O caso Mindszenty (III): O beijo de Judas.

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Mindszenty na sacada da embaixada dos EUA, em Budapeste.Em 1956 Stalin estava morto e Khrushchev estava fazendo alguns ruídos incomuns. Em outubro, os Húngaros levantaram-se em revolta. Mindszenty não tinha sinais do que estava acontecendo nas ruas; seus guardas disseram-lhe que a multidão fora da prisão estava gritando por seu sangue. Poucos dias depois ele foi solto e realmente uma multidão de locais o atacou. Mas em vez de rasgarem sua carne, agarravam o herói liberto para beijar suas roupas. Quando ele retornou a Budapeste, os Vermelhos depostos tremiam diante deste fantasma que não permaneceria enterrado, contudo, numa transmissão de rádio ele aconselhou contra a vingança. Os Soviéticos não eram tão clementes e tanques rugiam para esmagar este desagradável incidente. Homem marcado, Mindszenty procurou asilo na embaixada Americana como seu último recurso. Agora um longínquo segundo purgatório tinha começado. Pio [XII] ergueu sua voz repetidamente contra esse último exemplo do terror Soviético, mas o Ocidente, descuidado de sua própria retórica libertadora, estava surdo.

Quando The Prisioner [ndt: um filme a respeito do caso do Cardeal Mindszenty] foi lançado, a Igreja era ainda a implacável inimiga do comunismo. O frágil Pio [XII] permaneceu como um Colosso contra o totalitarismo tanto de direita como de esquerda. Quando Pio deixou esse mundo sobreveio um vazio moral no Vaticano que nunca foi preenchido. No começo da década de 60, tanto os governos do Ocidente como os Papas do Novus Ordo decidiram que o entendimento com os Comunistas era preferível às noções arcaicas de Pio e Mindszenty. João XXIII e seu sucessor Paulo VI deram boas vindas ao sopro de ar fresco na Igreja, e em seu aroma estava incluído a cooperação com os Vermelhos. A nova Ostpolitik, gerenciada pelo Secretário de Estado de Paulo VI, Agostino Casaroli, não tinha espaço para guerreiros Cristãos do tipo de Mindszenty. A posição do governo Húngaro foi fortalecida quando Casaroli entrou em negociações com o apavorante regime de Janos Kadar. Enquanto a Guerra Fria derretia, o gelo era colocado em Mindszenty. O governo Americano fez-se compreender que ele não era mais bem-vindo na embaixada. Pior ainda, Paulo [VI] mandou um funcionário para persuadir Mindszenty a partir, mas apenas após assinar um documento cheio de condições que favoreciam os Vermelhos e essencialmente culpava a si mesmo por suas provações. A confissão de que os Comunistas não poderiam torturá-lo estava lhe sendo forçada pelo Papa!

Mindszenty e Paulo VIRetirado de sua terra nativa contra sua vontade, Mindszensty celebrou Missa em Roma com Paulo [VI] em 23 de outubro de 1971. O Papa lhe disse, “Você é e permanece arcebispo de Esztergom e primaz da Hungria”. Era o beijo de Judas. Por dois anos Mindszenty viajou, um vivo testamento da verdade, um homem que foi torturado, humilhado, aprisionado e finalmente banido dos interesses da Igreja. No outono de 1973, enquanto se preparava para publicar suas Memoirs, revelando a história toda ao mundo, ele sofreu a traição final. Paulo [VI], temeroso de que a verdade arruinaria o novo espírito de coexistência com os Marxistas, “pediu” a Mindszenty que renunciasse a seu cargo. Quando Mindszenty recusou, Paulo [VI] declarou sua Sé vacante, dando aos Comunistas uma vitória esmagadora.

Se a história de Mindszenty é a do surgimento e queda da resistência do Ocidente ao comunismo, é também a crônica do auto-enfraquecimento do Catolicismo.

Excertos de Shooting the Cardinal, por Steve O’Brien – Ph.D. em história pelo Boston College e autor de Blackrobe in Blue: The Naval Chaplaincy of John O. Foley, S.J., 1942-46

4 Comentários to “O caso Mindszenty (III): O beijo de Judas.”

  1. O que pode concluir tudo isso acima?

    O que dizer então com poucas palavras em um simples comentário?

    Se os papas do “Novus Ordo” tiveram consciência ou não da horrível atitude deles no último momento no leito de morte de cada um, temos que crer. Crer que Nosso Senhor Jesus Cristo disse ao primeiro papa que rezou ao mesmo para que a Fé dele não desfalecesse no momento de trevas que os cercava, segundo demonstra o próprio Evangelho. Isso vale até a Bento XVI, o atual Pedro, que ainda segue a mentalidade os papas pós-conciliares.

    Todavia, o fato é triste e é danosa até hoje a Cristandade. Quase inreparável.

    Não foi uma traição ao bispo por parte de Paulo VI simplismente. Foi algo a mais. Não atraiçoaram somente a memória dos mártires e, principalmente, São Pedro, São lino, quer dizer , os primeiros papas; mas o próprio Cristo…

  2. Não entendi a questão do Memoirs. Pelo texto dá a entender que a história escrita por Mindszenty não seria publicada caso o Papa tirasse o cargo de Primaz da Hungria do cardeal. Gostaria de uma expliação melhor disso, pois a mim, os escritos de Mindszenty não teriam menor valor caso ele fosse bispo emérito.

  3. Caro Eduardo, Mindszenty, quando da publicação de suas memórias, já estava exilado (se não me engano, em Viena), por pressão do Papa e dos Estados Unidos; entretanto, continuava Arcebispo de Esztergom e Primaz da Hungria. Se ele permanecesse quieto, era provável que assim continuasse até sua aposentadoria ou mesmo sua morte. Entretanto, ele decidiu publicar suas memórias, no que foi surpreendido por Paulo VI solicitando-o que não fizesse. Ao não aceitar a pressão, o Papa pediu-lhe que renunciasse. Como não renunciou, o Papa o demitiu. E ele publicou suas memórias.

  4. Certa feita, o finado jornalista Paulo Francis, em sua coluna no jornal “O Estado de São Paulo” afirmou que os três maiores comunistas do século XX foram Lenini, Stalini e Montini. Será?