19 março, 2019

São José.

“Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt. 5, 48). O ideal, pois, da santidade pede do homem uma assimilação da vida divina. Ideal nobilíssimo, quanto mais o seja, mas que supera totalmente as forças humanas. Por isso, na sua inefável bondade, Deus nos enviou um modelo: seu próprio filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Para que ele fosse dos nossos, de nossa raça, nosso irmão, podendo legitimamente nos representar, deu-lhe uma natureza humana, formada do puríssimo sangue da Santíssima Virgem Maria; fê-lo nascer de mulher, como os demais homens, de maneira que a todo homem, ao vir a este mundo, Ele pudesse ser apresentado como o protótipo de santidade. Conclui-se que o homem se santifica na medida em que reproduz, na sua vida, a maneira de viver de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Disse alguém que nenhum homem é uma ilha, pois todo indivíduo se acha no seio de uma sociedade doméstica ou sua sucedânea, através da qual ele ingressa na grande sociedade civil. Jesus Cristo não fugiu à regra. Como homem, teve também sua sociedade mais íntima, seus familiares.

É o que se lê em diversos lugares da Sagrada Escritura.

É a São José que o anjo aparece para recomendar-lhe que fuja à ira de Herodes. É ao mesmo São José que, morto o monstro, o anjo adverte que retorne a Canaã com a Sagrada Família.

Maria Santíssima queixa-se a Jesus o ter-se afastado dela e de seu pai quando permaneceu no Templo, aos 12 anos. E a Sagrada Escritura diz igualmente que em Nazaré, Jesus era simplesmente o Filho do Carpinteiro.

Costuma-se dizer que São José é o Pai putativo, Pai nutrício, Pai legal, etc., de Jesus Cristo. Todas expressões verdadeiras, mas que terminam encobrindo o conceito mais profundo e exato de paternidade de São José. Pois que ele é de fato o pai da família nazaretana. E a razão exata porque São José é o pai da família nazaretana, é porque é o verdadeiro esposo de Maria Santíssima, a mãe daquela abençoada família. E como esposo legítimo e verdadeiro, participa da maternidade que sua esposa tem com relação aos frutos de seu seio, ainda que virginais.

Da posição de São José na Sagrada Família decorre o esplendor singular da sua pessoa e a extensão e valor do seu patrocínio.

Com justiça foi declarado por Pio IX patrono da Igreja Universal. E a Santa Igreja recomenda aos fiéis que se acolham sob seu patrocínio. Especialmente como patrono da boa morte é ele invocado, uma vez que teve a ventura de morrer nos braços de Jesus e de Maria Santíssima.

Dom Antonio de Castro Mayer, Heri et Hodie, março de 1986.

Publicado originalmente em 1º de maio de 2013.

18 março, 2019

Como era Santo Afonso no confessionário.

Vamos transcrever (na presente obra) esta bela página do Pe. Tellería, da vida de Santo Afonso que escreveu, com tanto esmero sobre nosso Pai:

“Nesse ministério de reconciliação, tinha Afonso seu estilo próprio, não muito diferente do que em tempos modernos empregava o santo cura d’Ars. A cordialidade de alma se unia ao seu gesto de espontaneidade  tipicamente napolitano. […] Quanto mais tímido e receoso se aproximava o pecador, maior parecia sua ternura de pai que Afonso demonstrava.

Santo Afonso Maria de Ligório.

Ei- dizia- coragem; vai fazer agora uma excelente confissão, diga-me tudo com liberdade, não te envergonhes de nada. Nem sequer importa que não tenha feito o exame (de consciência) a fundo; basta com que respondas ao que vou perguntar. Agradece a Deus porque te esperou até esse instante: a partir de agora terás que mudar de vida. Alegra-te, portanto, pois certamente Deus te perdoa se tens boa intenção. Esperou-te precisamente para te perdoar! Diga-me então, o que tens na alma.”

Assim confortado, revelava o culpado os segredos de sua consciência, não interrompia Afonso de ordinário, nem desmotivava o penitente com reprovações, nem fazia “caras” de escândalo; quando pediam alguma aclaração, respondia com uma frase de gravidade da culpa, normalmente esperava ao término da acusação dos pecados para intervir a fundo e aplicar a lei da integridade sacramental.

Cuidava logo de reforçar no penitente a dor de suas culpas e o propósito de emenda: “Meu filho, verdade que sua vida foi uma vida digna de condenação? Que mal te fez Jesus Cristo para que O tratasse assim? Se Jesus Cristo foi teu principal inimigo, teria tratado Ele pior? A um Deus que morreu por ti! Se tivesse morrido nesse tempo, qual seria seu fim eterno? Estaria condenado para sempre! Que achas disso? Se continuas vivendo dessa maneira, vai conseguir se salvar? Não vê que se condenarás? Ânimo, pois, meu filho, procura se converter agora, entregue-se a Deus, basta das ofensas até agora cometidas! Quero ajudar em tudo o que eu possa, vem procurar-me quando queira. Faça-se santo a partir de agora, recupera o ânimo! Oh, que belo é viver na graça de Deus!”

Por fim ajudava a fazer o ato de contrição, recomendava os remédios contra as recaídas e assinalava a penitência. Ainda nos casos que deveria negar ou indeferir a absolvição, fazia com termos delicados deixando a porta aberta à esperança: “Olhe, te espero tal dia: não deixes de vir, mostra-te corajoso como disse, reze à Virgem e vem me procurar. Se estou no confessionário se aproxima e te farei passar na frente antes que os demais; ou bem me chame e deixarei tudo para vir te escutar.”

Segundo afirmou no processo o Pe. Corsano: “ não tinha Afonso memória de ter despedido a ninguém sem o beneficio da absolvição.” (San Alfonso Maria de Ligorio, I , 703-704)

Extraído do livro: “Espiritualidad Redentorística, pelo P. Rogelio M. Fernandez, CSSR, 1959, Madrid, pág. 663-4.

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17 março, 2019

Foto da semana.

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Em sua quinquenal visita Ad limina Apostolorum, os bispos do Cazaquistão não deixaram de visitar o Papa emérito Bento XVI.

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16 março, 2019

Coluna do Padre Élcio: Como se faz o jogo do adversário.

ARTA PASTORAL prevenindo os diocesanos contra os ardis da seita comunista. Escrita em 13 de maio de 1961 pelo então Bispo da Diocese de Campos, D. Antônio de Castro Mayer, de saudosa memória (continuação).

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 16 de março de 2019.

Vêm a propósito algumas observações sobre a maneira como, inconscientemente embora, se chega a auxiliar em certos casos o movimento comunista.

Omissões e silêncios que favorecem os comunistas 

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O Papa Pio XI ao lado de seu sucessor, o Cardeal Eugenio Pacelli, futuro Pio XII.

O comunismo, como se sabe  –  e esta é sua característica mais visível   –  é contrário à propriedade privada. A anulação desse direito constitui para ele uma das metas a atingir para chegar ao ideal supremo da sociedade sem classes (cf. Enc. “Divini Redemptoris”, ibid., p. 70); e, como sempre, a campanha contra a propriedade privada é conduzida por seus asseclas sem a menor atenção à ordem moral, aos direitos legitimamente adquiridos, uma vez que para os comunistas  – convém tê-lo sempre presente  –  não há freio moral (cf. Enc. cit. bid.). Eles se movem unicamente pela consideração do que é útil à finalidade da seita.

Ora, é patente que, na atual ordem de coisas, aquele instituto, não rara vezes, tem sido utilizado de modo abusivo. Os Papas o reconhecem. É, pois, certo que tais abusos devem ser eliminados.

Um movimento destinado a abolir os abusos da propriedade privada, e a levar os proprietários a fazer uso honesto de seus bens, é em si benemérito. Acontece, não obstante, que facilmente pode ele favorecer o comunismo. Basta que não afirme de maneira enérgica e categórica que o instituto da propriedade privada é legítimo, para que a campanha auxilie a criação de um clima hostil aos proprietários enquanto tais, apresentados pelos comunistas como parasitas da sociedade. Não é só. Cumpre que um movimento assim saliente bem o interesse social que há na existência da classe dos proprietários, da qual se beneficiam todos, especialmente os menos galardoados pela fortuna. É a advertência de Pio XI. Assinala o Pontífice que “a própria natureza exige a repartição dos bens em domínios particulares PRECISAMENTE [grifo nosso] a fim de poderem as coisas criadas servir ao bem comum de modo ordenado e constante” (Enc. “Quadragesimo Anno”, A. A. S., vol. 23, pp. 191-192). Este princípio, acrescenta o Papa, deve tê-lo “continuamente diante dos olhos quem não quer desviar-se da reta senda da verdade”. É enfim preciso que a campanha de que tratamos não fique em reivindicações vagas, mas antes tome todo o cuidado em não exagerar de tal maneira as restrições ao direito de propriedade, que atinja também a própria existência dele. Assim, por exemplo, não se há de exigir por justiça o que pertence as outras virtudes, como sabiamente ensinava Pio XI (cf. Enc. cit. ibid., p. 192).

Em vários documentos de Pio XII nota-se a preocupação com os movimentos surgidos para combater os abusos da propriedade privada, ou do capitalismo (palavra de que ardilosamente se serve o comunismo para confundir o direito de propriedade com as injustiças da atual ordem econômica). A preocupação do saudoso Pontífice revela como houve excessos nessas campanhas. Citemos apenas o trecho da radiomensagem dirigida ao Congresso Católico de Viena em 14 de setembro de 1952, pelo qual se vê quanto interessa aos comunistas a falta de uma afirmação nítida do direito de propriedade. Eis as palavras de Pio XII: “É preciso impedir a pessoa e a família de se deixarem arrastar para o abismo, onde tende a lançá-las a socialização de todas as coisas, ao fim da qual a terrível imagem do LEVIATAN tornar-se-ia uma horrível realidade”, na qual soçobrariam “a dignidade humana e a salvação das almas”.  Como impedir este desastre? Mediante a afirmação categórica do direito de propriedade. Continua, realmente o Papa: “É assim que se explica a especial insistência da doutrina social católica sobre o direito de propriedade privada. É a razão profunda pela qual os Papas das Encíclicas sociais e Nós mesmo Nos recusamos a deduzir, seja direta, seja indiretamente, da natureza do contrato de trabalho, o direito de co-propriedade do trabalhador ao capital e, portanto, seu direito de co-direção” (Radiomensagem ao “Katholikentag” de Viena, de 14-9-1952, “Discorsi e Radiomenssaggi”, vol. 14, p. 313).

As expressões do Papa são para nós sábia advertência. A Igreja apresenta como ponto inalterável de sua doutrina o direito de propriedade privada, resultante da natureza e objeto de um dos Mandamentos do Decálogo. Faz portanto ele parte dos fundamentos da civilização cristã, cuja manutenção, pela observância dos vínculos jurídicos que a compõem, é um dever grave que obriga a todos os fiéis. Por isso, a Igreja mantém-se vigilante em face dos atentados que contra esse direito se sucedem na agitação da sociedade de hoje, trabalhada pelo espírito socialista. Ouvimos o pranteado Papa Pio XII a falar para o Congresso Católico de Viena. Firmemo-nos na doutrina pontifícia para não aceitarmos as limitações propugnadas por um não se sabe que novo cristianismo progressista, as quais vulneram o direito de possuir nascido da própria natureza. Deixar este último, com efeito, ao sabor de dispositivos legais imprecisos e indeterminados, de medidas como a desapropriação pelo chamado interesse social, quando feita sem causa justa e demonstrada, ou ainda sem indenização correspondente ao valor real e feita em tempo hábil, é mutilá-lo no que lhe é essencial. Os Papas, que tanto e tão energicamente salientaram o papel que a propriedade privada tem na sociedade, jamais a reduziram a mera função social.

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15 março, 2019

Via Sacra escrita por Dom Antônio de Castro Mayer.

ORAÇÃO PREPARATÓRIA

Meu Senhor Jesus Cristo, disponho-me a acompanhar-Vos no caminho que trilhastes do pretório de Pilatos ao Calvário, para Vos imolardes por minha salvação. Peço-Vos a graça de nos conceder grande dor e arrependimento de ter pecado, causando vossos atrozes sofrimentos, e que vosso Sangue preciosíssimo infunda em minha alma o propósito firme de nunca mais pecar.

ANTES DE CADA ESTAÇÃO

Dirigente: Nós Vos adoramos, Senhor, e Vos bendizemos;

Todos: Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

No final da consideração, depois da Ave Maria:

Todos: PESA-ME, SENHOR, de todo o meu coração ter ofendido a vossa infinita bondade, proponho com vossa graça a emenda, e espero que me perdoeis por vossa infinita misericórdia. Amém.

Dirigente: Compadecei-vos de nós, Senhor!

Todos: Compadecei-vos de nós!

Dirigente: Que as almas dos fiéis defuntos, por misericórdia de Deus, descansem em paz.

Todos: Amém.

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14 março, 2019

Dom Athanasius Schneider obtém do Papa Francisco esclarecimento sobre “diversidade de religiões” e diz que o Encontro sobre Abusos Sexuais foi um completo “fracasso”.

Por Diana Montagna, LifeSiteNews, 7 de março de 2019 | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.comEm sua recente visita ad limina a Roma, os bispos do Cazaquistão e da Ásia Central levantaram uma série de preocupações que têm sido amplamente compartilhadas na Igreja ao longo dos últimos anos, e que dizem respeito às percebidas ambigüidades no magistério do Papa Francisco.

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Na reunião de 1º de março, o bispo Athanasius Schneider, auxiliar de Astana, Cazaquistão, também obteve do papa Francisco um esclarecimento sobre seu pronunciamento segundo o qual Deus não apenas permitiria, mas positivamente desejaria, uma “diversidade de religiões”.

Em entrevista exclusiva à LifeSite, Dom Schneider disse que as preocupações levantadas durante o encontro de duas horas com o Santo Padre incluíram “Comunhão para católicos divorciados e civilmente recasados”, a questão da comunhão para os cônjuges protestantes em casamentos mistos e a questão da propagação prática da homossexualidade na Igreja”.

Em um intercâmbio direto entre o papa Francisco e o bispo Schneider, a alegação de que a “diversidade das religiões” é “desejada por Deus” também foi discutida. A expressão, contida em uma declaração conjunta que o Papa Francisco assinou no mês passado com um Grande Imam em Abu Dhabi, incitou uma controvérsia considerável.

O Papa declarou explicitamente que o bispo Schneider poderia compartilhar o conteúdo de seu intercâmbio sobre este ponto. “Você pode dizer que a frase em questão sobre a diversidade das religiões significa a vontade permissiva de Deus”, disse ele aos bispos reunidos, que vêm de regiões predominantemente muçulmanas.

O Bispo auxiliar de Astana, por sua vez, pediu ao papa que esclarecesse oficialmente a declaração no documento de Abu Dhabi.

LifeSite sentou-se com o Bispo Schneider em Roma após a visita ad limina. Em uma ampla entrevista, discutimos seu encontro com o Papa Francisco, seus pontos de vista sobre a recente cúpula do abuso sexual no Vaticano, e antecipamos ataques ao celibato clerical no próximo Sínodo Amazônico.

Schneider classificou a cúpula sobre abuso sexual como um “show clerical” e um “fracasso” por não abordar as “raízes profundas” da crise, além de não emitir “normas muito precisas, convincentes e incisivas”. Ele expõe o que ele acredita serem as quatro causas da crise do abuso e propõe duas normas concretas que segundo ele, deveriam ter saído do Encontro.

Questionado sobre a negação do cardeal Blase Cupich sobre uma relação causal entre a homossexualidade e o abuso sexual clerical, Schneider perguntou desesperadamente: “Como posso falar com um homem que nega a realidade?”

Na entrevista, o bispo Schneider também elogia a carta aberta emitida pelo cardeal Raymond Burke e pelo cardeal Walter Brandmüller antes do encontro no Vaticano sobre a proteção de menores e sugere novas medidas que cardeais e bispos poderiam tomar para enfrentar a atual crise na Igreja.

Aqui abaixo está a nossa entrevista exclusiva com o Bispo Athanasius Schneider.

LifeSite: Excelência, o que você pode nos dizer sobre sua recente visita ad limina e encontro com o Papa Francisco?

Bispo Schneider: Foi para mim uma experiência muito espiritual – uma peregrinação aos túmulos de São Pedro e São Paulo, onde celebramos a Santa Missa. No túmulo de São Pedro cantamos para o Papa Francisco a antífona “Oremus pro pontifice nostro” seguida pelo Credo. Também oramos pelas intenções do papa para obter a indulgência plenária. Fizemos o mesmo na Basílica de São Paulo Fora dos Muros e na Basílica Mariana de Santa Maria Maior.

Em relação ao nosso encontro com o Papa, ele é o Vigário de Cristo na terra neste tempo, e ele foi muito fraterno e gentil conosco. Foi uma atmosfera muito gentil.

Nosso encontro com ele durou duas horas. Considero isto um ato de grande generosidade por parte do Papa, passar tanto tempo com o nosso grupo de 10 bispos e ordinários do Cazaquistão e da Ásia Central.

Durante a reunião, o Papa nos convidou a expressar livremente nossas preocupações e até nossas críticas. Ele enfatizou que gosta de uma conversa muito livre.

Alguns bispos puderam levantar preocupações sobre a vida da Igreja em nossos dias. Por exemplo, a questão da comunhão para católicos divorciados e civilmente “recasados”; a questão da comunhão para os cônjuges protestantes em casamentos mistos; e a questão da disseminação prática da homossexualidade na Igreja. Esses pontos foram discutidos.

Então pedi também ao Santo Padre que esclarecesse a declaração do documento de Abu Dhabi sobre a diversidade de religiões como sendo “desejadas” por Deus.

O Papa foi muito benevolente em sua resposta às nossas perguntas e procurou nos responder a partir de sua própria perspectiva sobre esses problemas. Ele respondeu de maneira mais generalizada sobre os princípios da fé católica, mas nas circunstâncias dadas não pudemos entrar em detalhes sobre as questões específicas. Mesmo assim, sou muito grato ao Santo Padre por ter nos dado a possibilidade, de em um ambiente muito sereno, levantar várias preocupações e falar com ele.

Você pode nos dizer mais sobre como o Papa Francisco respondeu à sua preocupação com a declaração de Abu Dhabi sobre a diversidade das religiões? Na passagem controversa se lê: “O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e linguagem são desejadas por Deus em Sua sabedoria, mediante a qual Ele criou os seres humanos”.

Sobre o assunto de minha preocupação com a frase usada no documento de Abu Dhabi – que Deus “deseja” a diversidade de religiões – a resposta do Papa foi bem clara: ele disse que a diversidade de religiões é apenas a vontade permissiva de Deus. Ele enfatizou isso e nos disse: você pode dizer isso também, que a diversidade das religiões é a vontade permissiva de Deus.

Eu tentei ir mais fundo na questão, pelo menos citando a frase como se lê no documento. A sentença diz que, assim como Deus deseja a diversidade de sexos, cor, raça e linguagem, assim Deus quer a diversidade das religiões. Existe uma comparação evidente entre a diversidade das religiões e a diversidade dos sexos.

Mencionei este ponto ao Santo Padre, e ele reconheceu que, com essa comparação direta, a sentença pode ser entendida erroneamente. Eu enfatizei em minha resposta a ele que a diversidade de sexos não é a vontade permissiva de Deus, mas é positivamente desejada por Deus. E o Santo Padre reconheceu isso e concordou comigo que a diversidade dos sexos não é uma questão da vontade permissiva de Deus.

Mas quando mencionamos essas duas frases na mesma frase, a diversidade de religiões é interpretada como positivamente desejada por Deus, assim como a diversidade dos sexos. A sentença, portanto, leva a dúvidas e interpretações errôneas, e portanto foi meu desejo e meu pedido para que o Santo Padre retificasse isso. Mas ele disse para nós bispos: você pode dizer que a frase em questão sobre a diversidade de religiões significa a vontade permissiva de Deus.

Para os leitores que podem não estar familiarizados com a distinção entre a vontade permissiva e positiva de Deus, você pode dar alguns exemplos de outras coisas que Deus permite através de sua vontade permissiva?

Sim, a vontade permissiva significa que Deus permite certas coisas. Deus permitiu o pecado de Adão e todas as suas conseqüências; e mesmo quando pecamos pessoalmente, em certo sentido, Deus permite isso ou tolera isso. Mas Deus não permite positivamente o nosso pecado. Ele permite isso em vista do sacrifício infinitamente meritório de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz, e porque ele não quer destruir a nossa liberdade. Esse é o significado da vontade permissiva de Deus.

ENCONTRO “A PROTEÇÃO DOS MENORES NA IGREJA”

Muitas pessoas, incluindo vítimas de abuso sexual que vieram a Roma para o Encontro do Vaticano de 25 a 27 de fevereiro sobre a proteção de menores na Igreja, ficaram desapontadas com o encontro pelo que consideraram sua falta de ação concreta. Excelência, o que você acha que seria a maneira mais eficaz de resolver o problema do abuso e acobertamento sexual na Igreja?

Quando há um problema enorme – que é o abuso de crianças, menores e subordinados adultos pelo clero certamente – sempre temos que ir na raiz mais profunda, como todo bom médico faz.

Não podemos resolver uma doença apenas fazendo um diagnóstico superficial. Um diagnóstico profundo e integral é necessário. E na minha opinião, isso não foi feito nesse Encontro, porque uma das raízes evidentes, observáveis ​​e mais profundas do abuso sexual de menores é a homossexualidade entre o clero. É claro que não direi que todos os homossexuais estão necessariamente abusando de crianças. Isso seria injusto e falso. Mas estamos falando sobre abuso clerical na Igreja, e por isso temos que nos concentrar nessa doença. Está provado que mais de 80% das vítimas eram do sexo masculino pós-púberes. Portanto, é evidente que a natureza da maioria deste abuso envolveu atos homossexuais. Temos que salientar que esta é uma das principais raízes.

A outra raiz principal da crise dos abusos é o relativismo no ensino moral, que começou após o Concílio Vaticano II. Desde então, temos vivido em uma profunda crise de relativismo doutrinal, não apenas na esfera dogmática, mas também moral – a lei moral de Deus. A moral não foi ensinada claramente nos seminários nos últimos 50 anos; muitas vezes não foi claramente ensinado nos seminários e faculdades teológicas que um pecado contra o sexto mandamento é um pecado grave. Subjetivamente, pode haver circunstâncias atenuantes, mas objetivamente é um pecado grave. Todo ato sexual fora de um matrimônio válido é contra a vontade de Deus. Ofende a Deus e é um pecado grave, um pecado mortal. Esse ensinamento foi muito relativizado. E esta é uma das outras raízes profundas. Temos que enfatizar isso. E, na minha opinião, isso não foi enfatizado no Encontro: o relativismo do ensino moral, especificamente sobre o sexto mandamento.

Outra causa profunda é a falta de uma formação verdadeira, séria e autêntica de seminaristas. Houve falta de ascetismo na vida e formação dos seminaristas. Foi provado por dois mil anos, e pela natureza humana, que sem ascetismo físico como jejum, oração e até mesmo outras formas de mortificações corporais, é impossível viver uma vida constante em virtude sem cair no pecado mortal. Devido à profunda ferida do pecado original e à concupiscência ainda em ação em todo ser humano, precisamos da mortificação corporal.

São Paulo diz: “Não faça provisão para a carne, para satisfazer seus desejos.” (Rm 13:14) Podemos parafrasear estas palavras, dizendo: não nutram sua carne em demasia ou a concupiscência dominará você. E isso é exatamente o que muitas vezes aconteceu nos seminários. Seminaristas e sacerdotes alimentavam a carne através de uma vida confortável, sem ascetismo, sem jejum e outras mortificações corporais e espirituais.

Mas para mim, a causa mais profunda da crise do abuso sexual clerical é a falta de um relacionamento profundo e pessoal com Jesus Cristo. Quando um seminarista ou um padre não tem um profundo relacionamento pessoal com Jesus Cristo, em constante fidelidade a uma vida de oração e realmente desfrutando de um amor pessoal por Jesus, ele é presa fácil para as tentações da carne e outros vícios.

Além disso, quando você tem um amor profundo e pessoal a Cristo, você não pode deliberadamente cometer um pecado horrendo. Ocasionalmente, por causa da fraqueza da natureza humana, um padre ou seminarista poderia cometer um pecado mortal contra a pureza. Mas no mesmo momento, ele fica profundamente arrependido e decide evitar o próximo pecado a qualquer custo. Esta é uma manifestação de um verdadeiro amor de Cristo. Mas para mim está completamente excluído que uma pessoa que ama profundamente a Cristo possa abusar sexualmente de menores. Isso para mim é impossível. Na minha opinião, um profundo amor de Cristo exclui isso.

Estas são as raízes principais: a homossexualidade entre o clero, o relativismo na doutrina, a falta de ascese e sobretudo a ausência de um amor profundo e verdadeiro por Cristo. E isso não foi enfatizado no Encontro. Portanto, considero o evento como um fracasso.

Você mencionou a estatística de que 80% das vítimas eram homens pós-púberes. Como você responde ao Cardeal Blase Cupich e outros que apontam para o relatório de John Jay e outros estudos como prova de que não há relação causal entre homossexualidade e abuso sexual clerical?

É uma negação da realidade. Como posso falar com um homem que nega a realidade? Isso só é explicável como uma posição ideológica.

Que medidas concretas você acredita que a cúpula deveria ter feito para oferecer soluções reais para o problema do abuso sexual clerical?

A cúpula deveria ter emitido normas canônicas concretas e não o fez. Portanto, acho que a cúpula foi um fracasso. Foi um belo show clerical, foi um show de clericalismo – todos os clérigos com seus títulos vieram de todas as partes do mundo. E muitas palavras bonitas – palavras muito emocionais – foram ditas. Mas essas raízes profundas não foram abordadas e normas concretas e incisivas não foram dadas.

A meu ver, normas muito precisas, convincentes e incisivas devem ser dadas.

A primeira norma canônica que proponho seria a seguinte: que as pessoas com inclinações homossexuais, categoricamente não devem ser aceitas nos seminários. E, se forem descobertos, é claro, com respeito e amor, devem ser dispensados ​​do seminário e ajudados a serem curados para viver como um bom leigo cristão.

Atualmente, as normas dizem apenas que aqueles com “tendências homossexuais profundamente arraigadas” não devem ser admitidos no seminário, mas para mim isso não é suficiente. O que significa “profundamente arraigadas”? Se um homem adulto chega ao seminário e sente atração homossexual, mesmo que ainda não seja uma atração profundamente arraigada, ainda assim é uma atração homossexual. E em si mesma já é uma condição que, em algumas circunstâncias – como na atmosfera exclusivamente masculina de um seminário – poderia evoluir para uma tendência mais profunda ou mais agressiva.

E quando ele se tornar padre, ele estará com seminaristas, com jovens coroinhas e assim por diante. E assim, embora talvez no seminário essas tendências não sejam profundas, elas podem se tornar mais profundas em certas circunstâncias.

Pra mim isso é no mínimo arriscado. Digamos que um jovem não é um homossexual agressivo. Ele não sente prazer algum em ter tendências homossexuais, e elas não são tão profundamente enraizadas. Mas quando ele reconhece que ele tem essas tendências, ou quando é provado por atos exteriores ou sinais de que ele tem tendências homossexuais, mesmo que elas não sejam profundamente arraigadas, ele deve ser caridosamente mandado embora do seminário. E isso deveria ser uma norma canônica: alguém que reconhece que tem tendências homossexuais, mesmo não profundamente arraigadas, não pode ser recebido em outro seminário e não pode ser ordenado.

As tendências homossexuais são uma espécie de traço de desordem de personalidade e uma percepção distorcida da realidade, já que isso significa desejar um objeto de prazer contra a ordem natural dos sexos. Documentos magisteriais chamam isso de desordem “objetiva”. Como você pode ordenar um homem com uma desordem em sua personalidade ou em sua composição psico-somática? Claro, existem outros distúrbios psicológicos também. Nós não ordenamos homens com certos distúrbios psicológicos, mesmo quando eles não são tão profundos. Isso prejudicaria o sacerdócio.

Você mencionou sinais exteriores. Na norma canônica que você propõe, que tipo de sinais exteriores você tem em mente?

Se ele tivesse uma amizade exclusiva e ostensiva com um homem, já seria um sinal exterior. Ou se ele olha pornografia masculina na internet, isso seria outro sinal. Estes são sinais exteriores e verificáveis. Uma vez que estes sinais sejam descobertos, tal seminarista deve ser excluído para sempre da ordenação. Sim, ele pode ser curado, mas o seminário não é um sanatório para curar pessoas com distúrbios psicológicos ou tendências homossexuais. Isso é ingênuo e prejudicará o sacerdócio e a pessoa. Seria melhor para essa pessoa ser um bom cristão no mundo e salvar sua alma, e não ser um sacerdote. Naturalmente que podemos e devemos ajudá-lo. Mas temos que estar dispostos a dizer-lhe: você não será ordenado, é para a salvação da sua alma. Seja um bom cristão no mundo.

É melhor ter menos padres, mas homens saudáveis ​​e psicologicamente saudáveis. E profundos amantes de Cristo, homens profundamente espirituais. Seria melhor para toda a Igreja. É melhor deixar algumas paróquias sem padre e algumas dioceses sem um bispo por vários anos do que ordenar um homem que tenha um transtorno, seja homossexual ou outros transtornos de personalidade.

Que outras normas concretas você acredita que o Encontro sobre abuso sexual no Vaticano deveria ter emitido?

Em um caso quando um padre ou um bispo comete abuso sexual, mesmo um único caso, ele deve ser dispensado do estado clerical. Deveria haver “tolerância zero” neste caso, e deveria ser estabelecido no Direito Canônico. Não deve haver exceção. É claro que o ato do abuso sexual deve ser provado e verificado por um verdadeiro processo canônico, mas quando é comprovado, ele deve ser demitido do estado clerical.

Essas duas normas (a não admissão categórica ao seminário, a não ordenação de homens com tendências homossexuais e a demissão do estado clerical), a meu ver, deveriam ter sido explicitamente mencionadas no Encontro, se é que era para se ter um impacto concreto. De outro modo, foi só um belo encontro, mais ou menos um espetáculo clerical com palavras e declarações sentimentais.

Um padre que abusou de menores deveria receber algum dinheiro da Igreja?

Acho que sim. Nós temos que ser misericordiosos e não devemos ser cruéis. Devemos sempre ser humanos e cristãos, e acho que a Igreja deveria, pelo menos temporariamente, dar a esses clérigos que são demitidos ajuda financeira – talvez nos primeiros dois anos.

Carta Aberta dos Cardeais Burke e Brandmüller

Antes da cúpula, o cardeal Raymond Burke e o cardeal Walter Brandmüller publicaram uma carta aberta convidando os bispos presentes ao Encontro a por um fim em seu silêncio sobre a corrupção moral na Igreja e a defender a lei divina e natural. Quanto você acha que a carta aberta foi ouvida e ouvida na reunião?

Eu acho que a carta dos dois cardeais foi meritória e muito oportuna, e a história a considerará como uma contribuição verdadeiramente positiva nesta crise muito delicada de abuso a nível universal na Igreja. Foi um belo testemunho e acredito que esta carta honrou o Colégio dos Cardeais. Mas acho que foi mais ouvida pelas pessoas simples do que pelos clérigos: novamente, clericalismo.

Alguns sugeriram que o Encontro do abuso sexual no Vaticano foi o maior exemplo de clericalismo.

Eles falharam em ouvir as vozes dos leigos. A voz dos leigos não foi ouvida suficientemente pelos clérigos. Isso não é clericalismo?

O que você acha que explica a recusa óbvia e repetida em abordar a questão da homossexualidade no Encontro? Alguns argumentaram que poderia ser devido a um desejo de proteger as redes homossexuais dentro da hierarquia. Outros sugeriram que os bispos têm medo de dizer algo negativo sobre a homossexualidade por medo de repercussões do Estado.

Eu acho que o primeiro argumento não tem peso considerável no contexto do Encontro. Existem grupos homossexuais, mas neste Encontro não foi decisivo, na minha opinião.

O segundo argumento que você mencionou tem algum peso, mas não foi decisivo. O medo da parte dos bispos de confrontar o mundo é um fator; o medo do mundo. Mesmo que eles possam ser pessoalmente contra a homossexualidade, eles temem um confronto com o mundo. Covardia clerical: novamente, clericalismo.

Mas a razão mais profunda, na minha opinião, é que há poderosos grupos entre bispos e cardeais que querem promover e mudar na Igreja a lei moral divina sobre o mal intrínseco dos atos homossexuais e do estilo de vida homossexual. Eles querem tornar a homossexualidade aceitável como uma variante legítima da vida sexual. Na minha opinião, esta é a razão mais profunda e talvez decisiva porque eles ficaram em silêncio e falharam em endereçar o problema. 

 

Sínodo Amazônico

Em outubro, um Sínodo sobre a Amazônia será realizado no Vaticano. Sua Excelência morou no Brasil por um tempo e está familiarizado com a região. Tem sido dito que há falta de padres na Amazônia, o que segundo alguns dizem, justificaria a introdução do viri probati. É verdade que existe uma crise sacramental e falta de padres?

Bem, há uma falta de padres na Amazônia, mas também há escassez em outros lugares. Há uma crescente escassez de padres na Europa. Mas a falta de padres é apenas um pretexto óbvio para abolir praticamente (não teoricamente) o celibato na Igreja latina. Este tem sido o objetivo desde Lutero. Entre os inimigos da Igreja e seitas, o primeiro passo é sempre abolir o celibato. O celibato sacerdotal é a última fortaleza a ser abolida na Igreja. A vida sacramental é apenas o pretexto para assim proceder. 

Em minha própria experiência na União Soviética, passamos vários anos sem a Santa Missa e sobrevivemos fortes na fé. A fé foi vivida na Igreja doméstica que é a família. A fé foi transmitida através do Catecismo. Nós orávamos. Fazíamos comunhões espirituais através das quais recebemos muitas graças. Quando de repente um padre veio depois de um ou dois anos, foi realmente uma festa, e nós ficamos tão felizes, conseguimos nos confessar sacramentalmente e Deus nos guiou. Então eu tive uma experiência pessoal disso em minha vida, na União Soviética.

Em relação ao Brasil: também morei e trabalhei no Brasil por 7 anos. E eu conheço os brasileiros. Eles são pessoas muito piedosas, pessoas simples. Eles nunca pensariam em clérigos casados. Não, esta é uma idéia posta em suas cabeças, não por povos indígenas, mas por pessoas brancas, por padres que não estão vivendo uma profunda vida apostólica e sacrificial. Sem a verdadeira vida sacrificial de um apóstolo, você não pode edificar a Igreja. Jesus Cristo nos deu o exemplo da oferta sacrificial de si mesmo, como fizeram os Apóstolos, os Padres da Igreja, os Santos, os Missionários. Isso construiu a Igreja com frutos espirituais duradouros para gerações inteiras.

A escassez de sacerdotes na Amazônia é para mim um exemplo do contrário: talvez os sacerdotes não tenham uma vida profundamente comprometida e sacrificial no espírito de Jesus e dos apóstolos e dos santos. Eles, portanto, procuram substitutos humanos. O clero indígena casado não levará a um aprofundamento e crescimento na Igreja Amazônica. Outros problemas certamente surgirão com o advento do clero casado na cultura indígena da Amazônia e em outras partes do mundo de Rito Latino.

O mais necessário é aprofundar as raízes da fé e fortalecer a igreja doméstica na Amazônia. Precisamos começar uma cruzada na Amazônia entre essas famílias indígenas, entre os cristãos católicos, pelas vocações – implorando a Deus pelas vocações para o sacerdócio celibatário, e elas virão.

Nosso Senhor disse para “orar”, então essa falta é um sinal de que não estamos orando o suficiente. E as pessoas estão sendo tentadas a rezar ainda menos por causa dos homens que estão enchendo suas cabeças com a promessa de que em outubro eles contemplarão a possibilidade de ter padres casados. Por isso, eles não mais rezarão para que seus filhos sejam sacerdotes como Jesus, que era celibatário. E Jesus é o modelo para todas as culturas.

Até um bom sacerdote celibatário indígena, um homem espiritual, poderia transformar tribos, como os santos o fizeram. São João Maria Vianney transformou quase toda a França. Padre Pio é outro exemplo. Eu não estou dizendo que devemos esperar este padrão de santidade, mas estou apresentando-os como exemplos da fecundidade sobrenatural que pode vir através de um sacerdote santo. Mesmo um homem espiritual simples e profundo que é dedicado a Jesus e às almas com seu celibato, um sacerdote indígena da Amazônia, certamente muito edificará a Igreja ali e despertará novas vocações pelo seu exemplo.

Este tem sido o método da Igreja desde o tempo dos apóstolos. E esse método foi testado e comprovado em 2000 anos de experiência missionária da Igreja. E isso será verdade até que Cristo venha. Não há outro caminho. Adaptar-se a abordagens puramente humanistas e naturalistas não enriquecerá a Igreja da Amazônia. Temos 2000 anos de história para provar isso.

Eu repito: o povo brasileiro está profundamente consciente da sacralidade do sacerdócio.Eis o que o Sínodo Amazônico deveria fazer: aprofundar a consciência da santidade do sacerdócio celibatário. A Igreja tem belos exemplos de missionários. Deve aprofundar e fortalecer a Igreja doméstica, ou seja, a vida familiar. E o sínodo deve iniciar com campanhas de adoração eucarística e de oração pelos sacerdotes e pelas novas vocações sacerdotais. Sem o sacrifício do amor, sem oração, não edificaremos uma Igreja local. Com o clero casado, não.

Não estou falando contra o clero casado nas Igrejas Ortodoxas ou nas Igrejas Católicas Orientais. Estou falando da tradição latina na América e na Europa. Nós temos que manter este tesouro sem enfraquecê-lo através da introdução de um clero casado, porque isso já foi provado por tantos frutos quando olhamos para ele de um ponto de vista abrangente.

Cardeais e a crise atual

Você acredita que é importante que os Cardeais falem sobre a crise na Igreja e, em caso afirmativo, de que forma você acredita que isso deve ser feito?

Sim, é muito oportuno e muito necessário porque a confusão só aumenta.

Penso que os cardeais deveriam abordar a questão do documento de Abu Dhabi e a frase sobre a diversidade das religiões, porque essa declaração leva, em última análise, a uma negação da verdade do caráter único e obrigatório da Fé em Cristo, que é ordenada pela Divina Revelação. Na minha opinião, a declaração de Abu Dhabi é a mais perigosa do ponto de vista doutrinário. Os cardeais devem pedir respeitosamente ao Santo Padre que corrija esta frase oficialmente.

Creio que seria também muito oportuno e necessário que os cardeais ou bispos emitissem uma espécie de profissão de fé, de verdades, ao mesmo tempo em que rejeitam os erros mais generalizados do nosso tempo. Na minha opinião, eles deveriam fazer uma profissão de verdades muito específica e enumerada, dizendo, por exemplo: “Eu mantenho firmemente isso…” seguido da refutação de um erro. Creio que tal profissão deve incluir todos os principais erros perigosos que estão se espalhando pela vida da Igreja em nossos dias.

Uma profissão reafirmando a fé, mas também refutando o erro?

Sim, na mesma sentença. Tal texto deve ser publicado e amplamente divulgado aos sacerdotes e bispos, talvez pedindo-lhes para fazer uma profissão pública com este texto nas paróquias e catedrais. Não haveria novidades. Afirmaria apenas o que a Igreja sempre professou.

11 março, 2019

Eleições na CNBB: Dom Leonardo ou Dom Walmor?

A batalha entre o ecologismo apocalíptico e o gay-friendly.

Por FratresInUnum.com, 11 de março de 2019:  Aproxima-se a eleição da nova presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a ocorrer em sua próxima assembléia geral, no mês de maio, em Aparecida.

Duas alas, aparentemente opostas, mas complementarmente progressistas, aparecem na disputa: Dom Leonardo Ulrich Steiner, atual Secretário Geral da CNBB, e Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte, despontam como os principais candidatos.

* * *

Todo esquerdista que chega ao poder continua posando de vítima. Assim, Dom Leonardo Ulrich Steiner agora tem o álibi perfeito: o infarto. Como vítima do sistema, vai preparando a sua candidatura a Presidente da CNBB.

steiner walmor

Dom Leonardo Steiner (esquerda) e Dom Walmor (direita).

Para alcançar seu intento, porém, Dom Leonardo precisa ser transferido para uma diocese — é praxe que a presidência seja ocupada por um bispo diocesano, e não um auxiliar. Há quem diga que o seu “cardinale protettore”, Dom Claudio Hummes, irá providenciar sua transferência para uma arquidiocese “amazônica”– possivelmente Manaus ou Cuiabá – onde poderia alimentar, de forma mais efetiva, a histeria ecológica do Sínodo Pan-Amazônico.

Em recente entrevista à mídia Vaticana, Dom Leonardo já vai entrando no clima dos dramas ecológicos e indigenistas. Nada como matar dois coelhos com uma só cajadada: agradar o ecologismo de Papa Francisco e marcar posição contra o governo Bolsonaro. Só faltou derramar lágrimas e dizer: “Que saudades do Gilberto Carvalho! Aqueles sim eram bons tempos!”

Mas, o Apocalipse ecológico pode esperar. O Sínodo sobre a Amazônia só virá em outubro e as eleições da CNBB serão em maio.

Em 2011, para sua primeira eleição como Secretário Geral, Dom Leonardo contou com uma mãozinha do então Núncio Apostólico Dom Lorenzo Baldisseri, que “possibilitou” sua eleição, transferindo-o de São Felix do Araguaia para auxiliar em Brasília.

Já para maio de 2019, não consta que Dom Leonardo conte com as graças do atual Núncio. E, o que é pior, Dom Leonardo não parece ser o candidato do poderoso Dom Ilson Montanari, secretário da Congregação para os Bispos, o arcebispo brasileiro responsável pelas nomeações bergoglianas dos bispos do mundo inteiro.

Fontes murmurantes nos dão conta de que Dom Montanari, Secretário da Congregação para os Bispos, foi interrogado sobre uma eventual eleição de Steiner como presidente da Conferência Episcopal brasileira. A resposta teria sido incisiva: “Não! Agora é a vez de Dom Walmor”, o arcebispo de Belo Horizonte.

Dom Walmor de Azevedo, cuja simples em nosso histórico de posts demonstra a orientação. Sim, daquela mesma arquidiocese que recentemente foi denunciada pelo Instituto São Pedro de Alcântara como defensora da agenda LGBT através de uma “pastoral da diversidade”. A Arquidiocese desmentiu tudo e Dom Walmor fez de conta que não era com ele, mas… Quem convive na intimidade com Dom Walmor e com seu auxiliar Dom Joaquim Mól sabe perfeitamente que eles jamais poderão ser acusados de homofóbicos.

As pré-candidaturas de Dom Leonardo e Dom Walmor para presidência da CNBB revelam uma luta de titãs: Hummes vs. Montanari. Senhores bispos, façam suas apostas!

Mas, será que o episcopado brasileiro continuará permitindo que grupos de interesse os controle e fale por eles? Será que não darão um basta a esse aparelhamento e apresentarão uma chapa de bispos sensatos, que não tomem ações ideológicas? Será que não sairão da passividade e começarão a se organizar, a conversar entre si, a reagir, a tomar as rédeas dessa bagunça? Tudo depende só deles. Como leigos, só nos cabe esperar e rezar.

É um fato, porém, que os destinos da conferência episcopal brasileira ainda não estão determinados. A esquerda está perdida e dividida, ataca-se a si mesma, perdeu a força e a dinâmica. Há bispos inquietos com o afastamento do povo e da realidade. As urnas —  as coletas — demonstram o cansaço do povo fiel quanto a ideologias senis.

Sim, senis que, como Leonardo Boff, só sabem se lamentar que os jovens não embarcaram no seu sonho socialista: “Como pôde acontecer tudo isso e tanta insensatez em nosso país? Onde nós erramos? Como não conseguimos prever esse salto rumo à Idade Média?

Não há mais nada que se fazer? Rezemos para que os bispos, ao menos por graça de estado, sejam iluminados e se deem conta de que é chegada a hora da mudança, a hora de romper com aquilo que já está condenado ao fracasso e à total irrelevância histórica.

10 março, 2019

Foto da semana.

 

Cônego Commins, do Instituto Cristo Rei, impõe o escapulário de Nossa Senhora no mesmo dia em que uma pequena garota recebe sua Primeira Comunhão.

9 março, 2019

Coluna do Padre Élcio: Recusar as campanhas paralelas de católicos e comunistas com objetivo comum.

CARTA PASTORAL prevenindo os diocesanos contra os ardis da seita comunista. Escrita em 13 de maio de 1961 pelo então Bispo da Diocese de Campos, D. Antônio de Castro Mayer, de saudosa memória (continuação).

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 9 de março de 2019.

O exemplo acima [no fim do post  anterior] nos leva a uma advertência necessária a propósito das chamadas ações paralelas.

Os comunistas, em geral, a fim de obter a colaboração dos não comunistas, sondam primeiro o ambiente para ver qual a campanha que terá maior receptividade entre estes. E não é difícil encontrar injustiças verdadeiras, objetivas, a deplorar numa sociedade que apostatou de Deus, e vive dominada pelo egoísmo e pela sede dos prazeres materiais. Ora, é natural que os cristãos se indignem com fatos desses. Os Papas têm repetidas vezes levantado a voz contra semelhantes abusos e particularmente contra as injustiças causadas pela nova ordem econômica, na qual domina o dinheiro e não se dá atenção às necessidades espirituais e morais mais urgentes das classes menos favorecidas. Fazer eco aos Papas, e tentar ordenadamente pôr termo a essas desordens sociais, é coisa justa e digna de todo o aplauso.

De circunstâncias concretas como essas, se aproveitam os comunistas, e  como que se associam à campanha dos cristãos. Também eles alçam a voz para condenar as injustiças e pedir a punição dos culpados.  Pergunta-se: seria lícita, em tal caso, uma ação paralela? Os comunistas, de seu lado, com seus argumentos e seus métodos sem dúvida detestáveis, propugnariam, não obstante, um objetivo justo e desejável. De outro lado, os católicos, com os métodos e argumentos ensinados pela Moral, pelos documentos pontifícios, se empenhariam, sem ligação nenhuma com os comunistas, para conseguir, na prática, o mesmo resultado, isto é, a correção das injustiças sociais.

A  –  NÃO HÁ DE FATO UM OBJETIVO COMUM

É fácil solucionar a questão.
Primeiramente, não nos iludamos; os comunistas jamais desejam reparar injustiça alguma. Eles só querem fomentar agitação, mal-estar, oposição de classe contra classe, de maneira a obter a aversão e o ódio de uma contra a outra. Ainda quando, na aparência, estão a defender objetivos inteiramente de acordo com as exigências e a doutrina da Igreja, ainda nessas ocasiões, o que de fato intentam é promover a luta de classes, o grande meio que Lenine lhes pôs nas mãos para atingirem seu fim último: o domínio do mundo e a tirania da nova classe dirigente, o partido comunista.

B  — NÃO PODE HAVER PARALISAÇÃO NA LUTA DOS CATÓLICOS CONTRA OS COMUNISTAS

Ainda aqui, um aspecto da luta em torno da reforma agrária servirá para exemplificação. Com efeito, sobre este problema, juntamente com o Exmo. Revmo. Sr. Arcebispo de Diamantina, D. Geraldo de Proença Sigaud, o Professor Dr. Plínio Corrêa de Oliveira e o economista Luiz Mendonça de Freitas, escrevemos o livro “Reforma Agrária  –  Questão de Consciência”, que a Editora Vera Cruz, de São Paulo, publicou. Essa obra trata do assunto com serenidade. Reconhece os males gravíssimos introduzidos no campo pela ganância de certos proprietários e especialmente pelo amoralismo da economia liberal, exorta os responsáveis pela situação a sanarem com a possível brevidade injustiças clamorosas, e dá veemente brado de alerta contra a reforma agrária de cunho socialista. Em resumo, uma obra com objetivos humanitários (para usar aqui a palavra corrente entre os não católicos), mas que nitidamente se alheia de qualquer compromisso, ainda em linha paralela, com os comunistas e comunistizantes. Foi o suficiente para que aqueles e estes recebessem  livro com verdadeiro e estrepitoso ódio. É que os autores, ferindo uma injustiça real, não o faziam à moda socialista, nem silenciavam os engodos que a solução socialista envolve. “Reforma Agrária – Questão de Consciência” era uma força que aos marxistas só convinha destruir. O ódio comunista contrasta significativamente não só com os aplausos que nosso trabalho recebeu em outros setores, mas também com a discrepância cortês e serena com que foi acolhido por elementos não comunistas que dele discordaram.

Ódio comunista contra “Reforma Agrária – Questão de Consciência”

Em segundo lugar, e por esse mesmo motivo, qualquer campanha cristã contra as injustiças sociais, para não carregar água para o moinho comunista, precisa, ao mesmo tempo que ataca com veemência tais injustiças, mostrar DE MODO CLARO E INSOFISMÁVEL que não pretende o aniquilamento de qualquer das classes de que forçosamente se compõe o corpo social, que o que deseja tão somente é purificar este último de defeitos que o deformam, e isso através da harmonia das várias camadas sociais; a par disso, é COISA NÃO MENOS INDISPENSÁVEL combater e impugnar, com veemência igual ou ainda maior, a campanha análoga de cunho comunista, denunciando-a como insincera e revolucionária. Ora, agindo os católicos de acordo com estas normas, os próprios comunistas rejeitarão a colaboração que antes procuravam. [Nota do autor: Veja-se a distinção entre “colaboração recíproca”  e “convergência ocasional”, que fizemos acima].

A ação dos católicos não tem o caráter destrutivo próprio à ação dos comunistas 

Os movimentos inspirados pela caridade cristã jamais tendem à  destruição de uma ordem existente que em si não é injusta, como a respeito do regime da propriedade privada, chamado capitalismo, disse Pio XII (cf. Aloc. sobre problemas rurais, de 2 de julho de 1951, Discorsi e Radiomessaggi”, vol. 13, pp. 199-200), mas procuram, e isso com toda a energia, corrigir os erros verificados, a fim de que voltem a paz e a harmonia necessárias não corpo social. Pois neste, embora composto sempre de classes diversificadas, deve reinar uma orgânica união de todos os elementos, assegurada pela caridade recíproca e auxílio mútuo.

7 março, 2019

O livro que quer transformar a Igreja em Sodoma.

Por FratresInUnum.com, 7 de março de 2019: Sodoma é o nome da cidade bíblica cujo fim está ligado ao castigo divino pela difusão do pecado sexual contra a natureza com pessoas do mesmo sexo (cf. Gen. XIX,1-26). Por isso, Frédéric Martel escolheu “Sodoma” como nome de seu livro acerca da homossexualidade no Vaticano, pois, segundo ele, a Igreja se tornou como que um refúgio para homossexuais.

Em recente entrevista, porém, Martel deixou bastante claros alguns de seus pressupostos, sem os quais seria impossível chegar a essa conclusão. Apresentaremos, primeiro, os pontos principais da entrevista e, em seguida, faremos uma análise crítica. Pedimos ao leitor a paciência de ler calmamente o nosso texto.

Análise dos principais pressupostos do livro

Em primeiro lugar, ele afirma que “a castidade é profundamente contranatura”. Este é o pressuposto central e principal para todas as conclusões a que chega o autor.

Além disso, Martel afirma que a Igreja é “um ambiente homoerótico e as pessoas heterossexuais não querem ir para lá, querem se casar” e que, portanto, “as figuras na Igreja mais fervorosamente a favor da castidade e do celibato são muitas vezes os padres homossexuais”.

Aqui, o autor mostra muito bem que a finalidade do seu escrito é, primeiramente, lançar sob suspeita todos os padres que preguem a castidade, que defendam o celibato e que, portanto, tenham atitudes mais espirituais, místicas e doutrinais.

Ademais, ele afirma claramente que “para mim um cardeal ou um bispo ser gay não é problema. Há um problema, sim, com a vida dupla, com a hipocrisia”. Em outras palavras, o autor, que é um homossexual confesso, declara que a homossexualidade em si não é um problema, mas, como todos os que a atacam, segundo ele, são homossexuais enrustidos, isto é uma hipocrisia da qual a Igreja tem que libertar os seus clérigos, pois, “a homossexualidade, quando é reprimida, quando a pessoa se odeia a si própria e se flagela, acaba por tornar-se um problema que vem à superfície”.

Deste modo, Martel afirma que a homossexualidade no clero é um fenômeno cuja abrangência é enorme, mas não é um problema em si — o problema é combatê-la.

Um último detalhe digno de nota é que ele se apresenta como grande defensor de Francisco, diz que, para escrever o seu livro, ficou hospedado no Vaticano (na residência Santa Marta, que é a única hospedagem intra muros, lugar onde, por mera coincidência, reside o pontífice argentino), mas se defende, negando que “foi o Papa que encomendou este livro e que foi por isso que a sua entourage me deu acesso ao Vaticano”. Teriam razão os antigos, quando afirmavam que “quem muito se defende, muito se acusa”?…

Passemos à análise crítica dos pressupostos declarados pelo autor em sua entrevista.

A castidade contranatura?

O pilar principal de todo o livro é que a “castidade é contranatura” e, portanto, que toda pregação acerca da castidade só pode ser sinal de hipocrisia ou de repressão, a qual depois explodiria sob a forma de abusos sexuais.

É óbvio que só uma pessoa que não pratica a castidade pode pensar que é impossível que alguém a pratique por pura virtude e também por graça de Deus, através de uma profunda vida de oração. Hoje, em um mundo tão erotizado e tiranizado pela luxúria, talvez seja mais raro encontrarmos pessoas espontaneamente castas, mas isso não era muito raro até alguns anos atrás. Fica fácil, portanto, enganar o leitor: toma-se uma espécie de clichê mental compartilhado socialmente como se fosse um absoluto inquestionável, ao qual o próprio autor se nega a comprovar, aliás, porque é totalmente falso.

A verdade é o contrário do que diz o autor, pois o ser humano é essencialmente dotado de razão e, portanto, capaz de dominar o seu instinto sexual pela razão, e é nisso que consiste a virtude da castidade. Nada mais conveniente à natureza humana…

A castidade é uma virtude extremamente humanizante, equilibradora da psique, tranquilizadora, elevada. O celibato é a verdadeira marca da consagração completa do sacerdote católico, totalmente absorvido na sua missão apostólica e desinteressado por qualquer outro bem que não o seu crescimento espiritual para a salvação das almas. É plenamente acessível a qualquer pessoa o testemunho de tantos cristãos que são felizes por praticar a castidade ainda hoje e o número imenso de celibatários que sempre foram a coroa da Igreja Católica.

No entanto, desde o início da modernidade, as sociedades ocidentais se tornaram vítimas de um violento processo de implosão da razão e hiper-estimulação das paixões, especialmente da libido, da pulsão sexual. São séculos de esforços para corromper a consciência das pessoas e tornar cada dia mais impossível o acesso à luz da razão e, portanto, totalmente inacessível a luz da fé, que é muito superior e mais sutil.

Chegamos ao ponto de que, como bem ilustra Martel, tornou-se quase impossível para muitos imaginar que existe um mundo para além dos limites tão estreitos da libido. O prazer venéreo tornou-se o único viés pelo qual estas pessoas enxergam o universo e, portanto, qualquer coisa que exista fora disso se lhes apresenta como hipócrita, ilógica, inexistente. Martel chega ao ponto de distorcer de tal modo a realidade que, para ele, se um padre se apresentar como celibatário e casto, espiritual e conservador, deve-se por força concluir que é um homossexual perigoso!

O mais incrível, porém, é como se conseguiu que os próprios sacerdotes da Igreja sucumbissem a esta desgraça e se tornassem materialistas práticos. Não é raro que encontremos padres que pensem exatamente como Martel, partindo do princípio de que a castidade é desumana e que a prática do sexo é como que um cume da vida do homem.

O Pe. Luís Correa Lima, jesuíta, por exemplo, escreveu há um ano um artigo intitulado “A fraternidade e a superação da violência contra LGBT”, no qual a única opção que lhe parecia razoável na pastoral da Igreja com pessoas homossexuais é a aceitação irrestrita das suas práticas sexuais. Ele raciocina como se a castidade não existisse, como se não fosse humanamente integradora, chegando a dizer que tem razão quem busca “almejar construir um mundo em que as pessoas possam viver e respirar dentro da sua própria sexualidade”. O Pe. James Martin, também jesuíta e predileto da corte de Papa Francisco, fez considerações muito similares durante o Encontro Mundial das Famílias. Estes são apenas dois exemplares de um cenário desolador.

A Igreja, um ambiente homoerótico?

Martel afirma que a Igreja é um ambiente homoerótico e que os heterossexuais não querem saber de castidade, mas querem se casar e ter filhos, e que, por fim, o clero superpopulou-se de gays que se escondem por trás de suas batinas.

A afirmação de Martel é tão evidentemente verdadeira do ponto de vista estatístico que chega a confundir o leitor, visto que o número de padres homossexuais é gritantemente enorme.

Contudo, Martel toma como pertencente à essência do sacerdócio celibatário aquilo que é apenas uma anormalidade das últimas décadas. Qualquer pessoa um pouco mais velha sabe que, embora hoje haja um número tão assustador de homossexuais no clero, há cinquenta anos a Igreja simplesmente não era assim. É verdade que sempre existiram casos de padres que praticaram a homossexualidade, mas eram a exceção e não a regra.

Os padres antigos eram desbravadores, conhecidos por sua virilidade e coragem de sua pregação, tiravam do nada Igrejas pujantes, eram homens de reputação ilibada, venerados pela população, influentes desde o ponto de vista político e respeitados moral e intelectualmente. Quanto mais os bispos e cardeais!…

Foi nas últimas décadas que a prática da homossexualidade tornou-se tão generalizada no clero católico. Mas, antes, não era assim. Como chegamos a este ponto?

A homossexualização do clero católico: um projeto de corrupção

É preciso dizer os fatos com clareza: os seminários católicos sofreram a infiltração sistemática de agentes externos que disseminaram homossexuais por toda a estrutura da Igreja com o fim de destruí-la, e isso em todos os graus da hierarquia.

Neste sentido, o estudo de Michael Rose, “Adeus Homens de Deus” (Editora Ecclesiae, Campinas: 2015) apresenta uma vasta documentação que não deixa margem para dúvidas. Temos o testemunho confesso da principal agente desta trama. O livro precisa ser lido para que todos entendamos a monstruosa operação realizada para corromper a Igreja.

No Brasil, tivemos um caso bastante similar, cujos bastidores foram revelados por um infiltrado de uma sociedade secreta na Igreja Católica muito conhecido nas décadas de 70 e 80, chamado Neymar de Barros. Os seus dois livretes, A verdade sobre Neymar de Barros, volumes I e II (Editora Exodus, São Paulo: 1987), contam como ele forjou sua conversão para recolher dados do clero a fim de que a sociedade secreta que lhe contratara difundisse a homossexualidade entre os padres. Ele chega mesmo a apresentar uma pesquisa que realizaram acerca da porcentagem de homossexuais no clero brasileiro por volta do ano de 1978 (vol. II, p. 70).

Em todo caso, os elementos principais para a difusão do homossexualismo no clero foram a perseguição sistemática dos seminaristas heterossexuais, católicos devotos, com princípios morais claros e com doutrina segura; e a promoção de homossexuais declarados, a destruição da dogmática, da moral e, sobretudo, da espiritualidade, com a completa propagação do liberalismo total nos costumes, que serviu como uma espécie de oxigênio moral para os homossexuais no clero, e da construção de uma apologia teológica da homossexualidade que chegou a constituir aquilo que hoje em muitos grupos se chama de homo-heresia, uma reinterpretação completa da doutrina católica em termos homossexuais, que se tornou o oxigênio intelectual para esse disparate.

Aos poucos, construiu-se aquilo que Michael Vorris chama de “A rede” (The Network), uma verdadeira organização comunista e homo-herética que ocupou a Igreja Católica em todos os níveis. O próprio Martel deixa muito claro em sua entrevista que não há problema nenhum em ser padre gay, nem muito menos em ter um amante – ele diz que acha isso lindo! –, mas que o problema é ser um padre gay de direita, embora ele mesmo faça a distinção de um sub-grupo, ao qual ele chama de homófilos, que são os homossexuais não praticantes no clero católico – com essa distinção, Martel apenas está mencionando os eventuais homossexuais não militantes, ou seja, aqueles que não são membros de “A Rede”.

“A Rede” é constituída por clérigos homossexuais ostensivos, que se protegem e se “reproduzem”, atraindo para os seminários gays de todas as proveniências possíveis, e que se auto-promovem para os cargos de maior expressão na Igreja, tentando manipular a sua doutrina e teologia em seu próprio favor.

Em outras palavras, o livro de Martel, na tentativa de colocar um sinalizador sobre os padres conservadores, o que faz é colocar um sinalizador sobre os membros de “A Rede”. Agora, ficou muito fácil identificá-los. Ele mesmo protegeu a identidade de todos os seus entrevistados, que não são outros que os próprios entrevistados de “A Rede”, de Vorris. Nunca “A Rede” foi tão longe, nunca se exprimiu tão claramente e nunca os seus objetivos ficaram tão claros. Martel disse que suas gravações explodiriam com o Vaticano. Não! Explodiriam apenas com “A Rede”.

Entretanto, não deixa de ser curioso como “A Rede” conseguiu atingir tão alta influência.

Papa Francisco, o Papa de “A Rede”

Martel apresenta o pontífice argentino como uma espécie de Gorbatchev, que tenta salvar o sistema e, para isso, mudá-lo. Ele defende Francisco contra todo o “complô” que ele diz ter se instado para persegui-lo. No final, defende-se contra a acusação de ser um marionete de Bergoglio e chega a falar demais, reclamando de que alguns digam que o livro foi encomendado pelo papa.

De fato, não temos como saber se o livro foi pessoalmente encomendado por Francisco. Contudo, é evidente que ele protege de modo muito claro os membros de “A Rede” e toda a sua linha de ação é muito coerente com a intenção de “Sodoma”. O próprio Martel o reconhece, mostrando a conexão de tudo isso com o sínodo sobre as famílias, que criptograficamente abriu a comunhão aos divorciados recasados e também não mencionou com letras claras nenhuma condenação às práticas homossexuais e às uniões gays. É evidente que as observações de Martel vão na mesma linha das ações de Papa Francisco: de um lado, visam a plena cidadania gay na Igreja Católica e, de outro, a ordenação de homens casados, que garantiria o coeficiente heterossexual no clero, segundo os princípios homossexualistas do autor.

Em todo caso, Papa Francisco é o papa sob medida para “A Rede” e os seus planos manipuladores. Assim como as Fundações internacionais usam o aborto para corromper as mulheres e destruir, assim, as sociedades; “A Rede” está usando o homossexualismo para corromper o clero e, assim, destruir a Igreja. Isso não é propriamente uma novidade.

No início do século XIX, as forças secretas na Itália publicaram um conhecido documento chamado “Instrução permanente para a Alta Venda”. Ali, eles afirmam:

– “O Papa, quem quer que seja, jamais virá às Sociedades secretas; cabe às Sociedades secretas dar o primeiro passo em direção à Igreja, com o objetivo de vencer os dois”.

– “Não pretendemos ganhar os Papas para a nossa causa, fazê-los neófitos dos nossos princípios, propagadores das nossas ideias… O que devemos pedir, o que devemos procurar e alcançar, assim como os judeus esperam do Messias, é um papa segundo as nossas necessidades. Alexandre VI, com todos os seus crimes privados, não nos conviria, porque jamais errou nas matérias religiosas”.

– “Esmagai o inimigo, qualquer que ele seja, esmagai o poderoso à força de maledicências ou de calúnias: mas, sobretudo esmagai-o no ovo. É preciso ir à juventude; é ela que precisamos seduzir, é ela que devemos arrastar, sem que o perceba, sob a bandeira das Sociedades Secretas”.

– “Ora, pois, para garantir-nos um Papa nas proporções exigidas, trata-se inicialmente de moldar para ele uma geração digna do reino com o qual sonhamos. Deixai de lado a velhice e a idade madura; ide à juventude e, se for possível, até à infância… Uma vez estabelecida vossa reputação nos colégios, nos ginásios, nas universidades e nos seminários, uma vez que tiverdes captado a confiança dos professores e dos estudantes, fazei com que principalmente aqueles que se comprometem com a milícia clerical gostem de procurar vossas conversas”.

– “Essa reputação permitirá o acesso das nossas doutrinas ao seio do clero jovem, assim como ao fundo dos conventos. Em alguns anos, esse clero jovem terá, pela força das coisas, invadido todas as funções; ele governará, administrará, julgará, formará o conselho do soberano, será chamado a escolher o Pontífice que deverá reinar, e esse Pontífice, como a maioria dos nossos contemporâneos, estará necessariamente mais ou menos imbuído dos princípios humanitários que iremos começar a pôr em circulação; é um pequeno grão de mostarda que confiamos à terra; mas o sol das justiças desenvolvê-lo-á até ao mais alto poder, e vereis um dia que rica colheita esse pequeno grão produzirá”.

Alguém ignorará que Francisco é este papa não apenas esperado, mas preparado por décadas de infiltração? Fingiremos que a publicação do livro de Martel no primeiro dia do encontro sobre o abuso sexual de menores no Vaticano é uma mera coincidência? Não se trata de um diagnóstico sobre “Sodoma”, mas de sua apologia, implantação e apogeu na Igreja.

Já é hora de acordar. A Igreja está quase completamente tomada pelos seus inimigos. Corromperam a maior parte do clero e, agora, querem expelir a pequena porção ainda saudável que mantém a Igreja em pé…

Ficaremos parados? Cruzaremos os braços? Não! A Promessa da Santíssima Virgem é clara! Como leigos, resistiremos a esse massacre e o enfrentaremos nem que seja à custa de morte. A esta “Rede” maligna opomos outra rede, a rede dos consagrados à Santíssima Virgem! É hora de reagir!

Assim como da primeira vez, sobre “Sodoma” cairá o fogo do céu! A Igreja, como a família do justo Lot, não toma parte nesta iniquidade e não recuará nenhum milímetro. São duas cidades em luta: de um lado, Sodoma; doutro lado, a Jerusalém Celeste! Reconheceremos estes prevaricadores onde estiverem e os denunciaremos. Se eles não temem mais a Igreja, temerão o povo!

Continuaremos fieis à virtude, conservaremos a fé, manteremos íntegra a observância do celibato e teremos inteiramente inabalável o fogo da nossa entrega, pois sabemos que, como disse Nossa Senhora em Fátima: “no fim o meu Imaculado Coração triunfará”!