Archive for ‘O Papa’

2 janeiro, 2018

Importante: Dom Athanasius Schneider e bispos do Cazaquistão lançam ‘Profissão sobre verdades imutáveis a respeito do sacramento do Matrimônio”.

[Atualização – 02/01/2018 às 19:19] Corrispondenza Romana acaba de anunciar que dois bispos italianos, Dom Luigi Negri e Dom Carlo Maria Viganò aderiram à iniciativa dos bispos do Cazaquistão.

Três bispos declaram leitura de Amoris Laetitia feita pelo Papa como “estranha” à Fé Católica.

LifeSiteNews, Roma, 2 de janeiro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com — Três bispos se pronunciaram contra a interpretação feita pelo Papa Francisco de Amoris Laetitia que permite o acesso de alguns divorciados recasados à Sagrada Comunhão, afirmando que tal leitura está causando “confusão desenfreada”, é “estranha” à Fé Católica, e disseminará uma “epidemia do divórcio” na Igreja.

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Dom Tomash Peta, Dom Jan Pawel Lenga e Dom Athanasius Schneider.

Dom Athanasius Schneider, bispo-auxiliar de Astana, Cazaquistão, Dom Tomash Peta, arcebispo metropolita de Astana, e Dom Jan Pawel Lenga de Karaganda, Cazaquistão, divulgaram uma Profissão de verdades imutáveis sobre o sacramento matrinonial em 31 de dezembro, como “um serviço de caridade na verdade” à Igreja de hoje e ao Papa.

Os bispos tomaram a decisão de realizar uma “pública e inequívoca profissão da verdade” a respeito do ensinamento da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio, pois afirmam “não poderem permanecer em silêncio”.

Como bispos Católicos incumbidos de defender e promover a Fé Católica e a disciplina comum, afirmam ter uma “grave responsabilidade” e “dever perante os fiéis” que esperam deles “uma pública e inequívoca profissão da verdade e da imutável disciplina da Igreja acerca da indissolubilidade do matrimônio”.

Eles observam que após a publicação do documento do Papa Francisco sobre a família, Amoris Laetitia, diversos bispos e conferências episcopais divulgaram normas permitindo a alguns divorciados recasados civilmente, que não vivem em continência sexual, receber os sacramentos da Penitência e da Sagrada Comunhão. Eles enfatizam que essas várias autoridades hierárquicas (Alemanha, Malta e Buenos Aires, embora eles não as nominem) também receberam aprovação “até mesmo da suprema autoridade da Igreja”.

No mês passado, o Papa Francisco decidiu formalmente declarar a interpretação de Amoris Laetitia feita pelos bispos de Buenos Aires como “magistério autêntico”.

A disseminação dessas normas pastorais aprovadas eclesialmente “causaram uma considerável e sempre crescente confusão entre os fiéis e o clero” e são “meios de difusão da ‘epidemia do divórcio’ na Igreja”, escreveram os bispos do Cazaquistão.

“Nosso Senhor e Redentor Jesus Cristo solenemente reafirmou a vontade de Deus sobre a absoluta proibição do divórcio”, recordaram, e a Igreja sempre preservou e fielmente transmitiu tanto em sua doutrina como em sua disciplina sacramental “o ensinamento cristalino de Cristo” acerca da indissolubilidade do matrimônio”.

“Por conta da vital importância que a doutrina e a disciplina do matrimônio e da Eucaristia, a Igreja é obrigada a falar com a mesma voz. As normas pastorais a respeito da indissolubilidade do matrimônio não podem, portanto, ser contraditórias entre uma diocese e outra, entre um país e outro”.

“Desde os tempos dos Apóstolos”, explicam os bispos, “a Igreja observou este princípio, como testemunha Santo Irineu de Lion”:

“A Igreja, embora espalhada pelo mundo até os confins da terra, tendo recebido a Fé dos Apostólos e seus discípulos, preserva esta pregação e esta Fé com cuidado e, como Ela habita uma única casa, crê da mesma e idêntica maneira, como tendo uma só alma e um só coração, e prega a verdade da Fé, ensina-a e transmite-a em uma voz uníssona, como se tivesse uma só boca” (Adversus haereses, I, 10, 2).

Após, eles recordam a advertência do Papa João Paulo II de que a confusão semeada nas consciências dos fiéis por diferentes “opiniões e ensinamentos” enfraqueceria o “verdadeiro sentido de pecado, quase a ponto de eliminá-lo”.

O Papa João Paulo II erigiu a diocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, em 1999, e a elevou à arquidiocese em 17 de maio de 2003, nomeando o bispo polonês Tomash Peta como seu arcebispo. No Sínodo Ordinário sobre a Família em 2015, Dom Peta, que participou como delegado do Cazaquistão, iniciou sua breve intervenção com as palavras do Beato Paulo VI pronunciadas em 1972: “Por alguma fresta, a fumaça de Satanás penetrou no templo de Deus”.

Ele, então, afirmou aos Padres Sinodais que estavam reunidos: “Estou convencido de que estas foram palavras proféticas de um santo Papa, o autor de Humanae Vitae, Durante o Sínodo do ano passado [2014], a ‘fumaça de Satanás’ estava tentando adentrar na aula Paulo VI [local em que ocorriam as sessões do Sínodo]”. O arcebispo acrescentou: “Infelizmente, pode-se ainda sentir o cheiro desta ‘fumaça infernal’ em alguns pontos do Instrumentum Laboris e também em algumas intervenções de certos padres sinodais neste ano”. [Leia a intervenção aqui.]

Na Profissão, Dom Athanasius Schneider, juntamente com os arcebispos Peta e Lenga, reiteram aos fiéis sete verdades imutáveis sobre o sacramento do matrinônio, e, “no espírito de São João Batista, São João Fisher, São Tomás Morus, da Beata Laura Vicuña e de numerosos confessores e mártires, conhecidos ou não, da indissolubilidade do matrimônio”, afirmam:

Não é licito (non licet) justificar, aprovar, legitimar, direta ou indiretamente, o divórcio e a relação sexual estável não conjugal, através da disciplina sacramental da admissão dos assim chamados ‘divorciados e recasados’ à Sagrada Comunhão, neste caso, uma disciplina estranha à toda a Tradição da Fé Católica e Apostólica.

Leia a íntegra da Profissão de verdades imutáveis sobre o matrimônio sacramental aqui.

21 dezembro, 2017

Atribuem créditos ao Papa Francisco por ter ajudado a aprovar lei da eutanásia na Itália.

LifeSiteNews, Roma, 19 de dezembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – A eutanásia finalmente chegou à Itália e tanto os ativistas jubilantes do direito-de-morrer como os Católicos desconsolados estão atribuindo ao Papa Francisco parte do crédito. Além do mais, a nova legislação não garante aos médicos que quiserem recusar a participação o direito à objeção de consciência.

Na quinta-feira passada, o governo Italiano passou a lei que permite aos adultos determinar o tipo de cuidados médicos de fim-de-vida, incluindo as circunstâncias em que podem recusar o tratamento. Os Italianos agora poderão escrever “testamentos vivos”, nos quais eles poderão recusar não apenas tratamento médico, mas também hidratação e nutrição.

De acordo com a doutrina Católica, a retirada de nutrição e hidratação é uma forma de eutanásia passiva.

Essa lei Italiana sobre o fim da vida, também conhecida como “lei do biotestamento”, já havia sido introduzida trinta anos atrás, mas encontrou vigorosa oposição por parte de políticos pró-vida que bloquearam sua passagem sugerindo mais de três mil emendas. No entanto, na quarta-feira, todas essas emendas foram revogadas e a lei foi votada 180 contra 71, com 6 abstenções.

A nova legislação entrará no registro oficial no 40º aniversário da aprovação da lei Italiana que permite o aborto.

Críticos alegam que a resistência dos políticos Católicos contra essa lei foi enfraquecida depois do discurso do Papa Francisco à Pontifícia Academia para a Vida, quando ele disse que as pessoas podem recusar longos tratamentos médicos para prolongar a vida, mas deixou de mencionar que a administração de nutrição e alimentação são cuidados básicos humanitários, e não tratamento médico. De acordo com o jornal La Repubblica, da Itália, e o New York Times, muitos dos apoiadores da lei, e também muitos Católicos, viram no discurso de Francisco um “sinal verde” para a aprovação da nova lei.

“As palavras do Papa Francisco, no dia 16 de novembro, à Pontifícia Academia para a Vida sobre questões relativas ao final da vida, foram interpretadas como uma porta aberta à forma de eutanásia que é o chamado biotestamento”, escreveu Roberto de Mattei, historiador Católico e diretor da Fundação Lepanto da Itália.

Segundo Corrado Augias, do jornal La Repubblica, “as palavras do Papa foram necessárias para quebrar a última resistência de alguns Católicos e provavelmente — para convencer pelo menos um grupo entre eles a dar o seu consentimento [à lei pró-eutanásia ]”.

O defensor do “direito de morrer” Marco Cappato, membro do “Partido Radical” de extrema esquerda da Itália, elogiou Francisco imediatamente após seu discurso à Academia da Vida sobre o cuidado com os doentes terminais. Francisco, segundo ele, estaria do lado da nova lei.

“Que estava faltando uma lei que pelo menos respeitasse os direitos do doente terminal é algo que agora foi questionado até pelo próprio Papa”, escreveu ele naquele momento. “Quem sabe se agora os clericalistas no no Parlamento, que se acham mais Católicos que o Papa, não tomarão um momento para repensar seu obstrucionismo… sobre o biotestamento”.

Evidentemente que eles acabaram repensando.

O Papa Francisco, em seu discurso à Academia para a Vida disse: “(I)  é moralmente lícito decidir não adotar medidas terapêuticas ou descontinuá-las, quando seu uso não atende mais aos padrões éticos e humanitários que poderia ser chamado mais tarde “devidas proporções no uso de remédios” … permitindo assim que a decisão seja moralmente qualificada como retirada de “tratamento excessivo”.

O Papa Francisco pediu “discernimento” quando se trata de prolongar a vida, mas sem mencionar o cerne da questão, a saber, a retirada de nutrição e hidratação. Suas palavras para todos efeitos indicam um apoio à lei Italiana.

“Para determinar se uma intervenção médica clinicamente apropriada é de fato proporcional,  uma regra geral não é suficiente , disse o Papa.

“É necessário que haja um discernimento cauteloso do objeto moral, das circunstâncias presentes e das intenções dos envolvidos”, continuou ele.

“O paciente, primeiramente e antes de tudo, tem o direito, obviamente em diálogo com os profissionais médicos, de avaliar os tratamentos propostos e julgar se é realmente proporcional à sua realidade concreta e necessariamente recusá-lo se julgar que tal proporcionalidade lhe falta”, acrescentou ele.

De Mattei disse ao site LifeSiteNews que a Conferência dos Bispos Italianos também não falou contra a nova legislação.

Em uma entrevista ao La Repubblica, o aposentado Cardeal Ruini, de 86 anos, ex-presidente da Conferência Episcopal Italiana, lamentou a aprovação do projeto de lei. “Esta lei”, disse ele, “abre a porta para a eutanásia, sem, no entanto, nomeá-la”.

“É um método bastante hipócrita de se proceder, muito semelhante ao que usaram para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sem no entanto chamá-lo casamento e falando em união civil quando no final tem toda a substância de um casamento”, disse ele.

Ruini já havia sido duramente atacado há onze anos atrás por ter recusado o funeral Católico para o ativista pelo direito- de- morrer e membro do Partido Radical, Piergiorgio Welby.

O cardeal Ruini disse que a “falta de provisão para objeção de consciência por parte de médicos e outros profissionais médicos” é um dos mais sérios defeitos da lei.

Entre os ativistas Italianos pelo “direito-de-morrer” que foram fotografados enquanto comemoravam a aprovação da “lei do Biotestamento” estava a pioneira da lei do aborto do Partido Radical ” Emma Bonino. Ela estava sentada na câmara do Senado com a viúva de Piergiorgio Welby, Mina Welby, quando os resultados da votação foram exibidos. Bonino é famosamente considerada pelo Papa Francisco como uma entre os “grandes Italianos esquecidos”.

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10 dezembro, 2017

Bomba! Entrevista de Marcantonio Colonna, autor de “O Papa ditador”.

«Para o seu superior, Bergoglio era um divisor. Não deveria nem ter sido nomeado bispo» O autor fala do e-book que criou confusão dentro da Igreja, revelando segredos da carreira de Francisco

Por Francesco Borgonovo, La Veritá, 9 de dezembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – Há um livro que está chamando a atenção de meio mundo. Falaram dele jornalistas franceses, americanos, australianos e até algum jornal italiano, com muita cautela. Trata-se de um volume apimentado, a partir do título: O papa ditador.

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A capa é quase por inteiro uma fotografia de Francisco: o “ditador” em questão, obviamente, seria ele. O autor é Marcantonio Colonna. Trata-se de um pseudônimo, que faz referência a um personagem que realmente existiu: o vice-rei da Sicília, que viveu no século XVI e foi um dos protagonistas da batalha de Lepanto. As lacônicas notas biográficas presentes no livro – disponível apenas na versão e-book – explicam que o autor “formou-se na universidade de Oxford e possui uma profunda experiência no âmbito da pesquisa histórica e em outros campos. Reside em Roma desde o início do pontificado do Papa Francisco e o seu livro é fruto de estreitos contatos com muitas pessoas que trabalham no Vaticano, entre as quais os cardeais e outros personagens principais citados no curso da narração”.

La Verità conseguiu, através do e-mail, colocar-se em contato com Marcantonio Colonna, fazendo-o contar algo mais do que está em seu livro, que está suscitando tanta reação.

Por que decidiu escrever este livro? E por que utlizando um pseudônimo?

Em substância, devo dizer que a imagem midiática de que se beneficiou o Papa Francisco nos últimos cinco anos é uma das mais pavorosas enganações da vida contemporânea. Todos que trabalham no Vaticano conhecem o abismo entre essa imagem e a realidade, e não nos deveríamos maravilhar de que, no fim, alguém revelasse a verdade. Escrevi o meu livro com o nome de Marcantonio Colonna, que foi o grande campeão militar da Igreja Católica no século XVI, porque qualquer um que ler o livro verá que não é, de maneira alguma, um ataque à Igreja: a intenção é evitar que a Igreja cometa novamente um erro como esse, isto é, eleger como Papa um cardeal pouco conhecido, que se revela muito diferente daquilo que parecia. Era necessário usar um pseudônimo porque, como conta o livro, Papa Francisco se vinga sem piedade de qualquer um que lhe fizer oposição. Por exemplo, os três assistentes do Cardeal Müller, que foram demitidos em outubro de 2016 por presumidas críticas ao Papa.

Segundo o senhor, por que Bergoglio é um ditador?

O significado da palavra ditador é o de soberano que exercita a sua vontade pessoal no desprezo da lei e da justiça. É algo muito diferente da autoridade legal que tradicionalmente pertence à Cabeça da Igreja Católica. Poderia fazer referência novamente ao Cardeal Müller, que procurou defender os seus três subordinados quando foram demitidos e recebeu esta resposta do papa Francisco: “Eu sou o Papa e não preciso de explicações para nenhuma das minhas palavras”. Este não é um modo pelo qual os papas exercem tradicionalmente a sua autoridade. Mas, ao chamar Francisco de ditador, queria também ressaltar os estreitos paralelos entre o seu estilo e aquele de Juan Perón, o ditador da Argentina na época da juventude de Bergoglio. A sua influência é crucial para o explicar o estilo de Francisco. Como digo no livro, ele é a transposição eclesiástica de Juan Perón.

No livro, o senhor conta um acontecimento pouco conhecido sobre o passado de Bergoglio. Diz respeito a um jesuíta, Padre Kolvenbach. De que se trata? Como veio a conhecer esta história?

Em 1991, quando padre Jorge Bergoglio foi nomeado bispo na Argentina, foi necessário obter um relatório do superior geral da sua ordem, o padre Kolvenbach. A resposta do padre Kolvenbach, embasada sobre as opiniões dos outros membros da sua ordem, era que Bergoglio não era adequado para ser nomeado bispo. Padre Kolvenbach afirmava que Bergoglio não tinha equilíbrio psicológico, tinha um caráter hipócrita e foi uma figura que causou divisão quando foi provincial jesuíta na Argentina. Este relatório foi difundido entre os membros da Congregação para o bispos da época e era conhecido de um número bastante elevado de pessoas. Mas, Bergoglio, naturalmente, tomou cuidado de ocultar tudo isso quando se tornou Papa. E a cópia que se encontrava no arquivo oficial dos jesuítas em Roma desapareceu.

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Como recolheu o material para o seu livro?

Diversos jornalistas comentaram, relativamente ao meu livro, que ele contém pouca novidade e, com efeito, a maior parte se baseia em artigos que foram publicados nos últimos quatro anos, por exemplo, naqueles de Sandro Magister. Tratou-se simplesmente de juntar o material. Todavia, penso que uma importante contribuição fornecida pelo meu livro esteja no segundo capítulo, que descreve o passado de Jorge Bergoglio na Argentina, onde era conhecido como um político astuto e manipulador na tradição peronista. Também aqui há pouca novidade para um argentino, mas se trata de fatos desconhecidos para o resto do mundo, por causa da barreira linguística. Eu fui simplesmente o veículo para traduzí-los. E ainda: as revelações que dizem respeito à resistência para com as reformas e o reino de terror que existe agora no Vaticano são familiares para qualquer um que trabalhe ali, mas era necessário que alguém dissesse publicamente aquilo que era bastante evidente no secreto.

Bergoglio se tornou Papa através de qual percurso?

O meu primeiro capítulo descreve a ação do grupo de cardeais conhecido como “máfia de St. Gallen”, na gestão do conclave de 2013, para garantir a eleição de Bergoglio. Esta descrição deriva da narração de um dos membros do grupo, o cardeal belga Danneels, que estava tão orgulhoso de ter projetado a eleição de Bergoglio que revelou tudo aos autores da sua biografia (e deixem-me acrescentar que o nome “máfia de St. Gallen” foi dado pelo próprio Danneels). Ignorou o fato que estava revelando uma grave violação ao direito canônico, que proíbe as conspirações para influenciar os conclaves papais. O grupo de St. Gallen encontrou-se secretamente por anos antes do conclave de 2005, quando tentou impedir a eleição do cardeal Ratzinger como Papa Bento XVI, e o candidato apresentado na época foi Bergoglio. Quando Bento inesperadamente renunciou em 2013, aproveitaram a oportunidade de renovar a tentativa fracassada anos antes.

Qual é a sua opinião sobre as reformaa de Bergoglio?

O terceiro capítulo se intitula: “Reformas? Que reformas?”. Descreve em detalhes como as reformas foram completamente bloqueadas pelas poderosas figuras curiais com as quais Francisco deliberadamente se aliou. Em primeiro lugar, a reforma da cúria foi frustrada, com a intenção específica de reduzir os poderes exagerados da Secretaria de Estado, que agora é mais poderosa do que nunca, sob o cardeal Parolin. Em segundo lugar, a promessa quebrada de agir contra o escândalo dos padres pedófilos: foram casos conhecidos de sacerdotes protegidos por figuras expressivas da cúria. Em terceiro lugar, a inversão completa das reformas financeiras que foram imaginadas quando a nova Secretaria para a Economia foi instituída pelo cardeal Pell. Sofria resistência de um grupo restrito de cardeais que não queria renunciar ao seu controle e conseguiram vencê-lo. A demissão do revisão geral [de contas] do Vaticano, Libero Melone, foi outra vitória para aqueles que se opunham às reformas. Por que aconteceu? Porque Papa Francisco, que foi eleito para reformar a Igreja, descobriu que pode controlar a cúria de modo mais eficaz através de figuras corruptas que dependem dele para ter poder. Obedecem-no cegamente.

Houve reações por parte da Santa Sé ao seu livro?

O Vaticano não gostou do meu livro. Houve imediatas tentativas de entender quem o tinha escrito. Num certo momento, pensaram que tinham identificado o autor: alguém que estava na Inglaterra. E o importunaram com ameaças telefônicas. O que eles não percebem é que o livro não representa uma voz solitária, mas exprime as preocupações de muitíssimas pessoas – no Vaticano e em outros lugares –, pessoas que querem que a verdade seja conhecida.

5 dezembro, 2017

Vaticano. Uma notícia ambígua, uma indiscrição e uma informação que esperamos que não seja confirmada sobre Mons. Gänswein.

Vêm do Vaticano uma notícia, uma indiscrição e algumas informações, que esperamos que não sejam confirmadas. Mas vamos por partes.

Por Marco Tosatti, 1º de dezembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Como podem ver pelas fotos postadas no Facebook da Rádio Spada, no fascículo 10/2016 de Acta Apostolicæ Sedis foi publicada a carta privada que o Pontífice enviou as bispos argentinos, depois que eles promulgaram diretrizes para a aplicação do capítulo 8 (aquele das famosas novidades acerca da comunhão aos divorciados recasados) de Amoris Lætitia. Diretrizes que, como se percebeu e sublinhou, são qualquer coisa, menos claras.

A publicação da carta nos Acta é acompanhada por uma breve nota do Secretário de Estado, o Cardeal Pietro Parolin, que, com um “Rescriptumi ex audientia SS.mi” de junho de 2017, dá a notícia de que foi o próprio Papa que quis que os dois documentos – as linhas guias e a carta – fossem publicados no site eletrônico dos Acta Apostolicæ Sedis.

A notícia não pode senão alimentar ulteriormente a confusão e a incerteza em torno da controversa exortação apostólica e ao modo de agir do Pontífice, que aparece, de novo, longe da clareza e da precisão que muitos fiéis esperam dele. Não se dá uma resposta aos cardeais sobre os Dubia, não se dá uma resposta a carta, petições e outras iniciativas de estudiosos, teólogos e simples fiéis desorientados pela deliberada ambiguidade do documento. Mas, ao mesmo tempo, se oferece uma dose de oficialidade a uma carta dirigida a um membro de uma conferência episcopal.

Com qual objetivo? Para obrigar todos a um religiosum obsequium para com um magistério expresso de formas oblíquas e ambíguas, ou para responder sem se comprometer em uma resposta direta, que exporia o Pontífice de, maneira inequívoca, aos duvidosos e aos perplexos? Como simples fiel, isso tudo dá uma sensação de aversão por um comportamento que se poderia definir pretesco (ndt: hipocrisia típica de certos padres), no pior sentido do termo.

E, se for verdade o que soubemos de duas fontes diversas, talvez seja este um mal-estar também compartilhado no Vaticano. Um Cardeal de grande renome, ex diplomata e com um currículo importante à frente de Congregações e ofícios de relevo na Secretaria de Estado, teria repreendido o papa pela sua ação, dizendo-lhe em boa substância: Nós te elegemos para fazer as reformas, não para destruir tudo. A notícia se espalhou no Vaticano, porque a conversa, se é que isto pode ser chamado de conversa, se elevou a níveis altos de decibéis (eles gritaram), a ponto de superar as frágeis barreiras das portas e dos muros. O purpurado em questão foi um daqueles que apoiaram a candidatura de Jorge Mario Bergoglio no conclave de 2013 [o site Gloria.tv sugere que o envolvido seria o Cardeal Leonardo Sandri, argentino, Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais].

Por fim, uma informação que esperamos que não seja confirmada. No próximo 7 de dezembro, o arcebispo Georg Gänswein, já secretário do papa Bento XVI, cumpre os seus cinco anos como Prefeito da Casa Pontifícia. E, segundo as indiscrições de boa fonte, poderia não ser confirmado. Como, além disso, já aconteceu, como sabemos, ao Cardeal Müller. Com base na regra dos cinco anos, que dispara sobretudo e especialmente se o interessado não faz parte da corte do Pontífice. Nas últimas semanas, Mons. Gänswein esteve fora de Roma por algum problema de saúde, mas já voltou. Se a informação for verdadeira, restaria o problema de sua nomeação. É improvável a hipótese de uma Diocese na Alemanha: ele é católico demais! Talvez a secretaria de uma Congregação em Roma. Ou, como Müller, um “ficar à disposição”. Esperamos, porém, que a nossa fonte esteja errada [além de Mons. Gänswein, outro que parece estar com os dias contados é Mons. Guido Marini].

4 dezembro, 2017

Os Cardeais Burke-Brandmüller-Müller e “O Papa ditador”.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 29 de novembro de 2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Nas últimas semanas houve três entrevistas de alguns eminentes cardeais. A primeira foi concedida em 28 de outubro de 2017 pelo cardeal Walter Brandmüller a Christian Geyer e Hannes Hintermeier, do Frankfurter Allgemeine Zeitung; a segunda foi dada em 14 de novembro pelo cardeal Raymond Leo Burke a Edward Pentin, do National Catholic Register; e a terceira, do cardeal Gerhard Müller ao jornalista Massimo Franco, apareceu em 26 de novembro nas colunas do Corriere della Sera.

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O cardeal Brandmüller manifestou sua preocupação com a possibilidade de se abrir uma divisão na Igreja. “O simples fato de uma petição com 870.000 assinaturas dirigidas ao Papa solicitando-lhe esclarecimentos permanecer sem resposta – como não obtiveram resposta 50 estudiosos internacionais – levanta questões. É verdadeiramente difícil de entender.” “Dirigir dúvidas ao Papa, dúvidas, perguntas, sempre foi uma forma absolutamente normal de dissipar as ambiguidades. Simplificando, a questão é a seguinte: o que ontem era pecado pode hoje sem bom? Pergunta-se também: existem realmente atos – é a doutrina constante da Igreja – que são sempre moralmente reprováveis em todas as circunstâncias? Como, por exemplo, o assassinato do inocente ou o adultério? Este é o ponto. Caso, de fato, se devesse responder à primeira pergunta com um ‘sim’ e com um ‘não’ à segunda, isso seria realmente uma heresia e, portanto, um cisma. Uma divisão na Igreja.”

O cardeal Burke, que declarou estar sempre em comunicação com o cardeal Brandmüller, formulou um novo alerta “sobre a gravidade de uma situação que nunca cessa de piorar” e reafirmou a necessidade de que todas as passagens heterodoxas da Amoris laetitia sejam esclarecidas. De fato, enfrentamos um processo que constitui “uma subversão das partes essenciais da Tradição”. “Além do debate sobre a moral, está cada vez mais erodido na Igreja o sentido da prática sacramental, especialmente no que diz respeito à penitência e à Eucaristia.”

O cardeal se dirige novamente ao Papa Francisco e a toda a Igreja, frisando “quão urgente é que o Papa, exercendo o ministério que recebeu do Senhor, possa confirmar seus irmãos na fé, exprimindo claramente o ensinamento sobre a moral cristã e o significado da prática sacramental da Igreja”.

O cardeal Müller, por sua vez, afirma existir o perigo de um cisma dentro da Igreja e que a responsabilidade da divisão não é dos cardeais dos dubia sobre a Amoris laetitia nem dos signatários da Correctio filialis ao Papa Francisco, mas do “círculo mágico” do Papa, que impede um debate aberto e equilibrado sobre os problemas doutrinários levantados por essas críticas:

“Atenção: se se generalizar a percepção de que uma injustiça foi praticada pela Cúria Romana, quase por força da inércia poder-se-ia pôr em movimento uma dinâmica cismática difícil depois de reabsorver. Creio que os cardeais que expressaram suas dúvidas sobre a Amoris laetitia, ou os 62 signatários de uma carta com críticas até mesmo excessivas ao Papa devem ser ouvidos, e não liquidados como ‘fariseus’ ou pessoas revoltosas. A única maneira de sair desta situação é um diálogo claro e direto. Em vez disso, tenho a impressão de que no ‘círculo mágico’ do Papa existem aqueles que estão especialmente preocupados em espionar seus pretensos adversários, impedindo assim uma discussão aberta e equilibrada. O dano mais grave que eles causam à Igreja é de classificar todos os católicos de acordo com as categorias ‘amigo’ ou ‘inimigo’ do Papa. Fica-se perplexo que um conhecido jornalista ateu [Eugenio Scalfari, fundador do La Repubblica] se gabe de ser amigo do Papa; e, paralelamente, que um bispo católico e cardeal como eu seja difamado como adversário do Santo Padre. Não acho que essas pessoas possam dar-me lições de teologia sobre o primado do Romano Pontífice.”

Segundo o seu entrevistador, o cardeal Müller ainda não se recuperou da “ferida” causada pela exoneração de três de seus colaboradores pouco antes de sua não recondução à frente da Congregação pela Doutrina da Fé, em junho passado. “Eram bons e competentes sacerdotes que trabalhavam para a Igreja com dedicação exemplar”, é o seu julgamento. “As pessoas não podem ser mandadas embora ad libitum, sem provas nem processo, só porque alguém denunciou anonimamente vagas críticas de uma delas ao Papa…”.

Qual é o regime sob o qual as pessoas são tratadas assim?”, pergunta Damian Thompson em The Spectator no dia 17 de julho passado. E responde que a demissão dos colaboradores do cardeal Müller “traz à mente alguns de seus predecessores mais autoritários, ou até mesmo algum ditador latino-americano que abraça as multidões e dá uma demonstração de seu estilo de vida humilde enquanto seus lugar-tenentes vivem no temor de sua cólera”.

Este aspecto do pontificado do Papa Francisco é agora objeto de um livro que acaba de ser publicado com o significativo título O Papa ditador. O autor é um historiador formado em Oxford que se oculta sob o nome de “Marcantonio Colonna”. O estilo é sóbrio e documentado, mas as acusações dirigidas ao papa Bergoglio são fortes e numerosas.

Muitos dos elementos sobre os quais o autor se baseia para formular suas acusações eram conhecidos, mas o que é novo é a acurada reconstrução de uma série de “quadros históricos”: o pano de fundo da eleição do Papa Bergoglio, guiada pela “máfia de São Galo”; as pendengas argentinas de Bergoglio antes de sua eleição; os obstáculos encontrados pelo cardeal Pell ao tentar fazer uma reforma financeira da Cúria; a revisão da Pontifícia Academia para a Vida; a perseguição aos Franciscanos da Imaculada e a decapitação da Soberana Ordem Militar de Malta.

A mídia, sempre pronta a fustigar alhures qualquer episódio de desgoverno e de corrupção, silencia-se diante desses escândalos. O principal mérito deste estudo histórico é de tê-los trazido à luz. “O medo é a nota dominante da Cúria sob a lei de Francisco, juntamente com a suspeita mútua. Não se trata apenas de informantes que procuram vantagens relatando uma conversa privada – como descobriram os três subordinados do cardeal Müller. Em uma organização onde as pessoas moralmente corruptas foram deixadas no lugar e até promovidas pelo Papa Francisco, uma chantagem sutil está na ordem do dia. Um sacerdote da Cúria ironizou assim: ‘Há um ditado segundo o qual [para encontrar emprego ou ser promovido] o que conta não é aquilo que sabes, mas quem conheces. No Vaticano, ele se aplica assim: o que conta é aquilo que sabes a respeito de quem conheces.”

Em suma, o livro de Marcantonio Colonna confirma aquilo que a entrevista do cardeal Müller deixa nebuloso: a existência de um clima de espionagem e delação que o antigo Prefeito da Doutrina da Fé atribui a um “círculo mágico” que condiciona as escolhas do Papa, enquanto o historiador de Oxford o imputa ao próprio modus gubernandi do Papa Francisco, que ele compara com os métodos autocráticos do ditador argentino Juan Perón, do qual o jovem Bergoglio era um seguidor.

Poder-se-ia responder nihil sub sole novum (Eclesiastes 1:10). A Igreja viu muitas outras deficiências de governo. Mas se este pontificado está realmente levando a uma divisão entre os fiéis, como sublinham os três cardeais, as causas não podem se limitar ao modo de governar de um Papa, mas devem ser procuradas em algo absolutamente inédito na História da Igreja: o afastamento do Romano Pontífice da doutrina do Evangelho, que ele tem, por mandato divino, o dever de transmitir e guardar. Este é o cerne do problema religioso do nosso tempo.

3 dezembro, 2017

Foto da semana.

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Estado da Cidade do Vaticano, 23 de novembro de 2017: O Núncio Apostólico do Brasil, Dom Giovanni D’Aniello, é recebido pelo Papa Francisco em audiência.

1 dezembro, 2017

Bispos americanos rejeitam candidato de Bergoglio.

Os bispos americanos elegeram o arcebispo Joseph Naumann, preferindo-lhe em vez do Cardeal Blase Cupich, que é considerado eclesiástico muitíssimo próximo do Papa Bergoglio. 

Por Francesco Boezi, Il Giornale, 15 de novembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com

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Cardeal Cupich, arcebispo de Chicago, um dos preferidos do Papa Francisco, foi derrotado em eleição da Conferência Episcopal dos EUA.

A comissão pró-vida do episcopado americano não será guiada, portanto, pelo arcebispo metropolita de Chicago: Cupich foi feito cardeal por Francisco no consistório de 19 de novembro de 2016, após ter sido nomeado arcebispo. O Catholic Herald definiu a escolha de Naumann como fruto de um “voto surpresa”. A particularidade da notícai está realmente no fato de que o órgão institucional em questão era guiado por um cardeal desde a década de 80. Escolher um arcebispo para esse papel, então, representa uma importante novidade, além de um possível sinal ao Papa. A votação do episcopado americano asssumo, de fato, um valor de caráter político: com essa escolha, os bispos americanos parecem ter traçado uma marca de distanciamento em sua abordagem de temas de bioética em relação ao Papa Francisco. A diferença entre os dois candidatos — segundo o citado jornal católico — foi mínima: 92 votos para Naumann, 86 para Cupich.

“A votação chamou mais atenção que qualquer outra na assembléia geral dos bispos — precisou o Catholic Heraldo — “O cardeal Cupich é considerado um ‘bispo do Papa Francisco’ e colocou o aborto no mesmo nível de outras questões sociais”. Blase Cupich, então, teria acabado no centro das polêmicas alimentadas por tradicionalistas por ter equiparado a temática relativa à bioética com as relacionadas à imigração, racismo, pobreza e desemprego. O arcebispo Naumann, por sua vez, representa uma visão para a qual a bioética deveria assumir sempre uma certa prioridade pastoral sobre outros assuntos tratados doutrinariamente pela Igreja Católica. Um voto, portanto, que contrapôs dois modos diferentes de interpretar as urgências culturais do catolicismo.

Blase Cupich, todavia, é um prelado conhecido por ter combatido duramente a pedofilia na Igreja. Colocado por Bento XVI à frente da diocese de Spokane, guiou uma causa contra o projeto de lei que inicialmente se ocupou de responder às acusações movidas contra a própria diocese americana. A sé sufragânea de Seattle, de fato, estava envolvida em uma longa série de acusações de abusos sexuais pela qual a Igreja americana havia oferecido às vítimas uma indenização de 48 milhões dólares, porém, a despeito do empenho de Cupich contra a pedofilia, a escolha dos bispos americanos recaiu sobre um expoente substancialmente tradicionalista.

29 novembro, 2017

Editorial – O papa ditador.

Por FratresInUnum.com – 29 de novembro de 2017

Tirânico. Este é o único adjetivo que pode definir com clareza o estilo de governo bergogliano ou, melhor, a própria personalidade do pontífice reinante.

O fato já não é mais reservado aos cochichos eclesiásticos. Aliás, o nosso próprio blog não se cansa de documentar, quase à exaustão, os atos arbitrários que caracterizam este pontificado.

francisco 1

Contudo, acaba de ser lançado em italiano o e-book de Marcantonio Colonna, Il papa dittatore, que recolhe testemunhos de fontes primárias acerca da atitude extremamente autoritária do papa reinante.

A resenha do livro afirma que:

“Jorge Bergoglio foi eleito papa em 2013 como um liberal e um reformador. Na realidade, era já conhecido há tempos em sua terra natal, a Argentina, como um político manipulador e um hábil promotor de si mesmo. Por trás da máscara de homem do povo, Papa Francisco consolidou a sua posição de ditador que governa com o medo e estreitou alianças com os elementos mais corruptos do Vaticano para esconjurar e inverter as reformas que se esperavam dele. Marcantonio Colonna è formado na Universidade de Oxford e possui uma profunda experiência no âmbito da pesquisa história e em outros campos. Mora em Roma desde o início do pontificado de Francisco e o seu livro é fruto de estritos contatos com muitas pessoas que trabalham no Vaticano, entre os quais alguns cardeais e outros personagens principais citados no curso da narração”.

Quando adolescente, Jorge Bergoglio teve uma namorada, Amália. “Se não me casar com você, vou virar padre”, disse-lhe, quando tinham apenas 12 anos, segundo a própria. Os pais da menina se lhe opuseram.

Entrou para a Companhia de Jesus em 1958, emitiu os votos, foi ordenado sacerdote em 1969 e nomeado superior provincial em 1973 (apenas quatro anos depois, o que revela sua grande capacidade política na ordem). Em 1992 é nomeado bispo por João Paulo II, em 1998 se torna arcebispo de Buenos Aires, em 2001 é escolhido cardeal, em 2005 o elegem como Presidente da Conferência Episcopal, cargo que ocupa até 2011. Em março de 2013 é eleito Papa da Igreja Católica.

Acontece, porém, que a história da Companhia de Jesus nos revela um detalhe surpreendente.

O prestígio de que gozava a recém fundada Ordem Jesuíta era tão imenso que, em 1546, apenas seis anos após a fundação da Companhia, o Rei Fernando I pediu que o Padre Le Jay assumisse o bispado de Trieste, que ficara vacante. O mesmo recusou prontamente. A recusa só aumentou a convicção do rei, que, por sua vez, escreveu ao Papa Paulo III, solicitand0-lhe a nomeação episcopal do jesuíta. Padre Le Jay escreveu a Santo Inácio, que apelou a Margaret de Áustria – Arquiduquesa da Áustria, princesa das Astúrias, Duquesa de Saboia e Governadora dos Países Baixos – a qual obteve da Santa Sé o adiamento da nomeação.

Neste ínterim, Santo Inácio escreveu diretamente ao rei Fernando, explicando-lhe que “ao mesmo tempo que vos tributamos humildes ações de graças pelos favores com que nos encheis, ousamos dizer que nos não podeis fazer um maior que o de ajudar-nos a caminhar pela senda de nosso Instituto. As dignidades eclesiásticas estão de tal modo em oposição a ele que, segundo as ideias que tenho, nada é mais capaz de alterá-lo e destruí-lo. (…) É uma verdade comprovada que as ordens religiosas só merecem tal nome enquanto conservam o seu espírito primitivo. E como poderia sustentar-se a Sociedade (de Jesus) caso perdesse o seu?” (Cretineau-Joli, Historia religiosa, política e literária de la Compañía de Jesús, Tomo I, Librería religiosa, Barcelona: 1853, pp. 213-214).

O rei Fernando se deu por vencido, a instâncias de Santo Inácio. Mas este não se deu por satisfeito e resolveu escrever ao próprio Papa:

“Santíssimo Padre, considero as demais ordens religiosas como esquadrões de soldados que permanecem no posto assinalado pela honra, que estreitam suas filas e que fazem frente ao inimigo, conservando sempre a mesma ordem de batalha e a mesma maneira de servir-se de suas armas; nós, porém, somos os que vamos à descoberta, os que nos alarmes e nas surpresas noturnas devem se achar prontos sem cessar a vencer ou morrer. Devemos atacar, defender e, segundo as circunstâncias, andar por todas as partes e ter em todas o inimigo em contínuo alerta” (Cretineau-Joli, op. cit., p. 215).

O Papa prometeu que a Santa Sé nunca obrigaria um jesuíta a aceitar nomeações episcopais e disse que esta era a primeira vez que um pedido como este era feito a um Sumo Pontífice.

Tendo obtido essa graça do Papa, Santo Inácio mandou que todos os jesuítas cantassem um Te Deum em ação de graças (cf. Daurignac, History od the Society of Jesus, p. 60).

Por fim, Santo Inácio estabeleceu, nas próprias Constituições da Companhia de Jesus, que nenhum jesuíta aceitasse jamais cargos e dignidades eclesiásticas, e que denunciasse os confrades que o desejassem, nem consentissem em sua eleição para qualquer um desses cargos, a não ser que fossem forçados por estrita obediência e sob pena de pecado (Cf. Inácio de Loyola, S., Constituciones de la Compañía de Jesús, 10:817).

Ora, como Santo Inácio deixou claro em sua carta a Paulo III, a recusa às dignidades eclesiásticas por parte dos jesuítas se devia não a um motivo de humildade, mas à própria estrutura de sua fundação e daqueles que teriam vocação para esta: a Companhia de Jesus estava constituída como um exército à serviço da Igreja, mas a Igreja não tem, em si mesma, a estrutura militar, antes, é uma grande família espiritual, uma família de famílias.

Assim como a sociedade civil não pode ser governada como um exército (São Tomás o deixa claríssimo, distinguindo a prudência de governo e a prudência política da prudência militar. Vide: Suma Teológica, IIa-IIæ, q. 50), a Igreja também não pode ser governada deste modo.

Bergoglio foi preparado para ser o superior dos jesuítas, mas não entendeu que a Igreja não é a Companhia de Jesus.

Por isso, simplesmente não tem a maleabilidade política dos pontífices anteriores: não sabe conviver com o contraditório, não admite chegar a consensos a não ser em torno de suas ideias, recusa a dignidade cardinalícia para os arcebispos que teriam tradicionalmente o costume de recebê-las e as confere para eclesiásticos sem a mínima expressividade… e os exemplos se poderiam multiplicar indefinidamente.

O estilo de governo deste papa está causando uma rachadura na Igreja, exatamente porque produz dois efeitos: para fora (ad extra), Bergoglio assume a máscara de um governante populista, que diz aquilo que o establishment e a mídia querem, deixando a Igreja totalmente exposta às opiniões vagantes; e, para dentro (ad intra), destrói todos os protagonismos e deixa a Igreja inteira numa perplexidade absoluta, em torno dele, obediente, submissa. Não existe mais ninguém na Igreja, nenhuma personalidade. Há apenas o papa!

Francisco precisa renunciar ao pontificado e, isso, para o bem a Igreja. Precisa voltar à sua vida privada. De fato, ele não foi formado para ser papa, mas para ser um general e, como pontífice, não tem condições senão a de ser um tirano: il papa dittatore!

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23 novembro, 2017

Notas de perplexidade acerca da Mensagem do Papa Francisco sobre o final da vida.

Por Federico Catani | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comA mensagem enviada pelo Papa Francisco aos participantes do Encontro Regional Europeu da Associação Médica Mundial sobre questões relacionadas com o final da vida, realizado no Vaticano de 16 a 17 de novembro, teve grande eco midiático. Em particular, a mídia secular destacou uma guinada considerável da Igreja sobre a eutanásia: de uma clara censura se teria passado a uma abertura prudente, mas clara. A resposta no campo católico foi geralmente a de que o Papa reiterou a doutrina de sempre, e que, a admitir-se uma mudança, ela diz respeito apenas à maneira de abordar a questão e ao idioma usado, percebido como mais dialogante.

Se é verdade que a mídia laicista obviamente se serviu da Mensagem papal para seus próprios interesses e, portanto, para promover, em particular na Itália, uma lei sobre o chamado “testamento biológico” (ou seja, a legalização da eutanásia), é igualmente inegável que as palavras de Francisco contêm alguns pontos em relação aos quais se fica pelo menos perplexo.

  1. Em primeiro lugar, o Papa põe o foco de sua atenção na chamada “obstinação terapêutica” – que é o tema central da Mensagem –, como se este fosse o principal problema hoje no mundo hospitalar. Mas fatos que foram objeto de crônicas muito recentes, como o do pequeno Charlie Gard, mostram que esse não é o caso. A doutrina moral da Igreja certamente sempre condenou a obstinação terapêutica e, nesse sentido, o Papa Francisco de fato não diz nada de novo. Deve-se, contudo, notar que os grupos que favorecem a legalização da eutanásia fazem deliberadamente confusão em torno dos conceitos de “obstinação terapêutica” e de “eutanásia”, apoiando-se na emoção da opinião pública e apresentando à atenção da mídia casos humanos extremos e devastadores. Apresenta-se amiúde como desproporcional uma terapia ou um tratamento que não o é realmente. Confundir e deturpar as palavras faz parte da estratégia da Revolução, neste caso denominada “cultura da morte”.
  1. Mas o ponto mais preocupante do discurso é aquele no qual o Papa Francisco acena para um acordo entre as várias correntes em luta, e até mesmo para a aprovação de uma eventual legislação em matéria de fim de vida: “No seio das sociedades democráticas, tópicos delicados como esses devem ser confrontados com calma: de modo sério e reflexivo, e bem dispostos a encontrar soluções – mesmo normativas – tanto quanto possível compartilhadas. Por um lado, de fato, deve-se ter em conta a diversidade de visões do mundo, as convicções éticas as afiliações religiosas, em um clima de recíproca escuta e aceitação.” 

Na prática, a doutrina sobre os princípios não negociáveis ​​é pela enésima vez esquecida. A impossibilidade de se chegar a um compromisso nesses temas fundamentais – cujo enunciado por Bento XVI lhe atraiu as críticas e os dardos do mundo – já não é considerada como tal por Francisco. O Papa de fato reconhece que pode haver uma lei para reger o chamado fim de vida. E até mesmo declara que isso deve acontecer tirando uma linha média entre as diferentes posições e visões, com o que se chegaria inevitavelmente a um resultado contrário à doutrina moral católica. A contradição com o n° 73 da Evangelium vitae também é evidente. No caso da Itália, ainda não existe uma lei sobre o chamado “testamento biológico” e o mundo católico deve impedir que isso aconteça. Se de fato se ceder nesse ponto, acontecerá com a eutanásia o mesmo que aconteceu com o aborto, com o divórcio e com o “casamento” homossexual: abrir-se-á uma brecha no dique e será dificílimo fechá-la, pela técnica hoje bem conhecida do slippery slope, ou ladeira escorregadia. Aprovar hoje uma lei sobre o assunto só serve para isso.

  1. Além disso, o Papa Francisco afirma que “para determinar se uma intervenção médica clinicamente apropriada é realmente proporcionada não é suficiente aplicar mecanicamente uma regra geral. É preciso um discernimento cuidadoso, que considere o objeto moral, as circunstâncias e as intenções das pessoas envolvidas”. A mesma linguagem usada para os divorciadas recasados em Amoris laetitia… No entanto, os médicos normalmente já fazem isso: cada paciente e cada doença é um caso à parte, sem prejuízo, entretanto, da verdade moral, que não muda. Aqui, pelo contrário, o Papa escolhe uma linguagem que favorece o relativismo, já amplamente em uso nesses casos.

Bem diversa foi a resposa que a Congregação para a Doutrina da Fé deu, em 2007, aos dubia da Conferência Episcopal dos Estados Unidos ao afirmar claramente que, por exemplo, a hidratação e a alimentação artificiais, exceto obviamente nos casos em que o corpo não pode absorver mais nada, nunca deve ser considerada como obstinação terapêutica.

Isso não transparece nas palavras de Francisco, as quais, na verdade, inclusive podem confundir: “As intervenções no corpo humano estão se tornando cada vez mais eficazes, mas nem sempre são decisivas: podem sustentar funções biológicas que se tornaram insuficientes, ou mesmo substituí-las, mas isso não equivale a promover a saúde”. Conforme observou Tommaso Scandoglio em La Nuova Bussola quotidiana, para evitar interpretações enganosas bastaria adicionar o advérbio “sempre” diante da expressão “a promover a saúde”.

Como conclusão, além de qualquer interpretação destinada a minimizar ou acentuar a pretensa novidade da Mensagem papal, sem todas as observações técnicas possíveis e independentemente das intenções reais ou não, um resultado é evidente: as palavras do Papa Francisco, pelo menos na Itália, ofereceram ajuda e publicidade àqueles que vêm lutando para introduzir a eutanásia no sistema legal.

 

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10 novembro, 2017

O “giro luterano” do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 09-11-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comEm 31 de outubro de 2016, o papa Bergoglio inaugurava o ano de Lutero, reunindo-se com representantes do luteranismo mundial na catedral sueca de Lund. A partir de então, reuniões e celebrações “ecumênicas” se sucederam ad abundantiam no interior  da Igreja.

Selo 500 anos de LuteroA um ano exato daquela data, o “giro luterano” foi chancelado por um ato simbólico, de cuja gravidade poucos se deram conta: a emissão, pelos Correios do Vaticano, de um selo comemorativo do nascimento do protestantismo em 31 de outubro de 1517, com a afixação das 95 teses de Lutero na porta da capela do castelo de Wittenberg.

“V Centenário da Reforma Protestante”, lê-se no topo do selo, apresentado em 31 de outubro deste ano pelo Departamento Filatélico do Vaticano. Segundo o comunicado oficial, o selo retrata “em primeiro plano, Jesus crucificado, tendo ao fundo um céu dourado sobre a cidade de Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 foram fixadas pelo frei agostiniano as 95 teses. De joelhos, à esquerda, Martinho Lutero com uma Bíblia, enquanto à direita está seu amigo Felipe Melanchton – um dos maiores divulgadores da Reforma – tendo em mãos a Confissão de Augsburgo, o primeiro documento oficial dos princípios do protestantismo.”

A substituição, ao pé da Cruz, de Nossa Senhora e de São João pelos heresiarcas Lutero e Melanchton é uma afrontosa blasfêmia que nenhum cardeal ou bispo católico até agora criticou abertamente. O significado desta representação é explicado pela declaração conjunta da Federação Luterana Mundial e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, publicada no mesmo dia do lançamento do selo. A nota se refere ao balanço positivo do diálogo entre católicos e luteranos, confirma a “nova compreensão dos eventos do século XVI que provocaram a [sua] separação” e afirma como ambas as partes “d[ão] graças pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma”.

Como se não bastasse, naqueles mesmos dias La Civiltà Cattolica, a voz “oficiosa” do Papa Francisco, celebrou Lutero com um artigo do padre Giancarlo Pani (Martinho Lutero, quinhentos anos depois, in La Civiltà Cattolica de 21 de outubro a 4 de novembro de 2017, pp. 119-130).

O Pe. Pani é o mesmo que em 2014 afirmou que os Padres do Concílio de Trento teriam admitido a possibilidade do divórcio e do novo casamento em caso de adultério, de acordo com o costume em voga na igreja cismática grega. Agora ele sustenta que Martinho Lutero não foi de nenhum modo um herege, mas um verdadeiro “reformador”. De fato, “as teses de Wittenberg não são nem um desafio nem uma rebelião contra a autoridade, mas a proposta de renovação da proclamação evangélica, no desejo sincero de uma ‘reforma’ da Igreja” (p. 128). Apesar da reivindicação “tanto da Igreja de Roma quanto de Lutero, de encarnar em tudo a verdade e de serem os seus dispensadores”, “não se pode negar o papel que Lutero teve como testemunha da fé. Ele é ‘o reformador’: soube iniciar um processo de ‘reforma’ do qual – sejam quais tenham sido então os resultados – a Igreja Católica também se beneficiou” (p. 129).

De ser assim, Lutero teria sido injustamente perseguido e difamado pela Igreja durante 500 anos, e a hora de reabilitá-lo teria chegado. Para isso, não bastaria limitar-se a apresentar o seu rosto profético, mas seria necessário que a Igreja acolhesse e pusesse em prática suas iniciativas reformadoras. E a Exortação pós-sinodal Amoris laetitia representaria uma etapa decisiva nesse caminho. Não se equivocaram,  pois, os autores da Correctio filialis ao Papa Francisco, quando enfatizaram “a afinidade entre as ideias de Lutero sobre a lei, a justificação e o casamento, e aquelas ensinadas ou favorecidas pelo Papa Francisco em Amoris laetitia e outros lugares”.

Vale a esta altura lembrar que o papa Bergoglio pertence, como o Pe. Pani, à Companhia de Jesus, e que o fundador desta, Santo Inácio de Loyola, foi o campeão da fé suscitado pela Divina Providência no século XVI contra o luteranismo. Na Alemanha, apóstolos como São Pedro Canísio e o Beato Pedro Fabro disputaram palmo a palmo o terreno com os hereges, e no plano da controvérsia antiprotestante ninguém superou São Roberto Belarmino.

La Civiltà Cattolica foi fundada em 1850 com o encorajamento de Pio IX e desempenhou durante muito tempo o papel de bastião doutrinário contra os erros da época. Em sua primeira edição, em 6 de abril de 1850, ela dedicou um amplo ensaio (anônimo, mas de autoria do Pe. Matteo Liberatore) intitulado Racionalismo político da Revolução italiana, o qual encontrava no protestantismo a causa de todos os erros modernos. Essas teses foram desenvolvidas, entre outros, por dois conhecidos teólogos jesuítas, os padres Giovanni Perrone (O protestantismo e regra de fé, “La Civiltà Cattolica”, Roma, 1853, 2 vol.) e Hartmann Grisar (Lutero, Herder, Freiburg im Breisgau 1911/1912, 3 vols.).

Mas assume particular significado a comemoração da revolta luterana feita pela revista da Companhia de Jesus em outubro de 1917, no IV centenário da afixação das teses de Wittenberg (Lutero e o luteranismo, in La Civiltà Cattolica, IV (1917), pp. 207 -233; 421-430). O teólogo da Civiltà Cattolica explicava que: “A essência do espírito luterano, ou seja, do luteranismo, é a rebelião em toda a sua extensão e em toda a força da palavra. A rebelião que Lutero personificou foi variada e profunda, complexa e vastíssima; na aparência, ela de fato surgiu e foi violenta, odiosa, trivial, obscena e diabólica; mas, na realidade, foi planejada e dirigida de acordo com as circunstâncias, e visava objetivos conjunturais e de grande interesse, procurados e desejados com ânimo mesurado e tenacíssimo” (pp. 208-209).

Lutero – continua La Civiltà Cattolica“começou aquela indigna paródia com a qual o monge rebelde atribuía a Deus as ideias, as maldições, as infâmias de sua mente pervertida: ele ultrajou de modo inaudito o Papa em nome de Cristo; amaldiçoou a César em nome de Cristo; blasfemou contra a Igreja, contra os bispos, contra os monges com a mesma impetuosidade infernal, em nome de Cristo; jogou sua batina na árvore de Judá em nome de Cristo, e em nome de Cristo juntou-se com uma freira sacrílega” (p.209). “Com o pretexto muito cômodo de seguir a Escritura como a única fonte que contém a palavra de Deus, ele voltou sua guerra contra a teologia escolástica, a tradição, o direito canônico, a todas as instituições e preceitos da Igreja, aos Concílios: a todas essas coisas tão augustas e venerandas, ele, Martinho Lutero, monge pervertido e teólogo recauchutado, se substituiu com a sua autoridade! Os papas, os doutores, os Santos Padres não valiam mais nada: mais do que todos valia a palavra de Martinho Lutero!” (p.  212). A teoria da justificação luterana, finalmente, “nasceu da fantasia de Lutero, não a partir do Evangelho ou de outra palavra de Deus revelada aos autores do Novo Testamento: para nós qualquer novidade de Lutero encontra sua origem e estímulo na concupiscência, e seu desenvolvimento na falsificação da Escritura ou na mentira formal” (p.221).

O Pe. Pani não poderá negar que o julgamento que ele faz de Lutero discrepa em 360 graus daquele que seus confrades fizeram na mesma revista há um século. Em 1917, ele era reprovado como apóstata, rebelde, blasfemo; hoje é exaltado como reformador, profeta, santo. Nenhuma dialética hegeliana pode harmonizar o julgamento de ontem com o de hoje. Ou Lutero foi um herege que negou alguns dogmas básicos do Cristianismo, ou foi “testemunha da fé” que iniciou a Reforma da Igreja concluída pelo Concílio Vaticano II e pelo Papa Francisco. Em uma palavra, todo católico é chamado a escolher entre estar do lado do Papa Francisco e dos jesuítas de hoje, ou dos jesuítas de ontem e dos papas de todos os tempos.

É hora de escolher e a meditação de Santo Inácio sobre as duas bandeiras (Exercícios espirituais, nº 137) realmente nos ajuda nestes tempos difíceis.