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15 outubro, 2021

Os guardiães da Tradição.

Por Dr. Augusto Mendes 

FratresInUnum.com, 15 de outubro de 2021 – O Brasil presencia um sólido movimento editorial católico, algo que impressiona qualquer observador um pouco mais vivido. Em 2005, ou mesmo em 2010, dificilmente poderíamos imaginar que alguns anos depois veríamos o surgimento de novas casas editoriais, uma avalanche de novas publicações, o resgate de obras consagradas e até mesmo o surgimento de importantes autores nacionais.

In illo tempore, apesar das grandes editoras nominalmente católicas do país, encontrar livros verdadeiramente católicos nem sempre era fácil. Em muitos casos, era um desafio insuperável. É verdade que certos clássicos das letras católicas nunca deixaram as prateleiras, como é o caso da Imitação de Cristo, da Filotéia, do Tratado da Verdadeira Devoção e da História de uma Alma, mas é igualmente verdade que as ausências eram muito mais amplas e notáveis.

Pensemos, por exemplo, no doutor comum do Igreja, Santo Tomás de Aquino, um mestre para todas as gerações e, portanto, um autor que deveria ser publicado e republicado initerruptamente em todo e qualquer país católico. Se é verdade que sua Suma Teológica estava disponível em uma tradução de qualidade já no início do século XXI, todos seus outros livros – e são tantos! – só eram encontrados em sebos, e mesmo assim com bastante dificuldade e por um alto preço. Os tomistas amargavam um esquecimento ainda pior. Garrigou-Lagrange, Cornelio Fabro, Sertillanges, Grabmann e outros mestres ou nunca haviam sido apresentados ao leitor brasileiro ou o foram há uma ou duas gerações. Mesmo um Nicolas Derise, que podemos considerar como nosso contemporâneo, ou um brasileiro como o Padre Maurílio Teixeira-Leite Penido, eram sumamente desconhecidos ou marginalizados.

Não podemos pensar que o problema era a falta de leitores interessados, pois mesmo autores que haviam granjeado fama no passado recente padeciam no limbo editorial esperando rever a luz. Há pouco mais de uma década, Chesterton estava apenas dando seus primeiros passos entre nossas estantes, Bernanos, que havia escolhido nosso país como sua pátria, era solenemente ignorado pelas últimas duas gerações de brasileiros; mesmo os naturais da terra, católicos genuinamente brasileiros, nascidos em uma pátria genuinamente católica, como o Padre Leonel Franca ou João Camilo de Oliveira Torres, foram tratados, até outro dia, como se fossem alienígenas, como se nunca tivessem pisado nessa terra. Eram representantes de um passado que muitos buscavam ativamente enterrar. Na faculdade tive uma professora que havia sido aluna do citado João Camilo. Quando falava dele era somente para criticar seus livros e explicar que tudo o que ele escreveu tinha pouco valor, era enviesado, porque ele era – na sua expressão inesquecível – “muito catolicão”.

Se pensarmos não mais nas pessoas, mas nos temas, veremos que a carestia de então era enorme. Sobre temas tão relevantes como Psicologia, Direito, História, Literatura, Economia, Filosofia e Teologia, nos seus diversos ramos e desdobramentos, não havia – e ainda hoje não há na medida adequada – obras escritas de uma perspectiva católica em circulação no mercado brasileiro.

Outra marcante ausência editorial era de obras ligadas ao movimento tradicionalista. Lembro-me de que a primeira vez que tive em mãos “Do Liberalismo à Apostasia” de Dom Marcel Lefebvre foi em uma cópia xerográfica feita por um amigo que havia viajado até o Rio de Janeiro e lá, graças ao contato direto com um tradicionalista “das antigas”, tinha conseguido copiar a velha edição, praticamente amadora, da Permanência, que mais se parecia com um caderno datilografado. Obras que só eram encontradas em língua estrangeira e adquiridas após bastante pesquisa e a um alto preço – Iota Unum ou a biografia de Dom Lefebvre – são hoje compradas com um clique do mouse e por um preço bastante razoável.

Todas essas lacunas editoriais são graves, mas não tanto quanto a que agora será sanada. Os doutores da Igreja, os grandes escolásticos, os apologetas, os catequistas, missionários, sermonistas, todos aqueles que exercem alguma atividade na Igreja, bebem, necessariamente, da mesma fonte: o magistério papal. O magistério pontifício, farol da verdade divina no ápice da Igreja, aquele que ilumina todos os católicos, em todas as épocas, que desfaz os erros, vence as heresias e guia a todos nos caminhos da verdade e vida. Era exatamente esse magistério que andava ausente das editoras católicas. É verdade que algumas encíclicas, especialmente dos Papas do século XIX e XX ainda são publicadas, é certo que temos compilações bem vastas de documentos pontifícios, como é o caso do Denzinger, mas também é verdade que não há nada tão amplo quanto o que está sendo preparado agora. A coleção Guardiões da Tradição englobará 250 documentos pontifícios (Bulas, Encíclicas e Alocuções) criteriosamente selecionadas para representar o ensinamento dos Papas ao longo dos dois milênios da história cristã nos seus pontos mais relevantes.

Os documentos serão publicados na sua integralidade – e não em seus trechos selecionados, como no Denzinger – e, sempre que necessário, acompanhados de notas explicativas. Haverá para cada documento uma breve introdução explicitando seu conteúdo e as razões de sua publicação. Os 250 documentos serão organizados cronologicamente, indo do Papa Cornélio (251-253) até Pio XI (1922-1939), e cada Pontífice receberá uma substanciosa apresentação, de forma que o livro poderá ser visto, também, como uma Enciclopédia dos principais Papas. Detalhados índices onomásticos e temáticos farão da coleção uma obra de consulta incontornável para todo católico que pretenda conhecer melhor a doutrina da Igreja nas suas fontes mais seguras.

Os temas abordados são os bem variados, indo das mais altas questões teológicas aos mais simples problemas sociais. Aquilo que os papas ensinaram sobre a Santíssima Trindade, as naturezas de Cristo e sua ação salvífica, as qualidades especialíssimas da Virgem Maria, a natureza da Igreja, a economia da salvação, a graça santificante, o papel da oração e as mais diversas questões litúrgicas terão destaque. O surgimento das ordens religiosas, a criação das faculdades na Idade Média, a canonização de determinados santos, as condenações das diversas heresias, a convocação para as cruzadas e a instituição da Inquisição serão apresentadas nos seus documentos originais. Questões políticas e sociais também terão lugar nesse vasto repertório: a liberdade da Igreja e de seus fiéis frente o Estado, os deveres dos governantes para com a Igreja, a verdadeira educação católica, os direitos dos trabalhadores, a moral católica aplicada à vida matrimonial e familiar, bem como a materialização da fé nas diversas formas de encontrarão o devido tratamento pela mão de mestre dos Papas. As mais controversas questões científicas, filosóficas, históricas e exegéticas também serão contempladas por essa ampla compilação de documentos pontifícios, apresentando aos leitores a solução para muitos problemas de ordem especulativa, ou, pelo menos, estabelecendo os pontos fundamentais que permitirão investigações seguras e intelectualmente frutuosas.

Dada a profusão de documentos pontifícios, estima-se que a coleção terá cinco volumes com cerca de 600 páginas cada um. Parte considerável desses documentos não se encontra publicada no Brasil e nem mesmo acessível em língua portuguesa na internet. A maior parte será vertida do original latino e, quando não for possível, as traduções mais confiáveis serão usadas para se chegar ao texto em português.

Além do óbvio interesse teológico dessa publicação, os cultores da Filosofia e da História também irão se beneficiar do estudo desses documentos, pois muitos deles inserem-se nos pontos fulcrais não só da histórica eclesiástica como também da história política e do pensamento.

No momento em que a doutrina católica tradicional se torna cada vez menos conhecida e seus tesouros são cada vez mais depauperados por aqueles mesmos que deveriam ser seus fiéis defensores, cabe a nós nos voltarmos àqueles antigos e fiéis Guardiões da Tradições que agora serão apresentados ao leitor brasileiro.

* * *

Para adquirir a coleção Guardiões da Tradição, basta ir ao site https://editora.centrodombosco.org/

7 maio, 2021

Carta aberta do Pe. Paul Aulagnier (+ 06-05-2021) do IBP ao Papa Bento XVI.

Faleceu ontem padre Paul Aulagnier, um dos fundadores do Instituto do Bom Pastor e dos primeiros discípulos de dom Lefebvre. Há diversas publicações dele no histórico de nosso blog — a seguir, republicamos um post de 2009. RIP.

Original em La Revue Item

Tradução de Marcelo de Souza e Silva

Santíssimo Padre,

Permiti-me dirigir-me a vós com toda simplicidade de coração, com toda lealdade num espírito filial. Permiti-me expressar minha inquietação… desta maneira em uma «carta aberta», minha estupefação sobre um ponto preciso: a condenação de Dom Lefèbvre. Não compreendo porque vós não reexaminais este assunto.

Esta é a razão desta minha defesa.

Vós bem sabeis que ele foi um grande prelado, um grande missionário. Delegado apostólico para a África de língua francesa. Ele foi o grande defensor da Igreja em terras africanas. Deixou, quando de lá partiu, uma obra extraordinária. Tal é o reconhecimento de todos. Tudo isso postula em seu favor.

Tendo ele retornado à França, foi nomeado pelo Papa João XXIII, Arcebispo-bispo de Tulle, pôs-se então à tarefa sem ressentimentos e com o mesmo zelo que na África. Uma única coisa lhe interessava: servir a Igreja na fidelidade ao Sumo Pontífice. Apenas nomeado para a diocese de Tulle, ele foi eleito superior geral da Congregação dos Padres do Espírito Santo, uma congregação forte que contava mais de cinco mil membros no mundo todo.

O Concílio Ecumênico do Vaticano II fora então convocado pelo Papa João XXIII. Enquanto superior geral ele participou das sessões preparatórias do Concílio. Ele nos contou tudo… assim que tivemos a graça de conhecê-lo primeiro em Roma depois e em seguida em Ecône.

Abbé Paul AulagnierDolorosamente afetado pela crise sacerdotal, pelo colapso das vocações no Ocidente e pela perda do senso sacerdotal, tendo sido liberado de todas as suas responsabilidades – ele apresentou sua demissão, Roma o aconselhara a tal – ele decidiu enfim fazer de tudo para lutar contra. Fundou seu seminário em Friburgo com a autorização episcopal de Dom Charrière e com os encorajamentos do Cardeal Journet. Ele criou seu instituto sacerdotal: a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, sempre com a autorização de Dom Charrière, Bispo de Friburgo-Lausanne-Genebra. Que alegria foi a sua logo que recebeu o decreto do bispo! Uma alegria própria da Igreja! Ele nos ensinou a grandeza do sacerdócio, seu papel, seu sentido.  Ele nos fez apreciar o tesouro da Missa, da Missa Católica. Ele nos fez relembrar sua finalidade, seus frutos e sua importância para o sacerdote e para os fiéis. Ele nos deu desde o coração até a obra um «moral de ferro». Ele multiplicou seus contatos para permitir a expansão de sua obra. Ele era incansável.

Chegou o ano de 1969, abril de 1969. Deu-se a publicação da Constituição Missale Romanum e do novo rito da Missa, a Nova Missa de Paulo VI. Terrível reforma litúrgica… contestada, contestável, que ia abalar desde as bases ao cume a Santa Igreja e sua unidade.

Teólogos se levantaram para se opor a aquilo, cardeais também. Intelectuais de renome fizeram ouvir sua voz. Para citar apenas um nome, permiti que eu invoque o Cardeal Ottaviani. Em uma carta ao Sumo Pontífice, Paulo VI, ele lhe apresentou uma crítica ao novo rito pedindo-lhe «ab-rogar este novo rito ou, ao menos, não privar o orbe católico, da possibilidade de continuar a recorrer à integridade e fecundidade do Missal Romano de São Pio V». Tudo isso provocou grande celeuma. Dom Lefèbvre tomou posição tarde demais.

Foi somente em 2 de junho de 1971 que ele reuniu em Ecône seu corpo docente e os seminaristas. No dia seguinte, ele foi ter com «os teólogos» e os seminaristas. Ele expôs sua posição. Explicou sua intransigência, seu «non possumus», com argumentos claros. Ele nos deixou, ao fim desta conferência, um texto, um pequeno texto que resumia sua corrente de pensamento. Naquela época, eu, seminarista, guardei ciosamente esse texto. Com freqüência eu o lia e relia. A posição de nosso fundador é simples, doutrinal, fundamentada sobre a mais segura teologia, sobre os decretos solenes do Concílio de Trento e sobre os princípios do Direito Canônico. Esta posição era púbica. Ela está escrita. Nas conferências ele jamais cessou de explicá-la e de justificá-la.

Ora, foi em razão dessa posição sobre a Missa que Dom Lefèbvre foi condenado.

Sua fundação foi tratada inicialmente como «selvagem». O primeiro a pronunciar tal termo foi Dom Etchegaray. Ele era naquela época Arcebispo de Marselha… Primeira afirmação falsa: Seu seminário não tinha nada de selvagem, tampouco seu instituto. «Tudo» foi aprovado por Dom Charrière, por Dom Adam. A fundação de Albano gozou do beneplácito do bispo local. Nada de «selvagem» a bem da verdade. Muito ao contrário, Dom Lefèbvre, como homem da Igreja, respeitador de suas leis, quis fazer tudo de acordo com as autorizações necessárias. E foi assim que ele fez. Mas pouco importava, ele não estava mais na linha. Porque ele não queria seguir cegamente as reformas conciliares… Tendo ele impedido que se voltasse atrás, era necessário desacreditá-lo. Suas fundações só poderiam ser classificadas como selvagens e condenadas.

Iniciava-se o ciclo infernal.

Então teve lugar uma visita canônica. Dom Onclin e Dom Deschamps foram enviados de Roma. Eles tinham propostas «novas» de tal forma que Dom Lefèbvre precisou protestar logo que ambos partiram. Foi quando surgiu então seu protesto de Fé de 24 de Novembro de 1974. Deus! Como tal declaração fez jorrar tinta! Como foi comentada! No exterior e no interior… e pelo próprio corpo docente. Era necessário que Dom Lefèbvre se retratasse. «Ele assinara sua própria condenação»… E foi então intimado em Roma diante de uma comissão «ad hoc», diante do Cardeal Garonne, Cardeal Wright e Cardeal Tabera. Eles tentaram convencê-lo da «futilidade» de sua posição. Tentativa inútil. Eles não imaginaram que encontrariam tamanha segurança, tamanha força, a força simples da doutrina católica, amada mais que a si mesmo.

Não podendo convencê-lo, era necessário esmagá-lo. Assim, sobrevieram-lhe as sanções canônicas. As pressões psicológicas foram terríveis a princípio.

Houve a ameaça de se fechar o seminário da Fraternidade. Como as ameaças não o detiveram, delas se passou para as sanções. E foi Dom Mamie, Bispo de Friburgo, que tomou a frente em tudo isso. Ao pobre, foi-lhe dada ordem de não realizar as ordenações do dia 29 de Junho de 1976. Terrível dilema do qual eu fui uma testemunha privilegiada. Na noite do dia 28, em meu escritório, ele ainda buscava uma solução… pesava os prós e os contras… A festa já se aproximava com todo seu fulgor.

Tudo estava pronto… «apesar de tudo, dizia-me ele, podemos ainda não fazer as ordenações». Ele era de uma calma suprema, tranqüilo. E no dia 29, diante de uma imensa multidão, ele explicou sua atitude. Ele falou com clareza e sem meios termos: nossa fidelidade à missa de sempre, à missa codificada, e mesmo canonizada por São Pio V é a causa de nossas dificuldades com Roma.

A sanção canônica sobreveio em 22 de Julho de 1976. Ele foi declarado «suspenso a divinis». Ele não poderia exercer nenhum poder inerente ao seu estado sacerdotal e episcopal. Em Lille, aos 29 de Agosto de 1976, ele explicou tudo novamente. Ele falou abertamente da reforma litúrgica, da reforma da missa, da missa «equívoca». Foi lá que ele falou da missa «híbrida»: «a Nova Missa é uma espécie de missa híbrida que não é hierárquica, mas democrática, onde a assembléia ocupa lugar mais importante que o sacerdote». Pode-se resumir a posição de Dom Lefèbvre dizendo que ele rejeita a nova missa porque ela é equívoca, mais protestante que católica, distante da Tradição católica e até mesmo em total ruptura com a Tradição e os dogmas católicos.

E o conflito perdurou. Hoje, vós sois a autoridade. É por isso que eu me dirijo a vós. Vós tendes mantido a condenação de Dom Lefèbvre, de sua fundação, de seus sacerdotes porque eles querem permanecer fiéis a esta Missa católica para salvaguardar sua Fé, garantia da eternidade.

No entanto, vós, quando éreis cardeal, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, vós vos tornastes bem severo quanto a essa reforma litúrgica que nos entristece.

Permiti que eu vos cite.

Vós prefaciastes um livro de Monsenhor Gamber em sua edição francesa gratamente difundida por Dom Gérard Calvet e intitulada A Reforma Litúrgica em Questão. Neste prefácio, vós elogiastes Monsenhor Gamber por sua obra teológica e litúrgica. Vós o recomendastes fortemente e fizestes dele um modelo, «um padre» desse renovar litúrgico que  trouxestes e ainda traz entre todos os vossos anseios. «Esse novo recomeço precisa de padres que lhe sejam modelos… Quem procura hoje tais padres encontrará um sem sombra de dúvida na pessoa de Monsenhor Klaus Gamber… ele poderia com sua destreza litúrgica – vós o dissestes – tornar-se um padre do novo recomeço» (p. 7). Não se pode ser mais claro.

Vós criticais «graciosamente» neste prefácio a reforma litúrgica. Vós afirmais que «a liturgia é (deve ser) um desenvolvimento contínuo», harmonioso (p. 7). E de fato a liturgia católica foi isto, aquela codificada por São Pio V. Ela evoluiu harmoniosamente através dos séculos. Tal se pode dizer tanto da liturgia quanto da doutrina católica. Não há pior herético que o «fixista». Não há nada mais radicalmente estático que a morte. A liturgia católica não é isso. Nós bem o sabemos. Isto posto, vós partis «em guerra» contra a liturgia reformada oriunda do Concílio Vaticano II. «O que se deu após o Concílio significa uma outra coisa: no lugar da liturgia, fruto do desenvolvimento contínuo, foi colocada uma liturgia fabricada. Saiu-se do processo vivo de crescimento e de transformação para se vagar na fabricação». Esta é a obra de Dom Bugnini. «Não se quis continuar a transformação e a maturação orgânica do ser vivo pelos séculos e as substituíram – segundo um modo de produção técnico – pela fabricação, produto banal do momento» (p. 7).

Vós dissestes também: «A liturgia não é o produto do nosso fazer». Esta é a grande idéia de Monsenhor Gamber. Dom Lefèbvre teria sido desta mesma opinião, ele que sustentou até a ruptura as reformas de São Pio X, de Pio XII e mesmo de João XXIII em matéria litúrgica, contra certos seminaristas americanos que as rejeitavam.

Vós nos pedistes que pendêssemos para o pensamento de Monsenhor Gamber, que nós o tomássemos por nosso. Vós destes uma aprovação sentida de sua obra. É o que eu tenho feito.

Por vossa recomendação, eu li este livro. Devo confessar que jamais encontrei crítica tão forte, tão radical à Nova Missa mesmo sob a pena de Dom Lefèbvre.

Então observe agora minha questão. Vêde onde quero chegar. Vêde o que eu quereria vos dizer se vós me recebêsseis: «Por que aprovar tão denodadamente Monsenhor Gamber, aplaudi-lo, recomendá-lo e continuar a reprovar Dom Lefèbvre?» Monsenhor Gamber é, porém, ainda mais severo em sua crítica ao novo rito que Dom Lefèbvre. Não haveria então dois pesos e duas medidas? Eis meu pasmo e mesmo minha angústia!

Vêde algumas críticas de Monsenhor Gamber: «Colocou-se, doravante (com a reforma litúrgica) e de modo exagerado, o peso sobre a atividade dos participantes, deixando num segundo plano o elemento cultual» (p. 15).

Foi isso que Dom Lefèbvre afirmou em Lille, nem mais, nem menos. «Esse (elemento cultual, i.e. o Sacrifício, a própria ação eucarística) foi empobrecida mais e mais no nosso meio». «Do mesmo modo, agora falta em larga medida a solenidade que faz parte de toda a ação cultual, sobretudo se esta é realizada diante de uma grande multidão» (p. 12). É isso o que nós dizemos, nem mais, nem menos. Monsenhor Gamber ousa escrever a este respeito: «Em lugar da solenidade vê-se reinar freqüentemente uma austeridade calvinista» (p. 13).

Monsenhor Gamber prossegue… «Não raro, vemos certos ritos serem desprezados pelos próprios pastores e deixados de lado sob pretexto de que seriam antiquados: não se quer deixar suspeitar que se teria fracassado o trem da evolução moderna. Não obstante, uma multidão do povo cristão permanece ligada a tais formas antigas cheias de piedade. Os reformadores de hoje, muito apressados, não consideraram suficientemente até que ponto, no espírito dos fiéis, a doutrina e as formas piedosas coincidem. Para muitos modificar as formas piedosas significa modificar a fé».

Prefaciando este livro, vós destes vossa aprovação a esta crítica geral.

Dom Lefèbvre disse a mesma coisa. Ele não cessou durante toda a sua vida de nos lembrar o axioma fundamental em matéria litúrgica: lex orandi, lex credendi. Foi o tema de sua conferência – entre mais de mil – de 15 de Fevereiro de 1975, dada em Florença: «Para muitos, modificar as formas tradicionais significa modificar a fé».

«Os responsáveis na Igreja não escutaram a voz daqueles que não cessaram de adverti-los pedindo-lhes que não suprimissem o Missal romano tradicional (e autorizassem a nova liturgia somente em certo limites e «ad experimentum»)… Hoje, eis infelizmente esta situação: numerosos bispos se calam diante de quase todas as experiências litúrgicas, mas reprimem mais ou menos severamente o sacerdote que, por razões objetivas ou de consciência, se prende à antiga liturgia» (p. 14).

Foi a essa constatação que chegaram os «Grandes» no cardinalato. Foi isso o constatado por Dom Lefèbvre. Era isso o que fazia com que Dom Lefèbvre se ativesse por razões objetivas ou de consciência à antiga liturgia.

Então, já que vós sustentastes o pensamento de Monsenhor Gamber, visto haverdes prefaciado seu livro, querei, eu vos suplico fazer abrir o dossiê «questão Lefèbvre» e o julgar em bom e devido modo.

Monsenhor Gamber é deveras severo… contra essa reforma litúrgica. Após ter reconhecido que «as inovações litúrgicas» são possíveis, mas que tudo deve ser feito «com bom senso e prudência». Isso não é a razão última, mas pouco importa, ele conclui voltando-se então para o concreto da reforma litúrgica nascida do Concílio Vaticano II: «A ruptura com a Tradição está doravante consumada». Ele sublinha ainda: «Pela introdução da nova forma da celebração da Missa (trata-se aqui do próprio rito novo) e dos novos livros litúrgicos, e ainda mais pela liturgia concedida tacitamente pelas autoridades, organizada livremente na celebração da missa sem que se possa auferir de tudo isso uma vantagem do ponto de vista pastoral (e isto é o mínimo que se pode dizer!), juntamente a tudo isso, prossegue ele, constata-se em larga medida, uma decadência da vida religiosa que, é verdade, tem também outras causas. As esperanças postas na reforma litúrgica – já se pode dizer – não foram realizadas».

Vós prefaciastes isto.

Dom Lefèbvre jamais usou termos tão fortes e brutais.

Por graça! Retomai o dossiê. Dai nova vida ao recurso que o próprio Dom Lefèbvre levou às mãos do Prefeito da «Assinatura Apostólica» da época, mas que este último não pôde tratar por ordem do onipotente Cardeal Dom Villot. Hoje, vós tendes poder para isso. Fazei cessar a injustiça na Igreja… na França de modo particular… Fazei cessar a injustiça contra Dom Lefèbvre.

Vêde ainda! «De ano em ano, a reforma litúrgica, louvada com excesso de idealismo e grandes esperanças por numerosos sacerdotes e leigos, prova ser, como nós já havíamos dito, uma desolação de proporção assustadora». (p. 15)

Dom Lefèbvre disse isso, mas digo que jamais o fez tão fortemente.

Nosso autor prossegue: «Em vez das esperadas renovação da Igreja e da vida eclesiástica, nós assistimos a um desmantelamento dos valores da Fé e da piedade que nos foram transmitidas, já no lugar de uma renovação fecunda da liturgia, vemos uma destruição das formas da missa que foram organicamente desenvolvidas no curso dos séculos» (p. 15).

Vós aprovastes este julgamento, vós o prefaciastes elogiosamente. Dom Lefèbvre, que não disse nada além disso, foi condenado, mas Monsenhor Gamber foi aplaudido.

Prossigo minha leitura: «…a isto some-se uma amedrontadora aproximação das concepções do protestantismo sob a bandeira de um ecumenismo mal compreendido… Isto significa nada menos que o abandono de uma tradição até então comum ao Oriente e ao Ocidente» (p. 15).

Dom Lefèbvre não disse outra coisa. Foi o que ele disse em um artigo publicado em 1971 em La Pensée Catholique – mas já escrito em pleno Concílio: «Para se permanecer católico seria necessário tornar-se protestante?»… E ele concluía: «Não se pode imitar os protestantes indefinidamente sem de fato se tornar um». Mas eu julgo Monsenhor Gamber mais categórico ainda. Ele mesmo fala «de uma amedrontadora aproximação das concepções do protestantismo». A linha de pensamento é a mesma!

Então como é possível tecer louvores a um, Monsenhor Gamber, e continuar a condenar o outro, Dom Lefèbvre. Ambos dizem o mesmo.

Por graça, abri novamente o processo de Dom Lefèbvre. Esta é uma súplica legítima.

Monsenhor Gamber, em um segundo capítulo, trata da «ruína» do rito romano. Ele o pranteia, como vós o fazeis em vosso Motu Proprio Summorum Pontificum. De tal modo ele avança em sua análise que chega ao ponto de dizer que o rito novo, sem ser de per si inválido – o que Dom Lefèbvre jamais disse – é celebrado com mais e mais freqüência de maneira inválida. Dom Lefèbvre disse exatamente a mesma coisa. Nem mais, nem menos. Ele é apenas um pouco mais preciso: «Todas essas mudanças no novo rito são realmente perigosas, porque pouco a pouco, sobretudo para os jovens sacerdotes que não mais têm a idéia de sacrifício, da presença real e da transubstanciação, e para os quais tudo isso não significa mais nada, esses jovens sacerdotes perdem a intenção de fazer o que a Igreja faz e não celebram mais missas válidas» (Conferência de Florença de 15 de Fevereiro de 1975).

Esta foi a grande preocupação de João Paulo II no fim de seu reinado, sobremodo expressa em sua encíclica «Ecclesia de Eucharistia».

Eu passo, pois, ao capítulo IV do livro: o julgamento do prelado é terrível.

Ele expõe a princípio, brevemente, porém adequadamente, a reforma luterana, a reforma que Lutero fez a Missa católica sofrer, a Missa romana. «O primeiro, escreveu ele, a ter empreendido uma reforma da liturgia e isso em razão de considerações teológicas foi, incontestavelmente, Martinho Lutero. Ele negava o caráter sacrificial da Missa e por isso se escandalizava com certas partes da Missa, em particular as orações sacrificiais do Cânon» (p. 41).

Daí advém a reforma que ele empreendeu da missa e logo de início suprimiu as orações sacrificiais, mas ele agiu prudentemente – com a prudência da carne – para não chocar e criar reações.

Ora, nada de tão comparável com a reforma litúrgica conciliar.

Monsenhor Gamber é terrível. Ele afirma inicialmente que se agiu muito brutalmente no Concílio: «A nova organização da liturgia e, sobretudo, as modificações profundas do rito da Missa que apareceram sob o pontificado de Paulo VI e entrementes se tornaram obrigatórias – pode-se legitimamente discutir este ponto – foram muito mais radicais que a reforma litúrgica de Lutero e levaram muito menos em conta o sentimento popular» (p. 42).

Depois, ele afirma que alguns elementos da doutrina protestante foram levados em conta para justificar a reforma litúrgica. Ele fala ainda da «repressão do elemento latrêutico», «a supressão das formulas trinitária», e enfim do «enfraquecimento do papel do sacerdote». Aqui se encontra, pura e simplesmente, as afirmações de Dom Lefèbvre, aquelas do «Breve Exame Crítico» apresentado ao Papa pelo Cardeal Ottaviani. E diz ainda que «não foi suficientemente esclarecido em que medida, tanto aqui quanto no caso de Lutero, as considerações dogmáticas puderam exercer alguma influência» (p. 42).

Ele reconhece que «foi a nova teologia (liberal) que apadrinhou a reforma conciliar». Ele se ressente de que o Papa Paulo VI não tivesse acreditado que deveria ter levado a sério «as críticas dogmáticas», «nem as imperiosas e ásperas repreensões dos cardeais de mérito – como aqui não se pensar no Cardeal Ottaviani, no Cardeal Bacci, os quais haviam lançado objeções dogmáticas quanto ao novo rito da missa – nem as instantes súplicas provenientes de todas as partes do mundo impediram Paulo VI de introduzir imperativamente o novo missal» (p. 43).

Assim, para Monsenhor Gamber cuja doutrina vós tanto nos recomendais, o «Novo Ordo Missae» teria «odores» protestantes pelos traços de teologia protestante, teologia liberal.

Confessai que tudo isso, objetivamente, pode impedir qualquer entusiasmo de celebrá-lo e torna difícil falar de «santidade» ou de «valor» do novo rito como vós nos pedis para fazê-lo na carta que endereçastes aos bispos. A contradição permanece!

Vós aprovastes estas críticas. Por que então continuais a condenar Dom Lefèbvre?

Seu erro foi talvez ter tido razão cedo demais, ou de ter sido, em sua época, um bispo de caráter… Mas se ele demonstrava essa qualidade quem poderia com razão criticá-lo, ainda mais por tal lucidez e tamanha força? Foram estes os motivos da condenação?

Após estas críticas gerais, Monsenhor Gamber chega a um ponto mais peculiar: à prex eucharistica. Ainda nesse ponto a crítica permanece terrível. «Os três novos cânons constituem por si mesmos uma ruptura completa com a tradição. Eles foram compostos de acordo com modelos orientais e galicanos, e representam, ao menos em seu estilo, um corpo estranho no rito romano» (49). Ele aprofunda um pouco mais em seu «menu» até as palavras da consagração, e é ainda mais severo: «A modificação ordenada por Paulo VI das palavras da consagração e das frases que se seguem… não tinha a menor utilidade para a pastoral. A tradução de «pro multis» para «por todos» que se refere a concepções teológicas modernas e que não é de modo algum encontrado em nenhum texto litúrgico antigo, é duvidosa e tem na verdade causado escândalo» (p. 50).

Monsenhor Gamber estava chocado, deveras chocado, com a mudança do termo «mysterium fidei» da fórmula da consagração do vinho. Mas sua explicação é luminosa: «Do ponto de vista do rito, é para se ficar estupefato ao ver que se tenha podido retirar, sem razão, o termo «mysterium fidei» inserido nas palavras da consagração desde por volta do século VI, para lhes conferir um significado novo; ele se tornou uma exclamação do sacerdote após a consagração. Uma exclamação desse tipo jamais esteve em uso. A resposta da assembléia: «Proclamamos, Senhor, a vossa morte…» só é encontrada em anáforas egípcias. Porém é estranha aos ritos orientais e a todas as orações eucarísticas ocidentais e está em total desconformidade com o estilo do cânon romano» (p. 50).

Desse modo, nós nos prontificamos a nos ater a crítica de Monsenhor Gamber. Eu creio que ela basta para poder justificar nossa posição prática. No entanto, porque quisemos permanecer ligados a estas críticas, àquelas do Breve Exame Crítico, que são as mesmas, nós fomos praticamente excomungados, cassados de nossas igrejas, nós fomos tomados por retrógrados. E nos disseram que não temos o senso da Tradição…

Mas então porque elevar às nuvens Monsenhor Gamber e continuar a combater Dom Lefèbvre? Eu não entendo.

Não haveria injustiça nisso? Eis o que eu tenho em meu coração e o que eu quero vos dizer, vós que sois o pai de todos.

Monsenhor Gamber vem a concluir o capítulo por este veredito: «Com o novo, quis-se mostrar aberto à nova teologia, tão equívoca, aberta ao mundo de hoje» (p. 54). «O que é certo é que o novo Ordo Missae, desta forma, não recebeu o assentimento da maioria dos padres conciliares».

Incrível!

Esta única afirmação deveria bastar para que qualquer um se ativesse firmemente ao antigo rito… «Mas vós não tendes o espírito do Concílio»! Esta arma que mata. No entanto, o que é este espírito do Concílio que é necessário ter para viver… Monsenhor Gamber o tinha? Mas que arbitrário! Que arbitrário!

Vós poderíeis talvez me dizer: «Tu te enganas. Não é a missa que põe o problema. Mas as sagrações. Dom Lefèbvre as realizou sem autorização pontifical. Por isso devia ser punido. Hoje, o novo Direito canônico prevê a excomunhão. Eis o problema! Eis o porquê da condenação». Mas é realmente esse o problema?

A idéia da sagração de um membro da Fraternidade havia sido aceita quando do protocolo de 5 de maio de 1988. Vós mesmo a havíeis aceitado.

Mas para o momento, permaneçamos ao nível do simples bom senso.

Dom Lefèbvre não foi menos amado pelas autoridades eclesiásticas após as sagrações que antes delas. Ele não foi menos execrado depois das sagrações que antes das mesmas. Antes delas, fizeram-lhe guerra, sua obra foi declarada «selvagem». Dom Garonne o declarou «louco»… Os bispos das dioceses lhe escreveram cartas horríveis quando ele visitava os tradicionalistas de suas dioceses. E que cartas!

Sim, Dom Lefèbvre já não era amado desde antes das sagrações. Ele não mais estava, parecia-lhe, em sua «comunhão». Já se lhe fechavam as igrejas. Os corações dos bispos se lhe fecharam… Mesmo em Roma, não se ousava mais recebê-lo… quando ele visitava um dicastério… o Prefeito ficava embaraçado… Ser visto com Dom Lefèbvre era comprometedor… Já muito antes das sagrações, ele era o « mal amado» da Igreja. Ele não tinha o espírito conciliar… E de fato, sua obra, sua obra sacerdotal foi interditada, seu seminário foi fechado. Interditadas as ordenações sacerdotais… Obviamente, ele nos ordenou para o Sacrifício da missa…! Ele era execrado por seus pares bem antes das sagrações e mesmo durante o Concílio.

Não se lhe perdoava a posição, sua presidência do Coetus internationalis Patrum.

Mesmo antes do Concílio, quando ele era Arcebispo-Bispo de Tulle, os cardeais e arcebispos da França lhe fechavam a porta de suas assembléias e reuniões. Mas ele tinha pleno direito a tomar parte nelas. Eles lhe recusavam tal. Isto é histórico! Se o Cardeal Richaud – então Arcebispo de Bordeaux – estivesse ainda neste mundo, ele poderia testemunhar quanto a isso.

Dom Lefèbvre no-lo disse. Mas ele ria-se disso. Ele não era rancoroso. Sim, mesmo antes das sagrações, Dom Lefèbvre não era amado. Era assim.

Sob esses aspectos, o problema das sagrações toma seu sentido verdadeiro. É na verdade um problema menor, o que quer que se diga… Neste sentido, as sagrações não foram a razão fundamental de sua excomunhão. Na prática, ele já o era. Após as sagrações ele se tornou, pode-se dizer, canonicamente. E isso não mudou quase nada… A pena canônica – sua declaração – foi inicial e essencialmente diplomática: para fazer medo e assustar os fiéis e lhes fazer abandonar o barco… O Cardeal Gagnon julgou mal.

Mas admitamos que a excomunhão tenha sua razão essencial e exclusiva nas sagrações. Esta ação – esta sanção – estende-se a Dom Lefèbvre, aos quatro bispos consagrados e ao co-consagrador Dom Castro Mayer… a mais ninguém, e de modo algum à Fraternidade Sacerdotal São Pio X e seus padres. Eles não estão excomungados. Eles estão na Igreja e são da Igreja. Eu mesmo nunca recebi a menor notificação de excomunhão. O Motu Proprio Ecclesia Dei Adflicta não me diz respeito diretamente.

Vós me direis talvez que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X tenha sido suprimida por Dom Mamie, Bispo de Friburgo, e não exista mais. Ela não é mais de direito diocesano. Vós sois “zero”, nada. Vós não tendes qualquer existência legal.

Ah ! Permiti-me ainda!

Dom Mamie quis talvez suprimir a Fraternidade Sacerdotal São Pio X… Mas eu me permito humildemente vos lembrar que nós o fomos em razão de nossa ligação à missa tridentina e em razão de nossa rejeição do novo Ordo Missae.

Ora, prefaciando o livro de Monsenhor Gamber, vós prefaciastes nossas própria críticas.

Volto a repetir, Dom Lefèbvre e o Breve Exame Crítico são menos duros que Monsenhor Gamber e seu livro. Ademais vós nos dais razão em vosso recente Motu Proprio reconhecendo que a antiga missa «permaneceu sempre autorizada». Se ela permaneceu sempre autorizada, era legítimo a celebrar e ilegítimo condenar os que queriam celebrá-la.

Assim, pois, nossa condenação e nossa supressão estão sem razão suficiente.

Elas são injustas. Querei, Santíssimo Padre, restaurar a justiça, reparar a injustiça.

Dignai-vos, Santíssimo Padre, a receber a expressão de meu filial respeito e conceder-me vossa bênção.

Padre Paul Aulagnier.

Membro do Instituto do Bom Pastor.

30 novembro, 2019

Mantendo a Missa de sempre, em oposição a todos e contra todos, o senhor refletiu a que se expõe?

Perguntar-me-iam: Mantendo a Missa de sempre, em oposição a todos e contra todos, o senhor refletiu a que se expõe? Sim.

Eu me exponho, se assim posso dizer, a perseverar no caminho da fidelidade a meu sacerdócio, e, portanto, prestar ao Sumo Sacerdote, nosso Supremo Juiz, o humilde testemunho de meu oficio de padre. Exponho-me a dar segurança aos fiéis desamparados, tentados de cepticismo ou de desespero. De fato, todo e qualquer padre que conserve o rito da Missa codificado por São Pio V, o grande Papa dominicano da Contra-reforma, permitirá aos fiéis participar do Santo Sacrifício sem equívoco possível; comungar, sem risco de ser enganado, o Verbo de Deus Encarnado e imolado, tornado realmente presente sob as sagradas espécies.

Da profética e histórica declaração do padre Calmel, que hoje completa 50 anos.

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9 abril, 2019

Descobrindo a Tradição: Crise de Consciência de um Sacerdote.

Por Peter Kwasniewski, OnePeterFive, 27 de março de 2019 | Tradução: José Antonio Ureta

A carta a seguir e minha resposta são uma troca real de correspondência. O sacerdote gentilmente permitiu a publicação de uma versão na qual seus detalhes pessoais foram removidos. Acreditamos que atualmente há muitos sacerdotes em uma situação de consciência semelhante ou até idêntica à que é descrito aqui e que a leitura do texto pode ajudá-los a alcançar maior clareza sobre as medidas a tomar.

Caro Dr. Kwasniewski,

Hoje lhe escrevo por uma razão pessoal: sinto que estou em uma batalha por minha própria alma, o que, por ser sacerdote, é sinônimo de uma batalha ferozmente travada pela própria alma da Igreja no “ponto crítico” que mais conta: o altar de Deus e a celebração dos Sagrados Mistérios.

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Sou padre há pouco mais de cinco anos e celebrei minha primeira missa no usus antiquior logo após a ordenação. Como membro de uma comunidade religiosa, fui ficando progressivamente consciente de muitas questões – a respeito de toda a gama de “questões” às quais somos confrontados hoje na Igreja, mas centrando-se na Sagrada Liturgia – que, embora até um certo ponto “tolerável” para mim enquanto religioso, tornou-se in-tolerável para mim enquanto sacerdote de Jesus Cristo. Meu afastamento da minha comunidade de origem não foi apenas uma questão de afastar-me daquilo que é prejudicial e/ou “falsifica” a fé, mas também uma esperança de aproximar-me de aquilo que oferece maior verdade e beleza. Eu digo isso não com qualquer animosidade ou raiva, mas simplesmente como uma questão de fato.

A mudança em minha alma após a recepção do sacramento da ordem sacerdotal trouxe consigo uma clareza quase instantânea de visão e um aperfeiçoamento da consciência em relação à Santa Missa e a tudo o que flui dela. Existem, simplesmente, coisas que, uma vez que você as conhece, você não pode não conhecer. Esta é a história da minha vida sacerdotal, pois quanto mais eu descubro sobre o desenvolvimento da doutrina e da práxis (particularmente na Igreja moderna ou “pós-conciliar”), mais eu me sinto impelido pela Igreja, minha Noiva, a “fazer algo” em toda a medida de que sou capaz, ainda que aceitando o meu papel limitado no Corpo Místico. Em duas palavras, posso dizer que uma vez que comecei a descobrir a Missa Tradicional e o modo de vida e a “cultura” que fluem organicamente dela e levam a ela, nunca consegui realmente “voltar”. Isso teve um alto custo.

Servi em duas paróquias “típicas”; em nenhuma delas a Missa Tradicional fazia parte do meu ministério público, pois eu estava tentando manter um “perfil baixo”. No entanto, eu celebrava o Novus Ordo de maneira muito tradicional, pregando sobre todos os tópicos importantes de nossa fé, e dedicando muito tempo e empenho à preparação do matrimônio, com um foco particular na virtude da castidade e da vida sacramental. O “povo fiel” gostava de mim, mas fui rapidamente desprezado pelos clérigos em posições de mando e que levavam vidas sacerdotais muito diferentes daquela que eu tentava seguir. Eu experimentei, em primeira mão, o jeito não-sacerdotal e claramente descaridoso com o qual os pastores da “nova misericórdia” tratam os sacerdotes favoráveis ​​e fiéis à “tradição”.

Fiquei algum tempo longe do ministério paroquial a fim de recuperar-me e para tentar entender o abuso espiritual que sofri nas mãos de pastores cuja missão é de promover a vida sacerdotal e não de destruí-la. Meu período sabático teve lugar em uma comunidade religiosa dedicada à chamada “reforma da reforma”.

Embora a nossa Missa conventual e o Ofício Divino fossem “tradicionais”, todos os membros da comunidade, sem exceção, “devem” engajar-se de alguma forma na participação no Novus Ordo Missae. Só isso já trouxe para mim uma forte dor de coração e um problema de consciência, pois o meu tempo aqui, separado da realidade cotidiana do business as usual nas paroquiais, me fez relembrar o que é precisamente aquilo em que eu creio no que concerne a Santa Missa e a cura pastoral das almas; no que eu creio sobre o mistério da Igreja e as “Núpcias do Cordeiro”; e como estou sendo atraído por Nosso Senhor para representar sua Pessoa, como noivo, na relação íntima com a Igreja, minha Noiva, particularmente na celebração da Santa Missa. As “duas formas” são apresentadas [nesta comunidade] como realidades igualmente aceitáveis, quase como um Café Litúrgico no qual se pode escolher o que se quer. Essa posição é baseada em certos escritos do Cardeal Sarah, assim como no documento Con Grande Fiducia do Papa Bento XVI, a carta pastoral que acompanha Summorum Pontificum, a qual, embora eu tenha subscrito plenamente no passado (e ainda considero ter sido uma de suas mais belas e paternas mercês como Pastor Supremo da Igreja universal), hoje não posso mais considerar adequada à magnitude do problema.

De tudo isso decorre muita ambiguidade, resultante de visões litúrgicas divergentes. Meus irmãos e eu compartilhamos o desejo de uma vida litúrgica “bela”, mas, para mim, essa beleza não é uma questão meramente estética. É algo mais profundo, mais filosófico, até mesmo ontológico: têm a ver com o que há – o não há – nos ritos da Igreja. Meus irmãos de comunidade compartilham laços de boa vontade e agradeço a Deus por isso… mas sem um padrão objetivo ao qual estejamos sujeitos, como uma comunidade pode crescer de forma ordenada? Essa, Dr. Kwasniewski, é minha dor, não só pela minha comunidade, mas também pela nossa Igreja, bela e doente.

Estou às voltas com uma aguda “questão crítica” sobre se posso ou não, em boa consciência, continuar a celebrar o Novus Ordo Missae. Essa crise não é “nova”, nem chegou a esse ponto por acaso. Foi emergindo, devagar mas possantemente, cada vez que celebrava a Missa num rito vácuo, que eu sei que representa um afastamento significativo e até mesmo prejudicial da tradição orgânica da Igreja e, portanto, de sua integridade; assim como do zelo pastoral pelas almas imortais, das quais eu, como sacerdote, sou um guardião.

Em minha vida sacerdotal antiga, eu era “entusiasta” pela “Reforma da Reforma” e acreditava que era, para a Igreja, “o caminho a seguir”. Eu simplesmente não acredito mais nisso. Uma das coisas que contribuíram de modo significativo para minha mudança de opinião e de atitude foi o fato de tantas vezes ter ficado ainda mais frustrado por esforçar-me em “embelezar” a Nova Missa em vez de simplesmente celebrar a Missa Tradicional (!). É como se o Novus Ordo tivesse sido construído para a desconstrução e a autodestruição. Como diz Martin Mosebach no prefácio de seu livro Noble Beauty, Transcendent Holiness [Nobre beleza, santidade transcendente], “a Liturgia é a Igreja”. Isso vale para qualquer Missa que seja celebrada, pois “a Igreja” ritualmente incorporada nela é “feita presente” através do ars celebrandi do verdadeiro ritus et preces de que é tecido toda missa, de qualquer rito que seja. Eu me pergunto, e ainda mais agora, com grande dor de coração: Como posso continuar a contribuir com (e a perpetuar) aquilo que eu percebo como uma mentira – a mentira do equívoco, da artificialidade, do crime espiritual de incúria e de “desnutrição” dos fiéis – tendo plena consciência de que estou “desfigurando” a Igreja pela celebração de uma Missa “desfigurada”?

Eu tenho maturado e desenvolvido meu pensamento sobre este assunto por muito tempo, com estudo e experiência, e com o desgosto de ver por todas partes o abismo enorme e a lacuna sem fundo que se abriram e estão almas em perdição por causa do Novus Ordo (mesmo quando “celebrado reverentemente”) e de tudo o que vai junto. Esta última frase é fundamental para mim: “tudo o que vai junto”. Pois, embora o problema se concentre na Missa, não é “apenas” sobre a Missa. Trata-se da Igreja, minha Noiva, em sua integridade e coerência vital. Eu estou em uma “batalha pela minha alma”, o que é sinônimo da batalha pela própria alma da Igreja.

Será muito bem-vinda sua opinião e seu “senso” do que eu manifestei – até mesmo o seu “corretivo” de qualquer coisa que eu tenha dito e que possa estar fora de lugar ou ser exagerado, míope, “extremo” ou algo desse naipe.

Com profunda gratidão pelo sua atenção e prometendo minhas orações pelo Sr. e sua família,

Pe. N.

* * *

A seguir, a resposta:

Caro Padre N.

Obrigado por suas palavras de agradecimento e por confiar-me a história de suas provações. Agradeço todos os dias pelo que o Senhor está fazendo na Sua Igreja, pois Ele leva muitas almas a enxergar verdades difíceis, mas libertadoras. Ele está fazendo uso desta crise inegável pela qual estamos passando como um alarme colossal para abrir os olhos as pessoas para as causas mais profundas de nosso mal-estar.

Tudo o que o Sr. descreveu sobre o seu caminho do Novus Ordo para a liturgia romana tradicional reflete exatamente minhas próprias experiências, pensamentos e sentimentos. Como o Sr. talvez tenha lido em meu livros Resurgent in the Midst of Crisis [Ressurgente em meio a Crise ] e Noble Beauty, Transcendent Holiness, eu fui responsável por quase trinta anos de fornecer música para ambas as “formas” da liturgia romana, de dirigir coros e scholas nos dois ritos, pelo que fiquei intimamente familiarizado com os textos, rubricas, cerimônias e música de cada um deles. Ao mesmo, estudei a História da Liturgia e a Teologia da Liturgia. Lentamente, cresceu em mim a convicção de que a reforma litúrgica foi um desastre para a Igreja.

Eu passei por todas as fases habituais. A primeira foi a fase “ingênua”, ou seja, que o problema não foi a reforma em si, mas como ela foi implementada. A segunda fase foi a da “crítica esperançosa”, ou seja, que a reforma tem problemas, mas que eles podem ser mitigados por celebrações bem feitas e, eventualmente, reformados de cima. A terceira fase, a “realista”, é que a reforma é falha em seus princípios fundamentais; não pode ser resgatada, mas deve ser rejeitada em favor do rito romano clássico.

O Sr. conhece o assunto tão bem quanto eu, mas leva tempo para entender a magnitude do problema – tempo, muita leitura, muita experiência, muita oração e uma certa intuição, que dificilmente ouso chamar de mística, mas que, entretanto, parece ser dada de cima: uma convicção imediata e incontestável da retidão da tradição e do errôneo de sua substituição moderna. Como o Sr. diz, chega-se a um ponto em que não se pode não saber, e não sentir nas profundezas da alma e dos ossos que algo está seriamente errado no Novus Ordo, e seriamente correto no culto tradicional da Igreja Católica.

O Novus Ordo não veio à existência do modo como os seres vivos são concebidos, nascem, maduram e alcançam seu apogeu; apareceu como são construídas as máquinas na era da indústria e da tecnologia. Isso ajuda a explicar por que um rito pré-fabricado tem grande dificuldade em inspirar o misticismo e oferece pouca nutrição para a vida contemplativa. Apenas alimentos e bebidas naturais podem saciar nossa fome e sede, e podem desenvolver olhos, pele, carne e ossos saudáveis. O Senhor, em sua Providência divina, não deu à sua Igreja acesso à graça sacramental à margem dos sinais sacramentais; Ele não nos deu sinais separados dos ritos que os fixam; Ele não nos deu ritos dissociados de orações, lições, música e cerimônias. Tudo isso é necessário para uma dieta saudável, e não apenas “a forma e a matéria do sacramento”, como o reducionismo neoescolástico professaria. Pode-se também trocar uma refeição de vários pratos por proteína em pó e comprimidos vitamínicos…

Os leitores às vezes têm dificuldades com a tolerância com o Novus Ordo que se encontra, eu o admito, no par de livros acima mencionados. Mas essa tolerância benigna já é coisa do passado. É exatamente como o Sr. diz em relação a Con Grande Fiducia e o Summorum Pontificum: em vista do dogma extraoficial de nunca questionar o Concílio ou qualquer coisa feita em seu nome, estes documentos foram divisores de água para um lugar e tempo determinados, mas eles estão seriamente lesados pela alegação construtivista e patentemente falsa de que não há ruptura [entre os dois ritos], assim como pelo relativismo litúrgico de aceitar múltiplas formas de um único rito, o que espelha o relativismo doutrinal e moral característico de nossos tempos.

Mas agora estou pregando para convertidos, ou pelo menos para um deles. O que eu pretendia dizer é que alguns leitores acharam a minha atitude em relação ao Novus Ordo preocupante, porque eles, mais rápidos do que eu (como São João foi mais célere em chegar ao túmulo do que São Pedro), já tinham, possivelmente há muito tempo, chegado à conclusão de que os novos ritos não poderiam ser endossados ​​e deviam ser evitados. Um professor de filosofia da Europa me escreveu o seguinte:

“O Sr. expõe as falhas do Novus Ordo de uma maneira muito convincente. A coisa toda foi um desastre e priva muitas almas do bem que com certeza receberiam se fossem familiarizadas com a Missa tradicional. Mas eu estava pensando: como é que o Sr. ainda pode trabalhar (segundo escreve em Noble Beauty) para o Novus Ordo, dirigindo cantos e música, quando afirma repetidamente – e com razão – que toda a invenção de Bugnini deve desaparecer? Eu entendo a ideia da paz litúrgica e de dar às pessoas que assistem à Missa Nova  a possibilidade de ter um vislumbre da verdadeira música sacra e assim por diante. Mas o Sr. não acha que isso contribui para a sobrevivência do que seria melhor estar morto e enterrado de uma vez por todas?”

Eu lhe respondi:

“Eu me tenho digladiado com essa questão há décadas. Até recentemente, minhas responsabilidades incluíam dirigir música tanto no usus antiquior quanto no usus recentior, mas eu me pegava amando o primeiro mais e mais, e odiando o último; servindo a um, e desprezando o outro. Na verdade, tornou-se uma tortura psicológica o participar do Novus Ordo. Eu sabia que o deveria deixar para trás para sempre. Agora estou participando exclusivamente da missa antiga e estou “no céu” – pelo menos no espelho litúrgico do céu. Para mim, meu trabalho com o Novus Ordo sempre foi prático ou de natureza pragmática: era parte da minha profissão e eu queria fazer o melhor que pudesse (pelo meu próprio bem, não apenas pelo bem dos assistentes: o canto gregoriano tornava a Missa de Paulo VI suportável para minha psique e minha sensibilidade, ainda que não para meu intelecto). Mas eu concordo com o seu ponto central, que seria melhor deixar perecer este “produto banal feito na hora”, e colocar toda a energia da pessoa em adorar ao Senhor da maneira mais digna d’Ele e mais perfeita para nós. É o que estou fazendo hoje e meus futuros livros demonstrarão meu próprio itinerário sobre esse assunto”.

A única diferença substantiva entre o seu caminho, Pe. N, e o meu é que o Sr. passou a ver todas essas coisas através da graça da ordenação e da cadeia diária de deveres sacerdotais, enquanto eu os vi como músico, oblato [beneditino] e teólogo litúrgico que não podia evitar de perceber “uma coisa após a outra…”

Assim, eu não acho que o Sr. seja “louco”, “extremista”, “obcecado”, ou qualquer que seja o rótulo que seus inimigos (ou seus próprios medos) possam colocar no Sr. Em vez disso, o Sr. tem seguido seriamente o instinto da fé, o impulso de caridade, as obrigações de piedade, as exigências da virtude da religião – a necessidade de uma coerência total entre a lex orandi, a lex credendi e a lex vivendi. A exposição contínua dos fiéis à liturgia tradicional com tudo aquilo que a acompanha, como o Sr. acertadamente acrescenta, associada com a disposição de absorver e ponderar suas lições, necessariamente mostrará a falência do ersatz de liturgia fabricada por racionalistas adeptos do Sínodo de Pistoia, simpatizantes comunistas, e provavelmente ​​maçons, assim como de todo o projeto de “neo-catolicismo” (como alguns o chamam, enfaticamente, mas com acerto). É um despertar difícil, mas salutar. Alguns escritores tradicionalistas usam o cliché “pílula vermelha” para descrever esse processo das escamas caindo dos olhos.

(Apresso-me a acrescentar que alguns tradicionalistas não têm a suficiente educação filosófica e teológica que lhes permitiria fazer distinções e extrair apenas as conclusões que são exigidas pelas evidências. Por exemplo, vendo sérios defeitos na liturgia reformada, eles tiram falsas conclusões sobre sua validez; vendo o abuso repetido do ofício papal, eles tiram conclusões falsas sobre a vacância da Sé; à vista de elementos modernistas em João Paulo II, eles tiram a falsa conclusão de que a obra de toda a sua vida deve ser jogada fora. Poderíamos multiplicar tais exemplos indefinidamente.)

Sabemos que Deus pode tirar o bem do mal, e é por isso que Ele pode santificar as almas, e realmente as santifica, até com os instrumentos de uma reforma não santa, pois mesmo de pedras sem vida, Ele pode criar filhos de Abraão. No entanto, seu modus operandi habitual é criar os filhos pelos pais, não por pedras; e da mesma forma, Ele cria a Igreja a partir de sua tradição patrilinear, nas mãos de sacerdotes que são verdadeiramente pais no sulco dessa tradição, os quais transmitem o nome de família, o sangue e a herança.

Muitos sacerdotes, religiosos e leigos me escreveram ao longo dos anos, dizendo, em essência: “Esta nova empresa é oca e prejudicial, e eu não posso mais fingir que a apoio; Eu não quero fornecer-lhe a menor credibilidade, nem sequer embrenhar-me contra ela”. Eles se perguntam que diabos fazer: “Será que eu ainda posso ir à missa na minha paróquia?” “A qual congregação religiosa devo ingressar?” “Posso voltar a celebrar a Missa nova?”

O Senhor nos dá intuições e convicções tão poderosas a fim de nos levar a tomar medidas adequadas para a glorificação de Deus, para a nossa própria santificação e para a edificação de todo o Corpo de Cristo. Nesse sentido, “surfar a onda”, “ter jogo de cintura”, “resignar-se”, parecem ser opções autodestrutivas. A menos que alguém se sinta confortável correndo o risco de esquizofrenia espiritual, de estresse nervoso ou de violar a própria consciência afastando-se das inspirações de Deus, num dado momento uma decisão tem que ser tomada a favor ou contra o catolicismo tradicional.

Tais decisões estão cheias de perigos e de angústia. Um sacerdote escreveu-me dizendo que havia sido transferido várias vezes porque continuava se recusando a distribuir a Sagrada Comunhão na mão ou a usar ministros extraordinários da Eucaristia. Vários sacerdotes que conheço foram suspensos por pregar contra a homossexualidade (isso acontecerá mais e mais). Um sacerdote que redescobriu a Fé através do movimento carismático ingressou numa nova ordem religiosa e teve que abandoná-la quando aprendeu a celebrar a missa antiga e viu, como que pela primeira vez, a essência da Missa enquanto sacrifício propiciatório, como humilde homenagem, como ardente súplica à Santíssima Trindade, como a soberana oração tanto pública quanto pessoal. Um sacerdote diocesano me escreveu em agonia porque sua alma anseia por celebrar a missa tradicional, mas ele está celebrando uma missa no rito ordinário, versus populum e em língua vernácula, para um grupo de pessoas que não acredita em quase nada. Há até alguns bispos a respeito dos quais se poderiam dizer as mesmas coisas.

Você percebeu com precisão o âmago da crise eclesial, que é a crise da liturgia e, portanto, também do sacerdócio. Permaneceremos nessa crise enquanto a liturgia tradicional não for totalmente restaurada e enquanto a liturgia experimental moderna não seja repudiada.

Não se pode ser ao mesmo tempo tradicional e moderno na liturgia, pois os princípios são contraditórios. Não se pode acreditar que o Espírito Santo guiou a Igreja através dos séculos, e depois abraçar uma liturgia cuja premissa fundamental é que, há muitos anos, faltavam à liturgia muitas características que indispensáveis e que estava repleta de corrupções que deviam ter sido removidas. Não se pode louvar a espiritualidade dos grandes santos, a partir dos Padres do Deserto até os beneditinos, os místicos medievais, os carmelitas, os Doutores, etc. e ao mesmo tempo contradizê-los de fato nas práticas litúrgicas e devocionais.

O que deve ser feito? Parece-me que o único caminho a seguir é unir-se a uma comunidade religiosa ou sociedade de vida apostólica que seja assaz previdente e corajosa para celebrar unicamente a liturgia tradicional, seja no Rito Romano ou num uso específico de alguma ordem. Ao longo deste caminho encontra-se paz de consciência e conforto da alma, luz para a mente e calor para a vontade. Ao longo deste caminho está o mais exigente e recompensador exercício do dom do sacerdócio [a Santa Missa], juntamente com o fruto mais abundante para os católicos fiéis que procuram a Deus nos sublimes mistérios do seu amor.

O Sr. conhece o livro In Sinu Jesu: When Heart Speaks to Heart — The Journal of a Priest at Prayer [In Sinu Jesu: Quando o Coração Fala ao Coração – Diário de um Sacerdote em Oração]? Eis três passagens que eu gostaria de compartilhar com o Sr., nas quais Nosso Senhor fala:

“Eu não vou abandonar-te ou desamparar-te. Eu sou fiel. Eu te escolhi e tu és meu. Por que duvidas do meu amor por ti? Não te dei sinais do meu favor? Não te mostrei que Minha misericórdia preparou para ti um futuro cheio de esperança? Não te prometi anos de felicidade, de santidade e de paz? Minha benção está sobre ti e os desígnios do Meu Coração estão prestes a se desdobrar sobre ti. Tu só tens que confiar em mim. Acredita que te guardarei como a menina dos meus olhos. Tu estás seguro sob o manto da minha mãe. Eu te abraço perto do meu coração ferido. Confie que Eu cumprirei tudo o que te prometi”.

“Avança na simplicidade, livre do medo e confiando na Minha misericordiosa providência para preparar todas as coisas para um futuro cheio de esperança. Deixa a preparação do futuro inteiramente em minhas mãos. A tua parte é permanecer fiel à adoração que te pedi”.

“Oferece-me o presente e eu cuidarei de consertar teu passado e de preparar teu futuro”.

Elevarei orações pelo Sr. ao Pai das Luzes, pedindo a Ele, pela intercessão de Nossa Santíssima Senhora, de São José, de São João Vianney e de seu santo anjo da guarda, que lhe envie a luz de que o Sr. precisa para conhecer seus próximos passos e a força para perseverar apesar de todos os obstáculos. A Igreja está passando por uma crise que pode ser superada apenas pela fé heroica. Pessoas boas serão agredidas e chacoalhadas, mas com isso o joio será retirado e miolo do trigo preparado como sacrifício ao Senhor. Esta também será uma das obras de Nossa Senhora, através da qual Ela trará à luz um clero purificado e uma Igreja purificada.

Seu irmão em Cristo

Peter Kwasniewski

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19 novembro, 2017

Foto da semana.

Por Joseph Shaw, Latin Mass Society, 17 de novembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.comDom Luke Li Jingfeng, de Fenghsiang, um bispo “clandestino” sagrado secretamente, morreu nesta manhã (11:20pm GMT), aos 97 anos. Por favor, reze por ele.

Bispo Li

Dom Li foi um pilar do tradicionalismo, bem como da verdadeira fidelidade à Sé de Pedro, na Igreja de língua chinesa.

Aos seus 90 anos, ele traduziu o missal de 1962 para o chinês, a fim de ajudar o clero de língua chinesa a compreender as orações. Esse gigantesco projeto continuará a ser de grande significado para os Católicos chineses pelo futuro.

Em um nível mais pessoal, ele e alguns dos padres de sua diocese deram muito apoio ao movimento pela Missa antiga.

Novus Ordo Missae não foi introduzido na china ao menos até a década de 80, então lá permanece uma geração de padres que foram educados na Missa tradicional no seminário. Veja o Position Paper da FIUV (Una Voce) sobre a Forma Extraordinária e a China. 

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29 novembro, 2014

“Obediência”? “Respeito”? Não vamos tolerar nenhuma lição de moral daqueles que moralmente assassinaram Bento XVI!

O grande medo dos Conformistas: Nós não aceitamos qualquer lição de moral daqueles que moralmente assassinaram Bento XVI!

Por Dom Pio Pace – Rorate-Caeli | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum,com: Já há algum tempo até bem recentemente, que modernistas, liberais, os autointitulados “moderados” e jornais e blogs considerados “levemente conservadores” têm protestado contra o que eles consideram como uma “guerra implacável” travada por Católicos ortodoxos contra o Papa Francisco e suas orientações.

Estamos bem no meio da parábola do cisco e da trave no olho!  E eles não criticaram, sem um momento de descanso, João Paulo II e sua tentativa de uma pequena “restauração”?  E são essas boas almas que agora nos querem dar lições? E não foram eles que destruíram Bento XVI num nível que só pode ser considerado como assassinato moral? Bento XVI, de quem os liberais já diziam entre si, no dia seguinte à sua eleição: “Este não vai durar mais do que dois anos”! O mesmo Bento XVI, a cujos inimigos Arcebispo Piero Marini convocava abertamente com um  grito de guerra: “Resistere resistere resistere!!”

Eles, então, agora querem nos dar lições, os mesmos que, por meio de seu incessante e brutal ataque contra Bento XVI, seja pela mídia Católica ou pela grande mídia secular, seja por vazamentos de documentos, seja por pressão financeira, seja destruindo-o pelo que ele fez ou pelo que deixou de fazer, seja por causa do que ele disse ou não disse, forçaram-no a apresentar a sua renúncia. Eles agora não só querem nos aniquilar, como fizeram com ele, mas ainda querem que nós os agradeçamos por sermos executados, querem que a gente ache graça no fato de sermos massacrados e que ainda peçamos desculpas pelas manchas de sangue salpicadas em suas roupas impecáveis…

Agora, esses bons apóstolos subitamente descobriram as virtudes da “obediência” e da “humildade”, ao nos dar lição sobre o “respeito”  devido a Pedro, como se, ao declarar a verdade — nem sempre fácil de se ouvir, e de uma forma muito mais suave e proporcional do que eles jamais fizeram – estivéssemos faltando com a obediência e o respeito. No entanto, é precisamente devido a nossa fé em Pedro e devido à nossa obediência incondicional à Igreja e toda a sua tradição que devemos falar como nós falamos.

A verdade é que eles têm medo.

Eu vejo três razões para isso.

1) A primeira razão é que os conservadores têm demonstrado uma capacidade absolutamente notável e inesperada de adaptação às novas mídias. Sua capacidade de estar presente, a sua prontidão em reagir, de comentar imediatamente, de fornecer análises tão logo os eventos acontecem, multiplicando tudo isso por blogs, por websites e por todo o mundo da mídia social… É preciso que seja dito que o Catolicismo tradicional, hoje em dia, sob todas as suas formas e tendências, é em parte resultado da modernidade e… do Concílio Vaticano II. Este Concílio quis dar voz aos leigos. E, para espanto dos guardiões do “espírito do Concílio”, os leigos tomaram isso ao pé da letra! Mas estes não são os leigos clericalizados do estabelecimento liberal, mas sim os novos Católicos ortodoxos. A partir da promoção do individualismo como resultado das mudanças implementadas na Igreja, eles foram capazes de tirar proveito dessas mudanças em um modo que seus artífices e partidários jamais poderiam ter previsto. Na época do Concílio Vaticano II, a ira dos liberais foi desencadeada contra o Cardeal Ottaviani, e eles acabaram sendo bem sucedidos em liquidá-lo. Hoje, os liberais estão tendo que encarar diante deles exércitos de pequenos Ottavianis em tudo que é mídia e fóruns católicos. E muitos dentre esses são bastante articulados!

2) A segunda razão é que a facção pró-Vaticano II está envelhecendo muito rápido e sendo atingida por uma hemorragia de “leigos engajados”, leigos clericalizados que também se tornaram leigos “desespiritualizados”, ou seja, que estão desanimados, e caem como vítimas de costumes e práticas burguesas da atualidade. Há também um importante número de Católicos a quem Joseph Malègue – um romancista francês apreciado pelo Papa Francisco – chama de “as classes médias de salvação”. São os Católicos que praticam sua religião de modo mais ou menos regular, mas que não frequentam a confissão, que organizam a sua religião e seu sistema de crença Católica de acordo com as tendências liberais de pensamento e assim agem no meio em que vivem. Estas são as ovelhas sem pastores, porque a Igreja que agora está de pé, de modo algum os desperta de sua letargia espiritual. (E não pensem que esta é uma tendência apenas das nações do hemisfério norte, muito pelo contrário: na América Latina, aqueles que estão espiritualmente engajados, que valorizam tradições familiares não encontram espaço e acolhida na Igreja, acabam indo parar no pentecostalismo, enquanto a maioria dos que permanecem nominalmente Católicos são precisamente os membros dessas “classes médias” letárgicas e desengajadas

Por outro lado, o Catolicismo “conservador” representa, em todas as suas nuances, tendências, correntes, novas comunidades, comunidades tradicionalistas, movimentos de jovens, grupos de identidade, seminaristas neo-clássicos, “novos sacerdotes”, “freiras com véus”, decididamente escolas e faculdades Católicas, o que podemos chamar as “forças vivas” da Igreja de  hoje. A bem da verdade, é um mundo extremamente diversificado, mas para os quais,de tradicionalistas de um lado a conservadores moderados do outro, e incluindo aí quase toda a Igreja na África, a nova orientação tomada por Roma desde março de 2013 “não dá pra ser engolida”. Bem, este Catolicismo é claramente o Catolicismo de amanhã. É, evidentemente, minoritário, mas é uma minoria que não cessa de crescer, porque é o único que é verdadeiramente fértil em vocações (ou fértil, em todos os sentidos!).

3) Esta segunda razão, sublinhada pelo debate público engajado pela primeira, deixa claro a existência de um “racha” entre uma parte considerável do atual “establishment” Católico e uma “elite” de cardeais ” e bispos e o “novo Catolicismo”, uma discrepância que se torna cada vez mais evidente. O erro fundamental do pontificado de Bento XVI foi o de não ter reduzido essa lacuna por meio de fortes nomeações episcopais (exceto, em parte, nos Estados Unidos). Qualquer que seja a interpretação “profunda” que se tente dar ao pontificado atual, fica evidente que ele só faz ampliar essa discrepância. Papa Francisco, com todas as suas habilidades de manobra, é um homem de outra era. Ele já cometeu erros consideráveis, como o caso dos Franciscanos da Imaculada e a submissão da indissolubilidade do matrimônio àquele show de votação durante o Sínodo. Erros que causaram um dano muito mais profundo à sua credibilidade do que o caso Williamson e o Vatileaks causaram  a Bento XVI.

Em suma: se os liberais pretendem infligir aos conservadores um complexo de culpa, na verdade são eles que estão demonstrando-se (culpados de assassinato moral como eles de fato o são) reduzidos a uma atitude muito defensiva. Eles não vão conseguir silenciar aqueles que agem por meio de oração, escritos, petições, debates, protestos, pois os que assim agem são movidos por Aquele que é a Verdade e a Justiça. E que sabem que o Cristo da bem aventurança da paz é o mesmo que expulsou a golpe de chicotadas os mercadores do Templo.

5 maio, 2014

O que é exatamente um tradicionalista?

Por Christopher A. Ferrara – The Remnant | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com

O fato de que hoje em dia existem católicos denominados “tradicionalistas” é algo sem explicação em toda a história anterior da Igreja Católica. Mesmo no auge da crise ariana — a situação mais análoga à nossa — a Igreja não estava dividida entre tradicionalistas e não tradicionalistas, mas sim entre aqueles que não abraçaram a heresia de Ário e os que o fizeram.

Católicos tradicionais assistindo a uma Missa Tradicional durante a Segunda Guerra Mundial? Não, apenas católicos assistindo À Missa durante a Segunda Guerra Mundial.

Católicos tradicionais assistindo a uma Missa Tradicional durante a Segunda Guerra Mundial? Não, apenas católicos assistindo À Missa durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas o que é exatamente um tradicionalista? Uma olhada no passado para vermos o modo como as coisas eram antigamente poderá ajudar a transmitir o significado do termo de maneira mais eficaz do que as tentativas habituais de uma definição formal:

–        Antigamente não havia rito de Missa traduzido para as línguas vernáculas do mundo. Havia apenas o idioma litúrgico universal de uma Igreja perene, como podemos ver no Rito Romano imemorial, cujo desenvolvimento orgânico havia prosseguido quase imperceptivelmente desde o século V, ou nos veneráveis ritos orientais, quase tão antigos, que, em grande parte, escaparam ao furioso vandalismo litúrgico que devastou a liturgia principal da Igreja.

–        Antigamente não havia altares-mesa no estilo luterano em nossas igrejas, mas somente altares-mores voltados para Deus, cuja própria aparência despertava o sentido de temor respeitoso e reverência nas pessoas.

–        Antigamente não havia leitores leigos, “ministros da Eucaristia” leigos ou meninas no presbitério, mas somente padres, diáconos a caminho do sacerdócio e os acólitos, que eram a fonte primária de geração após geração das vocações sacerdotais, que enchiam os seminários.

–        Antigamente não havia música profana durante a Missa, mas somente canto gregoriano ou polifonia, despertando a alma para a contemplação do divino, ao invés batidas de pés, palmas ou puro tédio.

–        Antigamente não havia abusos litúrgicos disseminados. No máximo, havia padres que celebravam a Missa tradicional de maneira deficiente, mas dentro de uma estrutura de rubrica, texto e música que, no entanto, protegia o seu mistério central de qualquer possibilidade de profanação e mantinha a dignidade suprema do culto divino contra a fraqueza humana.

–        Antigamente não havia “Máfia gay” nos seminários, nas cúrias e no próprio Vaticano, ou clérigos predadores que molestavam meninos ao redor do mundo, porque as autoridades da Igreja faziam valer a regra de que “os votos religiosos e a ordenação deveriam ser proibidos aos candidatos afligidos por más tendências ao homossexualismo ou à pederastia …”[1]

–        Antigamente não havia seminários vazios, conventos vazios, paróquias abandonadas e escolas católicas fechadas. Havia somente seminários, conventos, paróquias e escolas repletas de católicos fiéis provenientes de família numerosas.

–        Antigamente não havia “ecumenismo.” Havia somente a convicção de que a Igreja Católica é a Igreja única e verdadeira, fora da qual não há salvação. Os católicos seguiam o ensinamento da Igreja que “[diz] que os fiéis não podem de maneira alguma assistir ativamente ou participar de qualquer culto de acatólicos,”[2] e eles compreendiam, mesmo se apenas de maneira implícita, o que o Papa Pio XI insistia sobre: “Veneráveis Irmãos, é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes à reuniões de acatólicos: por quanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela. Dizemos à única verdadeira Igreja de Cristo: sem dúvida ela é a todos manifesta e, pela vontade de seu Autor, Ela perpetuamente permanecerá tal qual Ele próprio A instituiu para a salvação de todos.”[3]

–        Antigamente não havia “diálogo.” Havia somente evangelização pelo clero e apologistas leigos com o objetivo de converter as pessoas à verdadeira religião. E havia os convertidos, que entravam para a Igreja em números tão grandes que parecia mesmo que os Estados Unidos estavam se tornando uma nação católica, uma vez que 30 milhões de americanos ouviam o programa de rádio de Dom [Fulton] Sheen todo domingo.

–        Antigamente não havia defecções em massa do sacerdócio, das ordens religiosas, e de leigos, levando à “apostasia silenciosa” na Europa e em todo o Ocidente. Em vez disso, havia aquilo que um Padre do Concílio Vaticano Segundo descreveu no início do Concílio: “a Igreja, não obstante as calamidades que grassam no mundo, está experimentando uma era gloriosa, se vocês considerarem a vida cristã do clero e dos fiéis, a propagação da fé, e a influência universal salutar que a Igreja possuía no mundo de hoje.”[4]

–        Antigamente não havia “Católicos Carismáticos,” “Neo-Catecumenais,” ou outros “movimentos eclesiais” promovendo novos modos estranhos de culto inventados por seus fundadores. Havia somente católicos, que praticavam o culto da mesma maneira que seus antepassados com continuidade inquebrável durante séculos.

–        Antigamente não havia tradicionalistas, porque não havia necessidade de descrever qualquer católico com essa expressão. Todos os católicos aceitavam instintivamente o que uma série de papas havia prescrito como parte da própria profissão de nossa fé: “Admito firmemente e abraço as tradições apostólicas e eclesiásticas e outras observâncias e constituições da Igreja.”[5]

Antigamente as coisas eram assim. E quando foi essa época passada de que escrevo? Isso não foi há séculos, nem mesmo há um século, ou mesmo uma única era, mas há meros cinquenta anos, dentro da memória de vida de muitos milhões de católicos hoje em dia.

Então o que é um tradicionalista? Ele não é nem mais nem menos do que um católico que continua praticando a fé precisamente da maneira que a aprendeu em sua infância, ou que recebeu a mesma fé sem reconstrução de seus pais e que, em troca, a transmitirá a seus próprios filhos. Um tradicionalista, em outras palavras, é um católico que vive a fé como se as calamidades eclesiásticas da época pós-Vaticano II nunca tivessem acontecido – sem dúvida, como se o próprio Vaticano II nunca tivesse acontecido. E a verdade espantosa sobre o tradicionalista é que nenhuma doutrina ou regra disciplinar da Igreja o proíbe de acreditar e prestar culto a Deus dessa mesma maneira, muito embora a grande maioria de católicos não o façam mais.

O fato de existirem católicos que simplesmente continuaram crendo e prestando culto da maneira como os católicos sempre fizeram antes do Concílio, hoje em dia chamados de tradicionalistas — muitos de uma hora para outra em termos históricos —, e que a própria palavra tradição agora distingue esses relativamente poucos católicos da vasta maioria dos membros da Igreja, é um sinal inegável de uma crise como nenhuma outra que a Igreja jamais testemunhou. Aqueles que negam esse fato teriam que explicar porque somente dentro dessa vasta maioria transformada, corretamente descrita como neo-católicos, a fé está constantemente perdendo o controle sobre as pessoas, e muitas delas estão caindo completamente na “apostasia silenciosa” que João Paulo II lamentou em anos recentes após saudar por tantos anos uma “renovação conciliar”, que foi efetivamente um colapso maciço da fé e da disciplina.

Particularmente, eles teriam que explicar porque é que somente dentro dessa vasta maioria de “Católicos do Vaticano II” encontramos

–        mais de um quarto de todos os casamentos que acabam em divórcio,[6] com dez milhões de católicos divorciados e “recasados” no mundo todo, cujo adultério permanente o Cardeal Kasper deseja conciliar, com o aparente encorajamento do atual Papa reinante;

–        nascimentos, batismos, casamentos sacramentais, conversões e frequência à Missa diminuindo implacavelmente desde o Concílio;[7]

–        uma rejeição disseminada do ensinamento infalível da Igreja sobre assuntos fundamentais de fé e moral;[8]

–        uma perda repentina e dramática de vocações sacerdotais, deixando o sacerdócio católico ligeiramente menor hoje em dia do que ele estava em 1970, e um declínio drástico no número de religiosos desde então, apesar do dobro da população mundial.[9]

Eles teriam que explicar também porque é somente dentre a pequena minoria de católicos atualmente denominados tradicionalistas que nenhum desses sinais de declínio eclesiástico é evidente.

Em dias recentes a crise eclesiástica que nos acompanha há mais de meio século parece ter atingido uma profundidade da qual não pode haver recuperação sem uma intervenção divina miraculosa. O mundo está cantando hosanas ao novo Papa, incentivando-o à conclusão final, per impossibile, do processo de autodemolição eclesial que Paulo VI passou seus últimos anos lamentando, embora ele mesmo o tivesse desencadeado. Ainda assim, o sistema neo-católico continua a sua marcha confiante para além do ponto sem volta, justificando todas as evidências de desastre, ao mesmo tempo em que defende os tradicionalistas como especialistas obstinados de nostalgia, cujas “sensibilidades” podem ser conciliadas, mesmo se eles não se preocupam mais com o futuro da Igreja. Porém, na verdade, os tradicionalistas são o futuro da Igreja, como a história de nosso tempo irá registrar quando for escrita.

O que é exatamente um tradicionalista? Ele é o que todo católico foi outrora, e será novamente quando a crise passar.

* * *

[1]“Instrução sobre a Seleção e Treinamento Criteriosos dos Candidatos para os Estados de Perfeição e Ordens Sagradas” [1961])

[2]Can. 1251, §1, CIC (1917),

[3]Mortalium animos (1928), n. 10.

[4]Wiltgen, O Reno se Lança no Tibre, p. 113 (citando o Patriarca Armênio da Cilícia).

[5]Papa São Pio X, Pascendi (1907), nº 42 (citando e afirmando a validade contínua  de uma profissão de fé prescrita por Pio IV e o Beato Pio IX).

[6]Cf. análise estatística da Universidade Georgetown pelo Centro de Pesquisa Aplicada no Apostolado (CARA), http://nineteensixty-four.blogspot.ca/2013/09/ divorce-still-less-likely-among.html.

[7]Cf. Análise de tendências estatísticas CARA, http://nineteensixty-four.blogspot.com/2010/08/there-will-likely-be-fewer-catholic.html

[8]Cf. Pew Research Poll,18 de março de 2013, http://www.pewforum.org/2013/03/18/us-catholics-happy-with-selection-of-pope-francis/.

[9]Cf. Tabela estatística CARA, http://cara.georgetown.edu/caraservices/requestedchurchstats.html.

1 dezembro, 2013

Foto da semana.

patriarca

Ecce Sacerdos magnus, qui in diebus suis placuit Deo et inventus est iustus – Basílica de São Pedro, Vaticano, 25 de novembro de 2013: O Arcebispo Maior de Kyiv-Halyč, Dom Sviatoslav Shevchuk, conduz a peregrinação de clero e fiéis da Igreja Greco-Católica Ucraniana a Roma, por ocasião do quinquagésimo aniversário da translação das relíquias de São Josafá para a Basílica de São Pedro.

Após o encontro com o bispo de Roma, o “Patriarca” — assim o jovem arcebispo é considerado por sua Igreja, embora as relações ecumênicas do Vaticano com os Ortodoxos estejam impedindo, há anos, o seu reconhecimento enquanto tal — celebrou a Divina Liturgia no Altar da Cátedra. Uma coisa é certa: o futuro da Igreja está em sua Tradição, tão valorizada por nossos irmãos do oriente.

Sviatoslav-offering-Liturgy-at-St-Peters

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27 novembro, 2013

Revolução e Tradição.

Por Pe. Alberto Secchi – Radicati nella Fede | Tradução: Gederson Falcometa – Fratres in Unum.com – O que fazer quando tudo parece imerso em uma confusão tremenda? O que fazer quando não parece subsistir nada de certo? O homem é feito para viver diante de Deus e em Deus encontrar a própria consistência e paz. Outrora, [a hierarquia da] Igreja Católica comunicava esta paz. Era o mundo, aquele distante de Deus, a estar em continua agitação, mas não a Igreja. A Igreja era a estabilidade.

Era o mundo sem Deus a estar imerso em uma contínua Revolução, e esta Revolução contínua era amada pelas almas instáveis e desesperadas que, descontentes da vida, buscavam ansiosamente uma impossível novidade que apagasse o seu vazio interior.

A Igreja não. Sempre igual a si mesma, estabelecida e pacífica na estabilidade de Deus, avançava no mar da história e era o navio seguro para as almas que não amavam a Revolução, reconhecendo-a falsa e enganosa.

Era o mundo moderno que, não querendo depender mais de Deus e de nenhuma autoridade, criticava a Igreja acusando-a de não mudar nunca! Não acreditando em Deus, o mundo moderno não entendia a estabilidade da Igreja, porque no fundo não entendia a estabilidade de Deus.

Assim, em meio a todas as terríveis revoluções, a Igreja com os seus santos, com a graça sobrenatural dos seus sacramentos, com a verdade imutável revelada por Deus e transmitida pela Tradição e pela Escritura, caminhava no mundo, arrancando todas as almas que podia da Revolução que mata, para levá-las a seu seio, na estabilidade da graça que edifica.

Tantos eram atingidos pela maravilhosa paz que emanava da Igreja Católica, paz que convencia e convertia, paz que está entre os maiores sinais de Deus.

Quantas conversões à Igreja Católica também no mundo protestante: eles tinham se adaptado à modernidade sempre mais ateia e indiferente, mas esta modernidade não dava paz e muitos, assim, retornavam à Igreja Católica. Descreve muito bem esta situação Carlo Lovera de Castiglione no seu famoso texto sobre “O movimento de Oxford”. Assim disse, falando da crise doutrinal desencadeada dentro da igreja anglicana na metade do século XIX : “… os fiéis, alguns não sabiam mais o que pensar, outros tomavam partido dos inovadores, muitos olhavam além dos confins da Igreja Estabelecida, para os Católicos Romanos, para os quais a serenidade da fé e a imutabilidade da doutrina se refletia na posse da verdade, plena de segurança e de paz.” (Carlo Lovera di Castiglione, Il movimento di Oxford, Morcelliana 1935, pag. 220).

“A serenidade da fé e a imutabilidade da doutrina se refletia na posse da verdade, plena de segurança e de paz.”: como são doces estas palavras. E a doçura própria de Deus que doa à Igreja aquela serenidade que todo coração busca.

Mas agora tudo mudou… chegaram dias terríveis que a retórica politicamente correta dos cristãos amodernados não pode esconder: a Revolução do mundo ateu entrou na Igreja e está consumindo tudo. Não existe mais estabilidade, a Igreja parece ter entrado em uma perene Revolução que tudo muda continuamente: confusão nos ritos, confusão na doutrina, confusão na moral e confusão na disciplina. Não se sabe se a verdade de hoje durará até amanhã. Tantos padres e fiéis correm afanosamente para não ficar para trás, para adaptar-se como podem a esta extenuante confusão.

Quem busca verdadeiramente a Deus, nesta Igreja revolucionária, permanece terrivelmente sozinho.

O que fazer neste clima asfixiante? E o que não fazer?

Antes de tudo, é preciso não deixar-se tomar pela agitação, é preciso não reagir como os revolucionários: seria como curar o mal, que é precisamente a Revolução, com a própria doença. O espírito revolucionário, também quando pretende salvar o bem, não será jamais a solução.

É preciso, antes, estar verdadeiramente fora da Revolução, vivendo integralmente o catolicismo naquela estabilidade que lhe pertencia antes que a Revolução invadisse tudo.

Na confusão escura, nas trevas, urge decidir diante de Deus a viver como católicos, estavelmente. Por isso é preciso encontrar um lugar que te comunique a paz da fé em posse da verdade revelada. Um lugar onde é celebrada a Missa Tradicional: elegê-lo como referência para a própria vida, deixando-se educar por este lugar. Não viver agitado em uma luta perene, mas viver como católico na liturgia de sempre, na doutrina de sempre, na graça de sempre segundo os sacramentos de sempre; e assim realizar todo o bem que o Senhor nos permite cumprir.

Disse o Padre Calmel: “Isto será sempre possível na Igreja, isto a Igreja assegurará sempre, apesar das tentativas diabólicas da nova Igreja pós-vaticanesca: alcançar verdadeiramente a santidade, poder se instruir, em um grupo real, ainda que pequeno, sobre a doutrina imutável e sobrenatural, sob uma autoridade real e conservando a segurança que permanecerá sempre nos verdadeiros sacerdotes e nos Bispos fiéis, que não se demitiram (talvez mesmo sem notar) nas mãos das comissões e da colegialidade.”

Caríssimos, se vivermos assim, as trevas terríveis de hoje permanecerão fora dos nossos corações.

Rezemos para que Nossa Senhora nos obtenha este refúgio, e que nós busquemos de lhe ser sempre mais dignos.

28 janeiro, 2013

Infalibilidade monolítica e divergências entre antimodernistas.

Por Arnaldo Xavier da Silveira

1. O mundo católico deve muito ao povo simples que conserva a fé verdadeira, bem como aos escritores e homens de ação antimodernistas que nos últimos decênios têm desenvolvido amplamente as doutrinas e ações em defesa do depósito sagrado da Tradição. Em variados campos da teologia, especialmente na eclesiologia e na liturgia, o aprofundamento dos princípios tradicionais tem sido notável; e, no terreno prático da vida católica, igualmente, os antimodernistas têm batalhado com denodo heroico que no futuro a História da Igreja registrará com destaque.

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