22 setembro, 2014

Nota de Esclarecimento do Bispo de Campos sobre apoio a candidato do PT.

Após matéria de Fratres in Unum.com sobre seu apoio a candidato do Partido dos Trabalhadores, Dom Roberto Ferrería Paz emitiu a seguinte nota, que divulgamos na íntegra.

NOTA DE ESCLARECIMENTO 

     Diante de algumas dúvidas levantadas a respeito de um depoimento favorável ao candidato Marlos Costa, gostaria de fazer os seguintes esclarecimentos:

  1. O candidato a Deputado Federal Marlos Costa faz parte da Pastoral Católicos na Política, como muitos acompanha este espaço de articulação de fé e política, de formação espiritual e doutrinal, alimentada pela fé e o instrumental da Doutrina Social da Igreja.   Esta Pastoral está aberta por ser plural a católicos de todos os partidos e orientações cívicas, respeitando-se no entanto como já afirmamos a identidade eclesial e fidelidade ao Magistério.
  2. O reconhecimento ao candidato foi dado, como a todos(as) que o pediram, também de todos os partidos e orientações; resguardando a coerência e prática com os ensinamentos da Igreja.
  3. As eleições proporcionais visam a ter uma representatividade significativa de todos os setores sociais, a nossa Pastoral tenciona a impulsionar uma representação consciente do pensamento social cristão nos legislativos, face as ameaças contra a vida e a família.
  4. O depoimento dado se enquadra nesta busca de oferecer ao eleitor além de critérios gerais, indicações pessoais, que não constituem nada normativo, nenhuma imposição ou “chapa branca católica”, mas apenas uma proposta de discernimento.
  5. A questão partidária é relevante, no entanto é necessário convir que , quem constrói os partidos, são pessoas, e que a presença de cristãos e pessoas de boa vontade em todos os partidos legais, ajuda a transformar suas estruturas, programas e plataformas de governo, inspirando-as com a fé e a Doutrina social.    Enquanto as mudanças não acontecem nossa Pastoral defendeu e defende a aprovação da lei de objeção de consciência, e sua inserção nos estatutos partidários salvaguardando a liberdade do candidato cristão.

Era o que tínhamos a manifestar. Gostaria de convidar as pessoas que tenham incertezas ou busquem discernimento  para as reuniões da nossa Pastoral dos Católicos na Política do Regional Leste 1.

      Na caridade fraterna.

+Dom Roberto Francisco Ferreria Paz

Bispo Diocesano de Campos

 Campos dos Goytacazes, 20 de Setembro de 2014.

22 setembro, 2014

Bispo de Roma enquanto Papa.

Por Roberto de Mattei – Messa in Latino |Tradução: Alexandre Semedo – Fratres in Unum.com – Bispo de Roma enquanto Papa, ou o Papa enquanto Bispo de Roma? O primeiro título do Papa, Bispo de Roma, lembra a origem da eleição papal, que ocorre pelos cardeais representantes do clero romano, e indica que o Pastor universal é o Bispo da Igreja local de Roma. Mas o eleito torna-se bispo de Roma porque se tornou Papa; não se torna Papa porque eleito Bispo e Roma. Isto é evidenciado pelo fato de que um simples sacerdote ou até mesmo um leigo poderiam ser eleitos Papas. Pio XII explica que uma pessoa leiga, em caso de sua eleição ao pontificado supremo, poderia aceitar a nomeação, se aceitar ser ordenado bispo, mas, cumprida esta condição, “o poder de ensinar, governar e também o carisma da infalibilidade, ser-lhe-iam concedidos imediatamente, a partir do momento da sua aceitação, mesmo antes de sua ordenação” (Discurso ao II Congresso Mundial do Apostolado Leigo de 5 de Outubro de 1957, em Discursos e Rádio, XIX, p. 457-458).

O exercício do poder supremo de governo, mesmo antes da consagração episcopal, recebido após a eleição, por Papas que não são bispos ou nem mesmo sacerdotes, nunca foi contestado. Basta lembrar o caso de Bonifácio VIII, que, durante o mês decorrido entre sua eleição e sua consagração, cancelou todas as nomeações feitas por seus dois antecessores, Nicolau IV e Celestino V. Talvez o exemplo mais significativo é o de Adriano V, que, entre julho e agosto de 1.276, reinou apenas 38 dias, sendo apenas um diácono. Ninguém jamais contestou a validade dos atos com os quais, neste curto período, exerceu sua autoridade papal. As fontes históricas dizem especificamente dele, vixit in (Pontificato) Papatu 35 (38) dias. Alguns dos maiores papas da história da Igreja, como São Gregório Magno, São Gregório VII e Inocêncio III, foram ordenados bispos somente após a sua eleição para o Papado; mas desde o primeiro momento da sua aceitação foram considerados Papas. Após o século XVI, oito Papas receberam o episcopado após a sua eleição: Pio III, Leão X, Marcelo II, Clemente VIII, Clemente XI, Pio VI e Gregório XVI. A tradição e a prática da Igreja nos ensinam, portanto, que quem for eleito papa, embora simples leigo ou sacerdote, deve ser consagrado bispo o mais rápido possível, porque o Papa é o Bispo de Roma. Mas não é a consagração episcopal que lhe confere o Papado. Este erro se tornou comum nas últimas décadas, graças à nova eclesiologia progressiva.

Roberto de Mattei.

22 setembro, 2014

Segurança reforçada no Vaticano por temor de ataque.

AFP – A segurança foi reforçada na praça de São Pedro, após a interceptação por serviços de inteligência estrangeiros de uma mensagem sobre um possível ataque contra o Vaticano, informa o jornal italiano Il Messaggero.

Um serviço de inteligência estrangeiro alertou durante a semana a Itália sobre a interceptação de uma conversa telefônica entre duas pessoas que falavam árabe e mencionavam uma “ação espetacular na quarta-feira no Vaticano”, afirma o jornal.

A quarta-feira é o dia em que o papa celebra a audiência geral na praça de São Pedro, diante da basílica.

Uma unidade antiterrorista italiana estabeleceu que um dos interlocutores da ligação passou pela Itália há oito meses, segundo o mesmo jornal.

O papa Francisco viajará durante a semana à Albânia. O Vaticano negou que, como especulou a imprensa, o pontífice esteja ameaçado por um ataque islamita. Mas a segurança foi reforçada no Vaticano para as audiências de quarta-feira e domingo, destacou o jornal Il Messaggero.

Em entrevista durante a semana ao jornal La Nazione, o embaixador do Iraque na Santa Sé, Habib Al Sadr, declarou que “o que o autoproclamado Estado Islâmico tem afirmado é claro: querem matar o papa, as ameaças contra o papa são reais”.

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21 setembro, 2014

Papa recebe o Secretário Guido Pozzo da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei – poucos dias antes da visita do Superior da FSSPX ao Vaticano.

Da agência católica de notícias suíça Apic/Kipa:

Roma, 19 de setembro de 2014 (Apic) – O Papa Francisco recebeu em audiência no dia 18 de setembro o Arcebispo Guido Pozzo, Secretário da Comissão Pontifícia “Ecclesia Dei”, encarregada das relações entre Roma e o meio tradicionalista.

O Superior da Fraternidade São Pio X, Bernard Fellay, de Valais, deve se encontrar pela primeira vez em um futuro próximo com o Cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) [e Presidente da Comissão Pontifícia "Ecclesia Dei"], ao passo que o diálogo entre Roma e os lefebvristas parecia estar paralisado por vários meses.

Dom Fellay esteve no Vaticano em dezembro de 2013 a fim de se encontrar com o Arcebispo Pozzo [Nota: ele também se encontrou com o Papa Francisco na ocasião]. Ele confirmou à Apic no início de setembro que se encontraria com o Cardeal Gerhard Ludwig Müller na segunda quinzena de setembro de 2014. Ele especificou que seria um encontro informal, com a finalidade de fazer um balanço das relações entre a Fraternidade e Roma, interrompidas desde a partida do Cardeal William Joseph Levada, predecessor do Cardeal Müller, e desde a renúncia de Bento XVI.

A audiência papal de ontem com o Arcebispo Pozzo, alguns dias antes da data prevista do encontro entre o cardeal Müller e Dom Fellay (seria uma grande surpresa se Pozzo também não estivesse presente no encontro), foi publicada hoje no Bollettino.

[Fonte original em francês.]

Créditos: Rorate-Caeli

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21 setembro, 2014

Foto da semana.

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Neste [último] dia 19 de setembro ocorreu um dos eventos mais interessantes da Igreja. Não é um milagre como outros que conhecemos, mas um que acontece 3 vezes por ano.

Quando São Januário foi decapitado em 305, recolheram seu sangue em 2 ampolas, que foram encerradas numa teca de prata. O sangue passa a maior parte do tempo coagulado, algo natural. Contudo, no primeiro sábado de maio, no dia 19 de setembro e durante uma semana em dezembro, o seu sangue se liquefaz (foto) tal como estivesse dentro de uma pessoa viva. O milagre atrai muitas pessoas.

Na foto, o Cardeal Crescenzio Sepe, Arcebispo de Nápoles, mostra as ampolas com o sangue líquido novamente.

Fonte: Direto da Sacristia

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20 setembro, 2014

Sínodo: como eu o manobro.

Por Marco Tosatti – La Stampa | Tradução: Fratres in Unum.com – O Sínodo sobre a Família abordará muitas coisas, mas a mídia provavelmente vai falar sobre uma só: da possibilidade de pessoas casadas na Igreja, divorciadas (sem o reconhecimento da nulidade do vínculo anterior) e recasadas receberem a comunhão.

Ocorre já um certo número de casos em que sacerdotes, mesmo entre os “conservadores”, examinam a situação pessoal e tomam para si a responsabilidade de dizer: comungue, mas de forma discreta. Isso desde os tempos de João Paulo II.

Mas de qualquer forma! O Cardeal Kasper, que já há vinte anos tinha sua própria idéia a esse respeito, não acolhida nos pontificados de João Paulo e Bento, viu na ascensão de Bergoglio a oportunidade de apresentá-la novamente. Apesar do fato de que de Manila a Berlim, de Nova York a África, a grande maioria de seus colegas tenha, mais uma vez, reafirmado a doutrina da Igreja, baseada, aliás, nas palavras de Jesus; um dos poucos casos em que a afirmação aparece nítida, clara e definitiva, não colocada em dúvida sequer pelos mutiladores profissionais de textos…

Em suma, as coisas para Kasper & Companhia não tinham ambiente para se inserir muito bem. Mas talvez houvesse uma maneira de ajudá-los. E tentar impedir que as vozes irritantes façam muito barulho.

O primeiro ponto consiste em pedir que as intervenções escritas sejam entregues com antecedência. Isso foi feito. Até 8 de setembro, quem queria intervir no Sínodo deveria enviar o seu pequeno discurso.

Segundo: ler atentamente todas as intervenções, e, em caso de que algumas delas serem particularmente picantes, dar a palavra a um orador que, antes da intervenção espinhosa, buscasse já responder, no todo ou em parte, aos problemas levantados pela própria intervenção.

Terceiro: se alguma intervenção parecer realmente problemática, dizer que, infelizmente, não há tempo para dar a palavra a todos, mas que o texto foi recebido e permanece nas atas, e com certeza isso será tido em conta na elaboração final.

E, com efeito, não é tanto o Sínodo que será importante, mas a síntese a ser preparada, e que trará a assinatura do Papa como “exortação pós-sinodal”. É muito provável que não será um texto claro e definitivo, mas baseado sobre uma interpretação “flutuante”. De modo que qualquer um ao lê-lo possa se aproveitar da parte que mais lhe convém.

Humilde observação de um pobre cronista: mas se alguém tem um plano tão elaborado e astuto, por que falar sobre ele diante de verdadeiros estranhos durante um suntuoso jantar?

20 setembro, 2014

Papa cria Comissão para estudar reforma do procedimento de nulidade matrimonal.

É o que anuncia o Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé hoje. O propósito da reforma se insere no contexto do Sínodo que se inicia no próximo mês, isto é, proceder uma simplificação do atual processo.

Entre os membros da Comissão, não consta o nome do Cardeal Raymond Leo Burke, prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica e um dos maiores canonistas atualmente na Igreja. O tribunal chefiado por Burke é a segunda instância, superior, ao tribunal da Rota Romana, que cuida das causas de nulidade matrimonal. Ou seja, sua presença na Comissão seria mais do que natural…

20 setembro, 2014

Igreja: pauta é progressista, mas aborto ‘é inegociável’.

Ao contrário de 2010, questões sociais e a reforma política ganharam espaço entre líderes religiosos.

Por Renan Truffi – Carta Capital: A realização de um debate presidencial no Santuário Nacional de Aparecida, como o de terça-feira 17 no interior de São Paulo, marca a entrada da Igreja Católica nas eleições deste ano. Ao contrário do que ocorreu no último pleito, em 2010, assuntos como aborto, casamento gay e uso de células-tronco estão sendo pouco explorados pelos líderes católicos. Questões sociais e a reforma política ganharam espaço pelas mãos do cardeal-arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis. Apesar do tom progressista em vários temas polêmicos, a Igreja Católica ainda trata como “inegociável” a discussão do aborto.

A mudança de foco da Igreja Católica ao privilegiar debates sociais em vez de comportamentais coincide com um novo discurso que ecoa do Vaticano. Desde 2013, o papa Francisco tem dado orientações menos conservadoras em relação a temas tabus. Entre os fiéis, a influência do papa Francisco é assumida. A aposentada Conceição Mercês, de 66 anos, viajou da capital paulista até Aparecida para passar o dia no Santuário. Religiosa, ela diz ter se ofendido, recentemente, quando ouviu em uma missa um padre defender comportamentos homofóbicos. “Se o papa não fala isso porque um soldado raso, como ele, pode falar uma coisa dessas?”.

Para o professor Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), duas razões explicam a postura da Igreja em 2014: o momento de incerteza política no País e a autocrítica da Igreja Católica ao reconhecer que interferir na política, como aconteceu no passado, não faz bem à própria instituição. “A sociedade brasileira está com uma percepção mais aguda da necessidade de retomar o discurso social e socioeconômico, ao contrário do que ocorria há quatro anos, quando havia impressão de que tudo estava caminhando bem. Em 2010 então não havia porque a Igreja ter uma atenção particular [com esses temas]”, afirma Neto. “Para a construção do bem comum, esse é o grande fator que desloca um pouco o eixo a partir das questões comportamentais para outros princípios da Igreja, como o social e o socioeconômico”, diz.

Ainda que não seja por influência do papa, o discurso mais ameno sobre temas morais tem sido a regra na Basílica. Diretor da TV Aparecida, o padre Josafá Moraes é a favor da criminalização da homofobia, da união homoafetiva e acha “coerente” que as eleições não sejam decididas em cima de pautas religiosas. Mesmo quando fala sobre a importância de saber o que os candidatos pensam sobre a “concepção da família”, o padre evita o julgamento moral. “Com a mutação da família, a Igreja quer saber o que os candidatos pensam, mas não moralmente”, diz Moraes. “Não é um exercício moral, mas de atender os direitos da população. Se por um acaso, o candidato disser que determinada conjuntura de família não corresponde àquilo que a Igreja entende não quer dizer que não vamos votar nele. Não é isso. Não é pegadinha”, explica antes de dizer, no entanto, que a instituição “não abre mão” da defesa da vida.

Para Moraes, ao contrário do que ocorreu em 2010, com o frequente debate sobre o aborto, desta vez “tudo foi conduzido” para que o assunto não entrasse nas eleições e a escolha do novo governo não se desse a partir de uma pauta religiosa. “Isso é muito coerente, pois a Igreja Católica não é centro, é parte da sociedade”, diz. “Mas a Igreja é defensora da vida e disso ela não abre mão”, defende.

A preocupação do diretor da TV Aparecida é a mesma de Dom Darci Nicioli, bispo auxiliar da Arquidiocese de Aparecida. Ainda que concorde que nenhum candidato “é louco” de ser contra a vida, Nicioli vê a necessidade de a Igreja Católica defender o direito do feto. “Quando alguém defende o aborto é o ser humano indefeso que está sendo ameaçado. Então uma coisa é o discurso, outra coisa é a prática. Nunca ninguém vai ser louco de dizer ‘eu sou contra a vida’, mas, na prática, suas atitudes quais são? Se eu defendo a pena de morte, estou contrário à vida. Hitler defendia a vida. De quem? Dos arianos. Que defesa da vida é essa? A vida não se negocia em nenhuma hipótese”, argumenta.

A Igreja reconhece que os milhares de abortos ilegais realizados todos os anos no Brasil apesar da proibição da lei são um problema de saúde pública, mas Nicioli afirma que ninguém pode decidir, “com a chancela do Estado”, sobre a vida do feto. “No caso de interromper uma gravidez, quem é que estaria defendendo o feto, que é vida? Uma pessoa estuprada pode não querer [ter um filho], a gente até entende. Mas quem é que defende o feto? Uma coisa é eu ter a minha opção. A outra é eu ter a custódia do Estado para decidir sobre a vida dos outros, no caso, o feto”, defende o bispo.

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19 setembro, 2014

O manifesto dos cardeais e a resposta de Kasper: “Combinei tudo com o Papa”.

IHU – Nunca tinha acontecido de um Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em exercício, publicasse dois livros, em poucas semanas, para declarar inadmissível qualquer mudança na postura da Igreja a respeito do tema que será discutido em uma reunião sinodal. Foi assim que agiu o cardeal Gerhard Ludwig Müller, que desde 2012 guia o ex-Santo Ofício: em julho ofereceu à impressa um livro-entrevista, no qual se declarava contrário a qualquer abertura em relação à comunhão aos divorciados em segunda união (“A esperança da família”, edições Ares), e agora seu nome é o mais destacado entre os que assinam um volume coletivo que se intitula “Permanecer na verdade de Cristo” (que já foi publicado nos Estados Unidos e que acaba de ser impresso na Itália), cujo conteúdo foi divulgado, ontem, pelo jornal italiano “Corriere della Sera”.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 18-09-2014. A tradução é do Cepat.

Kasper e Francisco.

Kasper e Francisco.

Os demais autores são outros quatro purpurados: Carlo Caffara, arcebispo de Bolonha, Raymond Leo Burke, Prefeito da Signatura Apostólica, e os eméritos Walter Brandmüller e Velasio De Paolis. Além disso, também colaboram o arcebispo Cyril Vasil, Secretário da Congregação para as Igrejas Orientais, e outros especialistas. Nos dois volumes, o tema central é a participação dos divorciados, que vivem em segunda união, na Eucaristia, algo que consideram inadmissível.

A inédita operação midiática (a que se somam também, na mesma sintonia, um texto do cardeal Angelo Scola e um livro que está para ser publicado do cardeal australiano George Pell, “ministro” de Economia vaticano) foi apresentada como uma resposta às aberturas que o cardeal Walter Kasper apresentou como uma hipótese, em fevereiro deste ano. A eleFrancisco havia encomendado a relação introdutória do Consistório. Diante de todos os cardeais, Kasper falou sobre o tema da família e, na última parte de seu articulado discurso, apresentou a possibilidade (caso por caso, em determinadas circunstâncias e após uma caminhada penitencial) de se voltar a admitir a comunhão aos divorciados em segunda união. O discurso causou muitas reações entre os cardeais e, no dia seguinte, tomando a palavra, Francisco o elogiou, dizendo que considerava que Kasper fazia “teologia de joelhos” e que em seu discurso havia encontrado “o amor da Igreja”. Durante os meses seguintes, após a publicação daquele texto, multiplicaram-se as entrevistas e as declarações. As posturas se polarizaram, o confronto e o enfrentamento se deram na arena dos meios de comunicação, assim como aconteceu durante o Concílio Vaticano II.

Francisco, que considera decisiva a mensagem da misericórdia, continua convidando a Igreja para que saia de si mesma e vá ao encontro dos homens e das mulheres nas condições em que vivem. Quis que ocorressem dois Sínodos sobre o tema da família: o primeiro, extraordinário, acontecerá entre os dias 5 e 19 de outubro deste ano. O trabalho continuará depois, envolvendo as Igrejas locais e, em outubro de 2015, um novo Sínodo (ordinário) se ocupará das conclusões.

Entrevista com o cardeal Walter Kasper.

Em fevereiro, o senhor falou a respeito do Sínodo, diante dos cardeais, e apresentou uma hipótese sobre a possibilidade da comunhão aos divorciados em segunda união. Em que consiste?

Não propus uma solução definitiva, mas, sim – após me colocar em concordância com o Papa -, fiz algumas perguntas e ofereci considerações para possíveis respostas. Este é o argumento principal: o sacramento do matrimônio é uma graça de Deus, que converte o casal em um sinal de sua graça e de seu amor definitivo. Inclusive, um cristão pode fracassar e, infelizmente, hoje muitos cristãos fracassam. Deus, em sua fidelidade, não deixa ninguém cair e, em sua misericórdia, oferece aos que desejam se converter uma nova oportunidade. Portanto, a Igreja, que é o sacramento, ou seja, o sinal e o instrumento da misericórdia de Deus, deve estar próxima, ajudar, aconselhar, animar.

Um cristão nesta situação tem uma necessidade particular da graça dos sacramentos. Não é possível conceder segundas núpcias, mas, sim – como diziam os Padres da Igreja -, após o naufrágio, uma barca para sobreviver. Não um segundo matrimônio sacramental, mas os meios sacramentais necessários em sua situação. Não se trata de uma solução para todos os casos, que são muito diferentes, mas para aqueles que fazem tudo o que está ao alcance em suas situações.

O senhor colocou em dúvida a indissolubilidade do matrimônio cristão?

A doutrina da indissolubilidade do matrimônio sacramental se baseia na mensagem de Jesus. A Igreja não tem poder para mudá-la. Este ponto não muda. Um segundo matrimônio sacramental, enquanto alguém do casal continua vivo, não é possível. Entretanto, é preciso diferenciar a doutrina da disciplina, ou seja, a aplicação pastoral em situações complexas. Além disso, a doutrina da Igreja não é um sistema fechado: o Concílio Vaticano II ensina que há um desenvolvimento, no sentido de um possível aprofundamento. Pergunto-me se é possível, neste caso, realizar um aprofundamento semelhante ao que se deu na eclesiologia: ainda que a Igreja católica seja a verdadeira Igreja de Cristo, também há elementos de eclesialidade para além das fronteiras institucionais da própria Igreja católica. Em certos casos, também não seria possível reconhecer em um matrimônio civil alguns elementos do matrimônio sacramental? Por exemplo, o compromisso definitivo, o amor e o cuidado recíproco, a vida cristã, o compromisso público, que não existem nas uniões de fato.

Qual é o seu parecer a respeito deste novo livro, com contribuições de cinco cardeais, incluindo o Prefeito Müller?

Surpreendeu-me. Fiquei sabendo, hoje, pelos jornalistas. O texto foi enviado para eles e não para mim. Em toda a minha vida acadêmica, nunca me aconteceu nada parecido.

Na história recente da Igreja, já aconteceu de alguns cardeais intervirem desta forma organizada e pública, antes de um Sínodo?

Durante o Concílio Vaticano II e no pós-concílio, existiam as resistências de alguns cardeais frente a Paulo VI, inclusive por parte do então Prefeito do Santo Ofício. Porém, se não me engano, não com esta modalidade organizada e pública. Se os cardeais, que são os colaboradores mais próximos do Papa, intervêm desta maneira (pelo menos em relação à história recente da Igreja), encontramo-nos frente a uma situação inédita.

O que o senhor espera que aconteça durante as próximas semanas, no debate sinodal?

Espero que possamos ter uma troca de experiências sincera e tranquila, de argumentos, em um ambiente de escuta. Não respostas pré-fabricadas, mas, sim, esclarecimentos sobre o “status quaestionis”, e depois haverá um ano todo para a discussão em nível local, antes das decisões de 2015.

O senhor considera que o Papa Francisco fala muito sobre misericórdia?

Como é possível falar muito de um tema que é fundamental no Antigo Testamento? Claro, a misericórdia não contradiz a doutrina, porque é em si mesma uma verdade revelada, e não cancela os mandamentos do Senhor; mas é uma chave hermenêutica para sua interpretação. O Papa João XXIII, na abertura do Concílio, disse: “Hoje, a Igreja deve usar não as armas da severidade, mas, sim, a medicina da misericórdia”. A misericórdia é, pois, o tema central da época conciliar e pós-conciliar da Igreja católica.

* * *

Kasper, pobre vítima dos carrancudos cardeais, choramingou ainda mais em entrevista ao jornal Il Mattino (créditos: Rorate-Caeli). A seguir, nossa tradução do principal excerto:

[Il Mattino:] Como se deve considerar as situações complexas? Por exemplo, o drama de uma família [sic] divorciada que violou a indissolubilidade do sacramento do matrimônio? 

[Cardinal Kasper:] “As situações complexas são consideradas uma a uma. Ninguém deve julgar, mas discernir. A luz do Evangelho nos ajuda no discernimento de toda situação concreta, à luz da misericórdia”

Voltamos ao perigo de uma guerra doutrinal no Sínodo. 

“Eu, certamente, não quero isso. Eles [os cardeais que o criticaram] talvez queiram. Penso em um sínodo pastoral”.

É isso o que o Papa também quer? 

“Com certeza. Também o Papa quer um sínodo pastoral”.

O senhor esperava essa controvérsia a respeito de seu discurso no Consistório? 

“Não sou ingênuo. Eu sabia que há outras posições, mas não pensava que o debate se tornaria, e agora também se mostra assim, sem modos. Nenhum de meus irmãos cardeais sequer falou comigo. Eu, pelo contrário, [falei] duas vezes com o Santo Padre. Combinei tudo com ele. Ele estava de acordo. O que pode fazer um cardeal, senão estar com o Papa? Eu não sou o alvo, o alvo é outro”.

O Papa Francisco? 

“Provavelmente sim”.

O que mais o senhor diria, por fim, aos seus oponentes? 

“Eles sabem que não fiz essas coisas por conta própria. Combinei com o Papa, falei duas vezes com ele. Ele se mostrou satisfeito. Agora, eles criam essa controvérsia. Um cardeal deve ser próximo do Papa, estar ao seu lado. Eles são os cooperadores do Papa”.

* * *

A testemunhar a comunhão entre Francisco e Kasper, foi divulgado ontem, pelo influente jornal católico francês La Croix, que Francisco “estaria irritado” com a publicação do livro dos cardeais às vésperas do Sínodo. Bergoglio teria solicitado ao Prefeito do antigo Santo Ofício, Cardeal Müller, um dos autores da obra, que não a divulgasse na Itália. Que liberdade de idéias nos reserva o próximo Sínodo, não é mesmo? Debate aberto, tranquilo, sereno, transparente… contanto que as conclusões sejam iguais às do Pontífice e de sua corte!

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18 setembro, 2014

Paz com o socialismo.

“Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista” (Pio XI, Quadragesimo Anno, n.º 119).

“Entre comunismo e cristianismo, o Pontífice [Pio XI] declara novamente que a oposição é radical. E acrescenta não poder admitir-se de maneira alguma que os católicos adiram ao socialismo moderado” (João XXIII, Mater et Magistra, n.º 31).

“O erro fundamental do socialismo é de caráter antropológico. De fato, ele considera cada homem simplesmente como um elemento e uma molécula do organismo social” (João Paulo II, Centesimus Annus, n.º 13).

* * *

Na contramão do bom senso e do ensinamento da Igreja Católica sobre o perigo dos regimes comunistas e socialistas, Dom Roberto Francisco Ferreria Paz, Bispo de Campos e Coordenador da Pastoral dos Católicos na Política no Estado do Rio, é apresentado como cabo eleitoral de um candidato a Deputado Federal de Niterói, onde Dom Roberto foi bispo auxiliar, pelo Partido dos Trabalhadores.

Em cartaz eleitoral, é atribuído a Dom Roberto o seguinte panegírico acompanhado por pedido descarado de voto:

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“Falar do caríssimo vereador Marlos Costa é fazer referência a um dos políticos cristãos que apresentam um perfil qualificado e diferenciado pela sua ética, competência e compromisso com os pobres e excluídos. Sua gestão pública como vereador tem primado pelo respeito ao bem comum, a solidariedade e a busca da transparência, construindo um verdadeiro mandato comunitário e social. Colocar o Marlos no Congresso Nacional é agilizar o processo de reforma política, de consolidar uma legislatura em plena sintonia com o povo, com o desenvolvimento integral, solidário e responsável de aproximar os valores do Reino de Deus num espaço tomado pelo viés do fisiológico e os interesses privados. Vamos dar o nosso voto com consciência, alegria e esperança a este nosso irmão batalhador de todas as horas, presença constante na nossa pastoral de fé e política. Para a vitória da vida, da família, dos pequenos e da justiça social: Marlos Costa é uma indicação segura.”

+ Dom Roberto Francisco Ferreria Paz, Bispo de Campos.

Primeiro, esperamos sinceramente que esse apadrinhamento eclesiástico desavergonhado seja uma fraude e que Dom Roberto Paz não o tenha redigido nem autorizado sua divulgação.

Como assim, Excelência?

Por mais que o candidato possa ser bem-intencionado e tenha, dizem, propostas em prol dos pobres e excluídos, é fato público e notório que o partido ao qual se filiou obriga seus correligionários a aderirem à sua política socialista, abortista e gayzista. Conforme publicado recentemente neste blog, ‹‹ todo candidato filiado ao PT é obrigado a acatar as resoluções do partido, entre elas a resolução aprovada no 3º Congresso do PT, ocorrido em agosto e setembro de 2007, “Por um Brasil de mulheres e homens livres e iguais”, que inclui a “defesa da autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público”. O Estatuto do PT põe como requisito para ser candidato pelo Partido “assinar e registrar em Cartório o ‘Compromisso Partidário do Candidato ou Candidata Petista’” (art. 140, c). Tal assinatura, diz o Estatuto, “indicará que o candidato ou candidata está previamente de acordo com as normas e resoluções do Partido, em relação tanto à campanha como ao exercício do mandato” (art. 140, §1º). Se o político contrariar uma resolução como essa, que apoia o aborto, “será passível de punição, que poderá ir da simples advertência até o desligamento do Partido com renúncia obrigatória ao mandato” (art. 140, §2º) ››.

Pelo visto, a plena comunhão com seus amigos tradicionalistas em Campos não fez efeito algum sobre o bispo uruguaio que, desgraçadamente, veio fazer estrago no Brasil. Seu histórico de feitos é longo: cidadão planetário, ativista do direito dos bosques e dos animais, arauto junto ao MST da “família humana sem fronteiras”, cujo diretório litúrgico deve ter sido redigido pela ONU — as colunas semanais do bispo quase sempre repercutem a agenda daquela entidade maçônica, comemorando grandiosíssimas festas como o dia internacional da Alfabetização, o dia internacional dos Desaparecidos… — Dom Roberto Paz (que recebeu o título de cidadão do Rio de Janeiro ao lado justamente de quem?… Do vereador para quem agora faz campanha…),  que vibrou com o “Flash Movíe” (?!) dos bispos na JMJ e amiúde cita artistas (indecentes) e filósofos modernos com toda pompa e eloquência, no alto de sua requintada cultura, é conhecido defensor da Teologia da Libertação.

Pois, então, explique-nos, senhor bispo, como um candidato filiado ao PT poderá representar a vitória da vida, da família e dos pequenos, como dito no panegírico acima, se seu partido é o maior promotor da cultura da morte em nosso país? Acaso devemos esquecer que os dois últimos deputados petistas que advogavam a favor do direito de nascer — Luiz Bassuma e Henrique Afonso — foram sumariamente expulsos das fileiras petistas pelo Diretório Nacional? Deveríamos nos espelhar no semelhante apoio dado ao deputado petista Alessandro Molón por influentes clérigos da cidade do Rio de Janeiro, cuja atuação “em favor dos pobres e excluídos” nunca incluiu um repúdio claro e consistente ao aborto ou aos chamados “casamentos” entre pessoas do mesmo sexo?

E mais, até quando dioceses, paróquias, encontros diocesanos e congressos de movimentos eclesiais servirão de palanque eleitoral para candidatos de partidos socialistas e comunistas sob não só o silêncio ou complacência de seus pastores, mas em muitos casos com seu explícito apoio?

Que nossos digníssimos promotores da Igreja dos pobres e para os pobres, intrépidos defensores da ficha limpa, enfim, façam uma faxina em seus próprios quintais e promovam a tal “reforma política”, não com plebiscitos enganadores, mas, primeiramente, abstendo-se de fazer o que há de mais sórdido da velha e suja política: captar votos de pessoas humildes utilizando-se do prestígio e autoridade moral que lhes confere a Igreja. Deixem de instrumentalizar a Casa de Deus em benefício de suas próprias agendas!

Santo Tomás Morus, rogai por nós!

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ERRATA: Ao contrário do que havíamos divulgado, Dom Roberto Ferrería Paz não é vinculado ao Opus Dei.