Archive for ‘O Papa’

4 março, 2015

A filial resistência de São Bruno de Segni ao Papa Pascoal II.

Por Roberto de Mattei | Tradução: Fratres in Unum.com – Entre os mais ilustres protagonistas da reforma da Igreja nos séculos XI e XII, destaca-se a figura de São Bruno, bispo de Segni e abade de Monte Cassino.

Bruno nasceu em torno do ano 1045 em Solero, perto de Asti, no Piemonte. Depois de ter estudado em Bolonha, foi ordenado sacerdote no clero romano e aderiu com entusiasmo à reforma gregoriana. O Papa São Gregório VII (1073-1085) nomeou-o bispo de Segni e o teve entre os seus mais fiéis colaboradores. Também seus sucessores Vitor III (1086-1087) e Urbano II (1088-1089) valeram-se da colaboração do bispo de Segni, que unia aos seus trabalhos de estudioso um intrépido zelo apostólico em defesa do Primado romano.

Bruno participou dos concílios de Piacenza e de Clermont — no qual Urbano II convocou a primeira Cruzada — e mais tarde foi legado da Santa Sé na França e na Sicília. Em 1107, sob o novo Pontífice Pasqual II (1099-1118), tornou-se abade de Monte Cassino, cargo que fazia dele uma das personalidades eclesiásticas mais destacadas de seu tempo. Grande teólogo e exegeta, resplandecente pela doutrina, como escreve em seus Anais o cardeal Barônio (tomo XI, ano 1079), é considerado um dos melhores comentadores medievais das Sagradas Escrituras (Réginald Grégoire,  Bruno de Segni, exégète médiéval et théologien monastique, Centro Italiano di Studi sull’Alto Medioevo, Spoleto, 1965).

Sua época foi cheia de choques políticos e de profunda crise espiritual e moral. Na obra De Simoniacis, Bruno oferece-nos uma imagem dramática das deturpações da Igreja de seu tempo. Já no tempo do Papa São Leão IX (1049-1054) “mundus totus in maligno positus erat (todo o mundo estava sob o poder do maligno): não havia mais santidade; a justiça estava em decadência e a verdade sepultada. Reinava a iniquidade, dominava a avareza; Simão o Mago possuía a Igreja, os Bispos e os sacerdotes entregavam-se à volúpia e à fornicação. Os sacerdotes não se envergonhavam de tomar mulher, de abertamente contrair núpcias e matrimônios nefandos. (…) Tal era a Igreja, tais eram os Bispos e os sacerdotes, tais foram alguns dos Romanos Pontífices” (cf. S. Leonis papae Vita in Patrologia Latina (PL), vol. 165, col. 110).

No âmago da crise, além do problema da simonia e do concubinato dos sacerdotes, havia a questão da investidura dos bispos. O Dictatus Papae, com o qual, em 1075, São Gregório VII havia reafirmado os direitos da Igreja contra as pretensões imperiais, constituiu a magna carta à qual apelavam Vítor III e Urbano II. Mas Pascoal II abandonou a posição intransigente de seus predecessores e tentou de todas as maneiras um acordo com o futuro imperador Henrique V. No começo de fevereiro de 1111, em Sutri, ele pediu ao soberano alemão que renunciasse ao direito de investidura, oferecendo-lhe em troca a renúncia da Igreja a todos os direitos e bens temporais. As negociações esvaneceram-se como fumaça e, cedendo às intimidações do imperador, Pascoal II aceitou um compromisso humilhante, assinado em Ponte Mammolo, em 12 de abril de 1111. O Papa concedia a Henrique V o privilégio da investidura dos bispos, antes mesmo da sagração pontifícia, com o anel e o báculo que simbolizavam tanto o poder temporal quanto o espiritual, prometendo ao soberano de jamais excomungá-lo. Pascoal coroou então Henrique V em São Pedro.

Essa concessão levantou uma multidão de protestos na Cristandade, porque contrariava a posição de São Gregório VII. O abade de Monte Cassino, segundo o Chronicon Cassinense (PL, vol. 173, col. 868 C-D), protestou com força contra o que ele então definiu não como um privilegium, mas um pravilegium [NdT: jogo de palavras contrapondo um privilégio legítimo ao favorecimento do mal – pravus], e promoveu um movimento de resistência ao lapso papal. Numa carta endereçada a Pedro, bispo de Porto, ele definiu o tratado de Ponte Mammolo como “heresia”, apelando para as determinações de muitos concílios: “Quem defende a heresia – escreve – é herético. Ninguém pode dizer que essa não é uma heresia” (Carta Audivimus quod, in PL, vol. 165, col.1139 B).

Dirigindo-se depois diretamente ao Papa, Bruno afirma: “Os meus inimigos vos dizem que eu não vos amo e que falo de vós pelas costas, mas eles mentem. Eu de fato vos amo, como devo amar a um Pai e senhor. Enquanto estiverdes vivo, não quero ter outro pontífice, como vos prometi, junto a muitos outros. Escuto porém Nosso Salvador que me diz: ‘Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim’ (Mt. 10-37). (…) Devo portanto amar-vos, mas devo amar ainda mais Aquele que criou a vós e a mim”. Com o mesmo tom de filial franqueza, Bruno convidava o Papa a condenar a heresia, porque “quem defende a heresia é herético” (Carta Inimici mei, in PL, vol. 163, col. 463 A-D).

Pascoal não tolerou essa voz de dissensão e destituiu Bruno do cargo de abade de Monte Cassino. Mas o exemplo de São Bruno motivou muitos outros prelados a pedirem com insistência ao Papa que revogasse o pravilegium. Alguns anos mais tarde, num Concílio que se reuniu no Palácio de Latrão, em março de 1116, Pascoal II retratou o acordo de Ponte Mammolo. O mesmo Sínodo lateranense condenou a visão pauperista da Igreja, expressa no acordo de Sutri. A concordata de Worms, de 1122, entre Henrique V e o Papa Calixto II (1119-1124), encerrou – pelo menos temporariamente – a questão das investiduras. Bruno morreu em 18 de julho de 1123. Seu corpo foi sepultado na catedral de Segni e, pela sua intercessão, houve a seguir muitos milagres. Em 1181, ou, mais provavelmente, em 1183, o Papa Lúcio III colocou-o entre os santos.

Alguém poderá objetar que Pascoal II (como mais tarde João XXII, na questão da visão beatífica) não incorreu jamais em heresia formal. Mas esse não é o cerne do problema. Na Idade Média o termo heresia era empregado em sentido amplo. Depois do Concílio de Trento, a linguagem teológica tornou-se mais precisa, introduzindo distinções entre proposições heréticas, próximas da heresia, errôneas, escandalosas, etc.

Não vem ao caso, aqui, definir a natureza das censuras teológicas aplicáveis aos erros de Pascoal II e João XXII, mas analisar a liceidade de se resistir a tais erros, os quais certamente não correspondiam a sentenças pronunciadas ex cathedra. A teologia e a história nos ensinam que, se uma declaração do Sumo Pontífice contém elementos censuráveis no plano doutrinário, é lícito — e pode até ser obrigatório — criticá-la, mesmo que não se trate de uma heresia formal, expressa solenemente. Foi o que fizeram São Bruno de Segni contra Pascoal II e os dominicanos do século XIV contra João XXII. Com sua atitude, eles não erraram, mas os Papas daqueles tempos, os quais aliás se retrataram antes de morrer.

Além disso, aqueles que com mais firmeza resistiram aos Papas que se desviavam da Fé foram precisamente os mais ardentes defensores da supremacia do Papado. Os prelados oportunistas e servis da época adaptaram-se ao flutuar dos homens e dos acontecimentos, antepondo a pessoa do Papa ao Magistério da Igreja. Bruno de Segni, nas pegadas de outros campeões da ortodoxia católica, antepôs, pelo contrário, a fé de Pedro à pessoa de Pedro e redarguiu a Pascoal II com a mesma firmeza respeitosa com que Paulo resistiu a Pedro (Gál. 2, 11-14).

Em seu comentário exegético de Mt. 16, 18, São Bruno explica que o fundamento da Igreja não é Pedro, mas a fé cristã confessada por Pedro. Cristo afirma, de fato, que Ele edificará a sua Igreja não sobre a pessoa de Pedro, mas sobre a fé que Pedro manifestou dizendo: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A esta profissão de fé, Jesus responde: “É sobre esta pedra e sobre esta fé que edificarei a minha Igreja” (Comment.. in Matth., Pars III, cap. XVI, in PL, vol. 165, col. 213).

Elevando Bruno de Segni à honra dos altares, a Igreja chancelou a sua doutrina e o seu comportamento.

3 março, 2015

O caso do desaparecimento do prefácio de Bento XVI.

Por Katholisches.info | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com: (Roma) Os defensores da doutrina católica sobre o matrimônio e a família atualmente  estão enfrentando tempos difíceis. Os editores que publicaram livros em defesa do sacramento do matrimônio estão sendo pressionados. Os livros em defesa do matrimônio e da moral católica que estavam a caminho do Sínodo no Vaticano desapareceram. Ataques públicos contra os cardeais que se opõem à proposta de Kasper, aprovada pelo Papa Francisco, são desferidos para prejudicar-lhes a reputação. Demissões e destituições estão ocorrendo.

Onde está o prefácio?

Onde está o prefácio?

Não se pode dizer facilmente em que proporção isso está acontecendo por obediência antecipada ou por ordem direta de instâncias superiores. Contudo, muitos indícios apontam para um firme centro de comando ao redor do Papa Francisco. Há um objetivo em mente e é preciso alcançá-lo em outubro de 2015. Nos bastidores, a rica igreja alemã aumentou sua pressão sobre RomaO Cardeal Reinhard Marx mandou o recado de que a Alemanha pode mudar a prática da Igreja por si caso Roma reverta o Sínodo novamente, como fez em outubro de 2014. Será que Marx é uma sombra do Papa em Munique? Na Roma argentina, estão querendo pegar – se não fosse pelos incômodos “conservadores” – aqueles que não querem acompanhar o progresso.

Dentre eles encontra-se o cardeal africano Robert Sarah. Recentemente, a editora francesa Fayard lançou um livro-entrevista com o Cardeal Sarah. Nele encontramos a seguinte afirmação: “A ideia de deixar o Magistério em uma bela caixa e assim separá-lo da prática pastoral, e, em seguida, dependendo das circunstâncias, desenvolvê-lo de acordo com as modas e paixões, é uma forma de heresia, de esquizofrenia patológica. Afirmo solenemente que a Igreja da África se oporá a qualquer forma de rebelião contra o Magistério de Cristo e da Igreja.”

Um livro com um enigma

Um livro que oferece um enigma. A editora o anunciou com um “Prefácio do Papa Emérito Bento XVI”, e o nome de  Bento XVI foi publicado na capa do livro (veja a foto acima), mas ele sumiu. O livro foi publicado sem o prefácio. “Muito possivelmente, Bento XVI escreveu um prefácio para o livro; caso contrário, a página de título não seria concebida com esse aviso, que poderia ser usado para fins publicitários”, disse [o blog francês] Benoit et moi . O porquê da retirada do prefácio segue sendo um mistério. “Que ideias politicamente corretas ganharam a última palavra na editora Fayard para considerar imprudente a publicação de um prefácio do Papa Emérito em um novo livro?”, indagou Benoit et moi, esperançoso de que o Cardeal Sarah divulguasse o prefácio escrito por Bento XVI.

As razões para a retirada do prefácio, obviamente, não devem recair sobre a editora francesa. Por enquanto, o que temos é a suspeita de pressão e intimidação contra aqueles que defendem a doutrina e a ordem católica, para que essa defesa seja denunciada como “ataques” contra o Papa.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

O Cardeal Sarah atuou por 22 anos como arcebispo de Conakry, na Guiné. Ele sabe como lidar com situações difíceis sem se exasperar de imediato. Seu predecessor fora encarcerado por nove anos pelos comunistas que na época governavam a Guiné. Em 2001, o Papa João Paulo II o chamou a Roma e o designou Secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos. Em 2010, o Papa Bento XVI o nomeou Presidente do Pontifício Conselho Cor Unum e o criou cardeal no mesmo ano. Ao final de 2014, o Papa Francisco o nomeou como o novo Prefeito da Congregação para o Culto Divino. Na busca de um sucessor para o ratzingeriano Cardeal Cañizares, pesaram sua origem e dedicação no contexto das obras de caridade da Igreja a favor dos africanos. O fator determinante parece ter sido que após a gafe verbal do Cardeal Walter Kasper durante o Sínodo, o Papa Francisco esforçou-se para fazer gestos de boa vontade em relação à África. Desde então, a Presidência do Pontifício Conselho Cor Unum está vacante, o que facilita a fusão proposta dos Conselhos Pontifícios como parte da reforma da Cúria.

10 fevereiro, 2015

Burke resiste. E confirma o que disse.

O que o Cardeal Burke realmente disse sobre “resistir” ao Papa Francisco.

“Eu simplesmente afirmei que é sempre o meu sagrado dever defender a verdade do ensinamento e da disciplina da Igreja a respeito do matrimônio”, declarou o Cardeal Burke a CNA ontem, 9 de fevereiro.

“Nenhuma autoridade pode me dispensar dessa responsabilidade e, portanto, se qualquer autoridade, mesmo a mais elevada, negar ou agir contra essa verdade, eu seria obrigado a resistir, em fidelidade à minha responsabilidade perante Deus”.

O Cardeal Burke disse que sua entrevista ao canal de televisão francês France 2, transmitida em 8 de fevereiro, foi “fielmente relatada” quanto à questão e à resposta sobre resistir ao Papa Francisco.

Segundo uma transcrição da entrevista divulgada no blog Rorate Caeli, o cardeal enfatizou a necessidade de prestar bastante atenção ao poder do múnus do papado conforme o entendimento católico. O poder papal “está a serviço da doutrina da fé”, explicou”, “e, assim, o Papa não tem o poder de mudar o ensinamento, a doutrina”.

A jornalista então perguntou: “De um modo um tanto provocativo, podemos dizer que o verdadeiro guardião da doutrina é o senhor, e não o Papa Francisco?”

“Nós devemos, deixemos de lado a questão do Papa”, respondeu o cardeal. “Em nossa fé, é a verdade da doutrina que nos guia”.

“Se o Papa Francisco insistir neste caminho, o que o senhor faria?”, perguntou a entrevistadora.

“Resistirei. Não posso fazer outra coisa”, afirmou.

A declaração do cardeal sobre resistir atraiu grande atenção.

O Cardeal Burke continuou afirmando à France 2 que o a Igreja Católica está enfrentando “um tempo difícil” que é “doloroso” e “preocupante”.

Ao mesmo tempo, quando questionado se a Igreja enquanto instituição estava em perigo, ele manifestou confiança.

“O Senhor nos assegurou, como assegurou a São Pedro no Evangelho, que as forças do mal não prevalecerão — ‘non praevalebunt’, como dizemos em latim. Que as forças do mal não alcançarão, digamos assim, a vitória sobre a Igreja”.

Perguntando se o Papa Francisco é seu amigo, o cardeal respondeu: “Eu não gostaria de fazer do Papa um inimigo, certamente!”.

O Cardeal, arcebispo emérito de Saint Louis, trabalho de 2008 a 2014 como Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, efetivamente a suprema corte da Igreja Católica. Ele também esteve na Congregação para os Bispos por vários anos.

O Papa Francisco o removeu de suas funções da cúria e o designou como Patrono da Soberana Ordem Militar de Malta, uma instituição de 900 anos focada na defesa da fé e no cuidado aos pobres. A ordem está presente em 120 países, com 13 mil membros e 80 mil voluntários.

Burke foi um protagonista durante o Sínodo Extraordinário sobre a Família realizado em outubro de 2014. À época, ele declarou a CNA que grande parte da mídia apresentou de modo impreciso o Papa Francisco como sempre favorável à permissão da distribuição da Sagrada Comunhão a divorciados recasados, bem como outras propostas.

20 outubro, 2014

A verdadeira história deste Sínodo. Diretor, atores, auxiliares.

Novos paradigmas sobre divórcio e homossexualidade são agora especialidade da casa para os vértices da Igreja. Nada foi decidido, mas o Papa Francisco é paciente. Um historiador americano refuta a tese de “La Civiltà Cattolica”.

Por Sandro Magister | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: ROMA, 17 out 2014 – “E voltou a soprar o espírito do Concílio”, foi o que disse o cardeal filipino Luis Antonio Tagle G, uma estrela em ascensão na hierarquia mundial, bem como um historiador do Vaticano II. E é verdade. No sínodo que está prestes a terminar há muitos elementos em comum com o que aconteceu naquele grande evento.

A semelhança mais impressionante é a distância entre o sínodo real e o sínodo virtual veiculado pela mídia.

Mas existe uma semelhança ainda mais substancial. Tanto no Concílio Vaticano II como neste sínodo,  as mudanças de paradigma são o produto de uma condução meticulosa. Um protagonista do Concílio Vaticano II como o Pe. Giuseppe Dossetti – habilíssimo estrategista entre os quatro cardeais moderadores que estavam no comando da máquina conciliar – o afirmou com orgulho. Ele disse que “virou a sorte do Concílio”, graças à sua capacidade de pilotar a assembléia, algo que ele aprendeu com a sua prévia experiência política como líder do maior partido italiano.

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10 outubro, 2014

Sínodo da Família: “Hagan lío!”

Impressionante falta de clareza: depois da decisão de realizar o Sínodo amordaçando bispos, manobra que, segundo alguns observadores, foi realizada para minimizar a forte oposição que a linha Kasper-Bergoglio enfrenta dos demais padres sinodais, agora o porta-voz da Santa Sé se esquiva sobre o que deveria ser seu dever: esclarecer o que ocorre no Vaticano e eliminar confusões. O chamado do Papa Francisco aos jovens no Brasil parece ter sido acolhido no Vaticano como palavra de ordem: “Hagan lío!”. 

* * *

A entrevista em que o Papa se distancia dos “bispos conservadores”. 

Por Le Blog de Jeanne Smits | Tradução: Fratres in Unum.com – A entrevista com o papa publicada pelo jornal argentino La Nacion, em 05 de outubro, citada aqui por Riposte Catholique, merece ser abordada novamente, tanto que o diretor de LifeSiteNews pediu esclarecimentos hoje sobre o assunto, em uma conferência de imprensa sobre o sínodo extraordinário no Vaticano. Enquanto o Papa parece se distanciar dos “bispos muito conservadores”, John Henry Westen pediu um “esclarecimento”, referindo-se ao livro dos cinco cardeais em resposta às propostas do Cardeal Kasper sobre os divorciados recasados.

Resposta do padre Federico Lombardi: “Não tenho conhecimento desta entrevista, não sei absolutamente nada a respeito. Nós não a publicamos e, portanto, não tenho nada a esclarecer, pois mal a conheço”. O porta-voz do idioma inglês para o Sínodo reafirmou que, antes desta questão do LifeSiteNews, a Sala de Imprensa do Vaticano não tinha conhecimento dessa entrevista ou de seu conteúdo.

Trata-se em si de uma novidade. Que o Papa dê entrevistas sem que ninguém tome conhecimento é, no mínimo, curioso, ao que se deve acrescentar que ela foi escrita em grande parte de modo narrativo, sem que possamos saber, em certos pontos, se o jornalista reflete o pensamento do papa ou o seu próprio. O que é certo é que Joaquin Morales Solá deu à entrevista o seguinte título: “A sós com Francisco”. Houve gravação? Ele relata, entre aspas, palavras autênticas? Quem sabe!

Eis as declarações que Morales Solá atribui ao Papa, direta ou indiretamente. Em primeiro lugar, ele observa que o sínodo é apenas consultivo, que tem por tarefa principal aconselhar o papa sobre um tópico específico. O da família.

“Não espere uma definição para a próxima semana”, me disse o papa, ironicamente. “Será um sínodo longo, que durará provavelmente um ano. Eu só lhe dei agora um impulso inicial”, acrescenta. Preocupa-lhe o livro crítico a suas posições que acaba de sair, assinado por cinco cardeais, um deles muito importante? “Não — responde. Todos têm algo a acrescentar. A mim me dá até prazer discutir com bispos muito conservadores, mas bem formados intelectualmente”.

Note-se que Morales Solá atribui aqui as posições contestadas sobre a comunhão a divorciados “recasados” ao próprio Papa Francisco, e não ao cardeal Kasper. Mas daí a saber o que realmente disse o Papa, há uma grande distância.

“O papa soltou as rédeas do sínodo. “Eu fui relator do sínodo de 2001 e havia um cardeal que nos dizia o que devia ser tratado ou não. Isso não acontecerá agora. Até deleguei aos bispos a faculdade que tenho de eleger os presidentes das comissões. Eles farão a eleição, assim como dos secretários e relatores”. “Claro — aponta –, essa é a prática sinodal que me agrada. Que todos possam dizer suas opiniões com total liberdade. A liberdade é sempre muito importante. Outra coisa é o governo da Igreja. Isso está nas minhas mãos, depois das respectivas consultas”, enfatiza. Francisco é um papa bom, mas não um papa governado por outros. Isso está muito claro em sua noção de condução política ou religiosa”.

O que ele, o Papa, espera do sínodo?

“A família é um tema muito valioso, tão caro à sociedade como à Igreja!”, diz, e acrescenta: “Colocou-se muita ênfase sobre o tema dos divorciados. Um aspecto que, sem dúvida, será debatido. Mas, para mim, um problema também muito importante são os novos costumes atuais da juventude. A juventude não se casa. É uma cultura da época. Muitíssimos jovens preferem conviver sem se casar. Que deve fazer a Igreja? Expulsá-los de seu seio? Ou, ao invés, aproximar-se deles, mantê-los e tratar de lhes levar a palavra de Deus? Eu estou com esta última posição”, apontou. “O mundo mudou e a Igreja não pode se fechar em supostas interpretações do dogma. Temos que nos aproximar dos conflitos sociais, dos novos e velhos, e tratar de estender uma mão de consolo, não de estigmatização e não só de acusação”, assinala.

Breve observação. Quando os apóstolos se lançavam estradas e mar afora para espalhar a mensagem de Cristo em terras pagãs, eles, obviamente, estendiam a mão a todos ensinando o amor do próprio Jesus. Eles buscavam ser entendidos — senão, de que adianta? –, mas não desvirtuavam a mensagem porque os gentios não compartilhavam de sua cultura (para dizer o mínimo).

Também percebe-se que o Papa não diz (ou Morales Solá não o faz dizer) nada de preciso. Isso não impede de se prestar contas, nem de se questionar. Onde é que ele realmente quer ir?

8 outubro, 2014

É o Espírito Santo quem elege o Papa?

Eis como responde (com certa ironia) o então Cardeal Ratzinger.

Por Tempi | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com – Uma vez perguntaram ao futuro Papa se o Espírito Santo seria o responsável pela eleição dos Pontífices. “Eu não diria isso, no sentido de que é o Espírito Santo que faz a escolha.  Ele é um bom instrutor.”

Hoje, o semanário Avvenire publicou uma interessante resposta de Joseph Ratzinger a uma pergunta que lhe foi dirigida, em 1997, sobre a ação do Espírito Santo no Conclave.

O Espírito Santo é o responsável pela eleição do Papa? Foi o que lhe perguntaram. Ratzinger então, não deixando de lado uma certa ironia no final, respondeu: “Eu não diria isso, no sentido de que é o Espírito Santo que faz a escolha. Eu diria que o Espírito Santo não toma exatamente o controle dessa questão, mas sim, como bom instrutor que é, nos deixa muito espaço, muita liberdade, sem nos abandonar totalmente. De forma que o papel do Espírito deveria ser entendido em um sentido muito mais elástico, não como se ele ditasse em qual candidato se deve votar. Provavelmente, a única segurança que Ele oferece é que o processo não seja totalmente arruinado. Evidentemente que há exemplos demais de Papas que o Espírito Santo jamais teria escolhido”.

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7 outubro, 2014

Cardeal Rodé: “O Papa é muito de esquerda”.

O ex-prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, de origem eslovena, deu uma entrevista em que criticou Francisco por sua opinião sobre o capitalismo e a justiça social.

Março de 2009. Cardeal Rodé ordena seis novos para o Instituto Cristo Rei, na Itália.

Março de 2009. Cardeal Rodé ordena seis novos sacerdotes para o Instituto Cristo Rei, na Itália.

Por Andrea Tornielli | Tradução: Fratres in Unum.com –  O Cardeal Franc Rodé, que acaba de completar 80 anos e foi prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, deu uma entrevista à agência de imprensa nacional da Eslovênia na qual criticou o Papa Francisco. Nada relacionado ao Sínodo sobre a família ou a questões doutrinais. Antes, o que ele colocou em discussão foi outra doutrina, a social, que parece cada vez mais esquecida no mundo católico, conforme demonstrado por algumas páginas da “Evangelii gaudium”. De acordo com o cardeal esloveno, o Papa é “muito de esquerda”.

“Sem dúvida, disse Rodé -, o Papa é um gênio da comunicação. Comunica-se bem com o público, com a mídia, com fiéis”. “Uma grande vantagem – acrescentou – é que ele sempre se mostra simpático. Além disso, as suas opiniões sobre o capitalismo e a justiça social são excessivamente de esquerda. Vemos que o Papa é marcado pelo seu ambiente de origem. Na América do Sul existem grandes diferenças sociais e grandes debates sobre o assunto todos os dias. Mas essa gente fala muito e resolve poucos problemas.”

O artigo do jornal “Piccolo”, de Trieste, que reproduziu a informação da agência eslovena, recordou que o Cardeal (que viveu muitos anos na Argentina durante o regime de Tito), quando era arcebispo de Lubaina, dirigiu “a Igreja eslovena em direção a um claro modelo capitalista”. E, como todos sabem, a diocese de seu país, Maribor, sofreu uma derrocada financeira devido a investimentos muito arriscados.

6 outubro, 2014

Entrevista com Dom Fellay logo após seu encontro com o Cardeal Müller.

A pastoral deve necessariamente derivar da doutrina.

Por Dici | Tradução: Fratres in Unum.com 

mgr_fellay_1-300x206O senhor foi recebido pelo Cardeal Müller no dia 23 de setembro passado. O comunicado da sala de imprensa do Vaticano retoma os termos do comunicado de 2005, logo após o seu encontro com Bento XVI, no qual já se falava de “proceder por etapas e em um prazo razoável”, com “o desejo de chegar à plena comunhão”; – o comunicado de 2014 fala de “plena reconciliação”. Isso significa que se regressa ao ponto de partida?

Sim e não, segundo o ponto de vista no qual você se situe. Não há nada novo no sentido que temos verificado — nossos interlocutores e nós — que permanecem as divergências doutrinais que se haviam manifestado claramente com oportunidade das discussões teológicas de 2009-2011, e que, portanto, não podíamos assinar o Preâmbulo doutrinal que nos havia sido proposto pela Congregação para a Doutrina de a Fé desde 2011.

Porém, o que há de novo?

Há um novo Papa e um novo Prefeito à frente da Congregação para a Doutrina da Fé. E este encontro mostra que nem eles nem nós desejamos uma ruptura das relações: as duas partes insistem sobre a necessidade de esclarecer as questões doutrinais antes de um reconhecimento canônico. Por isso, da parte deles, as autoridades romanas reclamam a assinatura de um Preâmbulo doutrinal que, de nossa parte, não podemos firmar em razão de suas ambiguidades.

Entre as novidades encontra-se também o agravamento da crise na Igreja. Na véspera de um Sínodo sobre a família, manifestam-se críticas sérias e justificadas, da parte de vários cardeais, contra as proposições do Cardeal Kasper sobre a comunhão dos divorciados “recasados”. Desde as críticas dos cardeais Ottaviani e Bacci no Breve exame do Novus Ordo Missae, em 1969, isso não havia sido visto em Roma. Porém, o que não mudou é que as autoridades romanas continuam sem levar em conta nossas críticas do Concílio, porque lhes parece secundárias e também ilusórias, em face aos graves problemas que enfrentamos na Igreja hoje em dia. Estas autoridades comprovam claramente a crise que sacode a Igreja ao mais alto nível — agora entre cardeais —, porém não concebem que o Concílio mesmo possa ser a causa principal desta crise sem precedentes. Se parece a um diálogo de surdos.

O senhor poderia dar um exemplo concreto?

As proposições do Cardeal Kasper a favor da comunhão dos divorciados “recasados” são uma amostra do que reprovamos ao Concílio. Em seu discurso aos cardeais, no Consistório do dia 20 de fevereiro passado, ele propõe fazer novamente o que já se fez no Concílio, a saber: reafirmar a doutrina católica, oferecendo ao mesmo tempo aberturas pastorais. Em suas diversas entrevistas com os jornalistas, ele realiza esta distinção entre a doutrina e a pastoral: recorda em teoria que a doutrina não pode mudar, porém introduz a ideia que, na realidade concreta, há situações tais que a doutrina não pode ser aplicada. Então, segundo ele, somente a pastoral está em condições de encontrar soluções… em detrimento de a doutrina.

De nossa parte, reprovamos no Concílio esta distinção artificial entre a doutrina e a pastoral, porque a pastoral deve necessariamente derivar da doutrina. Graças às múltiplas aberturas pastorais se introduziram mudanças substanciais na Igreja e a doutrina se viu afetada. Isso foi o que aconteceu durante e depois do Concílio, e denunciamos a mesma estratégia utilizada agora contra a moral do matrimônio.

Acaso não houve somente mudanças pastorais no Concílio, que haviam afetado indiretamente a doutrina?

Não, nos vemos obligados a afirmar que se realizaram mudanças graves na própria doutrina: a liberdade religiosa, a colegialidade, o ecumenismo… Porém, é certo que essas mudanças aparecem de uma maneira mais clara e mais evidente em suas aplicações pastorais concretas, pois nos documentos conciliares são apresentados como simples aberturas, de maneira alusiva e com muito subentendidos… Isso faz deles, segundo a expressão de meu predecessor, o Revmo. Pe. Schmidberger, “bombas relógio”.

Nas proposições do Cardeal Kasper, onde o senhor vê uma aplicação pastoral que tornaria mais evidente uma mudança doutrinal introduzida no Concílio? Onde o senhor vê uma “bomba relógio”?

Na entrevista que concede ao vaticanista Andrea Tornielli, neste dia 18 de setembro, o Cardeal declara: “A doutrina de a Igreja não é um sistema fechado: o Concílio Vaticano II ensina que há um desenvolvimento no sentido de um possível aprofundamento. Indago-me se um aprofundamento semelhante ao que ocorreu com a eclesiologia não é possível neste caso (dos divorciados que voltaram a casar no civil, ndlr): incluindo se a Igreja católica é a verdadeira Igreja de Cristo, há elementos de eclesialidade também fora das fronteiras institucionais da Igreja católica. Em certos casos, não se poderia reconhecer igualmente em um matrimônio civil elementos do matrimonio sacramental? Por exemplo, o compromisso definitivo, o amor e o apoio mutuo, a vida cristã, o compromisso público, que não existe nas uniões de fato (i.e. as uniões livres)”.

O Cardeal Kasper é muito lógico, perfeitamente coerente: propõe que os novos princípios sobre a Igreja, que o Concílio enunciou em nome do ecumenismo — existem elementos de eclesialidade fora da Igreja—, se apliquem pastoralmente ao matrimônio. Passa logicamente do ecumenismo eclesial ao ecumenismo matrimonial. Nesse sentido, segundo ele, havia elementos do matrimônio cristão fora do sacramento. Para ver as coisas concretamente, indaga-se, pois, aos esposos, que pensariam sobre uma fidelidade conjugal “ecumênica” ou sobre uma fidelidade na diversidade! Paralelamente, o que devemos pensar de uma unidade doutrinal “ecumênica”, diversamente uma? Esta é a consequência que denunciamos, porém, que a Congregação para a Doutrina da Fé não vê ou não quer ver.

Como se deve entender a expressão do comunicado do Vaticano “proceder por etapas”?

Como o desejo recíproco, em Roma e na Fraternidade São Pio X, de manter conversações doutrinais em um marco amplio e menos formal que o dos precedentes intercâmbios.

Porém, se os intercâmbios doutrinais de 2009-2011 não aportaram nada, para que retomá-los, incluindo de maneira mais ampla?

Porque, seguindo o exemplo de Mons. Lefebvre, que nunca deixou de aceitar um convite das autoridades romanas, nós respondemos sempre a quem nos interrogam sobre as razões de nossa fidelidade à Tradição. Não podemos fugir desta obligação, e sempre a cumpriremos no espírito e com as obrigações que foram definidas no último Capítulo General.

Uma vez que o senhor mencionava a audiência que me concedeu Bento XVI em 2005, recordo que então dizia que queríamos mostrar que a Igreja seria mais forte no mundo de hoje se mantivesse a Tradição, — incluindo agregaria: se recordara com orgulho sua Tradição bimilenar. Repito hoje que queremos aportar nosso testemunho: se a Igreja quer sair da crise trágica que atravessa, a Tradição é a resposta a esta crise. Dessa maneira manifestamos nossa piedade filial para com a Roma eterna, para com a Igreja, Mãe e Mestra de verdade, a qual estamos profundamente unidos.

O senhor disse que se trata de um testemunho; não seria uma profissão de fé?

Uma coisa não exclui a outra. Nosso fundador gostava de dizer que os argumentos teológicos com os quais professamos a fé, nem sempre são compreendidos por nossos interlocutores romanos, porém, ele não nos dispensa de recordar-lhes. E, com o realismo sobrenatural que o caracterizava, Mons. Lefebvre acrescentava que as realizações concretas da Tradição: os seminários, os colégios, os priorados, o número de sacerdotes, de religiosos e religiosas, de seminaristas e fiéis… também tinham um grande valor demonstrativo. Contra esses fatos tangíveis, não há argumento especial que valha: contra factum non fit argumentum. No caso presente, se podia traduzir este adágio latino com a frase de nosso Senhor: “se julga a árvore por seus frutos”. Nesse sentido, ao mesmo tempo que professamos a fé, devemos dar testemunho a favor da vitalidade da Tradição.

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5 outubro, 2014

Foto da semana.

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Por Rádio Vaticano – A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil manteve audiência com o Papa Francisco na última terça-feira, 30/09, na Casa Santa Marta, no Vaticano. Em entrevista a RV, Dom Raymundo Damasceno Assis antecipou que foi entregue ao Papa o documento da Campanha da Fraternidade de 2015 que, de acordo com o cardeal Damasceno, “vai tratar da Igreja e da sua relação com a sociedade e é inspirado nas Constituições Pastoral e Dogmática do Concílio Vaticano II, a Gaudium et Spes e a Lumen Gentium”. Foram entregues ao Papa ainda outros documentos, entre eles um estudo da CNBB sobre a missão do leigo na Igreja e na sociedade, um documento sobre a questão agrária aprovado na última assembleia geral da CNBB além de um texto de orientação para as eleições do dia 5. Por fim, o Papa Francisco exortou a CNBB a continuar o trabalho na Amazônia de uma maneira criativa e corajosa. Dom Raymundo afirmou que “a presidência da CNBB volta deste encontro com o Papa muito animada, encorajada e fortalecida”

Nota do Fratres: Na imagem, Dom Raymundo presenteia o Papa com um objeto não identificado… de novo, mau gosto ao extremo.

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4 outubro, 2014

“Não é Francisco”: o livro de Socci sobre o Papa agita o Vaticano.

Por Libero Quotidiano | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: “A Joseph Ratzinger, um gigante da esperança”. É com essa declaração de fé e de pertença que se inicia o livro “Não é Francisco” do intelectual católico e colaborador do jornal Libero, Antonio Socci, publicado pela editora Mondadori e disponível nas livrarias a partir do dia 03 de outubro. Dedicado também aos cristãos perseguidos no Iraque, o livro já levantou polêmica antes mesmo de ter chegado às livrarias. Nada que Socci não quisesse. O objetivo, escreve ele, é levantar questões sobre pontos “tão desestabilizadores e ‘proibidos’ pelo mainstream que todos evitam dizer em público”. Não são palavras exageradas. “Quais são, na verdade- pergunta Socci-, os motivos até agora desconhecidos da renúncia histórica de Bento XVI ao papado? Alguém o forçou a se afastar? Mas, acima de tudo, foi uma renúncia verdadeira? Por que não voltou então a ser apenas um cardeal, mas permaneceu como ‘Papa Emérito'”? Socci também aborda outra questão perturbadora: se, durante o Conclave que elegeu Bergoglio foram violados – como parece – as normas da Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis.  A jornalista argentina Elisabetta Piqué, de fato, revelou que Bergoglio foi eleito na quinta votação do dia 13 de março (a sexta no total), com uma série de procedimentos que teriam violado as disposições da Constituição Apostólica, que tornavam assim “nula e sem efeito a própria eleição”. Questões graves que merecem explicações aprofundadas. Aqui, os leitores do Libero encontrarão trechos grátis tomados a partir da premissa do livro, onde Socci relata sua decepção por um papa, Francisco, que ele também tinha acolhido “com os braços abertos, como era a coisa certa a ser feita, considerando que o Papa foi legitimamente eleito.”

nonina_560x280Eu admito ter sido um dos muitos que acolheram Bergoglio –  no 13 de março de 2013 – com os braços escancarados, como era a coisa certa a ser feita, considerando que o Papa foi legitimamente eleito. E também por causa de uma série de amigos comuns (que me são muito caros), que me levaram a alimentar esperanças benevolentes pelo novo Pontífice. Cheguei a lhes comunicar com muita convicção que, entre outras coisas, ele poderia contar com as minhas orações e da minha família, e com a oferta de nossas cruzes cotidianas para o cumprimento da sua elevada missão.

Me agradava o seu estilo desapegado. Os jornais o apresentavam como o bispo que rodava por Buenos  Aires em transporte público, que morava em um apartamento modesto ao invés do palácio episcopal, que frequentava pobres bairros de periferia como um bom pai ansioso em levar aos mais desafortunados a carícia do Nazareno.

Tudo isso poderia ser uma tremenda lufada de ar fresco para o Vaticano e para toda a Igreja.

Apoiei Papa Francisco no que pude durante meses, como jornalista, na imprensa. Ele me parecia um apóstolo do confessionário, devoto de Nossa Senhora. Eu o defendi das críticas prematuras de alguns tradicionalistas e até hoje ainda continuo a achar absurdas certas polêmicas daqueles que tomam como pretexto as declarações do Papa Francisco para, na realidade, atacar o Concílio Vaticano II, Joseph Ratzinger e João Paulo II, ( …) que nenhuma responsabilidade têm pelas escolhas de Bergoglio.

A partir deste ponto de vista, me considero bem satisfeito por estar entre aqueles que Roberto De Mattei considera “os mais ferozes defensores do Concílio Vaticano II.”

Assim como o Papa Bento XVI (como João Paulo II e Paulo VI), estou convencido de que o Concílio foi um evento muito valioso. Mas sim o verdadeiro Concílio, aquele que está nos documentos e faz parte do Magistério da Igreja. Outra coisa (oposta) é o Concílio “virtual”, construído pelos meios de comunicação, ou aquele, por exemplo, que é teorizado por historiadores progressistas. (…)

Sustentar hoje que as declarações de Bergoglio a Scalfari (por exemplo), no final das contas, estão em continuidade com o Papa Bento XVI, João Paulo II e Paulo VI, ou seja, que Bergoglio “encarna a essência do Concílio Vaticano II” (De Mattei ), é um absurdo. (…).

Infelizmente, hoje eu sou um dos muitos desiludidos (um sentimento que está se espalhando cada vez mais entre os católicos, embora não publicado nos jornais). (…).

Vários cardeais haviam votado em Bergoglio com a esperança de que ele iria continuar o trabalho de renovação e purificação realizada pelo Papa Bento XVI, esperava-se que ele irrompesse na Cúria do Vaticano e (metaforicamente) a demolisse quase como pelo fogo de João Batista. Em vez disso, temos que admitir que, infelizmente, pouco ou nada foi feito (apenas algumas remoções e, em alguns casos, até mesmo injustas).

Não há problema que tenha escolhido viver na residência de ‘Santa Marta’, isso também poderia ser um sinal positivo, apesar de estar muito longe de ser apenas uma pobre cela monástica . Em um dos meus livros, eu havia chegado a sonhar com um Papa que iria viver numa paróquia do município. De qualquer modo, eu apreciei a mensagem.

Mas, depois tem o problema que é o governo dessa coisa complexa que é o Vaticano e, por exemplo, o IOR, que alguém propôs que fosse fechado, já que não está bem clara a sua utilidade para a Igreja, mas que Bergoglio até agora não fechou. Muito pelo contrário! Segundo os observadores mais informados, Bergoglio multiplicou departamentos, burocracias e despesas. (…)

Esperávamos uma onda de rigor moral contra a “sujeira” (também no âmbito eclesiástico) denunciada e combatida pelo grande Joseph Ratzinger. Mas como deveríamos interpretar o sinal dado ao mundo de frouxidão e rendição aos novos costumes sexuais da sociedade e da quebra de princípios morais e das famílias?

Como interpretar a recusa do Papa Bergoglio de se opor às questões éticas, como fizeram seus antecessores heroicamente, ou também apenas “julgar”, ou seja combater a revolução cultural dos relacionamentos afetivos que destroem qualquer relacionamento sério e deixa tantos cada vez mais solitários, infelizes e escravos dos instintos? São Paulo disse: “O homem espiritual julga todas as coisas” (1 Co 2:15), e não “quem sou eu para julgar?”.

E por que não se opor à cultura da morte que não reconhece nada de sagrado no ser humano ou à onda de anti-cristianismo e anti-humanismo que, sob diferentes bandeiras, agora permeiam o mundo? (…).

Era para ter confrontado aqueles que na Igreja jogam às urtigas a reta doutrina Católica e que, das cátedras mais poderosas, demolem o coração da fé. Ao  invés, o que se viu foi cacetadas nos bons católicos, aqueles mais ortodoxos que vivem verdadeiramente na pobreza, castidade, oração e caridade.

De fato, o Papa Bergoglio só ataca aqueles que usam “uma linguagem completamente ortodoxa” porque essa não corresponde ao Evangelho (Gaudium Evangelii n. 41). Algo jamais visto ou ouvido falar em toda a  história da Igreja.

Isso para não dizer quando o próprio Bergoglio se aventura em suas desconcertantes afirmações, do tipo “se alguém não peca então ainda não é um homem”, uma tese surpreendente em que nem se dá por conta de estar negando a humanidade de Jesus e Maria, que foram isentos do pecado, e por causa disso são os modelos do ideal supremo para o homem e a mulher.

Ou quando ele erroneamente atribuiu a São Paulo a frase “Eu me glorio dos meus pecados” (Homilia em Santa Marta, 04 de setembro de 2014), algo enorme sobre o qual o site do Vaticano www.news.va chegou mesmo a elaborar um título: “Por que vangloriar-se dos pecados”. Evidentemente, que tanto no  Vaticano, como em Santa Marta, em particular, se desconhece o que São Tomás de Aquino diz: “É pecado mortal quando alguém se vangloria de coisas que ofendem a glória de Deus”.

Esperava-se que ele socorresse as vítimas mais indefesas e desarmadas nas periferias mais remotas do mundo, ao invés, eu me recordo -com dor- que o Papa Bergoglio obstinadamente evitou levantar a voz, no verão de 2014, em prol dos cristãos massacrados pelo Califado Islâmico no Norte do Iraque, limitando-se apenas a fazer algumas declarações, sem jamais proferir um discurso vibrante (como aqueles que ele fez quando se tratava de temas politicamente corretos [nota do Fratres: como em Lampedusa]) ou um vigoroso apelo à comunidade internacional para que interviesse e desarmasse os carnífices e protegesse os indefesos massacrados.

Jamais esse Papa se voltou contra o mundo islâmico que, geralmente, humilha toda minoria, nunca uma reação contra o terrorismo islâmico, jamais pediu explicitamente uma “intervenção humanitária” (concebida especialmente por João Paulo II) que desarmasse, mesmo pela força, os carnífices e impedisse os massacres como lhe imploravam os bispos do Iraque.

E quantos patriarcas gritaram alto para que suas próprias comunidades fossem defendidas pela força do massacre iminente e fizeram uma crítica explícita à relutância do Papa pedindo-lhe para “usar sua influência de forma mais ousada na defesa dos cristãos iraquianos”.

Mas Bergoglio foi cauteloso e reticente, fazendo de tudo para não se expor. Será que estamos realmente seguros que, de frente à tragédia dos cristãos (e outras minorias) no Iraque ele não poderia assumir um comportamento mais decisivos como de seus antecessores ou como ele faz quando se trata de outras questões? (…).

Não vi sequer uma obra de verdadeira sensibilização de toda a Igreja, que mobilizasse todos à oração, que prescrevesse vigílias, novenas, jejum (estas são as armas dos cristãos) e um grande auxílio humanitário. Que contra-indicações poderiam haver para isso? Não existem, realmente.

Era necessário que se desse conforto e ajuda concreta a tantos cristãos perseguidos, humilhados, presos, mortos, massacrados, mas o papa Bergoglio, ao invés, continuou a confiar num diálogo sem condições e sem precauções, expondo-se a incidentes dolorosos como aquele de 8 de Junho de 2014, quando convidou para rezar no Vaticano, entre outros, um imã,  que ali, no solo banhado pelo sangue de tantos mártires cristãos, ignorando os discursos previamente acertados, invocou Alah para que ajude os muçulmanos a esmagar os infiéis (“dá-nos a vitória sobre os incrédulos”). (…).

Era necessário que se dissesse pelo menos uma palavra de conforto em defesa das jovens mães – como Meriam ou Asia Bibi – condenadas à morte em regimes islâmicos por sua fé cristã, ou, pelo menos se podia pedir que se orasse [publicamente] por elas, algo que o Papa Francisco nunca fez. Ele nem sequer respondeu ao apelo que lhe foi enviado por Asia Bibi, enquanto escreveu pessoalmente uma longa mensagem de saudação aos muçulmanos que jejuavam pelo o Ramadã desejando-lhes que esse possa trazê-los “abundantes frutos espirituais”. (…).

Depois viemos a descobrir que na época em que Bento XVI pronunciou o famoso discurso de Regensburg (aquele que entrou para a história por ter irritado os muçulmanos), o porta-voz do então Cardeal Bergoglio, Arcebispo de Buenos Aires, criticou publicamente o papa Ratzinger. Newsweek publicou suas palavras, sob o título: “A Arquidiocese de Buenos Aires contra Bento XVI.”

O tal porta-voz depois de algum tempo foi dispensado de suas funções, mas muitos se perguntam se e quando houve um repúdio público do que foi dito pelo bispo Bergoglio e seu apoio aberto ao discurso de Ratzinger em Regensburg. (…).

À luz desses fatos, explica-se o comportamento do atual Papa Francisco para com o Islã e os islamitas do Califado do Iraque (carrascos de cristãos e outras minorias).

Bergoglio, sempre tão crítico com os católicos, não se opõe jamais nem menos contra o lobby secularista sobre temas como vida, sexo, gênero, enfim, os princípios não-negociáveis que o Papa Bento identificou como os pilares da “ditadura do relativismo”. (…).

Era e é necessário acender uma luz para uma geração que foi jogada na escuridão do niilismo, que já não consegue sequer distinguir o bem do mal, porque lhes foi ensinado que tal distinção não existe e que todo mundo pode fazer o que quiser. Infelizmente, papa Bergoglio corre o risco de deixar-se levar por essa trágica corrente já que foi ele mesmo que disse que “cada um tem sua própria idéia do bem e do mal” e “nós devemos incitá-lo a proceder em direção ao que ele pensa que seja bom.”

Havia e há a necessidade de anunciar Cristo, nossa esperança e verdadeira felicidade na vida, a uma geração que não sabe nem menos quem é Jesus e que não sabe o que fazer da sua juventude e existência. E ela corre o risco de ser enganada ao ouvir do Papa Bergoglio que “o proselitismo é um absurdo solene” e que ele não tem “nenhuma intenção” de converter os seus interlocutores.

É claro que ele tem razão quando lembra que o cristianismo é comunicado “por atração”, mas o zelo missionário nos foi testemunhado pelos santos e “proselitismo” é o mandamento de Jesus aos seus apóstolos: “Ide, portanto, fazei discípulos entre todas as nações , batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado “(Mt 28,19-20).

Não é possível esquecer o preceito evangélico que indica a verdadeira, a grande tarefa da vida, apenas para receber os aplausos dos ricos, poderosos esnobes e anti-católicos do jornal La Repubblica, o que faz com que agora muitos se alegrem ao dizer que finalmente que temos um Papa “scalfariano.”

Há uma grande necessidade de levar a carícia do Nazareno a quem está sozinho, doente, sofrendo ou no desespero e é muito doloroso ver “cancelada” de última hora a visita do Papa ao hospital Gemelli com pessoas doentes esperando sob o sol (cujas feridas são as chagas de Cristo), enquanto ele facilmente encontra horas para se dedicar a Scalfari, ou para telefonar a Maradona  ou Marco Pannella e ir pessoalmente a Caserta apenas para se encontrar com o amigo pastor protestante. (…)

Bergoglio – de acordo com seus fãs  mais ardorosos – seria um revolucionário que visa subverter a Igreja Católica, eliminando os dogmas da fé e jogando às urtigas séculos de magistério.

O que significaria tudo isso? Se for verdade, a Igreja estaria à beira de uma explosão dramática. É assim mesmo? Vai negá-lo Padre Bergoglio? Quer tomar de volta aquela estrada, onde um dia, um jovem (ele mesmo o disse certa vez e me comoveu), encontrou os olhos de Jesus? Vai querer buscar novamente aquele olhar e Nele encontrar todos nós?

Antonio Socci

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