoa que creia seriamente que é realmente por conta da preocupação com a unidade litúrgica que fizestes degringolar sobre a igreja vosso Motu proprio Traditionis Custodes. As pessoas, ao contrário, se recordam de vossos fatos e gestos em favor de toda a diversidade de diferentes cultos das religiões pagãs, consagradas à Pachamama, na Amazônia ou ao Grande Manitu, na América do Norte.

Não, seguramente, não é uma paixão pelo unitarismo litúrgico que pôde motivar vossa decisão de pronunciar desta forma uma proibição maior contra a liberdade da liturgia tradicional da Igreja católica, ou seja, contra a Missa secular, dita de São Pio V, à qual estão ligados um número crescente de fiéis da Igreja latina através do mundo, visto que ela é para eles a mais luminosa expressão da renovação do Sacrifício de Cristo sobre o altar.

Realmente não cremos, Papa Francisco, que não é somente por uma razão de unificação litúrgica que fulminastes essa verdadeira proibição violenta da liberdade de culto tradicional restabelecido por vosso predecessor.

Não, vossa proibição, vosso ukaz, é fato de uma decisão principalmente política, maduramente refletida, é fato, também, de vossa aversão, tão frequentemente inscrita em vosso rosto, em relação àqueles que não seguem vossa política. Ora, com efeito, com frequência, estes são ligados também à conservação dos dogmas e do patrimônio civilizatório da Igreja católica.

Papa Francisco, desde vossa militância na Organización Única del Trasvasamiento Generacional (OUTG), movimento da juventude peronista, manifestastes claramente vossas predileções políticas.

As pessoas também se recordam de vossa tão ostensiva compaixão pelo ditador comunista Fidel Castro, esse carrasco cruel não somente de seus inimigos, mas de tantos de seus companheiros de combate, como o poeta Armando Valladares

Porém, vossa política mais aflitiva fora a do “abandono-traição” da Igreja fiel da China, tão denunciada com estas palavras pelo heroico Cardeal Zen, arcebispo emérito de Hong Kong: Igreja entregue por um acordo à completa submissão à férula do partido comunista de Xi-Jinping.

E sonhas, papa Francisco, em ser convidado por esse gigantesco ditador. Todavia, para esse último, após ter-lhe concedido tudo, até mesmo não reagido diante da falsificação das escrituras exigida pelo partido, substituídas por textos maoistas, agora não serves para mais nada!

Papa Francisco, os argumentos que utilizas contra os fiéis da liturgia tradicional para justificar sua proibição são precisamente indignos! Eles revelam tristes procedimentos de manipulação e amalgamas.

Lembrai-vos: declarastes aos jornalistas, em um avião que vos conduzia a Roma: “Mas quem sou eu para julgar?”

Logo, quem sois vós, então, para julgar, hoje, como fizestes, conforme esse relatório de bispos inquisitoriais-tchekistas, os fiéis das missas tradicionais? São desprezíveis por que entre eles se encontram mais famílias numerosas? Por que é entre eles que surgem cada vez mais vocações? Por que é entre eles, em suas famílias, na maioria das vezes, muito pouco afortunadas, que as pessoas se sacrificam para que os filhos sejam criados em escolas de convicção católica? Por que é em suas paróquias que se acolhe tão frequentemente africanos em busca de uma boa educação cristã para seus filhos? Por que é nessas paróquias que as pessoas não rejeitam, mas amam, os heróicos convertidos do islã?

É certo que, papa Francisco, é pelos imigrantes muçulmanos que manifestastes ostensivamente vossa caridade preferencial.

A propósito do islã, fostes, além do mais, professar em Abu-Dhabi o surpreendente propósito, segundo o qual a diversidade de religiões é fato da vontade divina.

E eis, portanto, que, hoje, manifestastes que, para vós, não pode haver diversidade no seio da Igreja católica, se se trata de manter essa secular liturgia!

O que mais vos preocupas dentre os múltiplos fenômenos de autodestruição que sacodem a Igreja não seria, porém, o cisma de fato da Igreja alemã, tal como moldado ao longo dos anos por vosso querido amigo, o cardeal Marx. Não seria a forte afluência das redes LGBTQ até no Vaticano. Não seria a persistência, e até o renascimento da missa codificada outrora por vosso predecessor, São Pio V. Seria o fato de que, todos os anos, sai um grande número de jovens padres das comunidades onde ela é celebrada.

Papa Francisco, do vosso chocante Motu proprio tiramos a triste confirmação de que sois um ideólogo e um dialético, um grande Divisor. E, a verdade seja dita, um homem mau. Certamente, sois o papa, e os fiéis não têm a escolha senão de esperar que a Divina Providência tenha por bem fazer com que vosso sucessor seja melhor.

 

[1] Rusé: astuto, esperto.

* Nosso agradecimento a um caro leitor pela gentileza e caridade da tradução.

9 agosto, 2021

As pedras clamarão.

Por Dom Carlo Maria Viganò

Dico vobis quia si hii tacuerint, lapides clamabunt. Digo-vos que, se eles se calarem, clamarão as próprias pedras.” (Lc 19, 40)

Archbishop_Carlo_Maria_ViganoTraditionis custodes: essas são as primeiras palavras do documento com o qual Francisco cancela imperiosamente o Motu Proprio prévio Summorum Pontificum de Bento XVI. O tom quase zombeteiro da citação bombástica de Lumen Gentium não escapou à atenção: ao mesmo tempo em que Bergoglio reconhece os Bispos como guardiões da Tradição, ele os pede para obstruir a mais alta e mais sagrada expressão de oração desta. Qualquer um que tente encontrar nas entrelinhas do texto algum subterfúgio para contornar o texto deve saber que o rascunho enviado à Congregação para a Doutrina da Fé para revisão era extremamente mais drástico do que o texto final: uma confirmação, se ainda fosse necessária, de que nenhuma pressão especial foi necessária por parte dos inimigos históricos da Liturgia Tridentina – começando com os acadêmicos de Santo Anselmo – para convencer Sua Santidade a usar sua mão no que ele faz de melhor: a demolição. “Ubi solitudinem faciunt, pacem appellant”. Eles fazem uma desolação e chamam de paz. (Tacitus, Agricola)

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7 agosto, 2021

Ditadura soviética na Igreja? A espionagem de Bergoglio.

Por FratresInUnum.com, 7 de agosto de 2021 – Não existe ditadura sem um potente serviço de espionagem; e não poderia ser diferente no bergolioperonismo. Agora, depois de derrogar autoritariamente as disposições tomadas por Bento XVI acerca da Missa de Sempre – pior: enquanto ele ainda vive –, chegam vozes de que está armando uma central de espionagem eclesiástica.

As informações chegam do LifeSiteNews. “Em conversas com diferentes fontes – todos especialistas vaticanos ou membros do Vaticano que quiseram permanecer anônimos – LifeSite foi informado de que o Papa Francisco pretende levar à prática o seu Motu Proprio Traditiones Custodes, destinado essencialmente a suprimir a Missa latina tradicional, servindo-se de um sistema de espionagem e sobretudo do chefe da Congregação dos religiosos, o cardeal João Braz de Aviz. Braz de Aviz traz consigo uma história de dura perseguição para com comunidades religiosas orientadas à tradição, em particular os Franciscanos da Imaculada”.

Duas fontes disseram que o papa usará um “sistema de espionagem” ou uma “rede de espionagem”: “Usarão o sistema de espionagem. Por todos os lados existem os demasiadamente zelosos que referirão a Roma que se celebra o rito antigo neste ou naquele lugar ou que acusarão aqueles bispos que não intervêm”. “As informações recolhidas por estes ‘espiões’, prosseguiu a fonte, serão utilizadas contra aqueles bispos que já são considerados antipáticos”.

Uma das fontes afirmou: “Penso que o papa punirá da maneira possível qualquer bispo que o desafiar diretamente. Ele usou as suas redes de espionagem com bons resultados durante toda a sua carreira, sem jamais parar”. “Esta mesma fonte pensa que o papa poderia também usar as acusações de acobertamento de abusos sexuais como instrumento para fazer calar os bispos resistentes”.

“Um observador vaticano disse que, por hora, durante o verão (europeu) ‘não acontecerá nada’ e que será difícil dizer que coisa acontecerá. Mas é claro que ‘o Vaticano é um regime e é obvio que Bergoglio queira eliminar a Missa traducional’. Este papa, prosseguiu a fonte, ‘tem um ódio ideológico profundamente radicado’ contra essa Missa, e é ‘um homem de poder agressivamente autocrático, que não aceita oposição”.

Todas essas informações mostram o caráter verdadeiramente despótico de Francisco. O qual, de resto, já é abundantemente conhecido por todos. Contudo, a informação nos parece bastante exagerada e propositalmente plantada para inibir a resistência, a fim de que a própria militância católica desista de lutar, caindo na paranoia persecutória.

É verdade que Francisco é um déspota. É verdade que ele detesta qualquer coisa que seja católica e tradicional. É verdade que ele escreveu este Motu Proprio com a intenção de exterminar completamente a Missa de Sempre. Mas não é verdade que ele tenha tanto poder assim. Ele age mais pela imposição do medo do que pela realidade da sua própria força.

Todas as agendas que ele tem perseguido desde o primeiro dia do seu pontificado fracassaram exemplarmente. Ele não teve coragem nem de dizer claramente que queria mudar a disciplina acerca da Sagrada Comunhão para os recasados; teve que colocá-lo criptograficamente numa nota de rodapé, disposto a sair correndo quando qualquer um lhe perguntasse algo mais explícito (os dubia não foram respondidos até hoje, ato que mostra muito da sua covardia). O mesmo aconteceu com os viri probati do Sínodo da Amazônia, com as diaconisas da comissão que ele montou, com a intercomunhão para os luteranos etc. etc.

Francisco foi feito de trouxa no Chile, saiu defendendo um pedófilo e depois descobriu que foi enganado. E nem precisamos falar sobre o affaire de Becciu ou sobre a esquisitíssima visita apostólica que ele ordenou na Congregação para o Clero, dando uma saída desonrosa para um de seus maiores apoiadores, o cardeal Stella. O seu pontificado termina com uma imensa marca de fracasso, ainda mais aprofundado pela pandemia, que terminou de relegar ao vazio todo o seu inócuo magistério.

É verdade que, entre um e outro copo de Whisky, o cardeal Aviz suprima alguma congregação, mas isso pode acontecer com qualquer instituto religioso – ao menos com os pobres, pois há certas instituições ricas por aí que nem visita apostólica consegue abalar. Tudo é questão de coragem e de postura! – E, é claro, de alguns presentinhos de grife e de alguns envelopes recheados de generosidade.

Se naqueles anos de chumbo de Paulo VI teve padre que enfrentou a oposição e continuou celebrando a Missa de Sempre até hoje, por que, agora, com a autoridade erodida de Francisco, a coisa seria diferente?… Essas fofocas vaticanas parecem mais hipérboles destinadas a provocar retração do que qualquer coisa de séria. Não porque Francisco não o queira, mas simplesmente porque não o pode: ele está com o intestino costurado por uma cirurgia, está velho e nem a sua ruindade pode reverter nada disso. O que ele fez foi assinar um papel, que nem foi ele sequer que escreveu, cheio de coisas contraditórias e inobserváveis, e o máximo que terá são futricas de efeminados mexeriqueiros que abundam pelas conferências episcopais a cuidar da vida das outras e liturgistas lunáticos a cuspir regras pelas sacristias. C’est tout!

A União Soviética tinha exército, tinha dinheiro, tinha um serviço secreto de verdade. Bergoglio tem um Vaticano falido e desmoralizado, com oficiais que estão querendo pegar parceiros homossexuais através de aplicativo de paquera gay, e um monte de velho progressista disperso. Talvez haja alguma punição exemplar aqui ou ali, mas não há fôlego para tanta intervenção. Os dias de glória deste pontificado ficaram no passado, muito no passado!

Os padres que continuem em santa paz celebrando a sua Missa, os bispos que permaneçam estáticos em sua desimportância, e tudo seguirá “como dantes no quartel de Abranches”.

6 agosto, 2021

Uma questão de maioria.

Por FratresInUnum.com, 6 de agosto de 2021 – Logo após a publicação de Traditionis Custodes, o cardeal Walter Kasper, uma das maiores eminências pardas deste pontificado, afirmou num comunicado:

“Fala-se um número crescente de fiéis que desejam o ‘rito antigo’, mas, em minha experiência, a esmagadora maioria dos fiéis é firmemente contra ele. Sei que muitas pessoas ficam escandalizadas quando vão à Basílica de São Pedro em Roma de manhã cedo e veem que em muitos altares os padres celebram a ‘missa antiga’ sem acólitos e sem a participação dos fiéis. Eles se voltam para a basílica vazia e dizem: ‘Dominus vobiscum’, ‘Orate fratres’ etc. Alguns jovens padres vêm e querem celebrar a ‘missa em latim’, mas não sabem latim, enquanto a grande maioria de seus paroquianos prefere ter a missa em sua língua vernácula, então isso traz divisão e brigas na paróquia e as pessoas vão embora”.

A peregrinação anual do “Populus Summorum Pontificum”, que reúne fieis do mundo todo ligados à Missa Tradicional, foi confirmada o próximo mês de outubro.

Bem… A natureza germânica deste pontificado argentino é uma das absurdidades mais desorientadoras jamais vista, inclusive porque Francisco sucede justamente um pontífice alemão, que era muito mais livre e muito menos subserviente à agenda progressista teutônica do que ele. Desde a “comunhão dos recasados”, passando pela ordenação dos viri probati, até a bênção de duplas homossexuais e a abolição da chamada forma extraordinária do rito romano, tudo isso obedece esquematicamente aos interesses daquela decadente igreja. É impressionante.

Contudo, na afirmação do Cardeal Kasper há algo de simultaneamente verdadeiro e mentiroso que pode desbaratar o leitor. De um lado, ele tem razão quando diz que a maioria dos católicos não é adepto da Missa tradicional. Trata-se efetivamente de grupos minoritários, os quais têm crescido, especialmente em países como os Estados Unidos, a França e a Alemanha, mas cuja representatividade e força ameaça vivamente o legado progressista dos teólogos do Concílio. Ademais, estes grupos não são formados por católicos de estatísticas, mas propriamente por católicos militantes, fervorosos, convictos e combativos, cuja capacidade de persuasão ultrapassa de longe qualitativamente o ganho quantitativo do grupo que Kasper apresenta como antagonista.

Em termos superficiais, chega a ser incompreensível o porquê de Bergoglio ter-se indisposto de tal modo com uma fração tão aguerrida da Igreja. Apenas quando se percebe o nível de desmoralização a que são expostos os impostores do Concílio é que se entende a importância que tem para eles a completa extinção destes católicos autênticos.

Todavia, Kasper erra rotundamente quando diz que a maior parte dos católicos é contra a Missa tradicional. Na verdade, isso simplesmente não lhes importa, ainda mais num país como a Alemanha, cujos índices de frequência à Missa não param de despencar desde o Concílio, queda vertiginosa que se agrava, e não apenas lá, especialmente após a presente pandemia.

Neste sentido, é muito mais realista a observação do cardeal Zen, arcebispo emérito de Hong Kong:

“O problema não é ‘que rito as pessoas preferem?’, mas sim ‘por que não vão mais à missa?’ Algumas pesquisas mostram que metade da população cristã na Europa já não acredita na presença real de Jesus na Eucaristia, já não acredita na vida eterna! Certamente não culpamos a reforma litúrgica, mas só queremos dizer que o problema é muito mais profundo. Não podemos evitar a pergunta: ‘Não será que faltou, talvez, formação na fé? Porventura, não será que o grande trabalho do Concílio foi desperdiçado? Parte do Motu Proprio parece esperar claramente a morte dos grupos dedicados à forma extraordinária da missa. Mas, mesmo com isso, será que os homens anti-Ratzinger do Vaticano não podiam esperar pacientemente que a missa tridentina morresse junto com a morte de Bento XVI, em vez de humilhar o venerável papa emérito desta maneira?”.

São palavras de fogo! Palavras que vão ao cerne da questão!

A preocupação de Traditionis Custodes de frear a “forma extraordinária” do rito romano é consideravelmente mais escandalosa quando considerada a apostasia generalizada em que se está mergulhando a maior parte da civilização ocidental, que já não se importa mais com missa alguma, muito menos depois da secularização da liturgia após o Vaticano II. Será uma mera coincidência que multidões e multidões de fieis tenham abandonado a Eucaristia justamente depois da reforma litúrgica?

Como conta Antoine Burckhardt em seu forte testemunho, muitos fieis descobriram na chamada Missa de São Pio V “um oásis de sacralidade neste deserto de desencanto que é o Ocidente” e, como ele, que aos 23 anos “ia desertar do culto dominical, docemente, na ponta dos pés”, encontraram ali justamente o maravilhamento de que necessitava a sua fé.

A maioria de que fala Kasper não é contra a Missa Tridentina, apenas não crê mais, abandonou o cristianismo, perdeu completamente qualquer inclinação sobrenatural, não vai à Igreja, deixou para sempre de frequentar o culto divino. É tudo só isso. E justamente quando o catolicismo passa por tão aguda crise, Francisco se dá o direito de hostilizar parte dos seus fieis, talvez a parte menor e, por isso, mais indefesa.

Como dizia Burckhardt, sobre Traditionis Custodes,

“O desejo de controlar, punir, humilhar realmente parece inspirar todas as suas linhas. Por que esse catálogo de decisões cruéis que transformam os ‘tradis’ em párias? Como o Soberano Pontífice afirma que este texto é motivado por um desejo de reconciliação, quando tudo indica que muitos padres fiéis e humilhados não terão outra escolha a não ser responder a este texto indo engrossar as fileiras dos lefebvristas? Agindo desta forma, este papa mesquinho, sectário e voluntariamente manipulador, infelizmente, apenas confirma o que muitos católicos já pensam dele… Francisco é para a Roma dos Papas, o que Nero foi para a Roma dos Césares: um tirano e uma vergonha”.

Talvez boa parte da hierarquia, formada com a mentalidade juspositivista de obedecer cegamente tudo o que manda a autoridade, precisará de muito tempo para se dar conta do erro cometido com este impiedoso documento. Até lá, a crise de fé apenas se acentuará e a maioria já não estará mais aqui para ouvir o sino tocar novamente e a voz do sacerdote dizer: “Introibo ad altare Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam”.

4 agosto, 2021

A herança da divisão.

Por FratresInUnum.com, 4 de agosto de 2021 – Alguém jamais terá visto algum ditador agir contra a unidade? Por definição, ditadura é a imposição de um determinado tipo de unidade a um corpo social, contra o consenso ou a vontade dos seus membros, contra o bem comum de todos eles. Contudo, para quem tem ideias fixas ou ideologias fanatizantes, tal imposição será entendida como único bem necessário, nem que seja sob os altos custos de conflitos e divisões subsequentes.

Em, “O Papa Ditador”, Macantonio Colonna (Henry Sire) conta que, na época da nomeação episcopal de Jorge Mario Bergoglio, o prepósito Geral da Companhia de Jesus, Pe. Peter Hans Kolvenbach, teria vivamente desaconselhado a Santa Sé a promovê-lo.

Dictator Pope“O texto do relatório nunca foi tornado público, mas o relato foi feito por um sacerdote que teve acesso a ele antes que desaparecesse do arquivo dos jesuítas. O padre Kolvenbach acusava Bergoglio de uma série de defeitos, que vão do uso habitual de linguagem vulgar à duplicidade, à desobediência escondida sob uma máscara de humildade e à falta de equilíbrio psicológico. Na ótica da sua idoneidade como futuro bispo, o relatório enfatizou que, como provincial, ele havia sido uma pessoa que trouxera divisão à sua ordem”.

A existência de pesados atritos entre o jesuíta Bergoglio e a sua ordem são muito conhecidos e, inclusive, são publicamente assumidos pelos seus mais devotos biógrafos, inclusive aqueles cujos textos foram revisados pessoalmente por ele mesmo. Conta-se abertamente, por exemplo, sobre o seu “exílio” em Córdoba e sobre o seu frustrado doutorado na Alemanha, assim como o próprio Francisco relata em entrevista à Civiltà Cattolica:

“Na minha experiência de superior na Companhia, para dizer a verdade, nem sempre me comportei assim, ou seja, fazendo as necessárias consultas. E isso não foi uma boa coisa. O meu governo como jesuíta no início tinha muitos defeitos. Estávamos num tempo difícil para a Companhia: tinha desaparecido uma inteira geração de jesuítas. Por isto, vi-me nomeado Provincial ainda muito jovem. Tinha 36 anos: uma loucura. Era preciso enfrentar situações difíceis e eu tomava as decisões de modo brusco e individualista. Sim, devo acrescentar, no entanto, uma coisa: quando entrego uma coisa a uma pessoa, confio totalmente nessa pessoa. Terá que cometer um erro verdadeiramente grande para que eu a repreenda. Mas, apesar disto, as pessoas acabam por se cansar do autoritarismo. O meu modo autoritário e rápido de tomar decisões levou-me a ter sérios problemas e a ser acusado de ser ultraconservador. Vivi um tempo de grande crise interior quando estava em Córdoba. Claro, não, não sou certamente como a Beata Imelda, mas nunca fui de direita. Foi o meu modo autoritário de tomar decisões que criou problemas”.

Estes problemas não foram senão a divisão política da Companhia na Argentina em duas alas antagônicas: peronistas contra gorilas (anti-peronistas). No final dos anos 80 a situação era tão grave que, segundo Austen Iverigh, um dos seus biógrafos oficiais, “nos dois anos seguintes (89-90), a província se dividiu cada vez mais profundamente e Bergoglio foi acusado de forma cada vez mais insistente de fomentar essa dissidência”. Ele cita um registro verbal das reuniões dos consultores provinciais: “Em todos os encontros, falávamos dele. Era uma preocupação constante decidir o que devíamos fazer com esse homem”.

Bergoglio foi completamente isolado na Companhia até que o arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Quarracino, conseguiu que ele fosse nomeado seu bispo auxiliar. Após a sua nomeação, ele foi expulso da casa dos jesuítas com o endosso do superior geral da Ordem.

Em seu recente e agudíssimo artigo, “Una hipótesis sobre Traditionis Custodes”, Antonio Caponnetto mostra como a motivação deste documento não é senão ideológico-peronista: “O que tratamos de dizer é que Bergoglio não encara esta batalha (contra a Missa tradicional) pelo zelo teológico, eclesiológico ou litúrgico. Encara-a como mais uma fase da luta de classes. Eis aqui a tragédia, o drama, a comoção fatal: quem ocupa o sólio de Pedro é um agente da insurreição classista, variável chave na Revolução Mundial Anticristã”.

Em outras palavras, embora ele alegue em sua carta aos bispos o zelo pela unidade da Igreja, na verdade o que ele está fazendo é puxar a tensão dialética ainda mais para a esquerda, para aumentar a divisão entre os católicos e favorecer a ruptura interna.

A história está se repetindo. Agora, ele não deixará apenas a Província argentina dos jesuítas dividida, ele deixará a Igreja nesta confusão e, do mesmo modo como não saiu da Cúria da Companhia a não ser com uma ordem escrita do provincial e endossada pelo Padre Geral, agora ele não renunciará, pois quer favorecer exatamente esta divisão, a qual ele mesmo considera como o seu próprio triunfo. Como ele mesmo declarou, segundo as palavras do Der Spiegel: “Não excluí a hipótese de que eu seja lembrado como o Papa que, na história da Igreja Católica, a dividiu”.

3 agosto, 2021

Novus aut vetus. Como “Traditionis Custodes” afeta a Missa Nova.

Por FratresInUnum.com, 3 de agosto de 2021 – No artigo de ontem, mostramos como um novo conceito de “Tradição” está subjacente ao Motu Proprio de Bergoglio e como, em sua mente, este conceito é incompatível com a ideia tradicional de Tradição (valha a redundância), em que a objetividade da doutrina sobressai à subjetividade do sujeito-Igreja.

Ora, Francisco leva esta contradição ao seu ápice, reconduzindo-a ao terreno onde ela se mostrou mais sensível ao longo das últimas décadas, ou seja, à liturgia.

Os tradicionalistas, desde Ottaviani e Bacci, sempre pretenderam mostraram como uma nova doutrina estava subentendida no rito de Bugnini e como tal ruptura não estava explicitamente justificada pelo Concílio, apesar das bombas-relógio plantadas (os padres conciliares, aliás, foram todos formados na mentalidade tridentina), nem pela grande tradição da Igreja, devidamente fixada no dogma católico. Tal proposição era constantemente rechaçada por Paulo VI, “autor” do novo rito, e por seus sucessores. Agora, é o próprio Francisco que lhe dá suporte, em favor dos modernistas.

A aposta dos conservadores foi sempre a de “celebrar o Novus Ordo com a mentalidade do antigo”, ou seja, pressupondo a doutrina antiga e importando elementos gestuais e até orações silenciosas do Vetus Ordo. O Motu Proprio Traditionis Custodes, portanto, atinge de cheio a esta pretensão e a invalida de plano: a equívoca Missa Nova é a única lex orandi para o rito romano e, portanto, precisa não apenas resetar toda e qualquer “intromissão” tridentina, mas precisa fazer exatamente o contrário, precisa intrometer-se na então “forma extraordinária”, alterando-a internamente.

Bento XVI pretendia uma “reforma da reforma” em que os dois ritos se enriquecessem mutuamente. Francisco arrestou completamente essa ideia e a inverteu em um único sentido obrigatório: é o rito novo que precisa mudar o rito antigo, libertando-o de sua fixidez, em nome da fluidez da nova ideia da “tradição”, da qual ele e os bispos modernos proclamam-se custódios.

Traditionis Custodes”, portanto, afeta a Missa Nova, também, e coloca o rito moderno numa instabilidade ainda mais intensa do que aquela em que jazia. Isto significa que a penúltima frase da carta que o acompanha precisa ser lida nos dois sentidos que ela tem em si mesma: “ao mesmo tempo, peço-vos que vigiem para que toda liturgia seja celebrada com decoro e fidelidade aos livros litúrgicos promulgados depois do Concílio Vaticano II, sem excentricidades que se degeneram facilmente em abusos”.

Em outras palavras, essas “excentricidades incialmente podiam ser interpretadas no sentido dos abusos litúrgicos à la esquerda, arquiconhecidos por qualquer católico, como as Missas gaúchas com churrasco e chimarrão ou as Missas afro com invocações de entidades do candomblé ou as Missas com coisas extravagantes, como danças e coreografias. Bem… Neste sentido, o passado do papa argentino o condena. Foi ele que celebrou a Missa em que houve um casal que dançou tango, uma dança sensualíssima, ou aquela Missa com crianças (vídeo abaixo), com todas as coreografias e esquisitices possíveis. Seria meio difícil entender que ele queira esconjurar as atrocidades que ele mesmo já subscreveu, inclusive com sua prática.

Contudo, parece muito mais que, por excentricidades, entende-se os usos da Missa tradicional que estejam em desconformidade com o “espírito” (ghost) da reforma: paramentos tradicionais em geral, casulas romanas, rendas, barretes, manípulos, véus, luvas, tunicellas, enfim, qualquer coisa que se ancore na tradição litúrgica anterior. O bispo de Mayagüez, Porto Rico, D. Ángel Rios Matos fez exatamente isso, e através de um decreto, medida possivelmente exagerada na perspectiva de Bergoglio (talvez ele não quisesse ir tão rápido, assim), mas que está em completa sintonia com o seu Motu Proprio, em nosso entender.

O argumento conservador de se celebrar a missa nova com o espírito da antiga fica completamente liquidado por essa medida disciplinar. Para os papólatras conservadores, portanto, um duro golpe, o qual sequer eles conseguiram assimilar, dada a sua pressa servilista de bajular a autoridade e justificá-la de antemão.

Entretanto, é evidente que todo este golpe de Bergoglio, além de ser absurdo até na verbalidade do texto, quanto mais em sua inaceitável intenção, é inviável do ponto de vista mais concreto possível. Diga-se o que se quiser dizer contra Ratzinger, mas é inevitável reconhecer que ele iniciou um novo movimento litúrgico e o fez não apenas por decreto, mas dando princípios teológicos muito profundos, mesmo que possam ser questionáveis desde a perspectiva tradicionalista. Ele não estava brincando de liturgia, ele realmente tem uma paixão litúrgica e deu start num revisionismo que se tornou, em termos de princípios, totalmente popular e, por isso, irreversível, mesmo que os professores do Ateneu Santo Anselmo esperneiem e vociferem.

O diagnóstico de Ottaviani e Bacci sobre a Missa nova  “Distancia-se, de modo impressionante, no todo, como no detalhe, da teologia católica da Santa Missa” — foi escancarado até o ponto de se tornar inegáveis reflexões teológicas, não por parte apenas de tradicionalistas, mas inclusive por parte daqueles que aderiram à reforma litúrgica, como o próprio Ratzinger. Diante do peso dessas reflexões, as provocações de Bergoglio não passam de meros ruídos, que não conseguem minimamente arranhar aquilo que já está dito, explicado e justificado pelo pontífice alemão.

Francisco pode ter o poder canônico, mas não consegue formar mentes, não tem teologia para isso, não consegue formar o imaginário, não tem liturgia para isso; Bento XVI fascinou os jovens que Francisco persegue, inspirou os padres que ele não tolera, formou o clero que ele não suporta. Com todos os seus limites, Ratzinger formou e Francisco apenas tentou deformar, mas os seus próprios seguidores, em matéria litúrgica, preferem o seu predecessor. Isto são fatos e, contra fatos, não há argumentos.

“Traditionis custodes” propõe uma disjuntiva: novus aut vetus, o novo ou o velho, e esta já se mostrou desgastada pela própria história e não justificada de nenhum modo. O que passa disso é apenas utopia esquerdista, alucinação de autoritarismo, delírio revolucionário e, em última análise, choradeira, o velho e ultrapassado jus sperniandis.