17 agosto, 2017

Cardeal Burke: esse será o modelo da correção formal ao Papa Francisco

Pete Baklinski, 16 de agosto de 2017, LifeSiteNews | Tradução: FratresInUnum.com: Uma vez que o Papa Francisco optou por não responder às cinco perguntas sobre se a sua Exortação Amoris Laetitia está em conformidade com a doutrina católica, é “necessário” fazer uma “correção” dos aspectos em que seu ensinamento se distancia da fé católica, disse o Cardeal Raymond Burke em uma nova entrevista.

O Cardeal, que é um dos quatro signatários dos dubia apresentados há cerca de um ano e que pedia ao Papa para esclarecer o seu magistério, explicou em uma entrevista ao The Wanderer a maneira como se deve proceder para emitir uma “correção formal”.

 Burke explicou: “Parece-me que a essência da correção é bastante simples”.

“Por um lado, expõe-se a doutrina clara da Igreja; por outro, aquilo que efetivamente está sendo ensinado pelo Romano Pontífice é afirmado. Se houver contradição, o Romano Pontífice é instado a conciliar seu próprio ensinamento em obediência a Cristo e ao Magistério da Igreja,” ele disse.

“A pergunta é a seguinte: ‘Como essa correção seria feita?’ De maneira muito simples, por meio de uma declaração formal a qual o Santo Padre seria obrigado a responder. Os Cardeais Brandmüller, Caffarra, Meisner e eu usamos uma instituição antiga na Igreja que propõe os dubia ao Papa,” continuou o Cardeal.

Fizemos isso de maneira muito respeitosa e de maneira alguma com agressividade, para dar-lhe a ocasião de expor a doutrina imutável da Igreja. O Papa Francisco optou por não responder aos cinco dubia. Então, agora é necessário simplesmente afirmar a doutrina da Igreja a respeito do matrimônio, da família, dos atos intrinsecamente maus, e assim por diante. Esses são os pontos que não estão claros nos ensinamentos atuais do Romano Pontífice. Portanto, esta situação deve ser corrigida. A correção se dirigiria principalmente a esses pontos doutrinários”, acrescentou.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Cardeais Raymond Burke, Joachim Meisner (recém-falecido), Walter Brandmüller e Carlo Caffarra LifeSite

No ano passado os quatro cardeais divulgaram suas perguntas (dubia), uma vez que o papa não lhes respondeu. Eles esperavam que a resposta do Papa às suas cinco perguntas do tipo sim ou não dissiparia o que chamavam de “incerteza, confusão e desorientação entre muitos fiéis” decorrentes da exortação polêmica.

Em junho, os quatro divulgaram publicaram uma carta ao Papa, na qual pediram, sem lograr êxito, uma audiência privada para discutir a “confusão e desorientação” dentro da Igreja em razão da exortação.

A exortação tem sido usada por vários bispos e grupos episcopais, inclusive na Argentina, Malta, Alemanha e Bélgica, para emitir diretrizes pastorais que permitem que a Comunhão seja dada aos católicos divorciados e recasados no civil que vivem em adultério. Entretanto, bispos no Canadá e na Polônia emitiram declarações com base na leitura do mesmo documento, que proíbe esses casais de receberem a Comunhão.

O Papa Francisco ainda não dialogou com os três cardeais remanescentes.

Burke disse na entrevista ao The Wanderer que o Papa é o “princípio da unidade dos bispos e de todos os fiéis”.

“Entretanto, a Igreja está sendo dilacerada neste momento pela confusão e divisão”, ele disse.

“O Santo Padre deve ser instado a exercer seu ofício para pôr fim à confusão”, acrescentou.

Se o Papa continuar se recusando a responder aos dubia, o “próximo passo seria uma declaração formal afirmando claramente a doutrina da Igreja, conforme exposto nos dubia”, disse Burke.

“Além disso, a declaração afirmaria que essas verdades da Fé não estão sendo definindas pelo Romano Pontífice com clareza. Em outras palavras, em vez de fazer as perguntas como foram feitas nos dubia, a correção formal consistiria em dar as respostas, conforme eninadas claramente pela Igreja”, acrescentou.

Acredita-se amplamente que os Cardeais, seguindo as doutrinas da Igreja sobre o Matrimônio, a Penitência e a Eucaristia, responderiam as cinco perguntas com sim ou não, da seguinte maneira:

  1. Seguindo as afirmações da Amoris Laetitia (números 300-305), um casal que vive habitualmente em adultério pode receber a absolvição e a Sagrada Comunhão? NÃO
  2. Com a publicação de Amoris Laetitia (ver n° 304), ainda é preciso considerar válido o ensinamento de São João Paulo II na Veritatis Splendor de que existem “normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus e que são vinculativos sem exceções? “SIM
  3. Após a Amoris Laetitia (nº 301), ainda é possível afirmar que o adultério habitual pode ser uma “situação objetiva de pecado habitual grave”? SIM
  4. Após as afirmações da Amoris Laetitia (nº 302), os ensinamentos de João Paulo II na Veritatis Splendor ainda são válidos no sentido de que as “circunstâncias ou intenções nunca podem transformar um ato intrinsecamente mau em virtude de seu objeto em um ato “subjetivamente” bom ou que pode ser defendido como uma escolha “? SIM
  5. Após a Amoris Laetitia (nº 303), ainda é preciso considerar como válido o ensinamento da encíclica Veritatis Splendor de São João Paulo II “que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência e enfatiza que a consciência nunca pode ser autorizada a legitimar exceções às normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus em virtude de seu objeto? “SIM

O cardeal Burke disse que os fiéis católicos que se sentem frustrados com a maneira como o Papa Francisco lidera a Igreja não devem acolher nenhuma noção de “cisma”.

Ele disse: “As pessoas falam sobre um cisma de facto. Sou absolutamente contrário a qualquer tipo de cisma formal – um cisma nunca pode ser certo “.

“Entretanto, as pessoas podem estar vivendo em uma situação cismática se abandonaram a doutrina de Cristo. A palavra mais apropriada seria aquela que Nossa Senhora usou em sua Mensagem em Fátima: apostasia. Pode haver apostasia dentro da Igreja e, de fato, é o que está acontecendo. Com relação a essa apostasia, Nossa Senhora também se referiu à omissão dos pastores em buscar a unidade da Igreja”, acrescentou.

 

17 agosto, 2017

Bispos venezuelanos pressionaram Vaticano a rechaçar a Constituinte de Maduro.

Por Hermes Rodrigues Nery

Os bispos venezuelanos, pressionados pelo peso da realidade, é que pressionaram o papa Francisco a não ficar omisso diante da gravíssima crise da Venezuela, com o risco de comprometer toda a credibilidade internacional da diplomacia vaticana. Foi a pressão dos bispos que fez a Secretaria de Estado rechaçar a Constituinte de Maduro.

FratresInUnum.com – 17 de agosto de 2017: Foram os bispos venezuelanos que fizeram pressão para que o Vaticano rechaçasse a Constituinte de Nicolás Maduro. A situação da Venezuela se agravara de tal forma, que não havia mais como protelar o silêncio, a omissão, ou mesmo a ambiguidade de posição a respeito dos abusos de um regime político a devastar um país, com a maioria da população vulnerável à pobreza, ao despotismo e à violência.

papa_e_maduro94055Os fatos concretos mostravam o peso da realidade, que não era mais possível ignorar: o equívoco do projeto político da “Pátria Grande”, cuja integração latino-americana (visando a implantação do socialismo) dava evidências de falimento. Nesse contexto, a Venezuela passou a tornar-se um problema sério demais para o primeiro papa latino-americano, que recebera efusivamente os líderes dos movimentos populares de esquerda no Vaticano, como João Pedro Stédile, Evo Morales, e também o próprio Nicolás Maduro, dentre outros.

Phil Lawler destacou no Catholic Culture que “os bispos venezuelanos foram firmes e consistentes em sua oposição à campanha de Maduro para consolidar seu poder. (…) Do Vaticano, no entanto, houve silêncio. E Maduro, um demagogo hábil, não hesitou em chamar a atenção para esse silêncio, alegando que, enquanto os bispos venezuelanos se opõem a ele, o Papa não. Até apenas esta semana, não houve uma declaração clara do Vaticano para provar o erro de Maduro”. William McGurn destacou no Wall Street Journal que “o papa Francisco tem sido severo em seu julgamento sobre o tipo de ‘populismo’ praticado por Donald Trump, mas parece odiar denunciar o ‘populismo’ de uma esquerda latino-americana”.

Diante do cenário cada vez mais tenso na Venezuela, os analistas internacionais passaram a observar a postura do papa Francisco em relação aos desdobramentos da crise, pois muitos se recordavam do que ele dissera, com ênfase, ao Pe. Antonio Spadaro, na histórica entrevista da revista La Civiltà Cattolica: “nunca fui de direita”.

Ao falar sobre como os próprios líderes mundiais de esquerda avaliam Nicolás Maduro, Jacopo Barizaggazi mencionou Jorge Mario Bergoglio, afirmando: “O papa nascido na Argentina tem sido um forte apoio aos chamados líderes progressistas na América Latina, como Evo Morales, da Bolívia, e seus críticos o acusam de ambiguidade em relação ao governo na Venezuela. O Vaticano tentou mediar entre Maduro e a oposição, mas, em uma coletiva de imprensa, em abril, o papa parecia culpar a oposição pela falta de progresso, dizendo: ‘Parte da oposição não quer isso’. O analista do Vaticano, Sandro Magister, escreveu, em maio, que o papa foi “imperdoavelmente imprudente com Maduro e o chavismo”, além de ser “incompreensivelmente reticente às vítimas da repressão e à agressão que atinge a própria Igreja”.

O que o papa latino-americano poderia fazer caso a situação chegasse a um ponto em que não seria mais possível qualquer neutralidade, nem mesmo tibieza, especialmente quando os fatos comprovassem o horror de um regime político, com premissas e aspectos contrários à doutrina moral e social católica? Outros envolvimentos de Bergoglio no complexo contexto latino-americano geraram controvérsias, como o restabelecimento diplomático dos Estados Unidos e Cuba (Obama/Raul Castro, visando o fim do embargo a Cuba) e o polêmico “acordo de paz” entre o governo da Colômbia e os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

A sua aposta política, em alguns casos, deixava brechas para os líderes de esquerda instrumentalizarem certos pronunciamentos e iniciativas de Bergoglio (que chocavam os católicos) para favorecer seus intentos políticos, como também, em certos aspectos, a agenda das fundações internacionais e das agências da ONU. Não apenas as declarações polêmicas e ambíguas, mas também as atitudes que alargavam tais brechas. Afinal, os católicos ficavam cada vez mais confusos e angustiados quando viam, por exemplo, as portas abertas do Vaticano para receber, com efusão, Gustavo Gutierrez, Jeffrey Sachs e Paul Ehrlich, enquanto Michel Schooyans e Christine Wolmer deixavam de ser vitalícios na Pontifícia Academia para a Vida, para dar lugar a outros, inclusive abortistas, como Nigel Biggar.

Com a Venezuela, o “papa político” fez mais uma vez uma aposta arriscada, ao receber Maduro no Vaticano (quando a crise já indicava abusos inaceitáveis) e a colocar o cardeal Pietro Parolin à frente de negociações em que, desde o início, os bispos venezuelanos sabiam que com Maduro não havia o que dialogar, pois o que ele queria mesmo era radicalizar o chavismo, com o qual estava comprometido. Não apenas Maduro, mas outras lideranças de esquerda esperavam que não viesse de Bergoglio uma condenação política explícita e contundente, a curto prazo, pois ele, “defendeu várias vezes um estado forte que forneça os bens de ‘casa, terra e trabalho’ para a população”, como destacou George Neumayr.

No entanto, nos últimos meses, o que os bispos desejavam era uma palavra mais firme do Vaticano justamente contra o bolivarianismo, que Maduro não estava disposto em ceder. Era evidente que o impasse chegaria, quando as consequências do regime fizessem vítimas fatais, como  já vinha acontecendo. O fato é que a situação na Venezuela passou a exigir mais do que uma tomada de posição, mas ações a requererem coragem e coerência. Por isso, os bispos venezuelanos buscaram a audiência com o papa, a fórceps, o que ocorreu em 8 de junho de 2017, como conta McGurn: “… uma reunião de seis bispos que foram obrigados ao horário de Francisco, quando eles voaram para Roma em junho – sem serem convidados.”

Os prelados levaram a Francisco a posição da realidade, como salientou o Pe. Raymond J. de Souza, no Crux: “Não há mais nenhuma dúvida. Maduro preside um regime desonesto que está matando seu próprio povo em defesa de uma ideologia socialista desacreditada. Por que o papa Francisco procuraria permanecer neutro entre esse regime e as massas sofredoras?” E então, os bispos apresentaram concretamente a lista dos mortos do regime de Maduro (muitos jovens), e disseram que não há como ser ambíguo nessa questão, pois do contrário a Igreja perderia credibilidade. A pressão dos bispos venezuelanos, portanto, foi decisiva para a Secretaria de Estado do Vaticano ter rechaçado a Constituinte de Maduro.

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16 agosto, 2017

Dom Becciu: ‘Impensável’ para a Ordem de Malta perder seu caráter religioso.

O delegado especial do Papa para a Ordem de Malta disse ao Register que ela jamais poderia ser dividida em setores religiosos e humanitários, e expressa confiança no futuro da instituição.

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 5 de maio de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: A ideia de que a Soberana Ordem Militar de Malta perderia seu caráter religioso está fora de cogitação, já que sua dupla missão de defender a fé e servir aos pobres não pode ser separada, afirmou o delegado especial do Papa Francisco para a antiga instituição de cavalaria.

Dom Angelo Becciu.

Dom Angelo Becciu.

Nos comentários do dia 5 de Maio, logo após a eleição, na semana passada, de Fra ‘Giacomo Dalla Torre del Tempio di Sanguinetto como novo líder interino da Ordem, o arcebispo Angelo Becciu disse: “por mil anos a Ordem de Malta sempre foi considerada ‘religiosa’ e, portanto, a idéia de que deixaria de ser religiosa é impensável.”

“Desde a fundação da Ordem, o tuitio Fidei [defesa da fé] e o obsequium pauperum [serviço aos pobres], seus dois pilares, nunca foram separados, nem poderiam ser “, disse o Arcebispo Becciu.

“Este era o desejo do Bem Aventurado Gérard [fundador da Ordem no século 12] e sempre foi a tradição dos Cavaleiros de Malta”, acrescentou.

Os comentários do arcebispo italiano, a quem o Papa Francisco nomeou em fevereiro como seu representante para a Ordem, serviram para tranquilizar aqueles que temiam que uma facção dos cavaleiros, liderada por seus membros alemães e pelo Grão Chanceler Albrecht von Boeselager, levaria a antiga instituição a transformar-se em uma organização não-governamental quase secular, possivelmente, dividindo-se em ramos religiosos e humanitários.

Muitos dos membros professos da Ordem, que fizeram votos de pobreza, castidade e obediência, também foram tranquilizados na semana passada quando o arcebispo Becciu passou um dia inteiro ouvindo as suas preocupações individualmente, incluindo as do ex-Grão-Mestre, Fra ‘Matthew Festing. Além disso, eles ficaram impressionados com seu discurso, pronunciado logo após a eleição do dia 29 de abril, o que os deixou ainda mais à vontade.

Com um total de 55 membros, apenas os membros professos podem subir ao posto de Grão-Mestre e liderar a Organização. Nenhum dos membros alemães da Ordem são professos, mas estão ansiosos para “modernizá-la” e fazendo de tudo para tentar mudar essa regra, a fim de tomar as rédeas da Ordem.

Os desafios de Fra’ Giacomo

Este será um desafio-chave enfrentado pelo cavaleiro de 73 anos de idade, Fra ‘Giacomo, um clássico arqueólogo e versado em história da arte. Eleito por um ano para liderar a Ordem de Malta, irá assumir todos os poderes do Grão-Mestre, apesar de seu título oficial ser apenas “tenente”.

A instituição soberana, que remonta às Cruzadas, tem relações diplomáticas com 106 países, 13.500 membros, e mais de 100.000 voluntários e funcionários servindo os pobres e os doentes em todo o mundo.

O primeiro compromisso oficial de Fra’ Giacomo será conduzir a 59º Peregrinação da Ordem à Lourdes entre 5-9 maio, um dos eventos mais significativos na vida espiritual da Ordem, durante o qual 7.000 membros e voluntários de todo o mundo darão assistência a cerca de 1.500 peregrinos doentes e deficientes .

Igualmente, buscando avançar suas atividades diplomáticas, sociais e humanitárias, uma das principais tarefas de Fra Giacomo será reformar a Constituição e Código da Ordem, abordando “pontos fracos potenciais da instituição”, segundo um comunicado de 29 de abril.

Com referência à demissão e posterior reintegração de Von Boeselager, bem como a renúncia forçada de Fra ‘Matthew como Grão-Mestre, o comunicado disse que as crises recentes haviam revelado algumas fraquezas nos freios e contrapesos do governo da Ordem e a reforma visa levar isso também em consideração”.

Esses pontos fracos, dizem, incluem aspectos no governo de Fra ‘de Matthew que alguns críticos consideram como autoritários e que violam a constituição da Ordem. Mas, à parte disso, as reformas são vistas amplamente como necessárias, e o próprio Fra ‘Matthew queria implementá-las.

“A reforma também se concentrará no fortalecimento da vida espiritual da Ordem e no aumento do número de seus membros professos”, acrescentou o comunicado, dizendo que consultas nesse sentido “já haviam sido iniciadas.” Todas as mudanças deverão ser votadas e ratificadas.

Várias preocupações permanecem, no entanto, dentro da Ordem. Essas incluem como um fator chave na demissão de Von Boeselager — a comprovada distribuição de contraceptivos e abortivos pelo ramo humanitário da Ordem, a Malteser International – e isso parece ter sido relegado como algo de pouca importância, até para o Vaticano.

Von Boeselager negou a responsabilidade, dizendo que colocou um fim na distribuição o mais rápido possível. Seus aliados também alegam que foi tecida uma armadilha para ele através da adulteração de um relatório encomendado pela Ordem sobre o caso, muito embora pelo menos dois membros da Ordem publicamente disseram que o próprio Von Boeselager lhes havia dito em privado que ele aprovava a distribuição com essas palavras: “Nós temos que dar contraceptivos para os pobres ou eles morrerão “.

O papel do Cardeal Parolin

Outras preocupações relacionam a perda da soberania da Ordem à comissão estabelecida pela Santa Sé através do secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, em dezembro para investigar a demissão de Von Boeselager. O cardeal do Vaticano e Von Boeselager são velhos conhecidos. As investigações não-publicadas da Comissão levaram à remoção de Fra ‘Matthew como Grão-Mestre pelo Papa — um cargo normalmente vitalício — e à reintegração controversa de Von Boeselager como Grão-chanceler. Há preocupação também sobre a influência dominante do Arcebispo Becciu no funcionamento de uma instituição soberana, e que o trabalho humanitário tomou precedência sobre a defesa da fé e da ortodoxia.

Um outro ponto de discórdia tem sido um fundo financeiro baseado na Suíça no valor de 120 milhões de euros, alguns dos quais doados à Ordem, bem como questões sobre a origem do dinheiro e para onde se destina. Três membros da comissão de cinco membros formadas pela Santa Sé em dezembro estão diretamente envolvidos com esse fundo financeiro.

Mas fontes envolvidas com esse fundo, chamada Caritas Pro GRADU Vitae (CPVG), vigorosamente negam qualquer malfeito e um relatório “independente” alegadamente demonstrando que os fundos são limpos, “sem nenhuma irregularidade fiscal” está previsto para ser publicado em breve. No entanto, até esse momento ainda não está claro quem encomendou o relatório e o quão independente ele é.

Da sua parte, o Arcebispo Becciu enfatizou em seu comentário do dia 5 de Maio que “a transparência financeira é exigida de toda instituição” e que a Ordem está “comprometida com a transparência e examinando todos os aspectos de sua vida e operação.”

Perguntado se, de acordo com alguns relatos, 30 milhões de euros do CPVG foram repassados ao Vaticano porque a Santa Sé  estava passando por problemas de liquidez, o delegado especial do Papa disse que tais alegações eram “completamente infundadas”.

Com relação à eleição de Fra Giacomo, o novo líder da Ordem é visto como um homem bom e decente, que vai acalmar provavelmente muitas das tensões que surgiram nos últimos meses. Mas ele é também visto como uma das opções daqueles que desejam modernizar a Ordem e torná-la mais secular, pois é visto como “maleável”. Aqueles preocupados com isso esperam que o Arcebispo Becciu tenha ouvido o bastante daqueles que buscam preservar sua natureza religiosa, e, portanto, capacitar a Ordem a manter a sua identidade.

O próprio arcebispo permanece otimista para o futuro. “Estou confiante por duas razões”, disse ao Register. “Primeiro, porque, com base em meus encontros com muitos membros da Ordem vi um claro desejo e empenho para superar as dificuldades e para aprofundar dons e pontos fortes da Ordem”.

“Em segundo lugar, porque sempre que há crise na Igreja, a Providencia intervém para o bem de todos e estou convencido de que o espírito de renovação ajudará a Ordem na medida em que ela considera o caminho da reforma à frente, de acordo com seus próprios meios e discernimento. “

15 agosto, 2017

Francisco impõe a concelebração nos colégios sacerdotais de Roma.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 28-06-2017 | Tradução: Hélio dias Viana – FratresInUnum.com: Corre no Vaticano este rumor. A um colaborador que lhe perguntou se era verdade que existe uma comissão para “reinterpretar” a Humanae vitae, o  Papa Francisco teria respondido: “Não é uma comissão, é um grupo de trabalho”. Não se trata apenas de artifícios linguísticos  para ocultar a verdade, mas de jogos de palavras que revelam como o culto da contradição constitui a essência deste pontificado. Mons. Gilfredo Marengo, coordenador do “grupo de trabalho”, resume  bem essa filosofia, quando afirma ser necessário fugir do “jogo polêmico ‘pílula sim – pílula não’, como também daquele atual ‘comunhão aos divorciados  sim – comunhão aos divorciados não’” (Vatican Insider, 23 de março de 2017).

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Esta premissa nos é necessária para apresentar um novo documento confidencial, resultado igualmente de outro “grupo de trabalho”. É o “working paper” [documento de trabalho] da Congregação do Clero “Sobre a concelebração nos colégios sacerdotais de Roma”, que circula de maneira reservada nos colégios e seminários romanos. O que emerge com clareza desse texto é que o Papa Francisco deseja impor de fato, embora ainda não de princípio, a concelebração eucarística nos colégios e nos seminários romanos, afirmando que “a celebração comunitária deve ser sempre preferida à individual”. 

O motivo dessa decisão emerge do documento. Roma não é somente a sede da Cátedra de Pedro e o coração da Cristandade, mas também o lugar para onde convergem sacerdotes e seminaristas de todo o mundo a fim de adquirir aquela veneração pela fé, pelos ritos e tradições da Igreja, chamado outrora de “espírito romano”. A permanência em Roma, que ajudava a desenvolver o amor à Tradição da Igreja, oferece hoje a oportunidade de uma “reeducação” doutrinária e litúrgica para aqueles que querem “reformar” a Igreja segundo as diretivas do papa Bergoglio. A vida nos colégios romanos – afirma com efeito  o  “working paper” –  oferece ocasião “para se viver ao mesmo tempo um período intenso  de formação permanente  integral”.

O documento recorda explicitamente um recente discurso dirigido aos sacerdotes que estudam em Roma, no qual o Papa Francisco lembrou a importância eclesial da concelebração no contexto da comunidade dos  sacerdotes estudantes: “Trata-se de um desafio permanente para superar o individualismo e viver a diversidade como uma dádiva, procurando a unidade do presbitério, que é sinal da presença de Deus na vida da comunidade. O presbitério que não mantiver a unidade, na realidade expulsa Deus do próprio testemunho. Não dá testemunho da presença de Deus. Rejeita-o. Deste modo, congregados em nome do Senhor, de maneira particular quando celebrais a Eucaristia, manifestais inclusive sacramentalmente que Ele é o amor do vosso coração” (Discurso de 1° de abril de 2017).

À luz dessa doutrina, o “working paper” da Congregação para o Clero reitera que a Missa concelebrada é preferível à celebração individual” (grifado no original, como também nas citações seguintes).

“Portanto, os Superiores são vivamente instados a encorajar a Concelebração, até mesmo várias vezes ao dia, na grande comunidade presbiteral. Em consequência, podem-se esperar várias celebrações nos Colégios, para que os presbíteros neles residentes possam participar de acordo com as próprias necessidades, cuidando de estabelecer dois ou três momentos ao longo do dia.” 

“Com efeito, os relacionamentos cotidianos, compartilhados diariamente e durante anos no mesmo Colégio Romano, são uma experiência importante na trajetória vocacional de cada sacerdote. Dessa maneira, na verdade se estabelecem vínculos de fraternidade e de comunhão entre os sacerdotes de diferentes dioceses e nações, que encontram uma expressão sacramental na celebração eucarística.”

“O distanciar-se das próprias diocese de incardinação e da missão pastoral por um tempo bastante longo garante certamente não só a formação intelectual, mas sobretudo oferece a ocasião de viver ao mesmo tempo um intenso período de formação integral permanente. Nesta perspectiva, a vida comum dos Colégios sacerdotais oferece esta modalidade de fraternidade sacerdotal, provavelmente nova em comparação com o passado. A experiência do Colégio representa uma oportunidade para uma frutuosa celebração da Eucaristia pelos sacerdotes. Portanto, a prática da Concelebração eucarística diária nos Colégios pode tornar-se uma oportunidade para o aprofundamento da vida espiritual dos sacerdotes, com importantes frutos, como: a expressão da comunhão entre os sacerdotes das várias Igrejas particulares, que se manifesta particularmente quando os Bispos das várias dioceses presidem a concelebração na ocasião das visitas a Roma; a oportunidade de ouvir a homilia feita por outro irmão; a celebração acurada, e mesmo solene, da Eucaristia cotidiana, o aprofundamento da devoção eucarística que cada sacerdote deve cultivar, além da própria celebração.”

 Entre as normas práticas indicadas,  lê-se:

“É recomendável que os sacerdotes possam participar ordinariamente da Concelebração eucarística nos horários previstos no Colégio, preferindo sempre a celebração comunitária à individual. Nesse sentido, os Colégios com um considerável número de sacerdotes hóspedes poderão estabelecer a Concelebração Eucarística em 2 ou 3 horários diversos no dia, de modo a permitir a cada um de participar de acordo com as  próprias necessidades pessoais, acadêmicas ou pastorais.” 

“Se os sacerdotes residentes no Colégio não puderem por razões particulares  participar da  Concelebração nos horários previstos,  devem preferir sempre celebrar juntos em outro horário mais conveniente.” 

É flagrante, e repetida em duas passagens do texto, a violação do cânon 902, segundo o qual “os sacerdotes podem concelebrar a Eucaristia; permanece íntegra, porém, a liberdade de cada um celebrar a Eucaristia individualmente”.  Em consequência, os colégios que aplicarem ao pé da letra o “working paper” infringirão a lei universal vigente.

Em 5 de março de 2012, por ocasião da apresentação do livro de Mons. Guillaume Derville, A concelebração eucarística. Do símbolo à realidade (Wilson & Lafleur, Montreal 2012), o cardeal Antonio Cañizares, então prefeito da Congregação para o Culto Divino, salientou a necessidade de “moderar” a concelebração, fazendo suas as palavras de Bento XVI: recomendo aos sacerdotes ‘a celebração diária da Santa Missa, mesmo quando não houver participação de fiéis’. Tal recomendação é ditada, antes de mais, pelo valor objetivamente infinito de cada celebração eucarística; e é motivada ainda pela sua singular eficácia espiritual, porque, se vivida com atenção e fé, a Santa Missa é formadora no sentido mais profundo do termo, enquanto promove a configuração a Cristo e reforça o sacerdote na sua vocação” (Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, n. 80).

A doutrina católica vê de fato na Santa Missa a renovação incruenta do Sacrifício da Cruz. A multiplicação das Missas dá mais glória a Deus e é um bem imenso para as almas. “Se cada Missa tem em si mesma um valor infinito – escreve Pe. Joseph de Sainte Marie –, as disposições dos homens para receber seus frutos são sempre imperfeitas e, nesse sentido, limitadas. Daí a importância do número de celebrações da Missa para multiplicar os frutos da salvação. Apoiada por este raciocínio teológico elementar, mas suficiente, a fecundidade salvífica da multiplicação das Missas também é comprovada pela prática litúrgica da Igreja e pela atitude do magistério. Dessa fecundidade, a Igreja – a história o ensina – tomou progressivamente consciência ao longo dos séculos, promovendo a prática e depois encorajando oficialmente cada vez mais a multiplicação das Missas” (L’Eucharistie, salut du monde, Dominique Martin Morin, Paris 1982 pp. 457-458).

Para os neo-modernistas, a Missa se reduz a uma assembleia, tanto mais significativa quanto maior for o número dos padres e dos fiéis que dela participam. A concelebração é entendida como um instrumento para fazer o sacerdote perder lentamente a consciência de seu caráter sacerdotal e de sua missão, que é unicamente a celebração do sacrifício eucarístico e a salvação das almas. Mas a diminuição das Missas e a perda do conceito verdadeiro do que é uma Missa constituem uma das principais causas da crise religiosa do nosso tempo. Agora, até mesmo a Congregação para o Clero, a mando do papa Bergoglio, faz sua contribuição para esse desmantelamento da fé católica.

14 agosto, 2017

“Gay se nasce”. Eminência Reverendíssima Cardeal Kasper, permita-me uma pergunta.

Por Luigi Amicone, 2 de outubro de 2015, Tempi | Tradução: FratresInUnum.com: “O teólogo reformista Kasper disse: ‘Gay se nasce. Não aos fundamentalistas em nome do Evangelho’.” É um título realmente sugestivo, caro Cardeal Walter Kasper, aquele que o Corriere dela Sera usou para apresentar a sua entrevista ao vaticanista do diário de Milão, Gian Guido Vecchi.

Agora, porém, o senhor deve nos dizer onde foi que erramos ao constatar apenas nas dez primeiras linhas de sua conversa um exemplo espetacular de confusão e, juntamente, uma politicagem em nada misericordiosa e de forma alguma pastoral.

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Cardeal Walter Kasper

Não esquecendo também que o senhor é, entre outras coisas, o autor do relatório apresentado no consistório extraordinário sobre a família que se tornou a base de discussão sobre o tema do Sínodo do dia 4 de outubro, deixamos claro a seguir o nosso pedido para que possamos ser contraditos, censurados ou esclarecidos por Sua Eminência Reverendíssima.

Quanto à politicagem, recordo-lhe o início da sua entrevista, onde diante da pergunta capciosa: “Por que existe tanta resistência, Eminência? Como na véspera do Sínodo do ano passado, desta vez surgiram até Cardeais assinando um livro em defesa do matrimônio e da família e também da “doutrina” … “e o senhor respondeu sinuosamente com um “mas, olha, eu não quero entrar nessa controvérsia. O Sínodo foi feito justamente para se discutir“. E logo em seguida partiu para o ataque: “Sim, alguns querem se fechar, não há nada para discutir, basta“.  Dá um suspiro – volta-se para o Corriere – sorri e diz :” Vê – o senhor continua, – existe um certo fundamentalismo… se faz uma ideologia para apoiar a própria tese…”.

Neste breve giro de palavras o senhor se permite fazer uma fogueira em torno dos autores do livro citado pelo seu entrevistador e sai catalogando de Carlo Caffara a Angelo Scola como “fundamentalistas” e “ideólogos”, seus colegas cardeais cuja única culpa é terem um pensamento diferente do seu.  E é isso que o senhor chama de “não entrar em controvérsias” e como uma “boa preparação do terreno das discussões sinodais”?

Segunda observação: a confusão. Após o ataque a seus colegas cardeais, encontramos esta bela pérola proferida pelo senhor, Eminência Reverendíssima (que o Corriere define, se não me engano, também a Botteghe Oscure, como “o ponto de referência dos reformistas”): “Para mim, essa inclinação (a homossexualidade, nota do editor) é um ponto de interrogação: ela não reflete o plano original de Deus, mas todavia é uma realidade porque gay se nasce”. Para dizer a verdade, Eminência, tivemos que esfregar os olhos, acreditamos ter lido errado. Então, resolvemos ler e reler, mas não há dúvida! O senhor realmente pede, como escreve entre aspas o Corriere, para que no Sínodo se abra um “diálogo” sobre a contracepção que já está difundida entre os fiéis (“Eu espero que sim, este cisma não pode durar“) e fala de acolhida e respeito pelos homossexuais: “Para mim, essa inclinação é um ponto de interrogação: não reflete o projeto original de Deus, mas todavia é uma realidade, porque gay se nasce“.

O senhor,  Eminência Reverendíssima, disse exatamente assim: “uma coisa é ‘o projeto original de Deus’, uma outra – porém – é o fato de que ‘gay se nasce’.” Ora, a perplexidade gerada por essas suas palavras é evidente e pedimos aos leitores que recorram a todos os seus recursos da lógica para nos responder: isso quer dizer que Sua Eminência Reverendíssima tem um questionamento? Deixemos de lado o debate sobre Igreja e homossexualidade, porque essa seria outra discussão. Existe algo muito mais radical em suas palavras. Na verdade, suas palavras, Eminência Reverendíssima, são claríssimas: o senhor diz que “a inclinação homossexual não reflete o projeto original de Deus” mas logo em seguida diz “todavia é uma realidade”, não porque a homossexualidade é uma realidade como o são um monte de outras coisas que também não refletem o projeto original de Deus (como colocar o dedo no nariz, roubar uma marmelada e até coisas mais graves), mas “porque gay se nasce.” Olha a confusão! Que pergunta pode surgir quando se afirma ao mesmo tempo o “projeto original de Deus” e o projeto original do “gay se nasce”?

Parece-me lógico deduzir que o senhor, Eminência Reverendíssima, está convencido de uma das duas coisas, e que a sua pergunta se coloca dentro da seguinte alternativa: ou Deus, se existe, não tem nada a ver com o nascimento (ergo, não tem nada a ver com a criação presente, Ele criou o mundo há algum tempo e depois deixou correr à revelia como um joguinho impulsionado por uma mola, o que seria uma patente heresia); ou Deus, se existe, adora criar coisas novas contrárias ao seu projeto inicial (heresia dupla). E aqui, na verdade, já podemos ir parando porque todo o resto, como diria o grande Cardeal Elio Sgreccia ao Avvenire, nasce de uma questão fundamental e radical: “A misericórdia é verdade vivenciada, não há separação. Não se pode separar em Cristo a verdade do amor”.

Para o senhor, no entanto, Cardeal Walter Kasper, tudo parece nascer de uma divisão original escondida como uma cobra no seio do próprio Ser. Existe a verdade, mas também não existe porque a realidade vai para outro lado e ao invés de chamar esse outro lado de “pecado”, ou seja, a experiência verdadeiramente histórica que o homem não consegue fazer em face da verdade que ele vê (“o bem que eu quero não faço, mas faço o mal que eu odeio”, diz São Paulo), o senhor prefere chamar de “misericórdia” a anestesia em cima do “eu não consigo”. Assim, existe o ideal: dizer aos jovens para se casar, afirmar que o Sacramento é obra de Deus que torna infinita, indissolúvel e para sempre a liberdade infinita de um homem e de uma mulher (exceto os casos nulos onde não existiu a liberdade e, portanto, não existe sacramento), exorta-os a desafiar as dificuldades, traições, modas e caprichos. Mas, logo em seguida, o senhor mesmo parece dar a entender que não acredita muito nesse ideal e procura camuflar seu ceticismo com a pastoral. Claro que existe uma pergunta que devemos fazer e que é a mesma que Sua Eminência também deveria fazer. E a pergunta é: afinal quem são mesmo os fundamentalistas e ideólogos?

13 agosto, 2017

Foto da semana.

IBP Aparecida

Aparecida, 29 de julho de 2017: Dom Fernando Guimarães, Arcebispo do Ordinariato Militar do Brasil, celebra Missa Pontifical na Basílica Velha, por ocasião da peregrinação do Instituto do Bom Pastor a Aparecida.

No dia seguinte, domingo, o arcebispo concelebrou, no rito de Paulo VI, na Basílica Nova, com Dom Fernando Rifan, bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney. Para surpresa de muitos, em Missa imediatamente anterior, na mesmíssima Basílica do Santuário Nacional, o atual arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, fez comentários acerca do que chamou de “tradicionalismo”, palavras que foram interpretadas como uma indireta indelicada aos bispos e aos fiéis ligados à Missa Tradicional que naquele final de semana acorriam ao santuário.

Créditos da imagem: Almeida Rocha /@salvemariasm

12 agosto, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: O escândalo dado pelo Sacerdote, pecado enorme por sua natureza.

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue foi publicada originalmente em 27 de fevereiro de 2016.

* * *

“O que escandalizar um destes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurassem ao pescoço a mó dum moinho, e que o lançassem no fundo do mar” (S. Mateus XVIII, 6)

“É inevitável que venham escândalos, mas ai daquele homem pelo qual vem o escândalo” (S. Mateus  XVIII, 7).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

1 – O Sacerdote escandaloso é o grande inimigo de Deus. – Ofende à Santíssima Trindade, persegue-A, se assim posso exprimir-me, com uma impiedade que horroriza. O Eterno Pai elegera-o, para fazer conhecer e honrar o seu nome, para publicar e fazer observar a sua lei, para trazer à sua obediência as almas desgarradas, e confirmar no seu amor as almas inconstantes, para lhe preparar um povo de escolhidos, fazendo-o reinar sobre os corações; para isto o prevenira com as bênçãos da sua graça, o enchera de seus benefícios. Este Sacerdote tinha aceitado tão nobre missão, e prometido solenemente consagrar-lhe toda  a sua existência; ora, se chega a escandalizar, que faz ele? Combate contra a causa de Deus que prometer defender. Longe de submeter ao Senhor os súditos fiéis; longe de induzir os homens a respeitar o seu nome,  leva-os a blasfemá-lo; em lugar de o fazer reinar sobre os corações, expulsa-o deles; em lugar de lhe preparar escolhidos, é para o inferno que os recruta!

LaSalette08Deus Filho, Redentor das almas, confiava no Sacerdote, para lhes aplicar os merecimentos da sua morte e do seu sangue. Para isto o revestira de inefáveis poderes, e lhe pôs nas mãos todos os tesouros da sua misericórdia; pois a essas almas, remidas por tão alto preço, não só as deixa perder, mas ainda, à vista do seu Salvador, as fere, mata e precipita na eterna condenação; aniquila para elas a obra da Redenção!

Deus Espírito Santo tomara-o para seu instrumento. Queria servir-se dele, para combater o pecado, purificar as almas, e fazer delas outros tantos templos onde morasse com o Eterno Pai e com o Filho:  “Viremos a ele e nele faremos morada” (S. João XIV, 23); e o Sacerdote escandaloso, em vez de auxiliar estes misericordiosos desígnios, destrói-os; em vez de arruinar o império do pecado, estende-o e consolida-o; em vez de purificar as almas, mancha-as; e fecha para Deus esses templos espirituais de que era guarda, e abre-os para o demônio! Não é isto fazer à Santíssima Trindade uma guerra cruel e pérfida?

2- O Sacerdote escandaloso é inimigo das almas. – Constituindo-nos seus ministros, Deus queria que cooperássemos para as salvar. Temos rigorosa obrigação; de guiá-los e ampará-los; de levantá-los, se caem; e de empregar na sua santificação todos os meios que foram postos à nossa disposição. Como cumpre o Sacerdote escandaloso esta obrigação? Nós só temos acesso junto das almas, pela confiança que lhes inspiramos; que confiança pode inspirar aquele que prega uma moral, e pratica outra? Entre as palavras que dizem: “Não façais o eu  faço”, e as ações que clamam: “Não acrediteis o que eu digo”, advinha-se o que impressionará mais fortemente os espíritos, talvez já mal dispostos. Os corações corrompidos autorizam-se em suas desordens como o exemplo daquele que devia reprimi-las. E as almas simples não temerão perder-se, seguindo os maus exemplos do guia que Deus lhes deu. E neste caso, onde parará a licença de costumes? Quando à tendência que leva o homem a imitar tudo o que vê, vem juntar-se o impulso das paixões: o mau exemplo é uma torrente, que rompe todos os diques. Mas, se esta corrente se precipita dos mais altos montes, o seu curso será ainda mais impetuoso, e os estragos mais extensos; a alteza da nossa dignidade é a medida do mal causado com os nossos escândalos. O arbusto, ao cair, a nada causa dano; mas o carvalho frondoso esmaga, na sua queda, tudo o que encontra debaixo de si. Assim, o sal da terra tornou-se um princípio de corrupção, para os que ele devia conservar na inocência; a luz do mundo, que devia dirigir  as almas nos caminhos da virtude, mete-as nas alfurjas do vício; o Pastor de almas que devia defender o seu rebanho, faz nele uma horrível carnificina.

3- O Sacerdote escandaloso é o maior inimigo da Igreja. – Uma só queda no Santuário pode ter consequências incalculáveis. O mundo, tão indulgente para si, é inexorável para os ministros do Senhor. Ao mesmo tempo que desculpa os seus próprios crimes, não perdoa aos Sacerdotes uma fraqueza. E muito longe de encobrir, com o seu silêncio, os escândalos que neles vê, publica-os aos quatro ventos. Fá-los correr de paróquia em paróquia, de diocese em diocese. Perpetua-os, e dá-lhes uma espécie de imortalidade, bem lamentável.

O mundo quereria que durasse cem anos, e talvez até ao fim dos séculos, muitas almas pequem, se pervertam e se condenem, em consequência de um pecado cometido por um sacerdote escandaloso. A censura que faz cair sobre o seu mau proceder, recai indiretamente sobre todos os membros do Clero. Imputa os mesmos vícios aos que exercem as mesmas funções. Chega até a tratar como fábulas, as verdades mais sagradas, só porque é testemunha da sua oposição com os costumes daquele que as ensina. Se este Sacerdote, dizem, cresse o que prega, portar-se-ia assim? Eis, pois, a honra do Clero manchada, o zelo dos bons Sacerdotes paralisado, a piedade destruída, os sacramentos abandonados ou profanados, a fé quase extinta em vastas regiões, milhares de almas perdidas em consequência dos escândalos dados por um Sacerdote e um Pastor de almas. (…) “Vae homini illi!” Ai daquele homem por quem vier o escândalo! Se, ó Deus, todo-poderoso, se castigais de um modo tão terrível o escândalo dado a um só dos vossos filhos, que suplício reservais àquele que tiver escandalizado as multidões, e os povos?

E  o escândalo pode ser dado de de três maneiras diferentes: 1-  De intenção e perversidade; 2- De tibieza e de negligência; 3- De leviandade e de imprudência.

1º) Escândalo de intenção e de perversidade. – O homem do Santuário, que leva o esquecimento dos seus deveres até espalhar em volta de si um cheiro de morte, justifica de sobra a máxima: Corruptio optimi pessima = a corrupção do ótimo é péssima. Todavia, quando falamos do escândalo de intenção, não afirmamos que alguém perca as almas, pelo gosto de as perder. Este escândalo que é propriamente o de Satanás, só seria possível em um sacerdote que atingisse o último grau de perversidade. Mas, sem chegarmos a este ponto, sabe-se que certa palavra, certa ação, certo procedimento são capazes de ferir a consciência do próximo; vêem-se as consequências funestas, que de certo pecado podem resultar para a honra do Sacerdócio, e não se recua, comete-se. Este desgraçado Sacerdote ilude-se a si, para pecar livremente; abusa até da autoridade, do ascendente que lhe dá o seu estado, para abalar uma virtude, de que ele devia ser o amparo. (…)

2º) Escândalo de tibieza e negligência. – Este inspira menos horror que o primeiro; mas as consequências podem ser também deploráveis. Ai! e quão comum é ele! Se os costumes de um sacerdote não são um modelo, tornam-se um perigo; se não ensina a piedade com sua vida, inspira, autoriza, multiplica o vício. A vida do Sacerdote deve ser a censura não só das desordens públicas, mas ainda das falsas virtudes, que o mundo desejaria substituir às virtudes evangélicas. A sua separação de tudo o que é profano; sua modéstia, sua santidade devem recordar incessantemente aos seculares: que os verdadeiros cristãos são homens mortos para si mesmos, cuja vida está escondida com Jesus Cristo em Deus. Já conhecemos as exigências do mundo em matéria de santidade sacerdotal. Quer que o ministro de Deus seja um Anjo, isento de todo o defeito, adornado de todas as virtudes; se vê qualquer coisa de menos, admira-se, escandaliza-se. Se há exageração nas suas ideias neste ponto, esclareçamos os juízos do mundo, mas não os desprezemos. Relações com os seculares, funções desprezadas ou mal exercidas. Oh! quão numerosas são as ocasiões de escândalo, para um homem do Santuário, par um pastor de almas!

3º) Escândalo de leviandade e de imprudência.  É uma grande vitória para o inimigo das almas, se pode servir-se, para as perder, daqueles mesmos que Deus elegera para as salvar. Pouco lhe importa o modo como o auxiliam os ministros do Senhor; a leviandade e a imprudência servem-lhe quase tão eficazmente como o crime. Na realidade, a falta de prudência e de circunspeção nunca é inocente em um homem encarregado de interesses tão graves, e obrigado, por tantas leis, a uma vida que deve ser a mais séria e refletida. A um Sacerdote não se lhe admite, tão facilmente como a qualquer pessoa, a desculpa de que não pensava nisso; pois ninguém, tanto como ele, deve considerar atentamente o que diz e faz, quando, e em presença de quem o diz e o faz. Não basta que seja santo, é necessário que o mostre, e o mostre em tudo. Uma pergunta, uma palavra indiscreta, um gracejo, uma leviandade, em passo inconsiderado, têm sido muitas vezes semente de escândalo, desgraçadamente muito fecunda. Quantos eclesiásticos, em seu trato com o mundo, em suas viagens, mesmo no interior de sua casa, no meio das crianças e sobretudo no meio de pessoas de outro sexo, etc, porque desprezam precauções que a malignidade tornou indispensáveis, dão lugar a suspeitas, que ofendem a honra do Clero, e vêm a ser ocasião de ruína para as almas.

(Artigo extraído do livro “MEDITAÇÕES SACERDOTAIS” de autoria do R. P. Chaignon, S. J.).

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11 agosto, 2017

O Concílio Vaticano II e a Mensagem de Fátima.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 2-8-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comRorate Coeli, Corrispondenza Romana e outras publicações católicas reproduziram uma valiosa intervenção de Dom Athanasius Schneider sobre a “interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a atual crise da Igreja”. De acordo com o Bispo Auxiliar de Astana, o Vaticano II foi um Concílio pastoral e seus textos devem ser lidos e julgados à luz do ensinamento perene da Igreja.

De fato, “do ponto de vista objetivo, os pronunciamentos do Magistério (Papas e concílios) de carácter definitivo têm mais valor e mais peso frente aos pronunciamentos de carácter pastoral, os quais são, por natureza, mutáveis e temporários, dependentes de circunstâncias históricas ou respondendo às situações pastorais de um determinado tempo, como é o caso com a maior parte dos pronunciamentos do Vaticano II”.

Ao artigo de Dom Schneider seguiu-se, em 31 de julho, um equilibrado comentário do padre Angelo Citati, FSSPX,  segundo o qual a posição do bispo alemão se assemelha àquela reafirmada constantemente por Dom Marcel Lefebvre: “Dizer que avaliamos os documentos do Concílio ‘à luz da Tradição’ significa, evidentemente, três coisas inseparáveis: que aceitamos aqueles que estão de acordo com a Tradição; que interpretamos segundo a Tradição aqueles que são ambíguos; que rejeitamos aqueles que são contrários à tradição” (Mons. M. Lefebvre, Vi trasmetto quello che ho ricevuto. Tradizione perenne e futuro della Chiesa, editado por Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, Sugarco Edizioni, Milão 2010, p. 91).

Tendo sido publicado no site oficial do Distrito italiano, o artigo do padre Citati também nos ajuda a compreender qual poderia ser a base para um acordo visando regularizar a situação canônica da Fraternidade São Pio X. Devemos acrescentar que, no plano teológico, todas as distinções podem e devem ser feitas para interpretar os textos do Concílio Vaticano II, que foi um Concílio legítimo: o vigésimo primeiro da Igreja Católica. Dependendo do respectivo teor, esses textos poderão então ser classificados como pastorais ou dogmáticos, provisórios ou definitivos, conformes ou contrários à Tradição.

Em suas obras mais recentes, Mons. Brunero Gherardini nos dá um exemplo de como um juízo teológico, para ser preciso, deve ser articulado (Il Concilio Vaticano II un discorso da fare, Casa Mariana, Frigento 2009 e Id., Un Concilio mancato, Lindau, Turim 2011). Para o teólogo, cada texto tem uma qualidade diferente e um grau diverso de autoridade e cogência. Portanto, o debate está aberto.

Do ponto de vista histórico, contudo, o Vaticano II é um bloco inseparável: tem sua unidade, sua essência, sua natureza. Considerado em suas raízes, no seu desenvolvimento e em suas consequências, ele pode ser definido como uma Revolução na mentalidade e na linguagem que mudou profundamente a vida da Igreja, iniciando uma crise religiosa e moral sem precedentes.

Se o juízo teológico pode ser matizado e indulgente, o juízo histórico é implacável e inapelável. O Concílio Vaticano II não foi apenas um Concílio malogrado ou falido: foi uma catástrofe para a Igreja.

Uma vez que este ano marca o centenário das aparições de Fátima, convém debruçar sobre a seguinte questão: quando, em outubro de 1962, inaugurou-se o Concílio Vaticano II, os católicos de todo o mundo esperavam a revelação do Terceiro Segredo e a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. O Exército Azul de John Haffert (1915-2001) liderou durante anos uma maciça campanha nesse sentido.

Haveria melhor ocasião para João XXIII (falecido em 3 de Junho de 1963), Paulo VI e os cerca de 3000 bispos reunidos em torno deles, no coração da Cristandade, corresponderem em uníssono e solenemente aos desejos de Nossa Senhora? Em 3 de fevereiro de 1964, Dom Geraldo de Proença Sigaud entregou pessoalmente a Paulo VI uma petição assinada por 510 bispos de 78 países, na qual se implorava que o Pontífice, em união com todos os bispos, consagrasse o mundo, e de maneira explícita a Rússia, ao Imaculado Coração de Maria. O Papa e a maioria dos Padres Conciliares ignoraram o apelo. Se a consagração pedida tivesse sido feita, uma chuva de graças teria caído sobre a humanidade. E um movimento de volta à lei natural e cristã teria iniciado.

O comunismo teria caído com muitos anos de antecedência, de maneira não fictícia, mas autêntica e real. A Rússia se teria convertido e o mundo teria conhecido uma era de paz e de ordem, como Nossa Senhora prometera. A consagração omitida concorreu para que a Rússia continuasse a espalhar seus erros pelo mundo, e para que esses erros conquistassem as cúpulas da Igreja Católica, atraindo um castigo terrível para toda a humanidade. Paulo VI e a maioria dos Padres Conciliares assumiram uma responsabilidade histórica, cujas consequências bem podemos hoje medir.

11 agosto, 2017

Papa intima religiosos belgas a deixar de oferecer eutanásia a doentes mentais.

Cidade do Vaticano (RV) – A Sala de Imprensa da Santa Sé confirma que o Papa Francisco ordenou ao ramo belga do Instituto religioso dos Irmãos da Caridade para por fim até este mês de agosto à prática de oferecer a eutanásia aos pacientes psiquiátricos internados nas estruturas que administra.

A ordem foi transmitida pela Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica ao Superior Geral do Instituto, Frei René Stockman. Caso não for atendida, será ocasião para severos procedimentos canônicos, que podem incorrer em excomunhão.

O próprio Stockman havia afirmado à Agência dos bispos estadunidenses CNS que o Papa havia aprovado pessoalmente a intimação para que os métodos em uso fossem interrompidos até agosto pela instituição, que administra 15 centros para pacientes com problemas psiquiátricos.

Uso da eutanásia

O grupo dos Irmãos da Caridade havia anunciado em maio que permitiria que os médicos realizassem a eutanásia em seus 15 hospitais psiquiátricos na Bélgica – país que junto com a Holanda autoriza o uso da eutanásia em pacientes com problemas de saúde mental. A instituição de caridade disse em uma declaração que a eutanásia só seria realizada caso não houvesse “nenhuma alternativa de tratamento razoável”. A eutanásia vai contra os princípios da Igreja Católica e a Santa Sé começou a investigar a decisão do conselho de administração do grupo em permitir a prática da eutanásia. Magistério da Igreja.

Os religiosos que fazem parte do conselho do Grupo Irmãos da Caridade deverão assinar uma carta a ser enviada ao Superior Geral declarando que “apoiam plenamente a visão do Magistério da Igreja Católica, que sempre confirmou que a vida humana deve ser respeitada e protegida em termos absolutos, desde o momento da concepção até seu fim natural”.

Os irmãos que se recusarem a assinar tal declaração sofrerão sanções com base no Direito Canônico, enquanto o grupo poderá sofrer ações legais, o que contempla até mesmo a expulsão da Igreja caso não houver mudança nos métodos usados. “O grupo – acrescentou Stockman – não deve mais considerar a eutanásia, em nenhuma circunstância, como solução para os sofrimentos humanos”. (JE/AP)

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9 agosto, 2017

A Venezuela e o Superior dos Jesuítas.

Por Pedro Rizo, Periodista Digital, 2 de novembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: A Venezuela auspicia se tornar a sucessora da Cuba Castrista, como uma nova plataforma de ação revolucionária-marxista-comunista para toda a América Latina. Basta ir até lá e conhecer de perto através de seus próprios agentes aquilo que um turista acidental não pode ver. Testemunhas objetivas que conhecem os que foram comprados — Venezuela, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador… tendem a igualar o ambiente das comunidades “trabalhadas” com o mais sinistro do bolchevismo.

superior jesuita

Padre Arturo Sosa Abascal (à esquerda da foto) “reza” com budistas.

E o pior nas atuais circunstâncias é o surgimento de um novo Superior Geral da Companhia de Jesus, um venezuelano, que não parece tanto um substituto natural do Padre Adolfo Nicolás, mas muito mais um reforço para “flagelo satânico do comunismo” com” objetivos intrinsecamente perversos” para toda a América Latina de tradição cristã. Os termos entre aspas são do Papa Pío XI. (cfr. Divini redemptoris).

Há alguns anos, este escritor costumava visitar a Casa de Retiro dos Jesuítas aposentados em Alcalá de Henares, sempre no dia 31 de Julho. Eu tinha um débito de gratidão e reverência para com alguns padres jesuítas que me dedicaram impagável aconselhamento durante minha juventude. Muitos ainda estavam vivos quando Hugo Chávez assumiu o poder na Venezuela. E uma vez que haviam ali residentes que por muito tempo realizaram trabalho missionário pela América, naturalmente cheguei a tomar conhecimento através de um deles de algo que merece ser reportado, ou seja, que quando o Coronel Chávez cumpria prisão no cárcere de Yera por causa de sua primeira tentativa de golpe, foi visitado uma ou duas vezes por semana por um padre jesuíta. Foram dois anos e três semanas que renderam muito fruto, visto que foi esse Jesuíta que o instruiu no populismo que hoje impera na Venezuela. Não me revelaram o nome dele, mas…

Será que ainda existe a Companhia de Jesus? 

Essa é a pergunta: será que eles ainda existem? Há décadas que a América indígena está sob ação missionária de orientação marxista-leninista, principalmente por parte dos jesuítas. O que pesa hoje mais do que nunca na ordem de Santo Inácio é essa sua fixação entre esses dois abismos, entre o paganismo e o Evangelho. Uma vertigem que é mais do que evidente no atual ocupante da Santa Sé, “chame-me Jorge”.

Seria necessário  propor um estudo sobre as origens desta deriva para o comunismo que tanto infectou os jesuítas. Alguns indícios já são conhecidos.

Em 1938, Pedro Arrrupe, o pupilo de Juan Negrín, (1) finalmente obteve o seu tão solicitado posto para as cidades da área de Kobe, a maior e mais florescente concentração judaica no Japão, perto de Hiroshima e Nagasaki.

Padre Arrupe confrontou com admirável determinação a enorme ferida causada pelas bombas atômicas, sendo imediatamente reconhecido como Superior da Companhia no Japão. Anos mais tarde, visitou os Estados Unidos e viajou por toda a América hispânica, conectando-se com as suas missões, uma vez que criava redes de apoio para o seu projeto de ação revolucionária. (Cf. Malachi Martin, Jesuítas ; De la Cierva, Puertas del Infierno).

Um notável padre, Bartolomé Sorge, SJ, (2) no final da Congregação Geral XXXII (1975), com muita razão, detectava que a Companhia havia se dividido em duas: a “A”, Inaciana, e a “B”, sob o jargão de Opção preferencial pelos pobres. Justamente em 1974, o Padre Arrupe veio a substituir o Padre Janssens como Superior Geral e com seu impulso estendeu por toda a Ordem o Modernismo, ou seja, aquele conjunto de atitudes perante a Fé que São Pio X condenou como a síntese de todas as heresias. Naqueles anos 70, quem governava a Igreja era Paulo VI — Giovanni Batista Montini, irmão de Ludovico e Francesco, esse último brigadista de Stalin na Guerra Espanhola, que veio a dar continuidade à obra de João XXIII, e que não foi por acaso um discípulo e admirador de Ernesto Buonaiutti, líder do Modernismo, duas vezes suspenso de sua docência e finalmente excomungado.

O magnífico patrimônio histórico — realidades patrimoniais que pertencem à Igreja –teria ficado mofado devido a um falso prestígio (teológico?) e bem acompanhado por uma linguagem deplorável e demagógica.

Sobre a história recente do que antes podia ser chamada a Companhia de Jesus se somaram tantas interpretações que ninguém sabe qual se enquadra com a realidade. Uma imprecisão que se manifesta tanto nas mudanças de seus Superiores como na deriva do Cristianismo e a ascensão vertiginosa do materialismo. Uma dura realidade que é confirmada pela eleição do venezuelano Arturo Sosa Abascal, o novo Superior.

Sobre ele é necessário que se leia algo interessante.

Circulou por esses dias uma carta aberta em inglês — de alguém que o conhece em suas características mais reveladoras. Então, resolvi destacar alguns parágrafos da mesma.

Há muito tempo que conheço o Padre Arturo Sosa Abascal. (…)

Em primeiro lugar, ele fez do marxismo os óculos através dos quais ele vê tudo, incluindo o magistério católico (que ele chama simplesmente de “fé cristã”). Juntamente com muitos outros jesuítas na Venezuela, ele vem trabalhando há décadas para montar comunidades cristãs de base, comprometidas com a construção de sociedades socialistas na América Latina (…) Comunidades que vivem o marxismo e o cristianismo (…) Completada essa tarefa, o Padre Sosa agiu para reconstruir esta teologia comprometida com as “bases” , como um princípio e guia.

Princípio e guia que se expressa em toda a “Nova Evangelização”: livros, catequese, homilias, aulas, boletins… tudo e muito mais, transmissor  do”ensino” que se segue:

A fé cristã significa ser capaz de se aproximar “do outro”, ou seja, “dos pobres”, “do oprimido”, que se convertem no alvo da “mira”.

Estes alvos da mira são diluídos em um marxismo de combate… leninista. Naturalmente, “em defesa dos pobres,” sem dúvida … Por favor! Sim, esse é o meio mais eficaz para erradicar o Cristianismo! Uma instrumentalização retórica que deixa o pobre mais pobre do que já era. Cumpre-se assim a advertência do mestre Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido como Lenin: “Não há necessidade de elevar o nível dos pobres, pois senão eles voltarão a morder a mão que os alimenta”.

Se quisessem realmente trabalhar pelos pobres, ajudariam-nos e educariam-nos no estilo antigo da Companhia de Jesus, ajudando-os a levantar a cabeça, a ganhar uma vida digna e segura. Um cristão mergulhado na pobreza quer mais é deixar de ser pobre e não que os ricos percam a sua riqueza. Muito menos confiscá-la. Para mais e melhor dizer, não inveja as riquezas que são medidas apenas com dinheiro, mas sim aquela riqueza segura fundamentada na felicidade de uma boa consciência. De fato, esses últimos são invejados por aqueles ricos apenas de dinheiro. Sabemos que é mais rico em sua nobreza e em sua educação cristã o servo fiel em sua casa e na sua paróquia do que o dissoluto presunçoso em sua fortuna herdada. “Pobrezinho do meu patrão, ele pensa que o pobre sou eu”!

No entanto, erro por erro, o novo Superior dos Jesuítas ensina:

Assim, a fé é mediada por outros grupos de homens. O homem de fé tem uma abordagem científica à realidade e deve escolher qual abordagem científica a adotar (Conceito importante:. ‘Científico’, sugerindo que seja algo indiscutível e axiomático). A fé deverá ser mediada por essa opção. Portanto, neste momento da história (a história presumida pelo Pe. Sosa,), a mediação correta é a do marxismo, porque o marxismo é a abordagem científica libertadora, já que é a melhor maneira de desmascarar os poderosos e guiar a luta dos pobres.

Como teólogo liberacionista, ele rejeita a transcendência do Reino de Cristo, ele propõe uma salvação política, adota o materialismo e até mesmo o ateísmo e concorda que o Cristianismo deve libertar o povo politicamente, como fez Moisés com Israel.

É devastador pensar que o desertor da mais alta patente da década de 1970, Ion Mihai Pacepa tenha revelado em 2015 para a ACIprensa seus pontos de vista sobre a conexão entre a União Soviética e a teologia da libertação. Sua declaração repetiu o que seu superior até 1956, o general soviético Aleksandr Sakharovsky, chefe do serviço de inteligência estrangeiro na Roménia entre 1956-1971, falava da Teologia da Libertação como um sistema desenvolvido pela KGB para subverter a população ameríndia.

Dos trabalhos do jesuíta Sosa Abascal sobre o marxismo, vale a pena ler seu artigo “A mediação marxista da fé cristã”.  O título que já traz um Cristo com um par de pistolas: a filosofia mais materialista e ateísta tomada como viaduto da religião cristã. Se estes homens são sinceros, eles estão loucos; se eles não estão, é porque não são mais Católicos.

Mas terminemos de ler a carta:

Em 1989, houve uma revolta popular em Caracas devido ao trabalho de um ministro esquerdista da Economia. Descobriu-se mais tarde que Fidel Castro estava por trás disso. As “Comunidades de base” dos jesuítas trabalharam ativamente e a rádio dirigida pelos jesuítas desempenhou um papel subversivo ativo. Assim, eles tornaram-se corresponsáveis pela morte de 2.000 pessoas.

Mais tarde, os jesuítas favoreceram ativamente a chegada da Revolução Chavista (o que vem comprovar a ação na prisão Yera). Houve padres que se opuseram a Chavez, é verdade. E alguns muito fortemente. (…) em abril de 2002. Enquanto Chávez foi derrotado por um par de dias, ouviu-se o Padre Sosa proclamando que os “cristãos” das comunidades de base defenderiam a Revolução até a morte e que a “direita” (?) iria conhecer a força da Revolução”.

Este homem, que trabalhou toda a sua vida para reinterpretar o Cristianismo a partir de uma abordagem marxista, que não só ficou na “teoria”, mas que foi diretamente revolucionário, é que os jesuítas elegeram agora como seu Superior geral. (…)

E o autor da carta termina, pois, contrastando as supostas metas com resultados reais:

Em busca de quê esses revolucionários ainda se agitam? Na Venezuela, eles sistematicamente destruíram as infra-estruturas de produção, a agricultura, a indústria, a administração pública, os tribunais, os hospitais, as escolas e até mesmo a indústria de energia que sustenta o país. Eles já assassinaram milhares de pessoas, mantêm o país em uma fome desastrosa nunca antes vista em tal escala nas Américas. Em busca do que eles estão…? Provavelmente, a única explicação é a seguinte: a destruição completa do mundo de Deus, a fim de construir um “Novo Mundo” na História … (Sem Deus)

Que Deus nos proteja do submundo revolucionário.

Que Deus transforme os corações e abra os olhos de seu povo.

E acima de tudo que Cristo proteja a sua Igreja.-

Comentário final:

A deriva marxista da ‘Companhia B’ povoada hoje em dia por loucos de prestígio, ou seja, a Arrupiana da opção preferencial pelos pobres, é tão comprometida com essas metas que se faz urgente enfrentá-la; essencialmente pela desidentidade que nela está encerrada.

Para muitas boas cabeças, tal transformação indica que a Ordem Inaciana já não existe mais. De modo que fingir que ela ainda existe induz ao erro e ao suicídio. Ou à esquizofrenia entre o que se vê e o que não se quer ver. Porque dizer que se serve ao Evangelho trabalhando por uma revolução explosiva, destrutiva e violenta é absolutamente perverso. Que o Bispo de Roma, Francisco, antes Jorge Mario Bergoglio, faça declarações equiparando o comunismo ao Cristianismo, é uma ofensa cuja medida nos escapa se formos comparar ao número de mártires, prisões, coerção… Sua desqualificação chega tarde demais, pois agora já é inevitável uma desinfecção geral com cirurgia invasiva.

E é que não executar as ações devidas, calar sem vergonha e covardemente, acaba por obscurecer de tal modo as consciências dos fiéis, que no Dia do Juízo será mais difícil se apresentarem como fiéis.

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(1) Juan Negrín presidiu o governo da Segunda República Espanhola e a Frente Popular, de 1937 a 1939. Era a figura mais controversa da Guerra Civil Espanhola. “A figura de Negrin foi objeto de intenso debate em seu tempo. Ele se comportou como um servo fiel da conspiração comunista pago pela URSS. “(Wikipedia) Visitou Arrupe numa  viagem anterior a partir de Madrid para Bilbao treze horas trem- para não abandonar a carreira de Medicina, o que explica viagem tão pesada , seu futuro político brilhante. O futuro político brilhante e as razões para o seu abandono para entrar no noviciado em Loyola, só eles sabiam, mas é muitomais  eloquente a satisfação Dr. Negrin quando eles se separaram com um abraço “Sempre me caiu bem” (Uma explosão na Igreja, Pedro Miguel Lamet).

(2) Civilta Cattolica 1974: “XXXII della Compagnia Generale Congregazione de Jesus. O preparazione e le attese “Volume IV, 1974, p.424 para p.434 de e P.526 para p.539. Uma boa biblioteca acessível na Companhia.

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