Archive for ‘O Papa’

20 outubro, 2014

A verdadeira história deste Sínodo. Diretor, atores, auxiliares.

Novos paradigmas sobre divórcio e homossexualidade são agora especialidade da casa para os vértices da Igreja. Nada foi decidido, mas o Papa Francisco é paciente. Um historiador americano refuta a tese de “La Civiltà Cattolica”.

Por Sandro Magister | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: ROMA, 17 out 2014 – “E voltou a soprar o espírito do Concílio”, foi o que disse o cardeal filipino Luis Antonio Tagle G, uma estrela em ascensão na hierarquia mundial, bem como um historiador do Vaticano II. E é verdade. No sínodo que está prestes a terminar há muitos elementos em comum com o que aconteceu naquele grande evento.

A semelhança mais impressionante é a distância entre o sínodo real e o sínodo virtual veiculado pela mídia.

Mas existe uma semelhança ainda mais substancial. Tanto no Concílio Vaticano II como neste sínodo,  as mudanças de paradigma são o produto de uma condução meticulosa. Um protagonista do Concílio Vaticano II como o Pe. Giuseppe Dossetti – habilíssimo estrategista entre os quatro cardeais moderadores que estavam no comando da máquina conciliar – o afirmou com orgulho. Ele disse que “virou a sorte do Concílio”, graças à sua capacidade de pilotar a assembléia, algo que ele aprendeu com a sua prévia experiência política como líder do maior partido italiano.

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10 outubro, 2014

Sínodo da Família: “Hagan lío!”

Impressionante falta de clareza: depois da decisão de realizar o Sínodo amordaçando bispos, manobra que, segundo alguns observadores, foi realizada para minimizar a forte oposição que a linha Kasper-Bergoglio enfrenta dos demais padres sinodais, agora o porta-voz da Santa Sé se esquiva sobre o que deveria ser seu dever: esclarecer o que ocorre no Vaticano e eliminar confusões. O chamado do Papa Francisco aos jovens no Brasil parece ter sido acolhido no Vaticano como palavra de ordem: “Hagan lío!”. 

* * *

A entrevista em que o Papa se distancia dos “bispos conservadores”. 

Por Le Blog de Jeanne Smits | Tradução: Fratres in Unum.com – A entrevista com o papa publicada pelo jornal argentino La Nacion, em 05 de outubro, citada aqui por Riposte Catholique, merece ser abordada novamente, tanto que o diretor de LifeSiteNews pediu esclarecimentos hoje sobre o assunto, em uma conferência de imprensa sobre o sínodo extraordinário no Vaticano. Enquanto o Papa parece se distanciar dos “bispos muito conservadores”, John Henry Westen pediu um “esclarecimento”, referindo-se ao livro dos cinco cardeais em resposta às propostas do Cardeal Kasper sobre os divorciados recasados.

Resposta do padre Federico Lombardi: “Não tenho conhecimento desta entrevista, não sei absolutamente nada a respeito. Nós não a publicamos e, portanto, não tenho nada a esclarecer, pois mal a conheço”. O porta-voz do idioma inglês para o Sínodo reafirmou que, antes desta questão do LifeSiteNews, a Sala de Imprensa do Vaticano não tinha conhecimento dessa entrevista ou de seu conteúdo.

Trata-se em si de uma novidade. Que o Papa dê entrevistas sem que ninguém tome conhecimento é, no mínimo, curioso, ao que se deve acrescentar que ela foi escrita em grande parte de modo narrativo, sem que possamos saber, em certos pontos, se o jornalista reflete o pensamento do papa ou o seu próprio. O que é certo é que Joaquin Morales Solá deu à entrevista o seguinte título: “A sós com Francisco”. Houve gravação? Ele relata, entre aspas, palavras autênticas? Quem sabe!

Eis as declarações que Morales Solá atribui ao Papa, direta ou indiretamente. Em primeiro lugar, ele observa que o sínodo é apenas consultivo, que tem por tarefa principal aconselhar o papa sobre um tópico específico. O da família.

“Não espere uma definição para a próxima semana”, me disse o papa, ironicamente. “Será um sínodo longo, que durará provavelmente um ano. Eu só lhe dei agora um impulso inicial”, acrescenta. Preocupa-lhe o livro crítico a suas posições que acaba de sair, assinado por cinco cardeais, um deles muito importante? “Não — responde. Todos têm algo a acrescentar. A mim me dá até prazer discutir com bispos muito conservadores, mas bem formados intelectualmente”.

Note-se que Morales Solá atribui aqui as posições contestadas sobre a comunhão a divorciados “recasados” ao próprio Papa Francisco, e não ao cardeal Kasper. Mas daí a saber o que realmente disse o Papa, há uma grande distância.

“O papa soltou as rédeas do sínodo. “Eu fui relator do sínodo de 2001 e havia um cardeal que nos dizia o que devia ser tratado ou não. Isso não acontecerá agora. Até deleguei aos bispos a faculdade que tenho de eleger os presidentes das comissões. Eles farão a eleição, assim como dos secretários e relatores”. “Claro — aponta –, essa é a prática sinodal que me agrada. Que todos possam dizer suas opiniões com total liberdade. A liberdade é sempre muito importante. Outra coisa é o governo da Igreja. Isso está nas minhas mãos, depois das respectivas consultas”, enfatiza. Francisco é um papa bom, mas não um papa governado por outros. Isso está muito claro em sua noção de condução política ou religiosa”.

O que ele, o Papa, espera do sínodo?

“A família é um tema muito valioso, tão caro à sociedade como à Igreja!”, diz, e acrescenta: “Colocou-se muita ênfase sobre o tema dos divorciados. Um aspecto que, sem dúvida, será debatido. Mas, para mim, um problema também muito importante são os novos costumes atuais da juventude. A juventude não se casa. É uma cultura da época. Muitíssimos jovens preferem conviver sem se casar. Que deve fazer a Igreja? Expulsá-los de seu seio? Ou, ao invés, aproximar-se deles, mantê-los e tratar de lhes levar a palavra de Deus? Eu estou com esta última posição”, apontou. “O mundo mudou e a Igreja não pode se fechar em supostas interpretações do dogma. Temos que nos aproximar dos conflitos sociais, dos novos e velhos, e tratar de estender uma mão de consolo, não de estigmatização e não só de acusação”, assinala.

Breve observação. Quando os apóstolos se lançavam estradas e mar afora para espalhar a mensagem de Cristo em terras pagãs, eles, obviamente, estendiam a mão a todos ensinando o amor do próprio Jesus. Eles buscavam ser entendidos — senão, de que adianta? –, mas não desvirtuavam a mensagem porque os gentios não compartilhavam de sua cultura (para dizer o mínimo).

Também percebe-se que o Papa não diz (ou Morales Solá não o faz dizer) nada de preciso. Isso não impede de se prestar contas, nem de se questionar. Onde é que ele realmente quer ir?

8 outubro, 2014

É o Espírito Santo quem elege o Papa?

Eis como responde (com certa ironia) o então Cardeal Ratzinger.

Por Tempi | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com – Uma vez perguntaram ao futuro Papa se o Espírito Santo seria o responsável pela eleição dos Pontífices. “Eu não diria isso, no sentido de que é o Espírito Santo que faz a escolha.  Ele é um bom instrutor.”

Hoje, o semanário Avvenire publicou uma interessante resposta de Joseph Ratzinger a uma pergunta que lhe foi dirigida, em 1997, sobre a ação do Espírito Santo no Conclave.

O Espírito Santo é o responsável pela eleição do Papa? Foi o que lhe perguntaram. Ratzinger então, não deixando de lado uma certa ironia no final, respondeu: “Eu não diria isso, no sentido de que é o Espírito Santo que faz a escolha. Eu diria que o Espírito Santo não toma exatamente o controle dessa questão, mas sim, como bom instrutor que é, nos deixa muito espaço, muita liberdade, sem nos abandonar totalmente. De forma que o papel do Espírito deveria ser entendido em um sentido muito mais elástico, não como se ele ditasse em qual candidato se deve votar. Provavelmente, a única segurança que Ele oferece é que o processo não seja totalmente arruinado. Evidentemente que há exemplos demais de Papas que o Espírito Santo jamais teria escolhido”.

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7 outubro, 2014

Cardeal Rodé: “O Papa é muito de esquerda”.

O ex-prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, de origem eslovena, deu uma entrevista em que criticou Francisco por sua opinião sobre o capitalismo e a justiça social.

Março de 2009. Cardeal Rodé ordena seis novos para o Instituto Cristo Rei, na Itália.

Março de 2009. Cardeal Rodé ordena seis novos sacerdotes para o Instituto Cristo Rei, na Itália.

Por Andrea Tornielli | Tradução: Fratres in Unum.com –  O Cardeal Franc Rodé, que acaba de completar 80 anos e foi prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, deu uma entrevista à agência de imprensa nacional da Eslovênia na qual criticou o Papa Francisco. Nada relacionado ao Sínodo sobre a família ou a questões doutrinais. Antes, o que ele colocou em discussão foi outra doutrina, a social, que parece cada vez mais esquecida no mundo católico, conforme demonstrado por algumas páginas da “Evangelii gaudium”. De acordo com o cardeal esloveno, o Papa é “muito de esquerda”.

“Sem dúvida, disse Rodé -, o Papa é um gênio da comunicação. Comunica-se bem com o público, com a mídia, com fiéis”. “Uma grande vantagem – acrescentou – é que ele sempre se mostra simpático. Além disso, as suas opiniões sobre o capitalismo e a justiça social são excessivamente de esquerda. Vemos que o Papa é marcado pelo seu ambiente de origem. Na América do Sul existem grandes diferenças sociais e grandes debates sobre o assunto todos os dias. Mas essa gente fala muito e resolve poucos problemas.”

O artigo do jornal “Piccolo”, de Trieste, que reproduziu a informação da agência eslovena, recordou que o Cardeal (que viveu muitos anos na Argentina durante o regime de Tito), quando era arcebispo de Lubaina, dirigiu “a Igreja eslovena em direção a um claro modelo capitalista”. E, como todos sabem, a diocese de seu país, Maribor, sofreu uma derrocada financeira devido a investimentos muito arriscados.

6 outubro, 2014

Entrevista com Dom Fellay logo após seu encontro com o Cardeal Müller.

A pastoral deve necessariamente derivar da doutrina.

Por Dici | Tradução: Fratres in Unum.com 

mgr_fellay_1-300x206O senhor foi recebido pelo Cardeal Müller no dia 23 de setembro passado. O comunicado da sala de imprensa do Vaticano retoma os termos do comunicado de 2005, logo após o seu encontro com Bento XVI, no qual já se falava de “proceder por etapas e em um prazo razoável”, com “o desejo de chegar à plena comunhão”; – o comunicado de 2014 fala de “plena reconciliação”. Isso significa que se regressa ao ponto de partida?

Sim e não, segundo o ponto de vista no qual você se situe. Não há nada novo no sentido que temos verificado — nossos interlocutores e nós — que permanecem as divergências doutrinais que se haviam manifestado claramente com oportunidade das discussões teológicas de 2009-2011, e que, portanto, não podíamos assinar o Preâmbulo doutrinal que nos havia sido proposto pela Congregação para a Doutrina de a Fé desde 2011.

Porém, o que há de novo?

Há um novo Papa e um novo Prefeito à frente da Congregação para a Doutrina da Fé. E este encontro mostra que nem eles nem nós desejamos uma ruptura das relações: as duas partes insistem sobre a necessidade de esclarecer as questões doutrinais antes de um reconhecimento canônico. Por isso, da parte deles, as autoridades romanas reclamam a assinatura de um Preâmbulo doutrinal que, de nossa parte, não podemos firmar em razão de suas ambiguidades.

Entre as novidades encontra-se também o agravamento da crise na Igreja. Na véspera de um Sínodo sobre a família, manifestam-se críticas sérias e justificadas, da parte de vários cardeais, contra as proposições do Cardeal Kasper sobre a comunhão dos divorciados “recasados”. Desde as críticas dos cardeais Ottaviani e Bacci no Breve exame do Novus Ordo Missae, em 1969, isso não havia sido visto em Roma. Porém, o que não mudou é que as autoridades romanas continuam sem levar em conta nossas críticas do Concílio, porque lhes parece secundárias e também ilusórias, em face aos graves problemas que enfrentamos na Igreja hoje em dia. Estas autoridades comprovam claramente a crise que sacode a Igreja ao mais alto nível — agora entre cardeais —, porém não concebem que o Concílio mesmo possa ser a causa principal desta crise sem precedentes. Se parece a um diálogo de surdos.

O senhor poderia dar um exemplo concreto?

As proposições do Cardeal Kasper a favor da comunhão dos divorciados “recasados” são uma amostra do que reprovamos ao Concílio. Em seu discurso aos cardeais, no Consistório do dia 20 de fevereiro passado, ele propõe fazer novamente o que já se fez no Concílio, a saber: reafirmar a doutrina católica, oferecendo ao mesmo tempo aberturas pastorais. Em suas diversas entrevistas com os jornalistas, ele realiza esta distinção entre a doutrina e a pastoral: recorda em teoria que a doutrina não pode mudar, porém introduz a ideia que, na realidade concreta, há situações tais que a doutrina não pode ser aplicada. Então, segundo ele, somente a pastoral está em condições de encontrar soluções… em detrimento de a doutrina.

De nossa parte, reprovamos no Concílio esta distinção artificial entre a doutrina e a pastoral, porque a pastoral deve necessariamente derivar da doutrina. Graças às múltiplas aberturas pastorais se introduziram mudanças substanciais na Igreja e a doutrina se viu afetada. Isso foi o que aconteceu durante e depois do Concílio, e denunciamos a mesma estratégia utilizada agora contra a moral do matrimônio.

Acaso não houve somente mudanças pastorais no Concílio, que haviam afetado indiretamente a doutrina?

Não, nos vemos obligados a afirmar que se realizaram mudanças graves na própria doutrina: a liberdade religiosa, a colegialidade, o ecumenismo… Porém, é certo que essas mudanças aparecem de uma maneira mais clara e mais evidente em suas aplicações pastorais concretas, pois nos documentos conciliares são apresentados como simples aberturas, de maneira alusiva e com muito subentendidos… Isso faz deles, segundo a expressão de meu predecessor, o Revmo. Pe. Schmidberger, “bombas relógio”.

Nas proposições do Cardeal Kasper, onde o senhor vê uma aplicação pastoral que tornaria mais evidente uma mudança doutrinal introduzida no Concílio? Onde o senhor vê uma “bomba relógio”?

Na entrevista que concede ao vaticanista Andrea Tornielli, neste dia 18 de setembro, o Cardeal declara: “A doutrina de a Igreja não é um sistema fechado: o Concílio Vaticano II ensina que há um desenvolvimento no sentido de um possível aprofundamento. Indago-me se um aprofundamento semelhante ao que ocorreu com a eclesiologia não é possível neste caso (dos divorciados que voltaram a casar no civil, ndlr): incluindo se a Igreja católica é a verdadeira Igreja de Cristo, há elementos de eclesialidade também fora das fronteiras institucionais da Igreja católica. Em certos casos, não se poderia reconhecer igualmente em um matrimônio civil elementos do matrimonio sacramental? Por exemplo, o compromisso definitivo, o amor e o apoio mutuo, a vida cristã, o compromisso público, que não existe nas uniões de fato (i.e. as uniões livres)”.

O Cardeal Kasper é muito lógico, perfeitamente coerente: propõe que os novos princípios sobre a Igreja, que o Concílio enunciou em nome do ecumenismo — existem elementos de eclesialidade fora da Igreja—, se apliquem pastoralmente ao matrimônio. Passa logicamente do ecumenismo eclesial ao ecumenismo matrimonial. Nesse sentido, segundo ele, havia elementos do matrimônio cristão fora do sacramento. Para ver as coisas concretamente, indaga-se, pois, aos esposos, que pensariam sobre uma fidelidade conjugal “ecumênica” ou sobre uma fidelidade na diversidade! Paralelamente, o que devemos pensar de uma unidade doutrinal “ecumênica”, diversamente uma? Esta é a consequência que denunciamos, porém, que a Congregação para a Doutrina da Fé não vê ou não quer ver.

Como se deve entender a expressão do comunicado do Vaticano “proceder por etapas”?

Como o desejo recíproco, em Roma e na Fraternidade São Pio X, de manter conversações doutrinais em um marco amplio e menos formal que o dos precedentes intercâmbios.

Porém, se os intercâmbios doutrinais de 2009-2011 não aportaram nada, para que retomá-los, incluindo de maneira mais ampla?

Porque, seguindo o exemplo de Mons. Lefebvre, que nunca deixou de aceitar um convite das autoridades romanas, nós respondemos sempre a quem nos interrogam sobre as razões de nossa fidelidade à Tradição. Não podemos fugir desta obligação, e sempre a cumpriremos no espírito e com as obrigações que foram definidas no último Capítulo General.

Uma vez que o senhor mencionava a audiência que me concedeu Bento XVI em 2005, recordo que então dizia que queríamos mostrar que a Igreja seria mais forte no mundo de hoje se mantivesse a Tradição, — incluindo agregaria: se recordara com orgulho sua Tradição bimilenar. Repito hoje que queremos aportar nosso testemunho: se a Igreja quer sair da crise trágica que atravessa, a Tradição é a resposta a esta crise. Dessa maneira manifestamos nossa piedade filial para com a Roma eterna, para com a Igreja, Mãe e Mestra de verdade, a qual estamos profundamente unidos.

O senhor disse que se trata de um testemunho; não seria uma profissão de fé?

Uma coisa não exclui a outra. Nosso fundador gostava de dizer que os argumentos teológicos com os quais professamos a fé, nem sempre são compreendidos por nossos interlocutores romanos, porém, ele não nos dispensa de recordar-lhes. E, com o realismo sobrenatural que o caracterizava, Mons. Lefebvre acrescentava que as realizações concretas da Tradição: os seminários, os colégios, os priorados, o número de sacerdotes, de religiosos e religiosas, de seminaristas e fiéis… também tinham um grande valor demonstrativo. Contra esses fatos tangíveis, não há argumento especial que valha: contra factum non fit argumentum. No caso presente, se podia traduzir este adágio latino com a frase de nosso Senhor: “se julga a árvore por seus frutos”. Nesse sentido, ao mesmo tempo que professamos a fé, devemos dar testemunho a favor da vitalidade da Tradição.

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5 outubro, 2014

Foto da semana.

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Por Rádio Vaticano – A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil manteve audiência com o Papa Francisco na última terça-feira, 30/09, na Casa Santa Marta, no Vaticano. Em entrevista a RV, Dom Raymundo Damasceno Assis antecipou que foi entregue ao Papa o documento da Campanha da Fraternidade de 2015 que, de acordo com o cardeal Damasceno, “vai tratar da Igreja e da sua relação com a sociedade e é inspirado nas Constituições Pastoral e Dogmática do Concílio Vaticano II, a Gaudium et Spes e a Lumen Gentium”. Foram entregues ao Papa ainda outros documentos, entre eles um estudo da CNBB sobre a missão do leigo na Igreja e na sociedade, um documento sobre a questão agrária aprovado na última assembleia geral da CNBB além de um texto de orientação para as eleições do dia 5. Por fim, o Papa Francisco exortou a CNBB a continuar o trabalho na Amazônia de uma maneira criativa e corajosa. Dom Raymundo afirmou que “a presidência da CNBB volta deste encontro com o Papa muito animada, encorajada e fortalecida”

Nota do Fratres: Na imagem, Dom Raymundo presenteia o Papa com um objeto não identificado… de novo, mau gosto ao extremo.

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4 outubro, 2014

“Não é Francisco”: o livro de Socci sobre o Papa agita o Vaticano.

Por Libero Quotidiano | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: “A Joseph Ratzinger, um gigante da esperança”. É com essa declaração de fé e de pertença que se inicia o livro “Não é Francisco” do intelectual católico e colaborador do jornal Libero, Antonio Socci, publicado pela editora Mondadori e disponível nas livrarias a partir do dia 03 de outubro. Dedicado também aos cristãos perseguidos no Iraque, o livro já levantou polêmica antes mesmo de ter chegado às livrarias. Nada que Socci não quisesse. O objetivo, escreve ele, é levantar questões sobre pontos “tão desestabilizadores e ‘proibidos’ pelo mainstream que todos evitam dizer em público”. Não são palavras exageradas. “Quais são, na verdade- pergunta Socci-, os motivos até agora desconhecidos da renúncia histórica de Bento XVI ao papado? Alguém o forçou a se afastar? Mas, acima de tudo, foi uma renúncia verdadeira? Por que não voltou então a ser apenas um cardeal, mas permaneceu como ‘Papa Emérito’”? Socci também aborda outra questão perturbadora: se, durante o Conclave que elegeu Bergoglio foram violados – como parece – as normas da Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis.  A jornalista argentina Elisabetta Piqué, de fato, revelou que Bergoglio foi eleito na quinta votação do dia 13 de março (a sexta no total), com uma série de procedimentos que teriam violado as disposições da Constituição Apostólica, que tornavam assim “nula e sem efeito a própria eleição”. Questões graves que merecem explicações aprofundadas. Aqui, os leitores do Libero encontrarão trechos grátis tomados a partir da premissa do livro, onde Socci relata sua decepção por um papa, Francisco, que ele também tinha acolhido “com os braços abertos, como era a coisa certa a ser feita, considerando que o Papa foi legitimamente eleito.”

nonina_560x280Eu admito ter sido um dos muitos que acolheram Bergoglio –  no 13 de março de 2013 – com os braços escancarados, como era a coisa certa a ser feita, considerando que o Papa foi legitimamente eleito. E também por causa de uma série de amigos comuns (que me são muito caros), que me levaram a alimentar esperanças benevolentes pelo novo Pontífice. Cheguei a lhes comunicar com muita convicção que, entre outras coisas, ele poderia contar com as minhas orações e da minha família, e com a oferta de nossas cruzes cotidianas para o cumprimento da sua elevada missão.

Me agradava o seu estilo desapegado. Os jornais o apresentavam como o bispo que rodava por Buenos  Aires em transporte público, que morava em um apartamento modesto ao invés do palácio episcopal, que frequentava pobres bairros de periferia como um bom pai ansioso em levar aos mais desafortunados a carícia do Nazareno.

Tudo isso poderia ser uma tremenda lufada de ar fresco para o Vaticano e para toda a Igreja.

Apoiei Papa Francisco no que pude durante meses, como jornalista, na imprensa. Ele me parecia um apóstolo do confessionário, devoto de Nossa Senhora. Eu o defendi das críticas prematuras de alguns tradicionalistas e até hoje ainda continuo a achar absurdas certas polêmicas daqueles que tomam como pretexto as declarações do Papa Francisco para, na realidade, atacar o Concílio Vaticano II, Joseph Ratzinger e João Paulo II, ( …) que nenhuma responsabilidade têm pelas escolhas de Bergoglio.

A partir deste ponto de vista, me considero bem satisfeito por estar entre aqueles que Roberto De Mattei considera “os mais ferozes defensores do Concílio Vaticano II.”

Assim como o Papa Bento XVI (como João Paulo II e Paulo VI), estou convencido de que o Concílio foi um evento muito valioso. Mas sim o verdadeiro Concílio, aquele que está nos documentos e faz parte do Magistério da Igreja. Outra coisa (oposta) é o Concílio “virtual”, construído pelos meios de comunicação, ou aquele, por exemplo, que é teorizado por historiadores progressistas. (…)

Sustentar hoje que as declarações de Bergoglio a Scalfari (por exemplo), no final das contas, estão em continuidade com o Papa Bento XVI, João Paulo II e Paulo VI, ou seja, que Bergoglio “encarna a essência do Concílio Vaticano II” (De Mattei ), é um absurdo. (…).

Infelizmente, hoje eu sou um dos muitos desiludidos (um sentimento que está se espalhando cada vez mais entre os católicos, embora não publicado nos jornais). (…).

Vários cardeais haviam votado em Bergoglio com a esperança de que ele iria continuar o trabalho de renovação e purificação realizada pelo Papa Bento XVI, esperava-se que ele irrompesse na Cúria do Vaticano e (metaforicamente) a demolisse quase como pelo fogo de João Batista. Em vez disso, temos que admitir que, infelizmente, pouco ou nada foi feito (apenas algumas remoções e, em alguns casos, até mesmo injustas).

Não há problema que tenha escolhido viver na residência de ‘Santa Marta’, isso também poderia ser um sinal positivo, apesar de estar muito longe de ser apenas uma pobre cela monástica . Em um dos meus livros, eu havia chegado a sonhar com um Papa que iria viver numa paróquia do município. De qualquer modo, eu apreciei a mensagem.

Mas, depois tem o problema que é o governo dessa coisa complexa que é o Vaticano e, por exemplo, o IOR, que alguém propôs que fosse fechado, já que não está bem clara a sua utilidade para a Igreja, mas que Bergoglio até agora não fechou. Muito pelo contrário! Segundo os observadores mais informados, Bergoglio multiplicou departamentos, burocracias e despesas. (…)

Esperávamos uma onda de rigor moral contra a “sujeira” (também no âmbito eclesiástico) denunciada e combatida pelo grande Joseph Ratzinger. Mas como deveríamos interpretar o sinal dado ao mundo de frouxidão e rendição aos novos costumes sexuais da sociedade e da quebra de princípios morais e das famílias?

Como interpretar a recusa do Papa Bergoglio de se opor às questões éticas, como fizeram seus antecessores heroicamente, ou também apenas “julgar”, ou seja combater a revolução cultural dos relacionamentos afetivos que destroem qualquer relacionamento sério e deixa tantos cada vez mais solitários, infelizes e escravos dos instintos? São Paulo disse: “O homem espiritual julga todas as coisas” (1 Co 2:15), e não “quem sou eu para julgar?”.

E por que não se opor à cultura da morte que não reconhece nada de sagrado no ser humano ou à onda de anti-cristianismo e anti-humanismo que, sob diferentes bandeiras, agora permeiam o mundo? (…).

Era para ter confrontado aqueles que na Igreja jogam às urtigas a reta doutrina Católica e que, das cátedras mais poderosas, demolem o coração da fé. Ao  invés, o que se viu foi cacetadas nos bons católicos, aqueles mais ortodoxos que vivem verdadeiramente na pobreza, castidade, oração e caridade.

De fato, o Papa Bergoglio só ataca aqueles que usam “uma linguagem completamente ortodoxa” porque essa não corresponde ao Evangelho (Gaudium Evangelii n. 41). Algo jamais visto ou ouvido falar em toda a  história da Igreja.

Isso para não dizer quando o próprio Bergoglio se aventura em suas desconcertantes afirmações, do tipo “se alguém não peca então ainda não é um homem”, uma tese surpreendente em que nem se dá por conta de estar negando a humanidade de Jesus e Maria, que foram isentos do pecado, e por causa disso são os modelos do ideal supremo para o homem e a mulher.

Ou quando ele erroneamente atribuiu a São Paulo a frase “Eu me glorio dos meus pecados” (Homilia em Santa Marta, 04 de setembro de 2014), algo enorme sobre o qual o site do Vaticano www.news.va chegou mesmo a elaborar um título: “Por que vangloriar-se dos pecados”. Evidentemente, que tanto no  Vaticano, como em Santa Marta, em particular, se desconhece o que São Tomás de Aquino diz: “É pecado mortal quando alguém se vangloria de coisas que ofendem a glória de Deus”.

Esperava-se que ele socorresse as vítimas mais indefesas e desarmadas nas periferias mais remotas do mundo, ao invés, eu me recordo -com dor- que o Papa Bergoglio obstinadamente evitou levantar a voz, no verão de 2014, em prol dos cristãos massacrados pelo Califado Islâmico no Norte do Iraque, limitando-se apenas a fazer algumas declarações, sem jamais proferir um discurso vibrante (como aqueles que ele fez quando se tratava de temas politicamente corretos [nota do Fratres: como em Lampedusa]) ou um vigoroso apelo à comunidade internacional para que interviesse e desarmasse os carnífices e protegesse os indefesos massacrados.

Jamais esse Papa se voltou contra o mundo islâmico que, geralmente, humilha toda minoria, nunca uma reação contra o terrorismo islâmico, jamais pediu explicitamente uma “intervenção humanitária” (concebida especialmente por João Paulo II) que desarmasse, mesmo pela força, os carnífices e impedisse os massacres como lhe imploravam os bispos do Iraque.

E quantos patriarcas gritaram alto para que suas próprias comunidades fossem defendidas pela força do massacre iminente e fizeram uma crítica explícita à relutância do Papa pedindo-lhe para “usar sua influência de forma mais ousada na defesa dos cristãos iraquianos”.

Mas Bergoglio foi cauteloso e reticente, fazendo de tudo para não se expor. Será que estamos realmente seguros que, de frente à tragédia dos cristãos (e outras minorias) no Iraque ele não poderia assumir um comportamento mais decisivos como de seus antecessores ou como ele faz quando se trata de outras questões? (…).

Não vi sequer uma obra de verdadeira sensibilização de toda a Igreja, que mobilizasse todos à oração, que prescrevesse vigílias, novenas, jejum (estas são as armas dos cristãos) e um grande auxílio humanitário. Que contra-indicações poderiam haver para isso? Não existem, realmente.

Era necessário que se desse conforto e ajuda concreta a tantos cristãos perseguidos, humilhados, presos, mortos, massacrados, mas o papa Bergoglio, ao invés, continuou a confiar num diálogo sem condições e sem precauções, expondo-se a incidentes dolorosos como aquele de 8 de Junho de 2014, quando convidou para rezar no Vaticano, entre outros, um imã,  que ali, no solo banhado pelo sangue de tantos mártires cristãos, ignorando os discursos previamente acertados, invocou Alah para que ajude os muçulmanos a esmagar os infiéis (“dá-nos a vitória sobre os incrédulos”). (…).

Era necessário que se dissesse pelo menos uma palavra de conforto em defesa das jovens mães – como Meriam ou Asia Bibi – condenadas à morte em regimes islâmicos por sua fé cristã, ou, pelo menos se podia pedir que se orasse [publicamente] por elas, algo que o Papa Francisco nunca fez. Ele nem sequer respondeu ao apelo que lhe foi enviado por Asia Bibi, enquanto escreveu pessoalmente uma longa mensagem de saudação aos muçulmanos que jejuavam pelo o Ramadã desejando-lhes que esse possa trazê-los “abundantes frutos espirituais”. (…).

Depois viemos a descobrir que na época em que Bento XVI pronunciou o famoso discurso de Regensburg (aquele que entrou para a história por ter irritado os muçulmanos), o porta-voz do então Cardeal Bergoglio, Arcebispo de Buenos Aires, criticou publicamente o papa Ratzinger. Newsweek publicou suas palavras, sob o título: “A Arquidiocese de Buenos Aires contra Bento XVI.”

O tal porta-voz depois de algum tempo foi dispensado de suas funções, mas muitos se perguntam se e quando houve um repúdio público do que foi dito pelo bispo Bergoglio e seu apoio aberto ao discurso de Ratzinger em Regensburg. (…).

À luz desses fatos, explica-se o comportamento do atual Papa Francisco para com o Islã e os islamitas do Califado do Iraque (carrascos de cristãos e outras minorias).

Bergoglio, sempre tão crítico com os católicos, não se opõe jamais nem menos contra o lobby secularista sobre temas como vida, sexo, gênero, enfim, os princípios não-negociáveis que o Papa Bento identificou como os pilares da “ditadura do relativismo”. (…).

Era e é necessário acender uma luz para uma geração que foi jogada na escuridão do niilismo, que já não consegue sequer distinguir o bem do mal, porque lhes foi ensinado que tal distinção não existe e que todo mundo pode fazer o que quiser. Infelizmente, papa Bergoglio corre o risco de deixar-se levar por essa trágica corrente já que foi ele mesmo que disse que “cada um tem sua própria idéia do bem e do mal” e “nós devemos incitá-lo a proceder em direção ao que ele pensa que seja bom.”

Havia e há a necessidade de anunciar Cristo, nossa esperança e verdadeira felicidade na vida, a uma geração que não sabe nem menos quem é Jesus e que não sabe o que fazer da sua juventude e existência. E ela corre o risco de ser enganada ao ouvir do Papa Bergoglio que “o proselitismo é um absurdo solene” e que ele não tem “nenhuma intenção” de converter os seus interlocutores.

É claro que ele tem razão quando lembra que o cristianismo é comunicado “por atração”, mas o zelo missionário nos foi testemunhado pelos santos e “proselitismo” é o mandamento de Jesus aos seus apóstolos: “Ide, portanto, fazei discípulos entre todas as nações , batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado “(Mt 28,19-20).

Não é possível esquecer o preceito evangélico que indica a verdadeira, a grande tarefa da vida, apenas para receber os aplausos dos ricos, poderosos esnobes e anti-católicos do jornal La Repubblica, o que faz com que agora muitos se alegrem ao dizer que finalmente que temos um Papa “scalfariano.”

Há uma grande necessidade de levar a carícia do Nazareno a quem está sozinho, doente, sofrendo ou no desespero e é muito doloroso ver “cancelada” de última hora a visita do Papa ao hospital Gemelli com pessoas doentes esperando sob o sol (cujas feridas são as chagas de Cristo), enquanto ele facilmente encontra horas para se dedicar a Scalfari, ou para telefonar a Maradona  ou Marco Pannella e ir pessoalmente a Caserta apenas para se encontrar com o amigo pastor protestante. (…)

Bergoglio – de acordo com seus fãs  mais ardorosos – seria um revolucionário que visa subverter a Igreja Católica, eliminando os dogmas da fé e jogando às urtigas séculos de magistério.

O que significaria tudo isso? Se for verdade, a Igreja estaria à beira de uma explosão dramática. É assim mesmo? Vai negá-lo Padre Bergoglio? Quer tomar de volta aquela estrada, onde um dia, um jovem (ele mesmo o disse certa vez e me comoveu), encontrou os olhos de Jesus? Vai querer buscar novamente aquele olhar e Nele encontrar todos nós?

Antonio Socci

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1 outubro, 2014

“O Papa não tem laringite”.

O Cardeal Burke, prefeito da Assinatura Apostólica, critica duramente o cardeal Kasper. Usa adjetivos como “ultrajante” e “enganador” para definir as declarações de seu colega. “Acho engraçado que o Cardeal Kasper afirme falar em nome do Papa. O Papa não tem laringite”

Por Marco Tosatti – La Stampa | Tradução: Fratres in Unum.com – O Prefeito da Assinatura Apostólica, o mais alto tribunal da Igreja, o Cardeal norte-americano Raymond Leo Burke, chamou de “ultrajante” que o Cardeal Kasper insinue que a crítica às suas propostas (de Kasper) sobre a comunhão para divorciados recasados seriam direcionadas ao Papa.

Burke e Bento.

Burke e Bento.

Burke, homem sem papas na língua, falou em uma conferência organizada pela Ignatius Press, grande editora americana religiosa, que hoje lançará no mercado vários livros em vista do Sínodo dos Bispos sobre a família, que será aberto em Roma na manhã de domingo.

“Acho engraçado que o Cardeal Kasper afirme falar em nome do Papa. O Papa não tem laringite”, disse Burke, falando do livro assinado por ele e por outros cardeais e especialistas no assunto para se opor à proposta de Kasper de dar a comunhão para divorciados recasados. Burke disse que Kasper “estava errado”, porque a indissolubilidade do matrimônio “é baseada nas palavras claras de Jesus Cristo e não pode ser mudada”.

Padre Joseph Fessio, jesuíta e responsável pela Ignatius Press, se perguntou se o Papa não havia encorajado a discussão sobre a proposta de Kasper, de modo a chamar a atenção para o problema e, por fim, reafirmar o ensinamento da Igreja. Questionou se “o Santo Padre astutamente não procurou mexer num cacho de abelha” em vista do Sínodo.

Em resposta a uma declaração de Kasper, segundo a qual a sua proposta prevê uma mudança na disciplina, e não a doutrina da Igreja, Burke argumenta que é um “argumento muito enganador”. “Não pode haver uma disciplina na Igreja que não esteja a serviço da doutrina”.

30 setembro, 2014

Os bastidores da nomeação de Chicago.

Como sucessor do Cardeal George, grande inspirador da atual orientação da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, o Papa Francisco nomeou um bispo de orientação oposta. Eis aqui como e por quê. 

Por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com – Cidade do Vaticano, 30 de setembro de 2014 – Enquanto ainda atordoado pela notícia da iminente remoção do Cardeal Raymond Leo Burke, o catolicismo mais conservador e tradicionalista dos Estados Unidos — e historicamente mais “papista” — sofreu um posterior golpe com a nomeação do novo arcebispo de Chicago.

A decisão de Francisco de eleger a Blase Joseph Cupich (na foto, à direita) como novo pastor da terceira diocese dos Estados Unidos submergiu em profunda depressão a este componente particularmente dinâmico do catolicismo norte-americano, quase à beira de um ataque de nervos. Basta percorrer as reações das páginas na internet e dos blogueiros daquela região do mundo para registrar o ofuscamento e a contrariedade pela nomeação.

Pelo contrário, a parte mais progressista do catolicismo americano, historicamente super crítica aos últimos pontificados, celebrou com entusiasmo a chegada de Cupich, definido pela imprensa laica como um “moderado”, qualificação recorrente nos Estados Unidos para assinalar um “liberal” não radical, mas ainda assim um “liberal”.

22 setembro, 2014

Bispo de Roma enquanto Papa.

Por Roberto de Mattei - Messa in Latino |Tradução: Alexandre Semedo – Fratres in Unum.com - Bispo de Roma enquanto Papa, ou o Papa enquanto Bispo de Roma? O primeiro título do Papa, Bispo de Roma, lembra a origem da eleição papal, que ocorre pelos cardeais representantes do clero romano, e indica que o Pastor universal é o Bispo da Igreja local de Roma. Mas o eleito torna-se bispo de Roma porque se tornou Papa; não se torna Papa porque eleito Bispo e Roma. Isto é evidenciado pelo fato de que um simples sacerdote ou até mesmo um leigo poderiam ser eleitos Papas. Pio XII explica que uma pessoa leiga, em caso de sua eleição ao pontificado supremo, poderia aceitar a nomeação, se aceitar ser ordenado bispo, mas, cumprida esta condição, “o poder de ensinar, governar e também o carisma da infalibilidade, ser-lhe-iam concedidos imediatamente, a partir do momento da sua aceitação, mesmo antes de sua ordenação” (Discurso ao II Congresso Mundial do Apostolado Leigo de 5 de Outubro de 1957, em Discursos e Rádio, XIX, p. 457-458).

O exercício do poder supremo de governo, mesmo antes da consagração episcopal, recebido após a eleição, por Papas que não são bispos ou nem mesmo sacerdotes, nunca foi contestado. Basta lembrar o caso de Bonifácio VIII, que, durante o mês decorrido entre sua eleição e sua consagração, cancelou todas as nomeações feitas por seus dois antecessores, Nicolau IV e Celestino V. Talvez o exemplo mais significativo é o de Adriano V, que, entre julho e agosto de 1.276, reinou apenas 38 dias, sendo apenas um diácono. Ninguém jamais contestou a validade dos atos com os quais, neste curto período, exerceu sua autoridade papal. As fontes históricas dizem especificamente dele, vixit in (Pontificato) Papatu 35 (38) dias. Alguns dos maiores papas da história da Igreja, como São Gregório Magno, São Gregório VII e Inocêncio III, foram ordenados bispos somente após a sua eleição para o Papado; mas desde o primeiro momento da sua aceitação foram considerados Papas. Após o século XVI, oito Papas receberam o episcopado após a sua eleição: Pio III, Leão X, Marcelo II, Clemente VIII, Clemente XI, Pio VI e Gregório XVI. A tradição e a prática da Igreja nos ensinam, portanto, que quem for eleito papa, embora simples leigo ou sacerdote, deve ser consagrado bispo o mais rápido possível, porque o Papa é o Bispo de Roma. Mas não é a consagração episcopal que lhe confere o Papado. Este erro se tornou comum nas últimas décadas, graças à nova eclesiologia progressiva.

Roberto de Mattei.