Ai de vós!

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes aos sepulcros caiados: por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão. Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade – São Mateus, 23

Quo Primum.

Nova Constituição Apostólica contra a Missa de sempre? E agora?

Há rumores de que, após a morte do Papa Bento XVI, o Cardeal Arthur Roche, prefeito do Discatério para o Culto Divino e a Disciplina dos sacramentos teria dito ao Papa Francisco: “Podemos, agora, assinar o documento”.

quo_primum464

Os primeiros vazamentos indicam que haveria não apenas maior repressão do rito romano tradicional – o qual não poderia mais ser celebrado exclusivamente em nenhuma igreja e nunca aos domingos, com total proibição do ritual romano e do pontifical tradicionais –, mas também os sacerdotes que celebram segundo o Vetus Ordo seriam obrigados a celebrar a Missa Nova.

Prevê-se que tais medidas possam impactar os institutos em que o uso do rito tradicional é permitido. Exatamente por isso, alguns grupos já começaram a argumentar em seu favor a partir do seu direito particular.

Trata-se de uma medida milimetricamente calculada pelos progressistas que se apoderaram do Vaticano, com Papa Francisco à cabeça, para promover uma espécie de “excomunhão branca”, um chega-pra-lá nos grupos tradicionais, para que os revolucionários tenham completa hegemonia na destruição do catolicismo de sempre.

Obviamente, os grandes favorecidos por tais previsões seriam os grupos tradicionalistas autônomos, os quais têm, naturalmente, crescido bastante nos últimos tempos desse pontificado tenebroso. Quem perde, lamentavelmente, é a Igreja como um todo, que ficaria ainda mais exposta ao debandar das paróquias uma parte qualitativamente significativa dos seus fiéis.

A nossa posição, a se concretizar o rumor, será a da simples desobediência a essas normativas totalmente descabidas. Quando promulgou o Missal, S. Pio V restaurou o Rito Romano em sua mais original fidelidade, com todo o desenvolvimento orgânico que ele “sofreu” ao longo dos séculos. Na Bula que o inicia, o Santo Papa escreve:

“Da mesma forma decretamos e declaramos que os Prelados, Administradores, Cônegos, Capelães e todos os outros Padres seculares, designados com qualquer denominação, ou Regulares, de qualquer Ordem, não sejam obrigados a celebrar a Missa de outro modo que o por Nós ordenado; nem sejam coagidos e forçados, por quem quer que seja, a modificar o presente Missal, e a presente Bula não poderá jamais, em tempo algum, ser revogada nem modificada, mas permanecerá sempre firme e válida, em toda a sua força” (Bula Quo Primum Tempore, art. 9).

A nossa resposta, portanto, é a da resistência filial, em total fidelidade à tradição, sem abandonarmos jamais a estrutura da Igreja, entregando-a aos vândalos, mas, ao contrário, marcando devidamente a nossa persistente e clara adesão à Missa de Sempre. Posição, de fato, que é a mais incômoda para os inimigos da Igreja e a mais sacrificada para nós, contando, exatamente por isso, com a marca distintiva dos verdadeiros discípulos de Nosso Senhor: a marca da Santa Cruz!

A contracultura de Bento XVI.

O que sempre atraiu na figura de Bento XVI não era o carisma, mas a determinação com que procurava tornar acessível a doutrina da fé. Suas palavras eram “de vida eterna”. Por isso os fiéis lhe conservaram uma enorme gratidão, não obstante sua renúncia, dez anos atrás.

Por Jerônimo Lourenço 

Quem imaginaria isso? Nem mesmo a equipe de liturgia do Vaticano estava preparada para a multidão de fiéis — crianças, jovens, adultos e idosos — que chegaram à Praça de São Pedro a fim de prestar as últimas homenagens a Bento XVI.

Logo que a confirmação da morte do Papa emérito foi anunciada, no dia 31 de dezembro de 2022, os preparativos para o funeral começaram de forma modesta. Esperavam-se no máximo 60 mil pessoas para as cerimônias fúnebres, entre os dias 2 e 5 de janeiro. Por quê?

As razões são várias. Primeiro, desde a renúncia, em 28 de fevereiro de 2013, Bento XVI manteve-se quase em anonimato, com raríssimas aparições públicas nos últimos anos. Além disso, mesmo durante o seu pontificado, ele jamais desfrutou de popularidade entre o “grande público”. A mídia, por exemplo, o considerava “pouco carismático”. Finalmente, o coro de seus adversários fez questão de macular sua imagem como pôde, do cinema (vide o filme “Dois Papas”, de Fernando Meirelles) às redes sociais (no Twitter, houve quem o chamasse de Papa “fracassado”). Um verdadeiro attacco a Ratzinger, como escreveu Andrea Tornielli.

Mas nem um nem outro motivo foram capazes de inibir os mais de 200 mil peregrinos que, entre 2 e 4 de janeiro, se revezaram durante horas, em filas quilométricas, para rezar diante do corpo do Pontífice. Ao contrário, finda a Missa de Exéquias, celebrada pelo Papa Francisco no último dia 5, podia-se ouvir dentre os 50 mil presentes na Praça de São Pedro um clamor surpreendente: Santo subito, ecoado por escrito em vários cartazes. Uma prece popular talvez apressada — pode-se discutir —, mas eloquente para o mundo e para a Igreja.

A renúncia de Bento XVI aconteceu há quase uma década, em meio ao Ano da Fé, que ele mesmo proclamara. De lá para cá, a Igreja e o mundo parecem ter mergulhado no processo de simbiose descrito por Schillebeeckx no século passado: “As fronteiras entre a Igreja e a humanidade se apagam em direção à Igreja, mas ainda podemos afirmar que se apagam também em direção à humanidade e ao mundo”. As agendas e preocupações de uma e de outro estão agora em plena sintonia, como se finalmente os católicos tivéssemos “progredido” 200 anos em 10, para fazer referência ao “testamento espiritual” do já falecido Cardeal Martini.

POPE BENEDICT MEETS WITH ITALIAN CARDINAL MARTINI

Bento XVI saiu e a Cúria mudou, consequentemente. Da liturgia indo aos temas mais delicados de moral sexual, tudo agora parece suscetível de “mudança” e “abertura”: Comunhão para recasados, relações homossexuais, ordenação de mulheres, fim do celibato, uso de anticoncepcionais… enfim, assuntos que voltaram à ordem do dia, especialmente em sínodos recentes. Nunca houve tantos aplausos e elogios por parte da imprensa quanto hoje. Terá a Igreja encontrado a fórmula perfeita para voltar a ser atraente aos olhos da humanidade?…

Será isso mesmo? Estará a Igreja de fato em sua melhor fase?

A realidade, no mais das vezes, é severamente realista para quem vive de utopias, e por mais que tentem passar a impressão de que a Barca de Pedro vai de vento em popa, os dados mostram precisamente o contrário. Segundo a própria imprensa progressista, os acenos da Igreja ao mundo moderno (e à sua cultura) não conseguiram criar a primavera esperada.

Quase o oposto. Com raras exceções, os seminários estão vazios, os mosteiros estão vazios, as igrejas estão vazias. O que vimos, em contrapartida, foi uma rápida e agressiva laicização da cultura, na Europa e em qualquer outro lugar, de modo que a fé católica já praticamente não tem a menor influência sobre as decisões dos Estados ou da população em geral. A esse respeito, podemos lembrar dois casos emblemáticos nos quais a Santa Sé mesmo preferiu não intervir: a legalização do “casamento gay” na Itália, em 2016, e a legalização do aborto na Argentina, em 2020.

O mundo, no fim das contas, embora aplauda a Igreja, não sente falta dela. Se a Igreja é o mundo, e vice-versa, ninguém precisa sair de onde está para supostamente se encontrar com Deus. Não há por que se converter.

Ao mesmo tempo, comunidades ditas “mais tradicionais” apresentam um vigor estonteante, com apelos vocacionais cujo alcance causa preocupação em Roma. Diante de uma cultura cambiante, em que não se acha facilmente um apoio firme para se sustentar, os que desejam conservar a Tradição não veem alternativa senão a do profeta Jeremias: parar na estrada para observar, perguntar sobre as veredas de outrora, qual o bom caminho, e andar nele (6, 16).

Foi justamente o que fizeram os anglicanos “tradicionalistas”, ao pedirem para ingressar na Igreja Católica, durante o pontificado de Bento XVI, atraídos pela firmeza da ortodoxia, como diria Chesterton.

Em 2010, Bento XVI esteve na Inglaterra e respondeu precisamente à questão de como a Igreja, na relação com os britânicos, crentes e não-crentes, poderia se tornar mais “crível e atraente para todos”:

Diria que uma Igreja que procura sobretudo ser atraente já estaria num caminho errado, porque a Igreja não trabalha para si, não trabalha para aumentar os próprios números e, assim, o próprio poder. A Igreja está ao serviço de um Outro: não serve a si mesma, para ser um corpo forte, mas serve para tornar acessível o anúncio de Jesus Cristo, as grandes verdades e as grandes forças de amor, de reconciliação que apareceu nesta figura e que provém sempre da presença de Jesus Cristo. Neste sentido a Igreja não procura tornar-se atraente, mas deve ser transparente para Jesus Cristo e, na medida em que não é para si mesma, como corpo forte, poderosa no mundo, que pretende ter poder, mas faz-se simplesmente voz de um Outro, torna-se realmente transparência para a grande figura de Cristo e para as grandes verdades que ele trouxe à humanidade.

Eis a chave para entender o “sucesso” de público no funeral de Bento XVI. Na Inglaterra, “o êxito real desta viagem não foi Bento XVI”, escreveu uma correspondente do The Guardian, “mas o seu rebanho, que desafiou as expectativas e a publicidade negativa para dar as boas-vindas ao Papa”.

Em Roma, dessa vez, o rebanho se reuniu para lhe dar adeus. Seja como for, em ambas ocasiões os fiéis foram ao encontro de seu pastor não tanto por ele mesmo, mas por ter encontrado em seu magistério “o anúncio de Jesus Cristo, as grandes verdades e as grandes forças de amor, de reconciliação”. O que sempre atraiu na figura de Bento XVI não era o carisma, mas a determinação com que procurava tornar acessível a doutrina da fé. Suas palavras eram “palavras de vida eterna”. Por isso, passados já 10 anos, os fiéis católicos conservaram a ele uma enorme gratidão.

Para as categorias mundanas da imprensa e do “grande público”, deve ser assustadora a estima de tantos católicos por Bento. Uma jornalista que cobria o funeral não conseguiu disfarçar a perplexidade quando ouviu os fiéis suplicarem: Santo subito. A mesma perplexidade foi vista quando, na eleição de 2005, jovens em Roma se abraçaram, comemorando-a efusivamente. Também na JMJ de Madri, a despeito de todas as manifestações contrárias, viu-se o entusiasmo com que 1,5 milhão de peregrinos permaneceram ao lado do Santo Padre, mesmo sob forte chuva.

Bento XVI jamais foi o homem “dogmático”, no sentido pejorativo do termo, pintado pela imprensa. Foi um Papa muito pouco legislador. A sua preocupação, antes disso, foi desenvolver uma nova cultura cristã, conduzindo a porção eleita da grei de Cristo aos fundamentos da Verdade, a fim de que, quando chegasse a hora de a Igreja se tornar novamente “uma pequena comunidade de fiéis”, ela fosse capaz de ser uma resposta aos anseios “dos habitantes de um mundo rigorosamente planificado” e “indizivelmente sós”. Os católicos deveriam ser transparentes para Cristo, vivendo de “modo a mostrar que o infinito de que o homem tem necessidade pode provir somente de Deus” [i].

Daí o zelo com que o Papa Ratzinger lutou para preservar a fé e os mandamentos de Nosso Senhor. “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14, 23). Os cristãos estão no mundo, mas não podem viver como mundanos, simplesmente inculturados; devem promover uma contracultura que desperte aqueles ao seu redor para a vida sobrenatural.

Afinal, como Ratzinger dizia ainda na década de 1990, num evento do movimento Comunhão e Libertação: “A libertação fundamental que a Igreja nos pode oferecer consiste em nos manter dentro do horizonte do eterno… Por isso, a própria fé, em toda a sua grandeza e amplitude, é sempre a reforma essencial de que precisamos”. Essa é, na verdade, a grande revolução cristã, que dá aos homens o rumo decisivo. É a cultura do encontro com a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus e ao qual nos unimos pela virtude da fé.

w5ij2fbivjfixnrd5rcv6aecmy

De fato, foi essa a primeira lição da Encíclica Deus Caritas Est e a tônica de todo um pontificado. Na verdade, ao longo de toda a sua vida sacerdotal, não só como Papa, Ratzinger se propôs a dissipar as névoas que escureciam a visão dos homens e os impediam de enxergar a Cristo e encontrá-lo. Pessoas de boa vontade que se abriram à sua escuta não acolheram apenas uma “grande ideia” ou uma “decisão ética”, mas se encontraram com o próprio Senhor, atravessando a porta da fé, que Ratzinger lhes havia aberto. Foi o caso de personalidades como Scott Hahn, ex-ministro protestante, e Peter Seewald, jornalista e ex-ateu, que, como tantos outros, se deixaram conduzir pelas lições de Bento XVI.

Não admira, portanto, que em seu “testamento espiritual” o Santo Padre tenha feito um único pedido: “Permanecei firmes na fé! Não vos deixeis confundir”. Numa hora em que a Igreja inicia mais uma tarefa sinodal, é preciso levar em conta esse apelo do Papa, para que o clima febril de confusão não se agrave.

A imagem de um sacerdote negando a Comunhão a um fiel que queria recebê-la na boca e de joelhos, durante a Missa de Réquiem de Bento XVI, sintetiza bem como está abalada a relação dos fiéis com os pastores. Enquanto estes se inclinam para o mundo, em busca de aberturas e aggiornamentos, aqueles se inclinam para Deus, porque querem adorá-lo e preservar as suas palavras no coração.

Por isso eles foram a Bento XVI. Por isso gritaram: Santo subito. Por isso já o querem “Doutor da Igreja”. Precipitados ou não, eles deram o recado, mostraram o que realmente desejam: nada além da fé católica!

Referências:

  1. Bento XVI, Luz do mundo. São Paulo: Paulinas, 2011, p. 84.
  2. Joseph Ratzinger, Compreender a Igreja hoje. 3. ed., Petrópolis: Vozes, 2006, p. 81.

 

 

 

 

Dom Athanasius Schneider: O legado do pontificado do Papa Bento XVI

Fonte: Senza Pagare

Com o falecimento do Papa Bento XVI, muitos católicos sentiram que perderam um ponto de referência claro e seguro para sua fé.

benedict20and20schneidr20

Pode-se ter a sensação de órfãs. Podemos dizer que o Papa Bento XVI foi um papa, que colocou no centro de sua vida pessoal e da vida da Igreja a visão sobrenatural da fé e da validade perene da Sagrada Tradição da Igreja, que constitui a fonte e a coluna da nossa fé juntamente com a Sagrada Escritura. Neste sentido, o maior e mais benéfico acto de seu pontificado foi o Motu Proprio Summorum Pontificum com a plena restauração da liturgia latina tradicional em toda a sua expressão: Santa Missa, sacramentos e todos os outros ritos sagrados. Este acto pontifício ficará na história como um marco histórico.

O Papa Bento XVI afirma que o rito tradicional da Santa Missa nunca foi abrogado e deve permanecer sempre na Igreja, porque o que era sagrado para nossos antepassados ​​e para os santos deve ser sagrado para nós e para as gerações futuras também. Numa época, como foi a posterior ao Concílio Vaticano II, em que havia no seio da Igreja um movimento quase generalizado de rejeição radical do rito litúrgico milenar da Santa Missa e, portanto, de ruptura com o próprio princípio da Tradição, o pontificado de Bento XVI valeu a pena apenas por ter emitido o Motu Proprio Summorum Pontificum, com o qual começou a cura da ferida no Corpo da Igreja, ferida causada pela atitude de rejeição e ódio da venerável ​​e milenar regra da oração da Igreja.

No seu testamento espiritual, o Papa Bento XVI deixou-nos, entre outras, esta breve e substancial frase, que considero a mais importante de todas: Permanecei firmes na fé! Não vos deixeis confundir! Assistimos hoje na vida da Igreja um processo de diluição da fé católica e de adaptação ao espírito dos hereges, incrédulos e apóstatas pelo nome ilusório e eufónico de sinodalidade e pelo abuso da instituição canônica de um sínodo. Tal situação é desmoralizante para todos os verdadeiros católicos.

Portanto, o legado do Papa Bento XVI que se expressa nas palavras “Permanecei firmes na fé! Não vos deixeis confundir!” e no seu epocal Motu Proprio Summorum Pontificum permanece uma luz, um encorajamento e uma consolação. Este papa era forte na fé, um verdadeiro amante da beleza imperecível e da firmeza do rito tradicional da Santa Missa, deu primazia à oração, à visão sobrenatural e à eternidade. Este legado vencerá graças à intervenção da Divina Providência, que nunca abandona a Sua Igreja, a enorme confusão doutrinária atual, a apostasia rastejante, especialmente entre uma casta mundana e incrédula de teólogos, que são os novos escribas e entre uma apostasia rastejante de não poucos membros do alto clero, que são os novos saduceus.

O Papa Bento XVI fez brilhar o seu lema episcopal “Cooperatores veritatis”, isto é, colaboradores da verdade. Com este lema ele quer dizer a cada fiel católico, a cada sacerdote, a cada bispo, a cada cardeal e também ao Papa Francisco: o que realmente conta é a fidelidade inabalável à verdade católica, à constante e venerável tradição litúrgica de a Igreja e o primado de Deus e da eternidade. Que Deus aceite as orações e sofrimentos espirituais, que o Papa Bento XVI ofereceu em sua vida retitada, e conceda para o futuro da Igreja bispos e papas totalmente católicos e totalmente apostólicos. Pois, como disse São Paulo: “Não podemos fazer nada contra a verdade, mas somente pela verdade” (2Cor 13, 8).

+ Athanasius Schneider

“Como uma vela que se apaga”.

Por Padre Jerome Brown, FratresInUnum.com, 29 de dezembro de 2022: “Como uma vela que se apaga”. Há algum tempo, o secretário particular de Bento XVI referiu-se assim ao seu estado de saúde. Enquanto Papa, Joseph Ratzinger em relação aos erros do Concílio pouco fez para remediar, e ainda teve a infelicidade de reproduzir um mal-fadado encontro de Assis talvez menos sincrético, porém mais relativista.

IMG-20221229-WA0009

Contudo, Bento XVI foi o Papa que respondeu corretamente sobre a chamada Missa Tradicional e lhe deu o lugar menos inadequado na Igreja nesses últimos 50 anos.

Primeiro respondeu que a Missa jamais foi proibida (usando o habitual argumento de que não pode ser normal que uma coisa um dia seja santa e noutro dia seja proscrita) e deu uma liberdade que não era a justa, mas era pelo menos não humilhante para a Missa Tradicional.

Se me permitem uma comparação rude, é como se um inocente fosse preso, mas depois fosse solto com a obrigatoriedade de usar tornozeleira… Bem… Pelo menos está em liberdade…

Havia uma ou outra restrição desnecessária em Summorum Pontificum, mas a Missa estava livre.
E isso gerou um efeito na Igreja, desde a sacralidade das celebrações até a modéstia nas roupas, e fenômenos como comunidades de orientação carismáticas desenvolverem cantos (a meu ver horríveis, mas não deixa de ser um fenômeno, em latim).

Bento XVI criou inegavelmente, em uma continuação dos anos finais de João Paulo II, voltados para a Eucaristia, o Rosário e o Sacerdócio, uma geração de padres padres, dedicados ao altar, ao zelo pelas almas, ao ensino da doutrina, à ars celebrandi.

Também não se pode negar o esforço de Bento XVI em afirmar que a Igreja pós-conciliar era exatamente a mesma Igreja de sempre e seu “exorcismo” contra o espírito do Concílio.

Certamente podia fazer mais e, em relação à sua renúncia, poderia ter feito menos, ou, melhor ainda, nada.

Mas, como católicos somos às vezes duros ao comentar uma ação, mas nos calamos benevolamente no que diz respeito à intenção.

Por isso, Santo Padre, estamos de joelhos, aos pés de vosso leito. Osculamos vossas mãos e desejamos que alcance a misericórdia do Supremo Pastor e Juiz.

Dom Athanasius Schneider: “Santíssimo Padre, Papa Francisco, o senhor não conseguirá destruir o rito tradicional da Missa”.

Por ocasião da Conferência sobre a Identidade Católica organizada pela revista The Remnant nos dias 1 e 2 de outubro de 2022, em Pittsburgh (Estados Unidos), D. Athanasius Schneider fez várias declarações. Encontraremos aqui as palavras mais significativas do Bispo Auxiliar de Astana (Cazaquistão), sobre a Missa tradicional e as perseguições da qual é submetida em Roma e nas dioceses.

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

No LifeSiteNews de 4 de outubro, pode-se ler estas palavras extraídas de sua conferência em Pittsburgh: “As autoridades em exercício odeiam o que é sagrado, e é por isso que eles perseguem a Missa tradicional”. Palavras fortes complementadas por este sábio apelo: “no entanto, não devemos responder com raiva e pusilanimidade, mas com profunda certeza da verdade, paz interior, alegria e confiança na Providência divina.

athanasius

O prelado também afirmou: “O fato de declarar que o Rito reformado do Papa Paulo VI é a única expressão da lex orandi  do Rito Romano – como faz o Papa Francisco – é uma violação da tradição bimilenar respeitada por todos os pontífices romanos que nunca mostraram uma intolerância tão rígida.

Continuar lendo

“De Maria numquam satis”.

“De Maria numquam satis”, dizem os Santos. Não se deve dizer basta nos louvores a Maria Santíssima. Não temamos cultuá-la excessivamente. Estamos sempre muito aquém do que Ela merece. Não é pelo excesso que nossa devoção a Maria falha. E sim, quando é sentimental e egoísta. Há devotos de Maria que se comovem até às lágrimas, e, no entanto, se ajustam, sem escrúpulos, à imodéstia e à sensualidade dominantes na sociedade de hoje. Sem imitação não há verdadeira devoção marial.

Consagremos, realmente, a Maria Santíssima nossa inteligência e nossa vontade, com a mortificação de nossa sensibilidade e de nossos gostos, e Ela cuidará de nossa ortodoxia. “Qui elucidam me vitam aeternam habebunt” (Eclo 24,31) – [Aqueles que me tornam conhecida terão a vida eterna] -, diz a Igreja de Maria. Os que se ocupam de fazê-la conhecida e honrada terão a vida eterna.

Dom Antônio de Castro Mayer.

Quando eu era jovem teólogo, antes e até mesmo durante as sessões do Concílio, como aconteceu e como acontecerá a muitos, eu alimentava uma certa reserva sobre algumas fórmulas antigas como, por exemplo, a famosa De Maria nunquam satis – “Sobre Maria jamais se dirá o bastante”. Esta me parecia exagerada.

Encontrava dificuldade, igualmente, em compreender o verdadeiro sentido de uma outra expressão bastante famosa e difundida repetida na Igreja desde os primeiros séculos, quando, após um debate memorável, o Concílio de Éfeso, do ano 431, proclamara Nossa Senhora como Maria Theotokos, que quer dizer Maria, Mãe de Deus, expressão esta que enfatiza que Maria é “vitoriosa contra todas as heresias”.

Somente agora – neste período de confusão em que multiplicados desvios heréticos parecem vir bater à porta da fé autêntica –, passei a entender que não se tratava de um exagero cantado pelos devotos de Maria, mas de verdades mais do que válidas.

Cardeal Joseph Ratzinger – Entretiens sur la Foi, Vittorio Messori – Fayard 1985.

(Publicado originalmente na festa da Imaculada Conceição de 2008)