Um homem de Detroit pensava que era padre. Ele nem era católico batizado.

Se você pensa que é padre, mas realmente não é, você tem um problema. Muitas outras pessoas também. Os batismos que você realizou são batismos válidos. Mas, e as confirmações? Não. As missas que você celebrou não eram válidas. Nem as absolvições ou unções dos enfermos. E os casamentos? Bem… é complicado. Alguns sim, outros não. Depende da papelada, acredite ou não.

Pope Francis ordains 10 men to the priesthood May 7, 2017. Credit: Daniel Ibáñez/CNA.

Papa Francisco ordena 10 homens ao sacerdócio – 7 de maio de 2017. Créditos: Daniel Ibáñez/CNA

O padre Matthew Hood, da arquidiocese de Detroit, aprendeu tudo isso da maneira mais difícil.

Ele pensou que tinha sido ordenado padre em 2017. E vinha exercido o ministério sacerdotal desde então.

E então, neste verão, ele soube que não era padre. Na verdade, ele soube que nem mesmo era batizado.

Se você quer se tornar um sacerdote, você deve primeiro se tornar um diácono. Se você deseja se tornar um diácono, primeiro deve ser batizado. Se você não for batizado, não pode se tornar diácono e não pode se tornar sacerdote.

Claro, padre Hood pensou que ele havia sido batizado quando bebê. Mas neste mês, ele leu um aviso emitido recentemente pela Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano . A nota dizia que mudar as palavras do batismo de algumas maneiras o torna inválido. Que se a pessoa que administra o batismo disser “Nós te batizamos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, ao invés de “Eu te batizo …” o batismo não é válido.

Seu batismo não era válido.

A Igreja presume que um sacramento é válido, ao menos que haja alguma prova em contrário. Teria presumido que pe. Hood foi batizado validamente, salvo se ele tivesse um vídeo mostrando o contrário.

Padre Hood ligou para sua arquidiocese. Ele precisava ser ordenado. Mas, primeiro, após três anos atuando como um padre, vivendo como um padre e se sentindo como um padre, ele precisava se tornar um católico. Ele precisava ser batizado.

Em pouco tempo, ele foi batizado, crismado e recebeu a Eucaristia. Ele fez um retiro e foi ordenado diácono. E em 17 de agosto, Matthew Hood finalmente se tornou padre. De verdade.

A Arquidiocese de Detroit anunciou essa circunstância incomum em uma carta publicada em 22 de agosto .

A carta explicava que depois de perceber o que havia acontecido, pe. Hood “foi recentemente batizado de forma válida. Além disso, uma vez que outros sacramentos não podem ser validamente recebidos na alma sem um batismo válido, o Padre Hood também foi recente e validamente crismado e ordenado diácono transitório, e depois sacerdote. ”

“Demos graças e louvor a Deus por nos abençoar com o ministério do Padre Hood.”

A arquidiocese divulgou um guia, explicando que as pessoas cujos casamentos foram celebrados pelo pe. Hood deveriam entrar em contato com sua paróquia, e que a arquidiocese estava fazendo seus próprios esforços para contactar essas pessoas.

A arquidiocese também disse que está fazendo esforços para entrar em contato com outras pessoas cujo batismo foi celebrado pelo diácono Mark Springer, o diácono que batizou Hood invalidamente. Acredita-se que ele tenha batizado outras pessoas de maneira inválida, durante 14 anos de atuação na Paróquia de St. Anastasia, em Troy, Michigan, usando a mesma fórmula inválida, um desvio do rito que os clérigos devem usar ao realizar batismos.

O guia esclareceu que, embora as absolvições realizadas pelo padre Hood antes de sua ordenação válida não eram em si válidas, “podemos ter certeza de que todos aqueles que se aproximaram do Padre Hood, de boa fé, para fazer uma confissão, não se afastaram sem alguma medida de graça e perdão de Deus”.

A arquidiocese também respondeu a uma pergunta que espera que muitos católicos façam: “Não é legalismo dizer que, embora houvesse a intenção de conferir um sacramento, não havia sacramento porque foram usadas palavras diferentes? Deus não vai apenas cuidar disso? ”

“A teologia é uma ciência que estuda o que Deus nos disse e, quando se trata de sacramentos, deve haver não apenas a intenção certa do ministro, mas também a ‘matéria’ certa (material) e a ‘forma’ certa (palavras / gestos – como um triplo derramamento ou imersão de água por quem diz as palavras). Se faltar um desses elementos, o sacramento não é válido”, explicou a arquidiocese.

“No que diz respeito a Deus ‘cuidando disso’, podemos confiar que Deus ajudará aqueles cujos corações estão abertos para Ele. No entanto, podemos ter um grau muito maior de confiança fortalecendo-nos com os sacramentos que Ele nos confiou ”.

“De acordo com o plano ordinário que Deus estabeleceu, os sacramentos são necessários para a salvação: o batismo traz a adoção na família de Deus e coloca a graça santificante na alma, visto que não nascemos com ela, e a alma precisa da graça santificante quando se afasta do corpo para passar à eternidade no céu”, acrescentou a arquidiocese.

A arquidiocese disse que primeiro tomou conhecimento de que o diácono Springer estava usando uma fórmula não autorizada para o batismo em 1999. O diácono foi instruído a parar de desviar-se dos textos litúrgicos naquela época. A arquidiocese disse que, embora ilícitos, acreditava que os batismos que Springer havia realizado eram válidos até o esclarecimento do Vaticano ser emitido neste verão.

O diácono agora está aposentado “e não está mais no ministério ativo”, acrescentou a arquidiocese.

Nenhum outro sacerdote de Detroit é considerado invalidamente batizado, disse a arquidiocese.

E pe. Hood, recém-batizado e recém-ordenado? Depois de uma provação que começou com a “inovação” litúrgica de um diácono, pe. Hood agora está servindo em uma paróquia com o nome de um santo diácono. Ele é o novo padre da Paróquia de São Lourenço, em Utica, Michigan.

23 Comentários to “Um homem de Detroit pensava que era padre. Ele nem era católico batizado.”

  1. Que providencia ter assistido a gravação do batizado, como seria ao morrer, ele não “sendo batizado” validamente diante do seu juízo particular??? Que doidera desse diácono batizar na fórmula erradas ainda sim continuar.

  2. Impressionante esse caso! Nunca tinha ouvido falar em algo assim. Não estou duvidando de que algo assim possa acontecer. Tanto pode acontecer, como aconteceu de fato! Isso nos faz ver a seriedade com que devem ser tratados (celebrados) os sacramentos, especialmente o batismo.

    Agora uma questão: uma pessoa que foi batizada invalidamente, pelo visto isso não é tão raro assim de acontecer, todos os sacramentos que essa pessoa recebeu durante a sua vida forma inválidos?

    E quando essa pessoa batizada invalidamente morrer? Como fica a situação dela diante de Deus? As orações que ela fez, os pecados que ela confessou, etc.

    • Batismo pode ser administrado de três formas: na água, no sangue e no desejo. Na água é o rotineiro formal dispensa explicações. No sangue é o batismo dos que morreram mártires (pleonasmo) defendendo a fé católica sem antes receber um batismo forma. E no desejo se refere àqueles que, na onisciência de Deus, de fato receberiam o sacramento válido se lhes tivesse sido dada a oportunidade. Acredito que na onisciência de Deus ele saberá julgar com justiça e acolher, no dia do Juízo àqueles que não receberam um batismo válido formal na água mas agiram com dignidade mesmo assim.

    • Se morrer, é salva pelo desejo do batismo, conforme nos ensina Sto Tomás, o Concílio de Trento e outros tantos teólogos.

  3. No rito ortodoxo (oriental), não se diz “Eu te batizo…”, mas sim: “O servo de Deus (nome) é batizado em nome do Pai, amém. E do Filho, amém. E do Espírito Santo, amém”. Quando o nome de cada pessoa da Trindade é mencionado, o padre mergulha o batizando na fonte, ou imergindo-a inteiramente na água ou de qualquer forma derramando água sobre o corpo completo. Este rito é considerado válido pela Igreja Romana.

    Achei curioso a condenação da fórmula “Nós te batizamos…” como inválida. Pois parece significar que há grande diferença entre o “Nós” e o “Eu”, quando o rito oriental não tem nem um, nem outro.

    Mais preocupante, a meu ver, é a ideia que alguns tem de que batismos podem ser invalidados por uma intenção interna e secreta do ministro. Por exemplo, o papa Alexandre VIII condenou a proposição: “Um batismo é válido quando conferido por um ministro que observa todo o rito externo e forma de batizar, mas em seu coração, resolve para si mesmo: não ter a intenção de fazer o que a Igreja faz”. Com isso, qualquer batismo pode ser inválido e ministros mal intencionados podem estar invalidando milhares e milhares de sacramentos…

    • Penso que o pronome “nós”, foi empregado nesse contexto, para referir que os presentes na ocasião – diácono, família, madrinha e padrinho – oficiavam o batismo, e não apenas o diácono. Não como uma referência à Santíssima Trindade, como parece ser o caso do rito ortodoxo.
      Como aquela ideia herética de que todos celebram a Missa, e que os sacerdotes apenas a “presidiem”.

    • A questão está no ministro do sacramento declarar autoridade pessoal – agir em nome de Cristo – na forma. “Eu te absolvo…”, “Este é meu corpo”, “Eu te confirmo”. As formas orientais não têm sujeito explícito mas implicitamente “este servo de Deus é batizado” por mim “em nome do Pai…etc”.

    • Nós Católicos Orientais Bizantinos batizamos assim. Logo a forma Romana não é exclusiva.

  4. E como é que a pessoa chega ao sacerdócio, depois de ter passado por um seminário, e ainda depende de uma nota da Santa Sé para saber qual é a fórmula do batismo???

    E como é que pode um ministro de sacramentos usar uma fórmula sacramental errada por tantos anos e nunca ter sido corrigido quanto a isso???

    É estarrecedor!!!

    • Pois é, cara Helga, o mesmo se passa no seu priorado. No impulso de modernizar a FSSPX o superior de São Paulo enfia garganta abaixo dos fiéis Padres(dois) ordenados pelo novo rito de ordenação, ordenados por bispos sagrados no novo rito de sagração episcopal (Dom Orlando Brandes), padres sem formação que estão nos confessionários da capela da Obra de Dom Lefebvre que dizia não confiar na intenção dos bispos modernistas e fora todas as demais declarações de desconfiança dos novos ritos com fórmulas alteradas. Com anuência e cumplicidade dos padres que estudaram em seminários da FSSPX e ninguém diz mais nada.

  5. Em teologia moral tradicional se aprende que um dos casos em que não é legítimo recorrer ao probabilismo, mas sim é obrigatório ser tuciorista, é o caso da validade dos sacramentos. Ou seja: esse é um caso em que é necessário ater-se à opinião mais segura, aquela com menor chance de algo ‘falhar’. A simples licitude é bem mais flexível, digamos assim, mas com a validade a tradição da Igreja condena qualquer cambalacho ou gambiarra.
    (A quem se interessar pelo tema, sugiro a leitura do Tratado II desta ótima obra, publicada em 1923 por um verdadeiro jesuíta: https://archive.org/details/Compendiodeteologiamoraltomo1JuanBFerreres )

  6. Muito bom dia a todos e
    Salve Maria.
    Longe de mim querer causar celeuma ( que não prezo pela confusão ou discussão improfícua ) mas, se as atuais “autoridades” reconheceram uma falha na forma de um sacramento, creio ser legítimo fazer um questionamento, como se segue.
    Salvo engano de minha memória, Pio XII emitiu uma espécie de esclarecimento e confirmação do que havia sido objeto de definição do Concílio de Trento sobre a forma do Sacramento da Ordem, isso em 1945 ou 1947; a despeito dessa mesma, após 1968 houve uma alteração do outrora definido e confirmado por um Concílio e um Papa.
    Pergunto: caberia, analogamente, pensar o mesmo sobre a invalidade do Sacramento dos atuais padres e bispos?
    Pessoalmente, e fundamentado na teologia católica, sou pela resposta afirmativa.
    Gostaria de ouvir meus pares neste assunto.
    Um grande e cordial abraço a todos,
    Aguardo pelas respostas inteligentes, serenas e fundamentadas.

    • Penso que só um Papa, no exercício de sua infalibilidade, poderá decidir definitivamente sobre essa questão das ordenações e sagrações das últimas décadas. Todavia, a simples dúvida já basta para justificar procedimentos especiais de prudência…

    • Muito obrigado pela resposta, noiteescuradaigreja.

  7. Aí me pergunto: e esses padres que adoram trocar as palavras do missal durante e missa, tb torna a missa inválida? o que custa esses padres seguirem exatamente o que está escrito no missal? Isso é uma coisa que realmente me incomoda. Tenho vontade de procurar o padre depois da missa e falar que, se ele não concorda com o rito descrito no missa, vai ser pastor logo então…
    é um tal de: “O senhor esteja com vocês”; “Deus rico em misericórdia, conforte nossos corações e nos conduza a vida eterna”; “Orai irmãos para que a nossa luta seja aceita…” e tantas outras palavras trocadas. eu sinceramente, saio da missa com muita raiva desse padres que adoram trocar as palavras do rito.

  8. Na minha modesta opinião, Deus não é um burocrata e é o Único Dono da Verdade.
    Portanto, se tudo foi feito de forma honesta e sem más intenções, tudo estava perfeitamente válido e assim permaneceu ainda que corrigida a falha do batismo.

  9. Parece um conto de Tchekov.

  10. Muito provavelmente esse “nós te batizamos” é o correlato (batismal) do “nós celebramos a eucaristia”, pois, como se sabe, toda a concepção litúrgica oriunda das reformas paulosextonosas privilegia a “comunidade orante” em detrimento da singularidade do ministro ordenado.
    Nem é à toa que o mago Ghislain Lafont, professor do pardieiro litúrgico Santo Anselmo, in Urbe, diz expressamente que o papel do ministro na celebração é, quando muito, “instrumental”. Quem celebra é a “comunidade” plerótica, igualitária, indistinta e amorfa presente no Cristo-total-presente-na-assembleia orante (a caminho, nas estradas da vida, rumo à construção do reino do anticristo, de satanás e da besta fera.
    Vão se tratar seus vagabundos!
    Sao Luis IX, rogai por nós.

  11. Ao meu ver, o caso de Matthew Hood nos faz ver que não é tão raro assim que uma Ordenação seja inválida. O Código de Direito Canônico do cânon. 1040 ao 1049 enumera os motivos que podem invalidar uma Ordenação. Podemos concluir a partir daí que algumas ordenações terão sido inválidas. Por isso, é muito importante a seleção dos candidatos aos sacerdócio. Porém, com essa observação, não faço uma crítica ao Pe. Matthew, que não teve culpa alguma na situação “absurda” que ele vivenciou, mas uma crítica geral quanto a seleção dos candidatos ao sacerdócio.

  12. Talvez não estejamos levando a sério nossa Salvação. Para Deus ternos dado Seu próprio Divino Filhos como garantia, não somos sem valor para Ele. Da mesma forma, não exigirá de nós o mínimo necessário. Relembrando a admoestação de Nosso Senhor em que sejamos perfeito como o Nosso Pai Celestial é perfeito, não podemos levar a nossa vida de qualquer maneira. Os Santos como seu modo de viver, sempre se consideraram indignos da misericórdia de Deus, e sempre procuravam dar o mais que podiam. De uns tempos para cá, mais precisamente pós Concílio Vaticano II,um relaxamento, ou um “vai que cola”, foi introduzido no mundo Cristão Católico, “Lex orandi, lex credendi”. E desta forma, o relaxamento, a permissivdade, a tolerância com o erro e a “dúbia”, tornou-se a bandeira do viva e deixe viver. A perda da Fé é fato. “Quando o Filho do Homem retornar a Terra, encontrará Fé ainda? ” Encotrará almas que queiram se salvar? Arcabouço de Religião temos aos montes, desde os tradicionais aos modernistas. O que falta saber é se esse povo louva a Deus só como os lábios e o seu coração está longe.

  13. De todo modo, é de estranhar que a “Congregação da falta de Doutrina e de Fé”, que nada diz de abjeções como a do despacho pachamaníaco nos jardins de Babilônia, e mesmo as endossa tacitamente, descendo em desabalado carreirismo a Ladária da apostasia, é de estranhar, digo, que a dita Congregação, num arroubo febril de rubricismo e inesperado rompante de teologia sacramental, tenha se preoupado com a correta forma do sacramento do batismo, o qual, na igreja conciliabular, pouca ou nenhuma importância tem. De fato, EL Jesuíta já decretou, do ínfimo da sua cátedra confusionista, que o proselitismo é cousa detestável e execrável.

    Como é de se supor, muitos hão de ficar com a pulga atrás do pavilhão auricular temendo receber sacramentos fake ou simulados.

    O jansenismo litúrgico de P6 nao poderia dar noutras águas…

    Mas esse repentino amor às rubricas covid tem morcego…

  14. Porque vocês colocam tanta malícia no título da matéria? “Pensava que era Padre”… Acaso ele estava fazendo um teatro? Ou, vítima de um batismo que ele nem consciência tinha que estava recebendo (pois era criancinha), ele acreditava que estava exercendo um ministério, que, infelizmente, era inválido?

    Cuidem, cuidem…