Posts tagged ‘Moral’

21 novembro, 2016

Misericordia et Misera: nova Carta Apostólica de Francisco.

Íntegra no site do Vaticano da Carta Apostólica para o encerramento do Ano da Misericórdia.

Sobre a FSSPX, dispõe o Papa Francisco:

No Ano do Jubileu, aos fiéis que por variados motivos frequentam as igrejas oficiadas pelos sacerdotes da Fraternidade de São Pio X, tinha-lhes concedido receber válida e licitamente a absolvição sacramental dos seus pecados.[16] Para o bem pastoral destes fiéis e confiando na boa vontade dos seus sacerdotes para que se possa recuperar, com a ajuda de Deus, a plena comunhão na Igreja Católica, estabeleço por minha própria decisão de estender esta faculdade para além do período jubilar, até novas disposições sobre o assunto, a fim de que a ninguém falte jamais o sinal sacramental da reconciliação através do perdão da Igreja.

A seguir, matéria da agência Ecclesia, da Conferência Episcopal de Portugal:

Igreja/Aborto: Papa decide alargar faculdade de absolvição a todos os sacerdotes

Decisão tomada no Jubileu da Misericórdia ganha agora caráter definitivo

Cidade do Vaticano, 21 nov 2016 (Ecclesia) – O Papa Francisco anunciou hoje a decisão de alargar definitivamente a faculdade de absolvição de quem praticou o aborto a todos os sacerdotes, mantendo assim a prática do Ano Jubilar da Misericórdia que se concluiu este domingo.

“Para que nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto”, escreve, no número 12 da carta apostólica ‘Misericórdia e Mísera’, divulgada esta manhã pelo Vaticano.

Francisco precisa que aquilo que concedera a todos os padres, de forma limitada ao período jubilar, fica agora “alargado no tempo, não obstante qualquer disposição em contrário”.

“Quero reiterar com todas as minhas forças que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente; mas, com igual força, posso e devo afirmar que não existe algum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai”, explica.

O Papa espera que os sacerdotes católicos sejam “guia, apoio e conforto no acompanhamento dos penitentes neste caminho de especial reconciliação”.

A prática do aborto implica, segundo o Direito Canónico, a excomunhão ‘latae sententiae’ (automática), exigindo até agora a confissão ao bispo (ou os padres a quem o bispo desse essa faculdade) para a remissão da pena.

Francisco decidiu ainda manter o serviço dos “Missionários da Misericórdia”, mais de mil sacerdotes de vários países, incluindo Portugal, que foram enviados no ano santo extraordinário (dezembro 2015-novembro 2016) para promover o perdão dos pecados.

“Desejo que permaneça ainda, até novas ordens, como sinal concreto de que a graça do Jubileu continua a ser viva e eficaz nas várias partes do mundo”, adianta o Papa.

A carta anuncia também que os fiéis que assim o desejarem podem continuar a confessar-se nas igrejas oficiadas pelos sacerdotes da Fraternidade de São Pio X, um gesto explicado com o desejo de restabelecer “a plena comunhão na Igreja Católica”.

O pontífice argentino pede a todos os padres que se preparem com “grande cuidado” para o ministério da Confissão, acolhendo cada pessoa com misericórdia e comunicando o amor de Deus.

“Isto requer, sobretudo por parte do sacerdote, um discernimento espiritual atento, profundo e clarividente, para que toda a pessoa sem exceção, em qualquer situação que viva, possa sentir-se concretamente acolhida por Deus”, escreve.

Francisco deseja uma redescoberta do “ministério da reconciliação”, particularmente valorizada em iniciativas como as ‘24 horas para o Senhor’, na Quaresma.

“Que a ninguém sinceramente arrependido seja impedido de aceder ao amor do Pai que espera o seu regresso e, ao mesmo tempo, a todos seja oferecida a possibilidade de experimentar a força libertadora do perdão”, apela.

A nova carta apostólica propõe ainda iniciativas para a valorização da Bíblia na vida dos católicos, sugerindo às comunidades que escolham um domingo do ano litúrgico para “renovar o compromisso em prol da difusão, conhecimento e aprofundamento da Sagrada Escritura”.

‘Misericordia et misera’ foi assinada publicamente este domingo, na Praça de São Pedro, após o final da Missa que encerrou o Jubileu da Misericórdia, 29.º Ano Santo na história da Igreja Católica.

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28 outubro, 2016

Terremoto na Academia Pontifícia para a Vida. Com uma limpeza dos Não-Alinhados.

Por Sandro Magister, 26 de outubro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Conforme anunciado no dia 13 de outubro pelo blog Settimo Cielo, amanhã não será o cardeal Robert Sarah a inaugurar o novo ano acadêmico do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família.

paglia1O discurso de abertura será proferido pelo próprio Papa Francisco. Mas ele não se dirigirá até a Pontifícia Universidade Lateranense, e sim receberá os membros do instituto na Sala Clementina do Vaticano, às 11 da manhã.

A mudança dramática de pessoa foi lida por todos como o início oficial de um novo rumo para o instituto, agora mais em linha com a “abertura” de Jorge Mario Bergoglio e, a pedido de seu novo grão-chanceler, que desde meados de agosto é Dom Vincenzo Paglia.

Enquanto isso, na adjacente Pontifícia Academia para a Vida, também entregue pelo Papa aos cuidados de Dom Paglia, a limpeza dos membros não-alinhados já é visível.

Nos termos dos artigos 5º § 2 dos estatutos, os membros ordinários, todos nomeados pelo Papa, e quase todos nomeados por João Paulo II, ficam no cargo continuamente até completarem 80 anos. São, portanto, irremovíveis. Mas, Dom Paglia já obteve do Papa Francisco o sinal verde para mudar o estatuto, reduzindo a 5 anos ou pouco mais que isso o mandato, como já ocorre com os chamados membros “correspondentes”. Ele está se preparando para fazer com que a nova norma tenha efeito retroativo.

Entre os acadêmicos de renome que correm o risco de expulsão estão, por exemplo, o austríaco Josef Maria Seifert e o inglês Luke Gormally, ambos culpados de terem feito críticas radicais à exortação pós-sinodal “Amoris laetitia”.

Entre os cardeais membros estão na mira Carlo Caffara, que também foi o primeiro presidente do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família, e Willem Jacobus Eijk, que é arcebispo de Utrecht e Presidente da Conferência Episcopal Holandesa, mas que também é um médico e teólogo moralista de valor, culpado também de criticar a “Amoris laetitia” e talvez mais ainda por ter assinado a famosa carta dos treze cardeais que tanto  irritou Papa Francisco no início do último sínodo.

Inseguros também estão os membros mais comprometidos com os movimentos pró-vida, começando pela batalhadora Guatemalteca-americana Maria de Mercedes Arzu Wilson, de quem se recorda uma áspera polêmica com Dom Rino Fisichella, então presidente da Pontifícia Academia para a Vida, por causa de um artigo escrito por ele no “L’Osservatore Romano” muito compreensivo com relação ao caso de um aborto feito por uma adolescente e mãe solteira brasileira.

Um destino diferente, ou seja, a reconfirmação, está prevista para outros membros da academia se estes forem cientificamente qualificados, mas que sustentam posições – em matéria de bioética – não exatamente de acordo com o ensinamento da Igreja, pelo menos o de antigamente.

Um deles é, por exemplo, Felice Petraglia de Siena, ginecologista e editor-chefe da revista internacional “Human Reproduction Update”, fundada por Robert Edwards, um dos pais da fertilização em tubo de proveta e membro do órgão oficial da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, que apoia a fertilização “in vitro”, o diagnóstico e seleção genética de embriões, pílulas abortivas e outros semelhantes.

E outro é o ginecologista francês Charles Chapron, um amigo de Petraglia, membro de várias sociedades internacionais de obstetrícia e ginecologia, também favorável ao anterior em tudo, e que no entanto foi admitido como membro correspondente da Academia.

Um estratagema no qual Paglia está trabalhando, para associar membros desse naipe à Academia Pontifícia para a Vida e para incluir outros nos próximos anos, seria o mesmo que eliminar do estatuto o que está disposto nos art. 5 § 4º, alínea b:

“Os novos acadêmicos são convidados a subscrever a Declaração dos Servidores da Vida, com os quais se comprometem a promover e defender os princípios sobre o valor da vida e da dignidade da pessoa humana, interpretados de modo consistente com o Magistério da Igreja”.

Com isso, estaria aplainado o caminho para convidar a fazer parte da Academia Pontifícia para a Vida também Angelo Vescovi, muito ligado a Paglia desde quando ele era bispo de Terni e ajudou-o a estabelecer na cidade a sede central sua criação, a Fundação de células-tronco. Angelo Vescovi não é Católico e participou da campanha do plebiscito de 2005 para defender a lei 40, fortemente desejada pelo Cardeal Camillo Ruini. Mas, fora isso, ele nunca se destacou na defesa pública da vida humana nos círculos científicos dos quais ele é membro. Além do mais, é conhecida a sua posição ambígua sobre as questões de células-tronco embrionárias.

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29 setembro, 2016

Continua a consulta pública no site do Senado sobre o aborto – Vote contra!

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Vote CONTRA a pertinência do projeto aqui.

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16 abril, 2016

Sobre o divórcio, eram exatamente os fariseus que decidiam “caso por caso”.

Por Francesco Agnoli – La Nuova Bussola Quotidiana | Tradução: FratresInUnum.com: Frequentemente se lê, nos dias de hoje, que, entre os defensores da indissolubilidade do matrimônio estariam muitos fariseus que escolhem uma posição muito “rigorosa” porque são contrários à misericórdia ou porque gostariam de afirmar uma superioridade moral sobre o próximo, fechando, assim, a porta. A Igreja “aberta” seria, portanto, uma igreja que rejeita o legalismo hipócrita dos fariseus e estabelece uma nova visão da misericórdia e, no caso do casamento, uma nova visão da fidelidade e do adultério.

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Os fariseus

Certamente que pode haver, entre os que se apresentam como defensores da verdade, alguns fariseus. A verdade pode, de fato, tornar-se um ídolo e um cassetete para usar contra os outros. Mas isso não ocorre quando quem a defende o faz com amor, primeiro para consigo mesmo, e porque acredita que ela deve ser testemunhada e anunciada com humildade e para o bem de todos (não como um privilégio ou como uma fonte de orgulho). Mas, deixando de lado os julgamentos, muitas vezes temerários, sobre os motivos que moveram muitos padres no Sínodo a manter a doutrina tradicional diante das teses de alguns membros do episcopado da Europa do Norte, é importante voltar ao Evangelho, e observar realmente o comportamento dos fariseus.

Será que ali os encontramos intencionados a defender, em nome da lei, a indissolubilidade do casamento, tão claramente anunciada por Cristo?

Não, ocorre exatamente o oposto.

Os fariseus são os ferrenhos opositores da doutrina evangélica sobre o matrimônio. São eles que se aproximam de Jesus tentando desafiar sua clareza ao perguntar-lhe “se é lícito repudiar a esposa por qualquer motivo” (Mateus 19.3). Porque segundo a lei de Moisés, de fato, era concedido ao homem o direito de repúdio mediante uma carta de divórcio, dando a ele a permissão de se casar novamente. Jesus, por sua vez, não entra na casuística rabínica, não fica perdido nos “casos individuais”. Ele, que mais do que ninguém conhece caso a caso e os julga com misericórdia, não faz outra coisa senão recordar-lhes que  “no princípio não era assim”, que Moisés “por causa de sua dureza de vossos corações concedeu-lhes repudiar suas esposas” e que o plano original de Deus é que o casal se torne “uma só carne”.

“O que Deus uniu”, afirma Jesus, sabendo que a sua palavra será dura e difícil de entender, “o homem não separe”. E assim é encerrada de uma vez por todas a lei de Moisés que havia gerado uma grande casuística (deixava ao discernimento dos rabinos sobre qual seria a lista de possíveis causas de repúdio), e é anunciada  a nova lei do amor. “Terminada a lição aos fariseus”, escreve Joseph Ricciotti, em sua obra “Vida de Jesus”, “os discípulos voltam novamente à questão dolorosa da esposa, interrogando Jesus privadamente em casa”. Sim, a indissolubilidade realmente não era do agrado de nenhum deles, mas Jesus não encontra palavras diferentes, menos claras, mais flexíveis para evitar que alguém exclamasse: “Se, portanto, é assim a condição do homem em relação à sua esposa, não convém nem mesmo se casar” .

Se tudo isso é verdade, para um católico resta apenas uma possibilidade: reconhecer que o adultério e o estudo de caso a caso, amado pelos fariseus, não têm lugar na visão evangélica, da qual a doutrina tradicional é simplesmente uma transcrição, porque pertence ao reino da lei, a mesma lei que os fariseus sempre deturparam para atacar Jesus.

A única lei de Cristo, no entanto, é o amor, assim como Deus o quis desde o princípio. Este amor, e aqui está o escândalo para todos, mesmo para os discípulos, contempla até a presença da cruz. E é por isso que na visão do mundo e na de muitos homens da Igreja a “boa nova” parece muito dura. Por isso gostariam de introduzir a exceção, a casuística, em uma religião em que Deus vai às últimas consequências com sua lealdade e seu amor, até o ponto de ser acusado de violar a lei de Moisés para ser crucificado, porque Ele diz coisas incompreensíveis e não quer diluí-las.

Cristo manifesta assim a sua misericórdia: não fazendo concessões às exigências dos fariseus, nem às dos apóstolos (alguns dos quais são casados e não estão felizes de ver tolhida a possibilidade tradicional de repúdio), ou para os ajustes que fariam diminuir o número de seus inimigos, mas dando todo o seu coração para a humanidade (misericórdia deriva literalmente de  miseris cor dare: dar o coração aos pobres): a fim de que os homens aprendam a doar-se a seus entes queridos, seus filhos, sua esposa, seus próprios amigos. Se os cristãos anunciam a possibilidade de um amor assim, eles não anunciam uma lei, mas o próprio amor de Cristo.

E para aqueles que repetem que o amor indissolúvel é um anúncio irrealista no Ocidente de hoje, recordem-se, primeiro, que nem tampouco parecia realista há dois mil anos quando o divórcio e o repúdio no Império Romano eram a norma, e em segundo lugar, que Cristo não é Maquiavel. Ele não veio para explicar-nos a “realidade real”, ou para nos recordar de como o homem é fraco e frágil (isso qualquer um chega por si só), mas para nos indicar as alturas da santidade, o caminho para felicidade. Ele veio para nos dizer: “Sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:48).  Será que ele também estava voando alto demais?  Qualquer anúncio que não lembre ao homem sua filiação com Deus e essa possibilidade de grandeza e amor total é um anúncio humano, demasiado humano. Não é a “boa nova”.

8 março, 2016

A traição histórica dos “católicos”.

Por Roberto de Mattei | Tradução: Paulo Henrique Chaves* – FratresInUnum.com: A aprovação do pseudo-casamento homossexual, ocorrida no Senado [da Itália] no dia 25/02/16 com 173 sim, 71 não e 76 abstenções, é a mais recente etapa de um processo de dissolução da sociedade italiana que se iniciou com a introdução do divórcio (1970), passou pela legalização do aborto (1978) e terá seu próximo e iminente passo na legalização da eutanásia.

Pode-se compreender bem, nesta perspectiva, a exultação da imprensa laicista. “Na longa e tortuosa história da libertação sexual da Itália – escreve Francesco Merlo no jornal La Repubblica (26/02/16) – esta lei tem a mesma relevância histórica que as leis do divórcio e do aborto”. O que estes três eventos têm em comum é a traição consumada pelos dirigentes católicos dos respectivos governos. O divórcio veio sob um governo de centro-esquerda liderado pelo democrata-cristão Emilio Colombo. O aborto foi aprovado por um governo democrata-cristão presidido por Giulio Andreotti [ndr: editor, até sua morte, da célebre revista 30Giorni].

alfano-renzi-468x156A Democracia Cristã desabou, mas os principais responsáveis pela nova lei, o presidente do Conselho Matteo Renzi e o ministro do Interior Angelino Alfano, se definem, nas pegadas de Colombo e Andreotti, como católicos praticantes. Se o ministro Alfano tivesse ameaçado renunciar teria tornado impossível, ou pelo menos teria adiado a aprovação da lei; mas o político siciliano preferiu comportar-se como Andreotti, que no dia 21 de janeiro de 1977 anotou no seu diário: “Sessão na Câmara para votar o aborto. Passa com 310 votos a favor e 296 contra. Pus-me o problema [de consciência] de subscrever esta lei (também o tem [o presidente] Leone para ratificá-la), porém se eu me recusasse, não só abriríamos uma crise após ter apenas começado a tapar os vazamentos, mas, além de ter que aturar a lei do aborto, a DC perderia também a presidência e seria muito mais grave” (Diários 1976-1979. Os anos da solidariedade, Rizzoli, Milão 1981, p. 73). A perda da presidência do governo era considerada mais grave que o homicídio legal de milhões de inocentes.

O que prevê o atual projeto sobre as uniões civis que leva o nome da senadora Monica Cirinnà? Como explicou o jurista Alberto Gambino no Libero de 26 de janeiro, trata-se de um instituto paramatrimonial no qual são previstos os mesmos direitos e deveres do casamento: assistência moral e material, coabitação, direitos patrimoniais, prerrogativas em matéria de trabalho, previdência, impostos, atribuição de moradia, até mesmo a mudança de nome e a comunhão de bens.

O único direito matrimonial que não é reconhecido é o de adoção, mas a Sra. Cirinnà anunciou que “um projeto de lei sobre as adoções de casais homossexuais está quase pronto. Será iniciado na Câmara, onde os números são seguros, de modo que chegará ao Senado blindado” (Il Fatto Quotidiano, 26 de fevereiro). Como se isso não fosse suficiente, existem ainda as instâncias da União Europeia. A Corte Europeia de Direitos Humanos estabeleceu que basta inserir na legislação de um país um regime jurídico substancialmente igual à instituição do casamento, ainda que se o chame de “união civil”, para tornar-se obrigatória a introdução da adoção de crianças e assim evitar a discriminação.

O projeto de lei Cirinnà, tornado projeto Renzi-Alfano, apesar de não conter as adoções homossexuais, é em si injusto e inaceitável, não só porque introduz um pseudo-casamento, mas por atribuir direitos aos homossexuais não enquanto pessoas, mas enquanto homossexuais. Segundo a doutrina católica e, antes mesmo, segundo a lei natural, o homossexualismo ou sodomia é um vício do homem que subverte os princípios da ordem moral. Mas o ministro Angelino Alfano declarou no programa Agorà na RAI3: “Eu nunca ameacei o governo [de retirar-me] pela questão da adoção de crianças pelas famílias homossexuais, farei de tudo para chegar a um acordo. (…) No projeto de lei Cirinnà, voto ‘sim’ se eles tirarem as adoções. Sou a favor de direitos para todos os casais, inclusive os casais homossexuais. Estou absolutamente aberto” (La Repubblica, 05/02/16).

Tem razão Merlo ao escrever que “de qualquer perspectiva que se olhe, esta lei é uma nova Porta Pia” [NdT: local pelo qual as tropas de Garibaldi penetraram em Roma], pois “desvaticaniza [ou seja, descristianiza] a Itália” (La Repubblica, 26/02/16). Mas como podemos ignorar a responsabilidade da hierarquia eclesiástica nesta descristianização da Itália? O vaticanista Giuseppe Rusconi observa que “a amargura e a raiva” dos fiéis, muito mais do que contra os políticos católicos, “se dirigem contra outro alvo: o secretário-geral da Conferência Episcopal Italiana, Dom Nunzio Galantino” (Rossoporpora, 26/02/16), alto expoente da “Igreja em saída” [desejada pelo Papa Francisco], que “ao confronto aberto e até mesmo duro – especialmente nas questões da família e da vida – prefere um diálogo exagerado e incerto com o poder político, o qual se desenvolve nos bastidores e em reuniões amistosas de conversa”. 

Devemos acrescentar que nenhuma palavra veio de quem exerce o cargo de Bispo de Roma e Primaz da Itália. A este respeito, o projeto de lei aprovado no Senado é uma derrota pesada para todos os católicos, incluindo aqueles que vêm chamando de “vitória” o Family Day e a supressão da adoção de crianças por casais homossexuais sob a forma de stepchild adoption, ou seja, de adoção de enteado. Foi propriamente esta “vitória” que tornou possível o acordo Renzi-Alfano, resultando numa derrota colossal para o mundo católico. Uma manifestação pública é sempre uma forte mensagem que se remete a alguém e a importância do Family Day se encontra no fato de que ele tenha existido.

O mundo católico na Itália sempre foi relutante a grandes manifestações públicas, porque sempre tentou evitar o conflito aberto com o adversário, com a ilusão de vencer por meio de compromissos. Mas a renúncia à luta é o pressuposto da derrota. Devemos, portanto, nos alegrar com a demonstração do dia 30 de janeiro, porque ela expressou o espírito militante de um povo vindo de toda a Itália, reunido com esforço e sacrifício para fazer ouvir a sua voz. Mas não devemos confundir a base do Family Day com os líderes do mundo católico.

Tampouco confundamos as intenções e os planos dos organizadores da manifestação com a forte mensagem que veio das ruas. O povo do Family Day é um povo que perdeu uma batalha, mas que deseja prosseguir a guerra. E que já está se mobilizando para um referendo a fim de revogar integralmente a lei que vai introduzir as uniões homossexuais na Itália. O próximo compromisso é em Roma, no dia 8 de maio, para a Marcha pela Vida.

* A quem agradecemos a gentileza da tradução fornecida.

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2 março, 2016

A confusão sobre os (supostos) casos de contracepção no Congo.

Por Dr. Edward Peters | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.com: Mesmo para os padrões de seu pontificado, a conferência de imprensa que o Papa Francisco realizou em seu vôo de retorno do México provocou um número incomum de questões. Desejo abordar apenas uma delas aqui.

Preliminarmente, observo que o ônus da prova não está no negativo, ou seja, provar que algo não ocorreu, e sim no afirmativo, isto é, provar que ocorreu alguma coisa. Dito isso, porém, agora parece claro que a “permissão” ou “aprovação” que Francisco atribuiu ao seu predecessor, o Papa Paulo VI, quanto ao uso de contraceptivos para freiras no Congo simplesmente não existe. Ver e.g. Fr. Zuhlsdorf ou John Allen *.

Infelizmente esse mito foi invocado pelo papa como se fosse um fato da história da Igreja, e, o mais importante, de uma maneira como sugerindo um precedente a ser considerado para evitar a gravidez em alguns casos de possíveis defeitos congênitos. Essa alegação levaria as observações sobre contracepção feitas pelo Papa Francisco a uma área muito diferente, pois já não mais estamos conjecturando sobre um ponto da história da Igreja (por mais interessante que  possa ser), mas agora estamos lidando com o ensinamento moral da Igreja. E aqui o que está em jogo é algo dramaticamente superior.

Então, aqui está o meu ponto: não apenas o caso das freiras do Congo parece não existir, mas, mesmo que tivesse existido de alguma forma, não poderia, eu digo por seus próprios termos, ser usado por Francisco (ou qualquer outra pessoa comprometida com a voz da Igreja) para questionar o que a Igreja estabeleceu e ensina, ou seja, que “todo e cada ato conjugal [quilibet matrimonii usus] deverá, obrigatoriamente, manter a sua relação intrínseca com a procriação da vida humana” (Humanae Vitae 11) e que, portanto, “está excluída toda e qualquer ação seja antes, no momento ou após a relação conjugal [conjugale commercium], especificamente destinado a impedir a procriação – seja como um fim ou como um meio “(Humanae Vitae 14).

Obviamente, o caso das freiras do Congo (ou as freiras dos Balcãs na década de 1990, só para se ter uma outra variação do mito) não diz respeito a atos conjugais, e sim sobre religiosas forçadas a submeterem-se a atos criminosos de estupros. A questão do Congo não seria, portanto, sobre possíveis defeitos de nascimento, mas de como impedir que o esperma do estuprador alcançasse um óvulo com potencial de fecundação. Entre as mulheres que enfrentam um estupro e mulheres preocupadas com defeitos de nascimento simplesmente não existe um paralelo relevante à questão moral da contracepção. Pode-se gostar desse fato ou odiá-lo, mas não se pode alterá-lo ou ignorá-lo. Além disso, o ensinamento da Igreja sobre a imoralidade dos atos conjugais que fazem recurso à contracepção é, creio eu, infalível.

Mas, ainda que eu esteja errado sobre essa reivindicação técnica, não existe dúvida sobre qual seja o Magistério, ou seja, que a contracepção em atos de relação sexual conjugal, quer seja fazê-lo como um fim em si mesmo ou como um meio para algum outro fim, é objetivamente imoral .

Poder-se-ia discutir, penso eu, sobre se as relações sexuais fora do casamento estão sujeitas às mesmas exigências morais do ato conjugal ente casados. A Humanae Vitae, até onde eu posso ver, não aborda essa questão. Mas, quanto a saber se a permissão supostamente dada a freiras para tomar medidas contraceptivas em face da violação, estabelece um precedente para os cônjuges que queiram usar a contracepção em suas relações sexuais por medo de possíveis defeitos de nascimento, isso leva-nos a uma inevitável conclusão: não existe nenhum paralelo entre a dois casos e, portanto, não há tampouco nenhum precedente estabelecido.

Edward Peters, JD, JCD, Ref. Sig. Ap.

Dr. Peters, Advogado Canônico,  foi designado, em 2010, como  Referendário da Assinatura Apostólica pelo Papa Bento XVI 

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22 fevereiro, 2016

Vaticano afirma que Papa falava de contraceptivos contra Zika.

ROMA, 19 de fevereiro, 2016 – LifeSiteNews | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.com: O porta-voz do Vaticano Padre Federico Lombardi afirmou que o Santo Padre estava realmente falando de “preservativos e contraceptivos”, no vôo de volta do México, quando disse que casais poderiam certamente “evitar a gravidez” devido ao perigo do vírus Zika.

Padre Lombardi disse à Rádio Vaticano hoje: “o contraceptivo ou preservativo, em casos particulares de emergência ou gravidade, poderia ser objeto de discernimento em um sério caso de consciência. Isto é o que disse o Papa”.

De acordo com Lombardi, o Papa falou da “possibilidade de usar o recurso da contracepção ou preservativos em casos de emergência ou situações especiais. Ele não está dizendo que essa possibilidade é aceita sem discernimento, de fato, ele disse claramente que pode ser considerado em casos de urgência especial “.

Lombardi reiterou o exemplo que o Papa Francisco fez de uma suposta “autorização do uso da pílula para as religiosas que corriam um risco muito grave de estupro” dada pelo Papa Paulo VI. Segundo Lombardi: “Isso nos faz entender que não se tratava de uma situação normal aquela em que isso foi contemplado.”

O porta-voz do Vaticano prosseguiu: “o contraceptivo ou preservativo, em casos particulares de emergência ou gravidade, poderia ser objeto de discernimento em um sério caso de consciência. Isso é o que disse o Papa”.

No avião, na quinta-feira, o papa foi perguntado por um repórter se a Igreja poderia “levar em consideração o conceito de “mal menor” quando se trata da questão da prevenção da gravidez para evitar a transmissão do vírus.

O papa abriu sua resposta condenando categoricamente o aborto como uma solução para o vírus Zika, mas sobre a questão de se evitar a gravidez, ele acrescentou: “estamos falando em termos do conflito entre o quinto e o sexto mandamento.”

“Paulo VI, o grande, em uma situação difícil na África autorizou as freiras a utilizar métodos contraceptivos para os casos de estupro”, disse ele aos repórteres.

“Evitar a gravidez não é um mal absoluto”, acrescentou o Papa. “Em certos casos, como no presente, tal como no que eu referi do Beato Paulo VI, ficou claro”.

A resposta do papa, em particular, o aparente paralelo que ele traçou entre o caso do uso de contracepção pelas freiras e os casos do vírus Zika, levou amplamente à interpretação de que o papa estava aprovando o uso da contracepção em alguns casos.

Em sua famosa encíclica de 1968 Humanae Vitae, o Papa Paulo VI reiterou o longo e definitivo ensinamento da Igreja, segundo o qual a contracepção artificial é “intrinsecamente errada”, ou seja, que é sempre e em todos os casos um mal, porque contradiz o propósito do sexo que é a procriação.

Alguns teólogos morais têm dito que os contraceptivos não-abortivos poderiam ser usados em casos de estupro como um meio de auto-defesa contra um agressor. Esta distinção não seria aplicável no caso de relacionamento sexual voluntário entre casais preocupados com o vírus Zika.

Além da referência das freiras no Congo, Lombardi ainda destacou os comentários do Papa Bento XVI sobre os preservativos em seu livro-entrevista de 2010 “A Luz do Mundo”. Nesse sentido, disse Lombardi, Bento XVI “falou sobre o uso de preservativos no caso de risco de contágio pela Aids.”

No livro, o Papa Bento disse ao jornalista Peter Seewald que, em alguns casos, como o de um prostituto, o uso do preservativo “pode ser um primeiro passo na direção de uma moralização, um primeiro ato de responsabilidade, no caminho para se recuperar a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer o que se quer. Mas essa não é realmente a maneira de se lidar com o mal da infecção pelo HIV. Isso só pode realmente ser feito com uma humanização da sexualidade”. O Papa Bento XVI, prosseguindo com os comentários disse que a Igreja” não considera isso como uma solução real ou moral, mas, neste ou naquele caso, pode haver no entanto, a intenção de reduzir o risco de infecção, um primeiro passo em um movimento em direção a um novo caminho, uma forma mais humana de viver a sexualidade “.

A Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé (CDF) corrigiu as más interpretações daquelas declarações que falsamente foram apresentadas como justificando a contracepção. Na sua declaração, a CDF disse: “Um certo número de interpretações errôneas surgiram” que têm causado “confusão no que diz respeito à posição da Igreja Católica em relação a determinados questões de moralidade sexual.”

“A idéia de que alguém poderia deduzir das palavras de Bento XVI que de alguma forma é legítimo, em certas situações, usar preservativos para evitar uma gravidez indesejada é completamente arbitrária e não é de forma alguma justificada por suas palavras ou seu pensamento,” acrescentou o comunicado.

A declaração da CDF também rejeitou a sugestão de que o uso de preservativos por prostitutos infectados pelo HIV pode constituir um “mal menor”. Esta interpretação, “é errada” uma vez que, “uma ação que é objetivamente um mal, mesmo se for um mal menor, nunca pode ser licitamente desejado”.

A CDF resumiu a intenção dos comentários do Papa: “A Igreja ensina que a prostituição é imoral e deve ser evitada. No entanto, aqueles que estão envolvidos na prostituição, que são HIV positivo e que procuram diminuir o risco de contágio pelo uso de um preservativo podem estar dando o primeiro passo em respeitar a vida do outro – ainda que o mal da prostituição permaneça em toda a sua gravidade. “

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8 fevereiro, 2016

A Itália do ‘Family Day’.

Por Roberto de Mattei – Corrispondenza Romana, 3-2-2016 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO Family Day de 30 de janeiro trouxe à luz a existência de outra Itália, bem diversa daquela relativista e imoral apresentada pela mídia como a única real.

A Itália do Family Day é aquele conjunto de pessoas, mais amplo do que habitualmente se imagina, que permaneceu fiel (ou retornou nos últimos anos) àquilo que Bento XVI definiu como “valores não negociáveis” – a vida, a família, a educação dos filhos –, na convicção de que somente sobre esses pilares é possível fundar uma sociedade bem ordenada.

A Itália do Family Day é contrária ao projeto de lei apresentado pela senadora Monica Cirinnà para introduzir o casamento e a adoção homossexual em nosso País.

A Itália do Family Day não é só uma Itália que defende a instituição familiar, mas antes uma Itália que se arregimenta contra os inimigos da família, a começar pelo grupo de relativistas que, por trás do pano da lei Cirinnà, quer impor ao País uma ideologia e uma prática pansexualista. Esta minoria é apoiada pela União Europeia, pelo lobby marxista-iluminista e pela maçonaria de vários níveis e graus, mas goza infelizmente da simpatia e da benevolência de uma parte dos bispos e dos movimentos católicos.

Nesse sentido, a Itália do Family Day não é a de Dom Nunzio Galantino, secretário da Conferência Episcopal Italiana (CEI), nem a de associações como Comunhão e Libertação, Agesci, Focolari, Renovação Carismática, que em 30 de janeiro desertaram do Circo Máximo [local da concentração, em Roma]. Dom Galantino procurou por todos os meios evitar a manifestação, e posteriormente, na impossibilidade de impedi-la, quis impor-lhe outro objetivo, como observa Riccardo Cascioli em “La Nuova Bussola quotidiana” de 1º de fevereiro: “chegar a uma lei sobre as uniões civis que mantenha a diferença com a família fundada no casamento entre homem e mulher e que evite as adoções. Em outras palavras, a CEI quer o DICO contra o qual ela mesma combateu há oito anos”.

O primeiro Family Day foi de fato promovido pelos bispos italianos em 2007, contra a legalização das uniões civis (DICO, acrônimo de “direitos dos conviventes”), justamente apresentada pela CEI como uma porta aberta ao pseudo-casamento homossexual. Hoje ela nos conta que é preciso aceitar as uniões civis a fim de evitar o referido “casamento”.

Pleteia-o, entre outros, em uma entrevista, Dom Marcello Semeraro, bispo de Albano: “Em princípio, não tenho objeção ao fato de que, na esfera pública, se dê consistência jurídica a essas uniões. Parece-me que a oposição refere-se ao aspecto da filiação, das adoções, não ao reconhecimento público das uniões. O importante é que não sejam assimiladas à realidade do casamento.” E, para que não restem dúvidas, acrescenta: “Não há nenhum problema em se fazer uma lei sobre uniões civis” (“Corriere della Sera”, 31-1-2016). A posição é clara: não à adoção de crianças pelos homossexuais, sim à legalização das uniões homossexuais, desde que não sejam formalmente definidas como casamento. Se fossem removidos do projeto de lei Cirinnà alguns elementos que equiparam em tudo as uniões civis homossexuais ao casamento, então um católico poderia aceitá-lo.

Dom Semeraro é considerado, como Dom Galantino, um confidente do Papa Francisco. Portanto, a pergunta surge naturalmente: qual é a posição do Papa sobre o assunto?

No “Libero” de 31 de janeiro, Antonio Socci observa que foi “evidentíssima a ausência e palpável a frieza” do Papa Francisco, que nem sequer enviou uma saudação ao Family Day, nem o mencionou no discurso da audiência da manhã de sábado nem no Ângelus do dia seguinte. Como julgar esse silêncio, quando o Governo e o Parlamento italiano estão se preparando para infligir uma ferida moral na Itália?

Tanto mais quanto a Congregação para a Doutrina da Fé já declarou três décadas atrás que a homossexualidade não pode reivindicar qualquer reconhecimento jurídico, porque aquilo que é mau aos olhos de Deus não deve ser admitido oficialmente como justo (Carta sobre a assistência pastoral das pessoas homossexuais, 1º de outubro de 1986, nº 17).

A Itália do Family Day talvez ignore este documento, que o Papa não pode ignorar. Mas tendo como arma apenas o bom senso, ela proclamou no dia 30 de janeiro o seu não claro e límpido não apenas à chamada stepchild adoption [adoção de enteado, ou seja, de um filho ou filha do parceiro ou da parceira homossexual], mas a todo o projeto Cirinnà. Quanto ao posicionamento da multidão que abarrotava o Circo Máximo, ele pôde ser conferido pela força dos aplausos que acompanharam os discursos mais fortes de alguns oradores italianos e estrangeiros, como Seljka Marrkic, líder da Iniciativa cívica que promoveu na Croácia o referendo que rejeitou a união civil e, três meses depois, derrubou o presidente do Conselho de ministros.

Devemos reconhecer com serena objetividade que a Marcha pela Vida – que vem ocorrendo na Itália desde 2011 – quebrou o gelo ao desfazer um mito que pesava sobre o mundo pró-vida italiano: a ideia de que era impossível, ou pelo menos contraproducente, fazer uma grande manifestação pública em defesa da vida.

Nas pegadas da March for Life dos EUA, mas também da grande Manif pour tous da França, nasceu o Family Day, desejoso de aglomerar uma massa tão grande quanto possível, reunindo diferentes correntes. Intransigentes algumas, outras abertas ao compromisso. A razão do seu sucesso em termos de quantidade é também a razão de sua fraqueza em termos de substância e metas. A batalha em curso não é de fato política, mas cultural, que não se ganha tanto pela mobilização das massas quanto pela força das ideias que se contrapõem ao adversário.

Trata-se de uma batalha entre duas visões do mundo, ambas fundadas em alguns princípios fundamentais. Se admitirmos a existência de uma Verdade absoluta e de um Bem absoluto que é Deus, nenhuma concessão é possível. A defesa da verdade deve ser levada até o martírio.

A palavra mártir significa testemunho da verdade, e hoje, ao lado do martírio cruento dos cristãos, que recomeçou em muitas partes do mundo, há um martírio sem derramamento de sangue, mas não menos terrível, infligido pelas armas midiáticas, jurídicas e psicológicas, com a intenção de ridicularizar, fazer calar, e, se possível, aprisionar os defensores da ordem natural e cristã.

Por isto esperamos que o “Comitê de defesa dos nossos filhos”, promotor do Dia da Família, continue a denunciar as iniquidades da lei Cirinnà, mesmo se esta vier infelizmente a ser aprovada e ainda que sob uma fórmula edulcorada.

A Manif pour tous francesa levou pela primeira vez quase um milhão de pessoas às ruas em 13 de janeiro de 2013, poucas semanas antes do debate no Parlamento da lei Taubira. Mas continuou a se manifestar, com força ainda maior, mesmo após a aprovação do pseudo-casamento homossexual, provocando um movimento que abriu caminho a muitos outros na Europa. Dias atrás, Christiane Taubira, de quem a celerada lei francesa toma o nome, saiu de cena, demitindo-se de suas funções de ministro da Justiça.

Portanto, esperamos que se realizem novas manifestações na Itália, conduzidas com força e determinação, ainda que o número de participantes devesse ser menor, pois o que importa não é a magnitude do número, mas a força da mensagem.

Não utilizamos a expressão Family Day para nos referirmos aos organizadores daquele evento, mas para identificar uma multidão que vai muito além daquela fisicamente reunida no Circo Máximo em 30 de janeiro. Esta Itália não está resignada, quer lutar e precisa de um guia. Os guias devem ser autênticos, nas suas intenções, ideias, linguagem e comportamento. E a Itália do Family Day está pronta para denunciar os falsos guias com a mesma força com a qual continuará a combater os verdadeiros inimigos. (Roberto de Mattei)

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2 fevereiro, 2016

Há ou não há um lobby para ampliar a legalização do aborto com o pretexto do Zika Vírus?

REDAÇÃO CENTRAL, 01 Fev. 16 / 07:30 pm (ACI).- No Brasil, já são 3.448 casos investigados de microcefalia, além dos 270 comprovados. Neste cenário, um grupo de ativistas indicou que apresentará ao Supremo Tribunal Federal (STF) ação para pedir o direito ao aborto em gestações de bebês com tal síndrome. Em resposta, o presidente da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família, Prof. Hermes Rodrigues Nery, denuncia que “o governo brasileiro e fundações internacionais usam o Zika vírus para alargar a agenda do aborto no país”.

Segundo entrevista concedida à BBC Brasil pela antropóloga Debora Diniz, do Instituto de Bioética Anis, o mesmo grupo de advogados e acadêmicos que apresentou em 2004 o pedido de aprovação do aborto em casos de anencefalia (aprovado em 2012) entrará agora com uma ação em relação à microcefalia.

O grupo argumentará que o Estado é “responsável pela epidemia de Zika”, uma vez que não erradicou o mosquito transmissor, o Aedes Aegypti, e que as mulheres não podem ser “penalizadas pelas consequências de políticas públicas falhas”. Além disso, alegará que a ilegalidade do aborto e a falta de políticas públicas de erradicação do mosquito ferem a Constituição Federal no que diz respeito ao direito à saúde e à seguridade social.

Entretanto, não citam o direito à vida, também expresso na Constituição, conforme explica à ACI Digital o Prof. Nery. “O direito à vida é o primeiro e o principal de todos os direitos humanos e a pessoa humana deve ser protegida, amada, defendida, desde o primeiro instante, na concepção” disse ele, ao ressaltar que “não há embasamento jurídico sólido para esse que é o pior de todos os atentados contra a vida humana”.

Confira a seguir a entrevista completa com o Prof. Nery:

ACI Digital: Quem são os atores deste cenário que quer aproveitar o Zika para promover a legalização do aborto? Que fundações ou indivíduos estão por trás disso?

Prof. Hermes Nery: O Citizen Go está com uma petição para que a OMS (Organização Mundial da Saúde) não instrumentalize o Zika Vírus para legalizar o aborto no Brasil. Na petição, o Citizen Go explica que “a estratégia parece clara. Grupos feministas, principalmente Women’s Link Worldwide, de Monica Roa (EUA-Colômbia), estão utilizando o vírus Zika para promover a legalização do aborto”. E afirma ainda que “em pouco tempo as feministas fizeram do mosquito seu melhor aliado”, mencionando declarações como as de Monica Roa, porta-voz de Women’s Link Worldwide: “Uma notícia de alcance tão massivo pôs em evidência as grandes lacunas em matéria de educação sexual que ainda existem (…) O Ministério da Saúde tem de adotar uma postura clara. Não digo que tenha de recomendar a todas as mulheres com Zika que abortem, mas que possa informá-las sobre quais são suas opções”. E ainda a de Débora Diniz, professora da Faculdade de Direito na UNB (universidade de Brasília) e pesquisadora do Instituto de Bioética Anis: “Falar do direito ao aborto no caso de um diagnóstico de microcefalia no feto significa reconhecer que as mulheres podem tomar decisões reprodutivas”. Elas pressionam o Ministério da Saúde para deixar claras “as suas opções”, num jogo e roteiro conhecidos, de sutilezas, que interessa também ao governo, que vê assim mais uma oportunidade de favorecer seu programa abortista, pois desde o PNDH3 (Plano Nacional de Direitos Humanos), o governo do PT quer aprovar o aborto no País.

ACI Digital: No Brasil, em 2012, os casos de anencefalia entraram na categoria em que o aborto destes bebês é despenalizado. Existe uma pressão sobre o Supremo para fazer o mesmo no caso da microcefalia?

Prof. Hermes Nery: Está evidentíssimo isso, como temos percebido na mídia em geral, que a máquina do governo e das Ongs financiadas por fundações que promovem o aborto já se mobilizam para repetir o que ocorreu no caso da anencefalia, em 2012, quando o STF despenalizou o aborto em casos de anencefalia, com a ADPF-54. Na época, durante a votação da referida ADPF-54, houve ministro que chegou a declarar: “Está aberta a porta para a legalização do aborto, no Brasil”, de modo gradual, por etapas. Naquele momento, eram os anencéfalos, mas viriam depois com outros casos, para assim, gradualmente irem alargando a agenda no aborto, via judiciária, até chegar ao aborto total, como ocorreu nos Estados Unidos, em 1973.

ACI Digital: Existe certeza médica de que a contaminação com o Zika vírus implica microcefalia do feto em 100% dos casos?

Prof. Hermes Nery: Não, não existe, de forma alguma. Não há comprovação disso. O Zika vírus está sendo utilizado pelo governo como estratégia para alargar a agenda no país e disseminar na mídia a mentalidade contraceptiva, com as sutilezas já conhecidas, induzindo a população a aceitar o aborto nesses casos, preparando assim as condições para que lá na frente o aborto seja reconhecido inclusive como direito humano, como querem as Fundações internacionais, como a Fundação Rockefeller, a Fundação Ford, a Fundação MacArthur e outras.

ACI Digital: O que levou os magistrados em 2012 a considerar a anencefalia razão suficiente para o aborto? Qual seria o embasamento jurídico para manter a microcefalia nos casos onde o aborto deve continuar sendo penalizado?

Prof. Hermes Nery: Essa história do STF interferir com seu abominável ativismo judicial em favor do aborto (ajudando assim a política do governo petista de Dilma Rousseff) começou quando o STF autorizou o uso de células-tronco embrionárias, em 2008, com a ADIN3510.  Naquela ocasião, o Ministro Carlos Ayres Brito, relator da ADIN3510, validou a tese de que só depois do nascimento é que a pessoa humana deve ter proteção jurídica, porque, para ele, só é pessoa depois que nasce. Foi um voto terrível e assombroso de Ayres Brito, que abriu brecha para o processo hoje em curso. O fato é que não há embasamento jurídico sólido para esse que é o pior de todos os atentados contra a vida humana, vitimando o ser humano inocente e indefeso. O direito à vida é o primeiro e o principal de todos os direitos humanos e a pessoa humana deve ser protegida, amada, defendida, desde o primeiro instante, na concepção. Ontem, o STF autorizou matar os bebês anencéfalos, hoje, poderão fazer o mesmo com os casos de microcefalia (e a mídia está afoita já na difusão disso, como que em campanha pela agenda do aborto), amanhã, serão outras categorias. São, portanto, precedentes perigosos, a favorecer um totalitarismo que vitimará os mais fragilizados da sociedade, como o Papa São João Paulo II denunciou em sua memorável encíclica Evangelium Vitae. Como ainda afirmou o Dr. Paulo Silveira Martins Leão Júnior, presidente da união dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro, “a dignidade da pessoa humana há de decorrer, necessariamente, da própria natureza do ser humano e não de circunstâncias acessórias, adjetivas, como, por exemplo, saúde e tempo de existência, pois do contrário, cairíamos em fórmulas e critérios arbitrários e aleatórios, conforme as conveniências do momento, condicionando e aviltando a dignidade humana, e desrespeitando os termos claros dos princípios e preceitos constitucionais”.

Para assinar a petição do Citizen Go, basta acessar o site:http://www.citizengo.org/pt-pt/lf/node%3Anid%5D-oms-nao-instrumentalize-o-zika-virus-para-promover-o-aborto?tc=wp&tcid=19444650.

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1 fevereiro, 2016

Papa: a Igreja não reivindica espaço privilegiado na bioética.

O Pontífice convida a Comissão de Bioética a se aprofundar nos temas ligados à devastação ambiental, à deficiência e aos padrões a serem harmonizados. “Hoje se corre o risco de perder qualquer referência que não seja a do lucro”.

Por Iacopo Scaramuzzi – La Stampa | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.com: “Todos são cientes do quanto a Igreja é sensível a assuntos éticos, mas, talvez ainda não tenha ficado claro a todos que a Igreja não reivindica qualquer posição privilegiada nesse campo”.

Foi o que disse o Papa Francisco em um encontro com a Comissão Nacional para Bioética Italiana, enfatizando o risco do utilitarianismo e do lucro serem usados como únicas referências nos progressos da ciência biológica e tecnologia médica.

Ele, então, exortou este organismo consultivo do governo italiano, liderado pelo católico Francesco Paolo Casavol, para que procure se aprofundar em temas ligados à “devastação ambiental e também ao prejuízo e a marginalização de indivíduos vulneráveis”. Em suma, ele pediu para que se tomasse a tarefa de contrapor à “cultura do descartável” que nos dias de hoje assume muitas formas, inclusive aquela de tratar embriões humanos como material descartável, assim como os doentes e idosos quando se aproximam do fim da vida. O Papa também pediu para que as normas e os padrões nos campos médicos e biológicos sejam harmonizados.

“Tenho o prazer de poder manifestar o apreço da Igreja pelo fato de que, há 25 anos, foi instituído na Itália, junto à presidência do Conselho de Ministros, o Comitê Nacional de Bioética”, disse Francisco. “E todos sabem o quanto a Igreja é sensível a questões éticas, mas, talvez, nem a todos tenha ficado igualmente claro que a Igreja não reivindica qualquer espaço privilegiado neste campo, pelo contrário, ela fica satisfeita quando vê que a consciência cívica, em seus vários níveis, é capaz de refletir, discernir e agir tendo como base a racionalidade livre e aberta e os valores constitutivos da pessoa e da sociedade. De fato, exatamente, essa maturidade cívica responsável é o sinal de que a semeadura do Evangelho – esta sim, revelada e confiada à Igreja – produziu seus frutos e conseguiu promover a busca da verdade e da bondade nas complexas questões éticas e humanas”.

É necessário, para o Papa, “servir ao homem, o homem todo, todos os homens e mulheres, com especial atenção e cuidado – como já foi referido – às pessoas mais vulneráveis e desfavorecidas, que estão lutando para fazer ouvir sua voz, ou que não podem ainda ou não poderão mais fazê-la ouvir. Neste terreno comum é que a comunidade eclesial e a civil se encontram e são chamadas a cooperar de acordo com as suas respectivas competências distintas”.

A comissão “tem repetidamente tratado – disse o Papa hoje – do respeito pela integridade do ser humano e a tutela de sua saúde, desde a concepção até a morte natural, considerando a pessoa em sua singularidade, sempre como um fim e nunca simplesmente como um meio. Este princípio ético é fundamental também no que diz respeito às aplicações da biotecnologia no campo da medicina, que nunca podem ser utilizadas de uma forma prejudicial à dignidade humana, e nem tampouco devem ser guiadas apenas por fins industriais e comerciais. A bioética – disse o papa Argentino – nasceu para confrontar, através de um esforço crítico, as razões e as condições da dignidade da pessoa humana, com os avanços da ciência e das tecnologias biológicas e médicas, as quais, por seu ritmo acelerado, arriscam perder qualquer referência que não seja a utilidade e o lucro”.

O Comitê Nacional de Bioética interveio nos últimos anos em questões legislativas controversas, como na questão do fim da vida, da interrupção da gravidez, da pesquisa com células-tronco e da barriga de aluguel. O Papa, hoje, incentivou o trabalho da Comissão “em algumas áreas.”

Em primeiro lugar, “a análise interdisciplinar das causas da degradação ambiental. Espero que a Comissão seja capaz de formular linhas de orientação, em áreas que, ligadas às ciências biológicas, sejam capazes de estimular a conservação, preservação e cuidados com o meio ambiente. Neste contexto, é oportuno um confronto entre as teorias biocêntricas e antropocêntricas, em busca de caminhos que reconheçam a correta centralidade do homem em relação a outros seres vivos e todo o ambiente, até mesmo para ajudar a definir as condições irrenunciáveis para a proteção das gerações futuras”.

“Um cientista um pouco amargo e cético – acrescentou o Papa –, certa vez, quando eu falei essas coisas sobre a proteção das gerações futuras, me respondeu assim: ‘Diga-me, padre, haverá geração futura?'”. Em segundo lugar, “a questão da deficiência e da marginalização das pessoas vulneráveis em uma sociedade fundamentada na competição, na aceleração do progresso. E o desafio de combater a cultura do descartável, a qual tem muitas expressões, entre as quais aquela de tratar embriões humanos como material descartável, e do mesmo modo as pessoas doentes e idosas que estão se aproximando da morte”. Em terceiro lugar, “os esforços cada dia mais crescentes em direção a um confronto internacional com vista a uma possível e desejável, embora complexa, harmonização das normas e regras das atividades biológicas e médicas, regras que saibam reconhecer os valores e os direitos fundamentais.”

O papa finalmente elogiou a Comissão por ter sensibilizado a opinião pública, a partir da escola, sobre questões como a compreensão do progresso biotecnológico. Para Francisco, em geral, “a pesquisa sobre complexas questões bioéticas não é fácil e nem sempre chega-se a uma harmoniosa conclusão; pois esta sempre requer humildade e realismo, e não teme o confronto entre diferentes posições; e que , finalmente, o testemunho dado à verdade contribui para o amadurecimento da consciência social”.

Hoje, neste meio tempo, no escritório da sala de imprensa do Vaticano, foi apresentada a mensagem do Papa para o XXIV Dia Mundial do Enfermo, que será realizado no dia 11 de fevereiro próximo, e que foi anunciado em setembro passado. Entre os oradores estão Mons. Zygmunt Zimowski, presidente do Conselho Pontifício para os profissionais de saúde (para a Pastoral da Saúde), Mons. Jean-Marie Mate Musivi Mupendawatu e padre Augusto Chendi, secretário e subsecretário do dicastério, e padre Peter Felet, secretário-geral da Assembleia dos Ordinários Católicos da Terra Santa e referência local para a organização do Dia Mundial do Enfermo, que será sediado esse ano em Nazaré.