Diante do pejo e resistência de clérigos, jovens e leigos mostram-se favoráveis à liturgia tradicional.

Carta 24 de  Paix Liturgique

Desta vez, não somos nós que o dizemos, mas sim distintos prelados romanos e a Federação Internacional “Una Voce”: para grande desespero de um certo clero de antanho, são os jovens e os leigos que, empenhando-se na aplicação do Motu Proprio Summorum Pontificum, mais testemunham a sua fidelidade ao Papa e a sua concordância com os seus pontos de vista litúrgicos.

Foi assim que, no passado dia 7 de Outubro, por ocasião da apresentação dum livro italiano sobre as oposições ao Motu Proprio, Mons. Bux — ver as nossas cartas em francês 210, 211 e 258 —, sublinhou fortemente o papel de motor desempenhado pelos leigos e pelos jovens para a boa recepção do magistério de Bento XVI em matéria litúrgica. Os Cardeais Farina e Castrillón Hoyos, que então estavam presentes, apoiaram sem hesitação as posições deste amigo do Santo Padre.

Ainda em Roma, nos inícios de Novembro, os representantes da Federação Internacional “Una Voce”, entregaram na Cúria um relatório intitulado “O emergir da juventude no movimento internacional Una Voce”. Este documento, que testemunha o quanto o Motu Proprio Summorum Pontificum veio favorecer o desenvolvimento internacional da “Una Voce” em todos os continentes (Japão, Perú, Indonésia, Portugal, etc.), põe em evidência o papel desempenhado pelos fiéis mais jovens neste mesmo desenvolvimento.

I- Extractos escolhidos da conferência de Mons. Bux

Foi por ocasião da apresentação de uma publicação do jornalista Alberto Carosa, “A oposição ao Motu Proprio Summorum Pontificum”, Fede e Cultura, 6 euros, que o Padre Nicola Bux, consultor de várias Congregações vaticanas e amigo do Santo Padre, se pronunciou sem rebuço, como é seu hábito aliás, sobre a recepção do texto pontifício. Note-se que esta conferência teve lugar no interior do Centro Russo Ecuménico e que, a abrir a sessão, o seu director, o Padre Sergio Mercazin, explicou que «o Motu Proprio, incitando os católicos a reflectir sobre a questão litúrgica, veio aproximar católicos e ortodoxos».

«O que me impressiona, declarou Mons. Bux no início da sua intervenção, é o número de leigos e jovens que estão na primeira linha para defender a doce obra de Bento XVI.» Foi assim que um dos pontos da sua intervenção consistiu em ilustrar a importância da mobilização dos jovens e dos leigos, evocando para isso a missa que ele próprio celebrou em Port-Marly (diocese de Versailles-Instituto de Cristo Rei), a 21 de Novembro de 2010, e os contactos que por essa altura travou com os fiéis.

«As cerimónias dos dias de hoje são falhas em devoção, não da de cada fiel considerado individualmente, mas da da comunidade como um todo.» A este propósito, o Padre Bux citou o Cardeal Antonelli, um dos peritos chamados a tomar parte na reforma litúrgica — mas que deixou recordações muito críticas — e que estimava que «quanto mais a reforma litúrgica avançava, mais a devoção recuava».

Insistindo no facto de que, após a publicação da instrução Universae Ecclesia, as oposições episcopais ao Motu Proprio se iam aplacando docemente, Mons Bux não deixou contudo de referir claramente que aqueles «que consideram, contra o Papa, que o rito romano tradicional divide a Igreja têm uma atitude neogalicana». O Motu Proprio que vem dividir … aí está um “argumento” que as autoridades, ainda hoje, não hesitam em apresentar aos peticionários para se recusarem a aplicar o Motu Proprio, tanto em Saint-Germain-en-Laye, em Mantes (diocese de Versailles) como em Saint-Malo, na diocese de Rennes (Mons. d’Ornellas), para apenas citar alguns exemplos. As sondagens encomendadas pela Paix Liturgique revelam aliás, e de modo conforme, que apenas uma minoria de católicos praticantes se opõe à coexistência pacífica das duas formas do rito romano numa mesma paróquia.

Por fim, após ter lembrado que, de acordo com a constituição Sacrosanctum Concilium sobre a liturgia, esta pertence a Deus e não aos homens, o Padre Bux concluiu a sua conferência da mesma maneira que começara, isto é, saudando a acção «dos leigos, e particularmente dos muitos jovens, que contribuem para preservar o sensus fidei» e que «nós, os clérigos, devemos respeitar e apoiar».

II – O debate que se seguiu à intervenção de Nicola Bux

Por altura da sessão de perguntas e respostas que se sucedeu à exposição do Padre Bux, houve dois cardeais, presentes na sala, que intervieram.

Em primeiro lugar, o Cardeal Castrillon Hoyos, antigo Prefeito da Congregação do Clero e antigo Presidente da Comissão Ecclesia Dei, que deu conta da dificuldade na elaboração do Motu Proprio Summorum Pontificum. Reconhecendo o quanto «dar corpo à obra do Motu Proprio foi uma tragédia», ele não deixou contudo de salientar também o interesse dos leigos e dos jovens pelo texto pontifício. Mais ainda, é toda a hermenêutica da continuidade de Bento XVI que está a ser iluminada pela acção do Espírito Santo, ao passo que aqueles que querem voltar atrás com o Motu Proprio, são vítimas da sua própria ignorância. Eles esquecem, ou fingem esquecer, que «cada gesto, cada palavra da liturgia tridentina foi pensada teologicamente».

Ao Cardeal Castrillón seguiu-se uma original intervenção do Cardeal Farina, diretor dos Arquivos Vaticanos. Este prelado explicou que, em parte, as dificuldades de recepção do Motu Proprio podiam ser explicadas pela má difusão da informação pontifícia no seio da Igreja — lembremos, por exemplo, que a sondagem da Paix Liturgique realizada na diocese de Rennes em Maio de 2011, indica que 44,5% dos católicos jamais ouviram falar do Motu Proprio de Bento XVI … Quantas são as paróquias e as casas religiosas que seguem dia-a-dia as publicações oficiais da Santa Sé, e, mais ainda, quantas de entre elas as põem à disposição dos sacerdotes, dos fiéis e dos religiosos? Reflexão esta que é tanto mais estimulante quanto é certo vir ela de um prelado confrontado todos os dias com a questão da gestão do acesso à informação.

Voltando a este problema da difícil circulação das palavras pontifícias no seio da Igreja, Mons. Bux mencionou de novo o papel dos fiéis, que se podem apoiar na intenet, «uma aliada extraordinária para difundir o pensamento e a obra do Papa».

III – O relatório “Una Voce”

Datado de 9 de Setembro de 2011, este documento de 84 páginas foi entregue nos diferentes dicastérios romanos no início de Novembro, a par da assembleia geral bienal da “Una Voce”. Apoia-se ele sobre um inquérito feito junto dos membros estatutários e dos membros associados da federação, tendo respondido as organizações de 26 países (1).

Foram aí postas doze questões, que iam da idade média dos dirigentes e aderentes das associações locais ao uso que as mesmas fazem, ou não, dos meios electrónicos, passando ainda pelas suas relações com os bispos, a respectiva representatividade social e as razões principais da ligação dos seus membros à forma extraordinária do rito romano. Até ao presente, os resultados pormenorizados deste inquérito estão apenas reservados aos serviços do Vaticano e aos membros da Federação Internacional “Una Voce” (FIUV), mas o seu objectivo é claro, como escreve o presidente da FIUV, Leo Darroch: «Fornecer uma informação simples mas suficiente para mostrar que os tesouros litúrgicos e musicais da Igreja têm apoiantes entusiastas por entre os jovens de todos os continentes.»

Tanto pela antiguidade como pela notoriedade da “Una Voce”, não exageramos se dissermos que o desenvolvimento internacional que a marcou desde 2007 reflecte a realidade do arrebatado entusiasmo suscitado, por todo lado no mundo inteiro, pela liberalização da liturgia tradicional operada por Bento XVI. O facto de os novos grupos que aparecem a pedir a sua afiliação na FIUV estarem animados principalmente por jovens (México, Malta, Cuba, Croácia, Portugal, Indonésia) deve ser relacionado com a dinâmica que se observa um pouco por todo o lado no plano das vocações sacerdotais e religiosas, cada vez mais marcadas por um forte desejo de afirmação identitária.

Agora que o Santo Padre decidiu convocar a abertura de um Ano da Fé para prestar um serviço à nova evangelização por ele lançada, é incontestavelmente «um sinal encorajador, como escreve Leo Darroch, que o apelo à preservação e promoção das tradições da Igreja venha de leigos, padres e religiosos jovens.»

(1) Austrália, Canadá, Chile, Colômbia, Inglaterra, França, Irlanda, Japão, Malta, México, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Filipinas, Polónia, Portugal, Rússia, Escócia, África do Sul, Espanha, Brasil, Croácia, Cuba, Indonésia, Porto Rico.

One Comment to “Diante do pejo e resistência de clérigos, jovens e leigos mostram-se favoráveis à liturgia tradicional.”

  1. Sim, somos nós jovens, filhos da modernidade, da era da libertinagem, que negando todos os prazeres que nos oferecem em demasia, temos resgatado, ouvindo a voz do doce Pastor, a liturgia tradicional da Igreja. Somos nós jovens, órfãos, ovelhas sem pastores, cansados de tanto discurso terreno, de tantas homilias comunistas, de tanto “catolicismo à la volonté” que temos regressado ao porto seguro da verdadeira fé.

    Aquela fé, que a maioria destes que se dizem pastores, adoram perseguir e rejeitar como sendo retrógrada, atrasada, impregnada das “superstições medievais”.

    Somos nós, amantes da história da Igreja, da Tradição em seu sentido correto, que temos propagado o trabalho de nosso amado Papa, e juntos, em grupos minúsculos, temos incomodado, e muito, os vanguardistas que hoje, falando de forma otimista, gozam de seus 60, 80 anos.

    Nós, em grande parte, com seus 25, 30 anos, jovens casados, solteiros, que querem constituir grandes famílias ou entregarem-se ao sacerdócio. Somos nós, leigos, simples leigos, que temos obedecido mais a Deus, pela voz da Igreja, do que seus próprios pastores.