22 julho, 2018

Foto da semana.

nicaragua

Rezemos pela Igreja perseguida na Nicarágua. Segundo a ACIPrensa (créditos também da imagem, tirada na capital do país, Managua), “depois que a Conferência Episcopal da Nicarágua pediu pessoalmente ao presidente Ortega uma possível antecipação das eleições políticas para março, as forças paramilitares passaram a visar os fiéis e a hierarquia eclesiástica com ataques. Uma verdeira caça aos opositores e manifestantes que já deixou mais de 270 vítimas.

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21 julho, 2018

Coluna do Padre Élcio: Não desprezar a graça, porque, um dia, será a última!

Evangelho do 9º Domingo depois de Pentecostes – S. Lucas XIX, 41-47.

Por Padre Élcio Murucci, 21 de julho de 2018 – FratresInUnum.com

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

É o que nos ensina o santo Evangelho de hoje: Não desprezar a graça, porque, um dia, será a última!

Jesus bate a portaTrata-se da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. A última visita do Salvador a esta cidade, pois, naquela semana vai ser preso, condenado, sofrer e morrer numa cruz. Em Jerusalém, os inimigos do Salvador ouvem falar com desgosto do milagre da ressurreição de Lázaro, que é o assunto de todas as conversas, e que atrai tanta consideração Àquele cuja glória os ofusca; exaspera-os o contentamento que mostram os admiradores de Jesus, e sua diligência em sair da cidade para ir ao seu encontro. Há também os indiferentes, entregues aos negócios ou prazeres; estes ligam pouco importância às questões religiosas, quase não prestam atenção a tudo o que se diz.

Fora de Jerusalém, há numerosos grupos, que manifestam à porfia seu respeito e amor para com o glorioso filho de Davi que passou fazendo o bem. Imaginemos o contentamento dos Apóstolos, porque, afinal, se faz justiça ao seu bom Mestre; ei-Lo agora honrado como merece. Mas Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja presença causa este contentamento e a quem se dirigem todos estes cantos de triunfo, só Ele descobre um motivo de tristeza nestas aparências lisonjeiras. E, assim, vendo a cidade de Jerusalém, chora.

Caríssimos, Jesus chora sobre a cidade que vai crucificá-Lo, e nós sabemos que Ele anseia ver chegar a ocasião, em que nos há de batizar no seu sangue. Qual é a causa destas lágrimas, se Ele deseja a cruel morte, que se seguirá ao seu triunfo, dentro daquela mesma semana? É que este terno e generoso amigo ama os seus sofrimentos, porque nos salvam; mas os nossos males é que Lhe arrancam tantas lágrimas. Caríssimos, será que este amor e estas lágrimas não nos comoverão?

O Filho de Deus, lembrando-se de tudo o que fez pela cidade culpada, e do que ela vai fazer para encher a medida dos seus crimes, não se contenta com chorar sobre ela; mas para nos instruir, quer que todos conheçamos a causa das suas lágrimas. Jesus aflige-se porque prevê o novo abuso que Jerusalém vai fazer das suas graças, não se aproveitando desta última visita: “Se ao menos neste dia, que te é dado, conhecesses ainda o que te pode trazer a paz! Mas agora tudo isto está encoberto aos teus olhos! Porque virá um tempo funesto para ti: no qual teus inimigos te cercarão de trincheiras e te sitiarão; e te apertarão por todos os lados: e te arrasarão, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo da tua visita”. Não conclui: suas lágrimas, seu silêncio dizem o resto. Caríssimos, não há pecador que não possa voltar para Deus, mas é mister que queira. Si se obstina, os dias de ira substituirão os dias de misericórdia. Que pensar do réu, que despreza seu juiz, ainda quando este, chorando, parece dizer-lhe: “Evitai-me a dor de vos condenar, porque bem vedes que vos amo?”

E ainda não terá passado o tempo da misericórdia para aquele povo de Jerusalém? Não, mas passará brevemente; não falta senão um dia! E, caríssimos, uma vida inteira, comparada com a eternidade, não é mais do que um dia! Se durante este dia favorável, se diante desta graça definitiva, Jerusalém, abrindo finalmente os olhos à verdade, recebesse o seu libertador com a mesma boa vontade que a gente que formava seu cortejo; se todos os seus habitantes concorressem, como deviam, a esta ovação, o triunfo de Jesus teria sido completo. Ele manifestaria sua alegria, em lugar de derramar lágrimas. Mas, como profetizou Jesus: “Isto está encoberto aos seus olhos!”. Não pode haver castigo maior neste mundo do que este: a cegueira espiritual advinda do orgulho que não quer reconhecer a verdade! Jerusalém obstinara-se e endurecera-se. Não quer ver nem os bens que perde, nem os males que atrai sobre si, nem os crimes que cometeu, nem o que viria a cometer. Na verdade, deixou passar o tempo da salvação. Todos os castigos preditos por Jesus caíram sobre aquela cidade. No ano 70, Tito, imperador romano, sitiou e destruiu inteiramente Jerusalém. Basta lermos o que o historiador judeu Flávio Josefo nos descreve minuciosamente. E é este judeu renegado que nos diz que, uns meses depois da catástrofe, o imperador Tito, ao voltar do Egito para a Palestina, passou por Jerusalém “e, ao comparar a triste solidão que substituíra a antiga magnificência, deplorou o desaparecimento daquela grande cidade e, longe de se desvanecer por a ter destruído, apesar da sua fortaleza, como teria feito qualquer outro, maldisse os culpados que haviam iniciado a revolta e provocado aquele espantoso castigo”.

Mas isto era apenas o castigo material; pensemos nos castigos espirituais. Caríssimos, compreendei pelas lágrimas de Jesus, a desgraça da impenitência, a desordem das paixões, a malícia do pecado, a loucura das alegrias mundanas, a profanação dos templos, mas compreendei, outrossim, a caridosa compaixão do Coração de Jesus Aprendei desta profunda aflição a sua excessiva ternura para com todos os homens, e quanto lhe é dolorosa a perdição dos pecadores.

Supliquemos ao Divino Redentor a graça de chorar com Ele a triste sorte daquelas almas que Ele ama até morrer para as salvar, e que não salvará, nem mesmo morrendo por elas! Rezemos e façamos penitência pela conversão dos pecadores, porque Nossa Senhora ensinou em Fátima que muitos se condenam porque não há quem reze e faça penitência por eles.

Caríssimos, para todos nós, haverá também a última visita de Jesus, a graça definitiva. E profundamente tocados, meditamos nestas palavras de Santo Agostinho: “Timeo Jesum transeuntem et non redeuntem”, “Temo a Jesus que passa e não volta mais”. Deus nos faz diversas visitas na vida, visitas mais marcantes que aquelas que recebemos d’Ele todos os dias. Por exemplo: é a primeira comunhão, é a época do casamento ou, seguindo a vocação especial de Deus, a entrada para o seminário, o dia da ordenação sacerdotal, ou da profissão para os religiosos. Pode ser também um revés na fortuna, uma doença, a perda de um amigo, de um parente. É uma missão, um retiro espiritual, uma peregrinação, um sermão ou artigo tocante, ou mesmo uma possante moção interior da graça às vezes até sem causa exterior aparente. Caríssimos, felizes aqueles que sabem reconhecer este tempo da visita do Senhor! Sua salvação está assegurada; pois, ela dependia desta graça particular e que não ficou vã, mas foi aceita com generosidade. Assim foi a aparição da estrela para os Reis Magos! Por outro lado, quão infelizes aqueles que não reconhecem Jesus quando Ele vem a eles, quando Jesus bate a porta de seus corações e eles não Lha abrem e até o rejeitam como um estranho que nunca teriam visto. E Jesus passa adiante, e, algumas vezes, não volta mais; foi aquela a última visita, o último recurso de sua misericórdia. Não mais as graças de escol, não mais os apelos prementes, não mais os convites tocantes. O pecador se endurece, e se afunda mais e mais no mal. Seu coração ficou duro e frio como granito. Seus olhos se obscureceram. Não vê e nem gosta mais do bem! Ó que estado lastimável, que faz chorar a Jesus e aos seus fiéis ministros!!! O que Jesus disse a respeito de Jerusalém, com certeza diz em relação a tais pecadores que rejeitam suas graças: “Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes Eu quis juntar teus filhos como a galinha recolhe debaixo das asas os seus pintainhos e tu não quiseste!” (S. Mateus XXIII, 37).

Oh! amantíssimo Jesus, fazei-me compreender que a verdadeira paz não consiste nem devo procurá-la na ausência de dificuldades, na condescendência com os meus desejos, mas na total adesão à Vossa vontade e na docilidade às inspirações do divino Espírito Santo! Amém!

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20 julho, 2018

Eles estão no meio de nós.

Por Eles estão no meio de nós – A Igreja no Brasil é permeada de conflitos políticos desde o seu tenro desenvolvimento. A relação entre Igreja e Estado sempre foi campo minado de tensões. Elementos históricos, e dentre eles o florescimento político-partidário  progressista no país, produziram um solo fértil para que documentos, inclusive da Santa Sé, fossem lidos, reinterpretados e apropriados com intencionalidades distintas das quais foram inicialmente promulgados. A Ação Católica adotada por Pio XI e seu posterior encaminhamento adotado no Brasil revelam um exemplo – e por que não – um sinal de contradição?

A criação e o desenvolvimento de ações ideológicas no seio da Igreja brasileira demonstram que o país estava disponível a aceitar e conviver com o caos decorrente destas infiltrações. A presença da Teologia da Libertação no Brasil, após 1968, embora não seja a detentora exclusiva dos malefícios no catolicismo nacional, é uma das grandes responsáveis por nossos males, pois investiu em camadas de base, “formação” em escala de intelectuais e difusão ideológica.

Considerando o entendimento da Doutrina Católica, e nela a fé como um de seus pilares, subentende-se os sacramentos como sinais visíveis da graça de Deus. E que pureza há n’alma da Igreja, que embora materialmente seja mantida por mãos humanas, é sobretudo sustentada pela graça e pelo Espírito Santo. Deveria ser ela, portanto, cheia de manchas e pecado? Quando o Papa Paulo VI anunciou que “a fumaça de satanás entrou na Igreja”, com isto advertia que os sacramentos e a vida do povo de Deus estavam sob ameaça.

É nos sacramentos que resplandece a face misericordiosa do próprio Deus. Encontrar, no entanto, em seu lugar um deus histórico, homem comum e não o Homem Deus, tira o próprio Cristo da centralidade da vida da Igreja.

A Teologia da Libertação dessacraliza a disposição à santidade da Igreja. Os sacramentos são tidos, para essa teologia, como meros sinais de partilha e inclusão, e não da graça; não são sinais de transubstanciação, de Presença Real nem de penitência, mas de libertação social, emancipação e sincretismo de crenças que ignora a Tradição, o Magistério e as Escrituras, instituídos desde os séculos sob a luz de concílios, papas e doutores da Igreja em benefício da salvação eterna de todos os homens.

A aproximação do ideal marxista à doutrina da Igreja causa a ilusão de um falso céu na terra, ao contrário do que realmente nos ensina a vida de Cristo, uma vida de abnegação e desprendimento, que afirmou que a vida eterna é a plenitude da alma justa na presença do Deus amoroso; o mesmo Deus que nos chama a viver a santidade nesta vida terrena, que jamais poderá se comparar ao paraíso celeste por Ele prometido.

Os bastidores políticos que fomentam tal reinvenção para o catolicismo, principalmente na América Latina, são incompatíveis com a verdadeira Doutrina da Igreja em toda e qualquer instância. A compreensão e difusão dessas incompatibilidades deve ser acessível e didática. É crucial não somente se manifestar contra ideias, mas contra pessoas reais, no mundo real. Amparados por fatos, documentos, fontes, devemos nos posicionar frente à figuras que mantém uma espécie de honra pública e que, há muito tempo, estão no meio de nós.

Instituído pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o ano do laicato, no presente 2018, inspira os leigos a protagonizar momentos edificantes na vida da comunidade eclesiástica no aprofundamento da fé, por meio de posicionamentos firmes e ativos. Impulsionados por esta ocasião, e já há muito feridos com os estigmas dessa incompatibilidade que permeia fé católica, esta produção justifica-se em uma dupla função: (1) outdoor, que denuncia irregularidades graves na Igreja; e (2) dossiê, que reúne extenso amparo documental e testimonial que implicam e inspiram a agir sabiamente na reversão desse triste quadro.

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Um filme de Bernardo Küster e Viviane Princival.aju

19 julho, 2018

Nicarágua. Bispos rezam oração de exorcismo contra os ataques no país.

IHU – Como os ataques contra o clero católico continuam, e os manifestantes antigoverno são cercados pela polícia e paramilitares, os bispos disseram que realizaram uma oração de exorcismo. Segundo eles, o dia 20 de julho seria de oração e jejum como um ato de expiação, pela profanação realizada nos últimos meses contra Deus. Nesse dia, “rezaremos a oração do exorcismo a São Miguel Arcanjo“, afirmaram.

A reportagem é publicada por Catholic News Service, 17-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Em 15 de julho, o veículo do bispo Juan Mata Guevara, de Esteli, foi baleado enquanto ele viajava para a cidade de Nindirí, onde esperava deter um ataque da polícia e dos paramilitares. O bispo escapou ileso, mas os pneus do veículo foram furados e as janelas quebradas, disse o padre Victor Rivas, Secretário-Executivo da Conferência Episcopal da Nicarágua.

Um ataque em 14 de julho no campus da Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua, em Manágua, deixou 2 estudantes mortos e 15 feridos. Alguns dos manifestantes que fugiam, procuravam abrigo na Igreja da Divina Misericórdia, onde os feridos estavam sendo tratados. Agressores armados impediram que as ambulâncias chegassem à igreja.

Um repórter do Washington Post estava entre os presos na paróquia que os padres disseram ter sido “profanada”. Fotos postadas em mídias sociais mostraram que a Igreja estava cheia de balas.

“Eles estão atirando em uma igreja. O governo diz que respeita os direitos humanos. Isso é respeito aos direitos humanos?”, disse o Erick Alvarado Cole, pároco da Igreja da Divina Misericórdia ao The Washington Post. No dia 9 de julho, o cardeal Leopoldo Brenes Solorzano, de Manágua, seu auxiliar, bispo Silvio José Baez, e o arcebispo Waldemar Stanislaw Sommertag, núncio apostólico, estavam entre os padres de Manágua tentando proteger a Basílica de São Sebastião, na cidade de Diriamba, de uma manifestação pró-governo. O bispo Baez e pelo menos um padre ficaram feridos. Jornalistas também foram atacados e tiveram câmeras e outros equipamentos roubados.

“Nos últimos dias, a repressão e a violência perpetradas pelos paramilitares pró-governo contra as pessoas que protestam civilmente, pioraram. Hoje, como nunca antes, os direitos humanos estão sendo violados na Nicarágua“, afirmaram os bispos em declaração no dia 14 de julho.

“’Membros do diálogo nacional’ – convocados pela Conferência Episcopal – “defensores dos direitos humanos e a mídia independente têm sido objeto de campanhas de difamação por parte do governo”, completaram.

Grupos de direitos humanos estimam que o número de mortos na Nicarágua seja superior a 350 desde 18 de abril, quando houve protestos contra reformas no sistema de seguridade social do país centro-americano. Após essa data, protestos exigiram a destituição do presidente Daniel Ortega que rejeitou propostas para eleições antecipadas e reprimiu protestos com violência.

Igrejas na Nicarágua serviram como centros para tratar os feridos e permitir o trabalho de grupos de direitos humanos. Os sacerdotes tocam sinos nas Igrejas para alertar as populações locais quando a polícia e os paramilitares chegam.

Covenant House, conhecida como Casa Alianza na América Latina, que trabalha com crianças desabrigadas e traficadas, fez uma chamada urgente para doações, dizendo que os funcionários foram forçados a dormir nos abrigos devido a preocupações de segurança. Suas famílias tiveram que comprar suprimentos, como alimentos e remédios, com meses de antecedência.

Na declaração, os bispos disseram que a mediação de um acordo através de diálogo se mostrou difícil. “Temos sido testemunhas de uma falta de vontade política do governo, em dialogar de maneira sincera e procurar processos reais que nos levem a uma verdadeira democracia”, e também da não realização do “desmantelamento urgente das forças armadas pró-governo”, diz o comunicado. “Representantes do governo distorceram o principal objetivo para o qual o diálogo nacional foi estabelecido”.

Um analista católico da Nicarágua que preferiu não ser identificado por razões de segurança, disse que o diálogo foi interpretado como uma tentativa de Ortega e sua esposa, a vice-presidente Rosario Murillo, de ganhar tempo. Os bispos também correm o risco de serem culpados pelo colapso das negociações caso eles se retirem da função de mediadores, afirmou o analista.

“O governo e a vice-presidente estão se apropriando da linguagem religiosa há algum tempo e agora estão dizendo que o governo está fazendo o trabalho de Deus”, disse o analista ao CNS.

Os bispos disseram que continuariam trabalhando como mediadores, mas seu papel vai além de sentar na mesa de negociações.

“Dada a dimensão profética do nosso ministério, vimos a urgência de ir aos lugares de conflito para defender as vidas dos indefesos, trazer conforto às vítimas e mediar com o objetivo de uma solução pacífica para a situação. A Igreja da Nicarágua continuará a usar todos os meios possíveis. Nossa missão como pastores e profetas não contradiz nosso papel de mediadores e testemunhas. Buscamos a paz e justiça como nicaraguenses”, afirmam os bispos

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17 julho, 2018

Novo capítulo da divisão entre a viúva Ivone e a Montfort-Zucchi: o site “Flos Carmeli” e o surgimento de uma nova hermenêutica do Legado de Orlando Fedeli.

Por Manoel Gonzaga Castro | FratresInUnum.com, 17 de julho de 2018

manoelgonzagacastro@gmail.com

Há cerca de duas semanas, foi noticiado com exclusividade em FratresInUnum.com, por meio da coluna de minha colega Catarina, que o Sr. Alberto Zucchi, 58 anos, rompera com a viúva Ivone Fedeli, 60, sob a narrativa de que Ivone teria traído os ideais do Professor Orlando Fedeli (1933-2010), seu marido por mais de duas décadas, ao ter permitido, como atual superiora do ramo feminino da Fraternidade São Mauro (FSM), a participação de suas “freiras” na celebração da “Liturgia da Palavra”, na abertura do Sínodo da Arquidiocese de São Paulo, presidida por seu Arcebispo, Dom Odilo Pedro Cardeal Scherer.

Segundo o vídeo publicado, para Zucchi, essa autorização de Ivone teria corroborado com o projeto modernista de destruição da Missa Tridentina, representado em iniciativa ainda mais radical que sua substituição pela Missa Nova, pois o Novus Ordo, embora corrupto, ainda seria Missa, ao passo que a Liturgia da Palavra não passaria de idolatria. Assim, nos 35 anos de Montfort, nunca teria ocorrido uma traição tão grande, pois Ivone estaria conduzindo seus seguidores a um pecado mais grave que o cometido por quem vai à Missa Nova, de acordo com o ensinamento do Prof. Orlando Fedeli. Para ele, a frequência à forma ordinária por aqueles que “sabem” de seus males implicaria cometimento de pecado.

Segundo a interpretação de Zucchi, o Professor jamais aprovaria esse ato de sua esposa. Ainda no vídeo, Zucchi enfatiza energicamente que a ação de Ivone foi feita à total revelia da direção da Montfort, ou seja, dele, que tem dirigido a associação de forma centralizadora desde 2010, quando o fundador faleceu.

Nesse sentido, com seu “non serviam” a Zucchi, Ivone operou, no microcosmos do grupo, uma verdadeira revolução metafísica e moral. Com efeito, ela jurara fidelidade a Zucchi, publica e reiteradamente, alegando que “a autoridade é a forma de um grupo e que o Alberto, apesar de seus inúmeros defeitos bem conhecidos e de não ter a virtude do Lando, era a forma da Montfort após sua morte”, e que “não seguir a autoridade era uma das maiores manifestações de orgulho, que foi o pecado de Lúcifer”.

Como de costume, essa ruptura foi declarada em aula na sede da associação, com argumentação alegadamente definitiva, embasada em diversos autores estrangeiros que, conforme é sabido nos ambientes da Tradição em São Paulo, o montfortiano médio desconhece. A argumentação dessa aula, tirando a parte da “briga-baixaria-disputa” a que imediatamente servia, foi publicada em texto de cariz acadêmico em seu site (cf. “A Teologia do Novus Ordo Missae é a mesma da Celebração da Palavra de Deus?” )

Assim, em 90 minutos, Ivone passou de viúva piedosa e frágil a “prócer” do projeto modernista de implantação de um culto novo no seio da Igreja Católica, porque quis demonstrar unidade com o Cardeal Dom Odilo e obter favores para a incipiente Fraternidade São Mauro. Pessoas ligadas a Montfort-Zucchi ironizam que “a madre”, como é chamada, durou até que muito, pois outros traidores tiveram sua reputação interna assassinada em discursos, apoiados pela própria Ivone, de apenas 20 minutos.

Recapitulados os últimos fatos, tem relevância hoje a informação de que, passados oito anos da morte de seu marido, a viúva finalmente chamou para si a responsabilidade de interpretar o legado do falecido, lançando o site “Flos Carmeli”, com seção especialmente dedicada a essa tarefa: http://floscarmeliestudos.com.br/professor-orlando-fedeli/.

Confiram o vídeo de lançamento do site:

Ora, chama a atenção a quantidade de material disponibilizado no “Flos Carmeli”, com cerca de 120 vídeo-aulas, que começaram a ser gravadas já em 2016. O que reforça tanto a informação de que Ivone sempre visualizou um futuro sem Zucchi (dado seu desejo íntimo de fundar uma comunidade religiosa, ao passo que Zucchi depositava suas esperanças eclesiásticas exclusivamente no Instituto do Bom Pastor), quanto a crença de que o ataque de Alberto foi essencialmente uma tentativa de desmoralizar a viúva e de impedir que membros da já diminuta Montfort-Zucchi adiram à Fraternidade São Mauro.

Muito haveria que informar sobre todo esse processo de ruptura, permeado de intrigas e de conspirações, às quais a redação de FratresInUnum.com sempre esteve atenta e que não publicou antes, pois o desenlace ainda estava nebuloso e somos fiéis a nosso objetivo de prestar informações de qualidade a nossos leitores a respeito do movimento tradicionalista brasileiro.

Porém, estando clara a ruptura, sendo por isso que a noticiamos, surge agora a tarefa de compreender qual vai ser exatamente o enfoque interpretativo da obra de Fedeli a ser adotado pela viúva em sua disputa com Zucchi e também no embasamento teórico de sua congregação. Com efeito, a Fraternidade São Mauro se apresenta agora como a legítima detentora do “tesouro espiritual deixado pelo Lando”, conforme as palavras da viúva e as mensagens em sonho que Pe. Edivaldo Oliveira declara em palestras ter recebido a respeito da Fraternidade nos últimos anos (interessante notar que também Mons. João Clá Dias tem o hábito de fundamentar seus discursos em sonhos que costuma ter).

Ora, até 2010, havia um Orlando Fedeli atacando ferozmente o Concílio Vaticano II e a Missa Nova e sendo marginalizado pelas autoridades eclesiásticas por conta disso. Ele defendia suas ideias e pagava o preço.

Após a morte do fundador, Zucchi, por sua vez, desenvolveu um pensamento tradicionalista esquizofrênico baseado na esperança de Fedeli de que Bento XVI seria o Papa de Fátima. Assim, Zucchi declarou não fazer mais que seguir os comandos desse papa quanto à liturgia e o concílio.  Crendo estranhamente que isso era ser contra a Reforma Litúrgica e o Vaticano II, ele conseguia dialogar nessa chave de “sigo Bento XVI” com o Cardeal Dom Odilo e, assim, obter espaço, por exemplo, na Paróquia São Paulo Apóstolo ou no Mosteiro de São Bento, para seus congressos.

Congresso

Congresso Montfort 2016, com a presença de Dom Odilo e do Abade Dom Mathias, ladeados por Alberto Zucchi e Ivone Fedeli. 

E Ivone? Qual será sua interpretação de Fedeli? O que fará ela, considerando que seu trato com o Cardeal é mais intenso que o de Zucchi, uma vez que ela está em vias de formalizar uma comunidade religiosa já operacional? Como seguir Fedeli, guardar e promover seu assim chamado tesouro espiritual, que inclui o combate à Missa Nova e ao Vaticano II, e obter a aprovação eclesiástica? Como seguir Fedeli e impedir que a licença de estudos do Padre Edivaldo Oliveira em São Paulo, que é o sacerdote que atende suas “freiras”, não seja cassada?

Afinal, nessa confusão toda, se há um ponto pacífico, é o de que ela, de fato, autorizou a ida de suas “freiras” à Liturgia da Palavra, o que se insere em um contexto de manifestar integração na vida da arquidiocese, fato do qual Zucchi se aproveitou.

Outro fato de que se aproveitam, para desmoralizá-la, também pacífico, é o de ela ter flexibilizado sua posição e de ter avalizado teologicamente a ordenação do Pe. Edivaldo em Ciudad del Este, numa Missa Tridentina “versus populum”, o que não deixou de ser encarado pelos “puristas” como uma invenção litúrgica “sui generis”.

O Professor, absolutamente apolítico que era, segundo alguns, jamais aceitaria tais fatos, visto que “foi d’abbord, pas la politique”, visto que a “fé vem antes de tudo, e não a política”.

Fiéis e sacerdotes piedosos e instruídos, que conhecem bem esses meandros tradicionalistas, opinam que tanto Zucchi, quanto Ivone não parecem em posição adequada para interpretar o “Legado de Orlando Fedeli”, pois ambos são parte dele e o fazem em meio a interesses práticos imediatos e brigas, o que lhes tira isenção. Nessa disputa, ambos precisam de Fedeli, para continuar seus movimentos, porém de um Fedeli a sua maneira.

Assim, sobre Ivone, se é possível um palpite, arriscam que ela vai deixar o Fedeli polemista em segundo plano, e ressaltar o “Lando pensador”, mais amistoso e contemplativo da beleza de Deus nas criaturas, na arte e na liturgia, o qual ainda não foi compreendido (por Zucchi e por todos os demais, leia-se). Ou seja, um Fedeli inédito, que ainda há de ser construído hermeneuticamente pela Fraternidade São Mauro, liderada pela madre Ivone.

Tudo isso, entretanto, fica para acontecimentos futuros, que, para o bem das almas, esperamos poder noticiar, cumprindo nosso objetivo de informação. Afinal, é importante estar ciente dessas vicissitudes humanas, para não corrermos o risco da frustração e do desespero, quando nos valemos desses movimentos como instrumentos para buscar a Deus.

Ademais, não é preciso ser pessimista e ignorar os bons frutos que podem surgir das lamentáveis contendas, ainda quando ocorrem entre “irmãos”, pois, ao fim e ao cabo, como católicos, estamos todos nos esforçando para alcançar a Jerusalém celeste, onde seremos definitivamente “fratres in unum”.

Quanto às origens e ao desenvolvimento da atual ruptura, voltaremos eventualmente a esse tema em próximas publicações.

 

16 julho, 2018

Releiamos a Humanae Vitae à luz da Casti connubii.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 6 de julho de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO Ocidente conheceu nas últimas décadas uma Revolução antifamiliar sem precedentes na História. Um dos pilares desse processo de desagregação da instituição familiar tem sido a separação dos dois fins primários do matrimônio, o procriativo e o unitivo.

O fim procriativo, separado da união conjugal, levou à fertilização in vitro e ao útero alugado. O fim unitivo, emancipado da procriação, levou à apoteose do amor livre, hétero e homossexual. Um dos resultados dessas aberrações é o recurso de casais homossexuais ao útero alugado para realizar uma grotesca caricatura da família natural.

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A encíclica Humanae Vitae, de Paul VI, cujo quinquagésimo aniversário será celebrado em 25 de julho de 2018, teve o mérito de reafirmar a inseparabilidade dos dois significados do casamento e de condenar claramente a contracepção artificial, tornada possível nos anos 60 do século passado pela comercialização da pílula do Dr. Pinkus.

No entanto, até a Humanae Vitae tem culpa no cartório: a de não ter afirmado com igual clareza a hierarquia dos fins, ou seja, a primazia do fim procriativo sobre o unitivo. Dois princípios, ou valores, nunca podem estar num mesmo nível, em condição de igualdade. Um é sempre subordinado ao outro.

Isso se dá nas relações entre a fé e a razão, a graça e a natureza, a Igreja e o Estado, e assim por diante. Essas são realidades inseparáveis, mas distintas e ordenadas hierarquicamente. Se a ordem dessas relações não for definida, as tensões e os conflitos se seguirão, até a inversão da ordem dos princípios. Deste ponto de vista, uma das causas do processo de desintegração moral dentro da Igreja foi a falta de uma definição clara do fim primário do casamento pela encíclica de Paulo VI.

A doutrina da Igreja sobre o casamento foi afirmada como definitiva e obrigatória pelo Papa Pio XI em sua encíclica Casti Connubii, de 31 de dezembro de 1930. Neste documento, o Papa recorda à Igreja e à humanidade as verdades fundamentais sobre a natureza do casamento, estabelecido não pelos homens, mas pelo próprio Deus, e sobre as bênçãos e benefícios que advêm daí para a sociedade.

O primeiro objetivo é a procriação: que não significa apenas trazer filhos ao mundo, mas educá-los intelectual e moralmente, e, acima de tudo, espiritualmente, para conduzi-los ao seu destino eterno que é o Céu. O segundo objetivo é a assistência mútua entre os cônjuges, que não é apenas material, nem tampouco sexual ou sentimental, mas antes de tudo uma assistência e uma união espiritual.

A encíclica contém uma condenação clara e vigorosa do uso de meios contraceptivos, definidos como “uma ação torpe e intrinsecamente desonesta”. Portanto: “Qualquer uso do casamento em que pela maldade humana o ato seja destituído de sua virtude procriadora natural, vai contra a Lei de Deus e da natureza e aqueles que ousam cometer tais ações se tornam responsáveis de culpa grave.”

Pio XII confirmou em muitos discursos o ensinamento de seu antecessor. O esquema original sobre a família e o casamento do Concílio Vaticano II, aprovado por João XXIII em julho de 1962, mas rejeitado no início dos trabalhos pelos Padres Conciliares, reafirmou essa doutrina, condenando explicitamente “teorias que invertem a ordem correta dos valores, colocam o fim primordial do matrimônio no segundo plano em relação aos valores biológicos e pessoais dos cônjuges e que, na mesma ordem objetiva, indicam o amor conjugal como fim primário” (nº 14).

O fim procriativo, objetivo e enraizado na natureza se cumpre espontaneamente. O objetivo unitivo, subjetivo e baseado na vontade dos cônjuges pode desaparecer. A primazia do fim procriativo salva o casamento, a primazia do fim unitivo o expõe a sérios riscos.

Além disso, não devemos esquecer que os fins do casamento não são dois, mas três, porque subsidiariamente existe também o remédio para a concupiscência. Ninguém fala deste terceiro fim, porque se perdeu o significado da noção de concupiscência, confundido muitas vezes com o pecado, à maneira luterana.

A concupiscência, presente em todos os homens, exceto na Santíssima Virgem, imune do pecado original, nos recorda que a vida na terra é uma luta incessante, porque, como diz São João, “no mundo não existe senão concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da vida” (1 Jo 2:16).

A exaltação dos instintos sexuais, inoculados na cultura dominante pelo marxismo-freudismo, não é senão a glorificação da concupiscência e, consequentemente, do pecado original.

Essa inversão dos fins matrimoniais, que conduz inevitavelmente à explosão da concupiscência na sociedade, aflora na exortação do Papa Francisco Amoris laetitia, de 8 de abril de 2016, em cujo o número 36 se lê: “Com frequência apresentamos o casamento de modo tal que o fim unitivo, o convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua permanecem à sombra de uma nota quase exclusiva sobre o dever de procriar.”

Estas palavras repetem quase literalmente aquelas pronunciadas pelo cardeal Leo-Joseph Suenens na aula conciliar, em 29 de outubro de 1964, num discurso que escandalizou Paulo VI. “Pode ser – disse o cardeal arcebispo de Bruxelas – que tenhamos acentuado a palavra da Escritura: ‘Crescei e multiplicai’ a ponto de deixar a outra palavra divina nas sombras: ‘Os dois serão uma só carne’. (…) Caberá à Comissão nos dizer se não enfatizamos muito o primeiro objetivo, que é a procriação, em detrimento de um fim igualmente imperativo, que é o crescimento da unidade conjugal”.

O cardeal Suenens insinua que a finalidade principal do casamento não é crescer e multiplicar, mas que “os dois sejam uma só carne”. Passamos de uma definição teológica e filosófica para uma descrição psicológica do casamento, apresentada não como um vínculo enraizado na natureza e dedicado à propagação da humanidade, mas como uma comunhão íntima, voltada para o amor recíproco dos cônjuges.

O casamento é reduzido mais uma vez a uma comunhão de amor, enquanto o controle de natalidade – natural ou artificial – é visto como um bem que merece ser encorajado sob o nome de “paternidade responsável”, pois ajuda a fortalecer o bem primário da união conjugal. A consequência inevitável é que, no momento em que essa comunhão íntima vier a fracassar, o casamento pode se dissolver.

A inversão dos fins é acompanhada pela inversão dos papéis dentro da união conjugal. O bem-estar psicofísico da mulher substitui sua missão de mãe. O nascimento de uma criança é visto como um elemento que pode perturbar a íntima comunhão de amor do casal. A criança pode ser considerada como um injusto agressor do equilíbrio familiar, da qual o casal se defende com a contracepção e, em casos extremos, com o aborto.

A interpretação que demos das palavras do cardeal Suenens não é forçada. Em coerência com aquele discurso, o cardeal primaz da Bélgica liderou em 1968 a revolta dos bispos e teólogos contra a Humanae Vitae. A Declaração do episcopado belga, de 30 de agosto de 1968, contra a encíclica de Paulo VI, foi, com a do episcopado alemão, uma das primeiras elaboradas por uma Conferência Episcopal e serviu de modelo de protesto a outros episcopados.

Aos herdeiros dessa contestação, que se propõem reinterpretar a Humanae Vitae à luz da Amoris laetitia, respondemos com firmeza que continuaremos a ler a encíclica de Paulo VI à luz da Casti connubii e do Magistério perene da Igreja.

15 julho, 2018

Foto da semana.

eucaristia

Imagem e texto publicado no facebook do Padre Gabriel Vila Verde: “Em Franca-SP, carro da ministra da comunhão pega fogo e tudo fica destruído, menos a teca com a Santíssima Eucaristia, o papel com uma oração ao Coração de Jesus e o pano que envolvia a teca”.

15 julho, 2018

Coluna do Padre Élcio: Preparação para dar contas a Deus.

Evangelho do 8º Domingo depois de Pentecostes. S. Lucas XVI, 1-9.

Por Padre Élcio Murucci, 15 de julho de 2018 – FratresInUnum.com

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

A Santa Igreja neste domingo coloca para nossa meditação a parábola do “Mau Administrador”. O HOMEM RICO é figura de Deus, senhor de todas as riquezas que possuem os anjos no céu, e os homens na terra. O ADMINISTRADOR é todo homem que está neste mundo. Se aqui na terra o homem é considerado proprietário diante dos outros homens (por isso Deus proíbe o roubo), não o é diante de Deus, mas apenas um administrador, um simples ecônomo. Tudo o que possuímos, na ordem da natureza e da graça, de fato, não nos pertence, pois tudo nos foi confiado por Deus, a quem um dia havemos de prestar contas. À hora da nossa morte, encontraremos um livro onde se acha notado, com rigorosa precisão, todos os nossos créditos e todos os nossos débitos. Como o ecônomo infiel, seremos também acusados, diante de Deus, pelo demônio e por nossos próprios pecados. Nosso saldo será positivo ou negativo?!

blog-slide250Caríssimos, a vida inteira nos é concedida para regular as nossas contas, e podemos fazê-lo pelo exame de consciência e pela confissão sacramental. A cada instante posso ser chamado à presença de meu Juiz; acho-me em estado de responder às acusações que poderá fazer-me?

“PRESTA CONTA DE TUA ADMINISTRAÇÃO”. Esta intimação será feita, um dia, a cada um de nós, à hora da morte. Então todas as fontes da salvação estarão esgotadas para mim, porque me será tirado o tempo. Esta intimação logo após a morte, para uns será terrível, como o prelúdio do castigo; para outros será cheia de consolação, como o anúncio da recompensa. Depois da morte já não podemos exercer a nossa administração, é já passado o tempo de expiar os nossos pecados. É agora, enquanto temos vida, tempo e saúde, que devemos refletir: QUE HEI DE FAZER? Agora não nos faltam os meios, e se refletirmos seriamente, logo encontraremos a resposta: “JÁ SEI O QUE DEVO FAZER”.

No dia do Juízo o pecador dirá também, “que hei de fazer?” mas será um grito de desespero, a sua perda é irremediável. TRABALHAR CAVANDO A TERRA, exposto ao sol e à chuva, é o penoso trabalho da penitência e da mortificação. MENDIGAR é orar, é suplicar o necessário para alimento da nossa alma. Se, porém não temos força ou coragem para as duras penitências da vida cristã, se não temos tempo e vagar para longas orações, podemos sempre praticar outras boas obras, fazer esmolas ainda mesmo do pouco que possuímos. Qual o pobre que não pode dar a outro pobre o óbolo da viúva ou ainda um copo d’água? A ESMOLA é, pois, um grande meio de salvação, sem excluir, todavia, a penitência e a oração que, segundo as circunstâncias, nos for permitido fazer.

Caríssimos, lendo com atenção esta parábola do divino Mestre, vemos bem a astúcia daquele mau ecônomo. Perdoando a uns mais do que a outros, toma precauções para que não seja descoberta a sua fraude. Além disso, ele conhecia talvez as disposições de cada um, e procede com toda a prudência. O Senhor louvou não a injustiça do seu mordomo, mas a sua prudência, habilidade e espírito de previdência. Enquanto o ecônomo não tinha o direito de dispor dos bens de seu amo, nós, caríssimos, recebemos de Deus, não somente uma permissão, mas ainda uma ordem formal de distribuir com largueza e liberalidade, os bens corporais e espirituais que ele nos confiou. Quis o Divino Mestre fazer-nos compreender, diz Santo Agostinho, que se aquele mau servo é elogiado por saber acautelar os seus interesses, com mais razão seremos nós agradáveis a Deus se, conformando-nos com a lei divina, praticarmos as obras de misericórdia. Em uma instrução, na qual se tratava também de nos preparar para sermos julgados, o Salvador exigira duas coisas para esta preparação: paixões mortificadas e obras santas: “Estejam cingidos os vossos rins, e acesas as vossas lâmpadas” (S. Lucas XII, 35). A fuga do mal e a prática do bem. Aqui Jesus só fala da esmola, considerando-a tão capaz de comover o Coração de Deus, que nos obterá todas as disposições necessárias para nos reconciliar com Ele, e nos restituir os nossos direitos à celeste herança. Com efeito, na Sagrada Escritura tudo é prometido à esmola. Ela livra-nos de todo o pecado e da morte, e não deixará cair a alma na trevas eternas: “A esmola livra de todo pecado e da morte e não deixará cair a alma nas trevas” (Tobias IV, 11). “A água apaga o fogo ardente, e a esmola resiste aos pecados”. A esmola alcança-nos os dois maiores bens que pode desejar um homem prudente: a misericórdia neste mundo, e uma vida de felicidades no outro: “A esmola livra da morte, é a que apaga os pecados e faz encontrar a  misericórdia e a vida eterna” (Tobias XII, 9). Quanto aos pecados veniais, apaga-os diretamente; quanto aos mortais, faz o pecador encontrar misericórdia enquanto Deus concede ao que a pratica, ou a graça do arrependimento (perfeito ou imperfeito) e a recepção da absolvição sacramental; ou, na hora da morte, o arrependimento perfeito com o desejo da confissão, ou a graça do arrependimento imperfeito com a recepção da absolvição e, em alguns casos, “per accidens” também pelo sacramento da Extrema Unção.

“A esmola, diz Santo Agostinho, é a consolação da nossa fé, o amparo da nossa esperança, o remédio contra o pecado; ganha-nos a afeição do nosso Juiz, torna-nos credores de Deus. Oh! poder da esmola! Aqueles a quem tivermos socorrido, introduzir-nos-ão nos tabernáculos eternos: ‘Quando chegar a vossa hora, eles vos recebam nos tabernáculos eternos'”. Caríssimos, que suave luz difunde na nossa alma esta consoladora palavra! Agora sei o que hei de fazer, para encontrar o meu Juiz propício, quando comparecer no Seu tribunal: granjearei perante a Nosso Senhor Jesus Cristo intercessores e amigos, que
falarão em meu favor. Cobrirei a multidão dos meus pecados, multiplicando as minhas obras de misericórdia, dando esmolas; se tiver muito, dando muito; se tiver pouco, dando pouco. O ensinamento moral da parábola se resume nestas palavras: “OS FILHOS DO SÉCULO (os mundanos) SÃO MAIS PRUDENTES EM SEUS NEGÓCIOS DO QUE OS FILHOS DA LUZ” (o homem esclarecido pelas luzes da fé). Enquanto aqueles trabalham e se esforçam, e suam, e não medem dificuldades para satisfazer as suas paixões, estes adormecem imprudentemente sem nada fazer para Deus e para o céu. Uma outra consideração sobe à nossa mente: Como chegou este homem a tornar-se um ladrão? Foi aos poucos, lentamente e de degrau em degrau. Por isso, Nosso Senhor, depois de nos ter recomendado a prudência, recomenda também a fidelidade nas pequeninas coisas. A delicadeza de consciência é a honra do cristão, que não quer ser justo somente diante dos homens, mas ainda diante de Deus, que é a Justiça por essência.

Por que Jesus fala de “RIQUEZAS INJUSTAS?” Porque enganadoras, mentirosas e também porque ou são, às vezes mal adquiridas, ou porque mal empregadas, e, neste sentido, são a fonte de muitas injustiças. Em si mesma, a fortuna é um dom de Deus, é uma graça que convém aproveitar para a nossa salvação, proporcionado-nos a amizade dos pobres, conquistando-nos o coração de Jesus que neles se encarna e representa. Se um homem administrar mal as riquezas deste mundo, nega-lhe Deus os bens da graça; se não respeitar os bens alheios, que pertencem a Deus, perderá também o que lhe pertence, as graças a que tinha direito pelo sacramento do Batismo.

Ó misericordioso Jesus, dai-nos um coração sempre mais sensível às diversas necessidades do próximo. Descobri-nos todo o mistério do necessitado e do pobre, na ordem espiritual e temporal, para que no dia terrível do juízo sejais para nós o onipotente libertador: “Bem-aventurado o que cuida do necessitado e do pobre; o Senhor o livrará no dia mau” (Salmo 40, 2). Amém!

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13 julho, 2018

Dom João Wilk, bispo de Anápolis, divulga Nota de Repúdio a ADPF 442 em juízo no STF.

A Diocese de Anápolis (GO), por seu Bispo Diocesano abaixo assinado, Dom João Wilk, OFMConv., vem fazer eco à “Nota da CNBB pela vida, contra o aborto”, de 11 de abril de 2017, para manifestar sua apreensão diante da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 442, proposta pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), solicitando que os artigos 124 e 126 do Código Penal, que incriminam o aborto, sejam “interpretados” de modo que se exclua “do seu âmbito de incidência a interrupção da gestação induzida e voluntária realizada nas primeiras 12 semanas”. O que esse minúsculo partido, autor da ADPF 442, pretende é obter o que jamais obteve no Congresso Nacional através do processo legislativo: a legalização do aborto até três meses de vida intrauterina.

Cite-se a referida nota da CNBB: essa é uma atitude que, “atropelando o Congresso Nacional, exige do Supremo Tribunal Federal-STF uma função que não lhe cabe, que é legislar”. Além de ser condenável pelo seu conteúdo – a pretensão de legitimar um “crime abominável, vergonha para a humanidade” (São João Paulo II) – a ADPF 442 é particularmente repugnante por causa do meio que pretende usar para a obtenção de seu fim. De fato, nenhum dos onze Ministros da Suprema Corte foi eleito por voto popular. Todos têm mandato vitalício e não dependem dos eleitores para se manterem no poder. Daí resulta que, se o Tribunal atribuir a si a tarefa de “reinterpretar” a Constituição de modo a decidir arbitrariamente que ela não protege a vida do nascituro concebido até três meses, a população brasileira sofrerá um golpe. Onze juízes terão decidido, por sua própria conta, algo frontalmente contrário ao desejo da grande maioria do povo: que o aborto deve ser legal no primeiro trimestre. Isso será um golpe no Estado de Direito, na separação e harmonia dos Poderes da União e no exercício da cidadania.

Diz-se que o Supremo Tribunal Federal se vê “obrigado” a suprir uma “omissão” do Congresso Nacional sobre o aborto. Não é verdade. Pois o Congresso não tem sido omisso quanto a esse tema. Ao longo dos anos, sua decisão tem sido constante: uma resposta negativa à proposta de legalizar tal crime. Se os representantes do povo disseram “não” ao aborto, que direito têm os juízes da Suprema Corte de dizerem “sim” a essa nefanda prática?

É repudiável não apenas um absurdo possível julgamento favorável à ADPF 54. É vergonhoso o próprio fato de o Tribunal não ter indeferido liminarmente o pedido, mas ter-se considerado competente para decidir sobre a questão!

A invasão crescente da competência dos outros Poderes, em especial o Legislativo, pela Suprema Corte tem contribuído para aumentar a desconfiança popular nas autoridades constituídas. A sensação de caos e insegurança jurídica não cessará enquanto o STF persistir em reformar a Constituição a seu bel-prazer em vez de exercer sua função de guardião da Carta Magna (cf. art. 102, caput, CF).

Esta Diocese, cuja padroeira é Santa Ana, mãe da Virgem Maria, a Mãe do Salvador, conclama seus diocesanos a unirem-se em oração e a se mobilizarem, promovendo atividades pelo respeito da dignidade integral da vida humana. Esta é literalmente uma questão de vida ou morte.

Anápolis, 09 de julho de 2018.

Dom João Wilk
Bispo Diocesano
12 julho, 2018

Como a imprensa católica ‘mainstream’ recebeu a eleição do novo superior da FSSPX.

Assim o representante maior da imprensa católica alinhada ao establishment (isto é, que se inclina ao vento do momento; conservador com Ratzinger, progressista com Francisco), Andrea Tornielli, interpreta a eleição de Padre Davide Pagliarani como novo superior da FSSPX:

A nomeação de Pagliarini [sic] é surpreendente porque até hoje nunca tinha emergido como uma figura proeminente e também porque o percentual de italianos na Sociedade de São Pio X é muito baixa. Próximo de De Gallareta, foi provavelmente escolhido graças ao apoio deste último. E se for confirmada a designação do próprio De Gallareta como assistente [ndr: o que já aconteceu], o vínculo e a dependência serão ainda mais fortes e mais evidentes.

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Os novos superiores eleitos pelo capítulo geral da FSSPX – da esquerda para a direita: Dom Alfonso de Galarreta, primeiro assistente; Padre Davide Pagliarani, superior geral; Padre Christian Bouchacourt, segundo assistente.

De Gallareta nos últimos anos, desde que começou o longo e árduo caminho do diálogo com a Santa Sé, sempre representou uma linha mais intransigente, menos propensa ao acordo com Roma. Será preciso aguardar as declarações oficiais para verificar qual será a atitude da nova liderança lefebvriana, mas já se pode supor um resfriamento dos contatos para chegar a resolver a posição irregular dos bispos e dos padres da Fraternidade.

A possível eleição como assistente de Dom Bouchacourt, figura mais conhecida e em evidência, inclusive representaria um sinal: ele também não deve ser incluído na corrente mais aberta ao diálogo da Fraternidade, embora em 2017 tenha reagido de maneira muito dura nos confrontos de alguns padres lefebvrianos na França, que se recusavam a aceitar a decisão de Francisco de regularizar – para o bem dos fiéis tradicionalistas – os casamentos celebrados pelos padres da Fraternidade. Bouchacourt conhece bastante bem o Papa Bergoglio, por ter sido por muito tempo superior na Argentina e por ter tido várias conversas com o então cardeal arcebispo de Buenos Aires.

Em uma entrevista, há sete anos, Dom Pagliarini dizia: “A situação canônica em que atualmente se encontra a fraternidade é consequência da sua resistência aos erros que infestam a Igreja; portanto, a possibilidade da Fraternidade de chegar a uma situação canônica regular não depende de nós, mas da aceitação por parte da hierarquia da contribuição que a Tradição pode fornecer para a restauração da Igreja. Se não chegar a nenhuma regularização canônica, simplesmente significa que a hierarquia ainda não está suficientemente convencida da necessidade e da urgência dessa contribuição. Neste caso, será preciso aguardar mais alguns anos, esperando um aumento de tal consciência, o que poderia ser co-extensivo e paralelo à aceleração do processo de autodestruição da Igreja”.

Era 2011, o Papa era Bento XVI, que havia retirado a excomunhão e permitido a missa pré-conciliar duas condições prévias para o diálogo, insistentemente solicitadas pelos lefebvrianos. Apesar disso, desde então, os encontros continuaram sem chegar (ainda) a nenhum resultado.

 

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