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28 março, 2019

Sobre a questão de um papa herege.

Por Dom Athanasius Schneider | Tradução: José Antonio Ureta

Em toda a tradição católica, a questão de como se comportar com um papa herético ainda não foi tratada, em termos concretos, de modo a obter algo que se assemelhe a um verdadeiro consenso geral. Até agora, nem um papa nem um concílio ecumênico formularam declarações doutrinárias relevantes ou emitiram normas canônicas vinculantes sobre como lidar com um papa herético durante o período de seu mandato.

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Dom Anthanasius Scheider e Papa Francisco.

Não há nenhum caso histórico de perda de um pontificado por um papa durante seu mandato devido à heresia ou suposta heresia. O Papa Honório I (625-638) foi excomungado postumamente por três concílios ecumênicos (o Terceiro Concílio de Constantinopla de 681, o Segundo Concílio de Nicéia de 787 e o Quarto Concílio de Constantinopla de 870) porque apoiou a doutrina herética daqueles que promoveram o Monotelismo, contribuindo assim para espalhar esta heresia. Na carta com a qual ele confirmou os decretos do Terceiro Concílio de Constantinopla, o Papa São Leão II (682-683) lançou o anátema sobre o Papa Honório (” anathematizamus Honorium”), afirmando que seu predecessor “não esclareceu esta Igreja apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas procurou subverter a fé imaculada com uma traição ímpia” (Denzinger-Schönmetzer, 563).

O Liber Diurnus Romanorum Pontificum, uma coleção heterogênea de formas usadas na chancelaria papal até o século 11, contém o texto do juramento papal, segundo o qual todo novo papa, ao tomar posse, tinha que jurar que “reconhece o Sexto Concílio Ecumênico que golpeou com eterno anátema os criadores da heresia (monotelita), Sérgio, Pirro etc., juntamente com Honório” (PL 105, 40-44).

Em alguns Breviários até o século XVI e XVIII, o Papa Honório foi mencionado como  herege nas lições das Matinas do 28 de junho, festa de São Leão II: “In synodo Constantinopolitano condemnati sunt Sergius, Ciro, Honório, Pirro, Paulus e Petrus nec non et Macarius, cum discipulo seu Stephano, sed et Polychronius et Simon, qui unam voluntatem et operationem in Domino Jesu Christo dixerunt vel praedicaverunt”. A presença desta leitura em alguns Breviários ao longo de muitos séculos mostra que muitas gerações de católicos não consideraram escandaloso que um papa em particular, e em um caso muito raro, tenha sido considerado culpado de heresia ou de favorecer a heresia. Naqueles tempos, os fiéis e a hierarquia da Igreja distinguiam claramente entre a indestrutibilidade da fé católica divinamente garantida pelo Magistério da Sé de Pedro e a infidelidade e traição de um único papa no exercício concreto de seu ofício magistral.

Dom John Chapman, em seu livro “A Condenação do Papa Honório” (Londres, 1907), explica que o Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla, que lançou o anátema sobre o Papa Honório, determinou uma clara distinção entre o erro de um único papa e a inerrância na fé da Sé Apostólica como tal. Na carta ao papa Agatão (678-681) pedindo-lhe para aprovar as decisões conciliares, os Padres do Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla afirmam que Roma tem uma fé infalível, promulgada com autoridade para toda a Igreja pelos bispos da Sé Apostólica, os sucessores de Pedro. Pode-se perguntar: como foi possível o Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla afirmar isso e, ao mesmo tempo, condenar um papa como herege? A resposta é bem clara. Papa Honório era falível, ele estava errado, ele era um herege, precisamente porque não reafirmou com autoridade, como devia, a tradição petrina da Igreja Romana. Ele não apelou para essa tradição, mas simplesmente aprovou e espalhou uma doutrina incorreta. Mas, uma vez desaprovadas por seus sucessores, as palavras do Papa Honório I tornaram-se inofensivas para a inerrância na fé da Sé Apostólica. Elas foram reduzidas ao seu verdadeiro valor, ou melhor, à mera expressão de sua opinião pessoal.

O papa Santo Agatão não se deixou confundir e nem abalar pelo comportamento deplorável de seu predecessor Honório I, que contribuiu para espalhar a heresia, mas manteve sua visão sobrenatural na inerrância da Sé de Pedro ao ensinar a fé, como escreveu aos imperadores em Constantinopla: “Esta é a regra da verdadeira fé, que esta mãe espiritual do seu pacífico império, a Igreja Apostólica de Cristo (a Sé de Roma) sempre manteve e defendeu com energia tanto na prosperidade como na adversidade; que, pela graça do Deus Todo-Poderoso, como será demonstrado, ela nunca se desviou do caminho da tradição apostólica, nem foi ela adulterada cedendo a inovações heréticas, mas desde o princípio recebeu a fé cristã de seus fundadores, os príncipes dos Apóstolos de Cristo, e permanecerá inalterada até o final, de acordo com a promessa divina do mesmo Senhor Salvador, que anunciou nos Santos Evangelhos ao príncipe dos seus discípulos, dizendo: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos.” (Ep. “Considerando mihi” ad Imperatores ).

Dom Prosper Guéranger deu uma breve e lúcida explicação teológica e espiritual deste caso concreto de um papa herege, dizendo: “Que aplausos nos abismos quando, um dia, o representante d’Aquele que é a luz apareceu como cúmplice do poder das trevas para trazer a noite! Uma nuvem pareceu interpor-se entre o céu e os montes onde reside Deus no seu vigário; sem dúvida, o aporte social da intercessão não tinha sido como que devia” (L’Année liturgique, Paris 1911, vol. 3, p. 403)..

Há também o fato de que por dois mil anos nunca houve um caso em que um papa foi declarado deposto por causa do crime de heresia durante seu pontificado. O papa Honório I foi anatematizado somente após sua morte. O último caso de um papa herege ou quase herético foi o do Papa João XXII (1316-1334), quando ensinou a teoria segundo a qual os santos desfrutariam da visão beatífica somente após o Julgamento Universal, na segunda vinda de Cristo. O caso foi abordado da seguinte maneira: houve admoestações públicas (da Universidade de Paris e do rei Filipe VI da França), uma refutação das teorias papais por meio de várias publicações teológicas e uma correção fraterna do cardeal Jacques Fournier, que mais tarde sucedeu João XXII com o nome de Bento XII (1334-1342).

A Igreja, nos raros casos concretos de um pontífice que incorre em sérios erros teológicos ou heresias, certamente pode continuar a viver. A prática da Igreja até agora tem sido deixar o julgamento final sobre um papa herético reinante para seus sucessores ou para um futuro concílio ecumênico, como no caso do papa Honório I. O mesmo provavelmente teria acontecido com o papa João XXII, se ele não tivesse se retratado de seu erro.

Os pontífices foram depostos várias vezes por poderes seculares ou por grupos criminosos. Isso aconteceu especialmente durante o “saeculum obscurum”, o chamado século escuro (século X e XI), quando os imperadores alemães depuseram vários papas indignos, não por causa de heresia, mas por causa de sua escandalosa vida imoral e seus abusos de poder. No entanto, eles nunca foram depostos por meio de um procedimento canônico, sendo isso impossível por causa da estrutura divina da Igreja. O papa recebe sua autoridade diretamente de Deus e não da Igreja; portanto, a Igreja não pode depô-lo, por qualquer motivo que seja.

É um dogma de fé que o papa não pode proclamar uma heresia quando ensina ex cathedra. Esta é a garantia divina de que as portas do inferno não prevalecerão contra a cátedra veritatis, que é a Sé Apostólica do Apóstolo São Pedro. Dom John Chapman, especialista na história da condenação do Papa Honório I, escreve: “A infalibilidade é, por assim dizer, o vértice de uma pirâmide. Quanto mais solenes os pronunciamentos da Sé Apostólica, mais podemos ter certeza da sua verdade. Quando eles atingem o máximo da solenidade, ou seja, quando eles são ex cathedra em senso estrito, a possibilidade de erro é completamente eliminada. A autoridade de um papa, mesmo nas ocasiões em que não é realmente infalível, deve ser obedecida e reverenciada. Que possa estar do lado errado é uma contingência que a história e a fé mostram como possível “(The Condenation of Pope Honourius, Londres, 1907, p. 109).

Se um papa espalha erros doutrinários ou heresias, a estrutura divina da Igreja já fornece um antídoto: a suplência ministerial dos representantes do episcopado e do indefectível sensus fidei dos fiéis. Nesta matéria, o fator numérico não é decisivo. Basta ter apenas um par de bispos que proclamam a integridade da fé e, assim, corrigem os erros de um papa herege. É suficiente que os bispos instruam e protejam seu rebanho dos erros de um papa herege e que seus sacerdotes e os pais de famílias católicas façam o mesmo. Além disso, como a Igreja é também uma realidade sobrenatural, um mistério, um único organismo sobrenatural, o Corpo Místico de Cristo, os bispos, padres e fiéis leigos – além de correções, apelos, profissões de fé e resistência pública – devem necessariamente realizar atos de reparação e de expiação à Divina Majestade pelas heresias do Papa. De acordo com a constituição dogmática Lumen gentium (cf. n° 12) do Concílio Vaticano II, todo o corpo de fiéis não pode errar na fé, quando desde os bispos até os últimos fiéis leigos compartilham um consenso universal numa matéria de fé e moral. Mesmo que um papa esteja espalhando erros teológicos e heresias, a Fé da Igreja como um todo permanecerá intacta por causa da promessa de Cristo sobre a assistência especial e a presença permanente do Espírito Santo, o Espírito da verdade, em sua Igreja (cf. Jo 14,17; 1 Jo 2,27).

Quando, por uma permissão inescrutável de Deus, em um determinado momento da história e em um caso muito raro, um papa espalha erros e heresias através de seu magistério ordinário e quotidiano não infalível, a Providência divina desperta ao mesmo tempo o testemunho de alguns membros do colégio episcopal e também os fiéis, para compensar as falhas temporárias do Magistério Pontifício. Deve ser dito que tal situação é muito rara, mas não impossível, como mostra a história da Igreja. A Igreja é verdadeiramente um único corpo orgânico, e quando há uma enfermidade ou falha na cabeça (o papa), o resto do corpo (os fiéis) ou partes eminentes dele (os bispos) compensam os erros papais temporários. Um dos exemplos mais famosos e trágicos de tal situação ocorreu durante a crise ariana do século quarto, quando a pureza da fé foi mantida não tanto pela ecclesia docens (papa e episcopado), mas pela ecclesia docta (os fiéis), como afirmou o Bem-aventurado John Henry Newman.

A teoria ou opinião da perda do ministério papal por deposição ou por declaração da perda ipso facto, identifica implicitamente o papa com toda a Igreja ou manifesta a atitude doentia de um “centrismo papal”, em última análise, de papolatria. Os defensores dessa opinião (especialmente alguns santos) manifestaram um ultramontanismo exagerado ou “centrimo papal”, fazendo do pontífice uma espécie de semi-deus, que não pode cometer erros, mesmo em assuntos fora do objeto da infalibilidade papal. Assim, um papa que comete erros doutrinários – o que teórica e logicamente inclui também a possibilidade de cometer o mais grave erro doutrinário, isto é a heresia – é insuportável ou impensável para os seguidores dessa opinião (ou seja, a deposição de um papa e a perda de seu ofício por causa da heresia), mesmo se o papa incorre nesses erros em questões alheias ao objeto da infalibilidade papal.

A teoria ou opinião teológica de que um papa herege pode ser deposto ou vir a perder o cargo era desconhecida no primeiro milênio. Originou-se apenas no início da Idade Média, numa época em que o papo-centrismo atingia o seu auge, quando o papa foi inconscientemente identificado com a Igreja inteira. Isto já prefigurava, em sua raiz, a atitude mundana de um príncipe absolutista segundo o lema: “L’État, c’est moi!” Ou, em termos eclesiásticos: “Eu sou a Igreja!”.

A opinião de que um papa herege perde seu ofício ipso facto tornou-se comum entre os teólogos desde o início da Idade Média até o século XX. Continua, porém, sendo uma mera opinião teológica e não um ensinamento da Igreja e, portanto, não pode reivindicar o título de um verdadeiro ensinamento constante e perene da Igreja, uma vez que nenhum concílio ecumênico e nenhum papa apoiaram explicitamente essa opinião. De fato, a Igreja condenou um papa herético, mas somente após sua morte e não durante seu pontificado. Mesmo que alguns doutores sagrados da Igreja (por exemplo, S. Roberto Bellarmino e S. Francisco de Sales) apoiem tal opinião, isso não prova sua certeza ou um consenso doutrinário universal. Até os doutores da Igreja incorreram em erros; foi, por exemplo, o caso de São Tomás de Aquino sobre a questão da Imaculada Conceição, da matéria do sacramento da Ordem ou o caráter sacramental da ordenação episcopal.

Houve um período na Igreja em que, por exemplo, prevaleceu uma opinião teológica comum, objetivamente errada, segundo a qual a entrega dos instrumentos era a matéria do sacramento da Ordem; uma opinião, no entanto, que não podia invocar antiguidade ou universalidade, mesmo que tivesse sido apoiada por um papa (pelo decreto de Eugênio IV) por um tempo limitado ou por livros litúrgicos (também por um curto período). Essa opinião comum foi, no entanto, corrigida por Pio XII em 1947.

A teoria da deposição de um papa herético ou da perda de seu cargo ipso facto devido à heresia é apenas uma opinião teológica, que não satisfaz as categorias teológicas necessárias de antiguidade, universalidade e consenso (semper, ubique, ab omnibus ). Não houve declarações do Magistério universal ordinário ou do Magistério pontifício em apoio às teorias da deposição de um papa herege ou da perda de seu ofício ipso facto por causa da heresia. Segundo uma tradição canônica medieval, posteriormente coletada no Corpus Juris Canonici (a lei canônica válida na Igreja latina até 1918), um papa poderia ser julgado em caso de heresia: “Papa a nemine est iudicandus, nisi deprehendatur a fide devius”, quer dizer, que “o papa não pode ser julgado por ninguém, a menos que seja flagrado desviando-se da fé “(Decretum Graciano, Prima Pars, dist. 40, c. 6, 3. pars). O Código de Direito Canônico de 1917, no entanto, eliminou a norma do Corpus Juris Canonici, que falava de um papa herético. O Código de Direito Canônico de 1983 também não prevê essa regra.

A Igreja sempre ensinou que até mesmo uma pessoa herética, automaticamente excomungada por causa de heresia formal, pode validamente administrar os sacramentos e que, em um caso extremo, um padre herege ou excomungado também pode exercer um ato de jurisdição dando a um penitente a absolvição sacramental. As regras eleitorais papais, válidas até Paulo VI, ele incluído, admitiam que mesmo um cardeal excomungado podia participar da eleição e ser eleito papa: “Nenhum cardeal eleitor pode ser excluído da eleição, ativa e passiva, do Sumo Pontífice, por causa ou com o pretexto de excomunhão, suspensão, interdito ou qualquer outro impedimento eclesiástico; estas censuras devem ser consideradas suspensas, mas apenas para os fins dessa eleição” (Paulo VI, Constituição Apostólica Romano Pontifice eligendo , 35). Esse princípio teológico também deve ser aplicado ao caso de um bispo herege ou de um papa herege, que, apesar de suas heresias, pode validamente realizar atos de jurisdição eclesiástica e, portanto, não perde o cargo ipso facto devido à heresia.

A teoria teológica ou opinião que permite a deposição de um papa herege ou a perda de seu ofício ipso facto devido à heresia é praticamente impraticável. Se fosse aplicada na prática, criaria uma situação semelhante à do Grande Cisma, que a Igreja já experimentou desastrosamente no final do século XIV e início do século XV. Na verdade, sempre haverá uma parte do Colégio Cardinalício e uma parte considerável do episcopado mundial e também dos fiéis que não vai concordar em considerar um erro material (ou erros materiais) do papa como heresia formal (heresias formais), e, portanto, continuará a considerar o papa reinante como o único papa legítimo.

Um cisma formal, com dois ou mais pretendentes ao trono papal – que também será uma consequência inevitável da deposição canônica de um papa – necessariamente causará mais danos à Igreja como um todo do que um período relativamente curto e muito raro em que um papa espalhe erros doutrinais ou heresias. A situação de um papa herege será sempre relativamente curta, se comparada aos dois mil anos de existência da Igreja. Neste caso raro e delicado, devemos deixar margem para uma intervenção da Divina Providência.

A tentativa de depor um papa herege a qualquer custo é sinal de um comportamento demasiadamente humano, o que eventualmente reflete uma relutância em suportar a cruz temporária de um pontífice herético. Talvez reflita também o sentimento por demais humano da raiva. Em todo caso, oferecerá uma solução excessivamente humana e, como tal, semelhante ao comportamento na política. A Igreja e o Papado são realidades que não são puramente humanas, mas também divinas. A cruz de um papa herege – mesmo quando de duração limitada – é a maior cruz imaginável para toda a Igreja.

Outro erro na intenção ou tentativa de destituir um papa herético consiste na identificação indireta ou subconsciente da Igreja com o Papa ou em fazer do Papa o ponto focal da vida cotidiana da Igreja. Isso, em última instância, significa ceder subconscientemente a um ultramontanismo doentio, ao papo-centrismo e à papolatria, isto é, ao culto à personalidade papal.

Na verdade, houve períodos na história da Igreja quando, por um tempo considerável, a Sé de Pedro permaneceu vacante. Por exemplo, de 29 de novembro de 1268 a 1° de setembro de 1271, não houve papa nem antipapa. Portanto, os católicos não devem fazer do pontífice, de suas palavras e de suas ações, o foco diário de sua atenção.

Os filhos de uma família podem ser deserdados. No entanto, o pai de uma família não pode ser deserdado, não importa quão culposamente ou monstruosamente ele se comporte. Esta é a lei da hierarquia que Deus estabeleceu até na criação. O mesmo se aplica ao papa, que durante o seu mandato é o pai espiritual de toda a família de Cristo na terra. No caso de um pai criminoso ou monstruoso, as crianças devem retirar-se dele ou evitar o contato. No entanto, eles não podem dizer: “elegeremos um novo e bom pai para nossa família”. Seria contrário ao senso comum e à natureza. O mesmo princípio deve, portanto, ser aplicável à questão da deposição de um papa herege. O papa não pode ser deposto por ninguém; só Deus pode intervir e irá fazê-lo em seu tempo, já que Ele não comete erros em sua providência (“Deus in sua dispositione non fallitur”). Durante o Concílio Vaticano I, Dom Zinelli, Relator da deputação da Fé, falou nestes termos da possibilidade de um papa herege: “Se Deus permite um mal tão grande (isto é, um papa herético), não vão faltar os meios para remediar a esta situação “(Mansi 52, 1109).

A deposição de um pontífice herético acabaria por favorecer a heresia do conciliarismo, do sedevacantismo e de uma atitude mental semelhante à de uma comunidade puramente humana ou política. Também promoveria uma mentalidade semelhante ao separatismo no mundo protestante ou ao autocefalismo no conjunto das igrejas ortodoxas.

A teoria ou opinião que permite a deposição ou a perda do ofício revela-se também em suas raízes mais profundas – ainda que de modo inconsciente – uma espécie de “donatismo” aplicado ao ministério papal. A teoria donatista identificava os ministros sagrados (sacerdotes e bispos) quase com a santidade moral do próprio Cristo, exigindo, portanto, para a validade de seu ofício, a ausência de erros morais ou de má conduta em sua vida pública. De maneira similar, a teoria supracitada exclui a possibilidade de um papa cometer erros doutrinários, isto é, heresias, declarando seu cargo inválido ou vacante por este fato, assim como faziam os donatistas, que declaravam inválido ou vacante o ofício sacerdotal ou episcopal devido a erros na vida moral.

Pode-se imaginar que no futuro a autoridade suprema da Igreja (o Papa ou o Concílio Ecumênico) poderia estabelecer as seguintes normas canônicas ou vinculantes para o caso de um papa herético ou manifestamente heterodoxo:

  • Um papa não pode ser deposto de qualquer forma ou por qualquer razão, nem mesmo por razões de heresia.
  • Todo novo papa eleito que toma posse de seu ofício é obrigado, em virtude de seu ministério como Mestre supremo da Igreja, a fazer o juramento de proteger todo o rebanho de Cristo dos perigos das heresias e de evitar aparência de heresia, respeitando sua obrigação de fortalecer todos os pastores e fiéis na fé.
  • Um papa que espalhe erros teológicos óbvios ou heresias ou que contribua para sua difusão com suas ações e omissões deve ser devidamente corrigido de forma fraternal e privada pelo Decano do Colégio dos Cardeais.
  • Depois de correções privadas sem sucesso, o Decano do Colégio dos Cardeais é obrigado a tornar pública sua correção.

Juntamente com a correção pública, o decano do Colégio dos Cardeais deve fazer um apelo a rezar pelo Papa, para que ele possa recuperar a força para confirmar inequivocamente toda a Igreja na Fé.

  • Ao mesmo tempo, o Decano do Colégio Cardinalício deveria publicar uma fórmula de Profissão de Fé, na qual os erros teológicos que o Papa ensina ou tolera (sem necessariamente nomear o Papa) fossem rejeitados.
  • Se o decano do Colégio dos Cardeais omitir a correção, o apelo à oração e a publicação de uma Profissão de Fé, todo cardeal, bispo ou grupo de bispos deve fazê-lo; e se cardeais e bispos também deixarem de fazê-lo, qualquer membro dos fiéis católicos ou qualquer grupo de fiéis católicos deve fazê-lo.
  • O Decano do Colégio dos Cardeais ou um cardeal, ou um bispo ou um grupo de bispos, ou um fiel católico ou um grupo de fiéis católicos que fizerem a correção, pedirem orações e publicarem uma Profissão de Fé não podem ser submetidos a sanções canônicas ou acusados de falta de respeito pelo Papa por este motivo.

No caso extremamente raro de um papa herege, a situação espiritual da Igreja pode ser descrita com as palavras usadas pelo papa São Gregório Magno (590-604), que falou da Igreja de seu tempo como “um velho navio todo quebrado, que faz água por todos os lados, e cujas tábuas podres, na grande tempestade que o sacode todos os dias, fazem rangidos de naufrágio” (Registrum I, 4, Ep. Ioannem episcopum Constantinopolitanum ).

Os episódios evangélicos em que Nosso Senhor acalma o mar tempestuoso e salva Pedro que estava afundando na água nos ensinam que mesmo na situação mais dramática e humanamente desesperada de um papa herege, todos os Pastores da Igreja e os fiéis devem acreditar e confiar que Deus, em Sua Providência, intervirá, e que Cristo acalmará a furiosa tempestade e devolverá a força aos sucessores de Pedro, seus Vigários na terra, para confirmar todos os Pastores e fiéis na Fé Católica e Apostólica.

O Papa Santo Agatão (678-681), que teve a difícil tarefa de limitar os danos causados pelo Papa Honório I à integridade da Fé, deixou palavras vivas num apelo ardente a cada sucessor de Pedro, que deve estar sempre ciente de seu grave dever de preservar intacta a pureza virginal do Depósito da Fé: “Ai de mim se eu negligenciar a pregar a verdade do meu Senhor, que eles [os antecessores] pregaram sinceramente. Ai de mim, se eu cobrir pelo silêncio a verdade que sou obrigado a dar ao meu rebanho, isto é, ensinar e convencer o povo cristão. O que direi no futuro julgamento do próprio Cristo, se eu envergonhar-me – Deus me livre! – de pregar agora a verdade de suas palavras? Que satisfação posso dar por mim, pelas almas que me foram confiadas, quando Ele pedirá estrita conta do ofício que recebi?” (Ep.”Considerando mihi ”ad Imperatores ).

Quando o primeiro Papa, São Pedro estava fisicamente acorrentado, toda a Igreja implorou pela sua libertação: “Pedro estava assim encerrado na prisão, mas a Igreja orava sem cessar por ele a Deus” (Atos 12: 5). Quando um papa espalha erros ou mesmo heresias, ele está em cadeias espirituais ou em uma prisão espiritual. Portanto, toda a Igreja deve orar incessantemente por sua libertação desta prisão espiritual. Toda a Igreja deve ter uma perseverança sobrenatural em tal oração e uma confiança sobrenatural no fato de que, no fim das constas, é Deus e não o Papa quem governa Sua Igreja.

Quando o Papa Honório I (625-638) adotou uma atitude ambígua a respeito da propagação da nova heresia do Monotelismo, São Sofrônio, Patriarca de Jerusalém, enviou um bispo da Palestina a Roma, dizendo-lhe: “Vá à Sé Apostólica, onde estão as bases da doutrina sagrada e não deixe de rezar até que a Sé Apostólica condene a nova heresia”.

Ao tratar do trágico caso de um pontífice herege, todos os membros da Igreja, começando pelos bispos, até os simples fiéis, devem usar todos os meios legítimos, como as correções privadas e públicas ao papa errante, orações constantes e ardentes e profissões públicas da verdade, para que a Sé Apostólica volte a professar claramente as verdades divinas que o Senhor confiou a Pedro e a todos os seus sucessores. “O Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro, não de maneira que eles pudessem, por revelação sua, dar a conhecer alguma nova doutrina, mas que, por assistência sua, pudessem guardar santamente e expor fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, isto é, o depósito da fé” (Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Pastor aeternus ,cap. 4).

Cada Papa e todos os membros da Igreja devem lembrar as palavras sábias e atemporais que o Concílio Ecumênico de Constança (1414-1418) pronunciou sobre o Papa, considerado como a primeira pessoa na Igreja a ser vinculada pela Fé, cuja integridade ele deve guardar cuidadosamente: “Visto que o Romano Pontífice exerce um poder tão grande entre os mortais, é adequado que ele esteja cada vez mais ligado aos laços incontrovertíveis da fé e aos ritos que devem ser observados com respeito aos sacramentos da Igreja. Por isso decretamos e ordenamos, para que a plenitude da fé possa brilhar num futuro Pontífice Romano com um esplendor singular desde o primeiro momento de tornar-se papa, que a partir daquele momento em que será eleito Romano Pontífice faça a seguinte confissão e profissão pública” (Trigésima Nona Sessão de 9 de outubro de 1417.

Na mesma sessão, o Concílio de Constança decretou que todo novo papa eleito deveria fazer um juramento de fé, propondo a seguinte fórmula, da qual citamos as passagens mais cruciais:

“Eu, N., eleito Papa, com o coração e os lábios confesso e professo ao Deus todo-poderoso, que confessarei firmemente e preservarei a fé católica de acordo com as tradições dos Apóstolos, dos Concílios Gerais e dos outros Santos Padres. Que manterei esta fé inalterada até o último iota e que a confirmarei, defenderei e pregarei até a morte e o derramamento de meu sangue, e da mesma maneira que seguirei e observarei de todas as maneiras o rito transmitido dos sacramentos eclesiásticos da Igreja Católica”.

Quão urgente seria pôr em prática o juramento do papa, especialmente em nossos dias! O pontífice não é um monarca absoluto, que pode fazer e dizer o que quiser, que pode mudar a discrição a doutrina ou a liturgia. Infelizmente, nos séculos passados – ao contrário da tradição apostólica dos tempos antigos – o comportamento dos papas como monarcas absolutos ou semi-deuses tornou-se tão habitualmente aceito que chegou a influenciar as concepções teológicas e espirituais da maioria dos bispos e fiéis, e especialmente das pessoas piedosas. O fato de que o Papa deva ser o primeiro na Igreja a evitar as novidades, obedecendo de maneira exemplar à tradição da Fé e da Liturgia, foi às vezes apagado da consciência dos bispos e dos fiéis por uma aceitação cega e piedosa de uma espécie de absolutismo papal.

O juramento papal de Liber diurnus Romanorum Pontificum considerava como a principal exigência e qualidade distintiva de um novo papa a sua fidelidade inabalável a tradição, assim como foi transmitida por todos os seus antecessores: ” Nihil de traditione, quod em probatissimis praedecessoribus Meis servatum reperi, diminu vel vel mutare, aut aliquam novitatem admittere; sed ferventer, e verum discipulus et sequipeda, totis viribus meis conatibusque traído conservar ac venerari“(“Nada mudarei da Tradição que recebi, e nada do que encontrei antes de mim, preservado por meus veneráveis predecessores, nem tocarei, alterarei ou permitirei qualquer inovação nela; de fato, reverenciá-la-ei com ardente afeto como verdadeiro e fiel discípulo, transmitindo-a com toda a minha força e máximo esforço”).

O mesmo juramento papal definia, em termos concretos, a fidelidade à lex credendi (a regra da fé) e à lex orandi (a regra da oração). Quanto à lex credendi (a regra da fé), o texto do juramento diz:

Verae fidei rectitudinem, quam Christo autore tradente, per successori tuos atque discipulos, usque ad exiguitatem meam perlatam, in tua sancta Ecclesia reperi, totis conatibus meis, usico ad animam et sanguinem custodire, temporumque difficultates, cum tuo adjutorio, toleranter sufferre” ( “Prometo manter com todas as minhas forças, até a morte e o derramamento de meu sangue, a integridade da verdadeira fé, cujo autor é Cristo, e que, através de seus sucessores e discípulos, foi transmitida a minha humilde pessoa e que eu encontrei em Sua Igreja. Eu também prometo pacientemente suportar as dificuldades dos tempos”).

Em relação à lex orandi , o juramento do Papa afirma:

Disciplinam et ritum Ecclesiae, sicut inveni, et a sanctis praecessoribus meis traditum reperi, illibatum custodire” (“Prometo manter inviolada a disciplina e a liturgia da Igreja como as encontrei e como elas foram transmitidos por meus santos predecessores”).

Nos últimos cem anos, houve alguns exemplos espetaculares de absolutismo papal. Quando consideramos a lex orandi, as mudanças feitas pelos papas Pio X, Pio XII e Paulo VI foram drásticas e radicais e, no que diz respeito à lex credendi, pelo Papa Francisco.

Pio X tornou-se o primeiro papa na história da Igreja Latina a realizar uma reforma tão radical do Salterio (cursus psalmorum), que levou à construção de um novo tipo de ofício divino no que diz respeito à distribuição dos salmos. Depois, houve o Papa Pio XII, que aprovou para o uso litúrgico uma versão latina radicalmente modificada do texto milenar e melodioso do Vulgate Psalter. A nova tradução latina, o chamado “Saltério Piano”, era um texto fabricado artificialmente pelos acadêmicos e, em seu refinamento, era difícil de pronunciar. Esta nova tradução latina, acertadamente criticada com o ditado “accessit latinitas, recessit pietas”, foi depois rejeitada de fato por toda a Igreja sob o pontificado do papa João XXIII. O Papa Pio XII mudou também a liturgia da Semana Santa, um tesouro litúrgico milenar da Igreja, introduzindo parcialmente rituais inventados ex novo.  Mudanças litúrgicas inauditas foram, porém, levadas a cabo pelo Papa Paulo VI com uma reforma revolucionária do rito da Missa e dos outros sacramentos, uma reforma litúrgica, que nenhum Papa antes ousou realizar com tanta radicalidade.

Uma mudança teologicamente revolucionária foi feita pelo Papa Francisco na medida em que ele aprovou a prática de algumas igrejas locais de admitir à Santa Comunhão “caso por caso” adúlteros sexualmente ativos (aqueles que coabitam nas chamadas “uniões irregulares”). Mesmo que essas normas locais não representem uma norma geral na Igreja, constituem, no entanto, uma negação prática da verdade da absoluta indissolubilidade do matrimónio sacramental rato e consumado. Outra mudança radical nas questões doutrinárias é a modificação da doutrina bíblica e do magistério bimilenar da Igreja quanto ao princípio da legitimidade da pena de morte.

Neste contexto, destaca-se e nos faz refletir um fato impressionante narrado na vida do Papa Pio IX: diante do pedido de um grupo de bispos para introduzir uma pequena mudança no Canon da Missa (inserindo o nome de São José), ele respondeu: “Eu não posso fazer isso . Eu sou apenas o papa!”

A seguinte oração de Dom Prosper Guéranger, na qual ele elogia o papa São Leão II por sua vigorosa defesa da integridade da Fé depois da crise causada pelo Papa Honório I, deve ser rezada assiduamente por cada papa e por todos os fiéis, especialmente em nosso tempo:

“Impedi, ó São Leão, o retorno de situações a tal ponto dolorosas. Mantende o pastor acima da região das névoas malignas que se erguem da terra;  mantende no rebanho aquela oração que deve continuamente subir da Igreja a Deus em favor dele (Atos 12: 5): e Pedro, mesmo se ele estiver sepultado nas mais escuras prisões, não deixará de contemplar o puro esplendor do Sol da justiça; e todo o corpo da santa Igreja estará na luz. O corpo, de fato — diz Jesus – é iluminado pelo olho: se o olho é simples, todo o corpo resplandece (Mt 6,22). Instruídos por vós sobre o valor do benefício que o Senhor concedeu ao mundo quando o estabeleceu sobre o ensinamento infalível dos sucessores de Pedro, agora conhecemos a força da rocha que sustenta a Igreja; sabemos que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (ibid. 16, 18). De fato, o esforço desses poderes do abismo nunca foi tão longe como na crise fatal [do Papa Honório] a qual Vós colocastes o termo. ora, seu sucesso, por mais doloroso que tenha sido, não desmentiu as promessas divinas: não é ao silêncio de Pedro, mas ao seu ensino que foi prometida a assistência indefectível do Espírito da verdade ”(Année liturgique, Paris 1911, vol. 3, pp. 403-404).

O caso extremamente raro de um papa herético ou semi-herético deve, eventualmente, ser suportado e sofrido à luz da fé no caráter divino e na indestrutibilidade da Igreja e do ministério petrino. O Papa São Leão Magno formulou essa verdade, dizendo que a dignidade de São Pedro não foi diminuída em seus sucessores, por mais indignos que sejam, “Cuius dignitas etiam in indigno haerede non deficit” ( Serm . 3, 4).

Poderia ocorrer a situação verdadeiramente extravagante de um papa que pratica abuso sexual de menores ou de subordinados no Vaticano. O que a Igreja deve fazer nessa eventualidade? Deveria a Igreja tolerar um predador sexual de menores ou subordinados? Por quanto tempo a Igreja deveria tolerar tal papa? Ele deveria perder o papado ipso facto por causa desses abusos? Nessa situação, poderia surgir uma nova teoria ou opinião canônica ou teológica que permitisse a deposição de um papa e a perda de seu cargo devido a crimes morais monstruosos (por exemplo, o abuso sexual de menores ou subordinados acima mencionado). Tal opinião seria análoga à opinião de que seria possível a deposição de um papa ou a perda de seu cargo devido à heresia. No entanto, essa nova teoria ou opinião (deposição de um papa e a perda de seu cargo devido a crimes sexuais monstruosos) certamente não corresponderia à mente e à prática perenes da Igreja.

A tolerância de um papa herético como uma cruz não significa passividade ou aprovação de sua conduta errônea. Tudo deve ser feito para remediar esta situação. Suportar a cruz de um papa herege, em nenhum caso significa ser passivo ou consentir com suas heresias. Assim como as pessoas têm que suportar, por exemplo, um regime iníquo ou ateu como uma cruz (muitos católicos viveram sob tal regime na União Soviética, suportando essa situação como uma cruz, num espírito de expiação), ou como os pais devem carregar a cruz de um filho adulto que se tornou um descrente ou imoral, ou como os membros de uma família devem carregar como uma cruz um pai alcoólico. Os pais não podem “depor” o filho descarriado de pertencer à família, assim como as crianças não podem “destituir’ o pai transviado de pertencer à família ou do seu título de “pai”.

Não depor um papa herege é mais seguro e está mais de acordo com uma visão sobrenatural da Igreja. Fazer isso, com todas as contramedidas práticas e concretas a serem tomadas, em nenhum caso significa passividade ou colaboração com os erros papais, mas um engajamento muito ativo e uma verdadeira compaixão com a Igreja, que, no tempo de um papa herege ou semi-herege, vive suas horas no Gólgota. Quanto mais um papa dissemina ambiguidades doutrinárias, erros ou mesmo heresias, mais intensamente brilhará na Igreja a fé católica pura dos pequeninos: a Fé de crianças inocentes; de freiras religiosas; em particular a fé das gemas ocultas da Igreja: as monjas de clausura; a fé dos fiéis leigos heroicos e virtuosos de todas as condições sociais; a fé de padres e bispos.  Esta chama pura da fé católica, muitas vezes alimentada por sacrifícios e atos de expiação, brilhará mais do que a covardia, a infidelidade, a rigidez espiritual e a cegueira de um papa herético.

A Igreja tem um caráter tão divino que pode existir e viver por um período limitado de tempo apesar de um papa reinante herege, precisamente por causa da verdade de que o papa não é sinônimo ou idêntico à Igreja. A Igreja tem um caráter tão divino que nem mesmo um papa herege é capaz de destruí-la, apesar de prejudicar muito sua vida; porém, sua ação tem duração limitada. A fé de toda a Igreja é maior e mais forte do que os erros de um papa herege e esta fé não pode ser derrotada. A constância de toda a Igreja é maior e mais duradoura do que o desastre relativamente breve de um papa herege. A verdadeira rocha sobre a qual reside a indestrutibilidade da Fé e a santidade da Igreja é o próprio Cristo, sendo o papa somente seu instrumento, assim como todo sacerdote ou bispo é apenas um instrumento de Cristo Sumo Sacerdote.

A saúde doutrinal e moral da Igreja não depende exclusivamente do Papa, pois, pela lei divina, esta é garantida, na situação extraordinária de um papa herético, pela fidelidade do ensinamento dos bispos e, em última análise, também pela fidelidade de todo o corpo dos fiéis leigos, como foi suficientemente demonstrado pelo beato John Henry Newman e pela história. A saúde doutrinal e moral da Igreja não depende em tal grau dos erros doutrinários de um papa, por um período relativamente curto de tempo, como para tornar a Santa Sé vacante. Assim como a Igreja pode ficar um tempo sem o Papa, como já aconteceu na história por um período de vários anos), assim também a Igreja é tão forte pela sua constituição divina que pode até aturar um papa herege por um curto prazo.

O ato de depor um pontífice ou declarar sua sé vacante devido à perda ipso facto do pontificado por causa de heresia seria uma novidade revolucionária na vida da Igreja a respeito de uma questão muito importante de sua constituição e vida. Em uma matéria tão delicada, mesmo quando ela é de natureza prática e não estritamente doutrinal, é preciso seguir a via mais segura (via tutior), que é aquela do senso perene da Igreja. Apesar de três Conselhos Ecumênicos sucessivos (o Terceiro Concílio de  Constantinopla em 681, o Segundo Concílio de Nicéia em 787 e o Quarto Concílio de Constantinopla em 870) e o Papa São Leão II em 682 terem excomungado o Papa Honório I  por heresia, eles nem sequer implicitamente declararam que Honório havia perdido o papado ipso facto por causa da heresia. De fato, o pontificado do Papa Honório foi considerado válido mesmo depois de ter apoiado a heresia em suas cartas ao Patriarca Sérgio, em 634, enquanto reinou por mais quatro anos até 638. O seguinte princípio, formulado pelo Papa Santo Estêvão I (257), ainda que em outro contexto, deveria ser uma diretriz para lidar com a questão muito delicada e rara de um papa herege: “Nihil innovetur, nisi quod traditum est”, “Não haja nenhuma inovação em relação ao que foi transmitido”.

+ Athanasius Schneider, bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana

3 dezembro, 2018

“Francisco está errado”, afirma Mons. Nicola Bux.

Por Gloria.tv, 16 de novembro de 2018 – Papa Francisco está gerando “heresias, cismas e  controvérsias”, disse o prelado italiano Nicola Bux, amigo de Bento XVI e conselheiro da Congregação para as Causas dos Santos, ao jornalista italiano Aldo Maria Valli em 13 de outubro.

D. Nicola Bux.Bux mencionou as “declarações heréticas” de Francisco sobre o casamento, a vida moral e a recepção dos sacramentos, e que ele vê a Igreja como uma federação de comunidades eclesiais” – “um pouco como as comunidades protestantes”.

Segundo Bux, a origem da confusão doutrinária causada por Francisco é Amoris Laetitia(2016), mas desde então a situação tornou-se “consideravelmente pior” e “mais complicada”.

Bux refere-se à tentativa de Francisco de mudar a doutrina sobre a pena de morte. Se Francisco está certo sobre isso – ressalta Bux – então devemos concluir que a Igreja contradiz o Evangelho há dois mil anos ou tem que admitir que o Papa Bergoglio está se equivocando.

* * *

A matéria original a respeito das declarações de Mons. Nicola Bux ainda afirma::

Para abordar a atual crise, ele sugeriu que é necessário examinar a “validez jurídica” da renúncia do Papa Bento XVI para “superar problemas que hoje nos parecem insolúveis”. O teólogo, consultor da Congregação para a Causa dos Santos, implicou que o futuro estudo dessa situação poderia revelar que Francisco não foi eleito como um papa válido, mas seria, de fato, um anti-papa que poderia ser deposto do papado, anulando, assim, seus erros “insolúveis”.

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26 novembro, 2018

O ano que nunca existiu.

Por FratresInUnum.com, 26 de novembro de 2018 –  Era uma vez… o ano do laicato! Mais uma mentira, mais uma das ficções pastorais inventadas pela CNBB.

Assim como os marxistas se autoproclamaram representantes do povo, porém, de um povo que não existe na realidade, mas tão somente em suas mentes, a nossa conferência episcopal intencionou conclamar os leigos, mas os leigos honorários que eles mesmos clericalizaram com o seu dialeto, com os seus maneirismos, com os seus trejeitos, com os seus cacoetes, em suma, a sua meia-dúzia de moleques de recado, os bons moços cuja inteligência foi prostituída pela repetição histérica da linguagem eclesialmente correta, a velha macacagem que não convence mais ninguém. Mas o tiro saiu pela culatra…

Nunca como neste ano os leigos se levantaram, nunca tão eloquente e fortemente protestaram e nunca foram tão ostensivamente ignorados! Vídeos por todos os lados, denúncias, pedidos de explicações e, sobretudo, a manifestação das urnas, que tornou incontornável o completo descolamento dos bispos em relação ao laicato brasileiro.

Um pensador reconhecia não existir o povo que os marxistas queriam representar, apresentando, ato seguido, a necessidade de inventá-lo através do despertar de uma “consciência possível” (a unificação da consciência da massa dispersa contra a burguesia mediante o discurso de ódio), a teologia da libertação tentou inventar o que eles chamam de “Povo de Deus”: leigos de todas as proveniências possíveis que, fazendo uma leitura revolucionária da Bíblia nas comunidades eclesiais de base, acabariam por se tornar os militantes “conscientizados” para formar a oposição contra toda e qualquer elite, política e até mesmo eclesiástica.

Como levar adiante o intento de “conscientizar” o laicato em termos libertadores numa Igreja estruturalmente hierarquica? Leonardo Boff jogou a dialética para dentro da eclesiologia, contrapondo, na Igreja, “carisma” e “poder”. A contradição poderia até fazer sentido na Igreja atual, em que os místicos verdadeiros serão tudo, menos bispos, mas, obviamente, nunca faria sentido nos tempos de Atanásio, Agostinho, Gregório Magno ou Isidoro de Sevilha, em tempos nos quais o carisma era a verdadeira fonte do autêntico poder espiritual sobre as almas.

Acontece, porém, que os “libertadores” não ficaram na base. Aos poucos, eles se foram favorecendo mutuamente em seus jogos de influência, atingiram seus objetivos de dominação para a imposição de uma nova eclesiologia, de cima para baixo, alcançaram os mais altos postos de poder, deste mesmo poder ante o qual eles contrapuseram o seu “carisma” libertador. Em resumo, uniram o povo contra a elite que eles mesmos se tornaram!

Hoje, a crise não para de se agudizar. Os bispos censuram os seus leigos ultrapassando o limite do razoável. Em outras palavras, o leigo é bom, desde que não comungue de joelhos e na boca, desde que não use véu, desde que não goste da missa tridentina, desde que não use cadeias da consagração a Nossa Senhora, desde que não pregue a doutrina tradicional, desde que não seja contra o petismo, desde que não faça apostolado organizado e autônomo, desde que não se oponha às aberrações sacrílegas do clero, desde que fique quietinho e conivente diante de padres predadores homossexuais…

Enquanto isso, boa parte dos bispos desfilam e fazem pose, comportam-se como fazendeiros, como “os reis do gado”, e vão angariando contra si a raiva de um povo descontente, de um clero oprimido, de uma Igreja que eles não cansam de tratar como a esposa rejeitada.

Em certo sentido, a desgraça do clero progressista foi chegar ao poder, pois a sua cobiça incontrolável, a sua ganância voluptuosa, não pode mais ser disfarçada e está flagrantemente contraposta à fé e devoção da gente simples, tão distante deles quanto a luz das trevas.

Francisco, o peronista papa latino-americano, grande populista demagogo, não foge à regra. Quando estourou o caso dos abusos sexuais do Cardeal McCarrick, ele escreveu uma carta condenando o clericalismo, o qual, segundo ele, seria o grande culpado da desgraça estadunidense. Quando, logo em seguida, Mons. Viganò escreveu sua carta-bomba colocando o pontífice argentino no centro da responsabilidade pela ocultação destes casos, Bergoglio incorreu no mesmo clericalismo que denunciara e fingiu que não era com ele, fingiu não ouvir os protestos do povo americano que não param de crescer, fingiu até que as manifestações populares contra os escândalos era coisa do “Grande acusador”… Por fim, desconversou. Mais uma vez, as vítimas desprezadas, a verdade desprezada, os leigos desprezados.

Nem Ano do laicato, nem laicato nenhum. É a velha esquerda se valendo do mais vergonhoso clericalismo para proteger suas delinquências e silenciar o povo, que, desorientado e abatido, jaz abandonado e oprimido, como ovelha sem pastor.

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19 novembro, 2018

Dando nome aos bois.

Por FratresInUnum.com, 19 de novembro de 2018 – Um pequeno experimento imaginário. Imagine que a Igreja Católica fosse gradualmente, ao longo dos anos, sendo aparelhada pelo PT. Que esta premeditada infiltração conseguisse a nomeação de Lula como Papa. Com o petismo dominando os generais do “Estado Maior” da Igreja, o que poderiam fazer os soldados e sargentos conservadores? Estariam completamente amordaçados. A hegemonia estaria garantida não apenas por força de uma imposição cultural, mas também com a coerção de um poder policial: o patrulhamento ideológico.

IMG-20181119-WA0002Não é difícil para o leitor perceber que o nome de Lula figura aqui quase de modo obsoleto. Temos Francisco! Ele é o Lula da Igreja Católica.

A corrida do partido bergogliano por aparelhar a Igreja de alto a baixo não é um segredo. Contrariamente aos papas anteriores, Francisco não adotou a política de equilíbrio de forças. Ele persegue claramente os seus opositores, reduzindo-os completamente à inércia. É assim que funciona a sua misericórdia. Tem razão Henry Sire: Bergoglio é “O Papa Ditador”.

Contudo, é menos conhecido, pelo público em geral, o lado brasileiro desta ditadura. Vamos lá, então: demos o nome aos bois!

O chefe da ditadura bergogliana no Brasil é o camaleônico Cardeal Cláudio Hummes. Sim, o mesmo que, na década de 70, subia nos palanques políticos ao lado de Lula. Mas, os tempos mudam e, assim como o comunismo pós-Gorbachov exigia um Lulinha paz e amor, Dom Claudio Hummes virou “conservador”.

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Ao lado de Lula, Dom Cláudio Hummes discursa em comício.

Em 1998, a “Máfia de São Galo” (como se autonomeou o grupo de bispos liberais que desde 1995 maquinava a eleição de um liberal como sucessor de João Paulo II) viu ascender ao cardinalato dois de seus pupilos papáveis: Bergoglio e Hummes.

Após o fracasso do conclave de 2005, eis que os dois “conservadores improvisados” aparecem, lado a lado, no balcão de São Pedro, na fatídica eleição de 2013. No dia seguinte, o recém-eleito pontífice diria aos jornalistas que o seu nome, Francisco, fora inspirado numa exortação feita pelo purpurado brasileiro no momento da sua aclamação: “não se esqueça dos pobres”!

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Durante o pontificado de Bento XVI, assume ares lefebvrianos.

Desde então, Hummes começou a dirigir a agenda da ordenação dos homens casados na Amazônia. Foi nomeado exatamente para isso. Viagens, reuniões, articulações… E tudo está montado para o sínodo fingido de 2019. Eles já decidiram de antemão e vão ordenar os homens casados.

Neste meio tempo, Hummes foi acometido por um câncer de pulmão. Mas o diagnóstico foi cuidadosamente escondido, mantido sob a mais absoluta discrição. Apesar do susto de morte e do exigente tratamento, Dom Cláudio continua a mesma missão que já anunciara em 2006, antes mesmo de decolar para Roma, onde assumiria a importante Congregação para o Clero: relativizar a disciplina do celibato.

Enquanto no norte o objetivo é ordenar homens casados que nunca foram seminaristas, no sul do Brasil, o arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Spengler, cuida de destruir a formação dos seminaristas.

Dom Jaime outorgou-se a si mesmo uma missão que se tornou praticamente o sentido de toda a sua vida: impedir a ordenação de qualquer jovem que se encaixe minimamente em perfil conservador. Muito próximo à Nunciatura Apostólica, Dom Jaime é o responsável pelos ministérios ordenados junto à CNBB. Suas reuniões com os reitores de seminários (OSIB) repetem as lamúrias de sempre: os seminaristas procuram uma formação paralela no site do Padre Paulo Ricardo, “o maior inimigo da Igreja no Brasil”. Como, então, conquistar a hegemonia na internet, território onde a esquerda já sabe que perdeu? (Bolsonaro que o diga!) O caminho é o patrulhamento e a intimidação:  monitorar o acesso dos seminaristas à internet, proibir certas leituras, coibindo-os de se confessarem com este ou aquele padre conservador e, ademais, para garantir a formação mais bergogliana possível, demitir padres professores de orientação mais tradicional, como ele mesmo fez, aliás, na PUC de Porto Alegre.

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Dom Jaime Spengler celebra a Missa da 37ª Romaria da Terra, e diz: “nesse dia, gostaríamos de rezar à mãe terra, louvar a terra, queremos agradecer a terra”.

Triste situação de quem chegou ao poder, mas não tem autoridade. Criam nos seminários uma estrutura asfixiante de “Big Brother” e vigilância, para reproduzir a mais virulenta Teologia da Libertação. No entanto, não conseguem impedir que os seminaristas prefiram o confessionário do padre piedoso da esquina ou o site de um padre cuiabano que, em tudo, quebra-lhes o estereótipo do padre que deveria fazer sucesso com os jovens. Nota-se que ter sex appeal, procurar exibir os bíceps com camisetas apertadas, cantar músicas melosas e rebolar no palco ao lado da Claudia Leitte pode até vender CD, mas não atrai jovem algum nem para a Igreja e nem muito menos para os seminários.

Especula-se que, dada a íntima amizade com o núncio, a qual o coloca numa posição privilegiada de indicações para nomeações episcopais, Dom Jaime poderia se tornar arcebispo primaz do Brasil. Contudo, circula em Roma a voz de que o futuro sucessor de Dom Murilo Krieger à frente da Arquidiocese de Salvador seria o Cardeal João Braz de Aviz, que deixaria o cargo de Prefeito da Congregação dos religiosos para Dom Ilson Montanari, agora Secretário da Congregação para os Bispos e que, caso promovido, também receberia o barrete cardinalício. Verosímil, visto que Montanari e Fabian Pedacchio, secretário pessoal de Francisco, são amicíssimos de longa data e queridinhos do atual pontífice (malgrado as insinuações pouco elogiosas a ambos feitas por Mons. Viganò em sua carta bombástica).

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Dom Leonardo Steiner, feliz e realizado, dá tapinha nas costas do companheiro petista, Gilberto Carvalho.

Hummes no norte, Spengler no sul, e o centro? Com quem fica? Com um bispo que não poderíamos chamar exatamente de “centrado”: Dom Leonardo Ulrich Steiner. Coube a ele continuar garantindo que a CNBB seja mais instrumento do PT do que do episcopado brasileiro. A pauta, todo mundo já conhece: silêncio subserviente nos governos do PT e “profetismo” quando a política nacional oscila para a direita. O instrumento para isto também já é velho conhecido: os fidelíssimos assessores servem de interface para garantir que os bispos, reunidos ou dispersos em suas dioceses, só enxerguem o mundo através de suas “leituras da realidade”.

A pilotagem da máquina episcopal brasileira pode parecer muito sofisticada à primeira vista, mas, de fato, não o é. A maioria de nossos bispos é de homens bons, porém não são homens de visão. Com isto, tornam-se facilmente manipuláveis pela “intelligentsia” esquerdista. A CNBB foi criada para que os bispos falassem através dela. O que acontece, porém, é o contrário: os bispos se tornaram porta-vozes de documentos que nunca escreveram. Dentro deste esquema, o povo faz de conta que escuta. E os bispos fazem de conta que são respeitados e obedecidos.

Ter o poder, mas não ser nem respeitado, nem obedecido. Eis a humilhação à qual são diariamente expostos os senhores bispos. Sendo assim, quem não tem autoridade tem que apelar para o autoritarismo. Na Igreja do Brasil, vivemos um ambiente policial. Não há liberdade, não há transparência. As estruturas políticas são extremamente controladoras, censurando toda e qualquer postura divergente. Não é autorizado pensar, ensinar, dialogar. Não há sequer o fingimento de debate. Há somente a hegemonia socialista em total dominação.

Dom Claudio em Roma, Dom Jaime na nunciatura, Dom Leonardo na CNBB. Mas, o que liga estes homens? O que eles têm em comum?

Todos os três são franciscanos! Trata-se daquilo que, à boca pequena e meio que ironicamente, os bispos chamam de “A máfia franciscana”. Só que agora se tornaram “franciscanos” em um novo sentido, no sentido bergogliano do termo.

Agora que se agarraram ao poder, mas jogaram fora o que lhes restava de credibilidade e de tempo de vida, só lhes resta esperar um prodígio preternatural: que Francisco Bergoglio leve a Igreja para um abismo sem retorno… Esperança vã. Non praevalebunt!

No entanto, uma pergunta fica no ar. Quais serão os próximos objetivos da máfia franciscana? Talvez queiram eles recuperar um caríssimo terreno perdido: a arquidiocese de São Paulo, outrora encabeçada pelos franciscanos Dom Paulo e Dom Cláudio. Decerto, os despretensiosos frades que estão nos círculos de poder cogitam a possibilidade. E não lhes seria difícil executá-la, às custas de um promoveatur ut removeatur de Dom Odilo para algum insignificante organismo curial, talvez até a ser criado propositalmente para ele, como uma Pontifícia Comissão de carimbos e charutos apostólicos.

Será que, desta vez, a arma está apontada para a cabeça do arcebispo de São Paulo? Veremos!

25 setembro, 2018

Palavras de um Cardeal: O Papa é frio como gelo, um astuto maquiavélico, e o que é pior, ele mente.

Por LifeSiteNews, 22 de setembro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com – Hoje, a revista alemã Der Spiegel, uma das revistas políticas mais influentes da Europa, publicou uma matéria sobre os fracassos do papado de Francisco. LifeSiteNews já resumiu partes desta matéria sobre o envolvimento do Papa Francisco no encobrimento de casos de abuso na Argentina. Mas os autores da Spiegel também fazem um relato de suas conversas com prelados do Vaticano, sem citar seus nomes, mas que falaram de modo bem crítico sobre o Papa Francisco.

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“Não mentirás” – capa de Der Spiegel de 22 de setembro de 2018.

De acordo com a revista, um cardeal não apenas chamou claramente o papa de mentiroso, mas também disse: “Desde o início, não acreditei em uma só palavra dele”. Os comentários da própria Spiegel sobre esse papado, como veremos, também não deixam por menos.

Um dos interlocutores de alto escalão disse à equipe jornalística que, no Vaticano, reina “um clima de medo e incerteza”. “Francisco é muito bom em pôr as coisas em movimento”, disse um prelado alemão, “mas, quando no final sobram apenas resultados vacilantes, isso com certeza não ajuda”. Exemplos de tais vacilações podem ser encontradas, como diz Spiegel, no modo como o Papa Francisco tratou o debate sobre a Comunhão para cônjuges protestantes de católicos. Um cardeal alemão conta à revista sobre mentiras, intrigas, “e um Santo Padre que, ao contrário de qualquer um de seus predecessores, põe em dúvida a verdade da fé”.

Marie Collins, ela própria uma importante vítima de abuso e defensora das vítimas, fala sobre o modo como o papa e o Vaticano lidam com os casos de abuso: “belas palavras em público e [então] ações opostas por detrás de portas fechadas”.

A revista Spiegel comenta que o papa poderia muito bem ter optado por ignorar os “indícios de crimes dentro de seu próprio círculo íntimo”, porque “ele está interessado, devido a uma política de poder, em manter um ou outro cardeal ou bispo em seu ofício” [ndr: ver exemplo aqui]. Aos olhos da revista alemã, “Francisco, coloca-se em uma posição vulnerável”. Ele luta por anos “contra o capitalismo global, mas assim como seus predecessores — tomou somas que chegam a milhões do agora rejeitado cardeal McCarrick, que esse mesmo recebeu de doadores”. “O Papa elogia o valor da família tradicional, mas depois se cerca de conselheiros e colaboradores que vivem o oposto — em uma situação mais ou menos de concubinato com representantes de ambos os sexos”.

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“O papa ainda é o dono da situação?”, pergunta-se a Spiegel. A revista aponta que “a crítica [deste papado], entretanto, vem de um círculo muito maior do que o dos arqui-conservadores conectados globalmente”. Um dos problemas deste Papa, de acordo com a revista, é que “ele é silencioso em assuntos delicados”, tais como o dubia dos quatro cardeais a respeito de sua exortação pós-apostólica Amoris Laetitia, mas também a respeito da petição de 30.000 mulheres que recentemente solicitaram que ele respondesse às questões decorrentes do relatório Viganò. Ele não responde a essas mulheres, permanece mudo, e “deixa sem resposta a acusação de que, desde junho de 2013, ele tinha conhecimento sobre os feitos do molestador de menores, Cardeal McCarrick”.

Ao falar sobre um dos colaboradores mais próximos do papa, o cardeal Reinhard Marx e sua própria arquidiocese de Munique, a revista Der Spiegel aponta para a crise da fé na Baviera. “Uma parte do problema na Arquidiocese, no entanto, é doméstico”, explica. A credibilidade da Igreja ali, acrescenta, está sendo prejudicada pelos fatos de que “um clérigo de alto escalão de Munique coloca descaradamente sua concubina sentada no banco de frente da igreja, e que também nesta cidade, há indignação sobre pastores abertamente homossexuais e sobre um Papa imprevisível”.

“Desde o começo, não acreditei em uma só palavra sua.” São as palavras incisivas de um cardeal dentro dos muros do Vaticano: “Ele prega misericórdia, mas é na verdade uma pessoa fria como gelo, um astuto maquiavélico e, o que é pior — ele mente.”

29 agosto, 2018

Cardeal Burke: É ‘lícito’ pedir a renúncia do Papa Francisco.

Por Gerard O’Connel, America Magazine, 29 de agosto de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com – Questionado se seria errado pedir a renúncia do Papa Francisco, como fez o antigo núncio nos Estados Unidos, Dom Carlo Maria Viganò, em sua carta de 11 páginas, o Cardeal Raymond L. Burke respondeu: “Eu não posso dizer que é errado”.

“Posso dizer apenas que, ao se chegar a este ponto, é necessário investigar e responder a respeito. O pedido de renúncia é, em todo caso, lícito; qualquer um pode fazê-lo diante de qualquer pastor que erra gravemente no cumprimento de seu ofício, mas os fatos precisam ser verificados”, afirmou ele em uma entrevista publicada nesta manhã no La Repubblica, o maior jornal diário da Itália.

[…]

“Fiquei profundamente abalado, porque todo o documento é gravíssimo”, disse o Cardeal Burke. “Tive que lê-lo diversas vezes, porque a primeira leitura me deixou sem palavras. Creio que neste ponto é necessário um relatório objetivo e completo da parte do Papa e do Vaticano”.

Quando observado que, enquanto Viganò contestava a atuação do Papa Francisco no caso McCarrick, ele ignorava a forma com que João Paulo II e Bento XVI trataram as alegações contra o ex-cardeal durante os seus pontificados, o Cardeal Burke respondeu: “Não posso fazer um juízo sobre o mérito. Apenas posso dizer que, aqui também, é necessária clareza, ao se debruçar por todos os documentos a fim de chegar à verdade”.

Comentando o fato de que a carta de dom Viganò afirma que há cardeais e bispos que desejam mudar a doutrina da Igreja acerca do homossexualismo, o Cardeal Burke declarou: “Sim, há tentativas de relativizar o ensinamento da Igreja segundo o qual um ato homossexual é intrinsecamente mau”. Ele recordou a primeira sessão do Sínodo dos Bispos sobre a Família, “onde foi apresentada a ideia de que a Igreja deveriam reconhecer os elementos positivos em uma relação homossexual”. Mas, ele acrescentou”, tudo isso não pode ter aspectos positivos”. Ademais, ele descreveu como “um problema” o “apoio que homens da Igreja dão ao jesuíta James Martin, que tem uma posição ‘aberta’ e errada sobre a homossexualidade”.

Ele prosseguiu, observando que “os dados mostram que a maior parte de abusos sexuais cometidos por padres são, na realidade, atos homossexuais cometidos contra jovens”.

O Cardeal Burke declarou: “Creio que uma pessoa homossexual não pode ser ordenada padre, porque ela não está apta a exercer profundamente a paternidade que isso requer. Ele deve possuir todas as características para ser um pai”.

Ele insistiu na entrevista que não é “um antagonista” de Francisco e que “não tem nada pessoal contra o papa”. Ele explicou: “Eu tento simplesmente defender a verdade da fé e a clareza da apresentação da fé”.

[…]

Ele reconheceu na entrevista que contesta o magistério do Papa Francisco, por exemplo, “no fato de que pessoas em pecado mortal se apresentem à Comunhão. Ou que não-católicos possam recebê-la em certas circunstâncias, além do que já é a disciplina da Igreja. Não é possível”.  […]

17 agosto, 2018

40 anos da morte de Paulo VI.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 15 de agosto de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: No dia 6 de agosto último transcorreram quarenta anos da morte de Giovanni Battista Montini, cujo pontificado sob o nome de Papa Paulo VI (1963 a 1978) mudou a vida da Igreja no século XX.

Papa Paulo VIGiovanni Battista Montini nasceu em Concesio, perto de Brescia, em 26 de setembro de 1897. Seu ambiente familiar era caracterizado por uma forte tendência ao liberalismo e uma semente jansenista, expressa especialmente no campo litúrgico. Na sua formação juvenil influenciou-o também o liturgismo pró-modernista do sacerdote oratoriano Giulio Bevilacqua, seu diretor espiritual, que em 1965 recebeu o capelo cardinalício de suas mãos. Em 19 de maio de 1920, com apenas vinte e dois anos, o jovem Montini foi ordenado sem ter cursado os estudos teológicos no Seminário, por causa de sua saúde frágil. Chegado a Roma, foi chamado para a Secretaria de Estado e nomeado assistente eclesiástico da FUCI (Federação Universitária Católica Italiana), atividade que o envolveu intensamente, mas da qual foi removido por suas ideias litúrgicas “inovadoras” e uma forte tendência à “politização” dos jovens. Seu pai, Giorgio, tinha sido um membro do Partido Popular italiano, e a política, juntamente com a liturgia, permaneceu sempre uma de suas grandes paixões.

Em dezembro de 1937, Mons. Montini foi promovido a Substituto da Secretaria de Estado, sucedendo a Mons. Amleto Tardini. Ele não tinha experiência diplomática, salvo alguns meses passados ​​na Nunciatura em Varsóvia, mas trabalhou quase continuamente na Secretaria de Estado, até 1954, quando Pio XII nomeou-o arcebispo de Milão, sem atribuir-lhe o chapéu cardinalício. A promoção foi de fato uma “remoção”, cujas razões ainda não estão claras. De acordo com o cardeal Siri, Montini foi enviado a Milão após o parecer negativo de uma comissão secreta criada pelo Papa Pio XII, que tinha perdido a confiança no Substituto por sua proteção ao presidente da Juventude da Ação Católica, Mario Rossi, que estava lutando por uma Igreja aberta ao socialo-comunismo. O cardeal Casaroli confiou a Andrea Tornielli que as relações do Papa com seu colega de trabalho estavam se deteriorando pelos contatos de Montini com ambientes da esquerda política italiana a não sabendas de Pio XII. Do epistolário de Mons. Montini com o padre Giuseppe De Luca se pode presumir que através deste último o Substituto manteve relações com os católicos comunistas e setores do Partido Comunista Italiano. O historiador Andrea Riccardi, por sua vez, recorda que algumas nomeações de bispos na Lituânia tinham dado origem a rumores sobre uma infidelidade de Montini nas relações entre a Santa Sé e a Rússia Soviética. Esses rumores remontam a um “relatório secreto” do coronel Claude Arnould, que recebeu dos serviços de inteligência franceses o encargo de investigar a filtração de informações confidenciais aos governos comunistas orientais a partir da Secretaria de Estado. Arnould havia rastreado a responsabilidade pelo vazamento de notícias até Mons. Montini e seu séquito, alertando o Vaticano.

O Arcebispo de Milão certamente foi um progressista, admirador da nouvelle théologie e do “humanismo integral” de Jacques Maritain. Após a morte de Pio XII, ocorrida em 15 de dezembro de 1958, o recém-eleito Papa João XXIII o elevou à púrpura cardinalícia, permitindo-lhe participar do próximo Conclave. Quando, em 1962, o Concílio Vaticano II se abriu, o nome do Arcebispo de Milão era mencionado pelos jornalistas junto aos porta-estandartes do progressismo, como os cardeais König, Arcebispo de Viena; Frings, de Colônia; Döpfner, de Munique; Alfrink, de Utrecht, e Suenens, de Malines. Dom Helder Câmara recorda em suas cartas conciliares uma reunião que teve com o cardeal Suenens, na qual concordaram com o nome de Montini como o melhor sucessor de João XXIII.

Após a morte do Papa Roncalli, ocorrida em 3 de junho de 1963, o confronto no Conclave foi duro, mas apesar da forte oposição do cardeal Ottaviani, em 21 de junho o cardeal Montini ascendia ao trono de Pedro com o nome de Paulo VI. Em 22 de junho, o novo Papa dirigiu sua primeira mensagem radiofônica a “toda a família humana” e anunciou que a parte preeminente de seu pontificado seria dedicada à continuação do Concílio Ecumênico Vaticano II. No dia seguinte, no Angelus na Praça de São Pedro, na janela do Palácio Apostólico, ele chamou ao seu lado o cardeal Suenens, a quem atribuiu um papel dominante na orientação dos trabalhos conciliares.

Paulo VI apoiou desde o início a “abertura à esquerda” dos democratas-cristãos, que em 23 de novembro de 1963, sob a liderança de Aldo Moro, formaram o primeiro governo italiano com os socialistas. Pelo menos duas vezes, entre 1963 e 1964, ele interveio, através de alguns artigos no L’Osservatore Romano, em apoio à ação política de Moro.

No Concílio, Paulo VI foi quem bloqueou pessoalmente, em 1965, a iniciativa de quase quinhentos padres conciliares que exigiam a condenação do comunismo. No plano internacional, a exemplo de seu antecessor, ele apoiou a chamada Ostpolitik, que estendeu a mão aos regimes comunistas da Europa Oriental. Uma das vítimas mais ilustres dessa política foi o cardeal József Mindszenty, que havia se refugiado na embaixada dos EUA em Budapeste após a revolta húngara de 1956 e permaneceu firme contra qualquer hipótese de acordo com os governos comunistas. Quando Paulo VI pediu-lhe que renunciasse ao título de Arcebispo de Esztergom e de Primaz da Hungria, o Cardeal respondeu com uma recusa respeitosa, mas clara. Paulo VI assumiu a responsabilidade de declarar vaga a arquidiocese primacial, comunicando ao cardeal Mindszenty, em 18 de novembro de 1973, sua remoção do arcebispado. Foi um escândalo que marcou época.

No discurso de abertura do segundo período do Concílio, em 29 de setembro de 1963, Paulo VI colocava na liturgia um dos principais campos de atuação dos Padres conciliares. Quis-se fazer de Mons. Annibale Bugnini, religioso lazarista, o “arquiteto” da reforma litúrgica contra a vontade de Paulo VI. Na realidade, como testemunha o próprio Bugnini, a nova liturgia nasceu de uma estreita colaboração entre ambos. “Quantas horas da noite – recorda Mons. Bugnini – passei com ele estudando juntos os numerosos, muitas vezes volumosos dossiês que se empilhavam sobre sua mesa! Ele lia e considerava linha por linha, palavra por palavra, escrevendo tudo em preto, vermelho e azul, criticando, se necessário, com sua tão característica dialética que podia levantar dez questões sobre um mesmo ponto.” O desfecho desta revolução na Igreja foi a elaboração do Novus Ordo Missae, promulgado por Paulo VI em 3 de Abril de 1969. Em outubro de 1969, o cardeais Ottaviani e Bacci apresentaram ao Papa um Breve exame crítico do Novus Ordo Missae elaborado por um grupo de teólogos de diversas nacionalidades, no qual eles afirmavam que “o Novus Ordo Missae […] representa, quer em seu todo, quer nos seus  detalhes, um surpreendente afastamento da teologia católica da Missa tal como ela foi formulada na XXII sessão do Concílio de Trento”.

O que estava acontecendo naqueles anos dramáticos não passava despercebido de Paulo VI. Em 18 de Janeiro de 1967, o cardeal Journet transmitiu-lhe a sugestão de Maritain de uma nova “profissão de fé” que restabelecesse as verdades fundamentais do Cristianismo, distorcidas nos anos pós-Concílio. Naquela ocasião, Paulo VI pediu ao cardeal suíço um julgamento sobre a situação da Igreja. “Trágica”, foi a resposta lapidar de Journet. Em 7 de dezembro de 1968, em um discurso no Seminário Lombardo, Paulo VI teve palavras impressionantes: “A Igreja está passando hoje por um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica, pode-se até dizer a autodemolição. É como uma convulsão interna aguda e complexa que ninguém esperaria depois do Concílio.” Três anos mais tarde, em 29 de junho de 1972, referindo-se à situação da Igreja, Paulo VI disse com igual clareza “ter a sensação de que por alguma fissura a fumaça de Satanás penetrou no templo de Deus. […] Acreditava-se que após o Concílio teria chegado um dia ensolarado para a história da Igreja. Em vez disso, um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza”. Para superar a crise, o Papa seguiu a estratégia política de condenação dos “extremistas de ambos os lados”, que consistia em uma atitude de benévola indulgência para com as posições dos progressistas e severas sanções contra aqueles que, como o arcebispo francês Marcel Lefebvre, desejavam permanecer fiéis à Tradição da Igreja.

Dois acontecimentos perturbaram profundamente a vida de Paulo VI: a contestação que sofreu no verão de 1968 e, dez anos depois, a morte de Aldo Moro.

Paulo VI não compartilhava a posição do cardeal Suenens, que estava pressionando para que o uso da pílula contraceptiva fosse autorizado. E apesar da opinião contrária dos “especialistas” nomeados por ele para estudar o problema, reiterou em 25 de julho de 1968 a condenação da contracepção com a encíclica Humanae Vitae. A este documento contrário à corrente seguiu-se um violento protesto conduzido por teólogos, bispos e conferências episcopais inteiras, começando pela belga, presidida pelo Cardeal Suenens. Paulo VI se sentiu traído pelos Padres conciliares mais próximos a ele, os quais, por sua vez, o consideraram um “traidor”, contrapondo-lhe a utopia do “Papa bom” João XXIII. Ficou tão perturbado que nenhuma encíclica foi promulgada pelo Papa Paulo VI nos próximos dez anos, embora ele continuasse a acompanhar de perto a política italiana, incentivando a tentativa de seu amigo de infância Aldo Moro, de realizar, após a abertura à esquerda, o compromisso histórico com os comunistas.

Em 16 de março de 1978, dia em que se deveria com o apoio externo do Partido Comunista dar um voto de confiança ao governo liderado por Giulio Andreotti, as Brigadas Vermelhas sequestraram Moro, matando na emboscada os cinco homens de sua escolta. Paulo VI ficou chocado. No dia seguinte, através de uma declaração da Secretaria de Estado, ele anunciou que daria todo o seu apoio moral e material para salvar a vida do presidente da Democracia Cristã. Em 22 de abril, o Papa escreveu uma carta aberta “aos homens das Brigadas Vermelhas”, como ele definiu os terroristas, implorando-lhes de joelhos que libertassem Aldo Moro sem condições, “não tanto por causa da minha intercessão humilde e cordial, mas em virtude de sua dignidade como um irmão em humanidade”. O premente apelo ficou desatendido. Em 9 de maio, o corpo do presidente da Democracia Cristã foi encontrado no porta-malas de um Renault, na via Caetani, a poucos metros dos escritórios do Partido Comunista e da Democracia Cristã. Esse foi – recorda o secretário de Paulo VI, Mons. Macchi –  “um golpe mortal que marcou sua pessoa, já enfraquecida pela doença e pela velhice”.

No dia 13 de maio, na Basílica de São João de Latrão, o Papa compareceu à cerimônia fúnebre celebrada pelo cardeal vigário Ugo Poletti e fez um discurso que pareceu quase uma repreensão a Deus por não ter ouvido o pedido de salvação de Aldo Moro. O trágico acontecimento acelerou o declínio de suas forças. Em meados de julho, Paulo VI deixou Roma para se fixar na residência de verão de Castelgandolfo, onde morreu às 21h40 do dia 6 de agosto de 1978. As mensagens de pesar pela morte de Paulo VI foram inumeráveis. As palavras do ex-Grão-Mestre do Grande Oriente da Itália, Giordano Gamberini, impressionaram: “É a primeira vez na história da Maçonaria moderna que morre o chefe da maior religião ocidental, não em estado de hostilidade com os maçons. E pela primeira vez na história, os maçons podem homenagear o túmulo de um papa, sem ambigüidade ou contradições.”

Eu estava em Savigliano (Piemonte), na vila do filósofo Augusto Del Noce (1910-1989), com Giovanni Cantoni e Agostino Sanfratello, quando recebemos a notícia da morte de Paulo VI. Lembro-me que alguém presente deixou escapar um Deo gratias! Augusto Del Noce foi, em particular, um severo crítico do pontificado de Montini e a esperança estava viva em nós, que com o falecimento de Paulo VI a fumaça de Satanás que penetrou no Templo de Deus seria dissipada. Nos sucessivos pontificados, porém, as janelas por onde a fumaça penetrava foram fechadas apenas parcialmente e agora estão de novo escancaradas. A fumaça de Satanás se transformou em um incêndio que assola a Igreja, como os incêndios que, da Grécia à Califórnia, se intensificam neste verão quente. O papa que há quarenta anos desapareceu, e de quem uma canonização surpreendente foi anunciada, foi um dos principais culpados do incêndio que se propaga hoje.

14 agosto, 2018

Considerações de um católico sobre a pena de morte.

Por José Lorêdo Filho

“D. João VI, quando no Brasil, viu diante de si um miserável, que lhe pedia clemência, depois de ter matado um sacerdote. Antes, já havia sido indultado pelo assassínio de uma mulher grávida. ‘Não o indulteis — ponderou o Conde D’Arcos — este homem cometeu um crime infame’. — ‘Um? — retrucou o rei — ele cometeu dois!’ — ‘Não senhor, um só — atalhou o Conde — o segundo foi Vossa Magestade quem o cometeu, porque não deveria ter perdoado o primeiro a tão grande criminoso’. O criminoso foi enforcado, e o Conde D’Arcos continuou sendo Conselheiro do Rei.” (Ramón Muííana — “Nuevo Catecismo en Ejemplos”, verbete n. 3.288). [1]

Não foi sem algum assombro que, no último dia 02 de agosto, o mundo católico – ou, ao menos, parte dele – recebeu a notícia de que o Papa Francisco se dispusera a mudar o artigo 2267 do Catecismo da Igreja Católica, relativo à tormentosa questão da pena de morte como medida legítima – não necessariamente obrigatória, convém dizê-lo – face a crimes hediondos.

A redação anterior do artigo 2267 assim prelecionava:

  1. A doutrina tradicional da Igreja, desde que não haja a mínima dúvida acerca da identidade e da responsabilidade do culpado, não exclui o recurso à pena de morte, se for esta a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor.

Contudo, se processos não sangrentos bastarem para defender e proteger do agressor a segurança das pessoas, a autoridade deve servir-se somente desses processos, porquanto correspondem melhor às condições concretas do bem comum e são mais consentâneos com a dignidade da pessoa humana.

Na verdade, nos nossos dias, devido às possibilidades de que dispõem os Estados para reprimir eficazmente o crime, tornando inofensivo quem o comete, sem com isso lhe retirar definitivamente a possibilidade de se redimir, os casos em que se torna absolutamente necessário suprimir o réu “são já muito raros, se não mesmo praticamente inexistentes”.

A nova redação, em contrapartida, considera:

  1. Durante muito tempo, considerou-se o recurso à pena de morte por parte da autoridade legítima, depois de um processo regular, como uma resposta adequada à gravidade de alguns delitos e um meio aceitável, ainda que extremo, para a tutela do bem comum.

Hoje vai-se tornando cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não se perde, mesmo depois de ter cometido crimes gravíssimos. Além disso, difundiu-se uma nova compreensão do sentido das sanções penais por parte do Estado. Por fim, foram desenvolvidos sistemas de detenção mais eficazes, que garantem a indispensável defesa dos cidadãos sem, ao mesmo tempo, tirar definitivamente ao réu a possibilidade de se redimir.

Por isso a Igreja ensina, à luz do Evangelho, que “a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa”, e empenha-se com determinação a favor da sua abolição em todo o mundo.

A mudança requer algumas considerações que me parecem indispensáveis à real compreensão do problema.

Falsa concepção do homem

É forçoso admitir que toda e qualquer ação, seja ela de cunho político ou econômico, seja no que toca às relações particulares e seja, ainda, no próprio mundo doméstico, advém de uma concepção geral, para não dizer integral, do homem. Os regimes comunistas, em decorrência de seu imanentismo, recusavam qualquer visão de mundo para além da realidade terrestre, razão pela qual não hesitaram em exterminar fisicamente milhões de pessoas, aos quais negavam uma dignidade anterior à organização política e social; o mesmo diga-se, analogamente, do nacional-socialismo, com o expediente infame dos campos de concentração, mercê de suas teses racistas e de seu paganismo nórdico; o mesmo diga-se de todas as revoluções modernas e os regimes que se lhe seguiram, negadores, todos, da condição do homem de criatura feita à imagem e semelhança de um Deus pessoal e consciente – e detentor, pois, de uma alma imortal e portador de direitos anteriores ao Estado.

É consenso, entre os tratadistas penais – perdoem-me tratar de uma obviedade –, que o cometimento de um crime, qualquer que seja, importa na supressão da liberdade do infrator. Em face da realidade do Pecado Original, em razão do qual o homem pode livremente abraçar o erro, é perfeitamente legítimo que o Estado – e somente ele – possa aplicar a pena de morte, posto que, após cometer crime hediondo – isto é, crime cometido por motivo torpe e com requintes de crueldade –, o infrator perde não apenas o direito à liberdade, senão também, de algum modo, o próprio direito à vida. Assim o ensinam o Catecismo de Trento, o Catecismo de São Pio X, os Santos Doutores e os Santos Padres – até Francisco, que parece sugerir que “até hoje a Igreja ter-se-ia enganado ao julgar a licitude da pena de morte em casos extremos — não havia ainda tomado consciência de que a ‘dignidade da pessoa não se perde’. Mas hoje, graças à nova sensibilidade, graças à compreensão renovada da dignidade humana, corrigimos o erro e declaramos que a dita pena é inaceitável.’. [2]

O historiador Roberto de Mattei, rememorando Pio XII, resolve a questão, sem dúvida incômoda a muitos: “(…) a noção de ‘dignidade humana’ não muda de acordo com os tempos e as circunstâncias históricas, assim como não muda o significado moral da justiça e da punição. Pio XII explica que quando o Estado recorre à pena de morte, não pretende ser o mestre da vida humana, mas apenas reconhece que o criminoso, através de uma espécie de suicídio moral, se privou do direito à vida. Segundo o Papa, “mesmo quando se trata da execução de uma pessoa condenada à morte, o Estado não dispõe do direito do indivíduo à vida. Cabe ao poder público privar o condenado do bem da vida, em expiação por sua falta, após ele, com seu crime, já ter perdido seu direito à vida.’. (Discurso de 14 de setembro de 1952, in Discorsi e Radiomessaggi, vol. XIV, p. 328)”. [3]

Uma distinção necessária: a Ordem da Caridade e a Ordem da Justiça

Um dos principais argumentos em contrário da pena de morte, senão o principal, é o de que se trata de recurso que se opõe à caridade cristã.

O notável sacerdote Emílio Silva de Castro, autor de um livro emblemático em defesa da pena capital, torna clara a necessária distinção entre a Ordem da Caridade e a Ordem da Justiça, ao rememorar episódio de um dos debates que travou sobre o assunto com um mestre das letras jurídicas pátrias, o ministro Nélson Hungria:

(…) o Ministro Nelson Hungria, a certa altura da discussão, disse, com ênfase: “Eu sou mais evangélico que o Padre Silva, pois Jesus nos ordena amar e perdoar nossos inimigos e para o P. Silva nada de perdão. Matar quem com dolo mata.”

Senhor Ministro, respondi-lhe, V. Exa., que é jurista esclarecido e alto Magistrado, não pode ignorar que há duas ordens da vida em sociedade, a ordem da caridade que concerne a todos os homens e a ordem da justiça que incumbe tão-só à autoridade pública e que ela exerce através do poder judiciário. É de toda evidência, pelo texto e contexto daquelas expressões, que por elas Jesus se dirigia a todas as pessoas humanas, a cada um de nós, aconselhando-nos a caridade e o amor; não às autoridades e aos que administram a justiça em toda sociedade humana.

O juiz que conhece a causa de um crime e pronuncia uma sentença condenatória do réu não está julgando um inimigo pessoal — inclusive se o réu fosse parente ou inimigo manifesto do juiz, este é declarado incompetente no caso — senão um malfeitor que violou os sagrados direitos de um cidadão, direitos cuja defesa e tutela incumbe como obrigação à autoridade pública.

Imaginemos, Senhor Ministro, que algumas pessoas vão a seu tribunal questionar sobre graves maus-tratos e despojos de que foram vítimas. Qual seria a atitude de V. Exa. em tal caso? Ousaria porventura dizer-lhes: “Senhores, nada tenho a fazer com vossas queixas. Eu sou católico e evangélico e por isso perdoo todos os que os maltrataram e roubaram?” (risos na plateia.) “Senhor Ministro, replicariam eles, os maltratados e roubados fomos nós, não Vossa Excelência, e corremos à justiça para que nos ampare nossos direitos com uma justa reparação de agravos e para que nos devolvam os bens de que fomos despojados.”

Claro está que os querelantes tomariam sua atitude como um intolerável sarcasmo.

Imagino termos encerrado este ponto…

Licitude da pena de morte

A doutrina católica no que concerne à moral é constituída, evidentemente, por princípios imutáveis, a serem aplicados em situações concretas. Muito embora os princípios não mudem, é comum que, em face da permanente variação das situações concretas, aquilo que, produto de um princípio, era aplicado anteriormente com proficiência se torne, decorrido algum tempo, ineficaz, sem que com isso se negue a validade perene do mesmo princípio. Isto não importa numa relativização doutrinal, antes numa melhor adaptação da doutrina em determinado caso e contexto.

Desse modo, nada haveria de contrastante com a doutrina católica, com o Magistério, a Tradição e as Escrituras a recomendação aos governos civis, por parte da Santa Sé, para que fossem paulatinamente retirando de suas legislações criminais a pena de morte, mesmo em caso de crime hediondo. Nunca por considerá-la ilícita em si mesma, senão unicamente quando o princípio que encerra se torna de aplicação problemática, podendo resultar numa injustiça. Seria este o caso? Seria o nosso sistema penal de tal modo complexo que justifique, não a “introdução de um novo paradigma”, mas a recomendação sábia e prudente da Santa Sé no sentido da abolição paulatina da pena capital? [4] Minha tentativa de resposta fica para a conclusão.

É ensinamento de sempre da Igreja que ao Mandamento Não matarás! há três exceções em que se pode legitimamente tirar a vida de outrem – isto é, sem pecar nem venial nem mortalmente –, a saber, em caso de: I – Legítima e proporcional defesa; II – Guerra justa e III – Pena de morte. [5] Para a devida e correta aplicação da pena de morte, deve ela constituir recurso única e exclusivamente, como já dito, para a punição de crimes hediondos, caracterizados por uma motivação torpe e gratuita e pela utilização de meios cruéis, modalidade de crime em que o Brasil vem se especializando nas últimas décadas… Há também três critérios últimos para a sua lícita aplicação: I – Não restar dúvida quanto à culpabilidade do réu; II – Somente à autoridade pública legítima cabe a sua aplicação e III – A intenção de sua aplicação não deverá, nunca, ser “o ódio ou vingança particular das pessoas, mas sim o amor de caridade para com os próprios culpados e para com a sociedade”. [6] Não observadas estas condições, tornar-se-á a pena de morte expediente absolutamente contrário à doutrina da Igreja e à Lei Natural.

O livro do Pe. Emílio Silva poderá servir, decerto, como guia seguro ao entendimento desta espinhosa questão. É da seguinte forma que esquematiza as razões em favor da pena última:

A) A FAVOR DO INSTITUTO DA PENA CAPITAL

  1. Consentimento Universal.
  2. A Pena de Morte no Antigo Testamento.
  3. A Pena de Morte no Novo Testamento. A Lei de Talião.
  4. O Magistério da Igreja e os teólogos em face da Pena de Morte.
  5. Os Grandes Homens e a Pena de Morte.
  6. Justificação racional da Pena de Morte. Razão fundamental: Restauração da ordem jurídica quebrantada.
  7. Outras razões: Intimidação, segurança, tutela dos cidadãos etc. [7]

Não são descartáveis as argumentações utilizadas pelo exímio padre e polemista…

Conclusão

O meu querido amigo e talentoso ensaísta Francisco Razzo – que já tive o prazer de receber em São Luís para o lançamento de seu precioso A imaginação totalitária – publicou um artigo [8] na Gazeta do Povo em que se diz contrário à pena de morte por quatro razões: “Duas mundanas, uma metafísica e a última teológica.”.

As duas últimas – a incerteza diante da morte e a suposta ilegitimidade da pena capital depois do sacrifício de Nosso Senhor na Cruz – dispensam quaisquer comentários, pois aquela diz respeito antes às dúvidas religiosas do meu bom amigo Razzo – não me cabendo senão louvar a sinceridade de um cristão que se sabe falho e limitado, como todos nós – e esta carece por completo de fundamento, uma vez que a crucificação de N. S. Jesus Cristo extrapola qualquer possibilidade de comparação com qualquer evento humano, mesmo porque, vale dizer para fins didáticos, é mais do que evidente que o “crime” de Jesus não se enquadraria nas condições da correta aplicabilidade da pena última.

As duas primeiras – possibilidade de erros judiciais [9] e excessivo poder dado ao Estado – são pertinentes e muito concorrem para a minha própria posição segundo a qual a necessária reforma da legislação penal brasileira de molde a retrair a criminalidade não importa na adoção da pena de morte, ao menos por agora. A lamentável situação carcerária do país, a instabilidade política, o descrédito do Judiciário, entre outros motivos, só podem fazer ver ao observador mais atento que a adoção da pena de morte no presente momento – acaso fosse politicamente viável – consistiria numa imprudência e numa temeridade. Somente neste sentido caberia o seu desaconselhamento por parte da Santa Sé.

Infeliz e desgraçadamente, o Papa Francisco parece caminhar no sentido oposto. [10] Só me resta, como católico, esperar, com Roberto de Mattei, que “os teólogos e pastores da Igreja intervenham o quanto antes para fazer uma correção pública deste grave erro do Papa Francisco.”. [11]

[1] SILVA, Pe. Emílio. Pena de morte já. Rio de Janeiro: Revista Continente Editorial, 1986, pág. XX (prólogo: des. Ítalo Galli).

[2] Fratres In Unum (03.08.2018): www.fratresinunum.com/2018/08/03/a-pena-de-morte-e-inadmissivel-a-introducao-de-um-novo-paradigma-e-a-ruptura-doutrinal-de-francisco

[3] Agência Boa Imprensa (08.08.2018): www.abim.inf.br/a-liceidade-da-pena-de-morte-e-uma-verdade-de-fe-catolica

[4] Parece ter sido justamente essa a orientação de S. João Paulo II em sua encíclica Evangelium Vitae: “Acontece, infelizmente, que a necessidade de colocar o agressor em condições de não molestar implique, às vezes, a sua eliminação. Nesta hipótese, o desfecho mortal há-de ser atribuído ao próprio agressor que a tal se expôs com a sua acção, inclusive no caso em que ele não fosse moralmente responsável por falta do uso da razão. 56. Nesta linha, coloca-se o problema da pena de morte, à volta do qual se regista, tanto na Igreja como na sociedade, a tendência crescente para pedir uma aplicação muito limitada, ou melhor, a total abolição da mesma. O problema há-de ser enquadrado na perspectiva de uma justiça penal, que seja cada vez mais conforme com a dignidade do homem e portanto, em última análise, com o desígnio de Deus para o homem e a sociedade. Na verdade, a pena, que a sociedade inflige, tem ‘como primeiro efeito o de compensar a desordem introduzida pela falta’. A autoridade pública deve fazer justiça pela violação dos direitos pessoais e sociais, impondo ao réu uma adequada expiação do crime como condição para ser readmitido no exercício da própria liberdade. Deste modo, a autoridade há-de procurar alcançar o objectivo de defender a ordem pública e a segurança das pessoas, não deixando, contudo, de oferecer estímulo e ajuda ao próprio réu para se corrigir e redimir. Claro está que, para bem conseguir todos estes fins, a medida e a qualidade da pena hão-de ser atentamente ponderadas e decididas, não se devendo chegar à medida extrema da execução do réu senão em casos de absoluta necessidade, ou seja, quando a defesa da sociedade não fosse possível de outro modo. Mas, hoje, graças à organização cada vez mais adequada da instituição penal, esses casos são já muito raros, se não mesmo praticamente inexistentes.” Link para a leitura da encíclica: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25031995_evangelium-vitae.html

[5] V. o Catecismo Romano, Parte Terceira: os Mandamentos, capítulo VI. – Do Quinto Mandamento. Catecismo Romano – o Catecismo do Concílio de Trento. Rio de Janeiro: Castela Editorial, 2017, edição fac-similar, págs. 435 a 444.

[6] Pena de morte já, pág. 162.

[7] Pena de morte já, pág. 05.

[8] Link para o artigo de Francisco Razzo: www.gazetadopovo.com.br/colunistas/francisco-razzo/morte-e-pena-de-morte

[9] Mais uma vez lancemos mão da lógica demolidora do Pe. Emílio Silva: “Em realidade a reparação não se dá com nenhuma pena já cumprida. Um pai de família digno e honrado é condenado a dez anos de prisão por um grave e vergonhoso delito. Cumprida a pena, descobre-se sua inocência; a afronta, a desonra e a vergonha por que passou, o vexame da família perante a sociedade, as privações, os cuidados que deixou de prestar à sua esposa e a seus filhos, além dos graves sofrimentos físicos na prisão etc., são ressarcíveis? Outra pessoa também inocente é condenada a doze anos de reclusão. Cumpre a pena e morre em pouco tempo. Depois de morta, descobre-se-lhe a inocência. Será reparável esse erro judicial? E como estes, outros mil casos reais ou hipotéticos nos quais houve impossibilidade de reparação da pena sofrida.”. (Pena de morte já, pág. 83).

[10] Para uma visão global do reinado de Francisco, ver o recém-lançado livro de José Antônio Ureta: A “mudança de paradigma” do Papa Francisco – continuidade ou ruptura na missão da Igreja?, que pode ser baixado gratuitamente no site do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira: www.ipco.org.br/a-mudanca-de-paradigma-do-papa-francisco-continuidade-ou-ruptura-na-missao-da-igreja

[11] “O novo rescrito do Papa Francisco exprime aquele evolucionismo teológico condenado por São Pio X na Pascendi e por Pio XII no Humani generis, nada tendo a ver com o desenvolvimento homogêneo do dogma do qual trata o Cardeal John Henry Newman. A condição para o desenvolvimento do dogma é, de fato, que as novas afirmações teológicas não contradigam o ensinamento anterior da Igreja, mas se limitem a explicitá-lo e aprofundá-lo. Finalmente, como no caso da condenação da contracepção, não estamos tratando aqui de opiniões teológicas sobre as quais é legítimo debater, mas de verdades morais que pertencem ao Depositum fidei, e que, portanto, é obrigatório aceitar para permanecer católico. Esperamos que os teólogos e pastores da Igreja intervenham o quanto antes para fazer uma correção pública deste grave erro do Papa Francisco.” Agência Boa Imprensa (08.08.2018): http://www.abim.inf.br/a-liceidade-da-pena-de-morte-e-uma-verdade-de-fe-catolica

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29 junho, 2018

Cardeal Müller: “Estamos experimentando uma conversão ao mundo, não a Deus”.

Por Catholic World Report, 26 de junho de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com – O Cardeal Gerhard Müller é o ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e antigo bispo de Regensburg, Alemanha. Um renomado professor de teologia, é presidente tanto da Pontifícia Comissão Bíblica como da Comissão Teológica Internacional. Ele é também autor de diversos livros, incluindo The Hope of the FamilyPriesthood and Diaconate [“A esperança da Família, Sacerdócio e Diaconato], and The Cardinal Müller Report: An Exclusive Interview on the State of the Church [O relatório do Cardeal Müller: uma entrevista exclusiva sobre o estado da Igreja].

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Cardeal Gerhard Müller.

Dom Müller recentemente respondeu a algumas questões de Catholic Word Report sobre a situação na Alemanha, tensões sobre a proposta de recebimento da Sagrada Comunhão por certos protestantes, contínuos conflitos sobre o ensinamento da Igreja a respeito da proibição de mulheres serem ordenadas ao sacerdócio, e homossexualidade.

CWR: Desde 2014, tem havido, dentro da Igreja, uma contínua onda de conflitos e tensões que envolvem muitos bispos da Alemanha. Qual o contexto desse fenômeno? Qual a fonte desses diversos conflitos sobre eclesiologia, Sagrada Comunhão e assuntos relacionados?

Cardeal Gerhard Müller: Um grupo de bispos alemães, com seu presidente [i.e., da Conferência Episcopal] na dianteira, se vêem como lançadores de tendências na Igreja Católica em direção à modernidade. Eles consideram a secularização e a descristianização da Europa como um desenvolvimento irreversível. Por essa razão, a Nova Evangelização — programa de João Paulo II e Bento XVI — é, na visão deles, uma batalha contra o curso objetivo da história, se assemelhando à batalha de Dom Quixote contra os moinhos de vento. Portanto, todas as doutrinas da fé que se opõem ao “mainstream”, ao consenso social, devem ser reformadas.

Uma consequência disso é a demanda para a Sagrada Comunhão mesmo a pessoas sem a Fé Católica e também por aqueles Católicos que não estão em estado de graça santificante. Também estão na agenda: benção para casais homossexuais, intercomunhão com protestantes, relativização da indissolubilidade do sacramento do matrimônio, introdução dos viri probati e abolição do celibato sacerdotal; aprovação de relações sexuais antes e fora do casamento. Essas são as metas, e para alcançá-las eles estão dispostos a aceitar até a divisão da conferência episcopal.

Os fiéis que levam a doutrina Católica a sério são rotulados como conservadores e empurrados para fora da Igreja, expostos a campanha difamatória da mídia liberal e anti-católica.

Os muitos bispos, a revelação da verdade e da profissão da Fé Católica é só mais uma variável no jogo de poder político intra-eclesial. Alguns deles citam acordos individuais com o Papa Francisco e pensam que suas declarações em entrevistas com jornalistas e figuras públicas distantes de serem católicos oferecem uma justificativa mesmo para “diluir” verdades de Fé definidas, infalíveis (=dogmas). Tudo isso dito, estamos lidando com um patente processo de protestantização.

O ecumenismo, pelo contrário, tem sua meta na plena unidade de todos os cristãos, que já está sacramentalmente realizada na Igreja Católica. O mundanismo do episcopado e do clero no século 16 foi a causa da divisão da cristandade, que é diametralmente oposta à vontade de Cristo, fundador da Igreja una, santa, católica e apostólica. A doença daquela era é agora supostamente o remédio com o qual a divisão deve ser superada. A ignorância da Fé Católica naquela época era catastrófica, especialmente entre bispos e papas, que dedicavam-se mais à política e ao poder do que em testemunhar a verdade de Cristo.

Hoje, para muitos, ser aceito pela mídia é mais importante que a verdade, pela qual devemos também sofrer. Pedro e Paulo sofreram o martírio por Cristo em Roma, centro do poder naquela época. Eles não eram celebrados pelos grandes desse mundo como heróis, mas zombados como Cristo na cruz. Não devemos nunca nos esquecer a dimensão martirológica do ministério Petrino e do múnus episcopal.

CWR: Por que, especificamente, alguns bispos alemães desejam permitir o acesso à Sagrada Comunhão a protestantes em uma base regular ou comum?

Cardeal Müller: Nenhum bispo tem autoridade de administrar a Sagrada Comunhão a cristãos que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica. Somente em situações de perigo de morte um protestante pode pedir a absolvição sacramental e a Sagrada Comunhão como viaticum, se ele compartilha de toda a Fé Católica e, assim, ingressa em plena comunhão com a Igreja Católica, embora ele não tenha ainda declarado sua conversão oficialmente.

Infelizmente, mesmo bispos, atualmente, não conhecem mais a Fé Católica na unidade da comunhão sacramental e eclesial, e justificam sua infidelidade à Fé Católica com, supostamente, uma preocupação pastoral ou com explicações teológica que, entretanto, contradizem os princípios da Fé Católica. Toda doutrina e praxis devem ser fundamentadas na Sagrada Escritura e na Tradição Apostólica, e não devem contradizer os pronunciamentos anteriores do Magistério da Igreja. Este é o caso da permissão para cristãos não católicos receberam a Comunhão durante a Santa Missa — exceto na situação emergencial descrita acima.

CWR: Como o senhor avalia, primeiramente, o estado da Fé Católica na Alemanha e, depois, na Europa como um todo? Pensa que a Europa pode ou irá recobrar o sentido de sua identidade cristã anterior?

Cardeal Müller: Há muitas pessoas que vivem sua fé, amam a Cristo e sua Igreja, e colocam toda sua esperança em Deus, na vida e na morte. Mas, entre eles, há muitos que se sentem abandonados e traídos por seus pastores. Ser popular perante a opinião pública é, atualmente, critério para supostamente ser um bom bispo ou padre. Estamos experimentando uma conversão ao mundo, não a Deus, contrariamente à afirmação do Apóstolo Paulo: “Por acaso eu procuro o favor dos homens, ou de Deus? Estou tentando agradar aos homens? Se ainda estivesse agradando aos homens, não deveria ser servo de Deus” (Gal 1:10).

Precisamos de padres e bispo cheios do zelo pela casa de Deus, dedicados inteiramente à salvação dos seres humanos na peregrinação de Fé para a nossa casa eterna. Não há nenhum futuro para um “Cristianismo light”. Precisamos de cristãos com espírito missionário.

CWR: A Congregação para a Doutrina da Fé recentemente reiterou o ensino perene da Igreja de que mulheres não podem ser ordenadas ao sacerdócio. Por que o senhor pensa que este ensinamento, que já foi repetido diversas vezes nos anos recentes, continua a ser contestado por muitos na Igreja?

Cardeal Müller: Infelizmente, atualmente a Congregação para a Doutrina da Fé não é particularmente estimada, e seu significado para o primado Petrino não é reconhecido. O Secretariado de Estado e os serviços diplomáticos da Santa Sé são muito importantes para a relação da Igreja com diversos Estados, porém, a Congregação para a Doutrina da Fé é mais importante para a relação da Igreja com sua Cabeça, da qual toda graça procede.

A Fé é necessária à salvação; a diplomacia papal podem fazer muito bem ao mundo. Mas a proclamação da Fé e da doutrina não devem ser subordinados às demandas e condições dos atores do poder terreno. A Fé sobrenatural não depende de poderes terrenos. Na Fé, é absolutamente claro que o Sacramento da Ordem, nos três graus (bispo, padre e diácono) só podem ser recebidos validamente por um homem católico batizado, porque somente ele podem simbolizar e sacramentalmente representar Cristo como Esposo da Igreja. Se o ministério sacerdotal é compreendido como uma posição de poder, então essa doutrina da exclusividade das Sagradas Ordens a católicos de sexo masculino é uma forma de discriminação contra as mulheres.

Mas essa perspectiva de poder e prestígio social é falsa. Apenas se virmos todas as doutrinas da Fé e dos sacramentos com olhos teológicos, e não em termos de poder, a doutrina da Fé sobre os pré-requisitos naturais para o sacramento da Sagrada Ordem e do matrimônio serão também evidentes a nós. Apenas um homem pode simbolizar Cristo enquanto Esposo da Igreja. Apenas um homem e uma mulher podem simbolicamente representar a relação de Cristo e da Igreja.

CWR: O senhor, recentemente, apresentou a edição italiana do livro de Daniel Mattson, Why I Don’t Call Myself Gay [Porque eu não me chamo gay]. O que o impressionou no livro e em sua abordagem? Como ele se distingue de algumas abordagens “pro-gay” e posturas adotadas por alguns Católicos? O que pode ser feito para explicar, em termos positivos, o ensinamento da Igreja sobre sexualidade, casamento e assuntos relacionados?

Cardeal Müller: O livro de Daniel Mattson foi escrito a partir de uma perspectiva pessoal. Ele é fundamentado em uma profunda reflexão intelectual sobre a sexualidade e o matrimônio, que o faz diferente de qualquer forma de ideologia. Portanto, ele ajuda a pessoas com atração para o mesmo sexo a reconhecer sua dignidade e a seguir um benéfico caminho no desenvolvimento de sua personalidade, e a não se deixarem ser usados como peças nos jogo de poder de ideólogos. Um ser humano é uma unidade interior de princípios espirituais e materiais, e, consequentemente, uma pessoa e um sujeito livremente atuante de uma natureza que é espiritual, corpórea e social.

O homem é criado para uma mulher e a mulher para um homem. A meta da comunhão matrimonial não é o poder de um sobre o outro, mas, antes, a unidade em um amor que se doa, no qual ambos crescem e juntos alcançam o objetivo em Deus. A ideologia sexual que reduz o ser humano ao prazer é, de fato, hostil à sexualidade, pois nega que a meta do sexo e do eros é agape. Um ser humano não pode se permitir ser degradado ao status de um animal mais desenvolvido. Ele é chamado a amar. Somente se amo o outro por si mesmo eu chego a mim mesmo; só assim sou liberado da prisão de meu egoísmo primitivo. Não se pode ser realizado às custas dos outros.

A lógica do Evangelho é revolucionária em um mundo de consumismo e narcisismo. Pois somente o grão de trigo que cai no chão e morre não permanece sozinho, mas produz muitos frutos. “Quem amar sua vida a perderá, e quem odiar sua vida neste mundo a guardará pra a vida eterna” (Jo 12:25).

28 junho, 2018

Após a rejeição do Vaticano, bispos alemães se sentem “obrigados seguir em frente” sobre a intercomunhão.

IHU – Líderes da conferência dos bispos alemães dizem que se sentem “obrigados a seguir em frente” em sua proposta de criar diretrizes nacionais para permitir que os protestantes casados ​​com Católicos recebam a Comunhão, mesmo após o chefe doutrinal do Vaticano pedir que eles deixassem o assunto de lado.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 27-06-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

“É importante para nós, que estamos em uma busca ecumênica de alcançar uma compreensão mais profunda entre os cristãos. Somos obrigados a persistir com coragem neste assunto”, afirmou o Conselho Permanente da Conferência, em uma declaração no dia 27 de junho.

A declaração, que aparentemente indica um tom de desafio, também diz que o presidente da Conferência, cardeal Reinhard Marx, se reuniu recentemente com o Papa Francisco para discutir o assunto. Na ocasião, Marx afirmou que pôde compreender a carta de 25 de maio do chefe doutrinal, informando aos alemães sobre questões de como sua proposta “fornece orientação e margem para interpretação”.

A declaração corresponde a uma carta enviada aos bispos alemães pelo cardeal, Luis Ladaria, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Nessa carta, que vazou para um jornalista italiano, Ladaria expôs aos alemães a decisão do Papa de não publicar a proposta, por falta de informações.

O cardeal ainda disse numa breve coletiva de imprensa, no dia 26 de junho, que sua carta deveria ser um “apelo à reflexão” e não “frear” a proposta. Ele chamou a questão da intercomunhão de “um caso que deve ser estudado em uma situação ampla, e não apenas como um problema local”.

A Igreja Católica geralmente reserva a recepção da Comunhão aos seus membros, sustentando que a partilha do sacramento seja um sinal de unidade na fé.

Embora o texto das diretrizes alemãs não tenha sido publicado, devemos considerar as situações em que uma pessoa luterana casada com um católico romano, que frequenta regularmente a missa com o cônjuge católico, poderia receber a Eucaristia.

A questão afeta a Alemanha mais do que a maioria dos outros países, já que a comunidade cristã está dividida de maneira quase igual entre católicos e luteranos.

Em sua declaração, os bispos alemães dizem que estão preocupados com a prestação de cuidados pastorais para casais ​​interdenominacionais que têm uma séria necessidade espiritual de receber a Eucaristia“.

O texto afirma que Marx também pôde esclarecer com Francisco a respeito da proposta das diretrizes nacionais que serviriam como “uma ajuda à orientação”, para que os bispos individuais usassem sua autoridade sob a lei canônica de permitir a Eucaristia à cristãos que não se encontram em plena comunhão com a Igreja Católica.

Durante uma coletiva de imprensa no voo de volta a Roma após sua visita a Genebra em 21 de junho, Francisco disse que havia dado permissão a Ladaria para escrever a carta aos alemães com intuito de garantir que a proposta tenha um bom resultado.

Segundo o Papa Francisco, embora o Código de Direito Canônico da Igreja Católica permita que um bispo local decida dar a Comunhão em casos especiais, não permite que isso seja responsabilidade de conferências nacionais.

A declaração dos bispos alemães diz que a totalidade da conferência irá reconsiderar a proposta de diretrizes sobre a intercomunhão em sua próxima assembleia geral, a ser realizada em setembro. Em fevereiro, a conferência aprovou pela primeira vez a proposta com mais de dois terços dos votos.

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