Archive for ‘Cúria Romana’

19 setembro, 2014

O manifesto dos cardeais e a resposta de Kasper: “Combinei tudo com o Papa”.

IHU – Nunca tinha acontecido de um Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em exercício, publicasse dois livros, em poucas semanas, para declarar inadmissível qualquer mudança na postura da Igreja a respeito do tema que será discutido em uma reunião sinodal. Foi assim que agiu o cardeal Gerhard Ludwig Müller, que desde 2012 guia o ex-Santo Ofício: em julho ofereceu à impressa um livro-entrevista, no qual se declarava contrário a qualquer abertura em relação à comunhão aos divorciados em segunda união (“A esperança da família”, edições Ares), e agora seu nome é o mais destacado entre os que assinam um volume coletivo que se intitula “Permanecer na verdade de Cristo” (que já foi publicado nos Estados Unidos e que acaba de ser impresso na Itália), cujo conteúdo foi divulgado, ontem, pelo jornal italiano “Corriere della Sera”.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 18-09-2014. A tradução é do Cepat.

Kasper e Francisco.

Kasper e Francisco.

Os demais autores são outros quatro purpurados: Carlo Caffara, arcebispo de Bolonha, Raymond Leo Burke, Prefeito da Signatura Apostólica, e os eméritos Walter Brandmüller e Velasio De Paolis. Além disso, também colaboram o arcebispo Cyril Vasil, Secretário da Congregação para as Igrejas Orientais, e outros especialistas. Nos dois volumes, o tema central é a participação dos divorciados, que vivem em segunda união, na Eucaristia, algo que consideram inadmissível.

A inédita operação midiática (a que se somam também, na mesma sintonia, um texto do cardeal Angelo Scola e um livro que está para ser publicado do cardeal australiano George Pell, “ministro” de Economia vaticano) foi apresentada como uma resposta às aberturas que o cardeal Walter Kasper apresentou como uma hipótese, em fevereiro deste ano. A eleFrancisco havia encomendado a relação introdutória do Consistório. Diante de todos os cardeais, Kasper falou sobre o tema da família e, na última parte de seu articulado discurso, apresentou a possibilidade (caso por caso, em determinadas circunstâncias e após uma caminhada penitencial) de se voltar a admitir a comunhão aos divorciados em segunda união. O discurso causou muitas reações entre os cardeais e, no dia seguinte, tomando a palavra, Francisco o elogiou, dizendo que considerava que Kasper fazia “teologia de joelhos” e que em seu discurso havia encontrado “o amor da Igreja”. Durante os meses seguintes, após a publicação daquele texto, multiplicaram-se as entrevistas e as declarações. As posturas se polarizaram, o confronto e o enfrentamento se deram na arena dos meios de comunicação, assim como aconteceu durante o Concílio Vaticano II.

Francisco, que considera decisiva a mensagem da misericórdia, continua convidando a Igreja para que saia de si mesma e vá ao encontro dos homens e das mulheres nas condições em que vivem. Quis que ocorressem dois Sínodos sobre o tema da família: o primeiro, extraordinário, acontecerá entre os dias 5 e 19 de outubro deste ano. O trabalho continuará depois, envolvendo as Igrejas locais e, em outubro de 2015, um novo Sínodo (ordinário) se ocupará das conclusões.

Entrevista com o cardeal Walter Kasper.

Em fevereiro, o senhor falou a respeito do Sínodo, diante dos cardeais, e apresentou uma hipótese sobre a possibilidade da comunhão aos divorciados em segunda união. Em que consiste?

Não propus uma solução definitiva, mas, sim – após me colocar em concordância com o Papa -, fiz algumas perguntas e ofereci considerações para possíveis respostas. Este é o argumento principal: o sacramento do matrimônio é uma graça de Deus, que converte o casal em um sinal de sua graça e de seu amor definitivo. Inclusive, um cristão pode fracassar e, infelizmente, hoje muitos cristãos fracassam. Deus, em sua fidelidade, não deixa ninguém cair e, em sua misericórdia, oferece aos que desejam se converter uma nova oportunidade. Portanto, a Igreja, que é o sacramento, ou seja, o sinal e o instrumento da misericórdia de Deus, deve estar próxima, ajudar, aconselhar, animar.

Um cristão nesta situação tem uma necessidade particular da graça dos sacramentos. Não é possível conceder segundas núpcias, mas, sim – como diziam os Padres da Igreja -, após o naufrágio, uma barca para sobreviver. Não um segundo matrimônio sacramental, mas os meios sacramentais necessários em sua situação. Não se trata de uma solução para todos os casos, que são muito diferentes, mas para aqueles que fazem tudo o que está ao alcance em suas situações.

O senhor colocou em dúvida a indissolubilidade do matrimônio cristão?

A doutrina da indissolubilidade do matrimônio sacramental se baseia na mensagem de Jesus. A Igreja não tem poder para mudá-la. Este ponto não muda. Um segundo matrimônio sacramental, enquanto alguém do casal continua vivo, não é possível. Entretanto, é preciso diferenciar a doutrina da disciplina, ou seja, a aplicação pastoral em situações complexas. Além disso, a doutrina da Igreja não é um sistema fechado: o Concílio Vaticano II ensina que há um desenvolvimento, no sentido de um possível aprofundamento. Pergunto-me se é possível, neste caso, realizar um aprofundamento semelhante ao que se deu na eclesiologia: ainda que a Igreja católica seja a verdadeira Igreja de Cristo, também há elementos de eclesialidade para além das fronteiras institucionais da própria Igreja católica. Em certos casos, também não seria possível reconhecer em um matrimônio civil alguns elementos do matrimônio sacramental? Por exemplo, o compromisso definitivo, o amor e o cuidado recíproco, a vida cristã, o compromisso público, que não existem nas uniões de fato.

Qual é o seu parecer a respeito deste novo livro, com contribuições de cinco cardeais, incluindo o Prefeito Müller?

Surpreendeu-me. Fiquei sabendo, hoje, pelos jornalistas. O texto foi enviado para eles e não para mim. Em toda a minha vida acadêmica, nunca me aconteceu nada parecido.

Na história recente da Igreja, já aconteceu de alguns cardeais intervirem desta forma organizada e pública, antes de um Sínodo?

Durante o Concílio Vaticano II e no pós-concílio, existiam as resistências de alguns cardeais frente a Paulo VI, inclusive por parte do então Prefeito do Santo Ofício. Porém, se não me engano, não com esta modalidade organizada e pública. Se os cardeais, que são os colaboradores mais próximos do Papa, intervêm desta maneira (pelo menos em relação à história recente da Igreja), encontramo-nos frente a uma situação inédita.

O que o senhor espera que aconteça durante as próximas semanas, no debate sinodal?

Espero que possamos ter uma troca de experiências sincera e tranquila, de argumentos, em um ambiente de escuta. Não respostas pré-fabricadas, mas, sim, esclarecimentos sobre o “status quaestionis”, e depois haverá um ano todo para a discussão em nível local, antes das decisões de 2015.

O senhor considera que o Papa Francisco fala muito sobre misericórdia?

Como é possível falar muito de um tema que é fundamental no Antigo Testamento? Claro, a misericórdia não contradiz a doutrina, porque é em si mesma uma verdade revelada, e não cancela os mandamentos do Senhor; mas é uma chave hermenêutica para sua interpretação. O Papa João XXIII, na abertura do Concílio, disse: “Hoje, a Igreja deve usar não as armas da severidade, mas, sim, a medicina da misericórdia”. A misericórdia é, pois, o tema central da época conciliar e pós-conciliar da Igreja católica.

* * *

Kasper, pobre vítima dos carrancudos cardeais, choramingou ainda mais em entrevista ao jornal Il Mattino (créditos: Rorate-Caeli). A seguir, nossa tradução do principal excerto:

[Il Mattino:] Como se deve considerar as situações complexas? Por exemplo, o drama de uma família [sic] divorciada que violou a indissolubilidade do sacramento do matrimônio? 

[Cardinal Kasper:] “As situações complexas são consideradas uma a uma. Ninguém deve julgar, mas discernir. A luz do Evangelho nos ajuda no discernimento de toda situação concreta, à luz da misericórdia”

Voltamos ao perigo de uma guerra doutrinal no Sínodo. 

“Eu, certamente, não quero isso. Eles [os cardeais que o criticaram] talvez queiram. Penso em um sínodo pastoral”.

É isso o que o Papa também quer? 

“Com certeza. Também o Papa quer um sínodo pastoral”.

O senhor esperava essa controvérsia a respeito de seu discurso no Consistório? 

“Não sou ingênuo. Eu sabia que há outras posições, mas não pensava que o debate se tornaria, e agora também se mostra assim, sem modos. Nenhum de meus irmãos cardeais sequer falou comigo. Eu, pelo contrário, [falei] duas vezes com o Santo Padre. Combinei tudo com ele. Ele estava de acordo. O que pode fazer um cardeal, senão estar com o Papa? Eu não sou o alvo, o alvo é outro”.

O Papa Francisco? 

“Provavelmente sim”.

O que mais o senhor diria, por fim, aos seus oponentes? 

“Eles sabem que não fiz essas coisas por conta própria. Combinei com o Papa, falei duas vezes com ele. Ele se mostrou satisfeito. Agora, eles criam essa controvérsia. Um cardeal deve ser próximo do Papa, estar ao seu lado. Eles são os cooperadores do Papa”.

* * *

A testemunhar a comunhão entre Francisco e Kasper, foi divulgado ontem, pelo influente jornal católico francês La Croix, que Francisco “estaria irritado” com a publicação do livro dos cardeais às vésperas do Sínodo. Bergoglio teria solicitado ao Prefeito do antigo Santo Ofício, Cardeal Müller, um dos autores da obra, que não a divulgasse na Itália. Que liberdade de idéias nos reserva o próximo Sínodo, não é mesmo? Debate aberto, tranquilo, sereno, transparente… contanto que as conclusões sejam iguais às do Pontífice e de sua corte!

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17 setembro, 2014

Exílio em Malta para o Cardeal Burke.

De impecável prefeito do Tribunal Supremo da Assinatura Apostólica, está a ponto de ser degradado ao rol puramente honorífico de “patrono” de uma ordem de cavalaria. Por vontade do Papa Francisco. 

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com – Cidade do Vaticano, 17 de setembro de 2014 – A “revolução” do Papa Francisco no governo eclesiástico não perdem seu impulso propulsor. E assim, como ocorrem em toda revolução se preze, continua rolando cabeças de eclesiásticos considerados merecedores dessa metafórica guilhotina.

Em seus primeiros meses como bispo de Roma, o Papa Bergolgio agiu rapidamente para transferir a cargos de menor importância três destacadas personalidades da cúria: o Cardeal Mauro Piacenza, o Arcebispo Guido Pozzo e o bispo Giuseppe Sciacca, considerados por sua sensibilidade teológica e litúrgica entre os mais “ratzingerianos” da cúria romana.

Também parece definida a sorte do arcebispo espanhol Celso Morga Iruzubieta, membro do Opus Dei e secretário da Congregação para o Clero, destinado a deixar Roma para uma diocese ibérica que não é de primeiro nível.

Mas, agora, estaria por acontecer uma decapitação ainda mais notável.

A próxima vítima seria, de fato, o purpurado norte-americano Raymond Leo Burke, que, de prefeito do Tribunal Supremo da Assinatura Apostólica, não seria promovido — como fantasiaram alguns no mundo da web — à difícil, porém prestigiosa sede de Chicago, mas que seria degradado ao pomposo — mas eclesiasticamente modestíssimo — título de “cardeal patrono” da Soberana Ordem Militar de Malta, substituindo o atual titular Paolo Sardi, que há pouco completou 80 anos de idade.

A confirmar-se, o exílio de Burke seria ainda mais drástico que aquele imposto ao cardeal Piacenza, que foi transferido da importante Congregação para o Clero à marginal Penitenciária Apostólica, embora, de todo modo, tenha permanecido na chefia de um dicastério curial.

Com a mudança à vista, Burke seria retirado totalmente da cúria e colocado em um cargo puramente honorífico e sem nenhuma incidência no governo da Igreja universal — um movimento que não parece ter precedentes.

Com efeito, no passado, o título de “cardinalis patronus” dos Cavaleiros de Malta, em vigor desde 1961, assim como o anterior de Grão-prior de Roma, foi designado sempre a cardeais de primeiro ou primeiríssimo plano com um cargo adicional em relação ao principal.

Assim sucedeu com os cardeais Mariano Rampolla del Tindaro (nomeado grão-prior em 1896, mas permanecendo como Secretário de Estado), Gaetano Bisleti (então prefeito da Congregação para a Educação Católica), Gennaro Granito Pignatelli (cardeal decano e bispo de Albano), Nicola Canali (governador da cidade do Vaticano), Paolo Giobbe (que conduzia a Dataria Apostólica), Paul-Pierre Philippe (também prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais até completar os 75 anos de idade), Sebastiano Baggio (removido da Congregação para os Bispos, mas mantido como governador da Cidade do Vaticano e camerlengo), Pio Laghi (até os 77 anos também prefeito da Congregação para a Educação Católica).

Dois casos distintos foram os do cardeal Giacomo Violardo, que, dois meses depois de ter recebido a púrpura ao término de um longo serviço na cúria, aos 71 anos de idade, substituiu como patrono a Giobbe, de 89 anos, e do demissionário Sardi, nomeado aos 75 anos pró-patrono em 2009 e feito cardeal em 2010, após ter sido durante muitos anos o responsável pelo departamento de redação dos documentos pontíficios.

Ademais, a aposentadoria de Sardi não seria uma ação obrigada, dado que para os cargos extra-curiais não vale o limite de 80 anos de idade. De fato, com exceção de Paolo Giobbe, todos os cardeais patronos citados acima passaram a melhor vida “durante munere”.

Burke tem 66 anos, isto é, está na plena idade. Ordenado sacerdote por Paulo VI em 1975, trabalhou na Assinatura Apostólica como simples sacerdote sob João Paulo II, que, em 1993, o fez bispo de sua diocese natal de La Crosse, em Wisconsin. Também o Papa Karol Woytyla o promoveu em 2003 a arcebispo da prestigiosa sede, outrora cardinalícia, de Saint Loius, em Missouri. Bento XVI o chamou a Roma em 2008 e o fez cardeal em 2010.

Personalidade muito piedosa, reconhece-se nele a rara virtude de não ter jamais negociado para obter promoções ou favores eclesiásticos.

No campo litúrgico e teológico está muito próximo da sensibilidade de Joseph Ratzinger. Celebrou muitas vezes segundo o rito antigo, revestido também com a “capa magna”, como por outra parte continuam fazendo o Cardeal George Pell e Antonio Cañizares Llovera, sem que por isso tenham sido castigados pelo Papa Francisco.

Grande especialista em Direito Canônico, por isso mesmo nomeado para a Assinatura Apostólica, não teme ir às consequências mais incômodas, como quando, em sintonia com os artigos do Código — precisamente o 915 — sustentou a impossibilidade de administrar a comunhão a políticos que pertinaz e publicamente reivindicam o direito ao aborto, razão pela qual ganhou a recriminação dos colegas bispos dos Estados Unidos estimados pelo Papa Francisco: Sean Patrick, de Boston, e Donald Wuerl, de Washington.

Livre em seus juízos, foi um dos poucos que fez observações críticas sobre a “Evangelii Gaudium”, assinalando, em sua opinião, seu valor programático mas não magisterial. E em vista do próximo sínodo dos bispos reiteradamente tomou posição contra a tese do cardeal Walter Kasper — notoriamente agraciado pelo Papa Francisco — favorável à comunhão aos divorciados que voltaram a se casar.

O dicastério presidido por Burke, eminentemente técnico, aceitou recentemente um recurso das Irmãs Franciscanas da Imaculada contra uma medida tomada contra elas pela Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. Uma valente manobra na contra-mão feita por Burke, que se insere no seio da ação punitiva empreendida pela Congregação vaticana contra uma das realidades mais emblemáticas do tradicionalismo católico, ação que o Papa Francisco avalizou aprovando em forma específica a decisão da Congregação de impedir aos frades da Imaculada a celebração da Missa segundo o rito “tridentino”. Efetivamente, somente com este tipo de aprovação pontifícia um decreto da cúria pode contradizer uma lei vigente, neste caso em particular, o motu proprio “Summorum Pontificum” de Bento XVI.

É difícil individualizar entre esses precedentes quais podem ter definido a sorte do Cardeal Burke.

Mas é fácil prever que esta degradação definitiva provocará tanto uma tumultuosa reação no mundo tradicionalista, onde Burke é considerado um herói, como uma onda de júbilo no mundo oposto, onde, pelo contrário, é considerado um espantalho.

Sobre esta segunda corrente, pode-se recordar que o comentarista católico “liberal” Michael Sean Winters, no “National Catholic Reporter” de 26 de novembro de 2013, havia pedido a cabeça do Cardeal Burke, enquanto membro da Congregação para os Bispos, pela nefasta influência, a seu ver, que ele exercia sobre as nomeações episcopais nos Estados Unidos.

Com efeti, em 16 de dezembro, o Papa Francisco humilhou Burke eliminando-o como membro da Congregação, entre hosanas do catolicismo “liberal” não só norte-americano.

Certamente, o Papa não o fez para obedecer aos desejos do “National Catholic Reporter”.

Mas, agora, parece justamente estar a ponto de dar início à segunda e mais grave degradação de uma das personalidades mais exemplares que conhece a cúria vaticana.

10 setembro, 2014

Precisamos estar prontos para defender a verdade do matrimônio, mesmo ao custo do martírio.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com – São João foi chamado para anunciar a palavra de Deus sobre a santidade do matrimônio, uma vez que Deus criou homem e mulher desde o início, em vista da oposição da detestável Herodíades, que estava vivendo uma relação adúltera com o Rei Herodes. São João Batista foi indubitavelmente “um bastião de ferro” no anúncio da verdade, confiando que o Senhor nunca o abandonaria, mas faria a verdade prevalecer, mesmo ao custo do martírio.

DSC_5507 (1)O próprio Cristo, quando estava prestes a concluir Seu ministério, anunciou a mesma verdade, quando os fariseus Lhe indagaram sobre a prática do divórcio. Ele esclareceu que Sua resposta à pergunta deles não era nada menos que a exposição da verdade sobre o matrimônio, de acordo com o plano do Pai desde a Criação. Ele declarou:

Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne? Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu.

Quando os fariseus continuaram a questioná-lo, lembrando que até mesmo Moisés havia permitido o divórcio, ele respondeu com firmeza:

É por causa da dureza de vosso coração que Moisés havia tolerado o repúdio das mulheres; mas no começo não foi assim. Eu, porém, vos digo: Quem se divorciar de sua mulher, salvo em caso de fornicação, e se casar com outra, comete adultério. E aquele que desposa uma mulher rejeitada, comete também adultério.

Quando seus próprios discípulos comentaram sobre a dificuldade de viver a verdade sobre o matrimônio, Nosso Senhor assegurou-lhes que a graça divina é dada para viver, mesmo heroicamente, esta verdade que está na base da vida da Igreja e da sociedade, em geral: “Nem todos são capazes de entender isso, mas somente aqueles a quem foi dado.”

Mesmo acorrentado na prisão, São João Batista não perdeu a liberdade de dizer a verdade. Assim, também, não há um de nós que perca a mesma liberdade, mesmo se precisarmos entregar a nossa vida por amor à verdade.

A verdade, que nos foi revelada por Deus na Criação e na Redenção, deve sempre encontrar uma testemunha fiel em nós, pelo bem da nossa própria salvação e pela salvação do mundo. A festa de hoje deixa claro que a nossa missão de cristãos é a de sermos arautos da Palavra de Deus, mesmo em meio a uma cultura hostil, confiantes na Palavra do Senhor: “Eles lutarão contra vós; mas eles não prevalecerão, pois estou com vós, …, para livrar-vos.”

Rezemos, especialmente hoje, pela intercessão de São João Batista, para que, pela sua imitação, possamos ser arautos intransigentes da verdade acerca do matrimônio: a união duradoura, fiel e procriativa de um homem e uma mulher. O amor de Deus e de nosso próximo exige um testemunho fiel de nossa parte. Se o nosso testemunho precisar ser dado contra uma oposição hostil, como frequentemente ocorre em nossos dias, tenhamos confiança que a graça de Deus nunca nos faltará. Ela garante a vitória da verdade.

* * *

Em sua recente visita à Austrália, o Cardeal Burke, Prefeito do Tribunal da Assinatura Apostólica, dedicou praticamente todas as suas intervenções à Família, ao Matrimônio e à Verdade (incluindo o sermão acima, pregado na Festa do Martírio de São João Batista). Você encontrará todos os textos proferidos em sua visita e as imagens na página da Paróquia Pessoal dedicada ao Venerável Rito Romano da Arquidiocese de Melbourne, Beato João Henry Newman.

8 setembro, 2014

Cinco cardeais respondem em um livro as propostas de Kasper sobre a comunhão aos divorciados.

IHU – Não virá a luz antes do dia 07 de outubro, mas já é esperado com expectativa: intitula-se Remaining in the Truth of Christ: Marriage and Communion in the Catholic Church [Permanecendo na Verdade de Cristo: o matrimônio e a Comunhão na Igreja católica], que será publicado em inglês pela prestigiada editora católica Ignatius Press, e constitui uma nova prova da profundidade do debate aberto pelo cardeal Walter Kasper, em fevereiro do ano passado, ao voltar a propor que algumas pessoas divorciadas e que voltaram a se casar no civil possam aproximar-se do sacramento da Comunhão.

A reportagem é publicada por Religión en Libertad, 04-09-2014. A tradução é do Cepat.

Essas propostas estão incorporadas ao documento de trabalho do Sínodo da Família que irá ocorrer no Vaticano em 2014, o qual disparou todos os alarmes e abriu um profundo debate.

O cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que em outubro de 2013 escreveu uma argumentação completa a favor da doutrina da Igreja a partir do Osservatore Romano, continuou essa defesa em um livro-entrevista intitulado La esperanza de la familia.

Do mesmo modo, oito teólogos, sete deles dominicanos, tornaram conhecido o escrito de um grande projeto doutrinal assinalando os perigos e incoerências que implicaria dar a comunhão a pessoas que vivem maritalmente com quem não é realmente seu cônjuge perante a Deus.

E agora chega Remaining in the Truth of Christ: Marriage and Communion in the Catholic Church, escrito pelo agostiniano Robert Dorado, OSA, como “resposta em profundidade”, como explica o editorial de cinco cardeais e outros quatro professores “à proposta do cardeal Kasper em relação ao casamento, o segundo matrimônio civil e a recepção da Eucaristia”.

Cinco cardeais

Os cinco cardeais são, além do citado Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé: Raymond Leo Burke, perfeito da Signatura Apostólica; Walter Brandmüller, presidente emérito do Comitê Pontifício de Ciências Históricas; Carlo Caffarra, arcebispo de Bolonha e um dos teólogos mais próximos a São João Paulo II em questões de moral e família; e Velasio De Paolis, presidente emérito da Prefeitura de Assuntos Econômicos da Santa Sé.

Cinco “pesos pesados” do colégio cardinalício que unem seus estudos aos dos especialistas Robert Dodaro, John Rist, Paul Mankowski e o arcebispo Cyril Vasil, este dois últimos jesuítas.

Além de fundamentar-se no magistério bimilenário da Igreja, o livro recorre à fontes bíblicas e aos primeiros escritos cristãos sobre o matrimônio, e mostra, como antecipa Ignatius Press, “como a permanente fidelidade da Igreja à verdade sobre o matrimônio é o fundamento irrevogável de sua misericórdia em sua pastoral com as pessoas em segundo matrimônio”.

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4 setembro, 2014

Encontro do Cardeal Müller com a FSSPX: confirmado.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com - Rorate está em condições de confirmar que o Cardeal Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, receberá no gabinete de sua Congregação em Roma o Superior-Geral da Fraternidade de São Pio X (FSSPX / SSPX), Dom Bernard Fellay, no final deste mês (ou em outro dia no início do outono, a data é incerta). 

O modo como esse encontro de alto nível se tornou público é incomum e incompreensível como operação de mídia: há um fórum de discussão fundado e dirigido por uma senhora francesa (pseudônimo “Gentiloup”), que frequentemente vai à missa em capelas da FSSPX – é um fórum dedicado àqueles que se chamam “Resistência” (ou seja, aqueles dentro ou fora da FSSPX que são contra todos ou quase todos os contatos com a Santa Sé). No domingo, 31 de agosto de 2014, no priorado da FSSPX de Fabrègues (em Languedoc, sul da França), Pe. Louis-Marie Carlhian anunciou aos fiéis que um encontro assim ocorreria em 21 de setembro, e “Gentiloup” correu para anunciá-lo no Fórum “Resistance“. A data específica posteriormente foi modificada para um dia “incerto”. Dias mais tarde, ela foi postada no Tradinews, um blogue de notícias tradicional francês. Desde então, a notícia se espalhou. 

O que acontecerá? Quem sabe? Talvez seja apenas um primeiro encontro cordial (o primeiro encontro oficial) entre os dois homens desde que Müller foi nomeado Prefeito. Talvez ele encontre conversações adicionais. Talvez mais. Talvez todos os detalhes sejam estabelecidos de antemão. Ou não. Talvez ele eventualmente inclua uma reunião com alguém de nível hierárquico mais elevado. Talvez não. 

Então, talvez essa seja uma grande novidade. Ou talvez não… 

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12 agosto, 2014

Santa Sé pede que autoridades, sobretudo muçulmanas, condenem barbáries no Iraque.

Cidade do Vaticano (RV) – O Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso divulgou uma mensagem nesta terça-feira, 12, sobre a restauração do califado. Eis a íntegra da mensagem:

“O mundo inteiro testemunhou incrédulo ao que agora é chamado de “Restauração do Califado”, este que foi abolido em 29 de outubro de 1923 por Kamal Araturk, fundador da Turquia moderna. A oposição a esta “restauração” pela maioria dos institutos religiosos e políticos muçulmanos não impediu que os jihadistas do “Estado Islâmico” cometessem e continuem a cometer indizíveis atos criminais.

Este Conselho Pontíficio, junto a todos aqueles engajados no diálogo inter-religioso, seguidores de todas as religiões e todos os homens e mulheres de boa vontade, pode somente denunciar e condenar, de forma inequívoca, esses atos que trazem tanta vergonha à humanidade:

- o massacre de pessoas somente pela sua fé e condição religiosa;
– a desprezível prática da decapitação, crucificação e exposição de corpos em lugares públicos;
– a escolha forçada imposta aos Cristãos e Yezidis entre a conversão ao Islã, o pagamento de um tributo (jizya) ou o exílio forçado;
– a expulsão forçada de milhares de pessoas, incluindo crianças, idosos, mulheres grávidas e doentes;
– o rapto de meninas e mulheres pertencentes às comunidades Yezidi e Cristã como despojos de guerra (sabaya);
– a imposição da prática bárbara da infibulação;
– a destruição dos lugares de fé e túmulos cristãos e muçulmanos;
– a ocupação forçada ou dessacralização de igrejas e monastérios;
– a remoção de crucifixos e outros símbolos cristãos assim como aqueles de outras comunidades religiosas;
– a destruição de uma inestimável herança cultural e religiosa cristã;
– violência indiscriminada com o objetivo de aterrorizar as pessoas para que estas entreguem-se ou fujam;

Nenhuma causa e, certamente, nenhuma religião, pode justificar tamanha barbárie. Isso constitui uma ofensa extremamente séria à humanidade e a Deus, como recorda frequentemente o Papa Francisco. Não podemos esquecer, todavia, que cristãos e muçulmanos conviveram em harmonia – é verdade que com altos e baixos – durante séculos, construindo a cultura pacífica da coexistência e civilização das quais têm muito orgulho. Por outro lado, é com base nisto que, em anos recentes, o diálogo entre cristãos e muçulmanos teve continuidade e intensificou-se.

A situação dramática de cristãos, yezidis e outras comunidades religiosas e minorias étnicas no Iraque requer uma posição clara e corajosa dos líderes religiosos, especialmente muçulmanos, assim como daqueles engajados no diálogo inter-religioso e todas as pessoas de boa vontade. Todos devem ser unânimes em condenar inequivocamente estes crimes e em denunciar o uso da religião para justificá-los. Caso contrário, qual credibilidade terão as religiões, seus seguidores e seus líderes? Qual credibilidade tem o diálogo inter-religioso que, pacientemente, buscamos continuar ao longo destes anos?

Líderes religiosos também são exortados a usar sua influência junto às autoridades para colocar fim a estes crimes, para punir os responsáveis e para reestabelecer as regras da lei em todo o país, assegurando o retorno à casa daqueles que foram deslocados. Enquanto recordam a necessidade de uma direção ética das sociedades humanas, estes mesmos líderes religiosos não devem falhar ao demonstrar que o apoio, o financiamento e o armamento do terrorismo é moralmente repreensível.

Dito isto, o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso agradece todos que já levantaram suas vozes para denunciar o terrorismo, especialmente contra aqueles que usam a religião para justificá-lo.

Queremos, assim, unir nossa voz àquela do Papa Francisco: “Possa o Deus da paz despertar em cada um de nós o genuíno desejo para o diálogo e a reconciliação. Violência não se vence com violência. Violência se vence com a paz”.

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4 agosto, 2014

Os estranhos silêncios de um Papa tão loquaz.

Nem uma palavra para as estudantes nigerianas raptadas, nem pela paquistanesa Asia Bibi, condenada à morte pela acusação de ter ofendido o Islã. E também as audiências negadas ao ex presidente do IOR, Gotti Tedeschi, dispensado por ter desejado fazer limpeza.

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com – Roma, 1 de agosto de 2014 – No dia de Sant’ana, padroeira de Caserta, o Papa Francisco visitou esta cidade. Tudo normal? Não. Porque apenas dois dias depois, Jorge Mario Bergoglio voltou a Caserta, em visita privada, para encontrar seu amigo italiano, que conheceu em Buenos Aires, Giovanni Traettino, pastor de uma igreja evangélica local.

Mais ainda, em um primeiro momento, o propósito de Francisco era ir se encontrar somente com este seu amigo, com o bispo de Caserta sendo deixado totalmente às escuras, e se quis convencer o Papa a duplicar o programa, para não descuidar das ovelhas de seu redil.

Em Francisco, a colegialidade de governo é mais invocada que praticada. O estilo é o de um superior geral dos jesuítas que, ao final, decide tudo por si só. Depreende-se isso por seus gestos, por suas palavras e por seus silêncios.

Por exemplo, há semanas que, por detrás dos bastidores, Bergoglio cultiva relações com líderes das poderosas comunidades “evangélicas” dos Estados Unidos. Na casa Santa Marta, passou horas e horas na companhia deles. Convidou-lhes para almoçar. Em um desses momentos de convivência, fez-se imortalizar fazendo um high five, entre grandes risos, com o pastor James Robinson, um dos tele-evangelistas americanos de maior êxito.

Quando, no entanto, ninguém sabia de nada, foi Francisco quem lhes antecipou seu propósito de ir a Caserta encontrar seu colega italiano e a explicar o motivo: “oferecer as desculpas da Igreja Católica pelos danos que lhes ocasionou ao obstaculizar o crescimento de suas comunidades”.

Argentino como é, Bergoglio conhece “ao vivo” a avassaladora expansão das comunidades evangélicas e pentecostais na América Latina, que continua arrebatando da Igreja Católica enorme massa de fiéis. Contudo, decidiu não combater seus líderes, mas, antes, fazer-se amigo deles.

Trata-se da mesma linha que adotou com o mundo muçulmano: oração, invocação da paz, condenações gerais do que se está fazendo de mal, mas muito atento para se manter longe dos casos específicos relacionados a pessoas determinadas, sejam vítimas ou carrascos.

Francisco tampouco abandona esta atitude reservada quando o mundo inteiro se mobiliza em defesa de certas vítimas e todos esperariam dele um pronunciamento.

Não pronunciou uma só palavra quando a jovem mãe sudanesa Meriam estava presa com seus filhinhos, condenada à morte somente por ser cristã, porém, recebeu-lhe uma vez que foi libertada graças às pressões internacionais.

Não disse nada quanto às centenas de estudantes nigerianas raptadas por Boko Haram, apesar da campanha promovida por Michelle Obama com o tema: “Bring back our girls” [Devolvam nossas garotas].

Cala-se sobre o destino de Asis Bibi, a mãe paquistanesa presa há cinco anos, a espera da apelação contra a sentença de morte que recebeu, acusada de ter ofendido o Islã.

Também a campanha pela libertação de Asis Bibi tem o mundo católico comprometido por todos os lados e foi divulgada, no início deste ano, uma dolorosa carta escrita por ela ao Papa — que não a respondeu.

São silêncios que causam muitíssima má impressão uma vez que são praticados por um Papa de quem se conhece sua generosíssima disponibilidade para escrever, telefonar, levar uma ajuda, abrir as portas a qualquer pessoa que toca a campainha, não importando se pobre ou rico, bom ou mau.

Por exemplo, sua demora em se encontrar com as vítimas de abusos sexuais, cometidos por representantes do clero, havia levantado algumas críticas. Porém, no último 7 de julho, remediou essa situação, dedicando toda uma jornada a seis dessas vítimas, trazidas a Roma desde três países europeus.

Nestes mesmos dias, Francisco avançou com a reorganização das finanças vaticanas, com algumas substituições nos cargos máximos e a demissão do inocente presidente do IOR, o alemão Ernst von Freyberg.

Inexplicavelmente, em dezesseis meses de pontificado, este funcionário jamais conseguiu obter uma audiência com o Papa.

Porém, mais inexplicável é a “damnatio” que atingiu seu predecessor, Ettore Gotti Tedeschi, despedido em maio de 2012 justamente por ter levado adiante a obra de limpeza, demitido precisamente pelos maiores culpáveis pela má administração.

Seus pedidos ao Papa Francisco para ser recebido e escutado jamais receberam resposta.

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30 julho, 2014

Cardeal Müller sobre a Misericórdia Divina: “Não se pode ir à igreja pela manhã e à tarde ao bordel, como se fosse possível viver na casa de Deus pela manhã e na casa do diabo à noite”.

“A Igreja não é um sanatório”. Além da misericórdia, existe muito mais.

Por Matteo Matzuzzi – Il Foglio | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: “Santo Tomás de Aquino afirmou que a misericórdia é precisamente o cumprimento da justiça, porque através dela Deus justifica e renova a criação do homem. Portanto, não deverá ser jamais uma desculpa pra suspender ou tornar inválidos os mandamentos e os sacramentos. Caso contrário, estaremos na presença da pesada manipulação da autêntica misericórdia e, portanto, também de frente à vã tentativa de justificar nossa indiferença tanto em relação a Deus como aos homens”. É assim que deve ser entendida a misericórdia, de acordo com o cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito da congregação para a Doutrina da fé. Tendo em vista o próximo sínodo sobre a família, o purpurado alemão expôs sua reflexão em um longo diálogo com Carlos Granados, diretor das edições espanholas Bac, já disponível nas livrarias em um pequeno volume intitulado  “La speranza della família” (Edizioni Ares). Da misericórdia se tem falado em abundância depois do discurso consistorial do cardeal  Walter Kasper, que invocou a misericórdia para os divorciados recasados que desejam se aproximar novamente da eucaristia, alegando que “através da penitência qualquer um pode receber clemência e todo pecado ser absolvido”, cada ferida poderia ser curada no “hospital de campanha”, segundo a entrevista de Francisco na revista  Civiltà Cattolica – “A imagem do hospital de campanha é muito bonita”, disse Müller, mas “não podemos manipular o Papa reduzindo a esta imagem toda a realidade da Igreja. A Igreja não é um sanatório: a Igreja é também a casa do Pai”.

Dom Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Dom Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

É verdade, assegura o guardião da ortodoxia católica, que “Deus perdoa até um pecado grave como o adultério, todavia não permite um outro casamento que colocaria em dúvida um matrimônio sacramental ainda existente, um matrimônio que expressa a fidelidade de Deus. Fazer um similar apelo a uma presumida misericórdia de Deus equivale a um jogo de palavras que não ajuda a esclarecer os termos do problema. Na realidade – acrescenta o chefe do antigo Santo Ofício em uma das frases escapadas da longa antecipação publicada na revista Avvenire – me parece que esse é um modo de não perceber a profundidade da misericórdia divina”. Visões diametralmente opostas, portanto, que levam Müller a dizer-se surpreso com o empenho “da parte de alguns teólogos que possuem o mesmo entendimento sobre a misericórdia como um pretexto para admitir aos sacramentos os divorciados casados novamente segundo a lei civil”. O princípio da misericórdia, observa ainda, “é muito fraco quando se transforma em um único argumento teológico-sacramental válido. Toda a ordem sacramental é precisamente obra da misericórdia divina e não pode ser anulada revogando o mesmo princípio que a rege. Do contrário, uma referência errada à misericórdia contém o grave risco de banalizar a imagem de Deus, segundo a qual Deus não seria livre, mas sim obrigado a perdoar”. É verdade, enfatiza o prefeito, que Deus não se cansa nunca de perdoar e de oferecer a sua misericórdia, o problema é que somos nós que nos cansamos de suplicá-la”. E depois, “além da misericórdia, também a santidade e a justiça pertencem ao mistério de Deus. Se ocultássemos esses atributos divinos e se banalizássemos a realidade do pecado, não haveria sentido algum em implorar para as pessoas a misericórdia de Deus”.

O cardeal Müller toca ainda em outro ponto delicado que é o grande desafio entre doutrina e vida, também no que diz respeito aos pedidos de adaptação do ensinamento católico em assuntos de moral sexual à realidade pastoral. “Trata-se de um mal entendimento, como se a doutrina fosse um sistema teórico reservado a alguns especialistas de teologia. Não, a doutrina, além da palavra de Deus, nos dá a vida e a mais autêntica verdade da vida. Não podemos confessar de modo doutrinal que ‘Cristo é o Senhor’ e depois não cumprir a Sua vontade”. Busca-se, em suma, “transformar a doutrina católica numa espécie de museu das teorias cristãs: uma espécie de reserva que interessaria apenas a alguns especialistas” e “ o severo cristianismo estaria se convertendo em uma nova religião civil, politicamente correta, reduzida a alguns valores tolerados pelo resto da sociedade. De tal modo, se obteria o objetivo inconfessável de alguns: marginalizar a Palavra de Deus para poder dirigir ideologicamente toda a sociedade”. Jesus, explica o purpurado, “não se encarnou para expor algumas simples teorias que tranqüilizam a consciência, deixando tudo, até o que tem fundo lascivo, como está, sem alterar a ordem constituída”. Em suma, não se pode, “ir à igreja pela manhã e à tarde ao bordel, como uma espécie de síntese esquizofrênica entre Deus e o mundo, como se fosse possível viver na casa de Deus pela manhã e na casa do diabo à noite.”
22 maio, 2014

Roma excomunga responsável por movimento “Nós somos a Igreja”.

Por La Vie | Tradução: Fratres in Unum.com – Esse é o epílogo de um longo impasse entre o movimento Wir sind Kirche (“Nós somos a Igreja”) e o Vaticano. Segundo as informações do Tiroler Tageszeitung (em alemão), Martha Heizer, a responsável austríaca pelo movimento leigo muito crítica em relação a Roma, acaba de ser excomungada pelo Papa Francisco. Seu marido, Gert Heizer, foi igualmente atingido pela medida. De acordo com o diário alemão Die Welt (em alemão), a informação é confirmada “por círculos católicos”.

Martha Heizer

O bispo de Innsbruck, Dom Manfred Scheuer, “apresentou pessoalmente o decreto ao casal na quarta-feira, 21 de maio, à noite”, afirmou a rádio ORF Tirol (em alemão). O bispo leu o conteúdo do decreto aos dois envolvidos, que, em seguida, recusaram o documento. “Nós não aceitamos porque questionamos a integridade de todo o processo”, disse Martha Heizer à rádio austríaca.

Nesta manhã de quinta-feira, ela declara, em um comunicado (em alemão), estar “profundamente chocada ao se encontrar na mesma categoria que os padres pedófilos”. Na sua opinião, “esse procedimento mostra como a que ponto a Igreja Católica precisa de renovação”.

Eucaristias privadas

O motivo das duas excomunhões? Missas privadas celebradas sem padre na residência do casal. Há vários anos, Martha Heizer não esconde que ela e seu marido acolhem em sua casa essas celebrações, às quais alguns fiéis participam regularmente. Simulações de missas que constituem “delicta graviora” (delitos graves) aos olhos da Igreja Católica.

“O caso causou polêmica em 2011″, explica o Tiroler Tageszeitung, com a intervenção do bispo local. A Congregação para a Doutrina da Fé, em seguida, anunciou a criação de uma comissão.

Martha Heizer encabeça o movimento reformista desde 7 de abril passado — um movimento fundado na Áustria em 1995, da qual é uma das fundadoras. Aos 67 anos, Martha Heizer é conhecida por suas posições favoráveis à ordenação de mulheres e a “uma renovação da Igreja através dos leigos”, diz o Die Welt. Desde 2012, ela dirige o International Movement We Are Church (IMWAC), “Movimento Internacional Nós Somos Igreja”.

Com esta decisão, Dom Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, mantém-se fiel à sua posição anterior: em 2009, então chefe da diocese de Regensburg, o prelado alemão havia suspendido Paul Winckler, o responsável alemão da Wir sind Kirche .

17 maio, 2014

Michael Amaladoss, teólogo jesuíta, é censurado pelo Vaticano. Jesuítas minimizam fato.

Michael Amaladoss, teólogo jesuíta, é censurado pelo Vaticano

IHU – O Vaticano está investigando um teólogo jesuíta da Índia por supostamente defender crenças heterodoxas, o que levanta novas questões sobre se o Papa Francisco – o primeiro papa jesuíta – de fato está movendo a Igreja Católica para uma nova direção.

A reportagem é de David Gibson, publicada no sítio Religion News Service, 12-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A notícia da ameaça de censura ao padre Michael Amaladoss, cujo livro mais conhecido é Jesus, o profeta do Oriente (Ed. Pensamento), segue o rastro de um contundente aviso sobre ortodoxia e obediência que o guardião doutrinal do Vaticano, o cardeal Gerhard Müller, entregou a um grupo de religiosas que representam a maioria das irmãs norte-americanas.

O discurso de Müller, no dia 30 de abril, às irmãs da Leadership Conference of Women Religious (LCWR) foi visto como um revés inesperado nas negociações em torno de uma investigação vaticana sobre as freiras que começou um ano antes de Francisco ser eleito. A linha dura de Müller também parecia estar fora de sintonia com o novo estilo de abertura e flexibilidade que tem marcado o jovem papado de Francisco.

Fontes da Igreja dizem que Amaladoss, um especialista altamente renomado em diálogo inter-religioso e cristologia, passou a ser vigiado pelo escritório de Müller pela primeira vez há um ano. Elas disseram que Amaladoss acreditava que as suas respostas iniciais às questões sobre os seus pontos de vista sobre a unicidade de Jesus e a Igreja Católica haviam respondido às objeções vaticanas.

Mas em janeiro o escritório de Müller voltou à tona com uma demanda para que Amaladoss escrevesse um artigo endossando publicamente as opiniões vaticanas, ou enfrentaria o silenciamento. Durante décadas, esse nível de grave sanção foi uma característica marcante do tratamento linha-dura dado aos teólogos sob o cardeal Joseph Ratzinger, que mais tarde se tornaria o Papa Bento XVI.

No início de abril, Amaladoss se encontrou com Müller e outras autoridades da Congregação para a Doutrina da Fé ” e concordou em refazer (…) essas questões à luz do diálogo”, disse o padre Edward Mudavassery, que supervisiona os jesuítas na Índia.

“Eu entendo que foi um encontro aberto e honesto, na tentativa de esclarecer questões objecionáveis”, disse Mudavassery. “Todos sabemos que o Papa Francisco é um homem de diálogo. Parece-me que a Congregação para a Doutrina da Fé também pode seguir esse caminho para resolver as diferenças, porque esses homens sob escrutínio são genuínos e leais à Igreja e aos ensinamentos de Jesus”.

Francisco saberia da investigação, mas não parece muito preocupado que ela irá acabar na punição de Amaladoss, de acordo com jesuítas familiarizados com o caso.

Francisco conhece Amaladoss por causa da sua longa e distinta carreira como jesuíta, tanto como teólogo e autor de centenas de livros e artigos, quanto também como antigo assistente do Padre Geral da Companhia de Jesus. Nessa função, ele viveu vários anos em Roma, na Cúria Geral dos jesuítas.

Amaladoss está viajando ao exterior, disse Mudavassery, e o teólogo não respondeu aos e-mails enviados a ele no Instituto de Diálogo com as Culturas e as Religiões que ele dirige em Chennai.

Mudavassery disse que não sabia de quaisquer restrições impostas a Amaladoss. Mas Amaladoss cancelou todos os compromissos de conferências e textos, enquanto tenta lidar com as preocupações do Vaticano. Fontes jesuítas disseram que Amaladoss disse à sua editora nos EUA, Orbis Books, que interrompessem os trabalhos de uma coleção planejada dos seus escritos. Os responsáveis da Orbis não quiseram comentar o status de qualquer projeto com Amaladoss.

O padre também cancelou uma conferência no Union Theological Seminary, em Nova York, marcada para o dia 8 de abril, intitulada “A teologia na Índia é realmente diferente da teologia no Ocidente?”. Uma nota no site do seminário diz: “A Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano proibiu o Dr. Amaladoss de falar e publicar até que um processo de exame do seu pensamento se conclua com sucesso” (ver reprodução abaixo).

“Amaladoss nos pediu para não comentar sobre as razões específicas desse cancelamento, e nós respeitamos a sua vontade”, acrescentou o porta-voz do seminário, Jeff Bridges.

As investigações da Congregação para a Doutrina da Fé são conduzidas em segredo, e os teólogos visados muitas vezes não sabem que estão sob escrutínio até que a investigação esteja em andamento. Eles geralmente também não sabem quem apresenta as queixas ou quem na Congregação está conduzindo a investigação.

Há muito os teólogos se queixam de que tal sigilo e as oportunidades limitadas que eles têm para responder pessoalmente às acusações têm levado a um sistema coercitivo que reflete negativamente sobre a hierarquia católica.

Durante o quarto de século que Ratzinger dirigiu o escritório sob o Papa João Paulo II, os jesuítas frequentemente eram alvos das sondagens da Congregação para a Doutrina da Fé, em parte porque os jesuítas têm um foco missionário e procuram traduzir as crenças tradicionais para os crentes modernos e para outras culturas religiosas.

O processo de engajamento com as culturas está particularmente avançado na Ásia, onde o cristianismo é uma minoria e onde os jesuítas estabeleceram um porto seguro para o catolicismo. Mas isso também significa que os teólogos que lá trabalham costumam usar formulações não tradicionais para tentar comunicar a fé aos públicos hindus ou budistas que têm pouca compreensão dos pontos de vista ocidentais sobre Deus e Jesus.

O próprio mestre de Amaladoss, o jesuíta belga Jacques Dupuis, enfrentou uma longa e cansativa investigação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé sobre os seus pontos de vista sobre o pluralismo religioso. Seus colegas dizem que o estresse provocado pela sondagem, liderada por Ratzinger, contribuiu para a morte de Dupuis em 2004.

* * *

Jesuítas indianos minimizam censura vaticana a Michael Amaladoss

IHU – O provincial jesuíta do sul da Ásia, o padre Edward Mudavassery, minimizou os relatos generalizados de que o Vaticano lançou uma investigação sobre os escritos do padre Michael Amaladoss (foto), um proeminente teólogo jesuíta indiano.

A reportagem é de Christopher Joseph, publicada pela agência UCA News, 14-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Até onde eu sei, não há nenhuma investigação, e ele não foi impedido de escrever e de lecionar”, disse o padre Mudavassery nessa terça-feira.

Ele acrescentou que a Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano convidou o Pe. Amaladoss a Roma na primeira semana de abril para um “diálogo” sobre evangelização, mas insistiu que as conversas com as autoridades da Congregação ocorreram de “forma amigável”.

O Pe. Amaladoss, 77 anos, conhecido mundialmente pelos seus ensinamentos sobre cultura e diálogo inter-religioso na Ásia, estaria atualmente na Europa, em uma visita pessoal, e não pôde ser contatado para mais detalhes.

O teólogo, que pertence à província de Madurai dos jesuítas, trabalhou em Roma de 1983 a 1995 como assistente-geral do superior jesuíta da época, Peter-Hans Kolvenbach, com responsabilidades especiais para as questões de evangelização, inculturação e diálogo inter-religioso.

Uma importante autoridade da província de Madurai, que pediu para não ser identificada, confirmou ao sítio UCANews.com que a correspondência entre a Congregação para a Doutrina da Fé e o Pe. Amaladoss “tem ocorrido há algum tempo, ao menos há dois a três anos”.

As questões que estão sendo discutidas não se referem a “nenhum livro dele em particular, mas sim a como proclamar Jesus a um público asiático”, disse a autoridade.

Desde o Concílio Vaticano II, os teólogos asiáticos – especialmente indianos – têm trabalhado para interpretar a Bíblia e a liturgia nos termos das filosofias e das culturas orientais, a fim de ajudar os asiáticos a compreendê-las.

Não é desconhecido para alguns desses teólogos o fato de estarem sob investigação vaticana, seguida de reprimendas e até mesmo de excomunhão por expressarem opiniões heterodoxas.

Dentre eles, o mais proeminente foi o teólogo Tissa Balasuriya, do Sri Lanka, que foi excomungado em 1997, quando o cardeal Joseph Ratzinger, que mais tarde se tornou o Papa Bento XVI, chefiava a Congregação para a Doutrina da Fé. A excomunhão foi levantada um ano mais tarde, depois que Balasuriya assinou uma profissão de fé. Ele morreu no ano passado, aos 89 anos.