Archive for ‘O Papa’

13 julho, 2016

Cardeal Christoph Schönborn e o convite explícito ao sacrilégio.

O arcebispo de Viena, entrevistado pelo Padre Spadaro, remove qualquer ilusão das “belas almas”:”Amoris Laetitia é “magistério”. E como! Ele ainda acrescenta: em “certos casos” quem está numa situação objetiva de pecado pode receber os sacramentos. E isso é chamado, gostem ou não,  passe livre para o sacrilégio.

Por Paolo Deotto – Riscossa Cristiana | Tradução: FratresInUnum.comO argumento “astuto” com o qual as “belas almas” (vamos chamá-las assim, por delicadeza …) até agora tentaram justificar as declarações incríveis contidas na Amoris Laetitia eram as seguintes: A. L. não é magistério, é a “opinião” do Pontífice sobre a família.

zschAfirmação grotesca, é claro, e em todo caso contraditória, porque é muito estranho que um Papa possa ter uma “opinião” pessoal sobre argumentos de fé e doutrina. Temos então o caso singular de um Papa que em alguns casos pode ser o Doutor Jekyll e, em outros, Mr. Hyde [ndt: referência ao filme “O médico e o monstro“, . Quando ele sai em viagem, dá uma de Mr. Hyde, disparando tranquilamente afirmações heréticas por todos os lados.

 

De resto, cabe às “belas almas” resignarem-se. Algumas, por um mal entendido dever de ofício (“afinal, o chefe tem sempre razão”), outras por servilismo, outras ainda pela incapacidade congênita de raciocínio,  mas, no entanto, todos sem exceção tentando dar nó em goteira pra fazer do círculo um quadrado.

 

O jornal Corriere publicou um trecho da entrevista em que o cardeal Christoph Schönborn, Arcebispo de Viena, concedeu ao Padre Antonio Spadaro, diretor da revista dos jesuítas, Civilta Cattolica. Bem, o entrevistado, e é bom que seja lembrado (…), o qual foi de fato nomeado como o intérprete autêntico da  A. L. , já foi removendo imediatamente todas as ilusões. O que faz com que os argumentos dos caçadores de desculpas desmoronem desastrosamente:  

 

“É claro que este é um ato do Magistério! É uma exortação apostólica. É claro que aqui o Papa exerce o seu papel de pastor, mestre e doutor da fé, depois de ter-se beneficiado da consulta dos dois sínodos. Eu acho que, sem dúvida, deveríamos falar de um documento papal de alta qualidade, uma autêntica lição de doutrina sagrada, que nos reconduz à atualidade da Palavra de Deus. Amoris Laetitia é um ato de magistério que torna atual no tempo presente o ensinamento da Igreja”.

 

Mais claro do que isso…

 

Não tenho a pretensão de fazer aqui uma análise em profundidade da entrevista. No entanto, sinto que é apropriado concentrar-se em algumas palavras, porque elas nos mostram, com ousada clareza, como o relativismo passou agora a dominar uma certa “teologia”. Depois disso, é ótimo que A. L. seja, sem dúvida, um ato do Magistério. De “qual” magistério, é uma história bem diferente.

 

Parece ser útil ler com atenção a seguinte passagem:

 

Pergunta: O Papa afirma que “em certos casos”, quando se encontra diante de uma situação objetiva de pecado – mas sem ser subjetivamente culpado ou sem sê-lo inteiramente – é possível viver na graça de Deus. Existe uma ruptura com o que foi afirmado no passado?

 

Resposta: O Papa nos convida a não olhar apenas para as condições exteriores, que têm sua própria importância, mas a nos perguntarmos se temos sede do perdão misericordioso, a fim de melhor respondermos ao dinamismo da graça santificante. A passagem entre a regra geral e os “certos casos” não pode ser feita apenas considerando situações formais. Por conseguinte, é possível que, em certos casos, o que é uma situação objetiva de pecado possa receber a ajuda dos sacramentos. 

 

Eis aqui oficializadas as novas e interessantes categorias: a “situação objetiva do pecado”, em que, no entanto, não se pode ser “subjetivamente culpado”, ou sê-lo mas “não inteiramente.” Ao caos certamente não casual da pergunta, segue-se o caos, certamente não casual, da resposta.

 

E assim aprendemos que se pode estar em pecado, mas não estar, ou estar em pecado, mas não completamente em pecado, uma vez que se faça uma curiosa distinção entre a situação “objetiva ” e “subjetiva” de pecado. E quem é culpado, “sem sê-lo completamente”, o que deveria fazer? Um arrependimento, mas só percentual? De qualquer forma, em “certos casos” (quais? Não sabemos!) quem está numa situação objetiva de pecado (não se especifica se é subjetivamente culpado ou apenas parcialmente) pode receber “a ajuda dos sacramentos”.

 

Mas a única “ajuda” que o pecador pode receber não é a absolvição, precedida da confissão? E essa confissão envolve arrependimento sincero e o propósito de não continuar no pecado.

 

Não, aqui se fala  de “sacramentos”, no plural, e desde que há muito tempo se cogitava, perdão, debatiam, sobre a comunhão para divorciados novamente casados, aqui descobrimos que praticamente todos podem receber a comunhão, porque o caos aparente das situações “objetivas”,”subjetivas”, não é totalmente objetivo, em última análise inclui tudo e todos. A imprecisão de “certos casos”, obviamente, deixa a porta aberta para diferentes interpretações.

 

Resta, no entanto, o fato é incontestável, de que “quem come o pão e bebe o cálice do Senhor indignamente, come e bebe a própria condenação”. Mas, parece que isso não é mais motivo de preocupação. Evidentemente, a salvação eterna não entra mais nos interesses desta particular “neo-igreja” que expressa um novo magistério. Tanto é assim que, com as afirmações acima registradas, erga omnes, dá-se um passe livre para o sacrilégio.

 

E para fechar, eu me limito a sublinhar uma única coisa: essa bagunça (e o resto você pode ler no Corriere.it) não vem de um palhaço qualquer, na onda de estranhezas para-teológicas. Ela vem do Cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, indicado pela autoridade máxima(…) como o melhor intérprete da A. L.

 

É tudo tão terrivelmente claro. Deus nos salve.

11 julho, 2016

Reforma de um mínimo suspiro de tentativa de reforma da reforma. 

Nota do Fratres: Nada mais do que o esperado por parte da Sala de Imprensa da Santa Sé. O demissionário padre Lombardi — descanse em paz –, desmentidor oficial do Vaticano, rápido em rechaçar qualquer vestígio de ortodoxia e sonolentíssimo em fustigar enganos, não fez mais do que o seu papel. Nada havia a ser esclarecido. O bom cardeal Sarah foi claríssimo quando apenas sugeriu uma mudança, sem valor oficial. Mas, é fundamental, imperioso, defender as reformas pós-conciliares contra o menor sussurro dos restauracionistas.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

Não se deve esquecer que, há pouco mais de um ano, o Papa Francisco, comemorando o aniversário da primeira missa em italiano celebrada por Paulo VI, disse, referindo-se aos que defendem uma “reforma da reforma”:

Vamos agradecer ao Senhor pelo que Ele tem feito na sua Igreja nestes 50 anos de reforma litúrgica. Foi realmente um gesto corajoso para a Igreja se aproximar do povo de Deus para que eles pudessem entender o que estavam fazendo. Isso é importante para nós, seguir a missa dessa forma. Não é possível voltar atrás. Devemos sempre ir adiante. Sempre adiante! E aqueles que querem voltar atrás estão enganados. Sigamos adiante neste caminho.

É importante ressaltar que a fala do cardeal guineense, pela clareza que incomoda a atual hierarquia, mobilizou, numa velocidade insólita, todo o aparato modernista-eclesiástico de apologetas do “espírito do Concílio”. Primeiro, foi Dom Vincent Nichols, o ultra-progressista arcebispo de Westminster, sede do encontro em que discursou Sarah, a escrever imediatamente a seus padres, instando-os ao não seguir o pedido do prefeito da liturgia. Um gesto nada elegante de “comunhão episcopal” nada fraterna.

Até no Brasil, o Cardeal Arcebispo de São Paulo, privadamente, demonstrou ceticismo e minimizou as notícias acerca do discurso de Sarah, afirmando ser um gosto particular do prefeito e não um ato oficial do Vaticano, e que uma tal mudança significaria rever o estabelecido pelo Vaticano II — da nossa parte, é inacreditável que um Cardeal ignore que o Vaticano II, em sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, nada tenha disposto sobre a posição do altar.

Por fim, a reunião de Francisco e Sarah logo após a conferência do purpurado em Londres já estava na agenda? Ou foi um chamado à ordem? Esperamos que a primeira alternativa seja a verdadeira. No entanto, alguns analistas associaram o duro discurso de Francisco, chamando de “hereges e não católicos” os que afirmam “‘é isso ou nada’”, ao livro “Deus ou nada”, do Cardeal Robert Sarah (cujo prefácio de Bento XVI desapareceu misteriosamente).

* * *

Celebração da Missa, nenhuma mudança dos altares

O cardeal Sarah, durante uma conferência em Londres havia convidado os sacerdotes a celebrar voltados ao Oriente, de costas para o povo. Após um esclarecimento com o Papa, a nota de Lombardi.

Por Andrea Tornielli – La Stampa | Tradução: FratresInUnum.com: Parecia mais que um convite, porque a falar sobre isso, se bem que durante uma conferência e não como um ato oficial, foi o cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. O cardeal Africano, há uma semana, em Londres, na abertura da conferência Sacra Liturgia, havia lançado uma espécie de apelo a todos os sacerdotes do mundo, convidando-os a começarem, no primeiro domingo do Advento, em novembro, a celebrar a missa “versus Orientem”, isto é, com o altar voltado para o leste, de costas para o povo, como se usava antes da reforma conciliar. “É muito importante que voltemos, o mais rápido possível para uma direção comum, sacerdotes e fiéis voltados na mesma direção, para o oriente, ou pelo menos para a abside, para o Senhor que vem”, disse ele, acrescentando: “Peço-vos aplicar esta prática sempre que possível “.

As palavras de Sarah reverberaram em todo o mundo, encontrando apoio entusiástico nos sites e nos assim chamados blogs tradicionalistas, mesmo porque o cardeal tinha acrescentado que iria começar, de acordo com o Papa, um estudo para se chegar a uma “reforma da reforma” litúrgica, visando melhorar a sacralidade do rito. Um dia após a conferência de Sarah, o cardeal arcebispo de Westminster, Vincent Nichols, escreveu uma carta a seus sacerdotes, instando-os a não celebrar a Missa voltada para o Oriente, tal como solicitado pelo prefeito do Culto Divino, também por causa da legislação em vigor sobre esse assunto.

Nos últimos dias, o Cardeal Sarah se encontrou novamente em audiência com Francisco. E na tarde de segunda-feira, 11 julho, padre Federico Lombardi, no mesmo dia em que foi anunciada a nomeação do seu sucessor, emitiu uma declaração, evidentemente em concordância com o Pontífice e o cardeal, que desmonta a validade do convite de Sarah e põe fim à expressão “reforma da reforma”, já há tempos abandonada até mesmo por Bento XVI.

“É oportuno um esclarecimento – afirma o porta-voz do Vaticano – na sequência de relatos da mídia que circularam após uma conferência realizada em Londres pelo Cardeal Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, poucos dias atrás. O Cardeal Sarah sempre esteve preocupado justamente com a dignidade da celebração da missa, de modo que seja expressa adequadamente a atitude de respeito e adoração do mistério eucarístico. Algumas de suas expressões foram, no entanto, mal interpretadas”, como se anunciassem novas indicações diferentes daquelas até agora promulgadas nas normas litúrgicas e nas palavras do Papa sobre a celebração voltada para o povo e sobre o rito ordinário da Missa.

“Portanto é bom lembrar – continua Lombardi – que a Institutio Generalis Missalis Romani (Instrução Geral do Missal Romano), que contém as normas relativas à celebração eucarística e que ainda está em pleno vigor, no nº 299, diz:”  “Altare extruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit. Altare eum autem occupet locum , ut revera centrum sit ad quod totius congregationis fidelium attentio sponte convertatur”(isto é :” O altar deve ser construído destacado da parede, para que se possa facilmente circular em volta e celebrar voltado para o povo, o que é conveniente que seja realizado sempre que possível. O altar seja pois posicionado de modo a estar verdadeiramente no centro para que a atenção do fiel se volte naturalmente para a sua direção.”)

“Por sua parte, o Papa Francisco – afirma ainda o porta-voz do Vaticano – por ocasião da sua visita à Congregação para o Culto Divino, recordou expressamente que a forma” ordinária” da celebração da Missa é a prevista pelo Missal promulgado por Paulo VI, enquanto a forma “extraordinária”, que foi autorizada pelo Papa Bento XVI para as finalidades e com as modalidades por ele explicadas no motu proprio Summorum Pontificum, não deve tomar o lugar do “ordinário”.

“Não são, portanto, previstas novas orientações litúrgicas a partir do próximo Advento – esclarece Lombardi – como alguns erroneamente deduziram a partir de algumas palavras do Cardeal Sarah, e é melhor evitar o uso da expressão ‘reforma da reforma’, referindo-se à liturgia, dado que às vezes ela tem sido fonte de equívocos. Tudo isso foi expresso em concordância durante o curso de uma audiência recente concedida pelo Papa ao mesmo Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino”.

28 junho, 2016

Papa Francisco: Bento XVI continua servindo a Igreja com vigor e sabedoria.

Cidade do Vaticano (Rádio Vaticano) – O Papa Francisco conduziu nesta terça-feira (28/06), na Sala Clementina do Vaticano, a celebração solene de comemoração dos 65 anos de Ordenação sacerdotal do Papa emérito Bento XVI.

“Hoje, festejamos a história de um chamado iniciado há 65 anos com a sua Ordenação sacerdotal ocorrida na Catedral de Frisinga em 29 de junho de 1951”, disse Francisco a Bento XVI.

“Em uma das mais belas páginas que o senhor dedica ao sacerdócio, sublinha como, na hora do chamado definitivo de Simão, Jesus, olhando para ele, no fundo pergunta-lhe somente uma coisa: ‘Me amas?’. Como é bonito e verdadeiro isto! Porque é aqui, o senhor nos diz, é neste “me amas” que o Senhor funda o apascentar, porque somente se existe amor pelo Senhor Ele pode apascentar por meio de nós”, frisou ainda o Pontífice.

“É esta a nota que domina uma vida inteira dedicada ao serviço sacerdotal e à teologia que o senhor não por acaso definiu como a ‘busca do amado’; é isto que o senhor sempre testemunhou e testemunha ainda hoje: que a coisa decisiva nos nossos dias – de sol ou de chuva – a única com a qual vem também todo o resto, é que o Senhor esteja realmente presente, que o desejemos, que interiormente sejamos próximos a ele, que o amemos, que realmente acreditemos profundamente nele e acreditando o amemos verdadeiramente. É este amar que realmente nos preenche o coração, este acreditar é aquilo que nos faz caminhar seguros e tranquilos sobre as águas, mesmo em meio à tempestade, precisamente como acontece a Pedro; este amar e este acreditar é o que nos permite de olhar ao futuro não com medo ou nostalgia, mas com alegria, também nos anos já avançados de nossa vida.”

Testemunho

“E assim, precisamente vivendo e testemunhando hoje em modo tão intenso e luminoso esta única coisa realmente decisiva – tendo o olhar e o coração voltado a Deus – o senhor, Santidade, continua servindo a Igreja, não deixa de contribuir realmente com o vigor e a sabedoria para o crescimento dela”, disse Francisco que acrescentou:

“E o faz daquele pequeno Mosteiro Mater Ecclesiae no Vaticano, que se revela desta forma ser bem outra coisa do que um daqueles cantinhos esquecidos nos quais a cultura do descarte de hoje tende a relegar as pessoas quando, com a idade, as suas forças começam a faltar. É bem ao contrário; e isto permite que o diga com força o seu Sucessor que escolheu chamar-se Francisco!”.

“Porque o caminho espiritual de São Francisco iniciou em São Damião, mas o verdadeiro lugar amado, o coração pulsante da ordem, lá onde o fundou e onde no final rendeu sua vida a Deus foi a Porciúncula, a ‘pequena porção’, o cantinho junto à Mãe da Igreja; junto a Maria que, pela sua fé tão firme e pelo seu viver tão inteiramente do amor e no amor com o Senhor, todas as gerações chamarão bem-aventurada. Assim, a Providência quis que o senhor, caro irmão, chegasse a um lugar por assim dizer propriamente ‘franciscano’ do qual emana uma tranquilidade, uma paz, uma força, uma confiança, uma maturidade, uma fé, uma dedicação e uma fidelidade que me fazem tão bem e dão força para mim e para toda a Igreja”.

Palavras de Bento XVI

E o Papa Francisco concluiu: “Que o senhor, Santidade, possa continuar sentido a mão do Deus misericordioso que o sustenta, que possa experimentar e nos testemunhar o amor de Deus; que, com Pedro e Paulo, possa continuar exultando de alegria enquanto caminha rumo à meta da fé.”

A seguir, o Papa emérito Bento XVI, em um breve discurso improvisado de agradecimento, recordou que sua vida sacerdotal foi marcada desde o início pela palavra grega “Eucharistomen” e suas tantas dimensões.

“Ao final, queremos nos incluir neste obrigado do Senhor e, assim, receber realmente a novidade da vida e ajudar a transubstanciação do mundo, que seja um mundo não de morte, mas de vida – um mundo no qual o amor venceu a morte.”

(JE/MJ/RB)

Tags: ,
20 junho, 2016

A “Igreja pobre”, do Vaticano II ao Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 15-06-2016 | Tradução: FratresInUnum.comSegundo a opinião dominante dos teólogos, os documentos do Papa Francisco constituem meras indicações genéricas, de caráter pastoral e moral, destituídas de qualidade magisterial significativa. Esta é uma das razões pelas quais esses documentos são discutidos mais livremente do que acontecia antigamente com os textos pontifícios.

catacombe-417x278Entre as análises mais penetrantes dos textos do atual Pontífice, assinala-se o estudo de um filósofo da Universidade de Perugia, Flavio Cuniberto, intitulado Senhora Pobreza. O Papa Francisco e a refundação do cristianismo (Blacks Pozza, Vicenza 2016), dedicado particularmente aos documentos Evangelii Gaudium (2013) e Laudato sì (2015). O exame ao qual o Prof. Cuniberto submete os textos é o do estudioso que procura compreender suas teses de fundo, muitas vezes escondidas numa linguagem deliberadamente ambígua e elíptica. Sobre o tema da pobreza, Cuniberto traz à luz duas contradições: a primeira de natureza teológico-doutrinária, e a segunda de caráter prático.

Em relação ao primeiro ponto, teológico-doutrinário, ele observa que o Papa Francisco, em contraste com o que pode ser deduzido a partir do Evangelho, faz da pobreza uma condição mais material do que espiritual, para transformá-la assim em uma categoria sociológica. Esta exegese transparece, por exemplo, na escolha em citar, para o sermão das bem-aventuranças, o evangelho de Lucas (6, 20), e não o relato mais preciso de São Mateus (5, 3), que usa o termo “pauperes spiritu”, ou seja, aqueles que vivem humildemente diante de Deus.

Mas, para o Pontífice, a pobreza parece ser ao mesmo tempo um mal e um bem. Com efeito, observa Cuniberto, “se a pobreza como miséria material, exclusão, abandono, é indicada desde o início como um mal a ser combatido, para não dizer o mal dos males, e é, portanto, o objetivo principal da atividade missionária”, o novo significado cristológico que lhe atribui Francisco “faz dela simultaneamente um valor e, de fato, o valor supremo e exemplar”. Trata-se, sublinha o filósofo de Perugia, de um emaranhado complicado. “Por que combater a pobreza e erradicá-la quando ela é, pelo contrário, um ‘tesouro precioso’, e mesmo o caminho para o Reino? Inimigo a combater ou tesouro?” (pp. 25-26).

O segundo ponto, de caráter prático, refere-se às “causas estruturais” da pobreza. Supondo que esta seja um mal radical, o Papa Bergoglio parece individuar sua causa essencial na “desigualdade”. A solução indicada para erradicar esse mal seria aquela marxista e terceiro-mundista da redistribuição da riqueza: tirar dos ricos e dar aos pobres. Uma redistribuição igualitária que passaria por uma maior globalização dos recursos, não mais restrita às minorias ocidentais, mas estendida a todo o mundo. Mas na base da globalização está a lógica do lucro, que é criticada de um lado e propiciada de outro como uma forma de vencer a pobreza. O supercapitalismo, de fato, para se alimentar, necessita de um público de consumidores cada vez mais extenso, mas essa extensão do bem-estar em grande escala acaba alimentando as desigualdades que se desejaria eliminar.

O livro do Prof. Cuniberto merece ser lido juntamente com o de um estudioso napolitano, o sacerdote Beniamino Di Martino, intitulado Pobreza e riqueza. Exegese dos textos evangélicos (Editrice Dominicana Italiana, Nápoles 2013). O livro é muito técnico e o Pe. Di Martino desmonta, através de uma análise rigorosa dos textos, as teses fundamentais de certa teologia pauperista. A fórmula “contra a cupidez, não contra a riqueza”, resume, segundo o autor, o verdadeiro ensinamento dos Evangelhos.

Mas, pergunto eu, de onde provém essa confusão teológica, exegética e moral, entre pobreza espiritual e pobreza material? Não se pode ignorar o chamado “Pacto das Catacumbas”, assinado em 16 de novembro de 1965, nas Catacumbas de Domitila em Roma, por quarenta e cinco Padres conciliares que estavam tentando viver e lutar por uma Igreja pobre e igualitária.

O grupo tinha entre seus fundadores o padre Paul Gauthier (1914-2002), que havia participado da experiência dos “Padres operários” do cardeal Suhard, condenada pela Santa Sé em 1953. Depois, com o apoio do bispo Dom Georges Hakim, do qual foi teólogo no Concílio, ele fundou na Palestina a família religiosa de Os companheiros e as companheiras de Jesus carpinteiro. Gauthier era auxiliado em Roma por sua companheira de luta Marie-Thérèse Lacaze, que se tornou sua mulher quando ele deixou o sacerdócio.

Entre os que apoiaram o movimento estavam Dom Charles M. Himmer, bispo de Tournai (Bélgica), que acolhia suas reuniões no Colégio Belga de Roma; Dom Helder Câmara, que ainda era bispo-auxiliar do Rio e depois se tornou arcebispo de Recife; e o cardeal Pierre M. Gerlier, arcebispo de Lyon, em estreito contato com o cardeal Giacomo Lercaro, arcebispo de Bolonha, que se fazia representar pelo seu conselheiro Pe. Giuseppe Dossetti e pelo seu bispo auxiliar Dom Luigi Bettazzi (cfr. O Pacto das Catacumbas. A missão dos pobres na Igreja, por Xabier Pizaka e José Antunes da Silva, Edições Missionárias Italianas 2015).

Dom Bettazzi, o único bispo italiano participante do Vaticano II ainda vivo, também foi o único italiano a aderir ao “Pacto das Catacumbas”. Atualmente com 93 anos, ele participou de três sessões do Concílio Vaticano II e foi bispo de Ivrea de 1966 a 1999, quando renunciou por motivos de idade.

Se Dom Helder Câmara foi o “arcebispo vermelho” brasileiro, Dom Bettazzi entrou para a história como o “bispo vermelho” italiano. Em julho de 1976, quando parecia que o comunismo poderia tomar o poder na Itália, Dom Bettazzi escreveu uma carta ao então secretário do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer, ao qual reconhecia a intenção de realizar “uma experiência original de comunismo, diferente dos comunismos de outras nações”, e lhe pedia para “não hostilizar a Igreja”, mas, ao contrário, “estimular nela uma evolução segundo as exigências dos tempos e as expectativas dos homens, sobretudo dos mais pobres, que porventura o senhor poderá ou saberá mais apropriadamente interpretar”. O líder do PCI respondeu ao bispo de Ivrea através da carta Comunistas e católicos: clareza de princípios e bases de entendimento, publicada em “Renascita” de 14 de outubro de 1977.

Nessa carta, Berlinguer negou que o PCI professasse explicitamente a ideologia marxista como filosofia materialista ateia, e confirmou a possibilidade de um encontro entre cristãos e comunistas no plano da “des-ideologização”. Não se trata de pensar do mesmo jeito, mas de juntos fazer o mesmo caminho – afirmava Berlinguer em substância –, na convicção de que não se é marxista no pensamento, mas se torna na prática.

O primado marxista da praxis penetrou na Igreja de hoje sob a forma de absorção da doutrina pela pastoral. E a Igreja corre o risco de tornar-se marxista na prática também falseando o conceito teológico de pobreza.

A pobreza autêntica é o desprendimento dos bens da terra, de modo que eles sirvam para a salvação da alma, e não para a sua perdição. Todos os cristãos devem ser desapegados dos bens, porque o Reino do Céu é reservado aos “pobres de espírito”, e alguns deles são até chamados a viver uma pobreza efetiva, renunciando à posse e ao uso dos bens materiais. Mas esta escolha tem valor pelo fato de ser livre, e não imposta por outrem, como nos regimes coletivistas.

Desde os primeiros séculos, as seitas heréticas pretenderam, pelo contrário, impor a comunhão dos bens, a fim de consumar nesta terra uma utopia igualitária. Na mesma linha coloca-se hoje quem quiser substituir a categoria religiosa dos pobres em espírito pela categoria sociológica dos materialmente pobres.

Dom Luigi Bettazzi, autor do livro A Igreja dos pobres, do Concílio ao Papa Francisco (Pazzini 2014) recebeu, em 4 de abril de 2016, a cidadania honorária de Bolonha e poderia receber a púrpura do Papa Francisco, sob cujo pontificado, de acordo com o mesmo ex-bispo de Ivrea, desenvolveu-se o Pacto das Catacumbas “como uma semente de trigo colocada sob a terra e crescida lentamente para dar seus frutos”.

13 junho, 2016

Editorial – Agora, na mira de Francisco: os bispos!

Como uma mãe amorosa”. Esse é o título do Motu Proprio que Papa Bergoglio acaba de publicar. O assunto é a remoção dos bispos que são negligentes em seu ofício episcopal.

Agora, eles estão no alvo: os bispos!

Logo no artigo 1o., Francisco afirma sem titubeios: “O Bispo diocesano ou Eparca, ou aquele que, mesmo que a título temporário, tem a responsabilidade por uma Igreja particular ou por uma outra comunidade de fieis equiparada a essa, no sentido do c. 368 do CIC e do c. 313 do CCEO, pode ser legitimamente removido do seu cargo, se tiver, por negligência, feito ou omitido atos que tenham provocado grave dano a outros, tratem-se de pessoas físicas ou de uma comunidade em seu conjunto. O dano pode ser físico, moral, espiritual ou patrimonial”.

vescoviEm um artigo, o Papa argentino colocou quase a totalidade dos bispos em situação perigosa. Aliás, não apenas os bispos, mas até mesmo os administradores diocesanos ou apostólicos que, a título temporário, tiverem algum dos problemas acima.

Notem que o dano pode ser físico, moral, espiritual ou patrimonial! Qual é a diocese que não tem algum clérigo, ou até mesmo o próprio Ordinário, que não tenha feito ou omitido atos que tenham causado algum dano desse tipo?… Estamos certos de que o leitor conhecerá um, senão alguns ou muitos casos em que o bispo se encontraria exatamente nessa situação.

Lembram aquele padre que deu escândalo e foi removido para outra paróquia ou diocese, como se nada tivesse acontecido? Ou aquele que foi preso porque teve de denunciar suborno de eventuais amantes e continua celebrando suas missas, com anuência do bispo e até da mídia? Ou aquele que engravidou uma moça e o bispo disse que ele não precisava abandonar o ministério, mas apenas mudar paróquia, e depois foi transferido? Ou aquele que faliu uma comunidade, e outra, e outra, e outra, e continua a falir, porque paga pontualmente a cúria? Ou aquele bispo que injustiçou um padre bom, jogando-o numa paróquia longínqua e miserável? Ou mesmo o bispo que destruiu a vida de um seminarista, expulsando-o de um seminário injustamente? Ou daqueles que permitem suas universidades e seminários serem infestados de hereges, expulsando os bons teólogos? Ou dos bispos que vivem onerando as paróquias com taxas que ninguém sabe para que serão usadas? Ou dos bispos que proíbem a missa tradicional em suas dioceses, mas permitem todos os abusos litúrgicos? Ou dos bispos que só falam em dinheiro, em construção de Catedrais milionárias e modernosas, vivem viajando mundo afora ou tirando fotos de bermuda e postando no facebook? Até agora só vimos alguns padres serem penalizados. Agora, chegou a vez dos bispos! Eis a grande novidade!

Claro, o bispo terá tempo de se defender e produzir provas, e a Congregação dos Bispos poderá até mesmo consultar a Conferência Episcopal… Mas, diante de fatos e de acusações do povo, que margem haverá para escapar das evidências de negligência? No Brasil, esse é o pecado capital do governo dos bispos. Negligência! E negligência já nos seminários, cujo maior número é entregue a formadores incapazes e, por vezes, inidôneos. Agora ficou fácil: basta abrir a caixa preta! E não faltarão ex-seminaristas, padres afastados, funcionários ou pessoas prejudicadas que não queiram abrir a boca!

Diante disso, Francisco oferece aos bispos duas alternativas: uma, com misericórdia; e outra, sem misericórdia. Ah, a misericórdia de Francisco!

“Caso considere oportuna a remoção do Bispo, a Congregação estabelecerá, com base nas circunstâncias do caso, se:

1o. dar, em mais breve tempo possível, o decreto de remoção;

2o. exortar fraternalmente o Bispo a apresentar a sua renúncia no prazo de 15 dias. Se o bispo não der a sua resposta no prazo previsto, a Congregação poderá emitir o decreto de remoção”.

Lembramos que, no segundo caso, a práxis seria aquela adotada com o finado Dom Rogélio Livieres: depois de sua remoção, não foi nomeado bispo emérito, mas ex-bispo de Ciudad del Est, porém, no caso dele, amado e venerado pelo povo e pelo clero.

Como o Motu Proprio entra em vigor no dia 5 de setembro, já deve ter começado a correria para se produzir provas e testemunhos em defesa dos negligentes. Admitamos: isso chega a provocar, digamos, misericórdia.

Claro! Todos sabemos que hoje em dia os bispos acabam caindo em situações que nem eles mesmos nunca imaginavam ter de enfrentar. Tantas vezes, acabam ajudando um padre por acreditarem em sua possibilidade de conversão. Eles são bispos, não delegados de polícia.

Pois é, mas, mesmo nesses casos – e não falamos daqueles propriamente escandalosos e negligentes –, um bispo pode perder sua diocese. E não terá ninguém para quem apelar. Se for religioso, ainda pode voltar para o convento; mas, se for diocesano, o jeito mesmo é começar a vida do zero.

Bem… Não acreditamos que Francisco faça isso propriamente por amor à justiça. Não! Justo ele que condenou o inocente Dom Livieres e promoveu o conhecidamente escandaloso Mons. Ricca ao IOR. E nem falemos do caso do badaladíssimo Mons. Camaldo…

Francisco é um soberano. Age como ditador. Como religioso, comporta-se propriamente aos modos de um superior dalguma congregação religiosa: a Igreja virou o seu convento.

Dizia Maquiavel, “divide e reinarás!”. E, de fato, Francisco é bem maquiavélico. Primeiro, jogava o povo contra os padres, em discursos sempre críticos, chegando mesmo a dedicar o Capítulo III de Evangelii Gaudium para denigrir as homilias dos padres. Como se ele fosse um grande orador, com seus três pontinhos… Nesse quesito, aliás, quantas saudades de Ratzinger! Ao invés de indiretas e banalidades, ele brindava a Igreja com uma elevada teologia. Mas, enfim, águas passadas…

Agora, Francisco joga o povo contra os bispos. Está aberta a temporada de caça! Basta fazer uma denúncia, padres ou leigos, e a guilhotina começa a ser afiada, como uma mãe amorosa.

Esperamos que, agora, os bispos acordem! Durante muito tempo foram complacentes e, brindando a promessa circense de uma eventual sinodalidade, hipnotizados com o discurso colegial bergogliano, deixaram passar monstruosidades como as aberrações doutrinais de Amoris Lætitia. Agora, eles serão as vítimas dessa arbitrariedade e, talvez assim, e somente assim, percebam quanto custa negociar com a verdade do Evangelho para insuflar a vaidade mundana de um homem.

Por detrás da demagogia de Francisco jaz um déspota cujo desejo de poder não supera apenas a obstinação ideológica. Obstinação que visa transformar o catolicismo numa sucursal da ONU, e fazê-lo o homem mais aplaudido do mundo e… pelo mundo!

Tags:
19 maio, 2016

A troca de cartas entre Francisco e o heresiarca Hans Kung.

O teólogo Küng havia escrito a Bergoglio pedindo-lhe uma reflexão: “Ele respondeu-me com uma carta fraterna, apreciando as minhas considerações. Ele não colocou limites à discussão sobre o dogma  sancionado pelo Primeiro Concílio do Vaticano e pelo Papa Pio IX em 18 de julho de 1870”.

Hans Kung

Hans Küng

Por Gian Guido Vecchi, Corriere della Sera | Tradução: FratresInUnum.com –  Hans Küng diz que a carta de Francisco, datada de 20 de Março, foi entregue através da nunciatura em Berlim.  Uma carta “que responde ao meu pedido para uma discussão livre sobre o dogma da infalibilidade” do Papa. “Ele respondeu de um modo muito fraterno, em espanhol, dirigindo-se a mim como Lieber Mitbruder, ou seja, querido irmão, e estas palavras pessoais estão em manuscrito”, disse Küng. O grande teólogo suíço, “pela consideração que tenho ao Papa” não cita frases do pontífice. Mas ele diz que “Francisco não estabelece quaisquer limites para a discussão“, ele “apreciou” suas observações. E com espanto indisfarçável ele aponta como é “importante para mim“, o fato de que ele respondeu pessoalmente, e acima de tudo, “não deixou, por assim dizer, cair no vazio o meu texto.”

Na verdade, o texto, dirigido a um papa, foi imperativo: “Imploro Papa Francisco, que sempre me respondeu de uma forma fraternal: receba essa extensa documentação e consinta em nossa Igreja uma discussão livre, aberta e sem preconceitos sobre todas as questões pendentes e removidas relacionadas com o dogma. Não se trata de um relativismo banal que mina os fundamentos éticos da Igreja e da sociedade. E nem mesmo de um dogmatismo rígido e tolo amarrado a uma interpretação literal. Está em jogo o bem da Igreja e do ecumenismo”.  Küng já tinha tornado esse texto público e traduzido em várias línguas, no dia 9 de Março.  Ao aproximar-se de seus 80 anos de aniversário, “como teólogo e até o final dos meus dias, nutro uma profunda simpatia pelo papa e por sua ação pastoral”. O  pensador suíço levantou novamente “um apelo que muitas outras vezes levantei durante um década de longa discussão”.

Francisco jamais falou do dogma da Infalibilidade

Francisco nunca falou do dogma da infalibilidade, sancionado pelo Primeiro Concílio do Vaticano e pelo Papa Pio IX em 18 de Julho de 1870. Afinal, ninguém Além do Tibre jamais pensou em questionar isso. Bergoglio é o Papa da colegialidade, mas está tão consciente das prerrogativas de Papa, que ele as recordou em um discurso memorável no dia 18 de outubro de 2014, no final do Sínodo, citando o Código de Direito Canônico: o Papa é “quem garante a obediência e conformidade Igreja com a vontade de Deus, o Evangelho de Cristo e a Tradição da Igreja, deixando de lado qualquer vontade pessoal, sendo – por vontade do próprio Cristo – o “pastor e doutor supremo de todos os fiéis” (cânon 749) e ao mesmo tempo goza “do poder ordinário que é supremo, pleno, imediato e universal na Igreja” (cânones 331-334). “

O Concílio Vaticano I

Diferente é dizer que Francisco não colocou nenhum limite à discussão, como relatou Kung. Mesmo porque se trata de um dos dogmas mais mal compreendido, bem como por demais debatido. O Concilio Vaticano I jamais disse, como muitos acreditam, que o Papa é infalível em tudo. O Papa é um ser humano e a primeira coisa que Bergoglio disse no conclave, após a eleição, foi: “Eu sou um pecador”. Após longas discussões, em 1870, foi determinado que o Papa é infalível apenas “quando fala ex cathedra, isto é, quando ele exerce o seu cargo de Supremo Pastor e Doutor de todos os cristãos, e que em virtude de sua autoridade apostólica suprema define uma doutrina relativa à fé e moral”.  São casos muito raros, como quando em 1950 o Papa Pio XII proclamou solenemente o  dogma da Assunção de Maria ao céu. Mas a extensão da infalibilidade permanece motivo de debate entre os teólogos. A posição de Küng é clara: ele quer que esse dogma seja abolido ou que passe por uma revisão radical. Já o fato de que Francisco não pôs um limite para a discussão, segundo o teólogo, já é uma boa notícia: “Eu acho que agora é indispensável usar esta nova liberdade para levar adiante a reflexão sobre as definições dogmáticas que são uma fonte de polêmica dentro da Igreja Católica e no seu relacionamento com outras igrejas cristãs.

Tags:
18 maio, 2016

Dom Bruno Forte citando Francisco: “Faça de um modo que fiquem as premissas, porque as conclusões serei eu a tirá-las”.

Um dos homens fortes no Sínodo cita Francisco: “Se falarmos explicitamente de comunhão para divorciados novamente casados, não sabe que confusão iremos aprontar.  Então não vamos falar assim de modo direto. Faça de um modo que fiquem as premissas, porque as conclusões serei eu a tirá-las”.

Por ZonaLocale.it | Tradução: FratresInUnum.com – “A aplicação misericordiosa daquele vinho velho que, como se sabe, é sempre o melhor“. Assim Monsenhor Bruno Forte, Arcebispo da Diocese de Chieti-Vasto definiu a Exortação Apostólica do Papa Francisco “Amoris Laetitia”, que marcou um passo crucial no que diz respeito à família “entre crise e desejo”, durante um encontro no Teatro Rossetti.

esortazione-forte-2

Dom Bruno Forte, polêmico secretário do Sínodo que causou diversos conflitos com outros padres sinodais por conta de seus “avanços”. Sempre protegido por Francisco.

Uma crise, segundo enfatizou o mesmo arcebispo Forte, caracterizada pela diminuição no número de casamentos e no aumento da coabitação, mas também por um desejo por aquela família que é “berço e escola de humanidade”.

Presente também ao encontro estava Pe. Nicola del Bianco, diretor da Secretaria da Pastoral Familiar da Arquidiocese de Chieti-Vasto e os cônjuges Marie Antoinette e Franco Silvestri, que trouxeram o testemunho de sua própria vida, como família e como colaboradores da Pastoral da família.

Na reflexão de Bruno Forte, as causas da “crise da família” vão da falta de empregos aos problemas de habitação, fenômenos de migração, e até mesmo as dificuldades relacionadas à “miséria material e humana”. Neste contexto, o significado da Exortação Apostólica do Papa Francisco é:”Não julgar, mas chegar a todos com o olhar de misericórdia, mas sem renunciar à verdade de Deus. É fácil dizer “aquela família fracassou”, o mais difícil é ajudá-la pra que não fracasse. Ninguém deve sentir-se excluído da Igreja. “

Uma colocação que, naturalmente, também tem repercussões “práticas” no âmbito das indicações direcionadas aos pastores e à comunidade eclesial. Arcebispo Forte então revelou um detalhe particular dos bastidores do Sínodo: “Se falarmos explicitamente de comunhão para divorciados novamente casados – contou o  Arcebispo Forte referindo-se a um gracejo do Papa Francisco – não sabe que confusão iremos aprontar.  Então não vamos falar assim de modo direto. Faça de um modo que fiquem as premissas, porque as conclusões serei eu a tirá-las”.

“Típico de um jesuíta”, brincou o Arcebispo Forte, atribuindo àquela estratégia uma esperteza que permitiu o amadurecimento necessário para se chegar à “Amoris Laetitia”, a qual,  como fez questão de afirmar Dom Bruno Forte, não é uma nova doutrina, mas “a aplicação misericordiosa ” da mesma doutrina de sempre.

Após a apresentação da Exortação,  veio o testemunho dos cônjuges Silvestri, como “o protótipo da família”: quatro crianças, além de sete adotivos: “Nós criamos essa família com grandes sacrifícios, porque não quisemos delegar a ninguém a criação de nossos filhos, mas é claro que também teve o trabalho que tomava nosso tempo. Foi uma escolha difícil, mas Deus sempre nos ajudou. Não somos melhores que os outros, nós simplesmente levamos em consideração a pessoa mais importante, aquela diante da qual demos o nosso sim: Nosso Senhor. É o fato de termos Nosso Senhor como centro de nossas vidas que nos deu forças pra seguir adiante.Portanto  a “base” sobre a qual construir um alicerce sólido, vai da “prática” do perdão às palavras-chave: “obrigado, desculpe-me, licença,” mencionadas pelo Papa Francisco, bem como a importância da oração como momento familiar e do casal”.

No final do testemunho, houve espaço para intervenções e as perguntas da platéia que participou do encontro.

5 maio, 2016

O capítulo VIII da Amoris lætitia não é interpretável à luz da Tradição.

Entrevista de Roberto de Mattei com o padre Claude Barthe

Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 4 de maio de 2016 | Tradução: FratresInUnum.comO padre Claude Barthe é teólogo e autor de obras como A missa, uma floresta de símbolos, Os literatos e o catolicismo, Pensar o ecumenismo de outro modo. Tendo sido um dos primeiros na França, no blog do semanário “L’Homme nouveau” em 8 de abril, a exprimir suas reservas em relação à recém-publicada Amoris lætitia, aproveitamos uma viagem àquele  país para lhe fazer algumas perguntas.

don-claude-barthe-371x278

Padre Claude Barthe

Roberto de Mattei: Reverendo padre, é com especial interesse que desejo entrevistá-lo, porque em sua tomada de posição em relação à Amoris laetitia o senhor não tentou interpretar a exortação apostólica a partir de uma chave de leitura tradicional – como o fizeram alguns num primeiro movimento. E eu compartilho sua leitura.

Padre Claude Barthe: Honestamente, não vejo como se poderia interpretar o capítulo VIII da Exortação no sentido da doutrina tradicional. Isto seria fazer violência ao texto e não respeitar a intenção dos redatores, que desejam claramente introduzir um elemento novo: “já não é possível dizer que…”.

RdM: Entretanto, o que diz a Exortação não é assim tão novo.

CB: Não é novidade do lado da contestação teológica, o senhor tem razão. Depois do Concílio, sob Paulo VI e João Paulo II, o grande trabalho dos teólogos contestatários foi principalmente o de atacar a Humanæ vitæ com livros, “declarações” de teólogos, congressos. Ao mesmo tempo, a comunhão aos divorciados “recasados” (e também aos parceiros homossexuais e aos concubinos) desempenhou um papel de reivindicação a meu ver simbólico. Com efeito, já há muito tempo, a prática de numerosíssimos sacerdotes, na França, na Alemanha, na Suíça e em muitos outros lugares, é de admitir sem problema os divorciados “recasados” à comunhão e de lhes dar a absolvição quando eles a pedem. O mais célebre apoio a essa reivindicação foi dado por uma carta dos três senhores bispos alemães das dioceses do Reno superior – Saier, Lehmann e Kasper – de 1º de julho de 1993, intitulada: “Divorciados-recasados, o respeito à decisão tomada em consciência”.  Ela continha, aliás, bem exatamente as disposições da atual exortação: nenhuma admissão teórica e geral à comunhão, mas o exercício de um discernimento com um sacerdote, a fim de saber se os novos parceiros “julgam-se autorizados pelas suas consciências a se aproximarem da Mesa do Senhor”. Na França, alguns bispos (como os de Cambrai e Nancy) publicaram atas conclusivas de sínodos diocesanos no mesmo sentido.  E o cardeal Martini, arcebispo de Milão, em um discurso que era um verdadeiro programa de pontificado, pronunciado em 7 de outubro de 1999, durante uma das assembleias gerais do Sínodo para a Europa,  havia também invocado mudanças da disciplina sacramental.

De fato, na França, na Bélgica, no Canadá, nos Estados Unidos, as coisas vão ainda mais longe: um número relativamente grande de sacerdotes celebra uma pequena cerimônia por ocasião da segunda união sem que os bispos o impeçam. Alguns inclusive encorajam positivamente essa prática, como o havia feito Dom Armand le Bourgeois, bispo emérito de Autun, no livro [quando o escreveu já havia renunciado] Chrétiens divorcés remariés (Cristãos divorciados recasados,  Desclée de Brouwer, 1990). Ordos diocesanos, como o da diocese de Auch, “enquadram” essa cerimônia, que deve ser discreta, sem o toque de sino, sem bênção dos anéis…

RdM: O senhor é da opinião de que o cardeal Kasper exerceu um papel-chave?

CB: No início, sim. Apresentado pelo Papa Francisco, pouco depois de sua eleição, como “um grande teólogo”, ele preparou o terreno mediante a exposição que fez no Consistório de 20 de fevereiro de 2014, a qual causou um enorme barulho.  Mas, em seguida, a investida foi conduzida com um grande savoir-faire em três etapas. As duas assembleias sinodais, em outubro de 2014 e outubro de 2015, cujos relatórios finais integraram a “mensagem” kasperiana. E, entre as duas, a publicação de um texto legislativo, Mitis Iudex Dominus Jesus, de 8 de setembro de 2015, cujo arquiteto foi Dom Pinto, decano da Rota, simplificando o processo de declaração de nulidade matrimonial, especialmente graças ao processo expeditivo diante do bispo,  quando os dois  esposos estão de acordo para pedir a nulidade. Certos canonistas chegaram a falar, neste caso, de anulação por mútuo consentimento.

Na verdade uma espécie de núcleo dirigente, que agiu como “cúpula” do Sínodo, constituiu-se em torno do muito influente cardeal Lorenzo Baldisseri, seu Secretário-geral. Participavam desse núcleo Dom Bruno Forte, arcebispo de Chieti, Secretário especial, (isto é, número dois do Sínodo); Dom Fabio Fabene, da Congregação dos Bispos, Subsecretário; o Cardeal Ravasi, Presidente do Conselho da Cultura, encarregado da redação da Mensagem final do Sínodo às famílias, assistido notadamente por Dom Victor Manuel Fernández, reitor da Universidade Católica da Argentina; o jesuíta Antonio Spadaro, diretor da “Civiltà Cattolica”, além de outras pessoas de influência, todas próximas do Papa, como o bispo de Albano, Dom Marcello Semeraro, e o Arcebispo Paglia, Presidente do Conselho para a Família. A eles se uniu o cardeal Schönborn, arcebispo de Viena, que foi supervisor do Catecismo da Igreja Católica e exerceu o papel de avalista da ortodoxia do texto, que o cardeal Müller se recusava a assumir.  Toda esta equipe forneceu um trabalho considerável para chegar ao fim almejado…

RdM: Para terminar elaborando, depois da segunda Assembleia, um texto de mais de 250 páginas…

CB: E mesmo antes… O texto da exortação pós-sinodal já estava definido em suas grandes linhas… em setembro de 2015, antes mesmo da abertura da segunda  assembleia do Sínodo sobre a família.

RdM: O senhor disse que foi um trabalho considerável para chegar ao fim almejado. Qual exatamente?

CB: É bem possível que, no espírito do Papa Francisco, inicialmente não se tenha tratado senão de conceder um salvo-conduto “pastoral” e “misericordioso”. Mas como a teologia é uma ciência rigorosa, tornou-se imperativo enunciar princípios que justificassem a decisão em consciência, adotada por pessoas que vivem em adultério público, de se aproximarem dos sacramentos. Já desde o início, numerosas passagens da Exortação preparam esta explanação doutrinária, que se encontra no capítulo VIII, o qual versa sobre diversas “situações de fragilidade ou imperfeição”, e especialmente daquela dos divorciados engajados numa nova união “consolidada no tempo, com novos filhos, com fidelidade comprovada, dedicação generosa, compromisso cristão, consciência da irregularidade da sua situação e grande dificuldade para voltar atrás sem sentir, em consciência, que se cairia em novas culpas” (nº 298). Nesta situação “imperfeita” em relação ao “ideal pleno do matrimônio” (nº 307), a Exortação coloca regras para um “discernimento especial” (nº 301). Este é normalmente realizado com a ajuda de um sacerdote “no foro interno” (pelos dois parceiros da união?), que permitirá aos interessados estabelecer um discernimento de consciência correto (nº 300).

Esse discernimento (do padre? dos parceiros esclarecidos pelo padre?), devido a condicionamentos diversos, poderá concluir por uma imputabilidade atenuada ou nula, tornando possível o acesso aos sacramentos (nº 305). Um parêntese: não está dito se esse discernimento se impõe a outros sacerdotes, os quais também ficariam obrigados a dar os sacramentos aos interessados.  De todos os modos, importa notar que o texto não focaliza apenas o acesso aos sacramentos, que é tratado um pouco embaraçadamente em pé de página (nota 351). Em contrapartida, ele estabelece claramente um princípio teológico, resumido no nº 301, que merece ser citado por extenso: “Já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante. Os limites não dependem simplesmente dum eventual desconhecimento da norma. Uma pessoa, mesmo conhecendo bem a norma, pode ter grande dificuldade em compreender «os valores inerentes à norma» ou pode encontrar-se em condições concretas que não lhe permitem agir de maneira diferente e tomar outras decisões sem uma nova culpa.”

O que pode ser destrinchado da seguinte maneira: 1º) devido a circunstâncias concretas, pessoas em estado de adultério público “ativo”, embora conhecendo a norma moral que o proíbe, se encontram diante de uma situação tal que, se saíssem dela, cometeriam uma falta (sobretudo em relação aos filhos nascidos dessa união); 2º) de sorte que essas pessoas, que vivem em adultério público “ativo”, não cometem pecado grave permanecendo nesse estado.

Na realidade, as consequências negativas que poderiam resultar da cessação desse estado de adultério (o sofrimento dos filhos nascidos da união ilegítima pela separação de seus pais), não constituem novos pecados (“uma nova culpa”), mas efeitos indiretos de um ato perfeitamente virtuoso, a saber, a cessação de um estado de pecado. Bem entendido, a justiça deve ser respeitada e especialmente será preciso assegurar a educação dos filhos da segunda união, mas fora do estado de pecado.

Há, pois, uma oposição frontal com a doutrina anterior lembrada no nº 84 da Familiaris consortio, de João Paulo II, a qual precisava que se graves razões obrigassem os “recasados” a viverem sob o mesmo teto, então deveriam viver como irmão e irmã. A nova asserção doutrinária resume-se assim: em certas circunstâncias, o adultério não é pecado.

RdM: O senhor dizia que o instinto da fé está ausente ali?

CB: Isto não está de acordo com a moral natural e cristã: as pessoas que conhecem uma normal moral que obriga sub gravi (o mandamento divino proíbe a fornicação e o adultério) não podem ser escusadas de pecado e, em consequência, não podem ser consideradas em estado de graça. São Tomás, numa questão da Suma Teológica bem conhecida de todos os moralistas, a questão 19 da Iª IIæ, explica que é a bondade de um objeto proposto pela razão que torna bom o ato da vontade, e não as  circunstâncias do ato (artigo 2); e que, se é verdade que a razão humana pode enganar-se e considerar bom um ato mau (artigo 5), alguns erros não são jamais escusáveis,  sobretudo o de ignorar que não é lícito aproximar-se da mulher de seu próximo, porque isso está diretamente ensinado pela Lei de Deus (artigo 6). Em outra passagem igualmente conhecida dos moralistas, o Quodlibet IX, questão 7, artigo 2,  São Tomás explica que as circunstâncias podem mudar a natureza de um ato, mas não seu valor intrínseco. Por exemplo, golpear ou matar um agressor é um ato de justiça ou de legítima defesa: pela circunstância de tratar-se de uma agressão, o ato muda de natureza e a resposta não é mais uma violência injusta, mas um ato virtuoso. Em contrapartida, diz o Doutor comum, certas ações “têm uma deformidade que está ligada inseparavelmente a elas, como a fornicação, o adultério e as demais coisas desse gênero: elas não podem de nenhum modo tornar-se boas”.

Um menino do catecismo compreenderia essas coisas, dizia Pio XII num discurso de 18 de abril de 1952. Ele condenava ali a Situtionsethik, a “moral de situação”, que não se baseia nas leis morais universais como, por exemplo, os Dez Mandamentos, mas “nas condições ou circunstâncias reais e concretas nas quais se deve agir, e segundo as quais a consciência individual deve julgar e escolher”. Ele lembrava que um fim bom jamais justifica meios maus (Romanos 3, 8), e que existem situações nas quais o homem, e especialmente o cristão, deve sacrificar tudo, até mesmo sua vida, para salvar sua alma. No mesmo sentido, a encíclica Veritatis Splendor, de João Paulo II, reafirmando que as circunstâncias ou as intenções jamais poderão transformar um ato cujo objeto é intrinsecamente desonesto num ato subjetivamente honesto, citava Santo Agostinho (Contra mendacium): a fornicação, as blasfêmias, etc., mesmo praticadas por boas razões, são sempre pecados.

RdM: O que fazer então?

CB: Não se pode contradizer as palavras de Cristo: “Quem repudia sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudia o marido e se casa com outro, comete adultério.” (Mc 10, 11-12). O Prof. Robert Spaemann, filósofo alemão amigo de Bento XVI, observa que toda pessoa capaz de refletir pode constatar que se está em presença de uma ruptura. Eu não penso que seja possível contentar-se em propor uma interpretação do capítulo VIII da Exortação a qual concluísse que nada mudou. Aliás, é preciso levar a sério as palavras do Papa, que no avião que o trouxe de volta de Lesbos avalizou a apresentação do texto feita pelo cardeal Schönborn.

Em si mesma, a asserção teológica exposta na exortação é clara. O dever da verdade obriga a dizer que ela não é admissível. Nem tampouco as proposições anexas, como aquela que afirma que a união livre ou a união de divorciados recasados realizam o ideal do casamento “de forma parcial e analógica” (nº 292).

Então é preciso esperar, no sentido forte da esperança teológica, que numerosos pastores, bispos e cardeais falem claramente, para a salvação das almas.

Pode-se em contrapartida desejar, pedir, apelar por uma interpretação autêntica – no sentido de interpretação do depósito da Revelação, inclusive na recordação da lei natural ligada a ela – pelo magistério infalível do Papa, ou do Papa e dos bispos unidos a ele, magistério que discerne, afirmando em nome da fé o que é verdade e rejeitando o que não o é.

Parece-me que hoje se entra, 50 anos após o Vaticano II, numa nova fase do pós-Concílio. Naquela época, viu-se ceder – por certas passagens sobre o ecumenismo e a liberdade religiosa – um dique que se acreditava extremamente firme, do ensinamento eclesiológico romano, magisterial e teológico. Edificou-se então outro dique para resistir à maré da modernidade, aquele da moral natural e cristã, com a Humanæ vitæ de Paulo VI e todos os documentos de João Paulo II sobre esses temas. Tudo aquilo foi chamado de “restauração”, segundo a expressão do Relatório sobre a fé do cardeal Joseph Ratzinger, edificou-se largamente sobre essas bases colocadas para a defesa do casamento e da família. Atualmente tudo acontece como se esse segundo dique estivesse a ponto de ceder.

RdM: Alguns poderão acusá-lo de ser excessivamente pessimista…

CB: Pelo contrário. Vivemos, creio eu, um momento decisivo da história do pós-Concílio. As consequências de longo prazo do que acontece atualmente são difíceis de prever, mas serão consideráveis.  E estou persuadido de que no fim elas serão positivas. Em primeiro lugar, evidentemente, estou certo disso pela fé, porque a Igreja tem palavras de vida eterna.  Mas também, muito concretamente, porque a necessidade de um retorno ao magistério – ao magistério enquanto tal – impor-se-á cada vez mais nas perspectivas que deverão necessariamente ser elaboradas para o porvir.

26 abril, 2016

Padres casados. O eixo Alemanha-Brasil.

Publicamos a seguir nossa tradução de matéria de janeiro deste ano, do sempre bem informado vaticanista Andrea Tornielli, no momento em que FratresInUnum.com recebe confirmação segura de que Francisco pretende mesmo tratar do tema do celibato sacerdotal no próximo Sínodo dos Bispos.

Estamos em condições de afirmar que o assunto foi pauta de reunião privativa dos bispos na Assembléia da CNBB de 2015, sendo capitaneado por Dom Cláudio Hummes. Então, o arcebispo emérito pediu que os bispos do Brasil fizessem uma “proposta concreta” a Francisco sobre o tema. A recém-eleita presidência da CNBB não demonstrou nenhum empenho especial pela causa, por conta divisão do episcopado brasileiro a respeito. 

* * *

Padres casados. O eixo Alemanha-Brasil.

Por Sandro Magister, 12 de janeiro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: No relato de um teólogo alemão e de um bispo brasileiro, o projeto de Francisco visando permitir exceções locais para a norma do celibato clerical. A começar pela  Amazônia.

jpg_1351207Uma troca de cartas, uma entrevista e uma inovação que já se tornou lei vem confirmar a vontade do Papa Francisco de estender na Igreja Católica a presença de um clero casado, como já foi mencionado no seguinte artigo do site http://www.chiesa:

> Il prossimo sinodo è già in cantiere. Sui preti sposati (9.12.2015)

A troca de cartas ocorreu por iniciativa de um teólogo alemão proeminente, Wunibald Müller, de 65 anos que, em dezembro de 2013, escreveu uma carta aberta ao papa, amplamente divulgada pelo site oficial da Conferência Episcopal da Alemanha sob o título “Papa Francisco, abra a porta”,  pedindo-lhe que elimine a obrigatoriedade do celibato para os padres.

Müller não é um qualquer. Ele é psicólogo e escritor prolífico. Fundou e dirige a “Recollectio-Haus” junto à abadia beneditina de Münsterschwarzach, na diocese de Würzburg, a qual se encarrega de cuidar de sacerdotes e religiosos em crise existencial,  e que é financiada por outras sete dioceses (Augsburg, Freiburg, Limburg, Mainz, Mónaco -Frisinga, Paderborn, Rottenburg-Stuttgart). Além disso, a  Recollectio-Haus conta com a consultoria do conselheiro espiritual beneditino, Anselm Grün, muito lido não só na Alemanha, mas no mundo inteiro.

A orientação de Müller está bem representada pelos títulos de suas teses de mestrado e doutorado: “O sacerdote como guia espiritual de pessoas homossexuais” e “A homossexualidade, um desafio para a teologia e o cuidado das almas”.

Não tendo recebido qualquer resposta à sua primeira carta, em abril de 2014, Müller voltou à carga com uma segunda carta a Jorge Mario Bergoglio. E quase dois meses depois o papa finalmente respondeu.

Em 25 de novembro, a “Katholische Nachrichten-Agentur”, a agência de notícias dos bispos alemães, deu a notícia da correspondência e dos sinais de “abertura” vindos do papa. Em 4 de janeiro, o “Süddeutsche Zeitung” entrevistou Müller pedindo informações mais detalhadas:

P. – Você escreveu uma carta ao Papa Francisco?

R. – Eu pedi um relaxamento do celibato. Deve haver tanto padres casados como padres celibatários, tanto os homossexuais como heterossexuais.

P. – E a resposta?

R. – Francisco agradeceu-me pelas minhas reflexões, o que me deixa muito feliz. Ele me disse que as minhas propostas não podem ser implementadas para a Igreja universal, mas penso que não exclui soluções a nível regional. Ao bispo brasileiro Erwin Kräutler, Francisco já pediu para que ele investigue se em sua diocese existem homens casados de experiência comprovada, que possam ser ordenados sacerdotes. O papa procura espaços por onde começar a mudar algo que depois poderá, então, desenvolver a sua própria dinâmica.

Erwin Kräutler (foto), bispo austríaco que renunciou à imensa Prelazia amazônica do Xingu por motivos de idade, mas ainda muito ativo como secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia, é precisamente o bispo do Brasil que alguns dias antes do Natal teve com o Papa Francisco um enésimo colóquio, que diz respeito precisamente à possível implementação de um clero casado nos territórios dramaticamente desprovidos de um clero celibatário.

A conversa entre ele e o papa saiu como notícia na Rádio Vaticano, no dia 22 de Dezembro:

P. – O que o papa disse sobre as comunidades privadas de um padre para celebrar a Eucaristia?

R. – Ele me disse que temos que fazer propostas concretas. Mesmo propostas imprudentes, ousadas. Ele me disse que temos que ter a coragem de falar. Ele não vai tomar a iniciativa sozinho, mas só depois de ouvir as pessoas. Ele quer que se crie um consenso e que se comece em uma região qualquer com as experiências finalizadas para que as pessoas possam celebrar a Eucaristia. Se lermos a exortação de João Paulo II “Dies Domini”,  ela diz claramente que não existe uma comunidade cristã se não se reúne em torno do altar. Pela vontade de Deus, então, temos que abrir o caminho para que isso aconteça. Sobre como será esse caminho, no Brasil já tem uma comissão trabalhando nesse sentido.

P. – Então, o que podemos esperar neste ponto a partir do pontificado de Francisco?

R. – Uma reviravolta. Aliás, já estamos numa reviravolta. Na verdade, já chegamos a um ponto de não retorno. Eu acredito que o próximo papa, ou o que virá depois dele, não poderá mais voltar atrás em relação ao que está fazendo Francisco hoje.

Em uma entrevista precedente, no dia 12 de Julho, 2015, à revista italiana “Credere”, Kräutler já havia confirmado que “o Papa pediu à Comissão da Amazônia uma proposta concreta desde abril passado” e, desde então, “estamos avaliando alguns caminhos a fim de que todas as comunidades tenham a oportunidade de participar da Eucaristia mais de três vezes por ano “.

Entre esses “caminhos” está precisamente a ordenação de homens casados, para compensar o fato – disse Kräutler – de que “para 800 comunidades temos apenas 30 sacerdotes, e a região é de fato muito extensa.”

Deve ser dito, todavia, que a falta de vocações ao sacerdócio no Brasil pode também ser devida ao mau exemplo que uma boa parte do clero daquele país dá, se for verdade o retrato traçado há algum tempo por uma revista Católica influente e insuspeita como “Il Regno”:

“Os fiéis são forçados a se reunir na igreja para celebrar uma espécie de missa sem padre nas cidades onde não faltam sacerdotes. Aos domingos, eles poderiam muito bem se distribuir em diferentes igrejas, mas, ao invés, preferem concelebrar juntos e deixar os fiéis à mercê de fiéis fanáticos e sem noção, isso quando os fanáticos e sem noção não são os próprios celebrantes, que muitas vezes modificam os textos litúrgicos segundo sua conveniência, porque nem sequer são capazes de compreendê-los, ou que convertem o canto do Sanctus em um ritmo dançante, que não mencionam o Papa, o Bispo e nem a memória dos mortos. Padres tão preguiçosos que, normalmente às segundas-feiras, fazem como os barbeiros na Itália, descansam e não celebram a missa nem nas catedrais. Eles também não visitam os doentes, não levam o viático e nem celebram funerais. E nem sempre podem citar em sua justificativa a escassez de sacerdotes “.

Outro fator, que também não é secundário, é o fato de que além da marcha de aproximação à ordenação de “viri probati” na Igreja latina, há também a autorização dada aos padres casados das Igrejas Católicas de rito Oriental para atuar mesmo fora dos seus territórios de origem. Isio é, não só no Oriente Médio e Leste Europeu, como em todos os lugares.

A autorização foi dada pelo Papa Francisco, através da Congregação Vaticana para as Igrejas Orientais, presidida pelo cardeal argentino Leonardo Sandri,  em 14 de junho de 2014. Ele cancelou um século e meio de proibições intransigentes.

De fato, nas Américas e na Europa Ocidental especialmente, a hierarquia Católica Latina sempre sustentou que a presença de padres casados de rito oriental em seus territórios, e que ali chegaram como imigrantes, causavam “Gravissimum scandalum” para os fiéis.

Papa Francisco, ao invés, consentiu tal presença em condições específicas. E citou em seu favor a Constituição Apostólica “Anglicanorum coetibus” de 2009, com a qual Bento XVI admitiu a presença de padres casados ex-anglicanos nas regiões onde ainda valia a proibição de padres casados de rito oriental.

Uma última nota. A ordenação de homens casados ao sacerdócio, “em casos especiais e para as necessidades pastorais”, já foi levada em consideração em um Sínodo, o de 1971, dedicado ao  “Sacerdócio Ministerial e Justiça no Mundo”.

A hipótese foi posta à votação em concorrência com outra, que defendia o celibato para todo o clero latino, sem exceção.

E venceu a segunda,  por 107 votos contra 87.

Desde então, passaram-se 45 anos e, aparentemente, o Papa Francisco acredita que os tempos amadureceram para reconsiderar a questão e abrir uma porta para os clérigos casados, a partir de algumas áreas da América Latina, particularmente aquelas mais afetadas pela escassez de sacerdotes.

Sem drama. Porque isso – diz ele – “é uma questão de disciplina, não de fé.”

25 abril, 2016

Bergoglio contra Jesus: o Papa que se acha melhor do que Nosso Salvador.

Por Antonio Socci, 10 de abril de 2016 | Tradução: FratresInUnum.comE não é que tinha razão o Cardeal Kasper, que há um mês anunciou a “grande revolução”? Com a Exortação Apostólica “Amoris Laetitia” será que Bergoglio derruba o Magistério da Igreja, colocando-se acima das palavras de Cristo e dos Mandamentos de Deus?

A palavra é não, ele diz que não muda a doutrina. Mas, na verdade, hoje deu abertura a algo que até agora a Sagrada Escritura e a Igreja sempre proibiram.

A operação “dupla verdade” está embutida na ambiguidade dos discursos esfumaçados e enganosos. Por quê? Será que é para camuflar a “revolução”, já que não é permitido na Igreja derrubar a lei de Deus?

Sim, mas antes de tudo por uma questão de prudente gradualismo: é a estratégia da rã cozida que está sendo aplicada na Igreja.  Sabemos que se jogarmos uma rã numa panela de água fervente ela irá saltar fora. Mas se, ao invés, colocamos a rã em uma panela de água morna que aos poucos vai se esquentando, no fim ela acabará cozida sem perceber.

Assim, nos últimos meses, estamos assistindo a uma contínua demolição da doutrina católica. Todos os dias um golpe diferente. No final, a Igreja será empurrada a se dissolver em uma espécie de ONU das religiões com um toque de Greenpeace e CGIL.

De resto – repito – foi o próprio cardeal Kasper que falou sobre “primeiro passo” da “revolução” e Kasper é aquele que, em fevereiro de 2014, no Consistório, foi usado por Bergoglio para lançar a “bomba” da comunhão para divorciados novamente casados. 

FORA DO CAMINHO 

Esta “revolução” ocorre principalmente mediante a supressão da noção de “pecado mortal”. Algo que o próprio Cardeal Muller já havia alertado:

“O maior escândalo que pode dar a Igreja não é o fato de que dentro dela existam pecadores, mas que deixe de chamar pelo nome a diferença entre o bem e o mal e passe a relativá-la, que pare de explicar o que é o pecado ou finja justificá-lo em nome de uma alegada maior proximidade e misericórdia para com o pecador”.

João Paulo II já havia explicado que alertar sobre a gravidade do pecado e do risco de condenação eterna é a maior caridade materna por parte da Igreja.

Essa deveria ser a tarefa fundamental do papa: o mandato de Jesus Cristo a Pedro é “confirmar na fé” os irmãos, e não confundi-los, desestabilizá-los e desviá-los.

Mas na era de Bergoglio não é assim. O mesmo Cardeal Muller, guardião da fé, disse a um jornalista do Die Zeit, há três meses, que não considerava Bergoglio um papa herético, mas acrescentou: “Algo completamente diferente é quando um ensinamento de fé apresentado oficialmente seja talvez expresso de uma maneira lamentável, enganosa ou vaga”.

Considerando o papel desempenhado pelo cardeal, estas palavras parecem-me muito duras. Porque ser “desviante” significa levar para fora do caminho. E será que é admissível um papa desviante?

Além disso, a Exortação demonstra que esta ambiguidade desviante não é um acidente involuntário, mas uma estratégia deliberada e precisa. Tanto é assim, que desde ontem explodiu para todos os lados uma mistura violenta de interpretações da Exortação, devido à nebulosidade do texto e suas gritantes contradições.

DUPLA VERDADE 

A confusão, portanto, é alimentada pelo próprio papa Bergoglio que tem o dever – de acordo com o Evangelho – de falar com absoluta clareza: “que o vosso falar”, Jesus ordena: “seja sim (em caso afirmativo) ou não (se é não). Mais do que isso, vem do Maligno “(Mt 05, 37).

Em vez disso, hoje, o duplo binário e a dupla verdade são evidentes porque o partido bergogliano, para os de dentro de casa, tenta tranquilizar afirmando que nada muda (então por que causar esse terremoto dentro da Igreja nos últimos dois anos e soltar agora esse documento de 260 páginas?), enquanto para os de fora soa a fanfarra anunciando uma reviravolta épica. Não é sem motivo que todos os jornais seculares ultrabergoglianos comemoram com manchetes como: “Sínodo, as aberturas de papa Francisco: Comunhão possível para divorciados novamente casados” (Repubblica.it); “Sacramentos para os recasados. O Papa abre” (Corriere.it).

Por que Bergoglio não nomeia então padre Lombardi para desmentir essa interpretação dos jornais, uma vez que sempre o manda correndo para negar os boatos banais sobre a sua saúde física? Será que não é mais importante defender a fé contra possíveis falsas declarações do que desmentir problemas de saúde?

Um exemplo perfeito dessa ambiguidade proposital foi a constrangedora conferência de imprensa para apresentar a exortação, conduzida pelo Cardeal Schonborn, que ficou pisando em ovos pelo menos por duas horas.

É a dupla verdade que domina hoje no Vaticano.

DESPREZÍVEL

Aqui está um exemplo impressionante no texto da Exortação. Para ser capaz de afirmar – em palavras – que não muda nada na doutrina, Bergoglio deveria recordar de alguma forma em que condição até agora a Igreja permitiu aos recasados de se aproximarem da comunhão, ou seja, sob a condição de que eles vivam “como irmão e irmã.”

Essa foi a passagem decisiva da “Familiaris Consortio” de João Paulo II que deveria  ser central na Exortação de Bergoglio, se ela estivesse em continuidade com o Magistério de sempre.

Mas esta regra, Bergoglio nem sequer menciona no texto, prefere relegá-la a uma nota de rodapé, no No. 329, e logo depois acaba por demoli-la de vez, ao dizer que sem uma certa “intimidade” acabaria comprometida  a “fidelidade”.

O que demonstra que para Bergoglio não há mais diferença entre famílias e casais irregulares. Aliás, na verdade, não existem mais situações “irregulares” e “não se pode dizer”  que se trata em si mesmo de “pecado mortal”. Este é o ponto decisivo.

De fato, ainda que não se diga explicitamente que esses casais podem ser admitidos à comunhão sacramental, dá a entender que esta pode ser concedida “caso a caso”. 

LIQUIDAÇÃO DA IGREJA

Comprovadamente, a exortação contradiz a letra e o espírito do decreto sobre a justificação do Concílio de Trento, a Constituição dogmática Lumen Gentium (Vaticano II) e a encíclica sobre moral de João Paulo II, Veritatis Splendor.

Na verdade, ela não coloca como um bem absoluto a ser preservado o fato de estar na graça de Deus e, portanto, a salvação das almas (lei suprema da Igreja), mas sim considerações sociais, sociológicas e sentimentais, iludindo e enganando seriamente os fiéis sobre a sua situação perante Deus, colocando em grave perigo a salvação de suas almas.

Bergoglio evita falar da “lei moral” que a Igreja compilou por séculos em dogmas e regras canônicas ou, quando o faz, apresenta-os com desprezo como algo “abstrato” que não pode ser aplicado a situações “concretas”.

Ele chega ao ponto de desafiar o próprio Jesus em seu confronto com os fariseus sobre a questão do divórcio (Mt 19, 3-12). Com efeito, Bergoglio sustenta que não se deve apresentar “um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, quase artificialmente construído, muito longe da situação real e das reais possibilidades da família como ela é” (36).

Seria uma “idealização excessiva”. Pior ainda: “não se deve jogar sobre duas pessoas limitadas o enorme fardo de ter que reproduzir de modo perfeito a união que existe entre Cristo e sua Igreja” (122).

Em compensação, Bergoglio institui novos pecados graves: o pecado  dos chamados “rigoristas”, culpados de recordar a lei de Deus. Mais especialmente, aqueles que não compartilham suas visões políticas sobre questões sociais.

No n. 186,  Bergoglio, finalmente, recorda a passagem de São Paulo, que impõe receber “dignamente o Corpo de Cristo”, caso contrário se “come e bebe a própria condenação”. Mas, para explicar o que significa “de modo digno” não diz “na graça de Deus” (como a Igreja sempre ensinou).

Não adverte casais em um estado de “pecado mortal”, mas sim aquelas “famílias que se fecham em seu próprio comodismo… que permanecem indiferentes ao sofrimento das famílias pobres e mais necessitadas”.

Os pecados morais são assim desclassificados, enquanto em contrapartida, Bergoglio institui os pecados sociais (ou socialistas). Portanto, para o bom entendedor, deveriam se abster de receber a Eucaristia todos aqueles que não compartilham de seus pontos de vista sobre a imigração.

Antonio Socci

Libero, 10 de abril de 2016