22 junho, 2017

O Amor Divino Encarnado. No Brasil.

Por Belém, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, o que se viu, no pouco mais de uma semana em que o Cardeal Raymond Leo Burke esteve no país, foi uma multidão de fiéis abarrotando auditórios e igrejas, ávida por ouvir o purpurado americano. Apesar do desdém de boa parte de seus irmãos no episcopado por onde esteve, a passagem do Cardeal Burke pelo Brasil foi um estrondoso sucesso. Sobre isso tudo, conversamos com Sua Eminência:

Cardeal Burke, primeiramente, gostaríamos de agradecer a sua atenção para com nosso blog. FratresInUnum já traduziu para o português inúmeros discursos e entrevistas de Vossa Eminência e nos sentimos muito honrados em colaborar para tornar a sua defesa da Fé e Moral Católica conhecida em nosso país. 

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“As ovelhas seguem-no, pois lhe conhecem a voz” (Jo, 10, 4-5). Cardeal Raymond Leo Burke: afável e disponível para com todos.

FratresInUnum: Vossa Eminência está visitando o Brasil para a publicação de seu livro “O Amor Divino Encarnado”. O que desejou abordar em sua obra?

Cardeal Burke: Desejei abordar a nossa Fé na Eucaristia como o encontro com o Senhor ressuscitado que vem a nós no Santíssimo Sacramento, trazendo o céu à terra, dando-nos os dons do Espírito Santo. Em nossos dias, por conta dos abusos litúrgicos, gosto de enfatizar a atenção à natureza sagrada da Eucaristia. A Fé Eucarística sofreu enormemente em minha própria terra natal, nos Estados Unidos, onde cerca de metade dos católicos não acreditam mais na Presença Real de Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento — este é o centro da Fé Católica: quando não se crê mais nesta verdade, não se é mais Católico.

Assim, eu quis, usando dois documentos de papas recentes, a Carta Encíclica do Papa São João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, e a Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Papa Bento XVI, Sacramentum Caritatis, oferecer uma séria reflexão que ajudará as pessoas a se renovarem em seu conhecimento sobre o Senhor Eucarístico e também em seu amor por Ele.

No mês que vem, o motu proprio Summorum Pontificum completa 10 anos. Qual a importância deste documento para o aumento do amor à Sagrada Eucaristia e como Vossa Eminência avalia a sua recepção e aplicação?

O documento é importantíssimo, pois após o Concílio Vaticano II se difundiu a ideia de uma nova Liturgia, em outras palavras, de uma Sagrada Liturgia completamente diferente daquela que a Igreja vinha celebrando há séculos. Por exemplo, a forma da Santa Missa permaneceu praticamente imutável desde os tempos de São Gregório Magno. Então, o que aconteceu foi que o rito da Missa, primeiramente, foi drasticamente atenuado, muitas de suas riquezas foram eliminadas, e o que tornou a situação ainda pior foram as experiências litúrgicas do rito.

E, assim, com tantas experiências mundanas, em que o homem é colocado no centro, perdeu-se o sentido de que a Missa é ação do próprio Cristo. É Cristo que age na Santíssima Eucaristia para fazer presente sacramentalmente o Seu Sacrifício no Calvário. Assim, o Papa Bento XVI expressou de maneira muito clara, em sua carta aos bispos por ocasião da promulgação do motu proprio Summorum Pontificum, que era sua esperança de que a celebração das duas formas do único Rito Romano restauraria o sentido do sagrado na Sagrada Liturgia. Parece estranho dizer, mas, desde a promulgação do motu proprio, houve uma certa resistência da parte de alguns bispos e padres, porém, da parte de outros bispos, padres e bravos fiéis, houve um grande sentimento de alegria por terem restaurada agora a bela forma da Missa tal como foi conhecida pelos séculos. E eu vejo, por onde vou para celebrar a forma extraordinária da Missa, que há sempre um grande número de fiéis, dentre eles muitos jovens e jovens famílias, e isso me mostra que a forma extraordinária do Rito Romano é importantíssima para comunicar o dom incomparável que é a Sagrada Eucaristia. Às vezes, ouvi dizer: “Ah, teremos a forma extraordinária somente até todos esses velhos morrerem!”. Sim, há pessoas mais velhas, como eu, que amam a forma extraordinária da Missa, mas há muitos, muitos jovens, que, ao contrário de mim, nunca a conheceram quando crianças, mas vieram a conhecê-la agora e são muito, muito ligados a ela.

Neste centenário de Fátima, de que forma a mensagem de Nossa Senhora se relaciona com a Sagrada Eucaristia e os temas tratados em seu livro? 

Ela se relaciona diretamente, pois Nossa Senhora trata fundamentalmente da apostasia dos nossos tempos, representada, primeiramente, no comunismo ateu, filosofia que nega a existência de Deus e propõe uma relação entre nós e o mundo que não respeita a ordem desejada por Deus, e também na apostasia que traz para Igreja uma perspectiva bastante mundana, e que começa a afetar os pastores da Igreja. Especialmente, no terceiro segredo, Nossa Senhora aborda essa apostasia, em particular a falha dos bispos em ensinar a Fé de forma concreta e em defendê-la.

burke entrevista 2Para chegar exatamente ao ponto que você está levantando, a Fé abordada por Nossa Senhora é fundamentalmente uma Fé Eucarística, vinculada à realidade da presença de Cristo conosco e com a Igreja e à necessidade de sermos obedientes a Cristo em todas as coisas. E isso muda completamente a perspectiva do católico leigo, e também muda a perspectiva de padres e bispos no entendimento de que todos estamos obedecendo a Cristo e construindo o reino de Deus na Terra, e restaurando todas as coisas em Cristo.

Nossa Senhora em Fátima nos propõe um profundo programa de renovação espiritual e de uma vida mais intensa em Cristo, primeiramente, pela penitência, a importância de se praticar a penitência em nossas vidas, a importância da devoção dos primeiros sábados em reparação às ofensas feitas a Nosso Senhor, em especial no Santíssimo Sacramento, ofensas ao Sagrado Coração de onde provêm todas as graças para a Igreja.

Assim sendo, vejo meu livro como estando diretamente a serviço da mensagem de Nossa Senhora para os nossos tempos. Nós precisamos, inclusive a preço do sofrimento, buscar uma maior santidade em nossas vidas, e essa santidade provém fundamentalmente da Comunhão com Nosso Senhor na Sagrada Eucaristia.

É a sua primeira visita ao nosso país? Qual era a expectativa de Vossa Eminência antes de sua viagem e quais eram suas referências sobre o catolicismo no Brasil?

Sim, essa é minha primeira visita ao Brasil. Eu tinha uma grande expectativa porque, primeiramente, o Brasil é um país muito importante, não só no mundo, mas para a Igreja e a história do catolicismo mundial, e o Brasil é um lugar lindo e inspirador – basta olhar para todas as belíssimas igrejas aqui, e belas imagens e objetos sagrados, para perceber quão profundamente a Fé Católica está presente no Brasil. Portanto, estava esperando essa visita para me encontrar pessoalmente com a Igreja daqui. Eu a conheci indiretamente, pois ao longo dos anos tive contato com muitos seminaristas e padres brasileiros em Roma, e sempre percebi neles uma profunda Fé Católica e também uma grande alegria e entusiasmo em relação a esta mesma Fé, e agora eu vi pessoalmente, através das pessoas que participaram das Missas e dos eventos de lançamento do livro, que estão bastante comprometidas e que amam muito a Nosso Senhor e também a sua Igreja. Isso foi muito edificante para mim.

Eu sei que a Igreja aqui, como em todas as outras partes do mundo, sofreu bastante com a secularização que se originou de uma falsa interpretação do Concilio Vaticano II, que Bento XVI chama de interpretação da descontinuidade ou da ruptura, e sei que isso causou um grande sofrimento. Entretanto, detecto aqui, e acredito que isso seja um forte movimento, especialmente porque eu o vejo nos jovens, o desejo de restaurar a integridade da Fé Católica, da Liturgia Católica e da Disciplina Católica.

E agora, ao fim de sua viagem, o que mais chamou a atenção de Vossa Eminência?

Como disse, vim principalmente para fazer o lançamento do livro, mas nesses eventos tive contato com muitas pessoas e percebi essa grande sede de ouvir a Fé proclamada em toda sua riqueza. Fiéis que demonstram querer ouvir também a parte difícil da mensagem, e não simplesmente ouvir que tudo está bem. Principalmente, diante das tantas dificuldades que enfrentamos hoje em dia e do estado do mundo ateu, quando, inclusive na Igreja, ouve-se ideias confusas e às vezes erradas, vejo que as pessoas querem ouvir o que realmente Nosso Senhor nos ensina através da Igreja e qual deve ser a nossa atitude decorrente desse ensinamento.

Hoje em dia, nós, fiéis Católicos, muito frequentemente nos sentimos isolados, não só na sociedade, mas também na Igreja. Vossa Eminência poderia deixar uma palavra de confiança e esperança a bispos, padres, religiosos e leigos comprometidos em manter a Fé Católica viva em nossa época?

O que deve ser central para nós, mais importante para nós, é a nossa relação com Nosso Senhor Jesus Cristo que está vivo na Igreja, como Ele prometeu que estaria conosco até o final dos tempos. E nós devemos manter essa relação especialmente através da Sagrada Eucaristia e das nossas orações diárias, da nossa devoção, tanto ao Sagrado Coração de Jesus, como pela reza do Santo Rosário, que eu tinha intenção de mencionar anteriormente, esta grande devoção e poderosa oração incentivada por Nossa Senhora em Fátima. E, através de todas essas devoções e práticas, nós passaremos a perceber melhor e mais certamente a presença de Nosso Senhor em nossas vidas e responderemos com amor. Então, poderemos suportar qualquer isolamento, ridicularização e até a perseguição pela nossa fidelidade a Cristo, e abraçar isso alegremente por amor a Ele.

Isso tudo, é claro, é o maior ato de caridade que podemos oferecer aos nossos irmãos e irmãs, tanto na Igreja quanto no mundo: um forte testemunho da Verdade e do amor que conhecemos em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Muito obrigado, Eminência!

* * *

A você que esteve presente, ou ao menos desejou estar, em algum dos eventos com o Cardeal Burke no Brasil: escreva, na caixa de comentários, o seu relato, o seu agradecimento à Sua Eminência. Faremos chegar a ele, em Roma, em um buquê espiritual junto com nossas orações.

22 junho, 2017

Procura-se Francisco.

Por FratresInUnum.com | Com informações de Edward Pentin, National Catholic Register, 21 de junho de 2017 – Pela segunda vez consecutiva, parece que o Papa Francisco não se reunirá com os cardeais antes do consistório da próxima quarta-feira para a criação de cinco novos cardeais.

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A sala de imprensa da Santa Sé não respondeu às perguntas sobre se o encontro aconteceria, porém, fontes afirmam que o Papa poderia encontrar alguns cardeais individualmente.

No último consistório, em novembro passado, acredita-se que o Papa preferiu evitar um confronto com os quatro cardeais do dubia, que supostamente planejavam reapresentar o dubia no encontro, ou ao menos abordar o assunto.

Ciente de que os cardeais escreveram novamente há alguns meses, pedindo por uma audiência, e não tendo respondido, o Papa pode ter decidido novamente evitar qualquer encontro, embora, assim como ocorreu com Bento XVI em 2012, possa ser devido ao pequeno número de novos cardeais.

* * *

FratresInUnum.com pôde confirmar que a carta datada de 25 de abril de 2017, escrita pelo Cardeal Carlo Caffarra em nome dos 4 cardeais signatários do dubia, foi entregue em mãos ao Papa Francisco no dia 6 de maio de 2017. Não havendo, mais uma vez, qualquer resposta, os cardeais se viram, novamente, obrigados a tornar público o completo desprezo de Francisco por seus questionamentos e pedidos.

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21 junho, 2017

Bonzinho ou durão? As duas faces do Papa Francisco.

IHU – Para a grande maioria, o Papa Francisco é o rosto da compaixão do catolicismo hoje.

Ele resgatou refugiados, abriu as portas do Vaticano aos sem-teto e disse aos católicos que não há pecado que Deus não perdoe.

Mas há algo mais que tem chamado a atenção para o pontífice argentino nos últimos dias: a disposição de mostrar a que veio e estabelecer as regras.

A reportagem é de Christopher Lamb, publicada por Religion News Service, 19-06-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Debaixo da face de compaixão do Papa, há um lado de aço, que ele lança mão principalmente em relação a sacerdotes, bispos ou cardeais que ele sente que estão prejudicando a missão da Igreja.

Isso ficou evidente no início deste mês, quando o Papa repreendeu duramente os sacerdotes da Diocese de Ahiara na Nigéria. Os sacerdotes se recusaram a aceitar a nomeação de 2012 de um bispo de outro clã.

Ao encontrar-se com o clero de Ahiara, ele ordenou que cada um dos sacerdotes se desculpasse por escrito, prometesse “total obediência” ao papado e aceitasse quem quer que fosse designado para a liderança a diocese.

Para completar, ele disse aos sacerdotes que se eles não enviarem a carta dentro de 30 dias, eles serão automaticamente suspensos. A disciplina papal não tem como ser muito mais rígida que isso.

O Papa ficou furioso porque as diferenças entre clãs estavam sendo colocadas antes da unidade e da missão da Igreja. Se há uma coisa que Francisco realmente não gosta, é que a Igreja seja usada para agendas políticas, sectárias ou tribais.

“Considerar Francisco ‘bonzinho’ é um ledo engano”, disse um dos seus assessores. O Papa, ele explicou, é uma pessoa “radical” que tem uma missão.

Um dia depois, em 9 de junho, Francisco foi duro novamente. O Vaticano anunciou que o Papa havia aceitado a saída do arcebispo Alfredo Zecca de Tucumán, na Argentina, por razões de saúde.

A carta afirmava que, aos 68 anos, ele não se aposentaria antes do previsto simplesmente, mas permaneceria como arcebispo “titular”, o que significa que, tecnicamente, ele ainda tem que servir.

Isso foi alguma punição? Zecca teria chateado o Papa por não ter defendido um de seus padres, Juan Viroche, uma voz forte contra traficantes locais.

Em outubro, Viroche foi encontrado enforcado, mas Zecca resistiu aos pedidos de que fosse colocada uma placa em sua homenagem na paróquia de Viroche. Pelo contrário, ele acreditou na versão oficial de que Viroche havia se suicidado. Muitos moradores locais suspeitam que o suicídio tenha sido encenado.

Em ambas as ocasiões percebe-se que Francisco tem uma verdadeira aversão à hipocrisia. O Papa já criticou os cristãos que levam uma “vida dupla” várias vezes, argumentando que é melhor ser ateu do que ser um “católico hipócrita”, que condena os outros, mas não pratica o que prega.

Ao contrário, o Papa quer uma Igreja inclusiva. Ele quer que os líderes católicos sejam pacifistas em suas sociedades e possam “atacar as feridas” da divisão. Ver um bispo fazendo o contrário ferveu seu sangue.

Há 18 meses, durante uma visita à África, Francisco fez um apelo no Quênia contra o “espírito do mal” que “nos leva à falta de unidade”. Em observações não escritas durante uma reunião com jovens em Nairobi, o Papa pediu que eles dessem as mãos como “sinal contra o mal do tribalismo”.

O Papa também demonstrou seu lado severo ao agir contra os Cavaleiros de Malta, uma antiga ordem cavalheirista católica, depois de seu então líder, Matthew Festing, ser acusado de despedir indevidamente um assistente idoso em um conflito sobre a distribuição de preservativos em projetos de saúde para os pobres.

Quando o Papa anunciou uma investigação sobre o assunto, a disputa fervilhou em um guerra fria entre Francisco e os que se opuseram à direção de seu papado, com o cardeal Raymond Burke – um dos críticos mais ferozes do Papa, que tinha sido considerado a ligação do Vaticano com a ordem -, com um papel fundamental na saga. O Papa venceu.

Em relação a repreensões, vale a pena lembrar que Francisco é um jesuíta, membro de uma ordem religiosa fundada pelo ex-soldado Santo Inácio de Loyola, que incorporou princípios militares em sua governança interna. Uma delas é a obediência.

Relativamente jovem, aos 36 anos, Jorge Bergoglio liderou os jesuítas na Argentina, período em que ele mais tarde confessou ter cometido erros devido a uma “maneira autoritária e rápida de tomar decisões”.

Embora muito tenha mudado desde então, parte dele ainda desempenha o papel de superior religioso.

Esta semana, vazou uma carta que revelava que o Papa quer que os cardeais que moram em Roma o informem quando saírem da cidade e para onde vão.

Escrita pelo cardeal Angelo Sodano, decano do Colégio dos Cardeais, a carta pede que os prelados reavivem esta “nobre tradição” de informar o papado e o Vaticano sobre sua movimentação, principalmente por longos períodos.

Tal prática seria rotina para qualquer padre ou religioso morando em um mosteiro, convento ou seminário, mas mostra que o Papa quer responsabilidade de seus conselheiros mais próximos. Também é taticamente inteligente, pois garante que o Papa saiba se algum cardeal sair para alguma grande palestra ou fala que possa ser crítica para seu papado.

Durante todo o seu papado, Francisco procurou governar a Igreja colegialmente, criando um corpo consultivo de cardeais que se reuniu em Roma pela vigésima vez dessa semana.

Eles discutiram como delegar mais poder às igrejas locais, e o Vaticano também anunciou que queria ouvir a opinião dos jovens antes da grande reunião da Igreja para os jovens que acontecerá em 2018.

Seus defensores argumentam que o Papa precisa ser duro para implementar as reformas da Igreja, pois ele está enfrentando oposições internas.

A ironia, no entanto, é que para trazer o lado da Igreja mais misericordioso e centrado nas pessoas que ele tanto deseja, Francisco está tendo que exercer uma autoridade firme no processo.

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19 junho, 2017

Importante: Cardeais autores de “dubia” pedem audiência ao Papa.

“A nossa consciência força-nos”
Beatíssimo Padre,

é com uma certa trepidação que me dirijo a Vossa Santidade nestes dias do tempo pascal. Faço-o em nome dos Em.mos Senhores Cardeais Walter Brandmüller, Raymond L. Burke, Joachim Meisner, e em meu próprio nome.

Desejamos antes de mais renovar a nossa absoluta dedicação e o nosso amor incondicionado à Cátedra de Pedro e à Vossa augusta pessoa, na qual reconhecemos o Sucessor de Pedro e o Vicário de Jesus: o “doce Cristo na terra”, como gostava de dizer Sta. Catarina de Sena. Não é a nossa em absoluto aquela posição de quantos consideram vacante a Sede de Pedro, nem a de quem pretende atribuir também a outros a responsabilidade indivisível do “munus” petrino. Move-nos tão-só a consciência da responsabilidade grave que provém do “munus” cardinalício: ser conselheiros do Sucessor de Pedro no seu ministério soberano; e do Sacramento do Episcopado, que “nos constituiu como bispos para apascentar a Igreja, por Ele adquirida com o seu próprio sangue” (Act 20, 28).

A 19 de Setembro de 2016, entregámos a Vossa Santidade e à Congregação para a Doutrina da Fé cinco “dubia”, rogando-Lhe que dirimisse incertezas e fizesse clareza sobre alguns pontos da Exortação Apostólica pós-sinodal “Amoris Laetitia”.

Não tendo recebido qualquer resposta da parte de Vossa Santidade, chegámos a decisão de, respeitosa e humildemente, pedir-Lhe Audiência, conjunta, se assim Lhe aprouver. Juntamos, como é praxe, uma Folha de Audiência em que expomos os dois pontos que desejaríamos poder tratar com Vossa Santidade.

Beatíssimo Padre,

passou já um ano desde a publicação de “Amoris Laetitia”. Neste período foram dadas em público interpretações de alguns passos objectivamente ambíguos da Exortação pós-sinodal, não divergentes do, mas contrárias ao permanente Magistério da Igreja. Conquanto o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé tenha declarado mais de uma vez que a doutrina da Igreja não mudou, apareceram numerosas declarações de bispos, cardeais e até mesmo de conferências episcopais, que aprovam o que o Magistério da Igreja jamais aprovou. Não apenas o acesso à Santa Eucaristia daqueles que objectiva e publicamente vivem numa situação de pecado grave, e pretendem nela continuar, mas também uma concepção da consciência moral contrária à Tradição da Igreja. Sucede assim – oh, e quão doloroso é vê-lo! – que o que é pecado na Polónia é bom na Alemanha, o que é proibido na Arquidiocese de Filadélfia é lícito em Malta, e assim por diante. Vem-nos à mente a amarga constatação de B. Pascal: “Justiça do lado de cá dos Pirenéus, injustiça do lado de lá; justiça na margem esquerda do rio, injustiça na margem direita”.

Numerosos leigos competentes, que amam profundamente a Igreja e são solidamente leais à Sé Apostólica, dirigiram-se aos seus Pastores e a Vossa Santidade, para serem confirmados na Santa Doutrina no que respeita aos três sacramentos do Matrimónio, da Confissão e da Eucaristia. Aliás, nestes últimos dias, em Roma, seis leigos provenientes de todos os Continentes propuseram um Seminário de estudo que contou com grande assistência, e que deu pelo título significativo de: “Fazer clareza”.

Diante de tão grave situação, em que muitas comunidades cristãs se estão a dividir, sentimos o peso da nossa responsabilidade, e a nossa consciência força-nos a pedir humilde e respeitosamente Audiência.

Apraza a Vossa Santidade recordar-se de nós nas Vossas orações, como nós Vos asseguramos que o faremos nas nossas; e pedimos o dom da Vossa Bênção Apostólica.

Carlo Card. Caffarra

Roma, 25 de Abril de 2017
Festa de São Marcos Evangelista

*

FOLHA DE AUDIÊNCIA

1. Pedido de clarificação dos cinco pontos indicados nos “dubia”; razões para tal pedido.

2. Situação de confusão e desorientação, sobretudo entre os pastores de almas, “in primis” os párocos

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19 junho, 2017

“A Rússia será católica” (II).

Leia antes: A Rússia será católica.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 08-06-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com“A Rússia será católica”.  O sonho de tantos convertidos russos do século XIX,  como o padre Šuvalov, constituiu também o título de um livro que fez sensação em sua época: La Russie sera-t-elle catholique? (Paris, 1856),  do padre Ivan Gagarin, da Companhia de Jesus.

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Ivan Sergeevič Gagarin nasceu em Moscou no dia 20 de julho de 1814, de uma ilustre casa principesca,  descendente dos príncipes de Kiev. Foi adido junto à legação russa em Munique, e depois na embaixada de Paris, onde participou da vida intelectual francesa, frequentando o salão de Sophie Swetchine. Sob a influência desta e de autores como Pëtr Jakovlevič Čaadaev (1794-1856), amadureceu sua conversão ao catolicismo. Em 7 de abril de 1842 abjurou a religião ortodoxa e abraçou a fé católica pelas mãos do padre François Xavier de Ravignan (1795-1858), que já obtivera a conversão do conde Šuvalov. Ivan Gagarin renunciava, aos 28 anos, não só a um brilhante futuro político e diplomático, mas à esperança de poder retornar à sua pátria. Com efeito, na Rússia dos Czares a conversão ao catolicismo constituía um delito comparável à deserção ou ao parricídio. O abandono da ortodoxia por uma outra religião, ainda que cristã, era punido  com a perda de todos os bens, dos direitos civis e dos título nobiliárquicos, e previa a reclusão perpétua em um mosteiro ou o exílio na Sibéria.

Um ano depois, Ivan, tornado Jean Xavier Gagarin, solicitou sua admissão na Companhia de Jesus, sendo admitido no noviciado de Saint Acheul. Iniciou então um período de longos estudos, que concluíram com a ordenação sacerdotal e a profissão dos votos religiosos na Ordem de Santo Inácio de Loyola. Para o padre Gagarin, no qual um zelo ardente se unia a uma viva inteligência e a uma educação de grande senhor, iniciou-se uma nova vida.

Durante a guerra da Crimeia, participou com o célebre matemático Augustin Cauchy (1789-1857) na fundação da obra da École d’Orient.  E no final de 1856 fundou a revista quadrimestral Études de théologie, de philosophie et d’histoire, que se tornou a célebre revista Études. Contudo, quando em 1862 a publicação foi retirada dos jesuítas franceses, ela sofreu uma radical transformação. Quando se iniciou o Concílio Vaticano I, Études, diferentemente de sua coirmã romana Civiltà Cattolica, tomou uma  posição filoliberal que conservou no século seguinte.

O governo russo, que se propunha extirpar o catolicismo das províncias ocidentais do Império, considerou o príncipe Gagarin como um inimigo a ser eliminado. Ele foi acusado de ter escrito cartas anônimas ao poeta Aleksandr Sergeevič Puškin (1799-1837) que o teriam exasperado, levando-o a um duelo no qual teria morrido. Recentemente, a jovem historiadora polonesa Wiktoria Sliwowska demonstrou que se tratava de uma campanha de calúnias organizada pela Terceira Seção da Chancelaria Imperial (L’Affaire Gagarine, Institutum Historicum Societatis Iesu, Roma, 2014, pp. 31-72).

O livro La Russie sera-t-elle catholique? foi publicado em 1856. Nele o padre Gagarin se refere à solene bula de Bento XIV Allatae sunt, de 26 de julho de 1755, em que o Santo Padre,  manifestando “a benevolência com a qual a Sé Apostólica abraça os orientais”, “ordena que se conservem seus antigos ritos que não se oponham à Religião Católica nem à honestidade; nem se peça aos Cismáticos que retornam à Unidade Católica para abandonarem seus Ritos, mas apenas que abjurem a heresia, desejando fortemente que seus diferentes povos sejam conservados, não destruídos, e que todos (para dizer muitas coisas com poucas palavras) sejam Católicos, não latinos”. 

Para reconduzir os povos eslavos à unidade – comenta o padre Gagarin –, é preciso respeitar os ritos orientais, pedir a abjuração dos erros contrários à fé católica, mas, sobretudo, combater a concepção político-religiosa dos ortodoxos. Para o jesuíta russo, o cisma ortodoxo é principalmente o resultado do “bizantinismo”,  um conceito com o qual eles entendem a diferença das relações entre a Igreja e Estado existentes no mundo bizantino e no ocidental. Para Bizâncio, não há  distinção entre os dois poderes. A Igreja é  de fato subordinada ao Imperador, que a dirige enquanto delegado de Deus no campo eclesiástico e no secular. Os autocratas russos, como os imperadores bizantinos, veem na Igreja e na religião um meio do qual servir-se para garantir e dilatar a unidade política. Este calamitoso sistema se funda em três pilares: a religião ortodoxa, a autocracia e o princípio da nacionalidade, sob cujo signo penetraram na Rússia as ideias de Hegel e dos filósofos alemães. Aquilo que se esconde sob as palavras pomposas de ortodoxia, autocracia e nacionalidade, “não é senão a formulação oriental da ideia revolucionária do século XIX” (p. 74).

Gagarin entrevê a ferocidade com a qual as ideias revolucionárias seriam aplicadas em seu país. As páginas de Proudhon e Mazzini parecem moderadas a seus olhos, se comparadas à  violência dos agitadores russos. “É uma comparação que pode servir para medir a diferença que há entre o princípio revolucionário como ele é entendido na Europa Ocidental e como seria posto em prática na Rússia” (pp. 70-71).  Em  uma profética página, o padre Gagarin escreve:

“Quanto mais se desce ao fundo das coisas, mais se é levado a concluir que a única luta verdadeira é entre o Catolicismo e a Revolução. Quando em 1848 o vulcão revolucionário aterrorizava o mundo com seus rugidos e fazia tremer a sociedade abalada em seus fundamentos, o partido que se dedicou a defender a ordem social e a combater a Revolução não hesitou em inscrever em sua bandeira Religião, Propriedade, Família; ele não hesitou em enviar um exército para restabelecer em sua sede o Vigário de Jesus Cristo, que a Revolução havia forçado a tomar o caminho do exílio. Esse partido tinha perfeitamente razão; está-se em presença de apenas dois princípios: o princípio revolucionário, que é essencialmente anti-católico, e o princípio católico, que é essencialmente anti-revolucionário.  Apesar de todas as  aparências contrárias, só há no mundo dois partidos e duas bandeiras. De um lado, a Igreja Católica arvora o estandarte da cruz, que contém o verdadeiro progresso, a verdadeira civilização e a verdadeira liberdade; de outro, apresenta-se a bandeira revolucionária, em torno da qual se agrupa a coalizão de todos os inimigos da Igreja.

“Ora, o que faz a Rússia? De um lado, combate a Revolução; de outro, combate a Igreja Católica. Tanto externa quanto internamente, encontrareis a mesma contradição. Não hesito em dizê-lo, o que faz sua honra e sua força é ser adversária inabalável do princípio revolucionário. O que faz sua fraqueza é ser, ao mesmo tempo, adversária do Catolicismo.

“E se ela quiser ser coerente consigo mesma, se quiser francamente combater a Revolução, tem apenas um partido a tomar: colocar-se sob o estandarte católico e reconciliar-se com a Santa Sé” (La Russie sera-t-elle catholique?, Charles Douniol, Paris 1856, pp. 63-65).

A Rússia não atendeu ao apelo e a Revolução bolchevique, após ter exterminado os Romanov, difundiu seus erros no mundo. A cultura abortista e homossexual, que hoje conduz o Ocidente à morte, tem suas raízes na filosofia hegeliano-marxista que triunfou na Rússia em 1917. A derrota dos erros revolucionários não poderá ser ultimada, na Rússia e no mundo, senão sob os estandartes da Igreja Católica.

As ideias do padre Gagarin inspiraram o barão alemão August von Haxthausen (1792-1866), que com o apoio dos bispos de Münster e de Paderborn fundou uma Liga de orações denominada Petrusverein (União de São Pedro) para a conversão da Rússia. Uma associação análoga, sob o impulso dos padres barnabitas Šuvalov e Tondini, nasceu na Itália e na França. Aos inscritos nessas associações recomendava-se rezar em todos os primeiros sábados do mês pela conversão da Rússia. Em 30 de abril de 1872, Pio IX concedeu com um Breve indulgência plenária a todos aqueles que, tendo confessado e comungado, assistissem no primeiro sábado do mês à Missa celebrada pelo retorno da Igreja greco-russa à unidade católica.

Nossa Senhora aprovou certamente essa devoção, pois em Fátima, em 1917, Ela recomendou a prática reparadora dos primeiros cinco sábados do mês como instrumento da instauração de seu Reino, na Rússia e no mundo.

18 junho, 2017

Foto da semana.

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Em visita à Catedral de Belém nesta semana, o Cardeal Raymond Leo Burke encontra crianças da Escola Sagrado Coração. Foto: Paula Andrea Caluff Rodrigues.

17 junho, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Ocasiões próximas de pecado e absolvição

“Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém,digo-vos que todo o que olhar para uma mulher, cobiçando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração. Por isso, se o teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o para longe de ti, porque é melhor para ti que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na Geena. E, se a tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a para longe de ti, porque é melhor para ti que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na Geena.Também foi dito: ‘Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe libelo de repúdio’. Eu, porém, digo-vos: todo aquele que repudiar sua mulher, a não ser por causa de fornicação, expõe-na ao adultério; e o que desposar a repudiada, comete adultério” (S. Mateus, V, 27-32).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Apresentarei a exposição do Teólogo Noldin em cujo Manual estudei no Seminário. Consultando ainda muitos outros teólogos tradicionais, vemos que quase todos, se baseiam em Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, e a maior autoridade em Teologia Moral. Em teologia, antes de qualquer exposição, primeiramente são dadas a definição e divisões dos termos. (cf. Noldin, Summa Theologia Moralis, vol. III DE SACRAMENTIS, ed. XXXI, anno 1957, nº 398-401): “DE ABSOLVENDIS  OCCASIONARIIS” = Sobre a Absolvição dos Ocasionários.

398. Noção de ocasião. Ocasião de pecado geralmente se define assim: é uma circunstância externa que oferece ao homem oportunidade de pecar e solicita-o para o pecado.

a. A circunstância pode ser coisas como um livro mau, ou pode ser uma pessoa como a amásia para o amásio.

b. Externa; difere portanto aocasião do perigo de pecar, pois, por este nome entende-se tudo aquilo que move para pecar, quer seja algo externo ou interno. A ocasião é só algo externo, já o perigo pode ser também algo interno.

c. Na ocasião duas coisas devem ser levadas em consideração: a oportunidade ou facilidade de pecar que ela oferece ao homem; e segundo: o impulso para pecar.; embora, portanto, a ocasião se equivalha ao escândalo, neste, no entanto, se considera a ação do outro, e na ocasião, porém, se olha mais a coisa ou pessoa que, além de oferecer o impulso, dá também a oportunidade de pecar.

d. Duas coisas são necessárias para que haja OCASIÃO: da parte do objeto há o impulso e a oportunidade para o pecado, e da parte do sujeito há a propensão e inclinação para o pecado.

Nota. A própria pessoa ou coisa é ocasião, se esta determinada pessoa ou coisa oferece oportunidade de pecar. Por vezes, no entanto, não só determinada pessoa, mas qualquer pessoa oferece ensejo de pecado; seja dado como exemplo um jovem que de tal maneira está preso aos pecados da carne, que deixada uma pessoa, irá pecar com  outra, e assim por diante; em tal caso a coisa ficaria pior, se só abandonasse as primeiras e corrompesse as outras  que viessem a pecar depois com este jovem. Aqui a ocasião é mais o próprio hábito de pecar, e, portanto, devem ser  empregados os meios para acabar com o hábito.

399. Divisão de ocasião. 1. Pode ser REMOTA ou PRÓXIMA. Diz-se remota aquela em que o perigo de pecar é leve, na qual, portanto, os homens geralmente não pecam. Diz-se próxima aquela em que o perigo de pecar é grave, e portanto, nela os homens geralmente pecam. A ocasião diz-se próxima ou remota pela conexão que tem com o  pecado. A maior ou menor conexão da ocasião com o pecado sobretudo (não unicamente) se deduz da frequência das quedas daquele que se encontra na ocasião, e mesmo de uma frequência relativa. […] (Visto que alguns teólogos [como Lugo] divergem-se em definir a ocasião próxima, Noldin apresenta três dicas para se saber se a ocasião é próxima: a. da frequência da queda conhecida pela experiência, quando, portanto, o penitente já esteve na ocasião e  nela geralmente pecou; b. da índole do penitente, quando, pois, pela veemência da tentação e da notória fragilidade do penitente, antes de toda experiência, se deve julgar que nesta determinada ocasião quase sempre irá pecar; c. do que acontece comumente, pois frequentemente a gravidade do perigo se deve julgar por esta regra: o que para todo mundo nas mesmas circunstâncias é ocasião de pecado, sê-lo-á também para este em particular.

2. A ocasião próxima se subdivide em: absoluta e relativa. A ocasião será PRÓXIMA ABSOLUTA quando,  comumente, a todos os homens, ela induz a um perigo próximo de pecar, p. ex. um olhar fixo para um coisa muito torpe. A ocasião será PRÓXIMA RELATIVA quando ela induz a um perigo próximo de pecar somente à determinada pessoa por causa de sua fragilidade, p. ex. o acesso à taberna quando a pessoa tem o vício da bebida.

3. Ademais, a ocasião próxima pode ser VOLUNTÁRIA (livre) ou NECESSÁRIA: voluntária é aquela que facilmente ou com leve incômodo pode ser evitada; e necessária é aquela que ou fisicamente ou moralmente não pode ser removida. Fisicamente, se alguém, p. ex. se encontra preso juntamente com uma pessoa com a qual sói pecar; moralmente, se a ocasião não pode ser removida, senão com grande dificuldade ou com grande detrimento nos bens da vida ou da fortuna ou da fama.

Nota: Na prática, diz Noldin, não se deve acreditar facilmente, mas o confessor deve prudentemente indagar sobre a verdade da coisa, ou seja, si aquele que pretende estar em uma ocasião, só com grande dano, poderia deixar tal ocasião. Por que esta prudência? Porque o afeto ao pecado muitas vezes aumenta a dificuldade de remover a ocasião.
4. A ocasião pode ainda ser dividida em PRESENTE (in esse) e NÃO PRESENTE (non in esse): a ocasião será  resente ou contínua quando a pessoa já a traz sempre consigo sem precisar procurá-la, como p. ex. um livro obsceno ou uma estátua torpe que a pessoa retém em sua casa; a ocasião será não presente ou ininterrupta se alguém não a traz consigo, mas facilmente pode consegui-la, como p. ex. a taberna para um beberrão, uma amásia para um amásio, o jogo para aquele que jogando sói blasfemar.

400. Sobre a absolvição dos ocasionários que estão em ocasião próxima livre (voluntária).

1. Não pode ser absolvido o penitente, que não quer evitar a ocasião próxima de pecar gravemente, ocasião esta que facilmente pode evitar: aquele, pois, que não quer evitar tal ocasião próxima, dá sinal evidente de que não tem vontade (propósito) eficaz de não mais pecar, e, por conseguinte, não está disposto para obter a absolvição, porque a própria vontade de permanecer na ocasião próxima já é um pecado grave. Não é permitido admitir a desculpa pela qual os penitentes prometem empregar todos os remédios para transformar a ocasião próxima de pecado em ocasião remota: pois não é permitido se expor temerariamente ao perigo de pecar, perigo este que pode facilmente se evitar e, portanto, deve fugir inteiramente dele.

2. Quem promete deixar a ocasião próxima livre de pecar, de per si, pode ser absolvido, desde que o confessor possa prudentemente crer em sua promessa. Santo Afonso (474) seguindo São Carlos Borromeu, e outros autores aqui distinguem entre necessário presente e não presente; julgam que em caso de ocasião presente o penitente não pode ser absolvido nem a primeira vez, a menos que primeiro afaste a ocasião. A razão que dão é porque se novamente se expõe ao perigo de pecar ou de quebrar o propósito por causa do apego à ocasião e a dificuldade em a abandonar, e, portanto não está disposto. Mas o próprio Santo Afonso e seus seguidores admitem os casos, nos quais a absolvição possa ser dada na primeira vez, quando o confessor supõe que haja boa disposição: assim, se o penitente apresente sinais extraordinários de arrependimento, ou si, sem grande incômodo no possa voltar ao confessionário, ou a não ser só depois de longo tempo.

3. No entanto, se já muitas vezes absolvido não cumpre as promessas, mas caiu nas ocasiões, não deve ser absolvido, senão afastar primeiro a ocasião: pois, se pode suspeitar corretamente o confessor, que o penitente não tem firme propósito. Ademais, embora se sinta disposto, às vezes, a absolvição deve ser diferida para firmar a vontade, a não ser em caso extraordinário em que urge uma razão grave para se conceder a absolvição [p.ex. nos casos de moribundos].

401. Sobre a absolvição dos ocasionários em ocasião próxima necessária.

1. Quem não quer deixar a ocasião próxima moralmente necessária de pecar gravemente, pode ser absolvido, desde que prometa empregar os remédios para não pecar. Pois, o constituído em ocasião necessária deve ser julgado disposto, caso queira empregar os remédios aptos para não pecar, visto que não exista absoluta obrigação de  abandonar a ocasião, como sendo não voluntária, mas somente hipotética, i. é. ou de empregar os remédios ou de abandonar a ocasião.

a. Segundo Santo Afonso (n. 455), os remédios pelos quais se pode transformar a ocasião próxima em remota são: diligente oração, o uso mais frequente dos sacramentos, cotidiana renovação do propósito de não mais pecar, não estar a sós com a cúmplice, evitar vê-la etc.

b. É certo que não escusa um incômodo medianamente grave, como acontece em relação aos mandamentos da Igreja, mas nem também se requer uma impossibilidade moral de deixar a ocasião. Afinal, cabe ao confessor julgar com muita diligência, cada caso em particular.

2. Se o constituído em ocasião próxima necessária depois de várias confissões, volta com os mesmos pecados sem nenhuma emenda, não se deve, absolutamente falando, exigir que deixe a ocasião, mas ainda pode ser absolvido, caso seriamente queira empregar os meios, pelos quais transforme a ocasião próxima em remota: isto porque havendo esta vontade vê-se que está suficientemente disposto, embora não queira remover a ocasião. Neste caso muitos autores com Santo Afonso (n. 457) estabelecem a seguinte regra: o penitente não pode ser absolvido a não ser que abandone a ocasião, mesmo com gravíssimo incômodo, como a perda dos bens, da fama, e até da própria vida: pois, como não aparece nenhuma esperança de emenda, devem aí ser aplicadas as palavras do Salvador: “Se o teu olho te escandaliza etc. (Marc. 9, 46). Outros (como Ballerini-Palmieri, n. 119) opinam assim: pelo fato, pois, de depois várias quedas não haver nenhuma emenda, não se deve concluir que não resta nenhuma esperança de emenda, mas somente isto: ou os meios propostos não foram suficientes, ou eles não foram empregados. Se constar este último caso, o penitente deve ser admoestado seriamente a empregar com mais diligência os remédios ou então, aí sim, terá que deixar a ocasião mesmo com gravíssimo incômodo.

16 junho, 2017

Academia para a Vida: clientelismo no Vaticano.

Publicada ontem a lista dos 45 novos membros ordinários da Academia Pontifícia para a Vida, além de cinco membros honorários.

Por Lorenzo Bertocchi, La Nuova Bussola Quotidiana, 14 de junho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Instituída por João Paulo II em 11 de Fevereiro de 1994, a Academia tem como objetivo a “promoção e defesa da vida, sobretudo na relação direta que tem com a moral cristã e as diretrizes do Magistério da Igreja.” Desde agosto de 2016, o presidente nomeado pelo Papa Francisco passou a ser Dom Vincenzo Paglia, ex-presidente do antigo Conselho Pontifício para a Família, que foi agora incorporado ao novo Dicastério para os leigos, família e vida pelo cardeal americano Kevin Farrel.

Dom Paglia, ao mesmo tempo, tornou-se também chanceler do Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família, uma outra criação do papa polonês, que visa a defesa e promoção da família segundo o plano de Deus. No documento que nomeia Paglia para o duplo papel, o Papa deu as diretrizes para o desenvolvimento dessas instituições importantes, “Desde o Concílio Vaticano II até hoje, o Magistério da Igreja sobre essas questões se desenvolveu de uma maneira ampla e aprofundada. E o recente Sínodo sobre a Família, com a Exortação Apostólica Amoris Laetitia, expandiu e aprofundou ainda mais o seu conteúdo. É minha intenção que o Institutos colocados agora sob sua orientação se empenhem de maneira renovada no aprofundamento e  na divulgação do Magistério, confrontando-os com os desafios da cultura contemporânea”.

Amoris Laetitia, novo paradigma

A Pontifícia para a Vida foi, sem dúvida, a instrução da Doutrina da Fé Donum Vitae, publicada pelo então cardeal Joseph Ratzinger, em 1987. Juntamente com a famosa encíclica Humane Vitae do Beato Paulo VI, a instrução coloca uma base muito sólida na defesa da vida e do autêntico amor humano. Hoje, o ponto de referência principal passou a ser Amoris Laetitia, com sua mudança de foco pastoral que muitos percebem como uma verdadeira mudança de paradigma na teologia moral, e por isso capaz de “reformar” muitas abordagens que derivam do magistério anterior. Não sabemos se a nomeação de novos membros ordinários levaram em conta essa interpretação de renovação, mas certamente nos oferecem diferentes perspectivas para reflexão.

Os demitidos

Luke Gormally (Inglaterra), Josef Maria Seifert (Áustria) e John Finnis (EUA), são três nomes que desapareceram da lista de membros da Pontifícia Academia e todos os três eram críticos abertos de algumas passagens da exortação Amoris Laetitia. A mesma sorte tiveram dois ativistas pró-vida conhecidos internacionalmente, Maria de Mercedes Arzu de Wilson e Christine De Marcellus Vollmer, que estão entre os primeiros membros da Academia diretamente nomeadas por João Paulo II e também críticas de certas posições de Francisco sobre a Vida e Família.

Chama a atenção também a  exclusão de Thomas William Hilgers (EUA), ginecologista conhecido especialmente por seus estudos sobre métodos naturais de contracepção. Sua exclusão, pelo que tudo indica, é um duro golpe para a encíclica Humanae Vitae e a Instrução Donum Vitae, visto que ele sempre foi fidelíssimo ao Magistério e um duro adversário contra a contracepção e fecundação assistida.

Outros excluídos são Philippe Schepens (Bélgica), figura bem conhecida entre os médicos católicos de seu país e da Europa por sua defesa apaixonada da ética médica hipocrática; Jaroslav Sturma (República Checa), psicólogo e psicoterapeuta, o único até agora, juntamente com o alemão Manfred Lütz (esse sim reconfirmado como membro ordinário), representante dessas disciplinas entre os Ordinários da Academia, excluído provavelmente porque se alinha o mais próximo possível de psicólogos e psicoterapeutas que consideram a homossexualidade um transtorno mental-emocional e são contrários às teorias de gênero e LGBT. Excluídos também foram os dois italianos, Domenico Di Virgilio e Gianluigi Gigli.

Os confirmados

Francesco D’Agostino (Presidente Honorário do Comitê de Bioética), Adriano Pessina (Diretor do Centro de Bioética da Universidade Católica), John Haas (presidente do Centro de Bioética da National Catholic US), ligado à poderosa Conferência Episcopal dos EUA e amigo do Cardeal Farrell, Mons. Angel Rodriguez Luno (Professor de teologia moral na Universidade Pontifícia da Santa Cruz e consultor da Congregação para a Doutrina da Fé, o qual é muito escutado pelo cardeal Mueller), Carl Albert Anderson (EUA, Presidente dos Cavaleiros de Colombo, que até agora têm generosamente financiado tanto a  Academia como o Pontifício Instituto João Paulo II), Jean-Marie Le Mene (Francês, presidente da Fundação Jérôme Lejeune, que cuida da difusão do pensamento e obras do primeiro presidente da Academia, cuja causa de beatificação foi aberta); Mons. Daniel Nlandu Mayi (Congo) bispo e presidente do Serviço de Educação Central para a Vida do Congo.

Trata-se, em quase todos estes casos, de personalidades que têm posições, por assim dizer, “clássicas” no campo da teologia moral, mas também são “figuras muito diplomáticas”, que dificilmente serão capazes de se posicionar abertamente contra a corrente.

Duas confirmações de outro perfil e sã doutrina são, certamente, os holandeses Cardeal Willem Jacobus Eijk e o Arcebispo Australiano de Sidney Dom Anthony Colin Fisher. Teremos que descobrir como eles vão se comportar neste novo contexto.

Novidades

A primeira inovação importante é a entrada de Angelo Vescovi, que tem um ótimo relacionamento com Dom Paglia. O biólogo e farmacologista italiano é o diretor científico da Casa Alívio do Sofrimento em San Giovanni Rotondo (cargo para o qual o próprio Paglia não economizou palavras). Ele se ocupa, em particular, da pesquisa com células-tronco adultas, mas, de acordo com os especialistas em publicações da área, ele jamais se expressou contra as pesquisas com células tronco embrionárias feitas por seus colegas. Alguns anos atrás, chegou mesmo a estar envolvido em um incidente macabro que ocorreu na Universidade Bicocca de Milão. No laboratório do qual ele era responsável, foi encontrado um feto humano morto com idade aparente de 4-5 meses. Ele falou de “sabotagem” e não houve consequências penais.

Nova nomeação é também a do filósofo americano Nigel Biggar, EUA. De acordo com relatórios do Catholic Herald, em um diálogo com Peter Singer, em 2011, sobre o aborto, ele disse que “não está claro se o feto humano é o mesmo tipo de coisa que um adulto. Torna-se então uma questão de onde vamos traçar a linha”.

Existe ainda a nomeação de não-católicos, como o japonês Shinya Yamanaka, Professor e Diretor do Centro de Pesquisa e Aplicação de células-tronco da Universidade de Kyoto, Prêmio Nobel de Medicina de 2012; o Professor Judeu Avraham Steinberg (Israel, Diretor de Ética da Medicina no Centro Médico Shaare Zedek, em Jerusalém, Diretor do Conselho Editorial da Enciclopédia talmúdica) e o Árabe Tunisiano Professor Mohamed Haddad, professor de Civilizações árabes e Religiões Comparadas junto ao Instituto Superior de Línguistica da Univerisade de Cartago, na Tunísia.

Em geral, o que saem das conversas dos salões sagrados é que os novos filósofos e teólogos moralistas recém-nomeados são mais relativistas sobre questões como a contracepção, a fertilização in vitro, orientação sexual, eutanásia passiva e outras questões delicadas. Por exemplo, o professor italiano, padre Maurizio Chiodi, Professor de Teologia Moral Fundamental no Instituto Superior de Ciências Religiosas, em Bergamo, e na Faculdade Teológica do norte da Itália, em Milão, em suas palestras e conferências nunca escondeu críticas a muitos aspectos do ensinamento da Humanae vitae e da Donum vitae, e também contra alguns parágrafos da Evangelium vitae.

Os membros honorários

Eles são Cardeal Carlo Caffara, o espanhol Monsenhor Carrasco de Paula e o Cardeal Elio Sgreccia, presidentes eméritos da Pontifícia Academia, a Senhora Birthe Lejuene, viúva do primeiro presidente da Academia Pontifícia para a Vida, o Servo de Deus Jérôme Lejeune, e Juan de Dios Vial Correa, Magnífico Reitor emérito da Pontifícia Universidade Católica de Santiago de Chile (Chile).

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15 junho, 2017

A crise na Ujucasp, a PUC-SP, a Ujucarj e uma nova possibilidade.

Por Edson Luiz Sampel

Quando, às vezes, calcorreio pelo campus Monte Alegre da PUC-SP, através dos rostinhos dos jovens universitários vejo bastantes corações puros, prenhes de esperança. Segundo certo eclesiástico da Ujucasp, “ (…) a Universidade é um espaço de livre discussão de posições e ideias ”. As ideias, entretanto, têm de ser debatidas na integralidade, isto é, todas as ideias e posições; e não apenas as ideias que têm em mente os que aborrecem a moral católica.

Em respeito à pureza da grande maioria de jovens que se matriculam numa universidade católica, muitos deles também incautos, dever-se-ia, ao menos, garantir na mesa de debates a presença de um docente capacitado a explanar a “posição” católica aos efebos interlocutores. Essa precisa ser uma prática constante! Por isso, neste sítio cibernético, meu amigo, dr. Rodrigo Pedroso, membro da Ujucasp, proferiu eloquente, enérgica e profética admoestação: “Efetivamente, o que se anuncia na PUC/SP não é um debate pluralista e igualitário entre defensores e impugnantes da ideologia de gênero, em paridade de armas, o que já seria escandaloso numa universidade católica, por meter em pé de igualdade o falso e o verdadeiro.”

Vejamos o que reza o artigo 5.º das Diretrizes e Normas para as Universidades Católicas no Brasil (Doc. 64; CNBB): “Missão da universidade católica é servir à humanidade e à Igreja: garantindo, de forma permanente e institucional, a presença da mensagem de Cristo, luz dos povos, centro e fim da criação, no mundo científico e cultural (…).” Demais, preceitua a constituição apostólica Ex Corde Ecclesiae, a lei canônica que disciplina as universidades católicas, que uma das características essenciais desse jaez de instituição de ensino consiste na “fidelidade à mensagem cristã tal como é apresentada pela Igreja” (13, 3).”

A Ujucarj (União dos Juristas Católicos do Estado do Rio de Janeiro), apesar de otimamente organizada, com grupos temáticos etc. (http://juristascatolicosrj.org/), corre o risco de passar pela mesmíssima crise da Ujucasp, assim que algum membro do sodalício de juristas fluminenses se der conta dalguma “posição” da PUC-Rio antagônica à moral cristã. Por quê? Simplesmente porque a autoridade máxima da Ujucarj também é a autoridade máxima da PUC-Rio. O mesmo fenômeno jurídico-canônico ocorre em São Paulo: o moderador da Ujucasp é o grão-chanceler da PUC-SP. Em suma: a Ujucasp e a PUC-S P são entidades irmãs, pois possuem um mesmo “pai”: o arcebispo de São Paulo.

Cuido que uma boa saída para esse impasse poderia ser a criação de uma sociedade de juristas católicos autônoma, sem liame jurídico-canônico com nenhuma diocese. Uma espécie de “autarquia” (com muitas aspas), com reconhecimento canônico, é claro, porém vinculada diretamente à conferência episcopal (CNBB). Uma instituição parecida com a Sociedade Brasileira de Canonistas (SBC). Esta alternativa talvez desonerasse os bispos, já tão assoberbados pelo múnus pastoral, dos incômodos das “aporias existenciais” que lhes flagelam, em virtude de determinados conflitos entre instituições atreladas a uma única Igreja particular.

O direito natural de reunião, outrossim direito divino positivo, sufragado no cânon 215 do código canônico (CIC), como direito subjetivo fundamental (constitucional) dos fiéis, possibilitaria a ereção de uma sociedade de juristas católicos (ou de diversas sociedades), composta de leigos e clérigos. Uma ideia (sugestão) para amadurecermos e estudarmos sua viabilidade jurídico-canônica.

Edson Luiz Sampel

Teólogo, doutor em Direito Canônico e membro da Sociedade Brasileira de Canonistas (SBC)

14 junho, 2017

Felix Dies Natalis.  

Ontem, dia 13, nós todos, Fratres in Unum, completamos 9 anos de blog. Reze, por favor, uma Ave Maria por nosso humilde trabalho e, especialmente, pela saúde de nossa valorosa combatente Gercione Lima. 

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