Archive for ‘Igreja’

28 agosto, 2015

Sancte Augustine, ora pro nobis!

Oração de Santo Agostinho

Vós sois, ó Jesus, o Cristo, meu Pai santo, meu Deus misericordioso, meu Rei infinitamente grande; sois meu bom pastor, meu único mestre, meu auxílio cheio de bondade, meu bem-amado de uma beleza maravilhosa, meu pão vivo, meu sacerdote eterno, meu guia para a pátria, minha verdadeira luz, minha santa doçura, meu reto caminho, sapiência minha preclara, minha pura simplicidade, minha paz e concórdia; sois, enfim, toda a minha salvaguarda, minha herança preciosa, minha eterna salvação.

Ó Jesus Cristo, amável, Senhor, por que, em toda minha vida, amei, por que desejei outra coisa senão Vós? Onde estava eu quando não pensava em Vós? Ah! que, pelo menos, a partir deste momento, meu coração só deseje a Vós e por Vós se abrase, Senhor Jesus! Desejos de minha alma, correi, que já bastante tardastes; ó, apressai-vos para o fim a que aspirais; procurai em verdade Aquele que procurais.

Ó Jesus, anátema seja quem não Vos ama. Aquele que não Vos ama seja repleto de amarguras. Ó doce Jesus, sede o amor, as delícias, a admiração de todo coração dignamente consagrado à vossa glória.

Deus de meu coração e minha partilha, Jesus Cristo, que em Vós meu coração desfaleça, e sede Vós mesmo a minha vida.

Acenda-se em minha alma a brasa ardente de vosso amor e se converta num incêndio todo divino, a arder para sempre no altar de meu coração; que inflame o íntimo de meu ser, e abrase o âmago de minha alma; para que no dia de minha morte eu apareça diante de Vós inteiramente consumido em vosso amor. Assim Seja.

Publicado originalmente na festa de Santo Agostinho de 2010.

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27 agosto, 2015

44 x 4 – Venceu a verdade.

Fratres in Unum entrevista Andreia Medrado, pró-vida engajada, que nos fala sobre a Ideologia de Gênero e a atuação da militância católica paulista que culminou, no último dia 25, com a eliminação dessa nefasta tese do Plano Municipal de Educação.

Primeiramente, obrigado por nos atender, professora Andreia. Poderia se apresentar brevemente a nossos leitores, falando também de sua trajetória no movimento pro-vida?

Andreia Medrado e o vereador de São Paulo Ricardo Nunes.

Andreia Medrado e o vereador de São Paulo Ricardo Nunes.

Sou católica e professora. Tenho estado mais ativamente ligada ao movimento pró-vida desde 2013, quando o PLC 03/2013 estava em tramitação. O Projeto, na prática, legalizaria o aborto até o nono mês. A partir de então fui apresentada aos estudos sobre o tema e pude ver que todas as ações relacionadas ao aborto, eutanásia, ideologia de gênero eram um pacote de estratégias para a completa instauração da cultura da morte no mundo.

Em que consiste a ideologia de gênero e como ela vem buscando se impor mundo afora, em particular no Brasil?

A ideologia de gênero consiste em uma quebra da realidade, por assim dizer. Tal ideologia promove um desprezo pela biologia do ser humano alegando que não se nasce homem ou mulher, mas que isso é construído social e culturalmente. Seu maior intento, no entanto, é a destruição total e sistemática da família. Uma vez que se extermina a identidade do ser humano e o papel do homem e da mulher, extingue-se, consequentemente, o conceito de família. Em outras palavras, a identidade de gênero é uma construção ideológica de que não há homem ou mulher mas que se é algo. É a “coisificação” do ser humano.

É uma ideologia que nasce apoiada na filosofia marxista de lutas de classes, onde a primeira opressão de uma classe por outra surge com a do sexofeminino pelo masculino. A partir dos anos 70, as feministas adotam esse discurso e passam a querer a extinção das barreiras sexuais (homens/mulheres – adultos/crianças). Só nos anos 90 que a ideóloga Judith Butler introduz o tema no âmbito político-filosófico. Ajudou a aparelhar a Organização das Nações Unidas com ongs feministas.

Quem são os grandes interessados na implantação dessa ideologia e por que tamanho empenho que, aliás, é pouquíssimo compartilhado pela sociedade civil?

Os grandes interessados na implantação dessa ideologia são as grandes fundações internacionais, especialmente a Fundação Ford, que foi a responsável principal pelo aparelhamento da ONU, durante as conferências internacionais de 94 e 95 (Cairo e Pequim). Numa estratégia de controle comportamental e governo hegemônico mundial, essas fundações gastam rios de dinheiro com reengenharia social. É uma tentativa de dominaras leis, o consenso e destruir o direito natural.

Não conformados com a eliminação da questão de gênero no Plano Nacional de Educação, seus promotores manobraram para ressuscitar essa ideologia nos planos estaduais e municipais. Como o Poder Legislativo de estados e municípios tem se posicionado?

O que temos percebido durante as visitas aos parlamentares é que muitos deles não sabiam sequer definir “gênero”, e julgavam como mais uma palavra que significasse alguma medida contra a discriminação ou mesmo um sinônimo para “sexo”. Quando explicamos, pautados em argumentos e principalmente nos próprios ideólogos de gênero, percebemos que, automaticamente, eles entendem e se posicionam contrários a tal ideologia.

Aqui em São Paulo, os vereadores entenderam bem o conceito de gênero, perceberam seu perigo e o quão nefasto e monstruoso ele é. E o resultado das votações em todo o Brasil confirma que isso não se deu só aqui; uma rápida busca nos municípios que já votaram seus Planos Municipais de Educação mostra que 98% deles rejeitaram a ideologia de gênero. Isto nos diz muito a respeito da postura de nossos parlamentares e nos diz, mais ainda, de que a Verdade é, de fato, a força que move o mundo. Bastou dizer a verdadeira intenção dessa macabra ideologia e os olhos se abriram.

Claro que tivemos alguns discordantes, mas vê-se bem a militância na causa. Três casos em específico nos chamaram à atenção: o vereador Toninho Vespoli (Psol), a vereadora Juliana Cardoso (PT) e o vereador Netinho de Paula (PCdoB). O vereador Netinho de Paula, que se diz um defensor e grande representante da periferia paulista, ignorou a voz dos diversos moradores da Zona Sul que se pronunciaram contra o gênero (moradores, inclusive, que o ajudaram a se eleger). A vereadora Juliana Cardoso e o vereador Toninho Vespoli passaram as duas votações alegando que eram católicos e católicos de uma “igreja inclusiva”, como a que é “promovida pelo Papa Francisco”. A vereadora chegou a mostrar um slide no qual o Sumo Pontífice aparecia segurando uma bandeira do orgulho lgbt (o que todos sabemos ser uma montagem). Juliana terminou seu discurso citando Zé Vicente, famoso compositor da teologia da libertação, deixando claro, portanto, a quem serve e de onde ela veio. No que depender dos católicos de verdade, esses vereadores jamais serão reeleitos.

Ontem, então, ocorreu a votação do Plano Municipal de Educação da cidade de São Paulo. Como transcorreu a votação e o embate entre os defensores da cultura da vida e os da cultura da morte? 

Por questões regimentais, alguns PLs (Projeto de Lei) requerem mais de uma votação para que haja o que eles chamam de tempo necessário para a discussão, o debate do tema. Foi o caso do PL 415/2015, o PME – Plano Municipal de Educação. Então, tivemos ontem a segunda e definitiva votação do Plano.

Pouco antes das 9h já chegavam famílias de toda a cidade. Vinham com camisetas brancas e bandeiras em favor da vida e da família. Logo chegaram também os militantes lgbt.

Até o momento da votação, as pessoas permaneceram diante do trio elétrico, enquanto se apresentavam bandas católicas, Padres, Vereadores e Deputados federais alertando o povo contra o perigo da ideologia de gênero e pela necessidade de combate à cultura da morte.

Às 15h, o presidente da Câmara Antônio Donato deu início à votação. O vereador Eliseu Gabriel havia proposto um substitutivo. Contudo, o executivo enviou seu próprio substitutivo que foi votado pelos vereadores. Alguns vereadores propuseram emendas, mas estas foram derrubadas em bloco e por 44 votos a 4, a família paulistana ficou livre da ideologia de gênero no Plano Municipal de Educação.

No fim, venceu a verdade.

Como você avalia a atuação dos membros da Igreja nessa batalha? Quem estava presente e quem deveria estar, mas se omitiu?

Militância católica em peso na votação do PME de São Paulo.

Militância católica em peso na votação do PME de São Paulo.

A Igreja volta a debelar o erro! É incrível como o clero se posicionou diante dessa ideologia alertando os fiéis, falando sobre o tema! Mais de dez bispos no Brasil inteiro se manifestaram contra a ideologia de gênero, e a partir daí, o trabalho foi o de formar as pessoas.

Tanto a Arquidiocese de São Paulo quanto a do Rio de Janeiro (entre algumas outras dioceses) têm-se mobilizado para a promoção de seminários sobre a ideologia de gênero. Esses seminários têm o propósito de formar pais, professores e catequistas sobre o tema que ainda parece um pouco confuso para algumas pessoas. E graças às dioceses e aos bispos que tão bem entenderam o perigo que correm nossas famílias, as pessoas têm buscado aprender sobre o assunto. Sem o apoio de nossos bispos, não teríamos conseguido nada disso.

Em cada votação que olharmos, veremos a presença da Igreja. Acredito que Cuiabá, Brasília e São Paulo são as que mais podemos notar isso, entretanto, basta ver o quanto os católicos principalmente têm falado sobre o assunto. Os Bispos e os Padres me lembraram Padre Antônio Vieira, nesses últimos meses: pregando a verdade e denunciando o erro! É revigorante ver isso, de novo! Relembro aqui o discurso de Dom José González Alonso, bispo diocesano de Cajazeiras, PB, que de maneira firme, denunciou a ideologia na Câmara dos vereadores em Cajazeiras.

Não me lembro já ter visto tantos movimentos da Igreja juntos como nessas votações: IPCO, Novas Comunidades, RCC, Carmelitas, Legionários, Verbo Encarnado, Aliança de Misericórdia, Opus Dei, Administração Apostólica, Padres Diocesanos, Apostolado da Oração. Foi, de fato, um novo sopro sobre a Igreja e as pessoas puderam perceber que há uma luta gigantesca a ser lutada, e só poderemos vencê-la se estivermos juntos!

Mas há algo que quero ressaltar: é importante que saibamos que os vereadores e deputados muitas vezes não saibam realmente do que se trata ou quais os perigos essas políticas ideológicas trazem. Eles só poderão nos ajudar se formos até eles. Muitas vezes, esses parlamentares só terão acesso à verdade através de nós. E para isso é preciso que estudemos, que busquemos a verdade acima de tudo. Que não tenhamos medo de perder o que temos em troca da verdade! A verdade, meus irmãos, é a força que move o mundo! Que isso não nos engrandeça, de modo algum, mas que aumente em nós a consciência de nossa responsabilidade em propagar uma cultura da vida. E só se instaura uma cultura da vida se exterminarmos, definitivamente, a cultura da morte vigente.

26 agosto, 2015

São Teodoro Studita e o “Sínodo do adultério”.

Por Roberto de Mattei

Com o nome de “Sínodo do adultério”, entrou para a História da Igreja uma assembleia de bispos que no século IX quis aprovar a prática do segundo casamento após o repúdio da esposa legítima. São Teodoro Studita (759-826) foi um dos que mais vigorosamente se lhe opuseram, sendo por isso perseguido, preso e exilado três vezes.

São Teodoro Studita.

São Teodoro Studita

Tudo começou em janeiro de 795, quando o imperador romano do Oriente (basileus) Constantino VI (771-797) encerrou sua esposa Maria de Armenia em um convento e iniciou uma união ilícita com Teodota, dama de honra de sua mãe Irene. Poucos meses depois, o imperador fez proclamar Teodota “augusta”, mas não tendo conseguido convencer o patriarca Tarasius (730-806) a celebrar o novo casamento, encontrou finalmente um ministro complacente no hegúmeno José, abade do mosteiro de Kathara, na ilha de Itaca, que abençoou oficialmente a união adúltera.

Nascido em Constantinopla no ano de 759, São Teodoro era então monge no mosteiro de Sakkudion, na Bitinia, cujo abade era seu tio Platão, também venerado como santo. O injusto divórcio produziu – informa ele numa carta – uma profunda comoção em todo o povo cristão: concussus est mundus (… Ep II, n 181, PG, 99, coll 1559-1560CD), o que o levou a protestar energicamente com São Platão em nome da indissolubilidade do vínculo. O imperador deve ser considerado adúltero – escreveu – e, portanto, o hegúmeno José deve ser considerado gravemente culposo, por ter abençoado adúlteros e os ter admitido à Eucaristia. “Coroando o adultério” o hegúmeno José se opôs ao ensinamento de Cristo e violou a Lei de Deus, asseverou (Ep. I, 32, PG 99, coll. 1015 / 1061C). Para Teodoro, também o patriarca Tarasius deveria ser condenado, pois embora não tivesse endossado o novo casamento, havia se mostrado tolerante, evitando excomungar o imperador e punir o padre José.

Essa atitude era típica de um setor da Igreja do Oriente, que proclamava a indissolubilidade do matrimônio, mas na prática mostrava uma certa submissão em relação ao poder imperial, semeando confusão nas pessoas e provocando o protesto dos católicos mais fervorosos. Baseando-se nos escritos de São Basílio, Teodoro alegou o direito dos súditos de denunciar os erros do próprio superior (Epist. I, n. 5, PG, 99, coll. 923-924, 925-926D), e os  monges de Sakkudion romperam a comunhão com o patriarca, por sua cumplicidade com o divórcio do imperador. Estourou assim a chamada “questão moicheiana” (de moicheia = adultério), que colocou Teodoro em conflito não só com o governo imperial, mas com os próprios patriarcas de Constantinopla.

Este é um episódio pouco conhecido, sobre o qual o Prof. Dante Gemmiti levantou o véu alguns anos atrás, numa cuidadosa reconstrução histórica baseada em fontes gregas e latinas (Teodoro Studite e la questioni moicheiana, LER, Marigliano 1993), confirmando como no primeiro milênio a disciplina eclesiástica da Igreja do Oriente ainda respeitava o princípio da indissolubilidade do casamento.

Em setembro de 796, Platão e Teodoro foram presos com certo número de monges do Sakkudion, internados e depois exilados a Tessalônica, aonde chegaram em 25 de março 797. Em Constantinopla, no entanto, o povo julgava Constantino um pecador que continuava a dar escândalo público e, alentado pelo exemplo de Platão e Teodoro, aumentava sua oposição a cada dia.

O exílio durou pouco porque, na sequência de uma conspiração de palácio, o jovem Constantino foi cegado pela mãe, que assumiu sozinha o governo do império. Irene chamou de volta os exilados, que mudaram para o mosteiro urbano de Studios, juntamente com a maioria da comunidade de monges de Sakkudion. Teodoro e Platão se reconciliaram com o patriarca Tarasio que, após a chegada de Irene ao poder, havia condenado publicamente Constantino e o hegúmeno José pelo divórcio imperial.

O reinado de Irene foi breve. Em 31 de outubro de 802, um de seus ministros, Nicéforo, depois de uma revolta palaciana, proclamou-se imperador. Pouco depois, quando morreu Tarasio, o novo basileus fez eleger Patriarca de Constantinopla um alto oficial imperial também chamado Nicéforo (758-828). Em um sínodo convocado e presidido por ele, em meados do ano 806, Nicéforo reintegrou em seu ofício o hegúmeno José, deposto por Tarasio. Teodoro, que se tornara chefe da comunidade monástica de Studios após Platão se retirar para a vida de recluso, protestou energicamente contra a reabilitação do hegúmeno José, e quando este último recomeçou a exercer o ministério sacerdotal, rompeu a comunhão com o novo patriarca.

A reação não tardou. Studios foi ocupado militarmente, Platão, Teodoro e seu irmão José, Arcebispo de Tessalônica, foram presos, condenados e exilados. Em 808 o imperador convocou outro sínodo, que se reuniu em janeiro de 809. Foi essa assembléia sinodal que, em uma carta de 809 ao monge Arsênio, Teodoro definiu como “moechosynodus”, ou seja, o “Sínodo do adultério” (Ep. I, . 38, PG 99, coll. 1041-1042c). O Sínodo dos Bispos reconheceu a legitimidade do segundo casamento de Constantino, confirmou a reabilitação do hegúmeno José e anatematizou Teodoro, Platão e seu irmão José, que foi deposto de seu cargo de Arcebispo de Tessalônica.

Para justificar o divórcio do imperador, o Sínodo utilizava o princípio da “economia dos santos” (tolerância na práxis). Mas para Teodoro nenhum motivo podia justificar a transgressão de uma lei divina. Baseado nos ensinamentos de São Basílio, de São Gregório Nazianzeno e de São João Crisóstomo, ele declarou privada de fundamento bíblico a disciplina da “economia dos santos”, segundo a qual em algumas circunstâncias se podia fazer o mal em nome da tolerância para um mal menor – como neste caso do casamento adúltero do imperador.

Poucos anos depois, na guerra contra os búlgaros (25 de Julho 811), morreu o imperador Nicéforo, subindo ao trono outro funcionário imperial, Miguel I. O novo basileus chamou Teodoro de volta do exílio, tornando-o um de seus mais escutados conselheiros. Mas a paz durou pouco. No verão de 813, os búlgaros infligiram uma gravíssima derrota a Miguel I em Adrianópolis, e o exército proclamou imperador o chefe dos anatólios, Leão V, conhecido como “o Armênio” (775-820). Quando Leão depôs o patriarca Nicéforo e condenou o culto às imagens, Teodoro assumiu a liderança da resistência contra a iconoclastia. Teodoro de fato se destacou na História da Igreja não somente como adversário do “Sínodo do adultério”, mas também como um dos grandes defensores das imagens sagradas durante a segunda fase da crise iconoclasta.

Assim, no Domingo de Ramos de 815, foi possível assistir a uma procissão dos mil monges de Studios dentro de seu mosteiro, mas bem visíveis, portando os ícones sagrados e cantando solenes aclamações em sua honra. A procissão, contudo, provocou a reação da polícia. Entre 815 e 821, Teodoro foi açoitado, preso e exilado em vários lugares da Ásia Menor. Finalmente pôde voltar a Constantinopla, mas não ao seu próprio mosteiro. Então ele se estabeleceu com seus monges no outro lado do Bósforo, em Prinkipo, onde morreu em 11 de novembro 826.

O “non licet” (Mt 14, 3-11) que São João Batista opôs ao tetrarca Herodes pelo seu adultério, soou várias vezes na História da Igreja. São Teodoro Studita, um simples religioso que ousou desafiar o poder imperial e as hierarquias eclesiásticas da época, pode ser considerado um dos patronos celestes daqueles que, ainda hoje, em face das ameaças de mudança da prática católica sobre o casamento, têm a coragem de repetir um inflexível non licet.

25 agosto, 2015

A eclética Arquidiocese de São Paulo.

Dom Odilo Cardeal Pedro Scherer, arcebispo, e seu bispo-auxiliar Dom Edmar Peron, Vigário Episcopal da Região Belém (onde, no último sábado, ocorreram as ordenações tradicionalistas), abrem a arquidiocese a todos: de tradicionalistas a socialistas e sambistas.

Dom Odilo dá aval e escola de samba fará homenagem a Nossa Senhora Aparecida

Veja SP – O tabu do uso de imagens de santos em escolas de samba vai cair no Anhembi, com a bênção do arcebispo de São Paulo, o cardeal dom Odilo Scherer. Recentemente, ele deu aval à Unidos de Vila Maria para homenagear Nossa Senhora Aparecida em 2017, quando se celebram 300 anos do surgimento da santa às margens do Rio Paraíba do Sul. “É sempre melindroso levar motivos religiosos ao Carnaval. Mas a devoção à padroeira está muito ligada à cultura popular”, diz dom Odilo. Ele recomendou que buscassem a consultoria de história do Santuário de Aparecida [ndr: aqueles que fazem as lindíssimas alegorias que entram no Santuário em todas as festas importantes?…] para o enredo e designou dois padres para acompanhar os trabalhos. “Faremos um negócio de respeito”, promete o presidente da escola Adilson de Souza, que vetará nudez e citações a religiões africanas no desfile.

* * *

Premiados com Medalha “São Paulo Apóstolo” 

medalha

Destaque à premiação da socialista Luíza Erundina na categoria Testemunho Laical: “Coube ao PT em 1989, durante a gestão de Luíza Erundina como prefeita de São Paulo, o pioneirismo na implantação da prática do aborto em um hospital público: o Hospital Dr. Arthur Ribeiro de Saboya (Hospital Jabaquara)”, segundo Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz.

Confirmando ainda a tendência à esquerda da premiação, constam os nomes de Padre Júlio Lancelotti e dr. Dalmo Dallari, petistas lulo-dilmistas de carteirinha.

24 agosto, 2015

Mobilização contra a ideologia de gênero busca a defesa da vida e da família.

Nesta terça-feira, 25, ocorrerá a 2ª e final votação na Câmara Municipal de São Paulo sobre a questão de gênero.

Brasilia, 24 de Agosto de 2015 (ZENIT.org) Thácio Siqueira – Nesta terça-feira, 25, ocorrerá a 2ª e final votação na Câmara Municipal de São Paulo sobre a questão de gênero. Nesta entrevista à ZENIT, o Prof. Hermes Rodrigues Nery, Presidente da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família fala sobre a importância da sociedade estar mobilizada em favor da vida e da família.

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ZENIT: O que esperar da 2ª votação na Câmara Municipal de São Paulo sobre a questão de gênero, nesta terça-feira, dia 25?

Prof. Hermes: Ganhamos com expressiva vitória (42×2) na primeira votação, dia 11 de agosto, e penso que teremos um bom resultado, nesse sentido, rechaçando de vez a inclusão da ideologia de gênero, devido ao trabalho feito de mobilização junto aos vereadores e também a pressão inclusive nas ruas. Penso que esta mobilização se faz necessária, em todos os municípios e estados, porque a ideologia de gênero foi banida do Plano Nacional de Educação, no primeiro semestre de 2014, de maneira que qualquer tentativa em nível municipal e estadual é inconstitucional, porque as legislações locais não podem contradizer o que já foi decidido em âmbito nacional.

ZENIT: De onde vem toda essa ideologia de gênero, quem as promove?

Prof. Hermes: Na verdade, esse processo de desmonte das instituições é de longa data. Cabe lembrar, por exemplo, que os últimos escritos de Marx focaram nessa questão. E tiveram um efeito muito mais devastador do que O Capital. Ele havia percebido e começado a desenvolver a ideia de que a verdadeira revolução seria aquela que destruísse a família, que ele via como uma instituição opressora, idealizando assim uma volta ao matriarcado, que ele supunha que fosse uma sociedade libertária e que seria possível chegar a esta nova utopia. Outros autores posteriormente tomaram essas ideias da fase final da vida de Marx e aprofundaram em análises, partindo de premissas filosóficas equivocadas, teorizando sobre o assunto, para justificar o que Marx havia proposto como realmente revolucionário, estudos esses, como os de Max Horkheimer, Karl Korsch, os da Escola de Frankfurt, e tantos outros, teorizando sobre as mais perversas ideologias do séc. XX [e agora, de modo mais intenso com a ideologia de gênero], que o feminismo radical se apropriou para acentuar o processo e movimento de modificação da estrutura social, que só seria possível com uma profunda revolução cultural e antropológica, teorias essas colocada agora em prática, com força política, de modo mais acelerado, principalmente depois das conferências internacionais promovidas pela ONU, nos anos 90, para impor a agenda de destruição da cultura ocidental, com a destruição do próprio conceito de natureza humana, do direito natural, do sentido de autoridade, com “projetos de reengenharia social”, que a partir destas conferências, como explica o Dr. Jorge Scala, “se põe em marcha na tentativa de construir uma nova sociedade com bases totalmente diferentes das que conhecemos, tratando de neutralizar e anular lenta e discretamente toda visão transcendente do homem para substitui-la por um novo sistema de valores”.

ZENIT: É uma ideologia que se volta contra a realidade natural da pessoa humana…

Prof. Hermes: Para esses autores e ideólogos [a maior parte de influência marxista], “a ideia de libertação”, como ressaltou Joseph Ratzinger, “também se fundiu fortemente com a ideologia feminista. A mulher é considerada o ser oprimido por excelência; por essa razão a libertação da mulher é o núcleo de toda atividade de libertação. Aqui se ultrapassou, por assim dizer, a teologia da libertação política com uma antropológica. Não se pensa apenas na libertação dos vínculos próprios ao papel da mulher, mas na libertação da condição biológica do ser humano. Distingue-se então o fenômeno biológico da sexualidade das suas expressões históricas, às que se chama gênero, mas a revolução que se quer provocar contra toda a forma histórica da sexualidade conduz a uma revolução que também é contra as condições biológicas; já não pode haver dados naturais”. Trata-se de uma revolução tão profunda e tão global, “uma revolta contra a própria condição de criatura”, que não aceita mais nenhuma autoridade e nenhuma ordem, uma revolta anárquica, luciferina contra a condição humana, “o Homem deve ser o criador de si mesmo – uma nova edição, moderna, da velha tentativa de ser Deus, de ser como Deus”, por isso, marxismo, socialismo, comunismo, feminismo, e tantas outras ideologias sem Deus estão na raiz dessa revolta contra a família, uma “revolta metafísica”, contra os fundamentos do ser humano, “contra a sua condição e contra a criação inteira. É metafísica por contestar os fins do homem e da criação”, com reconheceu Camus, em seu livro L´Homme Revoltè.

ZENIT: Uma revolta, portanto, contra a família.

Prof. Hermes: Se a família era o âmbito natural de transmissão da autoridade [daí a sua credibilidade, validade e perdurabilidade como instituição] e dos valores humanos e cristãos, era preciso então destruir a família tradicional, e instituir um novo paradigma [com novos modelos de família], impondo a “perspectiva de gênero” como destaca Scala, com “uma visão anti-natural de sexualidade autoconstruída, a serviço do prazer”, com as ilusões dessa “sexualidade autoconstruída”, e exigindo dos governos alinhados com essa agenda [os governos e partidos de esquerda, aqui no Brasil, principalmente o do PT] ,”como ponto-chave da nova sociedade” que pretendem impor a ideologia de gênero nas escolas, e “o reconhecimento social e jurídico da homossexualidade, o pseudodireito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por parte desses casais” e por aí afora. Por isso se faz necessário toda esta mobilização em favor da família, constituída por homem e mulher, na sacralidade do matrimônio.

ZENIT: Esse também é mais um desafio no âmbito Legislação e Vida”?

Prof. Hermes: Sim. Somados a tantos outros grupos, atuando em várias frentes, também no campo legislativo é preciso estarmos atentos, levando informações aos tomadores de decisão, e buscando deliberações em favor da dignidade da pessoa humana. A lei que favorece, por exemplo, esta abominável ideologia de gênero, é lei que viola o próprio direito, se volta contra a dignidade da pessoa humana, é lei iníqua, que não favorece a vida, pelo contrário, a dificulta e até a aniquila, pois como afirma S. Tomás de Aquino, “se a vida é regulada de maneira contrária à natureza do direito, esse modo de proceder tornará a vida ainda mais difícil de viver”. Por isso, defendemos a legislação em consonância com o direito natural, na defesa da vida e da família.

24 agosto, 2015

Quando a autoridade está a serviço da impiedade.

Por Padre Rodrigo Maria

À medida em que o relativismo revolucionário avança no mundo e dentro da Igreja, podemos constatar o crescente distanciamento entre o que se prega em boa parte de nossas paróquias e dioceses e o que a Igreja sempre ensinou em seu magistério infalível.

A situação é verdadeira gritante, escandalosa, indignante…

É muito entristecedor ver leigos bons, que querem ser santos, que desejam viver a verdade do Evangelho tal como ensina a santa Igreja, serem rechaçados, humilhados e isolados por seus padres ou bispos, tratados como excêntricos, exagerados, radicais, como gente a ser evitada… é indignante ver como muitos desses padres e bispos usurpam de sua autoridade para massacrar suas ovelhas mais pequenas, execrando-as e pondo-as em ridículo publicamente pelo fato de estas quererem receber a S.S. Eucaristia de joelhos e/ou na boca.

Muitos desses senhores estufam o peito e vociferam enraivecidos mandando que se levantem os que se ajoelham para receber a Sagrada Comunhão e/ou insistem que devem receber a Sagrada Hóstia na mão. Alguns apelam para o argumento da unidade com resto da assembléia para justificar a atitude autoritária, outros acusam estes fieis de estarem ”querendo aparecer” como se fossem deuses que conhecem o íntimo dos corações… tem sido frequente muitas dessas autoridades demostrarem aversão e combater o uso do véu por parte de senhoras e jovens nas santas missas… mesmo a modéstia à qual tem aderido um número sempre maior de pessoas passou a ser alvo das críticas e oposições por parte de muitos pastores de almas. E assim tem sido com várias outras práticas de piedade às quais tem aderido nosso povo, que cada vez mais tem rejeitado esse catolicismo superficial, desfigurado pelo relativismo reinante, que desorienta e causa confusão.

O que é desconcertante nessas autoridades que combatem a piedade é a atitude conivente, quando não incentivadora, de ideias e práticas completamente incompatíveis com a Verdade do Evangelho e com o ensinamento da Igreja.

Eles não aceitam um fiel comungar de joelhos e na boca, mas dão a comunhão para mulheres com vestes imorais e sensuais, com as pernas de fora, costas peladas, parte dos peitos aparecendo… sem dizer das roupas coladas e transparentes…

São estes mesmos senhores que negam aos fiéis o direto de se ajoelharem para receber Jesus Eucarístico, mas que, desobedecendo a doutrina católica, dão a comunhão a maçons, amasiados, macumbeiros, espíritas, marxistas-comunistas, etc…

São estes que querem oprimir os fiéis sob o peso de uma autoridade esmagante para impor caprichos pessoais ou ideais contrárias ao ensinamento da Igreja , mas que não querem obedecer a mesma Igreja em matérias graves.

São esses valentes que a pretexto da ”unidade” humilham e perseguem aqueles que querem ter uma vida cristã ancorada na rica tradição católica, mas que evocando a ”diversidade” defendem um ecumenismo sem pé e sem cabeça e relativizam a doutrina católica, deturpando-a e reduzindo-a de tal forma que qualquer herege se sinta à vontade perto dela.

O povo católico que já possui ou está adquirindo um conhecimento básico de sua fé, vai percebendo a distância enorme entre a verdadeira doutrina católica ensinada pelo Magistério da Igreja e o que eles têm visto e ouvido em muitas de suas paróquias e dioceses.

Esse povo tem se sentido defraudado, negligenciado e muitas vezes combatido pelos seus próprios pastores. E na mesma proporção em que cresce neles o conhecimento da verdadeira doutrina católica cresce também o sentimento de desalento e profunda insatisfação com esse estado de coisas… mas, a opressora ”ditadura do relativismo” está tão generalizada dentro da Igreja, que parecem não terem a quem recorrer.

Os poucos padres e bispos que têm a coragem de pregar e defender a verdadeira fé católica são logo estigmatizados e rotulados de radicais, rebeldes, desobedientes, etc… pessoas contrárias à unidade. Sua honra e sua moral são atacados de todas as formas para que, uma vez desacreditados, a mensagem da qual são portadores possa também perder a credibilidade.

A situação atual é tão inusitada que aqueles revolucionários horizontalistas que sempre desprezaram a hierarquia evocam agora com voz forte a força da obediência para submeter aqueles que sempre nela acreditaram. Muitas autoridades estão usando sua posição dentro da Igreja para implodir a Igreja bem como para calar a voz e paralisar a atuação daqueles que não se alinham a esse projeto demolidor.

E antes que alguma alma imbecilizada pelo ”politicamente correto’ possa ver nessas linhas qualquer expressão de rebeldia contra a hierarquia ou incentivo ao desrespeito ou desobediência, é importante esclarecer que essas pessoas que querem viver um cristianismo autêntico são pela ordem e pela obediência e amam seus pastores e sua santa Igreja e por isso mesmo gostariam de ver seus bispos usando sua autoridade não para combater a piedade e a sadia tradição, mas sim para fazer o que a Igreja lhes manda fazer, como por exemplo: acabar com a influência e infiltração maçônica em suas dioceses e nas paróquias que as compõem; acabar com as aberrações e abusos litúrgicos (missas shows, missas de cura, missas sertanejas, missas crioulas, baterias e instrumentos de percussão nas missas, teatros, ”danças litúrgicas”, auto comunhão, etc…), suspender ou corrigir os diversos padres que têm ensinados heresias, cometido escândalos comprovados e praticado abusos na sagrada liturgia; proibir bebidas alcoólicas e shows mundanos nas festas de padroeiros e outros eventos das Igrejas.

O povo que vai se esclarecendo gostaria imensamente de ver seus padres usar sua autoridade para pregar a verdade integral do Evangelho, sem mutilação ou falsificação… gostaria de ver seus sacerdotes usar sua autoridade para impor o respeito e o decoro na casa de Deus cobrando de mulheres e homens vestes e posturas decentes que condigam com a sacralidade da casa de Deus.

Esse povo gostaria de ver e ouvir padres e bispos, que a exemplo de Cristo, falassem com autoridade, sem medo… que tivessem a coragem de pregar a verdade e sofrer as consequências de seu profetismo.

O que esse povo quer ver são padres que os conduza no estreito caminho da salvação, que antes de tudo busquem a glória de Deus e o bem eterno do rebanho que lhes foi confiado.

O que verdadeiros católicos querem ver são bispos e padres que não se acovardem diante dos lobos que buscam devorar e destruir o rebanho; que levem as pessoas a viver na graça de Deus e na santidade, que por amor ao rebanho denunciem o pecado e as situações de pecado. Que exortem as famílias a ter vida de oração, a viver na graça, a rejeitar as novelas imundas e pervertedoras, que denunciem os programas e ambientes que fazem perder a amizade e a comunhão com Deus.

Verdadeiros católicos querem ver seus pastores guiá-los na verdadeira fé, ajudando-os a perceber a coerência entre o que se professa e o que se deve viver.

Querem ver seus padres e bispos lutando pela vida contra o aborto, pela família contra a ideologia gay e de gênero, contra o petismo-comunismo-marxismo, etc…

Verdadeiros católicos querem o fim dessa absurda inversão de valores dentro da Igreja onde quem quer viver uma devota piedade e a sã doutrina tem sofrido perseguição e execração e quem adere ao relativismo revolucionário é aplaudido e premiado.

Por fim, nos resta a esperança nas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo que disse que as portas inferno não prevalecerão contra a sua Igreja.

Existem padres e bispos que querem ser fiéis a sua missão, mas em sua maior parte se sentem muito acuados, isolados e desamparados… são esses poucos padres e bispos que alimentam espiritual e doutrinariamente essas pequenas ovelhas de Deus, por isso é preciso rezar muito por estes e pedir para eles ao Espírito Santo o dom da fortaleza para que sejam sempre capazes de defender a verdade e colocar os interesses de Deus acima de qualquer outro bem, e o dom da Sabedoria para saber como agir de modo a redundar na maior Glória de Deus e no bem e salvação das ovelhas que custaram o sangue de Cristo.

Pe. Rodrigo Maria

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23 agosto, 2015

Foto da semana.

Imagens do funeral de Dom Rogelio Livieres, bispo deposto de Ciudad del Este.

Não só pai, o bispo é também filho. Na imagem, a idosa mãe vela aquele fruto de seu ventre que viu subir ao altar de Deus e chegar até o episcopado católico. Comovente são as flores com o pequeno bilhete depositado, no qual se lê: “Tu mamá” (Tua mamãe).

Por ocasião da brutal deposição, enquanto Dom Rogelio ainda estava em Roma, sua mãe foi retirada às pressas por seus familiares da residência episcopal de Ciudad del Este, onde vivia com o filho, sem ser avisada do que acabara de ocorrer, por conta de sua idade e saúde. Mais tarde, chegaria o Núncio Apostólico no Paraguai, com aparato policial, para tomar posse do bispado.

Dom Rogelio sempre dizia: “Cada ato deve ser precedido por uma invocação, uma jaculatória”. Expirou ao terminar a terceira Ave Maria do segundo mistério doloroso do Santo Rosário — contemplando a Sangrenta Flagelação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Antes, recebeu a absolvição com indulgência plenária.

Descanse em paz, Dom Rogelio.

22 agosto, 2015

Lex orandi, lex credendi.

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A “lex orandi” está sempre ligada à “lex credendi”. Dependendo do modo em que os homens rezem, bem ou mal, assim também acreditarão, bem ou mal, e se comportarão, bem ou mal. A santa liturgia é, em absoluto, o primeiro acto da nova evangelização. Se não adorarmos a Deus em espírito e verdade, se não celebrarmos a liturgia com a maior fé possível, especialmente nessa acção divina que se desenrola ao longo da missa, então não poderemos ter a inspiração e a graça necessárias para participar na evangelização. Em suma, na santa liturgia está contida a forma da evangelização, na medida em que aquela é um encontro directo com o mistério da fé que nos cabe levar às almas que Deus traz ao nosso encontro.

Ela consegue, por ela mesma, conduzir ao conhecimento dos mistérios da fé. Se a santa liturgia for celebrada de uma maneira antropocêntrica, se ela mais não for do que uma simples actividade social, não terá qualquer impacto duradouro na vida espiritual. Uma das maneiras de conduzir os homens na direcção da fé consiste em restaurar a dignidade da liturgia. Celebrar uma missa com veneração é algo que sempre atraiu os homens para o mistério da redenção. É por isso que me parece que a celebração da missa na forma extraordinária pode ter um papel muito importante no âmbito da nova evangelização, porque ela acentua a transcendência da santa liturgia. Ela sublinha a realidade da união entre o Céu e a terra que a santa liturgia quer exprimir. A acção de Cristo por meio dos sinais do sacramento, por meio dos sacerdotes, instrumentos do próprio Cristo, torna-se muito evidente na forma extraordinária. Além do mais, ela ajuda‑nos a sermos mais respeitadores no modo de celebrar a forma ordinária.

Todos vemos a necessidade dessa evangelização no mundo de hoje, que vive como se Deus não existisse. É importante que se ligue esta nova evangelização à celebração o mais cuidada possível da liturgia. Em muitas pessoas ateias ou não cristãs com quem me encontrei, pude ver que, ao travarem conhecimento com a missa na forma extraordinária, tinham a experiência de estarem realmente na presença da acção de Deus. E em seguida, esta mesma experiência veio a permitir-lhes acolherem os ensinamentos da religião. Os homens devem conseguir compreender que o sacerdote age na pessoa de Cristo. Devem poder compreender que é o próprio Cristo que desce sobre o altar para renovar o sacrifício da Cruz. Devem poder compreender que têm de unir os seus corações àquele Seu Coração que foi trespassado para os purificar do pecado, e para fazer crescer neles o amor de Deus e o amor pelo próximo. Devemos pois catequizar os homens com as realidades profundas da missa, em particular por meio da forma extraordinária do rito romano.

Palavras do Cardeal Raymond Leo Burke em entrevista a Paix Liturgique

22 agosto, 2015

Ordenações do Instituto do Bom Pastor – transmissão ao vivo.

Ordenação sacerdotal de Pedro Gubitoso e Tomás Parra e diaconal de José Luiz Zucchi e Thiago Bonifácio, ocorrendo neste instante na igreja São Paulo Apóstolo, na capital paulista.

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21 agosto, 2015

Dom Rogelio Livieres e a integração dos tradicionalistas em prol da Nova Evangelização.

Por Manoel Gonzaga Castro* – FratresInUnum.com:  Na última sexta-feira, 14 de agosto, lamentamos o falecimento de Dom Rogelio Livieres, bispo deposto de Ciudad del Este em 2014.

Clérigo da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz , do Opus Dei, Dom Rogelio logrou uma notável renovação da Igreja local a ele confiada por São João Paulo II ao longo dos 10 anos em que permaneceu à sua frente. Conforme atestam os dados publicados em seu site oficial, houve:

  • Aumento de 14 para 83 sacerdotes diocesanos;
  • Aumento de 1 para 7 capelães hospitalares;
  • Aumento de 34 para 51 paróquias;
  • Aumento de 40% para 90% das paróquias com missas diárias;
  • Aumento de 4.679 para 14.665 crismas anuais;
  • Aumento de 1257 para 6277 matrimônios anuais.
  • Aumento de 0 para 5.814 membros de adoração perpétua;
  • Aumento de 203 para 1400 presidiários atendidos espiritualmente;

Segundo parecer de seus apoiadores, esses frutos resultaram do duro combate que Dom Livieres desenvolveu contra o progressismo, corrente predominante na Igreja paraguaia. Esse combate teria ensejado, inclusive, sua deposição por Francisco sob alegação de que Dom Rogelio teria problemas de integração pastoral e de comunhão com sua igreja local — as divergências com a orientação pastoral de Jorge Mario Bergoglio vêm de longa data.

Como ratzingeriano convicto, Dom Rogelio promoveu o avanço da liturgia tradicional em sua diocese, sempre respeitando os limites da hermenêutica da reforma na continuidade em prol de uma Nova Evangelização, conforme preconizaram os últimos papas. Entre suas generosas ações nesse sentido, consta seu acolhimento ao então seminarista Edivaldo Oliveira, filho de consideração do Professor Orlando Fedeli e da atualmente viúva Sra. Ivone Fedeli, fundadores da Associação Cultural Montfort e do Colégio São Mauro.

Dom Rogelio foi a via de ordenação do Pe. Edivaldo, quando não lhe restavam mais esperanças. Uma história digna de ser relatada e que serve de exemplo a muitos, desesperançosos de chegar um dia ao sacerdócio em meio à crise pela qual passa a Igreja.

A trajetória até a ordenação

Edivaldo Oliveira nasceu em 1974 em São Paulo. Menino pobre do Parque Bristol, fez curso técnico em eletrônica na ETEC Getúlio Vargas, ocasião em que passou a frequentar a casa do Professor Fedeli no Cambuci, depois de ter sido convidado por alguns de seus colegas de curso.

Inicialmente relutante, após algumas aulas, o então jovem Edivaldo se rendeu aos argumentos do Professor Fedeli e tomou da decisão de se tornar um católico tradicionalista de linha TFPista, isto é, contrário ao Concílio Vaticano II e à reforma litúrgica pós-conciliar.

Humilde, após alguns anos trabalhando como reparador de fotocopiadoras, sentiu despertar dentro de si um grande desejo de fazer algo mais para Deus e se apresentou à Sra. Ivone Fedeli para trabalhar no então incipiente Colégio São Mauro.

Inicialmente se dedicou a serviços administrativos, mas em pouco tempo recebeu os cargos de professor de música e de catecismo, posto que assumiu por cerca de dez anos, quando, em 2009, foi tomado pelo desejo devorador da vocação sacerdotal.

O regente Edivaldo Oliveira e o Flammula Chorus, 2009

O regente Edivaldo Oliveira e o Flammula Chorus, 2009

Naquele momento, esse desejo de se tornar um sacerdote do Altíssimo tinha uma única via de realização na Montfort. Essa via era o Instituto do Bom Pastor, considerado como o único instituto no mundo a combinar a regularização canônica com o direito de rejeitar o Vaticano II e o Novus Ordo.

Dessa forma, ele partiu para França com mais três de seus alunos no Colégio São Mauro: Pedro Gubitoso, Tomás Parra e José Luiz Zucchi, que, aliás, serão ordenados sacerdotes e diácono amanhã, em São Paulo.

Diferentemente de seus alunos, o então seminarista Edivaldo não foi enviado para Courtalain, mas para a escola Angelus, do IBP, onde, deixando os estudos de lado, passou um ano realizando árduos trabalhos manuais relacionados à reforma da escola.

Após esse um ano, o então seminarista Edivaldo foi dispensado do Bom Pastor por seu superior geral, o Pe. Philippe Laguérie. Atribui-se tal dispensa ao então reitor do seminário, responsável pelo fechamento da casa do IBP no Brasil em 2008. Sem apresentar qualquer problema disciplinar, o motivo residia na desconfiança do IBP em relação a ele, tido como próximo demais do Professor Fedeli e participante ativo na crise que abalaria as relações entre os dois grupos por algum (pouco) tempo.

Retornando ao Brasil, o seminarista Edivaldo teve de lidar com a dupla dor da dispensa e do falecimento de seu pai de consideração, o Professor Fedeli.

Resiliente, começou a travar contato com o Pe. Almir de Andrade, da Fraternidade Sacerdotal São Pedro (hoje, na Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, de Campos, RJ). Esse fato causou desconforto em parte da Montfort, pois a Fraternidade São Pedro sempre tinha sido considerada pelo grupo como proscrita por não ter apoiado as sagrações episcopais de Dom Lefebvre, em 1988, e por sua não oposição ao novus ordo — fato que não impediu Pe. Almir de, à época, dar conferências em congressos da associação e celebrar Missa diversas vezes no Colégio São Mauro.

Por fim, com a ajuda do Pe. Almir e o apoio decidido da viúva Ivone Fedeli, Pe. Edivaldo partiu para o seminário de Wigratzbad, na Alemanha, onde, após o primeiro ano de espiritualidade, foi convidado a se retirar.

Dessa forma, em 2011, o seminarista Edivaldo estava de volta ao Colégio São Mauro, onde, sem deixar a batina, passou mais de um ano em amargura procurando alguma via de realizar seu chamado sacerdotal.

Quando parecia não haver mais esperanças, surgiu Dom Rogelio Livieres, indicado pelo carmelita Frei Tiago ao então seminarista Edivaldo. E esse bondoso e generoso bispo o acolheu em seu seminário em meados de 2012, depois das devidas conversações, em que Edivaldo solicitou exclusividade para apenas celebrar a Missa Tridentina depois de ordenado.

Visto que, até então, sua formação oficial como seminarista tinha se resumido a um ano de trabalhos manuais e um ano de espiritualidade, Edivaldo foi submetido a um semestre de estudos no seminário de Ciudad del Este, antes de ser ordenado diácono, em 8 dezembro de 2012.

Sua ordenação diaconal foi realizada segundo a forma extraordinária, o que não ocorria há quatro décadas na diocese de Ciudad del Este.

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Na sequência, passados mais oito meses e com um pouco mais de estudos no seminário diocesano, o diácono Edivaldo Oliveira foi ordenado sacerdote, em 17 de agosto de 2013.

A cerimônia de ordenação também ocorreu segundo a forma extraordinária, mas teve a peculiaridade de ser realizada em uma Missa Tridentina versus populum, não se sabe por qual razão, no que ela se assemelhou à forma ordinária.

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Apesar disso, esse foi um dia de grande alegria para os tradicionalistas brasileiros companheiros do Pe. Edivaldo, especialmente para a viúva Ivone Fedeli, que finalmente pôde ver seu filho ordenado depois de tantos sofrimentos.

Pe. Edivaldo é cumprimentado por sua mãe adotiva, Ivone Fedeli

Pe. Edivaldo é cumprimentado por sua mãe adotiva, Ivone Fedeli

Os então diáconos Renato Coelho e Luiz Fernando Pasquotto, assim como demais seminaristas brasileiros do IBP, auxiliaram na celebração da cerimônia.

Dois anos de apostolado do Pe. Edivaldo e sua volta ao Brasil

Uma vez ordenado, Pe. Edivaldo dividiu seu apostolado em duas frentes: uma em Ciudad del Este e outra no Brasil.

No Paraguai, graças à generosidade de amigos brasileiros, Pe. Edivaldo abriu o Centro de Estudos São Mauro, onde morava, dava cursos e celebrava a liturgia tradicional. Embora fosse padre diocesano, Dom Rogelio julgou prudente não instalar Pe. Edivaldo em uma paróquia, pois ele se recusava a participar das celebrações segundo a forma ordinária e não gozava de uma integração mais harmoniosa com o clero local devido a sua sensibilidade litúrgica — o que não foi motivo para o bispo tratá-lo mal, como fazem os ordinários atuais.

Ao mesmo tempo em que atuava no Centro São Mauro, Pe. Edivaldo procurou obter autorização para criar sua Fraternidade São Mauro, que pretendia ser um arcabouço canônico para preservação dos valores do Professor Orlando Fedeli e para o acolhimento de vocações masculinas e femininas voltadas exclusivamente para a liturgia tradicional, o que chegou a obter parcialmente, já que Dom Rogelio não preferia tal exclusividade.

É, entretanto, inegável o perseverante trabalho de integração realizado por Dom Rogelio Livieres, a fim de acomodar essa vocação sincera e verdadeira ao que a Santa Sé espera de um padre em nossos tempos, no contexto da Nova Evangelização desejada pelos Papas pós-conciliares.

Pe. Edivaldo com hábito branco da Fraternidade São Mauro e fiéis paraguaios

Pe. Edivaldo com hábito branco da Fraternidade São Mauro e fiéis paraguaios

No Brasil, por sua vez, onde passava cerca de duas semanas por mês, Pe. Edivaldo desenvolveu viagens apostólicas para São Paulo e para o nordeste, notadamente em Fortaleza. Em São Paulo, atuava juntamente ao Colégio São Mauro, sua primeira casa. Em Fortaleza, Pe. Edivaldo se dedicou a celebrar a sagrada liturgia nas principais igrejas da cidade.

Após a triste deposição de Dom Rogelio Livieres, Pe. Edivaldo julgou mais conveniente deixar seus fiéis paraguaios e voltar ao Brasil, para, junto de sua mãe de consideração, prosseguir com o projeto da Fraternidade São Mauro.

Um mês de Fraternidade São Mauro

De volta ao Brasil, Pe. Edivaldo anunciou, há pouco mais de um mês, a fundação da Fraternidade São Mauro (FSM), confirmando as informações veiculadas por Fratres in Unum, cuja sede está localizada nas cercanias do Colégio São Mauro e da Associação Cultural Montfort.

Os membros do novo instituto religioso recebem formação espiritual dada pelo Pe. Edivaldo e em aulas na Montfort, ao mesmo tempo que a formação filosófica e teológica será fornecida pelo Mosteiro de São Bento, em São Paulo, com quem a FSM teria celebrado um convênio de cooperação. Essa cooperação também se manifesta pela atuação do Pe. Edivaldo como confessor durante as missas tridentinas celebradas aos domingos no mosteiro. Consta que a FSM já recebeu inclusive vocações de Manaus.

Pe. Edivaldo Oliveira celebra Missa no Mosteiro de São Bento, 26 de julho de 2015

Pe. Edivaldo Oliveira celebra Missa no Mosteiro de São Bento, 26 de julho de 2015

Segundo membros da FSM, o Cardeal de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, teria dado seu aval à obra e permitido ao Pe. Edivaldo atuar recebendo vocações sob sua jurisdição. Pe. Edivaldo também estaria sob autorização de Dom Heinz Wilhelm Steckling, atual diocesano de Ciudad Del Este.

* * *

Por este e muitos outros casos, só temos a agradecer a Dom Rogelio por sua generosidade apostólica e que rezar para Deus todo poderoso o tenha em sua misericórdia.

* Fale com o autor: manoelgonzagacastro@gmail.com