Posts tagged ‘Vaticano II’

14 dezembro, 2013

Roberto de Mattei no Brasil e o fim do tabu sobre o Vaticano II.

Apresentamos a seguir algumas anotações das conferências proferidas pelo Professor Roberto de Mattei em sua jornada por algumas capitais brasileiras.

ALGUNS TÓPICOS DAS CONFERÊNCIAS

“Os documentos não são tudo!”

“E hoje ainda não saímos da Revolução Francesa. Diria ainda mais: me parece que a essência do Vaticano II está precisamente na tentativa de conciliar a Igreja com o mundo moderno nascido na Revolução Francesa, o mundo que a Igreja sempre havia combatido e que hoje deixou de combater. A herança mais pesada que o Concílio nos deixou é, na minha opinião, a perda do espírito militante na Igreja.”

“A Tradição não é apenas a regra fidei da Igreja; é também o fundamento da sociedade. É o critério de juízo sobre a História dessa mesma sociedade.”

“Não se pode sujeitar a verdade divina e imutável aos fatos ou aos eventos, por mais avassaladores e epocais que estes sejam. É a verdade que deve julgar os fatos e a História. A História, por seu lado, serve para nos recordar que o que aconteceu ontem pode se repetir hoje. Que ontem, como hoje e amanhã, nos tempos de crises e dificuldades há sempre uma, e só uma, regra da fé. O critério para discernir o que é católico e o que não é: a fidelidade à Tradição, que é a fidelidade às verdades entregues por Cristo à sua Igreja com essas palavras: ‘O Céu e a Terra passarão, as minhas palavras não passarão’”.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Reforma Litúrgica de 1969

“Eu não vejo bem como se pode aplicar o conceito de hermenêutica da continuidade tendo em vista que a reforma litúrgica foi uma descontinuidade com a tradição litúrgica da Igreja.”

“A essência histórica do Concílio Vaticano II é uma essência revolucionária.”

Sobre a Hermenêutica da Continuidade

“Queria chamar a atenção para o último discurso que o papa Bento XVI fez no dia 14 de fevereiro, alguns dias depois da sua renúncia ao clero romano. Esse discurso é a confissão do fracasso da hermenêutica da continuidade. Nesse discurso Bento XVI admite a crise na Igreja, mas afirma que a causa é a substituição de um Concílio real pelo Concílio virtual (da mídia). O concílio virtual teria ganhado. O problema é que o Concílio virtual é uma realidade tão real quanto o Concílio propriamente com união dos bispos. E isso Sua Santidade parece não reconhecer. Penso que uma das causas da sua renúncia é esse fracasso da hermenêutica da continuidade, portanto, uma consequência desse fracasso.”

“Não me interesso pela questão hermenêutica [de continuidade ou ruptura]; interesso-me pela ‘hermenêutica dos fatos’. Não sigo a hermenêutica da continuidade e não creio que o Papa Francisco a siga”.

Sobre o Papa Francisco

“O Papa Francisco está envolto por uma aura de mistério e o primeiro mistério é a renúncia do papa Bento XVI; o segundo mistério é o que aconteceu dentro do Conclave. Tem-se um pouco a impressão que aconteceu algo de misterioso no Conclave.”

“O problema não é ele não ser romano [de nascimento], mas não ter o espírito romano. O Papa Bento XVI não seguia a escola romana [de teologia], era de outra escola. Questiono, sem ironia, a que escola o Papa Francisco pertence, se é que ele pertence a alguma.”.

Sobre a reforma da cúria

“A reforma de Francisco é diferente da de Paulo VI. Paulo VI substituía conservadores por progressistas. Francisco não quer nem conservadores nem progressistas”.

Sobre os frutos positivos do Vaticano II

“Não me parece interessante saber se há elementos positivos ou negativos no Concílio, porque como o juízo sobre o Concilio é globalmente negativo, se houver elementos positivos, isso o torna mais perigoso. Ressalvo que este se trata de um juízo histórico e global sobre o Concílio.”

Sobre o documento Sacrossantum Concilium

“Esse documento já abre uma brecha, porque confere às Conferencias Episcopais e, em alguns casos, a possibilidade de mudar a língua latina pelo vernáculo. O que aconteceu depois foi certamente muito além do que está no documento, mas penso que as ideias têm uma lógica férrea e já a Sacrossantum Concilium contém alguns efeitos que veríamos depois. Do ponto de vista teológico, o momento de descontinuidade é a promulgação do documento Missale Romano, em 1969, introduzindo completamente a Missa Nova, mas do ponto de vista histórico e psicológico, o momento de ruptura ocorre anos 1965 e 1966, quando, em alguns países, como a Itália, se introduz a missa ordinária em vernáculo.”

A caixa de comentários está aberta aos leitores que desejem acrescentar outras notas sobre aspectos marcantes das conferências.

* * *

CONFERÊNCIA NO RIO DE JANEIRO:

PERGUNTAS E RESPOSTAS NO RIO DE JANEIRO:

Os organizadores estimam que a última conferência, na cidade de São Paulo, contou coma presença de 500 pessoas, contando inclusive com a participação de diversos clérigos devidamente identificados. Roberto de Mattei destacou a sua surpresa e contentamento pela juventude católica bem formada e pujante que encontrou no Brasil. 

10 dezembro, 2013

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: uma perspectiva histórica sobre o Concílio Vaticano II.

“Sem o Vaticano II não conseguimos compreender o Papa Francisco; não conseguimos compreender a crise atual na Igreja. Essa crise existe, está diante dos nossos olhos e não tem precedentes na História; ela é uma crise que a todos nos diz respeito como homens e como cristãos.”

Por Fratres in Unum.com –  Realizou-se na tarde do último domingo, dia 8, no Rio de Janeiro, a tão aguardada conferência do Professor Roberto de Mattei. O salão de conferências do Hotel Flórida ficou repleto e os organizadores estimam que cerca de duzentas pessoas estiveram presentes para prestigiar o renomado historiador e professor titular de História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma.

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: evento contou com cerca de 200 assistentes.

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: evento contou com cerca de 200 assistentes.

Após a apresentação dos componentes da mesa pelo Sr. Mario Dias de Oliveira, Presidente do Instituto Vera Fides, teve inicio pontualmente às 16:30h a palestra do Prof. Roberto de Mattei, que foi proferida em língua portuguesa, para admiração dos presentes. Durante mais de uma hora, Roberto de Mattei falou interruptamente com suma clareza e objetividade sobre o evento mais marcante para a Igreja Católica no último século.

Inicialmente, de Mattei abordou a finalidade dos Concílios em geral — confirmar uma doutrina ou corrigir um erro, ainda que eles não fossem privados da dimensão pastoral. Ao contrário dos anteriores, o Concílio Vaticano II [1] preferiu expressar-se da maneira “pastoral”, adaptando sua linguagem ao homem moderno, priorizando, assim, esta dimensão em relação àquela doutrinal. Consequentemente, o Concílio deixou de condenar problemas gravíssimos, como, por exemplo, o comunismo. João XXIII já preconizava essa postura na abertura da Assembléia: “Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações”.

Sucesso de público: cadeiras tiveram que ser adicionadas e o espaço ficou pequeno.

Sucesso de público: cadeiras tiveram que ser adicionadas e o espaço ficou pequeno.

De Mattei, então, discorreu sobre o esforço de padres conciliares conservadores a fim de pedir ao Santo Padre que o Concílio condenasse explicitamente o Comunismo. Essa iniciativa contou com o trabalho de um pequeno grupo constituído especialmente por Dom Antonio de Castro Mayer, bispo de Campos, Dom Geraldo de Proença Sigaud, bispo de Diamantina e pelo Prof. Plínio Correa de Oliveira, que consultaram centenas de Padres Conciliares sobre a oportunidade do Concílio se pronunciar contra a ideologia que dizimou milhões de homens no século passado. A essa iniciativa somou-se outra correlata, que pedia a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Ambas não lograram êxito. De Mattei discorreu também sobre as evidências de um acordo (o Pacto de Metz) [2] entre Roma e a Igreja Ortodoxa, segundo o qual o Concílio se absteria de condenar o comunismo em troca da participação de observadores do Patriarcado de Moscou.

Em seguida, foram abordadas questões como, por exemplo, a infiltração do comunismo nas estruturas a Igreja e o apoio de prelados vermelhos, como Dom Helder Câmara.

O professor explanou sobre o jogo de forças entre os dois grupos principais: progressistas – sobretudo de língua alemã — e conservadores, e o que ele chamou de Terceiro Partido, um grupo de Padres Conciliares sem muitas pretensões ideológicas e que se deixavam guiar pelo lobby dos dois anteriores.

Como ponto de destaque, o professor de Mattei salientou que o Concílio Vaticano II não pode ser visto apenas como aquilo que está escrito em seus documentos, mas sim como um evento global, que abrange diversos aspectos, incluindo suas consequências. Para exemplificar, ele falou da Revolução Francesa, comentando que “não é preciso que se leia ou se tenha conhecimento dos estatutos e documentos que a ensejaram; todos sabem o que a Revolução Francesa realmente significou, a julgar por seus frutos.” Pois bem, assim é o Concílio. Não se pode restringi-lo apenas aos seus documentos.

O professor deixou claro que sua análise do Concílio era sob o ponto de vista histórico, e que a ele não competia analisar o valor intrínseco de seus documentos, que deveriam ser analisados por teólogos e pela própria Igreja, em caráter dogmático.

Como uma das consequências mais prejudiciais do Vaticano II, o professor citou a substituição do conceito de “Igreja Militante” pelo de “Igreja Peregrina”. No início da palestra, citando o Padre O’Malley, ele comentou sobre o estilo dos documentos conciliares, que seria uma revolução na linguagem dos documentos da Igreja. A omissão ou limitação de referências ao Inferno, mesmo sem ser uma heresia, pode levar a caminhos graves, ou seja, a ideia de que ele não existe porque não se fala dele.

Uma longa fila formou-se para o autógrafo.

Uma longa fila formou-se para o autógrafo.

Após um pequeno intervalo, houve uma sessão de perguntas e respostas. O professor de Mattei respondeu a todas com muita clareza e simplicidade, ainda que fossem polêmicas ou delicadas. Uma das perguntas versava sobre a declaração do então Papa Bento XVI ao clero de Roma, a qual reclamava a existência de um Concílio Real e um Concílio da Mídia. O professor de Mattei respondeu que até se pode falar de um Concílio da Mídia [inventado pelos meios de comunicação], mas que este está também incluído dentro do único Concílio – o Concílio Real -, que deve ser analisado como um evento global.

A pedido do próprio Prof. de Mattei, as respostas foram dadas em italiano para melhor clareza e gentilmente traduzidas para o português pelo Dr. Mario Navarro da Costa, diretor de campanhas do IPCO, que atuou como intérprete para as perguntas e respostas.

O evento marcou ainda o lançamento do livro “Apologia da Tradição, um post-scriptum do livro Concílio Vaticano II – Uma História Nunca Escrita”, da Editora Ambientes & Costumes. Ao final dessa sessão, seis participantes foram sorteados com livros do autor, que foram entregues por cada um dos organizadores que compuseram a mesa.

Ao final, uma longa fila se formou para que todos pudessem ter seus livros autografados e cumprimentar pessoalmente o ilustre palestrante. Enquanto isso, os demais participantes puderam desfrutar de um café oferecido pelos organizadores e, assim, trocar ideias sobre a excelente conferência.

Da esquerda para a direita: Sra. Teresa Maria Freixinho (Fratres in Unum), Sr. Rodolpho Loreto (Instituto Vera Fides), S.A.I.R. Dom Antônio de Orleans e Bragança, Sr. Márcio Coutinho (Ação Jovem pela Terra de Santa Cruz) e o Sr. Mario Dias de Oliveira (Presidente do Instituto Vera Fides e Mestre de Cerimônias do Evento).

Da esquerda para a direita: Sra. Teresa Maria Freixinho (Fratres in Unum), Sr. Rodolpho Loreto (Instituto Vera Fides), S.A.I.R. Dom Antônio de Orleans e Bragança, Sr. Márcio Coutinho (Ação Jovem pela Terra de Santa Cruz) e o Sr. Mario Dias de Oliveira (Presidente do Instituto Vera Fides e Mestre de Cerimônias do Evento).

Agradecemos a todos os leitores do Fratres in Unum que participaram do evento no Rio de Janeiro e deixamos a caixa de comentários aberta a estes e também àqueles que estiveram ontem na palestra no Recife, para nos relatem suas impressões. Lembrando ainda que, conforme noticiamos anteriormente, hoje a palestra será em Brasília e na quinta-feira em São Paulo.

* * *


[1] O Concílio Vaticano II se realizou em Roma, de 11 de outubro de 1962 a 8 de dezembro de 1965 e contou a participação de 2.500 Padres Conciliares sob a orientação dos papas João XXIII e Paulo VI. Ele foi o vigésimo primeiro Concílio da Igreja.

[2] Este acordo se deu na cidade francesa de Metz, em agosto de 1962, e seus negociadores foram o Cardeal Tisserant, representando o Vaticano, e o arcebispo ortodoxo Nicodemo, que, conforme comprovado por documentação dos arquivos de Moscou, era um agente do KGB.

6 dezembro, 2013

Entrevista de Dom Bernard Fellay, superior da FSSPX, sobre o Papa Francisco.

Mons. Fellay sobre Francisco: «Este não é um homem de doutrina»

Traduzido do original francês por Carlos Wolkartt – Blog Renitência

Esta entrevista foi realizada em vídeo pelo site dici.org, no qual também está disponível a gravação em áudio. Apresentamos a seguir a transcrição completa, onde o estilo oral foi mantido.
A chegada de um novo Papa
Mons. Fellay, Superior da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, em entrevista ao portal DICI (novembro de 2013).

Mons. Fellay, Superior da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, em entrevista ao portal DICI (novembro de 2013).

A chegada de um novo Papa é como recomeçar a contar do zero. Especialmente com um Papa que se distingue de seus predecessores por sua forma de atuar, falar e intervir, com grande contraste. Isso pode fazer com que esqueçamos o pontificado anterior, e é basicamente isso que está acontecendo. Pelo menos em relação a certas linhas conservadoras ou reformistas marcadas pelo Papa Bento XVI. É certo que as primeiras intervenções do Papa causaram muita confusão e inclusive quase contradição, em todo caso, uma oposição em relação a essas linhas reformistas.

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29 outubro, 2013

Cardeal Pell responde a Dom Fellay. Sobre Vaticano II: “Você não tem que aceitar todo ‘pingo’ ou ‘til’ dele”.

Da entrevista concedida pelo Cardeal Pell, arcebispo de Sydney e um dos oito membro do conselho de Cardeais do Papa, a Gerard O’Connell, do La Stampa:

Cardeal George Pell.

Cardeal George Pell.

Q: Dom Fellay denunciou o Papa Francisco como “um genuíno modernista” e acusou que, enquanto a Igreja estava “um desastre” antes de sua eleição, ele está tornando-a “10.000 vezes pior”. O que o senhor diz disso?

Para responder educadamente, creio que isso seja uma absoluta besteira. Francisco afirmou ser um leal filho da Igreja, e sua história o demonstra. Ele é muito, muito preocupado com a vida do dia-a-dia do povo e com aqueles que sofrem, aqueles em dificuldades financeiras e aqueles em situações difíceis. Ele é um expoente completamente fiel dos ensinamentos de Cristo e da tradição da Igreja.

Q. Então as pessoas como Fellay têm interpretado mal o Papa Francisco? 

A. Sim, uma má interpretação gigantesca! Na realidade, os lefebvristas — muitos deles — têm interpretado mal a situação por décadas. Para grande crédito de Bento XVI, ele tentou se reconciliar com eles, mas eles não responderam. Agora, a Igreja hoje aceita o Concílio Vaticano II. Você não tem que aceitar todo “pingo” ou “til” dele, mas ele faz parte da vida da Igreja atualmente, não há meia-volta nisso.

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com 

25 outubro, 2013

Dom Fellay: “Damos graças a Deus por havermos sido preservados de qualquer gênero de acordo no ano passado”.

Traduzido do original francês por Carlos Wolkartt

Durante o congresso da Angelus Press, realizado nos dias 11 e 12 de outubro de 2013, Mons. Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, deu uma conferência e um sermão dominical. Nesta ocasião, falou da situação da Igreja e do Papa Francisco. No portal Catholic Family News, John Vennari fez um resumo destas interversões sob o seguinte título: “Mons. Fellay fala do Papa Francisco: «Temos diante de nós um verdadeiro modernista!»”. Apresentamos a seguir a tradução em português desta síntese da conferência de 12 de outubro, cuja gravação integral está disponível em inglês no site DICI.

Mgr-FellayMons. Bernard Fellay alertou, em 12 de outubro: “A situação da Igreja é uma verdadeira catástrofe, e o atual Papa faz que seu estado seja dez mil vezes pior”. Declarou isto em uma alocução durante o Congresso da Angelus Press, que aconteceu nos dias 11 e 12 de outubro passado, em Kansas City.

Mons. Fellay, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, deu uma longa conferência sábado à tarde, dedicada ao Terceiro Segredo de Fátima e à profecia que parece encontrar-se nele, relativa a um castigo material e uma grande crise na Igreja.

Nosso sumário retomará alguns dos aspectos mais importantes de sua conferência de sábado, dia 12.

Monsenhor Fellay citou detalhadamente a Irmã Lúcia, os que leram o Terceiro Segredo e os que o conheceram. Observou que Irmã Lúcia havia dito que se quiséssemos conhecer o conteúdo do Terceiro Segredo, bastava ler os capítulos 8 a 13 do Apocalipse.

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13 outubro, 2013

Para debate.

Dois artigos do Dr. Arnaldo Xavier da Silveira:

SENTIR COM A IGREJA É SENTIR COM O VATICANO II ?

DA QUALIFICAÇÃO TEOLÓGICA EXTRÍNSECA DO VATICANO II

A caixa de comentários está aberta ao debate sadio e respeitoso.

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5 agosto, 2013

Cardeal Joseph Ratzinger: “Devemos mencionar os perigos que, nas últimas décadas, infelizmente, não permaneceram apenas como fantasias de tradicionalistas inimigos da reforma”.

“Parece-me muito importante que o Catecismo, ao mencionar os limites do poder da suprema autoridade da Igreja acerca da reforma, chame a atenção sobre qual é a essência do primado, assim como é enfatizado pelos Concílios Vaticano I e II: o papa não é um monarca absoluto cuja vontade é lei, mas sim o guardião da autêntica Tradição e, por isso, o primeiro fiador da obediência. Ele não pode fazer o que quiser, e justamente por isso pode se opor àqueles que pretendem fazer o que querem”.

A liturgia entre reformistas radicais e intransigentes

IHU – Foi publicado na Itália o livro de Alcuin Reid Lo sviluppo organico della liturgia. I principi della riforma liturgica e il loro rapporto con il Movimento liturgico del XX secolo prima del Concilio Vaticano II [O desenvolvimento orgânico da liturgia. Os princípios da reforma litúrgica e a sua relação com o Movimento Litúrgico do século XX antes do Concílio Vaticano II] (Cantagalli, 432 páginas). O livro tem um prefácio do então cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, que aqui publicamos.

O artigo foi publicado no sítio Vatican Insider, 26-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nas últimas décadas, a questão da correta celebração da liturgia tornou-se cada vez mais um dos pontos centrais da controvérsia em torno do Concílio Vaticano II, ou seja, de como ele deve ser avaliado e acolhido na vida da Igreja.

Há os estrênuos defensores da reforma, para os quais é uma culpa intolerável que, sob certas condições, tenha sido readmitida a celebração da Santa Eucaristia segundo a última edição do Missal antes do Concílio, a de 1962. Ao mesmo tempo, porém, a liturgia é considerada como “semper reformanda”, de modo que, no fim, é a “comunidade” individual que faz a sua “própria” liturgia, na qual ela mesma se expressa. Um Liturgisches Kompendium [compêndio litúrgico] protestante (editado por Christian Grethlein e Günter Ruddat, Göttingen, 2003) apresentou recentemente o culto como “projeto de reforma” (pp. 13-41), refletindo também o modo de pensar de muitos liturgistas católicos . Por outro lado, há também os críticos ferozes da reforma litúrgica, que não só criticam a sua aplicação prática, mas também as suas bases conciliares. Estes veem a salvação somente na rejeição total da reforma.

Entre esses dois grupos, os reformistas radicais e os seus adversários intransigentes, muitas vezes se perde a voz daqueles que consideram a liturgia como algo vivo, algo que cresce e se renova no seu ser recebida e no seu atuar-se. Estes últimos, no entanto, com base na mesma lógica, também insistem no fato de que o crescimento só é possível se for preservada a identidade da liturgia e ressaltam que um desenvolvimento adequado só é possível prestando atenção às leis que, do interior, sustentam esse “organismo”. Como um jardineiro acompanha uma planta durante o seu crescimento com a devida atenção às suas energias vitais e às suas leis, assim também a Igreja deve acompanhar respeitosamente o caminho da liturgia através dos tempos, distinguindo o que ajuda e cura, daquilo que violenta e destrói.

Se é assim, então devemos tentar definir qual é a estrutura interna de um rito, bem como as suas leis vitais, de modo a encontrar os caminhos certos para preservar a sua energia vital na mudança dos tempos para incrementá-la e renová-la. O livro do padre Alcuin Reid se coloca nesta linha. Percorrendo a história do Rito Romano (missa e breviário), desde as origens até as vésperas do Concílio Vaticano II, ele tenta estabelecer quais são os princípios do seu desenvolvimento litúrgico, obtendo, assim, da história, com os seus altos e baixos, os critérios sobre os quais toda reforma deve se basear.

O livro está dividido em três partes. A primeira, muito breve, analisa a história da reforma do Rito Romano desde as suas origens no fim do século XIX. A segunda parte é dedicada ao movimento litúrgico até 1948. A terceiro – de longe a mais extensa – trata da reforma litúrgica sob Pio XII até as vésperas do Concílio Vaticano II. Esta parte se revela muito útil, justamente porque tal fase da reforma litúrgica não é mais muito lembrada, apesar de que justamente nela – assim como na história do movimento litúrgico, evidentemente – se encontram todas as questões acerca das modalidades corretas para uma reformas, fazendo com que seja possível adquirir também critérios de julgamento.

A decisão do autor de se deter no limiar do Concílio Vaticano II é muito sábia. Ele evita, assim, entrar na controvérsia ligada à interpretação e à recepção do Concílio, ilustrando o momento histórico e a estrutura das várias tendências, o que é determinante para a questão acerca dos critérios da reforma.

No fim do seu livro, o autor elenca os princípios para uma correta reforma: ela deve ser igualmente aberta ao desenvolvimento e à continuidade com a Tradição; deve saber-se ligada a uma tradição litúrgica objetiva e fazer com que a continuidade substancial seja salvaguardada.

O autor, depois, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica, sublinha que “mesmo a suprema autoridade da Igreja não deve modificar a liturgia arbitrariamente, mas somente em obediência à fé e com respeito religioso pelo mistério da liturgia” (CC, n. 1.125). Como critérios adicionais encontramos, enfim, a legitimidade das tradições litúrgicas locais e o interesse pela eficácia pastoral.

Eu gostaria de ressaltar ainda, do meu ponto de vista pessoal, alguns dos critérios já brevemente indicados da renovação litúrgica. Vou começar com os dois últimos critérios fundamentais. Parece-me muito importante que o Catecismo, ao mencionar os limites do poder da suprema autoridade da Igreja acerca da reforma, chame a atenção sobre qual é a essência do primado, assim como é enfatizado pelos Concílios Vaticano I e II: o papa não é um monarca absoluto cuja vontade é lei, mas sim o guardião da autêntica Tradição e, por isso, o primeiro fiador da obediência. Ele não pode fazer o que quiser, e justamente por isso pode se opor àqueles que pretendem fazer o que querem.

A lei à qual deve se ater não é o agir ad libitum, mas sim a obediência da fé. Razão pela qual, com relação à liturgia, ele tem a tarefa de um jardineiro e não de um técnico que constrói máquinas novas e joga fora as velhas. O “rito”, ou seja, a forma de celebração e de oração que amadurece na fé e na vida da Igreja, é forma condensada da Tradição viva, na qual a esfera do rito expressa o conjunto da sua fé e da sua oração, tornando assim experimentável, ao mesmo tempo, a comunhão entre as gerações, a comunhão com aqueles que rezam antes de nós e depois de nós. Assim, o rito é como um dom feito à Igreja, uma forma viva de parádosis.

É importante, a esse respeito, interpretar corretamente a “continuidade substancial”. O autor nos adverte expressamente com relação ao caminho equivocado no qual podemos ser conduzidos por uma teologia sacramental neoescolástica separado da forma viva da liturgia. Partindo dela, se poderia reduzir a “substância” à matéria e à forma do sacramento e dizer: o pão e o vinho são a matéria do sacramento, as palavras da instituição são a sua forma; somente essas duas coisas são necessárias, todo o resto pode até mudar. Sobre esse ponto, modernistas e tradicionalistas se encontram de acordo. Basta que haja a matéria e que sejam pronunciadas as palavras da instituição: todo o resto é “à vontade”. Infelizmente muitos sacerdotes hoje agem com base nesse esquema, e até as teorias de muitos liturgistas, infortunadamente, se movem nessa direção.

Eles querem superar o rito como algo rígido e constroem produtos da sua imaginação, considerada pastoral, em torno desse núcleo residual, que é, assim, relegado ao reino da magia, ou privado totalmente do seu significado. O movimento litúrgico tinha tentado superar esse reducionismo, produto de uma teologia sacramental abstrata, e nos ensinar a considerar a liturgia como o conjunto vivo da Tradição que se fez forma, que não pode ser rasgado em pequenos pedaços, mas que deve ser visto e vivido na sua totalidade viva.

Quem, como eu, na fase do movimento litúrgico às vésperas do Concílio Vaticano II, ficou impressionado com essa concepção só pode constatar com profunda dor a destruição daquilo que estava em seu coração.

Eu gostaria de comentar brevemente outras duas intuições que aparecem no livro do padre Alcuin Reid. O arqueologismo e o pragmatismo pastoral – este último, no entanto, é muitas vezes um racionalismo pastoral – são ambos incorretos. Poderiam ser descritos como um par de gêmeos profanos. Os liturgistas da primeira geração eram, em sua maioria, historiadores e, consequentemente, propensos ao arqueologismo.

Eles queriam desenterrar as formas mais antigas na sua pureza original; viam os livros litúrgicos em uso, com os seus ritos, como expressão de proliferações históricas, fruto de mal-entendidos e ignorância passados. Tentava-se reconstruir a mais antiga Liturgia romana e limpá-la de todos os acréscimos posteriores. Não era algo totalmente equivocado; mas a reforma litúrgica é, contudo, algo diferente de uma escavação arqueológica, e nem todos os desenvolvimentos de algo vivo devem seguir a lógica de um critério racionalista/historicista.

Essa é também a razão pela qual – como o autor observa com razão – na reforma litúrgica a última palavra não deve ser deixada aos especialistas. Especialistas e pastores têm, cada um, o seu próprio papel (assim como, na política, os técnicos e aqueles que são chamados a decidir representam dois níveis diferentes). Os conhecimentos dos estudiosos são importantes, mas não podem ser imediatamente transformados em decisões dos pastores, que têm a responsabilidade de ouvir os fiéis na implementação com inteligência junto com eles do que hoje ajuda a celebrar os Sacramentos com fé ou não.

Uma das debilidades da primeira fase da reforma depois do Concílio foi que quase somente os especialistas tinham voz no capítulo. Teria sido desejável uma maior autonomia por parte dos pastores. Porque, muitas vezes, obviamente, é impossível elevar o conhecimento histórico ao posto de nova norma litúrgica, esta “arqueologismo” se vinculou muito facilmente ao pragmatismo pastoral. Decidiu-se, em primeiro lugar, eliminar tudo o que não era reconhecido como original e, consequentemente, como “substancial”, para depois integrar a “escavação arqueológica” – quando ainda parecesse insuficiente – com o “ponto de vista pastoral”.

Mas o que é “pastoral”? Os julgamentos intelectualistas dos professores sobre essas questões eram muitas vezes determinados pelas suas considerações racionais e não levavam em conta o que realmente sustenta a vida dos fiéis. De modo que, hoje, após a vasta racionalização da liturgia na primeira fase da reforma, estamos novamente em busca de formas de solenidade, de atmosferas “místicas” e de uma certa sacralidade.

Mas uma vez que existem – necessariamente e cada vez mais evidentes – julgamentos largamente divergentes sobre o que é pastoralmente eficaz, o aspecto “pastoral” tornou-se uma fenda para a irrupção da “criatividade”, que dissolve a unidade da liturgia e nos coloca muitas vezes diante de uma deplorável banalidade. Com isso, não queremos dizer que a liturgia eucarística, assim como a liturgia da Palavra, não sejam muitas vezes celebradas a partir da fé, de modo respeitoso e “bonito”, no melhor sentido da palavra.

Mas, como estamos buscando os critérios da reforma, também devemos mencionar os perigos que, nas últimas décadas, infelizmente, não permaneceram apenas como fantasias de tradicionalistas inimigos da reforma. Gostaria de me deter ainda sobre o fato de que, naquele compêndio litúrgico acima mencionado, o culto foi apresentado como “projeto de reforma”, isto é, como um canteiro de obras onde sempre há muito a fazer. Semelhante, embora um pouco diferente, é a sugestão, por parte de alguns liturgistas católicos, de adaptar a reforma litúrgica à mudança antropológica da modernidade e de construí-la de modo antropocêntrico.

Se a liturgia aparece sobretudo como o canteiro de obras do nosso agir, então isso significa que esquecemos do essencial: Deus. Porque, na liturgia, não se trata de nós, mas sim de Deus. O esquecimento de Deus é o perigo mais iminente do nosso tempo. A essa tendência, a liturgia deveria opor a presença de Deus. Mas o que acontece se o esquecimento de Deus entra até mesmo na liturgia, se na liturgia pensamos apenas em nós mesmos?

Em toda reforma litúrgica e em toda celebração litúrgica, o primado de Deus deveria sempre ocupar o primeiríssimo lugar. Com isso, foi muito além do livro do padre Alcuin. Mas acredito que, no entanto, tenha ficado claro que este livro, com a riqueza das suas ideias, nos ensina critérios e nos convida a uma reflexão posterior. Por isso eu recomendo a sua leitura.

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Atenção: blog em recesso ao longo de todo o mês de agosto.

27 junho, 2013

Cardeal Ranjith e a Sacra Liturgia.

Ocorre em Roma, de terça a sexta-feira desta semana [25 a 28], na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, a conferência Sacra Liturgia, que reúne renomados liturgistas do mundo todo. Da interessante conferência do Cardeal Malcom Ranjith, Arcebispo de Colombo, Sri Lanka, destacamos apenas alguns pontos para instigar os leitores à sua leitura na íntegra — aos que puderem traduzir outros trechos, agradecemos antecipadamente.

* * *

“Se tais improvisações tornassem a Liturgia verdadeiramente mais eficaz e interessante, então, por que com tais experimentações e criatividade o número dos participantes aos domingos caiu tanto e tão drasticamente em nossos dias?”

LATIM E LITURGIA

Cardeal Ranjith.

Cardeal Ranjith.

A respeito do uso do latim na liturgia, vale a pena sublinhar o que foi decretado pelo Concílio: “Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular” (Sacrosanctum Concilium, n. 36), e consentia no uso do vernáculo para as leituras, monições e algumas orações e cantos. Naturalmente, confiava à competente autoridade eclesiástica territoriais decidir se e em que medida o vernáculo seria usado na Liturgia, todavia, sempre com a aprovação da Santa Sé. Mesmo relativamente ao canto gregoriano, o Concílio é prudente enquanto, mesmo admitindo outros gêneros de música sacra, sobretudo a polifonia, afirma que a Igreja “reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano”, pelo que “terá este, na ação litúrgica, o primeiro lugar” (Sacrosanctum Concilium, n. 116). Tal concepção limitada do Concílio para o uso do vernáculo na Liturgia foi aventureiramente estendida pelos reformadores; tendo o latim quase totalmente desaparecido da cena, permaneceu como o órfão mais amado na Igreja. Digo isto não porque eu seja um fanático do latim; provenho de uma terra de missão, na qual o latim não é compreendido por quase toda a minha comunidade. Mas é um erro crer que uma língua deva sempre ser compreendida por todos. A língua, como sabemos, é um meio de comunicação de uma experiência que, quase sempre, é mais ampla do que a própria palavra. Língua e palavra são, portanto, secundárias e, em ordem de importância, estão, depois, a experiência e a pessoa. A língua leva consigo sempre uma originalidade do acontecimento. Por exemplo, o termo “OM” é intraduzível para a liturgia hinduísta; além disso, as religiões orientais usam uma língua que é estritamente limitada às suas formas de oração e de culto: o hinduísmo usa o sânscrito, o budismo o pali, e o islã o árabe corânico. Nenhuma destas línguas é falada hoje, e são usadas somente em sua forma cultual; cada uma destas línguas é respeitada e reservada, desde o início, pela expressão de “algo que está para além do som e das letras”. O judaísmo, por exemplo, usa o tetragrama YHWH para indicar o impronunciável nome de Deus. Por si mesmas, as quatro letras do sagrado tetragrama não têm nenhuma nuance linguística, mas constituem o nome santíssimo de Deus na tradição escrita da Massorá.

O uso litúrgico do latim na Igreja, mesmo que tenha se iniciado em torno no século IV, dá origem a uma série de expressões que são únicas e constituem a própria fé da Igreja. O vocabulário do Credo é claramente cheio de expressões em latim que são intraduzíveis. O papel da lex orandi em determinar a lex credendi da Igreja é validíssimo no caso do uso do latim na Liturgia, porque a doutrina é frequentemente mais compreendida na experiência de oração. Por tal razão, um sadio equilíbrio entre o uso do latim e do vernáculo deveria ser, segundo meu ponto de vista, mantido. A reintrodução do usus antiquor feita pelo Papa Bento XVI não era, então, um passo para trás, como alguns definiram, mas uma iniciativa que restituía à Sacra Liturgia um sentido de estupor místico, uma tentativa de impedir uma clara banalização daquilo que é fundamental para a vida da Igreja. Deve-se honrar e impulsionar tal iniciativa do Pontífice, que também pode conduzir à evolução de um novo movimento litúrgico, que poderia desembocar na “reforma da reforma”, desejo ardente do papa Ratzinger. De fato, alguns elementos do usus antiquor refletem melhor o sentido de maravilhamento e devoção com o qual nós somos chamados a re-presentar os acontecimentos do Calvário em nossas celebrações eucarísticas. E porque aceitamos os diversos desenvolvimentos positivos do novus ordo, como, por exemplo, o mais amplo uso do texto bíblico e um maior espaço à participação da comunidade nos vários momentos da Missa, deveríamos também assegurar que aquilo que acontece sobre os nossos altares não perca a própria capacidade de causar uma verdadeira transformação espiritual da comunidade. E é por isso que se torna necessária uma mutualidade dos elementos mais positivos das duas formas: isto é a “reforma da reforma”. A própria definição das duas formas como usus antiquor e novus ordo, para mim, é errônea, porque o sacrifício do Calvário nunca é antigo, mas é sempre novo e atual.

CONCEPÇÕES ERRÔNEAS

Outro aspecto do processo de uma verdadeira renovação profunda da Igreja, por causa do papel decisivo que o culto desempenhou em sua vida e missão, é a necessidade de purificar a Liturgia de algumas concepções errôneas que penetraram pela euforia das reformas introduzidas por alguns liturgistas depois do Concílio – coisa que, é necessário reconhecê-lo, nunca esteve na mente dos padres conciliares quando aprovaram a histórica Constituição litúrgica Sacrosanctum Concilium.

a. Arqueologismo

A lista é aberta por um tipo de falso “arqueologismo” que tinha por slogan “voltemos à Liturgia da Igreja primitiva”. Escondia-se aqui a interpretação de que somente aquilo que se celebrava na Liturgia do primeiro milênio da Igreja fosse válido, pensava-se que o retorno a isto fizesse parte do aggiornamento. A Mediator Dei ensina que esta interpretação é errada: “A liturgia da época antiga é, sem dúvida, digna de veneração, mas o uso antigo não é, por motivo somente de sua antiguidade, o melhor, seja em si mesmo, seja em relação aos tempos posteriores e às novas condições verificadas” (Cf. Pio XII, S.S., Encíclica Mediator Dei, Enchiridion Encicliche, vol 6, Bolonha 1995, n. 487). Além disso, já que as informações sobre a práxis litúrgica dos primeiros séculos não são claramente atestadas nas fontes escritas do tempo, o perigo de um arbítrio simplista em definir tais práxis é ainda maior e corre o risco de ser uma pura conjectura. Além disso, não é respeitoso do processo natural de crescimento das tradições da Igreja nos séculos sucessivos. Nem está em consonância com a fé na ação do Espírito Santo ao longos dos séculos. E é, além de tudo, altamente pedante e irrealista.

b. Sacerdócio ministerial

Uma outra concepção errônea de reformismo em matéria de Liturgia é a tendência a confundir o altar com a nave. Observa-se frequentemente que a distinção essencial na Liturgia entre o papel do clero e dos leigos é confuso, por causa de uma compreensão errônea da diferença entre o ofício sacerdotal de todos os fiéis (sacerdócio comum) e o ofício do clero (sacerdócio ministerial): uma diferença muito bem explicada na Lumen Gentium. Este documento esclarece que o sacerdócio comum de todos os batizados foi sempre afirmado pela Igreja (cf. Ap 1,6; 1 Pd 2,9-10; Mediator Dei, nn. 39-41; e Lumen Gentium, n. 10), assim como o sacerdócio ministerial; os quais, cada um a seu modo, participam “do único sacerdócio de Cristo”… “embora se diferenciem essencialmente e não apenas em grau” (Lumen Gentium, n. 10). A Constituição litúrgica do Concílio afirma que a Liturgia prevê uma distinção entre as pessoas “que deriva do ofício litúrgico e da sagrada ordem” (Sacrosanctum Concilium, n. 32). A Mediator Dei era ainda mais categórica, afirmando que: “Ai soli Apostoli ed a coloro che, dopo di essi, hanno ricevuto dai loro successori l’imposizione delle mani, è conferita la potestà sacerdotale” (Mediator Dei, in Enchiridion Encicliche, vol. 6, Bolonha 1995, n. 468).

O resultado de tais confusões de papéis na época moderna é a tendência a clericalizar os leigos e a laicizar o clero. Índice de tais confusões é a sempre maior remoção das balaustradas dos altares dos nossos presbitérios e o fato de as pessoas permanecerem sentadas ou agachadas por terra em torno do altar; são pessoas demais a entrar e circular no presbitério, causando distração e distúrbio em nossas funções litúrgicas. A Santa Eucaristia, em tais situações, se torna um espetáculo, e o sacerdote um showman. O sacerdote não é mais como no passado – como escreveu K. G. Rey, em seu artigo Coming of age manifestations in the Catholic Church –: “ o mediador anônimo, o primeiro entre os fiéis diante de Deus e não do povo, representante de todos, que oferece com eles o sacrifício, recitando as orações prescritas. Hoje, ele é uma pessoa distinta, com características pessoais, o seu estilo de vida pessoal, com o seu próprio rosto voltado ao povo. Para muitos sacerdotes, esta mudança é uma tentação que não sabem gerenciar… se torna para eles o nível de sucesso do próprio poder pessoal e, por isso, o indicador do sentimento de segurança pessoal e de autoestima” (K. G. Rey, Pubertätserscheinungeng in der Katolischen Kirche, Kritische Texte, Benzinger, vol. 4, p. 25). O padre, aqui, se torna o ator principal, que recita um drama  com outros atores sobre o altar, e quanto mais são capazes e sensacionais, tanto mais sentem que recitaram bem. Em um cenário assim, o papel central de Cristo desaparece, e também, se num primeiro momento isso parece agradável, à longo prazo se torna extremamente banal e cansativo.

c. Actuosa participatio

(…)

Existem pessoas, também em nosso tempo, que desejam tornar a Liturgia mais interessante ou apetecível; fazem suas próprias regras, correndo, assim, o risco de esvaziar a Liturgia de seu essencial dinamismo interior, com o resultado final de que as chamadas formas de culto se tornam, por fim, insípidas e maçantes. Se tais improvisações tornassem a Liturgia verdadeiramente mais eficaz e interessante, então, por que com tais experimentações e criatividade o número dos participantes aos domingos caiu tanto e tão drasticamente em nossos dias? Esta é a pergunta que  devemos enfrentar com coragem e humildade. É justo considerar os requisitos antropológicos de uma sã Liturgia, sobretudo em relação aos símbolos, as rubricas e à participação; mas não se deve ignorar o fato de que estes não teriam significado sem uma correlação à chamada essencial de Cristo para unirmo-nos a Ele em Sua incessante Ação Sacerdotal.

Fonte: Diocese Suburbicária de Porto-Santa Rufina | Tradução e destaques: Fratres in Unum.com

23 junho, 2013

Francisco: “Paulo VI amou a Igreja e se gastou por ela sem reservas”

IHU – Cerca de 5 mil peregrinos da diocese de Bréscia chegaram ontem a Roma para celebrar o 50º aniversário da eleição do venerável servo de Deus o Papa Paulo VI. Nesta manhã, às 11 horas, recordando aquele evento, Mons. Luciano Monari, bispo de Bréscia, celebrou a Santa Missa no altar da Confissão da Basílica de São Pedro.

A reportagem é de Jesús Bastante e publicada por Religión Digital, 22-06-2013. A tradução é de Benno Dischinger.

Junto a ele concelebraram outros 3 bispos e uma centena de sacerdotes. Também estava presente o cardeal Giovanni Battista Re. Passado o meio-dia, o Santo Padre Francisco, calorosamente recebido, entrou na Basílica para saudar os peregrinos e dirigir-lhes um discurso.

O Bispo de Roma agradeceu a oportunidade de poder compartilhar a memória do Venerável Servo de Deus Paulo VI com a diocese de Bréscia, da qual era oriundo o Papa Montini, diocese que peregrina a Roma no Ano da Fé. “Teria tantas coisas que dizer e recordar deste grande Pontífice”, disse o Papa Francisco. E limitou-se a destacar três aspectos fundamentais que nos deixou o testemunho petrino de Paulo VI: o amor a Cristo, o amor à Igreja e seu amor à pessoa humana.

Paulo VI soube dar testemunho, em anos difíceis, da fé em Jesus Cristo. Ainda ressoa, mais viva que nunca, sua invocação: “Tu és necessário, ó Cristo!” Sim, Jesus é mais necessário que nunca ao homem de hoje, ao mundo de hoje, porque nos “desertos” da cidade secular Ele nos fala de Deus, nos revela sua face. O amor total a Cristo emerge durante toda a vida de Montini, inclusive na eleição do nome como Papa, que ele justificava com estas palavras: Paulo é o Apóstolo “que amou a Cristo de maneira suprema, quem acima de tudo quis e tratou de levar o Evangelho de Cristo a todas as gentes, quem por amor de Cristo ofereceu sua vida”.

Paulo VI, sublinhou o Papa Francisco, tinha “um profundo amor a Cristo, não para possuí-lo, senão para anunciá-lo”.

“Cristo! Sim, eu sinto a necessidade de anunciá-lo, não posso guardar silêncio!… Ele é o revelador do Deus invisível, é o patrimônio de toda criatura, é o fundamento de todas as coisas. Ele é o Mestre da humanidade, é o Redentor… Ele é o centro da história e do mundo. Ele é quem nos conhece e nos ama, e Ele é o companheiro e amigo de nossa vida. Ele é o homem da dor e da esperança, é ele que há de vir, e que deve ser algum dia o juiz e, nós o esperamos, a plenitude eterna de nossa existência, nossa felicidade.”

Também foi apaixonado o amor do Papa Montini pela Igreja: “um amor de toda uma vida: alegre e doloroso”, recordou o Santo Padre. “Um amor que expressou desde sua primeira encíclica Ecclesiam suam”. Paulo VI viveu de cheio as vicissitudes da Igreja depois do Concílio Vaticano II, “suas luzes, suas esperanças, suas tensões”. Ele amou a Igreja e se gastou por ela sem reservas.

“Um verdadeiro pastor cristão que tinha uma visão muito clara de que a Igreja é uma mãe que leva dentro de si a Cristo e conduz a Cristo”. Porque, como o próprio Papa Montini dizia: “A Igreja está verdadeiramente nos corações do mundo, porém ao mesmo tempo é suficientemente livre e independente para interpelar o mundo”.

Finalmente, o Papa Francisco aludiu ao último aspecto do amor de Paulo VI:

O terceiro elemento: foi o amor pela pessoa humana. Também isto está relacionado com Cristo: é a paixão de Deus que nos impele a encontrar o homem, a respeitá-lo, a reconhecê-lo, a servi-lo. Na última sessão do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI pronunciou um discurso que surpreende cada vez que o relemos. Em particular, quando se fala da atenção do Concílio pelo homem contemporâneo. Disse assim: “O humanismo secular profano apareceu finalmente em sua terrível estatura e, num certo sentido, desafiou o Concílio. A religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião do homem que se faz Deus. O que sucedeu? Uma luta, uma batalha, uma condenação? Podia ter sido assim, mas não sucedeu. A antiga história do samaritano foi o paradigma da espiritualidade do Concílio. Um sentimento de simpatia sem limites impregnou tudo. A descoberta das necessidades humanas… dêem crédito a isto, ao menos vocês, humanistas modernos, renunciatórios à transcendência das coisas supremas, e reconheçam nosso novo humanismo: também nós, nós, sobretudo, amamos o homem”.

E, com uma visão integral do labor do Vaticano II, observou o Papa Francisco sobre seu predecessor, Paulo VI dizia que toda a “riqueza doutrinal do Concílio se dirige em uma direção: servir a pessoa humana. A pessoa humana, em todas as condições, em cada uma de suas enfermidades e necessidades. A Igreja quase se declarou servidora da humanidade”.

18 abril, 2013

Um concílio ainda em caminho.

Interpretação e recepção do Vaticano II.  A alegria de Deus suscitou-se em nós: não deixemos que se perca.

Por Cardeal Walter Kasper

L’Osservatore Romano, 12 de abril de 2013 | Fratres in Unum.com – Era a época da guerra fria. Um ano antes do início do Concílio, tinha-se construído o Muro de Berlim e, durante o período da primeira sessão, o mundo se viu à beira do abismo da guerra atômica por causa da crise de Cuba. Hoje, cinquenta anos depois, vivemos num mundo globalizado, completamente diferente e em rápida transformação, com novas questões e novos desafios. A fé otimista no progresso e o espírito de se encaminhar em direção a novos horizontes esfumaram-se há muito tempo. Para a maior parte dos católicos, os desenvolvimentos postos em marcha pelo Concílio fazem parte da vida cotidiana da Igreja. Todavia, o que experimentam não é o grande avanço, não é a primavera da Igreja, que então esperávamos, mas sim, na verdade, uma Igreja com aspecto de inverno, que mostra claros sinais de crise.

Para quem conhece a história dos vinte concílios reconhecidos como ecumênicos, isso não constituirá uma surpresa. Os tempos pós-conciliares foram quase sempre turbulentos. O Vaticano II, porém, representa um caso particular. Diferentemente dos concílios precedentes, não foi convocado para excluir doutrinas heréticas nem para recompor um cisma, não proclamou dogma formal algum, nem sequer assumiu deliberações disciplinares formais. João XXIII tinha uma perspectiva mais ampla. Viu que se perfilava uma nova época, a cujo encontro foi com otimismo, na inamovível confiança em Deus. Falou de um objetivo pastoral do Concílio, tendo em vista uma posta ao dia (“aggiornamento”), um “tornar-se hoje” da Igreja. Não se queria uma adaptação banal ao espírito dos tempos, mas o apelo a fazer com que a fé transmitida no hoje falasse.

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