27 maio, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Lições de Fátima (III)

“Assim como pecado de um só, incorreram todos os homens na condenação, assim pela justiça de um só, recebem todos os homens a justificação que dá a vida. Assim como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim pela obediência de um só,muitos virão a ser justos” (Rom, V, 18 e 19).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

O pecado original e a redenção

Outro ponto essencial da doutrina católica deturpado pelos mestres do novo cristianismo é o pecado original. Uma noção falsa sobre esse dogma de nossa Fé falseia o conceito de Redenção, verdade igualmente fundamental em toda a economia da salvação misericordiosamente estabelecida por Deus Nosso Senhor. Por isso, vamos aqui recordar o que todos sabeis, caríssimos filhos.

O pecado original é o pecado com que todos fomos concebidos, com exceção da Virgem Maria, dele isenta pelo especial privilégio da Conceição Imaculada, e de Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja concepção virginal o punha fora de lei do pecado, pecado aliás que vinha Ele destruir no mundo.

O pecado original consiste na ausência da graça santificante, ausência que nos faz inimigos de Deus, incapazes de entrar no Céu. Nós nascemos com esse pecado porque pertencemos à família de Adão, à progênie do primeiro homem. Adão foi criado por Deus com a graça divina e ainda adornado de outros dons também gratuitos, que  tornavam sua natureza de uma excelência superior à que de direito lhe seria devida. Essa graça santificante e esses dons preternaturais, Adão, segundo os desígnios de Deus, os transmitiria à posteridade, se obedecesse a um  mandato divino. Mas, ele desobedeceu, e como castigo desse pecado perdeu a graça santificante e os demais dons que enalteciam sua natureza.

Tornou-se inimigo de Deus, incapaz de entrar na vida eterna do Paraíso; e essa situação do primeiro chefe da família humana tornou-se a situação de toda a sua família, de toda a sua progênie, excetuadas as duas Pessoas que acima lembramos. Deus, no entanto, na sua infinita bondade, não quis que essa situação permanecesse irreparável. Enviou um Redentor, capaz de dar-Lhe uma reparação condigna, mesmo acima do que exigiria a justiça. Esse Redentor é Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, por obra do Espírito Santo, e nascido da Virgem Maria. Foi Ele, nosso Salvador, que com sua ignominiosa morte de Cruz, na qual consumou a obediência ao Pai Celeste, reparando a desobediência do primeiro homem, nos remiu, nos resgatou do cativeiro do demônio, nos restituiu a graça santificante, tornou-nos novamente capazes da amizade divina, da vida eterna do Paraíso no seio de Deus.

Tudo isso se encontra sintetizado na frase de São Paulo aos romanos: “Como pelo pecado de um só a condenação se estendeu a todos os homens, assim também por um só ato de justiça recebem todos os homens a justificação que dá a vida. Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos” (Rom. 5, 18-19).

E para que não houvesse dúvida sobre o sentido das palavras de São Paulo, e sobre a verdade revelada, o Concílio Tridentino explanou, contra os erros dos protestantes, em um Decreto de sua Sessão V, toda a doutrina católica sobre o pecado original. Esse decreto consta de uma introdução, cinco cânones e uma consideração final sobre a condição especial de Maria Santíssima nesta matéria. Nos cânones, o Sacrossanto Concílio ensina que Adão, primeiro homem, pessoal e livremente transgrediu um preceito divino, e com essa transgressão perdeu a santidade e a justiça em que tinha sido constituído, e incorreu na ira e indignação de Deus, ficando sujeito à morte e ao cativeiro de demônio (cânon 1); que a prevaricação de Adão prejudicou não só a ele, mas a toda a sua descendência, a qual, por isso mesmo, perdeu a santidade e a justiça recebidas de Deus no seu progenitor; e mais ainda, que Adão transmite à sua posteridade não somente a morte mas o mesmo pecado que é a morte da alma (cânon 2). O cânon 3 declara que o pecado original se transmite pela geração e não por imitação, como queriam os protestantes, e que se apaga não por forças naturais, mas pelos merecimentos de Jesus Cristo que a Igreja aplica, quer às crianças como aos adultos, no Sacramento do Batismo; os cânones 4 e 5 afirmam que as crianças recém-nascidas devem ser batizadas para que nelas se apague o reato do pecado original, porquanto o Batismo apaga a própria culpa e não apenas a risca ou faz com que não seja imputada ao fiel.

Como vedes, caríssimos filhos, é a mesma doutrina que aprendestes nos vossos primeiros anos de infância, ou nas aulas de catecismo ou dos lábios de vossas mães. Também compreendeis que se trata de ponto essencial. É o dogma do pecado original que nos faz como que sentir as profundezas do amor com que Deus Nosso Senhor nos amou. Ele que dá a compreensão do que dizemos com inefável esperança na Santa Missa: “Deus qui humanam substantiam mirabiliter condidisti et mirabilius reformastis”. Pois realmente, se há um ato maravilhoso da onipotência divina ao criar os seres do nada, de longe o supera em maravilha a caridade com a qual Deus vem ao homem pecador para transformá-lo de inimigo em filho adotivo, em membro de sua família, conviva de sua mesa! Destruí o dogma do pecado original, e esvaziareis as alegrias com que a Igreja canta o “Exsultet” na vigília da Ressurreição.

Tudo isso, amados filhos, é verdade, e antigo como a Igreja, e não precisamos gastar tempo para vos convencer. Não obstante, os mestres do novo cristianismo tentam anular a base de todas essas consolações com seu conceito novo do pecado original. Para eles, o pecado original não é a desobediência voluntária de Adão, que acarretou para cada um dos seus descendentes a ausência da graça e o estado de pecado. O trecho de São Paulo aos romanos seria um  “gênero literário”, ou seja, uma maneira de expressar um pensamento diverso daquele que as palavras literalmente exprimem. O pecado original que nos contamina não seria o pecado de Adão, primeiro homem, mas o pecado do homem em geral, o pecado do mundo, o pecado da humanidade tomada como um todo!

Cremos que não é preciso insistir mais para se ver como tal doutrina interpreta arbitrariamente a Sagrada Escritura, não faz o menor caso do Magistério infalível, anula o caráter moral que há na Redenção, e prepara uma concepção gnóstica do Cristianismo.

26 maio, 2017

Pobres filhos de uma sociedade que já não reconhece o mal.

 Por Dom Luigi Negri

Resultado de imagem para dom luigi negriQueridos filhos,

Quero chamá-los assim, mesmo que não os conheça. Mas, nas longas horas de insônia que seguiram ao anúncio deste terrível ataque, em que muitos de vocês já morreram e muitos ficaram feridos, eu os senti ligados a mim de uma forma especial.

Vocês vieram ao mundo, muitas vezes sem ser desejados, e ninguém lhes deu as “razões adequadas para viver”, como dizia o grande Bernanos a seus contemporâneos adultos. Vocês foram entregues ao mundo sob dois grandes princípios: que podiam fazer o que quisessem, pois cada desejo de vocês é um direito; e a importância de se ter o maior número possível de bens de consumo.

Vocês cresceram assim, acreditando que tivessem tudo. E quando vocês tinham algum problema existencial – antigamente se dizia assim – e o comunicavam aos seus pais, aos seus “adultos”, logo tratavam de agendar um psicanalista para resolver o problema. Eles só se esqueciam de dizer a vocês que existia o Mal. E o Mal é uma pessoa, não um conjunto de forças e energias. É uma pessoa. Esta pessoa estava escondida ali, durante o concerto. E a terrível asa da morte, que a acompanha, se apoderou de vocês.

Meus filhos, vocês morreram assim, quase sem razões, do mesmo jeito como viveram. Não se preocupem, afinal ninguém os ajudou a viver; mas farão certamente um belo funeral, no qual se expressará ao máximo esta oca retórica laicista, com todas as autoridades  presentes – incluindo, infelizmente, até os religiosos –, todos de pé, em silêncio. Naturalmente, será um funeral em espaço aberto, mesmo para os que tem fé, já que hoje em dia o único templo é a natureza.

Robespierre riria de tudo isso, pois nem mesmo ele teve essa fantasia. Aliás, nas igrejas não se fazem mais funerais, pois, como diz agudamente o cardeal Roberto Sarah, agora nas igrejas católicas só se celebram os funerais de Deus. Os “adultos” não se esquecerão de colocar nas calçadas os seus bichinhos de pelúcia, as memórias de sua infância, de sua primeira juventude. E depois tudo será arquivado na retórica daqueles que não têm nada a dizer sobre tragédias, pois nada tem nada a dizer sobre a vida.

Espero que, nesse momento, pelo menos alguns destes gurus – culturais, políticos e religiosos – contenham as palavras e não nos atropelem com os discursos habituais,  dizendo que “não se trata de uma guerra de religião”, que “a religião é, por natureza, aberta ao diálogo e à compreensão”. Espero que haja um instante silencioso de respeito. Antes de tudo, pelas suas vidas, ceifadas pelo ódio do demônio, mas também pela verdade. Pois os “adultos” deviam, antes de tudo, ter respeito pela verdade. Podem não servi-la, mas devem ter respeito por ela.

Seja como for, eu que sou um velho bispo que ainda crê em Deus, em Cristo e na Igreja, vou celebrar a missa por todos vocês no dia do seu enterro, para que do outro lado – quaisquer que tenham sido suas práticas religiosas – vocês  encontrem o rosto querido de Nossa Senhora, e que, apertando vocês em seu abraço, os console desta vida desperdiçada, não por culpa de vocês, mas por culpa dos seus “adultos”.

Dom Luigi Negri é arcebispo de Ferrara, Itália. Texto publicado no dia 23 de maio de 2017, no jornal italiano Nova Bússola Cotidiana, a propósito do ato terrorista ocorrido na véspera, na Inglaterra)

* Tradução: José Carlos Zamboni – Opus Mater Dei, cuja gentileza agradecemos

25 maio, 2017

Dom Fellay fala sobre as relações atuais da FSSPX com a Santa Sé.

Entrevista concedida por Dom Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a James Vogel em 21 de abril de 2017. Agradecemos a um gentil amigo pelas legendas.

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24 maio, 2017

Histórico e exclusivo: Dom Pestana e Fátima (parte 2).

Publicamos a segunda parte da entrevista concedida por Dom Manoel Pestana Filho, bispo de Anápolis, Goiás, de 1978 a 2004, seis meses antes de seu falecimento, a Anthony Tannus Wright, de FratresInUnum.com.

Ver também: 

Histórico e exclusivo: Dom Pestana e Fátima (parte 1).

Dom Pestana: + 8 de janeiro de 2011. RIP. A última entrevista: “Enquanto a luz do sacrário estiver acesa, sabemos que Alguém nos espera”.

23 maio, 2017

Que devo fazer?

Por Cardeal Odilo Pedro Scherer – Arcebispo de São Paulo (SP)

Não é raro ouvir dizer que tudo mudou em questão de moral; que cada um faz a sua moral, que não existe uma moral válida para todos, nada é mau, nada é bom; até mesmo o que se tinha como mau, agora pode ser considerado bom e o que se tinha como moralmente bom, muitas vezes, acaba acusado como mau. Como assim? Afinal, ainda existem princípios de conduta moral? O que devemos fazer? O que devemos evitar?

A discussão sobre os princípios morais e sobre o que deve orientar nossas decisões e ações vem desde o momento em que o homem se descobriu um ser pensante e livre para fazer escolhas. E não cessará até que haja um ser humano neste mundo. Para nós, cristãos, há alguns princípios de conduta moral claros, que deveriam orientar nossas decisões e ações. Tentarei expor alguns, na brevidade que requer este artigo.

Quando Jesus, no “sermão da montanha”, recomendou ao povo – “ouvistes o que foi dito…. eu, porém, vos digo”, ele fez a interpretação da lei de Deus a partir do seu sentido originário, livre de distorções (cf. Mt 5, 38-48). O que se diz “por aí” pode representar o esforço humano das culturas, filosofias e religiões para interpretar o que seria o sentido da lei moral. Mas Jesus dá a interpretação que é conforme à vontade de Deus, ao agir de Deus e à dignidade e santidade de Deus. Portanto, vale para nós o ensinamento de Jesus como critério para o discernimento e para o agir moral. O que “dizem por aí” através de tantas interpretações contraditórias da lei moral deve ser sempre avaliado à luz desse “eu, porém, vos digo”, do ensinamento de Jesus.

No mesmo trecho do “sermão da montanha”, Jesus vai mais longe e pede que seus discípulos não se contentem com indicações morais cômodas, nem com a lei do menor esforço: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). A referência para o discernimento e o agir moral não é pequena nem fácil; a perfeição de Deus é única e nunca será alcançada plenamente pelo homem. Porém, a altíssima perfeição divina permanece para nós como referência segura para o certo e o errado, o bem e o mal, o justo e o injusto. Nunca será bom o que for contrário à perfeição de Deus, para a qual devemos tender sempre.

Esse critério não é diferente daquilo que Moisés, em nome de Deus, já havia recomendado ao povo, ao lhe comunicar os dez mandamentos: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (Lv 19,2). A santidade de Deus diz respeito à sua dignidade suprema, sua misericórdia, justiça, amor e providência em relação ao homem e ao mundo. A santidade de Deus é a referência máxima para o discernimento e o agir moral da pessoa de fé; e será boa toda decisão e cada ação que estiver em sintonia com a dignidade e a santidade de Deus; mas nunca será bom o que for contrário à santidade de Deus e, por isso, deve ser evitado.

Os dez mandamentos da lei de Deus são indicações do caminho da perfeição e da santidade para o homem e, na medida em que os coloca em prática, ele age bem e se santifica, pois está em sintonia com a vontade de Deus. Mas o contrário dos mandamentos, com certeza, não é caminho bom e, claramente, deve ser evitado, não podendo ser tomado como critério para a decisão e a ação moral.

São Paulo nos oferece um outro critério moral muito importante quando ele escreve à comunidade de Corinto, onde havia problemas de imoralidade: “Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?” (1Cor 3,16). O cristão, pelo Batismo, tornou-se “morada de Deus” e “habitação do Espírito Santo”, e isso lhe confere uma nova e altíssima dignidade, que ele sempre deverá ter em conta nas suas decisões e ações morais. Essas devem estar em conformidade com a sua própria dignidade e com a dignidade de Deus. Por isso, ele sempre deverá se perguntar: “será que minha ação combina  com o respeito devido a Deus e a mim próprio?” Esse é um critério claro e seguro para o discernimento e a ação moral.

Concluindo a sua reflexão, Paulo confronta cada um com a própria liberdade e com a responsabilidade pelas escolhas feitas: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3, 22-23). O cristão pertence a Cristo e recebeu o seu Espírito; por isso, precisa levar em conta a sua relação com Cristo e seus ensinamentos.

Portanto, para as pessoas de fé, existem critérios morais firmes e conhecidos, que precisam ser levados em conta no discernimento e na ação moral. E o cristão já não poderá mais se orientar simplesmente “pelo que se diz por aí”: nos jornais, revistas, novelas, filmes, mídias sociais, discussões filosóficas ou ideológicas… Sua referência: deverá lembrar sempre o ensinamento de Jesus: “Eu, porém, vos digo”.

22 maio, 2017

Cardeal Burke pede por consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

Por John-Henry Westen, LifeSiteNews – Roma, 19 de Maio de 2017 | Tradução: João Melo – FratresInUnum.com – O Cardeal Raymond Burke lançou uma convocação esta manhã aos fiéis católicos para que “trabalhem pela consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria”.

O Cardeal Burke, que é um dos quatro cardeais que pediram esclarecimentos ao Papa Francisco sobre a [exortação] Amoris Laetitia, fez seu apelo no Fórum da Vida de Roma [Rome Life Forum] no mês do centenário da primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima aos três pastorinhos.

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Burke é o ex-Prefeito da do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica e atual patrono da Ordem Militar e Soberana de Malta.

Em um longo discurso sobre “O Segredo de Fátima e a Nova Evangelização”, o Cardeal Burke, na presença do companheiro de dúbia Cardeal Carlo Caffarra, discursou para o bispo do Casaquistão Dom Athanasius Schneider e para mais de cem líderes pró-vida e pró-família de vinte países, dizendo que o triunfo do Imaculado Coração significaria muito mais do que o fim das guerras mundiais e dos desastres naturais que Nossa Senhora de Fátima previu.

“Terríveis que sejam os castigos físicos associados à rebelião de desobediência dos homens contra Deus, infinitamente mais terríveis são os castigos espirituais, pois são relacionados ao fruto do pecado grave: a morte eterna”, ele afirmou.

Ele demonstrou estar de acordo com um dos maiores especialistas em Fátima, Frère Michel de la Sainte Trinité, que afirmou que o triunfo prometido do Imaculado Coração de Maria sem dúvida se refere, primeiramente, à “vitória da Fé, a qual porá fim ao tempo da apostasia e à escassez de pastores da Igreja”.

Referindo-se à situação atual da Igreja à luz das revelações de Nossa Senhora de Fátima, Burke disse:

“O ensinamento integral e corajosamente da Fé é o coração do ministério dos pastores da Igreja: o Romano Pontífice, os bispos em comunhão com a Sé de Pedro e seus principais cooperadores, os padres. Por esta razão, o Terceiro Segredo é dirigido, com particular força, àqueles que exercem os cargos pastorais na Igreja. O fracasso deles em ensinar a fé de forma fiel aos ensinamentos e práticas constantes da Igreja, mesmo que com uma abordagem superficial, confusa ou mesmo mundana, e seu silêncio, colocam em risco mortal, no sentido espiritual mais profundo, precisamente aquelas almas às quais eles foram consagrados para cuidar espiritualmente. Os frutos envenenados do fracasso dos pastores da Igreja são percebidos na maneira de se adorar, de se ensinar e na conduta moral em desacordo com a Lei Divina”.

O chamado à consagração da Rússia é para alguns controverso, mas o Cardeal Burke tratou das razões para seu apelo de maneira simples e direta. “A consagração solicitada é ao mesmo tempo um reconhecimento da importância que a Rússia ainda possui nos planos de Deus para a paz e um sinal de profundo amor por nossos irmãos e irmãs russos”, ele disse.

“Certamente, São João Paulo II consagrou o mundo, incluindo a Rússia, ao Imaculado Coração de Maria em 25 de março de 1984”, o Cardeal Burke disse. “Mas, hoje, mais uma vez, nós ouvimos o chamado de Nossa Senhora de Fátima à consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração, de acordo com suas explícitas instruções”.

Uma menção explícita da Rússia na consagração, como requisitada por Nossa Senhora, era desejada pelo Papa São João Paulo II, mas não foi cumprida devido à pressão de conselheiros. Este fato foi confirmado recentemente pelo representante oficial do Papa Francisco no aniversário da celebração de Fátima na última semana em Karaganda, Casaquistão.

Referindo-se ao dia 13 de maio, o Cardeal Paul Josef Cordes, ex-presidente do Pontifício Conselho Cor Unum, relembrou de uma conversa que teve com o Papa São João Paulo II após a consagração 1984, ou “ato de entrega”, ocorrida no dia 25 de março, quando a imagem de Nossa Senhora de Fátima estava em Roma.

“Obviamente, por um longo período, [o Papa] lidou com aquela importante missão que a Mãe de Deus (ali) havia dado às crianças videntes”, Cordes disse. “Contudo, ele absteve-se de mencionar a Rússia de modo explícito porque os diplomatas do Vaticano insistentemente lhe pediram para não mencionar esse país, já que conflitos políticos poderiam talvez surgir”.

Àqueles que ainda objetam ao chamado pela consagração da Rússia, o Cardeal Burke relembrou as palavras do Papa São Paulo II, que em 1984, durante a consagração do mundo ao Imaculado Coração comentou: “O pedido de Maria não é algo para ser feito uma única vez. Seu apelo deve ser atendido geração após geração, em concordância com os sempre novos ‘sinais dos tempos’. (Seu apelo) deve ser retomado incessantemente. Ele deve para sempre ser tido como novo”.

Instruindo os fiéis, o Cardeal Burke ensinou que Nossa Senhora de Fátima “provê para nós os meios de sermos fiéis ao seu Filho Divino e a buscarmos Nele a sabedoria e a força para trazermos a Sua graça salvadora a um mundo profundamente perturbado”.

O Cardeal Burke destacou seis meios que Nossa Senhora deu aos fiéis em Fátima para que participem da restauração da paz no mundo e na Igreja:

  1. Rezar o Terço todos os dias;
  2. Vestir seu escapulário;
  3. Realizar sacrifícios pela salvação dos pecadores;
  4. Realizar reparações pelas ofensas ao seu Imaculado Coração por meio da devoção do primeiro sábado (do mês); e
  5. Configurar nossas próprias vidas sempre mais à de Cristo;
  6. Por último, ela pede ao Romano Pontífice, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração.

“Por estes meios, ela prometeu que seu Coração Imaculado triunfará, trazendo almas a Cristo, seu Filho”, o Cardeal Burke acrescentou. “Voltando-se a Cristo, eles farão reparações pelos seus pecados. Cristo, pela intercessão de Sua Virgem Mãe, os salvará do inferno e trará paz a todo o mundo”.

21 maio, 2017

Foto da semana. 

Sábado, 20 de maio de 2017: A Fraternidade Sacerdotal São Pio X realiza sua peregrinação anual e celebra Missa na Basílica Velha de Aparecida, SP. Na mesma ocasião, o distrito brasileiro da Fraternidade foi consagrado a Nossa Senhora Aparecida. 

20 maio, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Lições de Fátima (II).

“Se me amais, observareis os meus mandamentos” (S. João, XIV, 15).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“Nós nos demoramos aqui a recordar convosco, amados filhos, este ensinamento ininterrupto da Igreja, não só para que vejais, quase diríamos sintais, como os fatos da Cova da Iria estão dentro da mais genuína tradição católica, mas, sobretudo, sendo relegadas ao esquecimento, pois que delas não se gosta de ouvir falar, por motivos que abaixo exporemos. No entanto, nada mais salutar do que a meditação de tais verdades. Insistimos, pois, sobre as mesmas, porque a tanto Nos obriga o dever de zelar pela salvação eterna de Nossas ovelhas, e, outrossim, porque Nos parece falha qualquer comemoração de Fátima que a não ponha em plena luz.

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Não há dúvida, o recordá-las o Altíssimo na Cova da Iria foi uma dessas manifestações da inefável misericórdia com que Deus persegue os pecadores, porque não quer que morram, mas sim que se convertam e vivam (cf. Ez. 33, 11).

Falta de atenção às advertências de Nossa Senhora Infelizmente, é menor a vontade dos pecadores de se salvarem. Os pedidos de Nossa Senhora não foram ouvidos. Após a primeira desoladora conflagração mundial, “não cessaram de ofender a Deus”, e veio a outra guerra pior ainda, mais atroz, mais devastadora, na qual, segundo a palavra de Jacinta, grande parte dos que morreram foram para o inferno.

Não obstante, a punição não serviu para a cura. Todo o mundo hoje tem pavor de um novo conflito universal, mas esquece-se de que a guerra foi castigo dos pecados, e volta novamente para uma vida animada pelo desejo desenfreado dos prazeres, onde domina a paixão impura. E já não se limitam os indivíduos a cevarem-se no vício da carne; a sensualidade irrompe dos aglomerados urbanos para os campos e infecciona toda a sociedade. [Hoje, depois de 50 anos, já se chegou ao auge da iniquidade: legalização de pecados e de pecados horrendos, aqueles que bradam aos Céus pedindo vingança: legalização do aborto, de uniões civis de pessoas do mesmo sexo, a ideologia de gênero etc.].

Resulta do fato larga e nefasta consequência. Por uma disposição da psicologia humana, não suporta o homem, longo tempo, contradição entre o modo de agir e a maneira de pensar. O indivíduo ou procede como pensa, ou termina pensando de acordo com seu procedimento. De sorte que, por inelutável exigência psicológica, numa sociedade engolfada na sensualidade, começam os homens a perder a noção do bem e do mal, e a criar para si uma moral subjetiva que lhes não censure a conduta irregular. Daí a ojeriza a tudo que lhe avive a consciência do estado moralmente deplorável.

Por isso a sociedade de hoje não tolera que se lhe fale do inferno, que se lhe lembre que o demônio existe e é o Príncipe deste mundo. Como gostaria que tudo isso não passasse de ilusões, quer viver como se nada disso tivesse consistência. Faz como a avestruz que esconde a cabeça para não ver o perigo.

Dessoramento  da moral católica

Daí, outrossim, o ressurgimento, e com maior desfaçatez, da moral-nova, condenada por Pio XII, e sobre a qual advertimos Nossos caríssimos filhos em Carta Pastoral de 6 de janeiro de 1953. Na sua atual apresentação, a moral-nova se volta especialmente contra os conceitos tradicionais de virtude e vício, envolvidos no sexto e nono preceitos do Decálogo. E há, nos meios católicos, quem não enrubeça de sustentar hoje como erotismo normal, ao lado de outras, as aberrações indelevelmente estigmatizadas no castigo tremendo com que a Providência consumiu a Sodoma e Gomorra. Quanto ao casamento, pretextando uma sua nova e mais alta visualização, tiram-lhe a nobreza do sacrifício que dele faz uma instituição ordenada a colaborar com a onipotência criadora de Deus. Os filhos não os consideram mais a alegria do lar, e sim um fardo pesado e indesejável. Triunfa o egoísmo, diante do qual cambaleiam a unidade e indissolubilidade do casamento, e há uma criminosa indulgência para com o vício solitário.

A imodéstia nos trajes e a falta de seriedade nas maneiras coincidem com a grosseria do espírito.

De acordo com a profecia de Nossa Senhora em Fátima, a radicalização do pecado no mundo traria como castigo, além da guerra, o fato de que a Rússia espalharia seus erros por toda a parte. É ao que assistimos, na ordem política, econômica e social, onde já vão dominando por todo o orbe os princípios materialistas do comunismo. Não obstante, para o triunfo pleno deste na terra inteira, impõe-se a demolição da Igreja, único baluarte sério que ainda lhe pode opor resistência. A demolição da Igreja, é a demolição de sua doutrina, parte essencial da obra de Jesus Cristo.

Tão essencial, que o Apóstolo maldiz aqueles que procuram perverter-lhe o sentido. Na Carta ao Gálatas, lança anátema sobre os falsificadores do Evangelho: “Se alguém  -escreve energicamente  – nós ou um Anjo baixado do Céu, vos anunciar um evangelho diferente do que vos temos anunciado, seja anátema” (1, 9).

Desarticulação da doutrina da Igreja

Os desvios da moral-nova, que apontamos acima, já fazem parte de um dessoramento do Evangelho que a Igreja sempre nos ensinou. No entanto, a desarticulação da doutrina católica que notamos em mestres, que se arvoram em renovadores do Cristianismo na Igreja, é mais profunda. Diríamos que um senso de erro e pecado invadiu a sociedade e infecciona também meios católicos. Como, quer o relaxamento moral, a que acima aludimos, quer os erros de doutrina, espalham-se rapidamente, pelo mundo inteiro, graças à facilidade das comunicações modernas, julgamos de Nosso dever alertar-vos, caríssimos filhos, não venha a criar-se no vosso espírito uma mentalidade cristã falsa, contrária ao Evangelho de Jesus Cristo.

A noção de pecado e amor de Deus

Assim, um dos pontos que os fautores do novo cristianismo ignoram é o pecado, porquanto   –  dizem  –  o fiel deve ser formado no amor e não no temor servil. Ao menos evite-se a expressão “pecado mortal”, para não parecer algo de definitivo, para não traumatizar a criança. O mesmo se diga da distinção entre pecado mortal e pecado venial, que cria uma casuística que mirra o amor.

Não há dúvida de que o modelo a ser apresentado a todo fiel, para sua formação, seja qual for sua idade, é a Pessoa adorável de Jesus Cristo, cujo amor ardente se deve inculcar ao cristão desde os primeiros anos. Essa norma, no entanto, não só não pede que se evite falar sobre o pecado, como se torna falha, inoperante, se omitir semelhante noção.

De fato, como formar o coração da criança, a vontade do adulto no amor divino, sem ensinar-lhes que esse amor pede uma conformação da própria vontade com a vontade de Deus? E como conformar a vontade própria com a do Altíssimo, se não se sabe o que Ele quer, o que Lhe agrada e o que Lhe desagrada, ou seja, o que Ele manda e o que Ele proíbe? O próprio amor divino, está a exigir que Deus nos diga o que deseja que façamos, e, consequentemente, o que não quer que pratiquemos. Santa Maria Goretti deu certamente a maior prova de amor a Deus Nosso Senhor. O próprio Jesus Cristo o declarou quando disse que “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo, 15,13). Ora, o que levou essa menina de seus doze anos ao martírio? – A fuga do pecado. Ao sedutor que a impelia ao ato mau, opunha: – Não. É pecado! Perguntamos, como poderia essa virgem mostrar tão grande amor a Nosso Senhor se não tivesse a noção de pecado?  Se não soubesse distinguir o que Deus não quer que se faça?

A noção de pecado é, pois, indispensável para a formação da própria caridade com que devemos amar a Deus sobre todas as coisas. Sem essa noção, é impossível dar uma ideia do que seja virtude e do que seja vício. Em outras palavras, é impossível distinguir entre o bem e o mal, é impossível qualquer formação moral.

É, pois, de todo necessária para a formação católica uma noção exata do pecado. E não vemos porque se deva evitar a expressão “pecado mortal”, quando o pecado que ela designa dá de fato a morte à alma, tanto assim que uma pessoa que morra em estado de pecado mortal não se salva, vai para o inferno. Temos falado sempre de pecado, sem nenhum adjetivo, porque, no sentido estrito da palavra, pecado é só o mortal. Este, com efeito, é que envolve uma desobediência deliberada a uma ordem positiva de Deus Nosso Senhor em matéria grave, encerra, portanto, uma preferência do homem de si mesmo, de sua vontade, com preterição da vontade de Deus. Nem por isso queremos significar que seja inútil, ociosa ou prejudicial a distinção entre pecado mortal e pecado venial. Muito pelo contrário, está ela fundada na debilidade da nossa natureza, capaz de atos incompletos, semideliberados, capaz de proceder como crianças que evitam o que as faça romper com seus pais, mas permitem-se muitas coisas que elas sabem que, embora desagradem, não chegam a destruir a amizade paterna. O conceito de pecado venial, aliás, serve, de um lado para evitar o desespero, e de outro para nos habituar à humildade, tão fracos somos que não alcançamos agradar a Deus absolutamente em todas as coisas, como o desejáramos.

Coincide com a maneira de pensar por Nós aqui reprovada a afirmação de que a confissão auricular não é nem necessária nem conveniente às crianças, e, mesmo para os adultos, só raramente deve ser admitida, porquanto para a absolvição basta a contrição. Dizemos, apenas, que toda esta maneira de conceber o Sacramento da Penitência não é católica. O Concílio Tridentino (Sess. XVI) reconhece a distinção entre pecado mortal e pecado venial, declara que, por imposição divina, devem ser confessados todos os pecados mortais, porquanto cada um deles deve ser submetido ao tribunal da penitência.

De maneira que se deve reprovar o costume de dar absolvição geral aos fiéis, sem primeiro ouvi-los em confissão auricular, sendo que a cada um julgará o confessor antes de absolvê-lo.

Se agora perguntarmos a quem interessa a dissolução do senso moral, não teremos dúvida em responder: ao comunismo. Logo, um dos meios de se opor ao avanço deste é dar uma noção viva do pecado, sem a qual, aliás, é impossível qualquer formação católica. Será, portanto, sempre necessário repetir aos fiéis as palavras de Jesus Cristo: “Si diligitis me mandata mea servate” (Jo. 14, 15)  – “mandata”, isto é, ordens, leis, cujo conhecimento só é completo, e cuja observância só envolve caridade perfeita, quando se conhecem também quais os castigos que sofrerão os transgressores.

Não é, pois, preciso dizer que para nós, seres compostos de espírito e matéria, cujas ideias se formam através da sensibilidade, a noção de pecado só nos é completa quando avaliamos a enormidade deste pelos castigos pavorosos com que justamente o pune a Justiça divina. Uma formação religiosa que omitisse a exposição do inferno seria falha, não se poderia dizer católica.

Não há necessidade de salientar como se torna oportuno comemorar as aparições de Nossa Senhora em Fátima, na quais a Misericórdia divina veio ao encalço dos pecadores, fazendo-lhes sentir o peso de suas faltas através do espetáculo pavoroso do inferno” (Excerto da Carta Pastoral “SOBRE A PRESERVAÇÃO DA FÉ E DOS BONS COSTUMES”, escrita pelo então Bispo de Campos, RJ, D. Antônio de Castro Mayer, em 1967].

19 maio, 2017

Bombástico: Bento XVI entra em campo para frear a deriva litúrgica e apoiar o Cardeal Sarah.

Em 2014, Bento XVI apoiou publicamente aqueles a quem chamou de “grandes cardeais”, em mensagem lida publicamente em Missa no Rito Tradicional celebrada na Basílica de São Pedro pelo Cardeal Burke, que, à época, perdia todos os postos que ocupava. Agora, sai novamente em defesa de outro Cardeal que perdeu completamente seu prestígio em Roma e viu sua Congregação ser sitiada por membros de orientação progressista, após algumas mínimas tentativas de restaurar certa dignidade na liturgia.

* * *

Por Riccardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 18 de maio de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – “Com o Cardeal Sarah a liturgia está em boas mãos.” Assinado: Bento XVI. O que à primeira vista pode parecer um simples gesto de respeito, é, na realidade, uma verdadeira bomba. Isso significa, de fato, que o Papa Emérito – apesar de seu estilo discreto – saiu diretamente em campo na defesa do Cardeal Robert Sarah, como prefeito da Congregação para o Culto Divino, que agora se encontra isolado e marginalizado pelos novos nomeados pelo Papa Francisco, e publicamente desautorizado em seu discurso pelo próprio Papa.

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O gesto dramático de Bento XVI chegou sob a forma de um prefácio de um livro do Cardeal Sarah, “La Force du silence” (O Poder do Silêncio), ainda não traduzido em italiano. O texto de Bento XVI deverá ser publicado nas próximas edições do livro, mas já foi divulgado ontem pelo site americano First Things.

Nele, Bento XVI elogiou muito o livro do Cardeal Sarah e o próprio Sarah, definindo-o como “mestre espiritual, que fala das profundezas do silêncio com o Senhor, expressão de sua união íntima com Ele, e que por isso tem algo a dizer para cada um de nós” .

E no final da mensagem ele se diz grato ao Papa Francisco  por “ter nomeado um tal mestre espiritual à frente da Congregação para a celebração da liturgia na Igreja”. É uma nota que seria mais uma armadura do que gratidão real. Não é segredo o fato de que ao longo do último ano, o Cardeal Sarah foi gradualmente deposto de fato, primeiramente com a nomeação dos membros da congregação que tiveram o êxito de cercar Sarah com elementos progressistas abertamente hostis à “reforma da reforma” pedida por Bento XVI e que o cardeal guineense tentava colocar em ação. Em seguida, a desautorização aberta da parte do papa a respeito da posição do altar; e depois, a nova tradução dos textos litúrgicos que seria resultado de estudos de uma comissão criada sem o conhecimento e contra o Cardeal Sarah. Finalmente, os movimentos para estudar a criação de uma missa “ecumênica” ignorando a própria Congregação.

Trata-se de uma deriva que atinge o coração do pontificado de Bento XVI, o qual colocava a liturgia no centro da vida da Igreja. E no documento agora publicado, o Papa Emérito relança um aviso sério: “Assim como para a interpretação da Sagrada Escritura,  também para a liturgia é verdade que se faz necessário um conhecimento específico. Mas também é verdade para a liturgia que na especialização pode faltar o essencial se esta não estiver enraizada em uma profunda união interior com o Igreja orante, que sempre está aprendendo novamente com o Senhor o que vem a ser a verdadeira adoração”.  Daí a declaração final que soa como um aviso: “Com o Cardeal Sarah, mestre do silêncio e da oração interior, a liturgia está em boas mãos.”

Esta intervenção de Bento XVI, que tenta blindar o Cardeal Sarah e legitimá-lo efetivamente como chefe da Congregação para a Liturgia, não tem precedentes. E embora a forma é a de um comentário “inofensivo” em um livro, ninguém pode fugir do significado eclesial deste movimento, que indica a preocupação do Papa Emérito pelo que está acontecendo no coração da Igreja.

Bento XVI intervém agora sobre algo que talvez melhor tenha caracterizado o seu pontificado: “A crise da Igreja é uma crise da liturgia”, ele foi capaz de falar, e tal julgamento foi relançado pelo Cardeal Sarah. Mas não devemos esquecer o que Monsenhor Georg Geinswein disse em uma entrevista recente, de modo aparentemente inocente, ao responder a uma pergunta sobre a confusão que existe na Igreja e as divisões que surgiram. Ele disse que Bento  XVI acompanha atentamente a tudo o que acontece na Igreja. E agora vemos que, no silêncio, começa a dar alguns passos.

17 maio, 2017

13 de Maio em Fátima.

Por Roberto de Mattei, Il Tempo, Roma,  14-05-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Quinhentas mil pessoas esperavam o Papa Francisco  na esplanada do santuário de Fátima para a canonização dos dois pastorinhos Francisco  e Jacinta, com idades de 9 e 11 anos, que juntamente com a prima Lúcia dos Santos viram e ouviram as palavras de Nosssa Senhora entre 13 de maio e 13 de outubro 1917. A canonização ocorreu, e a Igreja inscreveu no rol dos santos as crianças mais jovens não mártires de sua história. Sobre a prima Lúcia, falecida em 2010, está em curso o processo de beatificação.

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No entanto, o que os devotos de Fátima de todo o mundo estavam esperando não era apenas a canonização dos videntes, mas também o cumprimento da parte do Papa de alguns dos pedidos de Nossa Senhora,  até agora não atendidos.

Dois centenários opostos se comemoram de fato  neste ano: as aparições de Fátima e a Revolução bolchevique de Lênin e Trotsky, ocorrida na Rússia no mesmo mês em que em Portugal terminou o ciclo mariano. Em Fátima, Nossa Senhora anunciou que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo e que desses erros nasceriam guerras, revoluções e perseguições à Igreja. Para evitar esses infortúnios Nossa Senhora pediu sobretudo um sincero arrependimento da humanidade e um retorno aos princípios da ordem moral cristã. A essa necessária emenda dos cristãos, a Santíssima Virgem juntou dois pedidos específicos: a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, feita pelo Papa em união com todos os bispos do mundo, e a propagação da prática dos primeiros sábados do mês, consistente em unir-se a Ela, confessar-se e comungar durante cinco sábados consecutivos, meditando quinze minutos e rezando o terço.

A difusão da prática dos primeiros sábados do mês nunca foi promovida pelas autoridades eclesiásticas e os atos pontifícios de entrega e consagração à Virgem Maria foram parciais e incompletos. Mas, acima de tudo, desde cinquenta anos atrás, os clérigos não pregam mais o espírito de sacrifício e de penitência, tão intimamente ligado à espiritualidade dos dois pastorinhos canonizados. Quando em 1919 Lúcia visitou Jacinta no hospital, na véspera de sua morte, a conversa foi toda ela centrada no sofrimento oferecido pelos dois primos a fim de evitar para os pecadores as terríveis penas do Inferno, mostrado por Nossa Senhora aos videntes.

O Papa Francisco, que nunca tinha ido a Fátima, nem como sacerdote, não tocou em nenhum desses temas. Em 12 de maio, na Capela das Aparições, apresentando-se como “bispo vestido de branco”, ele disse: “Venho como um profeta e mensageiro para lavar os pés de todos na mesma mesa que nos une”.  Depois, convidou para seguir o exemplo de Francisco e Jacinta. “Percorreremos, assim, todas as rotas, seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros e venceremos todas as fronteiras, saindo em direcção a todas as periferias, aí revelando a justiça e a paz de Deus”.  Em sua homilia de 13 de maio na esplanada do santuário, Francisco lembrou “todos os meus irmãos no batismo e em humanidade”, em particular “os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados”, convidando-os a “descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”.

A dimensão trágica da Mensagem de Fátima, que gira em torno dos conceitos de pecado e de castigo, foi posta de lado. Nossa Senhora havia dito à pequena Jacinta que as guerras não são outra coisa senão a punição pelos pecados do mundo, e que os pecados que mais levam almas para o inferno são aqueles contra a pureza. Se hoje vivemos uma “terceira guerra mundial em pedaços”, como muitas vezes disse o Papa Francisco, como não  relacioná-la com a terrível explosão de imoralidade contemporânea, chegada ao ponto de legalizar a inversão das leis morais? Nossa Senhora disse ainda a Jacinta que, se não houvesse arrependimento e penitência, a humanidade seria punida, mas que por fim o seu Imaculado Coração triunfaria e o mundo inteiro se converteria. Hoje não só a palavra castigo é abominada, porque a misericórdia de Deus supostamente apaga todo pecado, mas a própria idéia de conversão é indesejável, uma vez que segundo o Papa Francisco “o proselitismo é o veneno mais forte contra o caminho ecumênico”.

É  preciso admitir que a Mensagem de Fátima, reinterpretada de acordo com as categorias sociológicas do papa Bergoglio, tem pouco a ver com o profético anúncio do triunfo do Coração Imaculado de Maria, feito por Nossa Senhora ao mundo há cem anos.