Archive for ‘O Papa’

16 março, 2017

O Papa Francisco quatro anos depois.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza romana, 15-3-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO quarto aniversário da eleição do Papa Francisco vê a Igreja Católica dilacerada por profundas divisões. “É uma página inédita na história da Igreja – diz-me em tom preocupado um alto prelado vaticano – e ninguém pode dizer qual será o desfecho desta crise sem precedentes”.

papa-francesco-468x278A mídia, que desde o início havia expressado apoio maciço ao Papa Bergoglio, começa a manifestar uma certa perplexidade. “Nunca se viu tanta oposição ao Papa, nem mesmo no tempo de Paulo VI”, admite o historiador Andrea Riccardi, para o qual, no entanto, “a liderança papal é forte” (Corriere della Sera, 13-3-2017). Demasiado forte para muitos que acusam o Papa de autoritarismo e veem a confirmação do clima de medo reinante no Vaticano nas denúncias anônimas expressas em cartazes, epigramas e vídeos exibidos na web. Sarcasmo e anonimato são as características da dissidência sob regimes totalitários, onde ninguém se atreve a sair a descoberto por medo de represálias do poder.

E cresce hoje na Igreja a resistência ao Papa Bergoglio. O site LifeSiteNews publicou uma lista de bispos e cardeais que expressaram publicamente o seu apoio ou a sua oposição às “dubia” apresentadas pelos quatro cardeais ao Papa, em 16 de setembro de 2016. Não são poucos, e a eles deve ser adicionada a voz de quem, como o cardeal Joseph Zen, critica o papado bergogliano por sua política a favor do governo comunista chinês, apelidando-a de “diálogo com Herodes”.

Enquanto os católicos fiéis aos ensinamentos perenes da Igreja denunciam a novidade de um pontificado que desvirtua de facto a moral tradicional, os inovadores estão insatisfeitos com uma “abertura” que ocorre tão-só de maneira implícita, sem materializar-se em gestos de verdadeira ruptura com o passado. O correspondente de Der Spiegel, Walter Mayr, em 23 de dezembro último, citou algumas palavras que o Papa teria confiado a um grupo restrito de colaboradores: “Não é impossível que eu passe para a história como aquele que dividiu a Igreja Católica”.

A sensação é a de estar na véspera de um confronto doutrinário interno na Igreja, que será tanto mais violento quanto mais se procurará evitá-lo ou adiá-lo, sob o pretexto de não rachar a unidade eclesial há tempo desconjuntada. Mas há uma segunda guerra iminente, desta vez não metafórica. O quarto aniversário do pontificado coincidiu com as pesadas ameaças do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan contra a Holanda, culpando-a de não oferecer suas praças aos propagandistas do sultão de Ankara. O próprio Erdogan, em novembro passado, ameaçou inundar a Europa com milhões de migrantes se Bruxelas interromper as negociações para uma rápida entrada da Turquia na União Europeia. Mas, para o Papa Francisco, essas massas migratórias são uma oportunidade e um desafio.

Proteger os imigrantes é um “imperativo moral”, reiterou nos últimos dias o Papa, que após estabelecer um Dicastério pontifício para o Desenvolvimento Humano Integral, reservou para si a responsabilidade direta pelas questões da imigração. Um brilhante escritor francês, Laurent Dandrieu, publicou um ensaio intitulado Église et immigration. Le grand malaise [Igreja e imigração. O grande mal-estar] (Presses de la Renaissance, Paris 2016), no qual denuncia a atitude política do Papa Bergoglio, dando a um capítulo de seu livro o título: De Lepanto a Lesbos, a Igreja na idolatria do acolhimento? Enquanto a Europa é submersa por uma onda migratória sem precedentes, o Papa Francisco fez do “direito de emigrar” e do “dever de acolher” os pilares da sua política, desconsiderando o direito das nações europeias de defender a sua identidade religiosa e cultural. Eis a “conversão pastoral” que ele exige da Igreja: a renúncia às raízes cristãs da sociedade, sobre as quais João Paulo II e Bento XVI haviam insistido tanto, para dissolver a identidade cristã em um turvo caldeirão multiétnico e multirreligioso.

O teólogo predileto do Papa, Dom Víctor Fernández, Reitor da Pontifícia Universidade Católica Argentina, explica que a “conversão pastoral” deve ser entendida como uma transformação “que conduza toda a Igreja a ‘uma saída de si’, renunciando a centrar-se em si mesma”, ou seja, a uma renúncia da Igreja à própria identidade e à própria tradição, para assumir as múltiplas identidades propostas pelas periferias do mundo.

Mas a invasão migratória produz necessariamente uma reação da opinião pública em defesa de tudo o que hoje está ameaçado: não só a identidade cultural, mas os interesses econômicos, a qualidade de vida, a segurança das famílias e da sociedade. Em face de uma reação que pode manifestar-se de modo às vezes exasperado, a Igreja Católica deveria desempenhar um papel moderador, alertando para os erros opostos, como fez Pio XI em março 1937 com as duas encíclicas Divini Redemptoris e Mit brennender Sorge – das quais transcorre o octogésimo aniversário –, condenando, respectivamente, o comunismo e o nacional-socialismo. Hoje como ontem, com efeito, delineia-se uma falsa alternativa.

De um lado, os seguidores de uma religião forte, antitética ao catolicismo, como o Islã. De outro, os defensores de uma irreligião igualmente forte, o relativismo. Os relativistas procuram assumir a direção dos movimentos identitários, para lhes conferir uma coloração anticristã. A política bergogliana dá pretexto a essas posições xenófobas e neopagãs, permitindo aos relativistas de acusarem a Igreja de conluio com o Islã.

O Papa diz que rejeitar os imigrantes é um ato de guerra. Mas é seu apelo ao acolhimento indiscriminado que alimenta a guerra.

10 março, 2017

Dom Negri fala: “Bento XVI sofreu uma pressão enorme. Responsabilidades graves, tanto dentro como fora do Vaticano, pela renúncia”.

“Eu estou me aproximando do meu próprio ‘fim do mundo’ e a primeira pergunta que farei a São Pedro será exatamente sobre esta questão”.

“Bento XVI sofreu uma pressão enorme”, explica o bispo que iniciou o seu ministério episcopal na Diocese de San Marino e Montefeltro e está terminando em Ferrara. Com ele, “eu me sentia em minha casa.” Essa Igreja atual é marcada por “um monte de confusão em toda estrutura eclesiástica” e os antipapistas de outrora tornaram-se superpapistas em proveito próprio. Mas Negri também fala sobre família, do risco que corre a democracia na Itália por causa da criminalização de opiniões não “politicamente corretas” do Movimento Comunhão e Libertação, e muito mais.

Por Franco Fregni, Rimini 2.0 | Tradução: FratresInUnum.com: O encontro com Monsenhor Luigi Negri ocorreu na sede da Arquidiocese de Ferrara e Comacchio, no dia em que se comemoram quatro anos desde a sua nomeação como arcebispo. “Quatro anos maravilhosos e desgastantes”, explica Dom Negri que depois de ter atingido a idade de 75 anos, no próximo dia 03 de junho, passará o comando da Diocese de Ferrara para Monsenhor Giancarlo Perego.

mons-luigi-negri-468x262

Dom Luigi Negri.

Uma cerimônia de despedida que seria até um exagero definir como simples: um copo de água, uma velinha em cima de uma torta salgada e um bate-papo com seus mais próximos colaboradores.

Dom Negri, só uma curiosidade para um completo leigo: mas pode um padre se aposentar? Se é uma missão e não um trabalho, como é possível dizer a uma pessoa “agora basta”? 

“Não se pode dizer, e, de fato, vou continuar a trabalhar. No máximo, podem me dizer que não tenho mais o comando operativo da arquidiocese de Ferrara e Comacchio, o qual aceitei com humildade e espírito de serviço a pedido de Bento XVI. Mas eu permaneço como arcebispo emérito, não excluído da  responsabilidade de guiar os Católicos, algo que eu certamente farei, embora de outras maneiras. Vou concentrar-me principalmente no lado cultural. Vou tentar levar adiante uma política de sensibilização alinhada com a tradição Católica. Vou tentar implementar plenamente esse compromisso com grande liberdade, confortado por muitos amigos influentes”.

read more »

27 janeiro, 2017

Edward Pentin: Papa Francisco convocou reservadamente para audiência o Grão-mestre da Ordem de Malta e pediu que escrevesse sua renúncia na hora. E que declarasse ter sido influenciado por Burke.

Papa Francisco declara todos os atos recentes de Festing como “nulos e inválidos”.

Declaração feita em uma carta do Cardeal Parolin à Ordem de Malta, enquanto vão surgindo os detalhes sobre o que aconteceu durante o encontro do Papa com o Grão-Mestre.

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 26 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – O Papa Francisco declarou que todas as ações tomadas pelo chefe da Ordem de Malta e seu Conselho de Administração, desde a demissão de Boeselager no mês passado, são “nulas e sem efeito”, incluindo a eleição do substituto de Boeselager.
Escrevendo em nome do Papa aos membros do Conselho de Governo da Ordem, no dia 25 de janeiro, o secretário de Estado do Vaticano Cardeal Pietro Parolin, afirmou que o Santo Padre, “com base em evidências que emergiram a partir de informações que ele reuniu, determinou que todas as ações tomadas pelo Grão-Mestre depois de 6 de dezembro de 2016, são nulas e sem efeito”.
burke

Burke – o alvo.

Ele acrescentou: “O mesmo é verdadeiro para aqueles do Soberano Conselho, como a eleição do Grão-chanceler interinamente.” O Conselho elegeu  Fra ‘John Critien como substituto temporário de Boeselager.

Cardeal Parolin começa sua carta ressaltando que o Grão-comandante, Ludwig Hoffmann von Rumerstein, está agora encarregado da Ordem, acrescentando que “no processo de renovação que é visto como necessário”, o Papa “nomearia seu delegado pessoal com poderes que ele mesmo vai definir no ato de sua nomeação”

O Grão Mestre Fra ‘Matthew Festing apresentou sua renúncia no dia 24 de janeiro, de acordo com uma declaração do Vaticano, de 25 de janeiro. O Vaticano acrescentou ainda no comunicado que no dia seguinte “o Santo Padre aceitou a sua demissão.”

Além disso, o Vaticano disse que o governo da Soberana Ordem passaria a ser administrado pelo “Grão-comandante interino enquanto se aguarda a nomeação do Delegado Pontifício”.

O Papa convocou Fra’Festing ao Vaticano no dia 24 de janeiro, dando-lhe instrução rigorosa para não deixar que ninguém viesse a saber sobre a audiência – um modus operandi que tem sido usado com frequência durante este Pontificado, mas que Register tomou conhecimento. Durante o encontro, Francisco pediu a Fra ‘Festing para que ele se demitisse imediatamente, algo com o qual o Grão-Mestre teve que concordar. O Papa, então, ordenou-lhe para escrever sua carta de demissão ali mesmo no local, de acordo com fontes bem informadas.

O Register também tomou conhecimento de que o Papa disse a Fra ‘Festing que a razão pelo qual estava pedindo sua renúncia foi a convicção do pontífice de que ele tem que fazer uma nova “investigação mais profunda” da Ordem, e que tal  investigação seria “mais facilmente conduzida se o grão-mestre renunciasse.”

Também foi revelado ao Register, que o Papa então fez Fra ‘Festing incluir em sua carta de renúncia, que o Grão-Mestre havia pedido a demissão de Boeselager “sob a influência” do Cardeal Raymond Burke, o patrono da Ordem. No entanto, como patrono, o Cardeal não tem nenhum poder de governo na Ordem, podendo apenas aconselhar o Grão-Mestre, o que significa que a decisão de demitir o Grão-chanceler pertence exclusivamente ao Grão-Mestre.

Perguntado se poderia confirmar esta versão dos acontecimentos envolvendo o encontro de Fra ‘Festing com o Papa, o Vaticano respondeu ao Register no dia 26 de janeiro, que não fornece “nenhum comentário sobre conversas privadas.”

Se o Grão-Mestre foi pressionado a renunciar, alguns dentro da Ordem estão especulando sobre a validade de sua renúncia, já que essa foi exigida imediatamente, sem dar-lhe tempo para sequer considerar o assunto. Eles também estão preocupados com o que se parece prenúncio de um expurgo futuro na Ordem.

Além disso, alguns estão se perguntando que, se todos os atos do Grão-Mestre desde 6 de dezembro são nulos, como o Cardinal Parolin afirmou em sua carta, isso também incluiria o ato de renúncia de Fra ‘Festing ao Papa.

No sábado, o Conselho Soberano reúne-se para votar se a aceitam ou não a renúncia do Grão-Mestre.

Segue abaixo a tradução da carta do Cardeal Parolin:

blogger-image-557655693

“Distintos Membros do Conselho Soberano, 

Gostaria de informar-lhes que S.A.E. Fra ‘Matthew Festing, Grão-Mestre da Ordem, na data de 24 de Janeiro de 2017, entregou sua demissão nas mãos do Santo Padre Francisco, o qual a aceitou.  

Como a Constituição da Ordem prevê no Art. 17 § 1, o Grão-comendador assumirá a responsabilidade de governo interinamente. Nos termos do Art. 143 do Código Maltense, ele providenciará de informar aos Chefes de Estado com os quais a Ordem mantém relações diplomáticas e as diferentes organizações ligadas à Ordem. 

Para ajudar a Ordem no processo de renovação que é visto como necessário, o Santo Padre irá nomear seu delegado pessoal com poderes que ele vai definir no próprio ato de sua nomeação. 

O Grão-comendador, em seu papel de tenente interino, exercerá os poderes previstos no Art. 144 do Estatuto da Ordem até o Delegado Pontifício ser nomeado. 

O Santo Padre, com base em evidências que surgiram a partir de informações que ele reuniu, determinou que todos os atos realizados pelo Grão-Mestre depois de 6 de dezembro de 2016, sejam nulos e inválidos. O mesmo é verdadeiro para aqueles atos do Conselho Soberano, como a eleição ad interim do Grão-chanceler

O Santo Padre, reconhecendo os grandes méritos da Ordem na realização de muitas obras em defesa da fé e no serviço aos pobres e doentes, expressa sua preocupação pastoral para com a Ordem e espera a colaboração de todos neste momento delicado e importante para o futuro. 

O Santo Padre abençoa a todos os membros, voluntários e benfeitores da Ordem e lhes sustenta com suas orações.

Pietro Paraolin

Secretário de Estado

2 janeiro, 2017

Boff: Ajudei o papa a escrever a ‘Laudato si’. Haverá uma grande surpresa. Talvez padres casados ou mulheres diáconos.

Por Marco Tosatti, 27 de dezembro de 2016 | Tradução: André Sampaio – FratresinUnum: Leonardo Boff, o bem conhecido expoente da teologia da libertação, concedeu uma entrevista ao jornal alemão Kölner Stadt-Anzeiger. Boff, que tem 78 anos, falou livremente sobre a Igreja, e revelou alguns detalhes de sua relação com o Pontífice e de possíveis decisões futuras.

boff_-825x510A fonte da qual nós obtivemos o material que lhes oferecemos é um artigo de Maike Hickson para o One Peter Five. Sobre quanto se refere ao tema dos padres casados no Brasil, remetemos vocês a também alguns artigos que publicamos no passado acerca da matéria. É interessante notar como as declarações de Boff vão na mesma linha e direção de quanto escrevemos. Já há dois anos

Sobre a teologia da libertação, Boff diz que “Francisco é um de nós”. Em particular pela atenção aos problemas ecológicos, dos quais Boff se ocupou. O Pontífice leu os livros desse temário de Boff? “Mais que isso. Pediu-me material para a Laudato si’. Dei-lhe o meu conselho e lhe enviei coisas que escrevi… Contudo, o Papa me disse de maneira direta: ‘Boff, não me envie as cartas diretamente’.”

Por que não? “Disse-me: ‘Se o fizer, os subsecretários as interceptarão e eu não as receberei. Em vez disso, envie as coisas ao embaixador argentino junto à Santa Sé, com quem tenho um bom contato, e elas chegarão seguras às minhas mãos.” O embaixador é um velho amigo do Pontífice. ”E depois, um dia antes da publicação da encíclica, o Papa fez chamar-me para agradecer-me pela ajuda.”

No que diz respeito a um encontro pessoal, Boff falou ao Pontífice em relação a Bento XVI, que, quando Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teve um papel importante na sua condenação: “Mas o outro ainda está vivo, afinal de contas!”. “Ele [Francisco] não aceitou isso [não aceitou o receio, a hesitação de Boff].  ‘Il Papa sono io’ [‘O Papa sou eu’], respondeu (em italiano no texto [do jornal alemão], n.d.r.). E fomos convidados a ir.”

À pergunta sobre por que a visita não se realizou ainda, Boff respondeu: “Eu havia recebido um convite e havia já desembarcado em Roma. Mas justamente naquele dia, imediatamente antes do início do [segundo] Sínodo da Família em 2015, 13 cardeais, entre os quais o alemão Gerhard Müller, puseram em pé uma rebelião contra o Papa com uma carta endereçada a ele que foi publicada – que surpresa! – em um jornal. O Papa estava irado e me disse: ‘Boff, não tenho tempo. Devo restabeler a calma antes que o Sínodo comece. Nós nos veremos em um outro momento’”.

Boff depois disse, sobre o futuro: “Esperem e vejam! Ainda recentemente o cardeal Walter Kasper, que é um estreito confidente do Papa, me disse que logo haverá alguma grande surpresa”.

Que tipo de surpresa? “Quem o sabe? Talvez um diaconato para as mulheres, após tudo. Ou a possibilidade de que os padres casados se envolvam no trabalho pastoral. Este é um pedido explícito dos bispos brasileiros ao Papa, especialmente da parte de seu amigo o cardeal Cláudio Hummes. Ouvi que o Papa quer atender ao seu pedido – inicialmente por um período experimental, no Brasil.”

Boff depois falou que uma decisão nesse sentido não mudaria nada para ele: “Pessoalmente, não tenho necessidade disso. Não mudaria nada para mim, porque faço aquilo que sempre fiz: batizo, presido a exéquias, e, se me ocorre de chegar a uma paróquia sem padre, celebro a missa com o povo”.

Leonardo Boff é, desde décadas, uma figura proeminente da teologia da libertação. Para uma biografia completa, remetemos à Wikipedia, da qual extraímos este parágrafo:

“A atividade de Boff continuou depois de 1992 como teólogo da libertação, escritor, docente e conferencista. Ele permanece também envolvido com as comunidades eclesiais de base brasileiras. Em 1993 se tornou professor de ética, filosofia da religião e ecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), da qual é professor emérito desde 2001. Nos anos seguintes se ocupou, de maneira sempre mais profunda, de política, tornando-se um verdadeiro e próprio teórico marxista, e se converteu em um expoente do considerado Movimento Antiglobalização (sempre foi convidado, na qualidade de orador, para as reuniões em Porto Alegre). Boff esteve sempre próximo das posições do Movimento Sem Terra brasileiro. Em 2001 lhe foi conferido o Right Livelihood Award [Prêmio de Subsistência com Equidade, também conhecido como Prêmio Nobel Alternativo]. Ele se tornou um defensor de Lula no momento da eleição deste como presidente do Brasil, mas se distanciou posteriormente, acusando-o de moderantismo. Atualmente (2010) vive no Jardim Araras, uma reserva ecológica em Petrópolis, junto de sua companheira Marcia Maria Monteiro de Miranda (ativista dos direitos humanos e ecologista), e tem seis filhos adotivos.”

28 dezembro, 2016

Francisco segundo Der Spiegel: “Não excluí a hipótese de que eu seja lembrado como o Papa que, na história da Igreja Católica, a dividiu”.

Cardeal Brandmüller, um dos signatários do dubia: “Quem quer que que considere compatíveis o adultério e a recepção dos Sagrados Mistérios é um herege e dirige-se a um cisma certo”.

Por Walter Mayr – Der SpiegelRoma, 23 de Dezembro de 2016 | Tradução: Georges-François Sassine – FratresInUnum.comO Salmo 118 ressoa como um gracejo carregado. “Este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos“, diz solenemente o Cardeal Decano Angelo Sodano, a partir da leitura daquele livro do Antigo Testamento, e olha com expectativa para o Papa. Já este, olha para o espaço.

É a última manhã de sábado na Capela Paulina do Vaticano, pouco depois das oito horas. Meia centena cardeais residentes em Roma, vestidos com seus paramentos e solidéus púrpuras, alinham suas perspectivas para honrarem uma devoção comum com o Papa, pela ocasião de seu 80º aniversário.

Como se sentam os dignatários presentes, os quais contemplam o afresco de Michelangelo sobre a Crucificação de São Pedro, e o poderoso homem situado à esquerda do altar, a distância é quase palpável. “Tenha a certeza de que permanecemos próximos”, reafirma o Cardeal Decano para Francisco. Mas a expressão soa estranhamente vazia.

spiegel

A poucos metros da Capela Paulina, acima da sacristia de São Pedro, resiste, entretanto, um idoso prelado alemão: Walter Brandmüller se desculpou por seu estado de fragilidade e felicitou o Papa por meio de carta. É a segunda carta enviada a Francisco pelo cardeal alemão, de 87 anos de idade.

A primeira carta foi nada menos que aquela assinada por Brandmüller e três colegas cardeais – o alemão Joachim Meisner, o americano Raymond Burke e o italiano Carlo Caffara – exigindo do Papa a resposta sem ambiguidade a cinco “dubia” – dúvidas sobre a exortação apostólica “Amoris Laetitia”. Entende-se, segundo os autores, que somente desta maneira podem ser tratadas e dissipadas a “desorientação grave e grande confusão” causadas pela exortação apostólica entre os fiéis.

A carta dirigida ao Pontífice teve caráter pessoal e foi posta em cópia apenas para a Congregação realmente competente, liderada pelo também alemão Gerhard Ludwig Müller, e mostra onde a ala conservadora católica localiza a fonte de todos os problemas. O Papa Francisco respondeu à admissível, porém surpreendente, carta de seus irmãos na Fé com a máxima pena: ele ignorou a carta e se recusou a dar qualquer resposta.

“TRATA-SE DA QUESTÃO CENTRAL”

Notavelmente, em uma passagem do seu discurso de Natal dirigido à Cúria na última 5ª feira, Francisco demonstrou sua percepção de que ele se vê em via de ser atingido. Ele falou de “maliciosas formas de resistência”, as quais almejam apenas suscitar culpas sobre ele, debaixo da pretensão de luta pela manutenção da Tradição, em conteúdo e forma de expressão.

O Papa está cozinhando [de raiva]“, diz o vaticanista Edward Pentin, o qual conduz suas fontes desde a Casa Santa Marta onde Francisco mora. O centro da disputa é uma nota de rodapé à questão de saber se os divorciados recasados devem ou não ser admitidos à Sagrada Comunhão. Em verdade, porém, diz cardeal Walter Brandmüller desde seu apartamento, perto da Basílica de São Pedro “Neste ponto, falando coloquialmente sobre a questão central: se há uma decisão significativa, o assunto e a decisão tornam-se matéria séria – sabidamente o núcleo do todo, relativo à Doutrina da Fé“.

O Papa e o Cardeal Walter Kasper, que são teologicamente alinhados, tendem a enfraquecer preceitos centrais da fé católica e a deixar questões de interpretação (responsabilidade de bispos e padres) relegadas meramente ao cotidiano local de cada caso. Isso ataca diretamente as bases da Igreja Universal: “Quem quer que que considere compatíveis o adultério e a recepção dos Sagrados Mistérios é um herege e dirige-se a um cisma certo”. As Escrituras, de acordo com o Cardeal Brandmüller, não é uma loja self-service: “De acordo com São Paulo Apóstolo, somos participantes dos Divinos Mistérios, mas não podemos assumir a participação como um direito incondicionalmente à disposição.

“CAOS PURO”

A primeira impressão: alguns teimosos e idosos cardeais entram novamente em disputa contra um papa incansavelmente reformista. Mas, desta vez, parece que há mais em jogo. Francisco encontra-se cada vez mais solitário, desmoralizado pela resistência na Cúria e pela falta de coragem para que mudanças estruturais sejam efetuadas. “Bergoglio, escolhido em 2013, já não é reconhecido por muitos na pessoa de Francisco”, diz um confidente do Papa.

O Ano Santo da Misericórdia tem sido palco de “um tema que cobre tudo, ao mesmo tempo que deixa tudo em aberto”. Este mesmo ano tem observado um número de fiéis muito abaixo das expectativas. Além disso, a reestruturação da Cúria se mostra hesitante na sua realização, “puro caos, segundo relatado de gabinetes individuais”. E a loquacidade ininterrupta do Papa prepara problemas adicionais: que ele impute à mídia e seu público uma “tendência para coprofagia” (a ingestão de excrementos), o que deve aliená-lo de seus adjuntos mais próximos.

No entanto, o pontífice argentino luta pelo seu legado. Às cinco da manhã, a luz dele está acesa em Santa Marta, enquanto nos demais nos apartamentos dos veneráveis prevalece o silêncio e só pode ser ouvido o barulho de gaivotas sobre a praça de São Pedro. Entretanto, tempo é algo que Francisco já não dispõe de muito. Seu prazo de pontificado, de quatro ou cinco anos segundo ele mesmo prescreveu-se, deve expirar em breve.

Os críticos do Papa, dentro e fora dos muros do Vaticano, no entanto, ainda podem ser surpreendidos. No círculo menor, Francisco é mencionado por ter autocrítica, tendo já declarado: “Não excluí a hipótese de que eu seja lembrado como o Papa que, na história da Igreja Católica, a dividiu”.

6 dezembro, 2016

Cardeal Brasileiro ataca críticos de ‘Amoris Laetitia’: Nós somos 200 e eles só são 4.

LifeSiteNews, 29 de novembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Depois que quatro Cardeais expressaram preocupações relativas às ambiguidades em Amoris Laetitia através da publicação do Dubia, o cardeal brasileiro Claudio Hummes os repreendeu dizendo eles estão sozinhos em suas causas.

Lula, católico praticamente para Chalita, comungando por conta própria, sob as bençãos do aposentado Dom Hummes.

Lula comungando por conta própria, sob as bençãos de Dom Hummes.

Apesar do fato de que outros bispos e muitos outros já se juntaram aos quatro compartilhando as mesmas preocupações, o cardeal Hummes procurou minimizar sua parte na controvérsia.

“Nós somos duzentos, enquanto eles são apenas quatro”, vangloriou-se Hummes numa entrevista em espanhol ao “Religião Digital”.

Embora alegando que o cardinalato como um todo apoia o Papa Francisco, Hummes acusa os quatro cardeais de provocar um cisma na Igreja. “A Igreja defende a sua unidade como uma unidade na pluralidade […]. Essa pluralidade é deslegitimada se a unidade é ameaçada por cismas. Estas divisões são o verdadeiro mal, não a pluralidade “.

Apesar da preocupação externada por Hummes, não escapa ao olhar do observador atento que um grande número de cardeais já se uniram várias vezes para defender o Magistério integral e tradicional da igreja. Durante o Sínodo dos Bispos, 13 cardeais assinaram uma carta fraterna dirigida ao Papa abordando a manipulação do Sínodo. Mais recentemente, os cardeais Raymond Burke, Carlo Caffara, Joachim Meisner, e Walter Brandmüller tornaram público seu pedido ao Papa para que ele esclareça o que permanece discutível em Amoris Laetitia.

“A Igreja quer ser aberta a todas as sensibilidades,” Hummes explicou. Mas não há nenhum sinal de abertura para os quatro cardeais da parte de Hummes ou do papa Francisco. Até agora, o papa Francisco não respondeu às dúvidas que foram formuladas em linguagem simples e que devem ser simplesmente respondidas com “sim” ou “não”.

A representação que o Cardeal Hummes faz, segundo a qual a Igreja é um partido democrático no qual a maioria é que dá as cartas – usando o seu exemplo de 4 X 200 – é igualmente defeituosa. O cardeal não se esquece do número de proponentes, mas sim do conteúdo da Dubia. Ao mesmo tempo, não muitos cardeais têm apoiado o Papa Francisco em sua recusa de responder as dúvidas.

“O Papa diz que nós temos que caminhar todos juntos e não excluir ninguém. Não é tão importante o que pensam, o que eles dizem, ou o que fazem… “, Hummes declarou na entrevista. Ele reitera: “Temos que caminhar juntos e encontrar uma forma de fazê-lo sem excluir ninguém.”

“Se alguém quiser excluir-se, então, é problema dele”, acrescentou maldosamente, deixando implícito que os quatro cardeais estão nadando contra a corrente e alguns deles por causa de algum tipo de obstinação pessoal. Na verdade, os quatro já explicaram publicamente que seu interesse reside no esclarecimento de dúvidas para os fiéis. As dúvidas foram originalmente concebidas para serem tratadas de forma privada e os cardeais só resolveram torná-la pública porque o Papa recusou-se a responder ao apelo.

“A uniformidade começa a criar muros e decidir quem está dentro e quem está fora”, explicou Hummes, invocando a imagem popular de um muro, a fim de atacar uma mentalidade conservadora. “O Papa poderia estar muito aborrecido com os motivos que levaram essas quatro pessoas a querer corrigi-lo.”

“Mas ele está totalmente tranquilo. Ele sabe o caminho certo que precisa ser seguido”. Esta declaração parece estar em contradição com relatos do jornalista Edward Pentin segundo o qual o Papa ficou, de fato, furioso com a dubia, “nada feliz”e “fervendo de raiva”.

Cardeal Hummes, ex-chefe da Congregação do Vaticano para o Clero e amigo pessoal do Papa Francisco, teve que esclarecer declarações controversas no passado, entre as quais as de uma entrevista em que disse que ele não poderia dizer se Jesus se oporia ao casamento gay.

Nota do Fratres: não nos esqueçamos das declarações relativizando o celibato sacerdotal, verdadeira obsessão de Hummes, quando acabara de ser nomeado Prefeito da Congregação para o Clero, em 2006. Ao pisar em Roma, foi obrigado a realizar um constrangedor mea culpa público, retificando suas afirmações.
28 novembro, 2016

Nada ambíguo. 

No último dia 10, foi lançado na Itália um novo livro organizado pelo influente jesuíta Antonio Spadaro, coletando principalmente sermões do então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio. Intitulado “Nei tuoi occhi è la mia parola”  [Em teus olhos está minha palavra”, em tradução livre], a edição contém também uma entrevista com o Papa Francisco. Nela, Spadaro pergunta ao bispo de Roma sobre a “Missa em latim”, ao que recebe como resposta:

[A Missa em Latim] É apenas uma exceção. O papa Bento realizou um próprio e generoso gesto para ir ao encontro de certa mentalidade de alguns grupos e pessoas que tinham nostalgia e que estavam distantes.

Questionado a respeito, na última quinta-feira, o cardeal Raymond Leo Burke respondeu:

Não há exceção. Trata-se da missa da Igreja de todos os tempos e, portanto, não pode ser jogada fora e tem igual dignidade. Quanto ao resto, basta ler o motu proprio do Papa Bento XVI. Que não é nada ambíguo.

burke

Com informações de Katholisches.

25 novembro, 2016

As contradições de um jubileu que se encerra

Por Roberto de Mattei, “Il Tempo”, Roma, 22/11/2016 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com

 

Entre as chaves de interpretação do pontificado do Papa Francisco há seguramente o seu amor pela contradição. Esta disposição de ânimo torna-se evidente na Carta Apostólica Misericordia et Misera, assinada na conclusão do Jubileu extraordinário da misericórdia. Nela Bergoglio estabelece que aqueles que frequentam as igrejas atendidas pelos sacerdotes da Fraternidade de São Pio X podem válida e licitamente receber deles a absolvição sacramental. O Papa remedeia, portanto, aquilo que era o principal fator de “irregularidade” da Fraternidade fundada por Dom Lefebvre: a validade das confissões. Seria contraditório imaginar que, uma vez aceitas como válidas e lícitas as confissões, não sejam também consideradas lícitas as Missas celebradas pelos padres da Fraternidade, as quais são, em qualquer caso, certamente válidas. A partir de agora, não se entende qual é a necessidade de um acordo entre Roma e a Fraternidade, visto que a posição desses sacerdotes já está realmente regularizada e que, como se sabe,interessam pouco ao Papa os problemas doutrinários ainda em discussão.

Na mesma Carta Apostólica,o Papa Bergoglio concede doravante “a todos os sacerdotes, em virtude de seu ministério, a faculdade de absolver todas as pessoas que incorreram no pecado de aborto”, a fim de que “nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus”. De fato, os sacerdotes já tinham o poder de perdoar o pecado do aborto na confissão. No entanto, de acordo com a prática multissecular da Igreja, o aborto está entre os pecados graves punidos automaticamente com a excomunhão. “Quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae, lê-se no cânon 1398 Código de Direito Canônico de 1983. Os sacerdotes, portanto, precisavam da permissão de seu bispo para levantar a excomunhão antes de poderem absolver o pecado de aborto. Agora, qualquer sacerdote pode levantar a excomunhão, sem necessidade de recorrer ao seu bispo ou ser delegado por ele. A excomunhão é privada de fato da sua força e o aborto perde a gravidade que o Direito Canônico lhe atribuía.

Em uma entrevista publicada na TV2000em 20 de novembro, o Papa Francisco disse que “o aborto continua um pecado grave”, um “crime horrendo”, porque “põe fim a uma vida inocente”. Pode ele ignorar que sua decisão de afrouxara excomunhão latae sententiae pelo crime de aborto relativiza esse “crime horrendo” e permite aos meios de comunicação de apresentá-lo como um pecado que a Igreja considera hoje menos grave do que no passado e que agora Ela facilmente perdoa?

O Papa afirma em sua Carta Apostólica que “não existe nenhum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai”,mas, como é evidente a partir de suas próprias palavras, a misericórdia é tal porque pressupõe a existência do pecado e, portanto, da justiça ofendida. Por que falar sempre e somente do Deus bom e misericordioso, e nunca do Deus justo, que premia ou castiga segundo os méritos e as culpas do homem? Os Santos, como tem sido observado por muitos autores espirituais, nunca cessaram de exaltar a misericórdia de Deus, inesgotável em dar; e, ao mesmo tempo, de temer a sua justiça, rigorosa em exigir. Seria contraditório um Deus capaz unicamente de amar e recompensar o bem e incapaz de odiar e punir o mal.

Exceto para alguém que acredite na existência da lei divina,mas julgue que ela é abstrata e impraticável, e que a única coisa que realmente conta é a vida concreta do homem, que não pode senão pecar. Nesse caso, o que importa não é a observância da lei, mas a confiança cega no perdão e na misericórdia divina: Pecca fortiter, sed crede fortius. Mas esta é a doutrina de Lutero, não da Igreja Católica.

24 novembro, 2016

Dom Athanasius Schneider em defesa dos Cardeais que escreveram a Francisco.

Uma voz profética de quatro Cardeais da Santa Igreja Romana.

Por Dom Athanasius Schneider | Tradução: FratresInUnum.com

Movidos por uma “profunda preocupação pastoral”, quatro Cardeais da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, Sua Eminência Joachim Meisner, Arcebispo Emérito de Colônia (Alemanha), Sua Eminência Carlo Caffarra, Arcebispo Emérito de Bolonha (Itália), Sua Eminência Raymond Leo Burke, Patrono da Soberana Ordem Militar de Malta, e Sua Eminência Walter Brandmüller, Presidente Emérito do Pontifício Comitê para Ciências Históricas, publicaram, em 14 de novembro de 2016, o texto de cinco questões, chamado dubia (em latim, “dúvidas”), que previamente, em 19 de setembro de 2016, eles enviaram ao Santo Padre e ao Cardeal Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, juntamente com uma carta.

Dom Athanasius em entrevista a Fratres in Unum.

Fevereiro de 2015 – Dom Schneider concede entrevista a Fratres in Unum.

Os Cardeais pedem ao Papa Francisco para esclarecer a “grave desorientação e grande confusão” acerca da interpretação e aplicação prática, particularmente do capítulo VIII, da Exortação Apostólica Amoris Laetitia e suas passagens relacionadas à admissão de divorciados recasados aos sacramentos e ao ensino moral da Igreja.

Em sua declaração intitulada “Criar clareza: alguns nós por resolver em Amoris Laetitia“, os Cardeais afirmam que para “muitos – bispos, párocos, fiéis –, estes parágrafos fazem alusão, ou ensinam explicitamente, uma mudança da disciplina da Igreja a respeito dos divorciados que vivem numa nova união”. Ao dizê-lo, os Cardeais meramente afirmaram fatos reais na vida da Igreja. Esses fatos são demonstrados pelas orientações pastorais a cargo de diversas Dioceses e por declarações públicas de alguns Bispos e Cardeais, que afirmam que, em alguns casos, católicos divorciados recasados podem ser admitidos à Sagrada Comunhão, embora continuem a gozar dos direitos reservados pela Lei Divina a esposos validamente casados.

Ao publicar um apelo por clareza em uma matéria que toca a verdade e a santidade simultaneamente de três sacramentos, Matrimônio, Confissão e Eucaristia, os quatro Cardeais apenas cumpriram seu dever básico enquanto Bispos e Cardeais, que consiste em contribuir ativamente a fim de que a revelação transmitida pelos Apóstolos possa ser sagradamente guardada e fielmente interpretada. Foi, especialmente, o Concílio Vaticano II que recordou todos os membros do colégio dos bispos, enquanto sucessores dos apóstolos, de sua obrigação, “por instituição e preceito de Cristo, à solicitude sobre toda a Igreja, a qual, embora não se exerça por um acto de jurisdição, concorre, contudo, grandemente para o bem da Igreja universal. Todos os Bispos devem, com efeito, promover e defender a unidade da fé e disciplina comum a toda a Igreja” (Lumen gentium, 23; cf. também Christus Dominus, 5-6).

Ao fazer um apelo público o Papa, Bispos e Cardeais deveriam ser movidos por uma genuína afeição colegial pelo Sucessor de Pedro e Vigário de Cristo na terra, na esteira do ensinamento do Concílio Vaticano II (cf. Lumen gentium, 22); ao fazê-lo, devem render “serviço ao ministério primacial” do Papa (cf. Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos, 13).

Toda a Igreja, em nossos dias, deve refletir sobre o fato de que o Espírito Santo não inspirou em vão São Paulo a escrever na carta aos Gálatas sobre o incidente de sua correção pública a Pedro. Deve-se confiar que o Papa Francisco aceitará esse apelo público de quatro Cardeais no espírito do Apóstolo Pedro, quando São Paulo o corrigiu fraternalmente, para o bem de toda a Igreja. Possam as palavras do grande doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino, iluminar e confortar-nos a todos: “Correndo iminente perigo a fé, os súditos devem advertir os prelados, mesmo publicamente. Por isso, São Paulo, súdito de São Pedro, repreendeu-o em público, por causa de perigo iminente de escândalo para a fé. E, assim, diz a Glosa de Santo Agostinho: ‘O próprio Pedro deu aos maiores o exemplo de se porventura desviarem do caminho reto, não se dedignem ser repreendidos mesmo pelos inferiores’” (Suma Teológica, II-II,  q. 33, ad 2).

O Papa Francisco, frequentemente, clama por um franco e destemido diálogo entre todos os membros da Igreja em matérias relacionadas ao bem espiritual das almas. Na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, o Papa fala da “necessidade de continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais. A reflexão dos pastores e teólogos, se for fiel à Igreja, honesta, realista e criativa, ajudar-nos-á a alcançar uma maior clareza” (n. 2). Ademais, o relacionamento em todos os níveis na Igreja deve ser livre de um clima de medo e intimidação, como pediu o Papa Francisco em vários de seus pronunciamentos.

À luz desses pronunciamentos do Papa Francisco e do princípio do diálogo e aceitação da legítima pluralidade de opiniões, promovido pelos documentos do Concílio Vaticano II, as reações incomumente violentas e intolerantes provenientes de alguns Bispos e Cardeais contra o calmo e circunspecto apelo de quatro Cardeais causa enorme perplexidade. Dentre esses reações intolerantes pode-se ler afirmações como: os quatro Cardeais são tolos, ingênuos, cismáticos, heréticos, e mesmo comparáveis aos hereges arianos.

Esses julgamentos claramente sem misericórdia revelam não só intolerância, recusa ao diálogo e ira irracional, mas demonstram também uma capitulação à impossibilidade de dizer a verdade, uma capitulação ao relativismo doutrinal e prático, na fé e na vida. As reações clericais mencionadas contra a voz profética de quatro Cardeais ostentam, em última análise, impotência diante da verdade, que inquieta e importuna a aparentamente pacífica ambiguidade desses críticos do clero.

As reações negativas à declaração pública dos quatro Cardeais assemelha-se à confusão generalizada da crise Ariana no quatro século. É útil citar, na situação de confusão doutrinal de nossos dias, algumas afirmações de Santo Hilário de Poitiers, o “Atanásio do Ocidente”.

“Vós [os bispos da Gália], que ainda permaneceis juntos de mim fiéis a Cristo, não cedais quando ameaçados com a investida da heresia, e agora, ao encontrar essa investida, rompeis toda a sua violência. Sim, irmãos, vós conquistastes, para a abundante alegria daqueles que compartilham vossa fé: e a vossa inalterada constância conquistou a dupla glória de manter uma consciência pura e dar um exemplo de autoridade” (Hil. De Syn., 3).

“Vossa fé invencível mantém a honrosa distinção de cioso valor e, contentada por repudiar a ação astuta, vaga ou hesitante, seguramente obedece em Cristo, preservando a profissão de sua liberdade. Pois, desde que sofremos todos profunda e penosa dor pelas ações dos iníquos contra Deus, apenas dentro de nossas fronteiras pode ser encontrada a comunhão em Cristo, a partir do momento em que a Igreja passou a ser atribulada por perturbações como o exílio dos bispos, a deposição dos padres, a intimidação do povo, a ameaça à fé, e a definição do significado da doutrina de Cristo por força e vontade humana. Vossa resoluta fé não pretende ignorar esses fatos ou professar que se possa tolerá-los, notando que, por um assentimento enganoso, ela se veria diante das grades da consciência” (Hil. De Syn., 4).

“Hei dito o que eu mesmo creio, consciente de que era meu dever como soldado ao serviço da Igreja, segundo o ensinamento do Evangelho, o enviar-lhes por estas cartas a voz do ofício que sustento em Jesus Cristo. Corresponde a vós discutir, prover e atuar, e que possais guardar com corações zelosos a fidelidade inviolável que mantendes, e que continueis sustentando o que sustentais” (Hil de Syn., 92).

As seguintes palavras de São Basílio Magno, dirigidas aos bispos latinos, podem ser aplicadas em certos aspectos à situação daqueles que em nossos dias solicitam clareza doutrinal, incluindo os quatro cardeais: “Um dever que certamente obriga sob severos castigos é o de manter cuidadosamente as tradições de nossos pais na fé. Não estamos sendo atacados por riquezas, glória ou benefícios temporais. Descemos ao campo de batalha para lutar por nossa herança comum, pelo grande tesouro da fé recebido de nossos pais. Aflijam-se conosco todos que amam a seus irmãos, pelo silêncio dos homens da verdadeira religião, pela abertura dos lábios ousados e blasfemos de todos os que pronunciam injustiças contra Deus, e pelos pilares da fé sendo destruídos. Nós, cuja insignificância há permitido que passemos ignorados, e estamos privados de nosso direito de falar livremente” (Ep. 243, 2.4).

Hoje, estes bispos e cardeais que solicitam clareza e que intentam cumprir seu dever guardando santa e fielmente a Revelação Divina transmitida em relação aos sacramentos do Matrimônio e da Eucaristia, já não estão exilados como o estavam os bispos nicenos durante a crise ariana. Ao contrário do tempo da crise ariana, tal como escreveu em 1973 Rudolf Graber, bispo de Ratisbona, hoje o exílio de bispos é substituído por estratégias para silenciá-los e por campanhas de difamação (Cf. Athanasius und die Kirche unserer Zeit, Abensberg 1973, p. 23).

Outro campeão da fé católica durante a crise ariana foi São Gregório Nazianzeno. Ele escreveu a seguinte descrição do comportamento da maioria dos pastores da Igreja daquele tempo. Essas palavras do grande doutor da Igreja deveriam ser uma advertência salutar para os bispos de todos os tempos: “Certamente os pastores agiram como insensatos, porque, salvo um número muito reduzido – que resistiu por sua virtude, mas que foi desprezado por sua insignificância, e que havia de restar como uma semente ou raiz de onde renascesse o novo Israel sob o influxo do Espírito Santo -, todos os outros cederam às circunstâncias, com a única diferença de que uns sucumbiram mais logo e outros mais tarde, uns estiveram na linha de frente dos campeões e chefes da impiedade, e outros se uniram às filas de seus soldados em batalha, vencidos pelo medo, pelo interesse, pela adulação ou, o que é mais inexcusável, por sua própria ignorância” (Orat. 21, 24).

Quando no ano de 357, o papa Libério assinou uma das denominadas fórmulas de Sirmium, na qual descartava deliberadamente a expressão dogmaticamente definida de “homoousios”, e excomungou a Santo Atanásio para ficar em paz e harmonia com os bispos arianos e semi-arianos do leste, alguns fiéis católicos e bispos, especialmente Santo Hilário de Poitiers, escandalizaram-se profundamente. Santo Hilário transmitiu a carta que o papa Libério escreveu aos bispos orientais, anunciando a aceitação da fórmula de Sirmium e a excomunhão de Santo Atanásio. Com grande dor e consternação, Santo Hilário agregou à carta, em uma espécie de desesperação, a frase: “Anathema tibi a me dictum, praevaricator Liberi” (Eu te digo ‘anátema’, prevaricador Libério), cf. Denzinger-Schönmetzer, n. 141. O papa Libério queria paz e harmonia a todo custo, incluso às expensas da verdade divina. Em sua carta aos bispos heterodoxos latinos Ursace, Valêncio e Germinius, anunciando-lhes as decisões acima mencionadas, escreveu que preferia antes paz e harmonia do que o próprio martírio (cf. Denzinger-Schönmetzer, n. 142).

“Em que contraste dramático jazia o comportamento do papa Libério frente à seguinte convicção de Santo Hilário de Poitiers: “Não conseguimos paz às custas da verdade, fazendo concessões para adquirir a fama de tolerantes. Conseguimos paz lutando legitimamente segundo as regras do Espírito Santo. Há um perigo em aliar-se secretamente com a impiedade que se adorna com o formoso nome da paz” (Hil. Ad Const., 2, 6, 2).

O beato John Henry Newman falou sobre esses lamentáveis e inusuais feitos com a seguinte afirmação sábia e equilibrada: “Se bem seja historicamente certo, não é de nenhuma maneira doutrinariamente falso que um papa, como doutor privado, e muito mais os bispos, quando não ensinam formalmente, possam errar, tal como vemos que erraram no século quarto. O papa Libério podia assinar a fórmula Eusebia em Sirmium, e a missa dos bispos em Ariminum ou outro lugar, e apesar desses erros continuar sendo infalível em suas decisões ex cathedra.” (The Arians of the Fourth Century, London, 1876, p. 465).

Os quatro cardeais, com sua voz profética demandando clareza doutrinária e pastoral, têm um grande mérito diante de suas próprias consciências, diante da história, e diante dos inumeráveis fiéis católicos simples de nossos dias, empurrados para a periferia eclesial por sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus Cristo sobre a indissolubilidade do Matrimônio. Mas, sobretudo, os quatro cardeais têm um grande mérito aos olhos de Jesus Cristo. Devido à coragem de suas palavras, seus nomes brilharão resplandecentes no dia do Juízo Final. Eles obedeceram à voz de suas consciências, recordando o que dissera São Paulo: “Nada podemos fazer contra a verdade, mas somente a favor desta” (2 Cor 13, 8). Seguramente, no Juízo Final, os já mencionados críticos dos quatro cardeais, em sua maioria clérigos, não terão uma resposta fácil a dar por seu ataque violento ao justo, valioso e meritório ato destes quatro membros do Sagrado Colégio Cardinalício.

As seguintes palavras inspiradas pelo Espírito Santo retêm seu valor profético, especialmente diante da crescente confusão doutrinal e prática a respeito do sacramento do Matrimônio em nossos dias: “Porque virá um tempo em que os homens não suportarão mais a sã doutrina, mas sim, com ânsias de ouvir novidades, se darão mestres que agradem sua concupiscência. Apartarão o ouvido da verdade, para voltá-lo às fábulas. Por tua parte, sê sóbrio em tudo, suporta o adverso, faz obra de evangelista, cumpre bem teu ministério” (2 Tim 4, 3-5).

Que todos aqueles que, em nossos dias, levam a sério seus votos batismais e suas promessas sacerdotais e episcopais, recebam a fortaleza e a graça de Deus para reiterar, junto com Santo Hilário, as palavras: “Que fique eu para sempre no exílio, desde que a verdade comece a pregar-se outra vez!” (De Syn., 78). Desejamos de todo coração essa fortaleza e graça aos quatro cardeais, assim como aos que os criticam.

+ Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria en Astana

22 novembro, 2016

​Na mira: a Doutrina da Fé.

Por FratresInUnum.com

As recentes “Dubia” dos quatro cardeais ao Papa Francisco e, para informação, à Congregação para a Doutrina da Fé, ameaçam fortemente o atual establishment na Igreja. Literalmente, eles não têm para onde correr.

Francisco e Stella.

Francisco e Stella (ainda Arcebispo).

Hoje, Papa Bergoglio começa seu movimento de contra-ataque, com a discreta e exclusiva nomeação do Cardeal Beniamino Stella como membro da Congregação para a Doutrina da Fé. Sim, ninguém mais foi nomeado, somente ele.

Para um leitor desatento, essa nomeação parece pouco significativa. Mas, para quem conhece o mistério que paira sobre a sombria figura desse purpurado, é bastante clamorosa a movimentação, tão mais clamorosa quanto silenciosa.

Aliás, o Cardeal Stella nunca aparece na superfície desse pontificado, mas, como publicamos anteriormente, ele é a verdadeira “eminência parda” em exercício, aquele que dá as cartas, aquele que pontifica!

Agora, sua presença na Congregação para a Doutrina da Fé tem a finalidade de encurralar o Cardeal Müller, Prefeito, amigo pessoal de Papa Ratzinger, organizador de sua Opera Omnia, cujas posições contra o “Paradigma Kasper”, que não prevaleceu no Sínodo, mas apenas em “Amoris Laetitia”, são abundantemente conhecidas.

De fato, estamos no governo das sombras! Enquanto o Papa Francisco finge desconhecer as sérias perguntas dos cardeais, reservando aos mesmos apenas indiretas venenosas, não está parado, age! Começa agora o aparelhamento do antigo Santo Ofício! Realmente, a Doutrina da Fé está na mira!