23 outubro, 2021

Vox Populi = Vox Dei? (A voz do Povo é a voz de Deus?)

“A escuta na 1° Assembleia Eclesial para a América Latina”, um resumo.

Por Que no te la cuenten, 19 de outubro de 2021 | Tradução: FratresInUnum.com – No último 21 de setembro, publicou-se a “Síntese narrativa: a escuta na 1° Assembleia eclesial para a América Latina e o Caribe – CELAM” (224 páginas que lemos antecipando seu advento), conclusão “NÃO OFICIAL” segundo seus apresentadores (p. 2) de cinco meses de “escuta ao povo de Deus” através de respostas e contribuições por meio da página da “Assembleia sinodal” do CELAM.

Como habitualmente sucede nestes casos, as “propostas” não somente parecem ter sido elaboradas por certos grupos ideológicos minoritários, encravados nas estruturas de poder eclesial, como também selecionadas com uma finalidade muito precisa: “o processo de conversão da Igreja” (p. 1).

A técnica não é nova (algo parecido já ocorreu no Congresso Americano Missionário na Bolívia e no Sínodo dos Jovens de 2018): trata-se da repetição constante com a finalidade de tentar impor “desde baixo” os novos “paradigmas eclesiais” como o das diaconisas, o “sacerdócio feminino”, a “abertura à homossexualidade na Igreja” e a teologia do povo e da libertação, entre outras coisas.

Com o objetivo de expor que “o povo levantou” é que oferecemos, aqui, algumas pérolas extraídas deste documento que, mais do que uma síntese, acaba por ser um “copia-e-cola” de propostas individuais, teologicamente desordenadas, sem muito método nem lógica que, apesar disto, “conecta-se com o Sínodo da Igreja Universal sobe Sinodalidade, no qual estaremos compartilhando os diversos frutos desta experiência como Assembleia Eclesial que segue o seu caminho” (p. 2)

Vejamos alguns dos textos propostos como parte do “povo santo de Deus”, “que é infalível in credendo” (Mensagem de abertura da 1° Assembleia Eclesial da ALyC do CELAM (p. 1), vários deles intitulados (sic) como “pérolas” das “vozes do povo de Deus”.

As seguintes são algumas citações textuais (o documento completo pode ser consultado aqui):

Teologia da Libertação

“Promover uma teologia da libertação, libertadora, que nos permita conectar-nos efetivamente ao projeto libertador de Jesus, que nos permita reconhecer as estruturas de poder e opressão, que facilite o encontro, o diálogo e que promova os gestos e atitudes de esperança para viver um ministério eclesial vivo. Voltar às fontes, como nos convida o Papa Francisco, e retomar seu compromisso inicial de deixar tudo para servir e fazer Jesus conhecido. Que tenha preferência pelos pobres e vulneráveis de nosso continente. Voltar à mensagem de Aparecida e retomar a Teologia da Libertação sem medo de censuras, mas com a certeza de ir pelo caminho correto” (p. 25). “Hoje contamos com a imagem de uma Igreja sem voz, cinza, que não atualiza a mensagem do Concílio Vaticano II, que não projeta a mensagem libertadora de Aparecida, nem as exigências da Teologia da Libertação” (p. 26)

Educação global e marxista

“Vozes do povo de Deus. Pérolas (sic): sigamos sonhando com o pacto global pela educação porque a educação é a porta de entrada a dias melhores na sociedade. Cremos firmemente que o acesso à educação é um direito, por isso a necessidade de um “Pacto Global pela Educação… liberar a educação, como defende Paulo Freire (e outros) é o caminho para uma sociedade em que cada cidadão está sujeito (cidadania ativa)” (p. 48)

O mundo protestante

“Vozes do povo de Deus. Pérolas (sic): “A Igreja Católica não considera as igrejas PROTESTANTES como perigo para a fé, ao contrário, são formas distintas de crer em Deus (…). “Os pastores e fiéis PROTESTANTES são mais entusiastas, ativos e ‘em saída’” (p. 86)

“O crescimento constante das IGREJAS EVANGÉLICAS e pentecostais em nossa comunidade em troca de receber bens materiais para melhorar sua qualidade de vida” (idem)

Sacerdócio e diaconato feminino

Presença e participação sem voz da mulher na Igreja: Reconhece-se sua presença e a participação… mas, muitas vezes, de forma passiva, submissa e sem voz nas instâncias de decisão eclesial. Ministerialidade da mulher: é necessário a formação e o reconhecimento da Ministerialidade da mulher em uma Igreja em saída, incluindo o diaconato feminino (…). Respeito e igualdade de opões que os sacerdotes e bispos têm dentro das comunidades eclesiais (p. 95)… “Pedir mudanças no direito canônico e na estrutura eclesial para que as mulheres assumam ministérios eclesiais / refletir seriamente e abrir-se à possibilidade de ministérios ordenados (Diaconato, ministério presbiteral)” (p. 97)

“A Igreja não pode permanecer estagnada, mas se requer uma adoção de medidas transformadores, reconhecer que se cometeram e se cometem injustiças especialmente com a mulher dentro da Igreja. Desmistificar o templo, tirar a Eucaristia dos templos e trazê-la à vida comum. Combater o clericalismo e optar por uma igreja sinodal (caminhando com todos/todas sem exclusão de ninguém), com a construção de estruturas fraternas” (p. 100)

“(Vozes do povo de Deus. Pérolas). Falta valorizar o trabalho pastoral e a missão de evangelização da mulher. Criar o diaconato da mulher” (p. 188).

“Não há somente a necessidade de mulheres diaconisas, mas são uma realidade. Uma igreja sinodal merece mulheres diaconisas” (p. 189)

Sacerdotes casados e celibato opcional

“Que se promova um departamento de ação pastoral nas conferências episcopais e no CELAM para o acompanhamento, atenção e diálogo constante com os sacerdotes casados”.

“Que se promova, a nível profissional, desde a dimensão humana, psicológica, filosófica e teológica uma comissão de estudo que forneça luzes sobre o celibato opcional, que apresente uma nova dimensão do ministério sacerdotal condizente à realidade atual”.

“Analisar a necessidade do celibato opcional como uma resposta às problemáticas que se apresentam na vida sacerdotal”.
“Que se considere a experiência dos sacerdotes casados na vida cristã como igreja doméstica, pastoral, sacerdotal, profissional, empresarial, laboral, educativa para que contribua com o crescimento da vida diocesana e paroquial” (p. 123)

Aceitação da homossexualidade

“A homossexualidade no clero tem silenciosamente disfarçado o cumprimento do celibato… a Igreja já não representa uma espiritualidade viva. A redução do cristianismo a alguns eventos sacramentais administrados pela casta clerical condenou a imensa maioria de fiéis a um papel passivo… por exemplo, os discursos de moral sexual da parte da Igreja já não têm nenhuma relação com a vida dos fiéis” (p. 124)

O que dói: “Dor pela indiferença da Igreja frente ao tema da Diversidade Sexual. É a dor das pessoas LGBTIQ+ ao sentirem-se rechaçadas pela Igreja, frente a sua orientação sexual… constatar que em alguns púlpitos há presbíteros que repetem e reiteram o rechaço à diversidade sexual. Dor e decepção daqueles colégios católicos que não acolhem com respeito, tolerância ativa e inclusão a orientação sexual de filhos e filhas. Preocupação que depois de cinco anos de Amoris Laetitia não avançou em praticamente nada, especialmente no que se refere à educação do clero e da hierarquia face à diversidade sexual.

“Algumas novas instâncias eclesiais que apareceram estes últimos anos que promovem a participação laical e o respeito à diversidade sexual. Da esperança à participação cidadã e movimentos sociais (incluindo o LGBTQI+) que propiciam novas possibilidades de diálogo, mais centradas na pessoa e no bem comum, questionando o modelo atual” (p. 198).

Evangelização a partir da base

(Vozes do povo de Deus. Pérolas): “DEIXAR-SE EVANGELIZAR PELOS POVOS onde se encontram as sementes o Reino que se constrói na terra, em um tempo e espaço determinados” (p. 118)… “A Igreja precisa escutar à sabedoria ancestral, reconhecer os valores presentes no estilo de vida das Comunidades Originárias” (p. 119)

* * *

Estas e muitas outras coisas são as que alguns, abrogando-se da representação do “Santo Povo de Deus” (assim, com maiúscula), desejam impor com certa pressa, como se lhes faltasse pouco tempo.

Que no te la cuenten…

Pe. Javier Olivera Ravasi, SE

19 outubro, 2021

CNBB, o teatro e a mordaça.

Por FratresInUnum.com, 19 de outubro de 2021 – Ontem, o Deputado Frederico D’Ávila (PSL-SP) publicou uma carta aberta em que pede desculpas pelo excesso de suas afirmações contra Dom Orlando Brandes, a CNBB e o Papa Francisco. Ele diz: “meu pronunciamento, que admito ter sido inapropriado e exagerado pelo calor do momento, se deu em resposta a alguns líderes religiosos que ultrapassam os limites da propagação da fé e da espiritualidade para fazer proselitismo político. Reitero que desculpo-me pelas palavras e exagero”.

Mesmo assim, a CNBB está resolvida a fazer pressão sobre a  Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) pedindo a cabeça do deputado. Não, não há misericórdia para ele. Eles pediram uma “correção exemplar” para Frederico d’Ávila. Dom Pedro Luiz Stringhini, presidente do regional Sul 1 da CNBB, foi pessoalmente para uma conversa com o presidente Carlão Pignatari, juntamente com dois padres (um dos quais, incardinado e em exercício de ministério na diocese de Taubaté, deputado estadual pelo PV, Afonso Lobato) e os deputados Reinaldo Alguz (PV), André do Prado (PL) e Emídio de Souza (PT).

Numa medida desproporcional e espetaculosa, a CNBB está mobilizando todos os seus esforços para dar a impressão de uma indignação nacional. Contudo, o método utilizado foi muito bem exemplificado pelo bispo de Itapeva, Dom Arnaldo Neto.

Num ato de desagravo (!!!) ao Papa, a Dom Orlando Brandes e à CNBB, ele expulsa da Igreja e pede para nunca mais voltar todo fiel que critica a CNBB, o Papa e a Campanha da Fraternidade (!!!). E ameaça: “com Deus não se brinca!”. No final, conclui: “Peço à PASCOM que faça em todos os lugares um texto em desagravo a Dom Orlando Brandes”.

Em outras palavras, o que está acontecendo desde o último domingo é um teatro calculado para causar uma impressão em si mesma falsa: a impressão de que há uma indignação por parte do povo católico, indignação que não existe. A metodologia é simples: a CNBB publica uma carta aberta, as dioceses e os bispos replicam; membros de dezenas de organismos minúsculos ou de instituições da Igreja começam a fazer notas a pedido de leigos engajados — no caso de Itapeva, do bispo mesmo!; na sequência, organismos mais discretos aderem por bom-mocismo ou medo; cria-se um alvoroço infernal que, no fundo, não tem nada de susbtancioso… O bom povo católico permanece frio e indiferente, torcendo mesmo é pela briga!

Quando a gente deixa a superfície e vai ao fundo da polêmica, percebe que ela não passa de uma grande bolha de sabão, produzida artificialmente por estes mesmos organismos que vivem acusando o presidente da república de ter uma rede de fakenews. Tudo não passa de uma articulação de fachada para criar nos parlamentares paulistas, desacostumados com pressões desta natureza, o pânico de se verem pressionados a fim de lhes proporcionar o enforcamento de um Judas neste “sábado de aleluia” fora de época.

A primeira finalidade dessa representação grotesca é criar um precedente político e jurídico que iniba as críticas à CNBB oriundas da população em geral. O povo já não tem mais respeito algum por essa entidade e isso pode ser facilmente comprovado nos comentários das pessoas normais nas próprias mídias sociais da instituição. Não é necessário fazer grandes especulações. Basta olhar em redor e perceber que as pessoas não estão dando a mínima atenção para este problema.

A segunda é fazer politicagem, como é praxe da CNBB: preparar o terreno para as eleições de 2022, em que ela poderá se dizer vítima da tal “violência da direita” alardeada pelo mesmo Dom Orlando Brandes, a fim de minar o espaço para candidatos conservadores entre os fieis.

O desespero por transformar a fala do deputado numa perseguição sanguinolenta digna de um Nero chegou ao ponto de pedirem uma nota ao CELAM – mais um ato deste teatro fake, sob medida, para dar a este episódio provinciano as dimensões de uma guerra mundial –, coisa bem adequada a Dom Odilo, que é membro do Conselho Diretivo, e assina a missiva. Dizendo-o doutro modo, são sempre os mesmos personagens, em posições diferentes, para dar a impressão de algo grandioso.

A verdade é que o deputado Frederico d’Ávila cometeu um destempero, pelo qual ele já se desculpou, mas deu voz às queixas de milhares de fieis tanto contra a fala de Dom Brandes quanto contra as posturas esquerdistas habituais da CNBB. Não há nenhum escândalo verdadeiro por parte dos fieis, mas apenas um fingimento histérico, calculado para ser usado politicamente como mordaça pela CNBB contra os seus críticos. Estão todos estes bispos e padres dando uma carteirada clerical para usar a ALESP e o poder judiciário como arma contra os seus desafetos. É tudo só isso!

Se os deputados da ALESP vão cair nesta comédia, não sabemos, mas, se o bom senso prevalecer, toda essa pirotecnia terminará no vazio.

18 outubro, 2021

O ruim e o pior. A fala do Deputado e a reação da CNBB.

Por FratresInUnum.com, 18 de outubro de 2021 – Na Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, o arcebispo Dom Orlando Brandes fez, em seu sermão, uma afirmação politizada que despertou a cólera dos católicos: “Para ser pátria amada não pode ser pátria armada”. A retórica politiqueira é recorrente na boca de Dom Brandes na festa da padroeira. A tentação de transformar o altar em palanque é, para ele, irresistível demais. Não faltaram reações de crítica, muitas delas bastante contundentes, tanto por parte dos fiéis, quanto por parte dos jornalistas. O povo, em geral, desaprovou a “indireta” do arcebispo e o criticou duramente pelas redes sociais.

A Postagem | Padres contra o fascismo: Leia a carta assinada por 400 padres  contra Bolsonaro.Pois bem, dois dias depois, no dia 14 de outubro, o Deputado Estadual Frederico D’Ávila (PSL-SP) fez um veemente pronunciamento na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), em que xinga Dom Orlando Brandes, a CNBB e o Papa Francisco. Houve destempero em sua fala, o que o faz perder muito de sua razão.

Ontem, a CNBB lançou uma forte carta ao presidente da ALESP praticamente pedindo a cabeça do deputado e dizendo que vão usar a força judicial contra ele. Em todos estes anos, talvez a missiva de ontem tenha sido o escrito mais agressivo da CNBB; nada de diálogo nem de misericórdia.

Na sequência, numerosos bispos, padres e leigos replicaram a nota em suas redes sociais, na mais rasgada demonstração de corporativismo, que é, no final das contas, a única religião do clero e do laicato engajado. Não existe mais a Fé católica nem os valores morais cristãos, não existe mais a honra de Deus nem a defesa da nossa santa religião, a única coisa que restou é a replicação das posições institucionais e a defesa dessas mesmas instituições; em suma, o bom-mocismo característico de uma sociedade hierárquica que já não tem mais convicções profundas.

Quiséramos ver tal demonstração de zelo quando a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi profanada num muro da cidade de São Paulo. Ali, Dom Odilo Scherer não fez nenhuma live de execração; mas ontem ele a fez para defender a CNBB. Em outras palavras, para ele e para os demais, a CNBB está acima de Nossa Senhora e merece defesa mais do que Ela. É isso que ele está confessando com os seus atos, ainda que de maneira insconsciente, pois esta cegado pelo bom-mocismo institucionalista.

Do mesmo modo, não param de acontecer profanações, blasfêmias e até sacrilégios por todo o país. Deus tem sido continuamente ofendido, até escolas de samba agridem a Cristo de forma proposital, enquanto o clero católico permanece imobilizado e mudo, como cães que não sabem ladrar.

Contudo, a verdadeira razão que está por traz de tão cenográfico chilique é evidentemente, aliás, como sempre, de natureza política. O parlamentar ousou atacar a teologia da libertação e colocou o dedo na ferida: o clero progressista é apenas panfletário do petismo mais rançoso que existe, daquele esquerdismo que abençoa invasões de terra e subscreve as ações da Via Campesina. Além do mais, foi eleito pelo PSL, partido que elegeu o presidente Bolsonaro. Eles se sentiram instigados em seu brio, o veneno da jararaca gritou feito demônio, foi impossível conter a manifestação de ódio e de rixa.

Com tamanha efervescência de instintos tão animais, quem na CNBB seria capaz do bom senso de perceber que o deputado se excedeu, mas deu voz à revolta de milhares de fiéis? Quem tem a sapiência de tirar a conclusão de que a Igreja está por demais politizada num país dividido e que ela, a CNBB, é culpada por parte desta divisão, da qual se tornou vítima? Quem tem a lucidez de perceber que o cenário que se abre para 2022 requer do clero muito comedimento, porque a situação será profundamente mais agressiva que em 2018?

A resposta é simples: praticamente ninguém, pois os poucos sensatos jamais serão ouvidos por bispos que foram treinados para serem cabos eleitorais fanáticos de um partido político dos mais vergonhosos que jamais existiram neste país. Eles são os petistas mais fanáticos e pretendem mais uma vez usar a máquina eclesial como ferramenta de campanha para o Lula em 2022.

Dito de outro modo, tudo se resume a isto: a campanha eleitoral já começou e quase ninguém ainda se deu conta!

A declaração do deputado foi ruim, mas a reação da CNBB e asseclas foi pior. Não há nada para ser louvado em todo esse evento, a não ser a sensatez do povo, que manifestou o seu repúdio sem perder o respeito pela Igreja, como de praxe em todo fiel católico brasileiro, que há décadas tem de aguentar a apostasia esquerdista dos seus pastores sem perder a linha nem a reverência pela sua santa religião.

E, para a CNBB um recadinho bem à moda do povo: “quem fala o que quer, escuta o que não quer”. E ainda mais: “aceita, que dói menos”. Dom Orlando quis usar o monopólio do microfone para soltar indiretas contra o presidente sem lhe dar direito de resposta, mas a resposta veio. E veio amarga. Agora, aguente!

17 outubro, 2021

Profanações.

Por Padre Antônio Mariano – FratresInUnum.com, 17 de outubro de 2021: Nos últimos dias, chegaram várias notícias cujo pano de fundo é o mesmo: a profanação.

A Catedral de Toledo, uma Igreja Paroquial em Manaus, uma Basílica Romana… E esses foram os que se tornaram públicos. 

A picture of corals as part of art projection featuring images of humanity and climate change of Artistic rendering by Obscura Digital is projected onto the faade of St. Peter's Basilica at the Vatican

E não foram poucos os que manifestaram perplexidade diante desses eventos, que, num olhar atento, desgraçadamente não são tão raros.

A que ponto chegamos? Ver nossas Igrejas cedidas para clipes que incentivam o pecado, particularmente o pecado contra a natureza que brada ao céu, ou ver uma paródia sacrílega da Pietà composta por dois homens nús, onde recordamos de um dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria que é a falta de respeito para com suas sagradas imagens!

Cada vez mais somos obrigados a reconhecer um espírito profético em certos homens que compreenderam para onde se dirigia a Igreja com as inovações do Concílio Vaticano II, um deles chegou a afirmar que ao começar a celebrar a missa em mesas seria a vitória de Lutero.

E é exatamente isso.

Tudo começa na dessacralização do Santo Sacrifício da Missa.

Se fizéssemos uma entrevista com a maioria dos que vão à Missa atual, perguntando qual a razão de irem à Missa, ou se reconhecem na Santa Missa um autêntico sacrifício as respostas fariam chorar os anjos.

O altar tornado mesa de copa, o sacrário relegado a um canto obscuro, as imagens inexistentes, o sacerdote que outrora era um sacrificador anônimo e que tornou-se um animador de auditório, o templo tornado espaço celebrativo… vitória de Lutero.

Recordo-me de uma vez em que fui venerar algumas relíquias de S. João Bosco que estavam encerradas numa belíssima imagem jacente e enquanto rezava, um padre celebrava a missa e explicando o que era “aquele boneco” contou a história do Rei Midas…

Dessacralização.

As coisas sagradas perderam completamente o valor para essas pessoas. Não há transcendência. Não há sagrado.

E se não há, qual o valor de uma Missa, ou de uma imagem, ou de uma Igreja?

Porque não ceder para outros usos? Uma reunião sindical? Um museu? Um expositório de obras bizarras? Um clipe gay? Qual o problema de fazer um barquinho e pôr ali a Pacha Mama e atravessar a nave da Basílica Vaticana com essa abominação?

Se – como já acontece em não poucos lugares – um grupo quisesse destruir uma Igreja, ou um monumento católico, como o Cristo Redentor, talvez houvesse alguma reação dos católicos. Mas mostrar o Cristo de máscara, refletir animais na Basílica Vaticana não parecem tão agressivos, afinal devemos ser uma Igreja em diálogo…

Vitória de Lutero.

Mas o Senhor não disse: “Ide e dialogai”, mas “Ide e ensinai”. Mais ainda, diz o Espírito Santo, “aquele que destruir o templo de Deus, Deus o destruirá”.

É porque não se reza mais nas Igrejas que essas profanações acontecem. É porque não se visita mais o Santíssimo Sacramento como o Divino Prisioneiro que chegamos a esse ponto!

É preciso resistir!

É preciso lutar! Queremos nossas Igrejas de volta! Queremos nossos monumentos católicos respeitados, mais ainda, venerados! Queremos a Missa Católica!

Mas não conseguiremos isso se ficarmos parados. Será que não percebemos que estamos em guerra como nos recordou o Apóstolo na Epístola de hoje?

Católicos, levantem-se! Levantem-se pela glória de Deus, pela santidade de seu templo! Levantem-se gritando o nome de Maria que sozinha vence todas as heresias. Façam do Credo o seu estandarte de batalha. Do Santo Sacrifício da Missa a jóia engastada em seus corações. Lutem.

Vitória de Deus.

* * *

Pe. Antonio Mariano está recebendo intenções para o Dia de Finados. Envie para profidelibusdefunctis@gmail.com.

15 outubro, 2021

Os guardiães da Tradição.

Por Dr. Augusto Mendes 

FratresInUnum.com, 15 de outubro de 2021 – O Brasil presencia um sólido movimento editorial católico, algo que impressiona qualquer observador um pouco mais vivido. Em 2005, ou mesmo em 2010, dificilmente poderíamos imaginar que alguns anos depois veríamos o surgimento de novas casas editoriais, uma avalanche de novas publicações, o resgate de obras consagradas e até mesmo o surgimento de importantes autores nacionais.

In illo tempore, apesar das grandes editoras nominalmente católicas do país, encontrar livros verdadeiramente católicos nem sempre era fácil. Em muitos casos, era um desafio insuperável. É verdade que certos clássicos das letras católicas nunca deixaram as prateleiras, como é o caso da Imitação de Cristo, da Filotéia, do Tratado da Verdadeira Devoção e da História de uma Alma, mas é igualmente verdade que as ausências eram muito mais amplas e notáveis.

Pensemos, por exemplo, no doutor comum do Igreja, Santo Tomás de Aquino, um mestre para todas as gerações e, portanto, um autor que deveria ser publicado e republicado initerruptamente em todo e qualquer país católico. Se é verdade que sua Suma Teológica estava disponível em uma tradução de qualidade já no início do século XXI, todos seus outros livros – e são tantos! – só eram encontrados em sebos, e mesmo assim com bastante dificuldade e por um alto preço. Os tomistas amargavam um esquecimento ainda pior. Garrigou-Lagrange, Cornelio Fabro, Sertillanges, Grabmann e outros mestres ou nunca haviam sido apresentados ao leitor brasileiro ou o foram há uma ou duas gerações. Mesmo um Nicolas Derise, que podemos considerar como nosso contemporâneo, ou um brasileiro como o Padre Maurílio Teixeira-Leite Penido, eram sumamente desconhecidos ou marginalizados.

Não podemos pensar que o problema era a falta de leitores interessados, pois mesmo autores que haviam granjeado fama no passado recente padeciam no limbo editorial esperando rever a luz. Há pouco mais de uma década, Chesterton estava apenas dando seus primeiros passos entre nossas estantes, Bernanos, que havia escolhido nosso país como sua pátria, era solenemente ignorado pelas últimas duas gerações de brasileiros; mesmo os naturais da terra, católicos genuinamente brasileiros, nascidos em uma pátria genuinamente católica, como o Padre Leonel Franca ou João Camilo de Oliveira Torres, foram tratados, até outro dia, como se fossem alienígenas, como se nunca tivessem pisado nessa terra. Eram representantes de um passado que muitos buscavam ativamente enterrar. Na faculdade tive uma professora que havia sido aluna do citado João Camilo. Quando falava dele era somente para criticar seus livros e explicar que tudo o que ele escreveu tinha pouco valor, era enviesado, porque ele era – na sua expressão inesquecível – “muito catolicão”.

Se pensarmos não mais nas pessoas, mas nos temas, veremos que a carestia de então era enorme. Sobre temas tão relevantes como Psicologia, Direito, História, Literatura, Economia, Filosofia e Teologia, nos seus diversos ramos e desdobramentos, não havia – e ainda hoje não há na medida adequada – obras escritas de uma perspectiva católica em circulação no mercado brasileiro.

Outra marcante ausência editorial era de obras ligadas ao movimento tradicionalista. Lembro-me de que a primeira vez que tive em mãos “Do Liberalismo à Apostasia” de Dom Marcel Lefebvre foi em uma cópia xerográfica feita por um amigo que havia viajado até o Rio de Janeiro e lá, graças ao contato direto com um tradicionalista “das antigas”, tinha conseguido copiar a velha edição, praticamente amadora, da Permanência, que mais se parecia com um caderno datilografado. Obras que só eram encontradas em língua estrangeira e adquiridas após bastante pesquisa e a um alto preço – Iota Unum ou a biografia de Dom Lefebvre – são hoje compradas com um clique do mouse e por um preço bastante razoável.

Todas essas lacunas editoriais são graves, mas não tanto quanto a que agora será sanada. Os doutores da Igreja, os grandes escolásticos, os apologetas, os catequistas, missionários, sermonistas, todos aqueles que exercem alguma atividade na Igreja, bebem, necessariamente, da mesma fonte: o magistério papal. O magistério pontifício, farol da verdade divina no ápice da Igreja, aquele que ilumina todos os católicos, em todas as épocas, que desfaz os erros, vence as heresias e guia a todos nos caminhos da verdade e vida. Era exatamente esse magistério que andava ausente das editoras católicas. É verdade que algumas encíclicas, especialmente dos Papas do século XIX e XX ainda são publicadas, é certo que temos compilações bem vastas de documentos pontifícios, como é o caso do Denzinger, mas também é verdade que não há nada tão amplo quanto o que está sendo preparado agora. A coleção Guardiões da Tradição englobará 250 documentos pontifícios (Bulas, Encíclicas e Alocuções) criteriosamente selecionadas para representar o ensinamento dos Papas ao longo dos dois milênios da história cristã nos seus pontos mais relevantes.

Os documentos serão publicados na sua integralidade – e não em seus trechos selecionados, como no Denzinger – e, sempre que necessário, acompanhados de notas explicativas. Haverá para cada documento uma breve introdução explicitando seu conteúdo e as razões de sua publicação. Os 250 documentos serão organizados cronologicamente, indo do Papa Cornélio (251-253) até Pio XI (1922-1939), e cada Pontífice receberá uma substanciosa apresentação, de forma que o livro poderá ser visto, também, como uma Enciclopédia dos principais Papas. Detalhados índices onomásticos e temáticos farão da coleção uma obra de consulta incontornável para todo católico que pretenda conhecer melhor a doutrina da Igreja nas suas fontes mais seguras.

Os temas abordados são os bem variados, indo das mais altas questões teológicas aos mais simples problemas sociais. Aquilo que os papas ensinaram sobre a Santíssima Trindade, as naturezas de Cristo e sua ação salvífica, as qualidades especialíssimas da Virgem Maria, a natureza da Igreja, a economia da salvação, a graça santificante, o papel da oração e as mais diversas questões litúrgicas terão destaque. O surgimento das ordens religiosas, a criação das faculdades na Idade Média, a canonização de determinados santos, as condenações das diversas heresias, a convocação para as cruzadas e a instituição da Inquisição serão apresentadas nos seus documentos originais. Questões políticas e sociais também terão lugar nesse vasto repertório: a liberdade da Igreja e de seus fiéis frente o Estado, os deveres dos governantes para com a Igreja, a verdadeira educação católica, os direitos dos trabalhadores, a moral católica aplicada à vida matrimonial e familiar, bem como a materialização da fé nas diversas formas de encontrarão o devido tratamento pela mão de mestre dos Papas. As mais controversas questões científicas, filosóficas, históricas e exegéticas também serão contempladas por essa ampla compilação de documentos pontifícios, apresentando aos leitores a solução para muitos problemas de ordem especulativa, ou, pelo menos, estabelecendo os pontos fundamentais que permitirão investigações seguras e intelectualmente frutuosas.

Dada a profusão de documentos pontifícios, estima-se que a coleção terá cinco volumes com cerca de 600 páginas cada um. Parte considerável desses documentos não se encontra publicada no Brasil e nem mesmo acessível em língua portuguesa na internet. A maior parte será vertida do original latino e, quando não for possível, as traduções mais confiáveis serão usadas para se chegar ao texto em português.

Além do óbvio interesse teológico dessa publicação, os cultores da Filosofia e da História também irão se beneficiar do estudo desses documentos, pois muitos deles inserem-se nos pontos fulcrais não só da histórica eclesiástica como também da história política e do pensamento.

No momento em que a doutrina católica tradicional se torna cada vez menos conhecida e seus tesouros são cada vez mais depauperados por aqueles mesmos que deveriam ser seus fiéis defensores, cabe a nós nos voltarmos àqueles antigos e fiéis Guardiões da Tradições que agora serão apresentados ao leitor brasileiro.

* * *

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9 outubro, 2021

Traditiones Custodes: separando fato de ficção.

A história oculta por trás de Traditiones Custodes.

Por Diane Montagna, The Remnant, 3 de outubro de 2021 | Tradução: FratresInUnum.com 

“Nada está oculto que não há de ser manifestado, nem nada secreto que não seja conhecido e não venha à luz” (Lc 8,17).

Às vezes, as coisas não são o que parecem. E às vezes, existem duas “realidades”: uma que é oficialmente dada por aqueles que estão no poder e outra que então descobrimos ser a verdade.

O Heroismo do sofrimento moral

São Pio V, o Papa de Lepanto.

Quando, em 16 de julho de 2021, o Papa Francisco promulgou Traditionis Custodes, restringindo a missa tradicional em latim, ele disse que, de acordo com os resultados de uma recente consulta do Vaticano aos bispos, as normas de seus predecessores, Papa João Paulo II e Papa Bento XVI, tinham sido exploradas por alguns que assistem à missa tradicional em latim para semear a dissidência em relação ao Concílio Vaticano II. 

Na carta apostólica , o Papa Francisco escreve a respeito do questionário aos bispos:

“Seguindo a iniciativa do meu Venerável Predecessor Bento XVI de convidar os bispos a avaliarem a aplicação do Motu Proprio Summorum Pontificum três anos após a sua publicação, a Congregação para a Doutrina da Fé fez uma consulta detalhada aos bispos em 2020. Os resultados foram cuidadosamente considerados à luz da experiência que amadureceu durante esses anos. ”

Ele continua:

“Tendo considerado os desejos expressos pelo episcopado e ouvido o parecer da Congregação para a Doutrina da Fé, desejo agora, com esta Carta Apostólica, avançar cada vez mais na busca constante da comunhão eclesial. Portanto, considerei apropriado estabelecer o seguinte:

O Papa Francisco então passa a delinear as novas restrições à Missa Tradicional em Latim.

Junto com o decreto, o Papa Francisco também emitiu uma carta de acompanhamento, dirigida aos bispos de todo o mundo. Ele a apresentou observando que, como Bento XVI havia feito com Summorum Pontificum em 2007, ele também desejava explicar os “motivos que levaram [sua] decisão” de restringir a Missa em latim tradicional.

O primeiro entre eles, diz ele, são os resultados da pesquisa enviada aos bispos de todo o mundo pela CDF. O Papa Francisco explica:  

“Instruí a Congregação para a Doutrina da Fé a distribuir um questionário aos bispos sobre a implementação do  Motu proprio Summorum Pontificum. As respostas revelam uma situação que me preocupa e entristece e que me convence da necessidade de intervir. Lamentavelmente, o objetivo pastoral dos meus Predecessores, que pretendiam “fazer todo o possível para que todos aqueles que realmente possuíam o desejo de unidade encontrassem a possibilidade de permanecer nesta unidade ou de a redescobrir”, foi muitas vezes desconsiderado. Uma oportunidade oferecida por São João Paulo II e, com ainda maior magnanimidade, por Bento XVI, destinada a resgatar a unidade de um corpo eclesial com sensibilidades litúrgicas diversas, foi aproveitada para alargar as lacunas, reforçar as divergências e suscitar divergências que ferem a Igreja, bloqueiam seu caminho e expõem-na ao perigo de divisão”.

Com base nesses resultados, o Papa Francisco conclui que:

“Em defesa da unidade do Corpo de Cristo, sou obrigado a revogar a faculdade concedida pelos meus Predecessores. O uso distorcido que tem sido feito desta faculdade é contrário às intenções que levaram a conceder a liberdade de celebrar a Missa com o  Missale Romanum  de 1962. ”

Mais adiante, na carta que acompanha, uma outra referência é feita aos resultados do questionário. Papa Francisco diz:

“Respondendo aos seus pedidos, tomo a firme decisão de revogar todas as normas, instruções, permissões e costumes que precedem o presente  Motu proprio, e declaro que os livros litúrgicos promulgados pelos santos Pontífices Paulo VI e João Paulo II, em conformidade com os decretos do Concílio Vaticano II, constituem a expressão única [ unica ] da  lex orandi  do Rito Romano”.

Segundo o Papa Francisco, então, a consulta aos bispos desempenhou um papel fundamental em sua decisão de restringir severamente a Missa tradicional. Como ele mesmo disse, os resultados o “preocuparam e entristeceram” tanto que o “persuadiram” a “intervir. ” E ordenou que o decreto entrasse em vigor imediatamente.

Após a promulgação de Traditionis Custodes, considerável especulação girava em torno da pesquisa, mas o Vaticano não publicou seus resultados.

Um superior da CDF se manifesta

Quatro dias depois, em 20 de julho de 2021, uma entrevista ao Catholic News Service apareceu no National Catholic Reporter e na America Magazine , na qual o superior da CDF, o arcebispo Augustine Di Noia, que atua como secretário adjunto na Congregação para a Doutrina da Fé, expressou seu apoio à narrativa oficial apresentada pelo Papa Francisco. Di Noia insistiu que a carta que acompanhava o Papa “destemidamente acerta o prego na cabeça: o movimento tradicional da missa latina sequestrou as iniciativas de São João Paulo II e de Bento XVI para seus próprios fins”.

Surgem perguntas

Mas Traditionis Custodes reflete verdadeiramente a situação real? Foi justo o questionário aos bispos de todo o mundo, no qual o Papa Francisco disse ter baseado sua decisão? Seria essa consulta considerada justa se parte do conteúdo de Traditionis Custodes já tivesse sido sugerido durante uma reunião plenária da CDF, no final de janeiro de 2020, que deu lugar a uma consulta que se destinava a justificar as decisões tomadas em Traditionis Custodes? Poderia ser chamada de justa se descobrisse que havia um segundo relatório paralelo criado dentro da Congregação para a Doutrina da Fé, que foi concluído antes de todas as respostas dos bispos terem sido recebidas pela CDF? E poderia ser considerado justo se Traditinis Custodes não representasse com precisão o relatório principal e detalhado preparado para o Papa Francisco pela quarta seção da CDF, ou seja, a antiga Ecclesia Dei? Muitas pessoas, de fato, sabiam que este relatório estava sendo preparado.

Vamos examinar o que agora veio à luz sobre cada uma dessas três questões.

A Sessão Plenária de 2020

À nossa primeira pergunta: faria sentido pensar que Traditionis Custodes foi apenas o resultado da consulta aos bispos de todo o mundo, quando agora sabemos que no final de janeiro de 2020 teve lugar uma sessão plenária da Congregação para a Doutrina da Fé , onde três cardeais já lançavam as bases para o Motu Proprio de 16 de julho de 2021?

Na tarde do dia 29 de janeiro de 2020, uma sessão plenária foi realizada para discutir a quarta seção da Congregação para a Doutrina da Fé, o que antes era conhecido como Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, na qual o Prefeito da Congregação para o Doutrina da Fé, Cardeal Luis Ladaria, SJ, não esteve presente devido a problemas de saúde.

Antes de continuar, devo dizer que é amplamente considerado que o Cardeal Ladaria estava “relutante” em publicar Traditionis Custodes. Diz-se que ele é um bom homem, extremamente discreto, mas que não irá contra a vontade do Santo Padre.

Na ausência do cardeal Ladaria, a assembléia foi presidida pelo secretário da CDF, o arcebispo Giacomo Morandi. Morandi, alguns devem se lembrar, foi nomeado subsecretário da CDF em 2015, antes que três funcionários do Cardeal Muller fossem demitidos. Quando o cardeal Müller foi “deposto” em 2017 e o cardeal Ladaria foi nomeado prefeito, Morandi foi promovido a secretário.

Também estiveram presentes na sessão plenária de 29 de janeiro de 2020 outros membros da CDF, incluindo o Secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal italiano Pietro Parolin; o cardeal canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos; o cardeal italiano Giuseppe Versaldi, prefeito da Congregação para a Educação Católica; o cardeal Beniamino Stella, então prefeito da Congregação para o Clero, os cardeais americanos Sean Patrick O’Malley e Donald Wuerl; o arcebispo italiano Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização; o arcebispo Charles Scicluna de Malta, que atua como secretário adjunto da CDF; o cardeal francês Jean-Pierre Ricard, o arcebispo francês Roland Minnerath e outros. O Papa não estava nesta reunião.

De acordo com fontes confiáveis, o cardeal Parolin, o cardeal Ouellet e o cardeal Versaldi estavam conduzindo a discussão e conduzindo-a em uma direção definida.

Para dar uma ideia do que foi dito, um cardeal – que é considerado mais um “acólito” do que um líder de gangue – expressou o alarme de que cerca de 13.000 jovens se inscreveram para a peregrinação de Chartres. Ele disse que precisamos descobrir por que esses jovens são atraídos para a missa tradicional e explicou aos outros presentes que muitos desses jovens têm “problemas psicológicos e sociológicos”. O cardeal em questão tem formação em direito canônico e psicologia, então suas observações sobre “problemas psicológicos” teriam tido mais peso, especialmente com bispos e cardeais que não estão familiarizados com a missa latina tradicional ou círculos de missa latina.

Outro cardeal disse que pela pouca experiência que teve, “esses grupos não aceitam mudanças” e “participam sem concelebrar”. A CDF deveria, portanto, pedir um “sinal concreto de comunhão, de reconhecimento da validade da Missa de Paulo VI”, insistiu ele, acrescentando que “não podemos continuar assim”. Ele apoiou a preocupação de que esses grupos atraiam os jovens e pediu que fossem encontradas formas concretas de demonstrar que essas pessoas estão na Igreja.

Um arcebispo italiano disse que concordava que a CDF não deveria retomar as discussões com a FSSPX, porque “não há diálogo com surdos”. Ele lamentou que o Papa Francisco tivesse feito concessões à FSSPX no Ano da Misericórdia, mas não estava recebendo nada em troca.

A reunião de uma hora e meia terminou com a seguinte citação: “A tradição é a fé viva dos mortos. O tradicionalismo é a fé morta dos vivos”.

Apesar da variedade de observações oferecidas nesta sessão plenária – que, novamente, durou uma hora e meia – houve apenas uma conclusão nas propostas finais apresentadas ao Santo Padre. E qual foi? Estudar cuidadosamente a eventual transferência de competência sobre os Institutos Ecclesia Dei e outros assuntos tratados pela Quarta Seção, para outros dicastérios do Vaticano que tratam de assuntos relacionados: a Congregação para o Culto Divino, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Apostólica Vida (também conhecida como Congregação para os Religiosos) e a Congregação para o Clero.

Nos artigos 6 e 7 de Traditionis Custodes, o Papa Francisco estabelece as seguintes normas:

Art. 6 .: Os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica, erigidos pela Pontifícia Comissão  Ecclesia Dei , são da competência da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica.

Art. 7: A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, para assuntos de sua competência particular, exercem a autoridade da Santa Sé no que diz respeito à observância destas disposições.

Lembre-se de que o questionário foi enviado cinco meses depois, em maio de 2020. Não se sabe quem escreveu as perguntas.

Portanto, parece que a bola já estava cantada na sessão plenária no final de janeiro de 2020.

Um segundo relatório paralelo

Agora, a nossa segunda pergunta: poderia o questionário ser considerado justo se descobrissêmos que havia um segundo relatório paralelo criado dentro da seção doutrinária da Congregação para a Doutrina da Fé, que foi concluído antes mesmo de todas as respostas dos bispos terem sido recebidas pela CDF?

Fontes confiáveis ​​confirmaram que, enquanto o relatório principal estava sendo preparado, os superiores da CDF encomendaram um segundo relatório para ter certeza de que o relatório principal refletia o feedback dos bispos. A Congregação teria que ter certeza de que o relatório principal não chegasse apenas às conclusões usuais, por exemplo, que a Missa tradicional é um elemento positivo na vida da Igreja, etc., etc., etc. O segundo relatório foi, portanto, elabnorado como uma espécie de segunda opinião, uma verificação do relatório principal. Os superiores da CDF, portanto, encarregaram um oficial da seção doutrinária para escrever seu próprio relatório.

É importante ter em mente que as respostas teriam chegado por correio ou e-mail, ou por meio das nunciaturas ou conferências episcopais.

Para revisar o cronograma de como as coisas se desenrolaram: a sessão plenária acima referida realizou-se em janeiro de 2020. O questionário foi enviado no mês de maio seguinte. Os bispos tiveram até outubro de 2020 para responder, mas como acontece com as coisas romanas, as respostas continuaram a chegar até janeiro de 2021 e todas foram recebidas, revisadas e consideradas para o relatório principal.

Quanto ao segundo relatório paralelo, não se sabe se o funcionário encarregado da redação do relatório foi instruído a tirar certas conclusões.

O que é certo é que o segundo relatório paralelo, que eu sei foi encomendado por volta de novembro de 2020, foi entregue antes do Natal. No entanto, neste ponto, a CDF ainda estava recebendo e processando respostas à pesquisa, e o fez até janeiro de 2021. Portanto, o segundo relatório estava certamente incompleto, e também provavelmente superficial, dada a rapidez com que foi concluído, o volume de material para ser analisado e o fato de o material estar sendo recebido em quatro ou cinco idiomas.

Então, dois relatórios foram preparados. Aquele que melhor se adequava a determinada agenda foi escolhido como base para Traditionis Custodes? Ou os responsáveis ​​- percebendo que o material que chegou à CDF não refletiria ou justificaria o que aqueles que pressionavam por restrições queriam provar – encomendaram o segundo relatório e o concluíram em menos de um mês para que uma espécie de texto paralelo poderia ser oferecido ao Santo Padre?

Não se sabe se o Papa Francisco leu o segundo relatório, ou se o recebeu antes ou depois do relatório principal. Foi mantida toda discrição.

Mas o que está vindo à luz, e vamos olhar para este assunto seguinte, é que Traditionis Custodes não reflete as premissas ou conclusões do relatório detalhado principal. Portanto, a questão é: ele reflete as premissas e conclusões de outro relatório? Poderia ser este o segundo relatório? Ou poderia talvez não refletir as conclusões de qualquer relatório, mas foi elaborado de outra forma.

O Relatório Principal

Agora, a nossa terceira pergunta: poderia ser considerado justo se Traditionis Custodes não representasse com precisão o relatório principal e detalhado preparado para o Papa Francisco pela Congregação para a Doutrina da Fé?

Anteriormente, mencionei uma entrevista que apresentava o secretário adjunto da CDF, o arcebispo Augustine Di Noia, e foi publicada em 20 de julho de 2021, apenas quatro dias após a promulgação de Traditionis Custodes.  

Insistindo que estava falando “como teólogo” e não como oficial da CDF, o arcebispo Di Noia pareceu se distanciar do questionário, dizendo que não tinha os resultados. Ele também minimizou a importância da consulta, dizendo que a “justificativa do Papa para a revogação de todas as disposições anteriores nesta área não é baseada nos resultados do questionário, mas apenas ocasionada por eles ”. Uma formulação um tanto estranha, dada a própria explicação do Papa Francisco de seus motivos.

O artigo é apresentado como o resumo de uma correspondência ou telefonema por e-mail, então talvez o arcebispo Di Noia não tivesse o relatório em sua mesa quando segurava o telefone ou respondia por e-mail. Mas, como superior da CDF, é impossível, é inconcebível que ele não tivesse ao menos acesso a esse relatório, que foi elaborado pela Congregação para a Doutrina da Fé. Você não precisa ser um Einstein para descobrir isso.

Uma pessoa poderia dizer: “Como teólogo, não tenho os resultados” quando, como superior da CDF, você teria recebido uma cópia antecipada e estaria presente quando o relatório preliminar foi revisado? O sumário executivo foi visto em forma de rascunho por alguns na CDF.

Como um aparte, o artigo também afirma que o Papa Francisco “provavelmente consultou ou pelo menos deu cópias antecipadas do documento ao Papa emérito Bento XVI”. Disseram-me que o artigo que publiquei no Remnant em 1º de junho de 2021, seis semanas antes da promulgação de Traditionis Custodes, e que descrevia o que estava no primeiro e terceiro rascunhos, foi entregue ao Papa Bento XVI. Uma fonte confiável me disse depois que o papa emérito ficou “chocado”. Portanto, é difícil acreditar que ele foi consultado de alguma forma significativa.

O Papa Francisco recebeu o relatório principal? Fontes dizem que durante uma audiência com o prefeito da CDF, cardeal Ladaria, o Papa Francisco literalmente arrebatou a cópia de trabalho do relatório de suas mãos, dizendo que o queria imediatamente porque estava curioso sobre ele. Se o Papa Francisco realmente leu o relatório principal, não se sabe.

Conteúdo do Relatório Principal à Luz da Consulta

Pelo que sei, o relatório principal foi muito completo e dividido em várias seções. Uma parte foi muito analítica, oferecendo análises diocese por diocese, país por país, região por região, continente por continente, com circulares e gráficos. Outra parte foi um resumo onde toda a argumentação foi apresentada, junto com recomendações e tendências. E que eu saiba, uma parte do relatório continha citações tiradas das respostas que vieram de cada diocese. Esta coleção de citações teria sido incluída para dar ao Santo Padre uma amostra completa do que os bispos disseram.

Eu havia relatado em junho que apenas um terço dos bispos do mundo responderam à pesquisa. Pode-se argumentar que esta não é uma má representação, visto que não se esperaria necessariamente uma resposta de muitos países, por exemplo, onde a liturgia bizantina ou outras liturgias orientais são celebradas.

Nas regiões onde a missa tradicional é mais difundida (ou seja, França, Estados Unidos e Inglaterra), a situação é muito favorável. A CDF recebeu resposta de 65-75% desses países, e dessa porcentagem mais de 50% foram favoráveis. Isso teria se refletido no relatório principal.

O sumário executivo também teria refletido que há muitos frutos nascendo da missa tradicional.

O que uma pessoa razoável teria tirado do relatório principal? Que uma maioria razoável de bispos, usando palavras diferentes e de maneiras diferentes, basicamente estava enviando a mensagem: “Summorum Pontificum está bem. Não toque nisso”. Certamente não teria sido 80 por cento que disse isso desta forma. Mas mais de 35 por cento dos bispos teriam dito: “Não toque em nada, deixe tudo como está”. Além disso, outra porcentagem de bispos teria dito: “Basicamente, não toque nisso, mas haveria uma ou duas coisas que eu sugeriria, como um bispo tendo um pouco mais de controle”. Até mesmo alguns dos bispos que deram as respostas mais positivas ao questionário fizeram esse tipo de comentários ou sugestões.

Ao todo, então, mais de 60 por cento a dois terços dos bispos concordariam em manter o curso, talvez com algumas pequenas modificações. A mensagem era basicamente deixar Summorum Pontificum em paz e continuar com uma aplicação prudente e cuidadosa.

O relatório principal falava de áreas onde há espaço para melhorias, como mais formação em seminários. Alguns bispos falaram da necessidade de mais formação na Forma Extraordinária e da necessidade de uma boa liturgia em geral. Alguns bispos teriam falado da necessidade de mais latim. Em vez disso, como vemos em Traditionis Custodes, o oposto é que foi decretado.

Do que é de meu conhecimento, o que realmente aconteceu é que tudo o que era auxiliar no relatório principal foi projetado como um grande problema e foi expandido, ampliado de forma extremamente desproporcional. Considere o problema da unidade. Essa falta de unidade, pelo que disseram os bispos, veio de ambas as direções, não apenas de grupos tradicionais.

Alguns bispos – embora não celebrem a missa tradicional eles mesmos – disseram que estão felizes com o fato de os fiéis terem um lugar para ir. Eles dizem que, além dos malucos que se pode encontrar nos círculos tradicionais – e igualmente, se não mais, em outros lugares – geralmente esses grupos são compostos de jovens casais com muitos filhos. Eles rezam, ajudam financeiramente a paróquia e a diocese, estão envolvidos na vida paroquial e diocesana muito ativamente. Eles são bem formados e apreciam boa música. Comentários muito positivos.

Mais uma vez, a respeito da formação dos seminários, alguns bispos disseram que gostariam de ter uma maior presença da Forma Extraordinária da Missa em seu seminário e entre os padres mais jovens, mas eles não podem fazer mais do que estão fazendo atualmente, porque os padres mais velhos, especialmente aqueles que viveram a transição de antes para depois do Vaticano II, criariam estragos na diocese. Esses padres mais velhos veriam algo em que estiveram altamente envolvidos e que lhes foi apresentado como uma espécie de vitória, varrida pelos padres mais jovens e por um bispo solidário, que é mais favorável à tradição do que ao objeto de sua vitória. Esse tipo de resposta, embora uma pequena porcentagem, não se limitou a uma localização geográfica.

Curiosamente, na Ásia, alguns bispos disseram que têm um problema com a língua latina, porque ela vem de uma região diferente, o que é perfeitamente compreensível. Eles efetivamente disseram à CDF: Ficaríamos muito felizes se alguém de Roma viesse ensinar nossos padres, para que eles pudessem oferecer a Forma Extraordinária. No nosso seminário não temos porque os padres não sabem latim e não sabem celebrar. Ficaríamos felizes em tê-la porque aumenta a oração e a devoção. Mas tudo isso desapareceu e não recebeu nenhuma menção em Traditinis Custodes.  

Obviamente, alguns bispos fizeram comentários negativos, mas fontes confiáveis ​​dizem que nem as respostas, nem o relatório principal, foram predominantemente negativos.

A situação verdadeiramente trágica, segundo me disseram, é na Itália. Em muitas dioceses além de lugares como Roma, Milão, Nápoles e Gênova, e talvez alguns outros, Summorum Pontificum mal foi implementado, se é que foi implementado. No entanto, muitos bispos, que não têm nenhum conhecimento prático da implementação de Summorum Pontificum, responderam em termos ideológicos, dizendo (e eu parafraseio): “Isso não pode ser. Não reflete o Vaticano II. ”

Há até motivos para acreditar que alguns dos bispos italianos foram treinados em suas respostas. A Itália tem quase 200 bispos de origens muito diferentes. Eles vêm de diferentes localizações geográficas, seminários e universidades, e experiências de formação sacerdotal. Ainda assim, muitos deles, em sua resposta, usaram a mesma frase, “retorno ao regime pré-Summorum Pontificum”. Em italiano, a frase é: “Tornare al regime precedente di Summorum Pontificum”. Isso é um tanto estranho, especialmente quando até bispos que não têm nenhuma presença real da Forma Extraordinária em sua diocese a incorporam em suas respostas.

Outro ponto: no artigo mencionado anteriormente, o arcebispo Di Noia afirmou que “a coisa ficou totalmente fora de controle e se tornou um movimento, especialmente nos Estados Unidos, França e Inglaterra”. (Na verdade, estes não são países onde a missa tradicional em latim está “fora de controle”, mas simplesmente difundida.) Mas, uma vez que Traditionis Custodes fornece meios para assumir o controle desta situação “fora de controle”, de acordo com Di Noia, seria de se pensar que os bispos americanos, franceses e ingleses o teriam aplicado imediatamente com a interpretação mais forte possível. Provavelmente, eles teriam se aproveitado do fato de que era imediatamente aplicável, mas isso não aconteceu. Então, onde está o “fora de controle”?

Isso se refletiu nas respostas dos bispos após a promulgação de Traditinis Custodes. A primeira reação muitas vezes era decretar que tudo continuaria como está, até que houvesse tempo para estudar, discutir, etc. Onde os bispos já se opunham à Forma Extraordinária, eles decidiram ser mais santos que o Papa e proibi-la. Mas a maioria dos bispos disse que garantiria o cuidado pastoral daqueles que participam da missa tradicional em latim. Isso está de acordo com a forma como os bispos se expressaram em suas respostas à pesquisa. Na verdade, quando esses decretos foram publicados, eles refletiam o tom que o bispo havia usado ao responder.

O ponto-chave, como provavelmente já se deve ter percebido, é que as premissas e conclusões de Traditionis Custodes não são as mesmas apresentadas no relatório principal detalhado produzido pela Congregação para a Doutrina da Fé. Traditionis Custodes não foi consistente com o que o relatório principal recomendou ou revelou. Como disse uma fonte: “O que eles estão realmente interessados ​​em fazer é cancelar a Missa Antiga, porque a odeiam”.

Como mencionei antes, que eu saiba, uma parte do relatório continha citações tiradas das respostas recebidas de cada diocese. O objetivo era fornecer ao Santo Padre uma amostra representativa de respostas e foram divididas em várias categorias. Estas incluíram: “avaliações negativas sobre a atitude de certos fiéis”; “No isolamento da comunidade”; uma seção muito breve “sobre a irrelevância do FE (Forma Extraordinária) para as pessoas”; “Sobre a necessidade e / ou adequação pastoral da FE”; “Aqueles a quem a FE atrai”; uma considerável seção de citações sobre “o valor da FE para a paz e a unidade da Igreja”; “Sobre o valor teológico litúrgico e catequético da FE”; “Sobre o valor histórico do FE”; “Sobre a influência da FE na FO (Forma Ordinária)”; “Sobre a influência da FE nos seminários e / ou casas de formação”; e uma longa seção final de “propostas para o futuro”. Pode-se ver pelas citações incluídas que os resultados não foram cobertos de açúcar. Vamos considerar apenas alguns deles das várias categorias (FE = Forma Extraordinária; FE = Forma Ordinária):

Avaliações negativas sobre a atitude de certos fiéis

Em um sentido negativo, [a FE] pode fomentar um sentimento de superioridade entre os fiéis, mas na medida em que esse rito foi mais amplamente usado, esse sentimento diminuiu (Um Bispo da Inglaterra, resposta à pergunta 3).

Não vejo aspectos negativos no uso de FE como tal. Quando há aspectos negativos, eles se devem às atitudes negativas de quem tem opiniões fortes em uma ou outra direção a respeito dessa forma de celebração. Quando é a ideologia, e não o bem pastoral da Igreja, que orienta o discernimento sobre o uso do FE, surge o conflito e a divisão. Repito: isso é algo extrínseco ao próprio uso da Missa (Um Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Pode haver uma tendência entre alguns dos fiéis de ver esta [a FE] como a única missa “verdadeira”, mas acho que isso vem do fato de que essas pessoas foram vistas como “estranhas” ou marginalizadas. Se você tentar “regularizar” tanto quanto possível, essas pessoas se sentirão cuidadas e guiadas pastoralmente, e poderão ser muito fiéis e leais (um bispo da Inglaterra, resposta à pergunta 3).

Os aspectos [da FE] em si são apenas positivos: é um grande dom para todos poderem conhecer e assistir à festa de forma extraordinária. Os aspectos negativos só estão presentes na medida em que essas celebrações são celebradas e / ou frequentadas por pessoas desequilibradas ou ideologizadas (Um Bispo da Itália, resposta à pergunta 3).

A divisão e a discórdia não vêm do uso do FE, mas da percepção das pessoas sobre quem frequenta. As pessoas são vinculadas a motivações e tendências que não são verdadeiras (um bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Sobre a irrelevância do FE para as pessoas

Às vezes, a forma não foi aplicada para o bem das almas, mas para satisfazer os gostos pessoais do presbítero (um bispo da Itália, resposta à pergunta 4).

Sobre a necessidade e / ou conveniência pastoral da FE

A oferta atual de missas e celebrações na FE atende às necessidades pastorais dos fiéis. Os conflitos iniciais sobre o estabelecimento de missas na FE foram resolvidos pacificamente nos últimos anos (Relatório Conjunto da Conferência Episcopal Alemã, resposta à pergunta 1).

A FE oferece aos fiéis um contexto para crescer na santidade por meio de uma celebração eucarística que aprofunda sua comunhão com Cristo e com os outros de uma forma que corresponda às suas sensibilidades. Uma afirmação semelhante pode ser feita sobre outras pessoas que crescem espiritual e eclesialmente por meio de formas de celebração mais contemporâneas (um bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

A atração exercida pela FE é tanto uma reação a uma celebração menos que satisfatória da FO quanto um desejo específico de uma liturgia latina (um bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 9).

A FE atrai a esses

Este movimento atrai muitas famílias jovens que se sentem confortáveis ​​com esta liturgia e com as atividades que são oferecidas em torno dela. Acho que essa diversidade é boa na Igreja, e que a diminuição do número de praticantes não deve gerar a todo custo uma uniformidade de propostas. Esta forma litúrgica é nutritiva para muitos. Existe um sentido do sagrado que é agradável e que orienta para Deus (Um Bispo da França, resposta à pergunta 3).

Observamos que essas famílias participam de muitos eventos vocacionais e juvenis diocesanos em uma proporção muito maior do que qualquer outro grupo (um bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 9).

As missas FE em nossa diocese atraem algumas famílias devotas. Enquanto alguns dos pais “educam em casa”, outros colocam os filhos nas escolas católicas locais. Essas famílias abraçam muitos dos princípios promovidos pelo Vaticano II, incluindo a necessidade de cultivar a Igreja doméstica e o apelo universal à santidade (Um Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Um número significativo de jovens fervorosos se sentem nutridos – não exclusivamente – pela FE. A presença pacífica da FE permite que alguns jovens (aliás, típicos da sua geração) que sentem um apelo ao sacerdócio confiem na Diocese (Um Bispo de França, resposta à pergunta 8).

Sobre o valor da FE para a paz e a unidade da Igreja

A FE, sob a direção prudente do Ordinário, permitiu que mais católicos pudessem rezar de acordo com seu desejo e dissipou os conflitos de antes. Sua presença silenciosa não deve ser perturbada (Um Bispo da Inglaterra, resposta à pergunta 9).

O aspecto mais positivo do uso da FE é que agora não há mais nenhum “clã” reivindicando a “verdadeira missa”. O mistério eucarístico foi libertado de uma divisão ideológica muito prejudicial. Isso foi uma grande vantagem para a percepção da unidade da Igreja realizada em torno da Eucaristia (Um Bispo da França, resposta à pergunta 3).

Eu veria como um benefício para toda a Igreja se a Santa Sé continuasse a apoiar os fiéis católicos que estão ligados à FE de Rito Romano. Mesmo em termos gerais, promover diferenças genuínas de pensamento e expressão é um benefício para a Igreja universal. Ter uma seção dedicada a ela na CDF é útil, quando desenvolvimentos litúrgicos ou esclarecimentos são necessários. De acordo com as normas universais, nossa Arquidiocese também se comprometeu a estabelecer um diálogo com os líderes locais e nacionais da FSSPX. Creio que este passo positivo foi facilitado pela existência de Summorum Pontificum e das comunidades que ele fomentou (Um Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 9).

Creio que muitos dos que se sentiram separados da Igreja e foram para comunidades extra-eclesiais se sentiram acolhidos de volta à estrutura da Igreja por causa de Summorum Pontificum (Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Sobre o valor litúrgico, teológico e catequético da FE

Eu mesmo celebrei as ordenações presbitrais na FE quando não era minha forma usual e pude apreciar sua riqueza, beleza e profundidade litúrgica (Bispo da França, resposta à pergunta 3).

Não seria difícil dizer que, se fossem entrevistados, quase 100% dos que frequentam a FE acreditam na presença real de Cristo na Eucaristia, enquanto números drasticamente menores têm sido mostrados para os católicos que vão predominantemente ao FO (Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Sobre a influência da FE na OF

Embora a EF não seja amplamente seguida, ele influencia a FO em uma direção muito saudável, que eu resumiria como “em direção a uma maior devoção [reverência]” (um bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 9).

A FO e FE representam dois entendimentos diferentes da Eucaristia, Eclesiologia, sacerdócio batismal e sacramento da Ordem (apenas para mencionar as diferenças teológicas mais óbvias). Tentar adotar elementos da FE seria apenas enviar sinais inconsistentes aos fiéis (um bispo do Japão, resposta à pergunta 5).

Dois párocos que aprenderam a FE posteriormente introduziram a celebração ad orientem para algumas ou todas as suas missas, que foi bem recebida pelos seus fiéis, que foram previamente catequizados. Além disso, para alguns dos nossos sacerdotes, houve um maior cuidado com a hóstia consagrada, tanto através da reintrodução e do uso habitual da patena da comunhão como através de um maior cuidado do próprio sacerdote no altar (Um Bispo do Caribe, resposta a questão 5).

Propostas e / ou perspectivas para o futuro

A prática [de Summorum Pontificum] seguida até agora provou seu valor e, por razões pastorais, não deve ser mudada (Relatório Conjunto da Conferência Episcopal Alemã, resposta à pergunta 9).

Temo que sem a FE, muitas almas deixariam a Igreja (Um Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Os movimentos eclesiais [como os ligados à FE] têm grande potencial de renovar a Igreja (…). Ao mesmo tempo, os movimentos eclesiais também podem vagar por conta própria, criando uma Igreja quase paralela e caindo em uma atitude elitista que se vê apenas como “verdadeiros católicos”. Isso acontece quando eles são deixados sozinhos. Em outras palavras, eles só podem renovar a Igreja se a hierarquia se envolver com eles, permitindo que se desenvolvam segundo o Espírito, mas também mantendo a comunhão com a Igreja. Quando os membros desses movimentos se sentem desafiados ou ignorados por seus pastores, eles se retiram e ficam ressentidos, mas quando sentem que seus pastores estão entre eles e os orientam, então se tornam valiosos meios de evangelização (Um Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 9).

Acho que esta é a melhor abordagem a ser usada sobre o uso da FE: a escola de Gamaliel: “Se essa atividade for de origem humana, ela vai ser destruída, mas se vier de Deus, vós não conseguireis derrotá-los; não vos encontrais lutando contra Deus ”(At 5, 38-39) (idem).

Peça aos padres que celebram na FE que aprendam a celebrar na FO e a fazê-lo em grandes encontros em torno do bispo, e também que possam prestar serviço nas paróquias (Bispo de França, resposta à pergunta 9).

Devo afirmar, em sã consciência, que repensar as opções feitas é mais necessário e urgente do que nunca (Um Bispo da Itália, resposta à pergunta 9).

Tenho a impressão de que qualquer intervenção explícita pode causar mais mal do que bem: se a linha do Motu proprio for confirmada, as reações perplexas do clero terão nova intensidade; se a linha do Motu proprio for negada, as reações de dissidência e ressentimento dos amantes do antigo rito terão nova intensidade (Um bispo da Itália, resposta à pergunta 9).

Não creio que seja apropriado revogá-lo ou limitá-lo com novas normas, para não criar contrastes e novos conflitos, levando ao sentimento de falta de respeito pelas minorias e suas sensibilidades (Um Bispo da Itália, resposta a questão 9).

Conclusão

O que nos espera? É difícil dizer. Alguns sugeriram que uma instrução de implementação de Traditionis Custodes poderia ser publicada, talvez até o Natal, mas isso ainda é desconhecido.

Nós nos acostumamos com a Santa Sé apoiando a paz litúrgica da Igreja, mas não podemos mais considerar isso garantido. Em conclusão, e a título de conselho:

  1. Padres, grupos estáveis ​​e fiéis devem abster-se de qualquer correspondência com a Santa Sé. Os que estão vinculados à missa tradicional em latim também devem evitar dar a impressão de que são “guerreiros” em sua diocese ou paróquia, que estão sempre protestando ou infelizes. O objetivo deve ser não perder a missa tradicional em latim como forma normal de oração. E, como filhos do Pai celestial, devemos orar pela hierarquia. Este é nosso dever.
  2. Os padres diocesanos individuais devem continuar a oferecer missas privadas, uma vez que o Missal de 1962 não foi revogado.
  3. Os bispos a quem o Santo Padre confiou a tarefa de guardar a tradição devem avaliar verdadeiramente se a implementação de Traditionis Custodes traria verdadeiros benefícios espirituais para o seu rebanho. Os bispos podem perceber que o que inspirou o Santo Padre é totalmente diferente da situação em sua própria diocese e agir de acordo com isso.

Hoje é o 450º aniversário da Batalha de Lepanto (1571) e comemora a vitória da Santa Liga (uma aliança de Estados católicos comissionada para derrotar os turcos) sobre a frota do Império Otomano. Foi a maior batalha naval da história ocidental desde a antiguidade clássica. São Papa Pio V (1504-1572), que comissionou a Santa Liga, colocou tanta ênfase no poder do Rosário quanto na Santa Liga. Ele também é conhecido por seu papel no Concílio de Trento, por codificar o Rosário e por promulgar o Missale Romanum de 1570 com a bula papal Quo Primum. Com esta bula, o santo papa procurou assegurar que ninguém jamais pudesse mudar a missa. Na Batalha de Lepanto, a única coisa que existia entre a Europa e sua destruição certa foram os homens da cristandade dispostos a responder ao chamado da Igreja, e sua disponibilidade para rezar o Rosário em defesa da Europa católica. Que tais homens se levantem hoje na defesa da liturgia romana tradicional, e que Nossa Senhora tenha a vitória!

6 outubro, 2021

Estatística é estatística. Segundo o Relatório Sauvé: 80% dos abusos sexuais na Igreja foram homossexuais.

Por Que no te la cuenten, 6 de outubro de 2021 | Tradução: FratresInUnum.com – A estatística é a estatística; e quando realizada por meios tão díspares como o The New York Times e a própria Conferência Episcopal Francesa, dificilmente se unem em consenso para mentir.

Ora, surgiu recentemente um novo relatório acerca dos abusos sexuais cometidos pelo clero nas últimas décadas. E o que se diz? O que vimos salietando há anos: que a imensa maioria de abusos foram abusos homossexuais.

2019. Relatório Pensilvânia (EUA): 80% dos abusos sexuais do clero foram abusos homossexuais.

2021 (04 de Outubro). Relatório Sauvé (França): 80% dos abusos sexuais do clero foram abusos homossexuais.

“Mas, padre! Não é porque alguém tem estas tendências que necessariamente será um pederasta!” — dirá alguém.

Sim, é verdade. Porque todos somos chamados à santidade; mesmos os que têm estas tendências.

Mas assim como não convém dar fósforo e combustível a um pirómano, ou ao viciado em jogos dar-lhe entrada gratuita ao cassino, a Igreja ordenou que não ingressassem ao seminário pessoas com tendências homossexuais arraigadas.

Porque estatística é estatística.

São Pedro Damião, ora pro nobis!

Que no te la cuenten…

P. Javier Olivera Ravasi, SE

29 setembro, 2021

Perseguição em Marília: Dom Cipolini proíbe a Missa Tradicional.

Por FratresInUnum.com, 29 de setembro de 2021 — Chegam-nos notícias da Diocese de Marília de que Dom Luiz Antonio Cipolini (não confundir com Dom Pedro Carlos Cipolini, bispo de Santo André e seu irmão de sangue) acaba de proibir a Missa Tradicional.

Na imagem, Dom Luiz Cipoli encontra-se com o Papa Francisco em setembro de 2019.

Vamos colocar trechos de uma mensagem enviada por um fiel, intercalados com comentários nossos.

“Vale notar que, com Summorum Pontificum em pleno vigor, o bispo permitiu a Missa Tridentina apenas uma vez por mês. Os fiéis pediram aumento da frequência das Missas por várias vezes, mas sem sucesso. Na verdade, Traditionis Custodes já estava em prática nessa Diocese do Oeste Paulista”.

Em outras palavras, o bispo já desobedecia o Motu Proprio anterior, abusando de sua autoridade contra uma legítima solicitação dos seus fiéis.

“Contudo, ao entrar o Traditionis Custodes, Dom Luiz Antonio Cipolini encontrou a ocasião para liquidar com a Missa Tridentina, ‘em obediência ao papa’, como ele escreveu a uma fiel”.

Trata-se daquela obediência seletiva. Quando o que a Santa Sé ordena está de acordo com a ideologia, então impõe-se de maneira ditatorial aquilo que se quer; mas quando o mandado não está ideologicamente alinhado, então se faz corpo mole e não se atende aos princípios anteriores. É o que ocorreu com Dom Moacir Silva, arcebispo de Ribeirão Preto: quando Summorum Pontificum foi promulgado, demorou anos para permitir, a contragosto, sua implementação na sua diocese de então; agora, com Traditionis Custodes, em menos de um mês lançou um decreto varrendo a Missa Tradicional de Ribeirão Preto — e ainda é convidado pela CNBB para uma live, a fim de explicar o documento bergogliano.

“Em média 100 fiéis iam às Missas mensais. Agora foram todos misericordiosamente cancelados, mas com ‘bênção paternal’”.

É aquela velha misericórdia tão estimada na atual conjuntura eclesiástica: o assassinato pastoral acompanhado por palavras doces e carinhosas.

“Quando o papa permitia a Missa Tridentina, o bispo de Marília a restringia. Quando o papa injustamente a restringiu, o bispo de Marília a suprimiu. Em nome da ‘comunhão’ e da ‘sinodalidade’”.

Sempre as mesmas “palavras-talismã”, que transfiguram as piores maldades em suma caridade. Mas o pior vem aí:

“Enquanto isso, na diocese há livremente Missas sertanejas, de cerco de Jericó, Missa afro e afins. Pe. Valdemar Cardoso, por exemplo, nacionalmente conhecido pelas Missas que celebrava na Rede Vida, tem um consultório onde realiza práticas esotéricas”.

De fato, Francisco não escreveu um Motu Proprio proibindo feitiçaria e superstição, está supressa apenas a Missa Tridentina, que é perigosíssima e causa grandes abalos na Igreja pós-Conciliar.

O referido padre, prossegue nosso leitor, “comete abusos litúrgicos selvagens e fala na Missa, por exemplo, dos benefícios de se tomar o santo daime, substância alucinógena, bem como dos espíritos que ele ‘vê’ durante a Missa, além de interpretações violentas e espiritualmente destrutivas das leituras bíblicas. Pe. Valdemar não visita doentes, não faz exéquias e conduz seus penitentes para sua ‘clínica’, onde as ‘consultas’ são pagas. Ele frequenta abertamente ambientes esotéricos, mas com ele não acontece nada. Já participou do Conselho de Presbíteros e é atualmente membro do Colégio de Consultores, cujos participantes são todos livremente nomeados pelo bispo. Muitas dessas informações podem ser checadas na página ‘Paróquia Nossa Senhora da Glória – Tupi Paulista’ ou na página do próprio padre”.

Daqui a pouco, é capaz que este sacerdote seja nomeado até bispo ou quem sabe cardeal. Atualmente, até a cantora Anitta vai dividir palco com Francisco. Tudo está interligado!

Agradecemos ao leitor que nos enviou as informações acima. Esperamos que essa injustiça não prevaleça e os fiéis possam ser atendidos neste seu pedido tão piedoso: poderem participar da Santa Missa Tridentina. Deus tenha misericórdia da sua Igreja.

25 setembro, 2021

Libera geral.

Por Jerônimo Lourenço – FratresInUnum.com, 25 de setembro de 2021: Em meados da década de 1990, a apresentadora Xuxa Meneghel reinava absoluta nas tardes de sábado da Rede Globo, com o seu programa homônimo Planeta Xuxa. Auxiliada por suas paquitas, Xuxa animava a plateia alvoroçada ao som de Libera Geral, uma canção bem sugestiva para um programa que foi responsável por introduzir o funk no Brasil.

Quase trinta anos depois, o clima na Igreja Católica se assemelha muito ao das tardes de sábado da Globo daquela época, como se a nave de Xuxa tivesse abduzido o Corpo de Cristo e o levado para o “planeta” dela. De fato, por toda parte, seja no ambão das Missas seja nas pastorais, não se ouve outra coisa senão: “Libera geral”. 

Libera a comunhão para pecadores públicos, libera o celibato, libera o casamento gay, libera o sincretismo, libera o paganismo, libera a camisinha, libera a maconha, libera o aborto, libera a ordenação de mulheres… A lista é exaustiva embora a criatividade não tenha fim. Para justificar tais pedidos, usa-se a chamada “abordagem pastoral positiva e misericordiosa do Vaticano II”. Por isso, quem apresenta objeções a essas patifarias é rotulado de “rígido”, “pervertido” e “obreiro do demônio”.

Acontece que o Povo de Deus não é burro e existe uma coisa chamada sensus fidei fidelium, do qual os leigos participam ativamente. Estes são capazes de reconhecer quando uma pregação destoa dos ensinamentos de Cristo, ainda que não consigam formular a própria perplexidade com a precisão teológica de um doutor. Basta pensar nos muitos leigos da França, por exemplo, que se recusaram, durante a Revolução, a ouvir os sermões de qualquer padre juramentado. Ou, então, para não ir tão longe, nos fiéis que acham esquisito o fato de o sacerdote não mais se ajoelhar diante da Eucaristia. Como advertiu Nosso Senhor, as ovelhas conhecem a voz do seu pastor.

É por isso que, hoje, esse pedido de liberação do pecado chega aos ouvidos do povo com um verniz pastoral sofisticado e falsamente amoroso. Doura-se o veneno para ludibriar a vítima, enquanto os fiéis ao depósito da fé vão sendo sumariamente calados e jogados ao ostracismo como se fossem leprosos. A verdade precisa ser sufocada para a mentira prevalecer.

Dada a situação, podemos até acreditar por algum tempo que a verdadeira Igreja de Cristo desapareceu e em seu lugar colocaram uma imitação barata, à imagem e semelhança daqueles que a projetaram. A nova Igreja é horizontal, é do homem, da mulher, do trans, do não-binário, atendendo ao gosto de todos; ela está aberta a todas as inclinações, de modo que ninguém precisa mais daquele estilo de catolicismo engessado, próprio do passado. Somente uns poucos saudosistas deveriam querer sair do compasso. Mas as coisas precisam seguir seu curso, imaginam, precisam caminhar com o bonde da história, sob pena de pecado contra o Espírito, que dizem ser de Deus.

A natureza humana, no entanto, facilmente se cansa do picadeiro. Naturalmente, as pessoas começam a pedir limites, regras, silêncio, orientação… E não se trata de medo da liberdade ou de renúncia à autonomia, mas de colocar o trem de volta ao trilho. Até para ser livre o homem precisa ser ordenado. 

Essa é a maravilha do fenômeno humano, que tão bem captou Machado de Assis em seu conto A Igreja do Diabo. Na história, Satanás funda a sua própria religião na qual os fiéis são livres para praticar todas as abominações imagináveis. Com isso, o tinhoso acredita que destruirá para sempre a religião do verdadeiro Deus, substituindo as santas virtudes pelos vícios deploráveis, prometendo “aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos”. Ele confessa que é o diabo, mas “para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas”.

A princípio, ele tem certo sucesso. Todavia, após alguns anos, o Diabo nota “que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes”. E essa descoberta o assombra profundamente, ao ponto que ele decide ir tirar satisfações com Deus:

Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:

 — Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Na mosca. O que os inimigos da Cruz não entendem é que, não importa quanto bem-estar haja numa sociedade, os homens sempre terão o coração inquieto em busca do verdadeiro Deus. Por isso, mesmo que seja oferecido a eles qualquer arremedo de religião, qualquer espiritualidade que vise dar alguma sensação de transcendência, eles sempre sentirão o apelo da graça os convidando para a grei do Senhor. Desse modo, enquanto as falsas religiões vão definhando dia após dia, a única Igreja de Cristo permanece intacta ao longo dos séculos, contra todas as hostes infernais. Assim foi com a apostasia de Juliano, com o anglicanismo de Henrique VIII e assim será também com esta nova religião, que querem nos empurrar goela abaixo.

Como saiu do ar o Planeta Xuxa, sem deixar saudades, esta Igreja do Diabo sairá de cena com suas paquitas, enquanto nas catacumbas os fiéis vão praticando, às escondidas, o antigo culto e as antigas virtudes, para delírio de quem pede para “liberar geral”, quando o que o povo quer mesmo é a santa clausura de um lugar piedoso para rezar e adorar ao Bom Deus. Depois disso, que vamos dizer? Se Deus é por nós, quem será contra nós?

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20 setembro, 2021

Traditionis custodes: os últimos cartuchos concilares?

Por Padre Claude Barthe | Tradução: Hélio Dias Vianna – FratresInUnum.com, 20 de setembro de 2021 – A não aceitação do Concílio Vaticano II centrou-se de forma concreta na recusa da reforma litúrgica, embora alguns frequentadores da antiga Missa afirmem sua adesão a intuições conciliares “bem interpretadas”. Em todo caso, a existência da liturgia tradicional é um fenômeno persistente e até mesmo crescente de não aceitação. Marginal? O papa Bergoglio, que deseja ser o papa da plena realização do Vaticano II, chegou a se convencer de que o fenômeno é tão importante que é necessário agir para erradicá-lo. Com isso, o que talvez seja marginal certamente se tornou central: a Missa Tridentina foi apontada como o mal a ser derrubado e os seminários treinando padres para celebrá-la, como cânceres a serem eliminados. E isso com precedência a tudo.

Um retorno à violência original da reforma litúrgica

A liturgia tradicional é, porém, novamente proscrita, como sob Paulo VI. A Carta que acompanha Traditionis Custodes explica sem ambiguidades o objetivo último do texto pontifício: garantir “que voltemos a uma forma de celebração unitária”, a nova liturgia. A decisão é brutal e peremptória: o Papa decide tanto o fim da Missa tradicional quanto do mundo tradicional, ao qual acusa — e somente a ele! de minar a unidade da Igreja.

O Vaticano II, cujo grande projeto uma abertura ao mundo moderno em sua modernidade para que a Igreja seja mais escutada pelos homens desta época — é uma espécie de ponto intermediário entre a ortodoxia tradicional e a heterodoxia (neste caso, um relativismo neomodernista). A adoção de algumas proposições ambíguas permite, por exemplo, afirmar que um cristão separado pode, enquanto tal, como separado, estar em certa comunhão com a Igreja: segundo a Unitatis redintegratio, Lutero, que pensava ter rompido com a Igreja do Papa, na realidade teria permanecido um católico “imperfeito” (UR 3).

O Papa Francisco, desde a sua eleição, avançou tanto quanto possível sobre esta linha vermelha: ele transmuta a colegialidade em sinodalidade, vai além de Nostra ætate e do Dia de Assis com a declaração de Abu Dhabi, mas tem o cuidado de não ultrapassar o limiar além do qual cairíamos ou cairíamos mais rapidamente nesse niilismo para onde já se inclinam as mais ousadas teologias progressistas. Como Paulo VI, ele permanece fiel ao celibato eclesiástico e ao sacerdócio masculino, mas contornando a disciplina tradicional por meio dos ministérios leigos que o Papa Montini havia aberto (instituição de ministros que exercem funções clericais sem serem clérigos, para chegar provavelmente ao ministério de diaconisas ou mesmo de presidente informal de uma Eucaristia), e confiando aos leigos, homens e mulheres, responsabilidades quase jurisdicionais (posições cada vez mais elevadas nos dicastérios romanos).

Em outras palavras, Francisco conserva o suficiente da instituição, mas continua a esvaziá-la de sua substância doutrinária. De acordo com sua expressão, ele derruba os muros:

  • A Humanæ vitæ e um conjunto de textos posteriores a esta encíclica preservaram a moral matrimonial da liberalização à qual o Concílio havia submetido a eclesiologia. A Amoris lætitia derrubou esse dique: quem vive em adultério público pode permanecer nele sem cometer pecado grave (AL 301).
  • [O motu proprio] Summorum Pontificum havia reconhecido um direito a este museu da Igreja de antes que é a antiga liturgia, com a catequese e os ofícios clericais relacionados com ela. A Traditionis custodes afastou essa tentativa de “retorno”: os novos livros litúrgicos são a única expressão da lex orandi do rito romano (TC, art. 1).

O fato é que o Papa e seus conselheiros correram grandes riscos ao adotarem essas disposições tão violentas quanto apressadas. Comentaristas perplexos falam da ignorância do papa latino-americano sobre o terreno eclesial ocidental; sublinham o descarte contundente da grande obra de Bento XVI; apontam o dedo para as contradições de um governo caótico, que esmaga o tradicionalismo “de dentro” ao mesmo tempo em que concede faculdades equivalentes a um semi-reconhecimento ao tradicionalismo “de fora”, ou seja, aos lefebvristas; finalmente, ficam surpresos ao ver que enquanto o fogo do cisma crepita na Alemanha e a heresia silenciosa se difunde em todos os lugares, uma prática litúrgica totalmente inocente seja tachada de cisma ou heresia.

Mas podemos supor que o Papa e sua comitiva tenham apenas um encolher de ombros diante dessas críticas. Para eles, a justificativa para o ataque repressivo é crucial: a Missa Tridentina cristaliza a existência de uma Igreja dentro da Igreja, já que representa uma lex orandi “anteconciliar” e, portanto, “anticonciliar”. Segundo eles, pode-se transigir com os excessos da Igreja alemã que, na pior das hipóteses, são demasiadamente conciliares, mas não se pode tolerar a velha liturgia que é anticonciliar.

O Vaticano II e tudo o que dele provém não pode ser discutido! De maneira muito característica, a Carta que acompanha Traditionis custodes infalibiliza o Concílio: se a reforma litúrgica provém do Vaticano II e este foi um “exercício solene de poder colegial”, duvidar que o Concílio se insere no dinamismo da Tradição é “duvidar do próprio Espírito Santo que guia a Igreja”.

Uma repressão que chega tarde demais

Só que estamos em 2021,  não em 1969, durante a promulgação arejada e alegre do novo missal, nem em 1985, época do livro Relatório Ratzinger e da Assembleia Sinodal, que fez um balanço já preocupado dos frutos do Vaticano II, nem mesmo em 2005, onde o surgimento da expressão “hermenêutica da reforma em continuidade” se assemelhava fortemente a uma laboriosa tentativa de recomposição de uma realidade que cada vez mais escapava. Hoje é tarde demais.

A instituição eclesial está como que letárgica, a missão extinta e, pelo menos no Ocidente, a visibilidade em número de sacerdotes e fiéis evanescida. Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, todo o contrário de um conservador, em seu último livro La Chiesa brucia. Crisis e futuro del cristianesimo (A Igreja em chamas. Crise e o futuro do cristianismo) [1], considera o incêndio de Notre-Dame de Paris como uma parábola da situação do catolicismo e analisa seu colapso na Europa, país por país. Seu discurso é o característico dos bergoglianos desapontados, que se tornam torcedores desapontados do Concílio.

Não surpreende que autores muito mais desligados do que ele do aparato eclesiástico deem gritos de alarme e não hesitem em dizer de onde vem o mal. Como Jean-Marie Rouart, membro da Academia Francesa, em Este país de homens sem Deus [2], para quem a batalha da sociedade ocidental perante o Islã está perdida de antemão, quando apenas um “sobressalto cristão” poderia nos salvar, ou seja, um retrocesso radical: a Igreja escreve ele “deve proceder ao equivalente a uma Contra-Reforma, retornar a esta reforma cristã que lhe permitiu no século XVII enfrentar vitoriosamente um protestantismo que a questionou” [3]. Ou Patrick Buisson em O fim de um mundo[4], que dedica duas partes de seu grande livro à situação do catolicismo: “O crash da fé” e “O sagrado massacrado”. “De uma forma desconcertante e brutal”, escreve ele, “o rito tridentino, que foi o rito oficial da Igreja latina durante quatro séculos, foi, da noite para o dia, considerado indesejável, sua celebração proscrita e seus fiéis expulsos. [5]”. Saímos do catolicismo para ir “para a religião conciliar”.

Além disso, em 2021 o equilíbrio de forças é muito diferente daquele dos anos 1970 entre aqueles que “fizeram o Concílio” e aqueles que sofreram suas consequências. Andrea Riccardi, como todos os demais, faz esta observação realista: “O tradicionalismo é uma realidade de certa importância na Igreja, tanto na organização como nos recursos”. O mundo tradicional pode ser minoritário (na França, de 8 a 10% dos praticantes), mas está crescendo em todos os lugares, especialmente nos Estados Unidos. É jovem, fecundo de vocações — pelo menos em comparação à fecundidade das paróquias —, capaz de assegurar a transmissão catequética e é atraente para o jovem clero e para os seminaristas diocesanos.

Aliás, foi isso que o Papa Bergoglio, vindo da Argentina, demorou a compreender, até que os bispos italianos e os prelados da Cúria puseram diante de seus olhos o aumento, para eles insuportável, do mundo tradicional, tanto mais visível quanto ocorre no meio de um colapso geral. Era necessário, portanto, aplicar os “remédios” apropriados, os mesmos que foram administrados no florescente seminário de San Rafael, na Argentina, na Congregação dos Franciscanos da Imaculada, da diocese de Albenga, na Itália, na diocese de San Luís na Argentina etc..

Para uma saída “à frente” da crise

Porém, a Igreja conciliar não sai revitalizada e sua obra missionária continua a definhar. Uma bateria de documentos tratou da missão: Ad Gentes, o decreto conciliar de 1965; a exortação Evangelii nuntiandi, de 1975; a encíclica Redemptoris missio, de 1990; o documento Diálogo e Anúncio, de 1991; as exortações apostólicas que repetem incansavelmente o tema da nova evangelização, Ecclesia in Africa, de 1995, Ecclesia in America, de 1999, Ecclesia in Asia, de 1999, Ecclesia in Oceania, de 2001, Ecclesia in Europa, de 2003. Criou-se um Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização. Os colóquios se multiplicaram, falando da missão que deve articular-se no diálogo; da evangelização que não deve ser proselitismo etc. Nunca se falou tanto em missão, nunca houve tão poucas conversões.

François Mitterrand disse, sobre a redução do desemprego, “tentamos de tudo”. Da mesma forma, para salvar a Igreja depois do Vaticano II, a tentativa representada pela eleição do Papa Bergoglio a de maximizar o Concílio , fracassou; como finalmente fracassada deve-se admitir a tentativa representada pela eleição do Papa Ratzinger, a de uma moderação do Concílio. Então, um passo para trás? Sim, mas como uma saída “para frente”.

São numerosos, incluindo os apoiadores de ontem do Papa Bergoglio, os que consideram a repressão brutal do mundo tradicional indefensável, já que motivada, em última análise, pela única razão de que é muito vivo. Podemos imaginar que a Traditionis custodes seja colocada entre parênteses em um pontificado vindouro? Certamente, e cremos que mais ainda: pode-se imaginar que seja dada liberdade ao que se convencionou chamar de “forças vivas” na Igreja. Quanto a essa força essencial dos fiéis atraídos pela liturgia de sempre visto que ela representa a tradição secular , pode-se razoavelmente imaginar a negociação de um compromisso que seria mais favorável à Igreja do que foi o Summorum Pontificum. Devemos almejar a suspensão de toda supervisão, em outras palavras, uma liberdade franca para a velha liturgia e para tudo o que vem com ela. E isso, em nome do bom senso. Da mesma forma que certo número de bispos no mundo permitiu que todas essas “forças vivas” se desenvolvessem em suas dioceses, com comunidades, fundações e obras que dão frutos missionários, também em nível da Igreja universal deverá chegar o tempo de se conceder liberdade para tudo aquilo “que funciona”.

O Summorum Pontificum pode ser analisado como uma tentativa de coexistência entre os católicos que não aceitam a liturgia do Vaticano II e aqueles que promovem uma aplicação moderada do Concílio. Uma nova tentativa poderia ser estabelecida com uma corrente conciliar aparentemente mais “liberal” do que a de Bento XVI, mas que agora se dá conta do fracasso irreparável da utopia abraçada há cinquenta anos.

 [1] Tempi nuovi, 2021.

[2] Livros, 2021.

[3] Op. Cit, p. 64

[4] Albin Michel, 2021.

[5] Op. Cit., “La trivialiation du sacré”, p. 124

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