Archive for ‘O Papa’

2 agosto, 2016

Amoris laetitia: Pronunciamento do IPCO – Apelo aos bispos, aos sacerdotes e movimentos de leigos silenciosos.

Pronunciamento do IPCO demonstra as graves consequências do documento pós sinodal Amoris laetitia.

Apelo aos bispos, aos sacerdotes e aos movimentos de leigos silenciosos

Por Instituto Plinio Corrêa de Oliveira: Face às sérias reservas e objeções apresentadas por personalidades da Igreja e do laicato católico à Exortação Apostólica Amoris Laetitia (AL), e dada a crescente confusão que esse documento vem semeando nos espíritos em temas de moral familiar, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO) julgou seu dever se pronunciar publicamente a respeito. No dia 16 de julho, festa de Nossa Senhora do Carmo, ele emitiu uma declaração pública sob o título acima.

Integrado por leigos católicos, o Instituto tem-se empenhado desde sua fundação na defesa da instituição da família, alvo central da ofensiva revolucionária no século XXI.

O documento lembra os quase novecentos mil católicos do mundo todo, incluindo Cardeais, Arcebispos e Bispos, que enviaram ao Papa Francisco umaFilial Súplica, na qual Lhe pediam respeitosamente que não permitisse “a relativização do próprio ensinamento de Jesus Cristo” no tocante à família. Após a publicação de Amoris laetitia esse escol da população católica mundial só experimentou o gosto amargo da decepção. O Papa Francisco, tão pródigo em receber e afagar acatólicos e até anticatólicos do mundo todo, não teve sequer uma palavra para essa porção de seu rebanho.

Leia o Documento completo aqui.

Grave ruptura com o ensinamento da Igreja – Relativização do Decálogo

Caberia esperar que um documento pontifício dedicado à família advertisse sobre essa gravíssima situação em que ela se encontra. Mas, pelo contrário, na AL se encontra uma indissimulada mudança fundamental na prática pastoral relativa aos chamados “casais irregulares”, e em particular os divorciados ditos “recasados”, permitindo que sejam absolvidos na confissão e recebam a Sagrada Comunhão, com a única ressalva de que seja “caso a caso”, conforme o “discernimento” do sacerdote.

Autorizadas figuras da Igreja e do laicato têm denunciado que tal mudança não é apenas disciplinar, mas implica grave ruptura com o ensinamento tradicional da Igreja. E pedem, portanto, a revogação da AL, pedido com o qual o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira se solidariza, fundamentadamente. Isso se dá enquanto eclesiásticos progressistas aplaudem calorosamente a AL. O cardeal Cristoph Schönborn, ao apresentar oficialmente o texto, regozijou-se porque este “supera” a divisão — que ele julga “artificial”— entre uniões ditas regulares e irregulares, ou seja, lícitas e pecaminosas.

De fato, conforme as circunstâncias, o concubinato e o adultério (a AL evita as palavras, mas o sentido é claro) poderiam até constituir para a AL uma “doação” a Deus!; e nessas situações de pecado haveria inclusive “sinais de amor” que “refletem de algum modo o amor de Deus”. Com essa linguagem insidiosa, não apenas perdem sua validade prática o 6° e o 9° Mandamentos (“Não cometerás adultério” e “Não desejarás a mulher do teu próximo”), mas é toda a ordem natural e divina sintetizada no Decálogo que fica relativizada, em nome de uma apreciação subjetiva das circunstâncias.

Um novo modelo familiar anti-hierárquico

Gravemente questionável é também o modelo “comunitário” de família proposto pela AL, que abunda em alusões negativistas e depreciativas à família tradicional baseada na autoridade paterna, enquanto apresenta a figura idílica de um modelo familiar igualitário, que despoja o marido de sua função de chefe de família e dilui o princípio de autoridade.

Inclusive desvaloriza o preceito de São Paulo, “as mulheres sejam submissas a seus maridos” (Ef. 5: 22), aduzindo ser uma mera “roupagem cultural” da época. E nisto se contrapõe à doutrina católica magistralmente exposta na Encíclica Casti Connubi de Pio XI, que ensina ser imutável a ordem hierárquica na família.

Leia o Documento na íntegra aqui.

Evolucionismo antropológico – inversão da ordem nas finalidades do casamento

Tanto a relativização do adultério quanto o novo paradigma familiar preconizado pela AL se justificariam por uma suposta “mudança antropológica” que estaria a requerer “soluções mais inculturadas”, conforme o grau evolutivo dessa mudança em cada lugar. O cardeal Kasper, principal inspirador da AL, traz exemplos dessa “inculturação”, nos quais o sentimentalismo e o subjetivismo erigem-se em critério para admitir divorciados “recasados” aos Sacramentos.

Afastando-se do modelo tradicional e institucional do matrimônio e aproximando-se do modelo individualista contemporâneo, no qual o vínculo matrimonial fica reduzido a um mero reconhecimento social e legal do afeto mútuo do casal, a AL consagra uma radical inversão na hierarquia dos fins do matrimônio, ao sustentar que este seria “em primeiro lugar”, uma “comunidade da vida e do amor conjugal”. Esta afirmação contradiz frontalmente o claro ensinamento da Igreja, magistralmente recapitulado por Pio XII no seu famoso discurso sobre o Apostolado das Parteiras, de 29 de outubro de 1951, de que o casamento “tem por fim primeiro e íntimo, não o aperfeiçoamento pessoal dos esposos, mas sim a procriação e a educação da nova vida. Os outros fins, embora sendo igualmente queridos pela natureza, … lhe são essencialmente subordinados”.

Nesse sentido, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira faz notar que, ao se rebaixar a finalidade procriativa do casamento a um segundo lugar e dar a primazia ao “compromisso público de amor”, até os indivíduos LGBT poderão alegar que eles também se “amam”, e reclamar assim um status matrimonial!

Legítima e respeitosa resistência – Apelo aos Prelados silenciosos

Em conclusão de sua pormenorizada e documentada análise, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira assinala que, ante um texto tão próprio a desorientar os fiéis e a diluir neles a adesão aos ensinamentos morais da Igreja, “por um dever de consciência e com todo o respeito que merecem a investidura e a pessoa do Sumo Pontífice, vemo-nos obrigados a externar publicamente os graves reparos que o documento suscita em nós”, e “dizer lealmente ao Papa Francisco que não podemos em consciência aceitar os enunciados, a disciplina sacramental e as propostas pastorais da Amoris laetitia que vimos questionando aqui”.

Ao dar este passo de “legítima e respeitosa resistência” aos pontos da AL conflitantes com a doutrina da Igreja, os membros do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira sentem-se amparados no ensinamento de São Pedro, de que é preciso “obedecer a Deus antes que aos homens” (At. 5, 29); bem como no exemplo de São Paulo, que “resistiu em face” ao mesmo São Pedro (Gal. 2, 11), precisamente a propósito de erros disciplinares que este propunha; e também pelo Direito Canônico, que no cânon 212 § 3 consagra o direito, e por vezes o até dever, de expor respeitosamente a discordância da Autoridade eclesiástica. E acrescenta: “Pela similitude de situações, adotamos aqui a afirmação do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira na conclusão de seu famoso manifesto de Resistência à política de distensão do Vaticano com os governos comunistas: ‘Esta explicação se impunha. Ela tem o caráter de uma legítima defesa de nossas consciências de católicos’”.

É fato que entre os católicos, particularmente entre aqueles votados à defesa da vida e da família, cresce o descontentamento com “as iniciativas e os escritos controvertidos do Papa Francisco” em geral, e com a AL em particular. Mas nas fileiras do Episcopado mundial e do Clero, das Ordens e das instituições religiosas observa-se um sugestivo silêncio; que não é apenas um ausentar-se da luta, mas pode indicar também “a retidão de consciência daquele que evita empenhadamente a colaboração ativa com o mal”, inclusive sacrificando eventuais vantagens. 

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira conclui instando aos Prelados e movimentos até aqui silenciosos a “dissipar a confusão doutrinária reinante”, e reafirmar “publicamente e por todos os meios ao seu alcance, os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Santa Igreja sobre a natureza divina e irreformável do matrimônio, seu caráter indissolúvel, à primazia da procriação sobre as demais finalidades do casamento, a estrutura hierárquica da família, e “a impossibilidade de se dar a absolvição sacramental e a Sagrada Comunhão aos que se obstinam em viver publicamente numa situação objetiva de pecado”

Leia o Documento na íntegra aqui.

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1 agosto, 2016

O Chamado da Floresta. O que nos ensina a história do padre degolado em Rouen.

Por Antonio Marghereti Mastino – Papale Papale | Tradução: FratresInUnum.com: Talvez eu também deveria dizer algo sobre o padre Jacques sacrificado no altar pelos maometanos “in persona Christi”, no mesmo dia de seu onomástico (Jacques é Tiago em francês), aos gritos de  “Alá é grande”. Nesse sentido, é óbvio para todos.

Além disso, o lugar, o tempo e a modalidade escolhida, onde a obscenidade se mistura perversamente ao sacrilégio, mas jamais de modo tão claro ficou evidenciado quem está por trás disso, dessa então obscura guerra não declarada, mas eficaz: é ele, o doutor dos hereges, o arquiteto de sacrilégio, o inspirador de toda a obscenidade, o pai maldito de todo homicídio, a serpente primordial, o velho adversário: Satanás. E, pelo menos na Europa, ele nunca havia chegado tão perto do Santo dos Santos.

Todas as coisas que eu tinha escrito há dois anos, quando o chamado “Femen”, contratado pela agência internacional de desestabilização de George Soros, começou a invadir igrejas durante as missas solenes, saltando nuas sobre os altares de sacrifício, uivando sua pornografia e blasfêmias: eu vi ali um sinal sinistro e inequívoco, anunciando o futuro, e eu o escrevi. Onde o ataque de todas as frentes à Igreja,  desde o seu interior pelo modernismo ideológico e pela própria corrupção do clero, que é uma luta pelo desarmamento do catolicismo; e externa, pela ideologia liberal-radical e o pensamento único através do despotismo das leis e da persuasão da anti-igreja midiática; coincidindo, na outra frente, a barbárie armada dos muçulmanos, tudo isso tinha – como eu disse – uma origem e um fim:

“As paróquias, os sacramentos, o  Santíssimo Sacramento, o lugar onde Cristo está: eis os inimigos do Inimigo. Para atacar, desfigurar, flagelar… por um instinto obscuro consegue perceber que naquele Sacramento, onde se concretiza a encarnação, ali tudo se encerra, se salva e subsiste. E então ele querer atingir diretamente o Santíssimo Sacramento do Altar. Eles não sabem o que fazem, mas ele, o inimigo, ele sabe o que é o centro de tudo: estão mirando diretamente no coração da Igreja. Querem através de gestos dessacralizantes esmagar o pulsante músculo cardíaco dos católicos: o Sancta SanctorumPor isso, precisamente na véspera de Natal na catedral de Colônia, e diversas vezes em outros lugares, uma ativista do Femen nua subiu ao altar onde haviam acabado de celebrar o sacrifício de Cristo, gritando blasfêmias e exibindo seus órgãos genitais como se fosse um ostensório da nova redenção, latindo o seu “eu sou Deus,” Era ele! O antigo adversário que gritava seu desafio das vísceras daquela terra incógnita para cima do altar do Cordeiro. Forçado por Deus a manifestar-se, para aqueles que querem entender, e saindo da mesma porta pela qual entrou: a porta da obscenidade”.

Ontem, enquanto eu estava viajando, recebi várias mensagens ao telefone, também links. Eles falavam sobre o que aconteceu em Rouen. Na verdade, não me surpreendeu nem um pouco, eu sabia que ia acontecer, era uma questão de dias. Fechei todos os links e apaguei todas as mensagens depois de ler as mesmas manchetes. Foi o suficiente. Nada de novo, ou pelo menos nada de inesperado. Sim, porque o meu maior espanto era outro: entre aqueles que haviam me enviado mensagens escritas e áudio, entre os mais indignados, estavam muitos não católicos, não crentes, mas sinceramente afetados pelo que havia acontecido; e muitos crentes, embora não percebendo o significado sinistro do acontecido. Foi um não-católico, por incrível que pareça, homossexual, que me mandou uma mensagem me dizendo praticamente: “mas percebem, enquanto todos eles se viram para o outro lado para buscar um nome exótico para as coisas, e se voltam para Freud e Max Weber, psiquiatria e sociologia, percebem, esses chamados cristãos que, sendo como é, todos deveriam ter um só nome? Esse nome é Satanás. E Satanás lhes declarou guerra: até mesmo a mim, que não sou um crente, é evidente “.

Dei de ombros, e limitei-me a escrever-lhe: “Eu sabia disso há muito tempo”.  Na verdade, escrevi em 2011, naquela noite de Natal, quando Satanás transfigurou-se naquela louca que caiu sobre Bento XVI, derrubando-o: “Nesta noite, o Perturbador foi obrigado a anunciar o seu ingresso dentro do Templo Supremo. É necessário aprender a interpretar os sinais. E este foi um sinal de que ele declarou guerra à Igreja e a declarou no seu interior, prenunciando o seu assalto ao Sólio Pontifício enquanto espera as tropas aliadas chegar do lado de fora, para dar-lhe mão forte”. Dito ists, foi o que aconteceu, acontece, acontecerá sempre. De resto, tudo já fora prenunciado. A própria Catherina Emmerick o fez, em suas visões, com palavras de rara clareza e transparente evidência, mas nas duas últimas frases estão a minha esperança: “mas tudo isso não durará por muito tempo no tocante ao ataque externo” e, em seguida, “mas Deus tinha outros projetos”, no tocante aos ataques internos.

O que então aconteceu em Rouen, onde o velho sacerdote se recusou durante a Eucaristia, a ajoelhar-se perante os carnífices de Maomé – apesar da genuflexão geral e adoração de pés islâmicos imundos por parte de certa hierarquia católica nos últimos lava-pés, antes dedicados ao Senhor e que agora se tornaram cenáculos do politicamente correto – o que aconteceu com o sacerdote sacrificado como um cordeiro sobre o altar? O que aconteceu, então? E o que isso significa?

Uma coisa realmente muito simples, ou melhor, duas… embora, é claro, eles vão continuar com as cambalhotas lógicas, manipulações semânticas, análises extravagantes e complicadas; especialmente, continuarão a girar para o outro lado tentando achar respostas erradas e perguntas superadas.

Essas duas coisas são: “dar o exemplo e o resto virá por si só” com o terrorismo, a primeira; lançar o “Chamado da Floresta”, inaugurando a primeira profanação e o sacrifício de um padre na Europa, a segunda.

A primeira. Aconteceu que o ISIS, que é o terrorismo inscrito no DNA de todo muçulmano e em cada linha do Alcorão, percebeu uma coisa. Percebeu que não é necessário se organizar, convocar especialistas em suicídios, legiões de homens-bomba treinados em campos terroristas; estes são apenas o começo, para dar um exemplo. Então, uma vez dado o exemplo, vem a multiplicação dos pães e peixes. Liderar pelo exemplo, aqui está o que eles entendem: o resto se seguirá. De fato, antes os massacres islâmicos na Europa que aconteciam uma vez ao ano passaram para seis meses… chegamos a um a cada fim de semana, e agora, como era natural e esperado, estamos em um ao dia. Dentro de duas semanas, tivemos o massacre em Bangladesh (11 italianos abatidos, Alcorão na mão); o massacre de Nice; o massacre de Munique; e a degeneração em ditadura islâmica do governo turco, que armou um golpe simulado para fazer uma limpeza dos oponentes seculares contra a islamização do mais ocidental dos países do Oriente Médio.

No entanto, eles precisavam de um exemplo, para que, finalmente, o dique cedesse. O exemplo veio e as barragens estão finalmente cedendo. Era necessário o chamado da selva.

Os terroristas sabem muito bem que cada muçulmano, mesmo o mais bonzinho, por uma série de circunstâncias e costumes, à  inculturação milenar que receberam,  é potencialmente um assassino, se apenas as mesmas circunstâncias ou uma situação temporária de força permitir-lhe impunemente, ou até mesmo com glória, aplicar sua cimitarra no pescoço do infiel, ou seja, qualquer não-muçulmano. Eles trazem destruição em suas veias, e sempre foi assim, a sua história de ruína e desertificação por onde eles passaram, todas as suas histórias, até mesmo os contos de fadas são polvilhadas com esta obsessão assassina e justicialista, essa obsessão com a decapitação, a espada: não conseguem respirar sem a cimitarra entrando no pescoço de alguém para agradar a Alá. Uma inculturação milenar, por mutação genética, se torna instinto, nesse caso instinto homicida. O nosso simpático vizinho muçulmano, como escrevi aqui há poucos dias, devemos resignar-nos de saber que, amanhã, se ele viesse a prevalecer, poderia se tornar naturalmente nosso degolador. E em silêncio, quem sabe alguns dos nossos vizinhos agradáveis, pizzaiolos muçulmanos, donos de lanchonetes de kebabbs não esperam exatamente por esse momento, e quando eles estão entre eles, assim o dizem, mudando seu sorriso bonito para o sorriso da fera. Estamos cercados por nossos próprios simpáticos e eventuais aspirantes a cortadores de gargantas. Estamos cheios até o pescoço. Nenhum de nós está seguro. Porque em cada esquina há pelo menos dois muçulmanos.

É emblemática uma história que nos contou algum tempo atrás [Vittorio] Messori…

Um amigo francês, religioso Católico em Jerusalém e notável estudioso da Bíblia, me contava recentemente que, no seu convento, trabalhava como sempre, como caseiro, um muçulmano já idoso. Honesto, trabalhador, de total confiança, era então parte da família e todos os religiosos o queriam bem e era recíproco. Uma sexta-feira, o homem voltou da mesquita com um ar caído. O Superior da casa, insistindo, conseguiu fazê-lo falar. Ele disse: << Hoje o imã que lidera a oração nos disse, em seu sermão, que no dia do triunfo de Alá e seu Profeta, no dia que em breve virá, e nós livraremos esta cidade sagrada de todos os judeus e cristãos, todos infiéis que não fizerem a profissão de fé deverão ser mortos. Assim manda o Alcorão e todos nós devemos obedecer >>. Uma pausa e então: << Mas não tenha medo Padre, porque eu te quero bem, eu sei como fazer e se eu tiver que fazê-lo vou encontrar uma maneira de não fazê-lo sofrer >>. A história, infelizmente, é autêntica.

Passa-se, portanto, do terrorismo islâmico dos kamikazes profissionais para aquele idiota da porta ao lado: um terrorismo de povo, onde cada agente islâmico infiltrado no Ocidente pelas forças de  dissolução ocidentais, torna-se oficiosamente um outro kamikaze..

Foi dito em um filme de Almodovar que “matar é assim: depois que você o faz pela primeira vez, é como cortar suas unhas.” Torna-se normal. Basta que alguém o faça em nome de alguma coisa, que esse instinto antigo seja revestido de nobres princípios religiosos ou políticos e as barreiras vão caindo sob a avalanche da imitação, como em um bocejo que começa em um e infecta outros. Qualquer um, quem e onde você não espera, vai repetir o gesto. Não há necessidade de  ISIS, e o ISIS sabe: isso é o terror. Passar de profissionais kamikazes para os idiotas da porta ao lado.

A segunda coisa. Bem, isso é o que eu respondi a todos que me perguntaram em privado, os detalhes que eu aprendi sobre a execução que podemos chamar ritual, de acordo com os códigos do Alcorão, do velho sacerdote de Rouen, e no momento mais emblemático: a celebração do sacrifício eucarístico.

Isso não é outra coisa senão o chamado da floresta, aquele sinal de “armai-vos e parti” e em nome de Allah abatei, com o que agora, finalmente, se chega onde estava destinado desde o princípio, o princípio dessa sórdida história, mas também do próprio Islã: derrotar o cristianismo em suas terras-símbolo e tomar o seu lugar, sem precisar fazer prisioneiros. O gesto sacrílego da garganta cortada do velho padre católico na França, em suma, significa: “Oh, muçulmanos em todos os lugares dispersos nesta terra de infiéis cheia de igrejas infiéis, entrai nesses lupanares e destruí, cortai gargantas”. Isso significa que a partir de agora qualquer igreja católica na Europa não estará mais segura, todas são um alvo de algum idiota muçulmano da porta ao lado. E a igreja de Rouen é apenas a primeira de uma longa série como a Via Crucis. A última – mas não muito longe – das etapa será Roma. Roma em breve será atacada, sinto, para usar a imagem de Emmerich, “hordas de bárbaros incultos e ignorantes” fazendo ali um massacre.

PURIFICAÇÃO

Nenhum de nós católicos praticantes pode sentir-se seguro… coisa horrível, mas… mas meu coração me diz que ao derramar o sangue do martírio, esse sangue resgatará, purificará  e santificará muitas carnes relaxadas e corruptas de um clero que se tornou frio, acomodado, preguiçoso, dormente nos vícios e apodrecido por vidas duplas, entre os quais já não há espaço para a oração e até mesmo para a fé.  Eu conheci sacerdotes que são poços de perdição antes de estarem perdidos até mesmo para si próprios. O sangue dos mártires, no entanto, tem o poder de fazer santos, ao fim, até mesmo dos personagens mais abjetos. E só Deus sabe se o pobre clero europeu não precisa realmente dessa terrível medicina amarga, para que Deus transforme em ouro o excremento do diabo: do martírio.

E, finalmente, um último pensamento que eu quero dedicar àquele que se senta em Roma como pontífice, que delegou até mesmo a contragosto as habituais declarações abstratas, cansativas, comentando sobre o martírio do padre francês, atribuindo tudo a um não identificado “louco ódio contra o amor “. Mah.

Chega-me um e-mail, que assim diz:

Em Lampedusa e Lesbos ele vai voluntariamente para gritar: “Vergonha”. Não se sabe a quem. Para um velho pároco morto no altar, apenas o costumeiro comunicado anódino e feito com um formulário padrão… mais importante é ir para Auschwitz, para condenar um regime morto 71 anos atrás …

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13 julho, 2016

Cardeal Christoph Schönborn e o convite explícito ao sacrilégio.

O arcebispo de Viena, entrevistado pelo Padre Spadaro, remove qualquer ilusão das “belas almas”:”Amoris Laetitia é “magistério”. E como! Ele ainda acrescenta: em “certos casos” quem está numa situação objetiva de pecado pode receber os sacramentos. E isso é chamado, gostem ou não,  passe livre para o sacrilégio.

Por Paolo Deotto – Riscossa Cristiana | Tradução: FratresInUnum.comO argumento “astuto” com o qual as “belas almas” (vamos chamá-las assim, por delicadeza …) até agora tentaram justificar as declarações incríveis contidas na Amoris Laetitia eram as seguintes: A. L. não é magistério, é a “opinião” do Pontífice sobre a família.

zschAfirmação grotesca, é claro, e em todo caso contraditória, porque é muito estranho que um Papa possa ter uma “opinião” pessoal sobre argumentos de fé e doutrina. Temos então o caso singular de um Papa que em alguns casos pode ser o Doutor Jekyll e, em outros, Mr. Hyde [ndt: referência ao filme “O médico e o monstro“, . Quando ele sai em viagem, dá uma de Mr. Hyde, disparando tranquilamente afirmações heréticas por todos os lados.

 

De resto, cabe às “belas almas” resignarem-se. Algumas, por um mal entendido dever de ofício (“afinal, o chefe tem sempre razão”), outras por servilismo, outras ainda pela incapacidade congênita de raciocínio,  mas, no entanto, todos sem exceção tentando dar nó em goteira pra fazer do círculo um quadrado.

 

O jornal Corriere publicou um trecho da entrevista em que o cardeal Christoph Schönborn, Arcebispo de Viena, concedeu ao Padre Antonio Spadaro, diretor da revista dos jesuítas, Civilta Cattolica. Bem, o entrevistado, e é bom que seja lembrado (…), o qual foi de fato nomeado como o intérprete autêntico da  A. L. , já foi removendo imediatamente todas as ilusões. O que faz com que os argumentos dos caçadores de desculpas desmoronem desastrosamente:  

 

“É claro que este é um ato do Magistério! É uma exortação apostólica. É claro que aqui o Papa exerce o seu papel de pastor, mestre e doutor da fé, depois de ter-se beneficiado da consulta dos dois sínodos. Eu acho que, sem dúvida, deveríamos falar de um documento papal de alta qualidade, uma autêntica lição de doutrina sagrada, que nos reconduz à atualidade da Palavra de Deus. Amoris Laetitia é um ato de magistério que torna atual no tempo presente o ensinamento da Igreja”.

 

Mais claro do que isso…

 

Não tenho a pretensão de fazer aqui uma análise em profundidade da entrevista. No entanto, sinto que é apropriado concentrar-se em algumas palavras, porque elas nos mostram, com ousada clareza, como o relativismo passou agora a dominar uma certa “teologia”. Depois disso, é ótimo que A. L. seja, sem dúvida, um ato do Magistério. De “qual” magistério, é uma história bem diferente.

 

Parece ser útil ler com atenção a seguinte passagem:

 

Pergunta: O Papa afirma que “em certos casos”, quando se encontra diante de uma situação objetiva de pecado – mas sem ser subjetivamente culpado ou sem sê-lo inteiramente – é possível viver na graça de Deus. Existe uma ruptura com o que foi afirmado no passado?

 

Resposta: O Papa nos convida a não olhar apenas para as condições exteriores, que têm sua própria importância, mas a nos perguntarmos se temos sede do perdão misericordioso, a fim de melhor respondermos ao dinamismo da graça santificante. A passagem entre a regra geral e os “certos casos” não pode ser feita apenas considerando situações formais. Por conseguinte, é possível que, em certos casos, o que é uma situação objetiva de pecado possa receber a ajuda dos sacramentos. 

 

Eis aqui oficializadas as novas e interessantes categorias: a “situação objetiva do pecado”, em que, no entanto, não se pode ser “subjetivamente culpado”, ou sê-lo mas “não inteiramente.” Ao caos certamente não casual da pergunta, segue-se o caos, certamente não casual, da resposta.

 

E assim aprendemos que se pode estar em pecado, mas não estar, ou estar em pecado, mas não completamente em pecado, uma vez que se faça uma curiosa distinção entre a situação “objetiva ” e “subjetiva” de pecado. E quem é culpado, “sem sê-lo completamente”, o que deveria fazer? Um arrependimento, mas só percentual? De qualquer forma, em “certos casos” (quais? Não sabemos!) quem está numa situação objetiva de pecado (não se especifica se é subjetivamente culpado ou apenas parcialmente) pode receber “a ajuda dos sacramentos”.

 

Mas a única “ajuda” que o pecador pode receber não é a absolvição, precedida da confissão? E essa confissão envolve arrependimento sincero e o propósito de não continuar no pecado.

 

Não, aqui se fala  de “sacramentos”, no plural, e desde que há muito tempo se cogitava, perdão, debatiam, sobre a comunhão para divorciados novamente casados, aqui descobrimos que praticamente todos podem receber a comunhão, porque o caos aparente das situações “objetivas”,”subjetivas”, não é totalmente objetivo, em última análise inclui tudo e todos. A imprecisão de “certos casos”, obviamente, deixa a porta aberta para diferentes interpretações.

 

Resta, no entanto, o fato é incontestável, de que “quem come o pão e bebe o cálice do Senhor indignamente, come e bebe a própria condenação”. Mas, parece que isso não é mais motivo de preocupação. Evidentemente, a salvação eterna não entra mais nos interesses desta particular “neo-igreja” que expressa um novo magistério. Tanto é assim que, com as afirmações acima registradas, erga omnes, dá-se um passe livre para o sacrilégio.

 

E para fechar, eu me limito a sublinhar uma única coisa: essa bagunça (e o resto você pode ler no Corriere.it) não vem de um palhaço qualquer, na onda de estranhezas para-teológicas. Ela vem do Cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, indicado pela autoridade máxima(…) como o melhor intérprete da A. L.

 

É tudo tão terrivelmente claro. Deus nos salve.

11 julho, 2016

Reforma de um mínimo suspiro de tentativa de reforma da reforma. 

Nota do Fratres: Nada mais do que o esperado por parte da Sala de Imprensa da Santa Sé. O demissionário padre Lombardi — descanse em paz –, desmentidor oficial do Vaticano, rápido em rechaçar qualquer vestígio de ortodoxia e sonolentíssimo em fustigar enganos, não fez mais do que o seu papel. Nada havia a ser esclarecido. O bom cardeal Sarah foi claríssimo quando apenas sugeriu uma mudança, sem valor oficial. Mas, é fundamental, imperioso, defender as reformas pós-conciliares contra o menor sussurro dos restauracionistas.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

Não se deve esquecer que, há pouco mais de um ano, o Papa Francisco, comemorando o aniversário da primeira missa em italiano celebrada por Paulo VI, disse, referindo-se aos que defendem uma “reforma da reforma”:

Vamos agradecer ao Senhor pelo que Ele tem feito na sua Igreja nestes 50 anos de reforma litúrgica. Foi realmente um gesto corajoso para a Igreja se aproximar do povo de Deus para que eles pudessem entender o que estavam fazendo. Isso é importante para nós, seguir a missa dessa forma. Não é possível voltar atrás. Devemos sempre ir adiante. Sempre adiante! E aqueles que querem voltar atrás estão enganados. Sigamos adiante neste caminho.

É importante ressaltar que a fala do cardeal guineense, pela clareza que incomoda a atual hierarquia, mobilizou, numa velocidade insólita, todo o aparato modernista-eclesiástico de apologetas do “espírito do Concílio”. Primeiro, foi Dom Vincent Nichols, o ultra-progressista arcebispo de Westminster, sede do encontro em que discursou Sarah, a escrever imediatamente a seus padres, instando-os ao não seguir o pedido do prefeito da liturgia. Um gesto nada elegante de “comunhão episcopal” nada fraterna.

Até no Brasil, o Cardeal Arcebispo de São Paulo, privadamente, demonstrou ceticismo e minimizou as notícias acerca do discurso de Sarah, afirmando ser um gosto particular do prefeito e não um ato oficial do Vaticano, e que uma tal mudança significaria rever o estabelecido pelo Vaticano II — da nossa parte, é inacreditável que um Cardeal ignore que o Vaticano II, em sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, nada tenha disposto sobre a posição do altar.

Por fim, a reunião de Francisco e Sarah logo após a conferência do purpurado em Londres já estava na agenda? Ou foi um chamado à ordem? Esperamos que a primeira alternativa seja a verdadeira. No entanto, alguns analistas associaram o duro discurso de Francisco, chamando de “hereges e não católicos” os que afirmam “‘é isso ou nada’”, ao livro “Deus ou nada”, do Cardeal Robert Sarah (cujo prefácio de Bento XVI desapareceu misteriosamente).

* * *

Celebração da Missa, nenhuma mudança dos altares

O cardeal Sarah, durante uma conferência em Londres havia convidado os sacerdotes a celebrar voltados ao Oriente, de costas para o povo. Após um esclarecimento com o Papa, a nota de Lombardi.

Por Andrea Tornielli – La Stampa | Tradução: FratresInUnum.com: Parecia mais que um convite, porque a falar sobre isso, se bem que durante uma conferência e não como um ato oficial, foi o cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. O cardeal Africano, há uma semana, em Londres, na abertura da conferência Sacra Liturgia, havia lançado uma espécie de apelo a todos os sacerdotes do mundo, convidando-os a começarem, no primeiro domingo do Advento, em novembro, a celebrar a missa “versus Orientem”, isto é, com o altar voltado para o leste, de costas para o povo, como se usava antes da reforma conciliar. “É muito importante que voltemos, o mais rápido possível para uma direção comum, sacerdotes e fiéis voltados na mesma direção, para o oriente, ou pelo menos para a abside, para o Senhor que vem”, disse ele, acrescentando: “Peço-vos aplicar esta prática sempre que possível “.

As palavras de Sarah reverberaram em todo o mundo, encontrando apoio entusiástico nos sites e nos assim chamados blogs tradicionalistas, mesmo porque o cardeal tinha acrescentado que iria começar, de acordo com o Papa, um estudo para se chegar a uma “reforma da reforma” litúrgica, visando melhorar a sacralidade do rito. Um dia após a conferência de Sarah, o cardeal arcebispo de Westminster, Vincent Nichols, escreveu uma carta a seus sacerdotes, instando-os a não celebrar a Missa voltada para o Oriente, tal como solicitado pelo prefeito do Culto Divino, também por causa da legislação em vigor sobre esse assunto.

Nos últimos dias, o Cardeal Sarah se encontrou novamente em audiência com Francisco. E na tarde de segunda-feira, 11 julho, padre Federico Lombardi, no mesmo dia em que foi anunciada a nomeação do seu sucessor, emitiu uma declaração, evidentemente em concordância com o Pontífice e o cardeal, que desmonta a validade do convite de Sarah e põe fim à expressão “reforma da reforma”, já há tempos abandonada até mesmo por Bento XVI.

“É oportuno um esclarecimento – afirma o porta-voz do Vaticano – na sequência de relatos da mídia que circularam após uma conferência realizada em Londres pelo Cardeal Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, poucos dias atrás. O Cardeal Sarah sempre esteve preocupado justamente com a dignidade da celebração da missa, de modo que seja expressa adequadamente a atitude de respeito e adoração do mistério eucarístico. Algumas de suas expressões foram, no entanto, mal interpretadas”, como se anunciassem novas indicações diferentes daquelas até agora promulgadas nas normas litúrgicas e nas palavras do Papa sobre a celebração voltada para o povo e sobre o rito ordinário da Missa.

“Portanto é bom lembrar – continua Lombardi – que a Institutio Generalis Missalis Romani (Instrução Geral do Missal Romano), que contém as normas relativas à celebração eucarística e que ainda está em pleno vigor, no nº 299, diz:”  “Altare extruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit. Altare eum autem occupet locum , ut revera centrum sit ad quod totius congregationis fidelium attentio sponte convertatur”(isto é :” O altar deve ser construído destacado da parede, para que se possa facilmente circular em volta e celebrar voltado para o povo, o que é conveniente que seja realizado sempre que possível. O altar seja pois posicionado de modo a estar verdadeiramente no centro para que a atenção do fiel se volte naturalmente para a sua direção.”)

“Por sua parte, o Papa Francisco – afirma ainda o porta-voz do Vaticano – por ocasião da sua visita à Congregação para o Culto Divino, recordou expressamente que a forma” ordinária” da celebração da Missa é a prevista pelo Missal promulgado por Paulo VI, enquanto a forma “extraordinária”, que foi autorizada pelo Papa Bento XVI para as finalidades e com as modalidades por ele explicadas no motu proprio Summorum Pontificum, não deve tomar o lugar do “ordinário”.

“Não são, portanto, previstas novas orientações litúrgicas a partir do próximo Advento – esclarece Lombardi – como alguns erroneamente deduziram a partir de algumas palavras do Cardeal Sarah, e é melhor evitar o uso da expressão ‘reforma da reforma’, referindo-se à liturgia, dado que às vezes ela tem sido fonte de equívocos. Tudo isso foi expresso em concordância durante o curso de uma audiência recente concedida pelo Papa ao mesmo Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino”.

28 junho, 2016

Papa Francisco: Bento XVI continua servindo a Igreja com vigor e sabedoria.

Cidade do Vaticano (Rádio Vaticano) – O Papa Francisco conduziu nesta terça-feira (28/06), na Sala Clementina do Vaticano, a celebração solene de comemoração dos 65 anos de Ordenação sacerdotal do Papa emérito Bento XVI.

“Hoje, festejamos a história de um chamado iniciado há 65 anos com a sua Ordenação sacerdotal ocorrida na Catedral de Frisinga em 29 de junho de 1951”, disse Francisco a Bento XVI.

“Em uma das mais belas páginas que o senhor dedica ao sacerdócio, sublinha como, na hora do chamado definitivo de Simão, Jesus, olhando para ele, no fundo pergunta-lhe somente uma coisa: ‘Me amas?’. Como é bonito e verdadeiro isto! Porque é aqui, o senhor nos diz, é neste “me amas” que o Senhor funda o apascentar, porque somente se existe amor pelo Senhor Ele pode apascentar por meio de nós”, frisou ainda o Pontífice.

“É esta a nota que domina uma vida inteira dedicada ao serviço sacerdotal e à teologia que o senhor não por acaso definiu como a ‘busca do amado’; é isto que o senhor sempre testemunhou e testemunha ainda hoje: que a coisa decisiva nos nossos dias – de sol ou de chuva – a única com a qual vem também todo o resto, é que o Senhor esteja realmente presente, que o desejemos, que interiormente sejamos próximos a ele, que o amemos, que realmente acreditemos profundamente nele e acreditando o amemos verdadeiramente. É este amar que realmente nos preenche o coração, este acreditar é aquilo que nos faz caminhar seguros e tranquilos sobre as águas, mesmo em meio à tempestade, precisamente como acontece a Pedro; este amar e este acreditar é o que nos permite de olhar ao futuro não com medo ou nostalgia, mas com alegria, também nos anos já avançados de nossa vida.”

Testemunho

“E assim, precisamente vivendo e testemunhando hoje em modo tão intenso e luminoso esta única coisa realmente decisiva – tendo o olhar e o coração voltado a Deus – o senhor, Santidade, continua servindo a Igreja, não deixa de contribuir realmente com o vigor e a sabedoria para o crescimento dela”, disse Francisco que acrescentou:

“E o faz daquele pequeno Mosteiro Mater Ecclesiae no Vaticano, que se revela desta forma ser bem outra coisa do que um daqueles cantinhos esquecidos nos quais a cultura do descarte de hoje tende a relegar as pessoas quando, com a idade, as suas forças começam a faltar. É bem ao contrário; e isto permite que o diga com força o seu Sucessor que escolheu chamar-se Francisco!”.

“Porque o caminho espiritual de São Francisco iniciou em São Damião, mas o verdadeiro lugar amado, o coração pulsante da ordem, lá onde o fundou e onde no final rendeu sua vida a Deus foi a Porciúncula, a ‘pequena porção’, o cantinho junto à Mãe da Igreja; junto a Maria que, pela sua fé tão firme e pelo seu viver tão inteiramente do amor e no amor com o Senhor, todas as gerações chamarão bem-aventurada. Assim, a Providência quis que o senhor, caro irmão, chegasse a um lugar por assim dizer propriamente ‘franciscano’ do qual emana uma tranquilidade, uma paz, uma força, uma confiança, uma maturidade, uma fé, uma dedicação e uma fidelidade que me fazem tão bem e dão força para mim e para toda a Igreja”.

Palavras de Bento XVI

E o Papa Francisco concluiu: “Que o senhor, Santidade, possa continuar sentido a mão do Deus misericordioso que o sustenta, que possa experimentar e nos testemunhar o amor de Deus; que, com Pedro e Paulo, possa continuar exultando de alegria enquanto caminha rumo à meta da fé.”

A seguir, o Papa emérito Bento XVI, em um breve discurso improvisado de agradecimento, recordou que sua vida sacerdotal foi marcada desde o início pela palavra grega “Eucharistomen” e suas tantas dimensões.

“Ao final, queremos nos incluir neste obrigado do Senhor e, assim, receber realmente a novidade da vida e ajudar a transubstanciação do mundo, que seja um mundo não de morte, mas de vida – um mundo no qual o amor venceu a morte.”

(JE/MJ/RB)

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20 junho, 2016

A “Igreja pobre”, do Vaticano II ao Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 15-06-2016 | Tradução: FratresInUnum.comSegundo a opinião dominante dos teólogos, os documentos do Papa Francisco constituem meras indicações genéricas, de caráter pastoral e moral, destituídas de qualidade magisterial significativa. Esta é uma das razões pelas quais esses documentos são discutidos mais livremente do que acontecia antigamente com os textos pontifícios.

catacombe-417x278Entre as análises mais penetrantes dos textos do atual Pontífice, assinala-se o estudo de um filósofo da Universidade de Perugia, Flavio Cuniberto, intitulado Senhora Pobreza. O Papa Francisco e a refundação do cristianismo (Blacks Pozza, Vicenza 2016), dedicado particularmente aos documentos Evangelii Gaudium (2013) e Laudato sì (2015). O exame ao qual o Prof. Cuniberto submete os textos é o do estudioso que procura compreender suas teses de fundo, muitas vezes escondidas numa linguagem deliberadamente ambígua e elíptica. Sobre o tema da pobreza, Cuniberto traz à luz duas contradições: a primeira de natureza teológico-doutrinária, e a segunda de caráter prático.

Em relação ao primeiro ponto, teológico-doutrinário, ele observa que o Papa Francisco, em contraste com o que pode ser deduzido a partir do Evangelho, faz da pobreza uma condição mais material do que espiritual, para transformá-la assim em uma categoria sociológica. Esta exegese transparece, por exemplo, na escolha em citar, para o sermão das bem-aventuranças, o evangelho de Lucas (6, 20), e não o relato mais preciso de São Mateus (5, 3), que usa o termo “pauperes spiritu”, ou seja, aqueles que vivem humildemente diante de Deus.

Mas, para o Pontífice, a pobreza parece ser ao mesmo tempo um mal e um bem. Com efeito, observa Cuniberto, “se a pobreza como miséria material, exclusão, abandono, é indicada desde o início como um mal a ser combatido, para não dizer o mal dos males, e é, portanto, o objetivo principal da atividade missionária”, o novo significado cristológico que lhe atribui Francisco “faz dela simultaneamente um valor e, de fato, o valor supremo e exemplar”. Trata-se, sublinha o filósofo de Perugia, de um emaranhado complicado. “Por que combater a pobreza e erradicá-la quando ela é, pelo contrário, um ‘tesouro precioso’, e mesmo o caminho para o Reino? Inimigo a combater ou tesouro?” (pp. 25-26).

O segundo ponto, de caráter prático, refere-se às “causas estruturais” da pobreza. Supondo que esta seja um mal radical, o Papa Bergoglio parece individuar sua causa essencial na “desigualdade”. A solução indicada para erradicar esse mal seria aquela marxista e terceiro-mundista da redistribuição da riqueza: tirar dos ricos e dar aos pobres. Uma redistribuição igualitária que passaria por uma maior globalização dos recursos, não mais restrita às minorias ocidentais, mas estendida a todo o mundo. Mas na base da globalização está a lógica do lucro, que é criticada de um lado e propiciada de outro como uma forma de vencer a pobreza. O supercapitalismo, de fato, para se alimentar, necessita de um público de consumidores cada vez mais extenso, mas essa extensão do bem-estar em grande escala acaba alimentando as desigualdades que se desejaria eliminar.

O livro do Prof. Cuniberto merece ser lido juntamente com o de um estudioso napolitano, o sacerdote Beniamino Di Martino, intitulado Pobreza e riqueza. Exegese dos textos evangélicos (Editrice Dominicana Italiana, Nápoles 2013). O livro é muito técnico e o Pe. Di Martino desmonta, através de uma análise rigorosa dos textos, as teses fundamentais de certa teologia pauperista. A fórmula “contra a cupidez, não contra a riqueza”, resume, segundo o autor, o verdadeiro ensinamento dos Evangelhos.

Mas, pergunto eu, de onde provém essa confusão teológica, exegética e moral, entre pobreza espiritual e pobreza material? Não se pode ignorar o chamado “Pacto das Catacumbas”, assinado em 16 de novembro de 1965, nas Catacumbas de Domitila em Roma, por quarenta e cinco Padres conciliares que estavam tentando viver e lutar por uma Igreja pobre e igualitária.

O grupo tinha entre seus fundadores o padre Paul Gauthier (1914-2002), que havia participado da experiência dos “Padres operários” do cardeal Suhard, condenada pela Santa Sé em 1953. Depois, com o apoio do bispo Dom Georges Hakim, do qual foi teólogo no Concílio, ele fundou na Palestina a família religiosa de Os companheiros e as companheiras de Jesus carpinteiro. Gauthier era auxiliado em Roma por sua companheira de luta Marie-Thérèse Lacaze, que se tornou sua mulher quando ele deixou o sacerdócio.

Entre os que apoiaram o movimento estavam Dom Charles M. Himmer, bispo de Tournai (Bélgica), que acolhia suas reuniões no Colégio Belga de Roma; Dom Helder Câmara, que ainda era bispo-auxiliar do Rio e depois se tornou arcebispo de Recife; e o cardeal Pierre M. Gerlier, arcebispo de Lyon, em estreito contato com o cardeal Giacomo Lercaro, arcebispo de Bolonha, que se fazia representar pelo seu conselheiro Pe. Giuseppe Dossetti e pelo seu bispo auxiliar Dom Luigi Bettazzi (cfr. O Pacto das Catacumbas. A missão dos pobres na Igreja, por Xabier Pizaka e José Antunes da Silva, Edições Missionárias Italianas 2015).

Dom Bettazzi, o único bispo italiano participante do Vaticano II ainda vivo, também foi o único italiano a aderir ao “Pacto das Catacumbas”. Atualmente com 93 anos, ele participou de três sessões do Concílio Vaticano II e foi bispo de Ivrea de 1966 a 1999, quando renunciou por motivos de idade.

Se Dom Helder Câmara foi o “arcebispo vermelho” brasileiro, Dom Bettazzi entrou para a história como o “bispo vermelho” italiano. Em julho de 1976, quando parecia que o comunismo poderia tomar o poder na Itália, Dom Bettazzi escreveu uma carta ao então secretário do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer, ao qual reconhecia a intenção de realizar “uma experiência original de comunismo, diferente dos comunismos de outras nações”, e lhe pedia para “não hostilizar a Igreja”, mas, ao contrário, “estimular nela uma evolução segundo as exigências dos tempos e as expectativas dos homens, sobretudo dos mais pobres, que porventura o senhor poderá ou saberá mais apropriadamente interpretar”. O líder do PCI respondeu ao bispo de Ivrea através da carta Comunistas e católicos: clareza de princípios e bases de entendimento, publicada em “Renascita” de 14 de outubro de 1977.

Nessa carta, Berlinguer negou que o PCI professasse explicitamente a ideologia marxista como filosofia materialista ateia, e confirmou a possibilidade de um encontro entre cristãos e comunistas no plano da “des-ideologização”. Não se trata de pensar do mesmo jeito, mas de juntos fazer o mesmo caminho – afirmava Berlinguer em substância –, na convicção de que não se é marxista no pensamento, mas se torna na prática.

O primado marxista da praxis penetrou na Igreja de hoje sob a forma de absorção da doutrina pela pastoral. E a Igreja corre o risco de tornar-se marxista na prática também falseando o conceito teológico de pobreza.

A pobreza autêntica é o desprendimento dos bens da terra, de modo que eles sirvam para a salvação da alma, e não para a sua perdição. Todos os cristãos devem ser desapegados dos bens, porque o Reino do Céu é reservado aos “pobres de espírito”, e alguns deles são até chamados a viver uma pobreza efetiva, renunciando à posse e ao uso dos bens materiais. Mas esta escolha tem valor pelo fato de ser livre, e não imposta por outrem, como nos regimes coletivistas.

Desde os primeiros séculos, as seitas heréticas pretenderam, pelo contrário, impor a comunhão dos bens, a fim de consumar nesta terra uma utopia igualitária. Na mesma linha coloca-se hoje quem quiser substituir a categoria religiosa dos pobres em espírito pela categoria sociológica dos materialmente pobres.

Dom Luigi Bettazzi, autor do livro A Igreja dos pobres, do Concílio ao Papa Francisco (Pazzini 2014) recebeu, em 4 de abril de 2016, a cidadania honorária de Bolonha e poderia receber a púrpura do Papa Francisco, sob cujo pontificado, de acordo com o mesmo ex-bispo de Ivrea, desenvolveu-se o Pacto das Catacumbas “como uma semente de trigo colocada sob a terra e crescida lentamente para dar seus frutos”.

13 junho, 2016

Editorial – Agora, na mira de Francisco: os bispos!

Como uma mãe amorosa”. Esse é o título do Motu Proprio que Papa Bergoglio acaba de publicar. O assunto é a remoção dos bispos que são negligentes em seu ofício episcopal.

Agora, eles estão no alvo: os bispos!

Logo no artigo 1o., Francisco afirma sem titubeios: “O Bispo diocesano ou Eparca, ou aquele que, mesmo que a título temporário, tem a responsabilidade por uma Igreja particular ou por uma outra comunidade de fieis equiparada a essa, no sentido do c. 368 do CIC e do c. 313 do CCEO, pode ser legitimamente removido do seu cargo, se tiver, por negligência, feito ou omitido atos que tenham provocado grave dano a outros, tratem-se de pessoas físicas ou de uma comunidade em seu conjunto. O dano pode ser físico, moral, espiritual ou patrimonial”.

vescoviEm um artigo, o Papa argentino colocou quase a totalidade dos bispos em situação perigosa. Aliás, não apenas os bispos, mas até mesmo os administradores diocesanos ou apostólicos que, a título temporário, tiverem algum dos problemas acima.

Notem que o dano pode ser físico, moral, espiritual ou patrimonial! Qual é a diocese que não tem algum clérigo, ou até mesmo o próprio Ordinário, que não tenha feito ou omitido atos que tenham causado algum dano desse tipo?… Estamos certos de que o leitor conhecerá um, senão alguns ou muitos casos em que o bispo se encontraria exatamente nessa situação.

Lembram aquele padre que deu escândalo e foi removido para outra paróquia ou diocese, como se nada tivesse acontecido? Ou aquele que foi preso porque teve de denunciar suborno de eventuais amantes e continua celebrando suas missas, com anuência do bispo e até da mídia? Ou aquele que engravidou uma moça e o bispo disse que ele não precisava abandonar o ministério, mas apenas mudar paróquia, e depois foi transferido? Ou aquele que faliu uma comunidade, e outra, e outra, e outra, e continua a falir, porque paga pontualmente a cúria? Ou aquele bispo que injustiçou um padre bom, jogando-o numa paróquia longínqua e miserável? Ou mesmo o bispo que destruiu a vida de um seminarista, expulsando-o de um seminário injustamente? Ou daqueles que permitem suas universidades e seminários serem infestados de hereges, expulsando os bons teólogos? Ou dos bispos que vivem onerando as paróquias com taxas que ninguém sabe para que serão usadas? Ou dos bispos que proíbem a missa tradicional em suas dioceses, mas permitem todos os abusos litúrgicos? Ou dos bispos que só falam em dinheiro, em construção de Catedrais milionárias e modernosas, vivem viajando mundo afora ou tirando fotos de bermuda e postando no facebook? Até agora só vimos alguns padres serem penalizados. Agora, chegou a vez dos bispos! Eis a grande novidade!

Claro, o bispo terá tempo de se defender e produzir provas, e a Congregação dos Bispos poderá até mesmo consultar a Conferência Episcopal… Mas, diante de fatos e de acusações do povo, que margem haverá para escapar das evidências de negligência? No Brasil, esse é o pecado capital do governo dos bispos. Negligência! E negligência já nos seminários, cujo maior número é entregue a formadores incapazes e, por vezes, inidôneos. Agora ficou fácil: basta abrir a caixa preta! E não faltarão ex-seminaristas, padres afastados, funcionários ou pessoas prejudicadas que não queiram abrir a boca!

Diante disso, Francisco oferece aos bispos duas alternativas: uma, com misericórdia; e outra, sem misericórdia. Ah, a misericórdia de Francisco!

“Caso considere oportuna a remoção do Bispo, a Congregação estabelecerá, com base nas circunstâncias do caso, se:

1o. dar, em mais breve tempo possível, o decreto de remoção;

2o. exortar fraternalmente o Bispo a apresentar a sua renúncia no prazo de 15 dias. Se o bispo não der a sua resposta no prazo previsto, a Congregação poderá emitir o decreto de remoção”.

Lembramos que, no segundo caso, a práxis seria aquela adotada com o finado Dom Rogélio Livieres: depois de sua remoção, não foi nomeado bispo emérito, mas ex-bispo de Ciudad del Est, porém, no caso dele, amado e venerado pelo povo e pelo clero.

Como o Motu Proprio entra em vigor no dia 5 de setembro, já deve ter começado a correria para se produzir provas e testemunhos em defesa dos negligentes. Admitamos: isso chega a provocar, digamos, misericórdia.

Claro! Todos sabemos que hoje em dia os bispos acabam caindo em situações que nem eles mesmos nunca imaginavam ter de enfrentar. Tantas vezes, acabam ajudando um padre por acreditarem em sua possibilidade de conversão. Eles são bispos, não delegados de polícia.

Pois é, mas, mesmo nesses casos – e não falamos daqueles propriamente escandalosos e negligentes –, um bispo pode perder sua diocese. E não terá ninguém para quem apelar. Se for religioso, ainda pode voltar para o convento; mas, se for diocesano, o jeito mesmo é começar a vida do zero.

Bem… Não acreditamos que Francisco faça isso propriamente por amor à justiça. Não! Justo ele que condenou o inocente Dom Livieres e promoveu o conhecidamente escandaloso Mons. Ricca ao IOR. E nem falemos do caso do badaladíssimo Mons. Camaldo…

Francisco é um soberano. Age como ditador. Como religioso, comporta-se propriamente aos modos de um superior dalguma congregação religiosa: a Igreja virou o seu convento.

Dizia Maquiavel, “divide e reinarás!”. E, de fato, Francisco é bem maquiavélico. Primeiro, jogava o povo contra os padres, em discursos sempre críticos, chegando mesmo a dedicar o Capítulo III de Evangelii Gaudium para denigrir as homilias dos padres. Como se ele fosse um grande orador, com seus três pontinhos… Nesse quesito, aliás, quantas saudades de Ratzinger! Ao invés de indiretas e banalidades, ele brindava a Igreja com uma elevada teologia. Mas, enfim, águas passadas…

Agora, Francisco joga o povo contra os bispos. Está aberta a temporada de caça! Basta fazer uma denúncia, padres ou leigos, e a guilhotina começa a ser afiada, como uma mãe amorosa.

Esperamos que, agora, os bispos acordem! Durante muito tempo foram complacentes e, brindando a promessa circense de uma eventual sinodalidade, hipnotizados com o discurso colegial bergogliano, deixaram passar monstruosidades como as aberrações doutrinais de Amoris Lætitia. Agora, eles serão as vítimas dessa arbitrariedade e, talvez assim, e somente assim, percebam quanto custa negociar com a verdade do Evangelho para insuflar a vaidade mundana de um homem.

Por detrás da demagogia de Francisco jaz um déspota cujo desejo de poder não supera apenas a obstinação ideológica. Obstinação que visa transformar o catolicismo numa sucursal da ONU, e fazê-lo o homem mais aplaudido do mundo e… pelo mundo!

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19 maio, 2016

A troca de cartas entre Francisco e o heresiarca Hans Kung.

O teólogo Küng havia escrito a Bergoglio pedindo-lhe uma reflexão: “Ele respondeu-me com uma carta fraterna, apreciando as minhas considerações. Ele não colocou limites à discussão sobre o dogma  sancionado pelo Primeiro Concílio do Vaticano e pelo Papa Pio IX em 18 de julho de 1870”.

Hans Kung

Hans Küng

Por Gian Guido Vecchi, Corriere della Sera | Tradução: FratresInUnum.com –  Hans Küng diz que a carta de Francisco, datada de 20 de Março, foi entregue através da nunciatura em Berlim.  Uma carta “que responde ao meu pedido para uma discussão livre sobre o dogma da infalibilidade” do Papa. “Ele respondeu de um modo muito fraterno, em espanhol, dirigindo-se a mim como Lieber Mitbruder, ou seja, querido irmão, e estas palavras pessoais estão em manuscrito”, disse Küng. O grande teólogo suíço, “pela consideração que tenho ao Papa” não cita frases do pontífice. Mas ele diz que “Francisco não estabelece quaisquer limites para a discussão“, ele “apreciou” suas observações. E com espanto indisfarçável ele aponta como é “importante para mim“, o fato de que ele respondeu pessoalmente, e acima de tudo, “não deixou, por assim dizer, cair no vazio o meu texto.”

Na verdade, o texto, dirigido a um papa, foi imperativo: “Imploro Papa Francisco, que sempre me respondeu de uma forma fraternal: receba essa extensa documentação e consinta em nossa Igreja uma discussão livre, aberta e sem preconceitos sobre todas as questões pendentes e removidas relacionadas com o dogma. Não se trata de um relativismo banal que mina os fundamentos éticos da Igreja e da sociedade. E nem mesmo de um dogmatismo rígido e tolo amarrado a uma interpretação literal. Está em jogo o bem da Igreja e do ecumenismo”.  Küng já tinha tornado esse texto público e traduzido em várias línguas, no dia 9 de Março.  Ao aproximar-se de seus 80 anos de aniversário, “como teólogo e até o final dos meus dias, nutro uma profunda simpatia pelo papa e por sua ação pastoral”. O  pensador suíço levantou novamente “um apelo que muitas outras vezes levantei durante um década de longa discussão”.

Francisco jamais falou do dogma da Infalibilidade

Francisco nunca falou do dogma da infalibilidade, sancionado pelo Primeiro Concílio do Vaticano e pelo Papa Pio IX em 18 de Julho de 1870. Afinal, ninguém Além do Tibre jamais pensou em questionar isso. Bergoglio é o Papa da colegialidade, mas está tão consciente das prerrogativas de Papa, que ele as recordou em um discurso memorável no dia 18 de outubro de 2014, no final do Sínodo, citando o Código de Direito Canônico: o Papa é “quem garante a obediência e conformidade Igreja com a vontade de Deus, o Evangelho de Cristo e a Tradição da Igreja, deixando de lado qualquer vontade pessoal, sendo – por vontade do próprio Cristo – o “pastor e doutor supremo de todos os fiéis” (cânon 749) e ao mesmo tempo goza “do poder ordinário que é supremo, pleno, imediato e universal na Igreja” (cânones 331-334). “

O Concílio Vaticano I

Diferente é dizer que Francisco não colocou nenhum limite à discussão, como relatou Kung. Mesmo porque se trata de um dos dogmas mais mal compreendido, bem como por demais debatido. O Concilio Vaticano I jamais disse, como muitos acreditam, que o Papa é infalível em tudo. O Papa é um ser humano e a primeira coisa que Bergoglio disse no conclave, após a eleição, foi: “Eu sou um pecador”. Após longas discussões, em 1870, foi determinado que o Papa é infalível apenas “quando fala ex cathedra, isto é, quando ele exerce o seu cargo de Supremo Pastor e Doutor de todos os cristãos, e que em virtude de sua autoridade apostólica suprema define uma doutrina relativa à fé e moral”.  São casos muito raros, como quando em 1950 o Papa Pio XII proclamou solenemente o  dogma da Assunção de Maria ao céu. Mas a extensão da infalibilidade permanece motivo de debate entre os teólogos. A posição de Küng é clara: ele quer que esse dogma seja abolido ou que passe por uma revisão radical. Já o fato de que Francisco não pôs um limite para a discussão, segundo o teólogo, já é uma boa notícia: “Eu acho que agora é indispensável usar esta nova liberdade para levar adiante a reflexão sobre as definições dogmáticas que são uma fonte de polêmica dentro da Igreja Católica e no seu relacionamento com outras igrejas cristãs.

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18 maio, 2016

Dom Bruno Forte citando Francisco: “Faça de um modo que fiquem as premissas, porque as conclusões serei eu a tirá-las”.

Um dos homens fortes no Sínodo cita Francisco: “Se falarmos explicitamente de comunhão para divorciados novamente casados, não sabe que confusão iremos aprontar.  Então não vamos falar assim de modo direto. Faça de um modo que fiquem as premissas, porque as conclusões serei eu a tirá-las”.

Por ZonaLocale.it | Tradução: FratresInUnum.com – “A aplicação misericordiosa daquele vinho velho que, como se sabe, é sempre o melhor“. Assim Monsenhor Bruno Forte, Arcebispo da Diocese de Chieti-Vasto definiu a Exortação Apostólica do Papa Francisco “Amoris Laetitia”, que marcou um passo crucial no que diz respeito à família “entre crise e desejo”, durante um encontro no Teatro Rossetti.

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Dom Bruno Forte, polêmico secretário do Sínodo que causou diversos conflitos com outros padres sinodais por conta de seus “avanços”. Sempre protegido por Francisco.

Uma crise, segundo enfatizou o mesmo arcebispo Forte, caracterizada pela diminuição no número de casamentos e no aumento da coabitação, mas também por um desejo por aquela família que é “berço e escola de humanidade”.

Presente também ao encontro estava Pe. Nicola del Bianco, diretor da Secretaria da Pastoral Familiar da Arquidiocese de Chieti-Vasto e os cônjuges Marie Antoinette e Franco Silvestri, que trouxeram o testemunho de sua própria vida, como família e como colaboradores da Pastoral da família.

Na reflexão de Bruno Forte, as causas da “crise da família” vão da falta de empregos aos problemas de habitação, fenômenos de migração, e até mesmo as dificuldades relacionadas à “miséria material e humana”. Neste contexto, o significado da Exortação Apostólica do Papa Francisco é:”Não julgar, mas chegar a todos com o olhar de misericórdia, mas sem renunciar à verdade de Deus. É fácil dizer “aquela família fracassou”, o mais difícil é ajudá-la pra que não fracasse. Ninguém deve sentir-se excluído da Igreja. “

Uma colocação que, naturalmente, também tem repercussões “práticas” no âmbito das indicações direcionadas aos pastores e à comunidade eclesial. Arcebispo Forte então revelou um detalhe particular dos bastidores do Sínodo: “Se falarmos explicitamente de comunhão para divorciados novamente casados – contou o  Arcebispo Forte referindo-se a um gracejo do Papa Francisco – não sabe que confusão iremos aprontar.  Então não vamos falar assim de modo direto. Faça de um modo que fiquem as premissas, porque as conclusões serei eu a tirá-las”.

“Típico de um jesuíta”, brincou o Arcebispo Forte, atribuindo àquela estratégia uma esperteza que permitiu o amadurecimento necessário para se chegar à “Amoris Laetitia”, a qual,  como fez questão de afirmar Dom Bruno Forte, não é uma nova doutrina, mas “a aplicação misericordiosa ” da mesma doutrina de sempre.

Após a apresentação da Exortação,  veio o testemunho dos cônjuges Silvestri, como “o protótipo da família”: quatro crianças, além de sete adotivos: “Nós criamos essa família com grandes sacrifícios, porque não quisemos delegar a ninguém a criação de nossos filhos, mas é claro que também teve o trabalho que tomava nosso tempo. Foi uma escolha difícil, mas Deus sempre nos ajudou. Não somos melhores que os outros, nós simplesmente levamos em consideração a pessoa mais importante, aquela diante da qual demos o nosso sim: Nosso Senhor. É o fato de termos Nosso Senhor como centro de nossas vidas que nos deu forças pra seguir adiante.Portanto  a “base” sobre a qual construir um alicerce sólido, vai da “prática” do perdão às palavras-chave: “obrigado, desculpe-me, licença,” mencionadas pelo Papa Francisco, bem como a importância da oração como momento familiar e do casal”.

No final do testemunho, houve espaço para intervenções e as perguntas da platéia que participou do encontro.

5 maio, 2016

O capítulo VIII da Amoris lætitia não é interpretável à luz da Tradição.

Entrevista de Roberto de Mattei com o padre Claude Barthe

Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 4 de maio de 2016 | Tradução: FratresInUnum.comO padre Claude Barthe é teólogo e autor de obras como A missa, uma floresta de símbolos, Os literatos e o catolicismo, Pensar o ecumenismo de outro modo. Tendo sido um dos primeiros na França, no blog do semanário “L’Homme nouveau” em 8 de abril, a exprimir suas reservas em relação à recém-publicada Amoris lætitia, aproveitamos uma viagem àquele  país para lhe fazer algumas perguntas.

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Padre Claude Barthe

Roberto de Mattei: Reverendo padre, é com especial interesse que desejo entrevistá-lo, porque em sua tomada de posição em relação à Amoris laetitia o senhor não tentou interpretar a exortação apostólica a partir de uma chave de leitura tradicional – como o fizeram alguns num primeiro movimento. E eu compartilho sua leitura.

Padre Claude Barthe: Honestamente, não vejo como se poderia interpretar o capítulo VIII da Exortação no sentido da doutrina tradicional. Isto seria fazer violência ao texto e não respeitar a intenção dos redatores, que desejam claramente introduzir um elemento novo: “já não é possível dizer que…”.

RdM: Entretanto, o que diz a Exortação não é assim tão novo.

CB: Não é novidade do lado da contestação teológica, o senhor tem razão. Depois do Concílio, sob Paulo VI e João Paulo II, o grande trabalho dos teólogos contestatários foi principalmente o de atacar a Humanæ vitæ com livros, “declarações” de teólogos, congressos. Ao mesmo tempo, a comunhão aos divorciados “recasados” (e também aos parceiros homossexuais e aos concubinos) desempenhou um papel de reivindicação a meu ver simbólico. Com efeito, já há muito tempo, a prática de numerosíssimos sacerdotes, na França, na Alemanha, na Suíça e em muitos outros lugares, é de admitir sem problema os divorciados “recasados” à comunhão e de lhes dar a absolvição quando eles a pedem. O mais célebre apoio a essa reivindicação foi dado por uma carta dos três senhores bispos alemães das dioceses do Reno superior – Saier, Lehmann e Kasper – de 1º de julho de 1993, intitulada: “Divorciados-recasados, o respeito à decisão tomada em consciência”.  Ela continha, aliás, bem exatamente as disposições da atual exortação: nenhuma admissão teórica e geral à comunhão, mas o exercício de um discernimento com um sacerdote, a fim de saber se os novos parceiros “julgam-se autorizados pelas suas consciências a se aproximarem da Mesa do Senhor”. Na França, alguns bispos (como os de Cambrai e Nancy) publicaram atas conclusivas de sínodos diocesanos no mesmo sentido.  E o cardeal Martini, arcebispo de Milão, em um discurso que era um verdadeiro programa de pontificado, pronunciado em 7 de outubro de 1999, durante uma das assembleias gerais do Sínodo para a Europa,  havia também invocado mudanças da disciplina sacramental.

De fato, na França, na Bélgica, no Canadá, nos Estados Unidos, as coisas vão ainda mais longe: um número relativamente grande de sacerdotes celebra uma pequena cerimônia por ocasião da segunda união sem que os bispos o impeçam. Alguns inclusive encorajam positivamente essa prática, como o havia feito Dom Armand le Bourgeois, bispo emérito de Autun, no livro [quando o escreveu já havia renunciado] Chrétiens divorcés remariés (Cristãos divorciados recasados,  Desclée de Brouwer, 1990). Ordos diocesanos, como o da diocese de Auch, “enquadram” essa cerimônia, que deve ser discreta, sem o toque de sino, sem bênção dos anéis…

RdM: O senhor é da opinião de que o cardeal Kasper exerceu um papel-chave?

CB: No início, sim. Apresentado pelo Papa Francisco, pouco depois de sua eleição, como “um grande teólogo”, ele preparou o terreno mediante a exposição que fez no Consistório de 20 de fevereiro de 2014, a qual causou um enorme barulho.  Mas, em seguida, a investida foi conduzida com um grande savoir-faire em três etapas. As duas assembleias sinodais, em outubro de 2014 e outubro de 2015, cujos relatórios finais integraram a “mensagem” kasperiana. E, entre as duas, a publicação de um texto legislativo, Mitis Iudex Dominus Jesus, de 8 de setembro de 2015, cujo arquiteto foi Dom Pinto, decano da Rota, simplificando o processo de declaração de nulidade matrimonial, especialmente graças ao processo expeditivo diante do bispo,  quando os dois  esposos estão de acordo para pedir a nulidade. Certos canonistas chegaram a falar, neste caso, de anulação por mútuo consentimento.

Na verdade uma espécie de núcleo dirigente, que agiu como “cúpula” do Sínodo, constituiu-se em torno do muito influente cardeal Lorenzo Baldisseri, seu Secretário-geral. Participavam desse núcleo Dom Bruno Forte, arcebispo de Chieti, Secretário especial, (isto é, número dois do Sínodo); Dom Fabio Fabene, da Congregação dos Bispos, Subsecretário; o Cardeal Ravasi, Presidente do Conselho da Cultura, encarregado da redação da Mensagem final do Sínodo às famílias, assistido notadamente por Dom Victor Manuel Fernández, reitor da Universidade Católica da Argentina; o jesuíta Antonio Spadaro, diretor da “Civiltà Cattolica”, além de outras pessoas de influência, todas próximas do Papa, como o bispo de Albano, Dom Marcello Semeraro, e o Arcebispo Paglia, Presidente do Conselho para a Família. A eles se uniu o cardeal Schönborn, arcebispo de Viena, que foi supervisor do Catecismo da Igreja Católica e exerceu o papel de avalista da ortodoxia do texto, que o cardeal Müller se recusava a assumir.  Toda esta equipe forneceu um trabalho considerável para chegar ao fim almejado…

RdM: Para terminar elaborando, depois da segunda Assembleia, um texto de mais de 250 páginas…

CB: E mesmo antes… O texto da exortação pós-sinodal já estava definido em suas grandes linhas… em setembro de 2015, antes mesmo da abertura da segunda  assembleia do Sínodo sobre a família.

RdM: O senhor disse que foi um trabalho considerável para chegar ao fim almejado. Qual exatamente?

CB: É bem possível que, no espírito do Papa Francisco, inicialmente não se tenha tratado senão de conceder um salvo-conduto “pastoral” e “misericordioso”. Mas como a teologia é uma ciência rigorosa, tornou-se imperativo enunciar princípios que justificassem a decisão em consciência, adotada por pessoas que vivem em adultério público, de se aproximarem dos sacramentos. Já desde o início, numerosas passagens da Exortação preparam esta explanação doutrinária, que se encontra no capítulo VIII, o qual versa sobre diversas “situações de fragilidade ou imperfeição”, e especialmente daquela dos divorciados engajados numa nova união “consolidada no tempo, com novos filhos, com fidelidade comprovada, dedicação generosa, compromisso cristão, consciência da irregularidade da sua situação e grande dificuldade para voltar atrás sem sentir, em consciência, que se cairia em novas culpas” (nº 298). Nesta situação “imperfeita” em relação ao “ideal pleno do matrimônio” (nº 307), a Exortação coloca regras para um “discernimento especial” (nº 301). Este é normalmente realizado com a ajuda de um sacerdote “no foro interno” (pelos dois parceiros da união?), que permitirá aos interessados estabelecer um discernimento de consciência correto (nº 300).

Esse discernimento (do padre? dos parceiros esclarecidos pelo padre?), devido a condicionamentos diversos, poderá concluir por uma imputabilidade atenuada ou nula, tornando possível o acesso aos sacramentos (nº 305). Um parêntese: não está dito se esse discernimento se impõe a outros sacerdotes, os quais também ficariam obrigados a dar os sacramentos aos interessados.  De todos os modos, importa notar que o texto não focaliza apenas o acesso aos sacramentos, que é tratado um pouco embaraçadamente em pé de página (nota 351). Em contrapartida, ele estabelece claramente um princípio teológico, resumido no nº 301, que merece ser citado por extenso: “Já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante. Os limites não dependem simplesmente dum eventual desconhecimento da norma. Uma pessoa, mesmo conhecendo bem a norma, pode ter grande dificuldade em compreender «os valores inerentes à norma» ou pode encontrar-se em condições concretas que não lhe permitem agir de maneira diferente e tomar outras decisões sem uma nova culpa.”

O que pode ser destrinchado da seguinte maneira: 1º) devido a circunstâncias concretas, pessoas em estado de adultério público “ativo”, embora conhecendo a norma moral que o proíbe, se encontram diante de uma situação tal que, se saíssem dela, cometeriam uma falta (sobretudo em relação aos filhos nascidos dessa união); 2º) de sorte que essas pessoas, que vivem em adultério público “ativo”, não cometem pecado grave permanecendo nesse estado.

Na realidade, as consequências negativas que poderiam resultar da cessação desse estado de adultério (o sofrimento dos filhos nascidos da união ilegítima pela separação de seus pais), não constituem novos pecados (“uma nova culpa”), mas efeitos indiretos de um ato perfeitamente virtuoso, a saber, a cessação de um estado de pecado. Bem entendido, a justiça deve ser respeitada e especialmente será preciso assegurar a educação dos filhos da segunda união, mas fora do estado de pecado.

Há, pois, uma oposição frontal com a doutrina anterior lembrada no nº 84 da Familiaris consortio, de João Paulo II, a qual precisava que se graves razões obrigassem os “recasados” a viverem sob o mesmo teto, então deveriam viver como irmão e irmã. A nova asserção doutrinária resume-se assim: em certas circunstâncias, o adultério não é pecado.

RdM: O senhor dizia que o instinto da fé está ausente ali?

CB: Isto não está de acordo com a moral natural e cristã: as pessoas que conhecem uma normal moral que obriga sub gravi (o mandamento divino proíbe a fornicação e o adultério) não podem ser escusadas de pecado e, em consequência, não podem ser consideradas em estado de graça. São Tomás, numa questão da Suma Teológica bem conhecida de todos os moralistas, a questão 19 da Iª IIæ, explica que é a bondade de um objeto proposto pela razão que torna bom o ato da vontade, e não as  circunstâncias do ato (artigo 2); e que, se é verdade que a razão humana pode enganar-se e considerar bom um ato mau (artigo 5), alguns erros não são jamais escusáveis,  sobretudo o de ignorar que não é lícito aproximar-se da mulher de seu próximo, porque isso está diretamente ensinado pela Lei de Deus (artigo 6). Em outra passagem igualmente conhecida dos moralistas, o Quodlibet IX, questão 7, artigo 2,  São Tomás explica que as circunstâncias podem mudar a natureza de um ato, mas não seu valor intrínseco. Por exemplo, golpear ou matar um agressor é um ato de justiça ou de legítima defesa: pela circunstância de tratar-se de uma agressão, o ato muda de natureza e a resposta não é mais uma violência injusta, mas um ato virtuoso. Em contrapartida, diz o Doutor comum, certas ações “têm uma deformidade que está ligada inseparavelmente a elas, como a fornicação, o adultério e as demais coisas desse gênero: elas não podem de nenhum modo tornar-se boas”.

Um menino do catecismo compreenderia essas coisas, dizia Pio XII num discurso de 18 de abril de 1952. Ele condenava ali a Situtionsethik, a “moral de situação”, que não se baseia nas leis morais universais como, por exemplo, os Dez Mandamentos, mas “nas condições ou circunstâncias reais e concretas nas quais se deve agir, e segundo as quais a consciência individual deve julgar e escolher”. Ele lembrava que um fim bom jamais justifica meios maus (Romanos 3, 8), e que existem situações nas quais o homem, e especialmente o cristão, deve sacrificar tudo, até mesmo sua vida, para salvar sua alma. No mesmo sentido, a encíclica Veritatis Splendor, de João Paulo II, reafirmando que as circunstâncias ou as intenções jamais poderão transformar um ato cujo objeto é intrinsecamente desonesto num ato subjetivamente honesto, citava Santo Agostinho (Contra mendacium): a fornicação, as blasfêmias, etc., mesmo praticadas por boas razões, são sempre pecados.

RdM: O que fazer então?

CB: Não se pode contradizer as palavras de Cristo: “Quem repudia sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudia o marido e se casa com outro, comete adultério.” (Mc 10, 11-12). O Prof. Robert Spaemann, filósofo alemão amigo de Bento XVI, observa que toda pessoa capaz de refletir pode constatar que se está em presença de uma ruptura. Eu não penso que seja possível contentar-se em propor uma interpretação do capítulo VIII da Exortação a qual concluísse que nada mudou. Aliás, é preciso levar a sério as palavras do Papa, que no avião que o trouxe de volta de Lesbos avalizou a apresentação do texto feita pelo cardeal Schönborn.

Em si mesma, a asserção teológica exposta na exortação é clara. O dever da verdade obriga a dizer que ela não é admissível. Nem tampouco as proposições anexas, como aquela que afirma que a união livre ou a união de divorciados recasados realizam o ideal do casamento “de forma parcial e analógica” (nº 292).

Então é preciso esperar, no sentido forte da esperança teológica, que numerosos pastores, bispos e cardeais falem claramente, para a salvação das almas.

Pode-se em contrapartida desejar, pedir, apelar por uma interpretação autêntica – no sentido de interpretação do depósito da Revelação, inclusive na recordação da lei natural ligada a ela – pelo magistério infalível do Papa, ou do Papa e dos bispos unidos a ele, magistério que discerne, afirmando em nome da fé o que é verdade e rejeitando o que não o é.

Parece-me que hoje se entra, 50 anos após o Vaticano II, numa nova fase do pós-Concílio. Naquela época, viu-se ceder – por certas passagens sobre o ecumenismo e a liberdade religiosa – um dique que se acreditava extremamente firme, do ensinamento eclesiológico romano, magisterial e teológico. Edificou-se então outro dique para resistir à maré da modernidade, aquele da moral natural e cristã, com a Humanæ vitæ de Paulo VI e todos os documentos de João Paulo II sobre esses temas. Tudo aquilo foi chamado de “restauração”, segundo a expressão do Relatório sobre a fé do cardeal Joseph Ratzinger, edificou-se largamente sobre essas bases colocadas para a defesa do casamento e da família. Atualmente tudo acontece como se esse segundo dique estivesse a ponto de ceder.

RdM: Alguns poderão acusá-lo de ser excessivamente pessimista…

CB: Pelo contrário. Vivemos, creio eu, um momento decisivo da história do pós-Concílio. As consequências de longo prazo do que acontece atualmente são difíceis de prever, mas serão consideráveis.  E estou persuadido de que no fim elas serão positivas. Em primeiro lugar, evidentemente, estou certo disso pela fé, porque a Igreja tem palavras de vida eterna.  Mas também, muito concretamente, porque a necessidade de um retorno ao magistério – ao magistério enquanto tal – impor-se-á cada vez mais nas perspectivas que deverão necessariamente ser elaboradas para o porvir.