Archive for ‘O Papa’

17 agosto, 2017

Cardeal Burke: esse será o modelo da correção formal ao Papa Francisco

Pete Baklinski, 16 de agosto de 2017, LifeSiteNews | Tradução: FratresInUnum.com: Uma vez que o Papa Francisco optou por não responder às cinco perguntas sobre se a sua Exortação Amoris Laetitia está em conformidade com a doutrina católica, é “necessário” fazer uma “correção” dos aspectos em que seu ensinamento se distancia da fé católica, disse o Cardeal Raymond Burke em uma nova entrevista.

O Cardeal, que é um dos quatro signatários dos dubia apresentados há cerca de um ano e que pedia ao Papa para esclarecer o seu magistério, explicou em uma entrevista ao The Wanderer a maneira como se deve proceder para emitir uma “correção formal”.

 Burke explicou: “Parece-me que a essência da correção é bastante simples”.

“Por um lado, expõe-se a doutrina clara da Igreja; por outro, aquilo que efetivamente está sendo ensinado pelo Romano Pontífice é afirmado. Se houver contradição, o Romano Pontífice é instado a conciliar seu próprio ensinamento em obediência a Cristo e ao Magistério da Igreja,” ele disse.

“A pergunta é a seguinte: ‘Como essa correção seria feita?’ De maneira muito simples, por meio de uma declaração formal a qual o Santo Padre seria obrigado a responder. Os Cardeais Brandmüller, Caffarra, Meisner e eu usamos uma instituição antiga na Igreja que propõe os dubia ao Papa,” continuou o Cardeal.

Fizemos isso de maneira muito respeitosa e de maneira alguma com agressividade, para dar-lhe a ocasião de expor a doutrina imutável da Igreja. O Papa Francisco optou por não responder aos cinco dubia. Então, agora é necessário simplesmente afirmar a doutrina da Igreja a respeito do matrimônio, da família, dos atos intrinsecamente maus, e assim por diante. Esses são os pontos que não estão claros nos ensinamentos atuais do Romano Pontífice. Portanto, esta situação deve ser corrigida. A correção se dirigiria principalmente a esses pontos doutrinários”, acrescentou.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Cardeais Raymond Burke, Joachim Meisner (recém-falecido), Walter Brandmüller e Carlo Caffarra LifeSite

No ano passado os quatro cardeais divulgaram suas perguntas (dubia), uma vez que o papa não lhes respondeu. Eles esperavam que a resposta do Papa às suas cinco perguntas do tipo sim ou não dissiparia o que chamavam de “incerteza, confusão e desorientação entre muitos fiéis” decorrentes da exortação polêmica.

Em junho, os quatro divulgaram publicaram uma carta ao Papa, na qual pediram, sem lograr êxito, uma audiência privada para discutir a “confusão e desorientação” dentro da Igreja em razão da exortação.

A exortação tem sido usada por vários bispos e grupos episcopais, inclusive na Argentina, Malta, Alemanha e Bélgica, para emitir diretrizes pastorais que permitem que a Comunhão seja dada aos católicos divorciados e recasados no civil que vivem em adultério. Entretanto, bispos no Canadá e na Polônia emitiram declarações com base na leitura do mesmo documento, que proíbe esses casais de receberem a Comunhão.

O Papa Francisco ainda não dialogou com os três cardeais remanescentes.

Burke disse na entrevista ao The Wanderer que o Papa é o “princípio da unidade dos bispos e de todos os fiéis”.

“Entretanto, a Igreja está sendo dilacerada neste momento pela confusão e divisão”, ele disse.

“O Santo Padre deve ser instado a exercer seu ofício para pôr fim à confusão”, acrescentou.

Se o Papa continuar se recusando a responder aos dubia, o “próximo passo seria uma declaração formal afirmando claramente a doutrina da Igreja, conforme exposto nos dubia”, disse Burke.

“Além disso, a declaração afirmaria que essas verdades da Fé não estão sendo definindas pelo Romano Pontífice com clareza. Em outras palavras, em vez de fazer as perguntas como foram feitas nos dubia, a correção formal consistiria em dar as respostas, conforme eninadas claramente pela Igreja”, acrescentou.

Acredita-se amplamente que os Cardeais, seguindo as doutrinas da Igreja sobre o Matrimônio, a Penitência e a Eucaristia, responderiam as cinco perguntas com sim ou não, da seguinte maneira:

  1. Seguindo as afirmações da Amoris Laetitia (números 300-305), um casal que vive habitualmente em adultério pode receber a absolvição e a Sagrada Comunhão? NÃO
  2. Com a publicação de Amoris Laetitia (ver n° 304), ainda é preciso considerar válido o ensinamento de São João Paulo II na Veritatis Splendor de que existem “normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus e que são vinculativos sem exceções? “SIM
  3. Após a Amoris Laetitia (nº 301), ainda é possível afirmar que o adultério habitual pode ser uma “situação objetiva de pecado habitual grave”? SIM
  4. Após as afirmações da Amoris Laetitia (nº 302), os ensinamentos de João Paulo II na Veritatis Splendor ainda são válidos no sentido de que as “circunstâncias ou intenções nunca podem transformar um ato intrinsecamente mau em virtude de seu objeto em um ato “subjetivamente” bom ou que pode ser defendido como uma escolha “? SIM
  5. Após a Amoris Laetitia (nº 303), ainda é preciso considerar como válido o ensinamento da encíclica Veritatis Splendor de São João Paulo II “que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência e enfatiza que a consciência nunca pode ser autorizada a legitimar exceções às normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus em virtude de seu objeto? “SIM

O cardeal Burke disse que os fiéis católicos que se sentem frustrados com a maneira como o Papa Francisco lidera a Igreja não devem acolher nenhuma noção de “cisma”.

Ele disse: “As pessoas falam sobre um cisma de facto. Sou absolutamente contrário a qualquer tipo de cisma formal – um cisma nunca pode ser certo “.

“Entretanto, as pessoas podem estar vivendo em uma situação cismática se abandonaram a doutrina de Cristo. A palavra mais apropriada seria aquela que Nossa Senhora usou em sua Mensagem em Fátima: apostasia. Pode haver apostasia dentro da Igreja e, de fato, é o que está acontecendo. Com relação a essa apostasia, Nossa Senhora também se referiu à omissão dos pastores em buscar a unidade da Igreja”, acrescentou.

 

17 agosto, 2017

Bispos venezuelanos pressionaram Vaticano a rechaçar a Constituinte de Maduro.

Por Hermes Rodrigues Nery

Os bispos venezuelanos, pressionados pelo peso da realidade, é que pressionaram o papa Francisco a não ficar omisso diante da gravíssima crise da Venezuela, com o risco de comprometer toda a credibilidade internacional da diplomacia vaticana. Foi a pressão dos bispos que fez a Secretaria de Estado rechaçar a Constituinte de Maduro.

FratresInUnum.com – 17 de agosto de 2017: Foram os bispos venezuelanos que fizeram pressão para que o Vaticano rechaçasse a Constituinte de Nicolás Maduro. A situação da Venezuela se agravara de tal forma, que não havia mais como protelar o silêncio, a omissão, ou mesmo a ambiguidade de posição a respeito dos abusos de um regime político a devastar um país, com a maioria da população vulnerável à pobreza, ao despotismo e à violência.

papa_e_maduro94055Os fatos concretos mostravam o peso da realidade, que não era mais possível ignorar: o equívoco do projeto político da “Pátria Grande”, cuja integração latino-americana (visando a implantação do socialismo) dava evidências de falimento. Nesse contexto, a Venezuela passou a tornar-se um problema sério demais para o primeiro papa latino-americano, que recebera efusivamente os líderes dos movimentos populares de esquerda no Vaticano, como João Pedro Stédile, Evo Morales, e também o próprio Nicolás Maduro, dentre outros.

Phil Lawler destacou no Catholic Culture que “os bispos venezuelanos foram firmes e consistentes em sua oposição à campanha de Maduro para consolidar seu poder. (…) Do Vaticano, no entanto, houve silêncio. E Maduro, um demagogo hábil, não hesitou em chamar a atenção para esse silêncio, alegando que, enquanto os bispos venezuelanos se opõem a ele, o Papa não. Até apenas esta semana, não houve uma declaração clara do Vaticano para provar o erro de Maduro”. William McGurn destacou no Wall Street Journal que “o papa Francisco tem sido severo em seu julgamento sobre o tipo de ‘populismo’ praticado por Donald Trump, mas parece odiar denunciar o ‘populismo’ de uma esquerda latino-americana”.

Diante do cenário cada vez mais tenso na Venezuela, os analistas internacionais passaram a observar a postura do papa Francisco em relação aos desdobramentos da crise, pois muitos se recordavam do que ele dissera, com ênfase, ao Pe. Antonio Spadaro, na histórica entrevista da revista La Civiltà Cattolica: “nunca fui de direita”.

Ao falar sobre como os próprios líderes mundiais de esquerda avaliam Nicolás Maduro, Jacopo Barizaggazi mencionou Jorge Mario Bergoglio, afirmando: “O papa nascido na Argentina tem sido um forte apoio aos chamados líderes progressistas na América Latina, como Evo Morales, da Bolívia, e seus críticos o acusam de ambiguidade em relação ao governo na Venezuela. O Vaticano tentou mediar entre Maduro e a oposição, mas, em uma coletiva de imprensa, em abril, o papa parecia culpar a oposição pela falta de progresso, dizendo: ‘Parte da oposição não quer isso’. O analista do Vaticano, Sandro Magister, escreveu, em maio, que o papa foi “imperdoavelmente imprudente com Maduro e o chavismo”, além de ser “incompreensivelmente reticente às vítimas da repressão e à agressão que atinge a própria Igreja”.

O que o papa latino-americano poderia fazer caso a situação chegasse a um ponto em que não seria mais possível qualquer neutralidade, nem mesmo tibieza, especialmente quando os fatos comprovassem o horror de um regime político, com premissas e aspectos contrários à doutrina moral e social católica? Outros envolvimentos de Bergoglio no complexo contexto latino-americano geraram controvérsias, como o restabelecimento diplomático dos Estados Unidos e Cuba (Obama/Raul Castro, visando o fim do embargo a Cuba) e o polêmico “acordo de paz” entre o governo da Colômbia e os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

A sua aposta política, em alguns casos, deixava brechas para os líderes de esquerda instrumentalizarem certos pronunciamentos e iniciativas de Bergoglio (que chocavam os católicos) para favorecer seus intentos políticos, como também, em certos aspectos, a agenda das fundações internacionais e das agências da ONU. Não apenas as declarações polêmicas e ambíguas, mas também as atitudes que alargavam tais brechas. Afinal, os católicos ficavam cada vez mais confusos e angustiados quando viam, por exemplo, as portas abertas do Vaticano para receber, com efusão, Gustavo Gutierrez, Jeffrey Sachs e Paul Ehrlich, enquanto Michel Schooyans e Christine Wolmer deixavam de ser vitalícios na Pontifícia Academia para a Vida, para dar lugar a outros, inclusive abortistas, como Nigel Biggar.

Com a Venezuela, o “papa político” fez mais uma vez uma aposta arriscada, ao receber Maduro no Vaticano (quando a crise já indicava abusos inaceitáveis) e a colocar o cardeal Pietro Parolin à frente de negociações em que, desde o início, os bispos venezuelanos sabiam que com Maduro não havia o que dialogar, pois o que ele queria mesmo era radicalizar o chavismo, com o qual estava comprometido. Não apenas Maduro, mas outras lideranças de esquerda esperavam que não viesse de Bergoglio uma condenação política explícita e contundente, a curto prazo, pois ele, “defendeu várias vezes um estado forte que forneça os bens de ‘casa, terra e trabalho’ para a população”, como destacou George Neumayr.

No entanto, nos últimos meses, o que os bispos desejavam era uma palavra mais firme do Vaticano justamente contra o bolivarianismo, que Maduro não estava disposto em ceder. Era evidente que o impasse chegaria, quando as consequências do regime fizessem vítimas fatais, como  já vinha acontecendo. O fato é que a situação na Venezuela passou a exigir mais do que uma tomada de posição, mas ações a requererem coragem e coerência. Por isso, os bispos venezuelanos buscaram a audiência com o papa, a fórceps, o que ocorreu em 8 de junho de 2017, como conta McGurn: “… uma reunião de seis bispos que foram obrigados ao horário de Francisco, quando eles voaram para Roma em junho – sem serem convidados.”

Os prelados levaram a Francisco a posição da realidade, como salientou o Pe. Raymond J. de Souza, no Crux: “Não há mais nenhuma dúvida. Maduro preside um regime desonesto que está matando seu próprio povo em defesa de uma ideologia socialista desacreditada. Por que o papa Francisco procuraria permanecer neutro entre esse regime e as massas sofredoras?” E então, os bispos apresentaram concretamente a lista dos mortos do regime de Maduro (muitos jovens), e disseram que não há como ser ambíguo nessa questão, pois do contrário a Igreja perderia credibilidade. A pressão dos bispos venezuelanos, portanto, foi decisiva para a Secretaria de Estado do Vaticano ter rechaçado a Constituinte de Maduro.

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3 agosto, 2017

O novo Panteón dos mártires do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 19-7-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Entre os diversos “grupos de trabalho” constituídos pelo Papa Francisco está a Comissão Mista de Especialistas croatas católicos e sérvios ortodoxos para uma releitura em comum da figura do Cardeal Alojzije Stepinac, Arcebispo de Zagreb, que em 12 e 13 de Julho 2017 realizou sua última reunião na Casa de Santa Marta, no Vaticano, sob a direção do padre Bernard Ardura, presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas. O comunicado conjunto da Comissão, publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé em 13 de julho, afirma que “o estudo da vida do Cardeal Stepinac ensinou que na história todas as Igrejas sofreram cruelmente diversas perseguições e têm seus mártires e confessores da fé. A este respeito, os membros da Comissão chegaram a um acordo sobre a possibilidade de futura colaboração, com vista a um trabalho comum para partilhar a memória dos mártires e confessores das duas Igrejas”.

Essa afirmação, que sintetiza as seis reuniões de trabalho realizadas pela Comissão, inverte o conceito católico de martírio. Com efeito, o martírio, segundo a Igreja Católica, é a morte enfrentada para testemunhar a Verdade. Não uma verdade qualquer, mas uma Verdade de fé ou de moral católica. Na Igreja se celebra, por exemplo, o martírio de São João Batista, que sofreu a morte por ter repreendido publicamente o adultério de Herodes. Vale o dito de Santo Agostinho: martyres non facit poena, sed causa (Enarrationes in Psalmos, 34, 13, col 331.). Não é a morte que faz o mártir, mas a causa da morte, infligida por ódio à fé ou à moral católica.

Para a comissão chefiada pelo padre Ardura, pelo contrário, martyres non facit causa, sed poena: não significa outra coisa a equiparação “dos mártires e confessores das duas Igrejas”, a Católica e a ortodoxa. Este princípio, segundo o comunicado, pode ser estendido a “todas as igrejas” que tiveram “mártires” e “confessores” de suas respectivas crenças. Mas se o mártir é quem sofre a morte para defender a sua crença, por que não considerar mártir aquele cristão sui generis que foi Giordano Bruno, colocado na fogueira pela Igreja Católica em Campo de Fiori, em 17 de fevereiro de 1600? No fundo a Maçonaria sempre o considerou um “mártir” da religião da liberdade, e como tal o apóstata dominicano foi homenageado no último 17 de fevereiro na sede do Grande Oriente da Itália por um sacerdote da Diocese de Mileto – o padre Francesco Pontoriero –, que  relembrou as decisões de Giordano Bruno “até a última, aquela que o levou a voltar a Veneza, onde pesava sobre  ele uma sentença de morte, e depois a de abraçar o martírio, na certeza de que só asim sua mensagem de liberdade peduraria longamente no tempo”.

A reunião de Santa Marta foi precedida de dois dias por um Motu proprio do Papa Francisco – Maiorem hac dilectionem, de 11 de julho –, que escapou à atenção geral e introduz “o oferecimento da vida” como um novo motivo para o processo de beatificação e canonização, distinto da modalidade tradicional do martírio e da heroicidade das virtudes. Em artigo publicado em 11 de julho no Osservatore Romano, o arcebispo Dom Marcello Bartolucci, secretário da Congregação para a Causa dos Santos, disse que até agora as três formas pré-estabelecidas para alcançar a beatificação eram as do martírio e das virtudes heróicas, e a da chamada “beatificação equipolente” [de servos de Deus que viveram há muitos séculos]. Agora, a essas três é adicionada uma quarta via, “o oferecimento da vida”, que “visa promover um heróico testemunho cristão, até aqui sem um procedimento específico, porque não se encaixa inteiramente no caso oe martírio, nem no das virtudes heróicas”.

O Motu proprio precisa que o oferecimento da vida, para que seja válido e efizaz para a beatificação de um Servo de Deus, deve responder aos seguintes critérios: a. oferecimento livre e voluntário da vida e heróica aceitação propter caritatem de uma morte certa e em breve prazo; b. nexo entre o oferecimento da vida e a morte prematura; c. exercício, pelo menos em grau ordinário, das virtudes cristãs antes do oferecimento da vida e, depois, até a morte; e. necessidade do milagre para a beatificação, ocorrido após a morte do Servo de Deus e pela sua intercesão.

Mas o que significa propter caritatem? A caridade, definida por Santo Tomás como a amizade do homem com Deus e de Deus com o homem (Suma Teológica, II-IIae, q, 23, a. 1), é a mais excelente de todas as virtudes. Ela consiste em amar a Deus e, em Deus, o nosso próximo. A caridade não é, portanto, uma virtude que nos leva a amar os nossos semelhantes enquanto homens, mas é um ato sobrenatural que tem em Deus o seu fundamento e o seu último fim. A caridade tem também uma hierarquia: primeiramente, os interesses espirituais de nosso próximo devem prevalecer sobre os seus interesses materiais. Em segundo lugar, é preciso amar os que nos são próximos antes daqueles que estão mais distantes de nós (Suma Teológica, II-IIae, q. 26, a. 7), e se houvesse alguma vez um conflito entre os interesses dos próximos e os dos distantes, dever-se-ia dar prioridade aos primeiros sobre os segundos. É esta a nova visão do Motu proprio papal? É de se duvidar.

Entrevistado por Voce Isontina,  revista semanal da Arquidiocese de Gorizia, Dom Vincenzo Paglia, novo presidente da Academia Pontifícia para a Vida, expressou sua alegria pelo documento do Papa Francisco porque, destaca, “tenho estado de algum modo envolvido como postulador da Causa de beatificação de Dom Oscar Arnulfo Romero”. “O arcebispo de El Salvador, de fato – prossegue –, não foi morto por perseguidores ateus para que renegasse a fé na Trindade: foi assassinado por cristãos porque queria que o evangelho fosse vivido na sua profunda intuição de dom da vida”.

Dom Romero representa, portanto, o modelo de um “oferecimento da vida” equiparado ao martírio. A “quarta via” que, de acordo com o Motu proprio do Papa Francisco, levará à canonização, é a morte sofrida não por ódio à fé, mas como resultado de uma escolha política a serviço dos pobres, dos imigrantes e da “periferia” da terra. Poderão ser excluídos das beatificações os sacerdotes guerrilheiros mortos propter caritatem nas revoluções políticas das últimas décadas? Mas então, por que não equiparar aos mártires e começar a beatificação de todos os cristãos que deram suas vidas em uma guerra justa? Morrendo por sua pátria, eles fizeram um excelente ato de caridade, uma vez que “o bem da nação é superior ao bem individual” (Aristóteles, Ética, I, cap. II, n° 8). A Igreja Católica nunca os considerou mártires porque lhes falta a motivação religiosa, mas parece injusto privá-los de um espaço no novo Panteão dos mártires do Papa Francisco.

 

27 julho, 2017

O “calcanhar de Aquiles” do pontificado de Francisco.

Por Catarina Maria B. de Almeida | FratresInUnum.com

Un café con Galat”. É assim que se chama o programa da TV Teleamiga, emissora de orientação católica de Bogotá, que está dando dores de cabeça ao episcopado colombiano.

O programa leva o nome de seu apresentador, José Galat, acadêmico e presidente do canal televisivo e da Universidade La Gran Colombia, que resolveu se colocar na contramão do pontificado de Francisco.

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Galat alega que o Papa argentino não teria sido legitimamente eleito e que favoreceria abertamente a heresia na Igreja Católica. Até aí, nenhuma novidade.

Acontece que a Conferência Episcopal Colombiana emitiu um “Comunicado” em que afirma que, “ao rechaçar a sua sujeição ao Papa e ao ferir gravemente a comunhão da Igreja, incorre-se em um cisma”, e solicita “àqueles que participam em outros espaços do canal, ainda que com a intenção de servir à evangelização, a deixar esta colaboração” e exorta aos “sacerdotes e religiosos que deixem todo tipo de apoio a este canal”. Além disso, proíbe a transmissão da Santa Missa pela emissora e pede que os fieis deixem de assisti-la.

Como se isso não bastasse, Mons. Pedro Mercado Cepeda, Vigário Judicial da Arquidiocese de Bogotá e Presidente do Tribunal Eclesiástico, tirando as consequências da declaração dos bispos, afirmou à agência de notícias Aciprensa que, “com sua irada resposta ao episcopado e seu contumaz rechaço ao Papa Francisco, o Dr. José Galat se colocou fora da comunhão da Igreja Católica”, estando, portanto, “excomungado”, não devendo “ser admitido aos sacramentos até dar mostras claras de arrependimento”.

Diante de uma reação tão clamorosa, cabem algumas considerações.

Por que os bispos nunca defenderam os papas anteriores, Bento XVI, João Paulo II e, inclusive, Paulo VI? Nunca se viu uma Conferência Episcopal tomar medidas tão drásticas contra um canal de televisão ou mesmo contra um teólogo, quando o assunto foi obediência ao Sucessor de Pedro. No Brasil, Leonardo Boff sempre foi o queridinho dos bispos. Quem esquecerá a rebelião promovida por episcopados inteiros (como ignorar a infame declaração de Winnipeg da Conferência Episcopal do Canadá?) contra Paulo VI, por causa da Humanae Vitae, ou as críticas ásperas de Benhard Häring ou do Cardeal Martini a João Paulo II e a Bento XVI no final de suas vidas?… Algum episcopado se manifestou? Nenhum!

Os que outrora criticaram abertamente os papas anteriores agora são bajulados pelos defensores de Francisco e, inclusive, por ele mesmo. Na 36a. Congregação Geral da Companhia de Jesus, o primeiro Papa jesuíta elogiou rasgadamente Bernhard Häring, como bem documenta a revista La Civiltà Cattolica. Em seu primeiro Angelus, ele também louvou publicamente o Cardeal Kasper, grande articulador de sua eleição e seu estreito colaborador em Amoris Laetitia. Kasper que, outrora, desafiava escancaradamente a autoridade de João Paulo II e do então Cardeal Ratzinger ao criticar de maneira contundente a declaração Dominus Iesus. Francisco também não economizou elogios ao maior antagonista de João Paulo II e Bento XVI, o Cardearl Carlo Maria Martini, arcebispo emérito de Milão, seu confrade jesuíta. Ultimamente, circulam rumores de que Francisco teria convocado Leonardo Boff, um de seus colaboradores em Laudato Si, para reparar as “injustiças” que o então Cardeal Joseph Ratzinger teria cometido contra ele. Parece que atacar o Papa não é algo tão reprovável assim, desde que o atacado não seja Francisco.

Aqueles que defenderam os papas anteriores e por eles perderam a fama, a honra, o prestígio, os bens, agora são considerados cismáticos pelo simples fato de criticarem os críticos daqueles mesmos papas, mas que, agora, estão no controle da Sé Apostólica. Como já é tradição, os progressistas pregam a libertação e a fraternidade como desculpa para perseguirem todos os seus opositores, praticando uma misericórdia seletiva, que exclui decididamente qualquer um que ouse pensar diferentemente deles. Em tempos nos quais os adúlteros são admitidos publicamente à comunhão eucarística numa cerimônia realizada exclusivamente para isso, o diretor de uma TV católica é excluído dos sacramentos por questionar Francisco. Em outras palavras, Papa Francisco seria mais importante que Cristo Eucarístico! Estaríamos diante de uma idolatria?

Toda a doutrina católica pode ruir. Parece que o único dogma existente na Igreja de hoje é não contrariar o Papa Bergoglio!

Mas, resta uma pergunta: por que uma reação tão desproporcional? A resposta parece estar no fato de que Galat tocou no tema tabu, naquele sobre o qual ninguém pode falar nada: a eleição de Francisco.

Deixando de lado a estranha renúncia de um papa que não renunciou ao título, à batina branca, ao nome, à residência no Vaticano, que afirmou que renunciava apenas ao “exercício ativo do ministério” (afirmação tão misteriosa que talvez nem ele mesmo tenho entendido), cujo secretário afirmou que “há um ministério expandido” e Bento continua a ser papa reinante simultaneamente com o outro, e tudo em circunstâncias enigmáticas em que parecem ter intervindo poderes extraeclesiais, fixemos nossa atenção brevemente na eleição de Francisco.

Na biografia autorizada de Papa Bergoglio, a jornalista argentina Elisabetta Piqué conta que ele foi eleito no quinto escrutínio do dia 13 de março de 2013, pois o quarto escrutínio do dia teria sido anulado (visto que, na contagem dos votos, havia uma cédula em branco a mais, que algum dos eleitores teria colocado por engano) e os cardeais teriam realizado imediatamente uma nova eleição (a quinta do dia, a terceira daquela tarde).

Acontece que a Constituição Universi Dominici Gregis, que regula o Conclave, estabelece que “se porventura, no apuramento dos votos, os escrutinadores encontrarem duas fichas dobradas de maneira tal que pareçam preenchidas por um único eleitor, e se em ambas figura o mesmo nome, elas contam por um único voto; se, pelo contrário, nelas figuram dois nomes diferentes, nenhum dos dois votos será válido; em nenhum dos casos, porém, será anulada a votação” (n. 69).

Ali se estabelece, também, que no primeiro dia do Conclave “haverá um só escrutínio; nos dias sucessivos, se a eleição não se fizer no primeiro escrutínio, deverá haver duas votações, tanto da parte da manhã como da tarde” (n. 63). O quinto escrutínio seria, então… ilegal?

Essas normas não são sem importância, pois, como afirma categoricamente o mesmo documento, “no caso de a eleição ser feita de uma forma diversa daquela prescrita na presente Constituição ou sem terem sido observadas as condições aqui estabelecidas, tal eleição é por isso mesmo nula e inválida, sem necessidade de qualquer declaração, e, portanto, não confere direito algum à pessoa eleita” (n. 76). Em seu livro Non é Francesco, Antonio Socci comenta longamente o problema.

Nem falemos sobre a máfia de St. Gallen, o grupo de cardeais que fez um bloco de resistência a Bento XVI e desde 2005 trabalhava pela eleição de Bergoglio, cuja chefia orgulhosamente foi confessada em plena televisão pelo Cardeal Danneels, da Bélgica.

Renúncia misteriosa, conclave irregular?… Por que tanto medo à crítica? Por que um silenciamento tão enérgico? Essa demonstração de força pode revelar, no fundo, uma fraqueza. Não seria esse o ponto fraco deste pontificado: a legitimidade? Talvez, José Galat nem sonhe com quem está mexendo…

Fato é que a verdade tende a aparecer. Pouco serve esconder o defunto no fundo do rio: numa bela manhã, o cadáver aparece.

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11 julho, 2017

Fonte: Antes de demitir o Cardeal Müller, o Papa fez cinco perguntas pontuais.

Por Maike Hickson, One Peter Five, em 10 de julho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com –  Depois que o Cardeal Gerhard Müller, ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, revelou que havia conversado ao telefone com o finado Cardeal Joachim Meisner sobre sua recente demissão e que essa conversa acontecera na véspera do súbito falecimento de Meisner, na manhã de 5 de julho, várias fontes bem informadas na Europa com quem mantenho contato usaram todas a mesma expressão, ou seja, eles especularam que talvez o Cardeal Meisner “tenha morrido de tristeza”. À luz das seguintes revelações sobre o conteúdo do encontro entre o Papa Francisco e o Cardeal Müller, em 30 de junho, podemos estar ainda mais propensos a acreditar que isso tenha acontecido – ao menos, como uma possibilidade moral.

As informações a seguir procedem do relato de uma fonte alemã confiável, que falou ao OnePeterFive sob a condição de anonimato. Ele cita uma testemunha ocular que almoçou recentemente com o Cardeal Müller em Mainz, na Alemanha. Durante a refeição, o Cardeal Müller teria divulgado na presença dessa testemunha ocular certas informações sobre seu último encontro com o Papa, durante o qual ele foi informado de que seu mandato como Prefeito da CDF não seria renovado.

De acordo com esse relato, o Cardeal Müller foi convocado pelo Palácio Apostólico em 30 de junho, e assim ele foi para lá com seus arquivos de trabalho, supondo que essa reunião seria uma reunião de trabalho habitual. Contudo, o Papa lhe disse que tinha apenas cinco perguntas a fazer:

  • Você é contra ou a favor de um diaconato feminino? “Sou contra”, respondeu o cardeal Müller.
  • Você é contra ou a favor da revogação do celibato? “É claro que sou contra”, respondeu o cardeal.
  • Você é contra ou a favor do sacerdócio feminino? “Definitivamente sou contra essa ideia”, respondeu o Cardeal Müller.
  • Você está disposto a defender a Amoris Laetitia? “Tanto quanto seja possível para mim”, respondeu o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé: “ainda existem ambiguidades”.
  • Você está disposto a retirar sua reclamação a respeito da demissão de três de seus próprios funcionários? O Cardeal Müller respondeu: “Santo Padre, estes homens eram bons e sem culpa, dos quais sinto falta agora, e não foi correto demiti-los passando por cima de mim, pouco antes do Natal, de modo que tiveram que esvaziar seus escritórios até o dia 28 de dezembro. Sinto falta deles agora”.

Então, o papa respondeu: “Bom, Cardeal Müller, eu só queria lhe informar que não prorrogarei o seu mandato [ou seja, após o dia 2 de julho] como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.”

Sem dizer adeus ou dar uma explicação, o papa saiu da sala. A princípio, o Cardeal Müller pensou que o papa saiu para buscar um sinal de gratidão e, assim, ficou esperando pacientemente. Mas, não havia tal presente, nem mesmo um gesto de gratidão pelo seu serviço. O Prefeito da Casa Pontifícia, Arcebispo Georg Gänswein, teve que lhe explicar que a reunião havia terminado, e que era hora de partir.

No momento em que escrevemos este texto, não conseguimos obter confirmação desses eventos por parte do Cardeal Müller, nem de seu secretário, a quem nos dirigimos para comentar. Igualmente, pedimos um comentário de Greg Burke no Gabinte de Imprensa do Vaticano, mas, na ocasião não recebemos resposta alguma.

Se esse relato for verídico – e, dadas às fontes, temos poucos motivos para duvidar disso – podemos imaginar por que o Cardeal Meisner teria ficado angustiado depois de tomar conhecimento dessa reunião nas horas precedentes à sua morte. Será que estas cinco perguntas com suas respostas do tipo sim ou não, se de fato foram feitas ao Cardeal Müller, constituem uma espécie de dubia reversa? Será que as respostas do Cardeal, na medida em que estavam em consonância com o pensamento católico ortodoxo, foram o motivo para que ele não fosse convidado a permanecer no cargo de Prefeito da CDF? Três das cinco perguntas (diaconato feminino, celibato sacerdotal e promoção da Amoris Laetitia) foram amplamente discutidas como parte da agenda de “reforma” do papa. (A esse respeito vale a pena mencionar que o Arcebispo Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ, aprovado como substituto de Müller como Prefeito da CDF, foi nomeado no ano passado como Presidente da Comissão para o estudo do diaconato feminino). Mas será que o sacerdócio feminino realmente deveria ser analisado em relação ao diaconato feminino, mesmo que o Papa Francisco já tenha afirmado pessoalmente o entendimento de que o Papa João Paulo II decidiu definitivamente contra essa possibilidade? E quanto à última suposta pergunta – a respeito da demissão pelo papa de três sacerdotes da CDF no ano passado? Se essa pergunta fosse feita, seria apenas uma prova de obediência inquestionável? Lembre-se de que a resposta atribuída ao papa, quando indagado pelo Cardeal Müller sobre a demissão desses três sacerdotes, foi simplesmente dizer: “Eu sou o papa, não preciso dar razões para nenhuma das minhas decisões. Decidi que eles têm que sair e eles precisam sair”.

Em uma entrevista ao jornal alemão Passauer Neue Press, Müller revelou informações adicionais que parecem corroborar a forma abrupta descrita acima do seu encontro final com o papa: Segundo o Cardeal Müller, o Papa Francisco disse que “comunicou sua decisão” de não renovar seu mandato “em um minuto” no último dia de trabalho de seu mandato de cinco anos e não apresentou qualquer razão para isso.

“Não posso aceitar esse estilo [sic]”, disse Müller. “A doutrina social da Igreja deve ser aplicada” no relacionamento com os funcionários, acrescentou.

Conforme documentado em nosso próprio relato sobre a saída do Cardeal Müller, ele sofreu uma série de indignidades durante seu mandato como Prefeito da CDF sob o presente pontificado. No entanto, Müller esforçou-se desde o anúncio de sua saída para dar a aparência pública de que sua relação com o papa não estava desgastada. “Não houve diferenças entre mim e o papa Francisco”, disse Müller a um jornal alemão local durante a mesma visita a Mainz, quando ele alegou ter revelado ao seu companheiro de jantar o contexto de seu encontro final com o papa. Não está inteiramente claro se Müller está expressando uma falta de conflito entre si e o papa como sinal de solidariedade, ou para enfatizar a inesperada decisão do Papa de não renovar seu mandato. Seja qual for o caso, ele procurou minimizar publicamente o significado de sua demissão.

Há pouco sobre a demissão de Müller de um dos gabinetes eclesiásticos mais proeminentes da Igreja Católica que não seja incomum. Enquanto o respeitado vaticanista, Marco Tosatti, observou em seu importante ensaio First Things, de 7 de julho, que a saída de Müller do cargo aos 69 anos – muito antes da idade de aposentadoria obrigatória – foi “um gesto inédito na História recente da Igreja”. Nas últimas seis décadas. Tosatti observou que: “Os prefeitos da congregação mais importante da Igreja (chamada “La Suprema”) se aposentaram por motivos de idade ou de saúde, ou foram convocados, no caso de Joseph Ratzinger, para se tornar papa.” Nenhum deles durante esse período sofreu a indignidade de simplesmente ser demitido sem cerimônias.

Um caso relatado por Tosatti a partir de suas próprias conversas com amigos do cardeal alemão dá credibilidade especial à imagem emergente que o Papa Francisco há muito tempo tratou o prefeito emérito com desprezo:

Parece que Müller experimentou a vida sob Bergoglio como uma espécie de Calvário. Isso, apesar das declarações de Müller – ele foi um bom soldado até o fim, e ainda mais.

O primeiro passo do Calvário de Müller foi um episódio desconcertante ocorrido em meados de 2013. O cardeal estava celebrando Missa para um grupo de estudantes e intelectuais alemães na igreja anexa ao palácio da congregação. Seu secretário foi até ele no altar: “O papa quer falar com o senhor.” “Você lhe disse que estou celebrando missa?”, indagou Müller. “Sim”, disse o secretário, “mas ele diz que não se importa, ele quer falar com o senhor assim mesmo”. O cardeal foi até a sacristia. O papa, muito mal-humorado, deu-lhe algumas ordens e um dossiê sobre um dos seus amigos, um cardeal. (Este é um assunto muito delicado. Tenho buscado uma explicação deste incidente de canais oficiais. Até que venha a explicação, se algum dia vier, não posso dar mais detalhes.) Obviamente, Mūller ficou surpreso.

Como Marco Tosatti, buscamos, mas nunca podemos fornecer uma explicação sobre o incidente das cinco perguntas dos canais oficiais. Só podemos dizer que nossas fontes não são dadas a especulação ociosa. Eles estão confiantes de que os eventos aconteceram conforme descrito.

Por enquanto, basta observar que, nas atuais circunstâncias, mesmo os céticos teriam dificuldade em descartar um relato desse incidente. As histórias que saem do Vaticano ficam mais incríveis a cada dia – e mesmo a pior delas parece não merecer comentários – ou, o que é mais importante, correção – aos olhos das autoridades da Igreja.

Steve Skojec contribuiu para esta história.

3 julho, 2017

Cronologia deixa entrever os motivos do Papa para a destituição do conservador titular de elevado cargo doutrinário no Vaticano

Por:LifeSiteNews em 1º de julho de 2017 |Tradução: FratresInUnum.com – Desde sua nomeação pelo Papa Bento XVI ao cargo de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em 2012, o Cardeal Gerhard Ludwig Müller tem se pronunciado claramente a favor da ortodoxia em meio a um coro de vozes dissonantes no Vaticano. Essa função tornou-se visível durante os dois Sínodos da Família, em 2014 e 2015, quando ele opôs-se publicamente a clérigos poderosos da Alemanha, seu país de origem, como, por exemplo, os Cardeais Walter Kasper e Reinhard Marx.

Quando a discussão que levou aos Sínodos estava ocorrendo no final de 2013, o Cardeal Müller desferiu um ataque preventivo ao afirmar de maneira inflexível que não é possível dar a Comunhão aos católicos divorciados e recasados. “Se o matrimônio anterior de dois fiéis divorciados e recasados foi válido, em nenhuma circunstância a sua nova união poderá ser considerada legítima e, portanto, a recepção dos sacramentos é intrinsecamente impossível,” escreveu, citando o Cardeal Josef Ratzinger.

Pouco tempo depois, o Cardeal Oscar Andres Rodriguez Maradiaga, presidente do conselho privado de oito cardeais escolhidos pelo Papa, repreendeu Müller publicamente por ser muito rigoroso com a verdade. “O mundo, meu irmão, o mundo não é assim. Você deveria ser um pouco flexível ao ouvir outras vozes, para que você não ouça somente e diga: ‘Não e aqui está o muro’.”

Naquilo que agora parece inconcebível, no meio dos dois Sínodos o Cardeal Müller disse abertamente que a tentativa de separar a doutrina da Igreja Católica de sua prática é uma “heresia.” Nas observações à Comissão Teológica Internacional, reimpressa no jornal do Vaticano no início de dezembro de 2014, Müller disse: “Cada divisão entre ‘teoria’ e ‘prática’ da fé seria o reflexo de uma “heresia” cristológica sutil.’”

Quando o Cardeal Marx, outro membro do conselho de oito cardeais consultores do Papa e chefe da Conferência Episcopal Alemã, afirmou publicamente que os bispos alemães seguiriam sua própria orientação na questão de permitir a Comunhão às pessoas em uniões conjugais “irregulares”, o Cardeal Müller condenou a proposta em termos claros. “Essa é uma ideia absolutamente anticatólica que não respeita a catolicidade da Igreja,” ele disse.

Ele acrescentou que nem mesmo o Magistério papal é livre para alterar a doutrina. Ele disse: “Toda palavra de Deus está confiada à Igreja, mas ela não é superior à Palavra”. “O Magistério não é superior à palavra de Deus. O contrário é verdadeiro.”

Durante o período entre os dois Sínodos, como a Igreja parecia em confusão a respeito da doutrina, o chefe da Congregação para a Doutrina da Fé assumiu a responsabilidade de colocar os pingos nos “is”. Ele deu inúmeras entrevistas e palestras defendendo a posição tradicional da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio e a catolicidade da Igreja. Ele advertiu sobre o cisma na Igreja e com frequência estava tendo que interpretar de maneira criativa as declarações do Papa que pareciam contradizer a doutrina da Igreja.

Foi nessa época que o Cardeal Müller recebeu críticas de fontes ligadas ao Papa. Além da guerra de palavras com o Cardeal Marx, o biógrafo papal e vaticanista Andrea Tornielli procurou o Cardeal Müller para indagar-lhe sobre suas relações com o Papa.

Muller admitiu que precisara corrigir o Papa teologicamente. Ele afirmou que “o Papa Francisco não é um ‘teólogo profissional’, mas em grande parte foi formado por suas experiências no campo pastoral, que é muito diferente da nossa [no Ocidente]”. Ele caracterizou a reação de Francisco às suas correções da seguinte maneira: “Isso é o que ele mesmo [Papa Francisco] disse três ou quatro vezes, publicamente (risos); e então ele me deu um abraço para que – como ele disse – cesse a fofoca com relação a esse assunto.”

Mesmo após a publicação da Amoris Laetitia, o Cardeal Müller continuou afirmando que a exortação do Papa não permitia a Comunhão para os divorciados católicos recasados. Ele o fez mesmo em face à assinatura do Papa em documentos que apoiavam a interpretação oposta.

Foi nessa ocasião, ao final de 2016, que a pressão sobre o Cardinal Muller por parte do Papa Francisco tornou-se mais palpável. O Papa Francisco ordenou sem a menor cerimônia que o Cardeal Muller demitisse três padres de seus cargos na CDF. De acordo com um dos vaticanistas mais notáveis, quando Muller questionou o Papa a respeito da demissão, o papa respondeu: “Eu sou o papa, eu não preciso dar satisfações para quaisquer das minhas decisões. Decidi que eles têm que sair e eles precisam sair.”

Nos círculos do Vaticano, começaram especulações a respeito do Cardeal Christoph Schonborn, de Viena, substituir Muller como chefe da CDF. Fontes próximas ao Cardeal dão a entender que Muller levou essa especulação a sério e procurou dar uma aparência mais simpática ao seu relacionamento com o Papa Francisco. Durante essa ocasião ele escreveu um livro sobre o Papa Bento e o Papa Francisco, no qual ele insinuou que se tratava apenas de uma diferença de caráter entre os dois, em vez de uma diferença de doutrina.

O livro aparentemente surtiu pouco efeito na resolução do problema.

Em vez de aconselhar os repórteres que buscam uma interpretação da Amoris Laetitia a recorrerem ao chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o Papa os encaminhou ao Cardeal Christoph Schonborn, a quem chamou de um “grande teólogo que conhece a doutrina da Igreja.”

A interpretação de Schonborn contradisse a de Muller, permitindo, em determinados casos, a Comunhão para católicos divorciados e recasados.

O Cardeal Muller intensificou sua demonstração de lealdade ao Papa com uma objeção manifesta aos quatro cardeais que apresentaram os dubia – Raymond Burke, Joachim Meisner, Carlo Caffarra e Walter Brandmuller. Embora os cardeais que apresentaram os dubia estivessem lutando por exatamente a mesma interpretação da Amoris que o Cardeal Muller estava promovendo, ele os criticou publicamente.

Em janeiro de 2017 o Cardeal Müller disse em um canal italiano de TV que não havia necessidade de uma “correção fraterna” do papa, uma vez que o papa não pôs em perigo a fé e a doutrina da Igreja Católica. “O Papa está basicamente sendo forçado a responder ‘sim ou não’. Eu não gosto disso,” ele disse.

Em maio deste ano, Müller suavizou a sua posição contra os cardeais que apresentaram os dubia, dizendo que eles haviam feito “perguntas legítimas ao papa,” mas lamentava que elas haviam sido divulgadas publicamente.

E embora o Papa tenha esclarecido mais e mais e mais que a sua interpretação da Amoris Laetitia era oposta àquela do Cardeal Muller, o chefe da Congregação para a Doutrina da Fé continua até agora afirmando o contrário.

De fato, ainda em outro livro lançado em fevereiro deste ano o Cardeal Muller dá a entender que não somente a Amoris Laetitia deve ser interpretada à luz do magistério e da disciplina tradicionais da Igreja, ele acrescenta que o Papa não tem autoridade para alterá-la.

Embora agora o Cardeal Muller possa perder o seu elevado cargo como guardião da doutrina da fé na Igreja Católica, ele se rebaixou tentando dar o melhor de si para manter a fé apesar de ataques pessoais. Suas atitudes calculadas para manter o cargo, conforme soubemos de pessoas próximas a ele, não foram tomadas por um desejo de poder, mas somente por receio de que um sucessor em seu cargo menos propenso a manter a ortodoxia venha a prejudicar a Igreja.

1 julho, 2017

Ladaria, novo Prefeito para a Doutrina da Fé.

ladaria

Por Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé, 1º de julho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – O Santo Padre, o Papa Francisco, agradeceu ao Eminentíssimo Senhor Cardeal Gerhard Ludig Müller na ocasião da conclusão de seu mandato quinquenal como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e como Presidente da Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”, da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional, e chamou a sucedê-lo nos mesmos encargos Sua Excelência Reverendíssima Dom Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ, Arcebispo titular de Tibia, até então Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé.

 

* * *

Nota do Fratres: Nenhum encargo foi confiado ao Cardeal Müller, ao menos por ora. O próprio formato da comunicação no Bollettino é insólito, tratando a transição como uma simples “mudança de turno”, diferentemente da praxe de se anunciar já o posto que o demissionário passará a ocupar.

Há alguns meses, cogitava-se que Müller, para simplesmente sair de Roma, receberia alguma diocese relevante na Alemanha. Agora, fala-se somente em assumir a Ordem do Santo Sepulcro. Teria ele o mesmo destino de Burke, isto é, o ostracismo?

Uma observação sobre o jesuíta Ladaria: ele foi nomeado, em fevereiro do ano passado, pelo próprio Papa Francisco, para encabeçar a comissão de estudo sobre o papel da mulher na Igreja e a possibilidade de um diaconato feminino…

30 junho, 2017

Adiós, amigo.

Por FratresInUnum.com – Segundo Corrispondenza Romana, o Papa Francisco teria demitido hoje o Cardeal Gerhard Ludwig Müller, até então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ao término de seu mandato de 5 anos — para chefia de dicastérios, tal mandato é apenas “pro forma”, pois são quase sempre renovados.

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Müller se destacou recentemente por criticar os “intérpretes” mais heterodoxos de Amoris Laetitia, sempre buscando apresentar uma leitura do documento à luz do magistério precedente.

O mínimo pudor que o Papa Francisco tinha em relação aos “remanescentes” mais próximos de Bento XVI parece, definitivamente, ser coisa do passado.

 

 

 

 

29 junho, 2017

O plano de “reinterpretação” da Humanae Vitae.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 14-06-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Mons. Gilfredo  Marengo, docente no  Pontifício Instituto João Paulo II, será o coordenador da comissão nomeada pelo Papa Francisco para “reinterpretar”,  à luz da Amoris Laetitia, a encíclida Humanae Vitae de Paulo VI, no cinquentenário de sua promulgação no ano vindouro.

humanae-vitaeAs primeiras indiscrições sobre a existência dessa comissão ainda “secreta”,  feitas pelo vaticanista Marco Tosatti, eram de boa fonte. Podemos confirmar que tal comissão existe, composta  por Mons.  Pierangelo Sequeri, presidente do Pontifício Instituto João Paulo II,  pelo Prof.  Philippe Chenaux, docente de História da Igreja na Pontifícia Universidade Lateranense, e por Mons. Angelo Maffeirs, presidente do Instituto Paulo VI de Bréscia. O coordenador  é Mons. Gilfredo Marengo, professor de Antropologia teológica do Pontifício Instituto João Paulo II e membro do Comitê Diretivo da revista CVII-Centro Vaticano II Studi e ricerche.

A comissão tem a tarefa  de encontrar nos arquivos do Vaticano a documentação relativa  ao trabalho preparatório da Humanae Vitae, desenvolvido ao longo de três anos, durante e depois do Concílio Vaticano II.

O primeiro  grupo de estudo do problema do “controle da natalidade” foi constituído por João XXIII em março de 1963 e expandido a 75 membros por Paulo VI. Em 1966, os “peritos” entregaram suas conclusões ao papa Montini, sugerindo abrir as portas à contracepção artificial. Em  abril  de  1967,  o documento reservado da comissão – aquele que deveria hoje servir de base para a “revisão” da encíclica – apareceu simultaneamente na França (no Le Monde), na Grã-Bretanha (no Tablet) e nos Estados Unidos (no National Catholic Reporter). No entanto, após dois anos de oscilações,  Paulo VI  publicou, em 25 de julho de 1968, a encíclica Humanae Vitae, confirmando a posição tradicional da  Igreja,  que sempre vetou a limitação artificial dos nascimentos. Tratou-se, segundo o filósofo Romano Amerio, do ato mais  importante de seu pontificado.

A Humanae Vitae foi objeto de uma contestação sem precendentes, proveniente não somente de teólogos e sacerdotes, mas também de alguns episcopados, a começar pelo  belga, capitaneado pelo cardeal-primaz Leo Suenens, que no Concílio havia exclamado em tom veemente: “Sigamos o progresso da ciência. Conjuro-vos, Irmãos. Evitemos um novo processo Galileu. Um só bastou à Igreja.” O cardeal Michele Pellegrino,  arcebispo de Turim, definiu a encíclica como “uma tragédia da história pontifícia”. Em 1969, nove bispos holandeses, entre eles o cardeal Alfrink, votaram a chamada Declaração de Independência, na qual convidavam os fiéis a refutar o ensinamento da encíclica Humanae Vitae.  Na mesma ocasião, o  Concílio Pastoral Holandês, com a abstenção dos  bispos, declarou-se a favor do Novo Catecismo, recusando as correções sugeridas por Roma e pedindo que a Igreja permanecesse aberta a “novas abordagens radicais” sobre temas morais não citados na moção final, mas que emergiam dos trabalhos do Concílio, como relações pré-matrimoniais, uniões homossexuais, aborto e eutanásia. 

“Em 1968 – recorda  o cardeal Francis J. Stafford – aconteceu alguma coisa de terrível na Igreja. No seio do sacerdócio ministerial, entre amigos, verificaram-se em toda parte fraturas que jamais se recomporiam, feridas que continuam a afligir toda a Igreja” (1968, o ano da prova,  in “L’Osservatore Romano”, 25 de julho de 2008).

Sobre o tema da contracepção, Paulo VI se expressou na Humanae Vitae de modo considerado infalível pelos teólogos, e, portanto, irreformável, não porque o documento tenha em si mesmo os requisitos da infalibilidade per se,  mas por reafirmar uma doutrina proposta desde sempre pelo Magistério perene da Igreja. Os teólogos jesuítas Marcelino Zalba, John Ford e Gerald  Kelly,  os filósofos Arnaldo Xavier da Silveira e Germain Grisez, e muitos outros  autores, explicam como a doutrina da Humanae Vitae deve ser considerada infalível, não em virtude de seu ato de promulgação, mas porque confirma o Magistério ordinário universal dos Papas e dos bispos no mundo.

Mons. Gilfredo Marengo, a quem o Papa Francisco confiou a tarefa de reler a Humanae Vitae, pertence, pelo contrário, à categoria dos prelados que estão convencidos de poder conciliar o  inconciliável. Em fim de setembro de 2015,  comentando no Vatican Insider os trabalhos do Sínodo sobre a família, ele convidou a “abandonar uma concepção do patrimônio doutrinário da Igreja como um sistema fechado, impermeável às perguntas e provocações daqueles aos quais a comunidade cristã é chamada a dar razões da própria fé, como anúncio e testemunho”. Em um artigo mais recente no  mesmo órgão, com o significativo título Humanae Vitae e Amoris laetitia: histórias paralelas (Vatican Insider, 23 de março de 2017), Mons. Marengo se pergunta se “o jogo polêmico ‘pílula sim–pílula não’, assim como o atual ‘comunhão aos divorciados sim–comunhão aos divorciados não’, não seja senão a aparência de um desconforto e de uma fadiga, muito mais decisiva no tecido da vida eclesial”. De fato, segundo Marengo,“cada vez que a comunidade cristã cai no erro de propor modelos de vida derivados de ideais teológicos demasiado abstratos e artificialmente construídos, ela concebe sua ação pastoral como a aplicação esquemática de um paradigma doutrinário”. “Certo modo de defender e receber o ensinamento de Paulo VI – acrescenta – foi provavelmente um dos fatores pelos quais (cita neste momento o Papa Francisco) ‘apresentamos um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são. Esta excessiva idealização, sobretudo quando não despertamos a confiança na graça, não fez com que o matrimônio fosse mais desejável e atraente; muito pelo contrário’ (Francisco). 

No entanto, se a antítese “pílula sim–pílula não”, bem como aquela de hoje “comunhão para os divorciados sim–comunhão para os divorciados não” é apenas “um jogo polêmico”, o mesmo princípio pode ser aplicado a todos os grandes temas da fé e da moral: “aborto sim–aborto não”, mas também “ressurreição sim–ressurreição não”, “pecado original sim–pecado original não”, e assim por diante. A mesma contraposição entre verdade e erro, bem e mal se torna a esta altura “um jogo polêmico”.

Deve-se notar que Mons. Marengo não propõe ler a Amoris Laetitia na linha da hermenêutica da continuidade. Ele não nega a existência de uma contradição entre os dois documentos: admite que Amoris Laetitia autoriza aquilo que a Humanae Vitae proíbe. Mas acredita que toda antítese teológica e doutrinária é relativizada e superada em uma síntese que consiga conciliar os opostos. A verdadeira dicotomia é entre abstrato e concreto, entre verdade e vida. Para Mons. Marengo, o que importa e imergir-se na prática pastoral, sem inclinar-se para “ideais teológicos demasiado abstratos e construídos artificialmente”. Será a prática, não a doutrina, a indicar as linhas de ação. Em suma, o comportamento nasce do comportamento. E nenhum comportamento pode ser submetido a avaliações teológicas e morais abstratas. Não existem “modelos de vida”, mas apenas o fluxo da vida, que acolhe tudo, justifica tudo, santifica tudo.

O princípio de imanência, fulminado por São Pio X na encíclica Pascendi (1907), é reproposto de maneira emblemática. Haverá algum pastor ou teólogo que em face deste programa de “reinterpretação” da Humanae Vitae tenha a coragem de pronunciar a palavra “heresia”?

12 junho, 2017

Decisão de Donald Trump sobre acordo do clima de Paris é a pior derrota política de Jorge Mario Bergoglio.

Por Por Hermes Rodrigues Nery

A retirada dos Estados Unidos do Acordo do Clima de Paris, em 1º de junho de 2017, foi a pior derrota política do papa Francisco, mostrando assim o equívoco de suas posições políticas, assumidas escancaradamente desde que assumiu o pontificado, em março de 2013, para perplexidade de muitos católicos, especialmente os que se empenham com seriedade em viver a sã doutrina católica.

trumpA agenda política abraçada por Jorge Mario Bergoglio, em muitos aspectos, está sintonizada com a mesma agenda do internacionalismo de esquerda e do globalismo defendido pela ONU e fundações internacionais que trabalham por uma reengenharia social de mutação cultural, que instrumentaliza as religiões para os fins de um poder global.

Ecumenismo e ecologismo fazem parte da estratégia de ressignificar religiões, visando uma nova cultura (um mosaico cultural), convergida em premissas não cristãs, especialmente não católicas, como já recomendava, em 1974, o Relatório Kissinger (salientado por Juan Cláudio Sanahuja), estabelecendo “como política global que os padrões culturais dos povos, entre os quais se incluem as crenças religiosas, que tornam inviáveis as políticas de controle de natalidade, devem ser alterados”1. Por isso, tem chocado aos católicos a presença de intelectuais e ideólogos dessa reengenharia social em eventos no Vaticano, promovidos especialmente pela Pontifícia Academia das Ciências, que recebeu e deu espaço para palestrar Jeffrey Sachs (ambientalista radical que defendeu em 2008 a legalização do aborto como meio econômico eficaz para eliminar bebês indesejados), Paul Erlich (autor do livro “A Bomba Demográfica”, também defensor do aborto como meio de controle populacional), entre outros. O fato é que Bergoglio não apenas tem dialogado com conhecidos inimigos da fé católica, acolhido-os no Vaticano, favorecido (algumas vezes de modo sutil e sofisticado, outras mais abertamente) a agenda política que contradiz, em muitos aspectos, a doutrina moral e social da Igreja. Mas Bergoglio abraçou tal agenda, para euforia de Ban-Ki-moon.

A tônica política de Bergoglio (evidenciada por suas decisões, à esquerda, confirmando o que ele dissera ao Pe. Antonio Spadaro: “nunca fui de direita”2), explicita cada vez mais equívocos incontáveis, para o agrado de toda a esquerda internacional, que o aplaude, pois sabe que as consequências de tais decisões, a médio prazo, agravarão danos dentro da Igreja, que os líderes de esquerda até então não haviam conseguido chegar em tão grande profundidade.

E por tais decisões virem de cima para baixo, dificilmente haverá quem se oponha, porque os que se infiltraram por dentro da instituição, souberam aparelhar de tal modo organismos internos da Igreja, para justamente neutralizar toda e qualquer resistência. Disso não só tenho experiência vivida, mas tenho sofrido a perseguição implacável daqueles que há muito quiseram liquidar a minha liderança como leigo católico dentro da Igreja, por justamente não compactuar com a maldade não apenas dos inimigos declarados, mas principalmente dos dissimulados. Isso porque os que se oporem à agenda implantada sofrerão toda espécie de sanções e retaliações, tendo em vista também o aparato tecnológico de controle, nesse sentido.

Os reengenheiros sociais apreciam laboratórios culturais e sociais, e sabem do estrago que estão fazendo. Que a Igreja depois resolva os problemas criados pelos equívocos políticos de Bergoglio. Os inimigos da Igreja sabem que a agenda abraçada por Bergoglio (exposta, por exemplo, na encíclica Laudato Si) trarão, num futuro próximo (talvez em outro pontificado) problemas agudos para a própria Igreja (por causa dos gravíssimos danos causados), mas eles não estão nem um pouco preocupados com isso.

Bergoglio reconheceu a cinco jovens católicos belgas, numa entrevista à agência I. Media, dizendo: “Eu já errei, e ainda erro!”3, declarando com ênfase: “Eu não diria que aprendi com todos os meus erros. Alguns não, porque eu sou teimoso”. E por teimosia insiste em seus erros políticos, sem se dar conta das consequências de tais erros, para o que virá depois de seu pontificado.

Hermes Rodrigues Nery é Coordenador do Movimento Legislação e Vida

  1. SANAHUJA, Juan Cláudio, Poder Global e Religião Universal, p. 29, Editora Ecclesiae, Campinas, SP, 2012.
  2. SPADARO, Pe. Antonio, Íntegra da Entrevista de Francisco à “Civiltà Cattolica”: https://fratresinunum.com/2013/09/19/integra-da-entrevista-de-francisco-a-civilta-cattolica/
  3. REUTERS, Papa Francisco admite: “Eu já errei e ainda erro” – Entrevista a cinco jovens católicos foi transmitida por site: https://oglobo.globo.com/mundo/papa-francisco-admite-eu-ja-errei-ainda-erro-12089981