Archive for ‘Cúria Romana’

22 maio, 2014

Roma excomunga responsável por movimento “Nós somos a Igreja”.

Por La Vie | Tradução: Fratres in Unum.com – Esse é o epílogo de um longo impasse entre o movimento Wir sind Kirche (“Nós somos a Igreja”) e o Vaticano. Segundo as informações do Tiroler Tageszeitung (em alemão), Martha Heizer, a responsável austríaca pelo movimento leigo muito crítica em relação a Roma, acaba de ser excomungada pelo Papa Francisco. Seu marido, Gert Heizer, foi igualmente atingido pela medida. De acordo com o diário alemão Die Welt (em alemão), a informação é confirmada “por círculos católicos”.

Martha Heizer

O bispo de Innsbruck, Dom Manfred Scheuer, “apresentou pessoalmente o decreto ao casal na quarta-feira, 21 de maio, à noite”, afirmou a rádio ORF Tirol (em alemão). O bispo leu o conteúdo do decreto aos dois envolvidos, que, em seguida, recusaram o documento. “Nós não aceitamos porque questionamos a integridade de todo o processo”, disse Martha Heizer à rádio austríaca.

Nesta manhã de quinta-feira, ela declara, em um comunicado (em alemão), estar “profundamente chocada ao se encontrar na mesma categoria que os padres pedófilos”. Na sua opinião, “esse procedimento mostra como a que ponto a Igreja Católica precisa de renovação”.

Eucaristias privadas

O motivo das duas excomunhões? Missas privadas celebradas sem padre na residência do casal. Há vários anos, Martha Heizer não esconde que ela e seu marido acolhem em sua casa essas celebrações, às quais alguns fiéis participam regularmente. Simulações de missas que constituem “delicta graviora” (delitos graves) aos olhos da Igreja Católica.

“O caso causou polêmica em 2011″, explica o Tiroler Tageszeitung, com a intervenção do bispo local. A Congregação para a Doutrina da Fé, em seguida, anunciou a criação de uma comissão.

Martha Heizer encabeça o movimento reformista desde 7 de abril passado — um movimento fundado na Áustria em 1995, da qual é uma das fundadoras. Aos 67 anos, Martha Heizer é conhecida por suas posições favoráveis à ordenação de mulheres e a “uma renovação da Igreja através dos leigos”, diz o Die Welt. Desde 2012, ela dirige o International Movement We Are Church (IMWAC), “Movimento Internacional Nós Somos Igreja”.

Com esta decisão, Dom Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, mantém-se fiel à sua posição anterior: em 2009, então chefe da diocese de Regensburg, o prelado alemão havia suspendido Paul Winckler, o responsável alemão da Wir sind Kirche .

17 maio, 2014

Michael Amaladoss, teólogo jesuíta, é censurado pelo Vaticano. Jesuítas minimizam fato.

Michael Amaladoss, teólogo jesuíta, é censurado pelo Vaticano

IHU – O Vaticano está investigando um teólogo jesuíta da Índia por supostamente defender crenças heterodoxas, o que levanta novas questões sobre se o Papa Francisco – o primeiro papa jesuíta – de fato está movendo a Igreja Católica para uma nova direção.

A reportagem é de David Gibson, publicada no sítio Religion News Service, 12-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A notícia da ameaça de censura ao padre Michael Amaladoss, cujo livro mais conhecido é Jesus, o profeta do Oriente (Ed. Pensamento), segue o rastro de um contundente aviso sobre ortodoxia e obediência que o guardião doutrinal do Vaticano, o cardeal Gerhard Müller, entregou a um grupo de religiosas que representam a maioria das irmãs norte-americanas.

O discurso de Müller, no dia 30 de abril, às irmãs da Leadership Conference of Women Religious (LCWR) foi visto como um revés inesperado nas negociações em torno de uma investigação vaticana sobre as freiras que começou um ano antes de Francisco ser eleito. A linha dura de Müller também parecia estar fora de sintonia com o novo estilo de abertura e flexibilidade que tem marcado o jovem papado de Francisco.

Fontes da Igreja dizem que Amaladoss, um especialista altamente renomado em diálogo inter-religioso e cristologia, passou a ser vigiado pelo escritório de Müller pela primeira vez há um ano. Elas disseram que Amaladoss acreditava que as suas respostas iniciais às questões sobre os seus pontos de vista sobre a unicidade de Jesus e a Igreja Católica haviam respondido às objeções vaticanas.

Mas em janeiro o escritório de Müller voltou à tona com uma demanda para que Amaladoss escrevesse um artigo endossando publicamente as opiniões vaticanas, ou enfrentaria o silenciamento. Durante décadas, esse nível de grave sanção foi uma característica marcante do tratamento linha-dura dado aos teólogos sob o cardeal Joseph Ratzinger, que mais tarde se tornaria o Papa Bento XVI.

No início de abril, Amaladoss se encontrou com Müller e outras autoridades da Congregação para a Doutrina da Fé ” e concordou em refazer (…) essas questões à luz do diálogo”, disse o padre Edward Mudavassery, que supervisiona os jesuítas na Índia.

“Eu entendo que foi um encontro aberto e honesto, na tentativa de esclarecer questões objecionáveis”, disse Mudavassery. “Todos sabemos que o Papa Francisco é um homem de diálogo. Parece-me que a Congregação para a Doutrina da Fé também pode seguir esse caminho para resolver as diferenças, porque esses homens sob escrutínio são genuínos e leais à Igreja e aos ensinamentos de Jesus”.

Francisco saberia da investigação, mas não parece muito preocupado que ela irá acabar na punição de Amaladoss, de acordo com jesuítas familiarizados com o caso.

Francisco conhece Amaladoss por causa da sua longa e distinta carreira como jesuíta, tanto como teólogo e autor de centenas de livros e artigos, quanto também como antigo assistente do Padre Geral da Companhia de Jesus. Nessa função, ele viveu vários anos em Roma, na Cúria Geral dos jesuítas.

Amaladoss está viajando ao exterior, disse Mudavassery, e o teólogo não respondeu aos e-mails enviados a ele no Instituto de Diálogo com as Culturas e as Religiões que ele dirige em Chennai.

Mudavassery disse que não sabia de quaisquer restrições impostas a Amaladoss. Mas Amaladoss cancelou todos os compromissos de conferências e textos, enquanto tenta lidar com as preocupações do Vaticano. Fontes jesuítas disseram que Amaladoss disse à sua editora nos EUA, Orbis Books, que interrompessem os trabalhos de uma coleção planejada dos seus escritos. Os responsáveis da Orbis não quiseram comentar o status de qualquer projeto com Amaladoss.

O padre também cancelou uma conferência no Union Theological Seminary, em Nova York, marcada para o dia 8 de abril, intitulada “A teologia na Índia é realmente diferente da teologia no Ocidente?”. Uma nota no site do seminário diz: “A Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano proibiu o Dr. Amaladoss de falar e publicar até que um processo de exame do seu pensamento se conclua com sucesso” (ver reprodução abaixo).

“Amaladoss nos pediu para não comentar sobre as razões específicas desse cancelamento, e nós respeitamos a sua vontade”, acrescentou o porta-voz do seminário, Jeff Bridges.

As investigações da Congregação para a Doutrina da Fé são conduzidas em segredo, e os teólogos visados muitas vezes não sabem que estão sob escrutínio até que a investigação esteja em andamento. Eles geralmente também não sabem quem apresenta as queixas ou quem na Congregação está conduzindo a investigação.

Há muito os teólogos se queixam de que tal sigilo e as oportunidades limitadas que eles têm para responder pessoalmente às acusações têm levado a um sistema coercitivo que reflete negativamente sobre a hierarquia católica.

Durante o quarto de século que Ratzinger dirigiu o escritório sob o Papa João Paulo II, os jesuítas frequentemente eram alvos das sondagens da Congregação para a Doutrina da Fé, em parte porque os jesuítas têm um foco missionário e procuram traduzir as crenças tradicionais para os crentes modernos e para outras culturas religiosas.

O processo de engajamento com as culturas está particularmente avançado na Ásia, onde o cristianismo é uma minoria e onde os jesuítas estabeleceram um porto seguro para o catolicismo. Mas isso também significa que os teólogos que lá trabalham costumam usar formulações não tradicionais para tentar comunicar a fé aos públicos hindus ou budistas que têm pouca compreensão dos pontos de vista ocidentais sobre Deus e Jesus.

O próprio mestre de Amaladoss, o jesuíta belga Jacques Dupuis, enfrentou uma longa e cansativa investigação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé sobre os seus pontos de vista sobre o pluralismo religioso. Seus colegas dizem que o estresse provocado pela sondagem, liderada por Ratzinger, contribuiu para a morte de Dupuis em 2004.

* * *

Jesuítas indianos minimizam censura vaticana a Michael Amaladoss

IHU – O provincial jesuíta do sul da Ásia, o padre Edward Mudavassery, minimizou os relatos generalizados de que o Vaticano lançou uma investigação sobre os escritos do padre Michael Amaladoss (foto), um proeminente teólogo jesuíta indiano.

A reportagem é de Christopher Joseph, publicada pela agência UCA News, 14-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Até onde eu sei, não há nenhuma investigação, e ele não foi impedido de escrever e de lecionar”, disse o padre Mudavassery nessa terça-feira.

Ele acrescentou que a Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano convidou o Pe. Amaladoss a Roma na primeira semana de abril para um “diálogo” sobre evangelização, mas insistiu que as conversas com as autoridades da Congregação ocorreram de “forma amigável”.

O Pe. Amaladoss, 77 anos, conhecido mundialmente pelos seus ensinamentos sobre cultura e diálogo inter-religioso na Ásia, estaria atualmente na Europa, em uma visita pessoal, e não pôde ser contatado para mais detalhes.

O teólogo, que pertence à província de Madurai dos jesuítas, trabalhou em Roma de 1983 a 1995 como assistente-geral do superior jesuíta da época, Peter-Hans Kolvenbach, com responsabilidades especiais para as questões de evangelização, inculturação e diálogo inter-religioso.

Uma importante autoridade da província de Madurai, que pediu para não ser identificada, confirmou ao sítio UCANews.com que a correspondência entre a Congregação para a Doutrina da Fé e o Pe. Amaladoss “tem ocorrido há algum tempo, ao menos há dois a três anos”.

As questões que estão sendo discutidas não se referem a “nenhum livro dele em particular, mas sim a como proclamar Jesus a um público asiático”, disse a autoridade.

Desde o Concílio Vaticano II, os teólogos asiáticos – especialmente indianos – têm trabalhado para interpretar a Bíblia e a liturgia nos termos das filosofias e das culturas orientais, a fim de ajudar os asiáticos a compreendê-las.

Não é desconhecido para alguns desses teólogos o fato de estarem sob investigação vaticana, seguida de reprimendas e até mesmo de excomunhão por expressarem opiniões heterodoxas.

Dentre eles, o mais proeminente foi o teólogo Tissa Balasuriya, do Sri Lanka, que foi excomungado em 1997, quando o cardeal Joseph Ratzinger, que mais tarde se tornou o Papa Bento XVI, chefiava a Congregação para a Doutrina da Fé. A excomunhão foi levantada um ano mais tarde, depois que Balasuriya assinou uma profissão de fé. Ele morreu no ano passado, aos 89 anos.

12 maio, 2014

Papa Francisco e Dom Fellay, o encontro. Mais detalhes.

Andrea Tornielli traz mais detalhes sobre o encontro entre o Papa Francisco e Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

“O encontro teria ocorrido nas primeiras semanas de 2014. Dom Fellay fora convidado para jantar em Santa Marta pelo bispo Guido Pozzo, secretário da Pontíficia Comissão “Ecclesia Dei” e pelo arcebispo Augustin Di Noia, vice-presidente da mesma comissão. Junto ao prelado tradicionalista estiveram presentes o padre Niklaus Pfluger e o padre Marc Nely (primeiro e segundo assistente do superior geral, que naquele dia assistiram à Missa celebrada pelo Papa em Santa Marta [mas não concelebraram], de acordo com o que noticiou a agência IMedia).

O Papa estava à mesa de costume no refeitório da Casa Santa Marta; Fellay, com seus dois assistentes, Pozzo e Di Noia, estavam numa outra mesa. Quando Francisco se levantou ao fim do jantar, o superior da Fraternidade São Pio X fez o mesmo e caminhou em direção ao Papa, ajoelhando-se para pedir uma benção. O encontro foi, portanto, breve, não se tratou de nenhum audiência, nem de um longo colóquio face a face. Viver em Santa Marta permite e facilita ao Papa Bergoglio esse tipo de contato, mais ou menos casul.

Com o retorno, no último mês de agosto, de Dom Pozzo à “Ecclesia Dei, depois de um parêntese de alguns meses na Esmolaria Apostólica, era esperado que se pudesse reatar o diálogo entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X. Na Congregação para a Doutrina da Fé há, todavia, aqueles que reivindicam– depois de anos de diálogo e depois da não aceitação do preâmbulo doutrinal — um novo ato formal contra os lefebvrianos. No momento, parece, porém, prevalecer a linha de espera.

O jantar com Di Noia e Pozzo, e a benção papal, é um episódio certamente emblemático de acolhimento por Francisco. Seria, no entanto, um erro lhe atribuir excessiva importância em relação a eventuais desenvolvimentos sobre a posição dos lefebvrianos.

[Atualização - 12 de maio de 2014, às 12:35] A página oficial do Distrito da França da FSSPX faz o seguinte esclarecimento - tradução de Fratres in Unum.com:

Os Padres Pfluger e Nély nunca assistiram à missa privada do Papa e os jornalistas que o afirmam teriam muita dificuldade em indicar o dia dessa suposta assistência. Eis os fatos:

Em 13 de dezembro de 2013, Dom Fellay e seus assistentes foram a Roma, a pedido da Comissão Ecclesia Dei, para um encontro informal. Ao fim dessa reunião, Dom Guido Pozzo, Secretário da Comissão, convidou seus interlocutores para almoçar no refeitório da Casa Santa Marta, onde a eles se juntou Dom Augustin Di Noia, secretário adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé. É nesse amplo refeitório que o Papa faz suas refeições diárias, afastado de outros comensais.

Dom Pozzo apresentou Dom Fellay ao Papa no momento em que ele deixava o refeitório. Houve uma breve conversa onde Francisco disse a Dom Fellay, de acordo com a fórmula usual de polidez, “Estou muito feliz em conhecê-lo”; ao que Dom Fellay disse que rezava muito, e o papa lhe pediu para rezar por ele. Este foi o “encontro” que durou alguns segundos.

Na entrevista que concedeu a Rocher (abril-maio de 2014), Dom Fellay havia respondido à seguinte questão: Houve alguma aproximação oficial de Roma para retomar contato desde a eleição do Papa Francisco?  - “Houve uma aproximação ‘não-oficial’ de Roma para retomar contato conosco, mas nada mais e eu não solicitei uma audiência como eu pude fazer após a eleição de Bento XVI. Para mim, atualmente, as coisas são muito simples: nós permanecemos onde estamos. Alguns concluíram dos contatos realizados em 2012, que eu coloquei como princípio supremo a necessidade de um reconhecimento canônico. A preservação da fé e a nossa identidade católica tradicional é primordial e continua sendo nosso primeiro princípio”.

7 maio, 2014

Em defesa do intocável Concílio.

É única e exclusivamente para isso que trabalha o dicastério do Cardeal Braz de Avis: fustigar qualquer vestígio de “retrocesso” nas reformas conciliares. Retroceder, jamais! É preciso ir adiante na descristianização do mundo e na paganização da vida religiosa. Divulgamos, a seguir, as palavras do Secretário da Congregação para os Religiosos, Dom José Rodríguez Carballo – créditos da tradução a Blogonicus:

(InfoVaticana) O Secretário da Congregação para a Vida Consagrada, o franciscano José Rodríguez Carballo, número dois há um ano neste organismo vaticano encarregado da vida religiosa, esteve na Espanha neste final de semana para assistir à reunião da União dos Religiosos da Catalunha.

Nela, Carballo situou como um ponto importante da vida religiosa a fidelidade ao Vaticano II: Para consagrados o Concílio é um ponto que não pode ser negociado. E afirmou que aqueles que buscam nas reformas do Vaticano II todos os males da vida religiosa “negam a presença do Espírito Santo na Igreja“.

Explicou que na Congregação para a Vida Consagrada estão “especialmente preocupados” com este tema:estamos vendo verdadeiros desvios. Sobretudo porque “não poucos institutos dão não só uma formação pré-conciliar, mas também ante-conciliar. Isso não é admissível, é se colocar fora da história. É algo que nos preocupa muito na Congregação”.

7 maio, 2014

Cardeal Walter Kasper relata palavras do Papa Francisco sobre críticas a seu livro: “Isso entra por um ouvido e sai pelo outro”.

Cardeal Kasper, o “teólogo do Papa”, suaviza as críticas do Vaticano às religiosas americanas

IHU - O cardeal alemão que vem sendo chamado “o teólogo do papa” disse que a crítica aberta do Vaticano às religiosas americanas é típica da visão “mais estreita” que funcionários da Cúria Romana tendem a ter, e falou que as católicas estadunidenses não devem se preocupar excessivamente com o caso.

Cardeal Walter Kasper

Cardeal Walter Kasper

“Eu também sou considerado suspeito”, disse o cardeal Walter Kasper com uma risada durante evento ocorrido segunda-feira na Universidade de Fordham, EUA. “E não posso ajudá-las”, acrescentou, referindo-se aos críticos das irmãs em Roma.

A reportagem é de David Gibson, publicada por Religion News Service, 06-05-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Kasper, de 81 anos, atuou como o líder ecumênico do Vaticano sob os papas João Paulo II e Bento XVI. É considerado um aliado próximo do Papa Francisco. Quando este convocou os bispos para uma cúpula de dois dias a fim de tratar alguns temas relacionados com a família em fevereiro passado, pediu a Kasper para fazer uma fala de abertura dando o tom ao encontro.

Kasper pode refletir melhor a visão do atual papa do que as medidas duras aplicadas às religiosas americanas pelo escritório doutrinal. Assim como Francisco suavizou o foco dado às regras e a questões polêmicas num esforço para ampliar o apelo da Igreja, também Kasper sublinhou a importância da flexibilidade pastoral e do realismo para com os membros da Igreja, em suas vidas imperfeitas.

Kasper encontra-se nos Estados Unidos para divulgar seu livro intitulado “Mercy: The Essence of the Gospel and the Key to Christian Life” [Misericórdia: A essência do Evangelho e a chave para a vida cristã]. Nele há um pequeno texto escrito pelo Papa Francisco, quem fez da misericórdia a pedra angular de seu ministério desde que foi eleito no ano passado.

Na segunda-feira, Kasper disse ao público que após Francisco tê-lo enaltecido poucos dias depois de sua eleição [ndr: e o fez também no consistório, após um discurso polêmico de Kasper sobre a comunhão a "recasados", a despeito da oposição de grande número de cardeais], “um experiente cardeal se aproximou dele [do papa] e falou: ‘Santo Padre, o senhor não pode fazer isso! Há heresias neste livro’”.

Quando Francisco contou a história ao próprio Kasper, declarou ele, o pontífice sorriu e acrescentou: “Isso entra por um ouvido e sai pelo outro”.

Esta foi a forma de Kasper contextualizar a notícia de que o czar doutrinal do Vaticano, o cardeal Gerhard Müller, tinha criticado duramente as líderes de mais de 40 mil irmãs americanas por desobediência a Roma e por “erros fundamentais” em suas crenças.

A Congregação para a Doutrina da Fé liderada por Müller vem tentando controlar as irmãs americanas há dois anos. Acreditava-se que as conversações estavam indo bem, sobretudo após a eleição do Papa Francisco. Mas as críticas de Müller e a dura advertência de que elas precisam levar em conta suas exigências pareceram constituir um grande revés às esperanças.

Kasper disse ter esperanças de que o confronto entre o Vaticano e a Conferência de Liderança das Religiosas (Leadership Conference for Women Religious – LCWR) seja superado.

“Se tivermos algum problema com a liderança das ordens femininas, então teremos que ter uma conversa com elas. Precisamos dialogar com elas, ter uma troca de ideias”, disse. “Talvez elas precisem mudar alguma coisa. Talvez também a Congregação (para a Doutrina da Fé) precise mudar um pouco a sua maneira de ver as coisas. Esta é a maneira normal de se fazer as coisas na Igreja. Estou aqui para o diálogo. O diálogo pressupõe posições diferentes. A Igreja não é uma unidade monolítica”.

“Devemos estar em comunhão”, continuou Kasper, “o que também significa [estar] em diálogo com o outro. Espero que toda esta controvérsia termine com um bom, pacífico e significativo diálogo”.

Censurada pela Conferência Episcopal dos EUA, Johnson, teóloga, foi premiada pela LCWR e louvada por Kasper.

Censurada pela Conferência Episcopal dos EUA, Johnson, teóloga, foi premiada pela LCWR e louvada por Kasper.

Na Universidade de Fordham, Kasper também elogiou uma teóloga feminista americana, a Irmã Elizabeth Johnson, que deverá ser homenageada pelas irmãs americanas e a quem Müller escolheu para criticar.

Müller chamou a atenção da LCWR por decidir homenagear Johnson sem, antes, buscar a aprovação de Roma. Johnson, famosa teóloga que leciona na Fordham, foi repreendida pela comissão doutrinal dos bispos americanos em 2011 devido aos debates que ela propôs em seu livro para o público geral intitulado “Quest for the Living God” [A busca pelo Deus Vivo].

Quando perguntado sobre Johnson e uma outra teóloga feminista, Elisabeth Schussler Fiorenza, cujas opiniões também foram contestadas pela hierarquia da Igreja, Kasper falou que as conhece há anos e acrescentou: “Eu estimo as duas”.

Kasper – companheiro de confiança de seu colega alemão, o cardeal teólogo Joseph Ratzinger, que depois se tornaria Bento XVI – disse que as críticas fazem parte do discurso acadêmico, porém, acrescentou, a congregação doutrinal “vê, às vezes, algumas coisas de uma forma um pouco estreita”.

Disse que a crítica a Johnson “não é uma tragédia e que iremos superar”. Observou que São Tomás de Aquino, o teólogo da Idade Média hoje considerado um dos maiores pensadores da Igreja, foi condenado pelo seu bispo, tendo que viver à sombra durante anos.

“Então ela está em boa companhia”, Kasper disse a respeito de Johnson.

11 março, 2014

Um herói (marxistoide) no Vaticano.

Com informações de Catapulta | Tradução: Fratres in Unum.com (destaques do original) - “Na terça-feira passada, o fundador da Teologia da Libertação, a corrente católica de inspiração latino-americana que defende os pobres, foi recebido como um herói no Vaticano, no momento em que o outrora criticado movimento continua a sua reabilitação com o papa Francisco.

O reverendo Gustavo Gutiérrez Merino, do Peru, foi o orador surpresa nessa terça-feira, no lançamento de um livro, que contou com a participação do cardeal Gerhard Mueller, chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, entidade encarregada de cuidar para que os sacerdotes não se afastem dos ensinamentos centrais da Igreja; do cardeal Óscar Rodríguez (Maradiaga) um dos principais assessores do Papa, e do porta-voz do Vaticano”

http://www.jornada.unam.mx/2014/02/27/mundo/

Vatican Insider fornece mais detalhes sobre a apresentação do livro:

“Pobre e para os pobres”. As palavras do Papa são também o título do mais recente livro de Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. (que aparece na foto vestindo um poncho). Um texto que parece ser o passo definitivo em direção a uma Teologia da Libertação “normalizada”. A edição, que conta com o prólogo de Francisco, foi apresentada em um auditório do Vaticano…

Müller é o principal artífice dessa “normalização” de uma corrente de pensamento que ainda provoca debates acalorados na América Latina. Ele é amigo pessoal de Gutiérrez, “pai” dessa teologia, há décadas. Após a apresentação do livro, o brilhante cardeal alemão explicou aos jornalistas porque ele a apoia sem duvidar.

http://vaticaninsider.lastampa.it/es/en-el-mundo/dettagliospain/articolo/teologia-della-liberazione-teologia-de-la-liberacion-32380/

Agora vamos lá, em 1973 o fundador Gutiérrez publicou Fe cristiana e cambio social, onde aparecem as seguintes pérolas “católicas” e das quais nunca se arrependeu:

 “… a luta de classes é um fato, e é impossível manter a neutralidade nesse tema”.

“… não há nada mais certo do que um fato. Ignorá-lo é enganar e deixar-se enganar e, além disso, privar-se dos meios necessários para eliminar verdadeira e radicalmente essa condição ‒ ou seja, avançar até uma sociedade sem classes“.

“Participar da luta de classes não somente não se opõe ao amor universal; hoje em dia, esse compromisso é o meio necessário e inevitável para concretizar esse amor, uma vez que essa participação é o que conduz a uma sociedade sem classes, uma sociedade sem proprietários e despossuídos, sem opressores e oprimidos”.

“… a missão da Igreja se define prática e teoricamente, pastoral e teologicamente, em relação… ao processo revolucionário. Ou seja, a sua missão se define mais pelo contexto político do que por problemas intra-eclesiais”.

“… a luta de classes existe dentro da mesma Igreja… a unidade da Igreja (é)… um mito que deve desaparecer se a Igreja é “reconvertida” ao serviço dos trabalhadores na luta de classes”.

No mundo atual a solidariedade e o protesto de que falamos têm um evidente e inevitável caráter político, tanto que têm um significado libertador. Optar pelo oprimido é optar contra o opressor. Em nossos dias e em nosso continente, solidarizar-se com o pobre assim entendido, significa correr riscos pessoais… É o que ocorre a muitos cristãos – e não cristãos – no processo revolucionário latino-americano”. (Ver Postagem de 11 de setembro de 2013 “MÁS ALIENTO A LA REVOLUÇÃO” http://www.catapulta.com.ar/?p=11414)

7 março, 2014

Efeito Francisco segundo Ravasi.

Cardeal Gianfranco Ravasi.

Cardeal Ravasi.

“Num mundo em que os políticos são vistos como uma casta, o Papa, ao contrário, tenta se aproximar.

Com Bento XVI, as audiências duravam 40 minutos e a volta da praça [de papamóvel], 10.

Francisco fala dez minutos e passeia entre os fiéis durante uma hora, ouvindo-os”.

Palavras do Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, outrora papabile, sobre a “a originalidade do Papa Francisco”.

27 fevereiro, 2014

Eminência parda? Muito parda!

O artigo que traduzimos abaixo foi publicado, originalmente, no blog italiano “Papale Papale”, mas, depois de algumas horas, não se sabe o porquê, foi retirado do ar. Não se encontra sequer sua versão em cache. Afortunadamente, o artigo reapareceu num outro blog e, até o presente momento, ainda não foi removido.

* * *

Brilha uma “Stella”[1] em cima da pirâmide vaticana: o Beniamino[2] do papa

Quem é realmente a eminência parda que de repente subiu todos os graus da pirâmide vaticana e agora brilha no cume… como uma estrela? Como pôde, um homem desconhecido de todos, repentinamente se tornar a eminência parda de toda a Santa Sé e o árbitro de todas as carreiras eclesiásticas, inclusive das pertencentes à Secretaria de Estado, para qual ele escolheu o Titular? Uma espécie de dossier (pelo menos em parte) sobre o já cardeal e atual Prefeito da Congregação para o Clero, outrora presidente da Pontifícia Academia Eclesiástica (onde se fabricam os núncios), o Emmo. Card. Beniamino Stella.

de Antônio Margheriti Mastino

Todas as pontas da Estrela

Francisco e Stella.

Francisco e Stella.

A estrela é o símbolo do sionismo, uma estrela foi o símbolo das “brigadas vermelhas”, uma estrela está no centro da meia-lua islâmica, a estrela vermelha é símbolo do comunismo soviético, muitas estrelas juntas compõem a bandeira do decadente império americano, a estrela de cinco pontas é, por antonomásia, o símbolo do satanismo. A estrela também é o símbolo da maçonaria. Digamos que, em geral, não obstante o caráter melodramático que inspira, a estrela não augura nada de bom. Há algumas semanas, também o Vaticano, cruzes!, tem a sua Stella, que começou a brilhar de modo inesperado, fulminante e violento, como que direcionada para algum buraco negro. E agora se irradia sobre tudo e sobre todos, lá, no alto da pirâmide, onde subiu, excelsa, para “iluminar” também os outros, caso não estivessem lá há algum tempo.

Estamos falando do cardeal Beniamino Stella. Passou, da noite para o dia, de obscuro reitor da Academia Eclesiástica, na qual tinha estacionado à espera da aposentadoria, ali onde se formam os futuros núncios apostólicos, a nada menos que Prefeito da Congregação para o Clero, ele que nunca trabalhou como padre em toda a sua vida, derrubando da cadeira o predecessor, que tinha sido nomeado há pouco tempo pelo outro papa, e que ali, se fossem observadas as regras e o bom-tom, deveria ainda permanecer por três anos: o Cardeal Mauro Piacenza, que, notem bem!, foi a primeira vítima eminente da escalada à pirâmide vaticana de Mons. Stella.

No entanto, quem é realmente este Beniamino Stella, que ninguém, pouquíssimos, conheciam, além daqueles que frequentam os ambientes da diplomacia vaticana? Além disso, era alguém que não era visto por aí, não confiava em ninguém, saía raramente ou senão com gente selecionadíssima. A sua história é, certamente, longa; se rica ou pobre, é difícil dizer, embora esta Stella pareça nunca ter brilhado, senão pela luz daquela aurea mediocritatis, que é o máximo brilho do Vaticano pós-conciliar. Não é claro, de fato, se a sua história ignota seja obscura ou parda, e todos sabemos que entre o pardo e o escuro a variação pode ser mínima e indefinida.

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Encontro com o misterioso Prelado

Tentemos entendê-lo com vagar, neste tipo de dossier que lhes garanto provir das melhores fontes. Vaticanas e afins. Um telefonema inesperado de um amigo me anuncia o de um “secretário”, que, por sua vez, me anuncia que Alguém, o seu chefe, tinha certas coisas para me contar, das quais apenas uma parte, com um “conta-gotas”, poderia publicar “em alguma mídia on-line”. “Por enquanto”. Marcam o encontro num apartamento “insuspeitável”, num bairro histórico de Roma. Com um certo temor, digo a verdade, fui até lá. Depois de ouvir as coisas graves que, com lentíssima circunspeção e com extenuantes circunlóquios, me contavam, surgiu-me espontaneamente uma pergunta: “Me desculpem, mas isto é coisa para divulgadores de notícias muito maiores que eu; por que não vão a um Magister, a um grande vaticanista?”.

“Porque não é prudente, porque daria muito na cara. Porque não se pode controlar aquilo que um grande vaticanista, como o sr. diz, quererá dizer ou não”.

“E porque se deveria confiar num pirata sem barco, como eu?”

“Porque o sr. tem tudo a ganhar, e também tudo a perder. Porque lhe convém fazer como estou dizendo; ou estou errado?”.

Não, não erra este elegante eclesiástico de olhos glaciais e incandescentes, que enquanto olha pra você não se entende nunca o que está pensando, não se entende ao menos se, enquanto olha, lhe vê, se você existe pra ele, se não é apenas um gravador, ao invés de um ser humano. E, nisso, é realmente um homem de poder, e isto se nota. Se nota pela sua cortesia suntuosa, pela educação atroz que recebeu; por suas mãos lisas, grandes e cândidas, como que apenas trabalhadas por manicure.

Chega o secretário, afadigado, que lhe sussurra algo. Toma o telefone e diz “pronto!”, ao modo italiano, mas depois começa a falar nalguma dura declinação do espanhol, algo como o basco, penso eu, pois de outro modo teria entendido. Não entendo o que diz. Faz um outro telefonema e, desta vez, fala português.

Sinto seu bom perfume ao longe, e observo atentamente suas mãos: percebe, e se as olha também ele. “O que é que tem? É o anel?”. Com um profissionalismo estupefaciente, dispensou apresentações. Não foi um esquecimento ou uma descortesia: escolheu fazer assim.

Tem um anel dourado na mão direita. Que era um bispo, entendi há muito. “Não somente. As abotoaduras douradas ao pulso, e depois seu perfume de, no mínimo, cinquenta euros: o papa desaprovaria!”, digo com um sorriso digno de Mefistófeles. Entende a piada e abre pela primeira vez um sorriso não plastificado: “O sr. também sabe que o papa não quer ver os eclesiásticos e seminaristas que não sejam fedidos?”

“Não quer abotoaduras nas mangas, ao contrário de Bento; não quer anéis dourados, não quer nem que os padres passem perfume”, digo.

“Quer apenas fedor de ovelha e lã de cabra”, sorri. Não espera as minhas perguntas, não as previu nem as tolera: é uma confissão espontânea, calibrada em cada vírgula. Nos despedimos. E quando já ia embora me disse “atenção ao que faz, e escreve”. Não está mais sorrindo. Entende que o tom foi ameaçador demais, procura um meu olhar ressentido, enquanto me viro velozmente, e se corrige imediatamente: “Confio no sr. Sabe, os grandes…, no sentido de conhecidos…, vaticanistas são como os grandes santos ou os grandes advogados, lhe invocam como protetores e depois prestam pouca atenção às causas pequenas, talvez até as perdem; os pequenos santos ou os pequenos advogados, ao contrário…, por um cliente que têm, se dedicam completamente, e talvez vencem a causa”. Eis aí o diplomata, finalmente!, que sabe bem alternar ameaças e adulações, o bastão e a cenoura, e entender rapidamente que o “bastão”, em mim, surte o efeito oposto ao desejado; as “cenouras”, ao contrário… Nunca me considerei incorrompível: ao contrário, se necessário for, sou corrompível. Mas nunca em relação aos princípios.

“Os pequenos advogados, ao contrário…” Me faz sorrir, porque era a teoria sobre os grandes santos e os grandes advogados que tinha, e me repetia sempre, aquele grande advogado, Giovanni Leone, o ex-presidente, que conheci em seus últimos anos de vida, como vizinho de casa e acompanhante em alguns passeios a Le Rughe, na via Cassia.

A entrevista em nome de terceiros

Tenho estima por Tornielli, sobretudo porque tenho muita estima por Messori: sendo Tornielli amigo de Messori, tenho por ele, digamos, uma “estima” por reflexo condicionado: às vezes quisera me irritar com ele, mas pela razão suscitada nunca o fiz nem nunca o farei. Mas certas vezes me parece cair em tons clericais que vão muito além do permitido, mas é uma profissão difícil esta de trabalhar com aquela feminilidade volúvel e fatal de padres que iniciaram a mudar a cor das vestes, numa velocidade sempre crescente; uma profissão ingrata e vacilante, sob moldes tão instáveis de não se desejar ao pior inimigo, e menos ainda a um pai de família.

Então, é melhor pouco incenso, ópio do povo, e poucas ladainhas cantaroladas quando se tem de tratar com esta “gente non sancta”, aqui. São vingativos, capazes de lhe fazerem perder o trabalho, especialmente se percebem que você é “inteligente” e “competente”, o que, para eles, é sinônimo de “sedição” perigosa e, não o queira Deus, de “integralismo”. Dão apenas entrevistas a quem fica de joelhos, e talvez por isso eu não seja um vaticanista, pois, depois de certo número de porradas, lhes jogaria o gravador na cara.

Mas não divaguemos. Outro dia, Tornielli publicou em Vatican Insider, uma entrevista com o novo Prefeito da Congregação para o Clero, o nosso Beniamino Stella. Uma entrevista que, pelo título, parecia estar cheia de fogo e chamas: “O clericalismo faz mal aos padres e aos leigos”. O conteúdo, naturalmente, desiludia, tinha uma verbosidade aflita, típica de “documentite aguda”, e, por si mesma, de um clericalismo incolor, tão antiquado e decrépito a ponto de superar a irrelevância. Coisa que, a olhos profanos, deveria dar a impressão de confirmar a autenticidade da entrevista, que deve ser – em minha opinião – uma daqueles em que o vaticanista profissional manda as perguntas escritas ao escritório do prelado e espera que alguém lhe copie as respostas canônicas. E, em geral, é o secretário do prelado quem o faz. Todas, coisas que o olhar profano ignora.

Digamos que aquela entrevista fedia, de modo que a “salvei” e mandei que alguns “peritos” nada profanos a examinassem, com a pergunta: “o melaço é da lata de Stella?”. Eles também a submeteram a olhares especializados. O resultado da autópsia veio depois de poucas horas. “Que nulidade este Beniamino Stella!”, foi o incipit. “Quem dera fosse dele”, continua. De fato, não é ele: “Posso lhe assegurar que ele não deu a entrevista”. Talvez – me diz, em substância – os temas foram tratados, mas Stella não tem tal propriedade de linguagem para que se possa dizer que foi ele quem falou. Antes de mais nada, porque não sabe nem o que são os sinônimos. Repete as mesmas palavras em cada frase, e dificilmente, ou melhor, NUNCA, usa termos latinos, no máximo enche seus discursos com palavras espanholescas. Além disso, usa uma fraseologia diplomática que tende ao possibilismo, à persuasão, ama iniciar cada frase com um condicional, e evita cuidadosamente as frases diretas, talvez consideradas por ele “duras demais”. Todas, coisas que, na entrevista, não constam totalmente.

O clã dos vicentinos

É curioso, ou melhor, não é, que no Vaticano, há décadas, se continue com provincialismos ou anglossaxonismos. Se antes era o reino dos “clãs” provinciais, o clã dos piacentinos, o clã dos romagnolos (ou brisingueleses, que se quer dizer), depois se passou à era dos “lobbyes”: dos gays, por exemplo, o principal de todos, também porque é o mais numeroso, se presume; ultimamente, existe um grande crescimento do lobby financeiro, laico, laicíssimo, das tarefas indefiníveis mas feitas de propósito para embalar um monte de bilhões de católicos cada dia. Todavia, um clã conseguiu se tornar o novo dirigente: o clã dos venezianos, venezianos de lugares confinantes: Parolin é veneziano, veneziano é o secretário de João XXIII, Capovilla, que se tornou cardeal com quase 100 anos, veneziano é Stella, veneziano e vicentino, como Parolin, é o sucessor de Stella na cabeça da Pontifícia Academia Eclesiástica: um laço bem amarrado em torno do campanário. Como para todos os outros clãs, este também fez um ninho, na Pontifícia Academia Eclesiástica. Um verdadeiro triângulo amoroso.

Não basta: do mesmo clã, de qualquer modo, é um dos dois novos secretários de Parolin, mas a notícia é que foi Beniamino Stella quem lhos deu, sendo um escolhido dentre seus pupilos. Portanto, Parolin precisava de dois novos secretários, dos quais um deveria ser diplomata e falar inglês (e o outro “civil” e que soubesse francês), e notem que foi mesmo um inglês, um dos preferidos de Stella, outrora secretário da nunciatura na Colômbia, quando ele era núncio. Parolin pediu a Stella e eis que Stella tinha bela e pronta uma outra sua estrelinha a ser posta no firmamento vaticano.

Não é nem mesmo um mistério, ou um caso, que um dos principais colaboradores de Stella, um outro pupilo, todo dia toma um taxi para a Secretaria de Estado a fim de dar disposições, ao invés de recebê-las.

E o futuro Papa, em segredo, foi ao seu Beniamino

Agora alguém poderia pensar que foi o Secretário de Estado Parolin que disse ao Papa que nomeasse o velho amigo, Stella, ao vértice da Congregação para o Clero, mas aconteceu o contrário: foi Stella que pôs coração e alma para fazer o papa nomear Parolin, um dos tantos núncios do mundo, que sequer era cardeal, que admitiu ter encontrado Bergoglio apenas uma vez em sua vida, ao mais alto encargo do vaticano. Porque, se ainda não entenderam, é Stella quem está no vértice da pirâmide, é ele quem manobra tudo e faz as nomeações, tem faculdade de vida e de morte sobre legiões inteiras de carreiras eclesiásticas, é ele que já é membro de todas as congregações vaticanas, coisa que apenas Marchisano conseguiu anteriormente. Ele está por trás da nomeação do cardeal Lourenzo Baldisseri, diplomata, como secretário do Sínodo.

Stella, então, foi o máximo artífice da nomeação de Parolin, desde a eleição de Francisco, ele o indicou apertis verbis no primeiro colóquio oficial com o novo Papa Francisco em 6 de junho. Digo “oficial” porque, na realidade, tinham tido outros, incógnitos, e no momento mais delicado, não com o papa, mas com o cardeal Bergoglio, antes do fechamento do conclave. Minha suscitada fonte episcopal me confirma esta notícia com uma irônica pergunta retórica: “O sr. sabe que sua eminência Bergoglio encontrou Stella diversas vezes nas semanas antes do conclave, entre as quais a última, mesmo enquanto se abriam as portas do conclave?”.

Não, naturalmente, não o sei. “E, de fato, ninguém o saberia melhor dizer, pouquíssimos o sabem”. Como assim, ninguém viu Bergoglio, um papável, durante a Sé vacante, ou seja, um vigiado especial, entrar, nada mais, nada menos, que na fábrica dos núncios e dos arcebispos, para encontrar o Star? Esta é a minha ingênua pergunta. Simplesmente, parece que foi ali num horário em que não havia ninguém no portão de ingresso, talvez com exceção de uma única vez. Mas aquela vez foi o bastante para se dar a conhecer a quem deveria saber, especialmente depois do êxito do conclave. Foi um maná, também, para o “visitado”, o novo Star do Vaticano, o Beniamino do papa. Logo, Bergoglio acreditava (ou pelo menos pensava) em entrar sem ser visto.

Mas o que fazia ali Bergoglio visitando Stella, escondido? Quem sabe? E em que horários foi até lá, precisamente? No dia anterior ao conclave, pela última vez, portanto. Uma outra vez, à tarde, ou uma noite, após o jantar, ao menos pelas vezes que se contam. Mas a verdadeira pergunta é uma outra: não parece estranho que alguém como Bergoglio, com o seu estilo, com as suas idiossincrasias “anti-cortesãs” e “anti-mundanas” mande logo à Academia, o templo da “mundanidade espiritual” um padre seu? Nunca mandou ninguém em vinte anos, e o mande no “fim” da sua própria carreira? E, por fim, vá ele mesmo à Academia, e não para encontrar os padres que mandou de Buenos Aires.

Mas, o que queria, então, de Stella? Por que toda esta confidência com um diplomata? Parece que os dois se conheceram na América Latina, talvez mesmo em Aparecida, onde entre ambos havia uma caterva de bispos e cardeais; mas Bergoglio deve ter entrado no coração de Stella, sobretudo, com a redação do texto final. Então, sobre o que falou Bergoglio a Stella nas visitas secretas? Falavam das chances e do futuro, imaginemos, do conclave. Mas uma coisa permanece certa como a morte: no “fim” de sua carreira [como arcebispo de Buenos Aires], Bergoglio mandou a Roma diversos de seus padres, a fim de prepará-los para “alguma coisa”, além de que para que eles lhe contassem “coisas romanas”, “fofoquinhas” curiais, sobretudo, que não desprezava saber e, antes, como se disse, o divertia. E…, jogando também se aprende. E talvez os padres de Bergoglio teriam contado dele a Mons. Stella, o futuro prefeito da Congregação do Clero e deus ex machina do Vaticano.

Como as estrelas, que quando há luz, não se vêem

Mas, entre Parolin e Stella, que ligame existe além de serem conterrâneos, considerado que os dois são distantes em algo como 15 anos? Simples: são verdadeiramente amigos e, como todos os amigos, cúmplices. É isso, a sorte e o destino de um é ligado ao do outro. Mas, entre os dois, aquele que está acima é Stella.

Se vocês fizerem uma pesquisa no google, notarão que antes de sua nomeação para a Cúria, não existem documentos, artigos e sequer fotos, além das costumeiras coisas oficialíssimas, sobre Stella. Escuro absoluto. Mistério. Era um fantasma. Mas, então, quem é… que tipo é realmente este personagem que subiu de repente, à venerável idade de mais de 72 anos, às honras da crônica? Deveríamos começar mesmo por seu dado anagráfico incomum, porque para um tipo de carreira que ele teve não se explica o epílogo: é como um coqueiro que desse bananas. Mas não o faremos agora.

Ao invés disso, concentremo-nos um instante sobre o homem Beniamino Stella.

Uma pessoa muito reservada. Sai pouco, seleciona muito as pessoas com as quais sai, não se mostra nunca passeando por aí, nunca num restaurante: quando sai, se esconde atrás dos outros. Às vezes, é visto com roupa esportiva e boné na cabeça pegando a bicicleta para se movimentar em qualquer parque romano, mas ninguém o reconheceria, salvo o autor deste artigo, que, avesso às coisas e aos rostos eclesiásticos, e habituado às manhãs dominicais da Villa Doria Pamphilj em Monteverde, reiteradamente reconheceu em um distinto ciclista desconhecido ele mesmo, Stella. Tentei confirmar por aí: me confirmaram.

Vida moral limpa? O sujeito parece quase um assexuado, daquilo que se sabe, mas eventualmente seria necessário perguntar ao governo cubano (esteve ali por anos, terão relatórios inteiros que lhe dizem respeito)… para talvez não encontrar nada, porque, para aqueles que o conhecem, e são poucos, se jura de todos os modos que nunca houve nenhum sinal de dupla vida em nível moral sobre ele. Nunca.

Mas é justo esta “perfeição” que fede.

Bem, de resto, ele precisa contar em todo lugar que foi o próprio Albino Luciani que o escolheu pessoalmente e, portanto, diz, qualquer qualidade terei de haver. O ponto é que isso não é verdade, ou melhor, é uma meia verdade: Stella esteve no seminário romano e dali foi logo para a Academia. Provavelmente, Luciani o tenha visto somente no dia de sua ordenação. Mas é claro que entrou em sua ex-Academia dos Nobres porque é amigo de alguém, na época era assim, e estão tantos venezianos na Academia quanto veneziano era o onipresente Sebastiano Baggio. Uma autoridade na época. Um outro vicentino. Um outro com forte cheiro de maçonaria, estando em várias lendas metropolitanas e, se diz, também em diversas pastas judiciárias. Repito, é imaculado demais, e é justo isso que fede.

Já manifestou alguma ideia eclesiológica particular? É difícil dizê-lo. Não é um tipo que se manifeste a si mesmo; pela educação que recebeu e a carreira que se fixou, seria a ruína. Em geral, fontes de oltreoceano nos confirmam: não fala, mas deixa que sejam outros a falarem, talvez deixando qualquer saída de modo tendencioso, sobre este ou sobre aquele setor nevrálgico, para colher a reação, para testar a fidelidade, para escanear o eventual imprudente doutra parte: Jano duas caras, não faz ou diz nada senão para ter informações, enquanto te alisa, te arrebenta sem que o percebas e, neste sentido, é um verdadeiro mágico. E mais de um foi esfolado pelo amo, pelas eventuais respostas imprevidentes que deu, revelando-se, simplesmente respondendo uma pergunta. Stella é felpudo, não deixa rastros quando destrói alguém. Simplesmente dá uma piscadinha de olho, espalha vaselina e, fazendo de conta que pensa como você, age segundo aquilo que a lógica do poder impõe.

Ou, como diria Papa Francisco, com uma frase inconscientemente revelatória: “Monsenhor Stella sabe bater à porta!”.

E as estrelinhas não estão olhando…

Atenção, porém, tudo isso não faz de Stella um guardião da ordem; da sua ordem, certamente, mas não da ordem geral da Igreja. Não é, de fato, imparcial, como parece. Nenhum homem neutral poderia sobreviver naqueles ambientes. Um dissimulador, sim, mas não um homem puro. Stella é o contrário: parcial e partidário, favorece as pessoas que considera mais que merecedoras (mas o Vaticano, de resto, é o Éden dos “recomendados”, onde mais que as qualidades, contam as fidelidades individuais, as relações de confiança, a intimidade corporativa, a cumplicidade de grupo) e ele o está demonstrando também em seu novo papel de Prefeito de uma dentre as mais importantes congregações.

São-me trazidos alguns exemplos, aos quais poderei somente acenar-lhes de modo leve, por enquanto. Cada ano, a fábrica de núncios desenforma uns quinze alunos, e até aqui, tudo normal.

Agora, porém, existem dois fatores, como muitos sabem.

Um primeiro. Na Academia se louva muito o aproveitamento nos exames e no estudo. E, assim, os estudantes piores, quase desprezados pelos outros – assegura-me o antigo diplomata diante de mim – são aqueles que não conseguem concluir o doutorado dentro da metade do último ano. Significa que não estudaram e não foram capazes de terminar tudo em tempo: são considerados pelos colegas e professores como ociosos e tolos, pessoas que não conseguem fazer os “trabalhos indicados”.

O segundo. Explica-me a minha fonte, Sua Excelência, que depois soube que girou meio globo terráqueo em funções de relevância diplomática, como são os critérios para definir o país de destinação e o seu prestígio. Diz-me que, substancialmente, existem destinações “missionárias”, ou seja, diplomacias de série A, B, C, de acordo com o país, certamente, mas também de acordo com muitas condições contingentes, do mesmo modo variáveis. Antes de mais nada, o nível de pobreza do país, esta é uma condição fundamental. As primeiras missões são, normalmente, na Ásia, África e Amética Latina, mas não todos os países destes continentes. É necessário tirar da América Latina os países mais importantes, tirar da África os países do norte islâmico e o sul, mais rico, tirar da Ásia os países com mais progressos, como a Índia, o Japão e a China. Claramente, todos os países da Ásia são considerados as coisas mais nojentas, porque mesmo se alguém for a um país rico na primeira vez, se está sempre longe e tudo é diferente do Ocidente. Do mesmo modo, quem parte da Ásia, terminará, depois, na América Latina ou na África. E a sua escalada se prolongará até o infinito. Se quisermos tentar fazer uma classificação, também com base naquilo que pude entender daquele diálogo, então, da Ásia é como partir do -1; se lhe mandarem para a África negra ou um país pobre da América, estará no 0. Para ser 1, deve-se mandar para um país da África do Sul, onde são mais desenvolvidos e não existem guerras e tem menos fome, ou um país da América Latina entre os mais populosos e parecidos com o Ocidente. Se for parar ali, segundo a ordem em que for mandado, será destinado a uma sede de nível 2 ou, como todos esperam, será mandado para Roma.

Acontece, porém, que alguém seja tão afortunado a ponto de ir para uma sede “fora” do programa já desde a primeira nomeação. Talvez mesmo um dos “burrinhos”. Que vá terminar numa sede melhor, senão de série A, ao menos de série B, suculentíssima, sendo também um país turístico. Mas não diremos os nomes nem dos “afortunados” nem dos países “suculentos” (por enquanto, ao menos).

Mas quem são estes cujo mérito foi tão grande a ponto de serem maximamente premiados?

E logo se responde: os “prediletos” de Beniamino Stella. E foi propriamente por isso que não deveriam ser um tipo de santo, além de não serem astros de inteligência, nem referências no estudo. E, de fato, o problema é que, em certos casos, os “prediletos” quase sempre eram propriamente os piores entre os alunos. Que fosse somente este o problema! Parece que algum destes ilustríssimos cadetes tenha sido mandado à Academia pelo próprio bispo, a fim de que fosse mantido longe da diocese: mantê-lo equivalia a meter uma bomba-relógio no sacrário da catedral. Por suspeitas e velhas acusações, verdadeiras e próprias, as mais perigosas vão aqui (mas, por ora, não podemos dizer mais). E, notem, com o clássico método do promoveatur ut removeatur, foi mandado para a Academia, onde “brilhou” com a luz refletida pelos “prediletos”, nascidos sob uma boa Stella, pela burrice, a incontinência sobre cujo gênero é melhor calar. Tanto trovejou que chove, com um igual curriculum, um “predileto” de Stella, não obstante tudo, pode muito bem dar-se em primo round a missão diplomática mais desejada e suculenta. Mas, como ensina o Evangelho, “as prostitutas vos procederão no reino dos céus”, mas também sobre a terra, parece.

Talvez seja propriamente para evitar curiosidades “perigosas” e acidentes com os alunos, tipo alguém que queira verificar cada nome e descobrir que é refugium peccatorum além de ser scholam diplomaticorum, talvez seja por isso (antes, é certo) que a Academia Eclesiástica, no site oficial do vaticano, decidiu não atualizar a lista de seus alunos, que, prestem atenção, parou nada menos que em 2002, isto é, há doze anos: uma era geológica, que viu passarem três pontificados.

Nascido sob uma boa Estrela, um só mérito: ter feito Bento escorregar

Pergunto ao meu excelente interlocutor acerca do sucessor de Beniamino Stella à presidência da Pontifícia Academia Eclesiástica. Não gosta de perguntas, prefere as declarações espontâneas. Derrete o olhar gélido que me desafia por alguns segundos, mudado. Tempera a tensão com uma piada: “Um de quem deve sempre olhar de costas” e ri a valer, também o secretário, e acrescenta “especialmente se vem antes dele pela escada”. Riem com gosto, eu não, porque, em minha ainda dúbia inocência, não entendi. Tive como que a sensação de que estivessem abusando de mim, mas talvez não; aludem, simplesmente. É um fato que Gianpiero Gloder foi logo consagrado bispo pelo Papa Francisco, talvez seja o primeiro que tenha consagrado. Tem 55 anos e um curriculum bastante escasso para aceder a tanta glória como cabeça da Pontifícia Academia Eclesiástica, sucedendo Stella. Digamos que lhe bastou ser um outro do clã vicentino. É o enésimo “predileto”, antes, o “preferido” do próprio Stella. Todavia, um ponto em falso tem: o título de comendador, um trapo de pano honorífico que lhe foi concedido pelo então presidente católico-comunista do Conselho, Romano Prodi. O motivo nos é ignorado.

Mesmo não tendo feito uma missão no exterior (menos de dois anos na Guatemala) se tornou presidente. Era até pouco antes o ecônomo da Academia (2001-2008), quando desde 2005 foi posto para fazer o que?… Esta é a pergunta mais importante… Capo ufficio para os Assuntos especiais! Logo quando Ratzinger se tornou papa. Mas, na realidade, o que fazia ali? Corrigia, do ponto de vista político, os discursos do Papa; este trabalho se tornou tão pesado que, pouco depois, deixou a Academia. Em 2008, quando foi engatilhada a hora da vingança, Sodano sendo aposentado à força, começava a operação vaticana para “neutralizar Bento”, gerenciada, notem, pelo grupo diplomático-curial, com a benção de Sodano: guerra anti Bento, devida à sua tentativa de afastar todos os diplomáticos dos postos de poder (coisa que, na época, era avaliada por todos como positiva, “finalmente”), entre os quais o sancta sanctorum de tais postos, isto é, o Secretário de Estado. Bertone era um civil, não um diplomata. “Erro” fatal. Que começasse a guerra, Sodano deu a entender com um sinal “logístico”, o arrogante e ruidoso rechaço de ceder ao sucessor, por mais de um ano, as suas secretarias, onde continuou a se meter, insensível a cada chamada.

Vocês pensaram que tenha um bom trabalho para merecer-se uma tão fulminante promoção, naquela que (hierarquicamente falando) pode ser considerada uma sede de excelência? Não foi para a Ásia, nem para a África, nem para a América latina… Ficou em Roma. O que podemos concluir, então? Que tem amigos muito poderosos, pois de outro modo não permaneceria no exterior pouco mais de um ano. Sobretudo, tem um “mérito”, o maior, que o torna um astro nascente: manipulou os discursos políticos de Bento, tanto que foi a causa dos escorregões e dos acidentes diplomáticos daquele pontificado. Ou melhor: simplesmente não lhes conferiu, ou não os quis modificar, sendo que politicamente os problemas dos discurso de Bento eram seus problemas. Não resolvidos. Fez carreira, e não por acaso. Nasceu sob uma boa Stella.


[1] Stella, em italiano, estrela. O autor faz o trocadilho entre o nome de Beniamino Stella e a estrela.

[2] O nome Beniamino, em italiano, significa, também, “o predileto”.

5 fevereiro, 2014

Cardeal Burke sobre a exortação Evangelii Gaudium: “Não creio que haja a intenção de fazer parte do magistério papal”.

Da entrevista do Cardeal Raymond Leo Burke, Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, a Raymond Arroyo, da EWTN, em 13 de dezembro de 2013:

Questionado se a exortação apostólica “Evangelii Gaudium” está em continuidade com o ensinamento de João Paulo II e Bento XVI ou se há apenas uma mudança de tom, Burke respondeu — aos 20m47s:

“Eu não sei. Creio que quando olhamos para a introdução do próprio documento e, parece-me [...], que o Santo Padre fez uma afirmação muito clara no início, que se trata de várias reflexões e que está dizendo que não tem intenção de que isso faça parte do magistério papal [...] que são sugestões, diretrizes, planos, e assim, para mim, para esse tipo de documento, não sei perfeitamente como qualificá-lo, mas não creio que haja a intenção de fazer parte do magistério papal. Essa é a minha impressão”.

O Cardeal também falou sobre os “assuntos essenciais” (aborto, defesa da vida, etc) e a reforma da Cúria após o “efeito Francisco”. Agradeceremos aos leitores que puderem transcrever outros trechos da entrevista.

3 dezembro, 2013

Vaticano: Papa preside a segunda reunião do conselho consultivo de cardeais.

Cidade do Vaticano, 03 dez 2013 (Ecclesia) – O Papa preside a partir de hoje ao segundo encontro com os oito cardeais dos cinco continentes que nomeou em abril para o aconselharem, abrindo caminho à redação de uma nova constituição para a Cúria Romana.

Francisco e os cardeais reunidos hoje.

Francisco e os cardeais reunidos hoje.

O novo “Conselho de Cardeais” tem como missão auxiliar o Papa no governo da Igreja promover o aperfeiçoamento do documento que regulamenta atualmente a Cúria do Vaticano, organismos centrais (dicastérios) da Santa Sé, a constituição ‘Pastor bonus’, assinada por João Paulo II a 28 de junho de 1988.

Após a primeira reunião, em outubro, o porta-voz do Vaticano afirmou que a orientação não é para uma “simples atualização da ‘Pastor bonus’”, mas para a elaboração de uma Constituição com “novidades de relevo”.

O padre Federico Lombardi destacou que este trabalho “vai requerer um tempo adequado” e visa colocar os organismos centrais da Igreja Católica a funcionar em termos de “subsidiariedade e não de centralismo”.

 Neste contexto, os trabalhos à porta fechada aludiram ainda às funções e ao papel da Secretaria de Estado do Vaticano, que deve ser a “Secretaria do Papa”.

Em cima da mesa esteve ainda a possibilidade de criar a figura de um “moderador da Cúria”, que coordenasse os dicastérios.

Após este segundo encontro, que decorre até quinta-feira, prevê-se “uma nova reunião no mês de fevereiro do próximo ano”, para que o trabalho nesta fase inicial se possa “desenrolar expeditamente”.

O grupo é coordenado por Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa, Honduras, e presidente da Cáritas Internacional, incluindo Giuseppe Bertello, presidente do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano, Francisco Javier Errázuriz Ossa, arcebispo emérito de Santiago do Chile, e Oswald Gracias, arcebispo de Bombaím, na Índia.

Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising (Alemanha), Laurent Monsengwo Pasinya, arcebispo de Kinshasa, na República Democrática do Congo, Sean Patrick O’Malley, arcebispo de Boston, nos EUA, e George Pell arcebispo de Sydney, na Austrália, completam o elenco do conselho que tem como secretário D. Marcello Semeraro, bispo da diocese italiana de Albano.