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13 fevereiro, 2014

FSSPX: Ecumenismo ou não?!

Por Pe. John Hunwicke[1]

Tradução: Fratres in Unum.com* – Na relação entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X, há um enorme problema fundamental, o qual é tão óbvio que pouquíssimas pessoas o mencionam. Como membro de um Ordinariato, outro e bem sucedido esforço ecumênico de Bento XVI, eu tenho um natural interesse nesta questão e rezo para sua solução. Este é o locus standi desde o qual eu faço a seguinte pergunta.

Fraternidade e Vaticano… é matéria de ecumenismo ou de disciplina eclesiástica? A Fraternidade é um grupo de amados Irmãos Separados para os quais nós católicos devemos, de acordo com o mandato do Vaticano II, esticar cada um de nossos tendões a fim de conquistarmos a unidade… porque, com sua imensa riqueza espiritual, eles têm tanto a oferecer à Igreja Católica; ou é uma mera porção da Igreja Latina em uma situação canônica irregular que deve ser golpeado vigorosamente na cabeça, como os Franciscanos da Imaculada, até que se arraste abjetamente?

Pe. John Hunwicke

Pe. John Hunwicke

Ambas, Santa Sé e Fraternidade, de fato, conspiram para que se aplique o segundo modelo; Roma por causa de sua natural inclinação a exercer controle sobre a Igreja Latina; a Fraternidade porque se crê não só parte da Igreja Latina, mas até mesmo Sua única parte verdadeiramente saudável e doutrinariamente sólida.

Mas e se Roma, ao menos, tentasse o primeiro modelo? Suponhamos que se fosse tratar o “problema” que a Fraternidade tem com o Vaticano II da mesma maneira que Roma trata os “problemas” dos “nestorianos” ou “monofisitas”? Com estes, Roma está euforicamente contente em assegurar acordos Cristológicos, sem demandar explícita aceitação de Éfeso ou Calcedônia. Ou tomemos os anglicanos, aos quais, sem que aceitem as reais palavras de Trento, foi dito pelos Dicastérios, dentre os quais a Congregação para a Doutrina da Fé, que o último documento (“Clarificações”) da Seção sobre a Eucaristia da Comissão Internacional Anglicano-Católica Romana (N.T.: ARCIC, em seu acrônimo inglês) significava que “nenhum trabalho ulterior” era mais necessário nesta matéria? Ou, coloquemos de outra maneira: se o único obstáculo entre Roma e as Igrejas [Cismáticas] Russa e Grega fosse a Dignitais Humanæ, Roma realmente insistiria que nenhum progresso ulterior seria possível sem uma explícita submissão pelos Ortodoxos [sic] tanto ao documento conciliar quanto à “totalidade do Magistério pós-conciliar”?

(Pensemos nisso, dada a afeição que os hierarcas gregos e russos têm pelo conceito de Estado Ortodoxo e Bizâncio Redivivo, que esta minha última pequena fantasia não seja um cenário tão absolutamente inconcebível. Vocês leram acerca da última proposta de mudança na Constituição russa? Não seria divertido ver o Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos pedir às veneráveis comunidades do Monte Athos a elaboração de um comentário sobre a Dignitatis Humanæ para servir de base para o diálogo entre o Vaticano e a Fraternidade?)

Os burocratas da Cúria estão, pois, tentando tanto manter o bolo quanto o comer. Quando lhes apraz, eles tratam a Fraternidade como súditos desobedientes em vez de Irmãos Separados. Mas quando as exigências da polêmica o requerem, como ocorreu no final do ano passado, eles falam da Fraternidade como estando em cisma ou, até mesmo, de alguma maneira imprecisa excomungados. Mas fariam eles muito bem em pensar cuidadosamente acerca das implicações que tais juízos têm para o status do diálogo. Porque, se os membros da Fraternidade são cismáticos excomungados, então eles se qualificam ao tratamento que Unitatis Redintegratio prescreve para os Irmãos Separados[2].

Ou, para colocarmos o mesmo ponto (novamente) sobre um diverso prisma: A política do Vaticano é realmente de esperar um milênio ou meio para o tempo solidificar e amargurar ainda mais a separação entre Roma e a Fraternidade, e, uma vez que a ruptura seja suficientemente duradoura, acrimoniosa e definitiva, aí então, mas só então, proceder aos rituais fofos e sentimentais dos “braços abertos” para a “querida Igreja irmã” que constituem o processo ecumênico? Eu sei que tem um velho ditado acerca de Roma pensar em termos de séculos… mas é possível que isso seja realmente o plano?

Existe um plano?

A Unitatis Redintegratio do Vaticano II se concentrou sabiamente no que era positivo, aquilo que pode ser seguramente dito que a Igreja Católica e outros grupos têm em comum. (A mesma atitude foi adotada no que concerne às religiões não cristãs.)

Era mais ou menos como olhar a taça de vinho dos ortodoxos [sic] e dizer: “Que bom! Está três quartos (ou mais) cheia.” Mas no diálogo entre o Vaticano e a Fraternidade, o tempo todo foi gasto barganhando se a taça da Fraternidade estaria um miligrama ou dois menos do que cheio.

A Indústria católica de ecumenismo moderna não grita para o mundo ortodoxo [sic] “Vocês têm que aceitar cada palavra dos Decretos de Florença e o Magistério pós-florentino inteiro”. Ou, se faz, fá-lo silenciosamente demais para que eu possa ouvir. Um oficial da Cúria disse recentemente acerca da Fraternidade que “eles têm que mudar sua abordagem e aceitar as condições da Igreja Católica e o Sumo Pontífice”[3]. É essa a maneira que o Vaticano fala dos ortodoxos [sic]… ou dos metodistas…?

Eu penso que a situação concernente à Fraternidade é urgente. Embora o Arcebispo Lefebvre tenha sabiamente escolhido homens jovens para serem consagrados bispos, esses jovens estão agora 25 anos mais velhos. Aproxima-se o tempo em que o problema acerca da consagração de seus sucessores deverá ser encarado. Nós teremos realmente que revisitar, quando este tempo chegar, todos os argumentos intemperados e sem fim acerca do Estado de Necessidade e das Excomunhõe latæ sententiæ? Existe algum outro grupo eclesiástico para o qual a Santa Sé proporia tão lúgubre prospecto como o caminho a seguir para uma alegre reconciliação? Terá sido para nada que Bento XVI cortou aquele particular nó górdio[4] e, fazendo isso, incorreu nas falaciosas calúnias dos ignorantes e dos maldispostos?

O Papa Francisco tem críticos que acreditam que sua abertura, sua humildade, seu desejo de tirar o tapete vermelho, sua preferência por uma Igreja que faz alguma coisa ainda que cometa erros… que tudo isso seja pose e truque midiático. Eu creio que ele seja sincero e de oração.

Mas a crise que ele enfrenta é maior do que é frequentemente admitido. Se Roma não consegue arrumar um lugar sequer para a Fraternidade, com quem tem em comum todas as definições dogmáticas de todos os Concílios Ecumênicos e todas as definições ex cathedra dos Pontífices Romanos, qual a possibilidade real de fazer qualquer progresso com as igrejas e comunidades eclesiásticas mais distantes doutrinalmente? A própria possibilidade de reconciliação eclesiástica, de unitatis redintegratio, está em jogo. Se Roma pode tirar a Fraternidade da jogada, então qualquer coisa pode acontecer. Mas se não… esperamos ansiosamente…

Eu consigo pensar em uma (sólida) razão porque Francisco é o homem para concluir esse episódio. Se Bento o tivesse feito, todos os estúpidos previsíveis da media católica e não católica teriam dito que isso seria só mais uma evidência de que ele é um arquirreacionário. Francisco, resolvendo isso, criará uma perplexidade entre os estúpidos previsíveis, mas sua atual reputação midiática permitiria, se assim podemos dizer, que ele escapasse dessa. Esta é a hora, no início deste pontificado, esse é o momento, o καιρός divino, para tal ação, tempo que provavelmente não se repetirá. (Há evidências de que jornalistas mais perceptivos da mídia liberal estão começando a enxergar através de sua personagem.)

É viável, para o Santo Padre, resolver o “problema” da Fraternidade dentro de dias. O Romano Pontífice tem regularmente uma audiência, creio que quinta-feira à noite, com o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Próxima quinta, ele poderia dar suas ordens ao Arcebispo Müller. Na audiência seguinte, assinaria os documentos[5]. Na quarta seguinte, na Audiência Geral, entre os beijinhos nos bebês e os afagos nos aleijados, ele poderia abraçar em público Sua Excelência Monsenhor Fellay e os outros Reverendos e Reverendíssimos líderes da Fraternidade, na frente de todas as câmeras do mundo e dos jornalistas coçando a cabeça. E, assim como eletrizou o mundo com sua escolha dos pés a lavar e beijar em sua primeira Quinta-feira Santa, Francisco poderia usar uma dúzia de jovens clérigos da Fraternidade no lava-pés de sua segunda Quinta-feira Santa. (Afinal de contas, Paulo VI, quando dos festejos do levantamento das excomunhões de 1054 em Roma, desconcertou o pobre metropolita Meliton ao se prostrar por terra e beijar seus pés… humildade… você sabe, isso faz sentido…)

Então, ele poderia pronunciar um discurso sobre a Reconciliação. Poderia entrar para a história como seu Discurso da Barba de Aarão[6].

Ou, se o Santo Padre não for aventureiro o bastante ou não for suficientemente autônomo para fazer isso, o levantamento da excomunhão de Lefebvre [e do “Leão de Campos”, como é de se supor] poderia ser um primeiro e gracioso gesto.

E, por mais vácuas e pueris que você pense serem as minhas observações e opiniões, mais eu creio que você deva parar de rir e encarar as questões que eu levantei: existe um Plano, outro que não o de esperar por décadas para mudar em séculos a ruptura cristalizada? E: o Vaticano II é modelo de Ecumenismo?


* * *

[1] [N.T.] Pe. John Hunwicke é sacerdote do Ordinariato Pessoal Nossa Senhora de Walsingham para ex-anglicanos na Inglaterra e País de Gales. Quando da ereção do ordinariato, teve sua ordenação postergada por seu “exagerado” fervor católico.

[2] Há ainda um aspecto canônico e pastoral disso. Escritores contrários à Fraternidade comumente afirmam que os casamentos da Fraternidade são inválidos. Mas se a Fraternidade está fora da Igreja, então são tão válidos quanto os casamentos metodistas ou luteranos. E as absolvições são tão válidas quanto a práxis vaticana julga as absolvições ortodoxas [sic]. Não seria, de qualquer forma, um admirável gesto pastoral para a Semana da Unidade dos Cristãos que Roma concedesse jurisdição nestas matérias aos padres da Fraternidade e emitisse uma sanatio para todos os casamentos prévios da Fraternidade? Isto teria a mesma grandiosidade, a mesma generosidade, que o levantamento das excomunhões por Bento XVI.

[3] https://fratresinunum.com/2013/12/23/prefeito-da-congregacao-para-a-doutrina-da-fe-dom-muller-lefebvrianos-sao-cismaticos-de-facto-o-fundador-da-teologia-da-libertacao-sempre-foi-ortodoxo/

[4] [N.T.] Nó górdio é uma metáfora de base mitológica para um problema insolúvel, no caso as excomunhões.

[5] Como os vaticanistas frequentemente assinalam, a solução óbvia seria de “conceder” à Fraternidade precisamente aquilo que, de facto, ela já tem. Isso preservaria a Santa Sé da indignidade das negociatas e reduziria muito consideravelmente o risco de rachas dentro da própria Fraternidade. Dever-se-ia incluir somente duas outras provisões extra, ambas tiradas da Anglicanorum Coetibus: (1) exigir que a Fraternidade delibere junto aos ordinários locais sobre o desenvolvimento de sua missão sem conceder aos ordinários nenhuma possibilidade real de veto; e (2) proporcionar ao Conselho da Fraternidade que envie uma terna à Roma quando de uma vacância episcopal. Poderia, então, ser finalmente nomeado um substituto para Monsenhor Williamson.

[6] [N.T.] Referência ao salmo que dá nome a este site.

* Nosso agradecimento a um caro amigo por sua gentileza e generosidade ao fornecer esta tradução.

3 janeiro, 2014

Uma nova ofensiva de Herodes contra os Filhos da Imaculada.

“Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem” (Mateus 2:18)

Por Brian McCall – The Remnant | Tradução: T. M. Freixinho – Fratres in Unum.com: A vinda do Salvador traz não somente alegria, mas sofrimento. Após o Dia de Natal segue-se imediatamente a Festa de Santo Estevão, primeiro mártir. Dois dias depois, comemoramos o massacre dos Santos Inocentes no lugar do Divino Infante. Herodes, um usurpador da autoridade legítima na Judeia, está cheio de ódio e raiva quando ouve a respeito da possível chegada da verdadeira autoridade dentro de seu domínio. Ele não pode encontrar O Santo, a fim de colocar suas mãos Nele e, assim, descarrega sua fúria nos Santos Inocentes, aqueles recém-nascidos incapazes de se defender. Todos os tiranos ilegítimos por fim atacam com injustiça, porque, no fundo, eles sabem que sua posição é insustentável.

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Há cinquenta anos, uma autoridade tirana usurpou a governança do corpo de Cristo. Esta autoridade não é um único homem, papa ou bispo. Chama-se modernismo.[1] Ele se instalou nos mais altos postos da Igreja, cuja função é guardar e transmitir o Depósito da Fé. Ele tem exercido, de maneira injusta e ilícita, a mais alta autoridade na Igreja, agindo através dos ocupantes desses cargos — não nos cabe julgar se eles são ou não colaboradores voluntários do modernismo — não para as finalidades para as quais esses cargos foram criados, mas para injetar vírus mortais de novidade e confusão no Corpo de Cristo. Ainda assim, não obstante toda essa inovação injusta, o Corpo conserva uma pulsação fraca. A Tradição não apenas sobrevive ao ataque viral, mas cresce de maneira constante, ainda que vagarosamente, atraindo novas gerações para a beleza da Fé e da Liturgia verdadeiras.

Os Franciscanos da Imaculada (denominados FIs) não foram e não são tradicionalistas. Eles não foram fundados pelo Arcebispo Lefebvre nem jamais tiveram um relacionamento formal ou informal com a Fraternidade São Pio X. Desde a sua fundação, eles aceitaram e usaram o Novus Ordo Missae. Ainda assim, os FIs adotaram uma adesão fiel à espiritualidade de São Maximiliano Kolbe. A lealdade ao autêntico espírito de São Maximiliano inevitavelmente deve conduzir a um conflito com a tirania modernista reinante na Igreja.

O modernismo pretende sintetizar tudo, a fim de negociar um armistício com os inimigos da Igreja, especialmente, o espírito da Maçonaria. Recentemente, em um momento de verdadeira clareza, Dom Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, um Cardeal pessoalmente próximo ao Papa Francisco e escolhido por ele para liderar o seu Conselho de Oito Cardeais, explicou que essa reconciliação com o modernismo estava no centro dos [acontecimentos] de “1789 na Igreja,” conforme o Vaticano II foi descrito pelo Cardeal Suenens:

O Concílio Vaticano II foi o principal evento na Igreja no século XX. A princípio, ele significou um fim às hostilidades entre a Igreja e o modernismo, que havia sido condenado no Concílio Vaticano I. Ao contrário: nem o mundo é o reino do mal e do pecado – essas são conclusões claramente conquistadas no Vaticano II—nem a Igreja é o único refúgio do bem e da virtude. O Modernismo foi, em grade parte, uma reação contra as injustiças e abusos que menosprezavam a dignidade e os direitos da pessoa.[2]

Uma vez que o Modernismo foi uma reação ao ensinamento e a práxis tradicionais da Igreja, o Cardeal considera claramente essas coisas como “injustiças” e “abusos.” Aqui temos uma avaliação honesta por parte do Cardeal mais influente neste Pontificado, deixando claro que o último século envolveu um combate entre o Modernismo e a Igreja antes do Vaticano II, em seu ponto de vista, o Modernismo triunfando sobre o Concílio. Os FIs não depuseram suas armas e não uniram-se a esse cessar-fogo profano. O resultado tem sido a sua perseguição permanente.

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O combate de São Maximiliano foi claramente uma parte dessa luta. Ele direcionava seus esforços particularmente contra o adjutório do Modernismo na esfera temporal, a Maçonaria. A Maçonaria se alegrou com o resultado do Vaticano II, que os maçons abertamente proclamaram como uma vitória para a Maçonaria. Assim, um compromisso com o combate da Imaculada inevitavelmente levará a um confronto com o Modernismo. O engajamento em um combate assim, ao final, nos levará a enxergar as armas perenes que têm logrado êxito nessa batalha, a Missa de Sempre e a doutrina imutável da Igreja preservada há séculos e somente obscurecida sob uma nuvem de ambiguidades no Vaticano II. Ainda assim, o encontro da Missa e da Doutrina Tradicional, inevitavelmente, conduzirá a um confronto com os inimigos internos da Igreja.

Recentemente, Dom Bernard Fellay comentou que a lealdade dos FIs a São Maximiliano é o que os aproximou dos tradicionalistas e os puseram em conflito com as forças que ocupam as mais altas posições na Igreja.

Isso é muito interessante, porque Maximiliano Kolbe deseja um combate pela Imaculada, a vitória de Deus sobre os Seus inimigos — podemos realmente usar essa expressão — ou seja, os maçons. É muito interessante constatar isso. Esse combate contra o mundo, contra o espírito do mundo aproximou os FIs de nós, quase por natureza, alguém poderia dizer, porque alistar-se em um combate contra o mundo implica, em algum momento, a Cruz. O que implica os princípios eternos da Igreja: que se chama o espírito cristão. Esse espírito cristão é expresso de maneira magnífica na Missa Antiga, na Missa Tridentina. De tal maneira que quando Bento XVI publicou o seu Motu Proprio, que novamente disponibilizou amplamente a Missa, essa congregação decidiu em seu Capítulo, ou seja, uma decisão tomada por toda a congregação, retornar à Missa antiga, e realmente fazê-lo em todos os sentidos, percebendo que viriam a ter muitos problemas, uma vez que eles têm paróquias, porém, todavia, esses problemas não eram intransponíveis. Alguns deles também começaram a fazer certas indagações sobre o Concílio.

Consequentemente, alguns insatisfeitos, uns poucos se considerarmos o seu número (há cerca de 300 padres e irmãos no total), talvez uma dúzia, protestaram a Roma, dizendo: “Eles estão tentando nos impor a Missa antiga, eles estão atacando o Concílio.”[3]

As forças do Modernismo não podem destruir a Igreja e a Sagrada Tradição. A promessa de indefectibilidade de Nosso Senhor os impede de fazer isso. Igualmente, foi impossível que o usurpador Herodes matasse Nosso Senhor antes da consumação do tempo para o Seu sacrifício redentor. Sim, Herodes poderia desferir a sua raiva nos inocentes e desamparados que estavam “próximos” de Nosso Salvador, ou seja, na região de Belém.

Os FIs são, em certo sentido, como os Santos Inocentes. Eles não são tradicionalistas, mas, como observou Dom Fellay, são “próximos” por defender a Tradição de maneira inequívoca e coerente. Nos últimos anos, os FIs podiam ser vistos caminhando em direção a um “renascimento” como uma comunidade plenamente tradicionalista. Eles estão potencialmente nos estágios iniciais dessa transição, encorajando e permitindo o uso amplo da liturgia tradicional e mantendo a mente aberta para considerar o lugar que o Vaticano II e seus frutos ocupam no combate da Imaculada. Ainda assim, como é claro, eles ainda conservaram o uso do Novus Ordo Missae.

As forças do Modernismo, incapazes de acabar com a Tradição na Igreja e incapazes de armar o que, em retrospectiva, pode ter sido uma armadilha prática para a FSSPX em um reconhecimento canônico, estão tentando destruir a essência dos FIs caso isso possa ser uma fonte de derrota derradeira do Modernismo.

Os FIs foram fundados em 1970, curiosamente, no mesmo ano que a FSSPX, e têm crescido de modo a incluir padres, freiras, terciários, membros da ordem terceira, casas de estudo, editoras e distribuidoras, além de apostolados leigos. Os FIs foram elevados ao nível de direito diocesano em 1990 e o Papa João Paulo II os elevou a direito pontifício. Hoje em dia, contam com mais de 500 membros em seis continentes. Embora aceitem o Novus Ordo Missae como forma normativa antes do Summorum Pontificum, os FIs mantiveram-se fiéis ao carisma franciscano, conforme expresso por São Maximiliano. Eles falam frequentemente e de maneira apaixonada sobre Nossa Senhora Mediadora de Todas as Graças (uma doutrina esnobada no Vaticano II) e sua Co-redenção. Após o Summorum Pontificum, os FIs deliberaram, e, de acordo com as regras que regem o seu processo de tomada de decisões, votaram esmagadoramente no sentido de promover e facilitar o uso amplo e generoso da liturgia tradicional, embora permitindo que padres individuais celebrem o Novus Ordo Missae. Ainda assim, mesmo essa posição prudente e moderada foi demais para o Modernismo, e, após a eleição do Papa Francisco, o Vaticano agiu segundo as reclamações de uma meia dúzia de descontentes (assim como o Vaticano agiu contra a FSSP em 1999, após as reclamações de uma meia dúzia de membros desejosos de celebrar a Missa Nova, e que acabaram saindo da FSSP).

Agora recordaremos que durante décadas a hierarquia fez ouvidos moucos às graves acusações de abuso homossexual de crianças por parte de padres. Os criminosos foram mimados, protegidos e enviados disfarçadamente para novas atribuições. O Cardeal Law, que protegeu criminosos por décadas, não foi destituído como bispo, mas voluntariamente renunciou a uma promoção para um cargo confortável em Roma (onde ele está livre de qualquer possível prisão nos Estados Unidos).

A Congregação para a Doutrina da Fé investigou as ordens religiosas femininas nos Estados Unidos e descobriu evidências chocantes de heterodoxia e, embora algumas discussões tenham sido realizadas com o conselho de liderança, nenhuma ordem religiosa foi assumida, nenhum superior foi destituído.

Nenhum Comissário Apostólico foi nomeado para assumir a Arquidiocese de Los Angeles quando ela faliu devido aos pagamentos multimilionários de dólares às vítimas de abusos.

Ainda assim, agora, depois que alguns padres dos FIs, que não gostam da decisão tomada por toda a congregação, por amplo consenso, reclamaram que estão sendo forçados a sentir que devem celebrar a Missa Tradicional, embora sejam perfeitamente livres para fazer o contrário, qual é a reação do Vaticano? Intervir com uma arma nuclear.

Considere as seguintes medidas disciplinares que só podem ser descritas como perseguição imoral e injusta e que foram tomadas até a presente data.

1) Os superiores devidamente eleitos dos FIs, incluindo o fundador e Superior Geral Padre Stephano Maria Manelli, foram sumariamente destituídos e substituídos por um Comissário nomeado pelo Vaticano, Padre Fidenzio Volpi.

2) Dizem que o velho padre Manelli, de 80 anos de idade, foi colocado efetivamente sob prisão domiciliar, tendo sido proibido de receber visitantes ou sair para encontrar qualquer pessoa.

3) Em contradição direta não somente com a lei natural e divina, mas também com a lei positiva da Igreja, conforme expresso no Summorum Pontificum, o padre Volpi proibiu a celebração da Missa Tradicional pelos membros dos FIs.

4) Os recursos temporais dos FIs foram confiscados pelo padre Volpi.

5) O padre Volpi fechou o seminário/casa de estudos até segunda ordem.

6) Aqueles no curso de estudo, se e quando o padre Volpi decidir que podem retornar aos seus estudos, serão enviados para instituições específicas não afiliadas aos FIs. A Casa Mariana, [editora] vinculada à casa de estudos, recebeu ordem do padre Volpi para fechar.

7) O padre Volpi cancelou as ordenações para o diaconato e sacerdócio marcadas para este ano.

8) Uma vez que as ordenações tiverem permissão para se realizarem, o padre Volpi ordenou que todos os candidatos às Ordens que atualmente estejam em formação devem subscrever pessoalmente uma aceitação formal:

a. do Novus Ordo como uma autêntica expressão da tradição litúrgica da Igreja e, portanto, da tradição franciscana (sem prejuízo daquilo que é permitido pelo Motu Proprio Summorum Pontificum, se a proibição ilegal à Missa Tradicional atualmente imposta pelo padre Volpi for revogada), e

b. dos documentos do Concílio Vaticano Segundo, em conformidade com a autoridade que lhes for conferida pelo Magistério.

9) Qualquer candidato que não aceitar essas disposições será imediatamente demitido do Instituto.

10) Todo religioso no Instituto deve expressar clara e formalmente por escrito a sua disposição em continuar a sua jornada no Instituto dos Freis Franciscanos da Imaculada, de acordo com o carisma Mariano-Franciscano, no espírito de São Maximiliano M. Kolbe, de acordo com as diretrizes relativas à vida religiosa contidas nos documentos do Concílio Vaticano Segundo.

11) O padre Volpi suspendeu os grupos de Missão Imaculada Mediadora na Itália até que esses grupos façam uma declaração formal de adesão à nova autoridade, presumivelmente o padre Volpi.

12) O padre Volpi suspendeu a Ordem Terceira de São Francisco sem garantia de restabelecimento, mas somente uma declaração de que o padre Volpi irá nomear três religiosos a quem os membros desses grupos poderão consultar relativamente a quaisquer esclarecimentos.

13) O padre Volpi suspendeu a distribuição ao público das publicações da “Casa Mariana Editrice”, que inclui muitos livros e artigos simpáticos a um ponto de vista Católico Tradicional moderado sobre a liturgia, teologia e o Vaticano II.[4]

Esta lista é de tirar o fôlego. Quando os padres e bispos facilitaram o abuso de crianças pequenas, por acaso as propriedades de uma única diocese foram confiscadas? Após inúmeros relatórios de encorajamento e até mesmo exaltação de homossexualidade nos seminários (Veja livro Good Bye Good Men de Michael Rose, por exemplo), por acaso quaisquer dos seminários criminosos foram fechados? Alguma ordenação foi cancelada para garantir que os candidatos não eram pedófilos? Por acaso Hans Küng ou qualquer um do tipo dele foi proibido de distribuir livros questionando os ensinamentos perenes da Igreja, como, por exemplo, a ressurreição física de Nosso Senhor?

Obviamente, a resposta a essas perguntas é um inequívoco não. Ainda assim, um instituto religioso está sendo submetido à perseguição mais severa simplesmente por reverenciar a Tradição Católica.

Quando o ultraje dessa perseguição tão injusta foi contestado na imprensa italiana, o padre Volpi respondeu por carta defendendo a sua dura perseguição. Que crime ele invoca para justificar essas medidas extremas? Alguns “religiosos” não especificados reclamaram “de uma tendência cripto-lefebvriana e, definitivamente, tradicionalista” na comunidade dos FIs, e o padre Manelli “já tinha evitado o diálogo construtivo com” esses religiosos não especificados. Há também uma reclamação ex post facto sobre uma tentativa não especificada e sem comprovação de reter alguns bens após a instalação do ditador comissário. (Obviamente, mesmo se alguma coisa acontecesse após a tomada de controle, logicamente, isso não pode ser um motivo para a tomada de controle.)

Então, aí você chegou ao ponto que eu queria! Os únicos crimes na Igreja que produzem diversas medidas criminais graves hoje em dia são ser “cripto-lefebvriano” (seja lá o que isso significa), ter uma tendência “tradicionalista” e recusar o engajamento em um “diálogo construtivo” com inferiores que reclamam sobre as decisões legítimas de suas congregações. O direito penal da Igreja nos últimos cinquenta anos é efetivamente reduzido a “Não te aproximarás de um Tradicionalista.” Você pode abusar de crianças, escrever e pregar heresias, encobrir crimes seculares e então você é promovido e continua sendo um padre em situação canônica regular. Mas ouse ter uma “tendência tradicionalista” e você estará acabado. Isso é tão insano que parece irreal, mas é real — uma perseguição real dos inocentes pelas autoridades na Igreja que alegam agir sob a aprovação expressa da “mais alta autoridade,” o Papa Francisco.

É interessante observar que todas as ações do padre Volpi desde a sua nomeação correspondem exatamente àquilo que o Arcebispo Lefebvre previu que iria acontecer se ele concordasse com a exigência do Papa Paulo VI, em 1974, de entregar toda a FSSPX, seu seminário em Ecône, e seus priorados a um Comissário nomeado por Paulo VI. Dom Lefebvre recusou alegando que o seminário seria fechado, os seminaristas seriam forçados a entrar nos seminários [modernistas] após a nova orientação, a Missa seria suspensa e os fiéis que dependiam da FSSPX seriam abandonados.

Mais uma vez a previsão do Arcebispo se justificou. O que aconteceu aos FIs teria acontecido à FSSPX em 1974 se o Arcebispo tivesse vacilado. Onde a Missa Tradicional estaria hoje se isso tivesse acontecido? Provavelmente, não haveria nenhum indulto em 1984, nenhum Indulto em 1988, nenhum Summorum Pontificum, nenhuma Fraternidade de São Pedro (uma vez que não haveria nenhuma FSSPX de onde eles pudessem sair), etc.

O que os FIs devem fazer? O que qualquer pessoa sob opressão devido a perseguição injusta pode fazer, especialmente, quando a honra de Deus ou a nossa própria salvação ou a salvação de outra pessoa assim o exigir? Respeitosamente recusar-se a cumprir ordens injustas e ilícitas. Os FIs deveriam todos recusar essa exigência ultrajante de um juramento de obediência à Missa Nova e ao Vaticano II. Por acaso Hans Küng alguma vez foi forçado a fazer um juramento de fidelidade a Trento ou ao Vaticano I sob pena de perder suas faculdades? Nunca! Nenhum católico é obrigado a fazer um juramento ao Vaticano II e à Missa Nova para obter a salvação. Por outro lado, todo santo diante dessas anomalias teria se perdido. Os FIs deveriam simplesmente continuar o seu trabalho, que foi aprovado por ninguém menos que o Papa João Paulo II. Os FIs são uma congregação aprovada na Igreja. O golpe que se abateu sobre eles é injusto e ilegal, uma vez que não cometeram crime algum. Continuar vivendo o combate da Imaculada e celebrando a Missa Tradicional, confiando na autoridade do Papa Bento XVI em Summorum Pontificum quando este afirma:

Em Missas celebradas sem o povo, qualquer sacerdote de Rito Latino, seja secular ou religioso, pode usar o Missal Romano publicado pelo Beato João XXIII em 1962 ….Com a devida observância da lei, inclusive os fiéis Cristãos que espontaneamente o solicitem, podem ser admitidos à Santa Missa mencionada no art. 2 (Artigos 2 e 4).

Se Comunidades ou Institutos de Vida Consagrada ou Sociedades de Vida Apostólica de direito pontifício ou diocesano desejam ter uma celebração da Santa Missa segundo a edição do Missal Romano promulgado em 1962 em uma celebração conventual ou comunitária em seus próprios oratórios, isto está permitido. Se uma comunidade individual ou todo o Instituto ou Sociedade desejar ter tais celebrações frequente ou habitualmente ou permanentemente, o assunto deve ser decidido pelos Superiores Maiores segundo as normas da lei e das leis e estatutos particulares. (Artigo 3)

Mesmo se os FIs tivessem decidido adotar a Missa Tradicional em caráter permanente, eles tinham a permissão para fazê-lo se a decisão fosse tomada por seus superiores de acordo com a sua lei interna de governo. Eles somente decidiram facilitar e encorajar, mas não adotar a Missa Tradicional em caráter permanente.

Os FIs não cometeram crime algum que justificasse o término de seus estudos e formação religiosa. Eles são um instituto aprovado pela mais alta autoridade da Igreja, e, uma vez que essa aprovação é concedida, ela não pode ser revogada por uma justa causa. Ser um “cripto-lefebvriano” ou ter uma “tendência tradicional” equivale a uma acusação inventada do nada, uma técnica digna de um grande número dos regimes seculares totalitários que dominaram o século passado. Todas essas penalidades são nulas segundo a lei natural, divina e até mesmo eclesiástica. Como Santo Tomas, citando Santo Agostinho, nos recorda, uma lei injusta não é lei de maneira alguma, mas sim um ato de violência. Continuem os seus estudos e formação como vocês sempre fizeram. Aquilo que era perfeitamente legal no ano passado deve ser legal hoje em dia.

Talvez os bens temporais dos FIs estejam perdidos para sempre para o padre Volpi, mas talvez este seja um sacrifício que a Imaculada esteja pedindo de seus filhos para provar a sua fidelidade ao seu combate contra a Maçonaria e o Modernismo. Afinal de contas, eles são Franciscanos! Eles devem estar dispostos a perder os bens e confiar na generosidade dos fiéis para apoiá-los no combate, mas não devem deixar de combater. Pergunte-se, será que a mãe de um dos Santos Inocentes teria pecado se ela tivesse evitado a ordem injusta de Herodes e tirado seu filho de Jerusalém? Seria ela culpada de desobediência? Obviamente que não. Ela não teria qualquer obrigação de cumprir a sua perseguição injusta. Nós ordens, grupos, associações e católicos ordinários tradicionais, temos o dever de vir em auxílio dos FIs. Se eles se mostrarem dispostos a continuar o combate da Imaculada usando as armas invencíveis do passado, temos o dever de auxiliá-los no âmbito temporal. Se os FIs tomarem uma posição a favor da Imaculada, da Igreja e da Missa de Sempre devemos estar prontos na medida de nossas possibilidades a auxiliá-los no âmbito temporal.

Essa perseguição aos FIs pode sinalizar uma batalha final, uma ofensiva final do Modernismo contra a Igreja a partir de dentro. A Irmã Lúcia nos disse décadas atrás que o demônio estava disposto a uma batalha decisiva contra as forças da Imaculada. Ela também advertiu que os religiosos e religiosas estavam no centro dessa batalha. Talvez esse pontificado marque as etapas mais difíceis dessa batalha final pela alma da Igreja. Se tiver que ser assim, devemos estar dispostos a sacrificar tudo pela Imaculada, por seu Divino Filho e seu Corpo Místico.

As palavras de Winston Churchill à ilha sitiada da Grã Bretanha, em setembro de 1940, poderiam se aplicar com analogia adequada à posição na Igreja no momento. Que os membros dos FIs e todos envolvidos na causa da Tradição prestem atenção a este chamado de cada um a tomar sua posição, chamado esse que não procede de um primeiro ministro, mas da própria Imaculada:

Portanto, todos os homens e mulheres se prepararão para cumprir o seu dever, seja lá qual for, com orgulho e zelo especial. Nossas frotas e flotilhas são muito poderosas e numerosas; a nossa Força Aérea chegou ao máximo de força que poderia ter alcançado e está consciente de sua superioridade comprovada, não certamente em números, mas em homens e máquinas. Nossas costas estão bem fortificadas e firmemente guardadas por homens, e atrás delas, prontas ao ataque dos invasores, temos um Exército móvel muito maior e melhor equipado do que jamais tivemos antes. Além disso, temos mais de um milhão e meio de homens da Guarda de Defesa Interna, que são tantos soldados do Exército Regular quanto Guardas Granadeiros, e que estão determinados a lutar por cada centímetro do solo em cada bairro e em cada rua. É com confiança devota, mas também com confiança segura, que digo: Que Deus defenda os Justos.

Que os Santos Inocentes roguem por nós e, em particular, intercedam para a solução do caso dos Franciscanos da Imaculada perseguidos nesta época de Natal!

* * *

[1] Ao falar usurpar, não quero dizer que os homens que detêm os mais altos cargos na Igreja não ocupam esses cargos, mas sim que tem havido uma usurpação neles do espírito cristão por parte do Modernismo.

[2] Para ver o texto de uma das ocasiões em que essa declaração foi feita, veja, http://www.miamiarch.org/ip.asp?op=Article_13102810144642

[3] http://www.dici.org/en/documents/interview-with-bispo-bernard-fellay-menzingen-november-2013/

[4] Esta lista foi compilada a partir das declarações e comentário disponíveis em http://www.rorate-caeli.blogspot.com/2013/12/for-record-situation-with-franciscans.html

14 dezembro, 2013

Roberto de Mattei no Brasil e o fim do tabu sobre o Vaticano II.

Apresentamos a seguir algumas anotações das conferências proferidas pelo Professor Roberto de Mattei em sua jornada por algumas capitais brasileiras.

ALGUNS TÓPICOS DAS CONFERÊNCIAS

“Os documentos não são tudo!”

“E hoje ainda não saímos da Revolução Francesa. Diria ainda mais: me parece que a essência do Vaticano II está precisamente na tentativa de conciliar a Igreja com o mundo moderno nascido na Revolução Francesa, o mundo que a Igreja sempre havia combatido e que hoje deixou de combater. A herança mais pesada que o Concílio nos deixou é, na minha opinião, a perda do espírito militante na Igreja.”

“A Tradição não é apenas a regra fidei da Igreja; é também o fundamento da sociedade. É o critério de juízo sobre a História dessa mesma sociedade.”

“Não se pode sujeitar a verdade divina e imutável aos fatos ou aos eventos, por mais avassaladores e epocais que estes sejam. É a verdade que deve julgar os fatos e a História. A História, por seu lado, serve para nos recordar que o que aconteceu ontem pode se repetir hoje. Que ontem, como hoje e amanhã, nos tempos de crises e dificuldades há sempre uma, e só uma, regra da fé. O critério para discernir o que é católico e o que não é: a fidelidade à Tradição, que é a fidelidade às verdades entregues por Cristo à sua Igreja com essas palavras: ‘O Céu e a Terra passarão, as minhas palavras não passarão’”.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Reforma Litúrgica de 1969

“Eu não vejo bem como se pode aplicar o conceito de hermenêutica da continuidade tendo em vista que a reforma litúrgica foi uma descontinuidade com a tradição litúrgica da Igreja.”

“A essência histórica do Concílio Vaticano II é uma essência revolucionária.”

Sobre a Hermenêutica da Continuidade

“Queria chamar a atenção para o último discurso que o papa Bento XVI fez no dia 14 de fevereiro, alguns dias depois da sua renúncia ao clero romano. Esse discurso é a confissão do fracasso da hermenêutica da continuidade. Nesse discurso Bento XVI admite a crise na Igreja, mas afirma que a causa é a substituição de um Concílio real pelo Concílio virtual (da mídia). O concílio virtual teria ganhado. O problema é que o Concílio virtual é uma realidade tão real quanto o Concílio propriamente com união dos bispos. E isso Sua Santidade parece não reconhecer. Penso que uma das causas da sua renúncia é esse fracasso da hermenêutica da continuidade, portanto, uma consequência desse fracasso.”

“Não me interesso pela questão hermenêutica [de continuidade ou ruptura]; interesso-me pela ‘hermenêutica dos fatos’. Não sigo a hermenêutica da continuidade e não creio que o Papa Francisco a siga”.

Sobre o Papa Francisco

“O Papa Francisco está envolto por uma aura de mistério e o primeiro mistério é a renúncia do papa Bento XVI; o segundo mistério é o que aconteceu dentro do Conclave. Tem-se um pouco a impressão que aconteceu algo de misterioso no Conclave.”

“O problema não é ele não ser romano [de nascimento], mas não ter o espírito romano. O Papa Bento XVI não seguia a escola romana [de teologia], era de outra escola. Questiono, sem ironia, a que escola o Papa Francisco pertence, se é que ele pertence a alguma.”.

Sobre a reforma da cúria

“A reforma de Francisco é diferente da de Paulo VI. Paulo VI substituía conservadores por progressistas. Francisco não quer nem conservadores nem progressistas”.

Sobre os frutos positivos do Vaticano II

“Não me parece interessante saber se há elementos positivos ou negativos no Concílio, porque como o juízo sobre o Concilio é globalmente negativo, se houver elementos positivos, isso o torna mais perigoso. Ressalvo que este se trata de um juízo histórico e global sobre o Concílio.”

Sobre o documento Sacrossantum Concilium

“Esse documento já abre uma brecha, porque confere às Conferencias Episcopais e, em alguns casos, a possibilidade de mudar a língua latina pelo vernáculo. O que aconteceu depois foi certamente muito além do que está no documento, mas penso que as ideias têm uma lógica férrea e já a Sacrossantum Concilium contém alguns efeitos que veríamos depois. Do ponto de vista teológico, o momento de descontinuidade é a promulgação do documento Missale Romano, em 1969, introduzindo completamente a Missa Nova, mas do ponto de vista histórico e psicológico, o momento de ruptura ocorre anos 1965 e 1966, quando, em alguns países, como a Itália, se introduz a missa ordinária em vernáculo.”

A caixa de comentários está aberta aos leitores que desejem acrescentar outras notas sobre aspectos marcantes das conferências.

* * *

CONFERÊNCIA NO RIO DE JANEIRO:

PERGUNTAS E RESPOSTAS NO RIO DE JANEIRO:

Os organizadores estimam que a última conferência, na cidade de São Paulo, contou coma presença de 500 pessoas, contando inclusive com a participação de diversos clérigos devidamente identificados. Roberto de Mattei destacou a sua surpresa e contentamento pela juventude católica bem formada e pujante que encontrou no Brasil. 

10 dezembro, 2013

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: uma perspectiva histórica sobre o Concílio Vaticano II.

“Sem o Vaticano II não conseguimos compreender o Papa Francisco; não conseguimos compreender a crise atual na Igreja. Essa crise existe, está diante dos nossos olhos e não tem precedentes na História; ela é uma crise que a todos nos diz respeito como homens e como cristãos.”

Por Fratres in Unum.com –  Realizou-se na tarde do último domingo, dia 8, no Rio de Janeiro, a tão aguardada conferência do Professor Roberto de Mattei. O salão de conferências do Hotel Flórida ficou repleto e os organizadores estimam que cerca de duzentas pessoas estiveram presentes para prestigiar o renomado historiador e professor titular de História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma.

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: evento contou com cerca de 200 assistentes.

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: evento contou com cerca de 200 assistentes.

Após a apresentação dos componentes da mesa pelo Sr. Mario Dias de Oliveira, Presidente do Instituto Vera Fides, teve inicio pontualmente às 16:30h a palestra do Prof. Roberto de Mattei, que foi proferida em língua portuguesa, para admiração dos presentes. Durante mais de uma hora, Roberto de Mattei falou interruptamente com suma clareza e objetividade sobre o evento mais marcante para a Igreja Católica no último século.

Inicialmente, de Mattei abordou a finalidade dos Concílios em geral — confirmar uma doutrina ou corrigir um erro, ainda que eles não fossem privados da dimensão pastoral. Ao contrário dos anteriores, o Concílio Vaticano II [1] preferiu expressar-se da maneira “pastoral”, adaptando sua linguagem ao homem moderno, priorizando, assim, esta dimensão em relação àquela doutrinal. Consequentemente, o Concílio deixou de condenar problemas gravíssimos, como, por exemplo, o comunismo. João XXIII já preconizava essa postura na abertura da Assembléia: “Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações”.

Sucesso de público: cadeiras tiveram que ser adicionadas e o espaço ficou pequeno.

Sucesso de público: cadeiras tiveram que ser adicionadas e o espaço ficou pequeno.

De Mattei, então, discorreu sobre o esforço de padres conciliares conservadores a fim de pedir ao Santo Padre que o Concílio condenasse explicitamente o Comunismo. Essa iniciativa contou com o trabalho de um pequeno grupo constituído especialmente por Dom Antonio de Castro Mayer, bispo de Campos, Dom Geraldo de Proença Sigaud, bispo de Diamantina e pelo Prof. Plínio Correa de Oliveira, que consultaram centenas de Padres Conciliares sobre a oportunidade do Concílio se pronunciar contra a ideologia que dizimou milhões de homens no século passado. A essa iniciativa somou-se outra correlata, que pedia a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Ambas não lograram êxito. De Mattei discorreu também sobre as evidências de um acordo (o Pacto de Metz) [2] entre Roma e a Igreja Ortodoxa, segundo o qual o Concílio se absteria de condenar o comunismo em troca da participação de observadores do Patriarcado de Moscou.

Em seguida, foram abordadas questões como, por exemplo, a infiltração do comunismo nas estruturas a Igreja e o apoio de prelados vermelhos, como Dom Helder Câmara.

O professor explanou sobre o jogo de forças entre os dois grupos principais: progressistas – sobretudo de língua alemã — e conservadores, e o que ele chamou de Terceiro Partido, um grupo de Padres Conciliares sem muitas pretensões ideológicas e que se deixavam guiar pelo lobby dos dois anteriores.

Como ponto de destaque, o professor de Mattei salientou que o Concílio Vaticano II não pode ser visto apenas como aquilo que está escrito em seus documentos, mas sim como um evento global, que abrange diversos aspectos, incluindo suas consequências. Para exemplificar, ele falou da Revolução Francesa, comentando que “não é preciso que se leia ou se tenha conhecimento dos estatutos e documentos que a ensejaram; todos sabem o que a Revolução Francesa realmente significou, a julgar por seus frutos.” Pois bem, assim é o Concílio. Não se pode restringi-lo apenas aos seus documentos.

O professor deixou claro que sua análise do Concílio era sob o ponto de vista histórico, e que a ele não competia analisar o valor intrínseco de seus documentos, que deveriam ser analisados por teólogos e pela própria Igreja, em caráter dogmático.

Como uma das consequências mais prejudiciais do Vaticano II, o professor citou a substituição do conceito de “Igreja Militante” pelo de “Igreja Peregrina”. No início da palestra, citando o Padre O’Malley, ele comentou sobre o estilo dos documentos conciliares, que seria uma revolução na linguagem dos documentos da Igreja. A omissão ou limitação de referências ao Inferno, mesmo sem ser uma heresia, pode levar a caminhos graves, ou seja, a ideia de que ele não existe porque não se fala dele.

Uma longa fila formou-se para o autógrafo.

Uma longa fila formou-se para o autógrafo.

Após um pequeno intervalo, houve uma sessão de perguntas e respostas. O professor de Mattei respondeu a todas com muita clareza e simplicidade, ainda que fossem polêmicas ou delicadas. Uma das perguntas versava sobre a declaração do então Papa Bento XVI ao clero de Roma, a qual reclamava a existência de um Concílio Real e um Concílio da Mídia. O professor de Mattei respondeu que até se pode falar de um Concílio da Mídia [inventado pelos meios de comunicação], mas que este está também incluído dentro do único Concílio – o Concílio Real -, que deve ser analisado como um evento global.

A pedido do próprio Prof. de Mattei, as respostas foram dadas em italiano para melhor clareza e gentilmente traduzidas para o português pelo Dr. Mario Navarro da Costa, diretor de campanhas do IPCO, que atuou como intérprete para as perguntas e respostas.

O evento marcou ainda o lançamento do livro “Apologia da Tradição, um post-scriptum do livro Concílio Vaticano II – Uma História Nunca Escrita”, da Editora Ambientes & Costumes. Ao final dessa sessão, seis participantes foram sorteados com livros do autor, que foram entregues por cada um dos organizadores que compuseram a mesa.

Ao final, uma longa fila se formou para que todos pudessem ter seus livros autografados e cumprimentar pessoalmente o ilustre palestrante. Enquanto isso, os demais participantes puderam desfrutar de um café oferecido pelos organizadores e, assim, trocar ideias sobre a excelente conferência.

Da esquerda para a direita: Sra. Teresa Maria Freixinho (Fratres in Unum), Sr. Rodolpho Loreto (Instituto Vera Fides), S.A.I.R. Dom Antônio de Orleans e Bragança, Sr. Márcio Coutinho (Ação Jovem pela Terra de Santa Cruz) e o Sr. Mario Dias de Oliveira (Presidente do Instituto Vera Fides e Mestre de Cerimônias do Evento).

Da esquerda para a direita: Sra. Teresa Maria Freixinho (Fratres in Unum), Sr. Rodolpho Loreto (Instituto Vera Fides), S.A.I.R. Dom Antônio de Orleans e Bragança, Sr. Márcio Coutinho (Ação Jovem pela Terra de Santa Cruz) e o Sr. Mario Dias de Oliveira (Presidente do Instituto Vera Fides e Mestre de Cerimônias do Evento).

Agradecemos a todos os leitores do Fratres in Unum que participaram do evento no Rio de Janeiro e deixamos a caixa de comentários aberta a estes e também àqueles que estiveram ontem na palestra no Recife, para nos relatem suas impressões. Lembrando ainda que, conforme noticiamos anteriormente, hoje a palestra será em Brasília e na quinta-feira em São Paulo.

* * *


[1] O Concílio Vaticano II se realizou em Roma, de 11 de outubro de 1962 a 8 de dezembro de 1965 e contou a participação de 2.500 Padres Conciliares sob a orientação dos papas João XXIII e Paulo VI. Ele foi o vigésimo primeiro Concílio da Igreja.

[2] Este acordo se deu na cidade francesa de Metz, em agosto de 1962, e seus negociadores foram o Cardeal Tisserant, representando o Vaticano, e o arcebispo ortodoxo Nicodemo, que, conforme comprovado por documentação dos arquivos de Moscou, era um agente do KGB.

6 dezembro, 2013

Entrevista de Dom Bernard Fellay, superior da FSSPX, sobre o Papa Francisco.

Mons. Fellay sobre Francisco: «Este não é um homem de doutrina»

Traduzido do original francês por Carlos Wolkartt – Blog Renitência

Esta entrevista foi realizada em vídeo pelo site dici.org, no qual também está disponível a gravação em áudio. Apresentamos a seguir a transcrição completa, onde o estilo oral foi mantido.
A chegada de um novo Papa
Mons. Fellay, Superior da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, em entrevista ao portal DICI (novembro de 2013).

Mons. Fellay, Superior da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, em entrevista ao portal DICI (novembro de 2013).

A chegada de um novo Papa é como recomeçar a contar do zero. Especialmente com um Papa que se distingue de seus predecessores por sua forma de atuar, falar e intervir, com grande contraste. Isso pode fazer com que esqueçamos o pontificado anterior, e é basicamente isso que está acontecendo. Pelo menos em relação a certas linhas conservadoras ou reformistas marcadas pelo Papa Bento XVI. É certo que as primeiras intervenções do Papa causaram muita confusão e inclusive quase contradição, em todo caso, uma oposição em relação a essas linhas reformistas.

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29 outubro, 2013

Cardeal Pell responde a Dom Fellay. Sobre Vaticano II: “Você não tem que aceitar todo ‘pingo’ ou ‘til’ dele”.

Da entrevista concedida pelo Cardeal Pell, arcebispo de Sydney e um dos oito membro do conselho de Cardeais do Papa, a Gerard O’Connell, do La Stampa:

Cardeal George Pell.

Cardeal George Pell.

Q: Dom Fellay denunciou o Papa Francisco como “um genuíno modernista” e acusou que, enquanto a Igreja estava “um desastre” antes de sua eleição, ele está tornando-a “10.000 vezes pior”. O que o senhor diz disso?

Para responder educadamente, creio que isso seja uma absoluta besteira. Francisco afirmou ser um leal filho da Igreja, e sua história o demonstra. Ele é muito, muito preocupado com a vida do dia-a-dia do povo e com aqueles que sofrem, aqueles em dificuldades financeiras e aqueles em situações difíceis. Ele é um expoente completamente fiel dos ensinamentos de Cristo e da tradição da Igreja.

Q. Então as pessoas como Fellay têm interpretado mal o Papa Francisco? 

A. Sim, uma má interpretação gigantesca! Na realidade, os lefebvristas — muitos deles — têm interpretado mal a situação por décadas. Para grande crédito de Bento XVI, ele tentou se reconciliar com eles, mas eles não responderam. Agora, a Igreja hoje aceita o Concílio Vaticano II. Você não tem que aceitar todo “pingo” ou “til” dele, mas ele faz parte da vida da Igreja atualmente, não há meia-volta nisso.

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com 

25 outubro, 2013

Dom Fellay: “Damos graças a Deus por havermos sido preservados de qualquer gênero de acordo no ano passado”.

Traduzido do original francês por Carlos Wolkartt

Durante o congresso da Angelus Press, realizado nos dias 11 e 12 de outubro de 2013, Mons. Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, deu uma conferência e um sermão dominical. Nesta ocasião, falou da situação da Igreja e do Papa Francisco. No portal Catholic Family News, John Vennari fez um resumo destas interversões sob o seguinte título: “Mons. Fellay fala do Papa Francisco: «Temos diante de nós um verdadeiro modernista!»”. Apresentamos a seguir a tradução em português desta síntese da conferência de 12 de outubro, cuja gravação integral está disponível em inglês no site DICI.

Mgr-FellayMons. Bernard Fellay alertou, em 12 de outubro: “A situação da Igreja é uma verdadeira catástrofe, e o atual Papa faz que seu estado seja dez mil vezes pior”. Declarou isto em uma alocução durante o Congresso da Angelus Press, que aconteceu nos dias 11 e 12 de outubro passado, em Kansas City.

Mons. Fellay, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, deu uma longa conferência sábado à tarde, dedicada ao Terceiro Segredo de Fátima e à profecia que parece encontrar-se nele, relativa a um castigo material e uma grande crise na Igreja.

Nosso sumário retomará alguns dos aspectos mais importantes de sua conferência de sábado, dia 12.

Monsenhor Fellay citou detalhadamente a Irmã Lúcia, os que leram o Terceiro Segredo e os que o conheceram. Observou que Irmã Lúcia havia dito que se quiséssemos conhecer o conteúdo do Terceiro Segredo, bastava ler os capítulos 8 a 13 do Apocalipse.

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13 outubro, 2013

Para debate.

Dois artigos do Dr. Arnaldo Xavier da Silveira:

SENTIR COM A IGREJA É SENTIR COM O VATICANO II ?

DA QUALIFICAÇÃO TEOLÓGICA EXTRÍNSECA DO VATICANO II

A caixa de comentários está aberta ao debate sadio e respeitoso.

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5 agosto, 2013

Cardeal Joseph Ratzinger: “Devemos mencionar os perigos que, nas últimas décadas, infelizmente, não permaneceram apenas como fantasias de tradicionalistas inimigos da reforma”.

“Parece-me muito importante que o Catecismo, ao mencionar os limites do poder da suprema autoridade da Igreja acerca da reforma, chame a atenção sobre qual é a essência do primado, assim como é enfatizado pelos Concílios Vaticano I e II: o papa não é um monarca absoluto cuja vontade é lei, mas sim o guardião da autêntica Tradição e, por isso, o primeiro fiador da obediência. Ele não pode fazer o que quiser, e justamente por isso pode se opor àqueles que pretendem fazer o que querem”.

A liturgia entre reformistas radicais e intransigentes

IHU – Foi publicado na Itália o livro de Alcuin Reid Lo sviluppo organico della liturgia. I principi della riforma liturgica e il loro rapporto con il Movimento liturgico del XX secolo prima del Concilio Vaticano II [O desenvolvimento orgânico da liturgia. Os princípios da reforma litúrgica e a sua relação com o Movimento Litúrgico do século XX antes do Concílio Vaticano II] (Cantagalli, 432 páginas). O livro tem um prefácio do então cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, que aqui publicamos.

O artigo foi publicado no sítio Vatican Insider, 26-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nas últimas décadas, a questão da correta celebração da liturgia tornou-se cada vez mais um dos pontos centrais da controvérsia em torno do Concílio Vaticano II, ou seja, de como ele deve ser avaliado e acolhido na vida da Igreja.

Há os estrênuos defensores da reforma, para os quais é uma culpa intolerável que, sob certas condições, tenha sido readmitida a celebração da Santa Eucaristia segundo a última edição do Missal antes do Concílio, a de 1962. Ao mesmo tempo, porém, a liturgia é considerada como “semper reformanda”, de modo que, no fim, é a “comunidade” individual que faz a sua “própria” liturgia, na qual ela mesma se expressa. Um Liturgisches Kompendium [compêndio litúrgico] protestante (editado por Christian Grethlein e Günter Ruddat, Göttingen, 2003) apresentou recentemente o culto como “projeto de reforma” (pp. 13-41), refletindo também o modo de pensar de muitos liturgistas católicos . Por outro lado, há também os críticos ferozes da reforma litúrgica, que não só criticam a sua aplicação prática, mas também as suas bases conciliares. Estes veem a salvação somente na rejeição total da reforma.

Entre esses dois grupos, os reformistas radicais e os seus adversários intransigentes, muitas vezes se perde a voz daqueles que consideram a liturgia como algo vivo, algo que cresce e se renova no seu ser recebida e no seu atuar-se. Estes últimos, no entanto, com base na mesma lógica, também insistem no fato de que o crescimento só é possível se for preservada a identidade da liturgia e ressaltam que um desenvolvimento adequado só é possível prestando atenção às leis que, do interior, sustentam esse “organismo”. Como um jardineiro acompanha uma planta durante o seu crescimento com a devida atenção às suas energias vitais e às suas leis, assim também a Igreja deve acompanhar respeitosamente o caminho da liturgia através dos tempos, distinguindo o que ajuda e cura, daquilo que violenta e destrói.

Se é assim, então devemos tentar definir qual é a estrutura interna de um rito, bem como as suas leis vitais, de modo a encontrar os caminhos certos para preservar a sua energia vital na mudança dos tempos para incrementá-la e renová-la. O livro do padre Alcuin Reid se coloca nesta linha. Percorrendo a história do Rito Romano (missa e breviário), desde as origens até as vésperas do Concílio Vaticano II, ele tenta estabelecer quais são os princípios do seu desenvolvimento litúrgico, obtendo, assim, da história, com os seus altos e baixos, os critérios sobre os quais toda reforma deve se basear.

O livro está dividido em três partes. A primeira, muito breve, analisa a história da reforma do Rito Romano desde as suas origens no fim do século XIX. A segunda parte é dedicada ao movimento litúrgico até 1948. A terceiro – de longe a mais extensa – trata da reforma litúrgica sob Pio XII até as vésperas do Concílio Vaticano II. Esta parte se revela muito útil, justamente porque tal fase da reforma litúrgica não é mais muito lembrada, apesar de que justamente nela – assim como na história do movimento litúrgico, evidentemente – se encontram todas as questões acerca das modalidades corretas para uma reformas, fazendo com que seja possível adquirir também critérios de julgamento.

A decisão do autor de se deter no limiar do Concílio Vaticano II é muito sábia. Ele evita, assim, entrar na controvérsia ligada à interpretação e à recepção do Concílio, ilustrando o momento histórico e a estrutura das várias tendências, o que é determinante para a questão acerca dos critérios da reforma.

No fim do seu livro, o autor elenca os princípios para uma correta reforma: ela deve ser igualmente aberta ao desenvolvimento e à continuidade com a Tradição; deve saber-se ligada a uma tradição litúrgica objetiva e fazer com que a continuidade substancial seja salvaguardada.

O autor, depois, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica, sublinha que “mesmo a suprema autoridade da Igreja não deve modificar a liturgia arbitrariamente, mas somente em obediência à fé e com respeito religioso pelo mistério da liturgia” (CC, n. 1.125). Como critérios adicionais encontramos, enfim, a legitimidade das tradições litúrgicas locais e o interesse pela eficácia pastoral.

Eu gostaria de ressaltar ainda, do meu ponto de vista pessoal, alguns dos critérios já brevemente indicados da renovação litúrgica. Vou começar com os dois últimos critérios fundamentais. Parece-me muito importante que o Catecismo, ao mencionar os limites do poder da suprema autoridade da Igreja acerca da reforma, chame a atenção sobre qual é a essência do primado, assim como é enfatizado pelos Concílios Vaticano I e II: o papa não é um monarca absoluto cuja vontade é lei, mas sim o guardião da autêntica Tradição e, por isso, o primeiro fiador da obediência. Ele não pode fazer o que quiser, e justamente por isso pode se opor àqueles que pretendem fazer o que querem.

A lei à qual deve se ater não é o agir ad libitum, mas sim a obediência da fé. Razão pela qual, com relação à liturgia, ele tem a tarefa de um jardineiro e não de um técnico que constrói máquinas novas e joga fora as velhas. O “rito”, ou seja, a forma de celebração e de oração que amadurece na fé e na vida da Igreja, é forma condensada da Tradição viva, na qual a esfera do rito expressa o conjunto da sua fé e da sua oração, tornando assim experimentável, ao mesmo tempo, a comunhão entre as gerações, a comunhão com aqueles que rezam antes de nós e depois de nós. Assim, o rito é como um dom feito à Igreja, uma forma viva de parádosis.

É importante, a esse respeito, interpretar corretamente a “continuidade substancial”. O autor nos adverte expressamente com relação ao caminho equivocado no qual podemos ser conduzidos por uma teologia sacramental neoescolástica separado da forma viva da liturgia. Partindo dela, se poderia reduzir a “substância” à matéria e à forma do sacramento e dizer: o pão e o vinho são a matéria do sacramento, as palavras da instituição são a sua forma; somente essas duas coisas são necessárias, todo o resto pode até mudar. Sobre esse ponto, modernistas e tradicionalistas se encontram de acordo. Basta que haja a matéria e que sejam pronunciadas as palavras da instituição: todo o resto é “à vontade”. Infelizmente muitos sacerdotes hoje agem com base nesse esquema, e até as teorias de muitos liturgistas, infortunadamente, se movem nessa direção.

Eles querem superar o rito como algo rígido e constroem produtos da sua imaginação, considerada pastoral, em torno desse núcleo residual, que é, assim, relegado ao reino da magia, ou privado totalmente do seu significado. O movimento litúrgico tinha tentado superar esse reducionismo, produto de uma teologia sacramental abstrata, e nos ensinar a considerar a liturgia como o conjunto vivo da Tradição que se fez forma, que não pode ser rasgado em pequenos pedaços, mas que deve ser visto e vivido na sua totalidade viva.

Quem, como eu, na fase do movimento litúrgico às vésperas do Concílio Vaticano II, ficou impressionado com essa concepção só pode constatar com profunda dor a destruição daquilo que estava em seu coração.

Eu gostaria de comentar brevemente outras duas intuições que aparecem no livro do padre Alcuin Reid. O arqueologismo e o pragmatismo pastoral – este último, no entanto, é muitas vezes um racionalismo pastoral – são ambos incorretos. Poderiam ser descritos como um par de gêmeos profanos. Os liturgistas da primeira geração eram, em sua maioria, historiadores e, consequentemente, propensos ao arqueologismo.

Eles queriam desenterrar as formas mais antigas na sua pureza original; viam os livros litúrgicos em uso, com os seus ritos, como expressão de proliferações históricas, fruto de mal-entendidos e ignorância passados. Tentava-se reconstruir a mais antiga Liturgia romana e limpá-la de todos os acréscimos posteriores. Não era algo totalmente equivocado; mas a reforma litúrgica é, contudo, algo diferente de uma escavação arqueológica, e nem todos os desenvolvimentos de algo vivo devem seguir a lógica de um critério racionalista/historicista.

Essa é também a razão pela qual – como o autor observa com razão – na reforma litúrgica a última palavra não deve ser deixada aos especialistas. Especialistas e pastores têm, cada um, o seu próprio papel (assim como, na política, os técnicos e aqueles que são chamados a decidir representam dois níveis diferentes). Os conhecimentos dos estudiosos são importantes, mas não podem ser imediatamente transformados em decisões dos pastores, que têm a responsabilidade de ouvir os fiéis na implementação com inteligência junto com eles do que hoje ajuda a celebrar os Sacramentos com fé ou não.

Uma das debilidades da primeira fase da reforma depois do Concílio foi que quase somente os especialistas tinham voz no capítulo. Teria sido desejável uma maior autonomia por parte dos pastores. Porque, muitas vezes, obviamente, é impossível elevar o conhecimento histórico ao posto de nova norma litúrgica, esta “arqueologismo” se vinculou muito facilmente ao pragmatismo pastoral. Decidiu-se, em primeiro lugar, eliminar tudo o que não era reconhecido como original e, consequentemente, como “substancial”, para depois integrar a “escavação arqueológica” – quando ainda parecesse insuficiente – com o “ponto de vista pastoral”.

Mas o que é “pastoral”? Os julgamentos intelectualistas dos professores sobre essas questões eram muitas vezes determinados pelas suas considerações racionais e não levavam em conta o que realmente sustenta a vida dos fiéis. De modo que, hoje, após a vasta racionalização da liturgia na primeira fase da reforma, estamos novamente em busca de formas de solenidade, de atmosferas “místicas” e de uma certa sacralidade.

Mas uma vez que existem – necessariamente e cada vez mais evidentes – julgamentos largamente divergentes sobre o que é pastoralmente eficaz, o aspecto “pastoral” tornou-se uma fenda para a irrupção da “criatividade”, que dissolve a unidade da liturgia e nos coloca muitas vezes diante de uma deplorável banalidade. Com isso, não queremos dizer que a liturgia eucarística, assim como a liturgia da Palavra, não sejam muitas vezes celebradas a partir da fé, de modo respeitoso e “bonito”, no melhor sentido da palavra.

Mas, como estamos buscando os critérios da reforma, também devemos mencionar os perigos que, nas últimas décadas, infelizmente, não permaneceram apenas como fantasias de tradicionalistas inimigos da reforma. Gostaria de me deter ainda sobre o fato de que, naquele compêndio litúrgico acima mencionado, o culto foi apresentado como “projeto de reforma”, isto é, como um canteiro de obras onde sempre há muito a fazer. Semelhante, embora um pouco diferente, é a sugestão, por parte de alguns liturgistas católicos, de adaptar a reforma litúrgica à mudança antropológica da modernidade e de construí-la de modo antropocêntrico.

Se a liturgia aparece sobretudo como o canteiro de obras do nosso agir, então isso significa que esquecemos do essencial: Deus. Porque, na liturgia, não se trata de nós, mas sim de Deus. O esquecimento de Deus é o perigo mais iminente do nosso tempo. A essa tendência, a liturgia deveria opor a presença de Deus. Mas o que acontece se o esquecimento de Deus entra até mesmo na liturgia, se na liturgia pensamos apenas em nós mesmos?

Em toda reforma litúrgica e em toda celebração litúrgica, o primado de Deus deveria sempre ocupar o primeiríssimo lugar. Com isso, foi muito além do livro do padre Alcuin. Mas acredito que, no entanto, tenha ficado claro que este livro, com a riqueza das suas ideias, nos ensina critérios e nos convida a uma reflexão posterior. Por isso eu recomendo a sua leitura.

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Atenção: blog em recesso ao longo de todo o mês de agosto.

27 junho, 2013

Cardeal Ranjith e a Sacra Liturgia.

Ocorre em Roma, de terça a sexta-feira desta semana [25 a 28], na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, a conferência Sacra Liturgia, que reúne renomados liturgistas do mundo todo. Da interessante conferência do Cardeal Malcom Ranjith, Arcebispo de Colombo, Sri Lanka, destacamos apenas alguns pontos para instigar os leitores à sua leitura na íntegra — aos que puderem traduzir outros trechos, agradecemos antecipadamente.

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“Se tais improvisações tornassem a Liturgia verdadeiramente mais eficaz e interessante, então, por que com tais experimentações e criatividade o número dos participantes aos domingos caiu tanto e tão drasticamente em nossos dias?”

LATIM E LITURGIA

Cardeal Ranjith.

Cardeal Ranjith.

A respeito do uso do latim na liturgia, vale a pena sublinhar o que foi decretado pelo Concílio: “Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular” (Sacrosanctum Concilium, n. 36), e consentia no uso do vernáculo para as leituras, monições e algumas orações e cantos. Naturalmente, confiava à competente autoridade eclesiástica territoriais decidir se e em que medida o vernáculo seria usado na Liturgia, todavia, sempre com a aprovação da Santa Sé. Mesmo relativamente ao canto gregoriano, o Concílio é prudente enquanto, mesmo admitindo outros gêneros de música sacra, sobretudo a polifonia, afirma que a Igreja “reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano”, pelo que “terá este, na ação litúrgica, o primeiro lugar” (Sacrosanctum Concilium, n. 116). Tal concepção limitada do Concílio para o uso do vernáculo na Liturgia foi aventureiramente estendida pelos reformadores; tendo o latim quase totalmente desaparecido da cena, permaneceu como o órfão mais amado na Igreja. Digo isto não porque eu seja um fanático do latim; provenho de uma terra de missão, na qual o latim não é compreendido por quase toda a minha comunidade. Mas é um erro crer que uma língua deva sempre ser compreendida por todos. A língua, como sabemos, é um meio de comunicação de uma experiência que, quase sempre, é mais ampla do que a própria palavra. Língua e palavra são, portanto, secundárias e, em ordem de importância, estão, depois, a experiência e a pessoa. A língua leva consigo sempre uma originalidade do acontecimento. Por exemplo, o termo “OM” é intraduzível para a liturgia hinduísta; além disso, as religiões orientais usam uma língua que é estritamente limitada às suas formas de oração e de culto: o hinduísmo usa o sânscrito, o budismo o pali, e o islã o árabe corânico. Nenhuma destas línguas é falada hoje, e são usadas somente em sua forma cultual; cada uma destas línguas é respeitada e reservada, desde o início, pela expressão de “algo que está para além do som e das letras”. O judaísmo, por exemplo, usa o tetragrama YHWH para indicar o impronunciável nome de Deus. Por si mesmas, as quatro letras do sagrado tetragrama não têm nenhuma nuance linguística, mas constituem o nome santíssimo de Deus na tradição escrita da Massorá.

O uso litúrgico do latim na Igreja, mesmo que tenha se iniciado em torno no século IV, dá origem a uma série de expressões que são únicas e constituem a própria fé da Igreja. O vocabulário do Credo é claramente cheio de expressões em latim que são intraduzíveis. O papel da lex orandi em determinar a lex credendi da Igreja é validíssimo no caso do uso do latim na Liturgia, porque a doutrina é frequentemente mais compreendida na experiência de oração. Por tal razão, um sadio equilíbrio entre o uso do latim e do vernáculo deveria ser, segundo meu ponto de vista, mantido. A reintrodução do usus antiquor feita pelo Papa Bento XVI não era, então, um passo para trás, como alguns definiram, mas uma iniciativa que restituía à Sacra Liturgia um sentido de estupor místico, uma tentativa de impedir uma clara banalização daquilo que é fundamental para a vida da Igreja. Deve-se honrar e impulsionar tal iniciativa do Pontífice, que também pode conduzir à evolução de um novo movimento litúrgico, que poderia desembocar na “reforma da reforma”, desejo ardente do papa Ratzinger. De fato, alguns elementos do usus antiquor refletem melhor o sentido de maravilhamento e devoção com o qual nós somos chamados a re-presentar os acontecimentos do Calvário em nossas celebrações eucarísticas. E porque aceitamos os diversos desenvolvimentos positivos do novus ordo, como, por exemplo, o mais amplo uso do texto bíblico e um maior espaço à participação da comunidade nos vários momentos da Missa, deveríamos também assegurar que aquilo que acontece sobre os nossos altares não perca a própria capacidade de causar uma verdadeira transformação espiritual da comunidade. E é por isso que se torna necessária uma mutualidade dos elementos mais positivos das duas formas: isto é a “reforma da reforma”. A própria definição das duas formas como usus antiquor e novus ordo, para mim, é errônea, porque o sacrifício do Calvário nunca é antigo, mas é sempre novo e atual.

CONCEPÇÕES ERRÔNEAS

Outro aspecto do processo de uma verdadeira renovação profunda da Igreja, por causa do papel decisivo que o culto desempenhou em sua vida e missão, é a necessidade de purificar a Liturgia de algumas concepções errôneas que penetraram pela euforia das reformas introduzidas por alguns liturgistas depois do Concílio – coisa que, é necessário reconhecê-lo, nunca esteve na mente dos padres conciliares quando aprovaram a histórica Constituição litúrgica Sacrosanctum Concilium.

a. Arqueologismo

A lista é aberta por um tipo de falso “arqueologismo” que tinha por slogan “voltemos à Liturgia da Igreja primitiva”. Escondia-se aqui a interpretação de que somente aquilo que se celebrava na Liturgia do primeiro milênio da Igreja fosse válido, pensava-se que o retorno a isto fizesse parte do aggiornamento. A Mediator Dei ensina que esta interpretação é errada: “A liturgia da época antiga é, sem dúvida, digna de veneração, mas o uso antigo não é, por motivo somente de sua antiguidade, o melhor, seja em si mesmo, seja em relação aos tempos posteriores e às novas condições verificadas” (Cf. Pio XII, S.S., Encíclica Mediator Dei, Enchiridion Encicliche, vol 6, Bolonha 1995, n. 487). Além disso, já que as informações sobre a práxis litúrgica dos primeiros séculos não são claramente atestadas nas fontes escritas do tempo, o perigo de um arbítrio simplista em definir tais práxis é ainda maior e corre o risco de ser uma pura conjectura. Além disso, não é respeitoso do processo natural de crescimento das tradições da Igreja nos séculos sucessivos. Nem está em consonância com a fé na ação do Espírito Santo ao longos dos séculos. E é, além de tudo, altamente pedante e irrealista.

b. Sacerdócio ministerial

Uma outra concepção errônea de reformismo em matéria de Liturgia é a tendência a confundir o altar com a nave. Observa-se frequentemente que a distinção essencial na Liturgia entre o papel do clero e dos leigos é confuso, por causa de uma compreensão errônea da diferença entre o ofício sacerdotal de todos os fiéis (sacerdócio comum) e o ofício do clero (sacerdócio ministerial): uma diferença muito bem explicada na Lumen Gentium. Este documento esclarece que o sacerdócio comum de todos os batizados foi sempre afirmado pela Igreja (cf. Ap 1,6; 1 Pd 2,9-10; Mediator Dei, nn. 39-41; e Lumen Gentium, n. 10), assim como o sacerdócio ministerial; os quais, cada um a seu modo, participam “do único sacerdócio de Cristo”… “embora se diferenciem essencialmente e não apenas em grau” (Lumen Gentium, n. 10). A Constituição litúrgica do Concílio afirma que a Liturgia prevê uma distinção entre as pessoas “que deriva do ofício litúrgico e da sagrada ordem” (Sacrosanctum Concilium, n. 32). A Mediator Dei era ainda mais categórica, afirmando que: “Ai soli Apostoli ed a coloro che, dopo di essi, hanno ricevuto dai loro successori l’imposizione delle mani, è conferita la potestà sacerdotale” (Mediator Dei, in Enchiridion Encicliche, vol. 6, Bolonha 1995, n. 468).

O resultado de tais confusões de papéis na época moderna é a tendência a clericalizar os leigos e a laicizar o clero. Índice de tais confusões é a sempre maior remoção das balaustradas dos altares dos nossos presbitérios e o fato de as pessoas permanecerem sentadas ou agachadas por terra em torno do altar; são pessoas demais a entrar e circular no presbitério, causando distração e distúrbio em nossas funções litúrgicas. A Santa Eucaristia, em tais situações, se torna um espetáculo, e o sacerdote um showman. O sacerdote não é mais como no passado – como escreveu K. G. Rey, em seu artigo Coming of age manifestations in the Catholic Church –: “ o mediador anônimo, o primeiro entre os fiéis diante de Deus e não do povo, representante de todos, que oferece com eles o sacrifício, recitando as orações prescritas. Hoje, ele é uma pessoa distinta, com características pessoais, o seu estilo de vida pessoal, com o seu próprio rosto voltado ao povo. Para muitos sacerdotes, esta mudança é uma tentação que não sabem gerenciar… se torna para eles o nível de sucesso do próprio poder pessoal e, por isso, o indicador do sentimento de segurança pessoal e de autoestima” (K. G. Rey, Pubertätserscheinungeng in der Katolischen Kirche, Kritische Texte, Benzinger, vol. 4, p. 25). O padre, aqui, se torna o ator principal, que recita um drama  com outros atores sobre o altar, e quanto mais são capazes e sensacionais, tanto mais sentem que recitaram bem. Em um cenário assim, o papel central de Cristo desaparece, e também, se num primeiro momento isso parece agradável, à longo prazo se torna extremamente banal e cansativo.

c. Actuosa participatio

(…)

Existem pessoas, também em nosso tempo, que desejam tornar a Liturgia mais interessante ou apetecível; fazem suas próprias regras, correndo, assim, o risco de esvaziar a Liturgia de seu essencial dinamismo interior, com o resultado final de que as chamadas formas de culto se tornam, por fim, insípidas e maçantes. Se tais improvisações tornassem a Liturgia verdadeiramente mais eficaz e interessante, então, por que com tais experimentações e criatividade o número dos participantes aos domingos caiu tanto e tão drasticamente em nossos dias? Esta é a pergunta que  devemos enfrentar com coragem e humildade. É justo considerar os requisitos antropológicos de uma sã Liturgia, sobretudo em relação aos símbolos, as rubricas e à participação; mas não se deve ignorar o fato de que estes não teriam significado sem uma correlação à chamada essencial de Cristo para unirmo-nos a Ele em Sua incessante Ação Sacerdotal.

Fonte: Diocese Suburbicária de Porto-Santa Rufina | Tradução e destaques: Fratres in Unum.com