Posts tagged ‘Vaticano II’

23 agosto, 2019

Arturo Sosa denuncia um complô ultraconservador para forçar um futuro Papa a renegar o Concílio Vaticano II.

IHU – “Existem pessoas dentro e fora da Igreja, que desejam que o papa Francisco renuncie, porém ele não o fará”. Claro e direto, o superior-geral da Companhia de Jesus, Arturo Sosa, sj., denunciou durante o Meeting de Rimini um complô dos setores ultraconservadores contra Bergoglio e o que isso representa.

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 20-08-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

O objetivo não é somente ir contra Francisco, mas ir mais além: “Creio que a estratégia final desses setores não é tanto forçar o papa Francisco a renunciar, mas também afetar a eleição do próximo pontífice, criando as condições para que o Papa seguinte não continue aprofundando o caminho que Francisco indicou e empreendeu”.

Por oposição, o superior dos jesuítas considera que “é essencial que essa viagem continue, de acordo com a vontade da Igreja claramente expressada no Concílio Vaticano II, do qual o papa Francisco é um filho legítimo e direto”.

Durante sua intervenção em RiminiArturo Sosa apontou a “nostalgia” da Igreja europeia por “um passado idealizado, como se a sociedade na Europa fosse uma sociedade cristã perfeita. As pessoas vivem nostalgicamente por um passado que nunca existiu. Nos Estados Unidos, por outro lado, se centram na inculturação”.

“O cristianismo não é uma religião intimista, somente se pode viver em comunidade”, agregou o jesuíta, que recordou como “o Espírito Santo nos fala hoje através dos jovens. Todos estamos chamados a nos aproximar deles”.

“A Igreja dirigida por Francisco está apostando na educação dos jovens, extraindo deles recursos e valores”, apontou Sosa, que citando Bergoglio insistiu que “o futuro da humanidade passa pela inclusão social dos pobres. Porém isso não se faz de fora, é uma condição para caminhar juntos. Devemos nos aproximar dos pobres, adquirir seu olhar na vida”.

“O discernimento deriva do sentido de obrigação para o imperativo da consciência, a obediência à vontade de Deus. A liberdade e a verdade, a lei e a responsabilidade, a autoridade e a obediência somente se integram no discernimento”, afirmou em outro momento do diálogo, no qual enfatizou a “mensagem revolucionária” que Francisco traz à Igreja: “Necessitamos conhecer intimamente ao Senhor que se fez homem para mim, para que quem o ama, o siga”.

“No discernimento – agregou – não estamos divididos entre crentes e não crentes, entre homens morais e não morais, entre aqueles que promovem o bem de todos ou aqueles que semeiam medo e divisão”.

Finalmente, e sobre a secularização da sociedade, Sosa apontou que “se o lemos como um sinal dos tempos, talvez seja um sinal de esperança e não desespero. A sociedade secular é talvez o novo espaço para viver e difundir nossa fé”.

26 junho, 2018

Debate histórico – A Luta pela Ortodoxia Católica.

Por FratresInUnum.com – Imagine o leitor a seguinte possibilidade: um debate num programa de televisão em cadeia nacional onde o tema é o quanto as mudanças na Igreja Católica após o Concílio Vaticano II foram benéficas ou prejudiciais ao catolicismo. Os debatedores são um leigo tradicionalista, autor de vários livros sobre o tema, e um padre, também ele autor de livros e liturgista, apoiador das reformas conciliares. O mediador, também católico, propõe temas que vão desde a suspensão de um teólogo liberal pelo Papa até as mudanças na Missa católica e seus efeitos. O programa também conta com um “examinador”, um padre jesuíta doutorado em línguas semíticas e estudioso dos Manuscritos do Mar Morto, também autor de inúmeros livros. Sua função é intervir nos vinte minutos finais questionando os debatedores sobre alguns pontos defendidos por cada um ao longo do debate.

Um evento como esse, tão improvável quanto possa parecer em nossos dias, realizou-se há quase 40 anos. Foi ao ar em 4 de maio de 1980, pouco mais de um ano e meio após a eleição do Papa João Paulo II. O programa é “Firing Line” (Linha de Fogo) e a TV é a PBS americana. O apresentador, o saudoso William Buckley Jr.; o leigo debatedor é simplesmente Michael Davies, que estava então a concluir sua trilogia “Revolução Litúrgica”; o liberal, o Padre Joseph Champlin. Na posição de examinador encontramos ninguém menos que o Padre Malachi Martin.

Essa preciosidade histórica está disponível agora, em vídeo com legendas em português, no link abaixo. Após apenas quinze anos desde o encerramento do Concílio, e dez do aparecimento da Missa Nova, um debate sério sobre temas que continuam atuais, testemunhando que, desde muito cedo na revolução que tomou de assalto a Igreja de Cristo no século passado, houve católicos que viram claramente o que estava acontecendo e fizeram o que estava ao seu alcance para alertar seus irmãos. Seu alerta chega até nós como um lembrete de que suas vozes, mesmo distantes no tempo, continuam com o mesmo peso e lucidez de então. E por que nos falam tão vivamente apesar da distância? Porque não fazem mais do que expressar a Verdade. E essa é atemporal. Aproveite.

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10 maio, 2018

“O Concílio de João XXIII” – Volume II da Trilogia “Revolução Litúrgica”, de Michael Davies, é publicado no Brasil.

Por FratresInUnum.com, 10 de maio de 2018

Acaba de ser lançado pela Editora Permanência o livro “O Concílio de João XXIII”, segundo da trilogia “Revolução Litúrgica”, do autor inglês Michael Davies (sobre o primeiro livro da série, confira aqui). Publicado originalmente em 1977, o livro foi revisado e expandido pelo autor pouco antes de seu falecimento, no ano de 2004.

Capa_ConcilioJXXIII_perspectiva.JPGNesse segundo livro, Davies documenta a estratégia utilizada, no Vaticano II, por um grupo de bispos e teólogos liberais para subverter o ensinamento católico, desde a mudança conseguida, logo no início do Concílio, em seu Regimento Interno para assim garantir a indicação de membros do grupo para posições de maior destaque nas comissões que elaboraram os textos conciliares, até a colocação de verdadeiras “bombas-relógio” nos documentos oficiais, isto é, passagens capazes de ser interpretadas em sentido modernista após o Concílio.

Também são demonstradas, com farta apresentação de fontes primárias e notável clareza e objetividade, as pressões protestantes sobre o Concílio (e como a Igreja foi levada a adotar uma política ecumênica de conciliação na qual a unidade é buscada à custa da verdade), a influência da imprensa e da maçonaria e a figura ambígua de Paulo VI à luz de sua afeição pela filosofia do Humanismo Integral.

Trata-se de um documento indispensável para a compreensão do Concílio e de seu desdobramento sobre a vida da Igreja, o que afeta cada católico nos dias de hoje, quer o saiba ou não.

O livro pode ser adquirido pela internet neste link: http://www.editorapermanencia.net/

11 agosto, 2017

O Concílio Vaticano II e a Mensagem de Fátima.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 2-8-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comRorate Coeli, Corrispondenza Romana e outras publicações católicas reproduziram uma valiosa intervenção de Dom Athanasius Schneider sobre a “interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a atual crise da Igreja”. De acordo com o Bispo Auxiliar de Astana, o Vaticano II foi um Concílio pastoral e seus textos devem ser lidos e julgados à luz do ensinamento perene da Igreja.

De fato, “do ponto de vista objetivo, os pronunciamentos do Magistério (Papas e concílios) de carácter definitivo têm mais valor e mais peso frente aos pronunciamentos de carácter pastoral, os quais são, por natureza, mutáveis e temporários, dependentes de circunstâncias históricas ou respondendo às situações pastorais de um determinado tempo, como é o caso com a maior parte dos pronunciamentos do Vaticano II”.

Ao artigo de Dom Schneider seguiu-se, em 31 de julho, um equilibrado comentário do padre Angelo Citati, FSSPX,  segundo o qual a posição do bispo alemão se assemelha àquela reafirmada constantemente por Dom Marcel Lefebvre: “Dizer que avaliamos os documentos do Concílio ‘à luz da Tradição’ significa, evidentemente, três coisas inseparáveis: que aceitamos aqueles que estão de acordo com a Tradição; que interpretamos segundo a Tradição aqueles que são ambíguos; que rejeitamos aqueles que são contrários à tradição” (Mons. M. Lefebvre, Vi trasmetto quello che ho ricevuto. Tradizione perenne e futuro della Chiesa, editado por Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, Sugarco Edizioni, Milão 2010, p. 91).

Tendo sido publicado no site oficial do Distrito italiano, o artigo do padre Citati também nos ajuda a compreender qual poderia ser a base para um acordo visando regularizar a situação canônica da Fraternidade São Pio X. Devemos acrescentar que, no plano teológico, todas as distinções podem e devem ser feitas para interpretar os textos do Concílio Vaticano II, que foi um Concílio legítimo: o vigésimo primeiro da Igreja Católica. Dependendo do respectivo teor, esses textos poderão então ser classificados como pastorais ou dogmáticos, provisórios ou definitivos, conformes ou contrários à Tradição.

Em suas obras mais recentes, Mons. Brunero Gherardini nos dá um exemplo de como um juízo teológico, para ser preciso, deve ser articulado (Il Concilio Vaticano II un discorso da fare, Casa Mariana, Frigento 2009 e Id., Un Concilio mancato, Lindau, Turim 2011). Para o teólogo, cada texto tem uma qualidade diferente e um grau diverso de autoridade e cogência. Portanto, o debate está aberto.

Do ponto de vista histórico, contudo, o Vaticano II é um bloco inseparável: tem sua unidade, sua essência, sua natureza. Considerado em suas raízes, no seu desenvolvimento e em suas consequências, ele pode ser definido como uma Revolução na mentalidade e na linguagem que mudou profundamente a vida da Igreja, iniciando uma crise religiosa e moral sem precedentes.

Se o juízo teológico pode ser matizado e indulgente, o juízo histórico é implacável e inapelável. O Concílio Vaticano II não foi apenas um Concílio malogrado ou falido: foi uma catástrofe para a Igreja.

Uma vez que este ano marca o centenário das aparições de Fátima, convém debruçar sobre a seguinte questão: quando, em outubro de 1962, inaugurou-se o Concílio Vaticano II, os católicos de todo o mundo esperavam a revelação do Terceiro Segredo e a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. O Exército Azul de John Haffert (1915-2001) liderou durante anos uma maciça campanha nesse sentido.

Haveria melhor ocasião para João XXIII (falecido em 3 de Junho de 1963), Paulo VI e os cerca de 3000 bispos reunidos em torno deles, no coração da Cristandade, corresponderem em uníssono e solenemente aos desejos de Nossa Senhora? Em 3 de fevereiro de 1964, Dom Geraldo de Proença Sigaud entregou pessoalmente a Paulo VI uma petição assinada por 510 bispos de 78 países, na qual se implorava que o Pontífice, em união com todos os bispos, consagrasse o mundo, e de maneira explícita a Rússia, ao Imaculado Coração de Maria. O Papa e a maioria dos Padres Conciliares ignoraram o apelo. Se a consagração pedida tivesse sido feita, uma chuva de graças teria caído sobre a humanidade. E um movimento de volta à lei natural e cristã teria iniciado.

O comunismo teria caído com muitos anos de antecedência, de maneira não fictícia, mas autêntica e real. A Rússia se teria convertido e o mundo teria conhecido uma era de paz e de ordem, como Nossa Senhora prometera. A consagração omitida concorreu para que a Rússia continuasse a espalhar seus erros pelo mundo, e para que esses erros conquistassem as cúpulas da Igreja Católica, atraindo um castigo terrível para toda a humanidade. Paulo VI e a maioria dos Padres Conciliares assumiram uma responsabilidade histórica, cujas consequências bem podemos hoje medir.

8 agosto, 2014

Rahner e uma época desromanizada da Igreja.

Por Sacerdos Romanus – Rorate-Caeli | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com – A estação de televisão canadense Salt and Light (Sal e Luz) decidiu usar a narração de uma terceira época na história da Igreja desenvolvida pelo famoso teólogo Karl Rahner, SJ (1904-1984) como uma forma de descrever o atual pontificado. Como o padre Thomas Rosica, C.S.B, diretor de Salt and Light e top oficial de língua inglesa da Secretaria de Imprensa da Santa Sé, coloca em uma entrevista com América:

Eu realmente acredito que, com a vinda do Papa Francisco, esta é a terceira época que Karl Rahner, falou em sua obra “As três grandes épocas da Igreja”. Em nosso recente documentário sobre o Papa Francisco em Sal e Luz, começamos toda a história com o ensaio agora épico de Rahner na qual ele fala sobre as três grandes épocas da história da igreja”. 

Pois bem, o ensaio ao qual Padre Rosica se refere é intitulado “Rumo a uma interpretação teológica Fundamental do Vaticano II”, e nele Rahner afirma que uma nova época da igreja começou com o Concílio Vaticano II.

 A implicação da observação de padre Rosica é que até o presente pontificado, a Igreja tinha sido impedida de entrar realmente na época inaugurada pelo Concílio. E, pelo menos, numa coisa ele disse a  verdade: a rejeição da idéia de Rahner pode ser visto como um dos principais temas do magistério do Papa Bento XVI.

Já muito antes do início do seu pontificado, Joseph Ratzinger havia se afastado e muito do seu amigo Rahner com relação a essa questão, a qual essencialmente diz respeito ao sentido ou significado da catolicidade da Igreja.

A idéia de Rahner de três épocas da Igreja tem antecedentes (por exemplo, em Joaquim de Fiore), mas a versão de Rahner é singular. Ele vê a primeira época como tendo sido o período muito curto de Cristianismo judaico antes da decisão do Apóstolo de não impor a circuncisão aos gentios. Rahner afirma que a decisão de não impor a lei judaica aos cristãos gentios gerou uma forma radicalmente diferente de Cristandade, uma forma mais apropriada às culturas greco-romanas. Dessa forma, essa segunda época da Igreja, gerou mudanças profundas que atingiam a doutrina moral, liturgia, etc.

Ele então argumenta que com o Concílio Vaticano II, uma nova era foi inaugurada, e que as mudanças que terão que ser implementadas para esta terceira era, terão talvez maior impacto do que as da primeira e segunda era. Nesta terceira era, a Igreja torna-se verdadeiramente uma Igreja mundial.

Ele acha que essa mudança começou como uma espécie de semente no Vaticano II, como um evento que reuniu Bispos de todas as culturas, com a abertura à liturgia em vernáculo (começando assim por desistir da tentativa de impor a cultura romana sobre os povos não-europeus), em sua afirmação dos elementos positivos em outras religiões do mundo etc.

Mas ele argumenta que o processo está apenas começando. Ele se pergunta como o Cristianismo poderá mudar em outras partes do mundo, se não for visto como ligado a noções greco-romano-judaica de lei, moralidade, ceremonial…etc. Será que membros de tribos africanas tem que aceitar a monogamia ou será que a sua forma de Cristianismo poderá incluir também a poligamia? ” Será que a Eucaristia, mesmo no Alasca tem que ser celebrada com vinho de uva”? Rahner deixa essas questões em aberto, mas sua idéia é que será necessário realizar uma “redução ou retorno à substância final e fundamental” do Cristianismo, a fim de que ele seja então adaptado a cada cultura. Essa idéia de que o Cristianismo pode ser “reduzido” a uma “substância fundamental” que é separável de determinadas culturas em particular é algo o Papa Bento XVI nunca cansou de refutar. No discurso de Regensburg, ele diz:

“O encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento grego não aconteceu por acaso … o património grego, criticamente purificado, se tornou parte integrante da fé cristã”.

Ou seja, Deus se fez homem em uma cultura particular, em um momento particular por razões específicas e providenciais: os elementos da cultura Judaica, Grega e Romana que o Cristianismo integrou em seu próprio Magistério não são separáveis de sua essência porque são verdadeiros.

Os Padres da Igreja defenderam que Roma foi providencialmente preparada para ser a sede do Papa e que as idéias romanas de universalidade e direito foram uma preparação para a verdadeira universalidade Católica. E o Papa Bento XVI muitas vezes assumiu esse tema, por exemplo, no seu pronunciamento Regina Caeli:

“Roma indica o mundo dos pagãos e, portanto, todos os povos que estão fora do antigo povo de Deus. De fato, os Atos dos Apóstolos concluem com a chegada do Evangelho a Roma. Nesse caso, pode-se dizer que Roma é o nome concreto da Catolicidade e da Missionariedade, ela expressa a fidelidade às origens, à Igreja de todos os tempos, para uma Igreja que fala todas as línguas e se encontra com todas as culturas”.

Isso é exatamente o oposto da posição de Rahner. E esta oposição é baseada em uma compreensão muito diferente do que seja a Fé Cristã. Rahner não diz o que vem a ser essa “substância fundamental” do Cristianismo no ensaio sobre as três épocas, mas fica claro a partir de seus outros trabalhos que se trata de uma afirmação da humanidade como tal. Ratzinger certa vez resumiu a posição de Rahner da seguinte forma:

[Rahner afirma que] ser um cristão é aceitar sua própria existência incondicionalmente. Em última análise, portanto, é apenas o reflexo explícito do que significa ser humano. Em última análise, isso significa “que o Cristão não é tanto uma exceção entre os homens, mas simplesmente o homem como ele é.” (J. Ratzinger, Princípios de Teologia Católica:. Pedras de Construção da Teologia Fundamental, traduzido por Mary Frances McCarthy, San Francisco: Ignatius Press, 1987, 165-166).

Assim, ser um cristão é ser antes de mais nada autenticamente humano, mas uma vez que existem diferentes culturas humanas, deve haver diferentes formas da Igreja Cristã corresponder a cada uma delas.

Naturalmente que Ratzinger rejeita essa visão, pois o Cristianismo não é simplesmente o homem como ele é.

O principal ponto da fé tanto no Antigo como no Novo Testamento é que o homem é aquilo que ele deveria ser apenas pela conversão, ou seja, quando ele deixa de ser o que é. (Ratzinger, Princípios de Teologia Católica, 166)

Nossa convicção é de que a “terceira época” da Igreja é uma fantasia impossível de ser realizada, porque a natureza essencial da Igreja nunca poderá ser mudada. No entanto, a prevalência de uma ilusão dessa natureza entre o clero é susceptível de causar um grande dano.

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5 maio, 2014

O que é exatamente um tradicionalista?

Por Christopher A. Ferrara – The Remnant | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com

O fato de que hoje em dia existem católicos denominados “tradicionalistas” é algo sem explicação em toda a história anterior da Igreja Católica. Mesmo no auge da crise ariana — a situação mais análoga à nossa — a Igreja não estava dividida entre tradicionalistas e não tradicionalistas, mas sim entre aqueles que não abraçaram a heresia de Ário e os que o fizeram.

Católicos tradicionais assistindo a uma Missa Tradicional durante a Segunda Guerra Mundial? Não, apenas católicos assistindo À Missa durante a Segunda Guerra Mundial.

Católicos tradicionais assistindo a uma Missa Tradicional durante a Segunda Guerra Mundial? Não, apenas católicos assistindo À Missa durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas o que é exatamente um tradicionalista? Uma olhada no passado para vermos o modo como as coisas eram antigamente poderá ajudar a transmitir o significado do termo de maneira mais eficaz do que as tentativas habituais de uma definição formal:

–        Antigamente não havia rito de Missa traduzido para as línguas vernáculas do mundo. Havia apenas o idioma litúrgico universal de uma Igreja perene, como podemos ver no Rito Romano imemorial, cujo desenvolvimento orgânico havia prosseguido quase imperceptivelmente desde o século V, ou nos veneráveis ritos orientais, quase tão antigos, que, em grande parte, escaparam ao furioso vandalismo litúrgico que devastou a liturgia principal da Igreja.

–        Antigamente não havia altares-mesa no estilo luterano em nossas igrejas, mas somente altares-mores voltados para Deus, cuja própria aparência despertava o sentido de temor respeitoso e reverência nas pessoas.

–        Antigamente não havia leitores leigos, “ministros da Eucaristia” leigos ou meninas no presbitério, mas somente padres, diáconos a caminho do sacerdócio e os acólitos, que eram a fonte primária de geração após geração das vocações sacerdotais, que enchiam os seminários.

–        Antigamente não havia música profana durante a Missa, mas somente canto gregoriano ou polifonia, despertando a alma para a contemplação do divino, ao invés batidas de pés, palmas ou puro tédio.

–        Antigamente não havia abusos litúrgicos disseminados. No máximo, havia padres que celebravam a Missa tradicional de maneira deficiente, mas dentro de uma estrutura de rubrica, texto e música que, no entanto, protegia o seu mistério central de qualquer possibilidade de profanação e mantinha a dignidade suprema do culto divino contra a fraqueza humana.

–        Antigamente não havia “Máfia gay” nos seminários, nas cúrias e no próprio Vaticano, ou clérigos predadores que molestavam meninos ao redor do mundo, porque as autoridades da Igreja faziam valer a regra de que “os votos religiosos e a ordenação deveriam ser proibidos aos candidatos afligidos por más tendências ao homossexualismo ou à pederastia …”[1]

–        Antigamente não havia seminários vazios, conventos vazios, paróquias abandonadas e escolas católicas fechadas. Havia somente seminários, conventos, paróquias e escolas repletas de católicos fiéis provenientes de família numerosas.

–        Antigamente não havia “ecumenismo.” Havia somente a convicção de que a Igreja Católica é a Igreja única e verdadeira, fora da qual não há salvação. Os católicos seguiam o ensinamento da Igreja que “[diz] que os fiéis não podem de maneira alguma assistir ativamente ou participar de qualquer culto de acatólicos,”[2] e eles compreendiam, mesmo se apenas de maneira implícita, o que o Papa Pio XI insistia sobre: “Veneráveis Irmãos, é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes à reuniões de acatólicos: por quanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela. Dizemos à única verdadeira Igreja de Cristo: sem dúvida ela é a todos manifesta e, pela vontade de seu Autor, Ela perpetuamente permanecerá tal qual Ele próprio A instituiu para a salvação de todos.”[3]

–        Antigamente não havia “diálogo.” Havia somente evangelização pelo clero e apologistas leigos com o objetivo de converter as pessoas à verdadeira religião. E havia os convertidos, que entravam para a Igreja em números tão grandes que parecia mesmo que os Estados Unidos estavam se tornando uma nação católica, uma vez que 30 milhões de americanos ouviam o programa de rádio de Dom [Fulton] Sheen todo domingo.

–        Antigamente não havia defecções em massa do sacerdócio, das ordens religiosas, e de leigos, levando à “apostasia silenciosa” na Europa e em todo o Ocidente. Em vez disso, havia aquilo que um Padre do Concílio Vaticano Segundo descreveu no início do Concílio: “a Igreja, não obstante as calamidades que grassam no mundo, está experimentando uma era gloriosa, se vocês considerarem a vida cristã do clero e dos fiéis, a propagação da fé, e a influência universal salutar que a Igreja possuía no mundo de hoje.”[4]

–        Antigamente não havia “Católicos Carismáticos,” “Neo-Catecumenais,” ou outros “movimentos eclesiais” promovendo novos modos estranhos de culto inventados por seus fundadores. Havia somente católicos, que praticavam o culto da mesma maneira que seus antepassados com continuidade inquebrável durante séculos.

–        Antigamente não havia tradicionalistas, porque não havia necessidade de descrever qualquer católico com essa expressão. Todos os católicos aceitavam instintivamente o que uma série de papas havia prescrito como parte da própria profissão de nossa fé: “Admito firmemente e abraço as tradições apostólicas e eclesiásticas e outras observâncias e constituições da Igreja.”[5]

Antigamente as coisas eram assim. E quando foi essa época passada de que escrevo? Isso não foi há séculos, nem mesmo há um século, ou mesmo uma única era, mas há meros cinquenta anos, dentro da memória de vida de muitos milhões de católicos hoje em dia.

Então o que é um tradicionalista? Ele não é nem mais nem menos do que um católico que continua praticando a fé precisamente da maneira que a aprendeu em sua infância, ou que recebeu a mesma fé sem reconstrução de seus pais e que, em troca, a transmitirá a seus próprios filhos. Um tradicionalista, em outras palavras, é um católico que vive a fé como se as calamidades eclesiásticas da época pós-Vaticano II nunca tivessem acontecido – sem dúvida, como se o próprio Vaticano II nunca tivesse acontecido. E a verdade espantosa sobre o tradicionalista é que nenhuma doutrina ou regra disciplinar da Igreja o proíbe de acreditar e prestar culto a Deus dessa mesma maneira, muito embora a grande maioria de católicos não o façam mais.

O fato de existirem católicos que simplesmente continuaram crendo e prestando culto da maneira como os católicos sempre fizeram antes do Concílio, hoje em dia chamados de tradicionalistas — muitos de uma hora para outra em termos históricos —, e que a própria palavra tradição agora distingue esses relativamente poucos católicos da vasta maioria dos membros da Igreja, é um sinal inegável de uma crise como nenhuma outra que a Igreja jamais testemunhou. Aqueles que negam esse fato teriam que explicar porque somente dentro dessa vasta maioria transformada, corretamente descrita como neo-católicos, a fé está constantemente perdendo o controle sobre as pessoas, e muitas delas estão caindo completamente na “apostasia silenciosa” que João Paulo II lamentou em anos recentes após saudar por tantos anos uma “renovação conciliar”, que foi efetivamente um colapso maciço da fé e da disciplina.

Particularmente, eles teriam que explicar porque é que somente dentro dessa vasta maioria de “Católicos do Vaticano II” encontramos

–        mais de um quarto de todos os casamentos que acabam em divórcio,[6] com dez milhões de católicos divorciados e “recasados” no mundo todo, cujo adultério permanente o Cardeal Kasper deseja conciliar, com o aparente encorajamento do atual Papa reinante;

–        nascimentos, batismos, casamentos sacramentais, conversões e frequência à Missa diminuindo implacavelmente desde o Concílio;[7]

–        uma rejeição disseminada do ensinamento infalível da Igreja sobre assuntos fundamentais de fé e moral;[8]

–        uma perda repentina e dramática de vocações sacerdotais, deixando o sacerdócio católico ligeiramente menor hoje em dia do que ele estava em 1970, e um declínio drástico no número de religiosos desde então, apesar do dobro da população mundial.[9]

Eles teriam que explicar também porque é somente dentre a pequena minoria de católicos atualmente denominados tradicionalistas que nenhum desses sinais de declínio eclesiástico é evidente.

Em dias recentes a crise eclesiástica que nos acompanha há mais de meio século parece ter atingido uma profundidade da qual não pode haver recuperação sem uma intervenção divina miraculosa. O mundo está cantando hosanas ao novo Papa, incentivando-o à conclusão final, per impossibile, do processo de autodemolição eclesial que Paulo VI passou seus últimos anos lamentando, embora ele mesmo o tivesse desencadeado. Ainda assim, o sistema neo-católico continua a sua marcha confiante para além do ponto sem volta, justificando todas as evidências de desastre, ao mesmo tempo em que defende os tradicionalistas como especialistas obstinados de nostalgia, cujas “sensibilidades” podem ser conciliadas, mesmo se eles não se preocupam mais com o futuro da Igreja. Porém, na verdade, os tradicionalistas são o futuro da Igreja, como a história de nosso tempo irá registrar quando for escrita.

O que é exatamente um tradicionalista? Ele é o que todo católico foi outrora, e será novamente quando a crise passar.

* * *

[1]“Instrução sobre a Seleção e Treinamento Criteriosos dos Candidatos para os Estados de Perfeição e Ordens Sagradas” [1961])

[2]Can. 1251, §1, CIC (1917),

[3]Mortalium animos (1928), n. 10.

[4]Wiltgen, O Reno se Lança no Tibre, p. 113 (citando o Patriarca Armênio da Cilícia).

[5]Papa São Pio X, Pascendi (1907), nº 42 (citando e afirmando a validade contínua  de uma profissão de fé prescrita por Pio IV e o Beato Pio IX).

[6]Cf. análise estatística da Universidade Georgetown pelo Centro de Pesquisa Aplicada no Apostolado (CARA), http://nineteensixty-four.blogspot.ca/2013/09/ divorce-still-less-likely-among.html.

[7]Cf. Análise de tendências estatísticas CARA, http://nineteensixty-four.blogspot.com/2010/08/there-will-likely-be-fewer-catholic.html

[8]Cf. Pew Research Poll,18 de março de 2013, http://www.pewforum.org/2013/03/18/us-catholics-happy-with-selection-of-pope-francis/.

[9]Cf. Tabela estatística CARA, http://cara.georgetown.edu/caraservices/requestedchurchstats.html.

14 abril, 2014

O Sangue dos fiéis Católicos jorrará nos santuários.

Um perito no Concílio Vaticano II fala sobre o que realmente aconteceu.

(Nota do Editor: Monsenhor Bandas, durante o Concílio Vaticano II, foi membro de duas comissões, uma sobre dogmas e outro sobre seminários. Ele freqüentou todas as sessões do Concílio, e morreu em 26 de junho de 1969. O editor e fundador do “The Remnant”, Walter L. Matt, que foi um amigo próximo de Mons. Bandas, costumava dizer que, em um sentido muito real, o Vaticano II trouxe a morte precoce deste padre brilhante e santo, que morreu com o coração ferido em virtude do Concílio. Mons. Bandas, depois de seu regresso do Vaticano II, predisse que, antes que tudo isso venha a acabar, “o sangue dos fiéis católicos jorrará nos santuários.” Que as palavras a seguir, inspiradoras e ainda preocupantes do falecido, do grande Mons. Bandas, permaneçam sempre conosco, e que nunca nos esqueçamos desses heróis caídos da antiga fé. O texto que segue é uma reprodução do publicado no The Remnant, 12 de fevereiro de 1968. Michae J.Matt)

Por Monsenhor R. G. Bandas | The Remnant  – Tradução:  Alexandre Semedo de Oliveira – Fratres in Unum.com:  Durante os três anos de Seu ministério público, Nosso Senhor rapidamente alcançou uma imensa popularidade. Enormes multidões O saudavam de todos os lados, seguiam-nO, apertando-O, tanto que, numa ocasião, apenas através de uma abertura no telhado é que um paralítico pôde ser colocado diante de Jesus.

jesus-flageladoO entusiasmo das pessoas atingiu o seu ponto mais alto no Domingo de Ramos, quando as multidões gritavam alegremente: “Hosana ao Filho de Davi, bendito o que vem em nome do Senhor” (Matt.21 : 9). Mas, ninguém imaginaria que, infelizmente, em poucos dias, estes admiradores do Homem-Deus transformar-se-iam em uma multidão hostil, gritando com raiva: “Crucifica-O”.

E quando o Salvador do mundo foi crucificado no Monte Calvário, apenas um pequeno resto permaneceu fiel aos pés da Cruz. Em uma declaração triste, São João nos diz: “Estavam junto à cruz de Jesus, Sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena”. Todos os demais estavam ausentes. E lá embaixo, no vale, podiam-ser ouvir as blasfêmias e os insultos das multidões massificadas.

Quando a Igreja decidiu dramatizar em sua Liturgia Latina este cenário único, bem como profético, ela usou uma linguagem que, apesar de simples, é incomparável em seu pathos: popule meus, quid feci tibi? “Oh, meu povo, o que eu te fiz?” E então, nas chamadas improperia ou “censuras”, Nosso Senhor enumera cada uma as bênçãos que Ele trouxe à humanidade, bênçãos que, infelizmente, foram retribuídas apenas por ingratidão, insultos e até mesmo perseguição.

Dentro das Improperia da liturgia latina, a Igreja colocou sua música mais requintada. Se é verdade que Marguerite, no Fausto de Goeth, desmaiou e tornou-se uma mulher diferente depois de ouvir as tensões penetrantes do Dies Irae, também é verdade que ninguém pode ouvir a música dos Improperia latinos na sexta-feira e continuar a ser a mesma pessoa.

Quase dois mil anos se passaram desde esses eventos memoráveis ​​em Jerusalém. E, hoje a história está se repetindo. Quando, durante os cinco anos em que participei das sessões do Concílio Vaticano II, vi bispos de todas as partes do mundo convergindo para Roma, eu, com grande entusiasmo, muitas vezes disse a mim mesmo: “Vejo a Igreja Católica em todo seu esplendor, equilibrando-se entre a renovação e um crescimento sem precedentes”.

Mal sabia eu, então, que, em poucos anos, as pessoas, antes admiradas, novamente converter-se-iam em um populacho hostil, gritando ferozmente: “Fora com Ele, fora com Sua Mãe, fora com a Sua Igreja, fora com Seus ensinamentos”. Mas a multidão agora é diferente. Não se constitui mais de escribas, de fariseus e de soldados romanos. Não. Agora, ela é composta de ex- freiras, ex-padres , ex- seminaristas, falsos “peritos” e reformadores selvagens.

A cruz do Calvário novamente se agiganta contra um céu de chumbo, e, nela, a Vítima do mundo renova Suas censuras gentis: “Oh, Meu povo, o que eu te fiz? Responda-me.”

“Eu vos dei minhas bênçãos especiais, mas vós, ao invés de vos dirigirem a mim com vossa língua excelente, saudai-Me em mero vernáculo com o título rude e grosseiro “o cara”[1]. E, e muitas vezes aproximam-se de Mim com música mais apropriada à taberna do que ao templo.

“Dei-vos o meu Sacrifício da Cruz para ser renovado diariamente nos altares de vossa Igreja, mas, acatando a sugestão do traidor inglês da Reforma Protestante, o apóstata Arcebispo Cranmer, vós destruís os altares sagrados.”

“No meu amor sem limites, eu quis habitar no meio de vós, no Santíssimo Sacramento, mas vós rejeitais os tabernáculos, convertendo-os em locais de usos profanos e de brinquedos para as crianças, enquanto meus filhos fiéis estão vagando em meus templos vazios, ansiosamente reclamando, como Maria Madalena: ‘levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram.’”

“Eu vos dei a oração das orações: o Cânon Romano da Missa – uma oração que se desenvolveu a partir dos ensinamentos e sofrimentos dos Meus primeiros bispos, os Apóstolos; que foi selada com o sangue de Meus mártires no Coliseu, e que era a consolação dos cristãos nas catacumbas. Hoje, o ímpio diário francês Le Monde sarcasticamente Me provoca: ‘Caiu este último bastião da Vossa Igreja.’”

 “Eu vos pedi que deixasseis as criancinhas virem a mim, porque delas é o reino dos céus. Mas vós as impedis de participar da Missa, dos meus Sacramentos, das celebrações do amor de Meu Sagrado Coração nas primeiras sextas-feiras, e de se simpatizar com Meus sofrimentos através das Estações da Cruz.”

“E junto à cruz, estava sua Sua Mãe ” – São João diz que lá ela estava – e que não desvaneceu ou desmaiou – cheia de coragem, de confiança e de reparação. Ela viu e sabia que estavam fazendo com o seu Filho – o mesmo que hoje estão fazendo para com Ele nas missas hootenanny[2]e botlegged[3] -, mas ela não O deixou. Não! Antes, ofereceu todas estas blasfêmias em reparação a Deus, embora ela pudesse muito bem dizer : ” Todos vós que passais pelo caminho, assisti e vede se há dor semelhante à minha dor.”

Ela é o exemplo e esperança nossa, os degredados filhos de Eva. Quando, há alguns anos os alunos de uma escola secundária católica estavam encenando a Paixão, e, quando finalmente chegou à cena em que Judas, desesperado, estava já fora de si, uma menina na fila da frente virou-se para a mãe e sussurrou: “Por que ele não buscou a Mãe de Jesus?”

Nesta “hora de trevas”, um resto mantém-se vigilante sob a Cruz, resto este que não prosseguirá por muito tempo sendo a Igreja do Silêncio, perseguida e caluniada. Este resto surgirá como o primeiro remanescente; crescerá com velocidade milagrosa e, purificado, tornar-se-á a Igreja. Pois a verdade é poderosa e prevalecerá. “Ainda que andemos no meio da sombra da morte, não temeremos nenhum mal, porque Tu estás conosco”. “E se Deus é por nós, quem será contra nós?”

O Rei da história já está vindo a nosso encontro, através das ondas furiosas, trazendo-nos a mensagem encorajadora: “Não temais, pequeno rebanho, porque aprouve a vosso Pai dar-vos um reino.”

[1] “Fellow”, no original.

[2] Hootenanny é uma celebração típica do sul dos estados Unidos

[3] Botlegged é uma técnica de gravação em que sons e imagens são captados ao vivo.

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17 fevereiro, 2014

Padre Livio demite Roberto de Mattei da Rádio Maria. “Não peca aquele que, com a devida reverência, destaca as deficiências da hierarquia eclesiástica. Por outro lado, pecam os omissos, por covardia ou conformismo”.

Depois de Mario Palmaro e Alessandro Gnochi, o cajado da cultura do diálogo e do encontro da Rádio Maria golpeia o Prof. Roberto de Mattei.

Por Corrispondenza Romana | Tradução: Fratres in Unum.com – Em 13 de fevereiro, Padre Livio Fanzaga, diretor da Rádio Maria, encerrou o programa “Raízes Cristãs”, que o prof. Roberto de Mattei conduzia desde 17 de fevereiro de 2010, toda terceira quarta-feira do mês, na Rádio Maria. O motivo para a medida foi o artigo do próprio de Mattei 2013-2014: Motus in fine velocior, publicado no sitio Corrispondenza Romana, em 12 de fevereiro. Segue abaixo a correspondência entre o padre Livio e Roberto de Mattei [negritos do Fratres].

* * *

13 de fevereiro de 2014 – Padre Livio Fanzaga ao Prof. Roberto de Mattei

Caro Professor Roberto De Mattei,

Padre Livio Fanzaga

Padre Livio Fanzaga

Li seu artigo recente “Motus in fine velocior” e percebi como o senhor tem enfatizado cada vez mais a sua posição crítica em relação ao pontificado do Papa Francisco. Estou muito triste e desejaria que o senhor colocasse a sua grande formação cultural a serviço do Sucessor de Pedro.

Meu caro Professor, o senhor compreende que esta posição é incompatível com a sua presença na Rádio Maria, que prevê, em seus princípios norteadores, adesão não só ao Magistério da Igreja, mas também de apoio ao trabalho pastoral do Sumo Pontífice.

Com pesar e por dever de consciência, tenho que suspender seu programa mensal, ao mesmo tempo em que o cumprimento, em nome dos ouvintes, por seus esforços, em caráter voluntário, na pesquisa das raízes cristãs da Europa.

Caro Professor, se o senhor modificar a sua atitude para com o pontificado e esta se tornar mais positiva, não haverá dificuldades para o senhor retomar o seu programa.

Cordialmente

Padre Livio Fanzaga (diretor)

* * *

13 de fevereiro de 2014 – Roberto de Mattei ao Pe. Livio Fanzaga

Caro Padre Livio,

Conforme o seu e-mail de 13 de Fevereiro, o senhor me comunica a sua decisão de suspender a transmissão do programa “Raízes Cristãs” na Rádio Maria, porque eu estaria “enfatizando cada vez mais a minha posição crítica em relação ao pontificado do Papa Francisco”. “Sua posição – o senhor escreve – é incompatível com a presença na Rádio Maria, que prevê, em seus princípios norteadores, adesão não só ao Magistério da Igreja, mas também de apoio ao trabalho pastoral do Sumo Pontífice.”

Primeiramente, obrigado pelo convite que o senhor me fez, há quatro anos, para conduzir o programa “Raízes Cristãs” na Rádio Maria. Desde então até o último dia 15 de janeiro, toda terceira quarta-feira do mês, tentei fazer o melhor que pude, desenvolvendo temas em defesa histórica, apologética, moral e espiritual da Igreja e da Civilização Cristã. Agradeço também ao senhor por ter me defendido publicamente, quando, devido a alguns programas, fui violentamente atacado pela imprensa secular. Todas as minhas atividades e meu ministério têm sido e continua sendo a serviço da Igreja e do Romano Pontífice, a quem dediquei meu último volume Vigário de Cristo. O Papado entre normalidade e exceção. A devoção ao Papado é uma parte essencial da minha vida espiritual.

No entanto, a doutrina católica nos ensina que o Papa é infalível apenas sob algumas condições, e ele pode cometer erros, como, por exemplo, no domínio da política eclesiástica, escolhas estratégicas e até mesmo a ação pastoral do Magistério ordinário. Nesse caso, não é pecado, mas dever de consciência para um católico fazer essas observações, desde que o faça com todo o respeito e amor que é devido ao Sumo Pontífice. Assim fizeram os santos, que devem ser o nosso modelo de vida.

A Igreja permite essa liberdade de crítica aos seus filhos e que não peca aquele que, com a devida reverência, destaca as deficiências da hierarquia eclesiástica. Por outro lado, pecam os omissos, por covardia ou conformismo. O drama da Igreja de hoje encontra-se no medo de padres e bispos, que formam a pars electa da Igreja, de denunciar a terrível crise em ato, de chegar às causas e de propor soluções.

Reli o artigo, que é a razão da minha saída, e não creio que haja nada desrespeitoso para com o Pontífice reinante, mas apenas algumas considerações históricas, e não teológicas, motivadas pelo puro amor à Verdade. Também não expliquei as minhas preocupações sobre a situação atual da Igreja no meu programa mensal da Rádio Maria, mas sim em uma agência de notícias sob a minha direção.

Caro Padre Livio, o senhor tem total liberdade para me retirar de sua emissora, mas teria sido melhor se o senhor o tivesse feito sem motivos, ao invés de indicar um motivo tão fraco, e – se o senhor me permite – improcedente. Ela não se sairá bem desse incidente e lamento-o sinceramente. O movimento dos eventos está ficando mais rápido e mais cedo ou mais tarde o senhor também vai se envolver no vórtice, assim como a Rádio Maria, forçando-a a assumir, de uma forma ou de outra, as posições que o senhor pode estar se esquivando de tomar por ilusão. No entanto, virão momentos em que o senhor terá que tomar partido. Quanto a mim, vou continuar exercendo a minha liberdade de cristão, a fim de defender a fé que recebi no meu batismo, e que é o meu bem mais precioso. Que o Espírito Santo me ajude a nunca ceder a qualquer pressão ou bajulação, nunca deixar de dizer a verdade e dizê-la tanto mais forte quanto maior for o silêncio daqueles que devem dizê-la.

Com devota deferência

Roberto de Mattei

* * *

14 de fevereiro de 2014 – Padre Livio Fanzaga a Roberto de Mattei

Caro Professor,

Agradeço sua resposta serena. Seu artigo foi apontado com preocupação por alguns ouvintes. Algumas decisões são tomadas com sofrimento. Tenho a firme convicção de que a Igreja pode sair dos labores hoje seguindo Nossa Senhora e o Papa.  Como Bento XVI nos ensina, mais do que nunca é hora de rezarmos.

Com estima, Padre Livio

14 fevereiro, 2014

Adesão opcional ao Vaticano II: Se ecumênico, por que negar? Se não, por que a coação seletiva?

Postagem de um leitor acadêmico de longa-data convidado

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com – Como todos sabemos, Pe. Volpi, Comissário Apostólico para os Franciscanos da Imaculada, tem executado uma inquisição anti-criptolefebvrianos, a qual chamaremos “inquisitio hæreticæ pravitatis”…, e uma das medidas que ele impôs é a aceitação formal do Vaticano II de acordo com a autoridade a ele atribuído pelo Magistério. Alguém poderia, pois, perguntar “a Igreja considera o Vaticano II um Concílio Ecumênico? Qual é a autoridade a ele atribuída?.

O antigo Patriarca Melquita Máximo V certamente não o considera, como visto na 30Dias (n. 2, 1997). Máximo declarou “impensável” tratar os “Concílios da Igreja do Ocidente” (!) ocorridos no segundo milênio como condição de unidade com os ortodoxos [sic], “incluindo a infalibilidade papal” (!!). E: “… deve ser reconhecido que todos os Concílios depois do primeiro milênio, incluindo o Vaticano I e o II, não podem ser descritos como ecumênicos… As decisões tomadas nessas sessões não podem dizer respeito às Igrejas Orientais, as quais não tomaram parte nelas.” (Todo um conjunto de pressupostos teológicos, sem mencionar a falta de rigor histórico, jaz sob essas afirmações. O Patriarca de Constantinopla, o Metropolita de Kiev e cerca de 60 bispos gregos co-definiram o Filioque e o Primado Romano em Florença, em 1439. Veja-se o exaustivo tratdo em GILL, Joseph, SJ, do Pontifício Instituto Oriental. O Concílio de Florença. Cambridge, 1959).

Dum filão similar, mais de uma década depois, há o mundialmente renomado intelectual bizantino, Pe. Robert Taft, SJ, professor do Pontifício Instituto Oriental por mais de 38 anos, sugerindo que a Igreja Católica poderia “especificar mais claramente” quais concílios são ecumênicos. “Os concílios católicos romanos pós-cisma devem ser considerados concílios ecumênicos da Igreja Indivisa? Se sim, quem o diz?” (Entrevista, “Construindo Pontos entre Cristãos Católicos e Ortodoxos”, in Sophia, verão de 2013, p. 7-9.)

Pe. Taft resume a “nova” eclesiologia católica acerca das “Igrejas Irmãs” como uma “surpreendente revolução em como a Igreja Católica vê a si mesma: nós não somos mais a filha única da vizinhança, a Igreja de Cristo toda, mas uma Igreja Irmã entre outras”. Antigamente, a Igreja Católica se considerava a Igreja original e verdadeira da qual as outras se separaram, e “os católicos sustentavam, simplesmente, que a solução para a divisão da Cristandade consistia no retorno de todos os outros cristãos para o seio materno de Roma”. Nas linhas subsequentes, Taft qualifica a visão anterior de “historicamente ridícula, egocêntrica e auto-complacente”.

Que o Vaticano II foi um concílio ecumênico não é certamente estranho para as mentes dos franciscanos que assinarão o que o pe. Volpi colocar em sua frente em nome da Igreja e da obediência. E provavelmente muitos leitores deste blog obedeceriam um Comissário do Romano Pontífice, se fossem religiosos ou clérigos, porque firmemente sustentam aquilo que o pe. Taft e muitos letrados e clérigos católicos atuais repudiam como “ridículo”. Com fé divina e perplexidade humana, perguntamos ao Papa Francisco e aos inquisidores curiais sobre os Franciscanos da Imaculada: que tipo de comunhão com a Igreja é esta?

Adesão opcional ou é para todos ou para ninguém.

13 fevereiro, 2014

FSSPX: Ecumenismo ou não?!

Por Pe. John Hunwicke[1]

Tradução: Fratres in Unum.com* – Na relação entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X, há um enorme problema fundamental, o qual é tão óbvio que pouquíssimas pessoas o mencionam. Como membro de um Ordinariato, outro e bem sucedido esforço ecumênico de Bento XVI, eu tenho um natural interesse nesta questão e rezo para sua solução. Este é o locus standi desde o qual eu faço a seguinte pergunta.

Fraternidade e Vaticano… é matéria de ecumenismo ou de disciplina eclesiástica? A Fraternidade é um grupo de amados Irmãos Separados para os quais nós católicos devemos, de acordo com o mandato do Vaticano II, esticar cada um de nossos tendões a fim de conquistarmos a unidade… porque, com sua imensa riqueza espiritual, eles têm tanto a oferecer à Igreja Católica; ou é uma mera porção da Igreja Latina em uma situação canônica irregular que deve ser golpeado vigorosamente na cabeça, como os Franciscanos da Imaculada, até que se arraste abjetamente?

Pe. John Hunwicke

Pe. John Hunwicke

Ambas, Santa Sé e Fraternidade, de fato, conspiram para que se aplique o segundo modelo; Roma por causa de sua natural inclinação a exercer controle sobre a Igreja Latina; a Fraternidade porque se crê não só parte da Igreja Latina, mas até mesmo Sua única parte verdadeiramente saudável e doutrinariamente sólida.

Mas e se Roma, ao menos, tentasse o primeiro modelo? Suponhamos que se fosse tratar o “problema” que a Fraternidade tem com o Vaticano II da mesma maneira que Roma trata os “problemas” dos “nestorianos” ou “monofisitas”? Com estes, Roma está euforicamente contente em assegurar acordos Cristológicos, sem demandar explícita aceitação de Éfeso ou Calcedônia. Ou tomemos os anglicanos, aos quais, sem que aceitem as reais palavras de Trento, foi dito pelos Dicastérios, dentre os quais a Congregação para a Doutrina da Fé, que o último documento (“Clarificações”) da Seção sobre a Eucaristia da Comissão Internacional Anglicano-Católica Romana (N.T.: ARCIC, em seu acrônimo inglês) significava que “nenhum trabalho ulterior” era mais necessário nesta matéria? Ou, coloquemos de outra maneira: se o único obstáculo entre Roma e as Igrejas [Cismáticas] Russa e Grega fosse a Dignitais Humanæ, Roma realmente insistiria que nenhum progresso ulterior seria possível sem uma explícita submissão pelos Ortodoxos [sic] tanto ao documento conciliar quanto à “totalidade do Magistério pós-conciliar”?

(Pensemos nisso, dada a afeição que os hierarcas gregos e russos têm pelo conceito de Estado Ortodoxo e Bizâncio Redivivo, que esta minha última pequena fantasia não seja um cenário tão absolutamente inconcebível. Vocês leram acerca da última proposta de mudança na Constituição russa? Não seria divertido ver o Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos pedir às veneráveis comunidades do Monte Athos a elaboração de um comentário sobre a Dignitatis Humanæ para servir de base para o diálogo entre o Vaticano e a Fraternidade?)

Os burocratas da Cúria estão, pois, tentando tanto manter o bolo quanto o comer. Quando lhes apraz, eles tratam a Fraternidade como súditos desobedientes em vez de Irmãos Separados. Mas quando as exigências da polêmica o requerem, como ocorreu no final do ano passado, eles falam da Fraternidade como estando em cisma ou, até mesmo, de alguma maneira imprecisa excomungados. Mas fariam eles muito bem em pensar cuidadosamente acerca das implicações que tais juízos têm para o status do diálogo. Porque, se os membros da Fraternidade são cismáticos excomungados, então eles se qualificam ao tratamento que Unitatis Redintegratio prescreve para os Irmãos Separados[2].

Ou, para colocarmos o mesmo ponto (novamente) sobre um diverso prisma: A política do Vaticano é realmente de esperar um milênio ou meio para o tempo solidificar e amargurar ainda mais a separação entre Roma e a Fraternidade, e, uma vez que a ruptura seja suficientemente duradoura, acrimoniosa e definitiva, aí então, mas só então, proceder aos rituais fofos e sentimentais dos “braços abertos” para a “querida Igreja irmã” que constituem o processo ecumênico? Eu sei que tem um velho ditado acerca de Roma pensar em termos de séculos… mas é possível que isso seja realmente o plano?

Existe um plano?

A Unitatis Redintegratio do Vaticano II se concentrou sabiamente no que era positivo, aquilo que pode ser seguramente dito que a Igreja Católica e outros grupos têm em comum. (A mesma atitude foi adotada no que concerne às religiões não cristãs.)

Era mais ou menos como olhar a taça de vinho dos ortodoxos [sic] e dizer: “Que bom! Está três quartos (ou mais) cheia.” Mas no diálogo entre o Vaticano e a Fraternidade, o tempo todo foi gasto barganhando se a taça da Fraternidade estaria um miligrama ou dois menos do que cheio.

A Indústria católica de ecumenismo moderna não grita para o mundo ortodoxo [sic] “Vocês têm que aceitar cada palavra dos Decretos de Florença e o Magistério pós-florentino inteiro”. Ou, se faz, fá-lo silenciosamente demais para que eu possa ouvir. Um oficial da Cúria disse recentemente acerca da Fraternidade que “eles têm que mudar sua abordagem e aceitar as condições da Igreja Católica e o Sumo Pontífice”[3]. É essa a maneira que o Vaticano fala dos ortodoxos [sic]… ou dos metodistas…?

Eu penso que a situação concernente à Fraternidade é urgente. Embora o Arcebispo Lefebvre tenha sabiamente escolhido homens jovens para serem consagrados bispos, esses jovens estão agora 25 anos mais velhos. Aproxima-se o tempo em que o problema acerca da consagração de seus sucessores deverá ser encarado. Nós teremos realmente que revisitar, quando este tempo chegar, todos os argumentos intemperados e sem fim acerca do Estado de Necessidade e das Excomunhõe latæ sententiæ? Existe algum outro grupo eclesiástico para o qual a Santa Sé proporia tão lúgubre prospecto como o caminho a seguir para uma alegre reconciliação? Terá sido para nada que Bento XVI cortou aquele particular nó górdio[4] e, fazendo isso, incorreu nas falaciosas calúnias dos ignorantes e dos maldispostos?

O Papa Francisco tem críticos que acreditam que sua abertura, sua humildade, seu desejo de tirar o tapete vermelho, sua preferência por uma Igreja que faz alguma coisa ainda que cometa erros… que tudo isso seja pose e truque midiático. Eu creio que ele seja sincero e de oração.

Mas a crise que ele enfrenta é maior do que é frequentemente admitido. Se Roma não consegue arrumar um lugar sequer para a Fraternidade, com quem tem em comum todas as definições dogmáticas de todos os Concílios Ecumênicos e todas as definições ex cathedra dos Pontífices Romanos, qual a possibilidade real de fazer qualquer progresso com as igrejas e comunidades eclesiásticas mais distantes doutrinalmente? A própria possibilidade de reconciliação eclesiástica, de unitatis redintegratio, está em jogo. Se Roma pode tirar a Fraternidade da jogada, então qualquer coisa pode acontecer. Mas se não… esperamos ansiosamente…

Eu consigo pensar em uma (sólida) razão porque Francisco é o homem para concluir esse episódio. Se Bento o tivesse feito, todos os estúpidos previsíveis da media católica e não católica teriam dito que isso seria só mais uma evidência de que ele é um arquirreacionário. Francisco, resolvendo isso, criará uma perplexidade entre os estúpidos previsíveis, mas sua atual reputação midiática permitiria, se assim podemos dizer, que ele escapasse dessa. Esta é a hora, no início deste pontificado, esse é o momento, o καιρός divino, para tal ação, tempo que provavelmente não se repetirá. (Há evidências de que jornalistas mais perceptivos da mídia liberal estão começando a enxergar através de sua personagem.)

É viável, para o Santo Padre, resolver o “problema” da Fraternidade dentro de dias. O Romano Pontífice tem regularmente uma audiência, creio que quinta-feira à noite, com o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Próxima quinta, ele poderia dar suas ordens ao Arcebispo Müller. Na audiência seguinte, assinaria os documentos[5]. Na quarta seguinte, na Audiência Geral, entre os beijinhos nos bebês e os afagos nos aleijados, ele poderia abraçar em público Sua Excelência Monsenhor Fellay e os outros Reverendos e Reverendíssimos líderes da Fraternidade, na frente de todas as câmeras do mundo e dos jornalistas coçando a cabeça. E, assim como eletrizou o mundo com sua escolha dos pés a lavar e beijar em sua primeira Quinta-feira Santa, Francisco poderia usar uma dúzia de jovens clérigos da Fraternidade no lava-pés de sua segunda Quinta-feira Santa. (Afinal de contas, Paulo VI, quando dos festejos do levantamento das excomunhões de 1054 em Roma, desconcertou o pobre metropolita Meliton ao se prostrar por terra e beijar seus pés… humildade… você sabe, isso faz sentido…)

Então, ele poderia pronunciar um discurso sobre a Reconciliação. Poderia entrar para a história como seu Discurso da Barba de Aarão[6].

Ou, se o Santo Padre não for aventureiro o bastante ou não for suficientemente autônomo para fazer isso, o levantamento da excomunhão de Lefebvre [e do “Leão de Campos”, como é de se supor] poderia ser um primeiro e gracioso gesto.

E, por mais vácuas e pueris que você pense serem as minhas observações e opiniões, mais eu creio que você deva parar de rir e encarar as questões que eu levantei: existe um Plano, outro que não o de esperar por décadas para mudar em séculos a ruptura cristalizada? E: o Vaticano II é modelo de Ecumenismo?


* * *

[1] [N.T.] Pe. John Hunwicke é sacerdote do Ordinariato Pessoal Nossa Senhora de Walsingham para ex-anglicanos na Inglaterra e País de Gales. Quando da ereção do ordinariato, teve sua ordenação postergada por seu “exagerado” fervor católico.

[2] Há ainda um aspecto canônico e pastoral disso. Escritores contrários à Fraternidade comumente afirmam que os casamentos da Fraternidade são inválidos. Mas se a Fraternidade está fora da Igreja, então são tão válidos quanto os casamentos metodistas ou luteranos. E as absolvições são tão válidas quanto a práxis vaticana julga as absolvições ortodoxas [sic]. Não seria, de qualquer forma, um admirável gesto pastoral para a Semana da Unidade dos Cristãos que Roma concedesse jurisdição nestas matérias aos padres da Fraternidade e emitisse uma sanatio para todos os casamentos prévios da Fraternidade? Isto teria a mesma grandiosidade, a mesma generosidade, que o levantamento das excomunhões por Bento XVI.

[3] https://fratresinunum.com/2013/12/23/prefeito-da-congregacao-para-a-doutrina-da-fe-dom-muller-lefebvrianos-sao-cismaticos-de-facto-o-fundador-da-teologia-da-libertacao-sempre-foi-ortodoxo/

[4] [N.T.] Nó górdio é uma metáfora de base mitológica para um problema insolúvel, no caso as excomunhões.

[5] Como os vaticanistas frequentemente assinalam, a solução óbvia seria de “conceder” à Fraternidade precisamente aquilo que, de facto, ela já tem. Isso preservaria a Santa Sé da indignidade das negociatas e reduziria muito consideravelmente o risco de rachas dentro da própria Fraternidade. Dever-se-ia incluir somente duas outras provisões extra, ambas tiradas da Anglicanorum Coetibus: (1) exigir que a Fraternidade delibere junto aos ordinários locais sobre o desenvolvimento de sua missão sem conceder aos ordinários nenhuma possibilidade real de veto; e (2) proporcionar ao Conselho da Fraternidade que envie uma terna à Roma quando de uma vacância episcopal. Poderia, então, ser finalmente nomeado um substituto para Monsenhor Williamson.

[6] [N.T.] Referência ao salmo que dá nome a este site.

* Nosso agradecimento a um caro amigo por sua gentileza e generosidade ao fornecer esta tradução.

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