29 setembro, 2016

Papa Francisco fracassou?

Por Matthew Schmitz, The New York Times, 28 de setembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Quando o papa Francisco subiu à cátedra de São Pedro, em março de 2013, o mundo olhou com admiração. Aqui, finalmente, estava um papa alinhado com os tempos, um homem que preferia gestos espontâneos ao invés da formalidade dos rituais. Francisco pagava sua própria conta do hotel e se livrou dos sapatos vermelhos. Ao invés de se mudar para os grandiosos apartamentos papais, instalou-se na aconchegante pousada para os visitantes do Vaticano. Além disso, ele estabeleceu um novo tom não dogmático com declarações, como “Quem sou eu para julgar?”.

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Observadores previram que o calor, a humildade e o carisma do novo papa daria impulso ao chamado “efeito Francisco” – trazendo de volta Católicos descontentes com uma Igreja que já não parece tão fria e cheia de proibições. Após três anos de seu papado, as previsões continuam. No inverno passado, Austen Ivereigh, o autor de uma excelente biografia do Papa Francisco, escreveu que essa postura mais suave do papa sobre a comunhão aos divorciados recasados “poderia desencadear um retorno às paróquias em grande escala.” Em seus primeiros tempos, a ordem Jesuíta de Francisco trabalhou para trazer os protestantes de volta ao rebanho da Igreja. Poderia Francisco fazer o mesmo com os Católicos cansados de manchetes sobre abuso infantil e guerras culturais?

Em certo sentido, as coisas mudaram. Percepções sobre o papado, ou pelo menos sobre o papa, melhoraram. Francisco é bem mais popular do que seu predecessor, o Papa Bento XVI. Sessenta e três por cento dos Católicos norte-americanos aprovam Francisco, enquanto apenas 43 por cento aprovavam Bento no auge de sua popularidade, de acordo com uma pesquisa de opinião do New York Times em 2015 e da CBS News. Francisco também colocou uma grande ênfase em buscar os Católicos descontentes.

Mas os Católicos estão realmente voltando? Pelo menos nos Estados Unidos, isso não aconteceu. Novas pesquisas do Centro Georgetown de Pesquisa Aplicada em Apostolado sugerem que não houve nenhum efeito Francisco – pelo menos, nenhum positivo. Em 2008, 23 por cento dos Católicos norte-americanos assistiam missa todas as semanas. Oito anos mais tarde, a participação semanal na missa manteve-se estável ou diminuiu ligeiramente, em 22 por cento.

É claro, os Estados Unidos são apenas uma parte de uma Igreja global. Mas os pesquisadores da Georgetown descobriram que certos tipos de prática religiosa entre os jovens Católicos americanos estão mais fracas agora do que sob Bento XVI. Em 2008, 50% da geração deste milênio relatou o recebimento de cinzas na Quarta Feira de Cinzas, e 46% disseram que fizeram algum sacrifício, além da abstenção de carne às sextas-feiras. Este ano, apenas 41%  relatou o recebimento de cinzas e apenas 36% disseram que fizeram um sacrifício extra, de acordo com o Centro Georgetown de Pesquisa Aplicada em Apostolado. Apesar da popularidade pessoal de Francisco, os jovens parecem estar se afastando da fé.

Por que a popularidade do papa não revigorou a igreja? Talvez seja muito cedo para julgar. Nós provavelmente não teremos uma medida completa de qualquer efeito Francisco até que a Igreja seja dirigida por bispos nomeados por ele e padres que adotam sua abordagem pastoral. Isso vai levar anos ou décadas.

No entanto, existe algo mais fundamental que atravanca o caminho do efeito Francisco. Francisco é um Jesuíta, e como muitos membros de ordens religiosas Católicas, ele tende a ver a Igreja institucional, com as suas paróquias, dioceses e formas assentadas, como um obstáculo à reforma. Ele descreve os párocos como “monstrinhos” que “atiram pedras” no pobres pecadores. Ele deu aos funcionários da Cúria um diagnóstico de “doença espiritual de Alzheimer”. Ele repreende ativistas pró-vida por sua “obsessão” contra o aborto. Ele chama os Católicos que colocam ênfase em ir à missa, frequentar confissão e fazer orações tradicionais de “Pelagianos” – ou seja, pessoas que acreditam hereticamente que podem ser salvos por suas próprias obras.

Tais denúncias desmoralizam os Católicos fiéis, sem dar aos descontentes qualquer motivo para voltar. Afinal, por que participar de uma igreja cujos sacerdotes são pequenos monstros e cujos membros gostam de atirar pedras? Quando o próprio Papa põe mais ênfase em estados espirituais internos do que na observância do ritual, há pouca razão para entrar na fila da confissão ou acordar para ir à missa.

Mesmo os fãs mais ardorosos de Francisco preocupam-se e acham que sua agenda está atrasada. Quando foi eleito, Francisco prometeu fazer uma faxina nas finanças corruptas do Vaticano. Três anos depois, ele começou a recuar em face da oposição, abrindo mão de uma auditoria externa e tirando poderes de seu homem escolhido a dedo. Francisco também se esquivou de grandes mudanças em questões doutrinárias. Em vez de endossar explicitamente a comunhão para os casais divorciados e recasados, ele calmamente incentivou-os com uma piscadela de olho e um aceno de cabeça.

Francisco construiu sua popularidade às custas da Igreja que ele lidera. Aqueles que desejam ver uma Igreja mais forte terão que esperar por um tipo diferente de papa. Em vez de tentar suavizar a doutrina da Igreja, tal homem teria que falar de um modo que a sólida disciplina possa conduzir à liberdade. Confrontar uma era hostil com as estranhas afirmações de Fé Católica pode não ser popular, mas, com o tempo, pode provar ser eficaz. Até mesmo Cristo foi recebido com as vaias pela multidão.

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29 setembro, 2016

Continua a consulta pública no site do Senado sobre o aborto – Vote contra!

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Vote CONTRA a pertinência do projeto aqui.

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28 setembro, 2016

Francisco abre a porta até para aqueles que não têm as vestes nupciais. Mas, o que diz o Proprietário da casa?

Por Sandro Magister | Tradução: FratresInUnum.com: Recebi e publico. A autora da primeira carta é uma consagrada de clausura. O autor da segunda é um renomado advogado criminal no foro de Nápoles.

nozzeTanto uma como outra intervêm na questão da comunhão para os divorciados novamente casados. A segunda, em particular, foi escrita após a leitura de “Amoris Laetitia” feita pelo Cardeal Vigário de Roma Agostino Vallini, que eu publiquei num post anterior.

Ambos estão entre aquelas “ovelhas fiéis”, mencionadas pelo cardeal Camillo Ruini na entrevista ao “Corriere della Sera”, em 22 de setembro, quando ele disse que reza ao Senhor “para que a busca indispensável pela ovelha perdida não coloqueem dificuldade a consciências das ovelhas fiéis”.

Com eles, a palavra.

Caro Magister,

Sou uma consagrada na vida de clausura e estou acompanhando muito atentamente e, na medida do humanamente possível, sem preconceitos, o debate sobre a comunhão para divorciados novamente casados, para tentar entender se qualquer decisão do Papa a este respeito realmente se insere dentro de suas prerrogativas – ou seja, o poder das chaves – ou se a intenção é fazer dessas chaves uma duplicata à revelia do Proprietário da casa, para introduzir, por engano, aqueles que não têm as vestes nupciais (Mt 22: 1-14)  faltando assim com a confiança depositada.

Quero apresentar-lhe um argumento muito simples na forma, mas essencial no conteúdo, para tentar compreender o cerne do problema.

Se a Igreja dá a oportunidade de comungar àqueles que foram incapazes de percorrer o caminho da nulidade do casamento anterior, e optaram por se casar novamente no civil ou convivem com uma outra pessoa apesar de continuarem unidos sacramentalmente com o primeiro cônjuge (“uma só carne”, diz o Proprietário), então isso significa que a Igreja considera possível que se possa acolher o sacramento da santidade infinita de Deus, fazendo-O conviver tranquilamente na mesmíssima casa – corpo e alma do receptor – com o pecado, porque o adultério continuaria ainda sendo um pecado, a menos que se altere a doutrina.

Isso parece-lhe possível? Eu diria definitivamente não, se conhecemos ainda remotamente, o que é o pecado. E é o próprio Deus a nos recordá-lo com a Imaculada Conceição de Maria, que foi preservada do pecado justamente tendo em vista o fato de que receberia em seu corpo a hóstia sagrada, que é o verdadeiro Corpo e Sangue de Jesus.

Por quê? Porque é prerrogativa de Deus não coabitar com o pecado!

Eu penso que na fúria de tentar tergiversar sobre os aspectos jurídicos e emocionais, que são de cunho puramente humanos, se perde de vista a dimensão sobrenatural da nossa vida, a face do Deus eterno e santo e o misterioso poder de seu comando, isto é, de Sua vontade que não tem que ser necessariamente compreendida, mas tão somente acolhida e obedecida, porque vem Dele.

Receber a Eucaristia em um estado de pecado grave significa não só violar um mandamento, mas, também aqui está a impiedade: forçar o Senhor a conviver com o mal. Comete-se uma abominação, e para usar uma palavra que soa muito mal aos nossos ouvidos modernos, é este o elo que falta na interminável discussão sobre o assunto: a santidade de Deus.

Por que querem dar às pessoas que estão nesta situação a possibilidade de cair em um pecado tão terrível? A Igreja realmente quer sugerir a seus filhos que o Santo de Deus e o Divisor por excelência possam estar juntos?

Esse é o coração do problema: que o pecado seja removido porque não querem reconhecê-lo como tal, porque irrita e atua como um obstáculo aos nossos planos. Mas esta remoção, retirando-o do seu lugar de direito, no final só servirá apenas para colocá-lo, paradoxalmente, no mesmo “lugar” de Deus.

Estamos percebendo o que significa esta mudança?

“A tentativa terrivelmente insensata, e ainda assim excitante até as raízes, de destronar Deus, de rebaixá-Lo de grau, de destruir Deus … o homem tem que admitir a profundidade absoluta do pecado … ele deve depor o orgulho de seu destino, desfazer-se da teimosia de querer fazer o seu próprio negócio, de viver por conta própria, e aprender a humildade enquanto busca a graça “(Romano Guardini, “O Senhor “, p. 175).

Muitos vão objetar: mentalidade de Antigo Testamento, quando ainda não havia a misericórdia trazida por Jesus. Mas eles estão errados e muito.

O “foi dito” e “porém eu vos digo” de Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5-7) – portanto, no cenário das bem-aventuranças –  nos introduz na vida nova na qual a lei antiga e o moralismo cedem lugar à fé e à graça, mas pedem e exigem muito mais do que exigia a lei do Antigo Testamento, porque Jesus não está muito interessado em nos fazer sentir confortáveis na vida deste mundo, mas sim muito mais preocupado com a nossa salvação eterna.

A Redenção tem uma necessidade absoluta de fazer com que o pecado desapareça completamente e, portanto, não fazer jamais um pacto com ele. Com a “plenitude dos tempos” nos foi exigido o que não foi exigido ao homem do Antigo Testamento: a totalidade da obediência, porque agora, com a redenção, fomos capacitados a colocá-la em prática. Ao dizer “Ouvistes o que foi dito aos antigos: não cometerás adultério … Mas eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher com intenção impura, já adulterou”, Jesus diz que o significado do mandamento é mais profundo, vai até a intenção, porque é da intenção que nasce a ação (ainda citando Guardini, p. 116).

No longo discurso de Jesus não encontramos uma misericórdia barata, como a entendemos, mas uma concepção de pecado bem refinada, não grosseira, num crescendo de tom e de tensão, tanto que, no final, o evangelista deve tomar nota de que “a multidão ficou assustada com o seu ensinamento” (Mt 7, 28).

Para Jesus não interessa uma pura doutrina dos costumes morais, mas uma existência plena, totalmente redimida. Então procuremos entender que não se trata de conceder um direito a alguém (mentalidade legalista), mas de querer meter as mãos sobre a santidade de Deus. O que se está tentando fazer é tocar o intocável e “forçá-lo” a conviver com o senhor do Mal.

O não receber a Eucaristia, nos casos de que falamos, não prejudica a salvação eterna, não tira o hábito nupcial que foi mencionado no início, ao passo que recebê-la indignamente faz perder tudo (1 Cor 11). Não afundemos pois nossos irmãos em um estado infinitamente pior do que aquele em que eles já se encontram. Isso é fazer o jogo do Inimigo.

Se a Igreja quer conceder essa possibilidade, significa que já os julga como mortos e, portanto, tem a intenção de forçar Deus a adotar suas orientações e contramedidas.

Mas quem somos nós para julgar antecipadamente estes irmãos e ditar tempos e modos a Deus? Nossos caminhos não são os vossos caminhos (cf. Is 55, 8).

Cordiais saudações e agradecimentos por seu trabalho.

Giovanna Riccobaldi

* * *

Caríssimo Magister,

A nota do cardeal Agostino Vallini sobre a “Amoris Laetitia” tem ares de uma escalada heróica sobre espelhos, uma torção em torno de um pau-de-sebo para tentar escalá-lo.

E todavia, o que falta, um pouco surpreendentemente, falta quase em todas as partes. Tanto na exortação como em muitos de seus comentários, favoráveis ou críticos que sejam.

Falta a graça. Aquela mesma graça que faz com que São Paulo diga – e é a palavra de Deus – “possum omnia in Eo qui me confortat” (Fl 4, 13). Aquela graça que nos impede de afirmar, enquanto Católicos, que é impossível praticar a continência. Difícil, extremamente difícil – por isso seria sábio e prudente evitar ocasiões próximas de pecado e separar as camas – mas jamais impossível.

De resto – no plano mesmo da lógica mais elementar – se Deus ordenasse o impossível, ao invés de um tirano, Ele seria um sádico. Enfim, é doutrina inalterável da Igreja, estabelecida e clarificada em Trento, que com a ajuda da graça de Deus todos podem praticar a virtude e a moralidade de acordo com seu estado de vida.

Parece-me que o verdadeiro nó da “Amoris Laetitia” seja esse: a visão horizontal que leva em conta apenas a natureza humana decaída e os hábitos contraídos por essa mesma natureza humana decaída, com a exclusão de todo o horizonte sobrenatural. Completamente! Psicologismos, sociologismos, filosofismos de conveniência: tem lugar para tudo quanto é bobagem menos um discurso sobre a graça. Que por si só consente – e se é possível, não é impossível; e se não é impossível, exige – de cada um de nós que se respeite o Decálogo e os deveres específicos do nosso estado. Incluindo, por exemplo a castidade sacerdotal, matrimonial e extramatrimonial .

E a propósito dessa última, como podemos colocá-la  – também o Cardeal Vallini – com o fato de que, assumindo e jamais consentido que no foro interno se possa deliberar sobre a nulidade de um casamento anterior, sendo que os dois permaneceriam solteiros perante a Igreja e, portanto, não habilitados ao matrimônio legal?

Obrigado novamente por tudo que tens feito e cordiais saudações “em Jesu et Maria.”

Giovanni Formicola

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27 setembro, 2016

Declaração internacional de fidelidade à Doutrina Imutável e Disciplina ininterrupta da Igreja sobre o Matrimônio – assine!

80 personalidades católicas reafirmam sua lealdade ao Magistério da Igreja sobre a família e moral católicas. 

Por Rorate Caeli | Tradução: FratresInUnum.com:  Uma declaração de fidelidade ao ensinamento imutável da Igreja sobre o Matrimônio e sua ininterrupta disciplina foi divulgada hoje por um grupo de 78 personalidades católicas, incluindo cardeais, bispos, padres e eminentes intelectuais, líderes de organizações pro-família e pro-vida e influentes figuras da sociedade civil.

A declaração foi publicada pela associação Supplica Filiale (Súplica Filial), a mesma organização que coletou, entre os dois sínodos sobre a família, aproximadamente 900 mil assinaturas de fiéis católicos (incluindo 211 prelados) em apoio ao pedido feito ao Papa por uma palavra de esclarecimento que dissipasse a confusão disseminada na Igreja sobre assuntos essenciais da moralidade natural e Cristã desde o consistório de fevereiro de 2014.

Observando que a confusão somente cresceu entre os fiéis após os dois sínodos sobre a família e a subsequente publicação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia (com suas interpretações adjacentes mais ou menos oficiais), os signatários da Declaração de Fidelidade sentem o urgente dever moral de reafirmar o imemorial ensinamento do magistério Católico sobre o matrimônio e a família e a disciplina pastoral praticada por séculos acerca dessas instituições básicas da civilização Cristã. Este grave dever, segundo os signatários, torna-se ainda mais urgente em vista do crescente ataque que forças seculares estão desencadeando contra o matrimônio e a família; ataque que parece não mais encontrar a costumeira barreira da doutrina e prática Católicas, ao menos do modo com que são hoje geralmente apresentadas à opinião pública.

Firmemente amparada por ensinamentos cristalinos e indisputáveis, confirmados pela Igreja em anos recentes, a Declaração está concatenada em cerca de 27 afirmações sustentando tais verdades explícita ou implicitamente negadas ou apresentadas ambiguamente na presente linguagem eclesial. De acordo com os signatários, o que está em jogo são as doutrinas imutáveis e as práticas relacionadas, por exemplo, à fé na Presença Real de Cristo na Eucaristia, o devido respeito por este Sacramento, a impossibilidade de receber a Comunhão em estado de pecado mortal, as condições para o verdadeiro arrependimento que permite o recebimento de absolvição sacramental, a observância do Sexto Mandamento da Lei de Deus, a seríssima obrigação de não causar escândalo público e de não levar o povo de Deus a pecar ou a relativizar o bem e o mal; os limites objetivos da consciência ao tomar decisões pessoais, etc.

A Declaração de Fidelidade já está disponível em inglês e italiano e, em breve, estará disponível também em francês, alemão, espanhol e português. Quem quiser aderir a seu conteúdo pode fazê-lo, assinando-a em  http://www.filialappeal.org

(* Para mais informações, contate: supplicafiliale@gmail.com)
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26 setembro, 2016

A busca desesperada pelo Catolicismo: A longa e turbulenta jornada de uma judia convertida à Igreja Católica.

Por Laura Evans, Culture Wars | Tradução: Daniel Sender – FratresInUnum.com:  Um ano após o começo de minha interminável jornada na tentativa de me tornar uma católica tive este pesadelo: estava presa no telhado de um arranha céu e várias pessoas estavam lá comigo. Um por um foram sendo resgatados até que apenas eu restasse lá, totalmente sozinha. Meu terror crescia enquanto o dia se tornava noite. Não tendo ajuda alguma a vista, decidi tomar a questão em minhas próprias mãos.

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Minha única esperança estava em descer pela lateral do prédio. Era um caminho traiçoeiro, mas de alguma forma consegui chegar ao térreo, onde encontro as pessoas que poderiam ter me resgatado. Caminho em direção a elas com lágrimas aos olhos e pergunto lamentosa, “Por que vocês não vieram ao meu resgate?” Todos eles me encaram com um olhar vazio, sem resposta. Acordei deste sonho soluçando.

Eu buscava desesperadamente me tornar católica, até que finalmente tentei entrar na Igreja Católica. Lá encontrei uma burocracia sem fim e entraves que fariam um dia no DETRAN parecer como um passeio no parque. Ao invés do apoio entusiástico que tinha encontrado nas igrejas protestantes, no catolicismo encontrei uma lentidão que pouco dizia respeito às palavras de Cristo, segundo as quais devemos prontamente fazer discípulos de todas as nações.

No protestantismo evangélico, onde inesperadamente me encontrei ao começo de meus 50 anos, as pessoas moveriam céu e terra buscando ajudar a mim e a outros a “nascerem novamente”. Não importava se a igreja estivesse fechando para o dia ou se os fiéis estivessem correndo atrás do bacon com ovos. Quando uma alma perdida vaga pela igreja – negócio como sempre – há uma parada brusca. Se o prédio cair em chamas os protestantes ainda assim estariam evangelizando, apesar dos bombeiros e do fogo. Mas e os católicos? Encontrei um universo completamente diferente, onde rígidas regras prevaleciam (mesmo aquelas que pareciam violar o Direito Canônico) e receber pessoas na Igreja parecia ser a última coisa na lista de coisas à fazer.

Mas como é que sequer cheguei a este mundo novo, sendo eu a pessoa mais improvável a querer me tornar católica? Minha história começa ao final de 2009, quando após uma vida inteira de Judaísmo/Budismo/Paganismo, de alguma forma eu me sentia movida a buscar a Igreja. Quando as pessoas perguntam-me o por que ser tão rara a conversão dos judeus ao Cristianismo, eu sempre respondo a mesma coisa, “só Deus sabe”. Não tenho a mínima ideia do porque, foi tudo o trabalho de Deus dentro de mim.

Como muitos judeus, absorvi desde a infância uma aversão ao Cristianismo. Não tinha muitos amigos cristãos, detestava o Natal e nunca havia entrado em uma igreja durante toda a minha vida. Mas de alguma forma, por razões que apenas Ele concebe, foi plantada uma grande fome em meu coração há alguns anos para conhecer Deus e o fazê-lo em uma igreja Cristã.

Comecei no protestantismo, onde permaneci por muitos anos. Este foi um movimento de sorte. Se eu tivesse me deparado com os bloqueios que posteriormente encontrei no mundo católico, talvez jamais tivesse me tornado cristã.

No protestantismo encontrei presbiterianos amigáveis e luteranos receptivos. Estava particularmente intrigada pelos evangélicos e pentecostais, que calorosamente me convidaram ao seu rebanho e passaram horas transmitindo-me as informações que desconhecia, como quem foi Jesus Cristo? Como se parece uma Bíblia e o que ela diz? Aceitei Jesus Cristo como meu salvador pessoal no começo de 2010, fui batizada em uma igreja crente na Bíblia alguns meses depois e nunca mais olhei para trás.

Mas, por mais maravilhoso que tudo isso fosse, sentia uma inquietude e uma fome dentro de mim por algo a mais, mesmo não sabendo exatamente o que isso era. Embora estivesse tendo muitas experiências boas em minha igreja, meu relacionamento com Jesus não crescia e nada estava sendo mudado em meu âmago, por mais que eu tentasse.

Busquei por esta coisa efêmera de igreja protestante a igreja protestante, dos batistas aos pentecostais, até que em um dia qualquer ao final de Novembro de 2013 (na realidade, este era o primeiro dia do Advento), apareceu subitamente o pensamento em meu cérebro de que eu talvez devesse me tornar católica. Esta era uma ideia nova, que jamais havia considerado, talvez pelo fato de protestantes não-denominacionais serem tão abertamente hostis perante a Igreja Católica.

Isto aconteceu enquanto lia o capítulo sobre Martin Lutero no livro de Mike Jones, “Modernos Degenerados” [1]. Quando Jones descrevia o comportamento mulherengo, o gosto pela embriaguez de Lutero e suas terríveis manipulações de freiras e padres, uma luz atravessou minha mente. Protestantismo vêm da palavra “protesto” – eu jamais havia juntado estes dois.

Não me agradava nem um pouco a ideia de fazer parte de um movimento radical, ou de insurreição. Tendo então já rejeitado minha própria juventude rebelde, percebi com horror que, de alguma forma, encontrei meu caminho em outro movimento revolucionário, o protestantismo. Então decidi começar a frequentar Missas católicas e a aprender o máximo possível sobre o catolicismo.

O que encontrei me fez querer correr por minha vida o mais rápido possível de volta aos protestantes. Descobri católicos que não sabiam o básico sobre a doutrina religiosa da Igreja e outros que desafiavam abertamente os ensinamentos morais. Escutei estranhos termos novos, como os “católicos de cafeteria”[2]. Me deparei com uma multidão de pessoas que não liam a Bíblia e praticavam sua fé com indiferença. Não consigo contar quantas vezes disseram-me que não precisava tornar-me católica, pois tendo sido batizada protestante – ou sendo judia – já era o suficiente. Em resumo, encontrei a Igreja Católica de hoje.

Apesar de meu choque com o estado da Igreja, comecei a fazer intensas pesquisas sobre a teologia Católica, o que clareou e corrigiu muitas doutrinas que me preocupavam no protestantismo. Também pesquisei o motivo de a Igreja Católica ter se tornado tão desordenada e caótica, ou seja, sobre a infiltração de diversas forças nefastas. Mas, mais importante do que tudo isso, encantei-me com a Missa e com o Santíssimo Sacramento, que me arrancaram lágrimas aos olhos mais de uma vez. Meu relacionamento com Jesus cresceu a trancos e barrancos e comecei a realizar as mudanças necessárias em meu comportamento. Finalmente descobri o que estive procurando todo esse tempo, e isso era Jesus em Sua única verdadeira Igreja Católica.

Mas depois de ter tomado a decisão de me juntar à Igreja, deparei-me com o maior choque de todos – isso seria uma tarefa hercúlea. E qual foi o maior obstáculo no caminho entre mim e a eternidade? Minha desgraça, assim como a de muitos outros, foi ter me deparado com o RICA.

Iniciação para Adultos

RICA significa Rito de Iniciação Cristã para Adultos. Ele foi criado posteriormente ao Concílio Vaticano II, aquele período de livre experimentação selvagem: coroinhas meninas, dançarinos litúrgicos, bruxas no altar, casais dando beijos de língua durante o Beijo da Paz e Ministros da Eucaristia. Algumas destas novidades já haviam sido expurgadas, como as bruxas e dançarinas (apesar de uma igreja local ainda ter as últimas). Mas, infelizmente, muitas novidades pegaram, incluindo o beijo e o RICA.

Embora o RICA tenha sido primeiramente introduzido em um número pequeno de paróquias nos anos 70 e começo dos 80, tornou-se onipresente em toda diocese a partir de 1986. Mesmo que evidências e um amplo estudo por parte de um grupo de Bispos tenham revelado problemas generalizados no RICA, ele ainda é a norma para os adultos, o desafio que todos devem passar para chegarem ao Santíssimo Sacramento e à Eternidade.

O sistema anterior ao Vaticano II era mais brando, embora fosse mais eficiente. Suponha-se que um homem, chamemos ele de “Joe”, quisesse tornar-se católico. Joe teria buscado um padre e exporia a ele o desejo de juntar-se à Igreja. O padre teria compaixão pelo pobre homem condenado ao inferno e teria aliviado o sofrimento de Joe, encontrando-se algumas vezes com ele e batizando-o logo em seguida. O padre teria compreendido que a alma eterna de Joe dependia da absolvição de seus pecados e do recebimento do Corpo e Sangue de Cristo ASAP, o mais cedo possível. E ele também reconheceria que ao falhar em seu compromisso, sua própria salvação estaria em risco.

Tudo isso mudou nos anos 80, quando essa abordagem acessível metamorfoseou-se na monstruosidade que temos hoje, o RICA. Hoje, para alguém como eu, sedenta em seu desejo de ingressar na Igreja, é dito que deve ser paciente e esperar. Agora há incontáveis degraus a serem superados, regras a serem obedecidas e sofríveis experiências grupais obrigatórias de ligação voltadas ao bem-estar.

E se uma pessoa dá para trás – se não quiser esperar meses a fio, abominar experiências psicológicas grupais de autoajuda com um bando de estranhos, ou se não quiser estar no altar com estas pessoas e passar por vários Ritos e rituais – bem, então ele está com azar. As coisas são do jeito que são e ninguém tem o interesse em mudá-las. Apesar de uma menina com 7 anos, que ainda cutuque o nariz e molhe a cama, poder receber a Primeira Comunhão, o adulto de hoje têm de navegar por um complicado labirinto, uma versão católica do campo de treinamento militar, até que chegue o momento propício, uma vez ao ano, quando a ele é permitido adentrar a Igreja na Missa da Vigília Pascal (Isso se ele sequer chegar a ir tão longe).

Embora supostamente existam exceções para as pessoas que não querem ou possam passar pelo RICA, encontrar um padre disposto a fazê-lo, como descobri, é como encontrar a proverbial agulha no palheiro. Os padres estão ocupados demais fazendo outras tarefas mais importantes. Um sacerdote disse-me francamente que se ele abrisse uma exceção para mim, teria de fazê-lo para os outros. Isso abre a questão de que se o maior problema de um padre é uma multidão de pessoas clamando para juntar-se à Igreja Católica, isto seria algo tão ruim assim?

De qualquer forma, hoje em dia os padres estão apenas perifericamente envolvidos na tarefa pivô de trazer pessoas para a Igreja Católica. A responsabilidade crucial da conversão foi passada adiante na maioria das paróquias, sendo delegada aos leigos. Uma pequeno número é composto por funcionários pagos, cuja vida depende da perpetuação do sistema. Mas é mais frequente que voluntários comandem o show, normalmente aposentados e casais sem filhos, com tempo de sobra e a necessidade de sentido e pertencimento a algo.

Alguns dos professores sabem do que falam, mas a maior parte é composta por pessoas com boa vontade, mas teologicamente desinformadas. E além destas, há também aquelas com uma agenda esquerdista que é promovida aos infelizes participantes, que se encontram suspensos no espaço sideral espiritual por meses a fio, com a cenoura da salvação pendurada a sua frente.

Proponentes do RICA se referem a ele como uma experiência profunda, evocativa tanto a potenciais católicos quanto para toda a paróquia, uma experiência que data da ritualística dos primeiros dias da Igreja. Séculos atrás, assim como hoje, prospectos ao Cristianismo necessitavam de apadrinhamento e precisavam passar por vários ritos públicos. Também como hoje, os potenciais conversos precisavam se retirar da Missa antes da Liturgia da Eucaristia.

Porém, haviam razões válidas para o apadrinhamento e o retirar-se da Igreja há centenas de anos. A jovem Igreja estava sob severo ataque por uma variedade de inimigos que tentavam infiltrá-la e destruí-la. A Igreja instituiu uma série de complicados procedimentos para proteger a si mesma e, em especial, o Santíssimo Sacramento.

Um prospecto necessitava de um padrinho que assegurasse seu caráter, para garantir, por exemplo, que ele não fosse um espião. Os ritos públicos eram conduzidos em frente à igreja para garantir que a comunidade conhecesse e confiasse no recém-ingresso. O neófito, por sua vez, precisava se retirar antes da Liturgia da Eucaristia para proteger o Corpo e o Sangue do perigo.

Hoje, a necessidade do apadrinhamento e elaborados ritos públicos parece arcaica, mas os proponentes do RICA garantem que estes não são bons apenas aos participantes, mas também um sopro de ar fresco para os párocos antigos, que podem receber um pouco do prazer místico observando aos membros do Rito no altar. Mas, para mim, se a paixão dos párocos pela fé tornou-se tão fria que eles precisam de pretendentes a católicos prostrados em frente a eles como macacos de circo, isto é uma triste visão da Igreja de hoje.

Com relação à prática de dispensar potenciais conversos antes da Liturgia da Eucaristia – para participar de, adivinhe?, mais aulas – como um membro do RICA poderia aprender sobre a Liturgia e experimentar a Presença Real se ele tem de se retirar antes do momento central da Missa Católica Romana? E como um potencial novo católico pode sentir-se parte da Igreja se é feito com que ele se retire?

E eis a questão mais relevante: o RICA realmente funciona? Vale a pena os muitos meses de espera e preparação, assim como os gastos? O novo sistema é melhor que o antigo?

Os proponentes do RICA dizem que sim e insistem que o programa leva a uma melhor retenção dos recém convertidos. Eles nos recordam que os católicos estavam saindo da Igreja em pencas antes da introdução do programa.

Embora seja verdade que houve um êxodo em massa de católicos nos anos 60 e 70, não foi por causa da ausência do RICA, mas por conta da sedutora atração do sexo, drogas e rock n’ roll naquela época rebelde. Contudo, antes dos anos 60, as igrejas estavam cheias de fiéis.

Curiosamente por toda a internet sobreviventes do RICA reclamam de seu rígido sistema, sua péssima catequese e de suas agendas esquerdistas. Mas o que dizem as pesquisas?

A mais extensa pesquisa do RICA, conduzida no ano 2000 pela Conferência Nacional de Bispos Católicos dos EUA, expõe um retrato sombrio. Foram descobertos problemas generalizados, como o alto índice de desistência, professores mal treinados responsáveis por espalhar erros doutrinários e a promoção de ideias não ortodoxas, como a de padres casados ou sacerdotes mulheres.

E sobre a alegação de que os católicos recém formados permanecem na Igreja? Infelizmente, no período de um a cinco anos após a conversão perto de 40% dos novos fiéis já não vão semanalmente à Missa. Minha opinião é que as classes os fecharam, abrigando os novatos e tornando-os dependentes de sua pequena panelinha. Passadas as experiências voltadas ao sentir-se bem, de dar as mãos na busca de aceitação, eles são confrontados com a desordem e a confusão que é a Igreja Católica de hoje, e muitos não conseguem lidar com isso.

Dada a abundância de problemas encontrados, por acaso os Bispos sugeriram cortar toda essa confusão desgovernada? Não. Ao invés disso, sua solução foi… mais cursos pós-conversão, algo chamado mistagogia. Através da mistagogia, os novos católicos são jogados de volta ao salão da paróquia para mais uma sessão de aulas e experiências de grupo.

Se há tantos problemas com o RICA, por que o programa ainda não foi abandonado de uma vez por todas? Meu palpite é que há diversos motivos para isso.

O primeiro é mais benigno, tendo a ver mais com a natureza humana. As pessoas não gostam de mudanças. É mais fácil fazer a mesma coisa de novo e de novo, não importando se isso é útil ou deletério. Existe uma espécie de atitude no RICA de “nós sempre fizemos isso. Assim, temos de continuar a fazê-lo”.

Além disso, existem ainda disputas pelo controle e feudos pessoais a serem mantidos. Se o RICA fosse desmantelado, os funcionários pagos rapidamente perderiam seu emprego e os aposentados seriam privados de seu sentimento de propósito. O programa é também o ganha pão de muitas companhias que vendem vídeos, livros e currículos de ensino. Mas, além de ser autossuficiente, o RICA reflete algumas das forças perniciosas que entraram na Igreja pós Vaticano II.

Uma destas é o falso culto ao conhecimento, que é uma preocupante remanescente dos Fariseus. Ao invés de evangelizar com base no Evangelho, a Igreja passa a lembrar um clube elitista, onde apenas alguns podem se juntar, mas somente após muitos meses de aula e acúmulo de vastas quantidades de conhecimento.

Esta abordagem ao estilo de uma universidade deixa muitos de fora. Por exemplo, aqueles com inteligência limitada, pessoas que viajam muito e não podem frequentar aulas por meses a fio, pais com filhos que precisam de cuidado constante, pessoas cronicamente doentes, com ansiedade social e qualquer um que não tenha condições físicas, intelectuais ou que simplesmente não queira ir a um curso semanal de uma a duas horas, encontrar-se regularmente com um padrinho e passar por ritos públicos por sete a nove meses.

Quanto às outras influências perniciosas na Igreja, muitos católicos se apaixonaram pela psicologia e por grupos. Sintonize à rádio católica e na maior parte do dia haverá fiéis emotivos vertendo vísceras a um psicólogo sobre seus problemas familiares. Ao invés de voltar-se a Jesus em oração, receber os Sacramentos e esforçar-se para abrir uma Bíblia, muitos católicos, da mesma forma que os seculares, preferem soluções psicológicas ao seu sofrimento pessoal.

O RICA é um exemplo clássico da psicologização na Igreja, com seu formato interpessoal grupal de compartilhamento de experiências e realização de exercícios voltados ao sentir-se bem. Os participantes revelam suas alegrias e mágoas ao longo do caminho. Obstáculos no caminho são confessados e dissecados. O participante do programa tem sua própria espécie de conselheiro sob a forma de seu padrinho. Da mesma forma que um viciado necessita de um padrinho e um grupo de AA para mantê-lo sóbrio, o membro do RICA precisa de um grupo e um padrinho para mimá-lo, alimentá-lo a colheradas rumo à Igreja.

E a Igreja ainda não discerniu o quão daninhos podem ser a psicologia e os grupos? Não foram centenas de freiras, padres e seminaristas corrompidos ao frequentarem grupos nos anos 60 e 70 e não perderam muitos sua fé, renunciando às suas Santas Ordens? Grupos podem ser perigosos, pois podem levar ao controle social via doutrinação e pensamento grupal.

Sob meu ponto de vista, o principal arquiteto do RICA e outras desventuras pós-Vaticano II não possui a forma humana, não são as pessoas com frequente boa vontade, que criam e coordenam os programas. O mentor é o bom e velho demônio, Lúcifer, pois é ele quem beneficia-se quando potenciais conversos não cruzam à linha de chegada e são privados da Presença Real de Jesus – e talvez até mesmo da própria salvação. Infelizmente, pude conhecer muito bem as táticas do Maligno enquanto tentei por mais de um ano fazer meu caminho rumo à Igreja Católica sem o RICA.

Novembro de 2013

Como podem se lembrar, Deus colocou no meu coração em Novembro de 2013 que talvez eu devesse me tornar católica. Passei vários meses mergulhando nos ensinamentos católicos, indo à Missa e encontrando-me com padres e católicos devotos. Após oito meses estava convencida que a Igreja Católica era a Igreja de Jesus Cristo. Sentia-me pronta, disposta e preparada para tornar-me católica. Mas o problema era que o RICA não tinha sequer começado.

Queria fazer parte da Igreja rapidamente, pois estava convencida que este era o único caminho para a salvação. Embora não estivesse planejando morrer a qualquer momento em breve, a verdade é que não sou nenhuma flor de primavera. Mas havia outra razão para o meu desespero, eu estava sendo atacada por espíritos demoníacos fazendo hora extra para garantir que eu jamais me tornasse católica.

Eles plantavam continuamente dúvida e desconfiança em minha mente sobre a Igreja Católica. Jamais havia passado por algo assim no mundo protestante, onde o Inimigo mal levantava sua cabeça, muito menos mostrava seus dentes. Mas tão logo comecei a me tornar católica, havia um exército de espíritos negros me atormentando, que acredito terem muito a ver com minha ancestralidade judaica.

Servi de piada, “Você jamais se encaixará lá sendo judia. Você é diferente demais”; fui tentada, “Veja, eles não querem você lá, você não é bem vinda”; desencorajada, “Você está perdendo o seu tempo. Não pode confiar em nenhum deles”. Mas o Maligno foi além, aterrorizando-me com o medo de que eu estava traindo os meus ancestrais. Tinha pensamentos petrificantes, onde Deus me punia com o fogo eterno no Inferno. Era como se o mundo demoníaco inteiro estivesse lançando um ataque frontal completo.

O Inimigo conhecia meus pontos fracos, os medos que me foram plantados desde a infância sobre o Cristianismo. Não existem muitos pecados no Judaísmo moderno: aborto, promiscuidade, experimentação com drogas – nenhum é encorajado, mas não é a pior coisa no mundo. A pior coisa? A pior coisa é tornar-se católico. Então, entre minha programação de infância e os demônios que atormentavam-me, sabia que não tinha condições de tolerar mais nove meses de espera e incerteza.

Pressentia isso, mas não podia fazer muito sobre o assunto. Expus tanto a um padre quanto ao pároco de minha igreja, mas nenhum deles estava disposto a realizar uma catequese individual. Então, tomada de espírito esportivo, fui à primeira reunião do RICA em minha paróquia no mês de Julho.

A experiência foi tão insuportável quanto eu havia imaginado. Era tarde da noite, quando já estava exausta. Embora os membros do grupo fossem agradáveis, nenhum deles era cristão devoto e eu tinha preocupações que minha recém conquistada fé fosse abalada passando meses com pessoas majoritariamente descrentes. Olhando o currículo – que, como a maioria dos cursos, começava com o menor denominador comum – me senti deprimida. Após muita oração, percebi que tinha de encontrar um caminho alternativo rumo à Igreja.

Elaborei um e-mail proveniente do fundo do meu coração para o padre encarregado da catequese em minha igreja. Comovida, compartilhei meu amor por Cristo e Sua Igreja. Lembrei ao padre de minha fiel assiduidade à igreja e que após meses de presença regular havia me tornado outra fiel constante na igreja. Expliquei que a incerteza estava me deixando aberta a um feroz ataque espiritual e que me seria de grande ajuda ter um plano para o meu ingresso na Igreja, especialmente em um tempo em breve. Esperei ansiosamente por sua resposta. Uma semana depois não havia nada.

Tentei aproximar-me dele na igreja, mas ele parecia me evitar. Uma mensagem deixada em sua secretária eletrônica não foi respondida. Neste momento estava além do ponto de ruptura, sob tanta pressão que escrevi a ele novamente, mas dessa vez copiei a mensagem aos dois coordenadores leigos do RICA. Dessa vez o padre respondeu, embora sem compromissos firmados.

Sentindo que não estava indo a lugar algum em minha igreja, a qual chamarei de igreja 1, decidi contatar algumas outras paróquias locais. Telefonei para outra igreja, a igreja 2, e consegui falar com o padre. Compartilhei novamente minha profunda paixão pela Igreja e meu desejo de me juntar a ela o mais cedo possível. O padre me informou que não havia nada que ele pudesse fazer, que eu deveria falar com o pároco, mas ele recém havia partido em prolongadas férias.

Ainda não estava pronta para jogar a toalha, então contatei outra igreja local, a igreja 3. Fui direto ao ponto e marquei um horário com o pároco. Nessa altura já havia me armado com algumas poderosas informações novas – um pequeno e obscuro segredo sobre o RICA –, de que a forma como ele é coordenado pode ser uma violação à Lei Canônica. De acordo coma Lei, o programa é destinado apenas aos não batizados. Católicos batizados e protestantes devem ser trazidos à Igreja o mais rápido possível e sem complicações indevidas. E mesmo assim isso não está sendo feito e, na realidade, a maior parte das pessoas no RICA é composta de católicos batizados e protestantes.

O pároco na igreja 3 foi simpático ao meu pedido. Ele reconheceu que pessoas como eu, protestantes batizados e devotos, deveriam ser recebidos na Igreja sem o RICA. Contudo, ele não estava disposto a envolver-se na questão, pois eu já havia começado o processo na igreja 1. Ele se ofereceu para contatá-los e fazer alguma pressão sobre o padre, mas dado que este já estava aos nervos comigo, achei que isso não seria um movimento político sábio.

Havia uma outra igreja local, a igreja 4, mas decidi não tentar naquela. Ao mesmo tempo, minha amiga Mary estava lá tentando tornar-se católica sem o RICA e enfrentava os mesmos impedimentos que eu. Sendo uma pessoa tímida e quieta por natureza, ela foi a uma reunião do RICA e jamais retornou, dizendo que era “como uma cruel reunião de fraternidade estudantil”. Ela resignou-se em ir às Missas, mas jamais estando em plena Comunhão com a Igreja. Ao ver a angústia na face de minha querida amiga, me tornei mais determinada a encontrar meu caminho para a Igreja e, assim, ajudar Mary a também ser recebida.

Eu tinha uma ideia final: enviaria um e-mail a um afável padre na igreja 1 que ocasionalmente celebra a Missa lá, embora na maior parte do tempo ele ministre aulas para a Diocese. Novamente expus a ele meu amor por Cristo e Sua verdadeira Igreja e o sofrimento da espera. Poderia ele ajudar a tornar-me católica?

O padre respondeu rapidamente e parabenizou-me entusiasticamente por buscar o catolicismo. Mas infelizmente me pediu desculpas, pois seu cronograma demandava tanto que ele não tinha tempo para encontrar-se comigo neste ano, embora me desejasse bem.

Outra rejeição era mais do que eu podia suportar. Nessa altura eu estava já sofrendo de uma grande vulnerabilidade. Não era fácil permanecer pedindo ajuda apenas para ser continuamente negada. Infelizmente, descarreguei minhas frustrações nele.

Disse a ele que estava sendo passada para trás por todo mundo, pois todos estavam ocupados demais fazendo alguma outra coisa, não podendo ajudar uma protestante desesperada em luta para se tornar católica. Desafiei a ele: ou a Igreja Católica é a verdadeira fonte de salvação e seus padres devem mover céu e terra para levar suas ovelhas rumo a ela, ou não era o único veículo para a salvação. Nesse caso, não havia pressa para que eu me convertesse ou mesmo que alguém me ajudasse. Não poderiam ser ambos ao mesmo tempo. Qual era a verdade?

Não houve resposta. Após alguns dias, me sentindo mal por ter descarregado toda minha indignação nele, enviei um e-mail pedindo perdão. Ele graciosamente aceitou minhas desculpas, embora ainda não houvesse oferta de ajuda.

Sem nenhuma outra ideia, estava no ponto mais baixo de uma jornada já repleta de percalços. Não sabia mais o que fazer. Nesse momento já estava cheia de constantes dúvidas e desconfianças referentes aos católicos e à Igreja. Não sabia se isso se devia a uma guerra espiritual sendo travada contra mim ou ao Espírito Santo fazendo com que eu retornasse à minha antiga igreja protestante.

Caí de joelhos e realizei a oração mais fervente de toda a minha vida. Enquanto soluçava, implorei a Cristo que revelasse a mim o que Ele queria que eu fizesse. Após vários minutos de oração, um abençoada calma varreu-me. Pela primeira vez desde que comecei a busca para tornar-me católica, senti-me em paz. Sentia que Jesus dizia a mim, “Você é minha filha amada. Não se preocupe, você passará a eternidade comigo”. Senti-me enormemente grata por este momento de graça.

Dez Meses

Já era agora Setembro, 10 meses desde o começo de minha exploração do catolicismo. Fiz uma boa amiga na igreja 1, que estava determinada a me ajudar a tornar-me católica. Em meu nome ela tomou o padre e compartilhou sua grande preocupação em deixar-me sozinha durante esse processo. Na Missa do Domingo seguinte, o padre surpreendeu-me oferecendo um encontro somente entre nós dois, mas havia uma condição. Eu tinha de passar pelo primeiro rito, o Rito de Boas Vindas, que aconteceria em duas de semanas. Relutantemente concordei.

Minha intuição dizia que estar lá com meu padrinho em frente à paróquia inteira, enquanto era analisada de cima a baixo, da cabeça aos pés, me tornaria sujeita a ferozes ataques espirituais. Eu estava certa. Não consegui dormir na noite anterior, sentia-me fraca nos joelhos e quase desmaiei durante a cerimônia. O nível de exposição pública sem ter ainda um plano para quando ou como eu seria recebida deu ao Inimigo liberdade para atormentar-me sem piedade. Mas eu mantive minha parte da barganha e então tive meu primeiro encontro com o padre.

Gostaria de dizer que tudo ocorreu bem e que felizmente ele logo após me guiou para a Igreja, mas esse infelizmente não foi o caso. Seu plano era que eu seguisse o mesmo currículo que os outros participantes do RICA pelos próximos sete meses, começando desde o começo, com um vídeo chamado “Quem foi Jesus?”. Também teria que participar dos outros ritos e rituais.

Neste ponto, meses de nervosismo vieram à tona e eu perdi minha calma. Raivosamente disse a ele que não precisava começar do começo, que já havia pesquisado intensamente a Igreja por quase um ano e tinha ido a mais Missas do que podia já contar. Rispidamente disse a ele que nunca em toda a minha vida tinha sido tão tratada como uma idiota quanto em meu ano no mundo católico, que ninguém parecia acreditar que eu realmente soubesse o que era melhor para mim – que era tornar-me católica o mais rápido possível.

O padre também ficou nervoso. Claramente dez meses de tensão tinham tomado seu custo a ambos: ele lidando com uma pároca que não queria jogar pelas regras do RICA e eu, pronta, disposta e capaz de tornar-me católica, mas não encontrando porta alguma aberta. Ao fim de nosso encontro, pedi desculpas por minha explosão. Ele também pediu desculpas a mim. Partimos em bases amigáveis, embora eu tenha recusado sua oferta de continuar o encontro.

Novembro de 2014

Era agora Novembro de 2014, começo do Advento. Também fazia um ano desde que Deus tinha posto em meu coração que talvez eu devesse tornar-me católica. Estava já desgastada e abatida por tudo. Embora tentasse não tomar todas as rejeições de forma pessoal, sentia-me emocionalmente quebrada e ferida. E eu estava sozinha. Sentia falta do companheirismo e senso de pertença em minha antiga igreja protestante.

Foi então que tomei a mais triste decisão de toda a minha vida. Era tempo de voltar ao mundo protestante.

Pela primeira vez em um ano de Missas, não dirigi meu carro rumo à Igreja Católica em um domingo. Ao invés disso, fui à minha antiga igreja. Os frequentadores estavam felizes em me ver, embora surpresos. E vi algo a mais em suas faces: eles estavam feridos, sentindo-se abandonados por eu ter rejeitado sua bondade e amizade tendo-os deixado. Claramente eu não era a única que tinha sido ferida neste processo.

Sentei em um banco e olhei ao redor de minha antiga igreja, que já havia conhecido tão bem. O ambiente não parecia familiar, era estranho. O que me espantou mais foi a ausência: a ausência do Crucifixo, da Procissão, dos padres – mas, mais do que tudo, a ausência do Santíssimo Sacramento. Senti uma angustiante dor em meu estômago por conta do profundo vazio. Tinha passado a vida inteira buscando por Algo, por Alguém e eu havia finalmente encontrado Ele em Sua verdadeira Igreja. Mas agora eu estava no risco de perdê-Lo novamente.

Percebi que eu tinha de fazer uma escolha: protestante ou católica. Não podia ter os dois. Mas já não era mais protestante, havia deixado isso para trás há algum tempo. Apesar de meu status dentro da Igreja, no mais profundo do meu coração eu era católica.

Antes do fim do culto, recolhi meus pertences e levantei-me. Dei adeus a algumas pessoas e então quietamente saí, triste, como um jovem adulto deixando uma família que já não é mais dele. Eu sabia que provavelmente jamais veria estas pessoas novamente.

Na Missa do Domingo seguinte, pensei em uma opção final. Se isso não funcionasse, me resignaria a continuar assistindo à Missa, sem jamais tornar-me católica. (Tinha a esperança de que o ensinamento católico sobre o Batismo de Desejo fosse o suficiente para que eu pudesse ir para o céu).

Minha ideia? Contatar a igreja 2 e ver se o pároco que estava em férias prolongadas já havia retornado. Liguei para lá e descobri que sim.

Encontrei com ele pouco tempo depois. Foi então que os céus se abriram para mim. Pela décima vez recontei meu intenso e profundo desejo em receber os Sacramentos na verdadeira Igreja de Cristo. O pároco escutava atento. Finalmente ele disse, “Jamais vi alguém mais sedento pelos Sacramentos que você. Tinha já ouvido falar de pessoas como você, mas jamais havia visto algo assim”. E, pela primeira vez, alguém havia dito isso como se fosse uma coisa boa.

Ele consideraria trazer-me para a Igreja antes de Abril, mas havia um porém, eu teria de atender às classes do RICA em sua igreja. Concordei.

As aulas eram bem menos rigorosas do que o outro programa – apenas uma hora após a Missa, sem aulas à noite, visitas de campo ou tarefas para casa. A maior parte dos membros do grupo era composto de católicos fiéis que estavam lá pelo senso de comunidade, e eles me inspiraram com seu amor pela fé.

Depois de algumas semanas no meu novo programa RICA, estava gostando do companheirismo, mas espantou-me um dia o fato de não estar mais próxima a tornar-me católica do que há um ano atrás. Agora relegada a uma terra espiritual de ninguém – não mais protestante, mas não ainda católica – os espíritos negros aproveitavam-se para me perseguir. Foi na manhã de uma aula do programa que tive o pesadelo de estar presa no telhado sem ninguém para me resgatar e acordei soluçando.

Na aula daquele dia os portões se abriram e comecei a chorar incontrolavelmente. Contei a eles sobre o sonho, sobre meus 13 meses tentando encontrar alguém que pudesse me ajudar a entrar na Igreja. Expliquei o desespero para ter meus pecados perdoados pela Confissão e receber o Santíssimo Sacramento. Quando terminei, todos me encaravam paralisados em silêncio.

Após o fim da aula, o coordenador do RICA me chamou em um canto. Ele me disse que sua opinião era que eu já estava preparada para tornar-me católica e que iria escrever ao pároco e recomendaria que fosse recebida na Igreja o mais cedo possível. Dei um abraço de gratidão a ele. Deus tinha mandado alguém para me resgatar.

Após alguns dias me encontrei com o pároco, que me perguntou algo que me estarreceu, “Quando você gostaria de ser recebida na Igreja?” Ele até mesmo ofereceu-se para celebrar uma Missa privada especialmente para mim. Escolhemos uma data (embora o pároco precisasse da permissão do Bispo, outro entrave burocrático que me deixou com comichões por várias semanas). Ele também agendou comigo um horário para minha primeira Confissão.

A Noite Anterior

Na noite anterior à Confissão deitei em minha cama de olhos bem abertos, incapaz de adormecer. Sentia algo que jamais havia sentido antes, não era alegria ou felicidade – mas algo muito além disso. Sentia-me abençoada. Meu corpo abençoadamente arrepiava-se na perspectiva de receber meu primeiro Sacramento Católico. Não apenas eu seria absolvida dos pecados que carreguei comigo por anos, mas uma vez que tivesse meu primeiro Sacramento “eles” não conseguiriam me manter de fora. Fossem as regras burocráticas que me impediam, ou os demônios que me praguejavam.

Fui recebida na Igreja Católica no começo de 2015, o que foi a experiência mais incrível de toda a minha vida. O pároco a personalizou, falando sobre meu amor por Jesus e pela Igreja. Ele celebrou uma Missa inteira, embora estivessem apenas algumas pessoas lá.

Infelizmente nenhum de meus amigos protestantes que havia convidado veio. Sabia que não era nada pessoal, mas por conta de suas concepções erradas do Catolicismo eles não podiam apoiar minha conversão. Eles fizeram sua escolha e eu fiz a minha.

Enquanto escrevo isso, outra rodada de classes do RICA começa nas igrejas ao redor do país. Minha alegria em finalmente ter tornado-me católica é marcada pela tristeza por aquilo que tive de passar, daquilo que a Igreja faz as pessoas passarem para estarem em plena Comunhão com Nosso Senhor.

Como muitos fiascos pós Vaticano II, o RICA precisa acabar. A Igreja precisa voltar à sua obrigação de fazer rapidamente discípulos de todas as nações.

Se não o fizer, o Corpo de Cristo continuará a diminuir e muitas pessoas que necessitam de Jesus e de nossa fé cairão por entre as rachaduras. Isto será uma péssima notícia para a Igreja Católica, mas serão ótimas notícias para as ergonômicas igrejas evangélicas e pentecostais que espalham-se como fogo selvagem pelo mundo afora. O que estes protestantes sabem – e que muitos católicos tragicamente se esqueceram – é que trazer pessoas a Cristo é o motivo de estarmos aqui. E os protestantes entendem que, ao fazê-lo, a alma eterna que estão salvando é também a sua.

“Laura Evans” é um pseudônimo. Ela foi recebida na Igreja Católica no começo de 2015. Pouco tempo depois ajudou sua amiga Mary a ser também recebida na Igreja como ela, sem o RICA. Ambas são mulheres católicas devotas e fiéis, que frequentam às Missas todo Domingo. Laura gostaria de expressar sua profunda gratidão a Mike Jones por seu incontável apoio durante sua longa e turbulenta jornada rumo à Igreja Católica. “Obrigado Mike. Não conseguiria ter passado por isso sem você.”

Este artigo está presente na edição de Dezembro de 2015 da revista Culture Wars.

[1] Degenerate Moderns. E. Michael Jones é um historiador católico americano, autor de mais de uma dezena de livros sobre a história da Igreja, política e cultura. É também editor da publicação “Culture Wars” [Guerras Culturais], onde este artigo está presente.

[2] “Católicos de cafeteria” são aqueles que discordam convenientemente dos ensinamentos morais da Igreja quando lhes convêm.

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25 setembro, 2016

Reflexões da Sagrada Escritura: Legitimidade do Culto ao Santíssimo Coração de Jesus Segundo a Doutrina do Novo Testamento e a Tradição.

O amor de Deus no mistério da Encarnação redentora segundo o Evangelho. “Habite Cristo, pela fé, nos vossos corações, vós que estais arraigados e cimentados em caridade, para que possais compreender com todos os santos qual é a largura e comprimento, a altura e profundidade deste mistério, e conhecer também o amor de Cristo a nós, o qual sobrepuja todo conhecimento, para que sejais plenamente cumulados de todos os dons de Deus” (Ef. 3, 17-19).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

  1. Mas somente pelo Evangelho chegamos a conhecer com perfeita clareza que a Nova Aliança estipulada entre Deus e a humanidade – aliança da qual a pactuada por Moisés entre o povo e Deus foi tão somente uma prefiguração simbólica, e o vaticínio de Jeremias uma mera predição  –  é aquela mesma que o Verbo Encarnado estabeleceu e levou à prática, merecendo-nos a graça divina. Esta aliança é incomparavelmente mais nobre e mais sólida, porque, à diferença da precedente, não foi sancionada com sangue de cabritos e novilhos, mas com o sangue sacrossanto d’Aquele que esses animais pacíficos e privados de razão prefiguravam: “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Cf. Jo 1, 29; Heb. 9, 18-28; 10, 1-17). Porque a Aliança cristã, ainda mais do que a antiga, manifesta-se claramente como um pacto, não inspirado em sentimentos de servidão, não fundado no temor, mas apoiado na amizade que deve reinar nas relações entre pai e filhos, sendo ela alimentada e consolidada por uma mais generosa distribuição da graça divina e da verdade, conforme a sentença do
    Evangelho de João: “Da sua plenitude todos nós participamos, e recebemos uma graça por outra graça. Porque a lei foi dada por Moisés, mas a graça foi trazida por Jesus Cristo” (Jo 1, 16-17).
  2. Introduzidos, por estas palavras do “Discípulo amado que durante a Ceia reclinara a cabeça sobre o peito de Jesus” (Jo 21, 20), no próprio mistério da infinita caridade do Verbo Encarnado, é coisa digna, justa, reta e salutar nos detenhamos um pouco, veneráveis irmãos, na contemplação de tão suave mistério, a fim de, iluminados pela luz que sobre ele projetam as páginas do Evangelho, podermos também nós experimentar o feliz cumprimento do voto que o Apóstolo formulava escrevendo aos fiéis de Éfeso: “Habite Cristo, pela fé, nos vossos corações, vós que estais arraigados e cimentados em caridade, para que possais compreender com todos os santos qual é a largura e comprimento, a altura e profundidade deste mistério, e conhecer também o amor de Cristo a nós, o qual sobrepuja todo conhecimento, para que
    sejais plenamente cumulados de todos os dons de Deus” (Ef 3, 17-19).
  3. Com efeito, o Mistério da Divina Redenção é, antes de tudo e pela sua própria natureza, um mistério de amor: isto é, um mistério de amor justo da parte de Cristo para com seu Pai celeste, a quem o sacrifício da cruz, oferecido com coração amante e obediente, apresenta uma satisfação superabundante e infinita pelos pecados do gênero humano; Cristo, sofrendo por caridade e obediência, ofereceu a Deus alguma coisa de valor maior do que o exigia a compensação por todas as ofensas feitas a Deus pelo gênero humano (“Summa Theol.”, III, q. 48. a.2; ed. Leon. t. 11. 1903, p. 464). Além disto, o mistério da Redenção é um mistério de amor misericordioso da Augusta Trindade e do Divino Redentor para com a humanidade inteira, visto que, sendo esta totalmente incapaz de oferecer a Deus uma satisfação condigna pelos seus próprios delitos (cf. Enc “Miserentissimus Redentor: A. A. S. 20, 1928,p. 170), mediante a imperscrutável riqueza de méritos que nos ganhou com a efusão do seu preciosíssimo sangue Cristo pôde restabelecer e aperfeiçoar aquele pacto de amizade entre Deus e os homens violado pela primeira vez no Paraíso terrestre por culpa de Adão e depois, inúmeras vezes, pela infidelidade do povo escolhido.
  4. Portanto, havendo, na sua qualidade de nosso legítimo e perfeito Mediador, e sob o estímulo de uma caridade ardentíssima para conosco, conciliado as obrigações e compromissos do gênero humano com os direitos de Deus, o divino Redentor foi, sem dúvida, o autor daquela maravilhosa reconciliação entre a divina justiça e a divina misericórdia, a qual justamente constitui a absoluta transcendência do mistério da nossa salvação, tão sabiamente expresso pelo Doutor Angélico com estas palavras: “Convém observar que a libertação do homem mediante a paixão de Cristo foi conveniente tanto para a justiça como para a misericórdia do mesmo Cristo. Antes de tudo para a justiça, porque com a sua paixão Cristo satisfez pela culpa do gênero humano, e, por conseguinte, pela justiça de Cristo foi o homem libertado. E, em segundo lugar, para a misericórdia, porque, não sendo possível ao homem satisfazer pelo pecado, que manchava toda a natureza humana, deu-lhe Deus um reparador na pessoa de seu Filho. Ora, isto foi, da parte de Deus um gesto de mais generosa misericórdia do que se Ele houvesse perdoado os pecados sem exigir qualquer satisfação. Por isso está escrito: “Deus, que é rico em misericórdia, movido pelo excessivo amor com que nos amou quando estávamos mortos pelos pecados, deu-nos vida juntamente em Cristo” (Ef 2, 4; “Summa Theol. III, q. 46, a. 1 ad 3; ed. Leon., t. 11, 1903, p. 436).”[Encíclica “HAURIETIS AQUAS” de Pio XII]. Caríssimos, hodiernamente, aturdidos e confusos pelas ambiguidades e mesmo imprecisões na exposição da doutrina, por causa do afastamento do pensamento e expressão tradicionais, como nos sentimos reconfortados e seguros ao ouvirmos Sumos Pontífices, que primaram como era de se esperar mais do que de ninguém, pela clareza e propriedade de expressão na pregação da verdade, oferecendo aos pastores e ovelhas, alimento sólido e verdadeiramente nutriente capaz de levar as almas às fontes do Salvador e ao Seu Éden Eterno!
24 setembro, 2016

Foto da semana.

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Envia-nos o leitor Victor M. Argamim:

Ao dia 7 de setembro de 2016, feriado da independência, tomou lugar às 16h30 a Santa Missa Cantada no rito tradicional, em honra à Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Na ocasião, pedimos ao Senhor as graças tão necessárias a nossa Pátria brasileira, por interceção da Beatíssima Virgem.

Oferecida pelo Rev.mo Sr. Pe. Ramiro José Gregório, DD. Vigário-paroquial da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, a Santa Missa contou com a presença de mais de 150 fiéis, advindos não somente de nossa histórica cidade de São João del-Rei, como também da capital do estado e de cidades vizinhas.

A Santa Missa foi abrilhantada pela bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos, que executou composições sacras polifônicas, incluindo as de autoria de Pe. José Maria Xavier, compositor são-joanense, Carlos Gomes e Pe. José Maurício Nunes.

Créditos das fotos: Gabriel Freire.
Sanctus, Elevação e Benedictus: https://www.youtube.com/watch?v=2nEpoaub3tM
Curta a página no Facebook: “Missa Gregoriana em São João del-Rei”, https://www.facebook.com/missaextraordinariasjdr/
23 setembro, 2016

CNBB: “Causa-nos estranheza e indignação a introdução do aborto na ADI. Repudiamos o aborto e quaisquer iniciativas que atentam contra a vida”

NOTA DA CNBB EM DEFESA DA INTEGRIDADE DA VIDA

“ Escolhe, pois, a vida, para que vivas. ” (Dt 30,19b)

O Conselho Episcopal Pastoral – CONSEP, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunido em Brasília-DF, nos dias 20 e 21 de setembro de 2016, vem manifestar sua posição com relação a Ação Direta de Inconstitucionalidade-ADI 5581 que tramita no Supremo Tribunal Federal-STF. Essa ADI questiona a lei 13.301/2016 que trata da adoção de medidas de vigilância em saúde, relativas ao vírus da dengue, chikungunya e zika.

Urge, de fato, como pede a ADI, que o Governo implemente políticas públicas para enfrentar efetivamente o vírus da zika, como, por exemplo, um eficiente diagnóstico e acompanhamento na rede pública de saúde. Além disso, seja estendido por toda a vida o benefício para criança com microcefalia e não por apenas três anos, como estabelece o artigo 18 da lei 13.301/2016. Ao contrário do que prevê o parágrafo segundo desse artigo, o benefício seja concedido imediatamente ao nascimento da criança e não após a cessação do salário maternidade.

Causa-nos estranheza e indignação a introdução do aborto na ADI. É uma incoerência que ela defenda os direitos da criança afetada pela síndrome congênita e, ao mesmo tempo, elimine seu direito de nascer. Nenhuma deficiência, por mais grave que seja, diminui o valor e a dignidade da vida humana e justifica o aborto. “Merecem grande admiração as famílias que enfrentam com amor a difícil prova de um filho com deficiência. Elas dão à Igreja e à sociedade um precioso testemunho de fidelidade ao dom da vida” (Papa Francisco, Amoris Laetitia, 47).

Repudiamos o aborto e quaisquer iniciativas que atentam contra a vida, particularmente, as que se aproveitam das situações de fragilidade que atingem as famílias. São atitudes que utilizam os mais vulneráveis para colocar em prática interesses de grupos que mostram desprezo pela integridade da vida humana.

As paralimpíadas trouxeram uma lição a ser assimilada por todos. O sentimento humano que brota da realidade dos atletas paralímpicos, particularmente das crianças que participaram das cerimônias festivas, nasce da certeza de que a humanidade se revela ainda mais na fragilidade.

Solidarizamo-nos com as famílias que convivem com a realidade da microcefalia e pedimos às nossas comunidades que lhes ofereçam acolhida e apoio. Rogamos a proteção de Nossa Senhora, Mãe de Jesus, para todos os brasileiros e brasileiras.

Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília
Presidente da CNBB

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger
Arcebispo de São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário-Geral da CNBB

Fonte: CNBB

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23 setembro, 2016

Poucos presbíteros celibatários? Então, abramos as portas para os homens casados.

Escrevíamos em abril deste ano: “FratresInUnum.com recebe confirmação segura de que Francisco pretende mesmo tratar do tema do celibato sacerdotal no próximo Sínodo dos Bispos. Estamos em condições de afirmar que o assunto foi pauta de reunião privativa dos bispos na Assembléia da CNBB de 2015, sendo capitaneado por Dom Cláudio Hummes. Então, o arcebispo emérito pediu que os bispos do Brasil fizessem uma “proposta concreta” a Francisco sobre o tema. A recém-eleita presidência da CNBB não demonstrou nenhum empenho especial pela causa, por conta divisão do episcopado brasileiro a respeito”. 

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IHU – É o remédio no qual pensam o cardeal Hummes e o Papa Francisco devido à falta de clero, começando pela Amazônia. Mas também na China do século XVII os missionários eram poucos e a Igreja florescia. Sobre isso escreve a revista La Civiltà Cattolica.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa.it, 21-09-2016. A tradução é de André Langer.

Há alguns dias, o Papa Francisco recebeu em audiência o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, acompanhado pelo arcebispo de Natal, Jaime Vieira Rocha.

Hummes, de 82 anos, anteriormente arcebispo de São Paulo e prefeito daCongregação vaticana para o Clero, é atualmente o presidente tanto da Comissão para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), como da Rede Pan-Amazônica, que reúne 25 cardeais e bispos dos países vizinhos, além de representantes indígenas das diversas etnias locais.

E é assim que se sustenta, entre outras coisas, a proposta de solucionar a falta de sacerdotes celibatários em áreas imensas como a Amazônia conferindo a ordem sagrada também a “viri probati” – ou seja, a homens de provada virtude, casados.

Por conseguinte, a notícia da audiência fez pensar que o Papa Francisco discutiu comHummes sobre esta questão e, em particular, sobre um sínodo “ad hoc” das 38 dioceses da Amazônia, que efetivamente está em fase avançada de preparação.

E há mais. Ganhou nova força a voz segundo a qual Jorge Mario Bergoglio quer confiar ao próximo sínodo mundial dos bispos, programado para 2018, precisamente a questão dos ministérios ordenados, bispos, sacerdotes, diáconos, inclusive a ordenação de homens casados.

A hipótese foi lançada logo depois do encerramento do duplo Sínodo sobre a Família.

E avançou rapidamente.

E agora parece ganhar terreno. Curiosamente, pouco antes que o Papa recebesseHummes, Andrea Grillo – um teólogo ultrabergogliano, professor no Pontifício Ateneu Santo Anselmo de Roma, cujas intervenções são sistematicamente reproduzidas e enfatizadas pelo sítio Il Sismografo, próximo ao Vaticano – chegou inclusive a antecipar um detalhe do próximo sínodo sobre o “ministério ordenado na Igreja”, que divide em três subtemas:

– o exercício colegial do episcopado e a restituição ao bispo da plena autoridade sobre a liturgia diocesana;

– a formação dos presbíteros, reconsiderando a forma tridentina no seminário, e a possibilidade de ordenar homens casados;

– a teologia do diaconato e a possibilidade de um diaconato feminino.

A autoridade a que fazem referência tanto Grillo como o resto dos reformistas clérigos e leigos quando formulam esta ou outras propostas é o falecido cardeal Carlo Maria Martini, com a intervenção que lançou no Sínodo de 1999.

O então arcebispo de Milão, jesuíta e líder indiscutível da ala “progressista” da hierarquia, disse que “teve um sonho”: o de “uma experiência de confronto universal entre bispos que servisse para desfazer alguns dos nós disciplinares e doutrinais que aparecem de tempos em tempos como pontos candentes no caminho das Igrejas europeias, mas não exclusivamente”.

Estes são os “nós” por ele enumerados:

“Penso em geral no aprofundamento e no desenvolvimento da eclesiologia de comunhão do Vaticano II. Penso na falta, às vezes dramática, em alguns lugares, de ministros ordenados e na crescente dificuldade que alguns bispos têm para dispor do número suficiente de ministros do Evangelho e da eucaristia para prover o cuidado das almas em seu território. Penso em alguns temas que dizem respeito à posição da mulher na sociedade e na Igreja, na participação dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais, na sexualidade, na disciplina do matrimônio, na prática penitencial, nas relações com as Igrejas irmãs da Ortodoxia e, mais em geral, na necessidade de reacender a esperança ecumênica; penso na relação entre democracia e valores e entre leis civis e lei moral”.

Da agenda martiniana, os dois sínodos convocados até agora pelo papa discutiram, de fato, sobre a “disciplina do matrimônio” e “a visão católica da sexualidade”.

O novo sínodo poderia resolver “a falta de ministros ordenados” abrindo as portas para a ordenação de homens casados e de diáconos mulheres; este último já foi posto em marcha pelo Papa Francisco com a nomeação, em 02 de agosto passado, de umacomissão de estudo.

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O principal argumento em apoio à ordenação de homens casados é o mesmo já expresso pelo cardeal Martini: “a crescente dificuldade que alguns bispos têm para dispor do número suficiente de ministros do Evangelho e da eucaristia para prover o cuidado das almas em seu território”.

A Amazônia seria, então, um destes “territórios” imensos em que os poucos sacerdotes ali presentes são capazes de chegar a núcleos remotos de fiéis não mais de duas a três vezes ao ano. Portanto, com grande prejuízo – sustenta-se – para “o cuidado das almas”.

Deve-se dizer, no entanto, que uma situação deste tipo não é exclusiva dos tempos atuais. De fato, caracterizou a vida da Igreja ao longo dos séculos e nas mais diversas regiões.

Mas, tem mais. A falta de presbíteros nem sempre foi um prejuízo para o “cuidado das almas”. Pelo contrário, em alguns casos coincidiu inclusive com o florescer da vida cristã. Sem que a ninguém ocorresse de ordenar homens casados.

Foi o que aconteceu, por exemplo, na China no século XVII. A isso faz referência um amplo artigo escrito pelo sinólogo jesuíta Nicolas Standaert, que leciona naUniversidade Católica de Louvaina, e que foi publicado na revista La Civiltà Cattolica, em seu número de 10 de setembro último. Trata-se, portanto, de uma fonte livre de qualquer suspeita vista sob o vínculo estreitíssimo e estatutário que a revista tem com os Papas e, em particular, com o atual, que acompanha pessoalmente a sua publicação, em acordo com o diretor da mesma, o jesuíta Antonio Spadaro.

No século XVII, na China, havia poucos cristãos e estavam dispersos. Escreve Standaert: “Quando Matteo Ricci morreu em Pequim, em 1610, depois de 30 anos de missão, havia aproximadamente 2.500 cristãos chineses. Em 1665, os cristãos chineses eram, provavelmente, cerca de 80 mil e em 1700 aproximadamente 200 mil; quer dizer, eram ainda poucos comparados com toda a população, entre 150 milhões e 200 milhões de habitantes”.

E os presbíteros eram muito poucos: “Quando Matteo Ricci morreu, em toda a Chinahavia apenas 16 jesuítas: oito irmãos chineses e oito padres europeus. Com a chegada dos franciscanos e dos dominicanos, em cerca de 1630, e com um pequeno aumento dos jesuítas no mesmo período, o número de missionários estrangeiros passou dos 30 e permaneceu constante nos seguintes 30 ou 40 anos. Na sequência, houve um aumento, atingindo o pico de quase 140 missionários entre 1701 e 1705. Mas depois, por causa da controvérsia sobre os ritos, o número de missionários diminuiu para quase a metade”.

Em consequência, o cristão comum via o presbítero não mais de “uma ou duas vezes ao ano”. E nos poucos dias que durava a visita, o sacerdote “conversava com os chefes e os fiéis, recebia informações sobre a comunidade, interessava-se pelos doentes e os catecúmenos. Confessava, celebrava a eucaristia, pregava e batizava”.

Depois, o sacerdote desaparecia durante meses. Mas, as comunidades se mantinham. Além disso, conclui Standaert: “transformaram-se em pequenos, mas sólidos centros de transmissão da fé e da prática cristã”.

Seguem, na sequência, os detalhes dessa fascinante aventura, assim como relatada pela revista La Civiltà Cattolica.

Sem elucubrações sobre a necessidade de ordenar homens casados.

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“O missionário aparecia uma ou duas vezes ao ano”, por Nicolas Standaert, SJ, da La Civiltà Cattolica n. 3989, de 10 de setembro de 2016

No século XVII, os cristãos chineses não estavam organizados em paróquias, ou seja, em unidades geográficas em torno do edifício de uma igreja, mas em “associações”, as quais eram dirigidas por leigos. Algumas destas eram uma mistura de associação chinesa e de congregação mariana, de inspiração europeia.

Parece que estas associações estavam mais difundidas. Por exemplo, por volta de 1665 havia cerca de 40 congregações em Xangai, ao passo que havia mais de 400 congregações de cristãos em toda a China, tanto nas grandes cidades como nas aldeias.

O estabelecimento do cristianismo a este nível local se fez na forma de “comunidades de rituais eficazes”, grupos de cristãos cuja vida se organizava em torno de determinados rituais (missa, festividades, confissões, etc.). Essas eram “eficazes”, porque construíam um grupo e porque eram consideradas pelos membros do grupo como capazes de proporcionar sentido e salvação.

Os rituais eficazes estavam estruturados em base ao calendário litúrgico cristão, que incluía não apenas as principais festas litúrgicas (Natal, Páscoa, Pentecostes, etc.), mas também as celebrações dos santos. A introdução do domingo e das festas cristãs fez com que as pessoas vivessem segundo um ritmo diferente do calendário litúrgico utilizado nas comunidades budistas ou taoístas. Os rituais mais evidentes eram os sacramentos, sobretudo a celebração da eucaristia e da confissão. Mas a oração comunitária – sobretudo a oração do terço e das ladainhas – e o jejum em determinados dias constituíam os momentos rituais mais importantes.

Essas comunidades cristãs revelam também algumas características essenciais da religiosidade chinesa: eram comunidades muito orientadas para a laicidade com dirigentes leigos; as mulheres tinham um papel importante como transmissoras de rituais e de tradições dentro da família; uma concepção do sacerdócio orientado para o serviço (presbíteros itinerantes, presentes apenas por ocasião das festas e de celebrações importantes); uma doutrina expressada de maneira simples (orações recitadas, princípios morais claros e simples); fé no poder transformador dos rituais.

Pouco a pouco, as comunidades chegaram a funcionar de maneira autônoma. Um presbítero itinerante (inicialmente eram estrangeiros, mas já no século XVIII eram, majoritariamente, sacerdotes chineses) costumava visitá-las uma ou duas vezes ao ano. Normalmente, os dirigentes das comunidades reuniam os diversos membros uma vez por semana e presidiam as orações, que a maior parte dos membros da comunidade conhecia de cor. Os dirigentes liam também os textos sagrados e organizavam a instrução religiosa. Muitas vezes havia reuniões exclusivas para mulheres. Além disso, havia catequistas itinerantes que instruíam as crianças, os catecúmenos e os neófitos. Na ausência de um presbítero, os dirigentes locais administravam o batismo.

Durante a visita anual, que durava alguns dias, o missionário conversava com os dirigentes e os fiéis, recebia informações sobre a comunidade, interessava-se pelos doentes e os catecúmenos, etc. Confessava, celebrava a eucaristia, pregava, batizava e rezava com a comunidade. Quando partia, a comunidade retomava a sua prática habitual de rezar o terço e as ladainhas.

Por conseguinte, o cristão comum via o missionário uma ou duas vezes por ano. O verdadeiro centro da vida cristã não era o missionário, mas a própria comunidade, com seus dirigentes e catequistas como vínculo principal.

Principalmente no século XVIII e começo de século XIX, estas comunidades se transformaram em pequenos, mas sólidos, centros de transmissão da fé e de prática cristã. Por causa da falta de missionários e de presbíteros, os membros da comunidade – por exemplo, os catequistas, as virgens e outros guias leigos – assumiam o controle de tudo, desde a administração financeira às práticas rituais, passando pela direção das orações cantadas e pela administração dos batismos.

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21 setembro, 2016

Testamento espiritual do Pe. Amorth: “Com Cristo ou com satanás, não existe meio termo”

ACI – Em sua última entrevista à imprensa, o exorcista Pe. Gabriele Amorth, falecido há alguns dias, deixou como testamento espiritual a seguinte frase “Com Cristo ou com satanás”.

 

Em uma inédita entrevista com David Murgia de TV2000, o sacerdote deixou seu testamento espiritual: “que esta frase ‘Com Cristo ou com Satanás, não existe meio termo”, fique gravada nas pessoas que tiverem a paciência para escutar-me”.

Em um vídeo publicado em Youtube, o Pe. Amorth recorda que “o diabo existe e é o principal inimigo de Deus. Deus quer levar a todas as pessoas ao paraíso e o diabo quer leva-los ao inferno”.

Deste modo ressalta que “aqueles que dizem – muitas pessoas se identificarão com esta frase–, por exemplo: ‘eu acredito em Deus, mas não sou praticante’, estão com Satanás, estão com Satanás! ”.

“Alguma vez, durante um congresso de bispos, gostaria que o cardeal que o presida tivesse a coragem de perguntar ‘levante a mão quem já fez exorcismos’ e logo depois de que poucos levantassem a mão, todas deveriam estar levantadas, porque o bispo tem o poder único e exclusivo de nomear exorcistas, deveriam ser muitos”, prosseguiu.

Ao concluir, o Pe. Amorth exortou a permanecer sempre com o Senhor: “Estejam com Jesus! E recordem que não pode ser de outra maneira: quando não estamos com Jesus, estamos com Satanás”.

O Pe. Gabriele Amorth faleceu na sexta-feira, 16 de setembro, às 19h50, hora da Itália, aos 91 anos.

O religioso se encontrava há algumas semanas no hospital da Fundação Santa Luzia de Roma devido a doenças pulmonares. Chegou a realizar dezenas de milhares de exorcismos.

Outro sacerdote espanhol, Pe. José Antonio Fortea, escreveu que o Pe. Amorth sempre foi “uma luz para os outros exorcistas”, uma missão “realmente dada por Deus”.

“O Padre Amorth não era apenas mais um exorcista”, pois com “sua voz forte, vigorosa, falou com milhões de pessoas a respeito da ação do demônio”, ressaltou.