25 setembro, 2021

Libera geral.

Por Jerônimo Lourenço – FratresInUnum.com, 25 de setembro de 2021: Em meados da década de 1990, a apresentadora Xuxa Meneghel reinava absoluta nas tardes de sábado da Rede Globo, com o seu programa homônimo Planeta Xuxa. Auxiliada por suas paquitas, Xuxa animava a plateia alvoroçada ao som de Libera Geral, uma canção bem sugestiva para um programa que foi responsável por introduzir o funk no Brasil.

Quase trinta anos depois, o clima na Igreja Católica se assemelha muito ao das tardes de sábado da Globo daquela época, como se a nave de Xuxa tivesse abduzido o Corpo de Cristo e o levado para o “planeta” dela. De fato, por toda parte, seja no ambão das Missas seja nas pastorais, não se ouve outra coisa senão: “Libera geral”. 

Libera a comunhão para pecadores públicos, libera o celibato, libera o casamento gay, libera o sincretismo, libera o paganismo, libera a camisinha, libera a maconha, libera o aborto, libera a ordenação de mulheres… A lista é exaustiva embora a criatividade não tenha fim. Para justificar tais pedidos, usa-se a chamada “abordagem pastoral positiva e misericordiosa do Vaticano II”. Por isso, quem apresenta objeções a essas patifarias é rotulado de “rígido”, “pervertido” e “obreiro do demônio”.

Acontece que o Povo de Deus não é burro e existe uma coisa chamada sensus fidei fidelium, do qual os leigos participam ativamente. Estes são capazes de reconhecer quando uma pregação destoa dos ensinamentos de Cristo, ainda que não consigam formular a própria perplexidade com a precisão teológica de um doutor. Basta pensar nos muitos leigos da França, por exemplo, que se recusaram, durante a Revolução, a ouvir os sermões de qualquer padre juramentado. Ou, então, para não ir tão longe, nos fiéis que acham esquisito o fato de o sacerdote não mais se ajoelhar diante da Eucaristia. Como advertiu Nosso Senhor, as ovelhas conhecem a voz do seu pastor.

É por isso que, hoje, esse pedido de liberação do pecado chega aos ouvidos do povo com um verniz pastoral sofisticado e falsamente amoroso. Doura-se o veneno para ludibriar a vítima, enquanto os fiéis ao depósito da fé vão sendo sumariamente calados e jogados ao ostracismo como se fossem leprosos. A verdade precisa ser sufocada para a mentira prevalecer.

Dada a situação, podemos até acreditar por algum tempo que a verdadeira Igreja de Cristo desapareceu e em seu lugar colocaram uma imitação barata, à imagem e semelhança daqueles que a projetaram. A nova Igreja é horizontal, é do homem, da mulher, do trans, do não-binário, atendendo ao gosto de todos; ela está aberta a todas as inclinações, de modo que ninguém precisa mais daquele estilo de catolicismo engessado, próprio do passado. Somente uns poucos saudosistas deveriam querer sair do compasso. Mas as coisas precisam seguir seu curso, imaginam, precisam caminhar com o bonde da história, sob pena de pecado contra o Espírito, que dizem ser de Deus.

A natureza humana, no entanto, facilmente se cansa do picadeiro. Naturalmente, as pessoas começam a pedir limites, regras, silêncio, orientação… E não se trata de medo da liberdade ou de renúncia à autonomia, mas de colocar o trem de volta ao trilho. Até para ser livre o homem precisa ser ordenado. 

Essa é a maravilha do fenômeno humano, que tão bem captou Machado de Assis em seu conto A Igreja do Diabo. Na história, Satanás funda a sua própria religião na qual os fiéis são livres para praticar todas as abominações imagináveis. Com isso, o tinhoso acredita que destruirá para sempre a religião do verdadeiro Deus, substituindo as santas virtudes pelos vícios deploráveis, prometendo “aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos”. Ele confessa que é o diabo, mas “para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas”.

A princípio, ele tem certo sucesso. Todavia, após alguns anos, o Diabo nota “que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes”. E essa descoberta o assombra profundamente, ao ponto que ele decide ir tirar satisfações com Deus:

Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:

 — Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Na mosca. O que os inimigos da Cruz não entendem é que, não importa quanto bem-estar haja numa sociedade, os homens sempre terão o coração inquieto em busca do verdadeiro Deus. Por isso, mesmo que seja oferecido a eles qualquer arremedo de religião, qualquer espiritualidade que vise dar alguma sensação de transcendência, eles sempre sentirão o apelo da graça os convidando para a grei do Senhor. Desse modo, enquanto as falsas religiões vão definhando dia após dia, a única Igreja de Cristo permanece intacta ao longo dos séculos, contra todas as hostes infernais. Assim foi com a apostasia de Juliano, com o anglicanismo de Henrique VIII e assim será também com esta nova religião, que querem nos empurrar goela abaixo.

Como saiu do ar o Planeta Xuxa, sem deixar saudades, esta Igreja do Diabo sairá de cena com suas paquitas, enquanto nas catacumbas os fiéis vão praticando, às escondidas, o antigo culto e as antigas virtudes, para delírio de quem pede para “liberar geral”, quando o que o povo quer mesmo é a santa clausura de um lugar piedoso para rezar e adorar ao Bom Deus. Depois disso, que vamos dizer? Se Deus é por nós, quem será contra nós?

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20 setembro, 2021

Traditionis custodes: os últimos cartuchos concilares?

Por Padre Claude Barthe | Tradução: Hélio Dias Vianna – FratresInUnum.com, 20 de setembro de 2021 – A não aceitação do Concílio Vaticano II centrou-se de forma concreta na recusa da reforma litúrgica, embora alguns frequentadores da antiga Missa afirmem sua adesão a intuições conciliares “bem interpretadas”. Em todo caso, a existência da liturgia tradicional é um fenômeno persistente e até mesmo crescente de não aceitação. Marginal? O papa Bergoglio, que deseja ser o papa da plena realização do Vaticano II, chegou a se convencer de que o fenômeno é tão importante que é necessário agir para erradicá-lo. Com isso, o que talvez seja marginal certamente se tornou central: a Missa Tridentina foi apontada como o mal a ser derrubado e os seminários treinando padres para celebrá-la, como cânceres a serem eliminados. E isso com precedência a tudo.

Um retorno à violência original da reforma litúrgica

A liturgia tradicional é, porém, novamente proscrita, como sob Paulo VI. A Carta que acompanha Traditionis Custodes explica sem ambiguidades o objetivo último do texto pontifício: garantir “que voltemos a uma forma de celebração unitária”, a nova liturgia. A decisão é brutal e peremptória: o Papa decide tanto o fim da Missa tradicional quanto do mundo tradicional, ao qual acusa — e somente a ele! de minar a unidade da Igreja.

O Vaticano II, cujo grande projeto uma abertura ao mundo moderno em sua modernidade para que a Igreja seja mais escutada pelos homens desta época — é uma espécie de ponto intermediário entre a ortodoxia tradicional e a heterodoxia (neste caso, um relativismo neomodernista). A adoção de algumas proposições ambíguas permite, por exemplo, afirmar que um cristão separado pode, enquanto tal, como separado, estar em certa comunhão com a Igreja: segundo a Unitatis redintegratio, Lutero, que pensava ter rompido com a Igreja do Papa, na realidade teria permanecido um católico “imperfeito” (UR 3).

O Papa Francisco, desde a sua eleição, avançou tanto quanto possível sobre esta linha vermelha: ele transmuta a colegialidade em sinodalidade, vai além de Nostra ætate e do Dia de Assis com a declaração de Abu Dhabi, mas tem o cuidado de não ultrapassar o limiar além do qual cairíamos ou cairíamos mais rapidamente nesse niilismo para onde já se inclinam as mais ousadas teologias progressistas. Como Paulo VI, ele permanece fiel ao celibato eclesiástico e ao sacerdócio masculino, mas contornando a disciplina tradicional por meio dos ministérios leigos que o Papa Montini havia aberto (instituição de ministros que exercem funções clericais sem serem clérigos, para chegar provavelmente ao ministério de diaconisas ou mesmo de presidente informal de uma Eucaristia), e confiando aos leigos, homens e mulheres, responsabilidades quase jurisdicionais (posições cada vez mais elevadas nos dicastérios romanos).

Em outras palavras, Francisco conserva o suficiente da instituição, mas continua a esvaziá-la de sua substância doutrinária. De acordo com sua expressão, ele derruba os muros:

  • A Humanæ vitæ e um conjunto de textos posteriores a esta encíclica preservaram a moral matrimonial da liberalização à qual o Concílio havia submetido a eclesiologia. A Amoris lætitia derrubou esse dique: quem vive em adultério público pode permanecer nele sem cometer pecado grave (AL 301).
  • [O motu proprio] Summorum Pontificum havia reconhecido um direito a este museu da Igreja de antes que é a antiga liturgia, com a catequese e os ofícios clericais relacionados com ela. A Traditionis custodes afastou essa tentativa de “retorno”: os novos livros litúrgicos são a única expressão da lex orandi do rito romano (TC, art. 1).

O fato é que o Papa e seus conselheiros correram grandes riscos ao adotarem essas disposições tão violentas quanto apressadas. Comentaristas perplexos falam da ignorância do papa latino-americano sobre o terreno eclesial ocidental; sublinham o descarte contundente da grande obra de Bento XVI; apontam o dedo para as contradições de um governo caótico, que esmaga o tradicionalismo “de dentro” ao mesmo tempo em que concede faculdades equivalentes a um semi-reconhecimento ao tradicionalismo “de fora”, ou seja, aos lefebvristas; finalmente, ficam surpresos ao ver que enquanto o fogo do cisma crepita na Alemanha e a heresia silenciosa se difunde em todos os lugares, uma prática litúrgica totalmente inocente seja tachada de cisma ou heresia.

Mas podemos supor que o Papa e sua comitiva tenham apenas um encolher de ombros diante dessas críticas. Para eles, a justificativa para o ataque repressivo é crucial: a Missa Tridentina cristaliza a existência de uma Igreja dentro da Igreja, já que representa uma lex orandi “anteconciliar” e, portanto, “anticonciliar”. Segundo eles, pode-se transigir com os excessos da Igreja alemã que, na pior das hipóteses, são demasiadamente conciliares, mas não se pode tolerar a velha liturgia que é anticonciliar.

O Vaticano II e tudo o que dele provém não pode ser discutido! De maneira muito característica, a Carta que acompanha Traditionis custodes infalibiliza o Concílio: se a reforma litúrgica provém do Vaticano II e este foi um “exercício solene de poder colegial”, duvidar que o Concílio se insere no dinamismo da Tradição é “duvidar do próprio Espírito Santo que guia a Igreja”.

Uma repressão que chega tarde demais

Só que estamos em 2021,  não em 1969, durante a promulgação arejada e alegre do novo missal, nem em 1985, época do livro Relatório Ratzinger e da Assembleia Sinodal, que fez um balanço já preocupado dos frutos do Vaticano II, nem mesmo em 2005, onde o surgimento da expressão “hermenêutica da reforma em continuidade” se assemelhava fortemente a uma laboriosa tentativa de recomposição de uma realidade que cada vez mais escapava. Hoje é tarde demais.

A instituição eclesial está como que letárgica, a missão extinta e, pelo menos no Ocidente, a visibilidade em número de sacerdotes e fiéis evanescida. Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, todo o contrário de um conservador, em seu último livro La Chiesa brucia. Crisis e futuro del cristianesimo (A Igreja em chamas. Crise e o futuro do cristianismo) [1], considera o incêndio de Notre-Dame de Paris como uma parábola da situação do catolicismo e analisa seu colapso na Europa, país por país. Seu discurso é o característico dos bergoglianos desapontados, que se tornam torcedores desapontados do Concílio.

Não surpreende que autores muito mais desligados do que ele do aparato eclesiástico deem gritos de alarme e não hesitem em dizer de onde vem o mal. Como Jean-Marie Rouart, membro da Academia Francesa, em Este país de homens sem Deus [2], para quem a batalha da sociedade ocidental perante o Islã está perdida de antemão, quando apenas um “sobressalto cristão” poderia nos salvar, ou seja, um retrocesso radical: a Igreja escreve ele “deve proceder ao equivalente a uma Contra-Reforma, retornar a esta reforma cristã que lhe permitiu no século XVII enfrentar vitoriosamente um protestantismo que a questionou” [3]. Ou Patrick Buisson em O fim de um mundo[4], que dedica duas partes de seu grande livro à situação do catolicismo: “O crash da fé” e “O sagrado massacrado”. “De uma forma desconcertante e brutal”, escreve ele, “o rito tridentino, que foi o rito oficial da Igreja latina durante quatro séculos, foi, da noite para o dia, considerado indesejável, sua celebração proscrita e seus fiéis expulsos. [5]”. Saímos do catolicismo para ir “para a religião conciliar”.

Além disso, em 2021 o equilíbrio de forças é muito diferente daquele dos anos 1970 entre aqueles que “fizeram o Concílio” e aqueles que sofreram suas consequências. Andrea Riccardi, como todos os demais, faz esta observação realista: “O tradicionalismo é uma realidade de certa importância na Igreja, tanto na organização como nos recursos”. O mundo tradicional pode ser minoritário (na França, de 8 a 10% dos praticantes), mas está crescendo em todos os lugares, especialmente nos Estados Unidos. É jovem, fecundo de vocações — pelo menos em comparação à fecundidade das paróquias —, capaz de assegurar a transmissão catequética e é atraente para o jovem clero e para os seminaristas diocesanos.

Aliás, foi isso que o Papa Bergoglio, vindo da Argentina, demorou a compreender, até que os bispos italianos e os prelados da Cúria puseram diante de seus olhos o aumento, para eles insuportável, do mundo tradicional, tanto mais visível quanto ocorre no meio de um colapso geral. Era necessário, portanto, aplicar os “remédios” apropriados, os mesmos que foram administrados no florescente seminário de San Rafael, na Argentina, na Congregação dos Franciscanos da Imaculada, da diocese de Albenga, na Itália, na diocese de San Luís na Argentina etc..

Para uma saída “à frente” da crise

Porém, a Igreja conciliar não sai revitalizada e sua obra missionária continua a definhar. Uma bateria de documentos tratou da missão: Ad Gentes, o decreto conciliar de 1965; a exortação Evangelii nuntiandi, de 1975; a encíclica Redemptoris missio, de 1990; o documento Diálogo e Anúncio, de 1991; as exortações apostólicas que repetem incansavelmente o tema da nova evangelização, Ecclesia in Africa, de 1995, Ecclesia in America, de 1999, Ecclesia in Asia, de 1999, Ecclesia in Oceania, de 2001, Ecclesia in Europa, de 2003. Criou-se um Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização. Os colóquios se multiplicaram, falando da missão que deve articular-se no diálogo; da evangelização que não deve ser proselitismo etc. Nunca se falou tanto em missão, nunca houve tão poucas conversões.

François Mitterrand disse, sobre a redução do desemprego, “tentamos de tudo”. Da mesma forma, para salvar a Igreja depois do Vaticano II, a tentativa representada pela eleição do Papa Bergoglio a de maximizar o Concílio , fracassou; como finalmente fracassada deve-se admitir a tentativa representada pela eleição do Papa Ratzinger, a de uma moderação do Concílio. Então, um passo para trás? Sim, mas como uma saída “para frente”.

São numerosos, incluindo os apoiadores de ontem do Papa Bergoglio, os que consideram a repressão brutal do mundo tradicional indefensável, já que motivada, em última análise, pela única razão de que é muito vivo. Podemos imaginar que a Traditionis custodes seja colocada entre parênteses em um pontificado vindouro? Certamente, e cremos que mais ainda: pode-se imaginar que seja dada liberdade ao que se convencionou chamar de “forças vivas” na Igreja. Quanto a essa força essencial dos fiéis atraídos pela liturgia de sempre visto que ela representa a tradição secular , pode-se razoavelmente imaginar a negociação de um compromisso que seria mais favorável à Igreja do que foi o Summorum Pontificum. Devemos almejar a suspensão de toda supervisão, em outras palavras, uma liberdade franca para a velha liturgia e para tudo o que vem com ela. E isso, em nome do bom senso. Da mesma forma que certo número de bispos no mundo permitiu que todas essas “forças vivas” se desenvolvessem em suas dioceses, com comunidades, fundações e obras que dão frutos missionários, também em nível da Igreja universal deverá chegar o tempo de se conceder liberdade para tudo aquilo “que funciona”.

O Summorum Pontificum pode ser analisado como uma tentativa de coexistência entre os católicos que não aceitam a liturgia do Vaticano II e aqueles que promovem uma aplicação moderada do Concílio. Uma nova tentativa poderia ser estabelecida com uma corrente conciliar aparentemente mais “liberal” do que a de Bento XVI, mas que agora se dá conta do fracasso irreparável da utopia abraçada há cinquenta anos.

 [1] Tempi nuovi, 2021.

[2] Livros, 2021.

[3] Op. Cit, p. 64

[4] Albin Michel, 2021.

[5] Op. Cit., “La trivialiation du sacré”, p. 124

11 setembro, 2021

O desabafo de um padre diocesano.

FratresInUnum.com, 11 de setembro de 2021 – É muito ruim sentir “pena” de alguém, é o que costumam dizer… Afirmam estes que pena é um sentimento indigno de se sentir por alguém, que coloca esse alguém numa posição humilhante, quase que indigna de um ser humano…

Porém, não encontro um sentimento mais adequado para os sacerdotes seculares, particularmente os diocesanos.

Mesmo sem fiéis, os padres não só podem como devem rezar a Missa

Muita gente olha para o padre com compaixão: muitas vezes vive realmente na pobreza, não possui esposa, nem filhos etc. Mas tudo isso foi amplamente considerado por ele desde que percebeu os vislumbres da vocação. De tal modo, que as privações da vida sacerdotal não o assustam, como não deve assustar a um cirurgião ver sangue.

Mas, particularmente nos últimos anos, a situação dos padres diocesanos tem piorado e causado grandes dores a esses homens que nem em seus piores pesadelos podiam imaginar que passariam pelo que têm passado. Dentre várias situações, vou descrever algumas:

a) Papalatria: os padres diocesanos estão sendo postos numa posição em que precisam escolher entre a Igreja ou o Papa. Entre toda a doutrina e moral que o Senhor confiou à sua Igreja ou à febre demolidora de Francisco. A tal ponto que Francisco, conscientemente assumiu a postura de um outro Cristo capaz de dizer: “Ouvistes o que foi dito, eu porém vos digo”. Somente Deus poderia dizer tal coisa, ou um blasfemo que se sente deus. O padre diocesano que desposou a Igreja não reconhece mais o rosto da sua esposa e, por isso, é levado a crer que ela foi sequestrada e outra mulher, horrível, foi posta em seu lugar.

b) Episcopocracia: outro manancial de feridas e dores para os padres diocesanos é o autoritarismo dos bispos. Numa igreja sem fé e sem moral, quem governa são os homens e não Deus, portanto, não há mais mandamento nem dogma, há apenas a necessidade de agradar que se manifesta em cansativas expressões como “estar em comunhão”. Um padre hoje está (de um ponto de vista apenas imediato e material) completamente nas mãos do Bispo. Quando se tem um Bispo que pelo menos deixe que se seja católico, as coisas vão com certa tranquilidade; mas quando não, a vida do padre será tal que para continuar católico, aparentemente, terá que ser cismático.

c) Covardia fraterna: É claro que seus colegas (irmãos seria uma palavra forçosa demais e, na maior parte dos casos, uma mentira) não estão alheios a essa crise, e a combatem virilmente sussurrando nos corredores do retiro do clero… Mas são covardes, e num afundar de um navio os primeiros que fogem são os ratos. Esses padres não têm a vergonha de oscilar entre fé e heresia, entre a moral de situação e a moral católica, entre a batina e camisa polo. A meta de sua existência é agradar ao bispo, e esquecem que sendo o bispo um homem convém temer não a ele, mas Àqu’Ele que tem poder de tirar essa vida e de jogar a alma no inferno. Querem cargos, poder, prestígio, não para depô-los aos pés de Cristo Rei, mas para tomarem o lugar daqu’Ele a quem deveriam servir.

d) Democracia sinodal: Até alguns anos atrás não chocava aos ouvidos de ninguém ouvir que a Igreja não é democrática, mas hierárquica. Porém, quando muitos dos sucessores dos Apóstolos escolheram suceder unicamente a Judas, seguindo um modelo comunista, os Bispos criaram “conexões diretas” com certos membros do laicato que, num evidente clericalismo, muitas vezes tendo em vistas coordenações, prestígio e poder, poderiam movimentar boa parte do povo de uma paróquia no caminho que o Bispo desejasse, ficando o padre diocesano entre o mar e as pedras… Essas conexões diretas dos Bispos não são nada mais que informantes, que futriqueiras, levam-e-traz que são os responsáveis por dizer: “O Bispo não gosta do nosso pároco”; “O nosso pároco não segue as normas do plano pastoral”; “Sabiam que nessa semana nosso padre foi chamado na mitra?”.

É claro que nem todo o povo de uma paróquia está de acordo com o que é determinado pela hierarquia. Esses fiéis, verdadeiramente católicos não se opõem por causa de um gosto pessoal, mas quando as determinações ferem diretamente a doutrina, moral ou liturgia da Santa Igreja. Mas esses, mesmo imensa maioria, não contam. São negacio-nazi-fasci-terraplani- tradi-hiper-ultra-conserva-intole-homeschol-lefebri-tridenti-monforti-cedebistas.

e) Fantasma dos abusos: nunca serão suficientemente lamentados os abusos sexuais feitos por aqueles que deveriam inculcar o amor à castidade e à pureza. Mas hoje a palavra abuso, e isso é proposital, pode referir-se tanto a um estupro como a uma chamada de atenção (mesmo que serena e caridosa) que o padre deu à mulher que colocou os paninhos verdes, quando a cor litúrgica seria vermelha. E isso é feito para que simplesmente se possa qualificar aquele padre como “abusador” que, num inconsciente coletivo, será completado pela palavra “sexual”. Hoje se fala em tantas formas de abuso, que não se pode mais corrigir uma pessoa, chamar a atenção ou até mesmo fazer as perguntas necessárias para a validade de uma confissão.

E, retornando aos terríveis abusos sexuais, falta, mesmo na Lei Civil, determinar melhor não apenas as variações que podem ocorrer nesse crime, como o modo de conduzir o processo de forma que haja uma necessidade de provas materiais distintas dos depoimentos das supostas vítimas, o que, convenhamos, pode ser fonte de vários processos injustos e viciosos.

Dentro ainda dessa linha, é minimamente curioso que muitas vezes sejam exatamente sobre padres considerados tradicionais ou conservadores que se levantem esse tipo de acusação, sem (e não por falta de buscas) nenhuma outra prova que um ou outro relato contraditório.

Na lei do papa da misericórdia e da ternura, o simples fato que alguém diga que “acha que soube que viu num dia que não se lembra direito que” um padre cometeu um abuso já é motivo para suspender o padre e, se o bispo não o fizer, o bispo.

Ok. O que acontece com esse padre?

Ele não tem a estrutura de uma congregação religiosa ou convento para o abrigar. Voltará para casa da mãe, para viver de esmolas e tentar não se matar.

f) A impossibilidade de ignorar a hierarquia: durante décadas muitos padres optaram por fazer de conta que não viam os erros e viver uma vida ensinando o catecismo verdadeiro para as pessoas, celebrando piedosamente, vivendo “em comunhão”, mas sem “exageros”. Hoje isso é impossível. A quantidade de reuniões, assembleias, votações, declarações papais, motu proprios seguidos por orientações diocesanas, parecem ser um cabo de vassoura enfiado na toca de um animal que só queria permanecer quietinho e morrer em paz. É impossível a um padre hoje ficar isento. Ou rompe e permanece católico de verdade, ou permanece católico de mentira porque na verdade apostatou da fé. Achou complicada a frase anterior? É isso mesmo. Tão complicada como a situação atual.

g) Desconfiança tradicionalista: Alguém de fora poderia pensar que esses padres diocesanos encontrariam apoio nos fiéis ditos “tradicionalistas”, mas não é bem assim. Também ali, muitas vezes, esses padres encontram a frieza e a desconfiança. Muitos desses fiéis, levados por outros padres também “tradicionalistas”, questionam a validade dos sacramentos desse padre (até mesmo sua ordenação, em alguns casos); ficam atentos a um ou outro erro que possa cometer ao celebrar num rito que ama sem nunca ter visto; temem seus conselhos, uma vez que foi formado “no modernismo”; e, se dele se aproximam, é por não terem outra opção, mas sempre com desconfiança.

Enfim, essas são breves reflexões que escrevi num só fôlego, na esperança de que suscitem realmente pena, mas uma pena que leve à oração e, se possível, a alguma forma de apoio.

Pe. Mariano – 10.IX.2021

8 setembro, 2021

O verdadeiro grito dos excluídos.

Por FratresInUnum.com, 8 de setembro de 2021 — “A democracia é o consenso das cúpulas a ser acatado bovinamente pelo povo”. É esta a ideia que povoa a mente dos donos do poder. Eles não se conformam com o fato de que o povo queira se autodeterminar e, por isso, tentam suprimir inteiramente a existência política da população.

Nossa Senhora Aparecida, Rainha do Brasil

Como é possível que cadeias de televisão divulguem imagens de manifestações multitudinárias e coloquem, como legenda, que as mesmas são antidemocráticas? Se a democracia é, por definição, o governo do povo, o “lapso” só se justificaria pela existência de outra noção subjacente, por uma compreensão que delete a existência do povo e a substitua pelo mero consenso institucional de uma elite coesa. É disso que se trata!

Hoje, o poder da mídia foi definitivamente desmoralizado pelo povo. Ninguém mais acredita em nenhum desses desinformadores, que demonstraram ser apenas um órgão de informação do establishment para si mesmo. O presidente vem ao público pedir que os ministros do STF respeitem a constituição da qual são nomeados guardiães e é acusado de desrespeitar essa mesma constituição que ele está defendendo. Como é possível levar a sério este tipo de acusação?

A esquerda está acuada, já perdeu toda a credibilidade que lhe outorgava a mídia. Eles não têm mais nada, o povo desmantelou a farsa de democracia que eles insistiam em encenar. Agora, está mais fácil do que nunca perceber qual é a vontade verdadeiramente democrática!

Ontem, 7 de setembro de 2021, o Brasil testemunhou o verdadeiro “grito dos excluídos”. Não, não é este convocado pela CNBB, que pretende dar voz à revolução comunista. A iniciativa, como todos os anos, é fútil, é falida, é fracassada e é péssima. Este ano, chegou-se a incluir entre os contemplados “travestis, transexuais e religiões indígenas”.

O verdadeiro excluído, o banido, o relegado à inexistência é o povo brasileiro, a nossa brava gente, batalhadora, sofrida, cristã, raiz, conservadora. Eles são aqueles que sofrem preconceito, que são chamados de ignorantes, que são xingados de “gado” e, isso, por aqueles que vivem às suas custas e por muitos que deveriam pastoreá-los amorosamente.

A CNBB, como sempre, prefere ficar ao lado das cúpulas, da oficialidade chique e da classe intelectualizada das universidades esquerdistas. Essa instituição nunca esteve ao lado dos pobres nem da verdadeira luta pela libertação, sempre serviu-se do povo para emplacar o seu próprio projeto de uma “cristandade socialista”, algo como um círculo quadrado, em que seus prelados exerceriam o seu tão sonhado papel político.

Desdenhado por seus pastores, esnobado por aqueles que deveriam dar a vida para defendê-lo, o povo não tem para onde correr senão para os braços dos pastores pentecostais, cuja convocação para as manifestações de ontem foi imensamente bem-sucedida — o balde de água fria de Dom Walmor só foi notado pelos seus pares e não teve efeito algum, a não ser virar meme em grupos de WhatsApp.

A interface religiosa do evento de ontem mostra que a Igreja no Brasil fez a escolha de posicionar-se contra o seu povo e a favor dos seus opressores, o que redundará em grande deserção por parte dos fieis e na suicida atitude de atirar-se ela mesma no abismo da irrelevância. O povo não apenas desautorizou a mídia e as instituições da república a fingirem democracia, mas também mostrou que não é ingênuo quando o assunto é mexer com a sua fé em Jesus Cristo, mesmo quando isso supõe jogar no ostracismo os representantes da sua religião. “Deus, pátria e família” infelizmente não incluem mais a hierarquia católica, que preferiu dedicar-se a “ecologia, feminismo e revolução”.

Se o amor à verdade não os movesse à conversão, ao menos o medo de perder fiéis deveria movê-los, não fosse o seu fanatismo político a cegá-los de modo tão radical e obstinado. Nos próximos dias, certamente a CNBB lançará alguma nota manifestando de maneira ainda mais clara o seu distanciamento das ações mais incisivas solicitadas pelo povo ao presidente da república; e, mais uma vez, ninguém se importará: eles já se consagraram na posição do mais absoluto descrédito!

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6 setembro, 2021

A obrigação de ser esquerdista.

Por FratresInUnum.com, 6 de setembro de 2021 — O ódio do clero esquerdista contra os católicos conservadores já ultrapassou o limite do escândalo e tornou-se perseguição fanática. O monopólio do microfone é o meio pelo qual bispos e padres petistas destilam toda a sua intolerância sobre o povo em pleno altar. Hoje é quase insuportável ir a certas igrejas ou escutar determinados sermões: o clássico isentismo clerical deu lugar à mais escancarada propaganda política.

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Pelas redes sociais, leigos são atacados por padres que, em seu descontrole, perdem completamente a compostura e passam à explícita hostilização, ao ódio declarado.

Fenômenos de histeria podem ser facilmente observados através das reações de pânico que certos eclesiásticos demonstram em relação à pessoa do presidente da república. O respeito que tanto se pedia a quem “democraticamente eleito” foi sepultado nos tempos de Dilma Rousseff. Os únicos poderes que merecem proteção são o legislativo e o judicionário – ao executivo, a agressão é livre. Implicância infantil e raivosa, publicamente declarada, muitas vezes gratuita, reproduzindo falsificações da mídia e de toda a esquerda pirracenta.

Quem não sabe que os esquerdistas não admitem que ninguém esteja no poder, exceto eles? Os gritos de “fora Temer” antecederam muito ao “ele não”. Trata-se de birra pura e simples, mas que se tornou totalmente descontrolada, acelerada pelo ódio e também pelo medo.

O católico que defende os valores cristãos não se sente representado justamente por aqueles que se opõem a esses valores de maneira explícita. Como é possível concordar com políticos que defendem agendas incompatíveis com o catolicismo? Bolsonaro está longe de ser um presidente perfeito, mas é inegável que, dos que aí estão, desagrada e muito o establishment. O clero progressista finge que os partidos de esquerda são cristãos e os defende como se fossem arautos de uma nova cristandade.

Enquanto isso, os católicos permanecem desorientados e envergonhados. Padres e bispos de boa orientação permanecem inibidos, ao passo que os seus colegas comunistas difundem a ideologia do partidão a peito aberto, sem nenhum escrúpulo ou vergonha.

Massacrados, aturdidos, vexados, os católicos não se sentem representados pela sua própria religião e são recebidos de braços abertos por pastores pentecostais, com os quais compartilham a mesma cosmovisão. É preciso ser adivinho para perceber onde tudo isso vai terminar?

A Igreja de partido único, que adotou como único dogma a infalibilidade esquerdista, está perdendo completamente a sua credibilidade e, pela sua inflexibilidade, também está perdendo os fiéis.

Virou obrigatório ser esquerdista na Igreja Católica do Brasil. Não se admite a mínima variação à direita. E, na dúvida, os pastores não duvidam em sacrificar os fiéis. Todos são obrigados a engolir esquerdismo por todos os lados e professar os valores de esquerda de maneira explícita para ter aceitação e uma vida pacífica. O simples silêncio não basta, muito menos se tolera a militância oposta. É preciso pregar à esquerda, militar à esquerda, defender as bandeiras à esquerda para não ser cancelado por padres e bispos.

Obviamente, o cancelamento não se dá de maneira tão ideologicamente direta. Para justificá-lo, é preciso antes identificar mentirosamente o direitismo com o extremismo, com o nazismo, com o fascismo, com o supremacismo, com o racismo etc., para, então, tornar óbvio que é necessário fazer uma lavagem cerebral em quem pense diferente deles, ainda que os verdadeiros autoritários e ditadores estejam do lado que eles mesmos defendem.

O delírio dessas mentes chega a ser espetaculoso. Como podem inverter de tal modo a percepção da realidade? De certo modo, os bons e perseverantes fiéis compreendem que estes senhores são vítimas de algum tipo de psicopatologia e que não conseguem perceber as coisas de maneira diferente, que sofrem muito por causa dos monstros que eles mesmos concebem em sua imaginação celerada e que suas reações de ódio são profundamente agravadas pelo estímulo que atualmente recebem de autoridades na Igreja que pensam como eles e legitimam e até respaldam a sua reação histérica.

Contudo, é doloroso demais vermos um espetáculo tão desolador. O povo brasileiro entende muito bem o que está acontecendo, quem são os verdadeiros autoritários, onde está havendo abuso de poder e demanda uma reação pontual contra tais atrocidades. Enquanto isso, os seus pastores celerados se colocam ao lado dessa elite maligna e se posicionam justamente contra o povo e os pobres, fazendo com que eles tenham de apanhar dos dois lados.

Como foi possível chegarmos a este ponto? Foram décadas de doutrinação marxista nos seminários e congregações religiosas, décadas de lavagem cerebral no clero. Como prospectava Gramsci, a revolução cultural conseguiu transformar o marxismo num poder onipresente, que condiciona todo o modo de pensar. Mesmo que o PT esteja publicamente destruído e o Lula não consiga mais sequer andar com tranquilidade no nordeste, o petismo igrejeiro continua em pé, pois é fruto do fanatismo religioso e da manipulação emocional e psicológica.

Quando teremos o dia de independência da Igreja Católica no Brasil? Não sabemos. Mas, até lá, precisamos continuar firmes, pois o mal está intimamente instalado nas mentes dos nossos líderes e teremos de ser fortes para suportarmos o fardo de sermos odiados, como dizia Nosso Senhor, pelos nossos próprios pais.

2 setembro, 2021

Comunicado dos Superiores-gerais das Comunidades “Ecclesia Dei” sobre o motu proprio Traditionis Custodes.

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: FratresInUnum.com – 2 de setembro de 2021

“A misericória do Senhor se estende a toda carne”

(Eclesiástico 18, 13)

Os Institutos signatários querem, acima de tudo, reiterar seu amor pela Igreja e sua fidelidade ao Sant Padre. Este amor filial hoje está tingido de grande sofrimento. Sentimo-nos sob suspeita, margilizados, banidos. Todavia, não nos reconhecemos na descrição feita na carta que acompanha o Motu Proprio Traditionis Custodes, de 16 de julho de 2021.

Se dizemos que não temos pecado… ” (I João, 1, 8)

Não nos vemos, de forma alguma, como a “verdadeira Igreja”. Pelo contrário, vemos na Igreja Católica nossa Mãe, em quem encontramos a salvação e a fé. Estamos lealmente submetidos à jurisdição do Sumo Pontífice e dos bispos diocesanos, como demonstrado pelas boas relações nas dioceses (e as funções de conselheiros presbiterais, arquivistas, chanceleres e oficiais que foram encarregadas a nossos membros) e o resultado das visitações canônicas ou apostólicas dos últimos nos. Nós reafirmamos nossa adesão ao magistério (incluindo o do Vaticano II e o que o segue) segundo a doutrina da Igreja relativa ao assentimento que lhe é devido (cf. em particular Lumen Gentium, n ° 25,  e Catecismo da Igreja Católica n ° 891 e 892), como evidenciado pelos numerosos estudos e teses doutorais elaboradas por diversos de nós nos últimos 33 anos.

Algum erro foi cometido? Estamos prontos, como todo cristão, para pedir perdão se algum excesso de linguagem ou desconfiança da autoridade possam ter se introduzido em um ou outro membro. Estamos prontos a nos converter se  o espírito de partidarismo ou orgulho tenha manchado nossos corações

“Cumpre teus votos para com o Senhor” (Salmos 49, 14)

Pedimos por um diálogo humano, pessoal e de confiança, longe de ideologias ou da frieza de decretos administrativos. Gostaríamos de poder encontrar alguém que será para nós o rosto materno da Igreja. Gostaríamos de poder dizer-lhe sobre nosso sofrimento, as angústias, a tristeza de muitos fiéis leigos por todo o mundo, mas também dos padres, religiosos e religiosas que entregaram suas vidas confiando nas palavras dos papas João Paulo II e Bento XVI. 

A eles foi prometido que “todas as medidas seriam tomadas para garantir a identidade de seus Institutos na plena comunhão da Igreja Católica” [1]. Os primeiros Institutos aceitaram com gratidão o reconhecimento canônico oferecido pela Santa Sé, em pleno vínculo com a tradicional pedagogia da fé, particularmente no campo litúrgico (baseado no Memorando de Entendimento de 5 de maio de 1988, firmado pelo Cardeal Ratzinger e Dom Lefebvre). Este compromisso solene foi expresso no Motu Proprio Ecclesia Dei, de 2 de julho de 1988; a seguir, de maneira diversa para cada Instituto, no decreto de ereção e em suas constituições aprovadas em definitivo. Os religiosos, religiosa e padres pertencentes a nossos Institutos fizeram seus votos ou compromissos segundo essas especificidades. 

É desta forma que, confiando na palavra do Sumo Pontífice, eles deram suas vidas a Cristo para servir a Igreja. Esses padres e religiosos e religiosas serviram a Igreja com dedicação e abnegação. Podemos privá-los do que a Igreja lhes prometeu pela bocas dos Papas?

Tende paciência comigo!” (Mt 18. 29)

O Papa Francisco “encoraja os pastores da Igreja a ouvi-los com sensibilidade e serenidade, com sincero desejo de compreender suas aflições e pontos de vista, a fim de ajudá-los a viver melhor e reconhecer seu lugar próprio na Igreja”. (Amoris Laetitia, 312). Ansiamos poder confiar as angústias que vivemos a um coração de pai. Precisamos ser ouvidos com boa vontade, não condenações anteriores ao diálogo.

O juízo rude cria um sentimento de injustiça e produz ressentimento. A paciência abranda os corações. Precisamos de tempo.

Hoje ouvimos falar de visitações apostólicas disciplinares a nossos Institutos. Pedimos por encontros fraternos, onde podemos explicar quem somos e as razões de nossa ligação a certas formas litúrgicas. Acima de tudo, queremos um diálogo verdadeiramente humano e misericordioso: “Tende paciência comigo!”.

Circumdata varietate” (Salmos 44:10)

Em 13 de agosto, o Santo Padre afirmou que em matérias litúrgicas “a unidade não é uniformidade, mas harmonia multifacetada criada pelo Espírito Santo” [2]. Aspiramos dar nossa modesta contribuição a essa unidade harmoniosa e diversa, cientes que, como ensina a Sacrosanctum Concilium, “a liturgia é o cume para o qual a atividade da Igreja está dirigida; ao mesmo tempo, é a fonte da qual emana seu poder”. (SC, n ° 10).

Com confiança, voltamo-nos primeiramente aos bispos da França para que seja aberto um diálogo e que um mediador seja indicado, sendo para nós a face humana deste diálogo. Nós devemos “evitar juízos que não levam em conta a complexidade de várias situações… Trata-se de alcançar a todos, de precisar ajudar a cada pessoa encontrar a sua própria forma de participar na comunidade eclesial e, asim, experimentar seu tocado pela “imerecida, incondicional e gratuita misericórdia” (Amoris Laetitia, n ° 296-297).

Dado em Courtalain, França, 31 de agosto de 2021

Pe. Andrzej Komorowski, Superior-Geral da Fraternidade São Pedro.  

Mons. Gilles Wach, Prior Geral do Instituto de Cristo Rei e Sumo Sacerdote

Pe. Luis Gabriel Barrero Zabaleta, Superior Geral do Instituto do Bom Pastor

Pe. Louis-Marie de Blignières, Superior Geral da Fraternidade São Vicente Ferrer

Pe.. Gerald Goesche, Reitor Geral do Instituto de São Felipe Nery

Pe. Antonius Maria Mamsery, Superior Geral dos Missionários da Santa Cruz

Dom Louis-Marie de Geyer d’Orth, Padre Abade da Abadia de Santa Madalena do Barroux

Fr.  Emmanuel-Marie Le Fébure du Bus,  Padre Abade dos Cônegos da Abadia de Lagrasse

Dom Marc Guillot, Padre Abade da Abadia de Santa Maria de la Garde

Madre Placide Devillers, Abadessa da Abadia de Nossa Senhora da Anunciação do Barroux

Madre Faustine Bouchard, Priora das Canonisas de Azille 

Madre Madeleine-Marie, Superiora das Adoradoras do Coração Real de Jesus  Sumo Sacerdote 

30 agosto, 2021

Ebook – Contradictionis Custodes.

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27 agosto, 2021

Restrições à missa tradicional são retrocesso, diz arcebispo argentino.

LA PLATA, 25 ago. 21 / 04:15 pm (ACI).- O arcebispo emérito de La Plata, na Argentina, dom Héctor Aguer, disse que as restrições à missa tradicional estabelecida pelo motu proprio Traditionis custodes do papa Francisco não são um avanço, mas um “lamentável retrocesso”.

aguer“O atual pontífice declara que deseja avançar ainda mais na constante busca da comunhão eclesial (prólogo da Traditionis custodes) e para tornar efetivo esse propósito elimina a obra dos seus predecessores, colocando limites arbitrários e obstáculos àquilo que eles estabeleceram com intenção ecumênica intra-eclesial e respeito pela liberdade de sacerdotes e fiéis! Promove a comunhão eclesial ao contrário. As novas medidas implicam um lamentável retrocesso”, escreveu o prelado em um artigo enviado à ACI Prensa, agência em espanhol do grupo ACI, em 23 de agosto.

Dom Héctor afirmou que, com o novo texto pontifício, a decisão de autorizar ou não o uso do missal de 1962 “fica nas mãos dos bispos diocesanos” e, nesse sentido, “começa tudo de novo”.

“Tememos que os bispos sejam avaros na concessão das licenças. Muitos bispos não são Traditionis custodes, mas traditionis ignari (ignorantes), obliviosi (esquecidos), e pior ainda traditionis evertores, destructores”, continuou.

Dom Héctor questionou se, “para aqueles que já se serviam da forma extraordinária do rito romano”, ou seja, que usavam o missal de 1962, “não bastava a vigilância ordinária dos bispos e a eventual correção dos infratores? Era preciso ser caridoso e paciente com os rebeldes”.

Para o arcebispo emérito, “a limitação de lugares e dias para celebrar segundo o missal de 1962 (Art. 3, §2 e §3) são restrições injustas e antipáticas”. Além disso, “o artigo 3º, nº 6, é uma restrição injusta e dolorosa, porque impede que outros grupos de fiéis possam gozar da participação da missa celebrada segundo o missal de 1962”.

Entre as disposições do documento pontifício publicado em 16 de julho, o papa estabelece que o bispo é quem pode autorizar os sacerdotes que queiram celebrar a missa nessa forma, ou seja, com o missal de 1962, bem como onde e quando poderão ser as celebrações, desde que não sejam em igrejas paroquiais, e que os grupos de fiéis que nelas participam terão um sacerdote delegado que os acompanhará pastoralmente.

O texto pontifício, no nº 6 do artigo 3º, também afirma que o bispo diocesano não autorizará a criação de novos grupos que desejem celebrar a missa tradicional em latim.

Abusos litúrgicos

“Sei que muitos jovens das nossas paróquias estão cansados dos abusos litúrgicos que a hierarquia permite sem corrigi-los. Desejam uma celebração eucarística que garanta uma participação séria e profundamente religiosa. Não há nada de ideológico nesta aspiração”, escreveu dom Héctor.

“Também acho antipático que o sacerdote que já tem permissão e uma prática correta deva pedir permissão novamente (art. 5.) Não será esse um artifício para tirar sua permissão? Eu acho que deve haver vários bispos (novos, por exemplo) que farão resistência antes de concedê-la”, afirmou.

O artigo 5º da Traditionis custodes estabelece que “os presbíteros que já celebram segundo o Missale Romanum de 1962, pedirão ao bispo diocesano autorização para continuar a manter aquela faculdade”.

Dom Aguer afirmou que “todas as disposições da Traditionis custodes seriam tranquilamente aceitáveis se a Santa Sé prestasse atenção ao que eu chamo de ´devastação da liturgia`, que se verifica em múltiplos casos”.

Como exemplo, ele falou do que “acontece na Argentina. Em geral, é bastante comum que a celebração eucarística assuma um tom de banalidade, como se fosse uma conversa que o sacerdote mantém com os fiéis e na qual a sua simpatia é fundamental. Em certos lugares, torna-se uma espécie de show presidido pelo ´animador`, que é o celebrante, e a missa das crianças vira uma festinha, como aquelas de aniversário”.

“Em virtude desse critério, desapareceram os cantos latinos que as pessoas simples acostumavam cantar nas paróquias, como o ´Tantum ergo` na bênção eucarística. A falta de correção dos abusos leva ao convencimento de que ´agora a liturgia é assim`”, lamentou.

Segundo dom Héctor, para corrigir os abusos bastaria “simplesmente fazer cumprir o que o Concílio determinou, com sabedoria profética: ´que ninguém, ainda que seja sacerdote, acrescente, tire ou troque qualquer coisa por iniciativa própria na liturgia`”.

“Não se pode negar que a celebração eucarística perdeu precisão, solenidade e beleza. E em muitos casos o silêncio desapareceu. A música sagrada mereceria um capítulo à parte”, acrescentou.

O latim

Dom Héctor Aguer lembrou que “o latim foi, durante séculos, o vínculo de unidade e comunicação na Igreja do ocidente. Atualmente, não só foi abandonado, como também odiado. O seu estudo é negligenciado nos seminários, precisamente porque não acham isso útil”.

“Não percebem que, assim, o acesso direto aos Padres da Igreja do ocidente se fecha”, embora eles sejam “muito importantes para os estudos teológicos: penso, por exemplo, em santo Agostinho e são Leão Magno, ou em autores medievais como santo Anselmo e são Bernardo. Acho que isso simboliza essa situação de pobreza cultural e ignorância voluntária”.

Sempre “celebrei com a maior devoção que pude o rito vigente na Igreja universal”, disse dom Héctor. “Sendo arcebispo de La Plata, todos os sábados, no seminário maior são José, costumava cantar em latim a oração eucarística, usando o lindo missal publicado pela Santa Sé”, acrescentou.

“Tínhamos formado, segundo a recomendação do Concílio Vaticano II na constituição Sacrosanctum Concilium nº 114, uma ´Schola Cantorum`, que foi eliminada quando me retirei”, afirmou.

Dom Héctor disse que o Concílio Vaticano II incentiva o uso da língua latina nos ritos latinos, “salvo direito particular”. “Infelizmente”, disse o prelado, “o ´direito particular` aparentemente é o de proibir o latim, como de fato foi feito. Quem se atreva a propor uma celebração em latim é considerado um alienado, um troglodita imperdoável”.

“Parece que o juízo da Igreja, através da sua máxima instância, sobre o desenvolvimento da vida eclesial é feito com dois pesos e duas medidas: tolerância, e inclusive estima e identificação com as posições heterogêneas em relação à grande Tradição (´progressistas`, como elas são chamadas) e distância ou desgosto em relação às pessoas ou grupos que cultivam uma posição ´tradicional`”.

O arcebispo emérito de La Plata concluiu lembrando “o intuito de um célebre político argentino que declarou drasticamente: ´para os amigos, tudo; para o inimigo, nem a justiça`. Digo isso com o máximo respeito e amor, mas com uma imensa pena”.

25 agosto, 2021

O ponto era quando isso iria acontecer, não se aconteceria.

Por Chiesa e post concilio | Tradução: FratresInUnum.com, 25 de agosto de 2021 — O ponto era quando isso iria acontecer, não se aconteceria. O que será anunciado e referido em seguida se liga à novena iniciada pelos Superiores da FSSP (Fraternidade Sacerdotal São Pedro) da qual falamos anteriormente: Traditionis Custodes é apenas a “sacudida premonitória” do terremoto que vai acontecer? Estamos na parte da aplicação do Motu Proprio.

As comunidades “Ecclesia Dei” ou fraternidades ligadas à missa antiga foram convocadas a Roma para setembro que vem. E isso diz respeito à FSSP (Fraternidade Sacerdotal São Pedro), ao ICRSS (Instituto Cristo Rei) e ao IBP (Instituto do Bom Pastor). Há preocupação entre os fiéis da tradição por aquilo que poderia ser o próximo passa depois da devastação de Traditionis Custodes, cujas disposições deixam abertas muitas interrogações.

Declarações de observadores americanos sobre a situação: “alguém podia pensar que tudo se terminaria com Traditionis Custodes? Lembram dos Franciscanos da Imaculada? Ninguém tomou publicamente a sua defesa. Provavelmente, o Papa sabe que lhe resta pouco tempo e não quer desperdiçá-lo”.

Em relação aos interpelados (os Institutos tradicionalistas): “Terão perdido a espinha dorsal ou terão coragem de defender o ensinamento constante da Santa Igreja Católica e Apostólica, também sob a ameaça de sanção? Continuarão a combater o bom combate?”.

Nota do FratresInUnum: Será que a Administração Apostólica São João Maria Vianney passará ilesa? (Tomara que sim!) Caso haja restrições, Dom Rifan irá ceder ou voltará à resistência, reconhecendo que toda a sua política de diplomacia fracassou? Quem viver, verá!

14 agosto, 2021

O ecumenismo de São Maximiliano Maria Kolbe.

São Maximiliano Maria Kolbe.

São Maximiliano Maria Kolbe.

“Não há maior inimigo da Imaculada e de Seu Reinado que o ecumenismo de hoje, o qual todo Cavaleiro [da Imaculada] deve não só combater, mas também neutralizar, por uma ação diametralmente oposta e, finalmente, destruir” (S. Maximiliano Maria Kolbe).

Créditos: A Catholic Life 

Publicação original em 22/10/2013

Leia também:

Na festa de São Maximiliano Maria Kolbe: “Só vós destruístes todas as heresias no mundo inteiro”.