Posts tagged ‘Vaticano II’

17 abril, 2013

Kasper admite ambiguidade intencional.

Por Unam Sanctam Catholicam | Tradução: Fratres in Unum.com – O Cardeal Walter Kasper fez uma declaração impressionante nas páginas do L’Osservatore Romano na última sexta-feira. Ao apresentar algumas reflexões sobre os desafios enfrentados pela Igreja e o problema (perpétuo) contínuo da “verdadeira interpretação do Vaticano II”, Kasper, falando sobre os documentos do Concílio, afirmou:

Em muitos lugares, [os Padres Conciliares] tiveram que encontrar fórmulas de concessões, em que, frequentemente, as posições da maioria estão localizadas imediatamente próximas àquelas da minoria, projetadas para limitá-las. Assim, os textos conciliares em si têm um enorme potencial de conflito, sendo uma porta aberta à recepção seletiva em uma ou outra direção.” (Cardeal Walter Kasper, L’Osservatore Romano, 12 de abril de 2013)

Nas declarações do Cardeal, temos basicamente uma afirmação de uma tese fundamental de Michael Davies e da maioria dos tradicionalistas: de que os próprios documentos conciliares têm ambiguidades em si e estão sujeitos a uma multiplicidade de interpretações. Este conceito de ambiguidade conciliar tem sido negado por muitos apologistas conservadores/populares, que insistem em dizer que os documentos conciliares são claros como o dia e que somente a malícia dos dissidentes é que está impelindo uma falsa interpretação que é responsável pela nossa atual confusão.

Entretanto, os tradicionalistas e,  ironicamente, também Kasper, têm insistido que a destruição que seguiu o Concílio pode ser remetida aos próprios documentos. Mesmo se os Padres Conciliares não planejaram o desastre que se seguiu ao Concílio (e a maioria concorda que não o fizeram), os próprios documentos foram construídos de tal modo a permitir interpretações progressistas ao serem colocados em mãos de teólogos e bispos progressistas. Contra o mantra conservador de “documentos perfeitos – implementação imperfeita”, Kasper sustenta a crítica tradicionalista de que “documentos imperfeitos levam à implementação imperfeita.” Bento XVI tinha apresentado o mesmo argumento. Existe uma relação íntima entre os documentos e sua implementação. Porém, Kasper faz mais do que apenas admitir que “os textos conciliares em si têm um enorme potencial de conflito”; ele chega ao ponto de afirmar que essas ambiguidades, esses conflitos em potencial, foram parte de um programai intencional. Ele não diz simplesmente que os textos suportarão diversas interpretações, mas que essas passagens ambíguas foram “fórmulas de concessões” produzidas para aplacar dois lados opostos, de tal modo que elas podem ser interpretadas de uma maneira ortodoxa, porém, podem ser facilmente distorcidas pelos progressistas para apoiar a sua malícia.

Essas são o que o finado Michael Davis chamou de “bombas-relógio” nos textos conciliares. Davies escreveu, “Essas ‘bombas-relógio’ foram passagens ambíguas inseridas nos documentos oficiais pelos periti ou peritos liberais – passagens que seriam interpretadas em um sentido não tradicional, progressista após o encerramento do Concílio” (Michael Davies, Liturgical Timebombs, Rockford, Ill: Tan Books, 2004, página 23). Davies tomou emprestado a expressão “bombas-relógio” do livro do Arcebispo Lefebvre, Um bispo fala, que basicamente havia apresentado o mesmo argumento. Na entrevista de Kasper, não temos nada menos do que uma admissão de que não havia apenas bombas-relógio, mas que elas foram colocadas lá intencionalmente, e nesse ponto ele e Lefebvre estão de acordo. Esta é uma admissão impressionante. Kasper fez muitas outras afirmações interessantes que minam outros aspectos da narrativa conservadora do Concílio. Por exemplo:

Para muitos católicos, os desenvolvimentos colocados em movimento pelo concílio fazem parte da vida diária da Igreja. Porém, o que eles estão experimentando não é o novo grande começo nem a primavera da Igreja, que foram esperados naquela época, mas sim uma Igreja que tem uma aparência invernal e mostra sinais claros de crise.

Isso contraria o mantra prevalecente da era João Paulo II de que estamos experimentando uma “nova primavera” e uma admissão cândida de que existe efetivamente uma crise, a despeito do fato de que alguns, como, por exemplo, o Cardeal Timothy Dolan, continuem negando essa verdade clara. Esta simples admissão de fato, de que a Igreja está em crise e não está experimentando a prometida primavera pós-conciliar, é de importância considerável para avançarmos. E seja lá o que possamos pensar mais de Kasper, gosto de sua sinceridade neste caso.

Falando da confusão que surgiu depois do Concílio, Kasper disse: “Para aqueles que conhecem a história dos vinte concílios reconhecidos como ecumênicos , este [estado de confusão] não será uma surpresa. Os tempos pós-conciliares foram quase sempre turbulentos. O Vaticano [Segundo], entretanto, é um caso especial.

Esta admissão importante, que também afirmei em outro lugar, realmente desmascara o chavão de católicos conservadores de que aquilo que estamos experimentando na Igreja moderna é normal, uma vez que há sempre confusão após um Concílio. Isso pode ser verdadeiro, mas Kasper observa que a confusão que se seguiu ao Vaticano II é “um caso especial”, diferente da turbulência dos períodos anteriores. Esse também é um argumento frequentemente apresentado pelos tradicionalistas, que enxergam no Concílio Vaticano Segundo não apenas outro evento eclesial com o nível padrão de confusão após a sua realização, mas sim um novo tipo de evento eclesial que não pode ser facilmente classificado ao lado dos Concílios do passado. O Cardeal Kasper afirma as posições de Michael Davies, Lefebvre e dos tradicionalistas? Esses são tempos estranhos, sem dúvida.

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Nota do Fratres: Ainda não há uma tradução portuguesa do artigo, que se encontra aqui, na página 4. Se algum leitor puder traduzi-lo, publicaremos com muito gosto.

16 abril, 2013

Francisco: “Concílio é fruto do Espírito, mas permanece inaplicado”.

Cidade do Vaticano (RV) – Nesta terça-feira, 16, Bento XVI completa 86 anos e Papa Francisco o lembrou no início da missa celebrada em sua residência, n Casa Santa Marta.

Oferecemos-lhe a Missa, para que o Senhor esteja com ele, o conforte e lhe dê muito consolo”.

Na homilia, o comentário da primeira leitura do dia: o martírio de Santo Estevão, que antes de ser lapidado anunciou a Ressurreição de Cristo e advertiu para a resistência ao Espírito Santo. O Papa repetiu que mesmo em meio de nós, ainda existe esta resistência.

Ao que parece, hoje o Espírito Santo nos incomoda, porque nos incentiva, empurra a Igreja para que vá adiante. E nós queremos que ele adormeça, queremos domesticá-lo, e isto não é bom porque Ele é Deus e é a força que nos consola, a força para prosseguirmos. Mas seguir avante dificulta… a comodidade é melhor!”.

“Hoje – prosseguiu o Papa – aparentemente estamos todos contentes com a presença do Espírito Santo, mas não é assim. Por exemplo, vamos pensar no Concílio:

O Concílio foi uma linda obra do Espírito Santo. Pensamos no Papa João XXIII: um pároco bom, obediente ao Espírito Santo. Mas depois de 50 anos, fizemos tudo o que o Espírito Santo nos disse no Concílio? Não. Comemoramos este aniversário, erguemos um monumento, mas desde que não incomode. Nós não queremos mudar, e o pior: alguns querem voltar atrás. Isto é ser teimoso, significa querer domesticar o Espírito Santo; ser tolo, de coração lento”.

Francisco ressaltou que o mesmo acontece em nossas vidas pessoais e exortou: “Não oponhamos resistência ao Espírito. É Ele que nos liberta. Caminhemos na estrada da docilidade do Espírito Santo, no caminho da santidade da Igreja!”.

27 março, 2013

O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita (V): A gênese do Missal de Paulo VI nas aulas conciliares.

Lançado em 2011 na Itália, a prestigiosa obra do Professor Roberto de Mattei, intitulada “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita”, chega ao público lusófono. A Editora Caminhos Romanos, detentora dos direitos sobre a versão portuguesa do laureado livro — Prêmio Acqui Storia 2011 e finalista do Pen Club Italia — , concedeu ao Fratres in Unum a exclusiva honra de divulgar alguns excertos deste trabalho –  um verdadeiro marco na historiografia do Concílio Vaticano II.

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Uma Missa ecumênica?

Quando, a 5 de Novembro [ndr: na primeira sessão do Concílio], foram retomados os debates conciliares, um dos vinte e quatro oradores que tomaram a palavra foi Mons. Duschak[1], bispo titular de Abida e vigário apostólico de Calapan, nas Filipinas, mas alemão de nascimento, que defendeu a necessidade de uma “Missa ecumênica” decalcada na Última Ceia[2].

Missa Solene Coram Episcopo celebrada (versus populum) durante a Oitava Semana Litúrgica Nacional em Portland,1947.

Missa Solene Coram Episcopo celebrada (versus populum) durante a Oitava Semana Litúrgica Nacional em Portland, EUA, 1947.

Cristo celebrou a primeira Missa diante dos Apóstolos — voltado para o povo, seguindo o costume então vigente durante as ceias. Cristo  falou em voz alta, de maneira que todos, por assim dizer, ouvissem o Cânone desta primeira Missa. Cristo serviu-se da língua falada, para que todos O compreendessem sem qualquer dificuldade, a Ele e às palavras que disse. Nas palavras “fazei isto”, de acordo com o seu significado completo, parece estar contido o preceito de celebrar a Missa como uma ceia, de frente, ou pelo menos em voz alta, e numa língua que os comensais compreendam.”

Mons. Duschak convidava pois:

a uma colaboração entre os especialistas de todos os ritos e das Igrejas que conservam a fé na eucaristia; para se compor uma Missa que se possa chamar verdadeiramente ecumênica ou “Missa do mundo”, e com ela a tão desejada unidade, pelo menos na memória eucarística do Senhor. O povo de Deus gozaria assim da participação perfeita e íntima de que gozaram os Apostolos na Última Ceia.”[3]

À tarde, Mons. Duschak explicou a sua intervenção aos jornalistas, salientando que a sua ideia consistia em “introduzir uma Missa ecumênica, despojada, na medida do possível, das superestruturas históricas, baseadas na essência do Santo Sacrifício e firmemente radicada na Sagrada Escritura”[4]. O Prelado chegava ao ponto de pretender alterar as palavras tradicionais do Cânone: “Se os homens dos séculos passados puderam escolher e inventar os ritos da Missa, por que não pode o maior de todos os concílios  fazer a mesma coisa? Por que não havemos de decretar a elaboração de uma fórmula da Missa, adaptada ao homem moderno, para corresponder, com toda a reverência, aos desejos deste?”[5] Toda a Missa, insistia Duschak, devia ser celebrada em voz alta, em língua vernácula, e voltada para o povo. Estas propostas, que na altura pareceram radicais, seriam postas em prática ainda antes do encerramento do Concílio.

Mas as réplicas não faltaram. Ao Cardeal Döpfner, que tinha afirmado que era necessário introduzir as línguas vernáculas também porque os candidatos ao sacerdócio, formados nas escolas públicas, já não sabiam latim, respondeu Mons. Carli salientando que os referidos candidatos também não conheciam a filosofia e a teologia cristã e ninguém se lembrava de os ordenar antes de terem completado os seus estudos nestas matérias[6].

Estava-se em presença de um confronto entre a Cúria Romana e algumas conferências episcopais, sobretudo a francesa e a alemã, apoiadas por determinados bispos dos países do Terceiro Mundo, como Mons. D’Souza que, nas suas intervenções de 27 de Outubro e 7 de Novembro de 1962[7], solicitou que se atribuísse às conferências episcopais o direito de escolherem a língua em que queriam fazer o rito, mas também o direito “de adaptarem a liturgia dos Sacramentos”[8]; e Mons. Bekkers[9], que afirmou que apenas “o núcleo sacramental fundamental de todos os sacramentos” tinha de ser “universal”, “mas que, para uma celebração mais evoluída e mais ampla deste núcleo sacramental, seja concedida uma amplíssima liberdade, de cujos limites apenas a conferência de bispos de cada povo pode julgar adequada, contanto que os actos sejam aprovados pela Santa Sé”[10].

Para o partido anti-romano, o latim era o instrumento de que a Cúria se servia para exercer o seu poder. Enquanto o latim fosse a única língua da Igreja, Roma teria competência para controlar e verificar os ritos; se, porém, se introduzissem na liturgia centenas de línguas e costumes e línguas locais, a Cúria perderia automaticamente as suas prerrogativas e as conferências episcopais passariam a ser os juízes desta matéria. “Era precisamente neste ponto que insistia a maioria que começava a perfilar-se, e que pretendia que as conferências episcopais fossem autorizadas a tomar determinadas decisões importantes em matéria de usos litúrgicos”, sublinha Wiltgen[11].

A aliança progressista recebeu na aula o apoio de um numeroso grupo de bispos da América Latina, chefiados pelo Cardeal Silva Henriquez, arcebispo de Santiago do Chile; estes Padres, recorda ainda Wiltgen, manifestavam o seu reconhecimento pelas importantes ajudas financeiras que tinham recebido durante os últimos anos do Cardeal Frings de Colônia, através das Associações Misereor e Adveniat: “Um número significativo daqueles aproveitaram a ocasião do Concílio para fazer uma visita ao Cardeal Frings, e agradecer-lhe pessoalmente, vieram a encontrar-se envolvidos na aliança.”[12]

O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita, Roberto de Mattei, Ed. Caminhos Romanos, 2012, p. 214-216.

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[1] Wilhelm Josef Duschak (1903-1997), alemão, da Sociedade do Verbo Divino, ordenado em 1930, bispo de Abida (1951) e vigário apostólico em Calapan (Filipinas) entre 1951 e 1973.

[2] AS, I/1, pp. 109-112.

[3] Ibid, pp. 111-112.

[4] WILTGEN, P. 37.

[5] Ibid, p. 38.

[6]  AS, I/2, PP. 398-399.

[7] AS I/2, pp. 497-499 e AS, I/2, pp. 317-319.

[8] AS I/2, p. 318. “Seria óptimo que o poder se alargasse a todo o rito e ao uso da língua falada. É isto que esperamos do Concílio porque é realmente necessário a sua actuação” (ibid.).

[9] Wilhelm Marinus Bekkers (1908-1966), holandês, ordenado em 1933, bispo coadjutor em 1956 e depois bispo de Bois-le-Duc até a morte. O seu funeral foi uma espécie de manifestação pública da corrente ultraprogressista holandesa (Actes et Acteurs, p. 372).

[10] AS I/1, pp. 313-314.

[11] WILTGEN, p. 42.

[12] Ibid., p. 53

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Roberto de Mattei nasceu em Roma, em 1948. Formou-se em Ciências Políticas na Universidade La Sapienza. Atualmente, leciona História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, no seu departamento de Ciências Históricas, de que é o director. Até 2011, foi vice-presidente do Conselho Nacional de Investigação de Itália, e entre 2002 e 2006, foi conselheiro do Governo italiano para questões internacionais. É membro dos Conselhos Diretivos do Instituto Histórico Italiana para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana. É presidente da Fundação Lepanto, com sede em Roma, e dirige as revistas Radici Cristiane e Nova Historica e colabora com o Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja.

Onde encontrar:

Em Portugal – Nas maiores livrarias do país. Em Lisboa, nas livrarias Fnac e Férin (próxima ao Chiado, centro histórico). Em Porto, pelos telefones 936364150 e 911984862.

No Brasil –– Nas livrarias Loyola, da rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, e Lumen Christi, do Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro. Pela internet, na Livraria Petrus e Editora Ecclesiae.

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Artigos da série: 

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O blog está em recesso até a Semana Santa. A moderação dos comentários pode demorar mais do que o habitual. Notícias urgentes podem ser postadas a qualquer momento.

15 fevereiro, 2013

O Concílio da mídia e o Concílio real.

Apresentamos nossa tradução de um excerto (via transcrição realizada pela Rádio Vaticano – sessão inglesa) do discurso proferido ontem,  pelo Papa Bento XVI, ao clero da diocese de Roma. Lamentamos não ter condições de traduzir outras partes do discurso e deixamos nosso espaço aberto à generosa contribuição dos leitores que possam fazê-lo.

73435_569767783034830_1185709360_nEu gostaria agora de acrescentar um terceiro ponto: houve o Concílio dos Padres — o verdadeiro Concílio –, mas houve também o Concílio da mídia. Foi quase um Concílio em si, e o mundo percebeu o Concílio por ela, pela mídia. Assim, o Concílio que chegou ao povo, imediata e eficientemente, foi aquele da mídia, e não o dos Padres. E enquanto o Concílio dos Padres se realizava dentro da fé, foi um Concílio da fé que buscava o intelecto, que buscava compreender e tentar compreender os sinais de Deus naquele momento, que tentava encontrar o desafio de Deus naquele tempo para encontrar as palavras para hoje e amanhã. Então, enquanto todo o Concílio — como disse — se movia na fé, já que fides quaerens intellectum, o Concílio dos jornalistas não ocorreu, naturalmente, dentro do mundo da fé, mas dentro das categorias da mídia de hoje, isto é, fora da fé, com diferentes hermenêuticas. Era a hermenêutica da política. A mídia via o Concílio como uma batalha política, uma batalha pelo poder entre diferentes correntes dentro da Igreja. Era óbvio que a mídia ficaria do lado de qualquer facção que mais se adequasse ao seu mundo. Havia aqueles que buscavam uma descentralização da Igreja, poder para os bispos e então, pela expressão “Povo de Deus”, o poder ao povo, ao leigo. Havia esta tripla questão: o poder do Papa, então transferido ao poder dos bispos e, então, ao poder de todos… soberania popular. Naturalmente, eles viam isso como a parte a ser aprovada, promulgada, favorecida.

Este foi o caso da liturgia: não havia interesse na liturgia enquanto um ato de fé, mas em algo a se tornar compreensível, similar a uma atividade comunitária, algo profano. E nós sabemos que havia uma tendência, também baseada historicamente, que dizia: “A sacralidade é algo pagão, possivelmente mesmo do Antigo Testamento. No Novo Testamento, a única coisa importante é que Cristo morreu fora: isto é, fora dos portões, ou seja, no mundo profano”. Acabando a sacralidade, profanidade até no culto: o culto não é culto, mas um ato que reúne as pessoas, a participação comum e, logo, a participação como atividade. E essas traduções, banalizando a idéia do Concílio, foram virulentas nas práticas de implementação da reforma litúrgica, nascidas de uma visão do Concílio fora de sua própria chave, a da fé. E o mesmo ocorreu no problema da Escritura: a Escritura é um livro, histórico, a ser tratado historicamente e nada mais, e assim por diante.

E nós sabemos que o Concílio da mídia era acessível a todos. Assim, dominante e mais eficiente, esse Concílio criou muitas calamidades, muitíssimos problemas, tanta miséria, na realidade: seminários fecharam, conventos fecharam, a liturgia foi banalizada… e o verdadeiro Concílio batalhou para se materializar, para ser realizado: o Concílio virtual foi mais forte que o Concílio real. Mas a verdadeira força do Concílio estava presente e lentamente emergiu, e está se tornando a verdadeira força que é também uma verdadeira reforma, verdadeira renovação da Igreja. Parece-me que, após 50 anos do Concílio, vemos como este Concílio virtual se rompe, se perde, e o verdadeiro Concílio está emergindo com toda a sua força espiritual. E é nosso dever, neste Ano da Fé, a começar por este Ano da Fé, trabalhar a fim de que o verdadeiro Concílio, com o poder do Espírito Santo, seja realizado e a Igreja seja verdadeiramente renovada. Nós esperamos que o Senhor nos ajude. Eu, retirado em oração, estarei sempre convosco, e juntos caminharemos adiante com o Senhor, na certeza: o Senhor é vitorioso. Obrigado.

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Mais informações sobre este encontro no portal de notícias da Santa Sé. A versão oficial da transcrição acaba de ser divulgada pela Sala de Imprensa.

28 janeiro, 2013

Infalibilidade monolítica e divergências entre antimodernistas.

Por Arnaldo Xavier da Silveira

1. O mundo católico deve muito ao povo simples que conserva a fé verdadeira, bem como aos escritores e homens de ação antimodernistas que nos últimos decênios têm desenvolvido amplamente as doutrinas e ações em defesa do depósito sagrado da Tradição. Em variados campos da teologia, especialmente na eclesiologia e na liturgia, o aprofundamento dos princípios tradicionais tem sido notável; e, no terreno prático da vida católica, igualmente, os antimodernistas têm batalhado com denodo heroico que no futuro a História da Igreja registrará com destaque.

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21 janeiro, 2013

Carta de Dom Di Noia aos membros da Fraternidade São Pio X.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com

Excelência e caros irmãos Padres da Fraternidade São Pio X,

Nossa recente declaração (28 de outubro de 2012) afirmou em público e com autoridade que as relações da Santa Sé com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X permanecem abertas e esperançosas. Até agora, com exceção de seus pronunciamentos oficiais, a Santa Sé, por diversas razões, absteve-se de corrigir certas afirmações imprecisas a respeito de sua conduta e competência nestas relações. Aproxima-se rapidamente, no entanto, a hora em que, em benefício da verdade, a Santa Sé será obrigada a tratar de algumas dessas imprecisões. São particularmente dolorosas as afirmações que impugnam o múnus e a pessoa do Santo Padre e que, em algum momento, demandariam alguma resposta.

Declarações recentes de pessoas que ocupam posições significantes de autoridade dentro da Fraternidade não podem deixar de causar preocupação sobre as possibilidades reais de reconciliação. Pode-se pensar, em particular, nas entrevistas dadas pelo Superior do Distrito da Alemanha (16 de outubro de 2012), e um recente sermão do Superior Geral (1 de novembro de 2012). O tom e o conteúdo destas intervenções deram causa a uma certa perplexidade sobre a seriedade e, de fato, a própria possibilidade de conversações francas entre nós. Enquanto a Santa Sé espera pacientemente por uma resposta oficial da Fraternidade, alguns de seus superiores empregam uma linguagem, em comunicações extra-oficiais, que a todo o mundo dá a impressão de rejeitar as próprias condições, assumidas como ainda em estudo, que são exigidas para a reconciliação e regularização canônica da Fraternidade dentro da Igreja Católica.

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19 janeiro, 2013

Dom Di Noia: retomar o carisma de Dom Lefebvre para superar impasse atual.

O colunista do Le Figaro, Jean-Marie Guénois, traz mais detalhes sobre a carta enviada por Dom Joseph Augustine Di Noia, vice-presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, aos sacerdotes da Fraternidade São Pio X. Apresentamos nossa tradução do trecho mais importante do artigo:

Dom Di Noia e o Papa Bento XVI.

O que diz este documento de oito páginas traduzido do inglês para o francês? Três elementos essenciais: o estado atual das relações, o espírito dessas relações e o método para retomar o diálogo.

A questão do Concílio

O estado atual das relações entre Roma e Ecône é descrito sem retoques por Dom Di Noia. Estas relações permanecem “abertas” e “cheias de esperança”, mesmo se declarações recentes em diferentes níveis da Fraternidade, nos últimos meses, possam colocar isso em dúvida [ndr: é inacreditável, a quem pede um exame de consciência mútuo, a falta de referência às mais desastrosas palavras para esta conturbada relação, que são simplesmente as do novo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé].

Quanto aos esforços realizados desde o início do pontificado de Bento XVI para uma reconciliação, eles não mudaram nada, avalia Dom Di Noia por causa do desacordo fundamental que permanece sobre a questão do Concílio. Este americano, um diplomata fino, mas realista, estabelece pela primeira vez a este nível a constatação de um “impasse”, no sentido de que o desacordo fundamental não evoluiu um milímetro.

A segunda parte do documento trata do espírito das relações. Para o autor da carta, é importante transformá-lo, caso contrário, o intercâmbio “amigável” entre as duas entidades pode ser “sem saída”. Como? Inspirado pelos sábios conselhos de Santo Tomás de Aquino, quando se trata de preservar a unidade da Igreja. Evitando o “orgulho, a cólera, a impaciência”. O “desacordo sobre questões fundamentais” não deve excluir o falar das questões disputadas, portanto, com um “espírito de abertura”.

A última parte da carta propõe duas linhas para sair do impasse atual, pois a FSSPX não tem futuro na “autonomia”. Reconhecer, em primeiro lugar – e aqui Roma o faz como nunca havia feito – o “carisma” próprio de Dom Lefebvre e da obra que ele fundou, que é a “formação sacerdotal” e não a “retórica áspera e contraproducente” ou “a de se arrogar a missão de julgar e corrigir a teologia”, ou ainda “de corrigir publicamente os outros na Igreja”. E, a segunda linha — completamente nova, pois recorre a um documento, Donum Veritatis, publicado em 1990 para enquadrar a dissidência de teólogos progressistas!: considerar que é legítimo, na Igreja Católica, ter “divergências” teológicas, mas que essas “objeções” teológicas devem ser expressas internamente, e não em praça pública, para “estimular o magistério” a formular melhor o seu ensino. E não sob a forma de um “magistério paralelo”.

18 janeiro, 2013

Di Noia envia carta a padres da FSSPX – via Menzingen.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com – Esta é a principal parte da informação divulgada por Riposte Catholique (em Francês):

Cada padre da Fraternidade São Pio X recebeu uma carta muito extensa do Arcebispo Di Noia, vice-presidente da Comissão Ecclesia Dei. O delegado do Papa atenta para a divergência entre a Santa Sé e a FSSPX: a Santa Sé acredita ser necessário interpretar os textos à luz da Tradição; a FSSPX considera que certos textos do Vaticano II são errôneos. Toda a questão, em si inalterada, [resume-se então] a tornar esta divergência suportável.

Com o auxílio de textos de São Paulo, Santo Agostinho e Santo Tomás, Dom Di Noia, então, propõe uma abordagem nova e espiritual. Ele solicita a ambas as partes a proceder, cada qual em sua parte, a um exame de consciência focado na humildade, docilidade, paciência e caridade. A FSSPX considera que isso não pode excluir, considerando as questões doutrinais em jogo, uma estrita confissão da fé. Tendo em conta, especialmente, que o desmantelamento da fé, catequese e práticas sacramentais acrescentam peso às suas considerações. No sentido oposto, é verdade, pode-se dizer que a contínua degradação da situação da Fé Católica é um convite premente [à FSSPX] para deixar o seu grandioso isolamento, e se unir às equipes de salvamento no próprio lugar do acidente.

Um esboço da solução concreta é deixado, obviamente de propósito, de alguma forma incerto por Dom Di Noia. Ele recorda de passagem que Roma espera de Dom Fellay uma resposta ao documento que lhe foi entregue no último dia 14 de junho. Porém, além disso, propõe à FSSPX um processo que poderia ser qualificado de transição:

– Por um lado, a FSSPX encontraria novamente o carisma positivo dos primeiros anos em Friburgo e Écône (ela tentaria reformar o que pode ser [reformado], primeiro através da formação de padres tradicionais e ao prepará-los para um ensinamento em conformidade com a sua formação).

– Por outro, a FSSPX, ainda considerando que certas passagens do ensinamento do Vaticano II não podem ser reconciliadas com a Magistério precedente, poderia discuti-las, contanto que:

– se abstenha, por uma questão de princípio, de fazê-lo nos meios de comunicação de massa;

– sempre apresente as objeções de maneira positiva e construtiva;

– fundamente todas as suas análises em bases teológicas profundas e amplas.

… Uma referência é feita à instrução Donum Veritatis, sobre a vocação eclesial do teólogo (24 de maio de 1990).

Rorate  pode acrescentar os seguintes avisos: nós podemos confirmar que a carta não foi enviada diretamente pela Pontifícia Comissão Ecclesia Dei a cada padre da FSSPX, mas sim à Casa Geral, em Menzingen, Suíça, que [por sua vez] a encaminhou [aos padres]. Não podemos confirmar que ela tenha sido encaminhada a cada um dos padres ou priorado da FSSPX. Podemos acrescentar que não se trata exatamente de uma carta nova/urgente, mas que foi enviada no começo de dezembro de 2012. E nós não podemos confirmar todo o conteúdo apresentado por Riposte Catholique, uma vez que ele parece estar mesclado com algumas interpretações de seu significado (isto é, o conteúdo não é apresentado literalmente).
17 janeiro, 2013

O Prefeito da Congregação para a liturgia convida a ver o Papa como modelo para celebrar a Missa.

A “criatividade selvagem” pós-conciliar provocou a ruptura com os lefebvristas, assegura o Cardeal.

Por I.Media | Tradução: Fratres in Unum.com – Após o Concílio Vaticano II (1962-1965), a “criatividade selvagem” de certas experiências litúrgicas “irritou” uma parte da Igreja e levou à “ruptura” entre Roma e os os fiéis de Dom Marcel Lefebvre, considera o Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Assim se exprimiu o Cardeal Antonio Maria Cañizares em uma conferência sobre a reforma litúrgica pós-conciliar, em Roma, na noite de 15 de janeiro de 2013.

Enquanto a constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, sobre a reforma litúrgica, era aprovada em dezembro de 1963, alguns realizavam “experiências de uma criatividade selvagem” pouco respeitando o “Espírito do Concílio”, explicou o Cardeal Cañizares no final de um ciclo de encontros sobre o Concílio Vaticano II, proposto pela Embaixada de Espanha junto à Santa Sé. O alto prelado lamentou, então, que tais excessos tenham levado à “ruptura” com uma parte da Igreja. De fato, aos olhos do prelado espanhol, essa “má interpretação” do texto conciliar “irritou” alguns, provocando a separação realizada por Dom Lefebvre em 1988, com a sagração de quatro bispos sem mandato pontifício.

De acordo com o Prefeito, na época do Concílio Vaticano II, “mudança” foi uma “palavra mágica”, embora a “renovação litúrgica deva ser inscrita na continuidade”, sem o que corremos o risco de fazer da reforma de uma “caricatura”.

O Concílio não ofereceu tanto “mudanças”, mas antes uma “visão” da liturgia “em continuidade com toda a tradição da Igreja e da reflexão teológica” realizada sobre este tema, continuou o Cardeal Cañizares. Igualmente, segundo ele, “as mudanças são o resultado desta reflexão teológica dentro da tradição” e nas pegadas do “movimento litúrgico” iniciado na França, no século XIX, por Dom Prosper Guéranger (1805-1875), que tinha a peito aprofundar a liturgia para extrair a sua substância, a fim de fazê-la conhecida e amada.

Renovar o senso litúrgico

“Mesmo aqueles que seguem a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, quando participam de uma missa celebrada corretamente, afirmou ainda o alto prelado, eles dizem que não haveria a necessidade desta separação com a Igreja Católica se ela [a missa] fosse assim em todos os lugares”. O Cardeal Cañizares, em seguida, esclareceu que, segundo o testemunho de Dom Bernard Fellay, atual superior da Fraternidade, Dom Lefebvre obviamente não desejaria a ruptura se a missa fosse celebrada por todos segundo “a forma mais estrita” do novo Missal de Paulo VI (1963-1978).

Enquanto a nova evangelização é uma prioridade para os católicos, o chefe de dicastério considerou que não haverá “futuro para a Igreja, e mesmo para a humanidade, sem a renovação do senso litúrgico”. “A reforma mais urgente é a formação litúrgica, enormemente carente, e isso é visível”, enfatizou novamente. E acrescentou: “Onde os pastores e os fiéis têm uma boa formação litúrgica, a vitalidade das comunidades é mais forte”.

O padre não deve ser o “protagonista” de uma “liturgia espetáculo”, disse ainda o Cardeal Cañizares, mas a sua missa deve mais “compreensível, consciente e ativa”.

Questionado por jornalistas sobre a sensibilidade litúrgica de Bento XVI e, em especial, o recente retorno do fanon papal, um ornamento tradicional, o Cardeal Cañizares considerou que é necessário “ver as celebrações do Papa como um modelo a ser seguido”. “O Papa ensina não só por suas palavras, mas também por suas ações, e sua forma de celebrar é um exemplo para toda a cristandade”, concluiu.

15 janeiro, 2013

Dom Müller: Santa Sé considera Ordinariato para protestantes moderados que vêem no Vaticano II realização dos ideais de Lutero.

O arcebispo não explicou como a afirmação de que o Vaticano II realizou os anseios de Lutero pode ser coadunada com a “hermenêutica da reforma na continuidade”.

Dom Gerhard Ludwig Müller.

Dom Gerhard Ludwig Müller.

Por InfoCatólica | Tradução: Fratres in Unum.com –  Dom Gerhard Ludwig Müller, arcebispo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), declarou que a Santa Sé poderia considerar a criação de um ordinariato para os luteranos que desejam regressar à plena comunhão com a Igreja Católica, que teria uma estrutura similar à estabelecida pelo Papa Bento XVI para os anglicanos. O arcebispo reconhece, todavia, que “o mundo luterano é um tanto diferente dos anglicanos, pois entre os anglicamos sempre houve um setor mais próximo do catolicismo”.

No entanto, explica o prefeito da CDF, alguns luteranos desejam a restauração da plena comunhão com Roma, e a Igreja deveria estar preparada para recebê-los. O arcebispo sugere que, da mesma forma que com os anglicanos, a Igreja Católica deveria permitir a esses luteranos, no processo de união com a Igreja, preservar as tradições legítimas que se desenvolveram.

Segundo Dom Müller, na opinião de alguns luteranos, Martinho Lutero pretendia somente reformar a Igreja e não causar divisão entre os cristãos. Esses luteranos crêem que as reformas necessárias foram realizadas pelo Concílio Vaticano II. O prelado explica que em sua terra natal, Alemanha, “os protestantes não se opõem completamente ao catolicismo, já que mantiveram muitas tradições católicas”.

O arcebispo fez estas declarações durante a apresentação, em uma livraria de Roma, de seu livro sobre o pensamento de Bento XVI.