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29 junho, 2018

Cardeal Müller: “Estamos experimentando uma conversão ao mundo, não a Deus”.

Por Catholic World Report, 26 de junho de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com – O Cardeal Gerhard Müller é o ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e antigo bispo de Regensburg, Alemanha. Um renomado professor de teologia, é presidente tanto da Pontifícia Comissão Bíblica como da Comissão Teológica Internacional. Ele é também autor de diversos livros, incluindo The Hope of the FamilyPriesthood and Diaconate [“A esperança da Família, Sacerdócio e Diaconato], and The Cardinal Müller Report: An Exclusive Interview on the State of the Church [O relatório do Cardeal Müller: uma entrevista exclusiva sobre o estado da Igreja].

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Cardeal Gerhard Müller.

Dom Müller recentemente respondeu a algumas questões de Catholic Word Report sobre a situação na Alemanha, tensões sobre a proposta de recebimento da Sagrada Comunhão por certos protestantes, contínuos conflitos sobre o ensinamento da Igreja a respeito da proibição de mulheres serem ordenadas ao sacerdócio, e homossexualidade.

CWR: Desde 2014, tem havido, dentro da Igreja, uma contínua onda de conflitos e tensões que envolvem muitos bispos da Alemanha. Qual o contexto desse fenômeno? Qual a fonte desses diversos conflitos sobre eclesiologia, Sagrada Comunhão e assuntos relacionados?

Cardeal Gerhard Müller: Um grupo de bispos alemães, com seu presidente [i.e., da Conferência Episcopal] na dianteira, se vêem como lançadores de tendências na Igreja Católica em direção à modernidade. Eles consideram a secularização e a descristianização da Europa como um desenvolvimento irreversível. Por essa razão, a Nova Evangelização — programa de João Paulo II e Bento XVI — é, na visão deles, uma batalha contra o curso objetivo da história, se assemelhando à batalha de Dom Quixote contra os moinhos de vento. Portanto, todas as doutrinas da fé que se opõem ao “mainstream”, ao consenso social, devem ser reformadas.

Uma consequência disso é a demanda para a Sagrada Comunhão mesmo a pessoas sem a Fé Católica e também por aqueles Católicos que não estão em estado de graça santificante. Também estão na agenda: benção para casais homossexuais, intercomunhão com protestantes, relativização da indissolubilidade do sacramento do matrimônio, introdução dos viri probati e abolição do celibato sacerdotal; aprovação de relações sexuais antes e fora do casamento. Essas são as metas, e para alcançá-las eles estão dispostos a aceitar até a divisão da conferência episcopal.

Os fiéis que levam a doutrina Católica a sério são rotulados como conservadores e empurrados para fora da Igreja, expostos a campanha difamatória da mídia liberal e anti-católica.

Os muitos bispos, a revelação da verdade e da profissão da Fé Católica é só mais uma variável no jogo de poder político intra-eclesial. Alguns deles citam acordos individuais com o Papa Francisco e pensam que suas declarações em entrevistas com jornalistas e figuras públicas distantes de serem católicos oferecem uma justificativa mesmo para “diluir” verdades de Fé definidas, infalíveis (=dogmas). Tudo isso dito, estamos lidando com um patente processo de protestantização.

O ecumenismo, pelo contrário, tem sua meta na plena unidade de todos os cristãos, que já está sacramentalmente realizada na Igreja Católica. O mundanismo do episcopado e do clero no século 16 foi a causa da divisão da cristandade, que é diametralmente oposta à vontade de Cristo, fundador da Igreja una, santa, católica e apostólica. A doença daquela era é agora supostamente o remédio com o qual a divisão deve ser superada. A ignorância da Fé Católica naquela época era catastrófica, especialmente entre bispos e papas, que dedicavam-se mais à política e ao poder do que em testemunhar a verdade de Cristo.

Hoje, para muitos, ser aceito pela mídia é mais importante que a verdade, pela qual devemos também sofrer. Pedro e Paulo sofreram o martírio por Cristo em Roma, centro do poder naquela época. Eles não eram celebrados pelos grandes desse mundo como heróis, mas zombados como Cristo na cruz. Não devemos nunca nos esquecer a dimensão martirológica do ministério Petrino e do múnus episcopal.

CWR: Por que, especificamente, alguns bispos alemães desejam permitir o acesso à Sagrada Comunhão a protestantes em uma base regular ou comum?

Cardeal Müller: Nenhum bispo tem autoridade de administrar a Sagrada Comunhão a cristãos que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica. Somente em situações de perigo de morte um protestante pode pedir a absolvição sacramental e a Sagrada Comunhão como viaticum, se ele compartilha de toda a Fé Católica e, assim, ingressa em plena comunhão com a Igreja Católica, embora ele não tenha ainda declarado sua conversão oficialmente.

Infelizmente, mesmo bispos, atualmente, não conhecem mais a Fé Católica na unidade da comunhão sacramental e eclesial, e justificam sua infidelidade à Fé Católica com, supostamente, uma preocupação pastoral ou com explicações teológica que, entretanto, contradizem os princípios da Fé Católica. Toda doutrina e praxis devem ser fundamentadas na Sagrada Escritura e na Tradição Apostólica, e não devem contradizer os pronunciamentos anteriores do Magistério da Igreja. Este é o caso da permissão para cristãos não católicos receberam a Comunhão durante a Santa Missa — exceto na situação emergencial descrita acima.

CWR: Como o senhor avalia, primeiramente, o estado da Fé Católica na Alemanha e, depois, na Europa como um todo? Pensa que a Europa pode ou irá recobrar o sentido de sua identidade cristã anterior?

Cardeal Müller: Há muitas pessoas que vivem sua fé, amam a Cristo e sua Igreja, e colocam toda sua esperança em Deus, na vida e na morte. Mas, entre eles, há muitos que se sentem abandonados e traídos por seus pastores. Ser popular perante a opinião pública é, atualmente, critério para supostamente ser um bom bispo ou padre. Estamos experimentando uma conversão ao mundo, não a Deus, contrariamente à afirmação do Apóstolo Paulo: “Por acaso eu procuro o favor dos homens, ou de Deus? Estou tentando agradar aos homens? Se ainda estivesse agradando aos homens, não deveria ser servo de Deus” (Gal 1:10).

Precisamos de padres e bispo cheios do zelo pela casa de Deus, dedicados inteiramente à salvação dos seres humanos na peregrinação de Fé para a nossa casa eterna. Não há nenhum futuro para um “Cristianismo light”. Precisamos de cristãos com espírito missionário.

CWR: A Congregação para a Doutrina da Fé recentemente reiterou o ensino perene da Igreja de que mulheres não podem ser ordenadas ao sacerdócio. Por que o senhor pensa que este ensinamento, que já foi repetido diversas vezes nos anos recentes, continua a ser contestado por muitos na Igreja?

Cardeal Müller: Infelizmente, atualmente a Congregação para a Doutrina da Fé não é particularmente estimada, e seu significado para o primado Petrino não é reconhecido. O Secretariado de Estado e os serviços diplomáticos da Santa Sé são muito importantes para a relação da Igreja com diversos Estados, porém, a Congregação para a Doutrina da Fé é mais importante para a relação da Igreja com sua Cabeça, da qual toda graça procede.

A Fé é necessária à salvação; a diplomacia papal podem fazer muito bem ao mundo. Mas a proclamação da Fé e da doutrina não devem ser subordinados às demandas e condições dos atores do poder terreno. A Fé sobrenatural não depende de poderes terrenos. Na Fé, é absolutamente claro que o Sacramento da Ordem, nos três graus (bispo, padre e diácono) só podem ser recebidos validamente por um homem católico batizado, porque somente ele podem simbolizar e sacramentalmente representar Cristo como Esposo da Igreja. Se o ministério sacerdotal é compreendido como uma posição de poder, então essa doutrina da exclusividade das Sagradas Ordens a católicos de sexo masculino é uma forma de discriminação contra as mulheres.

Mas essa perspectiva de poder e prestígio social é falsa. Apenas se virmos todas as doutrinas da Fé e dos sacramentos com olhos teológicos, e não em termos de poder, a doutrina da Fé sobre os pré-requisitos naturais para o sacramento da Sagrada Ordem e do matrimônio serão também evidentes a nós. Apenas um homem pode simbolizar Cristo enquanto Esposo da Igreja. Apenas um homem e uma mulher podem simbolicamente representar a relação de Cristo e da Igreja.

CWR: O senhor, recentemente, apresentou a edição italiana do livro de Daniel Mattson, Why I Don’t Call Myself Gay [Porque eu não me chamo gay]. O que o impressionou no livro e em sua abordagem? Como ele se distingue de algumas abordagens “pro-gay” e posturas adotadas por alguns Católicos? O que pode ser feito para explicar, em termos positivos, o ensinamento da Igreja sobre sexualidade, casamento e assuntos relacionados?

Cardeal Müller: O livro de Daniel Mattson foi escrito a partir de uma perspectiva pessoal. Ele é fundamentado em uma profunda reflexão intelectual sobre a sexualidade e o matrimônio, que o faz diferente de qualquer forma de ideologia. Portanto, ele ajuda a pessoas com atração para o mesmo sexo a reconhecer sua dignidade e a seguir um benéfico caminho no desenvolvimento de sua personalidade, e a não se deixarem ser usados como peças nos jogo de poder de ideólogos. Um ser humano é uma unidade interior de princípios espirituais e materiais, e, consequentemente, uma pessoa e um sujeito livremente atuante de uma natureza que é espiritual, corpórea e social.

O homem é criado para uma mulher e a mulher para um homem. A meta da comunhão matrimonial não é o poder de um sobre o outro, mas, antes, a unidade em um amor que se doa, no qual ambos crescem e juntos alcançam o objetivo em Deus. A ideologia sexual que reduz o ser humano ao prazer é, de fato, hostil à sexualidade, pois nega que a meta do sexo e do eros é agape. Um ser humano não pode se permitir ser degradado ao status de um animal mais desenvolvido. Ele é chamado a amar. Somente se amo o outro por si mesmo eu chego a mim mesmo; só assim sou liberado da prisão de meu egoísmo primitivo. Não se pode ser realizado às custas dos outros.

A lógica do Evangelho é revolucionária em um mundo de consumismo e narcisismo. Pois somente o grão de trigo que cai no chão e morre não permanece sozinho, mas produz muitos frutos. “Quem amar sua vida a perderá, e quem odiar sua vida neste mundo a guardará pra a vida eterna” (Jo 12:25).

28 junho, 2018

Após a rejeição do Vaticano, bispos alemães se sentem “obrigados seguir em frente” sobre a intercomunhão.

IHU – Líderes da conferência dos bispos alemães dizem que se sentem “obrigados a seguir em frente” em sua proposta de criar diretrizes nacionais para permitir que os protestantes casados ​​com Católicos recebam a Comunhão, mesmo após o chefe doutrinal do Vaticano pedir que eles deixassem o assunto de lado.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 27-06-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

“É importante para nós, que estamos em uma busca ecumênica de alcançar uma compreensão mais profunda entre os cristãos. Somos obrigados a persistir com coragem neste assunto”, afirmou o Conselho Permanente da Conferência, em uma declaração no dia 27 de junho.

A declaração, que aparentemente indica um tom de desafio, também diz que o presidente da Conferência, cardeal Reinhard Marx, se reuniu recentemente com o Papa Francisco para discutir o assunto. Na ocasião, Marx afirmou que pôde compreender a carta de 25 de maio do chefe doutrinal, informando aos alemães sobre questões de como sua proposta “fornece orientação e margem para interpretação”.

A declaração corresponde a uma carta enviada aos bispos alemães pelo cardeal, Luis Ladaria, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Nessa carta, que vazou para um jornalista italiano, Ladaria expôs aos alemães a decisão do Papa de não publicar a proposta, por falta de informações.

O cardeal ainda disse numa breve coletiva de imprensa, no dia 26 de junho, que sua carta deveria ser um “apelo à reflexão” e não “frear” a proposta. Ele chamou a questão da intercomunhão de “um caso que deve ser estudado em uma situação ampla, e não apenas como um problema local”.

A Igreja Católica geralmente reserva a recepção da Comunhão aos seus membros, sustentando que a partilha do sacramento seja um sinal de unidade na fé.

Embora o texto das diretrizes alemãs não tenha sido publicado, devemos considerar as situações em que uma pessoa luterana casada com um católico romano, que frequenta regularmente a missa com o cônjuge católico, poderia receber a Eucaristia.

A questão afeta a Alemanha mais do que a maioria dos outros países, já que a comunidade cristã está dividida de maneira quase igual entre católicos e luteranos.

Em sua declaração, os bispos alemães dizem que estão preocupados com a prestação de cuidados pastorais para casais ​​interdenominacionais que têm uma séria necessidade espiritual de receber a Eucaristia“.

O texto afirma que Marx também pôde esclarecer com Francisco a respeito da proposta das diretrizes nacionais que serviriam como “uma ajuda à orientação”, para que os bispos individuais usassem sua autoridade sob a lei canônica de permitir a Eucaristia à cristãos que não se encontram em plena comunhão com a Igreja Católica.

Durante uma coletiva de imprensa no voo de volta a Roma após sua visita a Genebra em 21 de junho, Francisco disse que havia dado permissão a Ladaria para escrever a carta aos alemães com intuito de garantir que a proposta tenha um bom resultado.

Segundo o Papa Francisco, embora o Código de Direito Canônico da Igreja Católica permita que um bispo local decida dar a Comunhão em casos especiais, não permite que isso seja responsabilidade de conferências nacionais.

A declaração dos bispos alemães diz que a totalidade da conferência irá reconsiderar a proposta de diretrizes sobre a intercomunhão em sua próxima assembleia geral, a ser realizada em setembro. Em fevereiro, a conferência aprovou pela primeira vez a proposta com mais de dois terços dos votos.

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9 abril, 2018

O Papa Francisco e o destino eterno das almas.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza romana, 04-04-2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: A finalidade da Igreja é a glória de Deus e a salvação das almas. Salvação de quê? Da condenação eterna, que é o destino que aguarda os homens que morrem em pecado mortal. Para a salvação dos homens, Nosso Senhor ofereceu sua Paixão Redentora. Nossa Senhora lembrou-o em Fátima: o primeiro segredo comunicado aos três pastores, aquele de 13 de julho de 1917, começa com a visão aterrorizante do mar de fogo do inferno. Se não fosse a promessa de Nossa Senhora de levá-los ao Céu, escreve a Irmã Lúcia, os videntes teriam morrido de comoção e medo. As palavras de Nossa Senhora são tristes e severas: “Vistes o inferno, onde caem as almas dos pobres pecadores. Para salvá-los, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração”. Um ano antes, o Anjo de Fátima ensinara aos três jovens pastores esta oração: “Ó meu Jesus! Perdoai-nos, livrai-nos do fogo do Inferno, levai as almas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem”.

Jesus fala repetidamente da “Geena” e do “fogo inextinguível” (Mt 5, 22, 13, 42, Mc 9, 43-49) reservado àqueles que se recusam a se converter no fim da vida. O primeiro fogo, o espiritual, é a privação da posse de Deus. É o castigo mais terrível, que constitui essencialmente o inferno, porque a morte dissolve como um feitiço os laços terrenos da alma, que anseia com toda sua força juntar-se a Deus, mas não pode fazê-lo porque escolheu livremente separar-se d’Ele pelo pecado.

A segunda pena, misteriosa, é aquela pela qual a alma sofre um fogo real, não metafórico, que acompanha inextinguivelmente aquele fogo espiritual da perda de Deus. E como a alma é imortal, a punição devida ao pecado mortal sem arrependimento dura tanto quanto dura a vida da alma, que é para sempre, para a eternidade. Esta doutrina é definida pelos Concílios Lateranense IV, Lyon II, de Florença e de Trento. Na constituição Benedictus Deus, de 29 de janeiro de 1336, com a qual condena os erros de seu predecessor João XXII sobre a visão beatífica, o Papa Bento XII afirma: “Nós definimos que, de acordo com a disposição geral de Deus, as almas daqueles que morrem em pecado mortal atual descem imediatamente ao inferno após a morte e lá sofrem a dor do inferno” (Denz-H 1002).

Em 29 de março de 2018, Quinta-feira Santa, apareceu um colóquio do Papa Francisco no jornal La Repubblica. Seu agora familiar interlocutor, Eugenio Scalfari, pergunta-lhe: “O senhor nunca me falou das almas que morrem em pecado e vão pagar eternamente no inferno. O senhor me falou, pelo contrário, das almas boas admitidas à contemplação de Deus. Mas e as almas ruins? Onde elas são punidas?”.

O Papa Francisco teria respondido assim: “Não são punidas. Aqueles que se arrependem obtêm o perdão de Deus e vão para as fileiras das almas que o contemplam; mas aqueles que não se arrependem e não podem, portanto, ser perdoados, desaparecem. Não existe um inferno, existe o desaparecimento das almas pecaminosas.”

Estas palavras, como soam, constituem uma heresia. O clamor já começava a se difundir quando a Sala de Imprensa do Vaticano interveio com uma declaração na qual se lê: o Papa Francisco “recebeu recentemente o fundador do jornal La Repubblica num encontro privado por ocasião da Páscoa, mas sem dar nenhuma entrevista. O que o autor diz no artigo de hoje é fruto de uma reconstrução feita por ele, na qual não são citadas palavras textuais pronunciadas pelo Papa. Nenhum texto entre aspas do artigo acima mencionado deve, portanto, ser considerado como uma transcrição fiel das palavras do Santo Padre”.

Não foi portanto uma entrevista, mas um colóquio privado que o Papa sabia bem que seria transformado em uma entrevista, porque assim aconteceu nos quatro encontros precedentes com o mesmo Scalfari. E se, apesar das controvérsias levantadas pelas entrevistas anteriores com o jornalista do La Repubblica, ele persiste em considerá-lo como seu interlocutor favorito, isso significa que o Papa pretende exercer, com esses colóquios, uma espécie de magistério midiático, com consequências inevitáveis.

Nenhuma frase – diz a Santa Sé – deve ser considerada como uma transcrição fiel, mas nenhum conteúdo específico da entrevista é negado, de tal maneira que não sabemos se, e em que ponto, o pensamento bergogliano foi deturpado. Em cinco anos de pontificado, Francisco nunca fez uma única referência ao inferno como castigo eterno para as almas que morrem em pecado. Para esclarecer seu pensamento, o Papa, ou a Santa Sé, deveria reafirmar publicamente a doutrina católica, em todos os pontos da entrevista nos quais ela foi negada. Isso infelizmente não aconteceu e fica-se com a impressão de que a notícia de La Repubblica não é uma fake news, mas uma iniciativa deliberada, para aumentar a confusão dos fiéis.

A tese segundo a qual a vida eterna seria reservada às almas dos justos, enquanto as dos ímpios desapareceriam, é uma antiga heresia, que nega, além da existência do inferno, a imortalidade da alma definida como verdade de fé pelo Concílio de Latrão V (Denz-H, n 1440). Essa opinião extravagante foi expressa pelos socinianos, pelos protestantes liberais, por alguns seitas adventistas e, na Itália, pelo pastor valdense Ugo Janni (1865-1938), teórico do “pancristianismo” e grão-mestre maçônico da loja Mazzini, de Sanremo.

Para esses autores, a imortalidade é um privilégio concedido por Deus apenas às almas dos justos. O destino das almas obstinadas no pecado não seria um castigo eterno, mas a perda total do ser. Essa doutrina também é conhecida como “imortalidade facultativa” ou “condicionalismo”, porque considera que a imortalidade é condicionada pela conduta moral. O termo da vida virtuosa é a perpetuidade do ser; o termo da vida culposa é a autodestruição.

O condicionalismo se une ao evolucionismo porque afirma que a imortalidade é uma conquista das almas, uma espécie de ascensão humana análoga à “seleção natural” que leva os organismos inferiores a se tornarem organismos superiores. Trata-se de uma concepção pelo menos implicitamente materialista, porque a verdadeira razão para a imortalidade da alma é a sua espiritualidade – o que é espiritual não pode ser dissolvido –, enquanto quem afirma a possibilidade de uma decomposição da alma lhe atribui uma natureza material. Uma substância simples e espiritual como a alma não poderia perdê-la senão pela intervenção de Deus, mas isso é negado pelos condicionalistas, porque significaria admitir a sanção de um Deus justo que recompensa e pune, no tempo e na eternidade. Por outro lado, sua concepção de um Deus apenas misericordioso atribui à vontade do homem a faculdade de autodeterminação, escolhendo tornar-se uma centelha incorporada no fogo divino ou extinguir-se no nada absoluto.

O panteísmo e o niilismo são as opções deixadas ao homem nesta cosmologia que nada tem a ver com a fé católica e com o bom senso. E para um ateu, já convencido de que nada existe depois da morte, o condicionalismo tira essa possibilidade de conversão, que é dada pelo timor Domini: o temor do Senhor é o princípio da Sabedoria (Salmos 110, 10), a cujo julgamento ninguém escapará. É somente crendo na infalível justiça de Deus que podemos nos abandonar à Sua imensa misericórdia. Nunca como agora se faz necessária a pregação do destino final das almas, que a Igreja resume nos quatro Novíssimos: Morte, Juízo, Inferno e Paraíso. Nossa Senhora em pessoa quis lembrá-lo em Fátima, prevendo a deserção dos Pastores, mas nos assegurando que a assistência do Céu nunca nos faltará.

2 março, 2018

Novo apelo do Padre Weinandy ao Papa: com esta falsa misericórdia, a Igreja é destruída.

Por Sandro Magister, Settimo Cielo, 24 de fevereiro de 2018 | Tradução: Marcos Fleurer – FratresInUnum.com:  Todos se recordam do Padre Thomas G. Weinandy e de sua carta aberta que enviou ao Papa Francisco no verão passado, divulgada por ele no dia 1 de novembro em Settimo Cielo.

weinandy3Hoje, sábado 24 de fevereiro, ele retorna à batalha com a palestra que proferiu esta manhã em Sydney, promovida pela Universidade Notre Dame da Austrália.

Nela, o Padre Weinandy descreve e denuncia o ataque e a gravidade sem precedentes que algumas teorias e práticas “pastorais” encorajadas pelo Papa Francisco, que estão sendo realizadas contra a Igreja (na suas dimensões) “Una, Santa, Católica e Apostólica” e, em particular, contra a Eucaristia. , que é o “cume e a fonte” da vida da própria Igreja.

O padre Weinandy, de 72 anos, é um teólogo entre os mais conhecidos e os mais estimados. Mora em Washington, no Colégio dos Capuchinhos, a ordem franciscana a que ele pertence. Até agora, é membro da Comissão Teológica Internacional que ajuda a Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, nomeado em 2014 pelo Papa Francisco.

Ele ensinou nos Estados Unidos em várias universidades, em Oxford por doze anos e em Roma na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Durante nove anos, de 2005 a 2013, foi diretor executivo da Comissão Doutrinal da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. E continuou fazendo  parte como “conselheiro” até o dia da publicação de sua carta aberta ao Papa Francisco, quando foi forçado a renunciar.

Nós lhe damos a palavra.

*

O DESAFIO CONTEMPORÂNEO PARA A IGREJA E A EUCARISTIA

por Thomas G. Weinandy

É verdade que a Igreja após o Concílio Vaticano II estava cheia de divisões, com disputas sobre doutrina, moral e liturgia. Essas divergências ainda continuam. No entanto, em nenhum momento durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, houve dúvidas sobre o que a Igreja ensina em relação à sua doutrina, sua moral e a prática litúrgica. […] Esse não é o caso, de muitas maneiras significativas, no atual pontificado do Papa Francisco.

Desafio à unidade da Igreja

[…] Às vezes, parece que o Papa Francisco se identifica não como o promotor da unidade, mas como o agente da divisão. Sua filosofia prática, se é uma filosofia deliberada, parece ser a crença de que um bem maior unificador emergirá da atual “gritaria” de pontos de vista divergentes e da confusão das divisões resultantes.

Minha preocupação aqui é que essa abordagem, mesmo que não fosse intencional, ataca a verdadeira essência do ministério petrino, como Jesus entendeu e como continuamente foi entendido pela Igreja. O sucessor de São Pedro, por causa da verdadeira natureza do cargo, deve ser, literalmente, a personificação pessoal e, consequentemente, o sinal consumado da comunhão eclesial, e desta forma o principal defensor e promotor da comunhão eclesial da Igreja. […] Aparentemente, incentivando a divisão doutrinal e a discórdia moral dentro da Igreja, o atual pontificado transgrediu o marco fundamental da Igreja: sua unidade. Mas como essa ofensa se manifesta contra a unidade da Igreja? Faz isso desestabilizando os outros três atributos da Igreja.

Desafio à apostolicidade da Igreja

Em primeiro lugar, a natureza apostólica da Igreja está sendo prejudicada. Como tem sido avisado por teólogos e bispos, e mais freqüentemente pelos leigos (que possuem o “sensus fidelium”), o ensinamento do atual pontífice não se destaca por sua clareza. […] Como se vê em “Amoris Laetitia”, ele “reconcebe” e exprime de forma nova o ensino apostólico anterior e claro da tradição magistral, com uma forma aparentemente ambígua, além de semear a confusão e a perplexidade dentro da comunidade eclesial, contrariando suas próprias tarefas como sucessor de Pedro e transgredindo a confiança de seus colegas bispos, bem como dos sacerdotes e de todos os fiéis.

Inácio [de Antioquia] ficaria assustado com tal situação. Se, para ele, o ensino herético exposto por aqueles que só estão associados com a Igreja é destrutivo para a unidade da Igreja, muito mais devastador é o ensino ambíguo quando é formulado por um bispo que tem o encargo divino para assegurar a unidade. eclesial […]

Além disso, […] se sanciona dando a aparência que uma interpretação doutrinária ou moral que contradiz o que foi recebido pelo ensinamento apostólico e a tradição magisterial da Igreja – como foi definido dogmaticamente pelos Concílios e ensinado doutrinariamente pelos papas e bispos anteriores em comunhão com ele, como foi aceito e acreditado pelos fiéis, não pode ser proposto como um ensinamento magisterial. […] Em matéria de fé e moral, o ensino de um Papa vivo não tem precedência absoluta sobre o ensino magisterial dos pontífices anteriores ou a doutrina docente estabelecida. […] Que o ensino ambíguo do Papa Francisco às vezes parece cair fora do ensinamento da comunidade eclesial apostólica histórica, então suscita grande preocupação, porque, como já foi dito antes, promove a divisão e a desarmonia em vez da unidade e da paz dentro da única Igreja apostólica. […]

Desafio à catolicidade da Igreja

Em segundo lugar, a universalidade da Igreja manifesta-se claramente no fato de que todas as Igrejas particulares estão mutuamente ligadas, através do Colégio dos Bispos em comunhão com o Papa, através da profissão da mesma fé apostólica e através da pregação do único Evangelho universal para toda a humanidade. […] Este atributo da unidade católica também é desafiado atualmente.

A adesão do papa Francisco ao conceito de sinodalidade tem sido altamente promovida: a concessão às Igrejas locais de uma liberdade mais autodeterminada. […] Mas, como é visualizado pelo Papa Francisco e promovido por outros, essa noção de sinodalidade, ao invés de garantir a unidade universal da Igreja Católica – uma comunhão eclesial composta por múltiplas Igrejas particulares – é usada agora para minar e assim sancionar divisões dentro da Igreja. […]

Atualmente, estamos testemunhando a desintegração da catolicidade da Igreja, pelas Igrejas locais, tanto a nível diocesano quanto a nível nacional, que muitas vezes interpretam as normas doutrinais e os preceitos morais de várias formas conflitivas e contraditórias. […] O atributo da unidade da Igreja, uma unidade que o papa é divinamente mandado para proteger e despertar, está perdendo sua integridade porque seus atributos de catolicidade e apostolicidade caíram em uma desordem doutrinal e moral, uma anarquia teológica que o Papa mesmo, talvez inconscientemente, começou a defender devido a uma defeituosa concepção da sinodalidade. […]

Desafio à santidade da Igreja

Em terceiro lugar, isso nos leva ao quarto atributo da Igreja: a sua santidade. Este atributo está igualmente sob cerco, mais especialmente, mas não surpreendentemente, em relação à Eucaristia. […]

Para participar plenamente da Eucaristia de Cristo, […] são necessários os quatro atributos da Igreja que devem ser personalizados, porque apenas agindo dessa maneira se está em plena comunhão com a Igreja para receber a Comunhão – o corpo elevado e o sangue de Jesus, a fonte e culminação de um com o Pai no Espírito Santo. […]

A primeira questão […] pertence especificamente à santidade. Embora a única fé apostólica da Igreja seja professada, a própria fé é insuficiente para receber Cristo na Eucaristia. Referindo-se ao [Concílio] Vaticano II, João Paulo II afirma que “é necessário perseverar na graça santificante e na caridade, permanecendo no seio da Igreja com o” corpo “e com o” coração “(Ecclesia de Eucharistia , n.36). No início do século II d. C. Inácio [de Antioquia] levantou o mesmo ponto: a comunhão só pode ser recebida “em estado de graça” (Ad.Eph., N.20). Assim, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica e o Concílio de Trento, João Paulo II confirma: “Desejo, portanto, reiterar que está em vigor e sempre estará na Igreja, a norma pela qual o Concílio de Trento concretizou a severa exortação do apóstolo Paulo, ao afirmar que, para receber a Eucaristia com dignidade, “a confissão dos pecados deve preceder, quando alguém tem consciência do pecado mortal” (ibid.) . De acordo com a doutrina tradicional da Igreja, João Paulo II insiste então que o sacramento da Reconciliação é “necessário para a plena participação no sacrifício eucarístico”, quando o cristão tem consciência de um pecado grave. Enquanto ele reconhece que somente a pessoa pode julgar em consciência seu estado de graça, ele afirma que “nos casos de um comportamento externo sério, abertamente e de forma estável, contrariamente à norma moral, a Igreja, em sua pastoral para a boa ordem comunitária e pelo respeito ao sacramento, não pode se mostrar indiferente “(ibid.). João Paulo II intensifica sua admoestação citando o direito canônico. Onde existe “uma indisposição moral manifesta”, isto é, de acordo com o Direito canônico, quando as pessoas “obstinadamente persistem em um pecado grave manifesto”, então “a admissão na comunhão eucarística não é permitida” (ibid.).

Aqui vemos o desafio atual para a santidade da Igreja e, especificamente, para a santidade da Eucaristia. A questão de saber se os casais católicos divorciados e “recasados”, envolvidos em ações conjugais, podem receber a comunhão, gira em torno da questão real do “comportamento externo sério, aberto e estável contrário à norma moral” e, consequentemente, se eles possuem “uma manifesta indisposição moral” para receber a comunhão.

O Papa Francisco insiste com razão que tais casais devem ser acompanhados e depois ajudados a formar adequadamente suas consciências. Concedendo que existem casos matrimoniais extraordinários em que se pode discernir corretamente que um casamento anterior era sacramentalmente inválido, mesmo que não se pudesse obter evidência por nulidade, então um casal pode receber a Comunhão. No entanto, a maneira ambígua em que o Papa Francisco propõe este acompanhamento pastoral permite o desenvolvimento de uma situação pastoral em que a prática comum permitirá que quase todos os casais divorciados e recasados se julguem livres para receber a Sagrada Comunhão.

Esta situação pastoral se desenvolverá porque mandamentos morais negativos, como “não cometerás adultério”, não são mais reconhecidos como normas morais absolutas que nunca podem ser violadas, mas como ideais morais, como objetivos que podem ser alcançados ao longo de um período de tempo ou que eles nunca podem ser alcançados na vida de alguém. Neste período intermediário e indefinido, com a benção da Igreja, as pessoas podem continuar a lutar por tudo o que são capazes de fazer, viver vidas “santas” e assim receber comunhão. Esta prática pastoral tem múltiplas consequências doutrinais e morais prejudiciais.

Primeiro, permitir que aqueles que estão objetivamente em pecado grave manifesto recebam a comunhão é um ataque público aberto à santidade do que João Paulo II chama de “Santíssimo Sacramento”. O pecado grave, por sua verdadeira natureza, atestado por Inácio de Antioquia, o Concílio Vaticano II e João Paulo II, priva um de santidade, porque o Espírito Santo não habita mais em uma pessoa, logo, torna a pessoa incapaz de receber a Sagrada Comunhão. Para receber a Comunhão naquele estado literalmente infeliz é uma mentira, porque ao receber o sacramento está sendo afirmado que alguém está em comunhão com Cristo, quando na realidade não é assim.

Do mesmo modo, essa prática também é uma ofensa contra a santidade da Igreja. Sim, a Igreja é composta de santos e pecadores, mas aqueles que pecam, todos são, devem ser pecadores – arrependidos, especificamente do pecado grave, se quiserem participar plenamente da liturgia eucarística e assim receber o santíssimo corpo e o sangue de Jesus exaltado. Uma pessoa que está em pecado grave ainda pode ser um membro da Igreja, mas como um pecador, essa pessoa já não participa da santidade da Igreja, como um dos santos. Receber a Comunhão naquele estado profano é, novamente, representar uma mentira porque nessa recepção se tenta declarar publicamente que um fiel é membro em estado de graça e vivo da comunidade eclesial quando não é.

Em segundo lugar, e pode ser mais importante, permitir receber a comunhão para aqueles que persistem em pecado grave manifesto, aparentemente como um ato de misericórdia, é menosprezar o mal inerente do pecado grave e difama a magnitude e o poder do Espírito Santo. Essa prática pastoral está implicitamente reconhecendo que o pecado continua a governar a humanidade, apesar da obra redentora de Jesus e sua unção do Espírito Santo sobre todos os que creem e são batizados. Jesus não é realmente o Salvador e o Senhor, mas sim Satanás, que continua a reinar.

Além disso, aprovar as pessoas no pecado grave não é de modo algum um ato benevolente ou amoroso, porque está endossando um estado no qual eles poderiam ser eternamente condenados, ou seja, sua salvação seria ameaçada. Da mesma forma, por sua vez, esses pecadores também estão sendo insultados, pois sutilmente se está dizendo que são tão pecaminosos que mesmo o Espírito Santo não é suficientemente poderoso para ajudá-los a mudar seus caminhos pecaminosos e torná-los santos. Essencialmente, eles  são “salváveis”. Embora na realidade, o que finalmente é oferecido é a admissão de que a Igreja de Jesus Cristo não é realmente santa e por isso é incapaz de realmente santificar seus membros.

Por fim, o escândalo é a consequência pastoral pública de permitir que a Sagrada Comunhão seja recebida por pessoas em pecado grave e impenitentes. Não é simplesmente que fiéis da comunidade eucarística estarão consternados e possivelmente desagradados, mas, mais importante ainda, ficarão tentados a pensar que eles também podem pecar gravemente e continuar em boa situação com a Igreja. Por que tentar viver uma vida santa, até uma vida heroica e virtuosa, quando a própria Igreja parece não exigir esse tipo de vida, nem mesmo encorajar essa vida? Assim, a Igreja se torna uma paródia de si mesma e essa farsa não gera senão desprezo e desdém no mundo, e a zombaria e o cinismo entre os fiéis, ou no máximo, uma esperança contra a esperança entre os mais pequeninos.

9 fevereiro, 2018

Dom Víctor “Tucho” Manuel Fernández, inspirador de Amoris Laetitia, lança um ataque contra os cardeais Müller e Sarah.

Por Jeanne Smits[1], Réinformation TV, 17 de janeiro de 2018. Tradução: André Sampaio | FratresInUnum.com[2] Muito próximo do soberano pontífice, Dom Víctor Manuel Fernández publicou, há poucos dias [em 14/01/2018, n.d.t.], um artigo no jornal argentino La Nacion[3], com o fim de denunciar a atitude dos cardeais Sarah e Müller, que agem, segundo ele, como se Francisco não fosse papa. Reitor da Pontifícia Universidade Católica Argentina, arcebispo ad personam por graça do papa reinante, autor de um livro intitulado Cura-me com tua boca: a arte de beijar[4], chamado familiarmente de “Tucho”, Fernández influenciou de maneira altamente significativa a elaboração de Amoris laetitia[5], como demonstra a correspondência entre escritos seus do passado e os trechos mais controversos da exortação apostólica[6] [arcebispo ad personam: título honorífico pessoal, não implicativo de jurisdição de uma arquidiocese]. Ele se encontra 100% alinhado com as novidades do papa Francisco. Ao atacar dois cardeais que são conhecidos por suas visões tradicionais, mas que nunca tacharam de inaceitáveis os ensinamentos em causa – nem mesmo por meio dos dubia[7] [cujos signatários foram outros cardeais] –, o prelado argentino deixa entrever uma escalada na obra de desestabilização.

Víctor Manuel Fernández com o então cardeal Bergoglio

Víctor Manuel Fernández com o então cardeal Bergoglio.

Um verdadeiro ataque contra os dois cardeais

O artigo leva este título: “As errôneas interpretações da mensagem do papa”. “Tucho” Fernández escreve: “Muitas vezes se supõe que todos os que exercem alguma tarefa em instituições católicas estejam executando ordens do papa toda vez que se pronunciam. Contudo, isso sequer ocorre com os cardeais do Vaticano, visto que seguem pensando e falando como desejam, como se Francisco não fosse papa”. Acusação gravíssima, posta nesses termos.

São especificamente citados os cardeais Gerhard Müller[8], prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, organismo do qual ele foi demitido sem deferências pelo papa, e Robert Sarah[9], ainda prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, mas cercado de pessoas que tomam decisões que destoam das suas diretrizes. Müller deveria ter sido demitido antes, sugere o arcebispo Fernández: “Acaso não nos perguntamos, muitas vezes, por que não era afastado o cardeal Müller, que não ocultava uma linha de pensamento bastante diferente [da do papa] e inclusive o criticava? E olhemos para o cardeal Sarah, que segue propondo que se volte a celebrar a missa de costas para o povo”.

O inspirador de Amoris laetitia teria afastado bem antes o cardeal Müller

Curiosamente, o artigo, em seu conjunto, parece constituir uma defesa do direito de toda pessoa a falar livremente e do entendimento de que um dirigente católico, em algumas de suas ações, não se vincula necessariamente ao papa. Assim, explica Fernández, o arcebispo Sánchez Sorondo[10] – outro argentino próximo de Francisco – age sozinho e sem requerer a permissão de ninguém quando convida figuras controversas – favoráveis a certas formas de eutanásia, ao aborto, ao controle da população – para reuniões da Pontifícia Academia das Ciências, da qual é chanceler, no Vaticano…

“Hoje, com Francisco, a Igreja usufrui de uma liberdade de expressão sem precedentes, e, para poder-se opinar, não é necessário estar pensando o que diria o papa. Agora, muitos católicos podem, irresponsavelmente, tratar Francisco como herege ou cismático, sem que lhes chegue sequer um pedido de esclarecimento da parte do Vaticano. Poucos anos atrás, receberíamos sanções graves por muito menos”, escreve Fernández.

Que arte de inverter os papéis, e de modo incoerente, além do mais! Como se pode justificar a ideia de que o papa, que efetivamente se mostrou “grato” ao cardeal Müller, deveria tê-lo afastado antes, se a liberdade é, nesse campo, a regra? Como se ousa dizer que aqueles que se preocupam com a integridade da doutrina católica gozam de uma (culpável?) indulgência da parte do pontífice, enquanto se revelam abundantes os casos de demissão, destituição, aposentadoria desses “perturbadores da ordem”, isso sem falar nas mostras de irritação extremada que familiares da Casa Santa Marta atribuem a Francisco?

Todo mundo fala livremente, mas acabamos por nos indagar, e com certo gracejo, se “Tucho” não estaria um tanto se pronunciando sob ordens.

[1] http://reinformation.tv/mgr-victor-manuel-fernandez-attaque-cardinal-muller-amoris-laetitia-smits-79347-2/

[2] https://fratresinunum.com/

[3] http://www.lanacion.com.ar/2100513-las-erroneas-interpretaciones-del-mensaje-del-papa

[4] https://fratresinunum.com/2015/01/12/arcebispo-reitor-e-beijoqueiro/

[5] http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html

[6] https://fratresinunum.com/2016/05/25/amoris-laetitia-tem-um-escritor-fantasma-chama-se-victor-manuel-fernandez/

[7] https://fratresinunum.com/2016/11/14/bombastico-cardeais-divulgam-carta-e-questionamentos-sobre-amoris-laetitia-que-francisco-se-negou-a-responder/

[8] https://fratresinunum.com/tag/dom-gerhard-ludwig-muller/

[9] https://fratresinunum.com/tag/cardeal-robert-sarah/

[10] https://infovaticana.com/2017/08/08/sanchez-sorondo-arzobispo-amigo-los-poderosos-antinatalistas-jamas-celebra-misa-reza-breviario/

2 janeiro, 2018

Importante: Dom Athanasius Schneider e bispos do Cazaquistão lançam ‘Profissão sobre verdades imutáveis a respeito do sacramento do Matrimônio”.

[Atualização – 02/01/2018 às 19:19] Corrispondenza Romana acaba de anunciar que dois bispos italianos, Dom Luigi Negri e Dom Carlo Maria Viganò aderiram à iniciativa dos bispos do Cazaquistão.

Três bispos declaram leitura de Amoris Laetitia feita pelo Papa como “estranha” à Fé Católica.

LifeSiteNews, Roma, 2 de janeiro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com — Três bispos se pronunciaram contra a interpretação feita pelo Papa Francisco de Amoris Laetitia que permite o acesso de alguns divorciados recasados à Sagrada Comunhão, afirmando que tal leitura está causando “confusão desenfreada”, é “estranha” à Fé Católica, e disseminará uma “epidemia do divórcio” na Igreja.

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Dom Tomash Peta, Dom Jan Pawel Lenga e Dom Athanasius Schneider.

Dom Athanasius Schneider, bispo-auxiliar de Astana, Cazaquistão, Dom Tomash Peta, arcebispo metropolita de Astana, e Dom Jan Pawel Lenga de Karaganda, Cazaquistão, divulgaram uma Profissão de verdades imutáveis sobre o sacramento matrinonial em 31 de dezembro, como “um serviço de caridade na verdade” à Igreja de hoje e ao Papa.

Os bispos tomaram a decisão de realizar uma “pública e inequívoca profissão da verdade” a respeito do ensinamento da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio, pois afirmam “não poderem permanecer em silêncio”.

Como bispos Católicos incumbidos de defender e promover a Fé Católica e a disciplina comum, afirmam ter uma “grave responsabilidade” e “dever perante os fiéis” que esperam deles “uma pública e inequívoca profissão da verdade e da imutável disciplina da Igreja acerca da indissolubilidade do matrimônio”.

Eles observam que após a publicação do documento do Papa Francisco sobre a família, Amoris Laetitia, diversos bispos e conferências episcopais divulgaram normas permitindo a alguns divorciados recasados civilmente, que não vivem em continência sexual, receber os sacramentos da Penitência e da Sagrada Comunhão. Eles enfatizam que essas várias autoridades hierárquicas (Alemanha, Malta e Buenos Aires, embora eles não as nominem) também receberam aprovação “até mesmo da suprema autoridade da Igreja”.

No mês passado, o Papa Francisco decidiu formalmente declarar a interpretação de Amoris Laetitia feita pelos bispos de Buenos Aires como “magistério autêntico”.

A disseminação dessas normas pastorais aprovadas eclesialmente “causaram uma considerável e sempre crescente confusão entre os fiéis e o clero” e são “meios de difusão da ‘epidemia do divórcio’ na Igreja”, escreveram os bispos do Cazaquistão.

“Nosso Senhor e Redentor Jesus Cristo solenemente reafirmou a vontade de Deus sobre a absoluta proibição do divórcio”, recordaram, e a Igreja sempre preservou e fielmente transmitiu tanto em sua doutrina como em sua disciplina sacramental “o ensinamento cristalino de Cristo” acerca da indissolubilidade do matrimônio”.

“Por conta da vital importância que a doutrina e a disciplina do matrimônio e da Eucaristia, a Igreja é obrigada a falar com a mesma voz. As normas pastorais a respeito da indissolubilidade do matrimônio não podem, portanto, ser contraditórias entre uma diocese e outra, entre um país e outro”.

“Desde os tempos dos Apóstolos”, explicam os bispos, “a Igreja observou este princípio, como testemunha Santo Irineu de Lion”:

“A Igreja, embora espalhada pelo mundo até os confins da terra, tendo recebido a Fé dos Apostólos e seus discípulos, preserva esta pregação e esta Fé com cuidado e, como Ela habita uma única casa, crê da mesma e idêntica maneira, como tendo uma só alma e um só coração, e prega a verdade da Fé, ensina-a e transmite-a em uma voz uníssona, como se tivesse uma só boca” (Adversus haereses, I, 10, 2).

Após, eles recordam a advertência do Papa João Paulo II de que a confusão semeada nas consciências dos fiéis por diferentes “opiniões e ensinamentos” enfraqueceria o “verdadeiro sentido de pecado, quase a ponto de eliminá-lo”.

O Papa João Paulo II erigiu a diocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, em 1999, e a elevou à arquidiocese em 17 de maio de 2003, nomeando o bispo polonês Tomash Peta como seu arcebispo. No Sínodo Ordinário sobre a Família em 2015, Dom Peta, que participou como delegado do Cazaquistão, iniciou sua breve intervenção com as palavras do Beato Paulo VI pronunciadas em 1972: “Por alguma fresta, a fumaça de Satanás penetrou no templo de Deus”.

Ele, então, afirmou aos Padres Sinodais que estavam reunidos: “Estou convencido de que estas foram palavras proféticas de um santo Papa, o autor de Humanae Vitae, Durante o Sínodo do ano passado [2014], a ‘fumaça de Satanás’ estava tentando adentrar na aula Paulo VI [local em que ocorriam as sessões do Sínodo]”. O arcebispo acrescentou: “Infelizmente, pode-se ainda sentir o cheiro desta ‘fumaça infernal’ em alguns pontos do Instrumentum Laboris e também em algumas intervenções de certos padres sinodais neste ano”. [Leia a intervenção aqui.]

Na Profissão, Dom Athanasius Schneider, juntamente com os arcebispos Peta e Lenga, reiteram aos fiéis sete verdades imutáveis sobre o sacramento do matrinônio, e, “no espírito de São João Batista, São João Fisher, São Tomás Morus, da Beata Laura Vicuña e de numerosos confessores e mártires, conhecidos ou não, da indissolubilidade do matrimônio”, afirmam:

Não é licito (non licet) justificar, aprovar, legitimar, direta ou indiretamente, o divórcio e a relação sexual estável não conjugal, através da disciplina sacramental da admissão dos assim chamados ‘divorciados e recasados’ à Sagrada Comunhão, neste caso, uma disciplina estranha à toda a Tradição da Fé Católica e Apostólica.

Leia a íntegra da Profissão de verdades imutáveis sobre o matrimônio sacramental aqui.

21 dezembro, 2017

Atribuem créditos ao Papa Francisco por ter ajudado a aprovar lei da eutanásia na Itália.

LifeSiteNews, Roma, 19 de dezembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – A eutanásia finalmente chegou à Itália e tanto os ativistas jubilantes do direito-de-morrer como os Católicos desconsolados estão atribuindo ao Papa Francisco parte do crédito. Além do mais, a nova legislação não garante aos médicos que quiserem recusar a participação o direito à objeção de consciência.

Na quinta-feira passada, o governo Italiano passou a lei que permite aos adultos determinar o tipo de cuidados médicos de fim-de-vida, incluindo as circunstâncias em que podem recusar o tratamento. Os Italianos agora poderão escrever “testamentos vivos”, nos quais eles poderão recusar não apenas tratamento médico, mas também hidratação e nutrição.

De acordo com a doutrina Católica, a retirada de nutrição e hidratação é uma forma de eutanásia passiva.

Essa lei Italiana sobre o fim da vida, também conhecida como “lei do biotestamento”, já havia sido introduzida trinta anos atrás, mas encontrou vigorosa oposição por parte de políticos pró-vida que bloquearam sua passagem sugerindo mais de três mil emendas. No entanto, na quarta-feira, todas essas emendas foram revogadas e a lei foi votada 180 contra 71, com 6 abstenções.

A nova legislação entrará no registro oficial no 40º aniversário da aprovação da lei Italiana que permite o aborto.

Críticos alegam que a resistência dos políticos Católicos contra essa lei foi enfraquecida depois do discurso do Papa Francisco à Pontifícia Academia para a Vida, quando ele disse que as pessoas podem recusar longos tratamentos médicos para prolongar a vida, mas deixou de mencionar que a administração de nutrição e alimentação são cuidados básicos humanitários, e não tratamento médico. De acordo com o jornal La Repubblica, da Itália, e o New York Times, muitos dos apoiadores da lei, e também muitos Católicos, viram no discurso de Francisco um “sinal verde” para a aprovação da nova lei.

“As palavras do Papa Francisco, no dia 16 de novembro, à Pontifícia Academia para a Vida sobre questões relativas ao final da vida, foram interpretadas como uma porta aberta à forma de eutanásia que é o chamado biotestamento”, escreveu Roberto de Mattei, historiador Católico e diretor da Fundação Lepanto da Itália.

Segundo Corrado Augias, do jornal La Repubblica, “as palavras do Papa foram necessárias para quebrar a última resistência de alguns Católicos e provavelmente — para convencer pelo menos um grupo entre eles a dar o seu consentimento [à lei pró-eutanásia ]”.

O defensor do “direito de morrer” Marco Cappato, membro do “Partido Radical” de extrema esquerda da Itália, elogiou Francisco imediatamente após seu discurso à Academia da Vida sobre o cuidado com os doentes terminais. Francisco, segundo ele, estaria do lado da nova lei.

“Que estava faltando uma lei que pelo menos respeitasse os direitos do doente terminal é algo que agora foi questionado até pelo próprio Papa”, escreveu ele naquele momento. “Quem sabe se agora os clericalistas no no Parlamento, que se acham mais Católicos que o Papa, não tomarão um momento para repensar seu obstrucionismo… sobre o biotestamento”.

Evidentemente que eles acabaram repensando.

O Papa Francisco, em seu discurso à Academia para a Vida disse: “(I)  é moralmente lícito decidir não adotar medidas terapêuticas ou descontinuá-las, quando seu uso não atende mais aos padrões éticos e humanitários que poderia ser chamado mais tarde “devidas proporções no uso de remédios” … permitindo assim que a decisão seja moralmente qualificada como retirada de “tratamento excessivo”.

O Papa Francisco pediu “discernimento” quando se trata de prolongar a vida, mas sem mencionar o cerne da questão, a saber, a retirada de nutrição e hidratação. Suas palavras para todos efeitos indicam um apoio à lei Italiana.

“Para determinar se uma intervenção médica clinicamente apropriada é de fato proporcional,  uma regra geral não é suficiente , disse o Papa.

“É necessário que haja um discernimento cauteloso do objeto moral, das circunstâncias presentes e das intenções dos envolvidos”, continuou ele.

“O paciente, primeiramente e antes de tudo, tem o direito, obviamente em diálogo com os profissionais médicos, de avaliar os tratamentos propostos e julgar se é realmente proporcional à sua realidade concreta e necessariamente recusá-lo se julgar que tal proporcionalidade lhe falta”, acrescentou ele.

De Mattei disse ao site LifeSiteNews que a Conferência dos Bispos Italianos também não falou contra a nova legislação.

Em uma entrevista ao La Repubblica, o aposentado Cardeal Ruini, de 86 anos, ex-presidente da Conferência Episcopal Italiana, lamentou a aprovação do projeto de lei. “Esta lei”, disse ele, “abre a porta para a eutanásia, sem, no entanto, nomeá-la”.

“É um método bastante hipócrita de se proceder, muito semelhante ao que usaram para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sem no entanto chamá-lo casamento e falando em união civil quando no final tem toda a substância de um casamento”, disse ele.

Ruini já havia sido duramente atacado há onze anos atrás por ter recusado o funeral Católico para o ativista pelo direito- de- morrer e membro do Partido Radical, Piergiorgio Welby.

O cardeal Ruini disse que a “falta de provisão para objeção de consciência por parte de médicos e outros profissionais médicos” é um dos mais sérios defeitos da lei.

Entre os ativistas Italianos pelo “direito-de-morrer” que foram fotografados enquanto comemoravam a aprovação da “lei do Biotestamento” estava a pioneira da lei do aborto do Partido Radical ” Emma Bonino. Ela estava sentada na câmara do Senado com a viúva de Piergiorgio Welby, Mina Welby, quando os resultados da votação foram exibidos. Bonino é famosamente considerada pelo Papa Francisco como uma entre os “grandes Italianos esquecidos”.

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10 dezembro, 2017

Bomba! Entrevista de Marcantonio Colonna, autor de “O Papa ditador”.

«Para o seu superior, Bergoglio era um divisor. Não deveria nem ter sido nomeado bispo» O autor fala do e-book que criou confusão dentro da Igreja, revelando segredos da carreira de Francisco

Por Francesco Borgonovo, La Veritá, 9 de dezembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – Há um livro que está chamando a atenção de meio mundo. Falaram dele jornalistas franceses, americanos, australianos e até algum jornal italiano, com muita cautela. Trata-se de um volume apimentado, a partir do título: O papa ditador.

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A capa é quase por inteiro uma fotografia de Francisco: o “ditador” em questão, obviamente, seria ele. O autor é Marcantonio Colonna. Trata-se de um pseudônimo, que faz referência a um personagem que realmente existiu: o vice-rei da Sicília, que viveu no século XVI e foi um dos protagonistas da batalha de Lepanto. As lacônicas notas biográficas presentes no livro – disponível apenas na versão e-book – explicam que o autor “formou-se na universidade de Oxford e possui uma profunda experiência no âmbito da pesquisa histórica e em outros campos. Reside em Roma desde o início do pontificado do Papa Francisco e o seu livro é fruto de estreitos contatos com muitas pessoas que trabalham no Vaticano, entre as quais os cardeais e outros personagens principais citados no curso da narração”.

La Verità conseguiu, através do e-mail, colocar-se em contato com Marcantonio Colonna, fazendo-o contar algo mais do que está em seu livro, que está suscitando tanta reação.

Por que decidiu escrever este livro? E por que utlizando um pseudônimo?

Em substância, devo dizer que a imagem midiática de que se beneficiou o Papa Francisco nos últimos cinco anos é uma das mais pavorosas enganações da vida contemporânea. Todos que trabalham no Vaticano conhecem o abismo entre essa imagem e a realidade, e não nos deveríamos maravilhar de que, no fim, alguém revelasse a verdade. Escrevi o meu livro com o nome de Marcantonio Colonna, que foi o grande campeão militar da Igreja Católica no século XVI, porque qualquer um que ler o livro verá que não é, de maneira alguma, um ataque à Igreja: a intenção é evitar que a Igreja cometa novamente um erro como esse, isto é, eleger como Papa um cardeal pouco conhecido, que se revela muito diferente daquilo que parecia. Era necessário usar um pseudônimo porque, como conta o livro, Papa Francisco se vinga sem piedade de qualquer um que lhe fizer oposição. Por exemplo, os três assistentes do Cardeal Müller, que foram demitidos em outubro de 2016 por presumidas críticas ao Papa.

Segundo o senhor, por que Bergoglio é um ditador?

O significado da palavra ditador é o de soberano que exercita a sua vontade pessoal no desprezo da lei e da justiça. É algo muito diferente da autoridade legal que tradicionalmente pertence à Cabeça da Igreja Católica. Poderia fazer referência novamente ao Cardeal Müller, que procurou defender os seus três subordinados quando foram demitidos e recebeu esta resposta do papa Francisco: “Eu sou o Papa e não preciso de explicações para nenhuma das minhas palavras”. Este não é um modo pelo qual os papas exercem tradicionalmente a sua autoridade. Mas, ao chamar Francisco de ditador, queria também ressaltar os estreitos paralelos entre o seu estilo e aquele de Juan Perón, o ditador da Argentina na época da juventude de Bergoglio. A sua influência é crucial para o explicar o estilo de Francisco. Como digo no livro, ele é a transposição eclesiástica de Juan Perón.

No livro, o senhor conta um acontecimento pouco conhecido sobre o passado de Bergoglio. Diz respeito a um jesuíta, Padre Kolvenbach. De que se trata? Como veio a conhecer esta história?

Em 1991, quando padre Jorge Bergoglio foi nomeado bispo na Argentina, foi necessário obter um relatório do superior geral da sua ordem, o padre Kolvenbach. A resposta do padre Kolvenbach, embasada sobre as opiniões dos outros membros da sua ordem, era que Bergoglio não era adequado para ser nomeado bispo. Padre Kolvenbach afirmava que Bergoglio não tinha equilíbrio psicológico, tinha um caráter hipócrita e foi uma figura que causou divisão quando foi provincial jesuíta na Argentina. Este relatório foi difundido entre os membros da Congregação para o bispos da época e era conhecido de um número bastante elevado de pessoas. Mas, Bergoglio, naturalmente, tomou cuidado de ocultar tudo isso quando se tornou Papa. E a cópia que se encontrava no arquivo oficial dos jesuítas em Roma desapareceu.

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Como recolheu o material para o seu livro?

Diversos jornalistas comentaram, relativamente ao meu livro, que ele contém pouca novidade e, com efeito, a maior parte se baseia em artigos que foram publicados nos últimos quatro anos, por exemplo, naqueles de Sandro Magister. Tratou-se simplesmente de juntar o material. Todavia, penso que uma importante contribuição fornecida pelo meu livro esteja no segundo capítulo, que descreve o passado de Jorge Bergoglio na Argentina, onde era conhecido como um político astuto e manipulador na tradição peronista. Também aqui há pouca novidade para um argentino, mas se trata de fatos desconhecidos para o resto do mundo, por causa da barreira linguística. Eu fui simplesmente o veículo para traduzí-los. E ainda: as revelações que dizem respeito à resistência para com as reformas e o reino de terror que existe agora no Vaticano são familiares para qualquer um que trabalhe ali, mas era necessário que alguém dissesse publicamente aquilo que era bastante evidente no secreto.

Bergoglio se tornou Papa através de qual percurso?

O meu primeiro capítulo descreve a ação do grupo de cardeais conhecido como “máfia de St. Gallen”, na gestão do conclave de 2013, para garantir a eleição de Bergoglio. Esta descrição deriva da narração de um dos membros do grupo, o cardeal belga Danneels, que estava tão orgulhoso de ter projetado a eleição de Bergoglio que revelou tudo aos autores da sua biografia (e deixem-me acrescentar que o nome “máfia de St. Gallen” foi dado pelo próprio Danneels). Ignorou o fato que estava revelando uma grave violação ao direito canônico, que proíbe as conspirações para influenciar os conclaves papais. O grupo de St. Gallen encontrou-se secretamente por anos antes do conclave de 2005, quando tentou impedir a eleição do cardeal Ratzinger como Papa Bento XVI, e o candidato apresentado na época foi Bergoglio. Quando Bento inesperadamente renunciou em 2013, aproveitaram a oportunidade de renovar a tentativa fracassada anos antes.

Qual é a sua opinião sobre as reformaa de Bergoglio?

O terceiro capítulo se intitula: “Reformas? Que reformas?”. Descreve em detalhes como as reformas foram completamente bloqueadas pelas poderosas figuras curiais com as quais Francisco deliberadamente se aliou. Em primeiro lugar, a reforma da cúria foi frustrada, com a intenção específica de reduzir os poderes exagerados da Secretaria de Estado, que agora é mais poderosa do que nunca, sob o cardeal Parolin. Em segundo lugar, a promessa quebrada de agir contra o escândalo dos padres pedófilos: foram casos conhecidos de sacerdotes protegidos por figuras expressivas da cúria. Em terceiro lugar, a inversão completa das reformas financeiras que foram imaginadas quando a nova Secretaria para a Economia foi instituída pelo cardeal Pell. Sofria resistência de um grupo restrito de cardeais que não queria renunciar ao seu controle e conseguiram vencê-lo. A demissão do revisão geral [de contas] do Vaticano, Libero Melone, foi outra vitória para aqueles que se opunham às reformas. Por que aconteceu? Porque Papa Francisco, que foi eleito para reformar a Igreja, descobriu que pode controlar a cúria de modo mais eficaz através de figuras corruptas que dependem dele para ter poder. Obedecem-no cegamente.

Houve reações por parte da Santa Sé ao seu livro?

O Vaticano não gostou do meu livro. Houve imediatas tentativas de entender quem o tinha escrito. Num certo momento, pensaram que tinham identificado o autor: alguém que estava na Inglaterra. E o importunaram com ameaças telefônicas. O que eles não percebem é que o livro não representa uma voz solitária, mas exprime as preocupações de muitíssimas pessoas – no Vaticano e em outros lugares –, pessoas que querem que a verdade seja conhecida.

5 dezembro, 2017

Vaticano. Uma notícia ambígua, uma indiscrição e uma informação que esperamos que não seja confirmada sobre Mons. Gänswein.

Vêm do Vaticano uma notícia, uma indiscrição e algumas informações, que esperamos que não sejam confirmadas. Mas vamos por partes.

Por Marco Tosatti, 1º de dezembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Como podem ver pelas fotos postadas no Facebook da Rádio Spada, no fascículo 10/2016 de Acta Apostolicæ Sedis foi publicada a carta privada que o Pontífice enviou as bispos argentinos, depois que eles promulgaram diretrizes para a aplicação do capítulo 8 (aquele das famosas novidades acerca da comunhão aos divorciados recasados) de Amoris Lætitia. Diretrizes que, como se percebeu e sublinhou, são qualquer coisa, menos claras.

A publicação da carta nos Acta é acompanhada por uma breve nota do Secretário de Estado, o Cardeal Pietro Parolin, que, com um “Rescriptumi ex audientia SS.mi” de junho de 2017, dá a notícia de que foi o próprio Papa que quis que os dois documentos – as linhas guias e a carta – fossem publicados no site eletrônico dos Acta Apostolicæ Sedis.

A notícia não pode senão alimentar ulteriormente a confusão e a incerteza em torno da controversa exortação apostólica e ao modo de agir do Pontífice, que aparece, de novo, longe da clareza e da precisão que muitos fiéis esperam dele. Não se dá uma resposta aos cardeais sobre os Dubia, não se dá uma resposta a carta, petições e outras iniciativas de estudiosos, teólogos e simples fiéis desorientados pela deliberada ambiguidade do documento. Mas, ao mesmo tempo, se oferece uma dose de oficialidade a uma carta dirigida a um membro de uma conferência episcopal.

Com qual objetivo? Para obrigar todos a um religiosum obsequium para com um magistério expresso de formas oblíquas e ambíguas, ou para responder sem se comprometer em uma resposta direta, que exporia o Pontífice de, maneira inequívoca, aos duvidosos e aos perplexos? Como simples fiel, isso tudo dá uma sensação de aversão por um comportamento que se poderia definir pretesco (ndt: hipocrisia típica de certos padres), no pior sentido do termo.

E, se for verdade o que soubemos de duas fontes diversas, talvez seja este um mal-estar também compartilhado no Vaticano. Um Cardeal de grande renome, ex diplomata e com um currículo importante à frente de Congregações e ofícios de relevo na Secretaria de Estado, teria repreendido o papa pela sua ação, dizendo-lhe em boa substância: Nós te elegemos para fazer as reformas, não para destruir tudo. A notícia se espalhou no Vaticano, porque a conversa, se é que isto pode ser chamado de conversa, se elevou a níveis altos de decibéis (eles gritaram), a ponto de superar as frágeis barreiras das portas e dos muros. O purpurado em questão foi um daqueles que apoiaram a candidatura de Jorge Mario Bergoglio no conclave de 2013 [o site Gloria.tv sugere que o envolvido seria o Cardeal Leonardo Sandri, argentino, Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais].

Por fim, uma informação que esperamos que não seja confirmada. No próximo 7 de dezembro, o arcebispo Georg Gänswein, já secretário do papa Bento XVI, cumpre os seus cinco anos como Prefeito da Casa Pontifícia. E, segundo as indiscrições de boa fonte, poderia não ser confirmado. Como, além disso, já aconteceu, como sabemos, ao Cardeal Müller. Com base na regra dos cinco anos, que dispara sobretudo e especialmente se o interessado não faz parte da corte do Pontífice. Nas últimas semanas, Mons. Gänswein esteve fora de Roma por algum problema de saúde, mas já voltou. Se a informação for verdadeira, restaria o problema de sua nomeação. É improvável a hipótese de uma Diocese na Alemanha: ele é católico demais! Talvez a secretaria de uma Congregação em Roma. Ou, como Müller, um “ficar à disposição”. Esperamos, porém, que a nossa fonte esteja errada [além de Mons. Gänswein, outro que parece estar com os dias contados é Mons. Guido Marini].

4 dezembro, 2017

Os Cardeais Burke-Brandmüller-Müller e “O Papa ditador”.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 29 de novembro de 2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Nas últimas semanas houve três entrevistas de alguns eminentes cardeais. A primeira foi concedida em 28 de outubro de 2017 pelo cardeal Walter Brandmüller a Christian Geyer e Hannes Hintermeier, do Frankfurter Allgemeine Zeitung; a segunda foi dada em 14 de novembro pelo cardeal Raymond Leo Burke a Edward Pentin, do National Catholic Register; e a terceira, do cardeal Gerhard Müller ao jornalista Massimo Franco, apareceu em 26 de novembro nas colunas do Corriere della Sera.

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O cardeal Brandmüller manifestou sua preocupação com a possibilidade de se abrir uma divisão na Igreja. “O simples fato de uma petição com 870.000 assinaturas dirigidas ao Papa solicitando-lhe esclarecimentos permanecer sem resposta – como não obtiveram resposta 50 estudiosos internacionais – levanta questões. É verdadeiramente difícil de entender.” “Dirigir dúvidas ao Papa, dúvidas, perguntas, sempre foi uma forma absolutamente normal de dissipar as ambiguidades. Simplificando, a questão é a seguinte: o que ontem era pecado pode hoje sem bom? Pergunta-se também: existem realmente atos – é a doutrina constante da Igreja – que são sempre moralmente reprováveis em todas as circunstâncias? Como, por exemplo, o assassinato do inocente ou o adultério? Este é o ponto. Caso, de fato, se devesse responder à primeira pergunta com um ‘sim’ e com um ‘não’ à segunda, isso seria realmente uma heresia e, portanto, um cisma. Uma divisão na Igreja.”

O cardeal Burke, que declarou estar sempre em comunicação com o cardeal Brandmüller, formulou um novo alerta “sobre a gravidade de uma situação que nunca cessa de piorar” e reafirmou a necessidade de que todas as passagens heterodoxas da Amoris laetitia sejam esclarecidas. De fato, enfrentamos um processo que constitui “uma subversão das partes essenciais da Tradição”. “Além do debate sobre a moral, está cada vez mais erodido na Igreja o sentido da prática sacramental, especialmente no que diz respeito à penitência e à Eucaristia.”

O cardeal se dirige novamente ao Papa Francisco e a toda a Igreja, frisando “quão urgente é que o Papa, exercendo o ministério que recebeu do Senhor, possa confirmar seus irmãos na fé, exprimindo claramente o ensinamento sobre a moral cristã e o significado da prática sacramental da Igreja”.

O cardeal Müller, por sua vez, afirma existir o perigo de um cisma dentro da Igreja e que a responsabilidade da divisão não é dos cardeais dos dubia sobre a Amoris laetitia nem dos signatários da Correctio filialis ao Papa Francisco, mas do “círculo mágico” do Papa, que impede um debate aberto e equilibrado sobre os problemas doutrinários levantados por essas críticas:

“Atenção: se se generalizar a percepção de que uma injustiça foi praticada pela Cúria Romana, quase por força da inércia poder-se-ia pôr em movimento uma dinâmica cismática difícil depois de reabsorver. Creio que os cardeais que expressaram suas dúvidas sobre a Amoris laetitia, ou os 62 signatários de uma carta com críticas até mesmo excessivas ao Papa devem ser ouvidos, e não liquidados como ‘fariseus’ ou pessoas revoltosas. A única maneira de sair desta situação é um diálogo claro e direto. Em vez disso, tenho a impressão de que no ‘círculo mágico’ do Papa existem aqueles que estão especialmente preocupados em espionar seus pretensos adversários, impedindo assim uma discussão aberta e equilibrada. O dano mais grave que eles causam à Igreja é de classificar todos os católicos de acordo com as categorias ‘amigo’ ou ‘inimigo’ do Papa. Fica-se perplexo que um conhecido jornalista ateu [Eugenio Scalfari, fundador do La Repubblica] se gabe de ser amigo do Papa; e, paralelamente, que um bispo católico e cardeal como eu seja difamado como adversário do Santo Padre. Não acho que essas pessoas possam dar-me lições de teologia sobre o primado do Romano Pontífice.”

Segundo o seu entrevistador, o cardeal Müller ainda não se recuperou da “ferida” causada pela exoneração de três de seus colaboradores pouco antes de sua não recondução à frente da Congregação pela Doutrina da Fé, em junho passado. “Eram bons e competentes sacerdotes que trabalhavam para a Igreja com dedicação exemplar”, é o seu julgamento. “As pessoas não podem ser mandadas embora ad libitum, sem provas nem processo, só porque alguém denunciou anonimamente vagas críticas de uma delas ao Papa…”.

Qual é o regime sob o qual as pessoas são tratadas assim?”, pergunta Damian Thompson em The Spectator no dia 17 de julho passado. E responde que a demissão dos colaboradores do cardeal Müller “traz à mente alguns de seus predecessores mais autoritários, ou até mesmo algum ditador latino-americano que abraça as multidões e dá uma demonstração de seu estilo de vida humilde enquanto seus lugar-tenentes vivem no temor de sua cólera”.

Este aspecto do pontificado do Papa Francisco é agora objeto de um livro que acaba de ser publicado com o significativo título O Papa ditador. O autor é um historiador formado em Oxford que se oculta sob o nome de “Marcantonio Colonna”. O estilo é sóbrio e documentado, mas as acusações dirigidas ao papa Bergoglio são fortes e numerosas.

Muitos dos elementos sobre os quais o autor se baseia para formular suas acusações eram conhecidos, mas o que é novo é a acurada reconstrução de uma série de “quadros históricos”: o pano de fundo da eleição do Papa Bergoglio, guiada pela “máfia de São Galo”; as pendengas argentinas de Bergoglio antes de sua eleição; os obstáculos encontrados pelo cardeal Pell ao tentar fazer uma reforma financeira da Cúria; a revisão da Pontifícia Academia para a Vida; a perseguição aos Franciscanos da Imaculada e a decapitação da Soberana Ordem Militar de Malta.

A mídia, sempre pronta a fustigar alhures qualquer episódio de desgoverno e de corrupção, silencia-se diante desses escândalos. O principal mérito deste estudo histórico é de tê-los trazido à luz. “O medo é a nota dominante da Cúria sob a lei de Francisco, juntamente com a suspeita mútua. Não se trata apenas de informantes que procuram vantagens relatando uma conversa privada – como descobriram os três subordinados do cardeal Müller. Em uma organização onde as pessoas moralmente corruptas foram deixadas no lugar e até promovidas pelo Papa Francisco, uma chantagem sutil está na ordem do dia. Um sacerdote da Cúria ironizou assim: ‘Há um ditado segundo o qual [para encontrar emprego ou ser promovido] o que conta não é aquilo que sabes, mas quem conheces. No Vaticano, ele se aplica assim: o que conta é aquilo que sabes a respeito de quem conheces.”

Em suma, o livro de Marcantonio Colonna confirma aquilo que a entrevista do cardeal Müller deixa nebuloso: a existência de um clima de espionagem e delação que o antigo Prefeito da Doutrina da Fé atribui a um “círculo mágico” que condiciona as escolhas do Papa, enquanto o historiador de Oxford o imputa ao próprio modus gubernandi do Papa Francisco, que ele compara com os métodos autocráticos do ditador argentino Juan Perón, do qual o jovem Bergoglio era um seguidor.

Poder-se-ia responder nihil sub sole novum (Eclesiastes 1:10). A Igreja viu muitas outras deficiências de governo. Mas se este pontificado está realmente levando a uma divisão entre os fiéis, como sublinham os três cardeais, as causas não podem se limitar ao modo de governar de um Papa, mas devem ser procuradas em algo absolutamente inédito na História da Igreja: o afastamento do Romano Pontífice da doutrina do Evangelho, que ele tem, por mandato divino, o dever de transmitir e guardar. Este é o cerne do problema religioso do nosso tempo.