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9 abril, 2019

Descobrindo a Tradição: Crise de Consciência de um Sacerdote.

Por Peter Kwasniewski, OnePeterFive, 27 de março de 2019 | Tradução: José Antonio Ureta

A carta a seguir e minha resposta são uma troca real de correspondência. O sacerdote gentilmente permitiu a publicação de uma versão na qual seus detalhes pessoais foram removidos. Acreditamos que atualmente há muitos sacerdotes em uma situação de consciência semelhante ou até idêntica à que é descrito aqui e que a leitura do texto pode ajudá-los a alcançar maior clareza sobre as medidas a tomar.

Caro Dr. Kwasniewski,

Hoje lhe escrevo por uma razão pessoal: sinto que estou em uma batalha por minha própria alma, o que, por ser sacerdote, é sinônimo de uma batalha ferozmente travada pela própria alma da Igreja no “ponto crítico” que mais conta: o altar de Deus e a celebração dos Sagrados Mistérios.

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Sou padre há pouco mais de cinco anos e celebrei minha primeira missa no usus antiquior logo após a ordenação. Como membro de uma comunidade religiosa, fui ficando progressivamente consciente de muitas questões – a respeito de toda a gama de “questões” às quais somos confrontados hoje na Igreja, mas centrando-se na Sagrada Liturgia – que, embora até um certo ponto “tolerável” para mim enquanto religioso, tornou-se in-tolerável para mim enquanto sacerdote de Jesus Cristo. Meu afastamento da minha comunidade de origem não foi apenas uma questão de afastar-me daquilo que é prejudicial e/ou “falsifica” a fé, mas também uma esperança de aproximar-me de aquilo que oferece maior verdade e beleza. Eu digo isso não com qualquer animosidade ou raiva, mas simplesmente como uma questão de fato.

A mudança em minha alma após a recepção do sacramento da ordem sacerdotal trouxe consigo uma clareza quase instantânea de visão e um aperfeiçoamento da consciência em relação à Santa Missa e a tudo o que flui dela. Existem, simplesmente, coisas que, uma vez que você as conhece, você não pode não conhecer. Esta é a história da minha vida sacerdotal, pois quanto mais eu descubro sobre o desenvolvimento da doutrina e da práxis (particularmente na Igreja moderna ou “pós-conciliar”), mais eu me sinto impelido pela Igreja, minha Noiva, a “fazer algo” em toda a medida de que sou capaz, ainda que aceitando o meu papel limitado no Corpo Místico. Em duas palavras, posso dizer que uma vez que comecei a descobrir a Missa Tradicional e o modo de vida e a “cultura” que fluem organicamente dela e levam a ela, nunca consegui realmente “voltar”. Isso teve um alto custo.

Servi em duas paróquias “típicas”; em nenhuma delas a Missa Tradicional fazia parte do meu ministério público, pois eu estava tentando manter um “perfil baixo”. No entanto, eu celebrava o Novus Ordo de maneira muito tradicional, pregando sobre todos os tópicos importantes de nossa fé, e dedicando muito tempo e empenho à preparação do matrimônio, com um foco particular na virtude da castidade e da vida sacramental. O “povo fiel” gostava de mim, mas fui rapidamente desprezado pelos clérigos em posições de mando e que levavam vidas sacerdotais muito diferentes daquela que eu tentava seguir. Eu experimentei, em primeira mão, o jeito não-sacerdotal e claramente descaridoso com o qual os pastores da “nova misericórdia” tratam os sacerdotes favoráveis ​​e fiéis à “tradição”.

Fiquei algum tempo longe do ministério paroquial a fim de recuperar-me e para tentar entender o abuso espiritual que sofri nas mãos de pastores cuja missão é de promover a vida sacerdotal e não de destruí-la. Meu período sabático teve lugar em uma comunidade religiosa dedicada à chamada “reforma da reforma”.

Embora a nossa Missa conventual e o Ofício Divino fossem “tradicionais”, todos os membros da comunidade, sem exceção, “devem” engajar-se de alguma forma na participação no Novus Ordo Missae. Só isso já trouxe para mim uma forte dor de coração e um problema de consciência, pois o meu tempo aqui, separado da realidade cotidiana do business as usual nas paroquiais, me fez relembrar o que é precisamente aquilo em que eu creio no que concerne a Santa Missa e a cura pastoral das almas; no que eu creio sobre o mistério da Igreja e as “Núpcias do Cordeiro”; e como estou sendo atraído por Nosso Senhor para representar sua Pessoa, como noivo, na relação íntima com a Igreja, minha Noiva, particularmente na celebração da Santa Missa. As “duas formas” são apresentadas [nesta comunidade] como realidades igualmente aceitáveis, quase como um Café Litúrgico no qual se pode escolher o que se quer. Essa posição é baseada em certos escritos do Cardeal Sarah, assim como no documento Con Grande Fiducia do Papa Bento XVI, a carta pastoral que acompanha Summorum Pontificum, a qual, embora eu tenha subscrito plenamente no passado (e ainda considero ter sido uma de suas mais belas e paternas mercês como Pastor Supremo da Igreja universal), hoje não posso mais considerar adequada à magnitude do problema.

De tudo isso decorre muita ambiguidade, resultante de visões litúrgicas divergentes. Meus irmãos e eu compartilhamos o desejo de uma vida litúrgica “bela”, mas, para mim, essa beleza não é uma questão meramente estética. É algo mais profundo, mais filosófico, até mesmo ontológico: têm a ver com o que há – o não há – nos ritos da Igreja. Meus irmãos de comunidade compartilham laços de boa vontade e agradeço a Deus por isso… mas sem um padrão objetivo ao qual estejamos sujeitos, como uma comunidade pode crescer de forma ordenada? Essa, Dr. Kwasniewski, é minha dor, não só pela minha comunidade, mas também pela nossa Igreja, bela e doente.

Estou às voltas com uma aguda “questão crítica” sobre se posso ou não, em boa consciência, continuar a celebrar o Novus Ordo Missae. Essa crise não é “nova”, nem chegou a esse ponto por acaso. Foi emergindo, devagar mas possantemente, cada vez que celebrava a Missa num rito vácuo, que eu sei que representa um afastamento significativo e até mesmo prejudicial da tradição orgânica da Igreja e, portanto, de sua integridade; assim como do zelo pastoral pelas almas imortais, das quais eu, como sacerdote, sou um guardião.

Em minha vida sacerdotal antiga, eu era “entusiasta” pela “Reforma da Reforma” e acreditava que era, para a Igreja, “o caminho a seguir”. Eu simplesmente não acredito mais nisso. Uma das coisas que contribuíram de modo significativo para minha mudança de opinião e de atitude foi o fato de tantas vezes ter ficado ainda mais frustrado por esforçar-me em “embelezar” a Nova Missa em vez de simplesmente celebrar a Missa Tradicional (!). É como se o Novus Ordo tivesse sido construído para a desconstrução e a autodestruição. Como diz Martin Mosebach no prefácio de seu livro Noble Beauty, Transcendent Holiness [Nobre beleza, santidade transcendente], “a Liturgia é a Igreja”. Isso vale para qualquer Missa que seja celebrada, pois “a Igreja” ritualmente incorporada nela é “feita presente” através do ars celebrandi do verdadeiro ritus et preces de que é tecido toda missa, de qualquer rito que seja. Eu me pergunto, e ainda mais agora, com grande dor de coração: Como posso continuar a contribuir com (e a perpetuar) aquilo que eu percebo como uma mentira – a mentira do equívoco, da artificialidade, do crime espiritual de incúria e de “desnutrição” dos fiéis – tendo plena consciência de que estou “desfigurando” a Igreja pela celebração de uma Missa “desfigurada”?

Eu tenho maturado e desenvolvido meu pensamento sobre este assunto por muito tempo, com estudo e experiência, e com o desgosto de ver por todas partes o abismo enorme e a lacuna sem fundo que se abriram e estão almas em perdição por causa do Novus Ordo (mesmo quando “celebrado reverentemente”) e de tudo o que vai junto. Esta última frase é fundamental para mim: “tudo o que vai junto”. Pois, embora o problema se concentre na Missa, não é “apenas” sobre a Missa. Trata-se da Igreja, minha Noiva, em sua integridade e coerência vital. Eu estou em uma “batalha pela minha alma”, o que é sinônimo da batalha pela própria alma da Igreja.

Será muito bem-vinda sua opinião e seu “senso” do que eu manifestei – até mesmo o seu “corretivo” de qualquer coisa que eu tenha dito e que possa estar fora de lugar ou ser exagerado, míope, “extremo” ou algo desse naipe.

Com profunda gratidão pelo sua atenção e prometendo minhas orações pelo Sr. e sua família,

Pe. N.

* * *

A seguir, a resposta:

Caro Padre N.

Obrigado por suas palavras de agradecimento e por confiar-me a história de suas provações. Agradeço todos os dias pelo que o Senhor está fazendo na Sua Igreja, pois Ele leva muitas almas a enxergar verdades difíceis, mas libertadoras. Ele está fazendo uso desta crise inegável pela qual estamos passando como um alarme colossal para abrir os olhos as pessoas para as causas mais profundas de nosso mal-estar.

Tudo o que o Sr. descreveu sobre o seu caminho do Novus Ordo para a liturgia romana tradicional reflete exatamente minhas próprias experiências, pensamentos e sentimentos. Como o Sr. talvez tenha lido em meu livros Resurgent in the Midst of Crisis [Ressurgente em meio a Crise ] e Noble Beauty, Transcendent Holiness, eu fui responsável por quase trinta anos de fornecer música para ambas as “formas” da liturgia romana, de dirigir coros e scholas nos dois ritos, pelo que fiquei intimamente familiarizado com os textos, rubricas, cerimônias e música de cada um deles. Ao mesmo, estudei a História da Liturgia e a Teologia da Liturgia. Lentamente, cresceu em mim a convicção de que a reforma litúrgica foi um desastre para a Igreja.

Eu passei por todas as fases habituais. A primeira foi a fase “ingênua”, ou seja, que o problema não foi a reforma em si, mas como ela foi implementada. A segunda fase foi a da “crítica esperançosa”, ou seja, que a reforma tem problemas, mas que eles podem ser mitigados por celebrações bem feitas e, eventualmente, reformados de cima. A terceira fase, a “realista”, é que a reforma é falha em seus princípios fundamentais; não pode ser resgatada, mas deve ser rejeitada em favor do rito romano clássico.

O Sr. conhece o assunto tão bem quanto eu, mas leva tempo para entender a magnitude do problema – tempo, muita leitura, muita experiência, muita oração e uma certa intuição, que dificilmente ouso chamar de mística, mas que, entretanto, parece ser dada de cima: uma convicção imediata e incontestável da retidão da tradição e do errôneo de sua substituição moderna. Como o Sr. diz, chega-se a um ponto em que não se pode não saber, e não sentir nas profundezas da alma e dos ossos que algo está seriamente errado no Novus Ordo, e seriamente correto no culto tradicional da Igreja Católica.

O Novus Ordo não veio à existência do modo como os seres vivos são concebidos, nascem, maduram e alcançam seu apogeu; apareceu como são construídas as máquinas na era da indústria e da tecnologia. Isso ajuda a explicar por que um rito pré-fabricado tem grande dificuldade em inspirar o misticismo e oferece pouca nutrição para a vida contemplativa. Apenas alimentos e bebidas naturais podem saciar nossa fome e sede, e podem desenvolver olhos, pele, carne e ossos saudáveis. O Senhor, em sua Providência divina, não deu à sua Igreja acesso à graça sacramental à margem dos sinais sacramentais; Ele não nos deu sinais separados dos ritos que os fixam; Ele não nos deu ritos dissociados de orações, lições, música e cerimônias. Tudo isso é necessário para uma dieta saudável, e não apenas “a forma e a matéria do sacramento”, como o reducionismo neoescolástico professaria. Pode-se também trocar uma refeição de vários pratos por proteína em pó e comprimidos vitamínicos…

Os leitores às vezes têm dificuldades com a tolerância com o Novus Ordo que se encontra, eu o admito, no par de livros acima mencionados. Mas essa tolerância benigna já é coisa do passado. É exatamente como o Sr. diz em relação a Con Grande Fiducia e o Summorum Pontificum: em vista do dogma extraoficial de nunca questionar o Concílio ou qualquer coisa feita em seu nome, estes documentos foram divisores de água para um lugar e tempo determinados, mas eles estão seriamente lesados pela alegação construtivista e patentemente falsa de que não há ruptura [entre os dois ritos], assim como pelo relativismo litúrgico de aceitar múltiplas formas de um único rito, o que espelha o relativismo doutrinal e moral característico de nossos tempos.

Mas agora estou pregando para convertidos, ou pelo menos para um deles. O que eu pretendia dizer é que alguns leitores acharam a minha atitude em relação ao Novus Ordo preocupante, porque eles, mais rápidos do que eu (como São João foi mais célere em chegar ao túmulo do que São Pedro), já tinham, possivelmente há muito tempo, chegado à conclusão de que os novos ritos não poderiam ser endossados ​​e deviam ser evitados. Um professor de filosofia da Europa me escreveu o seguinte:

“O Sr. expõe as falhas do Novus Ordo de uma maneira muito convincente. A coisa toda foi um desastre e priva muitas almas do bem que com certeza receberiam se fossem familiarizadas com a Missa tradicional. Mas eu estava pensando: como é que o Sr. ainda pode trabalhar (segundo escreve em Noble Beauty) para o Novus Ordo, dirigindo cantos e música, quando afirma repetidamente – e com razão – que toda a invenção de Bugnini deve desaparecer? Eu entendo a ideia da paz litúrgica e de dar às pessoas que assistem à Missa Nova  a possibilidade de ter um vislumbre da verdadeira música sacra e assim por diante. Mas o Sr. não acha que isso contribui para a sobrevivência do que seria melhor estar morto e enterrado de uma vez por todas?”

Eu lhe respondi:

“Eu me tenho digladiado com essa questão há décadas. Até recentemente, minhas responsabilidades incluíam dirigir música tanto no usus antiquior quanto no usus recentior, mas eu me pegava amando o primeiro mais e mais, e odiando o último; servindo a um, e desprezando o outro. Na verdade, tornou-se uma tortura psicológica o participar do Novus Ordo. Eu sabia que o deveria deixar para trás para sempre. Agora estou participando exclusivamente da missa antiga e estou “no céu” – pelo menos no espelho litúrgico do céu. Para mim, meu trabalho com o Novus Ordo sempre foi prático ou de natureza pragmática: era parte da minha profissão e eu queria fazer o melhor que pudesse (pelo meu próprio bem, não apenas pelo bem dos assistentes: o canto gregoriano tornava a Missa de Paulo VI suportável para minha psique e minha sensibilidade, ainda que não para meu intelecto). Mas eu concordo com o seu ponto central, que seria melhor deixar perecer este “produto banal feito na hora”, e colocar toda a energia da pessoa em adorar ao Senhor da maneira mais digna d’Ele e mais perfeita para nós. É o que estou fazendo hoje e meus futuros livros demonstrarão meu próprio itinerário sobre esse assunto”.

A única diferença substantiva entre o seu caminho, Pe. N, e o meu é que o Sr. passou a ver todas essas coisas através da graça da ordenação e da cadeia diária de deveres sacerdotais, enquanto eu os vi como músico, oblato [beneditino] e teólogo litúrgico que não podia evitar de perceber “uma coisa após a outra…”

Assim, eu não acho que o Sr. seja “louco”, “extremista”, “obcecado”, ou qualquer que seja o rótulo que seus inimigos (ou seus próprios medos) possam colocar no Sr. Em vez disso, o Sr. tem seguido seriamente o instinto da fé, o impulso de caridade, as obrigações de piedade, as exigências da virtude da religião – a necessidade de uma coerência total entre a lex orandi, a lex credendi e a lex vivendi. A exposição contínua dos fiéis à liturgia tradicional com tudo aquilo que a acompanha, como o Sr. acertadamente acrescenta, associada com a disposição de absorver e ponderar suas lições, necessariamente mostrará a falência do ersatz de liturgia fabricada por racionalistas adeptos do Sínodo de Pistoia, simpatizantes comunistas, e provavelmente ​​maçons, assim como de todo o projeto de “neo-catolicismo” (como alguns o chamam, enfaticamente, mas com acerto). É um despertar difícil, mas salutar. Alguns escritores tradicionalistas usam o cliché “pílula vermelha” para descrever esse processo das escamas caindo dos olhos.

(Apresso-me a acrescentar que alguns tradicionalistas não têm a suficiente educação filosófica e teológica que lhes permitiria fazer distinções e extrair apenas as conclusões que são exigidas pelas evidências. Por exemplo, vendo sérios defeitos na liturgia reformada, eles tiram falsas conclusões sobre sua validez; vendo o abuso repetido do ofício papal, eles tiram conclusões falsas sobre a vacância da Sé; à vista de elementos modernistas em João Paulo II, eles tiram a falsa conclusão de que a obra de toda a sua vida deve ser jogada fora. Poderíamos multiplicar tais exemplos indefinidamente.)

Sabemos que Deus pode tirar o bem do mal, e é por isso que Ele pode santificar as almas, e realmente as santifica, até com os instrumentos de uma reforma não santa, pois mesmo de pedras sem vida, Ele pode criar filhos de Abraão. No entanto, seu modus operandi habitual é criar os filhos pelos pais, não por pedras; e da mesma forma, Ele cria a Igreja a partir de sua tradição patrilinear, nas mãos de sacerdotes que são verdadeiramente pais no sulco dessa tradição, os quais transmitem o nome de família, o sangue e a herança.

Muitos sacerdotes, religiosos e leigos me escreveram ao longo dos anos, dizendo, em essência: “Esta nova empresa é oca e prejudicial, e eu não posso mais fingir que a apoio; Eu não quero fornecer-lhe a menor credibilidade, nem sequer embrenhar-me contra ela”. Eles se perguntam que diabos fazer: “Será que eu ainda posso ir à missa na minha paróquia?” “A qual congregação religiosa devo ingressar?” “Posso voltar a celebrar a Missa nova?”

O Senhor nos dá intuições e convicções tão poderosas a fim de nos levar a tomar medidas adequadas para a glorificação de Deus, para a nossa própria santificação e para a edificação de todo o Corpo de Cristo. Nesse sentido, “surfar a onda”, “ter jogo de cintura”, “resignar-se”, parecem ser opções autodestrutivas. A menos que alguém se sinta confortável correndo o risco de esquizofrenia espiritual, de estresse nervoso ou de violar a própria consciência afastando-se das inspirações de Deus, num dado momento uma decisão tem que ser tomada a favor ou contra o catolicismo tradicional.

Tais decisões estão cheias de perigos e de angústia. Um sacerdote escreveu-me dizendo que havia sido transferido várias vezes porque continuava se recusando a distribuir a Sagrada Comunhão na mão ou a usar ministros extraordinários da Eucaristia. Vários sacerdotes que conheço foram suspensos por pregar contra a homossexualidade (isso acontecerá mais e mais). Um sacerdote que redescobriu a Fé através do movimento carismático ingressou numa nova ordem religiosa e teve que abandoná-la quando aprendeu a celebrar a missa antiga e viu, como que pela primeira vez, a essência da Missa enquanto sacrifício propiciatório, como humilde homenagem, como ardente súplica à Santíssima Trindade, como a soberana oração tanto pública quanto pessoal. Um sacerdote diocesano me escreveu em agonia porque sua alma anseia por celebrar a missa tradicional, mas ele está celebrando uma missa no rito ordinário, versus populum e em língua vernácula, para um grupo de pessoas que não acredita em quase nada. Há até alguns bispos a respeito dos quais se poderiam dizer as mesmas coisas.

Você percebeu com precisão o âmago da crise eclesial, que é a crise da liturgia e, portanto, também do sacerdócio. Permaneceremos nessa crise enquanto a liturgia tradicional não for totalmente restaurada e enquanto a liturgia experimental moderna não seja repudiada.

Não se pode ser ao mesmo tempo tradicional e moderno na liturgia, pois os princípios são contraditórios. Não se pode acreditar que o Espírito Santo guiou a Igreja através dos séculos, e depois abraçar uma liturgia cuja premissa fundamental é que, há muitos anos, faltavam à liturgia muitas características que indispensáveis e que estava repleta de corrupções que deviam ter sido removidas. Não se pode louvar a espiritualidade dos grandes santos, a partir dos Padres do Deserto até os beneditinos, os místicos medievais, os carmelitas, os Doutores, etc. e ao mesmo tempo contradizê-los de fato nas práticas litúrgicas e devocionais.

O que deve ser feito? Parece-me que o único caminho a seguir é unir-se a uma comunidade religiosa ou sociedade de vida apostólica que seja assaz previdente e corajosa para celebrar unicamente a liturgia tradicional, seja no Rito Romano ou num uso específico de alguma ordem. Ao longo deste caminho encontra-se paz de consciência e conforto da alma, luz para a mente e calor para a vontade. Ao longo deste caminho está o mais exigente e recompensador exercício do dom do sacerdócio [a Santa Missa], juntamente com o fruto mais abundante para os católicos fiéis que procuram a Deus nos sublimes mistérios do seu amor.

O Sr. conhece o livro In Sinu Jesu: When Heart Speaks to Heart — The Journal of a Priest at Prayer [In Sinu Jesu: Quando o Coração Fala ao Coração – Diário de um Sacerdote em Oração]? Eis três passagens que eu gostaria de compartilhar com o Sr., nas quais Nosso Senhor fala:

“Eu não vou abandonar-te ou desamparar-te. Eu sou fiel. Eu te escolhi e tu és meu. Por que duvidas do meu amor por ti? Não te dei sinais do meu favor? Não te mostrei que Minha misericórdia preparou para ti um futuro cheio de esperança? Não te prometi anos de felicidade, de santidade e de paz? Minha benção está sobre ti e os desígnios do Meu Coração estão prestes a se desdobrar sobre ti. Tu só tens que confiar em mim. Acredita que te guardarei como a menina dos meus olhos. Tu estás seguro sob o manto da minha mãe. Eu te abraço perto do meu coração ferido. Confie que Eu cumprirei tudo o que te prometi”.

“Avança na simplicidade, livre do medo e confiando na Minha misericordiosa providência para preparar todas as coisas para um futuro cheio de esperança. Deixa a preparação do futuro inteiramente em minhas mãos. A tua parte é permanecer fiel à adoração que te pedi”.

“Oferece-me o presente e eu cuidarei de consertar teu passado e de preparar teu futuro”.

Elevarei orações pelo Sr. ao Pai das Luzes, pedindo a Ele, pela intercessão de Nossa Santíssima Senhora, de São José, de São João Vianney e de seu santo anjo da guarda, que lhe envie a luz de que o Sr. precisa para conhecer seus próximos passos e a força para perseverar apesar de todos os obstáculos. A Igreja está passando por uma crise que pode ser superada apenas pela fé heroica. Pessoas boas serão agredidas e chacoalhadas, mas com isso o joio será retirado e miolo do trigo preparado como sacrifício ao Senhor. Esta também será uma das obras de Nossa Senhora, através da qual Ela trará à luz um clero purificado e uma Igreja purificada.

Seu irmão em Cristo

Peter Kwasniewski

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19 novembro, 2017

Foto da semana.

Por Joseph Shaw, Latin Mass Society, 17 de novembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.comDom Luke Li Jingfeng, de Fenghsiang, um bispo “clandestino” sagrado secretamente, morreu nesta manhã (11:20pm GMT), aos 97 anos. Por favor, reze por ele.

Bispo Li

Dom Li foi um pilar do tradicionalismo, bem como da verdadeira fidelidade à Sé de Pedro, na Igreja de língua chinesa.

Aos seus 90 anos, ele traduziu o missal de 1962 para o chinês, a fim de ajudar o clero de língua chinesa a compreender as orações. Esse gigantesco projeto continuará a ser de grande significado para os Católicos chineses pelo futuro.

Em um nível mais pessoal, ele e alguns dos padres de sua diocese deram muito apoio ao movimento pela Missa antiga.

Novus Ordo Missae não foi introduzido na china ao menos até a década de 80, então lá permanece uma geração de padres que foram educados na Missa tradicional no seminário. Veja o Position Paper da FIUV (Una Voce) sobre a Forma Extraordinária e a China. 

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29 novembro, 2014

“Obediência”? “Respeito”? Não vamos tolerar nenhuma lição de moral daqueles que moralmente assassinaram Bento XVI!

O grande medo dos Conformistas: Nós não aceitamos qualquer lição de moral daqueles que moralmente assassinaram Bento XVI!

Por Dom Pio Pace – Rorate-Caeli | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum,com: Já há algum tempo até bem recentemente, que modernistas, liberais, os autointitulados “moderados” e jornais e blogs considerados “levemente conservadores” têm protestado contra o que eles consideram como uma “guerra implacável” travada por Católicos ortodoxos contra o Papa Francisco e suas orientações.

Estamos bem no meio da parábola do cisco e da trave no olho!  E eles não criticaram, sem um momento de descanso, João Paulo II e sua tentativa de uma pequena “restauração”?  E são essas boas almas que agora nos querem dar lições? E não foram eles que destruíram Bento XVI num nível que só pode ser considerado como assassinato moral? Bento XVI, de quem os liberais já diziam entre si, no dia seguinte à sua eleição: “Este não vai durar mais do que dois anos”! O mesmo Bento XVI, a cujos inimigos Arcebispo Piero Marini convocava abertamente com um  grito de guerra: “Resistere resistere resistere!!”

Eles, então, agora querem nos dar lições, os mesmos que, por meio de seu incessante e brutal ataque contra Bento XVI, seja pela mídia Católica ou pela grande mídia secular, seja por vazamentos de documentos, seja por pressão financeira, seja destruindo-o pelo que ele fez ou pelo que deixou de fazer, seja por causa do que ele disse ou não disse, forçaram-no a apresentar a sua renúncia. Eles agora não só querem nos aniquilar, como fizeram com ele, mas ainda querem que nós os agradeçamos por sermos executados, querem que a gente ache graça no fato de sermos massacrados e que ainda peçamos desculpas pelas manchas de sangue salpicadas em suas roupas impecáveis…

Agora, esses bons apóstolos subitamente descobriram as virtudes da “obediência” e da “humildade”, ao nos dar lição sobre o “respeito”  devido a Pedro, como se, ao declarar a verdade — nem sempre fácil de se ouvir, e de uma forma muito mais suave e proporcional do que eles jamais fizeram – estivéssemos faltando com a obediência e o respeito. No entanto, é precisamente devido a nossa fé em Pedro e devido à nossa obediência incondicional à Igreja e toda a sua tradição que devemos falar como nós falamos.

A verdade é que eles têm medo.

Eu vejo três razões para isso.

1) A primeira razão é que os conservadores têm demonstrado uma capacidade absolutamente notável e inesperada de adaptação às novas mídias. Sua capacidade de estar presente, a sua prontidão em reagir, de comentar imediatamente, de fornecer análises tão logo os eventos acontecem, multiplicando tudo isso por blogs, por websites e por todo o mundo da mídia social… É preciso que seja dito que o Catolicismo tradicional, hoje em dia, sob todas as suas formas e tendências, é em parte resultado da modernidade e… do Concílio Vaticano II. Este Concílio quis dar voz aos leigos. E, para espanto dos guardiões do “espírito do Concílio”, os leigos tomaram isso ao pé da letra! Mas estes não são os leigos clericalizados do estabelecimento liberal, mas sim os novos Católicos ortodoxos. A partir da promoção do individualismo como resultado das mudanças implementadas na Igreja, eles foram capazes de tirar proveito dessas mudanças em um modo que seus artífices e partidários jamais poderiam ter previsto. Na época do Concílio Vaticano II, a ira dos liberais foi desencadeada contra o Cardeal Ottaviani, e eles acabaram sendo bem sucedidos em liquidá-lo. Hoje, os liberais estão tendo que encarar diante deles exércitos de pequenos Ottavianis em tudo que é mídia e fóruns católicos. E muitos dentre esses são bastante articulados!

2) A segunda razão é que a facção pró-Vaticano II está envelhecendo muito rápido e sendo atingida por uma hemorragia de “leigos engajados”, leigos clericalizados que também se tornaram leigos “desespiritualizados”, ou seja, que estão desanimados, e caem como vítimas de costumes e práticas burguesas da atualidade. Há também um importante número de Católicos a quem Joseph Malègue – um romancista francês apreciado pelo Papa Francisco – chama de “as classes médias de salvação”. São os Católicos que praticam sua religião de modo mais ou menos regular, mas que não frequentam a confissão, que organizam a sua religião e seu sistema de crença Católica de acordo com as tendências liberais de pensamento e assim agem no meio em que vivem. Estas são as ovelhas sem pastores, porque a Igreja que agora está de pé, de modo algum os desperta de sua letargia espiritual. (E não pensem que esta é uma tendência apenas das nações do hemisfério norte, muito pelo contrário: na América Latina, aqueles que estão espiritualmente engajados, que valorizam tradições familiares não encontram espaço e acolhida na Igreja, acabam indo parar no pentecostalismo, enquanto a maioria dos que permanecem nominalmente Católicos são precisamente os membros dessas “classes médias” letárgicas e desengajadas

Por outro lado, o Catolicismo “conservador” representa, em todas as suas nuances, tendências, correntes, novas comunidades, comunidades tradicionalistas, movimentos de jovens, grupos de identidade, seminaristas neo-clássicos, “novos sacerdotes”, “freiras com véus”, decididamente escolas e faculdades Católicas, o que podemos chamar as “forças vivas” da Igreja de  hoje. A bem da verdade, é um mundo extremamente diversificado, mas para os quais,de tradicionalistas de um lado a conservadores moderados do outro, e incluindo aí quase toda a Igreja na África, a nova orientação tomada por Roma desde março de 2013 “não dá pra ser engolida”. Bem, este Catolicismo é claramente o Catolicismo de amanhã. É, evidentemente, minoritário, mas é uma minoria que não cessa de crescer, porque é o único que é verdadeiramente fértil em vocações (ou fértil, em todos os sentidos!).

3) Esta segunda razão, sublinhada pelo debate público engajado pela primeira, deixa claro a existência de um “racha” entre uma parte considerável do atual “establishment” Católico e uma “elite” de cardeais ” e bispos e o “novo Catolicismo”, uma discrepância que se torna cada vez mais evidente. O erro fundamental do pontificado de Bento XVI foi o de não ter reduzido essa lacuna por meio de fortes nomeações episcopais (exceto, em parte, nos Estados Unidos). Qualquer que seja a interpretação “profunda” que se tente dar ao pontificado atual, fica evidente que ele só faz ampliar essa discrepância. Papa Francisco, com todas as suas habilidades de manobra, é um homem de outra era. Ele já cometeu erros consideráveis, como o caso dos Franciscanos da Imaculada e a submissão da indissolubilidade do matrimônio àquele show de votação durante o Sínodo. Erros que causaram um dano muito mais profundo à sua credibilidade do que o caso Williamson e o Vatileaks causaram  a Bento XVI.

Em suma: se os liberais pretendem infligir aos conservadores um complexo de culpa, na verdade são eles que estão demonstrando-se (culpados de assassinato moral como eles de fato o são) reduzidos a uma atitude muito defensiva. Eles não vão conseguir silenciar aqueles que agem por meio de oração, escritos, petições, debates, protestos, pois os que assim agem são movidos por Aquele que é a Verdade e a Justiça. E que sabem que o Cristo da bem aventurança da paz é o mesmo que expulsou a golpe de chicotadas os mercadores do Templo.

5 maio, 2014

O que é exatamente um tradicionalista?

Por Christopher A. Ferrara – The Remnant | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com

O fato de que hoje em dia existem católicos denominados “tradicionalistas” é algo sem explicação em toda a história anterior da Igreja Católica. Mesmo no auge da crise ariana — a situação mais análoga à nossa — a Igreja não estava dividida entre tradicionalistas e não tradicionalistas, mas sim entre aqueles que não abraçaram a heresia de Ário e os que o fizeram.

Católicos tradicionais assistindo a uma Missa Tradicional durante a Segunda Guerra Mundial? Não, apenas católicos assistindo À Missa durante a Segunda Guerra Mundial.

Católicos tradicionais assistindo a uma Missa Tradicional durante a Segunda Guerra Mundial? Não, apenas católicos assistindo À Missa durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas o que é exatamente um tradicionalista? Uma olhada no passado para vermos o modo como as coisas eram antigamente poderá ajudar a transmitir o significado do termo de maneira mais eficaz do que as tentativas habituais de uma definição formal:

–        Antigamente não havia rito de Missa traduzido para as línguas vernáculas do mundo. Havia apenas o idioma litúrgico universal de uma Igreja perene, como podemos ver no Rito Romano imemorial, cujo desenvolvimento orgânico havia prosseguido quase imperceptivelmente desde o século V, ou nos veneráveis ritos orientais, quase tão antigos, que, em grande parte, escaparam ao furioso vandalismo litúrgico que devastou a liturgia principal da Igreja.

–        Antigamente não havia altares-mesa no estilo luterano em nossas igrejas, mas somente altares-mores voltados para Deus, cuja própria aparência despertava o sentido de temor respeitoso e reverência nas pessoas.

–        Antigamente não havia leitores leigos, “ministros da Eucaristia” leigos ou meninas no presbitério, mas somente padres, diáconos a caminho do sacerdócio e os acólitos, que eram a fonte primária de geração após geração das vocações sacerdotais, que enchiam os seminários.

–        Antigamente não havia música profana durante a Missa, mas somente canto gregoriano ou polifonia, despertando a alma para a contemplação do divino, ao invés batidas de pés, palmas ou puro tédio.

–        Antigamente não havia abusos litúrgicos disseminados. No máximo, havia padres que celebravam a Missa tradicional de maneira deficiente, mas dentro de uma estrutura de rubrica, texto e música que, no entanto, protegia o seu mistério central de qualquer possibilidade de profanação e mantinha a dignidade suprema do culto divino contra a fraqueza humana.

–        Antigamente não havia “Máfia gay” nos seminários, nas cúrias e no próprio Vaticano, ou clérigos predadores que molestavam meninos ao redor do mundo, porque as autoridades da Igreja faziam valer a regra de que “os votos religiosos e a ordenação deveriam ser proibidos aos candidatos afligidos por más tendências ao homossexualismo ou à pederastia …”[1]

–        Antigamente não havia seminários vazios, conventos vazios, paróquias abandonadas e escolas católicas fechadas. Havia somente seminários, conventos, paróquias e escolas repletas de católicos fiéis provenientes de família numerosas.

–        Antigamente não havia “ecumenismo.” Havia somente a convicção de que a Igreja Católica é a Igreja única e verdadeira, fora da qual não há salvação. Os católicos seguiam o ensinamento da Igreja que “[diz] que os fiéis não podem de maneira alguma assistir ativamente ou participar de qualquer culto de acatólicos,”[2] e eles compreendiam, mesmo se apenas de maneira implícita, o que o Papa Pio XI insistia sobre: “Veneráveis Irmãos, é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes à reuniões de acatólicos: por quanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela. Dizemos à única verdadeira Igreja de Cristo: sem dúvida ela é a todos manifesta e, pela vontade de seu Autor, Ela perpetuamente permanecerá tal qual Ele próprio A instituiu para a salvação de todos.”[3]

–        Antigamente não havia “diálogo.” Havia somente evangelização pelo clero e apologistas leigos com o objetivo de converter as pessoas à verdadeira religião. E havia os convertidos, que entravam para a Igreja em números tão grandes que parecia mesmo que os Estados Unidos estavam se tornando uma nação católica, uma vez que 30 milhões de americanos ouviam o programa de rádio de Dom [Fulton] Sheen todo domingo.

–        Antigamente não havia defecções em massa do sacerdócio, das ordens religiosas, e de leigos, levando à “apostasia silenciosa” na Europa e em todo o Ocidente. Em vez disso, havia aquilo que um Padre do Concílio Vaticano Segundo descreveu no início do Concílio: “a Igreja, não obstante as calamidades que grassam no mundo, está experimentando uma era gloriosa, se vocês considerarem a vida cristã do clero e dos fiéis, a propagação da fé, e a influência universal salutar que a Igreja possuía no mundo de hoje.”[4]

–        Antigamente não havia “Católicos Carismáticos,” “Neo-Catecumenais,” ou outros “movimentos eclesiais” promovendo novos modos estranhos de culto inventados por seus fundadores. Havia somente católicos, que praticavam o culto da mesma maneira que seus antepassados com continuidade inquebrável durante séculos.

–        Antigamente não havia tradicionalistas, porque não havia necessidade de descrever qualquer católico com essa expressão. Todos os católicos aceitavam instintivamente o que uma série de papas havia prescrito como parte da própria profissão de nossa fé: “Admito firmemente e abraço as tradições apostólicas e eclesiásticas e outras observâncias e constituições da Igreja.”[5]

Antigamente as coisas eram assim. E quando foi essa época passada de que escrevo? Isso não foi há séculos, nem mesmo há um século, ou mesmo uma única era, mas há meros cinquenta anos, dentro da memória de vida de muitos milhões de católicos hoje em dia.

Então o que é um tradicionalista? Ele não é nem mais nem menos do que um católico que continua praticando a fé precisamente da maneira que a aprendeu em sua infância, ou que recebeu a mesma fé sem reconstrução de seus pais e que, em troca, a transmitirá a seus próprios filhos. Um tradicionalista, em outras palavras, é um católico que vive a fé como se as calamidades eclesiásticas da época pós-Vaticano II nunca tivessem acontecido – sem dúvida, como se o próprio Vaticano II nunca tivesse acontecido. E a verdade espantosa sobre o tradicionalista é que nenhuma doutrina ou regra disciplinar da Igreja o proíbe de acreditar e prestar culto a Deus dessa mesma maneira, muito embora a grande maioria de católicos não o façam mais.

O fato de existirem católicos que simplesmente continuaram crendo e prestando culto da maneira como os católicos sempre fizeram antes do Concílio, hoje em dia chamados de tradicionalistas — muitos de uma hora para outra em termos históricos —, e que a própria palavra tradição agora distingue esses relativamente poucos católicos da vasta maioria dos membros da Igreja, é um sinal inegável de uma crise como nenhuma outra que a Igreja jamais testemunhou. Aqueles que negam esse fato teriam que explicar porque somente dentro dessa vasta maioria transformada, corretamente descrita como neo-católicos, a fé está constantemente perdendo o controle sobre as pessoas, e muitas delas estão caindo completamente na “apostasia silenciosa” que João Paulo II lamentou em anos recentes após saudar por tantos anos uma “renovação conciliar”, que foi efetivamente um colapso maciço da fé e da disciplina.

Particularmente, eles teriam que explicar porque é que somente dentro dessa vasta maioria de “Católicos do Vaticano II” encontramos

–        mais de um quarto de todos os casamentos que acabam em divórcio,[6] com dez milhões de católicos divorciados e “recasados” no mundo todo, cujo adultério permanente o Cardeal Kasper deseja conciliar, com o aparente encorajamento do atual Papa reinante;

–        nascimentos, batismos, casamentos sacramentais, conversões e frequência à Missa diminuindo implacavelmente desde o Concílio;[7]

–        uma rejeição disseminada do ensinamento infalível da Igreja sobre assuntos fundamentais de fé e moral;[8]

–        uma perda repentina e dramática de vocações sacerdotais, deixando o sacerdócio católico ligeiramente menor hoje em dia do que ele estava em 1970, e um declínio drástico no número de religiosos desde então, apesar do dobro da população mundial.[9]

Eles teriam que explicar também porque é somente dentre a pequena minoria de católicos atualmente denominados tradicionalistas que nenhum desses sinais de declínio eclesiástico é evidente.

Em dias recentes a crise eclesiástica que nos acompanha há mais de meio século parece ter atingido uma profundidade da qual não pode haver recuperação sem uma intervenção divina miraculosa. O mundo está cantando hosanas ao novo Papa, incentivando-o à conclusão final, per impossibile, do processo de autodemolição eclesial que Paulo VI passou seus últimos anos lamentando, embora ele mesmo o tivesse desencadeado. Ainda assim, o sistema neo-católico continua a sua marcha confiante para além do ponto sem volta, justificando todas as evidências de desastre, ao mesmo tempo em que defende os tradicionalistas como especialistas obstinados de nostalgia, cujas “sensibilidades” podem ser conciliadas, mesmo se eles não se preocupam mais com o futuro da Igreja. Porém, na verdade, os tradicionalistas são o futuro da Igreja, como a história de nosso tempo irá registrar quando for escrita.

O que é exatamente um tradicionalista? Ele é o que todo católico foi outrora, e será novamente quando a crise passar.

* * *

[1]“Instrução sobre a Seleção e Treinamento Criteriosos dos Candidatos para os Estados de Perfeição e Ordens Sagradas” [1961])

[2]Can. 1251, §1, CIC (1917),

[3]Mortalium animos (1928), n. 10.

[4]Wiltgen, O Reno se Lança no Tibre, p. 113 (citando o Patriarca Armênio da Cilícia).

[5]Papa São Pio X, Pascendi (1907), nº 42 (citando e afirmando a validade contínua  de uma profissão de fé prescrita por Pio IV e o Beato Pio IX).

[6]Cf. análise estatística da Universidade Georgetown pelo Centro de Pesquisa Aplicada no Apostolado (CARA), http://nineteensixty-four.blogspot.ca/2013/09/ divorce-still-less-likely-among.html.

[7]Cf. Análise de tendências estatísticas CARA, http://nineteensixty-four.blogspot.com/2010/08/there-will-likely-be-fewer-catholic.html

[8]Cf. Pew Research Poll,18 de março de 2013, http://www.pewforum.org/2013/03/18/us-catholics-happy-with-selection-of-pope-francis/.

[9]Cf. Tabela estatística CARA, http://cara.georgetown.edu/caraservices/requestedchurchstats.html.

1 dezembro, 2013

Foto da semana.

patriarca

Ecce Sacerdos magnus, qui in diebus suis placuit Deo et inventus est iustus – Basílica de São Pedro, Vaticano, 25 de novembro de 2013: O Arcebispo Maior de Kyiv-Halyč, Dom Sviatoslav Shevchuk, conduz a peregrinação de clero e fiéis da Igreja Greco-Católica Ucraniana a Roma, por ocasião do quinquagésimo aniversário da translação das relíquias de São Josafá para a Basílica de São Pedro.

Após o encontro com o bispo de Roma, o “Patriarca” — assim o jovem arcebispo é considerado por sua Igreja, embora as relações ecumênicas do Vaticano com os Ortodoxos estejam impedindo, há anos, o seu reconhecimento enquanto tal — celebrou a Divina Liturgia no Altar da Cátedra. Uma coisa é certa: o futuro da Igreja está em sua Tradição, tão valorizada por nossos irmãos do oriente.

Sviatoslav-offering-Liturgy-at-St-Peters

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27 novembro, 2013

Revolução e Tradição.

Por Pe. Alberto Secchi – Radicati nella Fede | Tradução: Gederson Falcometa – Fratres in Unum.com – O que fazer quando tudo parece imerso em uma confusão tremenda? O que fazer quando não parece subsistir nada de certo? O homem é feito para viver diante de Deus e em Deus encontrar a própria consistência e paz. Outrora, [a hierarquia da] Igreja Católica comunicava esta paz. Era o mundo, aquele distante de Deus, a estar em continua agitação, mas não a Igreja. A Igreja era a estabilidade.

Era o mundo sem Deus a estar imerso em uma contínua Revolução, e esta Revolução contínua era amada pelas almas instáveis e desesperadas que, descontentes da vida, buscavam ansiosamente uma impossível novidade que apagasse o seu vazio interior.

A Igreja não. Sempre igual a si mesma, estabelecida e pacífica na estabilidade de Deus, avançava no mar da história e era o navio seguro para as almas que não amavam a Revolução, reconhecendo-a falsa e enganosa.

Era o mundo moderno que, não querendo depender mais de Deus e de nenhuma autoridade, criticava a Igreja acusando-a de não mudar nunca! Não acreditando em Deus, o mundo moderno não entendia a estabilidade da Igreja, porque no fundo não entendia a estabilidade de Deus.

Assim, em meio a todas as terríveis revoluções, a Igreja com os seus santos, com a graça sobrenatural dos seus sacramentos, com a verdade imutável revelada por Deus e transmitida pela Tradição e pela Escritura, caminhava no mundo, arrancando todas as almas que podia da Revolução que mata, para levá-las a seu seio, na estabilidade da graça que edifica.

Tantos eram atingidos pela maravilhosa paz que emanava da Igreja Católica, paz que convencia e convertia, paz que está entre os maiores sinais de Deus.

Quantas conversões à Igreja Católica também no mundo protestante: eles tinham se adaptado à modernidade sempre mais ateia e indiferente, mas esta modernidade não dava paz e muitos, assim, retornavam à Igreja Católica. Descreve muito bem esta situação Carlo Lovera de Castiglione no seu famoso texto sobre “O movimento de Oxford”. Assim disse, falando da crise doutrinal desencadeada dentro da igreja anglicana na metade do século XIX : “… os fiéis, alguns não sabiam mais o que pensar, outros tomavam partido dos inovadores, muitos olhavam além dos confins da Igreja Estabelecida, para os Católicos Romanos, para os quais a serenidade da fé e a imutabilidade da doutrina se refletia na posse da verdade, plena de segurança e de paz.” (Carlo Lovera di Castiglione, Il movimento di Oxford, Morcelliana 1935, pag. 220).

“A serenidade da fé e a imutabilidade da doutrina se refletia na posse da verdade, plena de segurança e de paz.”: como são doces estas palavras. E a doçura própria de Deus que doa à Igreja aquela serenidade que todo coração busca.

Mas agora tudo mudou… chegaram dias terríveis que a retórica politicamente correta dos cristãos amodernados não pode esconder: a Revolução do mundo ateu entrou na Igreja e está consumindo tudo. Não existe mais estabilidade, a Igreja parece ter entrado em uma perene Revolução que tudo muda continuamente: confusão nos ritos, confusão na doutrina, confusão na moral e confusão na disciplina. Não se sabe se a verdade de hoje durará até amanhã. Tantos padres e fiéis correm afanosamente para não ficar para trás, para adaptar-se como podem a esta extenuante confusão.

Quem busca verdadeiramente a Deus, nesta Igreja revolucionária, permanece terrivelmente sozinho.

O que fazer neste clima asfixiante? E o que não fazer?

Antes de tudo, é preciso não deixar-se tomar pela agitação, é preciso não reagir como os revolucionários: seria como curar o mal, que é precisamente a Revolução, com a própria doença. O espírito revolucionário, também quando pretende salvar o bem, não será jamais a solução.

É preciso, antes, estar verdadeiramente fora da Revolução, vivendo integralmente o catolicismo naquela estabilidade que lhe pertencia antes que a Revolução invadisse tudo.

Na confusão escura, nas trevas, urge decidir diante de Deus a viver como católicos, estavelmente. Por isso é preciso encontrar um lugar que te comunique a paz da fé em posse da verdade revelada. Um lugar onde é celebrada a Missa Tradicional: elegê-lo como referência para a própria vida, deixando-se educar por este lugar. Não viver agitado em uma luta perene, mas viver como católico na liturgia de sempre, na doutrina de sempre, na graça de sempre segundo os sacramentos de sempre; e assim realizar todo o bem que o Senhor nos permite cumprir.

Disse o Padre Calmel: “Isto será sempre possível na Igreja, isto a Igreja assegurará sempre, apesar das tentativas diabólicas da nova Igreja pós-vaticanesca: alcançar verdadeiramente a santidade, poder se instruir, em um grupo real, ainda que pequeno, sobre a doutrina imutável e sobrenatural, sob uma autoridade real e conservando a segurança que permanecerá sempre nos verdadeiros sacerdotes e nos Bispos fiéis, que não se demitiram (talvez mesmo sem notar) nas mãos das comissões e da colegialidade.”

Caríssimos, se vivermos assim, as trevas terríveis de hoje permanecerão fora dos nossos corações.

Rezemos para que Nossa Senhora nos obtenha este refúgio, e que nós busquemos de lhe ser sempre mais dignos.

28 janeiro, 2013

Infalibilidade monolítica e divergências entre antimodernistas.

Por Arnaldo Xavier da Silveira

1. O mundo católico deve muito ao povo simples que conserva a fé verdadeira, bem como aos escritores e homens de ação antimodernistas que nos últimos decênios têm desenvolvido amplamente as doutrinas e ações em defesa do depósito sagrado da Tradição. Em variados campos da teologia, especialmente na eclesiologia e na liturgia, o aprofundamento dos princípios tradicionais tem sido notável; e, no terreno prático da vida católica, igualmente, os antimodernistas têm batalhado com denodo heroico que no futuro a História da Igreja registrará com destaque.

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7 dezembro, 2012

O Modernismo é ideológico – a Tradição é realista, mas deve ser vivida com simplicidade.

O Modernismo é ideológico, a Tradição, pelo contrário, é realista.

Peregrinos chegam ao Santuário Nacional de Aparecida.

Peregrinos chegam ao Santuário Nacional de Aparecida.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com – É o modernismo, com conceitos abstratos adotados da cultura dominante, que reivindicou transformar a vida e o pensamento católicos. A partir da filosofia moderna — idealismo, personalismo e a psicologia ideológica da modernidade –, o modernismo quis adaptar as verdades da Fé a vida real dos cristãos; fazendo-o, ele destruiu tudo e tornou a vida cristã, primeiramente falsa, e depois inútil e impossível de ser vivida.

No modernismo, tudo vem da ideologia; as reflexões de pensadores contemporâneos ateus e agnósticos são acolhidas acriticamente como boas; e há um desejo de forçar o pensamento católico a se adaptar a eles, de modo que não permaneça “fora da história”. É um contínuo desejo de “acompanhar os tempos”, fazendo com que o cristianismo não envelheça. Não é a realidade que comanda, mas a ideologia e as ideias de intelectuais.

A Tradição, pelo contrário, vem da realidade.

A realidade onde Deus Se revela é dada a conhecer, e a realidade do homem, pobre pecador, que tem necessidade da salvação que ele é incapaz de dar a si mesmo. Isto é o realismo e a simplicidade cristã. O homem que é humilde de coração e que não foi corrompido pelo orgulho dos últimos intelectuais da moda, experimenta este simples realismo que o permite encarar a sua existência e agir dignamente. Ele percebe que tudo na vida se torna claro.

O orgulho torna o homem delirante: faz com que ele complique a simplicidade de Deus e o faz perder o caminho da salvação. O orgulho – orgulho da inteligência e do coração – impede suas habilidades de raciocinar e o faz, assim, complicar tudo… e “o Senhor dispersou o orgulhoso na presunção de seu coração”.

Contudo, é necessário estar sempre vigilante.

Mesmo na Tradição esse orgulho pode “retornar”. Orgulho que arruína tudo. A Tradição deve ser vivida com simplicidade e não com arrogância. Toda ela deve ser vivida no firme realismo: a Missa de sempre deve ser celebrada e assistida porque salva o mundo do abismo. E não meramente como uma manifestação – como uma posição “política” – contra a modernidade. Uma peregrinação tradicional com a Missa de sempre deve ser realizada não como uma demonstração de força, como que para provar aos modernistas que essas coisas são mais bem feitas pelos conservadores. Antes, deve ser feita como um apelo urgente ao perdão e à graça de Deus, pela intercessão da Bem Aventurada Virgem Maria e de todos os Santos, como, por exemplo, nós fizemos na segunda peregrinação a Oropa [Santuário dedicado à Virgem Negra próximo a Biella, Piemonte, Itália], que é parte da grande novena de nove anos que antecipa o centenário da coroação de Nossa Senhora.

É uma questão de vida ou morte; se cairmos na armadilha da ideologia, a Tradição estará em um beco sem saída. Manifestações tradicionais serão feitas aqui e ali, por vezes até solenes, mas não tocarão os corações, não comunicarão verdadeiramente a graça e não mudarão vidas. Nós queremos permanecer com aquele povo simples e grande que, por séculos, ajoelhou-se diante de Nosso Senhor, reconhecendo que precisa de tudo. Um povo humilde, porque é formado de almas que verdadeiramente pedem perdão por seus pecados. Um povo corajosamente firme, porque quanto às verdades da Fé, à forma da Missa Tradicional, à doutrina católica, ele não capitulará sequer em um iota, porque tudo isso foi dado pelo Senhor para a nossa salvação. Não são nossa propriedade.

Em contrapartida, o intelectual que ama a Missa Tradicional por conservadorismo, por um lado, quer esses momentos públicos para afirmar o seu gosto pelas coisas antigas, mas, ao mesmo tempo, torna-se fraco na batalha contra a heresia, por medo de ser excluído das assembleias públicas de hoje, ou, pior, da vida pública da Igreja; faz compromissos com o erro e a ambiguidade da Igreja modernizada, por conta da necessidade humana de vencer no tempo; ele não confia no Senhor e quer se assegurar de uma vitória que é puramente humana.

Nós devemos rezar frequentemente, devemos assistir à Santa Missa Tradicional frequentemente, se possível diariamente, devemos receber os sacramentos, devemos amar a doutrina católica, de modo que fiquemos realista e humildemente ligados a Nosso Senhor. E o Senhor nos dará as graças, mesmo depois da mais escura das noites, mesmo depois da mais extraordinária crise da Igreja.

Possa a Santíssima Virgem nos conceder um coração puro e nos livrar do orgulho intelectual. E então será, realmente, Natal.

[Editorial: Radicati nella fede, dezembro de 2012, boletim da comunidade católica de Domodossola e Vocogno, Diocese de Novara, Itália – o sacerdote que guia este feliz povo já passou por aqui no Fratres in Unum]

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16 outubro, 2012

Questionamentos sobre o Concílio Ecumênico Vaticano II.

Ao longo de 2012, desenvolveram-se, como noticiado por alguns blogs, dois seminários de estudo sobre o Concílio Vaticano II presididos por Sua Eminência Cardeal Walter Brandmüller, com a participação de estudiosos de diversas tendências, com a finalidade de viabilizar um construtivo debate sobre um evento que tão fortemente marcou a vida da Igreja e de toda a sociedade. Publicamos a seguir as palavras do Prof. Roberto de Mattei, pronunciadas em Roma, no encontro de 17 de março de 2012.

Por Roberto de Mattei | Tradução: Gederson Falcometa

Uma premissa necessária: a crise da fé contemporânea

O problema que tratamos não é uma questão abstrata, mas toca concretamente o modo de viver a nossa fé, em um momento histórico descrito este ano por Bento XVI com estas palavras: “Como sabemos, em vastas zonas da terra a fé corre o perigo de apagar-se como uma chama que não encontra mais alimento. Estamos diante de uma profunda crise de fé, e uma perda do senso religioso que constitui a grande perda para a Igreja de hoje”[1]. A discussão não pode se limitar a um puro interesse cientifico, mas deve partir da necessidade de compreender a natureza da crise da fé em ato.

A crise da fé e o Concílio Vaticano II

Bento XVI quis fazer coincidir o Ano da Fé com o quinquagésimo aniversário do Concílio, auspiciando que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares “sejam lidos de maneira apropriada”, e “sejam conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no interior da Tradição da Igreja”, ou seja, integrados à Tradição da Igreja, indicando ainda um instrumento para essa assimilação: o Novo Catecismo da Igreja Católica. Depois de se dizer convicto que o Concílio é “a grande graça da qual a Igreja se beneficiou no século XX”, o Papa, citando o seu Discurso a Cúria Romana de 22 de dezembro de 2005, repetiu que o Concílio Vaticano II, “se o lemos e recebemos guiados por uma justa hermenêutica”, “pode ser e se tornar sempre mais uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja” [2]. Bento XVI admite então a existência de um nexo entre a atual crise de fé e o Concílio Vaticano II, embora considere que esta crise não se deva ao Concílio em si mesmo, mas seja favorecida por uma má hermenêutica, uma incorreta interpretação de seus textos.

Problema hermenêutico ou problema histórico?

Não pretendemos contradizer o quanto afirma o Santo Padre, mas o problema da relação entre a crise da fé e o Concílio Vaticano II exige uma resposta não apenas sobre o plano hermenêutico, mas também, se não sobretudo, sobre o plano histórico. Qualquer que seja o juízo sobre os documentos do Concílio, o problema de fundo não é o de interpretá-lo, mas de compreender a natureza de um evento histórico que marcou o século XX e o nosso. Para desfazer o nó da relação entre o Vaticano II e a crise do nosso tempo, antes de colocar em prática a hermenêutica dos textos, devemos fazer uma avaliação histórica dos fatos. E só depois a reconstrução histórica, e não antes, é que intervirão o teólogo ou o Pastor, para formular os seus juízos. O conhecimento histórico não tem por objeto o significado dos documentos, mas a verdade dos fatos [3]. A história é Das verstehen: compreensão dos acontecimentos. A capacidade do historiador está no compreender a essência de um evento, buscando traçar as causas e as consequências nas ideias e nas tendências profundas de uma época: neste caso, a época do Concílio Vaticano II.

O Concílio Vaticano II: intenção e expectativas

Então, nos atenhamos aos fatos. João XXIII, na alocução com a qual inaugurou o Vaticano II, em 11 de outubro de 1962, explicou que o Concílio foi convocado não para condenar erros ou formular novos dogmas, mas para propor, com linguagem adaptada aos novos tempos, o perene ensinamento da Igreja [4]. O Concílio pareceu a muitos como uma extraordinária oportunidade de renovar a Igreja. Ocorre, na realidade, que a dimensão pastoral, em si acidental e secundária em relação à dimensão doutrinal, essencialmente se tornou prioritária, operando uma revolução no estilo, na linguagem e na mentalidade. O Padre John W. O’Malley explicou bem como as profissões de fé e os cânones foram substituídos por um “gênero literário” que ele chama “epidítico” [5]. Foi este modo de se exprimir que, segundo o historiador jesuíta, “marcou uma ruptura definitiva com os Concílios precedentes” [6]. Exprimir-se em termos diversos do passado significa aceitar uma transformação cultural mais profunda do que possa parecer. O estilo do discurso revela, de fato, mesmo antes das ideias, as tendências profundas da mente de quem se exprime. “O estilo é a expressão última do significado, é significado e não ornamento, e é também o instrumento hermenêutico por excelência” [7].

Os resultados do Concílio

Não discutimos as boas intenções de João XXIII. Todavia, igualmente indiscutível, os resultados não foram proporcionais às expectativas. As palavras com que Paulo VI falava de “auto-demolição” da Igreja, “ferida por quem dela faz parte” [8] são de 1968, aquelas sobre a “fumaça de Satanás no templo de Deus (…)” [9], são de 1972. Permitam-me citar a mim mesmo: “o colapso da segurança dogmática; o relativismo da nova moral permissiva; a anarquia no âmbito disciplinar, o abandono do sacerdócio e da vida religiosa por parte dos sacerdotes e dos religiosos e o distanciamento da prática religiosa de milhões de fiéis, a infiltração da heresia através dos novos catecismos e novos ritos, as contínuas profanações da Eucaristia, o massacre das almas enquanto as igrejas se livravam do altar, mesas da comunhão, crucifixos, imagem de santos, mobiliários sacros, quadros que acabaram em catálogos de antiquários. A ‘primavera da fé’, que deveria seguir ao Concílio Vaticano II, aparecia mais como um rígido inverno, documentado sobretudo pelo colapso nas vocações e do abandono da vida religiosa” [10]. O balanço global dos quarenta anos pós-conciliares 1965-2005, com respeito às perdas totais e percentuais dos principais institutos religiosos, será ainda mais dramático [11].

A tese oficial

“O que deu errado?”, para usar o título de um folheto do filósofo Ralph McInerny [12]. A resposta que escutamos oficialmente repete aquela formulada primeiramente por Paulo VI, que em 23 de junho de 1972, nos mesmos dias em que registrava “a fumaça de Satanás no templo de Deus”, em um discurso aos membros do Sacro Colégio, denunciava “uma falsa e abusiva interpretação do Concílio, que seria uma ruptura com a tradição, também doutrinal, chegando ao repúdio da Igreja pré-conciliar, e a licença de conceber uma Igreja «nova», quase «reinventada» do seu interior, na constituição, no dogma, no costume e no direito” [13]. A tese oficial era aquela do Concílio “traído” pelos progressistas: nesta traição estava, segundo Paulo VI, a raiz dos problemas da Igreja pós-conciliar.

A tese progressista: o Concílio traído.

A esta tese se opunha aquela dos inovadores. A Storia del Concilio Vaticano II [4], de Giuseppe Alberigo, apresenta o Concílio como a tentativa de purificar a Igreja do seu passado. Uma tentativa felizmente iniciada por João XXIII, mas “traída” por Paulo VI e seus sucessores. O Concílio Vaticano II deveria ser a medida de juízo da história e da tradição da Igreja. O leque do progressismo é amplo e variado, mas hoje o ex-sacerdote e abade de São Paulo [Fora dos Muros], Giovanni Franzoni, resume eficazmente esta posição que, a nível hermenêutico, contrapõe-se diretamente àquela de Bento XVI: “Desejando sintetizar, descreverei o nó do contraste que atrapalha a Igreja Católica há décadas: para Wojtyla e Ratzinger, o Vaticano II é lido à luz do Concílio de Trento e do Vaticano I; para nós, pelo contrário, estes dois Concílios são lidos, e relativizados, à luz do Vaticano II [Ndt.: Lembre-se aqui do texto de Mons. Ocariz publicado por nós: “O Vaticano II à luz da Tradição e a Tradição à Luz do Vaticano II: o Vigário-geral do Opus Dei responde aos tradicionalistas no Osservatore Romano,” e também do texto de Paolo Pasqualucci  em que aborda a “chave hermenêutica a desenvolver”: a colaboração “do ‘contra-espírito do Concílio’ ao verdadeiro ‘espírito do Concílio’” em “O “debate crítico” que a hierarquia não quer realizar. Recensão à obra “Concilio Vaticano II, il discorso mancato” de Monsenhor Brunero Gherardini]. Então, dada esta divergente perspectiva, os contrastes não podem ser elimináveis. E vemos escorrer da Cátedra Romana, todos os dias, normas, decisões e interpretações que, a nosso juízo, estão em conflito radical com o Vaticano II” [15].

A tese tradicionalista

Com o nome impróprio de “tradicionalistas” são definidos alguns estudiosos que expressaram criticas e perplexidades sobre o Vaticano II e seus documentos. Entre estas obras são recordadas Iota Unum, de Romano Amério [16]; os estudos teológicos de Mons. Gherardini [17], mas também a convenção organizada pelos Franciscanos da Imaculada em dezembro de 2010 [18]; a Súplica promovida em 2011 pelo Prof. Paolo Pasqualucci [19]; e as recentes intervenções do Padre Jean-Michel Gleize [20] e Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira [21].

A minha posição

Embora associando-me aos pedidos de esclarecimento de estudiosos, ofereço, de minha parte, uma contribuição que não é a de teólogo, mas de historiador. Não entro, portanto, nas discussões hermenêuticas sobre continuidade/descontinuidade dos documentos. O que narro no meu estudo são os fatos, o que reconstruo é o contexto histórico em que os documentos do Concílio vieram à luz. E sobre este âmbito histórico afirmo o caráter revolucionário deste evento. Pode-se dizer, de fato, do Concílio Vaticano II, aquilo que os historiadores dizem da Revolução Francesa: “a sua importância está também no fato de ser capaz de agir como um mito, não apenas depois, mas já durante o seu desenrolar. O mito, antes, podemos dizer, é conatural à sua essência” [22].

Questões em discussão

Para o historiador da Igreja, a dimensão histórica não pode ser, todavia, separada daquela teológica. Trata-se de dois âmbitos, mas conexos e interdependentes, como são a alma e o corpo no organismo humano. E se os fatos históricos colocam problemas teológicos, o historiador não pode ignorá-los, mas deve trazê-los à luz, movido por amor à Igreja e não pelo desejo de denegri-la. Ao mesmo tempo, no âmbito teológico, todos os batizados têm o direito de levantar os problemas e colocar questões à legítima autoridade eclesiástica, embora ninguém tenha a faculdade de substituir o supremo Magistério da Igreja para resolver de forma definitiva os pontos controversos. Estas são as questões em discussão.

Primeira questão: os documentos do Concílio Vaticano II

Se existe uma questão hermenêutica, existem documentos pouco claros [23]. Como afirma um antigo brocardo: in claris non fit interpretativo. E se existem documentos pouco claros, a falta de clareza constitui, certamente, um limite, e não uma qualidade destes documentos.

Com o termo hermenêutica, que nasce, sobretudo, depois de Schleiermacher no mundo dos exegetas protestantes, entende-se as “técnicas de algo dificilmente compreensível” [24]. Mas as dificuldades interpretativas que podem apresentar um texto das Sagradas Escrituras não são admissíveis em um documento pastoral, que se propõe dirigir de forma mais eficaz aos homens de seu tempo. A existência de passagens ambíguas e equívocas nos documentos do Concílio Vaticano II é demonstrada pela necessidade de interpretá-los e de esclarecê-los.

Segunda questão: as autoridades que governaram a Igreja

Diz-se que os documentos do Concílio foram mitificados e “descontextualizados”. Mas se é assim que aconteceu, a responsabilidade recai apenas sobre os artífices da mitificação e da descontextualização, ou também sobre a autoridade que poderia impedir tal fato e não o fez? Por que a má hermenêutica não foi suprimida? Paulo VI definiu “falsa e abusiva” certa interpretação do Concílio, mas se alguém foi removido, discriminado, perseguido, foi quem permaneceu fiel à tradição. E não falo nem de Mons. Lefebvre e nem de Mons. Castro Mayer. Penso, por exemplo, em Mons. Antônio Piolanti, talvez o maior teólogo italiano do século XX, que foi removido do cargo de Reitor da Pontifícia Universidade Lateranense. A púrpura que a ele foi negada foi concedida ao Padre Yves Congar [ndr: em 1994, por João Paulo II], que atacava violentamente a “miserável eclesiologia ultramontana da Lateranense” [25].

O Novo Catecismo nos é apresentado como um instrumento de retificação da má hermenêutica. Mas, em vinte anos de sua promulgação, a má hermenêutica continuou a desenvolver-se imperturbada. Não se percebe que, se a preocupação é salvar a suprema autoridade eclesiástica de toda responsabilidade quanto aos males do pós-Concílio, esta colocação do problema agrava o mal que quer evitar. Se, de fato, fosse verdade que o Concílio foi traído por maus intérpretes dos seus documentos, como negar a responsabilidade daquelas autoridades eclesiásticas que viram explodir o mal da má hermenêutica e não a reprimiram? Se houve má interpretação, e há ainda, se reivindicaram indevidamente os documentos conciliares para fazer coisas diversas daquilo que eles estabeleciam, de quem é a responsabilidade? Apenas dos progressistas ou é também de quem deixou que esse progressismo se desenvolvesse na Igreja sem intervir para condená-lo e reprimi-lo?

Terceira questão: o evento histórico

Se nas raízes da crise da fé não está o evento conciliar, mas apenas uma má interpretação de seus documentos, qual o juízo se deverá dar sobre o evento, considerado no seu desenvolvimento concreto, nas ideias e na psicologia dos seus protagonistas, no contexto histórico que o circundou, na mitologia que em torno dele se desenvolveu? O Concílio Vaticano II não foi apenas interpretado, mas vivido pela teologia progressista como uma transformação na história da Igreja. É possível negar que esta transformação foi realizada e que no período pós-conciliar não ocorreram mudanças radicais no interior da Igreja? O dado efetivamente objetivo é que a hermenêutica da descontinuidade, por quanto abusiva, prevaleceu sobre a hermenêutica da continuidade já durante o Concílio, caracterizando-o na sua essência.

Questões legítimas

A tese hermenêutica oficial representa uma proposta de leitura, digna da máxima atenção, ao menos por sua autoridade. Mas ela não é uma afirmação doutrinal: é uma interpretação que, como tal, sobretudo quando nos deslocamos dos documentos para os fatos, pode ser falaz. Ninguém pode dizer ao Papa que ele erra. Com que autoridade poderemos julgar o supremo Pastor da Igreja? Mas cada fiel, enquanto batizado, tem o direito de fazer questões ao Papa, porque o Vigário de Cristo tem o dever de nos confirmar na fé. E, então, coloco estas perguntas.

Se houve uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio, de quem é a responsabilidade? Apenas dos maus hermeneutas ou, também, dos documentos que, por causa dos equívocos ou das ambiguidades, permitiram esta má leitura?

Se houve uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio, de quem é a responsabilidade? Apenas dos maus hermeneutas ou também da autoridade que deixou de condenar com suficiente firmeza as más interpretações?

Se uma interpretação falsa e abusiva dos documentos do Concílio prevaleceu nas mídias, de quem é a responsabilidade? Apenas das mídias ou também do evento histórico que esses documentos produziram? O Concílio, enquanto evento, é estranho à crise do nosso tempo?

O evento; os documentos ou ao menos alguns documentos que este evento produziu; os homens da Igreja que promoveram este evento; e que deste evento cuidaram da aplicação e propõem a interpretação: eis os responsáveis pela crise da fé atual. Ocultá-lo seria prestar um desserviço à verdade.

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[1] Bento XVI, Discurso aos participantes da plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, 27 janeiro de 2012.

[2] Bento XVI,  Discurso a Cúria Romana 22 de dezembro de 2005, in AAS, 98 (2006).

[3] Henri-Irénee Marrou, O conhecimento histórico, tr. it., Il Mulino, Bolonha 1988, pp. 199-218.

[4] João XXIII, Alocução Gaudet Mater Ecclesiae de 11 de outubro de 1962, in AAS, 54 (1962), p. 792.

[5] John W. O’Malley, Que coisa aconteceu no Vaticano II, tr. it. Vita e Pensiero, Milano 2010, pp. 45-54.

[6] Ivi, p. 47. Veja-se também, sobre este ponto, Alessandro Gnocchi-Mario Palmaro, A Bela Adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque acordará Editore, Firenze 2011.

[7] J. W. O’Malley, O que aconteceu no Vaticano II, cit., p. 51.

[8] Paulo VI, Discurso ao Seminário Lombardo em Roma, de 7 de dezembro de 1968, em Ensinamentos, vol. VI (1968), pp. 1188-1189.

[9] Paulo VI, Homília pelo nono aniversário de coroação de 29 de junho de 1972, em Ensinamentos, vol. X (1972), p. 707.

[10] Roberto de Mattei, O Concílio Vaticano II, Uma história nunca escrita, Lindau, Turim 2011, p. 575.

[11] Cfr. O estudo do claretiano Angelo Pardilla, Os religiosos ontem, hoje e amanhã, Editora Rogate, Roma 2007. Análogo o quadro das “religiosas”: Id., As religiosas ontem, hoje e amanhã Livraria Editrice Vaticana, Cidade do Vaticano 2008.

[12] Ralph McInerny Vaticano II. O que deu errado?, Prefácio de Massimo Introvigne, Fede e Cultura, Verona 2009.

[13] Paulo VI, Discurso ao Sacro Colégio de 23 de junho de 2012, em ensinamentos, vol. X (1972), pp. 672-673.

[14] G. Alberigo, Historia do Concilio Vaticano II, Peeters/Il Mulino, Bologna 1995-2001, 5 voll.

[15] Discurso de 18 de setembro de 2011 em um Congresso teológico em Madrid, em “Adista”, 8 de outubro 2011.

[16] Romano Amerio, Iota unum, Lindau, Torino 2009.

[17] Brunero Gherardini, Concílio Ecumênico Vaticano II. Um discurso a fazer, Casa Mariana, Frigento 2009 e Id., Um Concílio faltoso, Lindau, Torino 2011.

[18] Concílio Ecumênico Vaticano II. Um Concílio pastoral. Análise histórica-filosófica-teológica, aos cuidados de P. Stefano M. Manelli F.I. e P. Serafino M. Lanzetta F.I., Casa Mariana Editora, Frigento 2011.

[19] Supplica al Santo Padre Benedetto XVI, Sommo Pontefice, felicemente regnante, affinché voglia promuovere un approfondito esame del pastorale Concilio Ecumenico Vaticano II, in http://www.riscossacristiana.it, 24 settembre 2011.

[20] Veja-se as suas intervenções em “Courrier de Rome” entre 2011 e 2012.

[21] Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, Grave lapsus teologico di Mons. Ocáriz. Confutazione dell’articolo del Vicario Generale dell’Opus Dei pubblicato ne “L’Osservatore Romano”, in http://www.arnaldoxavierdasilveira.com, 28 de dezembro de 2012.

[22] Marco Tangheroni, Cristianità, modernità, rivoluzione, Sugarco, Milano 2009, p. 76.

[23] Veja-se, por exemplo, as intervenções do Padre G. Cavalcoli O.P. e Padre Serafino Lanzetta F.I., in Il Vaticano II. In dialogo in modo critico, in “Fides Catholica”, 1 (2011), pp. 207-232, e o debate sobre o tema proposto pelo site de Sandro Magister, www.chiesa.espresso.repubblica.it.

[24] Eugenio Cutinelli-Rendina, voce Ermeneutica, in Dizionario di storiografia, Bruno Mondadori, Milano 1996, p. 360.

[25] Yves Congar, Diario del Concilio, San Paolo, Cinisello Balsamo 2005, vol. II, p. 20.

4 setembro, 2012

O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita (I): Apresentação.

Lançado em 2011 na Itália, a prestigiosa obra do Professor Roberto de Mattei, intitulada “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita”, chega agora ao público lusófono. A Editora Caminhos Romanos, detentora dos direitos sobre a versão portuguesa do laureado livro — Prêmio Acqui Storia 2011 e finalista do Pen Club Italia — , concedeu ao Fratres in Unum a exclusiva honra de divulgar alguns excertos deste trabalho que é um verdadeiro marco na historiografia do Concílio Vaticano II.

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Um Concílio “pastoral” ou “doutrinal”?

A fórmula do Concílio à luz da Tradição — ou, se se preferir, da “hermenêutica da continuidade” — propõe indubitavelmente aos fiéis uma indicação autorizada, com vista ao esclarecimento do problema da adequada recepção dos textos conciliares; mas deixa em aberto um problema de fundo: dado que a correcta interpretação é a da continuidade, resta explicar porque foi que, na sequência do Concílio Vaticano II, aconteceu aquilo que nunca tinha acontecido depois de qualquer dos concílios da história, a saber, o facto de duas (ou mais) hermenêuticas contrárias se terem confrontado e terem, para usar a expressão do Papa, lutado entre si. Assim, pois, se a época pós-conciliar deve ser interpretada como uma época de “crise”, podemos perguntar-nos se uma errada recepção dos textos terá uma incidência tal sobre os factos históricos, que constitua razão suficiente e proporcionada para a vastidão e a profundidade da mesma crise.

Por outro lado, a existência de uma pluralidade de hermenêuticas atesta a presença de certa ambiguidade ou ambivalência nos documentos. Quando se torna necessário recorrer a um critério hermenêutico exterior ao documento para interpretar o próprio documento, é evidente que este não é suficientemente claro, que precisa de ser interpretado e que, na medida em que é susceptível de interpretação, pode ser objecto de crítica, histórica e teológica.

O desenvolvimento mais lógico deste princípio hermenêutico é o que foi proposto por um eminente especialista em eclesiologia, Mons. Brunero Gherardini. De acordo com este teólogo romano, o Vaticano II, enquanto concílio que se auto-qualificou como “pastoral”, esteve privado de um carácter doutrinal “definitório”; contudo, do facto de o Vaticano II não poder ter a pretensão de ser qualificado como dogmático, sendo antes caracterizado pelo seu carácter pastoral, não se pode naturalmente deduzir que esteja privado de doutrina própria. O Concílio Vaticano II teve indubitavelmente ensinamentos específicos, que não estão privados de autoridade, mas, como escreve Gherardini, “as suas doutrinas, quando não reconduzíveis a definições anteriores, não são, nem infalíveis nem irreformáveis, e, portanto, também não são vinculativas; quem as negar não será, por esse facto, formalmente herege. Assim, pois, quem as impusesse como infalíveis e irreformáveis iria contra o próprio Concílio” .

O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita, Roberto de Mattei, Ed. Caminhos Romanos, 2012, pp. 14-15

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Roberto de Mattei nasceu em Roma, em 1948. Formou-se em Ciências Políticas na Universidade La Sapienza. Atualmente, leciona História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, no seu departamento de Ciências Históricas, de que é o director. Até 2011, foi vice-presidente do Conselho Nacional de Investigação de Itália, e entre 2002 e 2006, foi conselheiro do Governo italiano para questões internacionais. É membro dos Conselhos Diretivos do Instituto Histórico Italiana para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana. É presidente da Fundação Lepanto, com sede em Roma, e dirige as revistas Radici Cristiane e Nova Historica e colabora com o Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja.

Onde encontrar:  Livraria Petrus – R$ 89,00.