23 outubro, 2017

Editorial: Francisco humilha Sarah. O apogeu da Babel litúrgica.

Por FratresInUnum.com – 23 de outubro de 2017

Tirânico. Não há outro adjetivo que se empregue para o vexame ao qual o pontífice reinante submeteu ontem o Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino.

Totalmente sem precedentes, o ato despótico perpetrado pelo Papa que assumiu o nome do “pobrezinho de Assis”, Francisco, nada tem de franciscano; é totalmente contrastante com a humildade que vive propagandeando de si mesmo.

francisco sarahA velocidade com a qual este papa protagoniza o desmonte de sua própria Igreja é tão alucinante que chega a ser difícil documentar.

Recentemente, ele publicou o Motu Proprio Magnum Principium em que confere às Conferências Episcopais a faculdade de aprovar a tradução dos textos litúrgicos, reservando à Santa Sé apenas o direito de “confirmar” os mesmos.

O Cardeal Sarah, competente em matéria porque Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, sequer foi consultado. A apresentação do texto pontifício foi realizada pelo Secretário do mencionado Dicastério, o arcebispo progressista Arthur Roche.

Na sequência, o Cardeal Sarah tornou público um texto intitulado “Humilde contribuição para uma melhor e justa compreensão do Motu Proprio Magnum Principium” em que interpretava o citado texto em continuidade com o Motu Proprio Liturgiam Authenticam do Papa João Paulo II. Na prática, Sarah defendia a ideia de que “reconhecimento” e “confirmação” seriam sinônimos na aplicação do Motu Proprio de Francisco. Tentava fazer uma hermenêutica da continuidade e, ao mesmo tempo, salvar a competência de sua Congregação.

Ontem, porém — exato dia da festa litúrgica de João Paulo II, canonizado por Francisco — o site italiano La Nuova Bussola Quotidiana publicou a carta com a qual o Papa Bergoglio corrige publicamente o cardeal africano, deixando claríssimo: doravante, e até disposição em contrário, a “aprovação” da tradução dos textos litúrgicos não fica a cargo da Sé Apostólica, mas das Conferências Episcopais, cuja “confirmação”, em clima de diálogo, deverá ser dada pela Congregação para o Culto Divino.

À Congregação de Sarah não competirá realizar mais o que, por determinação de Liturgiam Authenticam, fazia — e guerreou duramente contra Conferências Episcopais do mundo todo para isso –, isto é, um “exame detalhado palavra por palavra”, nas palavras de Francisco, mas apenas garantir “a integridade do livro, ou seja, verificar se todas as partes que compõem a edição típica foram traduzidas”. Esvazia-se praticamente, assim, toda a competência do dicastério de Sarah sobre o assunto.

A carta do Papa Bergoglio começa e termina com um agradecimento elogioso à contribuição de Sarah. O paralelo com o elogio dos discípulos dos fariseus e dos herodianos a Nosso Senhor, recolhido no Evangelho deste domingo do Missal de Paulo VI, é inevitável. Ainda mais porque ele solicita ao cardeal que ele mesmo faça publicar a sua “correção” nos sites que divulgaram anteriormente o seu texto, bem como a todas as Conferências Episcopais, e aos membros e consultores da Congregação da qual ele é Prefeito. Maior humilhação, neste caso, impossível!

Esta não é a primeira vez que Francisco constrange o Cardeal Sarah com uma retratação. Em 2016, quando o mesmo proferiu uma conferência em que sugeria que os sacerdotes celebrassem a missa ad orientem a partir do advento seguinte, a Sala de Imprensa da Santa Sé lançou um Comunicado de esclarecimento em que desmentia as declarações do cardeal.

Note-se, porém, que Francisco teria motivos para ter desmentido diversas vezes o Cardeal Müller ou mesmo o Cardeal Burke, que chegaram a fazer declarações muito mais contundentes acerca de seu confuso magistério, e, no entanto, nunca o fez de forma tão brusca. Por quê?

Será que Papa Francisco teria, a exemplo seu glorificado amigo e teólogo Walter Kasper, algum preconceito contra negros, especialmente contra africanos? A propósito, todos sabemos da resistência dos bispos africanos nos sínodos da família, resistência capitaneada pelo Cardeal Sarah e resistência desprezada solenemente por Francisco numa referência indireta em seu discurso de encerramento do Sínodo de 2015: “aquilo que parece normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um escândalo – quase! –, para o bispo doutro continente”.

Ou será que o Papa argentino considera verdadeira a análise de Sandro Magister, segundo a qual Sarah seria um candidato de força no próximo conclave e, consequentemente, sendo este de linha conservadora, oposta à sua, está querendo desprestigiá-lo e eliminar uma eventual concorrência?

Por trás de toda esta reação desproporcional de Francisco está, também, um discreto silenciamento do Papa Emérito. De fato, no prefácio da edição russa do tomo de suas Obras Completas dedicado à Liturgia, lançado no início deste mês de outubro, escreve Bento XVI: “a causa mais profunda da crise que tem sacudido a Igreja está no escurecimento da prioridade de Deus na Liturgia. Tudo isto me levou a dedicar-me ao tema da Liturgia mais que no passado porque sabia que a verdadeira renovação da Liturgia é uma condição fundamental para a renovação da Igreja”.

Aliás, recentemente, Bento XVI prefaciou o livro sobre liturgia do Cardeal Sarah [outro prefácio de Ratzinger, em 2015, a livro anterior de Sarah simplesmente desapareceu] e o chamou de “mestre espiritual”, afirmando que a liturgia da Igreja estava em boas mãos.

Em todo caso, se a Missa de Paulo VI já tinha se tornado uma espécie de ideia platônica, nunca concretizada de modo perfeito nem celebrada em lugar algum do planeta, mas apenas reproduzida das maneiras mais diferentes e contraditórias possíveis, agora, com o Motu Proprio Magnum Principium, o Papa Francisco deu-lhe o pior golpe desde a sua promulgação, em 1969.

O Novus Ordo se tornará ainda mais incerto e tão diversificado, de lugar em lugar, de país em país, que o ato de Bergoglio, em si, quase significa a completa abolição de uma “missa do Concílio Vaticano II” que nunca chegou a existir verdadeiramente.

Nem falemos das incertezas que terão os fieis, sem conseguirem discernir em que lugar se celebra uma missa válida, visto que os padres, sempre dados à criatividade, passarão a improvisar dos modos ainda mais estapafúrdios do que aqueles que já temos presenciado. Além do que, em países como o Brasil, não é de se duvidar que a Conferência Episcopal se arrogue o direito de ter vários missais regionalizados. O caos!

É o fim da Missa Nova! É a Babel litúrgica de Francisco! Babel iniciada pela reforma litúrgica liderada pelo bispo Aníbal Bugnini, maçom, a mandos expressos da maçonaria: “comunicamos o encargo que o Conselho dos Irmãos estabeleceu para ti, de acordo com o Grão-Mestre e os Príncipes Assistentes ao Trono, e te obrigamos (…) a difundir a descristianização mediante a confusão dos ritos e das línguas e de colocar padres, bispos e cardeais uns contra os outros. A Babel linguística e ritual será a nossa vitória, como a unidade linguística e ritual foi a força da Igreja (…) Tudo deve acontecer no prazo de dez anos”.

Qual poderá ser o resultado de tamanha confusão? Desorientados, os fieis acorrerão à missa tradicional, apreciarão ainda mais a liturgia não reformada da missa de sempre.

Francisco, definitivamente, não tem cheiro de ovelhas. Ele está caminhando em sentido oposto ao de seus fieis. Estes querem ordem, ele quer impor a sua bagunça.

Resta-nos o dever de permanecer fieis: aos sacerdotes tradicionais, a fortaleza de permanecerem firmes, porque toda esta desordem é auto-aniquilatória; aos fieis leigos, a perseverança de continuarem com sua luta pela liturgia tradicional, mesmo contra todas as oposições dos bispos e do clero, em geral.

É tão óbvio o fracasso desse tipo de “reforma”, é tudo tão previsível, que necessitamos apenas de coragem para preservar o legado dos santos, a tradição ininterrupta da fé católica, celebrada de modo excelente na liturgia perene da Igreja.

Não desanimemos, pois “esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1 Jo 5,4).

23 outubro, 2017

Estaria toda a doutrina moral da Igreja Católica ameaçada de destruição?

Num novo documento, o autor aborda uma pergunta fundamental: Se uma conclusão lógica chave derivada de Amoris Laetitia derrubará toda a doutrina moral da Igreja.

Por Josef Seifert | Tradução: FratresInUnum.com

Resumo

A pergunta do título deste artigo se dirige ao Papa Francisco e a todos os Cardeais, Bispos, filósofos e teólogos católicos. Trata-se de uma dúvida (dubium) sobre uma consequência puramente lógica resultante de uma afirmação em Amoris Laetitia [AL] e termina com uma súplica ao Papa Francisco para que retire ao menos uma afirmação da AL, caso a pergunta do título deste pequeno ensaio seja respondida afirmativamente e, se na realidade desta afirmação na AL, somente a pura lógica, usando premissas evidentes, pode-se deduzir a destruição de todo o ensinamento moral católico. Num estilo socrático, o artigo deixa nas mãos do Papa Francisco e de outros leitores a tarefa de responder à questão e propor suas próprias respostas.

Conteúdo

Sem dúvida alguma, Amoris Laetitia criou muita incerteza e evocou interpretações opostas em todo o mundo católico. Não desejo apresentar aqui toda a controvérsia nem repetir – ou desenvolver ainda mais – a postura que defendi sobre esta matéria em artigos anteriores (ver Josef Seifert, “Amoris Laetitia. Alegria, tristeza, esperanzas”) ainda que poderia fazê-lo como uma resposta a alguns comentários críticos que recebi de meu amigo pessoal Buttiglione, com o qual estou de acordo na maioria de outras matérias filosóficas e em outros temas.

Há uma única afirmação em AL, no entanto, que não tem nada a ver com um reconhecimento dos direitos de uma consciência moral subjetiva, relativo ao qual Rocco Buttiglione tenta demonstrar a total harmonia entre o magistério moral de São João Paulo II e do Papa Francisco, contra Robert Spaemann e outras afirmações que falam de uma clara ruptura entre eles. Buttiglione argumenta que tendo em conta os ensinamentos díspares sobre disciplina sacramental, o Papa João Paulo II tem razão se se considera somente o conteúdo objetivo dos atos humanos, enquanto que o Papa Francisco tem razão quando se concede, depois do devido discernimento, o papel e reconhecimento adequados aos fatores subjetivos e às condições excludentes de pecado mortal (conhecimento imperfeito e uma debilidade no livre-arbítrio).

A afirmação de AL sobre a qual quero aprofundar-me aqui, no entanto, não apela à consciência subjetiva de maneira alguma, mas a que sustenta que uma vontade divina totalmente objetiva nos permite realizar, em certas situações, atos que são intrinsecamente maus, e que foram sempre considerados como tais pela Igreja. Já que Deus certamente não pode carecer de conhecimento ético, nem ter uma “consciência errônea” nem uma debilidade no livre-arbítrio, esse texto não “defende os direitos da subjetividade humana”, como Buttiglione declara, mas parece afirmar claramente que estes atos intrinsecamente desordenados e objetiva e gravemente pecaminosos, como Buttiglione admite, podem ser permitidos, ou inclusive, podem ser objetivamente ordenados por Deus. Se isto é o que realmente AL diz, todos os alarmes sobre as afirmações diretas em AL, concernentes aos assuntos sobre mudanças na disciplina sacramental (permitir, depois do devido discernimento, a adúlteros, homossexuais ativos e outros casais em situação parecida, aceder aos sacramentos da confissão e da eucaristia, e logicamente também ao Batismo, à Confirmação e ao Matrimônio sem vontade alguma de mudar suas vidas nem de conviver numa total abstinência sexual, tal como pedia o Papa João Paulo II em Familiaris Consortio aos casais em tais “situações irregulares”) só são a ponta do iceberg, o débil princípio de uma avalanche ou um dos primeiros edifícios destruídos por uma bomba atômica teológica moral que ameaça com destruir completamente o edifício moral dos Dez Mandamentos e da doutrina moral católica.

Neste artigo, no entanto, não direi que este seja o caso. Pelo contrário, deixarei inteiramente nas mãos do Papa ou de qualquer outro leitor a resposta à pergunta de se há ou não ao menos uma afirmação em Amoris Laetitia que tenha como consequência lógica a destruição de todo o ensinamento moral católico. E devo admitir que o que eu li sobre uma comissão convocada para “reexaminar” a Humanae Vitae, uma Encíclica que põe fim, como mais tarde o fez a Veritatis Splendor, a décadas de debates éticos e teológico-morais, isto fez da pergunta do título de meu ensaio uma questão que me preocupa profundamente.

Vejamos o texto decisivo (AL 303) que o Papa Francisco está aplicando aos casos dos adúlteros ou outros “casais irregulares” que decidem não seguir a exigência que para eles fez o Papa São João Paulo II na Encíclica Familiaris Consortio. O Papa João Paulo II diz a estes casais que ou se separem totalmente ou, se isto é impossível, abstenham-se completamente das relações sexuais. O Papa Francisco diz, no entanto:

“… Mas esta consciência pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objetivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus e descobrir com certa segurança moral que esta é a doação que o próprio Deus está a pedir no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo…” (AL, n. 303)

Do que foi dito anteriormente, tanto como do texto que se segue, fica claro que esta “vontade de Deus” aqui se refere a continuar vivendo no que constitui objetivamente um pecado mortal. Cf. p. ex., AL, n. 298, em sua nota ao pé de página 329:

“…Nestas situações, muitos, conhecendo e aceitando a possibilidade de conviver «como irmão e irmã» que a Igreja lhes oferece, assinalam que, se faltam algumas expressões de intimidade, «não raro se põe em risco a fidelidade e se compromete o bem da prole»…”

Na Gaudium et Spes n. 51 da qual se toma a última citação, a ideia se utiliza como uma objeção não válida contra o mandato moral de não cometer nunca adultério ou um ato contraceptivo. Na AL se entende no sentido explicado anteriormente, como uma justificação para seguir cometendo, objetivamente falando, pecados mortais inclusive como isto fosse a Vontade objetiva de Deus.

Em outras palavras, além de chamar a um estado objetivo de pecado mortal, eufemisticamente, “não seja ainda plenamente o ideal objetivo”, AL diz que podemos saber com “uma certa segurança moral” que Deus mesmo nos pede que continuemos cometendo atos intrinsecamente maus tais como o adultério ou a homossexualidade ativa. Eu pergunto se pode a pura lógica falhar quando nos perguntamos sob estas premissas:

Se só um caso de um ato intrinsecamente imoral pode ser admitido e inclusive querido por Deus, isto não deveria ser aplicado a todos os atos considerados intrinsecamente maus? Não deveria então também o mandamento “não cometerás adultério” ser reformulado assim: “se na tua situação o adultério não é o mal menor, não o cometa, mas se é o mal menor continua vivendo assim”?

Não deveriam também ser eliminados os outros nove mandamentos, a Humanae Vitae, a Evangelium Vitae e todos os documentos, dogmas ou conselhos passados, presentes ou futuros da Igreja que expressam a existência de atos intrinsecamente maus? Já não seria intrinsecamente mau usar anticoncepcionais e não estaria equivocada a Humanae Vitae que diz sem dúvida alguma que nunca pode haver nenhuma situação moralmente justificável para a contracepção, nem muito menos que seja ordenada por Deus?

Para começar, não deveria então a nova comissão instituída pelo Papa Francisco para a Humanae Vitae concluir que o uso de anticoncepcionais pode ser bom em algumas ocasiões ou inclusive obrigatório e desejado por Deus? Não poderia o aborto ser justificado em alguns casos e que seja Deus mesmo o que o esteja pedindo, dentro da complexidade concreta dos limites de cada pessoa, ainda que não seja o objetivo ideal, como dizia o Mons. Fisichella, o então presidente da Academia Pontifícia para a Vida?

Não deveriam, assim, a partir do puro raciocínio lógico, considerar-se boas e dignas de louvores a eutanásia, a assistência ao suicídio ou o próprio suicídio, as mentiras, os roubos, perjúrios, a negação ou a traição a Cristo, como a de São Pedro, o assassinato, sob determinadas circunstâncias e depois de um devido discernimento, por causa da complexidade de cada situação concreta (ou devido a falta seja de conhecimento ético ou de força de vontade)? Deus não poderia então pedir que se siga com o assassinato a um siciliano que se sente obrigado a matar aos membros inocentes de uma família, cujo chefe assassinou previamente a um membro de sua própria família e cujo irmão assassinaria a quatro famílias inteiras se ele não o matasse, porque seu ato é, sob estas circunstâncias, “o que Deus mesmo está pedindo a ele dentro da complexidade concreta de seus próprios limites, ainda que não seja o ideal objetivo”? A lógica não nos pede que tiremos esta conclusão desta proposição do Papa Francisco?

No entanto, se a pergunta do título deve ser respondida afirmativamente, e acredito pessoalmente que isto seja assim, a consequência puramente lógica desta afirmação em Amoris Laetitia parece destruir todo o ensinamento moral da Igreja. Não deveria, por isso mesmo, tal afirmação ser removida e condenada pelo próprio Papa Francisco, a quem, sem dúvida nenhuma, não agrada tal consequência deduzida logica e inevitavelmente da citada afirmação do Papa Francisco?

Portanto, – se o Papa Francisco está de acordo com esta conclusão lógica, e responde à pergunta do título deste ensaio afirmativamente – rogaria ao nosso Supremo Pai espiritual na terra, “o doce Cristo na terra”, como Santa Catarina de Sena chamou a um dos Papas, sob cujo reinado ela viveu ainda que o criticasse duramente, que por favor retire esta afirmação da Amoris Laetitia.

Se suas consequências lógicas conduzem inevitavelmente a nada menos que à total destruição dos ensinamentos morais da Igreja Católica, não deveria o “doce Cristo na terra” retirar esta afirmação? Se esta tese leva como consequência lógica convincente a rejeição do fato de que haja atos que devam ser considerados intrínseca e moralmente maus sob qualquer circunstâncias e em qualquer situação, e se esta afirmação chegasse a se desvirtuar, junto com a Familiaris Consortio e a Veritatis Splendor, assim como a Humanae Vitae e tantos outros ensinamentos solenes da Igreja, não deveria ser revocada? Não existem evidentemente tais atos que são sempre intrinsecamente maus como há outros que são sempre intrinsecamente bons, justificados ou desejados por Deus? [1] E não deveriam todos os cardeais, bispos, sacerdotes, monges ou virgens consagradas e qualquer leigo na Igreja interessar-se intensamente por este problema e unir-se a esta súplica apaixonada de um humilde leigo, um simples professor de filosofia, e dentre outras matérias, de lógica?

Josef Seifer

[1] Ver João Paulo II, Veritatis Splendor. Ver também Josef Seifert, “El esplendor de la verdade y los actos intrinsecamente inmorales: uma defensa filosófica del rechazo del proporcionalismo y consecuencialismo em Veritatis Splendor.” In: Studia Philosophiae Christianae UKSW 51 (2015) 3, 7-37.

 

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22 outubro, 2017

Foto da semana.

portugalNa semana do centenário da última aparição de Nossa Senhora em Fátima, um enorme incêndio atingiu Portugal, deixando dezenas de mortos. Na imagem, a freguesia de Vieira de Leiria, a cerca de 60 quilômetros de Fátima.

Imagem: Rorate-Caeli

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21 outubro, 2017

Coluna do Padre Élcio: A ‘Amoris Laetitia’ é tomista?

“A lei do Senhor, que é imaculada, converte as almas; o testemunho do Senhor é fiel, dá sabedoria aos pequeninos”  (Salmo 18, 8).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Das 391 citações ou referências da “Amoris Laetitia” (AL), 19 são de Santo Tomás de Aquino, e destas somente a de nº 347 merece consideração, porque justamente sobre ela enfaticamente insiste o Papa Francisco com estas palavras:

“304. É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir duma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano. Peço encarecidamente [sublinhado meu] que nos lembremos sempre de algo que ensina São Tomás de Aquino e aprendamos a assimilá-lo no discernimento pastoral: « Embora nos princípios gerais tenhamos o carácter necessário, todavia à medida que se abordam os casos particulares, aumenta a indeterminação (…). No âmbito da acção, a verdade ou a rectidão prática não são iguais em todas as aplicações particulares, mas apenas nos princípios gerais; e, naqueles onde a rectidão é idêntica nas próprias acções, esta não é igualmente conhecida por todos. (…) Quanto mais se desce ao particular, tanto mais aumenta a indeterminação ».347 É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma. Isto não só geraria uma casuística insuportável, mas também colocaria em risco os valores que se devem preservar com particular cuidado. 347 Summa theologiae I-II, q. 94, art. 4.

Tudo leva crer que é neste texto de Santo Tomás que o Papa Francisco quer justificar a pretensa “moral tomista” da AL.

E, na mesma linha, na nota 348 cita ainda Santo Tomás:

348 – Referindo-se ao conhecimento geral da norma e ao conhecimento particular do discernimento prático, São Tomás chega a dizer que, « se existir apenas um dos dois conhecimentos, é preferível que este seja o conhecimento da realidade particular porque está mais próximo do agir » [Sententia libri Ethicorum, VI, 6 (ed. Leonina, t. 47, 354)].

Inicialmente gostaria de dizer que a “Correctio Filialis” (CF), além de respeitosa, é, outrossim, respeitável pela segurança e clareza na exposição da doutrina tradicional da Igreja, fundamentada com argumentos apodíticos. Os competentes autores da CF. tiveram o mérito inegável de fazer todas as citações que mostram a lídima doutrina da Igreja, baseada que é nas Sagradas Escrituras, na Sagrada Tradição e no Magistério Infalível e Perene da Santa Madre Igreja. Mas o Papa Francisco se limitou a dizer que a CF. foi respeitosa mas errada e afirmou sem mais que a Moral da AL é “tomista”, ou seja, é segura porque baseada no  grande Doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino.

Mas vale a pena mostrar o que ensinou Santo Tomás na Summa Theologiae I-II, q. 94, art. 4.

Aí o grande Doutor da Igreja fala da Lei Natural e prova que ela é a mesma para todos. Com esta e outras questões sobre a Lei, S. Tomás deixa claro que, após o pecado original, isto é, com a concupiscência e paixões humanas, a Lei Natural, não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano. Senão vejamos:

Summa Theologiae, q. 94, a. IV: Se a lei da natureza é a mesma para todos.

Neste 4º artigo discute-se assim: Parece que a lei da natureza não é a mesma para todos.

1. Pois, dizem as Decretais (dist. I, praef.): O direito natural é o que está contido na lei e no Evangelho. Ora, este não é o mesmo para todos, porque, no dizer da Escritura, nem todos obedecem ao Evangelho como está dito em Romanos, X, 16. Logo, a lei natural não é a mesma para todos.

2. Demais.  –  Chama-se justo ao que é conforme à lei, como diz o Filósofo Aristóteles em V Ethic. , lect. II. Ora, no mesmo livro (lect. XII) diz: nada há tão justo para todos, que se não diversifique para alguns. Logo, também a lei natural não é a mesma para todos.

3. Demais.  –  À lei natural pertence aquilo a que o homem por natureza se inclina, com foi dito no (a. 2 e 3). Ora, homens diversos naturalmente têm inclinações diversas: uns, para a concupiscência dos prazeres; outros, para o desejo das honras; outros, para outras
coisas. Logo, a lei natural não é a mesma para todos.

Mas, em contrário, Isidoro diz (Lib. V Etymol. c. IV): O direito natural é comum a todas as nações.

RESPONDO: Como já dissemos nos artigos 2 e 3, à lei natural pertence aquilo a que o homem naturalmente se inclina; e nisso se inclui a sua inclinação própria a agir segundo a razão. Ora, é próprio à razão proceder do geral para o particular, como está claro em Aristóteles (I Physic., lect. I). Mas o modo de proceder da razão especulativa difere do modo da razão prática. Pois a razão especulativa, versando principalmente sobre o necessário, onde é impossível haver mudança, a verdade se manifesta sem nenhuma exceção, tanto nas conclusões particulares, como nos princípios gerais. Ao contrário, a razão prática versa sobre o contingente, onde entram as obras humanas. Por onde, embora no geral também haja uma certa necessidade, quanto mais descermos ao particular, tanto mais exceções encontraremos. Assim, pois, na ordem especulativa a verdade é a mesma para todos, tanto nos princípios como nas conclusões; embora a verdade não seja conhecida de todos, nas conclusões, mas só nos princípios, chamados concepções comuns. Ao contrário, na ordem das ações, não há a mesma verdade ou retidão prática em todos, quanto ao particular, mas só quanto aos princípios gerais. E ainda, todos os que têm a mesma retidão, em particular, não a conhecem igualmente. Por onde é claro que, quanto aos princípios gerais da razão especulativa ou prática, a verdade ou retidão é igual para todos e é de todos igualmente conhecida. A verdade, porém das conclusões particulares da razão especulativa é a mesma para todos, mas não é de todos igualmente conhecida. Por exemplo, para todo o mundo é verdade que um triângulo tem os três ângulos iguais a dois retos, embora nem todos o saibam. Mas a verdade ou retidão das conclusões particulares da razão prática não é a mesma para todos, nem para aqueles aos quais é a mesma, é igualmente conhecida. Assim, todos têm como reto e verdadeiro que devem agir segundo a razão. E deste princípio resulta como uma conclusão própria, que se devem restituir os depósitos (empréstimos). O que, por certo, é verdade na maior parte dos casos; mas, num caso particular, pode ser danoso e, por conseguinte, irracional, restituí-los; por exemplo, se alguém o quisesse para lutar contra a pátria. E quanto mais particular for o caso tanto mais exceções haverá; p. ex., se dissermos que os depósitos se devem restituir com tal garantia ou de tal modo. Pois, quanto mais condições particulares se impuserem, de tantos modos mais poderá haver exceção à retidão no restituir ou em não o fazer.

Portanto, (continua Santo Tomás de Aquino), devemos concluir, que a lei da natureza, nos seus primeiros princípios gerais, é a mesma para todos, quanto à retidão e quanto ao conhecimento. Mas, relativamente a certos casos particulares, que são como conclusões dos princípios gerais, ela é, no mais das vezes, a mesma para todos, quanto à retidão e quanto ao conhecimento. Mas às vezes tal pode não se dar. Quanto à retidão, por causa de certos impedimentos particulares, do mesmo modo que, por causa deles, em alguns casos, falha a natureza, sujeita que está à geração e à corrupção. E também quanto ao conhecimento, porque uns têm a razão depravada pelas paixões ou pelos maus costumes, ou pela maus hábitos da natureza. Assim, p. ex. entre os Germanos, outrora, não era reputado por mal o latrocínio, embora seja expressamente contra a lei da natureza, como refere Júlio César (In lib. VI De bello gallico, cap. XXIII).

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO: [ Decretais: O direito natural é o que está contido na lei e no Evangelho. Ora, este não é o mesmo para todos, porque, “nem todos obedecem ao Evangelho].

RESPOSTA: A expressão citada não se deve entender como significando, que todo o conteúdo da lei e do Evangelho pertence à Lei Natural, pois, muitas coisas aí se ensinam superiores à Lei da Natureza; mas significa que aí se transmite plenamente, o que pertence à Lei da natureza. (…)

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: [Chama-se justo ao que é conforme à lei. Ora, nada há tão justo para todos, que se não diversifique para alguns].

RESPOSTA: O lugar citado do Filósofo se entende daquilo que é naturalmente justo, não como princípios gerais, mas como certas conclusões derivadas destes princípios gerais, e que, sendo retas na maior pare dos casos, falham em alguns poucos.

RESPOSTA À TERCEIRO OBJEÇÃO [que assim foi formulado por Santo Tomás]: À lei natural pertence aquilo a que o homem por natureza se inclina. Ora, homens diversos naturalmente têm inclinações diversas: uns, para a concupiscência dos prazeres; outros, para o desejo das honras; outros, para outras coisas. Logo a lei natural não é a mesma para todos.

RESPOSTA: Assim como a razão do homem domina e impera sobre as outras faculdades, assim é necessário que todas as inclinações naturais das outras potências se ordenem racionalmente. Por isso, é em geral reto para todos, que, segundo a razão sejam dirigidas todas as paixões dos homens.

Até aqui a q. 94, a. IV, da !ª – 2ª da S. T.. Agora, com a graça de Deus, baseados sempre em Santo Tomás de Aquino, vamos ver melhor ainda o sentido deste artigo, no qual o Papa Francisco pretende se basear para garantir que AL é tomista e, portanto, de uma Moral segura.

Na “Summa Theologiae, I-II, q. 93, a. VI, o Doutor Angélico prova que todas as coisas humanas estão sujeitas à Lei Eterna:

“De dois modos um ser está sujeito à Lei Eterna. De um modo, enquanto pelo conhecimento participa da lei eterna; de outro modo, pela ação e pela passividade (=que sofre a ação), participando dela como de princípio motivo interno. Ora, é deste segundo modo que à lei eterna estão sujeitas as criaturas irracionais. Mas a natureza racional (o homem) tendo, além do que lhe é comum com todas as criaturas, algo de próprio, como racional que é, está sujeita à lei eterna de um e de outro modo. Pois, de um lado, tem de certa maneira a noção da lei eterna; e de outro, em toda criatura racional existe uma inclinação natural para o que está de acordo com à lei eterna, pois, é-nos natural possuir as virtudes, como diz Aristóteles. Ambos estes modos, porém, são nos maus, imperfeitos, e de certa maneira, corrompidos. Pois, além de terem a inclinação natural para a virtude, depravada pelos hábitos viciosos, o próprio conhecimento natural do bem lhes está entenebrecido pelas paixões e pelos hábitos pecaminosos. Ao contrário, nos bons um e outro modo existe da maneira mais perfeita, porque ao conhecimento natural do bem se lhes acrescenta o conhecimento da fé e da sabedoria; e à inclinação natural para o bem, o motivo interior da graça e da virtude.

Por onde, os bons estão perfeitamente sujeitos à Lei Eterna, por agirem sempre de acordo com ela. Os maus, por seu lado também lhe estão sujeitos, embora imperfeitamente, pelas suas ações, pelo fato de a conhecerem imperfeitamente,  e pelo fato de também imperfeitamente se inclinarem ao bem. Mas o que lhes falta na ação é-lhes suprido pela passividade, pois, na medida em que deixaram de fazer o que exigia a lei eterna, nessa mesma medida, hão de sofrer o que ela pede deles.

Respondendo à segunda objeção que assim foi formulada: O Apóstolo diz: “A sabedoria da carne é inimiga de Deus, pois não é sujeita à lei de Deus.  Ora, há muitos homens em quem domina a sabedoria da carne. Logo, não estão  todos sujeitos à Lei eterna de Deus.

RESPOSTA: A sabedoria da carne, não pode estar sujeita à lei de Deus, no concernente à ação, pois inclina a ações contrárias à lei divina. Mas lhe está sujeita, no concernente à passividade, porque merece sofrer uma pena segundo a lei da divina justiça (Nota minha: S. Tomás não diz que os que se deixam guiar pelas paixões  merecem misericórdia mesmo não se arrependendo, mas sim merecem sofrer a pena da justiça divina). Contudo, em nenhum homem a sabedoria da carne domina a ponto de corromper totalmente o bem da natureza. Por isso, permanece no homem a inclinação para agir de conformidade com a lei eterna. Pois, o pecado não o priva totalmente do bem da natureza. [Nota minha: dizer que pode um adúltero achar que não está em pecado mortal, é utópico, e mesmo que possa haver algum caso, a Igreja é o sal da terra e a luz do mundo, e o confessor tem obrigação de tirar o penitente do pecado mortal material, somente excetuando no caso de morte, quando se percebe que o penitente moribundo corre o risco de não se retratar e se arrepender. O sacerdote neste caso, deixa-o na boa fé e dá-lhe todos os sacramentos e até o viático; mas, para evitar escândalo, deve fazê-lo de todo ocultamente, com a máxima discrição).

Santo Tomás de Aquino na Summa Theologiae, I-II, q. 91, a. IV mostra que além da lei natural e da humana é necessário, para a direção da vida humana, haver uma Lei divina. Cita primeiramente a Sagrada Escritura no Salmo 98, 33: “Impõe-me por lei, Senhor, o caminho das tuas justificações”.

E isto, diz o Doutor Angélico, por quatro razões:

– Primeiro, porque pela lei o homem dirige os seus atos em ordem ao fim último. Ora, se ele se ordenasse só para um fim que não lhe excedesse a capacidade das faculdades naturais, não teria necessidade de nenhuma regra racional, superior à lei natural e à humana derivada da natural. Mas como o homem se ordena ao fim da beatitude eterna, excedente à capacidade natural das suas faculdades, é necessário que, além da lei natural e da humana, seja também dirigido ao seu fim por uma lei imposta por Deus.

– Segundo, da incerteza do juízo humano, sobretudo no atinente às coisas contingentes e particulares, originam-se juízos diversos sobre atos humanos diversos; donde, por sua vez, procedem leis diversas e contrárias. Portanto, para poder o homem, sem nenhuma dúvida, saber o que deve fazer e o que deve evitar, é necessário dirija os seus atos próprios pela lei estabelecida por Deus, que sendo a própria sabedoria, não pode errar [ndr:Peço encarecidamente a atenção de todos sobre isto].

–  Terceiro, porque o homem só pode legislar sobre o que pode julgar. Ora, não pode julgar dos atos internos, que são ocultos, mas só dos externos, que aparecem. E contudo, a perfeição da virtude exige que ele proceda retamente em relação a uns e a outros.  Portanto, a lei humana, não podendo coibir e ordenar suficientemente os atos internos, é necessário que, para tal, sobrevenha a lei divina.  –  Quarto, porque, como diz Agostinho, a lei humana não pode punir ou proibir todas as coisas mal feitas. Pois, se quisesse eliminar todos os males, haveria consequentemente de impedir muitos bens, impedindo assim a utilidade do bem comum, necessário ao convívio humano. Por onde, afim de nenhum mal ficar sem ser proibido e permanecer impune, é necessário sobrevir a lei divina, que proíbe todos os pecados.

– E estas quatro causas estão resumidas no Salmo 18, 8 que diz o seguinte: “A lei do Senhor que é imaculada, isto é, que não permite a torpeza de nenhum pecado [ndr: não permite que a Igreja se suje na lama da estrada]; “converte as almas, porque regul, não só os atos externos, mas também os internos; “o testemunho do Senhor é fiel”, por causa da certeza da verdade e da retitude; “e dá sabedoria aos pequeninos” ordenando o homem a um fim sobrenatural e divino.

Santo Tomás de Aquino formula assim a primeira objeção contra a necessidade de uma Lei divina:

 

A Lei natural é uma participação da Lei eterna em nós. Ora, a Lei eterna é a lei divina. Logo, não é necessário haver uma lei divina, além da lei natural e das leis humanas dela derivadas.

Resposta: Pela lei natural, o homem participa da lei eterna, proporcionalmente à capacidade da sua natureza. Mas importa que, de modo mais alto, seja levado ao fim último e sobrenatural. E por isso se lhe acrescenta a lei dada por Deus, pela qual a lei eterna é participada de modo mais elevado.

Peço encarecidamente que lembrem-se ainda sempre destas afirmações de Santo Tomás de Aquino:

“O primeiro princípio na ordem das operações, à qual pertence a razão prática, é o fim último. E, sendo  o fim último da vida humana a felicidade ou beatitude, há de por força a lei dizer respeito, em máximo grau, à ordem da beatitude (…). Necessariamente a lei sendo por excelência relativa ao bem comum, nenhuma outra ordem, relativa a uma obra particular, terá natureza de lei, senão enquanto se ordena ao bem comum. (…) O ordenar-se para o bem comum, que é próprio da lei, é aplicável a fins particulares. E a esta luz, também se podem dar ordens relativas a certos fins particulares” (cf. S. Theol. I-II, q. 90, a. 2).

“Cristo, logo no princípio da sua pregação, convida para o reino dos céus, dizendo: ‘Fazei penitência, porque está próximo o reino dos céus” (Mat.Iv, 17).Donde o dizer Agostinho, que as promessas das coisas temporárias estão contidas no Antigo Testamento, que, por isso, se chama antigo; ao passo que a promessa da vida eterna pertence ao Novo Testamento. (…) A salvação dos homens não podia vir senão de Cristo, conforme à Escritura: “Nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual nós devamos ser salvos” (Atos, IV, 12). Por onde, a lei, que perfeitamente conduz todos à salvação, não podia ser dada senão depois do advento de Cristo. Mas antes dela, era necessário fosse dada ao povo, do qual Cristo havia de nascer, uma lei preparatória para recebê-lo, em que já se achassem contidos certos rudimentos da justiça salvífica.

A lei natural dirige o homem por certos preceitos gerais, em que convém tanto aos perfeitos como aos imperfeitos. Por isso é a mesma para todos. Ao passo que a lei divina o dirige mesmo em certas particularidades, em que os perfeitos não se comportam do mesmo modo que os imperfeitos. (cf. S. Theol. I-II, q. 91, a. V.).

A lei do homem, que lhe coube por ordenação divina, de acordo com a sua condição, é obrar de conformidade com a razão. E tanta força tinha essa lei, no estado primitivo [i. é, antes do pecado original] que nada de preter-racional ou de irracional podia surpreender o homem. Mas quando ele se afastou de Deus, incorreu na pena de ser arrastado pelo ímpeto da sensualidade. O que se dá com cada um em particular, quanto mais se afastar da razão; que, assim, de certo modo se assemelha aos brutos, levados pelo ímpeto da sensualidade, conforme àquilo da Escritura: ‘O homem, quando estava na honra não o entendeu; foi comparado aos brutos irracionais, e se fez semelhante a eles’ (Salmo 48, 21). (…) Por ter sido o homem, pela justiça divina, destituído da justiça original, e perdido o vigor da razão, o ímpeto mesmo da sensualidade, que o arrasta, tem natureza de lei, mas penal, por lei divina, inseparável do homem, destituído da dignidade que lhe era própria” (cf. S. Theol. I-II, q. 91, a. VI).

Caríssimos, veremos em outros artigos como o grande Doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino, fala especificamente dos Sacramentos do Matrimônio, da Penitência e da Santíssima Eucaristia. E aí compreenderemos sim que a CF é tomista.

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20 outubro, 2017

Nota de repúdio dos bispos do Regional CNBB NE1-Ceará diante do escárnio público contra os símbolos sagrados.

Fonte: Arquidiocese de Fortaleza

Nós, bispos do Regional CNBB NE1-Ceará, reunidos em Conselho Episcopal Regional, manifestamos a nossa indignação e repúdio diante do escárnio público contra os nossos símbolos mais sagrados (Crucifixo, hóstia, imagem da Padroeira do Brasil) e contra valores fundamentais da vida humana. Ataques violentos e explícitos à família e à religião cristã têm sido feitos através de espetáculos de péssima qualidade que visam à apologia de práticas de sexualidade pervertida e anormal.

A Igreja não prega nem defende discriminação ou preconceito de qualquer natureza. Mas, comprometida com a verdade, defende e promove os valores humanos e cristãos, cumprindo assim, as exigências do Evangelho de Cristo.

Seríamos ingênuos ao pensar que esses últimos episódios (Exposição Queermuseu no Santander Cultural em Porto Alegre – RS, o artista nu que rala a imagem de Nossa Senhora Aparecida durante ‘perfomance’, em Brasília), dada à sua natureza e à evidência dos seus objetivos, não são apenas verdadeiros crimes de vilipêndio, o que já seria muito grave, pois o próprio Código penal os tipifica assim (Artigo 208). Trata-se de um verdadeiro projeto estrutural, profundo e nefasto, de desmonte dos nossos mais preciosos valores humanos e cristãos, através da banalização do matrimônio, da ideologia de gênero, da legalização do aborto, da liberação das drogas, da relativização dos valores morais nascidos do Evangelho e ensinados pelo Magistério da Igreja.

Por isso, denunciamos e repudiamos:

O “ataque explícito” aos valores humanos e cristãos da imensa maioria do povo brasileiro. Pois em nome de uma “liberdade” de imprensa, cultural, intelectual, artística impõe o desejo de uma minoria a toda uma coletividade.

O incentivo, patrocínio, promoção e “doutrinação”em massa, realizada diuturnamente em novelas, programas de “entretenimento” e da imposição ilegal, por órgãos governamentais e organizações não-governamentais, muitas destas de âmbito internacional;

A colonização ideológica, como alerta o Santo Padre, o papa Francisco: “Na Europa, nos Estados Unidos, na América Latina, na Africa, em alguns países da Ásia, existem verdadeiras colonizações ideológicas. E uma delas – digo-a claramente por nome e sobrenome” – é a ideologia de gênero (gender). Hoje às crianças às crianças -, na escola, ensina-se isto. O sexo, cada um pode escolhê-lo. E por que ensinam isto? Porque os livros são os das pessoas e instituições que lhes dão dinheiro”(Discurso aos Bispos da Polônia, 27.08.2015).

Portanto, convocamos todos os cristãos e pessoas de boa vontade a resistirem e protestarem contra todas as formas de destruição dos valores cristãos e da família, fazendo chegar a expressão do seu repúdio e indignação aos patrocinadores de tais campanhas e aos meios de comunicação que as veiculam.

Acreditamos numa sociedade justa e fraterna, possível apenas no compromisso com a vida, e vida em plenitude (Jo 10,10).

Que Deus nos fortaleça nessa árdua tarefa e a Querida Mãe Aparecida continue a interceder por todos nós.

Fortaleza, 18 de outubro de 2017

Dom José Antonio Aparecido Tosi Marques
Arcebispo da Arquidiocese de Fortaleza – CE

Dom Rosalvo Cordeiro de Lima
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Fortaleza – CE

Dom Ailton Menegussi
Bispo da Diocese de Crateús-CE

Dom Gilberto Pastana de Oliveira
Bispo da Diocese de Crato – CE

Dom Edson de Castro Homem
Bispo da Diocese de Iguatu – CE

Dom Antônio Roberto Cavuto
Bispo da Diocese de Itapipoca – CE

Dom André Vital Félix da Silva
Bispo de da Diocese Limoeiro do Norte

Dom Angelo Pignoli
Bispo da Diocese de Quixadá – CE

Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos
Bispo da Diocese de Sobral – CE

Dom Francisco Edimilson Neves Ferreira
Bispo da Diocese de Tianguá – CE

Segue carta em PDF com as assinaturas dos Bispos: Nota CONSER out – 17

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
Regional Nordeste 1
Rua Felino Barroso, 405
Fátima- 60050-130- Fortaleza – Ceará –
Caixa Postal, 126 – CEP 60001-970
Fone: – (85) 3252.4046
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E-mail: cnbbne1@veloxmail.com.br

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18 outubro, 2017

Editorial: Tradicionalistas na mira. O bullying da CNBB.

Por FratresInUnum.com – 18 de outubro de 2017.

Notícias correm de que está para explodir uma ofensiva do episcopado brasileiro para enfrentar a onda de tradicionalismo que percorre toda a nação.

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Projeto faraônico na nova sede da CNBB: “Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração”.

Uma reedição libertadora da inquisição? Uma caça às bruxas? Uma versão tupiniquim da Ku Klux Klan? Nada disso! Apenas a velha presunção cnbbista de se achar o centro do universo.

Não percebem os senhores bispos que se reduziram a um gueto grotesco, autorreferencial e inexpressivo.

Quem se importa com as posições da CNBB?

O povo brasileiro sequer toma conhecimento daquilo que diz e pensa o referido sindicato e, solenemente, segue o caminho oposto. Os fiascos dos últimos anos o comprovam retumbantemente.

O máximo que as excelências conseguirão é promover um bullying aos católicos tradicionais, como se os mesmos já não estivessem há décadas a suportar heroicamente o vexame de um desrespeito que produziu neles o calo de uma insensibilidade soberana, que ridicularização alguma poderá sensibilizar.

Em sua total irrelevância e incapacidade de incidir sobre quem quer que seja, os bispos brasileiros apenas encorajarão mais ainda aqueles que pensam combater. Os tradicionalistas se multiplicarão por todos os lados, exponencialmente, e serão o pesadelo de todas as suas noites. Expulsarão seminaristas considerados conservadores sem perceberem que estão ordenando outros que, fingindo-se de modernos, são mais tradicionais que os primeiros.

Arquidiocese de Niterói: “A Igreja nunca esteve tão bem”, por isso não há mais nada com o que se preocupar. Fiéis agora aguardam notas pedindo fidelidade também ao Concílio de Trento e Vaticano I.

A doença do episcopado nacional é endêmica e chama-se complexo de superioridade. Tais quais faraós superexaltados, acham-se eles tão acima de todos que se dão ao luxo de não trafegarem entre seu clero e seus seminaristas. Ordenam desconhecidos que continuarão a serem desconhecidos e as surpresas não cessarão de aparecer.

O cúmulo da contradição é que eles, em sua fobia contra véus, batinas e similares, se dão a perseguir os verdadeiros católicos enquanto clérigos apodrecem no concubinato, na homossexualidade (para não falar dos casos de transexualidade mal-disfarçada) e no roubo.

O povo não é tão estúpido quanto pôde ter sido um dia e não se dobrará a esses caprichos da hipocrisia episcopal brasileira. O desprestígio da CNBB é irreversível, pois a mediocridade de seus sindicalizados não cessa de o corroborar com um sublinhado incessantemente repetido.

A impressão que os senhores bispos têm de sua própria legitimidade está nos aplausos que trocam entre si, exatamente como nos bandos de bullying, em que a mútua confirmação referenda a sensação de vitória e superioridade. Nada tão pouco convincente.

Enquanto não chegam dias melhores para a pobre Igreja de Deus, resistamos, superando a cada dia este tempo de prova. E não nos impressionemos com o bullying. Coloquemos ante eles um espelho para que percebam sua própria comicidade.

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17 outubro, 2017

Sínodo para a Pan-Amazônia. Já vimos esse filme.

Mais um jogo de cartas marcadas? Pois foram exatamente assim os dois sínodos para a família, em que manobras das mais vergonhosas e o desprezo da vontade da maioria dos padres sinodais nos trouxeram, por fim, Amoris Laetitia.

Pois bem, leia aqui e anote em sua agenda (e reze muito, muito mesmo).

Papa anuncia o Sínodo para a Pan-amazônia

Cidade do Vaticano (RV) – Antes de rezar a oração mariana do Angelus, o Papa fez neste domingo (15/10) um anúncio surpreendente, que diz respeito de perto à nossa realidade. Após saudar todos os peregrinos e delegações oficiais de Brasil, França, Itália, México, Ordem de Malta e Espanha, países de origem dos santos recém-canonizados, Francisco disse:

“Atendendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, assim como ouvindo a voz de muitos pastores e fiéis de várias partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-amazônica. O Sínodo será em Roma, em outubro de 2019. O objetivo principal desta convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta. Que os novos Santos intercedam por este evento eclesial para que, no respeito da beleza da Criação, todos os povos da terra louvem a Deus, Senhor do universo, e por Ele iluminados, percorram caminhos de justiça e de paz”.

Há vários meses, tem-se cogitado a realização de um encontro do Papa no Vaticano com os bispos de toda a região (9 países compõem a Pan-Amazônia) para avaliar os desafios e buscar respostas comuns para seus mais de 30 milhões de habitantes.

Em maio de 2017, o Cardeal Cláudio Hummes, Presidente da REPAM, Rede Eclesial Pan-amazônica, entrevistado pela RV, ressaltou a importância de dois aspectos fundamentais: “o propriamente missionário e evangelizador naquela região, e a questão ecológica: a importância da floresta Amazônica e a ameaça que ela está sofrendo de destruição, de degradação, de desmatamento, etc.”.

A REPAM trabalha em sintonia com a Santa Sé, Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Secretariado da América Latina e Caribe de Caritas (SELACC) e Confederação Latino-americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (CLAR).

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17 outubro, 2017

O Catolicismo no Brasil.

As Edições Cristo Rei querem disponibilizar aos leitores brasileiros uma nova edição do clássico O Catolicismo no Brasil, do padre Júlio Maria, C.S.S.R.

Por meio de uma análise precisa de nossa história, o autor demonstra que se negarmos as raízes católicas do Brasil correremos o risco de perder completamente nossos referenciais. É justamente por ser um país católico que ele afirma na introdução:

“Para o espírito pensador, a crise no Brasil não é uma crise política, cuja solução dependa de formas de governo. É uma crise moral, resultante da profunda decadência religiosa, desde o antigo regime, das classes dirigentes da nação, e que só pode ser resolvida por uma reação católica.

É ao catolicismo, não a um partido político, que manifestamente, na hora presente, Deus convida à reconstrução moral da sociedade.”

A frase acima, apesar de ter sido escrita na época em que o livro foi publicado (primeira metade do século XX), não poderia ser mais atual.

Faltam poucos dias para o término da campanha de financiamento coletivo da publicação da nova edição da obra.

A editora oferece diferentes recompensas para os colaboradores.
Basta entrar no link e escolher uma delas.

Ajudem também a divulgar a campanha entre seus colegas, amigos e familiares!

Viva Cristo Rei!

Atenção: Toda divulgação comercial em FratresInUnum.com é absolutamente gratuita, contanto que útil à Igreja, e deve ser enviada para fratresinunum[arroba]gmail.com

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16 outubro, 2017

O Brasil tem 30 novos Santos: Papa canoniza mártires de Cunhaú e Uruaçu.

Cidade do Vaticano (RV) – A Igreja tem 35 novos Santos, e entre eles, 30 brasileiros. Em cerimônia presidida pelo Papa Francisco na manhã deste domingo (15/10) na Praça São Pedro, foram canonizados os mártires de Cunhaú e Uruaçu, os Protomártires do México – considerados os primeiros mártires do continente americano – além do sacerdote espanhol Faustino Míguez, fundador do Instituto Calasanzio, Filhas da Divina Pastora, e do Frade Menor Capuchinho italiano Angelo d’Acri.

Após ser cantado o Veni Creator, o Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato, acompanhado pelos Postuladores das Causas, dirigiu-se até o Santo Padre pedindo para que se procedesse à canonização dos Beatos, com a leitura de seus nomes.

A seguir, foi lida uma breve biografia dos novos Santos e entoada a Ladainha de todos os Santos, pedindo que por meio da Virgem Maria e de todos os Santos seja sustentado o ato que está para ser cumprido. Por fim, o Santo Padre leu a fórmula de canonização.

Homilia

Se se perde o amor de vista, “a vida cristã torna-se estéril, torna-se um corpo sem alma, uma moral impossível, um conjunto de princípios e leis a serem respeitadas sem um porquê”.

Inspirando-se no Evangelho de Mateus proposto pela Liturgia do dia, o Papa recorda em sua homilia que ”o Reino de Deus é comparável a uma Festa de Núpcias”. Nós, “somos os amados, os convidados” para estas núpcias, mas “o convite pode ser recusado”. Neste sentido, somos chamados a “renovar a cada dia a opção de Deus”, vivendo segundo o amor verdadeiro, superando a resignação e os caprichos de nosso eu”.

Nós somos os convidados

Francisco inicia sua reflexão explicando que o protagonista da festa de núpcias “é o filho do rei, o noivo, no qual facilmente se vislumbra Jesus”. Mas na parábola, não se fala da noiva, “mas de muitos convidados, desejados e esperados: são aqueles que trazem as vestes nupciais:

“Tais convidados somos nós, todos nós, porque o Senhor deseja «celebrar as bodas» com cada um de nós. As núpcias inauguram uma comunhão total de vida: é o que Deus deseja ter com cada um de nós. Por isso o nosso relacionamento com Ele não se pode limitar ao dos devotados súditos com o rei, ao dos servos fiéis com o patrão ou ao dos alunos diligentes com o mestre, mas é, antes de tudo, o relacionamento da noiva amada com o noivo”.

Vida cristã é uma história de amor com Deus

Em outras palavras – explica Francisco – o Senhor “não se contenta com o nosso bom cumprimento dos deveres e a observância de suas leis, mas quer uma verdadeira comunhão de vida conosco, uma relação feita de diálogo, confiança e amor”:

“Esta é a vida cristã, uma história de amor com Deus, na qual quem toma gratuitamente a iniciativa é o Senhor e nenhum de nós pode gloriar-se de ter a exclusividade do convite: ninguém é privilegiado relativamente aos outros, mas cada um é privilegiado diante de Deus. Deste amor gratuito, terno e privilegiado, nasce e renasce incessantemente a vida cristã”.

Francisco pergunta porém, se em nosso dia-a-dia nos recordamos de dizer “ao menos uma vez”, “Senhor, vos amo. Vós sois a minha vida”:

“Com efeito, se se perde de vista o amor, a vida cristã torna-se estéril, torna-se um corpo sem alma, uma moral impossível, um conjunto de princípios e leis a respeitar sem um porquê. Ao contrário, o Deus da vida espera uma resposta de vida, o Senhor do amor espera uma resposta de amor”.

Reavivar a memória do primeiro amor

O Papa alerta para o perigo “de uma vida cristã rotineira, onde nos contentamos com a «normalidade», sem zelo nem entusiasmo e com a memória curta”.

Neste sentido, somos chamados a reavivar a memória do primeiro amor: “somos os amados, os convidados para as núpcias, e a nossa vida é um dom, sendo-nos dada em cada dia a magnífica oportunidade de responder ao convite”.

A recusa do convite

Mas este convite pode ser recusado. O Evangelho – observa o Papa – relata que muitos convidados disseram não, pois “estavam presos aos próprios interesses”, “ao seu campo, ao seu negócio”.

A palavra “seu” – frisa Francisco – “é a chave para entender o motivo da recusa”. Nos afastamos do amor, “não por malvadez”, mas porque se prefere “as seguranças, a autoafirmação, as comodidades”:

“Então reclinamo-nos nas poltronas dos lucros, dos prazeres, de qualquer passatempo que nos faça estar um pouco alegres. Mas deste modo envelhece-se depressa e mal, porque se envelhece dentro: quando o coração não se dilata, fecha-se, envelhece. E quando tudo fica dependente do próprio eu – daquilo com que concordo, daquilo que me serve, daquilo que pretendo –, tornamo-nos rígidos e maus, reagimos maltratando por nada, como os convidados do Evangelho que chegam ao ponto de insultar e até matar aqueles que levaram o convite, apenas porque os incomodavam”.

Deus é o oposto do egoísmo

“Deus é o oposto do egoísmo, da autorreferencialidade”, pois diante de nossas contínuas recusas e fechamentos, “não adia a festa. Não se resigna, mas continua a convidar”:

“Vendo os «nãos», não fecha a porta, mas inclui ainda mais. Às injustiças sofridas, Deus responde com um amor maior. Nós muitas vezes, quando somos feridos por injustiças e recusas, incubamos ressentimento e rancor. Ao contrário Deus, ao mesmo tempo que sofre com os nossos «nãos», continua a relançar, prossegue na preparação do bem mesmo para quem faz o mal. Porque assim faz o amor; porque só assim se vence o mal”.

Hoje – portanto – “este Deus que não perde jamais a esperança, nos compromete a fazer como ele, a viver segundo o amor verdadeiro, a superar a resignação e os caprichos de nosso “eu” suscetível e preguiçoso”.

As vestes dos convidados

O Papa destaca então, um último aspecto do Evangelho do dia: “as vestes dos convidados, que são indispensáveis”. Ou seja, não basta responder ao convite dizendo sim e basta, “mas é preciso vestir” “o hábito do amor vivido cada dia”, porque “não se pode dizer “Senhor, Senhor”, sem viver e praticar a vontade de Deus. Precisamos nos revestir a cada dia do seu amor, de renovar a cada dia a opção de Deus”:

“Os Santos canonizados hoje, sobretudo os numerosos Mártires, indicam-nos esta estrada. Eles não disseram «sim» ao amor com palavras e por um certo tempo, mas com a vida e até ao fim. O seu hábito diário foi o amor de Jesus, aquele amor louco que nos amou até ao fim, que deixou o seu perdão e as suas vestes a quem O crucificava. Também nós recebemos no Batismo a veste branca, o vestido nupcial para Deus.”

Perdão do Senhor, passo decisivo para entrar na sala das núpcias

Que “peçamos a Ele, pela intercessão destes nossos irmãos e irmãs santos, a graça de optar por trazer cada dia esta veste e de a manter branca”, o que é possível, “antes de mais nada, indo sem medo receber o perdão do Senhor, o passo decisivo para entrar na sala das núpcias e celebrar a festa do amor com Ele”.

Segundo a Sala de Imprensa da Santa Sé, 35 mil fiéis participaram da celebração. (JE

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15 outubro, 2017

Foto da semana.

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Participação maciça na Cruzada do Rosário na Polônia. Liberais furiosos

Por Lisa Bourne, Varsóvia, Polônia, 9 de outubro de 2017 – LifeSiteNews | Tradução: FratresInUnum.com: Centenas de milhares de católicos poloneses cercaram seu país de oração no sábado [7 de outubro – festa de Nossa Senhora do Rosário e recordação da Batalha de Lepanto], implorando a intervenção de Nossa Senhora para salvar a Polônia e o mundo.

Os católicos deram a volta ao redor dos 3.200 quilômetros de fronteira da Polônia para rezar o “Rosário nas Fronteiras”, ao passo que as mídias progressistas consideraram o encontro nacional de oração “polêmico”, xenófobo, islamofóbico ou não representativo da Igreja Católica.

“Os católicos da Polônia realizam um polêmico dia de oração nas fronteiras”, dizia a manchete da BBC a respeito do evento.

Rafał Pankowski, chefe do grupo de defesa de compreensão multicultural de Varsóvia Jamais Novamente, disse à Associated Press: “Todo o conceito de fazer essa oração nas fronteiras reforça o modelo étnico-religioso e xenófobo de identidade nacional”.

Krzysztof Luft, ex-membro do maior partido de oposição da Polônia, a Plataforma Cívica liberal, tuitou: “Ridicularizando a Cristandade em grande escala. Eles tratam a religião como uma ferramenta para manter o atraso na estagnação polonesa”.

O “Rosário nas fronteiras” foi organizado por católicos leigos e sancionado por líderes da Igreja na Polônia, com cerca de 320 igrejas de 22 dioceses que participam em cerca de 4.000 locais ao longo da fronteira com a Alemanha, a República Tcheca, a Eslováquia, a Ucrânia, a Bielorrússia,  a Lituânia,  a Rússia e o Mar Báltico.

Mais de 90% dos 38 milhões de cidadãos da Polônia são católicos romanos.

A primeira-ministra católica da Polônia também aprovou o evento do rosário. Beata Szydlo tuitou: “Saúdo a todos os participantes”.

O padre Pawel Rytel-Andrianik, porta-voz da Conferência Episcopal Polonesa, disse que foi o segundo maior evento de oração na Europa desde a Jornada Mundial da Juventude, em 2016. O New York Times informou, no entanto, que os números de participação final ainda estavam sendo calculados.

As capelas do aeroporto, consideradas portões de entrada para o país, também foram locais de oração para os católicos, afirmou o AP, e os soldados poloneses estacionados no Afeganistão rezaram no aeródromo de Bagram.

As posições de oração para o evento do rosário também incluíam barcos de pesca no mar, bem como caiaques e veleiros formando correntes em rios poloneses, de acordo com um relatório da Agence France-Presse.

“Durante a oração, eu estava no aeroporto de Chopin em Varsóvia”, disse o padre Rytel-Andrianik, “e havia muitas pessoas saindo da capela”.

“Essa foi uma iniciativa de leigos, o que torna o evento ainda mais extraordinário”, prosseguiu. “Milhões de pessoas rezaram o rosário juntas. Esse número excedeu as expectativas mais ousadas dos organizadores “.

As igrejas que participaram iniciaram o evento de oração com uma palestra e a celebração da missa antes que os católicos se dirigissem para as fronteiras para rezar o rosário.

O “Rosário nas Fronteiras” tomou seu significado a partir das aparições de Nossa Senhora de Fátima, programadas para o primeiro sábado do mês durante o centenário da aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos em Fátima, Portugal.

O evento nacional de oração católica da Polônia também coincidiu com a Festa de Nossa Senhora do Rosário no aniversário de 7 de outubro da vitória naval de 1571 da Santa Liga sobre a marinha do Império Otomano na Batalha de Lepanto.

O rosário está intimamente ligado à vitória de Lepanto, devido ao apelo do Papa São Pio V aos fiéis para que rezassem o rosário pela vitória.

Os comentários de alguns participantes a respeito da Europa manter suas raízes cristãs ou derrubar a maré do Islã foram instrumentalizados pela mídia para descrever o “Rosário nas fronteiras” como evento nacionalista ou de “Medo do Islã”.

“Vamos rezar por outras nações da Europa e do mundo para entendermos que precisamos voltar às raízes cristãs da cultura europeia se quisermos que a Europa permaneça na Europa”, disse o arcebispo de Cracóvia, Marek Jedraszewski, durante a missa no sábado.

“Isso é algo muito sério para nós”, disse Basia Sibinska à AP. “Queremos rezar pela paz, queremos rezar pela nossa segurança. Claro, todos vêm aqui com uma motivação diferente. Mas o mais importante é criar algo intenso e apaixonante como um círculo de oração ao redor de toda a fronteira”.

A Polônia e a Hungria se recusaram a receber migrantes sob o sistema de quotas estabelecido pela União Europeia, causando controvérsias e ameaçando a filiação dos dois países na UE.

Os receios com a secularização na Europa, no entanto, existem independentemente da atual crise migratória e suas diversas implicações.

O relatório do Times referiu-se ao evento de oração do rosário dizendo que “católicos poloneses agarrando contas de rosário” reuniram-se “para uma manifestação em massa” e chamaram a Polônia de “uma nação movendo-se cada vez mais para a direita”.

O teólogo da Universidade Villanova, Massimo Faggioli, usou o Twitter para criticar o evento, dizendo que o rosário teve um “uso anti-imigrantes”.

Ele tuitou dizendo: “Usar a Virgem Maria como um escudo humano e o Rosário como uma arma contra o Islã não é exatamente o meu modo de pensar” e “usar o Rosário como arma contra o Islã não representa ‘a Igreja Católica’”.

Os organizadores disseram à LifeSiteNews que o objetivo do evento do Rosário na Fronteira era seguir o chamado de Nossa Senhora em Fátima para rezar o rosário para o resgate do mundo.

“O Rosário nas Fronteiras não é uma cruzada, porque não queremos lutar com ninguém”, disse Maciej Bodasiński. “É uma comoção gigantesca em favor, não contra algo. Seguimos firmemente o seu comando, e rezaremos nas fronteiras do nosso país, saindo em oração e testemunho do mundo inteiro, para que a Misericórdia de Deus não se restrinja a nenhuma fronteira “.

O padre Alexander Lucie-Smith, teólogo moral e editor de consultoria do Catholic Herald, disse em uma postagem no blog que rezar o rosário não é algo polêmico, e essa é a nossa melhor arma contra o mal.

O padre Lucie-Smith observou que a Polônia tem uma história diferente de outras nações europeias, como a Grã-Bretanha, tendo sido “apagada do mapa em várias ocasiões” na história recente.

“Se os poloneses parecem mais apegados à soberania nacional do que a maioria, quem pode culpá-los?”, indagou. “Sua soberania tem sido muito contestada. Além disso, a questão da nacionalidade polonesa está profundamente relacionada à fé católica. Tanto em questões de etnia e religião, os poloneses foram firmes em resistir à russificação. Você pode culpá-los?”

Ele também disse que os poloneses têm o direito de fazer suas próprias escolhas em matéria de admissão de migrantes e que rezar pela salvação da Polônia e do mundo era “admirável. O exemplo polonês deveria estimular os outros a fazerem a mesma coisa.”

Em relação à ligação com a Batalha de Lepanto, o padre Lucie-Smith disse que comemorar o aniversário não denota a negatividade perante outro país, mas comemora a libertação daqueles que foram submetidos a um regime despótico, incluindo os escravos das galés cristãs, fazendo disso algo para se comemorar.

Ele também enfatizou que a oração pela vitória na guerra “há muito tem sido o caminho cristão”, seja em Lepanto, durante a Segunda Guerra Mundial, bem como até e incluindo os bispos nigerianos, instando as pessoas de hoje a rezarem o rosário diante de Boko Haram, “o que está completamente de acordo com a tradição católica”.

“Polêmico? Eu não penso assim”, escreveu o padre Lucie-Smith. “Os católicos fazem isso há séculos”.

“Tenhamos a esperança de continuar rezando durante os séculos vindouros”, disse. Como o site dos organizadores do evento polonês nos recorda, “o rosário é uma arma poderosa contra o mal”. Continuemos a usá-lo!

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