Bento XVI: “O Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo se, às vezes, a barca esteja quase repleta a ponto de soçobrar”.

Uma palavra de saudação de Bento XVI, Papa Emérito, por ocasião da missa de requiem do Cardeal Joachim Meisner, no dia 15 de julho de 2017.

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: FratresInUnum.com

Retirado da homenagem escrita de 2 páginas (original em alemão) pelo Papa Emérito Bento:

Neste momento, quando a Igreja de Colônia e os fiéis mais distantes se despedem do Cardeal Joachim Meisner, estou junto deles em meu coração e pensamentos e tenho a satisfação de atender ao desejo do Cardeal Woelki e dirigir-lhes uma palavra de reflexão.

Meisner

Bento XVI e o Cardeal Joachim Meisner.

Quando, na quarta-feira passada, fui informado, por telefone, sobre a morte do Cardeal Meissner, a princípio, não consegui acreditar. Havíamos conversado no dia anterior. Pela maneira de falar, ele estava grato por agora estar descansando, depois de ter participado no domingo anterior (25 de junho) da beatificação do bispo Teofilius Maturlionis, em Vilnius. Seu amor pelas Igrejas vizinhas do Oriente, que sofreram perseguição sob o Comunismo, bem como a gratidão pela resistência no sofrimento durante esse tempo deixaram uma marca indelével no Cardeal. Portanto, certamente não foi por acaso que a última visita de sua vida foi a um confessor da fé.

O que me impressionava de modo particular nas últimas conversas que tive com o Cardeal, agora de volta à casa do Pai, era a alegria natural, a paz interior e a tranquilidade que ele havia encontrado. Sabemos que foi difícil para ele, um apaixonado pastor de almas, deixar seu cargo, e isso precisamente no momento em que a Igreja tinha necessidade urgente de pastores que se oporiam à ditadura do zeitgeist [espírito do tempo], totalmente decididos a agir e pensar da perspectiva da fé. No entanto, fiquei ainda mais impressionado porque, nesse último período de sua vida, ele aprendeu a relaxar e viver cada vez mais da convicção de que o Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo se, às vezes, a barca esteja quase repleta a ponto de soçobrar.

Havia duas coisas que nesse período final lhe permitiram ficar cada vez mais feliz e tranquilo:

– A primeira foi que ele sempre me contava que o que o enchia de profunda alegria era experimentar, no Sacramento da Penitência, como os mais jovens, acima de todos os jovens, passaram a experimentar a misericórdia do perdão, o dom de efetivamente  descobrir a vida, que só Deus pode lhes dar.

    – A segunda, que sempre lhe comovia e deixava feliz, foi o aumento perceptível da adoração Eucarística. Para ele esse foi o tema central na Jornada Mundial da Juventude em Colônia – o fato de que havia Adoração, um silêncio, em que o Senhor sozinho fala aos corações.

Algumas autoridades pastorais e litúrgicas consideravam que não seria possível conseguir esse silêncio na contemplação do Senhor com um número tão grande de pessoas. Alguns também pensavam que a adoração Eucarística, como tal, foi ultrapassada, porque o Senhor queria ser recebido no pão Eucarístico, em vez de ser contemplado. No entanto, o fato de que uma pessoa não pode comer esse pão apenas como uma espécie de alimento, e que “receber” o Senhor no Sacramento Eucarístico inclui todas as dimensões da nossa existência – receber tem que ser adoração, algo que entrementes tornou-se cada vez mais claro. Assim, o período de adoração Eucarística na Jornada Mundial da Juventude de Colônia tornou-se um evento interior que permanece inesquecível, e não apenas ao Cardeal. Posteriormente, esse momento esteve sempre presente em seu coração e lhe deu grandes luzes.

Quando na última manhã o Cardeal Meisner não apareceu para a Missa, ele foi encontrado morto em seu quarto. O breviário havia escorregado de suas mãos: ele morreu enquanto rezava, seu rosto estava voltado para o Senhor, em conversa com o Senhor. A arte de morrer, que lhe foi dada, demonstrou novamente como ele havia vivido: com a face voltada para o Senhor e conversando com ele. Assim, podemos confiar sua alma à bondade de Deus. Senhor, agradecemos o testemunho desse seu servo, Joachim. Deixai-o agora interceder pela Igreja de Colônia e pelo mundo inteiro! Descanse em paz!

[Nota: Traduzido por Dom Michael G Campbell OSA, Bispo de Lancaster, Reino Unido, e publicado no site da Diocese de Lancaster como um arquivo PDF.]

 

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16 Comentários to “Bento XVI: “O Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo se, às vezes, a barca esteja quase repleta a ponto de soçobrar”.”

  1. Papa Francisco, está corando de vergonha?

  2. Se o prefácio do Papa Bento ao livro do cardeal Sarah causou a ira de certos bergoglioanos, imagine agora o que não causará esta mensagem de Ratzinger por ocasião do funeral do cardeal Meisner.
    Muito interessante notar que ambos mantinham contato, o cardeal falou com o Papa emérito um dia antes de seu falecimento.

  3. Enganar-se-ia quem pensasse que a missão de Bento XVI estaria completada por ocasião da sua resignação,naquele triste fevereiro de 2013.Muitos “especialistas” na época do conclave,disseram que o Papa Bento XVI não teria mais importância,não diria mais nada em público.
    Muito pelo contrário,suas palavras continuam mais atuais do que nunca,e seus discursos pós-renúncia parecem que falam diretamente à Igreja e ao Pontificado de Francisco.De fato,também parece que não só os quatro cardeais assinaram as Dubia,mas que Bento XVI deu–e ainda dá–apoio moral à elas.
    Mas,ao lembrarmos do barco a soçabrar,da tempestade que cai sobre a Igreja,dos raios que recaem sobre o Vaticano,lembremos,de igual modo,o então último discurso de Bento XVI,aos cinco novos cardeais:”No final,é O Senhor quem vence”.

  4. De fato a Igreja vive uma crise devido as interpretações da exortação apostólica amoris laetitia. O Senhor não abandona sua Igreja. Obrigado Santo Padre.

    • Antes houvesse uma grande crise, mas já não há quase nada, isto é, quase nenhuma reação do episcopado, que se mostra enfermo como alguém que, em estado extremo, não consegue mais reagir.
      Está consumada a obra de sarcasmo e desobediência inaugurada por João XXIII.

    • Ora,PW,o Episcopado não reage porque faz parte dessa crise,aliás,poder-se-ia dizer que a crise começou,pelo Presbiterado,que passou para o Episcopado e essa,lamentavelmente,parece que está sendo transmitida ao Papado.
      Os poucos bispos que reagem–notadamente os cardeais Burke,Caffarra e Brandmüller,e,provavelmente,Dom Athanasius Schneider–são atacados e a tentativa de separação é latente como naquela frase do Cardeal Hummes: “Eles são quatro,nós duzentos” ou algo parecido,o que respalda quase que integralmente o resto da vossa consideração.

    • Propriamente não é crise, pois as crises são sempre pontuais. Não há crise que dure 60 anos. Romano Amerio, no Iota Unum, que vc pode baixar em espanhol, explica por que não se pode falar em “crise”.
      Outra consideração: o atoleiro, ou melhor, a ciranda de ébrios que vemos girar ante nossos olhos não começou com os padres – muito pelo contrário, começou com os bispos, quando eles voltaram ensandecidos do Vaticano Dois, e puseram tudo abaixo a golpes de picareta. Em “Deus ou nada”, o cardeal Sarah, outro homem que resiste à impostura grosseira de Kasper e seus néscios sequazes, relata como foi o pós Vaticano Dois. O arcebispo dele chegou do “Concílio” com a cabeça virada,.e mandou logo por abaixo o baldaquino da catedral, o que, segundo Sarah, causou grande escândalo aos seminaristas.
      Se usarmos o termo “crise” em sentido impróprio, podemos dizer que esta é uma crise do episcopado, que não tem a mais remota ideia do que fazer com a Igreja, e gasta o tempo com reuniões ociosas destinadas a promover a salvação das focas, das lagoas e dos mangues enquanto se calam sobre a santidade inviolável de um sacramento da Nova Lei ou simplesmente o profanam com seus corações apodrecidos e suas doutrinas imundas e perversas.

    • Caro/a PW:
      Pensando bem,equivoquei-me ao afirmar que o momento desfavorável–uma vez que afirmas não haver uma crise propriamente dita–advém da ação sacerdotal,uma vez que foi o Episcopado quem ratificou o Concílio Vaticano II.Do Episcopado,passou ao Presbiterato e o Colégio Cardinalício,vendo a situação de metástase que se instalaria,começou a eleger Papas segundo o “espírito do Concílio”.
      De fato,os bispos ficaram quase que num labirinto,e começaram a dar de ombros à tal situação,e é aí que o barco fica quase que numa situação insustentável,como prudentemente disse o Pontífice Emérito.Existe uma charge famosa,creio ser francesa,no qual se passa o diálogo:
      -O Vaticano II abriu as portas da Igreja.
      -E as pessoas saíram dela!
      A atual situação da Madre Igreja,um atoleiro,são os verdadeiros “frutos do Concílio” que estão apenas desabrochando.

  5. Pareceria delinear que o distanciamento entre os papas Francisco e o emérito Bento XVI estaria em ascensão e cada vez mais patente; portanto, aguardemos para vermos qual será eventual reação do papa Francisco, indicando que o outro compartilharia das apreensões e em apoio às iniciativas dos agora 3 cardeais proponentes de esclarecimentos às “dubia”.
    Há tempos imaginamos que o papa Bento XVI pareceria se conter para não tecer comentarios acerca de certos comportamentos e palavras do papa Francisco; no entanto, dessa vez ou doravante, ele voltaria em mais oportunidades; tanto melhor tomar posição, se necessario, ainda que o hiato entre os dois se aprofunde!
    Jamais dispensável que o papa emérito Bento XVI se pronuncie em mais oportunidades, pois a divisões provocadas por tantos desde o Vaticano, tumultuando as mentes dos católicos com tantas supostas ambiguidades e idem heterodoxias supostamente impostoras e provocantes, a cada tempo aparece ajuntar mais um colaborando na instalação do caos, sendo o mais recente o gayzista Pe James Martin, com seu livro que agrada a qualquer judeu maçonista-esquerdista ou gnóstico, BUILDING A BRIDGE (Arriving faster inside to hell).
    S Ângelo, instruído dos males vindouros por Jesus, perguntou quando sucederiam certos fatos, como o terrorismo islâmico infernizando o mundo, em que esse dos mais importantes santos na Ordem do Carmo, quando no deserto, por um período de 5 anos, em que viveu totalmente solitário, recebeu a seguinte revelação de Nosso Senhor:
    “Sabe Ângelo, Servo meu, a cidade de Jerusalém, a Galileia e toda a terra da promissão, Capadócia e Egito, com muitas regiões da Ásia e da África, passados poucos anos, irão de todo ao poder dos Ismaelitas (muçulmanos): as Igrejas, os Templos que tu vês agora, onde se celebram os louvores divinos, serão destruídos. e as cerimônias, costumes e observâncias dos cristãos em tudo, quase serão reduzidos a nada. E o poder de Maomé e de seus sucessores crescerá sempre mais e atemorizará quase todas as gentes e será com isto amedrontada e molestada toda a Europa, e virá fogo, sangue, ruína e quase total destruição e haverá grande aflição e crescerá o furor e ira sobre os filhos da ingratidão.
    Estas coisas virão pela abominação daqueles que edificam Babilônia, dissipam o Santuário e sustentam o povo da maldade, ódio e rancor e o arrastam à crueldade, desonestidade, malícia e pecado.
    Então Santo Ângelo disse: “Quando, meu Senhor, isso há de suceder? Cristo respondeu-lhe:
    “Quando a Igreja, despojada de seu esplendor jazer como uma viúva: quando a Cadeira do Pontífice Romano seja posta em contradição, quando se levantarem os hipócritas com cor e pretexto de santidade e religião, defraudarem os povos, e a Igreja estiver cheia de seitas, nas quais reinarão a soberba, ambição, luxúria, com todo o esquadrão de seus filhos: quando os príncipes divididos guerrearem e um Bispo estiver contra outro, e as mulheres se tornarem ministras em lugar dos sacerdotes e quase seja tirada toda a paz do mundo, e da discórdia nasça a morte: quando os hereges prevalecerem, e a Fé estiver quase extinta e os seus pregadores se derem a vaidades e loucuras; então meu Eterno Pai mandará o seu furor e permitirá que os filhos da ingratidão sejam atormentados pelos inimigos do meu Nome. Todas estas calamidades lhes sobrevirão por seus pecados.
    E tendo Cristo dito isto, desapareceu aos olhos de Santo Ângelo em uma nuvem alvíssima.
    Essa revelação se vê na vida de Santo Ângelo, escrita por Enoc, Patriarca de Jerusalém, admirando-nos que tal profecia escrita no século XIII esteja se cumprindo à risca no presente, mensurando a expansão do Islã com a crise apostática da cristandade no Ocidente.

  6. Mas…isto tudo não será a tal hermenêutica da continuidade ?? E o Papa Francisco? Não será ele a expressão mais fiel do CVII ???

  7. “TU és Pedro”

    • Esse é um belíssimo moteto de Palestrina,que,usualmente era entonado no início das Celebrações Litúrgicas Papais,mas que,de 2015 para cá,é substituído por cantos populares italianos,como “Qui ci raduni insieme,tu”,”A Betlemme di Giudea”,etc.Dá a impressão de que Francisco rejeita o título de Sucessor de Pedro,a julgar por esse quesito.

  8. Emocionante. Com o breviário em mãos…

  9. Por favor, coloquem como Bento XVI assinou, já que é muito significativo.
    Bento XVI PAPA EMÉRITO

  10. PAPA emérito continua a ser PAPA. E não pode haver dois papas ao mesmo tempo. Nunca foi tão claro perceber que há um antipapa entre nós (opinião MINHA, pela qual assumo responsabilidade).
    Quanto ao cardeal, teve uma morte digna de um eleito do Senhor.