A Carta de São Judas: uma resposta à atual crise da Igreja.

A clamorosa atualidade da Carta de São Judas. O que faremos diante da crise atual da Igreja? São Judas nos responde. 

Por Eric Sammons, OnePeterFive.com, 19 de novembro de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com* Nos dias atuais, muitos católicos estão desesperados para ouvir palavras de encorajamento e orientação por parte dos bispos, sucessores dos Apóstolos. Mas, e se eu lhe disser que essas palavras já nos foram dirigidas por um dos doze Apóstolos?

A Carta de São Judas é escrita pelo mais desconhecido dos autores do Novo Testamento. A carta em si também é pouco conhecida, escondida no Novo Testamento entre as três cartas do apóstolo João e seu livro do Apocalipse. Ela nunca é incluída nas leituras de domingo nos calendários da Forma Ordinária ou da Extraordinária, e é incluída apenas uma vez a cada dois anos nas leituras dos dias da semana na Forma Ordinária (mais precisamente, no sábado da 8.a Semana do Tempo Comum, no ano par). Portanto, você está perdoado se não estiver familiarizado com essa epístola.

Apesar disso, a breve Carta de São Judas parece ter sido escrita hoje por um bispo preocupado, abordando a crise atual da Igreja. E, em certo sentido, podemos dizer que é sim, pois toda a Escritura é atemporal, e o Espírito Santo a inspira de tal maneira que é sempre aplicável aos nossos tempos. Podemos ver que esse mistério é abundantemente claro no caso da Carta de São Judas.

Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos eleitos bem-amados em Deus Pai e reservados para Jesus Cristo. Que a misericórdia, a paz e o amor se realizem em vós copiosamente. Caríssimos, estando eu muito preocupado em vos escrever a res­peito da nossa comum salvação, senti a necessidade de dirigir-vos esta carta para exortar-vos a lutar pela fé, confiada de uma vez para sempre aos santos. Pois certos homens ímpios se introduziram furtivamente entre nós, os quais desde muito tempo estão destinados para este julgamento; eles transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo, nosso único Mestre e Senhor (1, 1-4).

Nessa breve carta, São Judas não perde tempo, vai logo ao que interessa. Parece que ele originalmente queria escrever uma carta mais teológica, porém, em vez disso, as circunstâncias exigiam que ele exortasse seu público a “lutar pela fé” contra os “homens ímpios”. Essa fé não é fruto de uma invenção; antes, foi “confiada” à Igreja. Em outras palavras, não podemos mudar ou moldar a fé à nossa própria imagem, mas devemos lutar para proteger o depósito revelado da fé.

Essa também é a luta de hoje. Certas forças estão oprimindo a Igreja, exigindo a rejeição dos ensinamentos que nos foram revelados, e somos chamados a lutar pela fé contra elas.

É importante ressaltar que o perigo contra o qual São Judas está advertindo não vem de fora da Igreja, mas de seu interior. São os membros da Igreja que obtiveram a admissão “furtivamente” (mas que estão “destinados para… julgamento”) que representam o evidente perigo dos dias atuais. Como eles se tornaram perigosos? Transformando “a graça de nosso Deus em libertinagem”. Em outras palavras, eles ostentam a misericórdia de Deus a fim de justificar todas as formas de imoralidade (isso lhe soa familiar?). Ao fazer isso, eles “negam Jesus Cristo, nosso único Mestre e Senhor”.

Quisera trazer-vos à memória, embora saibais todas estas coisas: o Senhor, depois de ter salvo o povo da terra do Egito, fez em seguida perecer os incrédulos. Os anjos que não tinham guardado a digni­dade de sua classe, mas abandonado os seus tronos, Ele os guardou com laços eternos nas trevas para o julgamento do Grande Dia. Da mesma forma, Sodoma, Gomor­ra e as cidades circunvizinhas, que praticaram as mesmas impurezas e se entregaram a vícios contra a natureza, jazem lá como exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno (Jd 1, 5-7).

Como nos diz o Eclesiastes, “não há nada de novo sob o sol” (Ecl 1, 9). Ao longo da história da salvação, até que o Senhor volte, haverá aqueles que o negam e procuram enfraquecer o seu povo. No entanto, o que São Judas quer deixar claro aos seus leitores é que Deus irá intervir. E a intervenção divina será contundente: aqueles que se opõem a Ele enfrentarão a “pena do fogo eterno”.

Embora, em nossos dias, muitas pessoas recuem diante dessa linguagem, deve ser um conforto, para aqueles que são fiéis a Deus, saber que a justiça chegará, no devido tempo, àqueles que o rejeitaram.

Assim também estes homens, em seu louco desvario, contaminam igualmente a carne, rejeitam a autoridade divina e maldizem os que estão na glória (Jd 1, 8).

Os homens ímpios que se infiltraram na Igreja “contaminam a carne”. Essa é uma referência clara à imoralidade sexual, que está sempre em voga, embora haja momentos — como o de São Judas e o nosso — em que ela está difundida na cultura. Hoje, tal imoralidade se manifesta na homossexualidade generalizada entre o clero, incluindo crimes horríveis de abuso cometidos por muitos padres e até bispos.

Da mesma forma, os ímpios “rejeitam a autoridade”. Outra tradução pode ser “escarnecer” ou “desprezar” a autoridade. Ou seja, eles não respeitam a autoridade de Deus ou de seus ministros. E nos casos em que são os próprios ministros, eles desprezam a autoridade que lhes foi confiada por Deus e abusam de seus desígnios — assim como também abusam da autoridade divina. Os bispos atuais que falham em seu dever de defender e promover a fé estão rejeitando a própria autoridade, e serão cobrados por isso.

Esses homens ímpios também “maldizem os que estão na glória”. Não se contentam apenas em apoiar a imoralidade; mas também zombam e insultam aqueles que são fiéis a Deus. Talvez eles os chamem de “rígidos” por aderir aos mandamentos de Deus?

Ora, quando o arcanjo Miguel discutia com o demônio e lhe disputava o corpo de Moisés, não ousou fulminar contra ele uma sentença de execração, mas disse somente: “Que o próprio Senhor te repreenda” (Jd 1, 9).

Como podemos resistir a esses ímpios? Voltando-se para o Senhor. São Miguel Arcanjo, que lutou contra o diabo, não confiou em seu próprio poder — por mais considerável que fosse — para derrotar Satanás, mas primeiro pediu ao Senhor que o repreendesse. Da mesma forma, ao enfrentar os homens ímpios na Igreja, nosso primeiro passo não deve ser recorrer às redes sociais para discutir com eles, mas apelar à oração e à mortificação, pedindo o auxílio do Senhor. Porém, lembre-se de que, no final, São Miguel lutou contra Satanás; então, a oração e a mortificação não são o último passo, mas o primeiro, na luta contra nossos inimigos.

Estes, porém, falam mal do que ignoram. Encontram eles a sua perdição naquilo que não conhecem, senão de um modo natural, à maneira dos animais destituídos de razão. Ai deles, porque andaram pelo caminho de Caim, e por amor do lucro caíram no erro de Balaão e pereceram na revolta de Coré (Jd 1, 10-11).

Os ímpios “falam mal do que ignoram”. Eles desconhecem a beleza de mortificar a carne; e não entendem a liberdade que resulta da submissão à autoridade espiritual legítima; por isso, criticam. Hoje, vemos isso nos constantes insultos e condenações contra práticas e devoções mantidas pelos católicos há séculos, como se essas coisas que antes eram enaltecidas pela Igreja agora pudessem ser rejeitadas por eles.

Qual é o erro de Balaão referido por São Judas? No Apocalipse, São João nos diz que Balaão instigou os filhos de Israel a “comer alimentos sacrificados a ídolos e praticar a imoralidade” (Ap 2, 14). Tais ações continuam a ser feitas hoje, com a tolerância e, talvez, até com a participação de membros da alta hierarquia da Igreja, como, por exemplo, na idolatria pagã realizada no Sínodo da Amazônia e na imoralidade sexual desenfreada entre os clérigos. Tais erros não se limitaram a Balaão. São Judas diz ainda que os ímpios serão como Coré, que se rebelou contra Moisés e foi consumido pelo fogo divino (Cf. Nm 16, 1–40).

Esses fazem escândalos nos vossos ágapes. Banqueteiam-se convosco despudorada­mente e se saciam a si mesmos. São nuvens sem água, que os ventos levam! Árvores de fim de outono, sem fruto, duas vezes mortas, desarrai­gadas! (Jd 1, 12-13).

Quando esta carta foi escrita, o “ágape” era uma refeição comunitária entre os cristãos, que provavelmente ocorria ao final da celebração da Eucaristia. São Judas está justamente condenando aqueles que eram altamente despudorados durante os Mistérios Sagrados. Infelizmente, o despudor é comum na liturgia de hoje, com o sacrifício da Missa tornando-se um momento em que se contam piadas, tratando as rubricas com desinteresse e até hostilidade, ou seja, um desrespeito geral pelos mistérios celebrados.

Também Henoc, que foi o oitavo patriarca depois de Adão, profetizou a respeito deles, dizendo: Eis que veio o Senhor entre milhares de seus santos, para julgar a todos e confundir a todos os ímpios por causa das obras de impiedade que praticaram, e por causa de todas as palavras injuriosas que eles, ímpios, têm proferido contra Deus. Estes são murmuradores descontentes, homens que vivem segundo as suas paixões, cuja boca profere palavras soberbas e que admiram os demais por interesse (Jd 1, 14-16).

Embora possa não parecer, o Senhor irá “julgar” todos os que se opõem a Ele. Nenhum ato de impiedade será esquecido, e todos receberão sua justa recompensa. Quando vemos corrupção e imoralidade em todos os níveis da Igreja, tenhamos presente que Deus não está cego para isso.

A descrição de São Judas sobre os vícios nos quais estão afundados os inimigos de seu tempo parece-nos bastante familiar:

  • “murmuradores descontentes”: aqueles que se queixam dos ensinamentos “difíceis” da Igreja, querendo relativizar os mandamentos divinos a fim de satisfazer os prazeres terrenos.
  • “homens que vivem segundo as suas paixões”: basta olharmos para a homossexualidade predominante no clero.
  • “cuja boca profere palavras soberbas”: embora rejeitem a lei natural e a revelação divina, eles falam em linguagem teológica de forma fluente e sem escrúpulos.
  • “admiram os demais por interesse”: são favoráveis aos poderosos deste mundo, ansiosos para serem aceitos por eles. Em quantos coquetéis um bispo comum atende a políticos pró-aborto sem dizer uma palavra de repreensão?

Mas vós, caríssimos, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam: “No fim dos tempos virão impostores, que viverão segundo as suas ímpias paixões (Jd 1, 17-18);

Em tempos de crise, pode parecer que o Senhor esqueceu-se de seu povo. No entanto, Jesus Cristo advertiu que esses tempos de provação chegariam. Quando vemos clérigos e prelados zombando do catolicismo tradicional e abraçando os costumes mundanos, podemos saber que este não é um caso de Deus nos abandonando, mas um tempo de provações e tribulações.

[…] homens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito (Jd 1, 19).

Se há uma coisa verdadeira sobre a situação atual da Igreja, é que ela está dividida. Ao zombar das verdades de fé e práticas tradicionais, os inimigos de Deus estabelecem divisões na “unidade” da Igreja. Eles tratam aqueles que são fiéis ao depósito da fé como marginais, indignos de serem ouvidos, dividindo, pois, profundamente a Igreja.

 

Mas vós, caríssimos, edificai-vos mutua­mente sobre o fundamento da vossa santíssima fé. Orai no Espírito Santo. Conservai-vos no amor de Deus, aguardando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna (Jd 1, 20-21).

 

Novamente, São Judas volta a tratar sobre o que podemos fazer diante da heresia e da corrupção na Igreja: “edificai-vos mutua­mente sobre o fundamento da vossa santíssima fé” através da oração e do amor de Deus. A situação pode parecer desesperadora, porém, com Deus ao nosso lado, sempre há esperança.

Para com uns exercei a vossa misericórdia, repreendendo-os, e salvai-os, arrebatando-os do fogo. Dos demais tende compaixão, repassada de temor, detestando até a túnica manchada pela carne (Jd 1, 22-23).

Embora existam os “homens ímpios” que rejeitam os ensinamentos da Igreja, há também muitas pessoas que são influenciadas por eles e acabam questionando a própria fé. Junto a essas pobres pessoas, precisamos agir para amenizar suas dúvidas a fim de que possam ser salvas. Os católicos comuns não são os “homens ímpios” sobre os quais São Judas está advertindo — mas são aqueles que precisamos salvar da miséria causada pelos ímpios.

 

Àquele que é poderoso para nos preservar de toda queda e nos apresentar diante de sua glória, imaculados e cheios de alegria, ao Deus único, Salvador nosso, por Jesus Cristo, Senhor nosso, sejam dadas glória, magni­ficência, império e poder desde antes de todos os tempos, agora e para sempre. Amém. (Jd 1, 24-25).

 

Por fim, em todas as coisas — incluindo as provações — devemos dar glória a Deus. Na crise atual da Igreja, Deus permitiu, com sua vontade condescendente, que a corrupção e a heresia ocorressem de forma desenfreada. Mas devemos lembrar-nos de duas coisas: i) essa não é uma situação nova, pois os fiéis sempre estiveram em prontidão contra os lobos que estão dentro do rebanho; ii) mesmo nessa situação, Deus deve ser glorificado, por termos a oportunidade de amadurecer a nossa fé através de provações e tribulações.

 

Nos tempos difíceis de hoje, podemos encontrar, na Carta de São Judas, conselhos que nos guiarão enquanto lutamos pela fé contra os homens ímpios, regozijando-nos porque, através dessas provações e pela graça de Deus, podemos crescer em santidade.

 

São Judas, rogai por nós!

* Nosso agradecimento a um caro amigo pela gentileza de nos fornecer sua tradução.

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