Posts tagged ‘Summorum Pontificum’

23 fevereiro, 2015

Francisco diz que a “Reforma da Reforma” está “equivocada”. Seminaristas “tradicionalistas” criticados, Papa diz que o “desequilíbrio” deles se manifesta na celebração da liturgia.

Por Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com – Grande parte da atenção da mídia ao encontro anual do Papa Francisco com o clero de Roma (realizado ontem, 19 de fevereiro) se concentrou em suas observações sobre os padres casados. De igual e possivelmente mais importância imediata foram suas observações sobre a liturgia, que acabam de ser publicadas pela agência de notícias ZENIT.

O Papa não poderia ter sido mais claro em sua visão da “Reforma da Reforma”. Ele fala da necessidade de uma ars celebrandi mais respeitosa, mas qualquer um que tenha realmente acompanhado os debates litúrgicos dos últimos 20 anos saberá que isso não é a mesma coisa que a “Reforma da Reforma”. Esperamos, sinceramente, que os “costumeiramente suspeitos” na blogosfera e nas redes sociais não ignorem essa conversa completamente nem tentem minimizar esse assunto criando explicações complexas de como o Papa “realmente queria dizer” algo diferente, ou que tudo isso não passa de boataria, uma invenção, ou seja lá o que for. Qualquer coisa que lhes permita manter as cabeças na areia!

O Papa critica a “Reforma da Reforma” de maneira notável e abertamente, mas ele não diz nada negativo a respeito do próprio Summorum Pontificum em si, muito pelo contrário. Todavia, a sua aparente condenação e palavras desdenhosas sobre os seminaristas diocesanos “tradicionalistas” não podem e não devem ser minimizadas como simplesmente fazendo referência ao comportamento imoral de alguns deles – comportamento que também pode ser encontrado, empiricamente com muito mais frequência, entre seminaristas não tradicionalistas. Ao designar especificamente as “liturgias” (Reforma da Reforma”?) celebradas pelos seminaristas “tradicionalistas”, uma vez ordenados, como a manifestação de seus “desequilíbrios” “morais e psicológicos”, fica claro que o alvo do Papa são os pontos de vista semelhantes aos tradicionais a respeito da sagrada liturgia de muitos jovens padres e seminaristas. Ao mencionar que a Congregação dos Bispos está conduzindo intervenções a este respeito, a mensagem enviada é clara e em bom tom: bispos, aceitem seminaristas com tendências “tradicionalistas” por sua conta e risco. Ao declarar abertamente que os problemas morais e psicológicos “acontecem com frequência” em “ambientes” tradicionalistas, aparentemente desprovido de misericórdia, doravante uma grande tarja poderá ser utilizada para denegrir esses jovens.

Reproduzimos abaixo a passagem relevante do relatório da Zenit, com os nossos destaques:

No entanto, alguns trechos do discurso do Papa foram liberados graças em parte a vários padres que falaram com a imprensa após a reunião. Alguns até mesmo conseguiram gravar as palavras do Papa. Além de várias frases relatadas por algumas agências de notícias italianas nesta manhã, o Pontífice de 78 anos abordou o tema, por exemplo, do “rito tradicional” com o qual Bento XVI concedeu a celebração da Missa. Através do Motu Propio Summorum Pontificum, publicado em 2007, o atual Papa Emérito permitiu a possibilidade de celebrar a Missa segundo os livros litúrgicos editados por João XXIII, em 1962, não obstante a forma “ordinária” de celebração na Igreja Católica continuar sempre aquela estabelecida por Paulo VI em 1970.

O Papa Francisco explicou que esse gesto por parte de seu antecessor, “um homem de comunhão”, foi concebido para oferecer “uma mão corajosa aos lefebvrianos e tradicionalistas”, bem como àqueles que desejavam celebrar a Missa de acordo com os ritos antigos. A chamada Missa “tridentina” – disse o Papa – é uma “forma extraordinária do Rito Romano”, aprovado após o Concílio Vaticano II. Assim, ele não é considerado um rito distinto, mas sim uma “forma diferente do mesmo rito”. (sic)

Entretanto, o Papa observou que há padres e bispos que falam de uma “reforma da reforma.” Alguns deles são “santos” e falam “de boa fé.” Mas isso “é um equívoco”, disse o Santo Padre. Então, ele mencionou o caso de alguns bispos que aceitaram seminaristas “tradicionalistas” que foram expulsos de outras dioceses, sem averiguar informações sobre eles, porque “eles se apresentavam muito bem, eram muito devotos.” Então, eles foram ordenados; porém, mais tarde ficou comprovado que eles tinham “problemas psicológicos e morais”. 

Esse não é o costume, mas “muitas vezes isso acontece” nesses ambientes, destacou o Papa, e ordenar esse tipo de seminaristas é como “hipotecar a Igreja.” O problema subjacente é que alguns bispos às vezes ficam sobrecarregados com “a necessidade de novos sacerdotes na diocese.” Portanto, não é feito um discernimento suficiente entre os candidatos, entre os quais alguns podem esconder certos “desequilíbrios” que então se manifestam nas liturgias. Na verdade, a Congregação dos Bispos – continuou o pontífice – teve que intervir com três bispos em três desses casos, embora eles não tenham ocorrido na Itália.

Durante o inicio de seu discurso, Francisco falou sobre homilética e a ars celebrandi, encorajando os padres a não cair na tentação de querer ser uma “estrela” no púlpito, talvez até mesmo falando de uma “maneira sofisticada” ou “com excesso de gestos.”

Todavia, os padres também não deveriam ser “chatos” ao ponto das pessoas “darem uma saidinha para fumar um cigarro lá fora” durante a homilia.

(Fonte: Pope Holds Two Hour Meeting with Roman Clergy)

8 novembro, 2014

Foto da semana.

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Roma, 1º de novembro de 2014, Peregrinação Summorum Pontificum. Um pequeno coroinha beija o anel de Sua Eminência Reverendíssima Raymond Leo Cardeal Burke.

Obrigado, Eminência, por seu corajoso trabalho em defesa da Fé Católica — assine um manifesto de agradecimento pelo trabalho do Cardeal Burke clicando aqui.

27 outubro, 2014

“Estarei espiritualmente com vocês”.

São as palavras do Papa emérito Bento XVI aos participantes da Peregrinação Summorum Pontificum, concluída ontem, em Roma, festa de Cristo Rei no calendário tradicional. Convidado para estar presente na Santa Missa Pontifical celebrada na Basílica de São Pedro pelo eminentíssimo Cardeal Raymond Leo Burke, Bento XVI respondeu aos organizadores por carta:

Benedictus XVI

Papa emeritus

Città del Vaticano

10-10-2014

Ilustríssimo Delegado-General,

Finalmente encontrei um tempo para agradecer-lhe pela sua carta do último dia 21 de agosto. Estou muito contente que o Usus antiquus agora viva em plena paz dentro da Igreja, também entre os jovens, apoiado e celebrado por grandes cardeais.

Estarei espiritualmente com vocês. Minha condição de “monge enclausurado” não me permite uma presença que também é exterior. Deixo o meu claustro somente em casos particulares, [quando] pessoalmente convidado pelo Papa.

Em comunhão de oração e amizade.

No Senhor,

Bento XVI

Não deixa de ser significativa, como que um aparente ato de reconhecimento em quase desagravo, a menção a “grandes cardeais” que hoje celebram a Missa Tradicional. Desgraçacadamente, eles têm sido as maiores vítimas do pontificado bergogliano. Burke, que nas últimas semanas despontou como a grande liderança da “ala conservadora”, realmente, parece dar adeus a Roma, e recebeu também o apoio do ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal William Levada, que declarou ter ido à Missa em São Pedro “em amizade ao Cardeal Burke”.

21 julho, 2014

Cardeal Cañizares: Summorum Pontificum estabelece igualdade de condições entre as formas do Rito Romano.

Autoridade Litúrgica Suprema, em texto inovador, diz: Summorum Pontificum prevê condição de igualdade para ambas as Formas

– As condições para a participação na Missa Tradicional são as mesmas da Missa nova

– e muito mais 

Por Rorate-Caeli | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com: Em 25 de julho de 2013, festa do Santo Padroeiro da Espanha, São Tiago o Grande, o Cardeal Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, assinou o prefácio de uma obra notável, a tese de doutorado apresentada por seu confrade espanhol, o Padre Alberto Soria Jiménez, O.S.B., dedicada a uma profunda consideração canônica da natureza jurídica do motu proprio Summorum Pontificum, suas disposições relativas às formas e usos do Rito Romano, e a história que levou a ele.

Santa Cruz del Valle de los Caidos

Santa Cruz del Valle de los Caidos

O padre Soria é um monge da abadia de Santa Cruz do Vale dos Caídos (Santa Cruz del Valle de los Caídos), uma fundação de Solesmes perto da capital espanhola, e sua tese foi defendida e aprovada na Faculdade de Direito Canônico da Universidade de San Dámaso, a casa principal para a formação de sacerdotes e teólogos que pertence à Arquidiocese de Madri, em 29 de maio de 2013. A tese foi publicada há poucos dias pela editora espanhola Ediciones Cristiandad sob o título “Los principios de interpretación del motu proprio Summorum Pontificum”, razão pela qual só agora o texto do Cardeal se tornou disponível.

O prefácio do Cardeal Cañizares faz uma longa apresentação do livro e obviamente inclui muitas referências à própria obra – mas o que o torna particularmente especial é a profundidade da avaliação do Cardeal sobre o motu proprio e sua defesa (que sempre foi defendida por nós que apreciamos profundamente a natureza de Summorum Pontificum) de que aquilo que o motu proprio estabeleceu em lei não foi nada menos do que a igualdade jurídica de ambas as formas do Rito Romano. Trata-se de um texto inovador, e abaixo traduzimos os trechos mais importantes do original em espanhol.

* * *

PREFÁCIO DO CARDEAL CAÑIZARES À TESE DE DOUTORADO DO PADRE ALBERTO SORIA JIMÉNEZ, O.S.B.

Cardeal Cañizares Llovera

Cardeal Cañizares Llovera

Estamos diante de um trabalho que aborda, em termos científicos, um tema que nos últimos anos tem sido objeto de controvérsias acirradas. Todavia, desde o início duas características de sua obra devem ser levadas em consideração: seu caráter acadêmico e a pertença do autor a uma comunidade fiel aos grandes princípios da liturgia, mas na qual a forma extraordinária do Rito Romano não é celebrada. Isso lhe permitiu observar a situação de fora”, tornando possível a grande objetividade refletida em sua pesquisa.

A concepção, claramente presente tanto no motu proprio como nos documentos relacionados, de que a liturgia herdada é uma riqueza a ser preservada deve ser entendida no espírito do movimento litúrgico na linha de Romano Guardini, a qual Bento XVI deve tanto de sua relação pessoal com a liturgia desde sua juventude. A história detalhada e documentada do processo, desde seu início nos anos 70 até os dias de hoje, que o autor dessa obra nos apresenta, mostra como essa legislação não foi um resultado momentâneo de pressão, nem uma reflexão da opinião pessoal e isolada do Papa, mas que outras pessoas haviam desejado por muito tempo uma solução semelhante. Esses critérios do jovem padre Joseph Ratzinger foram consolidados e purificados ao longo dos anos, e foram assumidos por João Paulo II, que havia considerado a possibilidade de oferecer uma legislação apropriada.

O clima entre os cardeais designados para refletir sobre esse tema era favorável [Nota do Rorate: referência à comissão de 1986 – cf a nossa postagem de 2007 sobre a revelação feita pelo Cardeal Castrillón Hoyos]. A comissão cardinalícia constituída por João Paulo II, na qual a influência do Cardeal Ratzinger era inegável, havia proposto, eliminar a impressão de que cada missal é o produto temporal de um época histórica, e havia afirmado que, as normas litúrgicas, não sendo verdadeira e propriamente ‘leis,’ não podem ser ab-rogadas, mas sub-rogadas: as precedentes nas subsequentes. A demonstração muito relevante, e que está presente nesta investigação, é que a atitude de Bento XVI não é tanto uma novidade ou mudança de direção, mas sim uma realização do que João Paulo II já havia empreendido — com iniciativas, como, por exemplo, a consulta da comissão cardinalícia, o motu proprio Ecclesia Dei e a criação da Comissão Pontifícia de mesmo nome, a missa do Cardeal Castrillón Hoyos em Santa Maria Maggiore, em 2003, ou as declarações do papa à Congregação para o Culto Divino naquele mesmo ano.

A história do processo revela que, desde o início, o desejo de preservar a forma tradicional da missa não se limitava aos integristas, mas que pessoas do mundo da cultura ou escritores, como, por exemplo, Agatha Christie e Jorge Luis Borges, assinaram uma carta solicitando a sua preservação, e que São Josemaría Escrivá fez uso de um indulto pessoal concedido espontaneamente pelo próprio Arcebispo Bugnini. Deve-se observar também a preocupação de Bento XVI em enfatizar que a Igreja não descarta o seu passado: ao declarar que o Missal de 1962, nunca foi juridicamente ab-rogado, ele tornou manifesta a coerência que a Igreja deseja manter. De fato, ela não pode se permitir negligenciar, esquecer ou renunciar aos tesouros e à rica herança da tradição do Rito Romano, porque a herança histórica da liturgia da Igreja não pode ser abandonada, nem tudo pode ser estabelecido ex novo sem a amputação das partes fundamentais da mesma Igreja.

Outro aspecto importante resulta da leitura da narrativa histórica em sua obra: os avanços que ocorreram ao longo desses anos em relação à sensibilidade pastoral por esses fiéis, a maior atenção às suas pessoas e a seu bem-estar espiritual. Na verdade, no princípio, a legislação era [nota do Rorate: Indulto Agatha Christie, indultos pessoais, Quattuor abhinc annos, Ecclesia Dei adflicta] muito limitada, levava em conta somente o mundo eclesiástico e praticamente ignorava os fiéis leigos, considerando que a primeira preocupação era disciplinar: controlar a possível desobediência à legislação recém-promulgada. Com o passar do tempo, a situação assumiu um aspecto mais pastoral, a fim de atender às necessidades desses fiéis, o que acaba se refletindo na forte mudança de tom da terminologia que está sendo usada: é assim que o problema dos padres e fiéis que permaneceram ligados ao chamado rito tridentino não é mais mencionado, mas sim a riqueza que a sua preservação representa.

Dessa forma, o que se criou foi uma situação análoga àquela que havia sido normal por tantos séculos, porque devemos recordar que São Pio V não havia proibido o uso das tradições litúrgicas que tivessem pelo menos 200 anos de idade. Muitas ordens religiosas e dioceses, portanto, preservaram o seu rito próprio; como Arcebispo de Toledo, pude viver essa realidade com o Rito Moçárabe. O motu proprio modificou a situação recente, ao deixar claro que a celebração da forma extraordinária deveria ser normal, eliminando toda restrição [todo condicionamiento] relativa ao número de fiéis interessados, e deixando de fixar outras condições para a participação na referida celebração além daquelas normalmente exigidas para qualquer celebração da missa, o que permitiu acesso amplo a essa herança que, enquanto por lei constitui um patrimônio espiritual de todos os fiéis, é, na verdade, ignorada por grande parte deles. Na verdade, as restrições atuais à celebração na forma extraordinária não diferem daquelas em vigor para qualquer outra celebração, seja qual for o rito. Aqueles que desejam ver, na distinção feita pelo motu proprio de cum e sine populo, uma restrição à forma extraordinária, esquecem que, com o missal promulgado por Paulo VI, a celebração cum populo sem autorização e anuência do pároco ou reitor da igreja também não é permitida.

Por outro lado, a possibilidade, expressamente contemplada no motu proprio, de que na celebração sine populo a presença espontânea de fiéis seja admitida sem obstáculos (uma expressão que havia causado mais do que uma observação irônica por parte dos críticos do documento) simplesmente possibilitou o fim das circunstâncias estranhas pelas quais, embora celebrada por um sacerdote em situação canônica completamente regular, esta missa permanecia fechada à participação dos fiéis simplesmente por causa da forma ritual utilizada, uma forma que por outro lado era plenamente reconhecida pela Igreja. A situação dos anos 70 — em que os sacerdotes que não podiam adotar o novo missal por motivos de saúde, idade, etc, foram condenados a nunca mais celebrar a Eucaristia com a comunidade, por menor que fosse — também foi evitada, o que seria visto, de acordo com a sensibilidade atual, como discriminatória. Por outro lado, a restrição deliberada da missa cum populo, limitando na prática a celebração da forma extraordinária sine populo, seria uma contradição às palavras e intenções da constituição conciliar: Sempre que os ritos comportam, segundo a natureza particular de cada um, uma celebração comunitária, caracterizada pela presença e activa participação dos fiéis, inculque-se que esta deve preferir-se, na medida do possível, à celebração individual e como que privada” (Sacrosanctum Concilium, 27).

É por essa razão que absolutamente não tem cabimento declarar que as prescrições do Summorum Pontificum deveriam ser consideradas como um ataque contra o concílio; uma afirmação desse tipo demonstra uma grande ignorância do próprio concílio, porque o fato de oferecer a todos os fiéis a chance de conhecer e apreciar a multiplicidade de tesouros da liturgia da Igreja é precisamente o que esta grande assembleia desejava ao declarar: “O sagrado Concílio, guarda fiel da tradição, declara que a santa mãe Igreja considera iguais em direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos, quer que se mantenham e sejam por todos os meios promovidos” (Sacrosanctum Concilium, 4)

Outro aspecto para o qual essa obra que apresentamos chama a atenção, e que é imperativo que nunca se perca de vista, é a repercussão negativa que esses debates intra-eclesiais podem ter no campo do ecumenismo. Dentre a controvérsia, sempre se esquece que as críticas feitas contra o rito recebido da Tradição Romana também se aplicam a outras tradições, antes de tudo aos ortodoxos: quase todos os aspectos litúrgicos que aqueles que tem se oposto à preservação do missal antigo atacam fortemente são precisamente os aspectos que tínhamos em comum com a Tradição Oriental! Um sinal que confirma isso, por outro lado, são as expressões entusiasticamente positivas que chegaram do mundo ortodoxo com a publicação do motu proprio. Dessa maneira, esse documento torna-se um aspecto chave para a credibilidade do ecumenismo porque, de acordo com a expressão do presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, Cardeal Kurt Koch, na verdade, ele promove, se assim o pudermos chamar, um ‘ecumenismo intra-católico’. Consequentemente, poderíamos dizer que a premissa ut unum sint pressupõe o ut unum maneant, de modo que, como o referido Cardeal escreve, se o ecumenismo intra-católico falhou, a controvérsia católica sobre a liturgia também se estenderia ao ecumenismo.

Bento XVI demonstrou, com a sua legislação, o seu amor paternal e compreensão por aqueles que são especialmente ligados à tradição litúrgica romana e que se arriscaram a se tornar, de maneira permanente, eclesialmente marginalizados; é dessa maneira que, falando sobre o assunto, ele recordou claramente que, ninguém é demais na Igreja, demonstrando a sensibilidade que antecipou a preocupação do atual Papa Francisco pelas periferias existenciais. Todos esses fatos indubitavelmente apresentam um forte sinal para os irmãos separados.

Mas o motu proprio também produziu um fenômeno que para muitos é assustador e constitui um sinal verdadeiro dos tempos: o interesse que a forma extraordinária do Rito Romano suscita, em particular dentre os jovens que nunca a experimentaram como uma forma ordinária e que manifestam sede por linguagens que não são mais as mesmas e que nos impelem em direção a horizontes novos e, para muitos pastores, imprevistos. A abertura da riqueza litúrgica da Igreja a todos os fiéis tornou possível a descoberta de todos os tesouros deste patrimônio por aqueles que ainda os ignoravam, os quais sentem-se comovidos com essa forma litúrgica, mais do que nunca, numerosas vocações sacerdotais e religiosas no mundo todo, dispostas a dar suas vidas para o serviço da evangelização. Isso se refletiu de maneira concreta na peregrinação a Roma em novembro do ano passado [2012], em gratidão pelos cinco anos do motu proprio, que reuniu peregrinos de todo o mundo sob o sugestivo motto “Una cum Papa nostro” e que era, devido a sua grande exibição, sua grande participação, e, acima de tudo, devido ao espírito que inspirou seus participantes, uma confirmação mensurável de como esta legislação estava correta, o resultado de tantas décadas de amadurecimento.

A impressão mais forte deixada após a leitura desta obra é que a estrutura jurídica fundada pelo motu proprio não está fadada a ser uma resposta a um problema delimitado no tempo, mas está respaldada em princípios teológicos e litúrgicos permanentes, criando, assim, uma situação jurídica sólida e bem definida que torna a questão independente tanto das correntes de opinião como das decisões arbitrárias. Dessa maneira, enquanto para uns e outros o problema e o debate durante anos girou acerca de uma decisão sobre uma matéria que, no final das contas, era de natureza histórica, Bento XVI, acima do debate teórico, tentou enfatizar a necessidade de alcançar coerência teológica e, acima de tudo, obter um importante resultado pastoral.

Na verdade, se a partir de ambas as formas de celebração surgir claramente a unidade da fé e a singularidade do Mistério, isso somente pode ser motivo de profunda alegria e gratidão. Portanto, quanto melhor for vivida a liturgia, cada um em sua própria forma, com abertura de coração que supera exclusões e preconceitos, então será possível viver aquela unidade na fé, liberdade nos ritos, caridade em tudo.

Confiamos à Mãe de Deus o tempo da graça em que estamos vivendo. Ela irá nos conduzir ao Filho, em quem podemos confiar. Será Ele que irá nos conduzir, inclusive em tempos turbulentos, para que possamos redescobrir o caminho da fé e assim iluminar cada vez mais claramente a alegria e o entusiasmo renovado do encontro com Cristo. O presente livro do Pe. Alberto Soria, O.S.B., sem dúvida contribuirá para essa finalidade, uma grande obra de pesquisa que prestará um importante serviço à reconciliação litúrgica e, consequentemente, à nova evangelização, e para uma unidade que cresce a cada dia, real e eficaz, no seio da Igreja. Mais uma vez meus parabéns e minha grande gratidão ao autor por esta obra magnífica, um grande serviço que, ademais, é tão apropriado a um filho de São Bento.

Antonio Cañizares Llovera

Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos

Roma, 25 de julho de 2013

São Tiago Apóstolo, Padroeiro da Espanha

7 julho, 2014

Summorum Pontificum: 7 anos.


Ela ressurgirá,  eu te digo… a Missa ressurgirá, como respondo a muitos que vêm a mim para se lamentar (e eles o fazem, às vezes, chorando); e àquele que me pergunta como eu posso ter tanta certeza disso, eu respondo (como ‘poeta’, se prefere) trazendo-o à beira da janela e mostrando o Sol… Logo virá o entardecer e lá, na igreja de São Domingos, os frades cantarão nas Vésperas:  Iam sol recedit igneus; mas, em poucas horas, estes mesmos dominicanos, meus amigos, cantarão, na Prima: Iam lucis orto sidere – e assim todos os dias.

O Sol, quero dizer, levantar-se-á novamente, brilhará novamente depois da noite, para iluminar a terra desde o céu, por que… porque ele é o Sol, e Deus o estabeleceu para nossa vida e conforto. Então, acrescento eu, assim é e será com a Missa – a Missa que é “nossa”, católica, de sempre e de todos: nosso Sol espiritual, tão bela, tão santa e tão santificante — contra as desilusões dos morcegos, tirados de seu esconderijo pela Reforma [litúrgica], que acreditavam que a sua hora, a hora das trevas, não teria fim. E recordo: nesta minha grande janela nós fomos muitos, nos anos passados, assistindo um total eclipse solar. Eu me lembro, e eu quase posso sentir novamente, o sentimento de frieza, de tristeza, e quase de desilusão ao assistir, em sentir o ar escuro e gelado, pouco a pouco. Recordo o silêncio que se fez na cidade, durante a escuridão… enquanto os pássaros desapareciam, amedrontados, e os repugnantes morcegos apareciam, voando no céu.

Àquele que dizia, quando o Sol estava inteiramente coberto: — “E se não amanhecer nunca mais?” — um pensamento a quem ninguém respondia, quase como não entendendo o gracejo nisso… O Sol apareceu novamente, de fato, o Sol ressurgiu, depois de uma curta noite, tão belo como antes, e como se vê, mais do que antes, enquanto o ar é recheado novamente por pássaros e os morcegos voltam ao seus esconderijos.

Como antes, luminoso e belo, e ainda sendo o mesmo, o Sol parece mais maravilhoso do que era antes, como na […] lição do Evangelho sobre a moeda perdida e achada. Como era antes, e mais do que era antes: assim será com a missa, assim a missa aparecerá a nossos olhos, culpados por não tê-la estimado como merecia, antes do eclipse; nossos corações culpados por não tê-la amado o bastante.

(Tito Casini, La Tunica Stracciata – Nel fumo di Satana. Verso l’ultimo scontro)

Republicado por ocasião do aniversário do Motu Proprio Summorum Pontificum

* * *

O blog permanecerá em recesso até o final de julho.

15 junho, 2014

Foto da semana.

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Peregrinação Notre-Dame de la Chrétienté de 2014: 10 mil peregrinos partem de Paris a Chartres. Para se reconciliar com Deus, fazer penitência e mudar de vida, não há lugar definido — pode ser no meio da rua mesmo.

3 junho, 2014

Retornar ao Sacrifício para salvar o Sacramento.

Editorial de “Radicati nella fede” * – Anno VII n° 6 – Junho 2014

Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com

Junho é o mês de Corpus Christi. É o mês da grande festa inteiramente dedicada a Jesus Eucarístico. Também nós, como em todas as paróquias, estamos nos preparando para celebrá-la no dia 22 de junho, visto que na Itália a quinta-feira da solenidade não é mais considerada como feriado. Mas vamos comemorar sobretudo com a procissão solene após a Missa Solene cantada, levando para as ruas da cidade a Hóstia Santa.

A preparação da procissão de Corpus Christi em uma foto do início de 1900.

A preparação da procissão de Corpus Christi em uma foto do início de 1900.

Esta deveria ser a procissão mais importante do ano, porque nela não se porta uma simples estátua venerada da Bem Aventurada Virgem Maria ou de um santo, não se porta uma relíquia, mas o próprio Jesus, vivo e verdadeiro no Santíssimo Sacramento, vivo e verdadeiro com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Esta procissão deveria ser solene, repleta de adoração e de sacro respeito pelo Senhor que passa.

Certamente muitos sentirão aflorar as considerações nostálgicas: agora na nossa terra já não é mais assim, não se consegue mais fazer o Corpus Christi dos tempos passados; um tempo em que todas as ruas eram decoradas, as paredes do percurso todas cobertas pelas mais belas tapeçarias; e vocês se lembram dos altares das paradas? Era uma corrida para fazê-los cada um mais lindo que o outro! E pessoas, como se ajoelhavam… !

Sim, não é mais assim. Hoje já está bom, aquele Corpus Christi é a procissão do pequeno resto de crentes que ainda adoram a Santíssima Eucaristia. Para a procissão de Nossa Senhora talvez haja esperança de aparecer um cristão a mais, mas para o Corpus Christi…!

Estas são todas considerações realistas, mas cometeríamos um erro se parássemos melancolicamente apenas nelas, sem ir mais fundo.

Por que se perdeu o espírito de adoração? Por que as almas de tantos batizados não reconhecem mais o Senhor que passa na Hóstia Consagrada?

Muitos entre os  “conservadores” dirão que tudo foi causado por alguns fatores: o deslocamento dos tabernáculos nas igrejas, os altares que foram relegados para um canto qualquer; por não se fazer mais genuflexão; por se receber a comunhão na mão e em pé; a redução e senão o próprio desaparecimento do jejum eucarístico, etc…

Tudo isso é verdade, mas não chegamos ainda na causa mais profunda, real.

Tudo começou a partir de uma reforma desastrosa do rito da Missa que se seguiu ao Concílio Vaticano II.

Sob o pretexto de traduzir a missa para a língua falada, em 1969 ela foi mudada radicalmente, praticamente refeita, expurgada de todas as referências explícitas ao Sacrifício propiciatório, e isso para agradar aos protestantes.

Na verdade, a missa foi se tornando cada vez mais uma santa ceia, feita praticamente só para que padres e fiéis se alimentassem nas “duas mesas”: a da Palavra e a do Corpo de Cristo. Em uma palavra,  a missa foi feita pra se fazer a Comunhão .

Desapareceu, assim, no cotidiano do povo cristão, o fato central e crucial: o Sacrifício de Cristo na Cruz. Foi por isso que Jesus instituiu a Eucaristia, para que seja perpetuado o seu oferecimento na Cruz, aquele único oferecimento capaz de apagar os pecados e aplacar a justiça divina. Todos os dias, nas igrejas do mundo inteiro, é necessário que seja oferecido o Sacrifício de Cristo, para que o mundo seja salvo do abismo.

Mas o que isso tem a ver com a presença de Jesus na Hóstia Consagrada, com adoração, com o Corpus Christi? Simples, se a Missa já não é mais entendida como o Sacrifício de Cristo no altar da cruz, mas apenas como uma refeição sagrada, o que se coloca em risco é a própria presença de Cristo na Eucaristia.

Um grande autor escreveu:

Existem duas grandes realidades na Missa, que são o Sacrifício e o Sacramento. Estas duas grandes realidades se realizam ao mesmo instante, no momento em que o sacerdote pronuncia as palavras da consagração do pão e do vinho.  Assim que ele termina de pronunciar as palavras da consagração do Preciosíssimo Sangue, o sacrifício de Nosso Senhor é realizado e naquele momento também está presente Nosso Senhor, o Sacramento que é o próprio Senhor também está lá. (… ) Essa separação mística das espécies do pão e do vinho realiza o Sacrifício da missa. Portanto, essas duas realidades se dão pelas palavras da consagração. É impossível separá-las. E isso é o que fizeram os protestantes; eles queriam somente o sacramento sem o sacrifício. No final, acabaram ficando sem um e sem o outro, nem sacramento e nem sacrifício. E este é o perigo com as missas novas. Não se fala mais do Sacrifício, parece que se desconsidera o Sacrifício. Não se fala outra coisa senão de Eucaristia, e se faz uma “Eucaristia” como se não fosse outra coisa senão uma refeição. E aqui também corre-se o risco de acabar sem uma coisa e sem a outra. É muito perigoso. Na medida em que o sacrifício desaparece do sacramento, este também desaparece, porque aquilo que é apresentado no sacramento é a vítima. Se não há mais sacrifício, também não há mais vítima.

“Se não há mais sacrifício, não há mais a vítima”. Palavras pesadas, mas muito razoáveis segundo a fé. Sem ater-nos a delicadíssimas considerações sacramentais, podemos dizer tranquilamente que, pelo menos no cotidiano dos cristãos, é precisamente isso que aconteceu: o ofuscamento do caráter sacrificial da Missa fez com que fosse perdida a consciência da presença substancial de Cristo no sacramento .

À MISSA ANTIGA corresponde a ênfase no Sacrifício propiciatório e na presença substancial de Cristo na Hóstia Santa.

À MISSA NOVA corresponde a ênfase no banquete eucarístico, na Sagrada Comunhão… e aliás… nela quase desaparece o espírito de adoração .

Não é realmente um acaso [se raciocinam que], se não há mais sacrifício, não há nem mesmo Vítima; Jesus não está presente.

Eis porque é errado tentar consertar o desastre litúrgico com algum trabalho de  “maquiagem “, talvez mantendo alguns sinais exteriores de adoração — incenso , velas, balaustras e genuflexórios… grandes vigílias de adoração noturna… sem se preocupar em voltar ao correto rito da Missa, à Missa da Tradição.

Erra quem se detém apenas nos sinais externos, brincando com um vago sentimento de Tradição, baseando-se unicamente numa estética enganosa. A questão é retornar à clareza, toda Católica, do Sacrifício Propiciatório expresso na Missa, naquela Missa verdadeira.

O retorno à Missa verdadeira restabelecerá também a  procissão de Corpus Christi, e restabelecerá também a vida dos cristãos, chamados a participar no Sacrifício de Cristo com todas as fibras do seu próprio ser.

Radicati nella fede é o boletim da igreja de Vocogno e da Cappela dell’Ospedale de Domodossola, na diocese de Novara, Itália.

1 junho, 2014

Foto da semana.

 

Verastegui

A virtude, sempre e em todas as circunstâncias, é possível – Foto publicada no facebook pelo ator Eduardo Verástegui, com a seguinte descrição: “Minha primeira vez servindo em uma Missa Tridentina, foi incrível, obrigado Padre Gerónimo. Pax Domini! #latinmass”. Créditos: Secretum Meum Mihi.

A seguir, texto (inclusive os erros) de Wikipedia:

“Eduardo reafirmou seu catolicismo após realizar em Hollywood o filme “Chasing Papi”, onde uma professora de Inglês fez ele refletir sobre o vazio de sua vida e perceber que, segundo nas suas palavras era “um vazio por dentro”. O padre mexicano Juan Rivas, lhe ofereceu ajudar e ofereceu-lhe alguns livros que em que aos pouco Eduardo foi descobrindo a vida cristã.

Começou a freqüentar diariamente a missa e de outro padre, o Padre Francisco, propôs uma confissão geral. Após uma longa preparação, Eduardo Verástegui fez uma confissão de três horas de duração com Padre Justin. Isso é o que o ator considera o seu segundo período de conversão. “Eu percebi que não nasceu para ser um ator ou qualquer outra coisa, mas para conhecer, amar e servir Jesus Cristo” disse ele.

Então, com a audácia de sua decisão ele vendeu todos os seus bens, e decidiu ir para o Brasil como um missionário, mas o padre Juan Rivas, fez ele ver que onde deveria estar era aonde estava em Hollywood, por que Cristo era ainda mais necessário do que na selva. Assim, Eduardo Verastegui criou com Leo Severino, a produtora Metanoia Filmespara fazer filmes a serviço da esperança e da dignidade humana.

O filme Bella é a primeira obra desta empresa, que ofereceram a Nossa Senhora de Guadalupe e que venceu o “Toronto Film Festival” contra todas as probabilidades. Ele também criou um estudo bíblico para atores e diretores, um encontro em Hollywood para aqueles que procuram algo mais do que fama. Por cinco anos, o mulherengo “latin lover” viveu feliz e radiante em castidade, se sente livre, reza o rosário e vai à missa diariamente, e apesar disso se tornou uma referência contra cultural no círculo de Hollywood.

Eduardo Verástegui foi muito ativo na luta contra a liberalização da interrupção voluntária da gravidez, ele acredita que é um crime contra a humanidade e contra as mulheres. Tem participado em inúmeras campanhas de sensibilização e divulgação sobre a realidade do aborto”.

14 maio, 2014

Summorum Pontificum no Brasil: Missa na Catedral de Santo Amaro, SP.

santo amaro

9 maio, 2014

A Missa.

Vídeo de divulgação da Santa Missa Tradicional celebrada na Igreja da Encarnação, em Tampa, Flórida, EUA.